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Capitulo I

A organização econômica e civil da sociedade brasileira deu-se depois de um século de contato


entre os portugueses e os trópicos. Foi no Brasil que os portugueses comprovaram sua aptidão para a
vida tropical, tendo como base a agricultura, escravidão, estabilidade patriarcal da família e ao seu
contato com as índias, fatos que se incorporaram à cultura europeia.

A influência africana e moura vinda com os portugueses lhes serviu para domar a natureza áspera
e misturar-se ao índio nativo, resultando num reinado europeu onde o governo era, antes de tudo,
africano.

O passado étnico do português era indefinido entre Europa e África, produto do contato entre
europeus, africanos e mouros, não permitindo identificar um tipo físico unificado. Os elementos
observados por ele eram dos mais diversos e opostos, vivendo no que lhe pareceu “união
profunda”. Se comparado ao europeu castelhano, podia-se dizer que o caráter português era “vago e
impreciso”, de uma audácia súbita, resultante da combinação das raças, culturas, crenças, costumes e
tradições que formaram as características portuguesas. Porém, predominam as culturas africana e
europeia, criando um dualismo de cultura e raça.

O encontro dessas culturas tão diferentes alternava-se em equilíbrio e hostilidade, uma


característica atual da sociedade brasileira, igualmente equilibrada no início e adverso atualmente.

A mobilidade e a miscibilidade foram os principais responsáveis pelas vitórias portuguesas, que


explicam como um povo tão pequeno em seu numero se espalhou tanto e a tão grandes distâncias,
principalmente pela miscibilidade, que os proporcionou compensar sua deficiência em massa para
colonizar em grande escala sobre extensas áreas.

Outro fator ligado ao sucesso português foi sua aclimatabilidade. O chamado “clima português” de
Martone, único na Europa, é um clima aproximado do africano. Contudo, a miscigenação destes com os
índios e negros, impede cientificamente de definir as dificuldades e facilidades dessa aclimatabilidade,
por não haver um exemplar exclusivamente europeu que possibilite tal averiguação.

Diferente dos outros europeus, os Portugueses tiveram grande sucesso ao colonizar o Brasil, pois
se adaptaram de forma rápida e fácil ao clima, solo e socialização com os nativos, já que, segundo
Freyre, as condições físicas e os nutrientes da nova terra eram semelhantes aos da terra pátria.

Antes da colonização portuguesa, o único interesse na nova terra era o da exploração comercial e
das extrações das riquezas aqui encontrada, o que não difere muito em ralação a atual realidade do
Brasil, onde outras nações têm interesses semelhantes, como, por exemplo, a Amazônia.

A colonização exclusiva portuguesa promoveu a miscigenação entre os povos, como também a


agricultura latifundiária, criando assim as grandes colônias agrícolas e com elas a Casa Grande e os
engenhos, tornando o Brasil um grande exportador, principalmente de açúcar e café. Portanto, na visão
de Freyre, o povo Português foi o mais preparado para colonizar o Brasil, por conta de sua experiência
com os povos africanos.

Gilberto Freyre analisa as relações raciais no Brasil numa realidade na qual os conflitos se
harmonizam, sendo o sexo e a religião fundamentais para aproximar homem europeu com o índio e o
negro. É atribuído pelo autor o papel de co-civilizador ao negro, principalmente o domestico.

Para Freyre, a partir de 1532 a colonização portuguesa no Brasil caracteriza-se pelo domínio
quase exclusivo da família rural ou semi-rural. O autor defende a colonização a partir de uma sociedade
agrária e mão-de-obra escrava. A família é desde o século XVI fundamental na colonização do Brasil,
pois, para o autor, a colonização por individuo quase não deixou traço na plástica economia do Brasil.

Costuma-se dizer que o Brasil de hoje é fruto da colonização, isto é, que só vieram os que não
prestavam para cá. Pois em Portugal, era costume usar a mão-de-obra de presos homicidas ou ladrões.
Era estreitíssimo o critério legislativo que orientava o português nos séculos XV e XVI. A lei mandava
tirar a língua pelo pescoço a queimar vivos os que desacreditavam de Deus ou dirigiam textos a Deus
ou aos Santos. Eram exilados e isolados na África ou América. Porém, para crimes de assassinato,
estupro ou delinquência não ficavam sujeitos a penas maiores que a de pagar uma galinha como multa.

Os criminosos vindos para o Brasil, expulsos de seu país, foram numerosos, trazidos pra cá por
irregularidades ou excessos na sua vida sexual. Também foram atraídos pelas possibilidades de uma
vida livre, em meio a muitas mulheres nuas que aqui se encontravam. Além disso, o português trazia
consigo toda experiência acumulada durante o século XV, na Ásia e na África, como o conhecimento da
plantação.

Todos esses elementos e vantagens favoreceriam a colonização, que na América portuguesa,


como nas colônias ingleses da América do norte, que teria como base a então instituída família
patriarcal; da casa-grande, que integrariam o africano a essa elite, pois, sem ele, a família escravocrata
não existiria.

Sendo a família rural um elemento um forte elemento ponderador, a colonização portuguesa do


Brasil tomou desde cedo o rumo e aspectos sociais diversos. É verdade que muitos dos colonos que
aqui se tornaram grandes proprietários rurais não tinham pela terra nenhum amor nem gosto pela sua
cultura, pois acreditavam que o ideal teria sido outra colônia na Índia, e não uma colônia de plantação.
Aqui, terra e homem se encontravam em estado bruto. Suas condições de cultura proporcionavam, aos
portugueses, vantagens no intercambio comercial com o Oriente. E foi a ausência de riqueza que os
levou a se dedicarem a agricultura, já que necessitavam de uma base para uma organização puramente
comercial.

Nos primeiros séculos coloniais, foram cultivadas praticamente as mesmas plantas, indígenas ou
importadas, para atender as necessidades de alimentação, dando um sabor local em certos pontos de
influencia indígena, e em outros, um vivo colorido exótico a maior proximidade da África; e em
Pernambuco, por ser o ponto mais próximo da Europa, conservando-se como equilíbrio entre as três
influências: a indígena, a africana e a portuguesa. De modo geral, em toda a parte onde vingou a
agricultura, dominou no Brasil escravocrata o latifúndio, sistema que privaria a população colonial do
suprimento equilibrado e constante de comida sadia e fresca.

A sociedade colonial não era, em sua maioria, de gente bem alimentada. Condições que não
favoreciam o plantio de trigo fizeram com que apenas os padres o cultivassem para o preparo das
hóstias, tornando a farinha de mandioca a base do sistema de alimentação. Sobre o desenvolvimento
físico e econômico das populações, temos que reconhecer ter sido o regime alimentar do brasileiro,
dentro da organização agrária e escravocrata que em grande parte presidiu a nossa formação, dos mais
deficientes e instáveis.

Na sociedade brasileira acentuou-se, pela pressão de influência da monocultura, a falta de


nutrientes, que poderia ter sido corrigida pela policultura, através de um esforço agrícola regular e
sistemático. Fontes essas que foram abafadas, ao invés de desenvolvidas, pelo regime escravocrata e
latifundiário, que perturbaram o estado natural das terras. Na formação de nossa sociedade, o mau
regime alimentar e a inadaptação ao clima, agiu sobre o desenvolvimento físico e sobre a eficiência
econômica do brasileiro no mesmo mau sentido do clima deprimente e do solo quimicamente pobre. Tal
insuficiência alimentar que afetou a todos, desde a massa livre, mas miserável, às grandes famílias e
escravos que as serviam. Por incrível que pareça, faltavam até ao topo da aristocracia colonial legumes,
carne fresca e leite, o que teve como consequência doenças digestivas, que se tornaram comuns na
época.

Diferente dos depoimentos que relatavam uma terra rica, onde não faltava a rica variedade de
frutas, verduras frescas e carne de boi, que fartavam as mesas dos grandes senhores, uma realidade
bem diferente ali existia, na qual até os grandes latifundiários e senhores de engenho sofriam com a
falta de nutrientes e alimentação deficiente. Davam-se ao luxo ilusório de trazerem alimentos de
Portugal e das ilhas, que nunca chegavam e bom estado.

“No Pará no século XVII “as famílias de alguns homens nobres” não podem vir à cidade pelas
festas de natal (1661) por causa de suas filhas donzelas não terem que vestir para irem ouvir missa”.
A própria Salvador da Bahia, quando cidade dos vice-reis, habitada por muito ricaço português e
da terra, cheia de fidalgos e de frades, notabilizou-se pela péssima e deficiente alimentação.

Má nos engenhos e péssima nas cidades durante os séculos XVI, XVII, XVIII. Nos engenhos,
deficiente. Nas cidades, péssima e escassa. Depois de sua visita ao Brasil no século XVII, O bispo de
Tucumã notava que nas cidades nada que se pedia era encontrado, nem nas praças e nem nos
açougues, tendo como única saída recorrer às casas particulares dos ricos. É notável que, naquele
tempo, já havia a escassez de alimentos às pessoas, o que ocorre ate os dias atuais onde pessoas
sofrem com a falta de alimento, ocasionado a má alimentação, que é muito discutido no texto. Os
nobres ficavam com os melhores alimentos, desfavorecendo as classes hierarquicamente inferiores.

A forma organizada de educar dos Jesuítas foi fundamental na contribuição da catequese da


população colonial, já que a mesma era facilmente lapidada por sua ética social: a moral. Tal forma
educacional era transferida da mesma forma que lhes foi dada e só foi possível por uma fiscalização
que havia em canto do grande território colonial. Na colônia brasileira não houve uma preocupação em
manter as raças, já que o Brasil viveu exposto a culturas, raças, política e costumes estrangeiros. O que
realmente importava era que o povo colonial fosse de religião católica, para que assim pudessem
receber sesmarias.

O sistema religioso pregado e imposto pelos Jesuítas, o bem estar político, a forma de cultura
agrícola podem ter influenciado para que os colonos se conservassem unidos e dentro do parentesco
da sociedade, asseguradas pelas tendências e pelos processos da colonização portuguesa:
regionalista, a não separatista; unionista no melhor sentido, que coincidia com os interesses do
catolicismo, conseguindo tudo através dele: prestígio, terras, poder e até mesmo um bom casamento.

Já no mecanismo de administração colonial basicamente feudal, houve um endurecimento para


assegurar-se a união das capitanias entre si, conservando-as sob os mesmos provedores, governo
geral, conselho ultramarino, mesa de consciência, separando-as apenas em relação ao tratamento
especial e diferencial que cada uma recebia da metrópole, assim visava impedir a consciência nacional
que se opunha a regional, porém totalmente inevitável, mas mantendo a essência catolicista e a língua
portuguesa, com o auxílio da geral de criação dos Jesuítas.

O clima sem variação colaborou para criar diferenças profundas no gênero de vida colonial, sem
mudanças na qualidade física e química do solo, ou seja, impedindo o desenvolvimento de duas
sociedades totalmente antagônicas nos interesses econômicos e sociais no sentido de uniformização. A
cana de açúcar foi cultivada igualmente nas províncias, e teve como consequência uma sociedade e um
gênero de vida de tendência aristocrata e escravocrata, por interesses econômicos semelhantes.

Na formação da nossa sociedade, o mau regime alimentar imposto pela monocultura e pela
inadequação do clima e solo pobre, foi decisivo no desenvolvimento físico e de doenças, a mesma
economia latifundiária e escravocrata que tornou possível o desenvolvimento econômico do Brasil por
ser estável em relação às turbulências dos países vizinhos.

Uma das influências mais importantes para o nosso país foi e tem sido a do africano, através de
seus hábitos alimentares, baseados principalmente em vegetais, muito melhor do que a refeição do
homem branco Na maior parte do continente africano, a culinária baseia-se em saladas, mandioca e
milho, e esta comida é dividida criteriosamente pelo chefe da família aos outros membros.

A alimentação do negro não era farta nos grandes engenhos dos senhores feudais, mas em
compensação, nunca podia faltar, visto que o negro serviu de escravo para as grandes lavouras
daquela época, que, mesmo com todas as dificuldades que sofriam durante a colonização, eram uma
das poucas classes que se alimentavam utilizando uma dieta saudável, mesmo com a escassez
alimentar, sendo talvez o motivo de descendentes possuírem boa forma, além de terem uma beleza
admirável.

Não havia um local na Amazônia em que não houvesse a mistura entre o sangue ameríndio, o
híbrido de português com o índio ou africano. Escasseavam as mulheres da cor negra e os escravos
tinham que recorrer “ao rapto das índias” ou caboclas de povoados mais próximos. E assim
misturavam-se com as outras raças, dilapidando a sua origem pelas localidades amazônicas.

Entre o processo de miscigenação, ocorreu outro paralelo qual seja a sífilis, doença esta que
deixou marcas grandiosas dentre a população da época colonial. Além de a má nutrição matar muitas
pessoas, a sífilis surgiu também como forma de exterminação das pessoas. O que disseminava com
facilidade dentro das senzalas, era justamente a sífilis, e não permanecia apenas entre os escravos,
mas também entre os brancos que mantinham relações sexuais com as negras. Muitos europeus que
chegaram ao Brasil foram passando sem quase deixar algum traço marcante nas manchas da nossa
mestiçagem.

A primeira forma de colonização implantada no Brasil teria sido a de povoamento, pois o contato
da população branca com os indígenas favoreceu o processo de mestiçagem e isto mais tarde
facilitou a chegada mais tranquila dos povoadores. Por isso muitos dos colonizadores só fizeram uma
inserção no meio da população indígena.

Não eram somente os portugueses que se misturavam com os índios, mas também franceses e
espanhóis, mas principalmente portugueses e franceses. A disseminação da sífilis entre os indígenas e
os escravos, não parou apenas entre estes povos, chegando também nos franceses e nos portugueses
que entravam em contato com a população contaminada.

Uma espécie de sadismo do branco e masoquismo da índia ou da negra predominou nas relações
sexuais entres os europeus e as mulheres da nossa nação inicial. Moll salienta que a primeira
manifestação dos impulsos sexuais na criança depende de influências externas do meio social. O
sadismo e o masoquismo perpetuaram-se nas relações sociais entre as diversas raças que se
misturaram em nosso país e por isso era frequente a condição da mulher como submissa ao marido ou
ao pai, ou o ciúme da mulher da Casa Grande com relação às escravas, ou ainda os senhores feudais
que mandavam dar surras nos escravos. A cultura europeia se pôs em contato com a indígena,
amaciada pelo óleo da mediação africana.

Outra influência marcante para a colonização foi a cristianização realizada pelos jesuítas que foi
de extrema importância na formação cultural da sociedade brasileira. Todas estas influências deram
origem à miscigenação que até hoje subsiste em nosso Brasil.