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FAS@JUS - e-Revista da Faculdade de Direito Santo Agostinho, v. 6, n.

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MICROFÍSICA DO PODER: Capítulo XII – soberania e disciplina

Hortência Dias Silva Neta1

RESUMO of Philosophy. Establishing the way needed to build


an understanding about the unbound power of
A abordagem acerca do Poder feita por Michel preconceptions, but built from them. Thus, through
Foucault no livro Microfísica do Poder perpassa a literature study and a theoretical framework
o caminho entre soberania e disciplina, para permitir grounded in Political Science, Sociology and
que o leitor possa desvincular o poder da entidade Philosophy, areas of hum an knowledge, essential
estatal e vislumbrá-lo na figura do corpo social. to the law student, it was possible to define the
Para tanto, o autor trava debates acerca de legal field of power and sovereignty in Foucault’s
conceitos essenciais das diversas ciências, dentre thought.
elas a Ciência Jurídica, delimitando o campo jurídico
do Poder, debates importantes para um acadêmico Keywords: sovereignty, discipline, power, law,
de Direito, pois permitem o desenvolvimento e truth.
amadurecimento teórico. Para alcançar seus
objetivos Foucault apresenta esboços históricos e
crítica a alguns clássicos da Filosofia. Estabelece O presente trabalho objetiva apresentar um
o caminho necessário para construir um estudo acerca dos conceitos de soberania e
entendimento acerca do poder desvinculado de pré- disciplina sob o olhar de Michel Foucault. Optou-
-concepções, porém construído a partir delas. -se por fazer um recorte na obra, apresentando
Deste modo, através de um estudo bibliográfico e considerações sobre o capítulo XII do livro
de um referencial teórico embasado na Ciência “Microfísica do Poder”. De início, faz-se
Política, Sociologia e Filosofia, áreas do interessante ilustrar o caráter peculiar de tal obra,
conhecimento humano, essenciais ao estudante de uma vez que se trata de uma coletânea de artigos,
Direito, foi possível delimitar o campo jurídico do cursos, entrevistas e debates em que Foucault
Poder e da soberania no pensamento de Foucault. analisa questões sobre o Poder.
Publicado no Brasil pela Edições Graal, a 22.ª
Palavras-chave: soberania, disciplina, poder, edição é do ano de 2006 e conta com 295 páginas
direito, verdade. e uma tradução feita por Roberto Machado,
Professor titular do Instituto de Filosofia e Ciências
ABSTRACT Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
O capítulo em estudo teve origem em um curso
The approach about the power made by Michel ministrado pelo autor no Collège de France, em
Foucault in Microphysics Power book runs through janeiro de 1976. Em tal parte, o autor começa por
the path between sovereignty and discipline, to apresentar uma relação tríplice formada pelo poder,
allow the reader to unlink the power of the state o direito e a verdade.
entity and glimpse it in the figure of the social body. Logo nos primeiros parágrafos, o autor
Therefore, the author leads discussions about problematiza questões como a produção da
essential concepts of the various sciences, among verdade e o entendimento social do que seria
them the Legal Science, delimiting the legal field correto. Nas palavras de Michel Foucault,”o poder
of power, important debates to an academic of law não para de nos interrogar, de indagar, registrar e
because they enable the development and institucionalizar a busca da verdade, profissionaliza-
theoretical maturity. To achieve its goals Foucault -a e a recompensa.” (FOUCAULT, 2006, p. 186).
presents historical sketches and critical few classics Percebe-se aqui a relação com o Direito, em

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Acadêmica do Quinto Período do Curso de Direito da Faculdade de Direito Santo Agostinho.

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especial o Direito Penal, que cria tipos penais por dominação em sua brutalidade e íntimo, delimitando
meio de previsões legislativas e constrói verdades e dando forma a essa dominação. Para Foucault,
ao estabelecer punições paradeterminadas o essencial é entender o limite dessa dominação
condutas. Se “A” mata “B” é certo que “A” será em vez de dar ênfase aos meios utilizados para
punido, assim como qualquer outro que matar tal. O entendimento do autor por dominação não
alguém. se define em dominação global, ou dominação de
O princípio geral que norteia o autor em seu um sobre os demais, mas as múltiplas formas
percurso de estabelecer as relações entre direito existentes e que podem ser exercidas na sociedade,
e poder é a figura do soberano desde a Idade não o governante (soberania) no centro e sim os
Média nas sociedades ocidentais, o poder real, que súditos (corpo social) em suas diversas relações
é nada mais do que aquele que pertence ao rei. O de reciprocidade que existem, funcionam e são
direito, aqui entendido como o pensamento jurídico, múltiplas sujeições.
centrado na figura do soberano, elaborado para Um exemplo prático é o do chefe que
servir de instrumento ou justificativa para o poder constantemente humilha o empregado por estar em
real, principalmente com a reconstituição do Direito posição hierárquica superior. Por outro lado e com
Romano e o seu jus civile, que em suma, era o igual destaque para o estudo é o empregado que
direito que assegurava poder a poucos. se sujeita ao assédio moral, que para o
Neste texto, o autor trabalhou a personagem ordenamento jurídico brasileiro é crime. Essas
do rei como centro de construção do direito múltiplas sujeições tem como canal permanente
ocidental. A figura do poder no contexto se de transmissão o campo judiciário.Desta forma o
apresenta de duas maneiras antagônicas, por via direito não deve ser visto como meio de estabelecer
da figura do jurista: a soberania e a limitação. Para legitimidade, mas sim como um procedimento de
a soberania do poder real, os juristas seriam os sujeição e dominação, Foucault esclarece:
servidores do rei. Por outro lado, para a limitação
do poder real, os juristas seriam os responsáveis O sistema do direito, o campo judiciário são
por estabelecer o seu limite. canais permanentes de relações de
dominação e técnicas de sujeição
Essa Teoria do Direito presente na Idade
polimorfas. O direito deve ser visto como
Média teve o papel de construir a legitimidade do um procedimento de sujeição, que ele
poder. Foucault conclui que “A teoria do direito, desencadeia, e não como uma legitimidade
da Idade Média em diante, tem essencialmente o a ser estabelecida. Para mim, o problema é
papel de fixar a legitimidade do poder; isto é, o evitar a questão – central para o direito –
problema maior em torno do qual se organiza toda da soberania e da obediência dos
a teoria do direito é o da soberania.” (FOUCAULT, indivíduos que lhe são submetidos e fazer
aparecer em seu lugar o problema da
2006, p. 181). dominação e da sujeição (FOUCAULT,
Para Dallari, em seu livro Elementos de 2006, p. 181).
Teoria Geral do Estado, a soberania pode ser
entendida sob múltiplas teorias; porém, tais teorias O próximo passo de Michel Foucault no
sempre têm em comum o fato de ligarem a capítulo Soberania e Disciplina trata de
soberania ao poder. Ainda em Dallari, encontra- precauções que devem ser tomadas ao estudar o
-se: “procedendo a uma síntese de todas as teorias Poder. A primeira delas seria não buscar a
formuladas, o que se verifica é que a noção de fundamentação do direito de punir na soberania
soberania está sempre ligada a uma concepção de tal como ela é definida e sim buscar compreender
poder, pois mesmo quando concebida como o a materialização das instituições locais e regionais
centro unificador de uma ordem está implícita a de punir. Independente do direito de punir se
ideia de poder de unificação.” (DALLARI, 2013, materializar no suplício (em que o sofrimento físico
p. 86). A questão que Foucault coloca então é: se do condenado era um verdadeiro espetáculo) ou
a soberania traz a ideia de unificação e construção encarceramento (quando a punição é um ato
de legitimidade do poder, como se pode procedimental administrativo), captar o poder nos
compreender o poder como algo fragmentado? extremos, é cada vez menos jurídico seu exercício.
Apresentado o norte de seus estudos, que E sua legitimação não se encontra na soberania e,
culminaram nesse texto, Foucault define um projeto sim, na violência.
geral. Este projeto seria fazer o caminho inverso A segunda precaução apresentada é a
da análise do Direito, sobressaindo o fato da questão equívoca de abordar o lado interno do

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poder, a formulação de perguntas que não podem contemporâneas foi inestimável.” (SANTOS, 2011,
ser respondidas, não perguntar porque alguns p.265). Habermas (2000), por sua vez, assevera
querem dominar e sim como funciona essa que a filosofia da consciência de Foucault fez
dominação, procurar saber como se constituem os desaparecer os problemas que teriam levado esta
seres do corpo social. Foucault defende aqui um ao fracasso. Em suma, a segunda precaução
afastamento da ideia de Hobbes do Leviatã: em consiste em dar foco ao corpo social e não ao ente
vez de procurar as respostas na alma central, o estatal.
Estado, buscar as respostas no nos múltiplos A terceira ressalva apresentada por Foucault
corpos que compõem a sociedade. trata do equívoco que ocorre quando ao estudar o
Entendimento trabalhado por Santos, Poder, acreditar que se trata de um instrumento
“Foucault afirma que, desde o século XVIII, a de controle que permite a submissão daqueles que
forma mais importante de poder que circula na não o possuem, diminui sua abrangência e
sociedade é produzida pela própria sociedade, e importância, e limita sua análise. Esclarece
não pelo Estado.” (SANTOS, 2011, p. 264). Santos, Foucault:
em seguida, não deixa de fazer uma crítica a essa
ideia trazida por Foucault: não tomar o poder como um fenômeno de
dominação maciço e homogêneo de um
Em primeiro lugar, embora Foucault tenha indivíduo sobre os outros, de uma classe
razão em salientar a existência de formas de sobre as outras; mas ter bem presente que
poder fora do Estado e considerá-las de o poder – desde que não seja considerado
natureza tão política quanto a do poder de muito longe – não é algo que se possa
estatal também vai demasiado longe na dividir entre aqueles que possuem e o detêm
afirmação da dispersão, do acentrismo e da exclusivamente e aqueles que não o
fragmentação delas. [...] Assim, para possuem e lhe são submetidos. O poder
Foucault, dar poder significa em última deve ser analisado como algo que circula,
análise, desarmar. Aplicando ao meu quadro ou melhor, como algo que só funciona em
analítico, isto significa pressupor que a luta cadeia (FOUCAULT, 2006, p. 183).
pela emancipação não é mais que uma
afirmação de vontade de regulação Ainda em Santos, encontra-se a análise do
(SANTOS, 2011, p. 265). citado “o poder nunca é exercido numa forma pura
e exclusiva, mas sim como uma formação de
Jürgen Habermas, em sua obra O Discurso poderes, isto é, como uma constelação, de
Filosófico da Modernidade (2000), também diferentes formas de poder combinadas de maneira
critica a ideia trazida por Foucault. Segundo ele tal específicas.” (SANTOS, 2011, p. 264-265). O
ponto de vista traz limitações: indivíduo aqui é um efeito do poder, seu centro de
transmissão, o poder transita no indivíduo por ele
Se se admite, como Foucault, apenas o constituído, exemplificando, somente se reconhece
modelo de processos de sujeição, de um indivíduo como capaz de dar voz de prisão a
confrontações mediadas pelo corpo e de alguém porque o poder constituiu este indivíduo
contexto de ações estratégicas mais ou
menos conscientes; se se exclui uma
como policial, ao mesmo tempo em que o poder do
estabilização de domínios de ação por meio Estado transita nele e seus atos são reflexos dos
de valores, normas e processos de efeitos do poder.
entendimento recíproco e não se assinala A quarta precaução apresentada é afastar a
para esses mecanismos de integração social dedução do poder visto do centro até onde termina
nenhum equivalente conhecido e, em vez disso, começar por uma análise como
proveniente das teorias do sistema ou da
fenômeno, com uso das técnicas e procedimentos
troca; então torna-se difícil de explicar como
as lutas locais permanentes poderiam que atuam nos níveis mais baixos do poder. A crítica
consolidar-se em poder institucionalizado da dedução consiste no fato de ela ser sempre
(HABERMAS, 2000, p. 401). possível e fácil. Pode-se deduzir sobre qualquer
fato e, em cima disso, construir uma tese, inclusive
Ademais, ambos os autores ressaltam as sobre a questão da dominação burguesa.
contribuições de Foucault para o estudo do Poder Foucault apresenta aqui deduções possíveis
na atualidade. Santos esclarece que “não obstante que classifica como falsas e verdadeiras ao mesmo
estas críticas, o contributo de Foucault para a tempo: a questão da exclusão dos loucos e da
compreensão do poder nas sociedades repressão da sexualidade infantil. Esses são fatos

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que ocorreram e esta é a dedução verdadeira, CONSIDERAÇÕES FINAIS


porém os motivos apresentados pela burguesia para
justificar tais fatos são as deduções falsas. O autor As precauções metodológicas apresentadas
entende que estes acontecimentos foram por Foucault no texto em estudo levam ao
produzidos unicamente para ocasionar certa reconhecimento de um fato histórico que o autor
utilidade política e econômica, a burguesia não se diz ser o “jurídico-política da soberania”. Se se
interessa pelos loucos, muito menos pela pensar a soberania em seu sentido jurídico, de
sexualidade infantil e, sim, pelo poder. Por isso, ele acordo com Dallari, caracteriza-se por “o poder
conclui que deve se estudar o poder a partir dos de decidir em última instância sobre a atributividade
níveis mais baixos. das normas, vale dizer sobre a eficácia do direito.”
A quinta precaução trata das ideologias (DALLARI, 2013, p. 86). Ela se torna um
construídas pelas grandes máquinas do poder. De mecanismo de poder efetivo que permite formas
acordo com Foucault, em determinado momento de imposição e dominação, como a coerção social
tais máquinas foram acompanhadas de diversas provocada pela Ciência do Direito enquanto
ideologias: ideologia da educação, ideologia do controle social.
poder monárquico, ideologia da democracia De acordo com Foucault, a teoria da
parlamentar. Esta é a precaução trazida de soberania enquanto poder de unificação sempre
maneira mais sucinta: o poder para ser exercido está presente nos códigos jurídicos de maior
nos mecanismos sutis precisa formar ideias,
relevância, exemplo é a Constituição da República
organizar e circular aparelhos de saber, porém a
Federativa do Brasil, que possui como fundamento,
base dessas ideias e desses aparelhos não são
positivado em seu artigo 1.°, inciso I, a soberania,
ideologias, são dados, técnicas, registros,
por dois motivos: o direito de soberania é um direito
instrumentos reais de produção e acúmulo do saber.
de disciplina e como instrumento crítico do
Um acadêmico de Direito, ao estudar o poder
despotismo monárquico. Foucault ainda defende
sob a perspectiva de Foucault, irá compreender
que o estudo da soberania e disciplina e sua
quais os seus limites jurídicos. Aqui, deve-se
correlação com o poder foi desenvolvido com o
entender, ainda sob a perspectiva do autor, limites
intuito de esclarecer acerca da repressão
jurídicos não como os limites da legislação, mas
sim onde o poder para de ser exercido pelas legitimada na teoria da soberania e dos direitos
instituições do Direito e começa a ser exercido soberanos do indivíduo, uma vez que a própria ideia
pela sociedade. Esse poder, que se concentra no de repressão é uma ideia jurídico-disciplinar.
corpo social, possui maior efetividade, pois vai além Ademais, é importante ressaltar a tese do
do limite alcançado pelo poder jurídico, sobretudo autor de poder para além daquela concepção
em razão das limitações impostas pelos conceitos hierárquica de opressor e oprimido, ou ainda a
explanados nesse trabalho. O poder exercido pelas concepção hobbesiana do Leviatã (Estado) que
instituições jurídicas recebe uma limitação própria possui e exerce todo o poder de forma opressora.
do direito, enquanto que o poder exercido pelo Mas, sim compreender o poder nas relações
corpo social não é limitado pelas instituições mútuas do dia a dia, de indivíduos que são ao mesmo
mencionadas, pois estas não podem alcançá-lo em tempo opressores e oprimidos.
suas múltiplas formas de manifestação. Para a Ciência do Direito, os estudos de
Portanto, a contribuição mais valiosa deste Foucault contribuem para desconstruir o euforismo
estudo para o acadêmico de Direito reside na acadêmico acerca do controle social exercido com
desconstrução da ingênua ideia do Direito como uso do Direito e de suas instituições jurídicas,
meio mais eficaz de controle social. Para o pensamentos que levam ao equívoco de que o poder
desapontamento de muitos, estudando o poder sob jurídico é o poder central e de maior peso nas
a perspectiva de Foucault, depara-se com um relações sociais e a proposta do autor é desconstruir
cenário no qual o poder a-jurídico é um meio mais tal concepção e demonstrar o poder nos seus
efetivo de controle e limitação social do que aquele extremos, poder exercido pela sociedade e não
exercido pelas instituições jurídicas. pelas instituições de Direito.

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REFERÊNCIAS HABERMAS, Jürgen. O discurso filosófico


da modernidade. Tradução de Luís Carlos
DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Repa e Rodnei Nascimento. São Paulo: Martins
Fontes, 2000. (Coleção Trópicos).
teoria geral do estado. 32. ed. São Paulo:
Saraiva, 2013. SANTOS, Boaventura de Sousa. A crítica da
razão indolente: contra o desperdício da
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. experiência: para um novo senso comum: a
Tradução de Roberto Machado. 22. ed. Rio de ciência, o direito e a política na transição
Janeiro: Graal, 2006. paradigmática. São Paulo: Cortez, 2011.

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