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Devir Nuvem – por um amor leve –


Razão Inadequada
Escrito por Rafael Trindade
5-7 minutes

Sombra, silêncio ou espuma.


Nuvem azul
Que arrefece.

Amor – Secos & Molhados

-por Vinicius Lopes e Rafael Trindade

Brincamos de descobrir as formas das nuvens… mas é exatamente


isso: uma brincadeira. É uma realidade que inventamos, nos
permitimos mergulhar neste hiato sem a promessa de partir e a
desculpa para ter que voltar. Brincamos, porque há de se brincar.
As nuvens não têm forma, não têm dever, elas têm devir.
Nuvens não se deixam prender por barreiras, elas passam por

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cima das limitações. Isso angustia? Mas elas vivem tão bem, leves
e livres. O vento sopra as transfigura e as leva, fechamos os olhos
e vemos claramente. Vemos isso e queremos ser elas, ou pelo
menos ter a sua companhia.

O devir nuvem é um conceito. Para que criar mais um conceito?


Para o conceito nos criar? Ora, Deleuze já nos ensinou: conceitos
nascem para responder uma pergunta: o que é o amor? Por isso
fazemos de nossa página um Berçário de Ideias e mantemos um
dicionário de conceitos sempre à mão. Por que devir nuvem?
Para encontrar um novo amar, um novo há mar. Devir nuvem é
um deixar-se levar para o alto, percorrer grandes distâncias sem
esforço, mas mantendo a elegância. A nuvem dança com a terra e
com o vento. Devir nuvem é atravessar um corpo sem órgãos azul
turquesa!

Pense em uma nuvem igual ao corpo deste texto. Cada letra é uma
partícula minúscula que o compõe. No devir nuvem, cada letra é
uma molécula d’água, mas com sua singularidade. Podemos ser
gelo, água ou nuvem:

Devir gelo: o amor gelo é um dos mais tristes. nãoháespaço,


tudoestáapertado. Como é triste o amor onde as moléculas não
tem espaço para se mover. Elas colonizam o espaço, elas roubam
toda energia ao seu redor. Amores podem ser como vampiros
(múmias, mortos vivos e outras assombrações estão nesse
conjunto). Tudo é duro, denso. Amores como este podem roubar o
tempo, roubar vidas, roubar intensidades, o calor, o charme.
Quando percebemos, estamos sufocados, cadê o ar? Não, não
queremos que o mundo termine em uma grande calota polar de
sentimentos frios e egoístas.

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Devir água: estamos em um ponto de grande fluência. Como um


fluxo de palavras, um rio é um bom lugar para o amor mergulhar.
(Já imaginou pular de cabeça em um lago congelado?). “Queremos
fluir. Cansamos de ficar na margem olhando o rio, queremos ser o
rio” (veja aqui). Mas por que o rio é um exemplo perfeito? Porque o
amor nunca segue uma linha reta, porque ele se alimenta do gelo e
das nuvens, porque ele deixa vida por onde passa. O rio não pode
parar, este é sua bênção e sua maldição, seu medo e sua
esperança. A temperatura de nosso planeta favorece a água em
estado líquido, para nós isso também é possível.

Devir nuvem: quanto mais energia investimos em matéria de amor,


mais suas moléculas ficam s o l t a s, ganham mais espaço
para se m o v i m e n t a r, se aquecem e levantam voo. Quando
colocamos um espaço entre uma letra e outra no meio da própria
palavra, estamos deveras permitindo que elas voem e sejam
outras. Amor e a m o r, são sentimentos diferentes! Mas isso
não é ruim? Talvez, em momento de dificuldades poderíamos dizer
“como gostaria de congelar o amor“. Mas a fraqueza costuma
colocar palavras em nossa boca. Por que não dizemos: “que
vontade de voar junto“? Queremos um amor que nos coloque na
superfície mais lisa da terra. Pra isso é mister ser poeta e caçar
para calçar as letras das nuvem, as tais gotículas que a compõem.
Um poeta não quer compreender o amor, ele só quer amar e ser
amado… Não somos lesmas para nos arrastar pelos vales da
rotina. As nuvens dançam com elegância, dão voltas e
piruetas. O mundo lhes pertence!

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Amar é estar em relação. Amar é uma aposta musical, amar é um


ritornelo. Mas temos andado muito carregados. Muito pesados,
levamos conosco todos os conselhos paternos, toda educação
sexual, todos os preconceitos, todas as novelas das oito.

Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser


surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos
jantar à luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo
selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito.
É o que dá ver tanta televisão” – Mário Quintana

Muita bagagem… a liberdade não veste camisa de força. O espírito


de gravidade (tão bem analisado por Nietzsche) é o maior inimigo
de um devir nuvem. Amar seria prometer dar aquilo que não temos.
Por hoje, prometemos nuvens, uma nova suavidade!

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Pode ser pouco… mas só queremos encontrar alternativas para a


miséria sexual na qual nos afundamos, queremos, antes de mais
nada desplatonizar amores. É possível que nossas relações nos
ensinem novamente a voar? É possível amar sem arrastar seu
amor como uma bola de ferro? Queremos devir nuvem! Ora… é
sempre um perigo congelar-se, é muito bom fluir como um rio, mas
queremos ora ou outra devir nuvem. Abraçar o outro como se o
levássemos para dar uma volta pela vida, pelo céu, pela alegria,
pelo amor.

> Texto da série: Am@r <

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