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Engenheiro, doutor e m psicossociologia

pela U n i v e r s i d a d e d e P a r i s - D a u p h i n e . e
p r o f e s s o r d e Psicologia I n s t i t u c i o n a l da
U n i v e r s i d a d e Federal d e P e r n a m b u c o

questão da alienação se coloca, aqui, pela

A sua importância relativa no desenvolvimen-


to institucional das organizações públicas
do País e, particularmente, pela estratificação
e pela hipertrofia que produz nas estruturas de
dominação do instituído, em prejuízo da dinâmica do
processo social e da autonomia dos indivíduos. Nesta
perspectiva, a alienação é tratada como um fenômeno ALIENAÇÃO
cuja etiologia remete a processos complexos, que se
reproduzem pela articulação de instâncias psíquicas e
institucionais; que se estruturam na cultura e se
impõem aos indivíduos como uma violência simbóli-
ca, no sentido dado por Bourdieu & Passeron (1970),
conforme analisaremos mais adiante.
Na pesquisa que fizemos sobre a gestão e os
comportamentos nos serviços públicos 1 , os estilos de
gestão das organizações e o contraponto da falência
das instituições públicas, estratificando na sociedade
NO SERVIÇO
brasileira o domínio do Estado pelos interesses priva-

PÚBLICO
dos das elites dominantes, diante da anomia da
sociedade e da colaboração passiva dos servidores.
Mas, se a anomia da sociedade e o comportamento
funcional do servidor resultam da prática de poder das
elites dirigentes e se justificam pela alienação do
trabalho e da dignidade, de uns e de outros, não
restam dúvidas de que é justamente da alienação que
se alimenta o domínio das elites, a infelicidade dos
servidores e a perversão do Estado no descalabro da
administração e dos serviços públicos.

A ABORDAGEM DA QUESTÃO

A abordagem que fazemos, aqui, da alienação, vai


no sentido de esclarecer os comportamentos dos
servidores no contexto da crise institucional, econô-
mica e moral pela qual passa a sociedade brasileira dos
anos 90. O foco das análises se dirige para os
significados do trabalho; para a sociedade e para o
trabalhador; para o nível de autonomia e consciência
do trabalhador; para o nível de democracia e consci-
ência da sociedade.
Hegel, na perspectiva da fenomenologia do espí-
rito, já estabelece a articulação dialética entre trabalho
e consciência quando dispõe que" o trabalho humano
não é mais do que o lugar e o momento em que o
espírito absoluto adquire consciência do seu trabalho,
como processo indefinido de auto-desenvolvimento2".
A dialética materialista de Marx (1867) complementa
o pensamento hegeliano considerando que o traba-
lhador com o seu trabalho "não opera apenas uma
mudança de forma nas matérias-primas. Ele realiza ao
mesmo tempo seu próprio objetivo consciente, o qual
determina, como lei, seu modo de ação e ao qual ele
deve subordinar sua vontade" (1975. p. 181). Nesta
perspectiva, Marx considera ainda que na sociedade
capitalista "o trabalho é só uma expressão da ativida¬
de humana dentro da alienação3".
Numa visão mais abrangente da complexidade
dos sistemas psicossociais, CASTORIADIS (1975, p.
149) completa que a alienação "é o que se manifesta
como condição massiva de privação e de opressão;
como estrutura solidificada global material e institu-
cional da economia, do poder e da ideologia; como
indução, mistificação, manipulação e violência".
Nessa perspectiva, nossa análise procura com-
preender a alienação no serviço público, no seu
modo de ação e nos seus significados objetivos para
a sociedade e para o próprio funcionário; o trabalho
na dimensão social da autonomia; o trabalho que
deveria permitir a afirmação social da individualida-
de; que deveria estruturar a identificação profissional
e a realização do indivíduo numa profissão e numa
organização, mas também como significado objetivo
para a sociedade, expresso no reconhecimento soci-
al, inclusive, por uma renda que dignifique a sobre-
vivência material, a auto imagem e a imagem social
do trabalhador.

A VIOLÊNCIA SIMBÓLICA DA ALIENAÇÃO

Para melhor compreender o processo de aliena-


ção descrito a seguir, tomamos o conceito de "violên-
cia simbólica" introduzido por Bourdieu & Passeron
(1970 p. 19) como o "poder que chega a impor
significações e a impô-las como legítimas, dissimu-
lando as relações deforça", e que parece respaldar o
clima de aparente normalidade da situação de
descalabro em que se encontra a administração
pública no Brasil, dos desrespeito aos direitos do
cidadão, da alienação do servidor público.
Os traços da violência simbólica da alienação do
servidor, como se configura hoje nas organizações
públicas brasileiras, aparecem com muita nitidez, a
partir da falência do modelo tecno-burocrático de
desenvolvimento, que se consolidou no País nos
anos 70. A redemocratização política institucionali-
zada pela Constituição de 1988, sem superar as
desigualdades sócio-econômicas, termina por lançar
o País numa inquietação social e numa crise de largas
proporções, sem conseguir estabelecer modelos
alternativos de administração, o que termina por
desarticular a máquina administrativa do Estado e
por estratificar, na cultura do setor público, compor-
tamentos funcionais que tendem a emperrar a mo-
dernização da administração e a consolidação da
democracia.
Saiu-se de uma alienação pelo autoritarismo e
pela violência explícita, para cair numa nova aliena¬
ção pela exclusão e pela violência
simbólica. Combater a primeira pa-
receu mais fácil do que a segunda;
atuar sobre o explícito tem mais
conseqüência do que enfrentar o
implícito, o imaginário, o inconsci-
ente.

A QUEM SERVE A ALIENAÇÃO

Mas, qual a lógica que explica a


alienação? A quem serve essa situa-
ção? Eis as duas questões que nos
propomos a investigar nesse artigo.
Em primeiro lugar, essas per-
guntas poderiam se dirigir às instân-
cias superiores da hierarquia
institucional. Eis que as respostas
parecem evidentes, pela suprema-
cia política e administrativa de uma
elite dirigente que se perpetua no
poder como representante dos inte-
resses dos grandes grupos econó-
micos que privatizam o Estado, num
País onde os 10% mais ricos da
população controlam 48,7% da ren-
da, enquanto os 50% mais pobres
corporativismo do funcionalismo, em comissões ou grupos de traba-
têm de se contentar com 5,5% da
que não deixa de ser, simultanea- lho onde se deve levar o pensamen-
renda. Uma elite que representa os
mente, o mais direto prejudicado da to dos dirigentes e dos políticos que
interesses do capital, que nos últi-
falência das instituições. A dissimu- decidem pelo governo e pela orga-
mos 30 anos elevou sua participa- nização. Raros são os peritos que
lação de que nos fala Bourdieu &
ção no total da renda nacional de têm autonomia e competência de
Passeron (op. cit.) faz com que os
1/3 para 2/3. Em outras palavras, ofício para se pronunciar, enquanto
cooperativistas deixem de perceber
foram as elites brasileiras e, mais profissionais, sem a tutela dos diri-
que, na verdade, a única forma
especificamente, a empresa capita- gentes. Os riscos de emitir opiniões
viável dos funcionários serem con-
lista, os principais beneficiários des- pessoais, contrariando o pensamen-
siderados e valorizados é, justamen-
se processo. to dos dirigentes, são vividos como
te, o fortalecimento do Estado que
Em segundo lugar, considere-se eles combatem. ameaças significativas sobre os car-
que, pelo menos aos olhos do capi- A alienação do trabalho nos ser- gos e sobre a carreira. Observa-se,
talismo selvagem, a continuação viços públicos serve, assim, à apro- por exemplo, como sintoma desse
desses benefícios exigiria a redução priação do Estado pelas elites, mas sentimento de ameaça, o emper¬
do poder do Estado, a ineficiência serve também ao corporativismo ramento dos sistemas de comunica-
dos serviços públicos, a alienação dos funcionários que também se ções nas organizações públicas, onde
dos servidores. beneficiam de um Estado fraco. nem mesmo os gerentes se arriscam
Mas, não é só aos empresários a repassar informações pelos circui-
adeptos do capitalismo selvagem tos oficiais, preferindo os circuitos
que serve essa situação. O paradigma informais da "rádio corredor".
liberal do Estado mínimo é reforça-
A ALIENAÇÃO DA AUTONOMIA
De fato, as queixas sobre a falta
do por estranhas alianças com o de informações são debitadas so-
corporativismo dos servidores, que Para caracterizar a alienação dos
bretudo ao bloqueio na hierarquia,
estendem o antagonismo trabalhista servidores públicos, considere-se,
na queixa de 68% dos funcionários;
com governo-patrão, a uma atitude inicialmente, uma avaliação objeti¬
sendo o medo o terceiro maior
sistemática de confrontação com o va da sua autonomia político-admi¬
motivo. Medo de ver a informação
Estado-instituição, com uma feroci- nistrativa e de sua inserção social.
transmitida, desautorizada posteri-
dade que nada fica a dever aos Em primeiro lugar, observe-se que,
ormente. Enquanto isso, 64% dos
capitalistas. A luta dissimulada con- profissionalmente, a participação dos
funcionários preferem usar o siste-
tra instituições fortes, contra funcio- servidores nas decisões sobre polí-
ma informal (a rádio peão) justa-
ticas públicas só acontece, enquan-
nários conscientes serve assim às mente por envolver menos riscos.
to representantes da administração,
elites dominantes e ao próprio
A ALIENAÇÃO DAS IMAGENS mentação das tarefas os transforma A ALIENAÇÃO COMO PROCESSO COMPLEXO
em simples elos de uma corrente, da
qual não conseguem enxergar o
No plano da inserção social, o Em síntese, alienação do servi-
início, o fim, nem a finalidade. De
reforço à alienação vem da deteri- dor é o coroamento de mediações
fato, além de 71% dos funcionários
oração das imagens sociais dos ser- subseqüentes às contradições só¬
da administração direta não terem
viços públicos e dos próprios servi- cio-econômicas e político-institu¬
uma avaliação positiva dos serviços
dores, sempre associadas a estere- cionais, por interposições de con-
prestados pelas suas organizações
ótipos pejorativos que denigrem os tradições organizacionais e indivi-
(43% nas estatais), 67% acham que
funcionários, enquanto profissio- duais; entre os interesses da socie-
a sua contribuição não é suficiente-
nais. dade e a privatização do Estado aos
mente reconhecida no conjunto (57%
VENEU4, sintetiza as imagens ne- nas estatais).
interesses das elites; entre a submis-
gativas do funcionário público no são ao poder discricionário dos diri-
Brasil em uma "representação-ma¬ Freqüentemente, o trabalho de gentes e a falta de legitimidade des-
triz" que caracteriza o servidor pela muitos funcionários se resume a ses mesmos dirigentes; entre os bai-
falta de ambição intelectual, pela despachos formais em documentos, xos salários e a estabilidade no
acomodação, despreocupação com um passo na tramitação de um pro- emprego; entre os valores éticos, a
resultados, garantia do emprego, cesso, uma gota no oceano da gi- consciência crescente da sociedade
acumulação de funções e gratifica- gantesca máquina do Estado. Sabe- brasileira, a falta de um compromis-
ções. Em contrapartida, observa-se se, além do mais, que por trás do so funcional mais efetivo e o
que as organizações públicas são formal, tudo se opera por baixo dos corporativismo; entre os estereóti-
marcadas por imagens de ineficiên- panos; que as coisas importantes pos negativos e a carência narcísica
cia, de desperdício, de falta de coor- são resolvidas "por fora", pela dos servidores. Esses sentimentos
denação e de controle, sujeitas ao informalidade clientelista, na base de alienação do trabalho se refor-
clientelismo, ao nepotismo e à da amizade, segundo respondem, çam a cada mês, de maneira objetiva
corrupção. mais de 35% de todos os funcioná- quando o contra-cheque aparece
rios. como mensageiro do aviltamento
Essas imagens negativas do ser-
dos salários, da falta de reconheci-
vidor público são representadas
mento social vivido não apenas
socialmente por estereótipos que
A ALIENAÇÃO NA EXPROPRIAÇÃO DO pelos aspectos econômicos em si,
caricaturam ironicamente os con-
mas também pelo significado que a
tornos da "representação-matriz", PRODUTO sociedade dá ao serviço público, ao
com os traços dos acontecimentos
trabalho do servidor. Os funcionári-
do momento. O barnabé e a Maria
O outro ponto de esvaziamento os sentem assim, tanto pela lingua-
Candelária, ressaltando a anomia e
dos significados do trabalho pode gem objetiva dos salários, como
o "paraquedismo" dos funcionários
ser localizado nos estilos de gestão pela linguagem subjetiva dos
públicos nos anos 50, cederam es-
das organizações públicas, particu- esterótipos negativos, o quanto o
paço para esterótipos mais contem-
larmente no que diz respeito à hie- seu trabalho é desvalorizado e desa-
porâneos como os aspones 5 , os
rarquia e à centralização das deci- creditado.
marajás, os anões do orçamento e as
sões, nas figuras de autoridade. Para
mordomias, com foco numa crítica
além da fragmentação do trabalho,
mais dirigida à ocupação clientelista
observa-se q u e a politização
da máquina administrativa e ao as-
salto institucionalizado dos cofres
indiscriminada dos órgãos públicos, OS SIGNIFICADOS DO TRABALHO
promove na estrutura operativa um
públicos, do que aos próprios funci-
efeito perverso de expropriação do Mas, apesar de tudo, o trabalho
onários.
trabalho do servidor comum. São os nunca perde completamente todos
dirigentes que, apesar de uma certa os seus significados positivos para o
falta de legitimidade nos cargos (de- servidor. Em contrapartida aos pro-
A ALIENAÇÃO DO TRABALHO corrente da politização) e muitas cessos de alienação dos significados
vezes da incompetência profissio- do trabalho do servidor nas organi-
Do ponto de vista do trabalho, a nal, assumem os louros do trabalho zações públicas, descritos acima,
alienação do servidor aparece na de suas equipes, deixando no ano- observe-se a importância do empre-
constatação da falta de integração nimato aqueles que realmente pro- go público como única atividade
do trabalho individual numa produ- duziram. Esse fenômeno é absoluta- remunerada para 95% dos funcioná-
ção coletiva com significado social. mente generalizado nas organiza- rios das estatais e para 82% dos da
Observou-se que, a burocracia ser- ções públicas, na prática dos discur- administração direta. Em outras pa-
ve à desarticulação e ao esvazia- sos e artigos escritos por ghost writers, lavras, apesar de serem alienados
mento do trabalho individual. A na apropriação de idéias e inova- pela falta de autonomia, pela
maioria dos funcionários não vê, ções sem crédito para os autores, na segmentação e expropriação do tra-
nem se apropria simbolicamente do obscuridade dos bastidores das equi- balho, pela associação de imagens
resultado do seu trabalho; a frag- pes de apoio administrativo. negativas; apesar dos seus salários
serem julgados inferiores aos do negativos, o quanto o seu trabalho é tradições entre os servidores, o go-
mercado por 72% nas diretas e 31% desvalorizado e desacreditado. verno e a sociedade, no sentido
nas estatais, o emprego público ain- Contraditoriamente à importân- dado por Dejours (1991 p. 27). Me-
da é a atividade profissional central cia objetiva ou simbólica que o diações que permitem ao servidor a
dos servidores; aquela da qual so- trabalho possa ter para o servidor, a redução da culpa e do estresse de-
brevivem, onde constroem suas re- prática diária nas organizações, pon- correntes do processo de alienação
ferências profissionais, onde pas- do a nu a ineficiência dos serviços e, em contrapartida, tornam possí-
sam a maior parte do seu tempo útil. públicos, denuncia e questiona os vel à organização obter a adesão
Essa ligação objetiva com o serviço significados sociais do trabalho e dos servidores a funções que garan-
público, parece se consolidar na reforça a falta do reconhecimento tam o funcionamento dos serviços
percepção de que o salário e a público que viabilizaria a identifica- públicos e da administração nos
estabilidade são fatores que mais ção, a motivação e o engajamento limites mínimos toleráveis de inefi-
motivam a permanência de 97% dos do servidor. ciência. Alienação, como processo
funcionários no serviço público. Estrutura-se assim uma vivência psíquico-institucional, que se estru-
Além desses significados objeti¬ ambivalente na relação entre o ser- tura no sentido de escamotear a
vos que o emprego tem para o vidor e o trabalho nas organizações dominação pelo deslocamento do
servidor público, há que se conside- públicas, que se traduz em incômo- concreto para o abstrato; das
rar a importância simbólica do tra- dos e se expressam em queixas vivências conscientes para as pro-
balho em uma sociedade moderna, generalizadas contras as administra- duções simbólicas do controle ide-
onde as atividades profissionais são ções; queixas que não conseguem ológico e daí para o imaginário. É o
o núcleo da vida social, dominando esgotar as ansiedades provocadas que chamamos anteriormente de
pelo menos um terço de todo o pela alienação dos significados do alienação, enquanto violência sim-
tempo disponível. Desde que o trabalho, pelo sentimento de inutili- bólica, alienação implantada no in-
taylorismo foi superado como teo- dade e de culpa pela ineficiência. consciente, mobilizando dispositi-
ria, que se procuram significados vos e processos de diversas
mais subjetivos para o trabalho, além etiologias, integrando instâncias
das recompensas materiais; as rela- políticas, ideológicas, econômicas e
ções grupais descobertas por Mayo6, ALIENAÇÃO COMO DEFESA psíquicas.
os fatores motivacionais de Maslow
(1943) e Herzberg (1959) (8), entre Chamamos a atenção, finalmen-
muitos outros, indicam que os signi- te, para um aspecto da alienação do
servidor que garante a estabilidade
OS PROCESSOS PSÍQUICOS DA ALIENAÇÃO
ficados subjetivos podem ser, até
mesmo, mais importantes que os do processo, apesar do nível de COMO DEFESA
objetivos. estresse a que se submete o servi-
Os mais fortes sintomas desses dor: a alienação como um mecanis- No plano psíquico, a alienação
significados subjetivos no setor pú- mo de defesa mediatizante das con- se expressa diferentemente, entre
blico, aparecem nos processos de
identificação (ou de negação da
identificação). Associar-se às ima-
gens positivas nas empresas públi-
cas modernas ou negar essa associ-
ação nas organizações mais deterio-
radas da administração direta, impli-
ca em investimentos afetivos muito
importantes para a alienação, como
veremos mais adiante.
Todos esses sentimentos de alie-
nação do trabalho, se reforçam a
cada mês, de maneira objetiva quan-
do o contra-cheque aparece como
mensageiro do aviltamento dos sa-
lários, da falta de reconhecimento
social vivido não apenas pelos as-
pectos econômicos em si, mas tam-
bém pelo significado que a socieda-
de dá ao serviço público, ao traba-
lho do servidor. Os funcionários
sentem assim, tanto pela linguagem
objetiva dos salários, como pela
linguagem subjetiva dos esterótipos
os servidores da administração dire¬ organização em torno de procedi-
ta e os das estatais. Na administração mentos autorizados, e que se tradu-
direta, a alienação aparece mais cla- zem no medo do controle da auto-
ramente na falta de referências que ridade, determinando comportamen-
estimulem a identificação profissio- tos auto-limitados, para evitar o ris-
nal, produzindo um sentimento de co de transgressão. Essa auto-limita¬
orfandade paterna, pela ausência de ção se expressa, particularmente, na
compromisso dos dirigentes, indu- inibição dos funcionários a uma
zindo a projeção dos investimentos participação mais ativa em proces-
psíquicos e, particularmente, as iden- sos gerenciais, como é o caso do
tificações para fora da organização, processo de comunicação, onde os
nos paradigmas onipotentes da filtros da hierarquia e as emaças às
empresa privada, como ego ideal, transgressões, praticamente invia-
inviabilizando uma ação edípica, bilizam os sistemas oficiais de infor-
para dentro, de confrontação dos mação e levam os funcionários ao
dirigentes, no sentido da mudança. exercício sistemático da "rádio cor-
A viúva (termo usado freqüen- redor" como um dispositivo menos
temente para designar a administra- confiável, porém, mais efetivo.
ção pública), nega a esses servido-
res, já órfãos de pai, o peito para
alimentá-los com dignidade e o afe¬
to do reconhecimento e da valoriza- ALIENAÇÃO PRODUZ ALIENAÇÃO
ção. Esse servidor, órfão de pai e REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
abandonado pela mãe, não conse- Uma síntese possível desse qua-
gue ultrapassar o estágio da horda e dro remete à confirmação dos este- ANZIEU, Didier. Le Groupe et
I'lnconscient. Paris, Dunod, 1984. 234 p.
se organizar para assumir sua histó- reótipos do funcionário, não como
ASTRADA, Carlos. Trabalho e Alienação.
ria como membro de uma organiza- resultado da índole preguiçosa do Trad. Cid Silveira. Rio de Janeiro, Paz e
ção, ficando à deriva, disperso, sem brasileiro ou de se estar impregnado Terra, 1968. 103p.
líderes que os mobilize em nome da de um vírus cultural que afeta os BORDIEU, Pierre & Passeron, Jean Claude.
A reprodução. Trad. Reynaldo Bairão. Rio
lei e da ordem. Alienado. funcionários, mas como uma cons- de Janeiro, 1992. 238p.
Nas estatais, o processo de alie- trução complexa e patológica do CASTORIADIS, Cornélius. L'lnstitution
nação se estrutura em outro nível, conjunto da sociedade brasileira, Imaginaire de la Société. Paris, Éditions du
Seuil. 1975. 498p. (Tradução do autor)
menos grave, do ponto de vista sob o comando dos beneficiários
DEJOURS, Christophe. A Loucura do
operativo, para a organização. As maiores da situação de descalabro Trabalho. São Paulo, Corttez Editora. 1991.
referências identitárias, podem ser em que se encontra a máquina da 163p.
estabelecidas para dentro da organi- administração do Estado: a elite eco- MARX, Karl. Le Capital. Paris, Éditions
nômica e política que privatizou o Sociales, 1975.
zação, com referência às imagens
MATOS, Aécio Gomes. A Gestão Pública e
públicas positivas, segundo 57% dos Estado nos regimes autoritários e o Comportamento do Servidor. Relatório
funcionários, com respaldo na boa que agora, com a redemocratização, de Pesquisa para o CNPq. Recife, 1994.
defendem, se não a eliminação, a 200p.
qualidade dos serviços prestados,
limitação máxima do Estado como VENEU, Marcos Guedes. Representações
segundo 80%. O ideal do ego tem do Funcionário Público. Revista de
uma representação da empresa, na regulador de uma sociedade liberal, Administração Pública. Rio de Janeiro. v. 24.
competência técnica e na liturgia onde o capitalismo selvagem com- n.° 1:5-16. 1990.

dos cargos de direção, no passado pletaria sua dominação, em detri-


mento da grande maioria da popu- Notas
de glórias quando a maioria dessas
empresas foram implantadas no lação, já agora marginalizada. 2 - MATTOS, Aécio Gomes de, A Gestão
apogeu dos anos dourados. O reco- Pública e o Comportamento do Servidor.
Mas, se o desmonte do Estado e p. 113
nhecimento da autoridade e da com- das organizações públicas aliena o 3 - Citado por Carlos Astrada, Trabalho e
petência técnica dos dirigentes (ape- servidor ao desalojá-lo do poder, ao Alienação. p. 36
nas 7% contestam) garantindo o retirar os significados do seu traba- 4-ld. Ibid. p.49
poder e a ordem na organização, lho e ao negar-lhe a valorização, o 5 - Termo usado por VENEU, Marcos
termina por permitir o estabeleci- Guedes. (Representações do Funcionário
reconhecimento e a realização Público. in Revisada Administração Pública.
mento de uma relação de equilíbrio afetiva, outra não parece ser a sua Rio de Janeiro, v. 24. n.° 1. p. 5-16. nov.
produtivo nessas organizações. 1989/jan. 1990.) para caracterizar as
postura, senão a de reforçar essa referências centrais da imagem do
A alienação nas estatais se ex- sistemática perversa, fechando o cir- funcionalismo simbolizadas na "Maria
Candelária" e no "Barnabé".
pressa, de uma maneira menos gra- cuito de retro-alimentação do proje¬
to de desmonte do Estado, de alie- 6 - Sigla criada pela linguagem popular para
ve, na submissão às estruturas de significar cargos sem nenhuma função
poder, amplificadas pelas produ- nação da cidadania e de sua própria objetiva: "assessor de porra nenhuma".
ções imaginárias decorrentes da dis- alienação como servidor e como 7 - Citado por ANZIEU & MARTI (1973 p. 62)
tância hierárquica que imobilizam a cidadão. I 8 - Citados por CHIAVENATO (1989 p. 44)