Vous êtes sur la page 1sur 295

See discussions, stats, and author profiles for this publication at: https://www.researchgate.

net/publication/311667507

Crescimento econômico, cidadania, saúde: contextos, desafios e


possibilidades da pesquisa-intervenção-pesquisa em direitos sexuais e
reprodutivos

Book · October 2015

CITATIONS READS

0 48

4 authors, including:

Tacinara Nogueira de Queiroz Luís Felipe Rios


Federal University of Pernambuco Federal University of Pernambuco
5 PUBLICATIONS   0 CITATIONS    40 PUBLICATIONS   157 CITATIONS   

SEE PROFILE SEE PROFILE

Some of the authors of this publication are also working on these related projects:

Diálogos para o Desenvolvimento Social de Suape View project

Homossexualidades View project

All content following this page was uploaded by Luís Felipe Rios on 15 December 2016.

The user has requested enhancement of the downloaded file.


[Série] Gênero, sexualidade e direitos humanos |no 4

Contextos, desafios e
possibilidades da
pesquisa-intervenção-pesquisa
em direitos sexuais e
reprodutivos

Crescimento Econômico
Organizadores
Tacinara Nogueira de Queiroz
Maria Betânia Lins
Cinthia Oliveira

Cidadania, Saúde
Luís Felipe Rios
[Série] Gênero, sexualidade e direitos humanos | no 4

Contextos, desafios e
possibilidades da
pesquisa-intervenção-pesquisa
em direitos sexuais e
reprodutivos

Organizadores
Tacinara Nogueira de Queiroz

Crescimento Econômico,
Maria Betânia Lins
Cinthia Oliveira
Luís Felipe Rios

Cidadania, Saúde

Recife/PE
2015
Copyrigth @ Universidade Federal de Pernambuco, 2015
Publicações Especiais do Laboratório de Estudos da Sexualidade Humana (LabESHU)
Série “Gênero, sexualidade e direitos humanos”
Editores responsáveis: Luís Felipe Rios (UFPE) e Luciana Vieira (UFPE)
Conselho editorial: Cristina Amazonas (UNICAP), Fátima Lima (UFRJ), Ivia
Maksud (IFF/Fiocruz), Jaileila de Araújo Menezes (UFPE), Karla Galvão Adrião
(UFPE), Lady Selma Albernaz (UFPE), Marion Teodósio de Quadros (UFPE), Paula
Sandrine Machado (UFRGS) e Viviane Mendonça (UFSCAR)
O conteúdo desta obra é de inteira responsabilidade dos autores e não representa
a posição oficial dos apoiadores do Programa Diálogos Suape.

Laboratório de Estudos da Sexualidade Humana (LabESHU)


Coordenadores: Luís Felipe Rios e Karla Galvão Adrião
Av. Arquitetura, s/n, CFCH, 7o andar, Cidade Universitária, Recife/PE – CEP:
50740–550 – Tel./ Fax: (81) 2126-8273 – Site: www.dialogos.org.br
Créditos
Projeto gráfico: Wilma Ferraz
Revisão de textos: Débora de Castro Barros
Tiragem: 400 exemplares (2015)

Rua Acadêmico Hélio Ramos, 20| Varzea – Recife/PE


Montagem e impressão: CEP: 50.740-530
Fone: (81) 21268397 | (81) 2126-8930 | Fax: (81) 2126-8395
www.ufpe.br/edufpe | edufpe@nlink.com.br | editora@ufpe.br

Editora associada à ABEU ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA


DAS EDITORAS UNIVERSITÁRIAS

Catalogação na fonte: Bibliotecária Joselly de Barros Gonçalves, CRB4-1748

C919 Crescimento econômico, cidadania, saúde : contextos, desafios e possibilidades


da pesquisa-intervenção-pesquisa em direitos sexuais e reprodutivos / organi-
zadores : Tacinara Nogueira de Queiroz... [et al.]. – Recife : Editora UFPE, 2015.
292 p. : il. – (Série Gênero, Sexualidade e Direitos humanos, n. 4).
Inclui referências.
ISBN 978-85-415-0678-6 (broch.)
1. Pesquisa-ação – Suape (PE : Microrregião). 2. Direitos sexuais. 3. Direitos
reprodutivos – Aspectos sociais. 4. Desenvolvimento econômico – Aspectos sociais. 5.
Cidadania. 6. Saúde. I. Queiroz, Tacinara Nogueira de (Org.). II. Título da Série.

DISTRIBUIÇÃO GRATUITA
É permitida a reprodução total ou parcial do texto desta publicação,
desde que citados a fonte e os respectivos autores.
Sumário

Apresentação.................................................... 5
Luís Felipe Rios, Tacinara N. de Queiroz, Maria Betânia Lins e
Cinthia Oliveira

Contextos: grandes obras e relações de gênero


Desenvolvimento e reprodução: um estudo comparativo em
três polos pernambucanos.................................................. 16
Dayse A. dos Santos, Russell P. Scott, Rosangela S. de Souza e
Rafael de F. D. Acioly

Dialogando com homens trabalhadores de Suape: demandas,


necessidades, atitudes e práticas em saúde.......................... 43
Benedito Medrado, Jorge Lyra, Túlio Quirino, Ana Luísa Cataldo,
Andréa Paula da Silva, Claudemir Silva Filho, Felipe Alves e
Anna de Cássia P. de Lima

Trabalho e risco na composição da identidade do “pião


trecheiro”........................................................................ 67
Sirley Vieira da Silva

Promoção da saúde sexual e reprodutiva em contextos de


grandes obras de infraestrutura e trabalho temporário
masculino....................................................................... 91
Regina Figueiredo, Alessandro de Oliveira dos Santos e Marcelo
Peixoto

Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa


Diálogos sobre sexualidades com as(os) jovens de Cabo de
Santo Agostinho e Ipojuca: inícios, afetos, normas e prazeres... 116
Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião

Políticas de equidade para a população LGBT: relato de


experiências sobre capacitações dos(as) profissionais das
políticas públicas do estado de Santa Catarina..................... 139
Daniel K. dos Santos, Gabriela A. Diaz, Marília dos S. Amaral e
Maria Juracy F. Toneli
Chá de Damas: desafios e estratégias para a inserção no
campo-tema prostituição........................................................ 164
Jaileila Menezes, Karla G. Adrião, Amanda K. C. Guedes,
Ana Letícia Veras, Cristiano C. Ferreira, Douglas B. de Oliveira e
Sarana M. de S. Santos

Portas entreabertas à produção de cuidados: o acesso dos


homens à atenção básica em saúde........................................ 190
Túlio Quirino, Benedito Medrado, Jorge Lyra e Michael Machado

Possibilidades
Monitoramento de projeto social: uma metodologia de
pesquisa-ação participativa.................................................... 214
Telma Low, Danielly Spósito, Flávia Lucena, Nivete Azevedo,
Maria Aparecida Araujo Santos, Jorge Lyra, Benedito Medrado,
Talita Rodrigues, Ana Carolina Cordeiro e Gabriela Cordeiro

Análise da prática do aconselhamento em HIV/Aids.................. 237


Wedna C. M. Galindo

Caravana da Cidadania: a psicologia comunitária mobilizando


as comunidades para a promoção à saúde e direitos humanos.... 257
Camila Santos, Verônica Carrazzone, Renata E. de S. Nunes e
Luís Felipe Rios

Sobre os autores.................................................................. 283


Apresentação
Luís Felipe Rios, Tacinara N. de Queiroz,
Maria Betânia Lins e Cinthia Oliveira

Este é o quarto livro da série Gênero, Sexualidade e Di-


reitos Humanos, publicada pelo Laboratório de Estudos da
Sexualidade Humana (LabESHU) da Universidade Federal de
Pernambuco (UFPE). Ele apresenta textos resultantes de refle-
xões sobre as atividades do Programa Diálogos para o Desen-
volvimento Social de Suape (Diálogos Suape), executado en-
tre maio de 2012 e janeiro de 2015 nos municípios de Cabo de
Santo Agostinho e Ipojuca, que juntos formam a microrregião
de Suape, em Pernambuco. A peculiaridade dessa região é a de
abrigar e de sofrer impactos das grandes obras do Programa
de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal, que
envolve a construção do Complexo Industrial e Portuário de
Suape (porto, estaleiros, refinaria de petróleo, petroquímica e
outros empreendimentos). Em 2007, com o início das obras,
houve aumento da oferta de postos de trabalho na construção
civil, o que provocou a migração de milhares de homens para
essa região, incrementando um conjunto de relações sociais
de desigualdade já historicamente presentes naquele contexto
(Rios et al., 2015).
Em 2009, a UFPE foi convidada pela Refinaria Abreu e
Lima da Petrobras a tomar parte nessa dinâmica, elaborando
um programa de pesquisa-intervenção, Diálogos Suape, sobre
os impactos da dinâmica instituída com as obras do PAC nas
condições de vida da população dos dois municípios, focando
os seguintes temas: gravidez na adolescência, doenças sexual-
mente transmissíveis (DSTs), exploração sexual de crianças e
adolescentes, violência masculina e violência contra as mulhe-
res, e uso abusivo de álcool e outras drogas (Rios et al., 2015).
6 • Contextos, desafios e possibilidades da pesquisa-intervenção-pesquisa

O plano de trabalho do Diálogos Suape foi constituído


de sete projetos (ou grandes ações) que, em sinergia, mobiliza-
ram jovens, mulheres, trabalhadores do complexo Suape, pro-
fissionais do sexo, profissionais em geral, ativistas em direitos
humanos e, mais amplamente, a população dos municípios
para o enfrentamento das condições que fazem os agentes so-
ciais da região mais suscetíveis a um conjunto de agravos à
saúde e violações de direitos, grosso modo marcados, em suas
emergências, por gênero, sexualidade, classe e idade/geração
(Rios et al., 2015).
Vale, ainda que brevemente, caracterizar o conjunto de
projetos que formam o Programa Diálogos Suape, conside-
rando seus objetivos. Para mais informações sobre o desenvol-
vimento e principais resultados de cada projeto/ação, remete-
mos o leitor a Rios, Queiroz, Lins e Teófilo (2015):

1. Conhecer o Território: Identificar as políticas, os


programas e os equipamentos sociais existentes nos
municípios, os indicadores sociais e as concepções da
população sobre os agravos que são objeto da inter-
venção. Ação Juvenil: Instrumentalizar jovens, de 16
a 19 anos, de ambos os sexos, como lideranças capa-
zes de atuar na produção e na disseminação de in-
formações qualificadas nos campos dos direitos da
criança e do adolescente, da saúde sexual e reprodu-
tiva, do uso abusivo de álcool e de outras drogas, e
no enfrentamento a agravos de saúde e violações de
direitos.
2. Caravana da Cidadania: Mobilizar as comunidades
locais e instrumentalizar profissionais dos campos da
saúde, da educação e da responsabilização para a pro-
moção da saúde sexual e reprodutiva, o combate à vio-
lação dos direitos sexuais e o enfrentamento do uso
abusivo do álcool e de outras drogas.
Apresentação – Luís Felipe Rios et al. • 7

3. Chá de Damas: Engajar e capacitar profissionais do sexo


adultos dos municípios no enfrentamento das DSTs/
Aids e da exploração sexual de crianças e adolescentes.
4. Mulheres e Educação para a Cidadania: Contribuir
para o empoderamento de mulheres e jovens dos dois
municípios, com ações formativas e informativas, para
o enfrentamento da violência doméstica e sexual na
microrregião de Suape.
5. Homens, Gênero e Práticas de Saúde: Diálogos com
os Trabalhadores das Terceirizadas: Sensibilizar e
informar os trabalhadores das empresas terceirizadas
para a promoção da saúde sexual e reprodutiva, da
prevenção da violência e do uso abusivo de álcool e de
outras drogas;
6. Observatório Suape: Disseminar informações e recur-
sos desenvolvidos no âmbito do projeto Diálogos para
o Desenvolvimento Social em Suape.

Para ampliar os debates sobre as contribuições teóricas e


práticas do Programa, sua equipe executiva, formada por pro-
fessores-pesquisadores do Laboratório de Estudos da Sexuali-
dade Humana (LabESHU), do Grupo de Estudos e Pesquisas
sobre Poder, Cultura e Práticas Coletivas (Gepcol) e do Grupo
de Estudos sobre Masculinidades (Gema), ligados ao Programa
de Pós-graduação em Psicologia da UFPE (PPG-PSI/UFPE),
convidou parceiros de outros núcleos de pesquisa do país para
apresentarem propostas de textos, resultantes de trabalhos
de pesquisa e extensão em variados contextos socioculturais
de atuação, mas afins, em termos de marcos ético-políticos, à
postura assumida pelo Programa: dialógica e afinada ao qua-
dro de garantia dos direitos humanos. Várias dos textos sub-
metidos foram aceitos, e esta coletânea conta com importantes
contribuições de nossos(as) parceiros(as) do Margens/UFSC,
Nepaids/USP e Fages/UFPE.
8 • Contextos, desafios e possibilidades da pesquisa-intervenção-pesquisa

1. Gênero e sexualidade/direitos sexuais e


reprodutivos

Não parece ser por acaso que a maior parte dos agravos
à saúde e violações de direitos apresentados como carecendo
de “mitigação” pelo relatório disponibilizado pela Petrobras à
UFPE (Rebouças e Associados, 2009), e que serviu de subsídio
inicial para elaborar o plano de trabalho do Diálogos Suape,
remetia diretamente às relações de gênero e de sexualidade:
DSTs/Aids, gravidez na adolescência, violência sexual e de
gênero. Mesmo o entendimento do uso abusivo de álcool e
outras drogas, ou mais amplamente o acesso à saúde, é social-
mente marcado pelas relações de gênero.
Assim, um eixo que atravessa todos os trabalhos aqui
publicados é o de apresentarem discussões consistentes so-
bre gênero e/ou sexualidade como sistemas e/ou marcadores
sociais, organizadores da vida social e subjetiva e, por conse-
guinte, dos contextos que criam as condições para os agravos
e violações ocorrerem. Todos os textos buscam, de diferen-
tes modos, desvelar a operação dessas marcas, socialmente
constituídas, na emergência de desigualdades e situações
opressivas.
Outro compromisso dos pesquisadores e de seus textos
é o de empenharem esforços para fazer dialogar os conceitos
e leituras acadêmicos de gênero e/ou de sexualidade com os
marcos normativos dos direitos sexuais e reprodutivos – uma
nova legalidade em processo de legitimação social mais am-
pla, que busca se oferecer como alternativa para reorganizar
as práticas sociais de modo a dirimir as opressões e desigual-
dades. A partir desse eixo comum, os textos vão ler e proble-
matizar crescimento econômico, cidadania, saúde. Destaca-
mos ainda que, em diferentes níveis, todos os trabalhos desta
coletânea atualizam a perspectiva da pesquisa-intervenção-
pesquisa como situada por Adrião (2014, p. 70):
Apresentação – Luís Felipe Rios et al. • 9

O termo “pesquisa-intervenção-pesquisa” é uma tentativa de


construção de um significante que marque discursivamente a
busca de um fazer contínuo e que trate de um continuum que
sela a coalizão entre pesquisa e intervenção. Nestes termos, não
há um início nem um final pré-demarcados, ou seja, a pesquisa
não é o início, assim como tampouco a intervenção é a con-
clusão de um processo. Antes, pesquisa e intervenção atuam
reflexivamente e coparticipativamente como dispositivos que
possuem especificidades, mas que necessitam um do outro no
cotidiano dos fazeres, saberes e poderes.

2. Eixos transversais

Para organizar a coletânea, optamos por categorizar os tex-


tos produzidos a partir de três eixos: contextos, desafios e possi-
bilidades. Vale de início dizer que nem sempre essa classificação
se mostrou muito profícua, afinal muitos dos textos aqui apre-
sentados caberiam nas três rubricas. De todo modo, é o produto
final, o diálogo entre os 11 textos, que realmente contribui para a
discussão que queremos propor com esta coletânea: contribuir
para melhor qualificar propostas acadêmicas que investem em
metodologias participativas de pesquisa-intervenção-pesquisa
como estratégias científicas para compreender melhor a reali-
dade social em permanente transformação e, ao mesmo tempo,
fomentar a promoção dos direitos sexuais e reprodutivos.

2.1. Contextos: grandes obras e relações de gênero

Os quatro primeiros capítulos desta coletânea se pro-


põem analisar e discutir o próprio contexto das grandes obras
de desenvolvimento econômico e seus impactos para “nativos”
e migrantes, focando temáticas concernentes à garantia dos di-
reitos sexuais e reprodutivos e, mais amplamente, para a pro-
moção da saúde.
10 • Contextos, desafios e possibilidades da pesquisa-intervenção-pesquisa

O primeiro capítulo, intitulado “Desenvolvimento e re-


produção: um estudo comparativo em três polos pernambu-
canos”, de Dayse Amâncio dos Santos, Russell Parry Scott,
Rosangela Silva de Souza e Rafael de Freitas Dias Acioly foca
as mulheres jovens de três polos de desenvolvimento em Per-
nambuco, o Complexo Portuário e Industrial de Suape, o
Complexo Turístico de Porto de Galinhas e a Agricultura Irri-
gada de Petrolina, buscando repercussões do dinamismo eco-
nômico sobre suas vidas sexuais e reprodutivas.
O segundo capítulo, “Dialogando com homens trabalha-
dores de Suape: demandas, necessidades, atitudes e práticas
em saúde”, de Benedito Medrado, Jorge Lyra, Túlio Quirino,
Ana Luísa Cataldo, Andréa Paula da Silva, Claudemir Silva Fi-
lho, Felipe Alves e Anna de Cássia Pessôa de Lima, apresenta
os resultados de um estudo quantitativo sobre os conhecimen-
tos, atitudes e práticas dos trabalhadores da construção civil,
atuantes em Suape, em relação a saúde, sexualidade e violência.
O terceiro capítulo, “Trabalho e risco na composição da
identidade do ‘pião trecheiro’”, de Sirley Vieira da Silva, tam-
bém foca os homens trabalhadores de Suape e adensa as dis-
cussões sobre saúde e sexualidade, aprofundando os significa-
dos sobre risco e saúde com uma abordagem etnográfica com
homens migrantes.
O quarto capítulo, “Promoção da saúde sexual e re-
produtiva em contextos de grandes obras de infraestrutura
e trabalho temporário masculino”, de Regina Figueiredo,
Alessandro de Oliveira dos Santos e Marcelo Peixoto, discute
a migração de trabalhadores para execução de obras de infra-
estrutura em municípios do interior e do litoral brasileiro,
focalizando os efeitos negativos desse fluxo migratório em
suas relações com questões de saúde e dos direitos sexuais
e reprodutivos. Com base na experiência em projetos de in-
tervenção com essa população, os(as) autores(as) finalizam
o texto estabelecendo recomendações para mitigação de vul-
Apresentação – Luís Felipe Rios et al. • 11

nerabilidades, promoção da saúde sexual e reprodutiva, e


proteção de direitos em contextos de migração temporária de
trabalho masculino.

2.2. Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

O segundo eixo do livro discute alguns desafios e entraves


para a realização de atividades de pesquisa-intervenção sobre
direitos sexuais e/ou saúde sexual e reprodutiva com vários
públicos (homens e mulheres jovens, profissionais dos servi-
ços, trabalhadoras do sexo, homens adultos etc.).
O quinto capítulo, “Diálogos sobre sexualidades com
as(os) jovens de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca: Inícios,
afetos, normas e prazeres”, de Rocio del Pilar Bravo Shuña e
Karla Galvão Adrião, tece reflexões sobre o modo como jovens
residentes em Suape significam o início da vida sexual e dos
prazeres, o namoro e outros vínculos afetivo-sexuais na inter-
face com o campo dos direitos sexuais e reprodutivos.
Na linha de discutir a disseminação dos novos marcos
normativos (direitos sexuais) entre profissionais dos servi-
ços públicos, o sexto capítulo, “Políticas de equidade para a
população LGBT: relato de experiências sobre capacitações
dos(as) profissionais das políticas públicas do estado de Santa
Catarina”, de Daniel Kerry dos Santos, Gabriela Andrea Diaz,
Marília dos Santos Amaral e Maria Juracy Filgueiras Toneli,
reflete sobre as dificuldades e os desafios para a realização de
capacitações sobre políticas de equidade para a população
LGBT, oferecidas aos(às) servidores(as) públicos(as) de Santa
Catarina.
O sétimo capítulo, “Chá de Damas: desafios e estraté-
gias para a inserção no campo-tema prostituição”, de Jaileila
de Araújo Menezes, Karla Galvão Adrião, Amanda Kamylle
Cavalcanti Guedes, Ana Letícia Veras, Cristiano Cavalcante
Ferreira, Douglas Batista de Oliveira e Sarana Maria de Sousa
12 • Contextos, desafios e possibilidades da pesquisa-intervenção-pesquisa

Santos, reflete sobre os processos para entrada no campo da


prostituição de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca vivencia-
dos por jovens universitários(as) executores(as) das atividades
de pesquisa e intervenção.
O oitavo capítulo, “Portas entreabertas à produção de
cuidados: o acesso dos homens à atenção básica em saúde”,
de Túlio Quirino, Benedito Medrado, Jorge Lyra e Michael
Machado, discute os desafios para a promoção de cuidado de
saúde para homens a partir de uma leitura psicossocial sobre
os modos como usuários (homens) e trabalhadores de saúde
produzem o cuidado à saúde do homem no cotidiano da aten-
ção básica.

2.3. Possibilidades

No terceiro eixo, temos três textos que discutem impor-


tantes elementos potencializadores de boas práticas de pes-
quisa-intervenção-pesquisa: o monitoramento participativo e
sistemático das atividades e a abertura para a alteridade como
condições de acolhimento e diálogo, seja no aconselhamento
em HIV/Aids, seja em intervenções populacionais mais am-
pliadas, como o caso da Caravana da Cidadania.
Assim, o nono capítulo, “Monitoramento de projeto so-
cial: uma metodologia de pesquisa-ação participativa, de Tel-
ma Low, Danielly Spósito, Flávia Lucena, Nivete Azevedo, Ma-
ria Aparecida Araujo Santos, Jorge Lyra, Benedito Medrado,
Talita Rodrigues, Ana Carolina Cordeiro e Gabriela Cordeiro,
discute metodologias de monitoramento participativo a par-
tir das lições aprendidas durante a implementação da “Ação
Mulheres e Educação para Cidadania”, executada pelo Centro
das Mulheres do Cabo no âmbito do Diálogos Suape.
No décimo capítulo, “Análise da prática do aconselhamen-
to em HIV/Aids”, Wedna Cristina Marinho Galindo discute
as modalidades de aconselhamento em HIV/Aids, focalizando
Apresentação – Luís Felipe Rios et al. • 13

o encontro aconselhador-usuário e as possíveis implicações,


ressonâncias e impactos que tal encontro pode ter na própria
prática do aconselhamento e no que dela resulta.
Finalmente, no décimo primeiro capítulo, “Caravana da
Cidadania: a psicologia comunitária mobilizando as comuni-
dades para a promoção à saúde e direitos humanos”, Cami-
la Santos, Verônica Carrazzone, Renata Evangelista de Sena
Nunes e Luís Felipe Rios discutem a experiência da Caravana
da Cidadania, uma das ações de mobilização comunitária do
Diálogos Suape, apontando para a necessidade de respeito às
dinâmicas socioculturais locais como condição para o sucesso
de intervenções de promoção de cidadania e saúde.
Sublinhando mais uma vez, os textos aqui reunidos apre-
sentam as possibilidades, desafios e limites da pesquisa-inter-
venção-pesquisa no campo da promoção da saúde e cidada-
nia por meio de um uso consistente de gênero e sexualida-
de como conceitos capazes de, ao mesmo tempo, analisar a
realidade social e melhor qualificar o marco normativo dos
direitos sexuais e reprodutivos. Nossa expectativa é a de que
divulgar as reflexões tecidas nesta coletânea possa fomentar
outras iniciativas de promoção de uma sociedade que prese
pela equidade e cidadania.
Desejamos uma boa leitura!

Referências

ADRIÃO, K. Perspectivas feministas na interface com o processo de pes-


quisa-intervenção-pesquisa com grupos no campo psi. Labrys, edição em
português, on-line, v. 26, p. 70-85, 2014. Disponível em: <http://www.la-
brys.net.br/labrys26/psy/KARLA.htm>.

REBOUÇAS E ASSOCIADOS. Estudos técnicos: Refinaria Abreu e Lima.


2009. mimeo.
14 • Contextos, desafios e possibilidades da pesquisa-intervenção-pesquisa

RIOS, L. F.; MEDRADO, B.; AMARAL, A.; PERUZZO, J. Diálogos Suape:


pesquisa-intervenção-pesquisa sobre saúde e cidadania de populações
afetadas pelas grandes obras do Programa de Aceleração do Crescimen-
to (PAC) em Pernambuco. In: RIOS, L.F.; QUEIROZ, T.; LINS, M.B.; TEÓ-
FILO, I. (Org.). Diálogos para o desenvolvimento social em contextos de grandes
obras: a experiência do Programa Diálogos Suape. Recife: EdUFPE, 2015.

RIOS, L.F.; QUEIROZ, T.; LINS, M.B.; TEÓFILO, I. (Org.). Diálogos para o
desenvolvimento social em contextos de grandes obras: a experiência do Progra-
ma Diálogos Suape. Recife: EdUFPE, 2015.
Contextos:
grandes obras e
relações de gênero
Desenvolvimento e reprodução:
um estudo comparativo em três polos
pernambucanos1
Dayse A. dos Santos, Russell P. Scott,
Rosangela S. de Souza e Rafael de F. D. Acioly

1. Introdução

Este trabalho busca compreender as repercussões do di-


namismo econômico sobre a vida sexual e reprodutiva de mu-
lheres jovens em polos de desenvolvimento. A análise é parte
da pesquisa “Três polos de desenvolvimento e a vida sexual e
reprodutiva de mulheres jovens”, apoiada pela Facepe, em rea-
lização desde novembro de 2010 pelo Fages da UFPE.2
A adolescência tem despertado forte interesse da mídia
e das políticas públicas. Uma das razões para tal interesse é a
mudança que ocorreu quanto às expectativas sociais diante
dessa etapa da vida, no sentido de reservá-la prioritariamen-
te aos estudos, com vistas a capacitar os jovens sujeitos para
o ingresso em melhores condições no mercado de trabalho.
Frequentemente, incorre-se em uma naturalização do proces-
so de transição da infância à vida adulta e, ao mesmo tempo,
reitera-se o caráter “imaturo” e “irresponsável” dos jovens.
Um dos “riscos” dessa etapa é a possibilidade de uma gra-
videz. Entretanto, a gravidez na adolescência não é um fenô-
meno recente. Historicamente, as mulheres vêm tendo filhos
nesse momento da vida, e, mesmo em um contexto de intensa

1
Trabalho inicialmente apresentado no XVIII Encontro Nacional de Estudos Popu-
lacionais, Abep, realizado em Águas de Lindoia/SP, de 19 a 23 de novembro de 2012.
2
Pesquisa APQ0149-7.03/10 financiada pelo Edital Facepe 03/2010, Estudos e Pesqui-
sas para Políticas Públicas Estaduais, Gravidez na Adolescência, Facepe/SecMulher.
Desenvolvimento e reprodução – Dayse A. dos Santos et al • 17

redução da fecundidade, não se constatou no Brasil um des-


locamento correspondente da reprodução para faixas etárias
mais velhas, tal como ocorreu em países industrializados cen-
trais (Aquino et al., 2003).
Estudos recentes trazem críticas ao enfoque de risco pre-
sente na literatura sobre sexualidade e reprodução na adoles-
cência. Essas perspectivas destacam a complexidade do fenô-
meno e os desafios colocados para sua adequada investigação.
No que concerne às implicações sobre as trajetórias escolares
e profissionais das jovens mulheres, os autores argumentam
que grande proporção de gestações na adolescência não pode
ser considerada determinante da pobreza, mas possivelmente
por ela condicionada (Aquino et al., 2003).
No presente estudo, buscamos refletir sobre a vida sexual
e reprodutiva de mulheres jovens e a gravidez na adolescência
em contextos de grande desenvolvimento econômico.
O estudo está sendo realizado no estado de Pernambu-
co, que tem se destacado pelo desenvolvimento expressivo nas
últimas décadas. Na página oficial do governo desse estado,3
um dos destaques é a liderança nacional na geração de em-
pregos com carteira assinada. A reportagem destaca que, de
acordo com dados divulgados pelo Ministério do Trabalho e
Emprego (MTE), Pernambuco é o terceiro estado no país que
mais criou emprego formal em agosto de 2011, com 18.613
empregos celetistas, sendo superado apenas por São Paulo
(53.033) e pelo Rio de Janeiro (19.865). Entretanto, a ênfase
é que, considerados o tamanho da economia de São Paulo e a
proximidade dos valores absolutos do Rio de Janeiro, Pernam-
buco está gerando proporcionalmente mais empregos que os
grandes estados do Sudeste.4

3
Disponível em: <http://www.pe.gov.br>.
4
Disponível em: <http://www.pe.gov.br/blog/2011/09/14/pernambuco-e-lider-nacio-
nal-na-geracao-de-empregos-com-carteira-assinada-diz-mte/>.
18 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

O desenvolvimento do estado tem sido decorrência dos


polos de desenvolvimento da região. Este estudo enfoca três
dessas áreas que têm tido destaque: o Complexo Portuário-
industrial de Suape, o Complexo Turístico de Porto de Gali-
nhas e a Agricultura Irrigada de Petrolina.
Tais áreas estão situadas em três municípios do estado. O
complexo turístico de Porto de Galinhas localiza-se na cidade
de Ipojuca; o Complexo de Suape, embora tenha influência
nos municípios próximos, localiza-se nas cidades de Cabo de
Santo Agostinho e Ipojuca; e a agricultura irrigada está situa-
da em Petrolina.
Os três municípios tiveram, na última década, um cres-
cimento populacional acima da média do estado, como de-
monstram os dados do Censo 2010. Todos estão na faixa mais
populosa definida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE), acima de 45.180 habitantes.

Tabela 1. Crescimento populacional dos municípios estudados

População População
Município Aumento %
em 2000 em 20105

Cabo de
152.977 185.025 20,95%
Santo Agostinho

Ipojuca 59.281 80.637 36,02%

Petrolina 218.538 293.962 34,51%

Fonte: IBGE.

Esse aumento populacional deve-se em parte à chegada


de trabalhadores em busca de oportunidades nesses locais. A

5
Disponível em: <http://www.censo2010.ibge.gov.br/sinopse/index.php?uf=26&dados=1>.
Desenvolvimento e reprodução – Dayse A. dos Santos et al • 19

vinda de migrantes com um número expressivo de homens


traz repercussões para a vida das comunidades locais.
Assim, o trabalho busca compreender o dinamismo eco-
nômico sobre a vida sexual e reprodutiva de mulheres jovens
nesses polos de desenvolvimento.

2. Metodologia

Para compreender as especificidades e inter-relações dos


locais pesquisados, faz-se necessário destacar alguns aspectos
caracterizadores de cada um dos polos. O Complexo Turísti-
co de Porto de Galinhas tem como centro a praia de mesmo
nome, que se localiza em Ipojuca.
O Complexo Portuário do Suape localiza-se fisicamente
nos municípios de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca, mas
tem grande influência nas cidades vizinhas e na capital do es-
tado, Recife. Diariamente, circulam centenas de ônibus que
transportam trabalhadores dessas cidades para o Complexo.
Assim, esses dois complexos vizinhos localizados no litoral
sul do estado constituem duas forças de criação de vocações,
ora convergentes, ora divergentes, que se somam de maneira
interligada, proporcionando um ambiente de possibilidades
de vida entre as quais as jovens populações locais transitam.
Petrolina apresenta um contexto mais particular. Distan-
te geograficamente, área de sertão que se desenvolveu com o
uso da tecnologia da irrigação no plantio, insere-se na rede de
desenvolvimento do estado e liga sua atividade à zona litorâ-
nea por meio da exportação de seus produtos pelo novo porto
instalado.
A pesquisa, realizada pelo Núcleo de Pesquisa Fages-UFPE,
teve uma equipe composta por um professor coordenador,
uma pesquisadora doutora e dois pesquisadores estudantes
do mestrado em antropologia.
20 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

No início da pesquisa de campo, orientados pelos órgãos


promotores de atividades que são da “vocação” dos polos e
por uma pesquisa prévia sobre atividades econômicas desen-
volvidas no local, foram escolhidos dois locais em cada polo
para entender de forma mais aprofundada como se dão as
relações de trabalho nos locais, com atenção especial para as
relações de gênero e de geração que ocorrem em função deles,
e, em todos os locais, com atenção especial para as percepções
sobre a inserção de mulheres jovens nesses espaços.
Em cada um desses locais, trabalhamos em cooperação
com duas equipes da Estratégia de Saúde da Família (ESF),
ouvindo os profissionais da equipe multidisciplinar, com des-
taque para os agentes comunitários, sobre a vida sexual e re-
produtiva das jovens e, também, solicitando sua ajuda para
assegurar contatos para a pesquisa.
Assim, em cada município foram elencados dois locais,
e nestes trabalhamos com o apoio de duas equipes de ESF,
totalizando seis áreas cobertas pelo ESF, que foram espaços
mais intensos da realização da pesquisa. Em Ipojuca, os lo-
cais foram Porto de Galinhas/Maracaípe e Nossa Senhora do
Ó; no Cabo de Santo Agostinho, Ponte dos Carvalhos e Gai-
bu; e em Petrolina, as comunidades de São Gonçalo e João
de Deus.
Nesses locais, foram realizadas entrevistas aprofundadas
com meninas/jovens que passaram pela experiência de gravi-
dez na adolescência e com mulheres, avós, cujas filhas engra-
vidaram na adolescência.
Os dados coletados pela equipe abrangem: a) pesquisa
documental, documentos oficiais e recortes de jornais e de
sites; b) pesquisa de campo que resultou em centenas de pá-
ginas de diários de campo ao longo de mais de um ano de
pesquisa de observação e convivência intermitente; c) 68 en-
trevistas abertas com roteiros sobre a experiência de gravidez
com mães jovens (44, entre 16 e 24 anos de idade) e avós (24,
Desenvolvimento e reprodução – Dayse A. dos Santos et al • 21

entre 32 e 65 anos de idade) que foram gravadas, transcritas


e analisadas tematicamente; e d) 418 questionários sobre na-
moros, gravidez, mobilidade e avaliações de oportunidades de
trabalho e efeitos dos projetos de desenvolvimento nos locais,
totalizando 418 questionários com mulheres jovens, entre
16 e 24 anos, independentemente de terem passado pela expe-
riência da gravidez.
Houve uma ênfase na pesquisa nos dois polos litorâne-
os, de Suape e da Indústria Turística em Porto de Galinhas.
Ao polo da agricultura irrigada de Petrolina foi reservado um
papel de contraponto comparativo para alertar contra possí-
veis generalizações incabíveis. Em decorrência de tal ênfase,
os questionários foram aplicados apenas nas áreas dos polos
litorâneos.

3. Discussão e resultados

3.1. Os cenários

A praia de Porto de Galinhas há décadas recebe forte in-


vestimento para a indústria turística. Os dados da prefeitura
destacam a grandiosidade do turismo, enfatizando que esse
trecho do litoral sul de Pernambuco já dispõe de 13 grandes
hotéis e resorts de luxo, mais de 250 pousadas de várias clas-
sificações, formando um conjunto de 10 mil leitos, tendo re-
cebido um fluxo superior a 700 mil turistas ao longo do ano
2010.6 A página oficial da praia7 traz em destaque que ela é a
única escolhida 10 vezes consecutivas a melhor praia do Bra-
sil. Porto de Galinhas tem papel importante no fluxo de turis-
mo do estado.

6
Disponível em: <http://www.ipojuca.pe.gov.br/>.
7
Disponível em: <http://www.visiteportodegalinhas.com/>.
22 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

Tabela 2. Fluxo de turistas em Pernambuco

Chegada de % sobre o % sobre o


Ano
turistas ano anterior ano-base (2005)
2005 3.498.219

2006 3.530.046 0,90 0,90

2007 3.643.038 3,20 4,13

2008 3.775.588 3,63 7,92

2009 3.944.895 4,48 12,76

Fonte: Empetur.

Os moradores locais, que tradicionalmente se ocupavam


de atividades como a pesca no mar e no mangue e o trabalho
rural, vêm se transformando em jangadeiros, caseiros, assala-
riados, prestadores de serviço ou autônomos.
Uma única unidade da ESF opera entre as áreas de Mara-
caípe e Porto de Galinhas. O outro local no qual atuamos jun-
to com a equipe do ESF foi o bairro de Nossa Senhora do Ó.
O antigo distrito de Nossa Senhora do Ó fica a 9 km da
vila de turismo de Porto de Galinhas, no caminho de acesso
à praia. Em razão da proximidade e do menor custo de sobre-
vivência, é o local que agrega grande parte dos trabalhadores
de Porto, tendo tido crescimento expressivo nos últimos anos.
Por causa da proximidade dessa área com o Complexo
de Suape, Nossa Senhora do Ó também é local de moraria de
muitos funcionários do Complexo. Embora haja uma política
estadual de desestímulo à criação de alojamentos de funcio-
nários, as casas e pousadas têm sido utilizadas como local de
moradia dessa população.
É a junção dessas duas vocações que deixa o município
de Ipojuca em uma situação econômica favorável. Segundo
dados da prefeitura,
Desenvolvimento e reprodução – Dayse A. dos Santos et al • 23

Ipojuca cresce a taxas astronômicas. […] Abrigando dois dos


principais polos da moderna economia de Pernambuco, o terri-
tório ipojucano foi contemplado nas três ultimas décadas com
investimentos da ordem de R$ 35 bilhões e 400 milhões resul-
tantes do processo de industrialização no complexo industrial
e portuário de Suape e na expansão do Turismo em seu litoral,
notadamente em Porto de Galinhas.8

O Cabo de Santo Agostinho teve seu desenvolvimento im-


pulsionado com o Complexo Industrial e Portuário de Suape,
que, diferentemente de Porto de Galinhas, é um projeto com
mais de três décadas de planejamento no estado de Pernam-
buco. A fase de implantação intensiva do complexo foi inicia-
da em 2007.
O site do Complexo9 veicula informações sobre a vocação
e a dinamicidade do projeto. Informa que Suape abarca, além
do porto em si, o “maior estaleiro do hemisfério Sul”, uma
refinaria de petróleo, três plantas petroquímicas, mais de 100
empresas já instaladas e ainda tem previsão de instalação de
pelo menos 50 novas indústrias. Os promotores do Complexo
ressaltam que Suape se insere em uma vocação histórica de
comércio estabelecida desde a descoberta do Brasil, remon-
tando à criação de um mito de origem nacional de comércio
internacional.
No Cabo de Santo Agostinho, a pesquisa se desenvolveu
mais intensamente junto às áreas atendidas pela unidade da
ESF: uma no bairro de Ponte dos Carvalhos e outra em Gaibu.
Ponte dos Carvalhos fica como entreposto a pleno ca-
minho de toda a Zona da Mata Sul para os municípios de
Jaboatão e Recife. Cresceu mais intensivamente a partir dos
anos 1950 e 1960, com o êxodo da zona canavieira da Zona da
Mata Sul. Muitos se estabeleceram firmemente em serviços

8
Disponível em: <http://www.ipojuca.pe.gov.br/>.
9
Disponível em: <http://www.suape.pe.gov.pe>.
24 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

comerciais, de reparo de veículos e de recreação ao longo da


estrada. Hoje, o bairro se expandiu muito, ocupando gran-
de extensão em ambos os lados da estrada, com múltiplas
residências individuais de variadas qualidades e uma base
econômica mais variada. É um dos distritos de referência do
município do Cabo e já tem um colégio com ensino muito
qualificado em período integral e a maternidade de referência
do município.
Gaibu é um aglomerado urbano situado na estrada que
leva à vila de Suape (Motta, 1979), uma vila de antigos pesca-
dores que fica colada à beira norte do Complexo de Suape, se-
parada por um braço de mar. Em Gaibu-Suape, residem anti-
gos e atuais pescadores e marisqueiros, junto com surfistas,
e, sobretudo, outros trabalhadores do comércio e de serviços
que trabalhavam e trabalham no comércio local ou, cada vez
menos, em residências de veranistas. É a área com acesso mais
direto a Jaboatão e ao Recife por uma estrada litorânea com
pedágio que passa por um empreendimento imobiliário de
alto luxo implantado em função do desenvolvimento espera-
do por causa do Complexo. A unidade da ESF que opera em
Gaibu está com sua equipe reduzida e precisando de amplia-
ção com muitas áreas de novas residências descobertas em
decorrência do aumento expressivo de moradores.
Gaibu, por ser uma praia e ter muitas casas da população
do Cabo que ia veranear, tornou-se um lugar com oferta de
imóveis disponíveis para os migrantes. As casas de veraneio e
as pousadas passaram a ser residência permanente dos traba-
lhadores vindos de outros locais. Situação distinta de Porto de
Galinhas, onde as pousadas e hotéis destinam-se a um públi-
co turista de poder aquisitivo mais elevado. No Cabo também
estão situados muitos alojamentos de homens trabalhadores
do Complexo.
Petrolina é um município que tem tido destaque no cres-
cimento econômico. De acordo com os últimos dados dos
Desenvolvimento e reprodução – Dayse A. dos Santos et al • 25

produtos internos brutos (PIBs) municipais de Pernambuco


coletados pelo IBGE, o município de Petrolina se situa em sex-
to lugar em ordem de grandeza de seu PIB, cerca de R$ 2,62
bilhões a preços de 2010. Fica abaixo de Recife, Jaboatão, Ipo-
juca, Cabo e bem próximo a Olinda (R$ 2,63 bilhões). Merece
destaque o fato de Petrolina ser sertão e interior, e todos os
demais situarem-se na região metropolitana.
À exceção de Ipojuca, importante sede dos investimen-
tos estruturadores que atualmente se implantam no estado, a
taxa de crescimento anual de Petrolina no período 1999-2008,
da ordem de 4,5% ao ano, ultrapassa a dos demais municípios
citados.
Em 2010, Petrolina foi matéria na revista Veja10 como
destaque nacional na geração de empregos. Com o chamativo
título “O milagre do São Francisco”, a reportagem destacava
a produção da agricultura irrigada, que produz 1 milhão de
toneladas de frutas avaliadas em 1,3 bilhão de dólares.

Tabela 3. Área, produção e valor da produção das


principais culturas de Petrolina, safra 2009

Valor da produção
Cultura Área (ha) Produção (t)
(R$)

Manga 7.500 150.000 60.000.000

Uva 3.800 106.000 276.000.000

Goiaba 2.300 71.400 64.240.000

Coco (mil frutos) 1.500 45.000 12.600.000

Banana 2.700 45.900 22.900.000

Fonte: IBGE, 2010. Preços de 2009.

10
Veja, edição 2180, 1o set. 2010.
26 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

Em Petrolina, a pesquisa se desenvolveu mais intensa-


mente nas comunidades de João de Deus e São Gonçalo. Essas
comunidades foram formadas há pouco mais de duas déca-
das em áreas doadas pela Companhia de Desenvolvimento do
Vale de São Francisco (Codevasf) para construir residências.
Formadas por “favelados” vindos de outros lugares, já foram
conhecidas pela violência e perigo, mas hoje são consideradas
áreas de trabalhadores, um lugar bom para viver.

3.2. Os atores e suas estratégias

3.2.1. Vida sexual e reprodutiva das jovens como objeto de


preocupação estratégica

O desenvolvimento do estado tem sido objeto de preocu-


pação pela possibilidade de influenciar a vida sexual e repro-
dutiva das mulheres de maneira não desejada. Isto é, a pre-
sença de muitos homens trabalhadores migrantes, que vêm
sozinhos, pode resultar também em aumento de gravidezes
na adolescência.
Como destaca Ribeiro (1992), os trabalhadores estão ex-
postos a um cotidiano bastante típico de uma força de tra-
balho imobilizada pela moradia. A vida no acampamento de
um grande projeto é penetrada, em todas as suas esferas, pelos
interesses e necessidades da obra, monitorados por uma ad-
ministração central, à maneira de uma “instituição total”. Os
trabalhadores não especializados estão sujeitos a um controle
muito maior; a presença de suas famílias é, inclusive, impossí-
vel, pois só há, em termos de moradia, a alternativa de ocupar
os alojamentos coletivos, para “solteiros”.
Esse tipo de preocupação ganhou espaço na mídia. Em
2011, o jornal Diário de Pernambuco, um dos principais jornais
locais, publicou uma série jornalística intitulada “Os filhos
Desenvolvimento e reprodução – Dayse A. dos Santos et al • 27

de Suape”,11 que denunciava o abandono paterno de crian-


ças nascidas de relações entre as adolescentes locais, moças
entre 11 e 19 anos, e os trabalhadores migrantes. Ao longo
da semana em que a série foi publicada, saíram reportagens
que abordavam o fato de vir uma massa de trabalhadores
homens, separados de suas famílias e agrupados em grandes
alojamentos.
A reportagem destacava a “cegueira” dos governos para os
casos de exploração sexual, estupro e gravidez na adolescência.
Os textos enfatizavam a vulnerabilidade das mulheres lo-
cais, especialmente as mais jovens, que sonhavam em encon-
trar um parceiro e construir uma família, mas que eram aban-
donadas pelos homens, que já tinham famílias em seus locais
de origem. Essas relações, chamadas de “A sedução da farda”,
“Sonho de Cinderela” e “Hora extra dos prazeres”, destacam a
relação assimétrica entre os homens, que têm emprego e ren-
da, e as mulheres, que estão à procura de um parceiro também
provedor em um contexto em que as oportunidades de empre-
go não são para elas.
Apesar do tom denunciativo da reportagem, os dados do
Cabo de Santo Agostinho e de Ipojuca não permitem dizer
que o problema da gravidez na adolescência se agravou com a
chegada de Suape. Isso se deve em parte às estratégias das pró-
prias envolvidas, como veremos a seguir. Entretanto, a série
chamou a atenção do poder público para o possível aumento
das taxas de gravidez e exploração sexual.
No mês posterior à série veiculada, a Assembleia Legisla-
tiva estadual realizou uma audiência pública para discutir a
exploração sexual na área do Complexo de Suape. Nesse even-
to, discutiu-se a necessidade de verbas públicas para tratar o
problema e de ações concretas para implementar os planos

11
Série de reportagens publicadas pelo Diário de Pernambuco de 8 a 13 de maio de 2011.
28 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

elaborados de combate à exploração sexual contra crianças e


adolescentes.
Uma das participantes da sociedade civil destaca que esse
problema deve-se também à falta do poder público. A falta de
estado refere-se a um modelo de desenvolvimento focado no
setor empresarial em detrimento das condições da população.
E também o não desenvolvimento de muitas ações no plano
social.
A preocupação com a vida sexual das jovens e com o ris-
co de uma gravidez na adolescência tem sido presente tam-
bém nas empresas privadas. Com toda a crítica à presença
massiva de homens em alojamentos, que chegam a concen-
trar mais de 3.500 trabalhadores, ter ações “preventivas” se
configura como atuação de “responsabilidade social” das
empresas.
È o caso da Camargo Correa. Esse grupo é um dos maio-
res grupos empresariais privados do Brasil. Tem atuado for-
temente no Complexo de Suape no setor de engenharia e
construção civil, ramo que abarca o maior número de traba-
lhadores pouco qualificados que vêm para trabalhar no perío-
do da duração da obra.
A Camargo Correia tem promovido no Cabo de Santo
Agostinho um curso de formação dos profissionais da rede
pública de saúde e educação para a redução da gravidez na
adolescência. Na etapa inicial, foram escolhidas quatro unida-
des de saúde da família, considerando os critérios de índices
de gravidez na adolescência, baixo poder aquisitivo da popu-
lação local e local de atração dos migrantes (como é o caso de
Gaibu).
Em razão do crescimento expressivo do Complexo nesta
última década, Suape tem atraído mais olhares para a sexua-
lidade das adolescentes, buscando evitar a exploração sexual e
a gravidez na adolescência. Em Porto de Galinhas, essa é tam-
bém uma inquietude presente.
Desenvolvimento e reprodução – Dayse A. dos Santos et al • 29

Há uma preocupação em evidenciar que o turismo de


Porto de Galinhas é um turismo familiar. Difere de outros lo-
cais no Nordeste, marcados pelo turismo sexual. A prefeitura
destaca que tem medidas administrativas junto aos hotéis e
operadoras de turismo, que vão atuar na região para verificar
o perfil de turistas.
Há uma vigilância dos empreendedores em preservar a
noção que o turismo de Porto de Galinhas tem para as famí-
lias, e que empresários que querem aproveitar as oportuni-
dades de turismo sexual não são bem-vindos. Um hotel que
escolheu proibir a hospedagem de crianças para aproveitar o
mercado de casais em lua de mel, que estariam buscando sos-
sego para suas núpcias, sofreu pressão de outros hoteleiros,
que perceberam que tal caminho poderia levar a uma suspeita
de também estarem promovendo encontros para experiências
sexuais, o que desvirtuaria a imagem “familiar” da praia. Em
pouco tempo, o hotel reverteu sua estratégia, alegando que
os casais, muito satisfeitos com o atendimento durante a lua
de mel, haviam pressionado para que seus familiares (e eles
mesmos, no futuro, com filhos) pudessem se hospedar em um
lugar tão bom.
Os mesmos empresários comemoraram o fim de voos
fretados de países europeus, conhecidos como bate e volta,
que traziam turistas propensos a encarar as praias do Nor-
deste como destino privilegiado para encontros sexuais. Um
dos voos fretados, promovidos por um ex-piloto de Fórmula
Um, que trazia italianos, sucumbiu diante das pressões con-
tra a prostituição infantil, segundo o relato de um oficial de
segurança.
Ainda no espírito de promoção de turismo familiar e al-
ternativo individual, houve fechamento de mais de uma de-
zena de pousadas que hospedaram trabalhadores de Suape
sem tomar as devidas precauções de definição de estada curta,
que rege o princípio da Associação. Já as pessoas que vêm pas-
30 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

sar períodos variados de tempo em suas casas na praia, e que


eventualmente as alugam, particularmente ou por meio de
corretores, também fazem muito mais parte dos que almejam
manter a qualidade familiar e de distinção do local.
Petrolina, por sua vez, tem uma maior inserção das mu-
lheres como mão de obra, inclusive as menores de 18 anos,
seguindo as regras do Ministério do Trabalho. A gravidez na
adolescência não é um problema preocupante. As jovens tra-
balhadoras da agricultura irrigada são percebidas como mui-
to mais cuidadosas com relação a uma gravidez vista como
precoce que as mulheres de gerações anteriores. O foco de lu-
tas são direitos e condições adequadas de trabalho.

3.2.2. Escolhas sexuais e reprodutivas das jovens

3.2.2.1. Complexo de Suape e região turística de Porto de


Galinhas

A parte do Complexo e a região de Porto de Galinhas


realçada pela pesquisa incluem os locais habitados mais dire-
tamente impactados. Abrangem as sedes dos municípios do
Cabo e de Ipojuca. A maior parte da pesquisa de campo se
realizou em quatro locais urbanos nos distritos desses muni-
cípios Porto de Galinhas/Maracaípe e Nossa Senhora do Ó,
em Ipojuca; Ponte dos Carvalhos e Gaibu, no Cabo).
Esses locais, como já destacado, têm sofrido o aumento
expressivo de migrantes. A população local interage de mui-
tas formas com esses migrantes, outsiders cuja chegada afeta
a vida dos estabelecidos, sobre os quais se costuma elaborar
imagens que refletem tanto desconfiança quanto expectativas
positivas.
Sua presença nesses locais pode ser entendida a partir
das formulações de Ribeiro (1992) e Oliveira (2000). Ribeiro
destaca a construção das identidades fragmentadas e utiliza
Desenvolvimento e reprodução – Dayse A. dos Santos et al • 31

a expressão “bichos de obras” para se referir a um contexto


no qual há um segmento de uma população estruturada a
partir de processos migratórios vinculados à formação do
mercado de trabalho de um grande projeto em construção.
Os bichos de obra são pessoas desterritorializadas no sentido
da perda da possibilidade de realizar uma identificação uní-
voca entre território/cultura/identidade, fato que se expres-
sa nos rótulos usados por eles mesmos, ou por outros, para
descrevê-los: desenraizados, expatriados, ciganos, cidadãos do
mundo. Sua desterritorialização “cultural” é preenchida por
uma territorialização definida pela esfera do trabalho.
Em nosso contexto, essa desterritorialização é demons-
trada a partir da generalização dos migrantes identificados
na categoria de “baianos”. Essa definição engloba os traba-
lhadores em um grupo identificado como propenso a brigas
e confusões e por se envolver com mulheres locais, mesmo as
casadas. Embora possuam emprego e uma potencial condi-
ção de provedores, não são vistos como homens preferenciais
para relacionamentos afetivos e conjugais, como veremos nos
dados quantitativos e também transparece no trecho a seguir:

É porque eles são muito exibidos, eles não querem namorar, e


elas [as moças do local] sabem que eles é só um… uma tempo-
rada. O pessoal daqui é diferente, é pescador, mas tem família,
namora e é pra casar! E eles [os migrantes] é tudo sem futuro!
(Entrevista com mãe jovem de Gaibu)

As informações do Quadro 1 são dados dos questionários


aplicados nos quatro locais com jovens mulheres, buscando
compreender aspectos do contexto, como suas escolhas de
parceiros, trajetórias sexuais e reprodutivas e a influência de
trabalho e estudo nesses locais de desenvolvimento. Apresen-
tamos dados de mobilidade e educação e, a seguir, aprofunda-
mos a discussão de reprodução e sexualidade.
32 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

Quadro 1. Mobilidade, educação e trabalho das jovens e


suas famílias nos quatro locais

Nossa Porto de
Ponte dos
Gaibu Senhora Galinhas e
Carvalhos
do Ó Maracaípe
Nascimento no local
a jovem 26,0 42,3 44,3 15,7
Mãe 24,2 31,3 38,8 9,7
Pai 23,6 34,5 46,9 11,8
Nascimento em outro
município ou estado
a jovem 61,0 32,7 42,0 59,8
Mãe 58,6 43,7 48,0 64,5
Pai 60,6 45,3 40,8 58,8
Moradia no local
10 anos ou menos 47,1 28,8 33,3 39,2
Educação
Estuda atualmente 41,3 34,6 42,5 24,5
Segundo grau completo 49,0 51,0 19,8 33,3

Não trabalha 72,1 79,8 71,4 66,7

Fonte: Questionário da pesquisa Três Polos de Desenvolvimento, Fages/UFPE.

Os dados demonstram que muitas das jovens e seus pais


são naturais de Ponte dos Carvalhos e de Nossa Senhora do
Ó, sugerindo a importância de seus padrões históricos de
aglomerados de populações emigradas principalmente de en-
genhos ao longo de mais de meio século. Dois terços das jo-
Desenvolvimento e reprodução – Dayse A. dos Santos et al • 33

vens moram há mais de 10 anos em Ponte dos Carvalhos e em


Nossa Senhora do Ó. Ponte dos Carvalhos, mesmo estando
no caminho da BR que conecta a Zona da Mata Sul e o Reci-
fe, abriga proporcionalmente mais emigrantes expulsos dos
engenhos do próprio município (Cabo) do que Ó em Ipojuca,
que soma mais migrantes de origens de fora do município,
provavelmente em função da atração da proximidade a Porto
de Galinhas.
Em comparação, os locais situados nas praias, Porto de
Galinhas/Maracaípe e Gaibu, tiveram incrementos propor-
cionalmente muito mais pesados em suas populações, a dife-
rença sendo que em Porto de Galinhas a maior acentuação é
em décadas recentes, quando há poucos naturais do local na
geração dos pais das jovens, enquanto em Gaibu a imigração é
muito mais concentrada nos últimos 10 anos.
A baixa qualificação da população em torno do complexo
turístico se destaca tanto por ter poucas jovens com segundo
grau completo, mais notável em Ó que em Porto de Galinhas,
quanto por revelar um menor número de jovens atualmen-
te estudando, pois quem quer completar o segundo grau em
Porto de Galinhas se queixa da precariedade da escola local e da
distância que precisa percorrer para chegar a Ó, onde há melho-
res opções.
Trabalhar em Suape não se configura como opção sig-
nificativa para mulheres em nenhum dos locais pesquisados,
havendo apenas 1% delas que responderam ao questionário
reportando trabalhar no complexo portuário e industrial.
Enquanto um pouco mais das jovens de Porto de Galinhas
consegue encontrar trabalho nos outros locais, há constantes
reclamações de baixa remuneração e de precariedade sazonal.
O primeiro namoro começa antes de 14 anos para mais da
metade das meninas. Os parceiros são mais residentes do pró-
prio local. Em Gaibu e em Porto de Galinhas, a busca de par-
ceiros de fora é muito mais intensa que nos outros dois locais.
34 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

Quadro 2. Escolhas de parceiros

Nossa Porto de
Ponte dos
Gaibu Senhora Galinhas e
Carvalhos
do Ó Maracaípe
Primeiro namoro < 14 anos 61,0 44,3 51,0 54,3

Sobre o primeiro namorado

De outro município ou estado 44,1 14,4 26,2 44,8

Conheceu:
na escola 20,0 25,8 16,7 20,0
na vizinhança 37,0 25,8 31,4 41,0
na igreja 3,0 14,4 4,9 4,2
em bar ou festa 8,0 11,3 19,6 16,8

Com relações sexuais: 47,1 49,5 55,3 66,3


Usou prevenção na primeira
81,3 63,3 80,4 61,9
vez
Primeira preocupação
39,5 46,9 40,0 26,9
gravidez
Engravidou dele 33,3 40,8 46,4 50,8
Nossa Porto de
Ponte dos
Gaibu Senhora Galinhas e
Carvalhos
do Ó Maracaípe
Sobre o parceiro atual
é do local 44,2 77,5 75,3 58,3
de outro município/estado 45,5 17,6 18,5 25,0

Conheceu:
na escola 11,8 8,8 11,1 8,5
na vizinhança 28,9 22,5 27,2 49,3
na Igreja 7,9 17,5 4,9 5,6
em bar ou festa 15,8 26,3 23,5 14,1

Ele não trabalha 21,1 22,5 24,4 9,9


Trabalha no local 10,5 28,8 17,9 21,1
Trabalha em Suape 40,8 22,5 26,9 12,7
Trabalha em Porto 3,9 1,3 21,8 47,9

Fonte: Questionário da pesquisa Três Polos de Desenvolvimento, Fages/UFPE.


Desenvolvimento e reprodução – Dayse A. dos Santos et al • 35

A vizinhança é mais importante que a escola como local


para conhecer o primeiro namorado, embora em Ponte dos
Carvalhos a escola e a igreja sejam ainda mais importantes es-
paços institucionais para identificar quem se quer namorar.
Ainda no que tange a conhecer os primeiros namorados, os
ambientes de festa ou de bar, embora não predominantes, são
identificados mais pelas que residem próximo ao complexo
turístico de Porto de Galinhas.
A proteção na primeira relação sexual foi usada mais pe-
las jovens de Gaibu e de Nossa Senhora do Ó, que tomaram
precaução em 80% dos casos. Em Porto, usou-se menos pro-
teção (61,9%) e se ao usar se preocupou muito mais com do-
enças que com gravidez. E foram justamente essas jovens que
mais frequentemente ficaram grávidas do primeiro namora-
do (50,3%).12 Pode ter havido mais confiança nas relações se-
xuais com os primeiros namorados em Ponte dos Carvalhos,
pois, além de boa parte não usar proteção na primeira rela-
ção, as que a usaram estavam mais preocupadas com gravi-
dez, e não com doenças, do que as jovens em outros locais.
Em função da migração massiva recente de trabalhado-
res em Suape para Gaibu, a origem desses parceiros é bem
mais acentuadamente de fora do local do que nos outros três
lugares pesquisados. Em Nossa Senhora do Ó e em Ponte
dos Carvalhos, os parceiros são predominantemente locais,
e, sem desprezar a importância da escola e da vizinhança,
as jovens mudaram os espaços de sociabilidade para en-
contrar esses parceiros, recorrendo mais frequentemente a
bares e festas em ambos os locais, e a igrejas em Ponte dos
Carvalhos.
Para esses parceiros, mais uma vez encontrar trabalho é
mais fácil em Porto, mas, igualmente ao que ocorre com as
jovens, é um trabalho mal remunerado, precário e sazonal.

12
Excluindo as que reportaram não ter relações sexuais com seus primeiros namorados.
36 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

Como a pesquisa foi feita no mês de janeiro, havia muita in-


fluência da alta estação de turismo na declaração de estar tra-
balhando. Suape revela ser um crescente polo empregador,
não somente em Gaibu, mas também em Ponte dos Carvalhos
e em Nossa Senhora do Ó. Entre todos os locais, Gaibu ofere-
ce menores oportunidades locais para trabalhar.

Quadro 3. Vida sexual e reprodutiva

Nossa Porto de
Ponte dos
Gaibu Senhora Galinhas e
Carvalhos do Ó Maracaípe
Idade da primeira
gravidez da mãe
<16 anos 22,2 25,3 30,3 28,6
<19 anos 54,4 51,8 61,8 55,7
Idade da jovem na
primeira relação sexual
<13 anos 2,4 2,7 5,8 9,6
<14 anos 15,3 12,0 18,6 20,5
<16 anos 45,9 37,3 48,8 61,4
Idade da jovem na
primeira gravidez
Nunca engravidou 53,3 52,4 44,3 39,2
Engravidou <16 anos 16,7 20,4 30,5 33,9
Engravidou <19 anos 60,4 65,3 74,6 79,0
Experiência de gravidez
Mais de uma vez 37,0 32,6 45,6 46,8

Fonte: Questionário da pesquisa Três Polos de Desenvolvimento, Fages/UFPE.

Mais da metade das jovens entre 16 e 24 anos já engra-


vidou, com uma diferença entre os dois polos de desenvolvi-
Desenvolvimento e reprodução – Dayse A. dos Santos et al • 37

mento. As que residem mais próximo ao complexo turístico e


cujas origens reportam mais ao trabalho rural são mais pro-
pensas a engravidar cedo (15 anos ou menos) que as que mo-
ram nos locais no município de Cabo. Também continua com
proporções mais altas as jovens que tenham engravidado até
18 anos de idade. Elas apresentam ainda taxas significativa-
mente mais elevadas de multiparidade.
Uma das observações frequentes de pesquisadores sobre
a vida reprodutiva e sexual das jovens é de que elas estão se-
guindo um padrão estabelecido pela própria mãe (ver revisão
de literatura em Heilborn et al., 2006). De fato, em Ponte dos
Carvalhos e em Gaibu, tanto pelas gravidezes com idade in-
ferior a 16 anos quanto pelas gravidezes com idade inferior
a 19 anos, as avós (nome que adotamos para nos referirmos
às mães das jovens) tendiam a ter filhos em idade mais nova
que suas filhas, enquanto em Nossa Senhora do Ó a idade é
equivalente, apenas havendo na situação de Porto de Galinhas
uma idade menor para a geração mais nova de mães. Mais do
que as outras jovens mães, as jovens mães de Porto se expuse-
ram mais cedo à probabilidade de engravidar e de adoecer em
função de sua vida sexual.

3.2.2.2. Agricultura irrigada de Petrolina

No contexto de Petrolina, como destacamos, a pesquisa


não utilizou a aplicação de questionários. Nesse polo, a análi-
se foi feita com o uso de observações e entrevistas, tendo sido
reservado um papel de contraponto comparativo com os ou-
tros polos. Em Petrolina, há uma maior inserção das mulheres
na força de trabalho, sendo esse um fator que contribui para
menores taxas de gravidezes em relação às mulheres que não
trabalham. A grande produtividade de uvas demanda mão de
obra feminina, por ser considerada uma atividade que neces-
sita de destreza.
38 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

Para as mulheres assalariadas da agricultura, a gravidez é


evitada mais frequentemente por ser um fator que dificultará
o trabalho. Assim, são alcançadas maiores taxas de gravidez
de mulheres jovens nas áreas de pequena produção. Os incen-
tivos governamentais de apoio às gestantes são percebidos
como estímulo à gravidez em detrimento do incentivo a opor-
tunidades de trabalho mais amplas e com direitos assegura-
dos. Assim, ouvimos relatos de que o “salário-maternidade”,
isto é, o direito ao recebimento de quatro salários mínimos da
mulher gestante acima de 17 anos, estimula que as mulheres
tenham filho ao chegar a essa idade. Em um caso citado, a mu-
lher grávida se referia à gravidez, alisando a barriga: “aqui é a
moto”, fazendo referência à moto que pretendia comprar com
o dinheiro. Outra disse que ia comprar duas vacas para beber
leite. Já fazem planos para o dinheiro a receber.
Petrolina conta com um sindicato de trabalhadores ru-
rais muito estruturado, que reivindica os direitos trabalhistas,
inclusive garantias de direitos às mulheres trabalhadoras. As
representantes do sindicato relatam que a convenção de tra-
balho tem cláusula que protege a mulher, como o direito de
faltar ao trabalho para realizar o exame preventivo de câncer
de colo do útero, ou regras para coibir o assédio. Elas dão um
exemplo de assédio moral: uma mulher que foi chamada de
cachorrinha. Ela ganhou na justiça “pouquinho”, mas em tor-
no de 1.200 ou 1.300 reais. Citando outros direitos, lembram
que a mulher cujo filho adoecer pode faltar ao trabalho. Essa
convenção existe desde 1994 para proteger os agricultores.
O trabalho na agricultura é intenso e desgastante, mas
oferece à população uma perspectiva de maiores ganhos que
o trabalho na cidade, no comércio, por exemplo. Como citam
os moradores locais: “No comércio tem ar condicionado. Na
agricultura é sol e veneno.” Assim, o relato das mulheres sobre
o trabalho demonstra as ambiguidades; é uma boa oportuni-
dade, mas com desgastes e riscos diversos.
Desenvolvimento e reprodução – Dayse A. dos Santos et al • 39

Mas eu já trabalhei raliando. Raliando é assim: o cacho [de uva]


é cheio de bago, um cacho normal, aí você tem que pegar e tirar
as bagas miúdas e os talos daquele cacho, deixar ele bem solti-
nho, pra quando for dobrar ele pra todo canto, quando ele tiver
no ponto. Aí vai afrouxando ele pra ficar um cacho perfeito.
Sou apaixonada pela área de irrigação, fiz dois anos trabalho de
irrigação, gosto muito do trabalho de irrigação. É muito bom.
[…] Aí eu não quis ficar lá mais não, por causa do veneno. Eu
peguei uma alergia lá, do veneno das formigas. Fiquei toda em-
polada. (Entrevista com jovem)

Esse trecho demonstra claramente o paradoxo de um


“trabalho bom” para as condições locais, no qual a jovem
não quis permanecer por causa dos agrotóxicos. Outra in-
formante destaca que a atividade é rápida e o braço cansa
muito.
Outro fator para as que não são assalariadas, ou seja, são
contratadas apenas para a safra, é o período sem atividades e
a jornada extensa no período da safra, como demonstra esta
fala de uma avó que trabalha embalando manga, uma ativi-
dade de safra, que faz com que as trabalhadoras passem um
tempo sem atividades nem renda.

Trabalho, assim… agora mesmo eu tô desempregada! Só por


época mesmo. […] Embalando as caixinhas de manga. É muito
cansativo. Cansativo é. Porque, quando começa, ai, ai, ai! Ô! A
gente tem que… tem que levar a marmita da gente, comer comi-
da de marmita. E é pra… é pra… é embalando manga todo dia…
num tem hora. Tem dia que de 4h até… 7h, 8h da noite… tem
dia que entra de 7h da manhã, de 7h30, 8h… a gente num tem
um horário… só tem a hora do almoço, aquela hora de descanso
e pronto. (Entrevista com avó)

Para as trabalhadoras assalariadas, um programa im-


portante é o Chapéu de Palha, que pode beneficiar a si pró-
pria ou a outra pessoa da família, como no relato a seguir.
40 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

É uma estratégia para amenizar as condições precárias de


trabalho.

Porque eu tô fazendo cinco cursos. […] Eles falaram com a mi-


nha mãe, que minha mãe faz Chapéu de Palha, que ela é tra-
balhadora rural, trabalha na uva. Aí eles falaram, e ela não po-
dia fazer, porque tava trabalhando. Aí ela foi e me deu a vaga
dela […]. Porque foi quando surgiu a oportunidade, porque são
todos gratuitos. Aí surgiu a oportunidade. Primeiramente eu
comecei a fazer o de informática, lá no Senai. É porque é pelo
Chapéu de Palha. Aí depois do de informática surgiu a opor-
tunidade de fazer o de mecânica de motos, aí eu conheci uma
pessoa lá e ela disse que ia ter o de técnicas bancárias. Aí eu
fui e fiz, tô fazendo, né, tô cursando. E também o de ética, e
outro de informática, porque esse de informática lá também
já é pra trabalhar no banco, talvez de lá a gente já vá trabalhar
no banco. […]
[Entrevistadora:] E tua mãe gosta de trabalhar na uva?
Gosta. Não é tanto gostar, é porque é a opção que tem. Porque
é melhor trabalhar na uva do que em casa de família. Minha
mãe diz isso: “eu prefiro trabalhar mil vezes com a uva do que
em casa de família”. Casa de família você aguenta muito. Tem
pessoas legais e tem pessoas chatas, né? Aí ela não tem muita
sorte de pegar patrão bom, aí ela optou pela uva. Faz uns anos
já que ela trabalha na uva. Bastante tempo. (Entrevista com
jovem)

O trabalho na agricultura aparece como uma opção


em um cenário de poucas oportunidades para a população,
mas isso não significa que essa “oportunidade” ocorra sem
paradoxos.

4. Considerações finais

Os resultados preliminares da pesquisa em andamento


demonstram que os polos de Porto e especialmente de Suape
atraem para si um contingente populacional especialmente
Desenvolvimento e reprodução – Dayse A. dos Santos et al • 41

masculino, propiciando o encontro entre populações atin-


gidas e populações atraídas, no qual as práticas e estratégias
de reprodução humana adquirem significados marcados por
esse encontro. Cada polo busca a realização de seus objetivos
de implantação e reificação de vocações locais, e nesse contex-
to os jovens são alvo de políticas de uso de força de trabalho
para alcançar as metas econômicas da dinâmica vocacional
idealizada para o local.
Os dados sugerem que a sexualidade preferencial é com
parceiros “estabelecidos”, pois os outsiders representam muito
risco e desconhecimento. As mulheres jovens, ao exercerem
sua sexualidade e sua capacidade reprodutiva, abrem um cam-
po de construção de significados e práticas. A gravidez estimu-
la morais tradicionais, e a inserção dessas jovens mulheres e
mães no mercado de trabalho apresenta diferenças de acordo
com os tipos de atividades nos polos e o tempo de implemen-
tação das vocações locais.
No Complexo de Suape, quase nenhum espaço tem sido
destinado às mulheres, fazendo com que elas fiquem à mar-
gem do “desenvolvimento”. Na indústria turística também
não há uma ampla inclusão. Em Petrolina, vemos mulheres
com acesso ao trabalho, mas um trabalho precarizado, que
leva a uma inserção intermitente. Os dados encontrados de-
monstram semelhanças com a literatura sobre gravidez na
adolescência, que revela uma relação entre a precariedade e as
altas taxas de gravidez, e não o inverso. Assim, os resultados
preliminares sugerem que políticas e programas que busquem
reduzir índices de gravidez na adolescência serão insuficientes
se não relacionados com uma efetiva inserção em condições
adequadas das mulheres nessas alardeadas oportunidades
desses polos.
42 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

Referências

AQUINO, E. et al. Adolescência e reprodução no Brasil: a heterogeneidade


dos perfis sociais. Cad. Saúde Pública, v. 19, supl. 2, 2003.

ELIAS, N.; SCOTSON, J. The established and the outsiders: a sociological


enquiry into community problems. Londres: F. Cass, 1965.

HEILBORN, M. L.; AQUINO, E. M. L.; BOZON, M; KNAUTH, D. R. O


aprendizado da sexualidade: reprodução e trajetória sociais de jovens brasi-
leiros. Rio de Janeiro: Garamond/Fiocruz: 2006.

MOTTA, R. O povoado de Suape: economia, sociedade e atitudes. Revista


Pernambucana de Desenvolvimento, Recife: Instituto de Desenvolvimento de
Pernambuco, v. 6, n. 2, p. 209-247, 1979.

OLIVEIRA, R. C. Os (des)caminhos da identidade. RBCS, v. 15, n. 4, fev.


2000.

RIBEIRO, G. Bichos de obra: fragmentação e construção de identidades.


Revista Brasileira de Ciências Sociais, n. 18, p. 30-40, 1992.
Dialogando com homens trabalhadores
de Suape: demandas, necessidades,
atitudes e práticas em saúde
Benedito Medrado, Jorge Lyra, Túlio Quirino, Ana Luísa Cataldo,
Andréa Paula da Silva, Claudemir Silva Filho, Felipe Alves e
Anna de Cássia P. de Lima

Este texto versa sobre um componente de pesquisa do


projeto “Homens, gênero e atenção à saúde”, que integrou o
programa “Diálogos para o Desenvolvimento Social de Sua-
pe”. Esta pesquisa, de natureza quantitativa, teve o objetivo
de produzir um levantamento de informações sobre conhe-
cimentos, atitudes e práticas dos trabalhadores de Suape, em
temas relativos a saúde, sexualidade e violência.
Para tanto, foram realizadas (e validadas) 421 entrevistas
estruturadas com homens que, na época (2012-2014), atuavam
nas empresas terceirizadas (11) responsáveis pela construção
dos principais empreendimentos do Complexo Suape. O ro-
teiro das entrevistas continha questões, organizadas em blocos
temáticos, envolvendo práticas de saúde e autocuidado, pa-
ternidade e cuidado e violência. Na pesquisa de campo, foram
envolvidos 24 pesquisadores/as (selecionados e treinados).
No texto a seguir, apresentaremos os principais resultados
dessa pesquisa, tendo por base uma leitura feminista de gênero.

1. “Homens” como categoria politicamente


útil e gênero para além da fotografia

Analisando o quadro geral da saúde dos homens e os ín-


dices de morbimortalidade masculina, tem-se como referência
44 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

o documento “Indicadores e dados básicos para a saúde – IDB


2006 Brasil”, publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE) em parceria com o Ministério da Saúde,
que expôs nessa edição o tema “Saúde do homem”.1 Essa pu-
blicação apresenta os principais indicadores de morbimor-
talidade masculina agregados por região, faixa etária, renda,
entre outros critérios, além de revelar que os homens jovens
são aqueles que apresentam maiores índices de internamen-
to e morte por causas externas – homicídio, violência e uso
abusivo de drogas. Estas últimas apresentam-se diretamente
relacionadas com os processos de socialização que, em geral,
orientam vulnerabilidades pessoais e programáticas.
Nessa mesma direção, informações do Datasus mostram
que as principais causas de adoecimento e morte dos homens
na microrregião de Suape, especialmente os mais jovens, estão
relacionadas com o que se define em saúde como “causas ex-
ternas”, ou seja, aquelas resultantes de violência, acidentes de
trânsito e uso abusivo de drogas. A saúde do homem, ou mais
precisamente seu adoecimento e morte, está, portanto, dire-
tamente relacionada com modos de vida e padrões de gênero
machista. Em outras palavras, esses homens aprendem, des-
de pequenos, que “ser homem é ser naturalmente violento” e
que “prevenção em saúde é coisa de mulher”, pois os padrões
de gênero potencializam práticas baseadas em crenças de que
a doença é considerada um sinal de fragilidade e que os ho-
mens, por consequência, seria invulneráveis.
Vale ressaltar que, infelizmente, apesar de toda leitura crí-
tica sobre o uso desse conceito (Scott, 1988; Izquierdo, 1992),
gênero ainda é, em geral, tomado como “construção social
sobre os sexos”, e as pesquisas sobre gênero ainda tendem a
construir fotografias quase óbvias sobre a dicotomia e as desi-
1
Disponível em: <http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/idb2006/folder.htm>. Acessado em:
20 dez. 2014.
Dialogando com homens trabalhadores de Suape – Benedito Medrado et al. • 45

gualdades entre homens e mulheres. No entanto, cremos que


“construção social sobre o sexo” é propriamente a definição
de “papel sexual”, conceito que antecede o debate sobre gê-
nero e contra o qual os estudos sobre gênero se construíram,
especialmente depois de Joan Scott (1988), quando definiu
gênero, em linhas gerais, como institucionalização primária
do poder.
Também autores(as) como Gayle Rubin (1986) e suas lei-
turas sobre o sistema sexo-gênero contribuíram sobremaneira
para a expansão desse conceito. Mais recentemente, a divulga-
ção das leituras de Thomas Laqueur (1990) sobre a constru-
ção social do sexo resultou em um inevitável (de nosso ponto
de vista) deslocamento em relação à conceitualização original
de gênero. Ou seja, essas produções nos levaram a uma leitu-
ra sobre o sexo também como construção social, baseada em
uma diferenciação fabricada entre o masculino e o feminino,
entre os homens e as mulheres; uma diferenciação estratégica
e politicamente útil (Costa, 1995).
Felizmente, como bem nos adverte Scott (1988), nossas
vidas são mais criativas do que nos oferecem nossas categorias
de análises e nossas categorias políticas (especialmente as que
se baseiam em identidades).
Assim, falar de/com os “homens” é muito importante
e necessário, desde que reconheçamos a categoria “homem”
como uma produção política, ou, nas palavras de Gayatri
Spivak (1987), um “essencialismo estratégico”: um sujeito fa-
bricado tendo em conta nossos interesses éticos e políticos,
com vistas a produzir transformações nas desigualdades de
gênero.
Em síntese, é necessário entender essa categoria “homem”
sempre:

a) como categoria política estratégica, não como uma condi-


ção natural de existência;
46 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

b) como categoria “situada”, portanto provisória, precária e


parcial (Haraway, 1991);
c) como uma construção que se desenvolve em níveis relacio-
nais, pessoais, mas também institucionais, simbólicos e
culturais.

Aliada a essa leitura crítica dos usos da categoria “homem”,


a perspectiva feminista de gênero, de inspiração psicossocial,
adotada nesta pesquisa para pensar os homens e masculini-
dades tem por base as reflexões apresentadas por Lyra e Me-
drado (2008). Neste capítulo, a saúde pública é compreendida
como um campo de relações interpessoais e institucionais
que se organizam em dispositivos e relações de poder e que
marcam posições de sujeito e modos de ser, de saber e de fazer,
orientadas por gênero. Nessa perspectiva, para produzirmos
uma leitura feminista de gênero, segundo esses autores,

[…] é preciso romper com modelos explicativos que, via de


regra, reafirmam a diferença e que nos permitem somente ex-
plicar como ou por que as coisas assim são, mas que não apon-
tam contradições, fissuras, rupturas, brechas, frestas… que nos
permitam visualizar caminhos de transformação progressiva
e efetiva. Apostamos na necessidade de abrirmos espaço para
novas construções teóricas que resgatem o caráter plural, po-
lissêmico e crítico das leituras feministas. (Lyra e Medrado,
2008, p. 833)

2. Sobre a produção das informações

Esta pesquisa exploratória, com amostragem por conve-


niência, foi produzida a partir de entrevistas semiestrutura-
das com homens, com idade a partir de 18 anos, residentes na
microrregião de Suape, que atuavam na construção da Refina-
ria Abreu e Lima e na Petroquímica Pernambuco.
Dialogando com homens trabalhadores de Suape – Benedito Medrado et al. • 47

O Complexo Industrial Portuário de Suape, mais conhe-


cido como Complexo de Suape, é um polo de desenvolvimen-
to do Brasil considerado um porto-indústria com mais de
100 empresas em operação.2 A presente pesquisa foi realizada
nessa microrregião no canteiro de obras da Refinaria Abreu
e Lima e da Petroquímica Suape, dois empreendimentos de
grande porte responsáveis pela criação do maior número de
postos de trabalho na região, que envolve os municípios de
Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca, integrantes da Região
Metropolitana de Recife. Para este estudo, foram acessadas,
no total, 11 empresas.
Foi construído (e testado) um instrumento próprio com
vistas a produzir informações sobre atitudes, conhecimentos
e práticas desses homens no que se refere a cuidados em saú-
de, sexualidade, vida reprodutiva e violência de gênero. Esse
instrumento foi produzido a partir dos seguintes instrumen-
tos já existentes, adaptados à realidade local, bem como aos
objetivos da pesquisa:

1) pesquisa internacional “Men, sexuality, rights and self


construction”, coordenada pelo International Reproduc-
tive Rights Research Action Group (IRRRAG), 1999-2003
(Portela et al., 2004);
2) pesquisa multicêntrica nacional “Homens nos Serviços pú-
blicos de saúde: rompendo barreiras culturais, institucio-
nais e individuais – regiões Nordeste, Sul e Sudeste”, coor-
denada pelo Instituto Papai, 2005-2007 (Lyra et al., 2009);
3) pesquisa multicêntrica nacional “Masculinidades: repre-
sentações e práticas de saúde”, coordenada pela Rede de Es-
tudos e Pesquisas em Psicologia Social (REPPSO) da Uni-
versidade Federal do Espírito Santo, 2007-2009 (Trindade
et al., 2011);

2
Disponível em: <http://www.suape.pe.gov.br/institutional/institutional.php>.
48 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

4) pesquisa “International men and gender equality survey”


(Images), coordenada pelo Instituto Promundo (Ricardo et
al., 2009).

Os critérios para participar dessa atividade foram: se au-


todefinir como homem; trabalhar em uma das empresas res-
ponsáveis pela construção da Refinaria Abreu e Lima e/ou
Petroquímica Suape; ter idade igual ou superior a 18 anos; e
expressar desejo de participar voluntariamente da pesquisa,
prontificando-se a assinar o Termo de Consentimento Livre
e Esclarecido (TCLE). Foram excluídos os que: 1) não se en-
quadravam nesse perfil; 2) tinham algum comprometimento
físico ou mental que impedia sua participação; ou 3) não ex-
pressavam desejo de participar voluntariamente da pesquisa.
No total, foram realizadas entrevistas estruturadas com
434 homens trabalhadores das empresas terceirizadas; contu-
do, foram validadas 421 entrevistas e 13 não o foram por apre-
sentarem falhas no processo de condução, como informações
incompletas ou inexistentes e ausência do TCLE. O roteiro
das entrevistas continha 85 questões, sendo estas abertas e em
sua maioria questões fechadas, organizadas em um bloco ge-
ral, com informações sociodemográficas, e seis blocos temáti-
cos: práticas de saúde e autocuidado; álcool e outras drogas;
paternidade: acompanhante; paternidade: licença; violência;
vida sexual e reprodutiva.
O processo de condução das entrevistas desenvolveu-se
no interior da Refinaria, especificamente nas áreas de lazer
dos trabalhadores, durante o horário destinado ao almoço.
Participaram do processo 24 pesquisadores(as) previamente
selecionados(as) e capacitados(as).3 Os entrevistados foram in-
formados sobre os objetivos da pesquisa e assinaram o TCLE.
3
Os(as) pesquisadores(as) foram selecionados(as) a partir de convocatória, tendo como
principal critério ser estudantes (de graduação ou pós-graduação) com experiência em
pesquisas sobre gênero e/ou com essa abordagem metodológica.
Dialogando com homens trabalhadores de Suape – Benedito Medrado et al. • 49

Tabela 1. Quantitativo de entrevistas realizadas por empresa

Quantidade de Entrevistas
Empresa
trabalhadores realizadas
Consórcio Alusa CBM 1.259 15

Alusa (Cafor) 2.000 27

Consórcio Camargo Corrêa CNEC – CCN 5.618 73

Consórcio Conduto Egesa – Coeg 1.505 19

Consórcio Rnest Conest 9.500 122

Consórcio EIT/Engevix 1.400 18

Consórcio ETDI Egesa/TKK Engenharia 1.500 21

Galvão Engenharia 1.475 20

Tomé Engenharia 1.982 26

EBE Alusa 673 9

Consórcio Ipojuca Interligações 6.691 84

Total 34.338 434*

* Foram validadas 421 entrevistas.

As questões contidas no instrumento foram lidas pelos(as)


pesquisadores(as), assinalando a opção correspondente às res-
postas dadas, e no caso das questões abertas foi anotada a fala
proferida pelo entrevistado em sua íntegra.
Quanto aos cuidados éticos, esta pesquisa foi aprovada
pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Pernambuco
(UFPE) e segue as Diretrizes e Normas Regulamentadoras de
Pesquisas Envolvendo Seres Humanos do Conselho Nacional
de Saúde (Resolução no 196/1996). De todo modo, é impor-
tante informar que esta pesquisa está assumindo três estraté-
gias com vistas a garantir um maior respeito em relação aos
entrevistados, conforme Mary Jane Spink (2000), consideran-
50 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

do implicações e cuidados éticos que pretendemos desenvol-


ver na condução das entrevistas:

• consentimento livre e esclarecido – que consiste na solicitação


aos(às) informantes e às instituições de um consentimento,
por escrito, de que eles(as) se dispõem a colaborar com o es-
tudo e autorizam o uso do material discursivo e documen-
tal produzido durante a pesquisa ou fornecido por eles(as).
Esse acordo selado é, obviamente, passível de ser revisto
durante o desenvolvimento da pesquisa; é um direito que
assiste aos informantes;
• anonimato – mesmo obtendo, por parte dos(as) informan-
tes, autorização para uso e referência aos relatos e opiniões,
isso não isenta a necessidade de manter em sigilo a identifi-
cação dos(as) participantes;
• resguardo das relações de poder abusivo – consiste em uma rela-
ção de confiança entre pesquisador(a) e participantes, consi-
derando que não há, nem deve haver, relações hierárquicas,
nem abuso de poder dos pesquisadores(as) no trato com
os(as) informantes, ou seja, que o(a) pesquisador(a) não se
deixe levar pela curiosidade pessoal, respeitando, inclusive,
o direito de não resposta por parte do(a) entrevistado(a).

3. Alguns resultados

As respostas produzidas foram tabuladas em programa


estatístico específico para pesquisa em ciências sociais (SPSS
versão 18). As questões abertas foram compiladas como apre-
sentadas pelos entrevistados e, posteriormente, alocadas em
categorias construídas em discussão coletiva entre os(as)
pesquisadores(as) envolvidos(as). Foi empreendido, então,
um exaustivo processo de recodificação, além de correção de
erros como equívocos de digitação e alteração no sistema de
Dialogando com homens trabalhadores de Suape – Benedito Medrado et al. • 51

codificação de respostas. Posteriormente, foram geradas fre-


quências simples e alguns cruzamentos.
Organizamos, assim, a análise em quatro grandes eixos
temáticos: 1) caracterização da amostra; 2) práticas de saú-
de, prevenção e autocuidado; 3) paternidade e cuidado; e 4)
violência.

3.1. Caracterização da amostra

Do total de 421 trabalhadores entrevistados, quatro ti-


nham 18 anos (idade mínima) e apenas um tinha 66 anos (ida-
de máxima). A média registrada foi de 33 anos, sendo 28 anos
a idade mais frequente (moda) e a faixa etária mais frequente
entre 20 e 30 anos, correspondente a 46,6% da amostra.
Quanto à cidade de origem (ou seja, onde nasceram),
observamos uma diversidade de referências, incluindo, além
de Cabo (13%), Ipojuca (3%), outras cidades da Região Metro-
politana (23%), mas também outras cidades de Pernambuco
(26%), outros estados da região Nordeste (25%) e de outras re-
giões (10%). Do total, 50% disse morar na ocasião da pesquisa
entre Cabo (38%) e Ipojuca (12%), e 50%, em outra cidade da
Região Metropolitana de Recife (especialmente Jaboatão dos
Guararapes, Recife e Escada). A maior parte dos trabalhadores
apresenta como local de morada residência própria (44%) e
residência alugada (28%), evidenciando que, apesar de a maio-
ria ter vindo de outras cidades, na época eles encontravam-se
instalados próximos a Suape.
Com relação à escolaridade, a maior parte dos entrevista-
dos tem ensino médio completo (51,3%) e não realizou cur-
so técnico (70,3%). Quando questionados sobre sua cor/raça,
responderam ser parda (37,8%), branca (27,1%), preta (18,1%),
amarela/oriental (2,1%), indígena (1,4%) e não sabe/não res-
pondeu (2,3%). Entre os homens que marcaram a opção
“outra” (11,2%), destaca-se a nomeação “moreno” e suas de-
52 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

rivações (moreno claro, moreno escuro etc.). Seguindo orien-


tações do IBGE, ao somarmos os pardos e pretos, temos um
percentual de 55,9% de entrevistados autodeclarados na cate-
goria negros.
Quanto ao estado conjugal, a maior parte dos homens
encontrava-se casada (45,1%), enquanto alguns nunca haviam
sido casados (29%) e viviam com companheiro(a) (20,4%).
Apenas 30,4% afirmaram frequentar alguma religião, dos
quais 56,1% disseram estar vinculados à Igreja Católica e 39,5%,
à Igreja Evangélica (especialmente à Assembleia de Deus).
Quanto à ocupação profissional, predominou entre os
entrevistados a opção operário (63,2%), com renda mensal mé-
dia de R$ 2.084,95, sendo R$ 1.200,00 a renda mais frequente,
dividida, em média, para três ou quatro pessoas; 82,4% dos
trabalhadores são os responsáveis pela renda principal de sua
família. Estavam trabalhando em Suape, em sua maioria, há
pelo menos um ano na região.

3.2. Práticas de saúde, prevenção e autocuidado

Nesse eixo temático, focalizamos as respostas produzi-


das pelos entrevistados em relação a práticas de cuidado em
saúde, em geral, e sobre sexualidade, em particular. De acordo
com as respostas, 74,8% dos homens entrevistados afirmaram
ter procurado ajuda para cuidar da saúde no último ano. Essa
informação é importante, tendo em vista que, pelo menos do
ponto de vista deles, há demandas e procura de ajuda. Quan-
to ao motivo para buscar ajuda, houve uma diversidade de
respostas, entre elas: 17,6% dos entrevistados apontaram os
exames médicos, 15,7% mencionaram dores, 3,1% disseram
ser motivados pela ocorrência de acidentes e 4% procuraram o
serviço de saúde para realizar alguma cirurgia.
Os grupos mais frequentes que são acessados para dar
suporte e/ou apoio psicossocial, sendo buscados quando os
Dialogando com homens trabalhadores de Suape – Benedito Medrado et al. • 53

homens se sentem tristes, frustrados e/ou despontados, são:


amigos(as) (27,8%), companheira (20,4%) e parentes (22,3%).
Logo, esses grupos podem ser importantes parceiros para uma
intervenção integral à saúde dos homens. Assistente social foi
referido por 0,7% e profissional de saúde, por apenas 0,2% dos
entrevistados.
Ao perguntarmos diretamente sobre os serviços de saúde
acessados em algum momento da vida para a prevenção e/ou
recuperação dos agravos à saúde, observamos que 49,4% dos
entrevistados afirmaram que procuram médico particular, as-
sim como 19% utilizam o serviço de saúde da empresa. A gran-
de surpresa foi a terceira opção no que diz respeito ao acesso e
uso da rede de saúde: o posto de saúde (atenção básica) apare-
ce com 17,8% das respostas. Essa informação se torna mais re-
levante quando contrastamos com os serviços de emergência,
que aparecem com 8,3% das respostas, indicando que, mesmo
com acesso ao sistema privado de saúde, boa parte desses ho-
mens acessam os serviços públicos de saúde.

Tabela 2. Respostas dos entrevistados à pergunta:


“Quando você tem um problema de saúde, a quem você recorre?”

Resposta Percentual (%)*


Médico particular 49,4
Serviço de saúde da empresa 19,0
Posto de saúde 17,8
Família 10,7
Serviço de emergência 8,3
Ninguém 1,7
Farmácia 1,2
Outro 1,2

* Múltiplas opções de resposta.


54 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

Além disso, ao serem questionados sobre as estratégias


e os recursos utilizados para a prevenção de ISTs, vimos que,
quanto à realização do teste de HIV, 57,7% dos homens traba-
lhadores afirmaram nunca ter realizado tal testagem, 23,8%
afirmaram ter realizado o teste no último ano e 10,2%, entre
um e dois anos. Essa alta frequência de homens que responde-
ram nunca ter realizado a testagem do HIV é uma informação
importante, principalmente para subsidiar e justificar estraté-
gias de prevenção ao HIV/Aids.4
Com relação ao uso de camisinha, 36,1% dos homens afir-
maram que sempre usam o preservativo em todas as suas re-
lações sexuais, mas 33,7% responderam que nunca usam. Essa
frequência é alta, principalmente quando associada aos 18,1%
que utilizam “às vezes” o preservativo. Tais informações são
importantes na medida em que pelo menos 57,7% dos entre-
vistados desconhecem sua condição sorológica.
No que tange à prevenção, 65,3% dos entrevistados afir-
maram que a camisinha serve para prevenir as DSTs e 29%
afirmaram que serve para prevenir as DSTs e a gravidez in-
desejada (também serve como método anticonceptivo). Essa
taxa de homens que sabem a funcionalidade do preservativo
não se traduz em uma prática cotidiana de uso em suas re-
lações sexuais. Essa informação é importante na medida em
que o conhecimento, aparentemente, não está ligado a uma
prática cotidiana de uso.
Quando perguntados sobre o local em que costumam ad-
quirir preservativos, 48,2% dos entrevistados afirmaram ser a
farmácia e 18,1%, que têm acesso a esse insumo no posto de
saúde.

4
Outros documentos que ajudam na problematização desse quadro são os últimos bo-
letins epidemiológicos do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais do Ministério
da Saúde, que apontam as cidades da microrregião de Suape como as localidades onde
a taxa de infecção pelo HIV está mais elevada no país.
Dialogando com homens trabalhadores de Suape – Benedito Medrado et al. • 55

No que se refere aos(às) parceiros(as) sexuais, 34,7% afir-


maram já ter tido relações sexuais com uma profissional do
sexo. A grande maioria afirmou nunca ter feito sexo com um
garoto de programa, mas três homens afirmaram que já o fize-
ram. Da mesma maneira, a maioria dos entrevistados afirmou
que nunca fez sexo com travestis, mas 10 homens afirmaram
que já se relacionaram sexualmente com travestis. Quatro ho-
mens entrevistados afirmaram já terem forçado uma mulher a
fazer sexo. Em comparação, nenhum homem afirmou ter for-
çado outro homem a fazer sexo com ele. Há de se considerar
essas informações como subnotificadas, tendo em vista tabus
que caracterizam essas temáticas.
Quando questionados sobre se concordavam ou não com
certas afirmativas, encontramos a seguinte distribuição:
• 58,5% concordaram (sim ou talvez) que o homem precisa
mais de sexo do que a mulher;
• 78,4% afirmaram que teriam um amigo gay;
• 92,9% responderam que discordam da afirmação de que “o
homem só deve procurar o serviço de saúde quando o pro-
blema for grave”;
• 62,9% discordaram de que é a mulher quem deve se cuidar
para evitar a gravidez.

Por fim, ao investigarmos a percepção dos homens tra-


balhadores no tocante aos serviços especializados para a saú-
de do homem, observamos que 53,4% responderam que os
serviços de saúde não estão bem preparados para atender os
homens. Essa informação é valiosa, na medida em que es-
ses homens utilizam com uma frequência regular os serviços
de saúde, mas sentem que estes não estão preparados para
atendê-los.
Em complemento, quando questionados sobre a neces-
sidade de existência de serviços especializados para a saúde
do homem, 91,7% dos entrevistados responderam afirmativa-
56 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

mente, o que pode estar indicando que esses homens reconhe-


cem a necessidade de que suas demandas em saúde, bem como
questões específicas, possam ser contempladas e respondidas
pelos serviços públicos.

3.3. Paternidade e cuidado

Nesse eixo temático, focalizamos as respostas dos entre-


vistados em relação à vida reprodutiva, especialmente sobre
paternidade e cuidado. Para isso, questionamos seus conheci-
mentos, práticas e experiências. Ressalta-se que, dos 421 tra-
balhadores entrevistados, 271 (65%) afirmaram ser pais e 0,7%
afirmou não saber responder a essa pergunta.

Assim, os resultados apresentados nesse eixo temático


referem-se aos 271 trabalhadores que são pais.
Quanto ao número de filhos(as), a predominância foi de
um (45,4%) e dois(duas) filhos(as) (38,4%), em que a maioria
é “filho(a) biológico(a)” (95,2%); 67,2% dos trabalhadores afir-
maram que os filhos são da mesma mulher, 22,5% tiveram fi-
lhos com mais de uma mulher e 10% só tiveram um filho.
Quando questionados se convivem com a família, 75,6%
responderam que convivem com a mãe de seu(sua) último(a)
filho(a), 59,8% convivem com os(as) filhos(as), enquanto os
outros 40,2% não convivem com os(as) filhos(as) por razões
diversas, conforme a Figura 2. Essas percentagens mostram
que a maioria dos trabalhadores que são pais convive com
seus filhos, sendo uma informação importante, visto que a
convivência pode facilitar o contato e/ou aproximação com
a prole.
Sobre a ajuda financeira aos(às) filhos(as) que não convi-
vem com o entrevistado, destacam-se as respostas não sabe/
não respondeu (60,1%) e ajuda frequentemente (25,1%). Con-
sideramos que a percentagem foi alta para a resposta “não
Dialogando com homens trabalhadores de Suape – Benedito Medrado et al. • 57

0,7%
(3)

0,7%
(3)
33,07% Sim
Sim  
(139) Sim  
Não  
Não
Não  
65,06% Não  
Nãosabe  
sabe
(271) Não  sabe  

Figura 1. Número de entrevistados que responderam ter filhos(as).

sabe/não respondeu”, pois essa pergunta diz respeito aos pais


que não convivem com seus(suas) filhos(as), e, como foi apre-
sentando anteriormente, 59,8% dos trabalhadores convivem
com seus filhos. Apenas 5,2% não ajudam financeiramente
os(as) filhos(as) com quem não convivem; logo, a convivência
não é um fator que prejudica esse tipo de ajuda.
Com relação ao(à) primeiro(a) filho(a), quase metade
dos pais (41%) informou ter planejado a gravidez, enquanto
a outra metade (49,1%) não planejou. A média de idade do
homem e da mulher quando tiveram o(a) primeiro(a) filho(a)
foi 22 e 21 anos, respectivamente. Nos homens, a faixa etária
mais frequente está entre 20 e 27 anos (correspondendo a 55%
da amostra), enquanto nas mulheres está entre 16 e 24 anos
(65,4%). Assim podemos observar que as mulheres são mães
mais novas do que os homens são pais.
Quanto à participação no parto, entre os 271 trabalha-
dores que são pais, apenas 16,5% dos homens participaram
58 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

59,8%

24,7%

5,5%
3,7% 3% 2,2%
1,1%
Sim, sou separado e a Sim, meus filhos estão Sim, meus filhos Sim, outra resposta Sim, meus filhos são Não, meus filhos Não sabe/ não
Sim,dossou
guarda meus Sim,
com minhameus Sim,
mulher, moram commeus
outros/as Sim, outra Sim, meus
casados Não,
moram comigo Não sabe/
respondeu
filhos está com a mãe que vive em outra parentes
separado
dele/s filhos estão
cidade filhos resposta filhos são meus filhos não respon-
e a guarda com minha moram casados moram deu
dos meus mulher, com outros comigo
filhos está que vive parentes
com a mãe em outra
deles cidade

Figura 2. Distribuição percentual das respostas dosentrevistados em


relação à coabitação com filhos(as).

do parto de algum de seus(suas) filhos(as). Os principais mo-


tivos da ausência foram: o fato de estarem trabalhando/via-
jando a trabalho (31,7%), visto que alguns homens que estão
trabalhando em Suape moram atualmente em Cabo de Santo
Agostinho (35,1%) e Ipojuca (14,4%), mas suas famílias conti-
nuam morando em suas cidades de origem. Mas há também
relatos de 12,2% dos pais que foram impedidos de participar
do parto, evidenciando o descumprimento da Lei do Acom-
panhante (Lei no 11.108/2005), que faculta à gestante o direi-
to de ter um(a) acompanhante de sua livre escolha durante o
pré-parto, parto e pós-parto imediato.
No que diz respeito à participação do trabalhador em ou-
tras atividades relacionadas com os outros momentos do par-
to, obtivemos as respostas explicitadas na Tabela 2.
Dialogando com homens trabalhadores de Suape – Benedito Medrado et al. • 59

Tabela 2. Respostas dos entrevistados em relação à sua


participação no pré-natal, pré-parto e pós-parto
de seu(sua) filho(a)

Pré-natal Pré-parto Pós-parto

Participou 60,9% 33,9% 66,4%

Não participou 35,1% 61,6% 29,2%

Não sabe/não respondeu 4,1% 4,5% 4,5%

A partir dessas informações, podemos observar que,


apesar de a maioria dos homens não estar presente durante
o parto, eles participaram em algum momento de atividades
que diz respeito a seus filhos, seja acompanhando suas com-
panheiras aos exames de pré-natal (60,9%), seja estando com
elas logo após o nascimento (66,4%).
Com relação ao conhecimento dos trabalhadores entre-
vistados sobre a Lei do Acompanhante, quando questionados
sobre a existência de alguma lei que garanta que os homens
podem acompanhar suas companheiras durante o parto,
36,8% afirmaram existir alguma lei, 20,9% falaram que não
existia e 42,3% disseram não saber. Apesar de alguns trabalha-
dores afirmarem existir alguma lei, nenhum soube responder
corretamente sobre o conteúdo dela. Essa informação eviden-
cia a importância da ampla divulgação da lei junto a esses ho-
mens, de modo a fomentar a maior participação masculina
nesse contexto.
Quanto ao conhecimento sobre a licença-paternidade, a
maior parte dos entrevistados (95,5%) afirmou ter conheci-
mento sobre ela, e 98,6% (415) reconheceram a licença-mater-
nidade como direito das mulheres. Quanto à vigência em dias
da referida licença, o quantitativo de homens que respondeu
60 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

corretamente diminuiu: 72% mencionaram “cinco dias”. Os


demais afirmaram ser entre três e sete dias.
Além de conhecerem seus direitos, esses trabalhadores,
em sua maioria (64,9%), também o fizeram valer, usufruin-
do de sua licença-paternidade. Em comparação, em relação à
licença-maternidade, eles responderam que apenas 25,1% mu-
lheres a tiraram; 68,3% dos entrevistados afirmaram que suas
companheiras não tiraram a licença, pois não trabalhavam.
Quando os trabalhadores foram questionados sobre o
que fariam se tivessem um mês de licença-paternidade, as res-
postas foram diversificadas, como desde cuidar da criança até
considerar a ampliação desse período como desnecessário.
Essas informações nos permitem observar uma diversida-
de de opiniões dos trabalhadores sobre a licença-paternidade
que nos faz refletir sobre o estranhamento dos homens quan-
do são convocados à esfera privada, esfera essa que julgam ser
das mulheres, visto que consideram sua participação como
uma “ajuda”. Além disso, também há homens que afirmam
que boicotariam essa inserção na esfera do cuidado, pois, mes-
mo com licença de seu trabalho, eles arranjariam uma forma
de retornar à esfera pública, seja para se divertir (no bar, jogar
futebol, ir à praia etc.), seja arrumando algum serviço fora – os
chamados “bicos”.
Por fim, sobre a afirmação “homem sabe cuidar de crian-
ça pequena”, os trabalhadores responderam: 52,5% concordo,
26,6% discordo, 20% talvez, 0,9% não sabe/não respondeu.5
Mais da metade dos trabalhadores entrevistados (221) con-
sidera que homem sabe cuidar de criança pequena, não pen-
sando no cuidado apenas como atividade das mulheres, mas
como atividade que podem desenvolver.

5
Como se trata de uma questão de opinião, essa resposta envolve os 421 trabalhadores
entrevistados, e não apenas os 271 que são pais.
Dialogando com homens trabalhadores de Suape – Benedito Medrado et al. • 61

Tabela 4. Respostas dos entrevistados em relação às possibilidades


durante o período de licença-paternidade ampliado

Respostas Percentagem
Ajudar a companheira a cuidar da criança 32,8
Acompanhar parceira e criança (família) 23,5
Cuidar da criança 13,8
Ajudar a esposa em casa (atividades domésticas) 9,7
Não sabe/não respondeu 9,5
Descansar ou se divertir 3,8
Tempo desnecessário 1,9
Prejudica a relação com o trabalho 1,7
Cuidar da documentação 1,4
Trabalhar para ter renda extra 1,2
Outros 0,7
Total 100

3.4. Violência

No eixo temático sobre violência, buscamos identificar


aspectos da relação entre masculinidades e violência de gê-
nero junto aos entrevistados. Ao identificar se esses homens
estiveram envolvidos em situações de violência, 9,3% estive-
ram envolvidos em brigas armados (faca ou outra arma), ao
menos uma vez, e 4,3% destes estiveram envolvidos mais de
uma vez; 7,4% afirmaram que já agrediram fisicamente uma
mulher, e quatro homens afirmam já ter forçado uma mulher
a fazer sexo com eles; nenhum dos homens afirma ter forçado
um homem a fazer sexo com eles; quatro homens dizem ter
sofrido alguma incapacidade física decorrente de episódio de
violência.
62 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

A partir das informações produzidas, chamou-nos a


atenção o número relativamente alto (10%) dos homens que
relataram já terem sido presos/detidos (conduzidos a uma
delegacia) por alguma prática violenta. Outro aspecto que en-
fatizamos diz respeito ao percentual de homens que afirma-
ram já terem se envolvido em brigas com uso de algum tipo
de arma, inclusive aqueles (4,3%) que se envolveram em tais
episódios mais de uma vez.
Ressaltamos a percentagem de homens que admitiram
ter agredido fisicamente uma mulher (7,4%), bem como aque-
les, mesmo em uma quantidade pouco expressiva, que afirma-
ram ter forçado uma mulher a fazer sexo com eles.
No tocante aos motivos que estão relacionados com a
violência física, esta aparece como consequência (ou efeito)
de brigas com mulheres de suas relações afetivas, que os ho-
mens denominam brigas “conjugais”, “de casal”, “de família”,
“domésticas” e “familiares”. O ciúme também é citado como
um dos motivos principais que levam à agressão física, sendo
mencionado por oito dos 30 homens que disseram já ter agre-
dido. Chama-nos a atenção, também, entre os motivos apre-
sentados, a justificativa da agressão física como um “revide”
de uma agressão anterior proferida pela mulher, o que apare-
ce nestes termos: “ela agrediu primeiro”; “ela deu um tapa na
cara dele”; e “levou um tapa e descontou”.
Considerando que a violência de gênero é ainda um
tema velado, sobre o qual não se fala muito, e que, felizmen-
te em virtude da implementação da Lei no 11.340 (Lei Maria
da Penha), tem se ampliado a “vigilância social” sobre tais
possíveis práticas criminosas, surpreende sobremaneira o
número de homens que relatam esse tipo de prática. Mais
nos preocupa o fato de que esses números são, possivelmen-
te, subnotificados.
Vale ressaltar que 98,3% dos homens entrevistados afir-
mam saber da existência de uma lei específica, no Brasil, sobre
Dialogando com homens trabalhadores de Suape – Benedito Medrado et al. • 63

violência contra a mulher. Do total, 94,5% sabem o nome da


lei. É significativo o número de homens que afirma ter algum
conhecimento acerca da legislação nacional sobre violência
contra as mulheres.
Quanto à reação das mulheres que foram agredidas pelos
homens entrevistados, podemos destacar que 13 (das 31 mu-
lheres) revidaram a agressão sofrida. Sobre esse aspecto, na ca-
tegoria “outras”, apareceram respostas como: “ameaçou pro-
curar a polícia” e “foi embora para a delegacia”, o que aponta
para uma possibilidade de denúncia. Ressaltamos, por fim,
que quatro homens afirmaram que a mulher agredida não
teve nenhuma reação, o que nos faz questionar o significado
dessa suposta “não reação” diante da violência sofrida.
Por fim, impressiona o quantitativo de homens (15%) que
concorda (sim ou talvez) que “há momentos em que as mulhe-
res merecem apanhar”.

4. Algumas considerações

Vale ressaltar que, no desenho desta etapa da pesquisa,


não tivemos a intenção de constituir uma leitura generalizante,
tomando por base a “opinião” da população estudada. Reco-
nhecemos que a produção de instrumentos de pesquisas é dia-
lógica, portanto coconstruída com os(as) pesquisadores(as).
Nesse sentido, adotamos o rigor metodológico como explici-
tação de procedimentos e escolhas negociadas e justificadas
(Spink e Menegon, 1999), legitimadas a partir de parâmetros
usuais em pesquisas epidemiológicas.
Compreendemos que as informações ora apresentadas
podem contribuir para o delineamento metodológico de ou-
tras pesquisas, como também subsidiar iniciativas de planeja-
mento, monitoramento e avaliação de políticas públicas, bem
64 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

como o próprio controle social desenvolvido pelos movimen-


tos sociais organizados.
Assim, dada a escassez de informações qualificadas so-
bre homens, gênero e saúde, especialmente (mas não apenas)
nessa região, e o rigor metodológico empregado nesta pes-
quisa, as informações aqui apresentadas constituem-se rele-
vantes para discussões e potenciais mudanças no contexto da
produção de conhecimento e elaboração/avaliação de polí-
ticas públicas no contexto da atenção integral à saúde dos
homens.
Certamente, as análises aqui apresentadas não dão con-
ta da complexidade, quantidade e diversidade de informações
produzidas. Sua apresentação neste livro tem, sobretudo, a
intenção de compartilhá-las de modo que possam ser úteis a
diferentes interpretações e usos. Contudo, em linhas gerais,
é evidente a diversidade de experiências e relatos que consti-
tuem esse cenário, o que remete à necessidade de elaboração
de políticas públicas que sejam mais flexíveis, de modo a dar
conta dessa diversidade em consonância com princípios do
Sistema Único de Saúde (SUS) que valorizem a abordagem
singular.

Referências

COSTA, J. F. A face e o verso: estudos sobre o homoerotismo II. São Paulo:


Escuta, 1995.

HARAWAY, D. Situated knowledges: the science question in feminism and


the privilege of partial perspective. In: HARAWAY, D. (Ed.). Symians, cyborgs
and women: the reinvention of nature. Nova York: Routledge, 1991. p. 183-202.

IZQUIERDO, M. J. Uso y abuso del concepto de género. In: VILANOVA,


M. (Org.). Pensar las diferencias. Barcelona: Promociones y Publicaciones
Universitárias, 1992. p. 31-53.
Dialogando com homens trabalhadores de Suape – Benedito Medrado et al. • 65

LAQUEUR, T. Making sex: body and gender from the Greeks to Freud.
Cambridge, MA: Harvard University Press, 1990.

LYRA, J.; MEDRADO, B. Gênero, homens e masculinidades: percursos pe-


los campos da pesquisa e da ação em defesa de direitos. In: BERNARDES,
J.; MEDRADO, B. (Org.). Psicologia social e políticas de existência: fronteiras e
conflitos. Maceió: Abrapso, 2009. p. 139-150.

______; ______. Por uma matriz feminista de gênero para os estudos sobre
homens e masculinidades. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 16, n.
3, dez. 2008.

PORTELA, A. P.; MEDRADO, B.; SOUZA, C. de M.; NASCIMENTO, P.;


DINIZ, S. Homens: sexualidades, direitos e construção da pessoa. Recife:
SOS Corpo/Instituto Papai, 2004. 144 p.

RICARDO, C.; SEGUNDO, M.; NASCIMENTO, M. Experiências e atitudes


de homens e mulheres relacionados com equidade de gênero e saúde: resultados
preliminares de uma pesquisa domiciliar realizada no Rio de Janeiro, Bra-
sil. Rio de Janeiro: Promundo, 2009.

RUBIN, G. El tráfico de mujeres: notas sobre la “economía política” del


sexo. Nueva Antropología, México, v. VIII, n. 30, p. 95-145, 1986.

______; BUTLER, J. Tráfico sexual: entrevista. Cadernos Pagu, Campinas,


n. 21, 2003. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_
arttext&pid=S0104-83332003000200008&lng=en&nrm=iso>. Acesso em:
20 dez. 2014.

SCOTT, J. W. Gender and the politics of history. Nova York: Columbia Univer-
sity Press, 1988. p. 28-50. [Obra consultada: Gênero: uma categoria útil
para análise histórica. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 20, n. 2, p.
71-99, 1995.]

SPINK, M. J. A ética na pesquisa social: da perspectiva prescritiva à intera-


nimação dialógica. Revista Semestral da Faculdade de Psicologia da PUCRS, v.
31, n. 1, p. 7-22, jan./jul. 2000.
66 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

______; MENEGON, V. A pesquisa como prática discursiva. In: SPINK, M.


J. (Org.). Práticas discursivas e produção de sentidos no cotidiano: aproximações
teóricas e metodológicas. São Paulo: Cortez, 1999. p. 63-92.

SPIVAK, G. In other worlds: essays in Cultural Politics. Nova York: Methuen,


1987.

TRINDADE, Z.; MENANDRO, M. C.; NASCIMENTO, C. R. R. (Org.). Mas-


culinidades e práticas de saúde. Vitória: GM, 2011.
Trabalho e risco na composição da
identidade do “pião trecheiro”1
Sirley Vieira da Silva

1. Introdução

Tenho por objetivo, neste texto, mostrar como a iden-


tidade de homens trabalhadores migratórios comporta um
conjunto de normas e regras que vão sendo incorporadas na
prática e vivência desses sujeitos e fundamentam um estilo de
vida para esse grupo que os leva a incorporar o risco como
parte indissociável de suas vivências, tanto dentro quanto fora
do trabalho.
A abordagem utilizada é qualitativa e de base etnográfica.
Os sujeitos da pesquisa são homens que circulam por vários
estados do Brasil, trabalhando em obras que denominam “tre-
cho”, vivendo a “rodar” por várias regiões por força do traba-
lho que exercem. Nessa situação, esses homens muitas vezes
ficam residindo em alojamentos ou dividem casas alugadas
com outros trabalhadores na mesma situação.
O estilo de vida deles, simbolicamente, compõe um ethos
de identidade que une três símbolos: trabalho, tempo e deslo-
camento. Identificam-se como trabalhadores migratórios pela
denominação “pião trecheiro”. Vivem aventuras nas cidades
onde trabalham e lidam com vários riscos que fazem parte da
vida de um “pião rodado”, pois, como revelado por um deles,
“o pião roda para se manter em pé”.

1
Este texto é um recorte da dissertação “Pião trecheiro: trabalho, sexualidade e risco no
cotidiano de homens em situação de alojamento em Suape (PE)”.
68 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

2. Metodologia

A metodologia utilizada para realizar a pesquisa com os


homens trabalhadores migratórios constou de observação
participante e entrevista semiestruturada.
Utilizei a observação participante da forma mais próxima
como foi preconizada por Malinowski (1976), ou seja, tentei
seguir as três regras sugeridas por esse autor, que são: guiar-se
por objetivos verdadeiramente científicos e conhecer as nor-
mas e critérios da etnografia moderna; providenciar boas con-
dições para o trabalho (inclusive viver efetivamente entre os
nativos); e recorrer a certos números de métodos especiais de
recolher informações (diário de campo, mapas etc.).
Porém, o tempo previsto para a realização da pesquisa,
além de outras questões que me acometeram,2 não me pos-
sibilitou utilizar a observação participante na forma clássica.
Optei, então, por usar dois métodos de registro e coleta de in-
formações mais próximos ao que desejava, adaptando a forma
clássica da observação participante no item: viver efetivamente
entre os nativos. Contudo, visitei regularmente a região, como
também dormi alguns dias na localidade.
Para realizar a leitura do cotidiano desses sujeitos em seus
diversos espaços de interação, adotei metaforicamente o con-
ceito de moldura do teatro, esta construída a partir de uma per-
formance (Goffman, 1986). Nessa perspectiva, cria-se imagina-
riamente “uma linha divisória, separando o palco da plateia”,
e aquilo que acontece no palco, conforme Goffman (1986, p.
124-155), “é algo que pode ser visto por todos os lados e em
toda a sua extensão, sem ofensa”. Assim, a performance é uma
maneira específica de articular a interpretação sobre o que
ocorre e foi utilizada como modelo de compreensão social.

2
Questões de saúde me obrigaram a ficar afastado, durante alguns meses, das ativida-
des do campo.
Trabalho e risco na composição da identidade do “pião trecheiro” – Sirley Vieira da Silva • 69

Para acessar o local de trabalho desses sujeitos, solicitei


autorização para acompanhar as atividades desenvolvidas
pela organização não governamental (ONG) Instituto Papai
na obra da refinaria. Essa instituição é uma das organizações
parceiras da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) no
projeto “Diálogos para o Desenvolvimento Social em Suape”.
Outra opção metodológica adotada foi a realização de
entrevistas semiestruturadas. Optei também por esse modelo
por entender que facilita a apreensão de dados objetivos e sub-
jetivos dos sujeitos da pesquisa (Minayo, 2010).
Realizar as entrevistas não foi uma tarefa tão fácil. Por
várias questões ligadas à aproximação com os sujeitos da pes-
quisa, a relação de confiança foi sendo construída com len-
tidão. Para conseguir entrevistar esses trabalhadores, foram
necessárias várias tentativas e persistência.
Na verdade, o processo de entrevista só avançou quando
me tornei amigo de Toni,3 que é um dos trabalhadores de Su-
ape que residem na comunidade de Gaibu. Expliquei a ele a
pesquisa e ele se mostrou bem disponível para ajudar. Com a
referência de ser amigo de um trabalhador, nas mesmas con-
dições dos alojados, os outros trabalhadores alojados me aco-
lheram de forma diferente. Depois disso, realizar as entrevis-
tas ficou mais fácil.

3. Os sujeitos da pesquisa

Tive a oportunidade de dialogar e conviver diretamente


com mais de 60 homens, sem contar a interação com os vários
operários nas visitas que realizei nas empresas. Em comum,
todos residiam em alojamentos ou em casas alugadas pelas
empresas (situação também considerada uma condição de

3
Os nomes foram trocados para manter o sigilo e o anonimato dos entrevistados.
70 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

alojamento) e eram oriundos de outras regiões (outro estado


ou cidades do interior de Pernambuco).
Entre todos os homens com quem tive a oportunidade
de dialogar para realizar a pesquisa, seis foram entrevistados
em profundidade, com roteiro pré-elaborado. É importante
destacar que, ao mencionar esses seis trabalhadores, todos são
citados por nomes fictícios. Os outros com os quais dialoguei,
quando citados, faço apenas a referência ao lugar que ocupam
na cena, por exemplo: “trabalhador vindo do interior de Per-
nambuco”, “amigo de”, “jovem trabalhador da cidade tal” etc.
Dos entrevistados, listo uma breve descrição, que servirá
para dar uma ideia das diversas regiões de onde vieram, assim
como da diversidade cultural que representam:

Nome Características

Toni – 48 anos, da cidade de Ca- Branco; residiu por quase dois anos em
xias/RJ – Função na obra: Encarre- um alojamento em Gaibu4; está no se-
gado de equipe. gundo casamento; pai de dois filhos já
adultos.
Miro – 46 anos, da cidade São Pardo; divide o alojamento com outros
Luís/MA – Função na obra: Encar- três trabalhadores; pai de três filhos.
regado de equipe.
Joel – 35 anos, da cidade de Gua- Branco; divide o alojamento com outros
dalupe/PI – Função na obra: Me- três companheiros; pai de uma filha.
cânico montador.
Diniz – 47 anos, carioca da ci- Preto; divide o alojamento com outros três
dade de Niterói/RJ – Função na trabalhadores; pai de quatro filhos, todos
obra: Instrutor de solda. de relacionamentos diferentes.

Gael – 33 anos, da cidade de Pardo; divide o alojamento com outros


São Luís/MA – Função na obra: três companheiros; é noivo; não tem fi-
Soldador. lhos.

4
Há cerca de seis meses, conseguiu trazer a esposa para morar com ele em uma casa alu-
gada na mesma localidade, mas isso, na perspectiva da empresa, também é considerado
uma situação de alojamento.
Trabalho e risco na composição da identidade do “pião trecheiro” – Sirley Vieira da Silva • 71

Breno – 24 anos, da cidade de Pardo; formado em geografia com pós-


Aracaju/SE – Função na obra: -graduação em meio ambiente; divide o
Mecânico industrial. alojamento com outros três trabalhadores
(um deles é pai de sua noiva); não tem
filhos.

4. A região e o contexto local

O Cabo de Santo Agostinho é uma das cidades ao sul da


Região Metropolitana do Recife (RMR) e faz parte da sub-re-
gião de Suape. Tem praias belíssimas, natureza exuberante, e
seu marco de origem, de acordo com Galvão (1863 apud Bra-
sil, 1970), está no ano 1560, quando foi instituído o Morga-
do5 de Nossa Senhora da Madre de Deus do Cabo de Santo
Agostinho, vinculando o Engenho Madre de Deus – depois
chamado de Engenho Velho. Posteriormente, em 1618, foi
criado o povoado de “Vila de Nazaré”, onde grande parte das
construções ficou concentrada no ponto mais alto da cidade.
Essa foi uma das primeiras regiões a serem povoadas no
Brasil, tendo como principal economia, até bem pouco tem-
po, a monocultura da cana-de-açúcar. O município do Cabo,
como popularmente é chamado, segundo o Instituto Brasilei-
ro de Geografia e Estatística (IBGE), tinha, em 1991, população
de 127.036 habitantes. Porém, entre 1991 e 2010, constata-se
um crescimento superior a 31% em menos de duas décadas,
o que significa, aproximadamente, 1,63% de crescimento ao
ano. Mas, se tomarmos por comparação o crescimento verifi-
cado entre 2007 e 2010, calculam-se 12% de crescimento em
um período de apenas três anos, ou algo em torno dos 4% ao
ano. Ou seja, nos últimos anos, o ritmo de crescimento popu-
lacional da região foi bastante acelerado.
5
Forma de organização familiar que cria uma linhagem, bem como um código, para
designar seus sucessores, estatutos e comportamentos.
72 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

Os investimentos em Suape ao longo das décadas trans-


formaram a realidade social dos moradores dessas áreas. Um
dos grandes responsáveis pelas mudanças no perfil socioeco-
nômico da região foi a instalação do “Complexo Portuário e
Industrial de Suape”. Esse investimento, ao longo das décadas,
atraiu muitas empresas para essa localidade e, consequente-
mente, aumentou a oferta de emprego, o que atraiu muitos
trabalhadores de todas as regiões do Brasil.
Os investimentos econômicos nessa área têm seus pri-
mórdios pensados ainda no período do regime militar, duran-
te a década de 1960. Foi já nesse período que o município do
Cabo de Santo Agostinho passou a receber altos investimen-
tos públicos por meio da Superintendência do Desenvolvi-
mento do Nordeste (Sudene).
Na década seguinte, em 1970, foi realizado o Plano Dire-
tor para implantação do complexo e o lançamento da pedra
fundamental do Porto de Suape. Como parte desse processo,
foram desapropriados 13,5 mil hectares de terra para dar iní-
cio às obras de infraestrutura e outras necessárias ao funcio-
namento do porto.
Na década de 1980, o porto começou a operar efetiva-
mente. Um episódio trágico contribuiu para impulsionar esse
investimento: no ano 1985,6 ocorreu um grande incêndio em
um navio de combustível no porto do Recife. A proporção do
incêndio foi tão grande que colocou em risco grande parte do
bairro do Recife Antigo. Felizmente, o incêndio foi controla-
do, mas isso fez com que o governo de Pernambuco, após o
episódio, ordenasse a transferência de todas as empresas de
combustíveis instaladas no porto do Recife para o porto do
Suape.

6
Para mais detalhes sobre esse incêndio, acessar: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesqui-
saescolar/index.php?option=com_contenteview=articleeid=209eItemid=193>. Acesso
em: 23 ago. 2012.
Trabalho e risco na composição da identidade do “pião trecheiro” – Sirley Vieira da Silva • 73

Após a virada do século XX, foi construído na região o


estaleiro Atlântico Sul e lançada a pedra fundamental da Re-
finaria General José Ignácio Abreu e Lima, popularmente co-
nhecida por Refinaria Abreu e Lima.
Muito do que foi realizado fez com que o índice de de-
senvolvimento humano (IDH), de acordo com o Programa
das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud),7 consi-
derando o período de 1991 a 2000, passasse de 0,630 para
0,707 (Pnud, 2003). Porém, se consideramos o ano 2010,
constatou-se a redução desse índice para 0,686 (Pnud, 2010).
O Complexo Portuário e Industrial de Suape está situa-
do a 40 quilômetros do Recife. Segundo dados do Governo
Federal, de 2007 a 2010 foram investidos nessa região cer-
ca de 17 bilhões de dólares, aplicados em especial na imple-
mentação de empreendimentos estruturadores que geraram
cerca de 15 mil novos empregos e outros 45 mil só na cons-
trução civil.8
Como esperado, os investimentos promoveram muitas
mudanças econômicas e sociais, como o aumento da oferta de
emprego e o surgimento de novas funções que poderiam ser
desempenhadas por moradores locais. A população local pas-
sou a ver aí uma grande oportunidade de conseguir empregos,
principalmente na construção civil, por causa da instalação da
obra da refinaria.
O governo de Pernambuco criou programas de qualifica-
ção profissional para moradores da região com o intuito de
formar mão de obra qualificada e preencher as novas vagas de
emprego oferecidas. Porém, a demanda de oferta de empregos
era maior que a quantidade de mão de obra formada nesses
7
Disponível em: <http://www.pnud.org.br/atlas/ranking/IDH-M%2091%2000%20
Ranking%20decrescente%20(pelos%20dados%20de%202000).htm>. Acesso em: 22 jul.
2012.
8
Disponível em: <http://www.suape.pe.gov.br/institutional/historic.php>. Acesso em:
20 jul. 2012.
74 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

cursos. Somando-se a isso, havia a necessidade de trabalha-


dores experientes para desenvolver funções específicas e ne-
cessárias em uma obra de tamanho porte, com características
peculiares, exigindo especificidades para a instalação de uma
refinaria de petróleo.
Todos esses fatores fizeram com que as empresas respon-
sáveis pela obra buscassem muitos trabalhadores de outras
regiões do Brasil, com experiência comprovada, formados em
outros estados, cuja maioria tinha histórico de vivência em
grandes obras, já havia circulado por várias regiões do país,
ou até fora dele. Vieram então para Suape operários de várias
regiões brasileiras, com qualificação tão diversificada quanto
suas idades e cargas culturais.

5. Os homens das firmas e as residências


temporárias

Segundo informações das empresas responsáveis pelas


obras de Suape, as idades dos trabalhadores vindos de outras
regiões variam entre 18 a 68 anos, mas a grande maioria está
entre 24 e 40 anos.9
Uma característica dessa migração é que, com exceção de
trabalhadores(as) da parte administrativa, os operários vindos
de fora de Pernambuco são todos homens, e grande parte de-
les fica instalada em alojamentos e/ou repúblicas mantidos
pela empresa contratante.
De acordo com informações das empresas, estima-se um
quantitativo de mais de 12 mil homens instalados em alo-
jamentos, o que pode significar cerca de 30% do efetivo de
pessoas que trabalham na obra da construção da refinaria. A
maioria dos alojamentos foi instalada em regiões litorâneas

9
Fonte: Empresas terceirizadas da Refinaria Abreu e Lima.
Trabalho e risco na composição da identidade do “pião trecheiro” – Sirley Vieira da Silva • 75

do Cabo de Santo Agostinho, como também no município de


Ipojuca. Também houve alojamentos nas áreas próximas ao
centro dessas cidades.
As empresas que têm os maiores quadros de pessoal (aci-
ma de 5 mil operários) têm alojamentos próprios, enquanto
as outras com menor contingente optaram por alugar pré-
dios inteiros, ou casas, que funcionam como repúblicas de
homens. Outra opção adotada pelas empresas foi a locação
de pousadas ou alojamentos adaptados (galerias de lojas, por
exemplo) para que esses trabalhadores fossem instalados.

6. Complexo de questões com a chegada


dos “homens das firmas”

A presença desses “homens trabalhadores das firmas”10


nas comunidades transformou a dinâmica dessas cidades sob
o ponto de vista econômico e social.11 Várias foram as ques-
tões que surgiram a partir da chegada desses sujeitos.
Alguns dos problemas apontados dizem respeito a gra-
videzes de mulheres locais pelos homens trabalhadores das
firmas,12 sem que estes reconhecessem a paternidade, o que
fez com que crescesse13 o número de ações judiciais para pa-
gamento de pensão alimentícia após ações de investigação de
paternidade movidas por mulheres da região contra trabalha-
dores das obras. Outra problemática, que também envolve
a chegada dos “homens das firmas” (alardeada também em

10
Essa é a forma como as pessoas que residem na região se referem aos trabalhadores.
11
Violência se espalha rapidamente pelo Litoral Sul. Jornal do Commercio, 3 dez. 2011.
Disponível em: <http://www.old.diariodepernambuco.com.br/assinantes/acesso_
dp.asp>. Acessado em: 15 set. 2012.
12
Ver a reportagem: Filhos de Suape. Diário de Pernambuco, 8-13 maio 2012.
13
Segundo informações das firmas responsáveis pela obra da refinaria.
76 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

reportagens), refere-se a denúncias de exploração sexual de


crianças e adolescentes.
Além das questões referidas, destaco o registro do aumen-
to de casos de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e
Aids na região. De acordo com o Boletim epidemiológico Aids e
DST 2011, das cidades do Nordeste, o Cabo de Santo Agosti-
nho e Ipojuca aparecem entre as regiões de maior incidência
de casos de Aids notificados. Figurando respectivamente com
taxas de 37,9 (Cabo de Santo Agostinho) e 37,7 (Ipojuca) por
grupo de 100 mil habitantes, no Brasil, esses municípios fica-
ram atrás apenas da cidade de São Luís/MA, que apresentou
taxa de 40,5 por grupo de 100 mil habitantes.
Em 2000, o Boletim epidemiológico registrava para essas ci-
dades taxas de 14,4 (Cabo de Santo Agostinho) e 3,4 (Ipojuca)
por grupo de 100 habitantes. Isso fornece indicativos de que
a problemática pode ter relação direta com o aumento da po-
pulação na região, que foi impulsionado pelas obras e investi-
mentos em Suape.
Há mais questões que envolvem esse complexo de pos-
sibilidades, como o aumento dos casos de violência, inclusi-
ve homicídios na região. Por exemplo, de acordo com dados
do Mapa da Violência 2012, se considerarmos os anos 2008 a
2010, a cidade do Cabo de Santo Agostinho apresentou taxa
média de homicídios de 77,7 por grupo de 100 mil habitan-
tes – a terceira maior taxa de homicídios de Pernambuco. O
município de Ipojuca aparece no mapa com a taxa de 63,8 por
grupo de 100 mil habitantes, sendo apontado no ranking do
estado como o oitavo município mais violento. Ou seja, os
dois principais municípios da região (em relação ao Comple-
xo de Suape) estão entre as 10 cidades com maiores taxas de
homicídios de Pernambuco.
Os dados revelam uma faceta triste da dinâmica que se
instaurou nessa região, intensificada com a chegada dos ho-
mens trabalhadores de outros estados. Essas questões envol-
Trabalho e risco na composição da identidade do “pião trecheiro” – Sirley Vieira da Silva • 77

vem aspectos relacionados com as questões de saúde e mas-


culinidades, tendo como foco as questões da interação social,
como também aspectos do exercício da sexualidade masculi-
na que perpassam a formulação da identidade desses traba-
lhadores migratórios.

7. Pião trecheiro: uma identidade social

Diz Ribeiro (2000) que, em relação a deslocamento, o


mercado de trabalho de circuitos migratórios das grandes
obras exige “trabalhadores especializados”, e em geral “os mi-
grantes recém-ingressos no mercado de trabalho entram nas
posições inferiores”.
Para Sarti (2005, p. 88), “a identidade masculina, na fa-
mília e fora dela, associa-se diretamente ao valor do trabalho”.
O trabalho seria mais que um instrumento da sobrevivência
material para os homens, pois “constitui o substrato da iden-
tidade masculina, forjando um jeito de ser homem”.
Partindo de uma perspectiva relacional de gênero, po-
demos refletir que as pessoas carregam ideias sobre o tipo de
trabalho aos quais corpos masculinos ou femininos mais se
adaptam ou que devem/podem exercer. Isso reflete a maneira
como, geralmente, as pessoas diferenciam as atribuições mas-
culinas e femininas em nossa sociedade, demonstrando desi-
gualdades que implicam questões de gênero e poder (Santana,
2010).
Podem-se perceber todas essas questões ao dialogar com
esses homens que trabalham em Suape, pois nos diálogos dos
trabalhadores sempre aparecerem referências como: “o traba-
lho é essencial” ou “sem trabalho o homem não é nada”.
Pelo exercício do trabalho assalariado e pela especificida-
de da vida que levam (exigências de longas viagens, enfrenta-
mento de situações de perigo, convivência com outras cultu-
78 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

ras etc.), as especificidades da profissão fornecem a ideia da


identidade social do grupo (Eckert, 1995; Ribeiro, 2000).
No entendimento da comunidade local, esses homens são
referidos como os “homens das firmas” ou “peões de obra”.
Porém, ao conviver com esse grupo de trabalhadores que re-
sidem em alojamento, percebi que há uma diferença crucial
entre ser “peão de obra” e ser “pião trecheiro”, como eles se
autoproclamam. Isso aponta para características peculiares
de um estilo de vida, que afirma as vivências desses sujeitos
e os interligam a símbolos que estruturam um ethos coletivo.
Embora trate de contexto diferente, Eckert (1995, p. 166),
em pesquisa realizada com grupos de homens trabalhadores
de minas de carvão, ao tecer referências à natureza de traba-
lho desses operários da mina, afirma que questões vivenciadas
no cotidiano desses sujeitos fundamentam elementos que “es-
truturam a construção da identidade social do grupo”. Com
o grupo de “piões de trecho” também se identificam elemen-
tos elencados como características próprias da profissão. Estes
remetem a ideias de força, aventura, coragem, sacrifício, entre
outros atributos que compõem simbolicamente a identidade
social desses operários e conferem uma ideia de “grupo seleto”.
A curiosidade sobre o que significava ser um “pião tre-
cheiro” me fez sondar essa especificidade e, em pouco tempo,
pelas respostas que recebi, percebi que essa denominação in-
dica uma identidade composta, entre outras coisas, pela dico-
tomia “fazer parte” e “não fazer parte” do lugar.
Entre os indicativos do que considero “fazer parte”, destaco:

• os trabalhadores residem em alojamento na região por lon-


go tempo;
• participam ativamente da vida cotidiana da comunidade
local;
• interferem na, influenciam e sofrem a influência da dinâmi-
ca local;
Trabalho e risco na composição da identidade do “pião trecheiro” – Sirley Vieira da Silva • 79

• criam relações de amizade e interagem com moradores


locais.

Essas questões enfatizam como esses homens se fazem


presentes na localidade e demonstram sua relação com a di-
nâmica local, pelas características que os fazem “fazer parte”
do contexto da região. Contudo, há elementos presentes nessa
relação que os mantêm deslocados do lugar, não sendo eles
vistos como membros da comunidade. Esses elementos refle-
tem o que chamo de “não fazer parte”.
Vejamos alguns indicativos do que considero “não fazer
parte”:

• os alojados não se identificam como moradores locais;


• não são identificados como moradores locais pelas pessoas
que residem na região;
• referem-se ao lugar deles como o lugar onde reside a família;
• os relacionamentos amorosos que desenvolvem na região
são, geralmente, referidos como temporários, sem compro-
misso emocional;
• assumem como característica da profissão não se prender a
um lugar por muito tempo.

Os trabalhadores alojados deixam claro que sua relação


com o lugar é fluida e passageira. Residir na localidade, para a
maioria, não é uma escolha permanente, mas uma necessida-
de, uma condição transitória, que é uma característica da pro-
fissão deles. Percebe-se essa especificidade na referência que
esses sujeitos fazem à profissão que exercem:
Terminou o trabalho aqui, já vou procurar outro. Todo mun-
do tá já pensando em outro trabalho. […] o “pião” não escolhe
um lugar. Ele não tem um lugar permanente… Ele tá aqui um
tempo, tá ali por mais um tempo… Não nos fixamos num lugar.
(Diniz, 47 anos, da cidade de Petrópolis/RJ)
80 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

Em si, “pião trecheiro” não é uma profissão de registro


na carteira de trabalho. Na verdade, eles são registrados como
soldadores, mecânicos industriais, pedreiros, encanadores in-
dustriais etc. Porém, na prática, são identificados, e eles pró-
prios se identificam, pela expressão “pião trecheiro”.
Eu pensava logo no início que a denominação correta era
“peão”, e não “pião”. Na minha cabeça, essa designação era
uma ligação direta com o “peão de obra” (como são denomi-
nadas as pessoas que trabalham em obras da construção ci-
vil). Intrigado sobre a diferenciação linguística entre “peão” e
“pião”, resolvi, nas conversas com esses trabalhadores, enfati-
zar a palavra “peão” forçando o som do “e”.
Acontecia que, em todas as vezes que me referia a eles
como “peão” (enfatizando o “e”), me corrigiam dizendo: “Sou
pião trecheiro.” Não entendi logo o porquê da correção e até
achava ser apenas a questão da diferença do sotaque provoca-
da por mim. Um dia, perguntei diretamente o motivo de en-
fatizarem sempre que eram “peões trecheiros”? Recebi como
resposta a afirmação: “Por que você diz ‘peão’?… Não é ‘peão’.
É ‘pião’!… ‘Pião trecheiro’!” Foi aí que compreendi que havia
uma diferença essencial entre o “peão” e o “pião”.
Ao investigar melhor essa questão, percebi que a junção
dessas palavras (“pião” e “trecho”) é uma analogia que une
três atributos valorizados por eles. Além disso, a denominação
“pião trecheiro” comporta certas experiências vividas pelos
operários. Só depois de muitas conversas e observações che-
guei a esse entendimento do que seria “pião trecheiro”. Mas,
para explicar melhor, faz-se necessário entender o que vem a
ser “trecho” na compreensão desses homens.
Metaforicamente, eles assemelham a palavra “trecho” a
“obras instaladas em determinada região”. “Trecho” pode se
referir também a um “período de tempo” – período em que os
homens trabalham em uma “região” onde a “obra” está sen-
do realizada. Ao se deslocarem para trabalhar em uma dessas
Trabalho e risco na composição da identidade do “pião trecheiro” – Sirley Vieira da Silva • 81

obras, consideram estar em um “trecho” durante um “interva-


lo de tempo”, cientes de que logo estarão em outro “trecho”.
Isso faz com que não se sintam pertencentes àquela região,
pois o “trecheiro” não se prende ao lugar.
Pode-se observar isso nas afirmações dos “piões”, como
no depoimento de Toni:

“Pião trecheiro” é porque ele não tem estadia. […], ele está num
“trecho”. Por exemplo, ele está no Rio, aí alguém diz: “Olha,
tem uma obra pra gente lá em Manaus, quem é que vai?” […],
o fulano vai… Quer dizer, ele não se apega ao Rio de Janeiro. A
gente não se apega à cidade. […] O pião não passa muito tempo
num lugar… Porque ele vai onde tem trabalho […]. (Toni, 48
anos, da cidade de Caxias/RJ)

Já em relação ao “pião”, essa denominação carrega um


sentido de como se percebem. Em toda obra existem os “pe-
ões” (com “e”, mas som de “i”); em algumas existem também
“piões”. No caso da construção da refinaria, coexistem os dois
grupos. Os “peões de obra”, que são trabalhadores da própria
região e ainda não adentraram a vida de “pião de trecho”, pois
o “pião” acumula em sua bagagem a experiência do “desloca-
mento” ou “circulação” territorial.
O “pião” “[…] vai onde tem trabalho”, como me disse Toni.
Os “piões” circulam, rodam pelo mundo, e para o “peão” se
tornar “pião” tem de conhecer bem essa profissão na prática,
e a prática do “pião” é “rodar” – só assim se passa a fazer parte
desse grupo.
Miro utilizou uma metáfora muito interessante para ex-
plicar a necessidade do “pião” de estar circulando e nunca parar
em um lugar por muito tempo. Disse que a referência ao “pião”
diz respeito ao brinquedo que, ao ser acionado em movimen-
tos circulares, fica a girar e não pode parar, pois “[…] o que é o
pião?… O piãozinho, ele gira, ele roda… Quer dizer, o ‘pião roda-
do’… Ele está circulando, ele não está parado. Se parar, ele cai”.
82 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

A metáfora de girar para se manter em pé reflete bem a


ideia que esses homens guardam sobre a mobilidade territo-
rial, além de comportar outras ideias, como força e dinamis-
mo. Enquanto está girando, o pião tem força, só para se per-
der a força, aí ele cai. Esse cair, a meu ver, pode ser comparado
à morte, invalidez ou aposentadoria. Percebem-se algumas
dessas ideias nas palavras de Diniz: “Uma vez que sente, gos-
ta. E se pegar gosto, né?… Não sai mais dessa vida… A não ser
quando se aposentar ou morrer.”
Pode-se então entender que a junção entre “pião” e “tre-
cho” significa a união de três condições compostas de valores,
que são: 1) “pião” – trabalhador que roda, não fica fixo em um
lugar, circula; 2) “trecho” – espaço geográfico onde a obra está
instalada; e 3) “trecho” – espaço de tempo, período. Assim, ser
“pião trecheiro” é fazer parte de um grupo identificado com
“trabalho”, “deslocamento” e “tempo/período”.

8. A vivência do risco como marca da vida


do “pião”

Por ser ambígua, a noção de risco é associada tanto a pe-


rigo quanto a instabilidade, probabilidade e até vulnerabilida-
de, sendo transversal aos mais diversos setores da sociedade,
do local ao global (Queirós, 2000).
No que se refere à natureza do trabalho, a profissão de
“pião trecheiro” é cercada por características particulares em
relação ao convívio com riscos, o que faz com que esses ope-
rários adotem uma linguagem carregada de símbolos. Nesta,
subsiste a ideia de risco e segurança como algo que está sem-
pre junto.

No trabalho temos risco. […] Por isso que se tem toda uma pre-
ocupação com profissionais para treinamento. Profissionais
Trabalho e risco na composição da identidade do “pião trecheiro” – Sirley Vieira da Silva • 83

para orientar sobre o uso dos EPI,14 de dispositivos para segu-


rança, pois o nível de acidentes de risco são muito alto. Tem uns
que dizem que os EPI são muito ruins. Por isso se preocupam
em colocar pessoas pra orientar, pra treinar. […] Todos sabem o
que se deve fazer na obra. A segurança de um depende de todos.
[…] Aí tem os riscos daqui,15 não só na empresa, mas… eu diria:
principalmente fora da empresa nós estamos correndo riscos.
Mas lá tem gente que está alertando, supervisionando todo
mundo… Aqui fora, não! […] Vai pela consciência de cada um…
(Miro, 46 anos, da cidade de São Luís/MA)

Percebe-se na fala de Miro que o pião sabe dos riscos que


corre, dentro e fora do trabalho. No convívio diário, fora do
ambiente do trabalho também, porém a dimensão se dá de
forma diferente.
Vejamos o que Toni diz sobre isso:

Todo mundo sabe que tem que tomar cuidado. É exigência das
empresas que se trabalhe com segurança. […] Aqui fora e lá na
empresa também… Quer dizer… Lá tem gente que reclama, mas
tem os que tá lá pra dizer que tem que usar os EPI… […] Se o
nego não ficar em cima, tem uns que não usa, não… Aqui fora
tem a questão da violência… Do sexo… De várias coisas… Aí o
cara tem que fazer o quê?… Se prevenir! (Toni, 48 anos, da cida-
de de Caxias/RJ)

Os entrevistados disseram que estão cercados de riscos


também quando saem do trabalho. Nas ações cotidianas, o
risco sempre está presente, como enfatizado por Toni: “tem a
questão da violência… Do sexo… De várias coisas”. E, da mes-
ma forma que se referem ao risco, a segurança/proteção é um
fator constantemente reafirmado.

14
Equipamento de proteção individual.
15
Esse trabalhador se referia ao lugar/comunidade onde fica instalado o alojamento,
não ao local de trabalho.
84 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

Douglas e Wildavsky (1982) afirmam que o risco sempre


tem caráter coletivo. Apesar de os homens reconhecerem seu
caráter coletivo, nem sempre os riscos são reportados como
coletivos. Uma forma de perceber essa divisão diz respeito ao
ambiente no qual os riscos são vivenciados. No ambiente de
trabalho, as normas e exigências ajudam a prevenir riscos físi-
cos. Nesse espaço, o cumprimento das regras é constantemen-
te monitorado para que seja realizada a rotina de segurança.
Alega-se que a vigilância sobre o cumprimento das regras é
necessária para o bem de todos, assim a prevenção dos riscos
nesse ambiente assume uma “dimensão coletiva”.
Porém, fora do ambiente de trabalho, o risco nem sempre
é dimensionado da mesma forma. Uma coisa muito repetida
nas conversas nos bares, alojamentos e até nas empresas é que,
se alguém toma uma atitude que coloca apenas ele e seus fa-
miliares em risco, ninguém deve se meter. Essa decisão indivi-
dual, que não compromete o coletivo, não deve sofrer vigília.
Mas, se a decisão de um operário coloca em risco o grupo, aí
deixa de ser um problema “individual” e passa a ser “coletivo”;
nesse caso, todos têm o direito de interferir, e devem interferir.
Um grupo com o qual conversei relatou sobre a prisão de
um colega que era usuário de drogas e acabou se envolvendo
em roubo. Disseram que esse operário usava drogas, e todos
sabiam. Como essa atitude era uma questão individual, nin-
guém se meteu. Mas ele acabou se envolvendo em roubo tam-
bém, sem ninguém do alojamento saber (segundo informa-
ram). Determinado dia, a polícia bateu no alojamento deles
para prender esse rapaz e acabou levando outros três colegas
do alojamento presos.
Os outros três que dividiam o alojamento com ele disse-
ram que não sabiam, nem estavam envolvidos com o crime,
mas mesmo assim tiveram de prestar esclarecimentos na dele-
gacia e só foram liberados quando ficou comprovada sua ino-
cência, atestada pela confissão do responsável.
Trabalho e risco na composição da identidade do “pião trecheiro” – Sirley Vieira da Silva • 85

Um dos homens que contaram essa história relatou o se-


guinte: “Enquanto ele só usava drogas, não atrapalhava a vida
de ninguém, o problema era só dele. Aí ele se meteu com coisa
ruim, […] e quase que ferra todo mundo… Aí o problema é de
todo mundo.”
Todos ficaram alertas após esse episódio, e uns passaram
a vigiar os outros. Isso exemplifica bem o entendimento deles
sobre o risco a partir da dimensão “individual” ou “coletiva”.
Ou seja, quando a questão pode prejudicar apenas um, consi-
deram-na um “risco individual”, pois não afeta o coletivo. Mas,
quando afeta vários, como no caso citado, então todos devem
passar a exercer o controle dos “riscos coletivos”. A linha que
separa os riscos individuais dos coletivos, na prática, é tênue.
Para Douglas e Wildavsky (1982), a decisão de se expor ou
não a determinado risco, embora aparente ser individual, não
o é, pois está inserida em um contexto mais amplo, dado pela
cultura à qual a pessoa pertence. Como afirmam os mesmos
autores, as percepções dos riscos são determinadas pela orga-
nização social e pela cultura, pois estas fornecem ao indivíduo
os filtros que estruturam suas percepções de risco.
Talvez por isso os “piões” reconheçam a necessidade de
tomar cuidado, mas também falam sobre coragem. Usam es-
tratégias para minimizar os riscos, mas dizem que nem tudo
está sob controle. Acreditam que essas características vão se
incorporando à sua vida pela profissão e não têm como sepa-
rar. Lidar com os desafios é parte dessa profissão, e a figura
do “pião” é moldada pela vontade do desbravamento do des-
conhecido e pela satisfação da aventura – características tidas
como elementos importantes na construção da identidade so-
cial desse grupo.
Alguns argumentos carregam a ideia de que a convivência
e o enfrentamento dessas questões fazem com que se acostu-
mem em lidar com os riscos, já que eles estão em toda parte
(Beck, 2010). Como se observa no relato dos entrevistados:
86 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

É uma vida que, quando você entra, ou se acostuma, ou sai


fora… […] para ser pião, tem que gostar de se aventurar tam-
bém… […] O pião gosta disso! (Toni, 48 anos, da cidade de Ca-
xias/RJ).

A vida do pião é arriscada… A gente sabe dos riscos, mas é nossa


vida. Fazer o quê?… A gente se acostuma… […] Eu já me acostu-
mei. (Joel, 35 anos, da cidade de Guadalupe/PI)

Nós vivemos com o risco […] a gente encara meio… […] Assim …
É… é uma aventura!… Somos homens, temos que encarar essas
dificuldades. Só assim a gente vive nessa vida. (Gael, 33 anos, da
cidade de São Luís/MA)

[…] Por causa do costume. […] Muitos aí, acredito, também es-
tão nessa vida… Vida de pião, porque querem ter suas coisas
e porque gosta[m] de ser pião. (Diniz, 47 anos, da cidade de
Petrópolis/RJ)

Conforme Ribeiro (2000), com base nos estudos de traba-


lhadores da construção de uma usina, em determinados mo-
mentos “esses indivíduos entram em um processo de recons-
trução, assumindo a identidade de habitantes permanentes
do circuito migratório dos grandes projetos”.
Miro fez uma analogia da convivência do “pião” com os
riscos. Comparou o dia a dia do “trabalhador de trecho” a
viver eternamente sobre uma “ponte”. De um lado da ponte
estão os riscos ao quais estão expostos no cotidiano do traba-
lho; do outro estão os riscos vivenciados fora dele. Completou
a explicação afirmando que o pião é aquele que “vive nessa
ponte”.
Em geral, guardam uma ideia do risco como algo peri-
goso, que está em toda parte, não se sabe onde ele se esconde.
Breno disse em entrevista que o risco é “um perigo oculto”,
sendo fácil se exporem a ele por questões como: relaxamento,
descuido e mesmo os momentos de prazer. Assim, o risco faz
Trabalho e risco na composição da identidade do “pião trecheiro” – Sirley Vieira da Silva • 87

parte da vida do “pião”, mesmo na dimensão do prazer, pois


este leva ao relaxamento e deixa a pessoa desatenta.
Com base na vivência desses trabalhadores, é possível re-
alizar a análise dos riscos interligados ao campo da sexuali-
dade masculina, incluindo suas interações e práticas sexuais.
Dessa forma, pode-se perceber como essa dimensão se amplia
e se incorpora à identidade masculina por essa via. Porém,
nosso objetivo aqui foi demonstrar como o risco está presen-
te na vida desse grupo como algo intrínseco à vida do “pião
de trecho”, o que vincula a ideia da identidade masculina per-
passada por símbolos e atributos como trabalho, coragem,
aventura e liberdade (Quadros, 2004; Quadros e Scott, 1999;
Sarti, 1994).

9. Considerações finais

Observar as relações sociais desse grupo ajuda a com-


preender vários aspectos da vida dos homens trabalhadores
migratórios que se autodenominam “piões trecheiros”. Olhar
para essa questão no cotidiano desses homens, tanto no am-
biente de trabalho quanto fora dele, ajuda a dimensionar as
questões de risco presentes nessas interações.
O contexto histórico e social da região pesquisada (Su-
ape) indica a importância de explorar os vários elementos
presentes na identidade de um “pião trecheiro”, pois a forma
como lidam com o risco, indissociável do trabalho que exer-
cem, fornece importantes indicativos de como o trabalho,
para esse grupo, fomenta a ideia de uma identidade coletiva
(Eckert, 1995; Ribeiro, 2000), interligada com a ideia de “ser
homem”.
Como se viu, a identidade de um “pião trecheiro” é com-
posta por símbolos como: trabalho (profissão), deslocamento
(mudança, trânsito, migração, mobilidade) e período (tempo).
88 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

Esses símbolos, juntos, compõem o ethos desse grupo e confor-


mam um habitus (Bourdieu, 1983).
Assim, percebe-se que a simbologia da profissão de “pião
trecheiro” influencia diretamente a forma de interação e cons-
tituição de vínculos, em que o estilo de vida faz com que esses
homens não se prendam a uma “região fixa”, o que comporta
um tipo de relação simbólica com o lugar (região), mediada
pela ideia de “fazer parte” e “não fazer parte”, sendo sempre
uma relação fluida e passageira com o lugar e as pessoas da
região.
Olhar para o risco pela relação que esse grupo estabele-
ce, diretamente interligada com o trabalho, ajuda a perceber
como essas dimensões se correlacionam com outras e, conse-
quentemente, se refletem na forma como esses homens car-
regam esses símbolos como marcas centrais dessa identidade
masculina. Pois o risco aparece como referência presente na
vida desses trabalhadores, entendido como elemento intrínse-
co à profissão do “pião trecheiro”.
A vida dos profissionais que – conforme a metáfora uti-
lizada por um dos trabalhadores – “rodam” reporta elemen-
tos como aventura, força e coragem aos que fazem parte desse
grupo. O estilo de vida que levam faz com que se exponham
a vários perigos, como também expõe outras pessoas com as
quais se relacionam, e isso é intensificado por causa das exi-
gências de deslocamento/migração. E a amplitude dos riscos a
que estão sujeitos abarca questões interligadas pela convivên-
cia na comunidade, tanto quanto pela natureza do trabalho
que realizam.
Os atributos tidos como masculinos apareceram ligados
à questão de liberdade, autonomia, aventura, prazer e res-
ponsabilidade (Sarti, 2005; Quadros, 2004). Por meio desses
atributos, esses sujeitos compõem seus caminhos, e as formas
de vivência e percepção dos riscos estão ligadas à identidade
masculina, reforçada pelo estilo de vida que a profissão lhes
Trabalho e risco na composição da identidade do “pião trecheiro” – Sirley Vieira da Silva • 89

impõe, influenciando diretamente a formação da identidade


coletiva desse grupo.

Referências

BECK, U. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. Tradução de


Sebastião Nascimento. São Paulo: Ed. 34, 2010 [1985].

BOLETIM EPIDEMIOLÓGICO AIDS E DST 2000. Ministério da Saúde.


Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de DST, Aids e Hepati-
tes Virais. Brasília, 2012.

BOLETIM EPIDEMIOLÓGICO AIDS E DST 2011. Ministério da Saúde.


Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de DST, Aids e Hepati-
tes Virais. Brasília, ano VIII, n. 1, 2012.

BOURDIEU, P. Gostos de classe e estilos de vida. In: ORTIZ, R. (Org.).


Pierre Bourdieu: sociologia. São Paulo: Ática, 1983. n. 39, p. 82-121. Coleção
Grandes Cientistas Sociais.

DOUGLAS, M.; WILDAVSKY, A. Risk and culture: an essay on the selection


of technical and environmental dangers. Berkeley, CA: University of Cali-
fornia Press, 1982.

ECKERT, C. Do corpo dilapidado à memória reencantada. In: Corpo e signi-


ficado: ensaios de antropologia social. Organização de Ondina Fachel Leal.
Porto Alegre: UFRGS, 1995. p. 139-154.

GOFFMAN, E. Frame analysis: an essay on the organization of experience.


2. ed. Boston: Northeastern University Press, 1986 [1974].

INSTITUTO SANGARI. Mapa da violência 2012: os novos padrões da vio-


lência homicida no Brasil. 1. ed. São Paulo, 2011.

MALINOWSKI, B. Argonautas do Pacífico ocidental. São Paulo: Abril, 1976.


90 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

MINAYO, M. C. de S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saú-


de. 7. ed. São Paulo: Hucitec; Rio de Janeiro: Abrasco, 2010.

QUADROS, M. T. Homens e a contracepção: práticas, ideias e valores mascu-


linos na periferia do Recife. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-gradu-
ação em Sociologia, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2004.

______; SCOTT, R. P. O masculino na saúde sexual e reprodutiva em Per-


nambuco. In: II CONGRESSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E SAÚDE. Anais…
São Paulo, 1999.

QUEIRÓS, M. Uma reflexão sobre as perspectivas metodológicas na análi-


se do risco ambiental. In: COLÓQUIO GEOGRAFIA DOS RISCOS, Plani-
geo, FLUL. Anais… Lisboa, 2000.

RIBEIRO, G. L. Bichos de obra: fragmentação e reconstrução de identida-


des. In: Cultura e política no mundo contemporâneo. Brasília: UnB, 2000.

SANTANA, A. M. Mulher mantenedora/homem chefe de família: uma


questão de gênero e poder. Revista Fórum Identidades, Itabaiana: Gepiadde,
ano 4, v. 8, jul./dez. 2010.

SARTI, C. A. A família como espelho: um estudo sobre a moral dos pobres. 3.


ed. São Paulo: Cortez, 2005.
Promoção da saúde sexual e
reprodutiva em contextos de
grandes obras de infraestrutura e
trabalho temporário masculino
Regina Figueiredo, Alessandro de Oliveira dos Santos e
Marcelo Peixoto

1. Introdução

No Brasil, grandes obras de infraestrutura de base, vi-


sando ao desenvolvimento econômico do país, necessitam de
aprovação pelo poder público por meio de Estudos de Impac-
to Ambiental (EIA), seguidos da elaboração de um Relatório
de Impacto Ambiental (RIMA). Esse relatório e sua análise
foram uma conquista do movimento ambientalista, visando
a evitar ou, pelo menos, a minimizar e antecipar, para resolu-
ção, as interferências que esses projetos pudessem causar ao
meio ambiente (Acselrad, 2010).
Sabe-se que os impactos ambientais não se reduzem ao
ambiente físico, fauna e flora, devendo ser considerados tam-
bém sob o ponto de vista de sua capacidade de influência so-
bre o meio social. No entanto, no Brasil ainda não são reque-
ridos como obrigatórios os estudos de previsão de impactos
de grandes obras de engenharia sobre o meio social e as po-
pulações por elas atingidas, apesar de tais obras produzirem
quase invariavelmente deslocamento de mão de obra, agre-
gando uma população flutuante “estranha”, por dado perío-
do de tempo, às localidades onde essas obras serão realizadas.
Esse movimento costuma gerar uma série de impactos sociais
negativos para os municípios receptores, visto que, na maio-
ria das vezes, os poderes locais não dispõem de planejamento,
92 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

recursos, meios legais e instrumentos capazes de minimizar


seus efeitos.
De 2010 a 2011, a construção da Usina de Belo Monte,
no Pará, por exemplo, fez crescer a população de Altamira de
100 mil para 145 mil habitantes, representando um acréscimo
de 45% (Clam, 2012). Segundo o Movimento de Mulheres de
Altamira do Campo e da Cidade, essa vinda de trabalhadores
homens contribuiu para o crescimento das notificações dos
casos de exploração, abusos e violência sexual e agressão física.
Os casos de abuso sexual praticamente dobraram, em termos
de notificação; entre menores, passaram de 43 para 75 casos
entre 2010 e 2011; e furtos, roubos e crimes de violência con-
tra as mulheres também registraram um aumento de 28% no
mesmo período (Clam, 2012; Oliveira e Pinho, 2014).
Além disso, a prostituição aumentou na localidade após
o recebimento de salários pelos trabalhadores. Os casos en-
volvendo trocas sexuais entre esses profissionais e o público
infantojuvenil registraram crescimento, havendo relatos in-
clusive de “programas” pagos com uso de vale-alimentação
(Talento, 2014b). Entre as índias de aldeias localizadas nas
áreas afetadas pela construção de Belo Monte, também tem
ocorrido troca de sexo com os trabalhadores por bens mate-
riais, ouro ou dinheiro (Oliveira e Pinho, 2014). Os casos de
abuso sexual de mulheres adultas e adolescentes dessas tribos
muitas vezes têm ocorrido com a conivência das próprias co-
munidades, reféns de interesses de circulação desses recursos
e dinheiro (Talento, 2014a). Tais episódios – invariavelmente
associados ao consumo excessivo de bebidas alcoólicas – já ha-
viam sido observados nos arredores na época da construção
dos 4.224 km da Rodovia Transamazônica, projetada na dé-
cada de 1970 pelo governo militar para interligar as regiões
Norte e Nordeste do país (Clam, 2012).
No município de São Bernardo do Campo, na Grande
São Paulo, as obras do trecho sul do Rodoanel – desenvolvido
Promoção da saúde sexual e reprodutiva – Regina Figueiredo et al. • 93

para interligar as estradas do estado e reduzir a entrada de


caminhões e veículos na capital – envolveram a contratação
de 4 mil operários homens, que ficaram instalados em alo-
jamentos de 2007 até 2010. Nesse mesmo período, segundo
reportagem da Folha de S.Paulo (Castro e Brito, 2011), as uni-
dades de saúde da região registraram aumento do número de
gestantes adolescentes de 73% para 91%. Na região das obras
do Rodoanel, foram geradas dezenas de crianças nascidas sem
contato, apoio ou auxílio financeiro de seus pais biológicos,
que foram embora após o término das obras, na maioria das
vezes sem estabelecer vínculo duradouro com as mães. A re-
portagem também relata que, no mesmo período, houve mais
registros de casos de violência física, consumo e tráfico de dro-
gas e prostituição na região.
Na construção da Refinaria de Abreu e Lima e do Polo
Petroquímico de Suape, no estado de Pernambuco, conforme
a série veiculada pelo Diário de Pernambuco (2011), houve um
aumento populacional de 14,8% para 54,36% por causa da
presença de mais de 32 mil homens contratados como traba-
lhadores temporários. Gestações advindas de relações sexuais
e afetivas ocasionais, filhos sem pai biológico, exploração se-
xual de adolescentes e estupro foram eventos que “explodiram
na região”, conforme as reportagens, além do crescimento de
casos de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), incluin-
do Aids.
Fenômenos semelhantes também ocorrem em municí-
pios que recebem grande contingência de turistas homens.
Pesquisas mostram que há: descuido na proteção sexual,
principalmente associada ao consumo de álcool; aumento
dos casos de DSTs/ Aids e hepatites entre a população local,
por causa das relações sexuais envolvendo os turistas; incre-
mento do mercado do sexo, incluindo tanto a prostituição
profissional quanto a exploração sexual comercial; aumen-
to das emergências médicas decorrentes do uso abusivo de
94 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

álcool e outras drogas pelos turistas e intensificação do con-


sumo dessas substâncias entre os jovens moradores (Figuei-
redo e McBritton, 2006; Santos e Paiva, 2007; Santos e Fi-
gueiredo, 2009).
Os fluxos populacionais, como a migração de trabalha-
dores e de turistas, e seus efeitos negativos sobre as popula-
ções das localidades que os recebem têm sido foco de nossa
atenção e objeto de intervenção desde o ano 2000. A experi-
ência em diversos projetos no contexto de migração de pes-
soas nos levou a uma série de discussões e paralelos sobre
as semelhanças e diferenças entre comunidades que recebem
turistas e comunidades que recebem trabalhadores para exe-
cução de grandes obras. Isso favoreceu a análise das relações
entre os fluxos populacionais e a produção de vulnerabilida-
des e agravos à saúde. Também permitiu o desenvolvimento
de estratégias práticas de promoção de saúde sexual e repro-
dutiva, incluindo prevenção à exploração sexual comercial
de crianças e adolescentes, gestações não planejadas e DSTs/
Aids.
Este capítulo pretende disseminar as experiências acu-
muladas com os projetos que realizamos, envolvendo especi-
ficamente o trabalho/trabalhador migrante e a comunidade/
morador, em diferentes regiões brasileiras, por meio das orga-
nizações não governamentais Centro Vergueiro de Atenção à
Mulher, Instituto Ing-Ong de Planejamento Socioambiental
e Instituto Cultural Barong. Inicialmente, descrevemos as ca-
racterísticas e a situação do trabalho/trabalhador em grandes
obras e destacamos aspectos dos projetos de saúde sexual e re-
produtiva realizados. Ao final, são feitas recomendações para
municípios e estados que venham a lidar com grandes obras
de infraestrutura e trabalho temporário masculino e indica-
ções de portais eletrônicos e leituras para o aprofundamento
dos temas abordados.
Promoção da saúde sexual e reprodutiva – Regina Figueiredo et al. • 95

2. Características do trabalho/trabalhador
temporário em grandes obras
De forma geral, algumas características são comuns em
todas as obras de base que promovem a estruturação do de-
senvolvimento econômico, conforme o modelo de avanço
tecnológico atualmente no país: essas obras de infraestrutura
envolvem a engenharia de construção civil e para serem execu-
tadas necessitam de mão de obra braçal; portanto, empregam
a força e a habilidade majoritariamente masculinas. Esses
trabalhadores “braçais” são requisitados entre segmentos po-
pulacionais de baixo poder socioeconômico e escolar que têm
menor qualificação profissional e empregos sem estabilidade.
Tal perfil favorece a aceitação do trabalho temporário, in-
cluindo a necessidade de deslocamento por médios ou gran-
des períodos, e produz uma série de relações de trabalho que
não seguem, em geral, o padrão de adequação adotado em
empresas que empregam mão de obra fixa. Por uma questão
de situação de desenvolvimento econômico e escolar brasilei-
ro, que concentra grande parte da população em situação de
trabalho sem qualificação, a concorrência para ocupação das
vagas desse tipo de trabalho braçal temporário é grande, ha-
vendo mais oferta de mão de obra do que procura.
Desse modo, a situação de trabalho, incluindo jornadas,
instalações, higiene e moradias oferecidas, é prontamente acei-
ta, embora nem sempre seja digna de organização e salubrida-
de, ficando a cargo de cada empresa sua ordenação, conforme
as legislações existentes. Por uma questão de conquistas com
relação à organização do trabalho advindas do período de in-
dustrialização do país, a legislação brasileira foca a condição
de saúde do trabalhador do ponto de vista da redução de ris-
co do corpo físico, salientando a importância de condições de
segurança e alimentação durante a jornada de trabalho. As-
pectos e peculiaridades que fogem a essa exposição corpo-tra-
96 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

balho, entretanto, são pouco avaliados e exigidos, facilitando


a precariedade dos ambientes que não estejam associados di-
retamente ao local de ocupação, como alojamentos e locais de
descanso e lazer.
Outro aspecto importante é que, no caso dos grandes
deslocamentos de mão de obra masculina, os trabalhadores fi-
cam isolados do grupo familiar por médios e até grandes perí-
odos de tempo, já que as obras são distantes. Isso impossibili-
ta o retorno ao lar em finais de semanas e feriados e, por vezes,
até em férias. Ademais, os recursos necessários para manter
visitas aos familiares, em geral, não compensam os ganhos do
trabalho, por isso estas não são feitas com regularidade.
A maioria dos trabalhadores, portanto, se mantém em
alojamentos ou residências temporárias para homens, segre-
gados de mulheres, locais nos quais as características de com-
portamento de gênero se tornam mais arraigadas. Os padrões
da cultura masculina se exacerbam nesses ambientes, não ape-
nas no espaço de trabalho, mas também no de moradia. São
comuns valores ligados à força e à virilidade, com demonstra-
ções de independência, de potência sexual, restrição a conta-
tos físicos afetivos e desvalorização da sensibilidade.
Vale ressaltar que esses padrões da cultura masculina que
regulam práticas e comportamentos referem-se a um modelo
exterior patriarcal, pois interiormente as necessidades desses
trabalhadores de cuidado, carinho, afeto e complementari-
dade do universo feminino não desaparecem, o que vai levar,
juntamente com a necessidade sexual, à busca de parcerias lo-
cais quanto maior for o tempo de estadia.
Observa-se um afastamento desses homens de suas re-
des de proteção social originais e sociabilidade. Além de se-
rem desconhecidos e recém-chegados onde se instalam, não
possuem vínculos sociais, portanto adotam comportamen-
tos distintos, atípicos e por vezes mais soltos, desinibidos e
até inconsequentes, se comparados aos comportamentos que
Promoção da saúde sexual e reprodutiva – Regina Figueiredo et al. • 97

mantêm em sua região de origem. Esse modo de agir menos


comum e mais desprendido de controle social pode exacerbar
situações como bebedeiras, frequência à busca de prostitui-
ção, envolvimento com violência, tal como são verificadas em
situações de turismo de massa envolvendo a população mas-
culina (Figueiredo e McBritton, 2006 e 2007).
A esse contexto, normalmente, se soma a falta de previ-
são, preparo ou interesse das empresas contratantes em an-
tecipar, remediar e/ou evitar os efeitos negativos da migração
de trabalhadores temporários na localidade onde se realizará
a obra. Isso inclui a ausência de ações de promoção da saúde
sexual e reprodutiva junto aos empregados e/ou com os mo-
radores locais com quem esses trabalhadores passarão a ter
contato. Praticamente nenhuma empresa “qualifica” sua mão
de obra para esse entrosamento, deixando a forma como guia-
rão seu novo cotidiano à mercê de suas próprias formações e
padrões culturais de comportamento.
A atenção do trabalhador se restringe a se oferecer como
mão de obra, trabalhar e ganhar, quase sempre visando o en-
vio de dinheiro para sustentar a família, que vive em outro lo-
cal. A preocupação com o futuro, por isso, está mais ligada ao
trabalho que irá desempenhar após o término da obra, onde
se empregará depois, do que propriamente às condições locais
que enfrenta no presente. Nesse sentido, quanto maior o pe-
ríodo da obra, mais despreocupação futura e sensação (irreal)
de amparo e estabilidade no emprego.
Por outro lado, o poder público local não costuma aten-
tar para os efeitos sociais negativos que advirão dessa chegada
numerosa de pessoas, focando mais o aspecto de desenvolvi-
mento econômico, tecnológico e de recursos e taxações, ou
até de destaque e visibilidade que a obra trará ao município.
Assim, prefeituras e estados pouco avaliam e incluem nas dis-
cussões com as empresas que irão se instalar o dispêndio com
a estruturação de uma rede social de proteção capaz de rece-
98 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

ber os trabalhadores. Há falta de percepção da necessidade de


equipamentos de lazer e de contato social como necessários
para essa mão de obra. Ao contrário dessa postura, é impor-
tante frisar que locais de lazer e recreação para o período de
não serviço não são detalhes, mas pontos fundamentais da
condição desse tipo de emprego, visto que a situação de traba-
lho implica necessariamente momentos de desfrute desses e
revezamentos entre períodos de ócio e ocupação.
Além disso, historicamente o poder público local tem se
omitido na preparação de sua população para a chegada dos
trabalhadores e os efeitos que esse evento poderá causar em
suas vidas. Quando pensamos em saúde sexual e reprodutiva,
esse despreparo fica mais evidente, tendo em vista que temas
como cuidado à saúde, sexualidade e parcerias afetivo-sexuais
são, em geral, atribuídos à vida privada e à responsabilidade
individual das pessoas.

3. Relações de gênero e afetivo-sexuais entre


trabalhadores e moradores locais

É nas classes mais desfavorecidas da população brasileira


que o padrão de divisão sexual do trabalho é mais exacerba-
do: ainda é a mulher a responsável pela maioria ou totalidade
do trabalho doméstico e o homem aquele que tem o dever de
prover a casa com recursos. Isso é típico tanto em uniões nas
quais as mulheres são donas de casa quanto naquelas em que
elas têm empregos remunerados e, nesse caso, devem buscar
ocupações que possam conciliar os dois papéis em uma dupla
jornada de trabalhadora remunerada e dona de casa (França e
Schimansky, 2009).
Esse aspecto das relações de gênero está presente nos en-
contros estabelecidos entre os trabalhadores e as mulheres
locais. Em geral, a mão de obra masculina que se instala por
Promoção da saúde sexual e reprodutiva – Regina Figueiredo et al. • 99

grandes períodos em alojamentos ou moradias distantes da


família perde o referencial de cuidado do espaço privado e de
si; alguns membros, inclusive, passam a se alimentar mal, des-
cuidar da higiene, da roupa, utensílios de uso pessoal, porque
são afazeres que não costumam estar habituados a desempe-
nhar e que consideram das mulheres. A falta das mulheres,
assim, é sentida para as questões práticas de organização de si
e do espaço de moradia.
Além disso, a ausência das mulheres também é sentida
para o contato afetivo e sexual, como necessidade de recebi-
mento de carinho e prazer físico, necessários para evitar a so-
lidão e alimentar os momentos de acolhimento e escuta, que
também permeiam as noites e os horários de folga desses tra-
balhadores. Padrões de conversa entre homens colegas de tra-
balho e de alojamento são muito diferentes do acolhimento
fornecido por parceiras, já que nos códigos de conduta de am-
bientes masculinos, em geral, não há espaço para queixumes,
atenção individualizada e intensa.
Apesar de satisfazer sexualmente, nem sempre os rela-
cionamentos pontuais e mercantilizados com profissionais
do sexo promovem o contato acolhedor, como se dá com
parceiras afetivas. Isso torna comum que esses trabalhadores
busquem mulheres nas novas localidades onde estão para se
relacionar também afetivamente. Descrita superficialmente
apenas como interesse sexual, com o objetivo de “usar a mu-
lher”, a busca de parceiras na comunidade de estada na verda-
de se amplia conforme o tempo dessa permanência, fazendo
a junção de duas necessidades: a de disponibilidade e dese-
jo sexual e a da necessidade afetiva desses homens, que estão
sós e carentes e, por conseguinte, mais sensíveis a situações de
“apaixonamento”.
É fato que trabalhadores(as) do sexo se aproximam de
comunidades receptoras de grandes obras e de trabalho tem-
porário masculino com a oportunidade de obter maior clien-
100 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

tela; ao mesmo tempo, mulheres adultas e adolescentes da


própria localidade também sentem atração e encantamento
pelos recém-chegados, que representam “novidade”, possibili-
dade de status e de estabilidade, por terem registro em carteira,
serem de empresas muitas vezes renomadas e estarem sós e
disponíveis. Não é à toa que esse fenômeno se repete: mas-
sas de homens desacompanhados, não só para trabalho, mas
também para turismo e estudo, aumentam a probabilidade de
ocorrência de situações de envolvimento afetivo e sexual com
moradores(as) jovens das comunidades (Santos e Figueiredo,
2009; Belenzani, 2012).
Tais situações de encontro se dão em condições ainda
típicas da população brasileira: ou seja, onde há falha de uso
de métodos contraceptivos e preservativos, pouca orientação
e fornecimento destes às adolescentes e um padrão de cul-
tura masculina que não associa os comportamentos sexuais
à preocupação de cuidado com a saúde ou com a gravidez e
filhos. Isso contribui para que ocorram gestações, nascimen-
tos de crianças sem paternidade e DSTs, incluindo a Aids. As
vulnerabilidades expressas no encontro trabalhadores-mo-
radores das comunidades anfitriãs refletem os problemas do
sexo sem proteção oriundo de comportamentos-padrão que
ambos os grupos já adotavam, porém agora potencializados
por uma situação de crescimento populacional, concentra-
ção geográfica e incremento da quantidade de sexo casual e
descomprometido.
O aumento da prostituição observado em situações
de chegada de mão de obra masculina não se refere apenas
à quantidade maior de mulheres locais disponíveis para es-
tabelecer trocas sexuais em busca de status ou remuneração,
mas também à inclusão de profissionais do sexo que se deslo-
cam de outras localidades. Tanto mulheres, quanto travestis
e transexuais ou gays que se prostituem, veem oportunidade
de mais ganhos com essa nova clientela, independentemente
Promoção da saúde sexual e reprodutiva – Regina Figueiredo et al. • 101

da idade que possuam. Por isso, em geral a exploração sexual


de crianças e adolescentes cresce na mesma proporção que a
prostituição em geral: os profissionais do sexo e as famílias
que são coniventes em relação à prostituição de filhos e filhas
sabem que há possibilidade de os trabalhadores contratarem
programas sexuais pagos, uma vez que não estão à procura de
parcerias fixas, porque a maioria possui mulher e filhos em
seus locais de origem.
Dessa forma, relações sexuais, mas também afetivas, são
inerentes ao deslocamento de homens desacompanhados por
médios ou longos períodos, em razão da impossibilidade de
poderem trazer suas parceiras habituais. A quase totalidade
dessas novas relações será temporária, enquanto durar o tra-
balho; raríssimas terão continuidade, geralmente ocorrendo
quando envolvem homens mais jovens, solteiros e sem parce-
ria fixa anterior.
Já situações que envolvem o deslocamento de trabalha-
dores junto com o grupo familiar e filhos reduzem essa pos-
sibilidade, pois permitem a transferência para as localidades
dos padrões de comportamento afetivo-sexuais anteriores aos
quais esses homens estavam habituados, como ocorrem nos
modelos de construção de vilas operárias de trabalhadores, tal
como adotado na década de 1970 na construção da Usina Hi-
drelétrica de Itaipu, em Foz do Iguaçu (Jesus, 2008).
A falta de referências sociais e de vinculação com o novo
grupo que comporão por um período de tempo também faci-
lita a adoção de comportamentos atípicos pelos trabalhado-
res. Em razão da falta de familiares, parceiros e filhos para es-
tabelecer o lazer ao qual estavam acostumados, trabalhadores
deslocados invariavelmente procuram mais profissionais do
sexo do que o faziam anteriormente, como também adotam
formas de lazer que incluem o uso de álcool e outras drogas
de forma mais intensa do que realizavam, visto que são os
comércios, incluindo bares, as únicas opções de socialização e
102 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

lazer disponíveis. Isso aumenta o envolvimento em confusões,


violência verbal, física, sexual e de gênero.

4. Projetos realizados em localidades que


receberam trabalhadores

Desde 2008, por meio de projetos do Cevam, Ing-Ong e


Barong e com o apoio de órgãos públicos e da iniciativa pri-
vada, foi possível atuar com homens trabalhadores braçais
de várias empresas brasileiras para disponibilizar conteúdos
e habilidades no que se refere à cidadania, saúde e direitos se-
xuais e reprodutivos e ao autocuidado, incluindo prevenção
de DSTs/HIV/ Aids. Paralelamente, também foram executa-
dos projetos envolvendo ações realizadas com as comunida-
des afetadas, objetivando mitigar as vulnerabilidades sociais
e os agravos em saúde sexual e reprodutiva e promover a
cidadania.

4.1. Ações com trabalhadores

Em 2009, realizamos projeto de promoção de saúde sexu-


al e reprodutiva dirigido a trabalhadores de gasodutos e oleo-
dutos do interior e litoral paulista, abrangendo os municípios
de Suzano, Mogi Mirim, Mogi das Cruzes, Caraguatatuba,
Taubaté e São José dos Campos. Foram formados 14 grupos
educativos, envolvendo cerca de 200 trabalhadores homens,
que geraram oportunidade de aproximação com suas dificul-
dades relativas ao autocuidado, condições de trabalho e de hi-
giene, incentivando-os à adoção de cuidados no trato sexual e
reprodutivo, incluindo uso de preservativos e a prevenção de
DSTs/Aids e da paternidade não planejada, do câncer de prós-
tata e pênis. Esse projeto, além da sensibilização dos trabalha-
Promoção da saúde sexual e reprodutiva – Regina Figueiredo et al. • 103

dores, propiciou a distribuição de mais de 20 mil cartilhas de


prevenção de DSTs/Aids e a entrega de cerca de 80 mil preser-
vativos gratuitamente, além da orientação dos trabalhadores
e da população em geral à busca de serviços de saúde pública
e realização de exames preventivos, como a testagem para o
HIV/sífilis e hepatites B e C e o exame clínico de prevenção ao
câncer de próstata.
Essa experiência motivou a ampliação de ações voltadas
aos trabalhadores braçais e o desenvolvimento de materiais
educativos específicos (cartilha e DVD), abordando os prin-
cipais temas de saúde que acometem homens, utilizando lin-
guagem direta e masculina, para divulgar a importância do
cuidado com a saúde sexual e reprodutiva (Figueiredo, Mc-
Britton e Peixoto, 2012).
Assim, projetos com homens foram estendidos, e entre
2009 e 2013 foram desenvolvidos projetos de promoção à
saúde sexual e reprodutiva e prevenção de DSTs/Aids/hepa-
tites e tuberculose junto a caminhoneiros e mineradores da
extração mineral do município de Niquelândia, em Goiás.
Durante esse período, foram distribuídos, aproximadamen-
te, 20 mil cartilhas de saúde do homem,1 60 mil folhetos so-
bre testagem de HIV e sintomas de DSTs e 100 mil preser-
vativos masculinos. A maioria desses materiais foi entregue
diretamente à população em diferentes formatos e eventos
programados em pontos estratégicos de acesso a esses traba-
lhadores, em datas comemorativas como: Dia Internacional
do Homem, Dia do Caminhoneiro, Dia de Luta contra a Aids
etc., além da realização de festivais locais de cinema exibindo
filmes temáticos sobre masculinidade, saúde sexual, sexuali-
dade, HIV/Aids e uso abusivo de álcool e outras drogas. Nes-
sas ações, além dos trabalhadores, houve envolvimento de

1
Para ter acesso à cartilha, ver: <http://www.youblisher.com/p/134551-Guia-de-Saude-
Sexual-e-Reprodutiva-do-Homem-e-Outros-Cuidados/>.
104 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

familiares e de equipamentos sociais públicos e do terceiro


setor das comunidades, de modo a facilitar a promoção da
cidadania, a busca de serviços públicos e o autocuidado em
saúde.
Em 2012, foi possível confeccionar entrevistas com tra-
balhadores locais para a confecção do DVD educativo “Cui-
dando deles! Saúde sexual e reprodutiva do homem”.2 Esse
curta-metragem contém trechos de depoimentos recolhidos,
intercalados com ficção, em que o personagem principal des-
taca aspectos da educação e cultura masculina que expõem o
homem a situações de vulnerabilidade com relação ao cuida-
do com sua saúde e sexualidade. Tanto a cartilha de saúde do
homem quanto o DVD desenvolvido se mostraram de gran-
de sucesso entre o público de homens trabalhadores, porque
utilizam linguagem e situações típicas masculinas, além de
muito bom humor, para promover a comunicação dos temas
tratados.

4.2. Ações voltadas à população local

Entre 2008 e 2009, tivemos a oportunidade de realizar


projetos de promoção de saúde sexual e reprodutiva, redução
de gravidez não planejada, DSTs/Aids e vulnerabilidades lo-
cais junto a 16 comunidades localizadas nos municípios de
Mariana e Ouro Preto, em Minas Gerais, e de Guarapari, An-
chieta e Piúma, no Espírito Santo. A chegada de operários li-
gados à mineração havia acelerado o processo de crescimento
de periferias e contribuído para o aumento da prostituição e
dos casos de gravidez na adolescência e uso abusivo de álcool
e outras drogas.

2
Para ter acesso ao vídeo, ver: <http://www.barong.org.br/projetos_saudedohomem_2.
html>.
Promoção da saúde sexual e reprodutiva – Regina Figueiredo et al. • 105

A partir de uma iniciativa conjunta, envolvendo o setor


privado, o terceiro setor, lideranças das comunidades e o po-
der público, foi possível formar cinco turmas amplamente
divulgadas para a capacitação de multiplicadores locais. Es-
ses encontros abordaram os temas saúde e direitos sexuais e
reprodutivos e prevenção ao uso abusivo de álcool e outras
drogas, resultando na formação de 213 multiplicadores, en-
volvimento de 101 instituições locais e 17 campanhas de pro-
moção da saúde sexual e reprodutiva na forma de eventos
pontuais realizados em comemoração ao Dia Internacional
de Luta contra a Aids.
Além dos multiplicadores formados, os projetos também
equiparam as comunidades participantes dos projetos com 12
malas de materiais educativos para abordagem da saúde sexu-
al e reprodutiva. Estima-se que, por meio das ações, aproxima-
damente 7.500 pessoas das comunidades tenham sido benefi-
ciadas indiretamente, sendo 2.500 no Espírito Santo e 5 mil
em Minas Gerais. Além disso, por meio dos multiplicadores
formados, foi possível ampliar a articulação local em torno do
tema, o que gerou aumento das ações de promoção da saúde e
prevenção de agravos junto a moradores, escolas, associações
comunitárias e pelo poder público (Ing-Ong e Cevam, 2008
e 2009).

5. Considerações finais

Com base nas lições aprendidas com os projetos, foi pos-


sível delinear um quadro-síntese, apresentado a seguir, con-
tendo as principais características do contexto do trabalho/
trabalhador temporário de grandes obras associadas às rela-
ções e/ou efeitos gerados nas comunidades/moradores:
106 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

Características de contexto Relações e efeitos


Maioria da população masculina Maior tempo e energia física e necessida-
trabalhadora formada por adultos de de busca de diversão e lazer
jovens entre 18 a 45 anos
Falta de equipamentos de lazer e Improviso de situações de lazer por meio
cultura para entretenimento em mo- de bares de pequeno porte que priorizam
mentos de folga/descanso o consumo de bebidas de alto teor alcoó-
lico (como pinga), oferecendo poucas op-
ções de consumo aos trabalhadores
Afastamento dos trabalhadores de Ausência de vínculo social e anonimato,
suas redes de proteção social e fa- facilitando comportamentos atípicos, in-
miliar originais cluindo maior busca de sexo casual e abu-
so de álcool e outras drogas
Disponibilidade de homens traba- Aumento dos casos de assédio a mulheres,
lhadores com situação financeira adolescentes, gravidez não planejada,
“estável” violência sexual, DSTs
Legislação trabalhista que prioriza Ausência de legislação que exija das em-
aspectos de saúde do trabalhador presas ações voltadas para o bem-estar
ligados a riscos físicos e de insalu- psicossocial dos trabalhadores nos perío-
bridade no local de trabalho dos de lazer/descanso

Nossa experiência de trabalho mostra que é possível atuar


em prol da promoção da saúde sexual e reprodutiva, tanto di-
retamente com os próprios trabalhadores, quanto com a co-
munidade/moradores que os recebem durante a realização das
obras.
Porém, independentemente das ações específicas com
os trabalhadores e com as comunidades, toda a sociedade,
inclusive o poder público, deveria encampar as orientações e
considerações com relação à saúde do homem já incluídas no
Programa Nacional de Saúde do Homem (Ministério da Saú-
de, 2008) e nas legislações de proteção e promoção à saúde do
trabalhador elaboradas pelo Ministério do Trabalho (Ministé-
rio da Saúde, 2005).
Também é importante que empresas envolvidas nas obras
de infraestrutura se comprometam com a promoção da saúde
Promoção da saúde sexual e reprodutiva – Regina Figueiredo et al. • 107

sexual e reprodutiva desde o início das obras, evitando o que


ocorreu no Rodoanel em São Paulo, onde houve distribuição
de preservativos aos trabalhadores de forma pontual e apenas
tardiamente (Castro e Brito, 2011).
Além disso, é fundamental envolver e estimular o pro-
tagonismo da sociedade civil local, como é observado com a
atuação do Movimento de Mulheres de Altamira do Campo
e da Cidade, no Pará, que tem feito proposições políticas com
vistas ao funcionamento da Delegacia da Mulher no local e
denúncias dos problemas associados às obras de Belo Monte
(Clam, 2012). A sociedade civil organizada pode agir junto
ao poder público para que ações visando à promoção da ci-
dadania, das populações locais e dos direitos dos trabalhado-
res sejam implementadas, incentivando empresas a se com-
prometerem e dividirem responsabilidades com o custeio da
mitigação de vulnerabilidades associadas à saúde sexual e
reprodutiva.
Poderes municipais têm importante papel em exigir
essa participação e antecipar e acompanhar situações e ações
que impactem a vulnerabilidade associada à presença desses
trabalhadores masculinos vindos para instalação de gran-
des obras de infraestrutura. Essas ações devem ser feitas em
parceria com as empresas, de preferência antes do início das
obras, e, se possível, ser regulamentadas localmente pelo po-
der legislativo.
A seguir, a título de conclusão, fazemos recomendações
para mitigação de vulnerabilidades e promoção da saúde
sexual e reprodutiva e proteção de direitos em contextos de
grandes obras de infraestrutura e trabalho temporário mascu-
lino que podem ser adotadas:

a) distribuir de forma permanente e gratuita preservativos


masculinos para os trabalhadores e moradores das comu-
nidades, desde início até o final da obra;
108 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

b) distribuir gratuitamente materiais educativos sobre pre-


venção de gravidez, DSTs/Aids, prostituição, álcool e ou-
tras drogas para os trabalhadores e moradores das comu-
nidades;
c) sensibilizar e orientar os trabalhadores, antes ou logo nos
primeiros meses das obras, realizando orientações em en-
contros que abordem os temas: promoção de cuidado em
saúde sexual e sexualidade, orientações de prevenção quan-
to à exploração sexual e abuso infantojuvenil, promoção
da contracepção e prevenção de gravidez e DSTs, Aids e
hepatite B, prevenção ao uso abusivo de álcool e outras
drogas;
d) estimular os profissionais dos serviços de saúde pública,
envolvendo a empresa, a realizar ações de aconselhamento,
teste de gravidez, testagem de HIV, sífilis e hepatites, enca-
minhamento de casos de DSTs/Aids nos alojamentos dos
trabalhadores;
e) estimular as secretarias de saúde a intensificar a orientação
preventiva de contracepção e de uso de preservativos nas
unidades básicas de saúde e junto às associações comunitá-
rias, clubes, ONGs e escolas;
f) articular com as secretarias de educação para que as escolas
da região discutam o tema da vinda de trabalhadores tem-
porários para o município com educandos de Ensino Fun-
damental II, Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos
(EJA);
g) articular com secretarias de assistência social e saúde e in-
tensificar a atuação em prol da prevenção de DSTs/Aids em
locais e pontos de prostituição e compra e uso de álcool e
drogas, antes e até o final das obras;
h) orientar a Polícia, incluindo a Delegacia da Mulher, e a
Justiça local quanto à prioridade e à necessidade de ação
imediata diante de situações de violência contra a mulher,
crianças e adolescentes;
Promoção da saúde sexual e reprodutiva – Regina Figueiredo et al. • 109

i) exigir que empresas mantenham por até dois anos ao final


das obras um cadastro com foto de trabalhadores com seus
endereços e contatos de origem, para que pais biológicos e
sua localização possam ser identificados por mulheres que
venham a ter filhos;
j) preparar os Conselhos Tutelares, Fóruns e Justiça local
para que auxiliem mulheres a localizar e pedir apoio para a
criação de filhos advindos de relacionamentos com traba-
lhadores temporários;
k) exigir que empresas criem locais de lazer para os trabalha-
dores usufruírem nos momentos de folga: espaço para fu-
tebol, sala de jogos que possa ser usada à noite e finais de
semana, televisão, cinema, circo ou teatro, entre outros;
l) priorizar a adoção do formato de “vilas operárias” em obras
de mais de 12 meses, de modo a incentivar a vinda de famí-
lias nucleares em vez de trabalhadores sozinhos.

6. Para saber mais

Nesta seção, indicamos alguns portais eletrônicos de or-


ganizações públicas e da sociedade civil e estudos contendo
informações, referências e materiais para o trabalho de pro-
moção da saúde sexual e reprodutiva em contextos de grandes
obras de infraestrutura e trabalho temporário masculino.

• Para obter informações sociodemográficas sobre as condições de


vida da população masculina, vale a pena visitar o portal eletrô-
nico do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea),
que disponibiliza dados dessa população segundo sexo, ida-
de, cor/raça, focalizando a mobilidade social e o mercado de
trabalho, as diferenças de acesso na educação, saúde, habi-
tação etc.: <www.ipea.gov.br>.
110 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

• Para saber mais sobre saúde da população masculina e obter


dados gerais, consultar portal eletrônico do Ministério da
Saúde sobre dados de morbidade ou mortalidade: <www.
datasus.org.br>.
• Sobre a incidência de DSTs/Aids, o uso de álcool e outras drogas, os
padrões de morbimortalidade, segundo sexo, idade, raça/cor ou orien-
tação sexual, conferir o portal eletrônico do Departamento de
DST/Aids/Hepatites do Ministério da Saúde, que mantém
um conjunto de dados atualizados: <www.aids.gov.br>.
• Para obter mais informações sobre direitos, proteção da in-
fância, combate à exploração sexual comercial, o portal infantil
do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) traz
informações, além de abordar temas como HIV/Aids, vio-
lência e políticas públicas. Há materiais lúdicos para inte-
ratividade, como histórias, desenhos, jogos, testes, vídeos,
enquetes etc.: <www.unicefkids.org.br>.
• Para denúncias e serviços e informações sobre direitos da infância,
o portal da Agência de Notícias dos Direitos da Infância
(Andi), que publica diariamente notícias sobre a popula-
ção infantojuvenil, organiza fóruns de debates e enquetes
sobre o tema, além de fornecer contatos de serviço de de-
núncias de agressão contra crianças e adolescentes: <www.
andi.org.br>.
• Para conhecer exemplos de utilização de novos projetos e tecnolo-
gias de promoção da saúde sexual e reprodutiva, o Instituto Cul-
tural Barong3 dispõe informações e materiais sobre projetos
de promoção em saúde sexual e reprodutiva e prevenção de
DSTs/Aids e abuso de álcool e outras drogas, com diferen-
tes populações, incluindo homens trabalhadores: <http://
www.barong.org.br>.

3
Entre as organizações não governamentais em que atuamos mencionadas no texto,
atualmente apenas o Barong mantém atividades, concentrando a expertise dos projetos
e materiais que foram realizados em parceria anteriormente.
Promoção da saúde sexual e reprodutiva – Regina Figueiredo et al. • 111

Por fim, para o aprofundamento de conteúdos mencio-


nados neste texto, vale a pena conferir os estudos de Laurenti,
Jorge e Gotlied (2005), Andrade e Nóbrega-Therrien (2005),
Lyra, Medrado e Lopes (2007), Martins, Santos e Paiva (2009),
e Almeida, Santos e Paiva (2012), abordando, respectivamente,
os temas: masculinidades, vulnerabilidades e agravos à saúde;
promoção de saúde sexual e reprodutiva do homem; comuni-
dades anfitriãs de turismo e a promoção de direitos; formação
de multiplicadores em projetos de promoção da saúde.

Referências
ACSELRAD, H. Ambientalização das lutas sociais: o caso do movimento
por justiça ambiental. Estudos Avançados, v. 24, n. 68, p. 10-119, 2010.

ALMEIDA, A. de C.; SANTOS, A. de O.; PAIVA, V. O incremento da parti-


cipação comunitária em pesquisas sociais: a estratégia de trabalho com o
agente local. In: PAIVA, V.; PUPO, L. R.; SEFFNER, F. (Org.). Vulnerabilidade
e direitos humanos. Prevenção e promoção da saúde: pluralidade de vozes e ino-
vação de práticas. Curitiba: Juruá, 2012. v. III, p. 253-268.

ANDRADE, L.; NÓBREGA-THERRIEN, S. M. A sexualidade masculina e


a vulnerabilidade ao HIV. DST: jornal brasileiro de doenças sexualmente
transmissíveis, v. 17, n. 2, p. 121-126, 2005.

BELENZANI, R. Saúde e direitos: vulnerabilidades à saúde sexual juvenil


em comunidades litorâneas brasileiras. Psicologia, Saúde & Doenças, v. 13, p.
459-479, 2012.

CASTRO, C. M. de; BRITO, A. Obras do rodoanel deixam “órfãos” na região


do ABC. Folha de S.Paulo, São Paulo, 24 jul. 2011. Caderno Cotidiano. Dispo-
nível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2407201101.htm>.

CENTRO LATINO EM SEXUALIDADE E DIREITOS HUMANOS (CLAM).


Feminismo e sustentabilidade. Rio de Janeiro, 12 set. 2012. Disponível em:
<http://www.clam.org.br/noticias-clam/conteudo.asp?cod=9818>.
112 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

DIÁRIO DE PERNAMBUCO. Série: Filhos de Suape. Caderno Vida Ur-


bana. Recife, 8-13 maio 2011. Disponível em: <http://www.slideshare.net/
jairoblima/filhos-de-suape>.

FIGUEIREDO, R.; MCBRITTON, M. Cultura de turismo e população li-


torânea: contatos afetivo-sexuais de verão. Boletim do Instituto de Saúde, São
Paulo, n. 41, abr. 2007.

______; ______. Relato de pesquisa e proposta de intervenção: comportamento


sexual, reprodutivo e uso de álcool pelos jovens no carnaval. São Paulo:
Instituto Cultural Barong, 2006. Disponível em: <http://www.barong.org.
br/phpATM/index.php?PHPSESSID=bd6e0ecb9b4494381cf318bb20f82
63b&direction=0&order=nom&directory=BARONG>.

______; ______; PEIXOTO, M. Promoção de saúde integral e abordagem


de gênero como estratégia de ação em saúde sexual e reprodutiva de ho-
mens heterossexuais. Bis: boletim do Instituto de Saúde, São Paulo, v. 14,
n. 1, p. 65-72, 2012.

FRANÇA, A. E.; SCHIMANSKY, É. Mulher, trabalho e família: uma análise


sobre a dupla jornada feminina e seus reflexos no âmbito familiar. Eman-
cipação, v. 9, n. 1, p. 65-78, 2009. Disponível em: <http://eventos.uepg.br/
ojs2/index.php/emancipacao/article/viewArticle/687>.

INSTITUTO ING-ONG DE PLANEJAMENTO SOCIOAMBIENTAL


(ING-ONG); CENTRO VERGUEIRO DE ATENÇÃO À MULHER (CE-
VAM). Relatório do projeto Despertar para a Vida. São Paulo: Ing-Ong/CEVAM,
2008. 30 p.

______; ______. Relatório do projeto Despertar para a Vida. São Paulo: Ing-Ong/
CEVAM, 2009. 44 p.

JESUS, R. P. Aspectos da constituição urbana de Foz do Iguaçu: experiên-


cia dos moradores do bairro Vila C (1976-2006). In: III SIMPÓSIO LUTAS
SOCIAIS NA AMÉRICA LATINA. TRABALHADORE(A)S EM MOVIMEN-
TO: CONSTITUIÇÃO DE UM NOVO PROLETARIADO? Anais. Londri-
na, 24-26 set. 2008. Disponível em: <http://www.uel.br/grupo-pesquisa/
gepal/terceirosimposio/rodrigopaulo.pdf>.
Promoção da saúde sexual e reprodutiva – Regina Figueiredo et al. • 113

LAURENTI, R.; JORGE, M. H. P. M.; GOTLIED, S. L. D. Perfil epidemioló-


gico da morbimortalidade masculina. Ciência e Saúde Coletiva, Rio de Janei-
ro, v. 10, n. 1, p. 35-46, 2005.

LYRA, J.; MEDRADO, B.; LOPES, F. Homens também cuidam! Diálogos so-
bre direitos, saúde sexual e reprodutiva, paternidade e relações de cuidado. Recife:
Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA)/Instituto PAPAI, 2007.

MARTINS, A. B. M.; SANTOS, A. de O.; PAIVA, V. Promovendo direitos de


mulheres, crianças e jovens de comunidades anfitriãs de turismo do Vale
do Ribeira. São Paulo: Ministério do Turismo/Instituto Ing-Ong de Plane-
jamento Socioambiental, 2009. Disponível em: <http://www.turismo.gov.
br/export/sites/default/turismo/programas_acoes/programa_sustenta-
vel_infancia/downloads_tsi/Promovendo_os_Direitos_de_mulheres_e_
crianxas_INGONG.pdf>.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Caderno de legislação em saúde do trabalhador. Bra-


sília, 2005. Série E. Legislação de Saúde. Disponível em: <http://bvsms.
saude.gov.br/bvs/publicacoes/caderno_legislacao_st1.pdf>.

______. Política nacional de atenção integral à saúde do homem. Brasília, 2008.


Disponível em: <http://dtr2001.saude.gov.br/sas/PORTARIAS/Port2008/
PT-09-CONS.pdf>.

OLIVEIRA, A. da C.; PINHO, V. de A. (Coord.). Relatório final do diagnóstico


rápido participativo complementar: enfrentamento da violência sexual contra
crianças e adolescentes no município de Altamira – PA. Altamira: UFPA/
Fundação Tocaia/SociArte; Brasília: Secretaria de Direitos Humanos,
2014.

SANTOS, A. de O. dos; FIGUEIREDO, R. Agravos à saúde e relacionamen-


tos afetivos sexuais em comunidades anfitriãs de turismo. In: SANTOS,
M.; MENEZES, J. de; RIOS, L. F. (Org.). Violência sexual contra crianças e ado-
lescentes: reflexões sobre condutas, posicionamentos e práticas de enfrenta-
mento. EdUFPE, 2009. p. 60-74.

______; PAIVA, V. Vulnerabilidade ao HIV: turismo e uso de álcool e ou-


tras drogas. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 41, supl. 2, p. 80-86, 2007.
114 • Contextos: grandes obras e relações de gênero

TALENTO, A. Belo Monte leva índios à prostituição, diz pesquisa. Folha


de S.Paulo, São Paulo, 8 jun. 2014a, Caderno Cotidiano. Disponível em:
<http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/06/1466790-belo-monte-
leva-indios-a-prostituicao-diz-pesquisa.shtml>.

______. Operários de Belo Monte pagam sexo com vale-alimentação. Folha


de S.Paulo, São Paulo, 13 jun. 2014b, Caderno Cotidiano. Disponível em:
<http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/06/1469550-operarios-de-
belo-monte-pagam-sexo-com-vale-alimentacao.shtml>.
Desafios para pesquisa-
intervenção-pesquisa
Diálogos sobre sexualidades com
as(os) jovens de Cabo de
Santo Agostinho e Ipojuca:
inícios, afetos, normas e prazeres
Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião1

Neste capítulo, trazemos nossa experiência e nossas in-


quietações surgidas a partir dos diálogos sobre sexualidades
com as(os) jovens de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca, em
Pernambuco, surgidos dentro de um trabalho dissertativo
(Shuña, 2014) cuja abordagem teórico-metodológica feminis-
ta pós-estrutural (Piscitelli, 2004; Haraway; 2009, Butler, 2012)
embasou a realização de uma pesquisa-intervenção-pesqui-
sa (Adrião, 2014). As rodas de conversa (Nascimento e Silva,
2009) foram o instrumento de intervenção e o espaço propício
no qual as(os) jovens sentiam-se à vontade para dialogar, de-
bater e posicionar-se sobre sua sexualidade.
No contexto das rodas de conversa, a participação se deu
tendo como mote 70 questionários aplicados em 37 mulheres
e 33 homens jovens, estudantes de ensino médio, moradores
de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca,2 durante o Curso de
Mídias Móveis em julho 2012.3

1
Karla Galvão Adrião contou com apoio da CAPES, por meio de uma bolsa pós douto-
ral, para a produção desse texto.
2
Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca são municípios que têm sofrido grandes mudan-
ças populacionais, sociais e econômicas em razão do desenvolvimento do Complexo de
Suape por grandes empresas como a Petrobras e pela chegada de milhares de homens
trabalhadores na zona.
3
Esse curso tinha como objetivo capacitar um grupo de jovens para a produção de roteiros
audiovisuais, captação de imagens e edição de vídeos. Tal capacitação foi planejada como
ferramenta de diálogo e de debate sobre temas relacionados com os direitos da criança e
do adolescente, a saúde sexual e reprodutiva, o uso abusivo de álcool e outras drogas e o
Diálogos sobre sexualidades – Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião • 117

As rodas de conversa contaram com 14 participantes,


sendo nove mulheres e cinco homens, estudantes do 3o ano
do ensino médio,4 que também tinham participado do Curso
de Mídias Moveis e foram convidadas(os) a participar na cons-
trução de questionamentos e reflexões surgidas a partir dos
resultados dos debates em torno dos resultados dos questio-
nários supracitados, relacionados com os debates no campo
da sexualidade, e as práticas sexuais e direitos sexuais e repro-
dutivos das(os) jovens participantes.
Os diálogos apresentados no capítulo estão organizados
em duas temáticas, sendo a primeira sobre o início da vida
sexual e dos prazeres, e a segunda, sobre o namoro e outros
vínculos afetivo-sexuais. Buscamos compreendê-las a partir
do diálogo entre as experiências trazidas por nossas(os) inter-
locutores e as produções relacionadas com esses temas.

1. A primeira transa e os primeiros prazeres…

Pensar que as(os) jovens têm uma vida sexual, visível ou


clandestina, é ainda difícil de assimilar pela família, pela es-
cola e mais ainda pela Igreja cristã. Nessas instituições, que
conformam circuitos (des)integrados (Haraway, 2009; Qua-
dros, Adrião e Xavier, 2011), a sexualidade é vedada para
aqueles que estão na idade de somente estudar – e não de “ter
safadezas” (Queiroz, 2013). Assim, elas(es) são obrigadas(os)
a acreditar nas “etapas da vida” que cria uma “idade certa”

enfrentamento a agravos de saúde e violações de direitos, entre outros temas de relevân-


cia social, abordados pelo “Ação Juvenil”, uma das sete ações do projeto “Diálogos Suape”.
4
Esses encontros foram desenvolvidos entre os meses de maio e dezembro de 2013,
uma vez por semana, considerando os recessos e períodos de férias próprios do calen-
dário acadêmico. Os encontros estiveram registrados nos diários de campo e gravados
com duas filmadoras, arquivos que permitiram fazer as reflexões apresentadas neste
capítulo.
118 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

para tudo, inclusive para saber, para ouvir e para ter relações
sexuais. Tal como Mariana (17 anos) indica:

Eu acho que se você ouve dessas coisas e tal… fala sobre isso, aí o
moço vai entender como algo normal! E aí você vai agir como se
fosse nada, né?… Mas, se você cresce e você raramente ouve falar
sobre isso, aí quando você vê um vídeo e já tem uns 17 anos, aí
vai ser mais difícil de você ter esse tipo de relação… Mas, como
você cresce ouvindo o tempo todo… E todo mundo fala e você
vê… Aí é bem mais chance de acontecer… (Mariana, 17 anos)

Falar de sexualidade como algo “normal”, diz nossa in-


terlocutora, pode incitar a relações sexuais mais “cedo”, como
se não existissem práticas sexuais independentes de se falar
delas ou não e certamente em idades muito mais “prematu-
ras” das esperadas pelo mundo adulto. Encontramos que 51%
(14 mulheres e 27 homens) das(os) jovens que responderam
ao questionário durante o Curso de Mídias Moveis já tinham
transado, sendo as idades de 14 e 15 anos as mais referidas,
idades também encontradas em outros estudos relacionados
com esse tema (Castro, Abramovay e Silva, 2004; Paiva et al.,
2008).
Mas, contraditório a essas práticas, chama-nos a atenção
que 70% (22 mulheres e 27 homens) de jovens que responde-
ram ao mencionado questionário ainda acreditem em uma
“idade ideal” para que as meninas tenham a primeira transa,
sendo as idades de 17 e 18 anos as mais informadas. Diferente
do almejado para os homens, em que 60% (24 mulheres e 18
homens) de jovens manifestaram que não existe essa tal “ida-
de ideal”, dados esses que mostram, portanto, expectativas e
desigualdades de gênero. Observações que foram foco de dis-
cussão nas rodas de conversa. Aqui alguns diálogos a respeito:

É porque a sociedade já é um padrão né? […] acha que o homem


tem que ser mais solto que a mulher. (Lucas, 17 anos)
Diálogos sobre sexualidades – Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião • 119

Ele já falou tudo! […] é cultural… (Kelly, 17 anos)


A gente aprende isso. (Mariana, 17 anos)

Nas palavras das(os) jovens participantes, é na sociedade


e na cultura que elas(es) vão aprendendo um padrão específico
de “ser mulher” e de “ser homem”, roteiros sexuais aprendidos
muitas vezes antes de ter a primeira transa (Gagnon, 2006);
formas coercitivas de gênero, características/sintomas de viver
a sexualidade e seus prazeres. O que também observamos na
fala de Kelly quando se refere à masturbação: “[…] eu acho que
não era para ter esse negócio de masturbação, não! Porque eu
acho que a relação é a dois […] eu acho que para homem ainda
vale! Mas, para mulher, eu acho que não combina muito, não!
[…]”; como se a mulher não tivesse desejos sexuais sem, neces-
sariamente, estar acompanhada ou não. Mariana aponta isso
como um preconceito tão interiorizado que reprime muitas
vezes os desejos das mulheres: “[…] as meninas mesmas suben-
tendem isso, né?… a gente entende que menino pode mais…
Inclusive, elas podem até querer fazer, mas elas não fazem
porque têm esse preconceito […]”. Desse modo, ainda é uma
surpresa o fato de que a mulher possa ter e sentir desejos e
prazeres sexuais, mesmo na primeira relação sexual. Vejamos
a seguinte conversa:

Eu tinha 16 anos [quando teve relações sexuais]. (Kelly, 17 anos,


estudante)
[…] qual foi tua sensação, quando tu [Kelly] praticaste o sexo?
(Aldo, 16 anos)
Rapaz, eu gostei, visse! (Kelly, 17 anos)
[Aldo fica surpreso com a resposta de Kelly]
Pensou que ia surpreender ela [Kelly] e não conseguiu!
(Ruan,5 entrevistador).

5
Ruan e José Mario, estagiários da “Ação Juvenil”, apoiaram a realização das rodas de
conversa.
120 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

A reação de Aldo nos permite discutir sobre a tradição


patriarcal, que instaura essa dupla moral sexual no imaginá-
rio de homens e mulheres, colocando-os em lugares opostos.
O homem é exigido ser o “comedor” e reprodutor e “a mulher
inferior e sujeita aos prazeres dele […] o que contribuiu para
legitimar e reforçar a ordem aparentemente natural da hierar-
quia de gênero […]” (Parker, 1991, p. 58).
Essa situação é denunciada há anos por feministas como
Simone de Beauvoir (1980), que, com seu manifesto “Nin-
guém nasce mulher: torna-se mulher”, acusa o lugar que ocu-
pa a mulher em uma sociedade patriarcal e capitalista, bases
para manter um sistema heterossexual compulsório, a ordem
do sexo/gênero/desejo/práticas sexuais (Butler, 2012), ordem
que busca controlar a sexualidade e os prazeres das jovens mu-
lheres, negando na prática seus direitos, o que estudos como
os de Marion Teodósio Quadros, Karla Galvão Adrião e Ana
Karina Xavier (2011, p. 88) também afirmam:

Embora existam regulamentações e leis no sentido de garantir


o direito a cuidados de atenção nos espaços privados e públi-
cos, os mesmos ainda perpetuam uma lógica que nega a exis-
tência de desejo e sexualidade de mulheres solteiras, sobretudo
das jovens […].

Assim, apesar dos ganhos obtidos pelas lutas dos mo-


vimentos feministas e de outros movimentos sociais, como
os grupos LGBT, pelo reconhecimento dos direitos sexuais
e reprodutivos, ainda impera a heteronorma, que (re)produz
e afirma desigualdades dentro dos circuitos (des)integrados,
como a casa, a escola, os centros de saúde e a Igreja cristã (Rios
et al., 2008).
A Igreja cristã tem participação significativa na sexuali-
dade das(os) jovens, que é trazida à tona nos discursos de Ma-
riana (17 anos) e Eduarda (17 anos). Elas, que asseguram não
Diálogos sobre sexualidades – Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião • 121

terem transado ainda, insistiram em seus depoimentos que o


“certo” é ter sexo só depois do casamento:

Na Igreja evangélica, a gente pensa nessa coisa de fazer sexo só


depois do casamento […] mas tem gente que não vai pela Igreja,
não! Sabe? Faz o que quer! Mas eu vou pela Igreja! […] (Eduar-
da, 17 anos)
É pecado […] Eu acho que mesmo se casar amanhã e fazer sexo
hoje tá errado! (Mariana, 17 anos)
Quando você é crente, o jovem que casa muito cedo é porque já
quer transar… (Isabela, 17 anos)

A religião cristã converte-se em um mecanismo de contro-


le das práticas sexuais de seus fiéis e, com a criação do pecado
e, especificamente, dos “pecados da carne”, implanta nas cons-
ciências de seus adeptos a “culpa”, o “arrependimento do peca-
dor”, os quais procuram nas orações (confissões) o perdão por
ter transgredido as regras (Rios et al., 2008; Foucault, 2012).
Contudo, as mulheres jovens vão subvertendo em suas
práticas sexuais esses parâmetros instaurados na Igreja cristã
e nos demais circuitos que tentam instaurar mecanismos de
repressão, como escutamos de nossos interlocutores:
Eu acho que isso é uma coisa normal, para quem saber usar
né?… (Paloma, 17 anos)
Lá perto de casa, com 12 anos! 12 anos! Já não é mais virgem a
maioria das meninas! (Aldo, 16 anos)
Mas você chegar e perguntar a uma menina de 23 anos se é vir-
gem? E ela dizer sim!… Meu Deus do céu! Eu acho que isso vai
ser motivo de mangação! (Paloma, 17 anos)

Assim, o sexo, como menciona Gayle Rubin (2003), é


sempre político. As práticas sexuais e eróticas são formas de
responder às políticas de (des)igualdades, em que muitas re-
cebem sustento de discursos científicos (questionáveis) que
intentam negar ou adiar o início da vida sexual das jovens.
122 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

Nessa linha, encontramos pesquisas que ressaltam ne-


gativamente o fato de que as mulheres estejam iniciando sua
vida sexual cada vez mais “cedo” e em idades mais próximas
às idades dos homens; isso as torna mais vulneráveis a DSTs/
HIV, a uma gestação não planejada e/ou ao aborto (Taquette
e Vilhena, 2008).
Mas será que o problema é o “iniciar cedo”? Ou que não
exista mais diferença entre as práticas sexuais de jovens mu-
lheres e a de jovens homens? Ou é não ter acesso a seus di-
reitos sexuais e reprodutivos, não ter facilidades para saber e
obter métodos contraceptivos e de proteção, o que os torna,
elas e eles, vulneráveis? Parece ser que é mais fácil negar a se-
xualidade das e também dos jovens que observar a efetividade
de políticas de acesso a educação sexual e cuidados em saúde
sexual e reprodutiva. Além das desigualdades com que essas
políticas são executadas.
A esse respeito, nossas(os) interlocutoras(es) manifestam
a necessidade de receber informação na escola sobre como
usar a camisinha:

Na escola, deve ter uma foto para entender isso! (Aldo, 16 anos)
Uma aula… (Mariana, 17 anos)
A forma como evitar engravidar, e mais! Porque muitas pesso-
as não sabem! […] Aí, na hora de praticar, vai sem saber como
colocar, aí a camisinha estoura! E tudo mais! […] (Aldo, 17
anos)

Diante dessa carência de (in)formação na escola, nem


todas(os) as(os) jovens procuram outros meios ou têm o cos-
tume de procurar os serviços de saúde para esclarecer dúvidas
sobre sua sexualidade (Paiva et al., 2008). Às vezes por desco-
nhecimento desses serviços, como vemos na fala de Mariana
(17 anos): “[…] não é que uma pessoa chegue lá e peça isso?”,
ou por entraves que apresenta o próprio serviço.
Diálogos sobre sexualidades – Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião • 123

Assim, as práticas sexuais e reprodutivas das(os) jovens


não são assimiladas com tranquilidade e respeito a seus di-
reitos, e sim cobradas em maior medida às mulheres que aos
homens. E se elas confirmarem publicamente sua atividade
sexual, podem ser vítimas de críticas morais e inclusive violên-
cia, como observamos na seguinte conversa:

Os pais dela souberam que já transo. Que poderia acontecer?


(Rocio, entrevistadora)
Eles a matariam! (Lara, 17 anos)
Poderia ser expulsa de casa… (Luana, 17 anos)
Botavam eles pra se casar… (Isabela, 17 anos)
No primeiro momento, seria um espanto, mas depois levar
uma surra na menina não adianta nada, né? Não vai voltar o
lacre [virgindade], né? (Lucas, 17 anos).

Dessa forma, a mulher é punida por ter perdido o “lacre”,


a “virgindade”, ter perdido o sinal de sua “pureza” diante dos
perigos do sexo. Ela é até maltratada por transgredir a norma
de abstinência e revelar que é sujeito sexuado, com uma car-
reira sexual em curso (Heilborn, 1999). Por isso, em um quo-
tidiano marcado por desigualdades, muitas vezes até naturali-
zadas, elas apresentam maiores dificuldades para acessar seus
direitos sexuais e reprodutivos e procurar serviços de saúde.
Entretanto, quais práticas sexuais são essas que as(os) jo-
vens indicam como marcando o início de sua vida sexual? Ou
se, de fato, é o sexo com penetração que marca o início da vida
sexual delas(es), como algumas pesquisas pressupõem (Villela
e Doreto, 2006)? Para responder a esse quesito, trazemos algu-
mas respostas de nossas(os) interlocutoras(es):

Eu acho que, quando tem uma relação sexual […] Tem o sexo
oral, sexo anal e/ou normal que é a vagina… (Aldo, 16 anos)
[…] eu tenho um amiga que é virgem da frente e de atrás não é
[…] Ela é meio virgem […]. (Kelly, 17 anos)
124 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

Mas se for só pela frente? Nunca por atrás? (Ruan, entrevistador)


Nem existe esse negócio de meio virgem! […] pra falar o verda-
deiro, eu acho que não é mais. (Kelly, 17 anos)
Uma pessoa masturba a outra. Isso é considerado sexo?
(Ruan, entrevistador)
É! Se for pra mim é homem com mulher, né? […] beijo, amasso,6
também… (Aldo, 16 anos)
Aquele chameguinho!… (Kelly, 17 anos)

Em tais diálogos, observamos que as práticas sexuais que


definem o início da vida sexual da(o) jovem estão atreladas a
aprendizados do que é considerado “normal” e à “virgindade”,
atribuindo diferentes conotações e hierarquias a esse início.
Isso convida a organizá-lo em três categorias: a primeira, com
o ato sexual de penetração, sendo o sexo vaginal o “normal” e
responsável pela perda completa da “virgindade”, e o sexo anal,
ou forma “anti-higiênica” de ter sexo, que mantém a pessoa
“meio virgem”, como Kelly mencionou, pois sua amiga tinha
iniciado a vida sexual praticando só sexo anal e ainda manti-
nha “pela frente” parte de sua virgindade. De outro lado, ao
considerar que o “normal” é o sexo vaginal, desconsideram-se
ou desapreciam-se outros estilos, outros exercícios sexuais de
lésbicas, travestis, gays, entre outros, inclusive de heterossexu-
ais que subvertem “em seus lençóis” a própria heteronorma.
Na segunda categoria, temos o sexo oral, considerado
uma prática sexual diferente, sendo sua “virgindade” duvido-
sa. Pensar em boca-genital pode ser “ofensivo” para algumas
pessoas, daí a procura de acordos.
Já a terceira categoria reúne as práticas sexuais que não
disputam a “virgindade” e que não implicam a penetração de
genitais, como as carícias, os beijos, a masturbação comparti-

6
“Amasso” é um termo êmico que no grupo significa quando duas pessoas ficam juntas
e, naquele momento, muitas coisas podem acontecer, além de beijos, carícias, abraços e,
às vezes, até contatos sexuais (definição dada por Luana e Eduarda).
Diálogos sobre sexualidades – Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião • 125

lhada, o “amasso”, o “chamego”,7 e outras ainda não ouvidas


ou não nomeadas.
O início da vida sexual para nossas(os) participantes
acontece em parceria, daí que a prática da masturbação feita
de maneira solitária não é considerada marcador dessa experi-
ência. Esta é mais aceita como exercício sexual mais de meni-
nos que de meninas, que têm ainda muito preconceito sobre
isso, pois elas acham que o ato sexual deve conter tudo isso,
não precisando se masturbar como forma de conhecer seus
prazeres. Além de ser proibido pela religião cristã.
Outro ponto importante a mencionar é como o desen-
volvimento corporal associado à idade serve para muitas(os)
jovens como indicador para que as mulheres sejam considera-
das “aptas” para iniciar sua sexualidade. Observemos algumas
conversas:

Tem a ver também pelo corpo! Tem a ver com o corpo também!
[Aldo indicando a Eduarda] Ela não tem seios, não aparecem
muitos seios ainda, entendeu? (Aldo, 16 anos)
[…] tipo, deixar o corpo crescer, amadurecer mais, muito pron-
to também prejudica, pode deixar com deformações no corpo…
(Roberta, 18 anos)

Desse modo, o corpo e suas estruturas anatômicas são


carregados de significados que, no cotidiano sexual da(o) jo-
vem, estão atrelados à maturidade corpórea, à maior idade do
sujeito. Ser considerado mais “velho” em um contexto adul-
tocêntrico e desenvolvimentista parece ser uma saída para
conseguir certas liberdades, mobilidades e reconhecimento de
direitos, de prazeres e da sexualidade. Daí que crianças (Quei-
roz, 2013) e jovens que ainda não alcançam esse status de maior
idade são quase obrigados a mobilizar certas estratégias para

7
“Chamego” é uma demonstração de afeto que inclui abraços e beijos. É ficar “grudadi-
nho” na(o) parceira(o) (definição dada por Luana).
126 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

apresentar uma performance de maior idade e procurar espaços


na clandestinidade para exercer suas práticas sexuais fora dos
olhos do mundo adulto.

2. Namorar: quem tem direito?

Lucas (17 anos) compartilhou em um encontro conosco


que tinha começado a namorar “sério” e que esteve disposto a
apresentar-se aos pais da namorada, mas ela não quis. Ela ti-
nha temor de falar com os pais e preferia cumprir os 18 anos,
ou seja, ser considerada de maior idade para conversar sobre
isso com eles. Assim, eles mantêm um relacionamento ilegal
fora dos olhos da família. Com esse relato, abrimos o debate
sobre quem está permitido namorar. Que significados tem,
para eles, namorar? E em que condições as relações afetivo-
sexuais se desenvolvem?
Lucas entende por que sua namorada prefere se calar; ele
já tinha afirmado que a sociedade exige da mulher ser mais
reservada e se guardar dos prazeres da sexualidade, reafirman-
do, assim, as desigualdades de gênero e, por conseguinte, a
heteronorma.
E se alguma jovem mulher tem certas “liberdades” de na-
morar, essa união tem de reunir certas características. Como
experiência, trazemos o depoimento de Isabela, que nos conta
incomodada sobre as exigências que sua mãe tem sobre o fu-
turo genro: “Tem que ser alguém da religião […] ela quer fazer
o relatório todinho: se ele trabalha, se estuda, [de] que religião
ele é, quantos anos ele tem, quem são os pais […].” Exemplo
que demonstra como a família e a religião são circuitos que
se integram para intervir na escolha/imposição de um parcei-
ro. Instituições que ditam regras para manter o patriarcado,
a heteronorma, em que a mulher é “assujeitada” a seguir esse
destino heterossexual. E não somente elas, também os grupos
Diálogos sobre sexualidades – Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião • 127

LGBT são obrigados a esconder seus vínculos afetivo-sexuais


para que a ordem do sexo/gênero/desejo/práticas sexuais não
se veja quebrantada.
Entretanto, os “homens” também são afetados pela ló-
gica heterossexista, pois precisam demonstrar na sexualidade
sua masculinidade. Como diz Isabela: “Tenho um colega que
o pai levou ele pra iniciar-se num cabaré […]. Eu acho que o
homem também sofre preconceito pelo fato […] de ser obriga-
do a ter relações sexuais com uma mulher […].” O que confir-
ma que a heterossexualidade ainda se vende como a forma
mais “natural” de viver a sexualidade. Como indica Welzer-
Lang (2001, p. 468):

De fato, o duplo paradigma naturalista que define, por um


lado, a superioridade masculina sobre as mulheres e, por outro
lado, normatiza o que deve ser a sexualidade masculina produz
uma norma política andro-heterocentrada e homofóbica que
nos diz o que deve ser o verdadeiro homem, o homem normal.
Este homem viril na apresentação pessoal e em suas práticas,
logo não afeminado, ativo, dominante, pode aspirar a privilé-
gios do gênero. Os outros […] ao grupo dos dominadas(os) que
compreendem mulheres, crianças e qualquer pessoa que não
seja um homem normal. (grifo nosso)

A escola, como o lugar de maior socialização das(os)


jovens, também participa lamentavelmente da manutenção
desse sistema heterossexista. Vejamos a respeito alguns
depoimentos:

Em minha escola já teve um caso parecido! Só que com me-


ninas, elas estavam começando a alisar, aí uma colega veio e
gravou, pegou o vídeo e espalhou por toda a escola, e os colegas
da sala começaram a encher o saco delas, a puxar as cadeiras,
tratando mal, sabe? Aí elas saíram da escola. Aí, depois delas,
teve outro caso dos meninos que estavam se beijando no cor-
redor da sala, aí os meninos da escola começaram a “xingar”
128 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

[insultar] a cara deles […]. (Eduarda, 17 anos)


Uma vez encontraram dois amigos meus se beijando […] cha-
maram seus pais ao conselho tutelar; no final, os dois saíram da
escola […]. (Lucas, 17 anos)

Para as(os) próprias(os) alunas(os), ver casais homosse-


xuais converte-se em algo raro, esquisito, que precisa ser repri-
mido e punido de alguma forma. Daí que alguns jovens LGBT
criaram estratégias para ocultar sua sexualidade aos olhos de
seus colegas da escola.
Destarte, a falta de educação sexual efetiva na escola, em
especial em temas relacionados com o gênero, converte esse
espaço em reprodutor de desigualdades e discriminações,
como Neil Almeida (2011, p. 16) diz: “A homofobia permane-
ce marcando de diferentes maneiras o cotidiano escolar nas
relações estabelecidas entre todas(os) que ali estão: alunas(os)
e docentes […].” Tanto assim que parece que professoras(es) e
alunas(os) são tacitamente heterossexuais. E se algum(a) cole-
ga se atreve a manifestar o contrário, é rapidamente repelido(a),
assim como manifestam nossas(os) interlocutoras(es):

[…] eu acho que deve ter coragem, né?… (Aline, 17 anos)


Se ele quer se assumir, que assuma, né? Eu fico na minha… (Mi-
chael, 19 anos)
Eu não tenho problema nenhum se você é de Umbanda, Evan-
gélica… Mas eu acho que é pelo homossexualismo, porque a
pessoa pensa “eu não vou andar com homossexual porque vão
dizer que eu sou” […]. (Lucas, 17 anos)

Como observamos nas conversas, uma pessoa que deseje


reconhecer-se homossexual perante a sociedade necessita ter
força para conseguir afrontar a sobrecarga de discriminações
e abandonos dos quais será alvo, inclusive daquelas(es) que
são mais próximas(os), como as(os) amigas(os), grupo afetivo
considerado importante na vida das pessoas, além da família.
Diálogos sobre sexualidades – Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião • 129

Assim, ter um(a) amigo(a) homossexual pode provocar ten-


sões e dúvidas diante dos outros sobre sua “masculinidade”
ou “feminilidade”, constrangimento que muitos preferem evi-
tar. No entanto, é preciso dizer que algumas(ns) de nossas(os)
interlocutoras(es) não estiveram de acordo com o dito pelos
colegas. Elas(es) afirmaram que apoiariam sua(seu) amiga(o)
para que assumissem sua sexualidade. Nas palavras de Carlos
(17 anos): “Eu chegaria a falar do assunto com ela ou ele, certo
que tu gosta dela ou dele? Massa!”
Felipe Rios (2009) ressalta que a maioria de marginaliza-
ções e exclusões sofridas por pessoas homossexuais provém
do grupo de amigos, vizinhos e do próprio ambiente da esco-
la ou da faculdade, o que põe em evidência a violência insti-
tucional que sofrem essas pessoas em lugares que possuem,
aparentemente, a missão de promover a cidadania e os direi-
tos. Para o autor, é preciso que as(os) educadoras(es) fiquem
atentas(os) a seu papel no campo de saberes, poderes e desejos
sobre a sexualidade e o gênero, tanto no que se refere ao con-
teúdo curricular quanto nas demandas do cotidiano escolar,
que determinam o que é inteligível ou não. Daí a importância
de se desconstruírem essas “naturalizações”.
Contudo, nas relações afetivo-sexuais, não só as (des)
igualdades de gênero são as que atuam como marcadores so-
ciais que respondem quem pode ou não ter direito a namorar.
Também as tensões relacionadas com a raça e/ou a classe so-
cial intervêm na formação ou na manutenção de um casal.
A esse respeito, nossas(os) interlocutoras(es) nos trazem
algumas de suas experiências:

Mas, assim, é muito difícil um homem pobre namorar uma


mulher rica? (Rocio, entrevistadora)
Os pais não iriam aceitar um homem pobre, mas quando é uma
menina é mais clássico… (Michael, 19 anos)
E também se pode levar este negócio para a profissão. […] O
homem, por exemplo, se sente um pouco retraído ao namorar
130 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

uma juíza, é tanto pelo preconceito, não, sei lá, pela sociedade,
né? A ideia da sociedade que a mulher tem que ser menor do
que o homem… (Isabela, 17 anos)
E alguma vez vocês presenciaram algum problema com respei-
to à cor? (Rocio, entrevistadora)
Sim! Eu vou contar de minha prima, ela namorava, mas agora
já tá casada, né? Mas ela esteve namorando com um rapaz bem
moreninho [negro], e a família dela não queria porque era bem
clássico [fazendo referência à cor], entendeu? […] por causa da
pobreza dele também… (Kelly, 17 anos)
Mas, se ele fosse de uma classe social melhor, eles aceitariam?
(José Mario, entrevistador)
Eu acho que a família iria aceitar, mas não por causa da cor dele,
e sim porque ele tinha e ela não, entendeu? (Kelly, 17 anos).

A classe social proveniente do desenvolvimento econômi-


co e profissional parece ser mais atrativa e importante para
que o casal receba a aprovação familiar. No entanto, espera-se
também que o homem (e não a mulher) seja quem demonstre
as melhores condições sociais e econômicas, características de
sua “masculinidade”, para levar adiante o namoro e/ou casa-
mento, algo próprio do amor romântico – o que reforça hie-
rarquias sociais entre gênero, raça e classe.
Segundo Márcio Mucedula Aguiar (2007), a raça atrela-
da à cor configura uma construção social que guarda certo
significado simbólico para pensar as diferenças e a estrutura
de classes. Por isso, a diferença entre elas é muito tênue. No
Brasil, por exemplo, espera-se que as pessoas afrodescenden-
tes se encontrem em camadas mais pobres, por seu passado
escravista, a que foram expostas, como se a pobreza tivesse a
cor “negra”. Algo que também observamos na fala de Kelly:
ela evita mencionar a raça “negra” usando palavras como
“bem moreninho” para “embranquecer” essa raça. Entendo
que a simples menção à raça pode resultar em algo pejo-
rativo e remarcar a posição do sujeito subalterno (Spivak,
2010).
Diálogos sobre sexualidades – Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião • 131

E nesse cenário de (des)igualdades é que as(os) jovens se


relacionam e formam vínculos afetivo-sexuais, como mencio-
nam nossas(os) interlocutoras(es):

Ninguém é feliz sozinho, né? […] Todo mundo precisa é contar,


conversar, com, sei lá! Uma pessoa que tenha as mesmas ideias
que você, né? (Mariana, 17 anos)
Vocês, todos aqui, já namoraram? (Ruan, entrevistador)
Só ficar, namoro sério, não! (Luana, 17 anos)
O que é sério? (Ruan, entrevistador)
É você se comprometer e ter a intenção de formar uma família.
(Mariana, 17 anos)
Eu acho que depende, se uma pessoa gostar e não rolar “gaia”
[traição], aí pode, sim! […] é curtir! […] É ir às festas, praticar
outras coisas, hahaha! […] Ir ao cinema, ir à casa dela […] O pra-
zer! Para mim, é essencial o prazer! (Aldo, 16 anos)

A descrição do namoro como a “busca da felicidade” por


meio de um relacionamento, de encontrar uma “pessoa certa”,
de um compromisso “sério”, da confiança mútua, de objetivos
em comum, de formar uma família, engatado a momentos de
curtição e de prazer, remete-nos a pensar que, mesmo com os
avanços tecnológicos, a globalização e a flutuação nas relações
contemporâneas, as(os) jovens ainda mantêm na ideia de “na-
moro” certas expectativas do amor romântico.
Tatiana Meirelles (2011) destaca que a expressão “namo-
ro sério” é referida, ainda hoje, como um tipo de relaciona-
mento amoroso que se preocupa em manter a fidelidade e a
durabilidade, além de requerer, no caso das jovens, a autoriza-
ção e o reconhecimento pelo pai/mãe, embora a não aceitação
dos pais ou a não solicitação da permissão não signifique o
fim do namoro, como a experiência de Lucas e sua namorada
que mencionamos no início desse tema.
Para Parker (1991), são os sistemas de sexualidade e gêne-
ro que articulam, claramente, repertórios de práticas sexuais
132 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

em que algumas são definidas como aceitáveis e outras, como


proibidas, o que dificulta que as(os) jovens tenham uma vida
sexual responsável, por causa do pouco apoio social e logísti-
co que recebem para essa prática. Esse contexto leva muitos
jovens a transgredir os “limites” para vivenciar outras possibi-
lidades sexuais, sentidas como algo erótico e excitante, abrin-
do outras formas de reinterpretação da vida sexual e também
outras possibilidades de prazer.
Desse modo, surgiram na “ilegalidade” outros tipos de
vínculos afetivo-sexuais para que a(o) jovem desfrute de sua
sexualidade. Nossas(os) participantes descreveram três mo-
dalidades: a primeira, o “ficar”, em que pode rolar desde um
beijo, um amasso, até a transa em si, com alguma pessoa des-
conhecida ou não. O que caracteriza esse tipo de vínculo é seu
caráter passageiro – embora alguns possam passar de “fican-
tes ocasionais” a “fixos”, até namoro “sério”.
O “ficar” também foi uma saída para que as jovens pu-
dessem viver sua sexualidade com certa “tranquilidade”, na
medida em que, ao praticá-lo escondido da família, não ti-
nham de dar satisfações a ninguém quando o vínculo amo-
roso acabasse (Diógenes, 2007). Embora se espere que a mu-
lher “fique” com menos frequência que o homem, porque
pode ser mal vista: “Eu acho isso feio!”, diz Paloma (17 anos)
ao referir-se à mulher que fica com um e outro, diferente-
mente de Aldo (16 anos), que diz: “[…] é bom pegar um e ou-
tro!” Assim, o “ficar” parece também ser um comportamen-
to que advém de velhos preconceitos, apresentando uma
hierarquização de valores que dividem as mulheres “boas”
para namorar e casar daquelas só “boas” para ficar (Nasci-
mento, 2009).
“Amizade colorida” foi a segunda modalidade menciona-
da pelas(os) jovens e significa aquela amizade com direito a
ter outro tipo de relações, ou seja, relações sexuais. Nesse mo-
delo, encaixam-se amizades com os ex-namorados. Eduarda
Diálogos sobre sexualidades – Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião • 133

(17 anos), Luana (17 aos) e Kelly (17 anos) afirmam ter expe-
rimentado esse vínculo como algo prazeroso, em que existe
a confiança de conversar e fazer coisas diversas, embora não
exista o compromisso da fidelidade.
E a última modalidade: o “conhecerem-se”, que Roberta
(18 anos) nos descreve como um tipo de relacionamento no
qual duas pessoas estão apreciando a possibilidade de namo-
rar ou não. Nesse processo, os parceiros podem se beijar, “dar”
um amasso, ter um chamego – são expressões sexuais que não
implicam o coito.
Como observamos, para nossas(os) interlocutoras(es)
existem duas formas de manifestar sua sociabilidade sexual:
por um lado, as práticas românticas, comprometidas, como
o namoro “sério”, advindas do ideário clássico. E, por outro,
as que acontecem na “clandestinidade”, em que suas vivências
sexuais são mais fluidas e transitórias, surgidas a partir do
contexto da contemporaneidade.
Segundo Anthonny Giddens (1993), o amor romântico
passou a ter maior presença no final do século XVIII, quan-
do as práticas sexuais, consentidas e por prazer, dentro de um
relacionamento amoroso passaram a ser importantes para o
casamento. Totalmente diferente da Idade Média, período em
que o casamento era um contrato estipulado pelos pais para
afiançar alianças econômicas entre famílias e concretizar a
descendência mediante a reprodução. Aos homens era permi-
tida a paixão nos relacionamentos extraconjugais, liberdade
que as mulheres não tinham.
Mas a propagação desse amor aparentemente “subversi-
vo”, desse amor romântico, “[…] foi um enredo engendrado
pelos homens contra as mulheres, para encher suas cabeças
com sonhos fúteis e impossíveis […]” (Giddens, 1993 p. 52).
A ideia de um amor “puro”, “eterno”, de “igualdade” sexual e
emocional só serviu para posicionar a mulher no lar, no priva-
do, e seu irremediável destino como esposa e mãe.
134 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

O amor romântico vende-se na categoria de drama, no-


velas, contos de fadas, garante-se uma história de sofrimento
amoroso como os que conta Kelly: “[…] ele pode ter feito o
que for! ele pode ter traído […] mas, naquele momento que
você diz que vai acabar… Na sua cabeça nunca vem o que ele
fez, na primeira hora vejo o que a gente viveu […]”. Posiciona-
mento que pode torná-las vulneráveis no sentido de esquecer
os cuidados de si pela manutenção do namoro. Como indica
Nascimento (2009), algumas práticas de violência são enco-
bertas como amor e justificadas, por esse sentimento, como
algo normal e socialmente aceitável em um relacionamento
amoroso, o que não é restrito ao casal heterossexual.
Para Sofia Neves (2007), o amor romântico reproduz e
legitima desigualdades, reforça as relações de poder desnive-
ladas, garantindo a continuidade do sistema patriarcal. De
modo que muitas mulheres são como “encantadas” pelo ideal
do “amor para sempre” para assumir características e funções
diferenciadas no espaço doméstico e público. Daí a impor-
tância de entender como se configuram os comportamentos
e sentimentos entre os casais, a fim de atingir os objetivos
de programas de educação e promoção de direitos sexuais e
reprodutivos.

3. Notas nem tão finais…

As discussões trazidas são evidências de como o poder cir-


cula, se (re)produz e assujeita a sexualidade das(os) jovens por
ideologias patriarcais em um cenário capitalista e heterosse-
xista. Essas formas hegemônicas de constituição das relações
mantêm micro e macropolíticas para sustentar a exigência da
ordem do sexo/gênero/desejo/práticas sexuais.
Desse modo, as (des)igualdades coexistem dentro da fa-
mília, da escola, na Igreja cristã, no posto de saúde; circuitos
Diálogos sobre sexualidades – Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião • 135

que se integram e na outra hora se desintegram, gerando di-


ficuldades às(aos) jovens para ter acesso a seus direitos e sua
saúde sexual e reprodutiva, sendo cenários mais constrange-
dores para as mulheres e para os grupos LGBT.
Com tudo isso, as(os) jovens encontraram nos espaços
da “ilegalidade” formas de subverter a norma e os parâmetros
tradicionais de viver a sexualidade e seus prazeres, embora es-
sas formas de agência sejam muitas vezes paradoxais e, por
conseguinte, nem totalmente libertárias, sendo mais manifes-
to no modo como se desenvolvem os vínculos afetivo-sexuais
e nas regras sobre quem tem direito a ter prazer ou não.
A esse respeito, Butler (2006, p. 16) menciona esse caráter
complexo e paradoxal da agência, que implica questionar as
normas que restringem a vida e convocam modos diferentes
de viver:

[…] Mi agencia no consiste en negar la condición de tal constitución. Si


tengo alguna agencia es la que se deriva del hecho de que soy constituida
por un mundo social que nunca escogí. Que mi agencia esté repleta de
paradojas no significa que sea imposible. Significa sólo que la paradoja
es la condición de su posibilidad. Como resultado, el “yo” que soy se en-
cuentra constituido por normas y depende de ellas, pero también aspira
a vivir de maneras que mantengan con ellas una relación crítica y trans-
formadora […].

Desse modo, estar atentas(os) a como opera a categoria


de gênero em interseção com as categorias de raça, classe so-
cial e geração enriquece o processo de pesquisa, facilita-nos
entender e visibilizar as diferenças (re)produzidas em uma so-
ciedade (des)igual e no contexto das cidades de Cabo de Santo
Agostinho e Ipojuca.
Por último, ainda se tem muito a fazer para que mulheres
e homens, jovens lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais
possam desfrutar de sua sexualidade e seus prazeres em um am-
biente de cuidado e responsabilidade com suas práticas sexuais.
136 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

Referências

ADRIÃO, K. G. Perspectivas feministas na interface com o processo de


pesquisa-intervenção-pesquisa com grupos no campo psi. In: labrys,
coletânea feminismos e psicologia, n. 26, Jul - dez 2014.

AGUIAR, M. M. A construção das hierarquias sociais: classe, raça, gênero


e etnicidade. Cadernos de Pesquisa do CDHIS, UFU, v. 36-37, p. 83-88, 2007.

ALMEIDA, N. F. P. (Homo)sexualidades e gênero nos documentos oficiais


da educação. In: REUNIÃO ANUAL DA ANPED, 34, 2011, Natal. Anais…
Natal: Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Educação,
2011. 39-GT23.

BEAUVOIR, S. de. O segundo sexo: a experiência vivida. 2. ed. Rio de Janeiro:


Nova Fronteira, 1980.

BUTLER, J. Deshacer el género. Barcelona: Paidós Ibérica, 2006.

______. Problemas de gênero: feminismo e subversão de identidade. 4. ed.


Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.

CASTRO, M. G.; ABRAMOVAY, M.; SILVA, L. B. da. Juventudes e sexualida-


des. Brasília: Unesco Brasil, 2004.

DIÓGENES, K. M. “O ficar”: um estudo fenomenológico sobre os novos


vínculos afetivos entre mulheres e homens adultos na cidade de Fortaleza.
Dissertação (Mestrado em Psicologia), Unifor, Fortaleza, 2007.

FOUCAULT, M. História da sexualidade: a vontade de saber. 22. impr. Rio de


Janeiro: Graal, 2012. v. I.

GAGNON, J. H. Os roteiros e a coordenação da conduta sexual. In: ______.


Uma interpretação do desejo: ensaios sobre o estudado da sexualidade. Rio de
Janeiro: Garamond, 2006. p. 111-149.

GIDDENS, A. A transformação da intimidade: sexualidade, amor e erotismo


nas sociedades modernas. São Paulo: Universidade Estadual Paulista, 1993.
Diálogos sobre sexualidades – Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião • 137

HARAWAY, D. Manifesto ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-socia-


lista no final do século XX. In: TADEU, T. (Org.). Antropologia do ciborgue:
as vertigens do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. p. 33-118.

HEILBORN, M. L. Construção de si, gênero e sexualidade. In: ______.


(Org.). Sexualidade: o olhar das ciências sociais, IMS/UERJ. Rio de Janeiro:
Zahar, 1999. p. 40-59.

MEIRELLES, T. “Pegar, ficar, namorar…”: jovens mulheres e suas práticas


afetivo-sexuais na contemporaneidade. Dissertação (Mestrado em Educa-
ção), UFRGS, Porto Alegre, 2011.

NASCIMENTO, F. S. Namoro e violência: um estudo sobre amor, namoro e


violência para jovens de grupos populares e camadas médias. Dissertação
(Mestrado em Psicologia) – PPGP/UFPE, Recife, 2009. 144 f.

NASCIMENTO, M. A. G. do; SILVA, C. N. M. da. Rodas de conversa e ofici-


nas temáticas: experiências metodológicas de ensino-aprendizagem em ge-
ografia. In: 10o ENCONTRO NACIONAL DE PRÁTICA DE ENSINO EM
GEOGRAFIA, 10, 2009, Porto Alegre. Anais…Porto Alegre: UFRGS, 2009.

NEVES, S. As mulheres e os discursos genderizados sobre o amor: a cami-


nho do “amor confluente” ou o retorno ao mito do “amor romântico”?. Re-
vista Estudos Feministas, v. 15, n. 3, p. 609-627, 2007.

PAIVA, V. et al. Idade e uso de preservativo na iniciação sexual de ado-


lescentes brasileiros. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 42, supl. 1, jun.
2008.

PARKER, R. G. Corpos, prazeres e paixões: a cultura sexual no Brasil contem-


porâneo. 3. ed. São Paulo: Best-Seller, 1991.

PISCITELLI, A. Reflexões em torno do gênero e feminismo. In: COSTA,


C. de L.; SCHMIDT, S. P. (Org.). Poéticas e políticas feministas. Florianópolis:
Mulheres, 2004. p. 54-55.

QUADROS, M. T.; ADRIÃO, K. G.; XAVIER, A. K. Circuitos (des)integra-


dos? Relações de convivência entre mulheres jovens e profissionais de saú-
de numa comunidade de periferia da cidade do Recife (PE). In: NASCI-
138 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

MENTO, P.; RIOS, L. F. (Org.). Gênero, saúde e práticas profissionais. Recife:


UFPE, 2011. p. 73-94.

QUEIROZ, T. N. de. Significados de sexualidades entre crianças em uma escola


municipal de Cabo de Santo Agostinho-PE. Dissertação (Mestrado em Psicolo-
gia), UFPE, Recife, 2013.

RIOS, L. F. Homossexualidade no plural dos gêneros: reflexões para in-


crementar o debate sobre diversidade sexual nas escolas. In: SCOTT, P.;
LEWIS, L.; QUADROS, M. (Org.). Gênero, diversidade e desigualdades na edu-
cação: interpretações e reflexões para formação docente. Recife: UFPE,
2009. p. 97-116.

______ et al. Os cuidados com a “carne” na socialização sexual dos jo-


vens. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 13, n. 4, dez. 2008.

RUBIN, G. Pensando o sexo: notas para uma teoria radical das políticas da
sexualidade. Cadernos Pagu, n. 21, p. 1-88, 2003.

SHUÑA, R. del P. B. Diálogos sobre sexualidade com as(os) adolescentes/


jovens de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca-PE. Dissertação (Mestrado
em Psicologia), UFPE, Recife, 2014.

SPIVAK, G. Pode o subalterno falar?. Belo Horizonte: UFMG, 2010. 133 p.

TAQUETTE, S. R.; VILHENA, M. M. de. Uma contribuição ao entendi-


mento da iniciação sexual feminina na adolescência. Psicologia em Estudo,
Maringá, v. 13, n. 1, mar. 2008.

VILLELA, W. V.; DORETO, D. T. Sobre a experiência sexual dos jovens.


Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 22, n. 11, p. 2467-2472, nov.
2006.

WELZER-LANG, D. A construção do masculino: dominação das mulheres


e homofobia. Rev. Estud. Fem., v. 9, n. 2, p. 460-482, 2001.
Políticas de equidade para a população
LGBT: relato de experiências sobre
capacitações dos(as) profissionais das
políticas públicas do estado de
Santa Catarina
Daniel K. dos Santos, Gabriela A. Diaz, Marília dos S. Amaral e
Maria Juracy F. Toneli

1. Introdução

O presente trabalho tem sua origem em um projeto


maior elaborado e executado em parceria entre o Núcleo
Margens: Modos de Vida, Família e Relações de Gênero (PSI/
UFSC) e a Associação em Defesa dos Direitos Humanos com
Enfoque na Sexualidade (Adeh – organização não governa-
mental com sede em Florianópolis e diretoria associada à
população travesti e transexual), intitulado “Direitos e vio-
lências na experiência de travestis e transexuais em Santa
Catarina: construção de perfil psicossocial e mapeamento de
vulnerabilidades”.
Duas grandes frentes de trabalho compunham o proje-
to, que contou com apoio da Secretaria de Direitos Huma-
nos por meio de edital. Uma delas, fortemente caracteriza-
da como pesquisa, mapeou as vulnerabilidades, violências
e acesso às políticas públicas da população de lésbicas, gays,
bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros (LGBT) no
município de Florianópolis, por meio de questionários (200)
e grupos focais com pessoas LGBT, bem como entrevistas
com gestores(as) de políticas públicas e participantes de or-
ganizações não governamentais (ONGs) que trabalham nes-
sa área. Na segunda frente, mais voltada para intervenção, a
140 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

atividade central foi composta por cursos de capacitação ofe-


recidos a operadores(as) das políticas públicas de educação,
saúde, assistência social, segurança pública, turismo, cultura
e esporte. É neles que centraremos nosso olhar no presente
texto.
Elaboramos um programa de capacitação para cada secre-
taria, de modo que pudemos nos concentrar em temas especí-
ficos e focar as particularidades de cada área. Cada capacitação
teve duração de 20 horas, as quais foram divididas em dife-
rentes dias, dependendo da disponibilidade das secretarias.
Entre os(as) participantes, estavam presentes servidores(as)
técnicos(as), conselheiros(as) e gestores(as).
As capacitações visaram a sensibilizar os(as) servidores(as)
públicos(as) das respectivas secretarias sobre questões perti-
nentes à diversidade sexual e de gênero no cotidiano de suas ati-
vidades profissionais e em suas práticas como operadores(as)
de políticas públicas. Entendemos que, para que políticas de
equidade sejam efetivadas, não basta apenas a criação de leis,
portarias e programas, mas é preciso também que os sujeitos
que operam “na ponta” dessas políticas, aqueles e aquelas que
estão de fato em contato direto com as populações e grupos
que podem ser beneficiados por elas, apropriem-se do conte-
údo e do significado histórico, político e social que elas repre-
sentam. Desse modo, procuramos articular a realidade coti-
diana dos(as) profissionais de cada secretaria a um contexto
macropolítico relativo às políticas de gênero e de sexualidade,
na esfera tanto nacional quanto internacional.
Em nosso relato, problematizaremos a forma como es-
truturamos nossas capacitações, o conteúdo desenvolvido, as
especificidades de cada secretaria no trabalho com questões
de diversidade sexual e de gênero, as dificuldades encontradas
durante nossas intervenções, os discursos e enunciados que
circularam entre participantes e facilitadores(as), assim como
os impasses e possíveis avanços que intervenções como essas
Políticas de equidade para a população LGBT – Daniel K. dos Santos et al. • 141

podem proporcionar no âmbito das políticas públicas e dos


direitos humanos. Consideramos que as capacitações ofereci-
das funcionaram como um dispositivo de interlocução entre
universidade, movimento social e profissionais das políticas
públicas, bem como uma forma de sensibilização para se pen-
sar e efetivar políticas de equidade para a população LGBT no
contexto das políticas públicas de assistência, educação, saú-
de, turismo, cultura e esporte.

2. Equidade para a população LGBT:


um breve apontamento sobre contornos
políticos e sociais

Como mencionado, as capacitações tiveram como obje-


tivo principal sensibilizar os(as) servidores(as) públicos(as)
sobre a questão da diversidade sexual e de gênero em suas áre-
as de atuação no que diz respeito à efetiva implementação de
políticas públicas voltadas para a população LGBT, de modo
a garantir seus direitos nesse campo.
Nesse sentido, quando falamos em “políticas de equidade
para a população LGBT”, estamos nos referindo a todo um
processo de construções históricas e de lutas de movimentos
sociais que há algumas décadas vem formulando uma agen-
da política que reivindica o alargamento dos direitos sociais,
sexuais, humanos e da noção de cidadania. Tais lutas pelo re-
conhecimento político de grupos minoritários, como a popu-
lação LGBT, as mulheres, a população negra e a população
indígena, vêm mobilizando diversas iniciativas nos âmbitos
jurídicos, sociais e políticos, tanto na esfera nacional, como
pode ser observado em políticas de governo e de Estado, quan-
to na esfera internacional, presentes em princípios e tratados
internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil é signa-
142 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

tário, como aqueles produzidos por instituições como a Orga-


nização das Nações Unidas (ONU) e a Anistia Internacional,
e por grupos de especialistas, militantes e ativistas, como os
“Princípios de Yogyakarta”,1 por exemplo.
No Brasil, no âmbito dos direitos LGBT, temos como
marco histórico o documento Brasil sem homofobia: programa de
combate à violência e à discriminação contra GLTB e de promoção da
cidadania homossexual, lançado em 2004 pelo Governo Federal.
Esse programa tem como um dos objetivos centrais “a edu-
cação e a mudança de comportamento de gestores públicos”
e “a integração interministerial”, visando à erradicação das
violências contra as diversidades sexuais e de gênero, à não
discriminação com base na orientação sexual e identidade
de gênero, e à garantia dos direitos humanos da população
LGBT. O Brasil sem homofobia entende que o combate à ho-
mofobia é um compromisso do Estado e de toda a sociedade
brasileira.
Também merece destaque a Política nacional de saúde in-
tegral de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (Brasil,
2010a), criada pelo Ministério da Saúde em 2010 para ser im-
plementada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e fundada a
partir de diretrizes do Programa Brasil sem Homofobia (Brasil,
2004) e do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH
3) (Brasil, 2010b). Tal política, caracterizada por um caráter
transversal, que envolve diversas áreas do Ministério da Saúde,
foi formulada por vários setores da sociedade e aprovada pelo
Conselho Nacional de Saúde após consulta pública.
Apesar dos esforços dos movimentos sociais e das (escas-
sas) conquistas no campo dos direitos humanos, ainda falta
1
Os Princípios de Yogyakarta são produto da reunião de 29 especialistas na questão da
sexualidade e direitos humanos, de 25 países diferentes, na Universidade Gadjah Mada,
em Yogyakarta, Indonésia, em novembro de 2006. Os 29 princípios tratam da aplicação
da legislação internacional de direitos humanos em relação à orientação sexual e iden-
tidade de gênero (Princípios de Yogyakarta, 2007).
Políticas de equidade para a população LGBT – Daniel K. dos Santos et al. • 143

muito para alcançarmos de fato uma sociedade mais justa,


democrática e menos excludente. Temos testemunhado co-
tidianamente situações de violências (simbólicas, psicológi-
cas, físicas), assassinatos de LGBT, cerceamento de direitos
(como a dificuldade para retificação de nome civil no caso
das pessoas trans; a dificuldade para oficializar união estável
e casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, bem como
para adotar crianças; a dificuldade de garantir acesso a direi-
tos básicos como educação e saúde, especialmente para tra-
vestis e transexuais etc.). Tais impasses se materializam no
boicote à aprovação de políticas públicas por parte de grupos
conservadores e fundamentalistas que vêm ganhando espaço
nas diversas esferas governamentais. Como exemplo de obs-
táculos impostos por esses grupos políticos, podemos citar a
censura do Ministério da Saúde às propagandas de prevenção
ao HIV/Aids direcionadas às profissionais do sexo e à popula-
ção LGBT; o veto ao material didático-pedagógico populari-
zado como “kit anti-homofobia”, que seria direcionado à edu-
cação; e, mais recentemente, a retirada da diretriz do Plano
Nacional de Educação (PNE)2 que propunha a superação das
desigualdades educacionais, “com ênfase na promoção da
igualdade racial, regional, de gênero e de orientação sexual”.
A retirada das categorias “desigualdade de gênero e de orien-
tação sexual” indica a influência das bancadas conservadoras
na deslegitimação do próprio PNE, que foi construído a partir
da Conferência Nacional de Educação, em 2010, da qual par-
ticiparam diversos segmentos da sociedade civil. Além disso,
acontecimentos como esses fragilizam as lutas contra as dis-
criminações por causa de orientação sexual e identidade de
gênero, sobretudo em espaços considerados de fundamental

2
O Plano Nacional de Educação foi aprovado a partir da Lei no 13.005, de 25 junho de 2014,
que estabelece 20 metas a serem cumpridas na área da educação em um período de
10 anos.
144 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

importância na socialização e na constituição dos sujeitos,


como a escola.
Diante desse quadro, ainda que os documentos oficiais
como o Brasil sem homofobia norteiem ações e sejam importan-
tes marcos na construção dos direitos humanos da popula-
ção LGBT, temos vivido um tenso campo de forças no cená-
rio político brasileiro, que vem inviabilizando a construção e
a efetivação de políticas de Estado que protejam sujeitos que
destoam da heteronorma3, do heterossexismo4 e do cissexis-
mo5. Foi a partir da constatação da precariedade das vidas de
muitos desses sujeitos e da negligência do Estado em relação
às violências que a população LGBT sofre, e a partir de um
compromisso ético e político do Núcleo Margens e da Adeh,
que este projeto de intervenção foi pensado.

3
Quando falamos em heteronorma, referimo-nos a um conjunto de práticas e discursos
normativos que se materializam de forma implícita e/ou explícita e que preveem e/ou
predeterminam que a única forma de orientação sexual possível, legítima, “normal” e
aceita é a heterossexualidade. A heteronormatividade pressupõe uma suposta coerên-
cia interna e linear entre um sistema sexo-gênero-desejo (Butler, (2003). Assim, diante
desse quadro de referência, qualquer orientação sexual não heterossexual será margina-
lizada, considerada desviante, ininteligível e entendida como “anormal”. Localizar-se
como um sujeito que destoa da heteronormatividade implica um risco de estar exposto
a violências de toda ordem (física, verbal, psicológica, simbólica, de Estado etc.).
4
Segundo Rogério Junqueira (2013), o termo “homofobia” se aproxima da noção de
heterossexismo, mas não a sobrepõe. Ao considerar a centralidade das discussões de
gênero, o autor considera adequado “empregar heterossexismo ao lado de homofobia e
enfatizar que a última deriva do primeiro” (p. 495). Assim, também a partir dos ideais
regulatórios sobre a sexualidade e o gênero (que tomam a heterossexualidade como
modelo e o masculino como referência universal), o heterossexismo engloba as atitudes
de preconceito, discriminação e manifestações de ódio contra qualquer sexualidade não
heterossexual e perpetuando a ideologia de que existe um sexo superior a outro.
5
Segundo Jaqueline Gomes de Jesus (2012, p. 28) o cissexismo seria uma “ideologia,
resultante do binarismo ou dimorfismo sexual que se fundamenta na crença estereoti-
pada de que características biológicas relacionadas com o sexo são correspondentes às
características psicossociais relacionadas com o gênero. O cissexismo, no nível institu-
cional, redunda em prejuízos ao direito à autoexpressão de gênero das pessoas, criando
mecanismos legais e culturais de subordinação das pessoas cisgênero e transgênero ao
gênero que lhes foi atribuído ao nascimento. Para as pessoas trans em particular, o cis-
sexismo invisibiliza e estigmatiza suas práticas sociais”.
Políticas de equidade para a população LGBT – Daniel K. dos Santos et al. • 145

3. As experiências de capacitações como um


dispositivo político

No planejamento dos cursos, algumas considerações ini-


ciais mostraram-se importantes. Tínhamos consciência de
que as capacitações funcionariam mais como um espaço de
sensibilização e reflexão do que como um curso de “formação”
ou “capacitação” propriamente dito. Isso porque acreditamos
que as discussões sobre diversidades sexuais e de gênero de-
vem ser conduzidas como tópicos pertinentes às formações
continuadas, e não como um assunto que possa se encerrar
em algumas horas. As temáticas apresentadas nos encontros
envolveram questões que afetam e confrontam diretamente
crenças pessoais, tabus, valores morais e religiosos. Assim, es-
ses debates pressupunham uma relação dialógica constante
que questionasse perspectivas individualizantes e problema-
tizassem as sexualidades e as relações de gênero a partir da
perspectiva política dos direitos humanos.
Procuramos destacar que, na posição de servidores(as)
públicos(as) de um Estado laico, a diversidade sexual e de gê-
nero deve ser tratada pela perspectiva dos direitos humanos,
e não por vieses que tomam a heterossexualidade e a cisge-
nereidade6 como norma e como única forma legítima de ex-
pressão da sexualidade e do gênero. Essa nossa postura gera o
risco da polêmica e do desconforto causado pelo questiona-
mento da hetero-cisnormatividade presente nas relações so-
ciais e institucionais. No entanto, acreditamos que seja exata-
mente nesse confronto agonístico7 que podemos vislumbrar o

6
O termo cisgenereidade corresponde às identidades cisgêneras. Segundo Jesus (2012, p.
10), “[…] chamamos de cisgênero, ou de ‘cis’, as pessoas que se identificam com o gênero
que lhes foi atribuído quando ao nascimento”.
7
A filósofa Chantal Mouffe (2005), ao propor a ideia de “pluralismo agonístico” para
pensar um modelo de política democrática, defende que um consenso racional na esfera
política não pode ser alcançado. Nessa perspectiva, o consenso só existe “como resulta-
146 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

afrouxamento de alguns axiomas8 normativos que produzem


e mantêm hierarquias sociais, sexuais e de gênero. Obviamen-
te que isso não é fácil. Ainda que quase a totalidade dos(as)
servidores(as) que participaram das capacitações tivesse se
inscrito de livre e espontânea vontade e estivesse aberta ao
diálogo, era evidente a presença de alguns discursos hetero-
normativos, (cis)sexistas e misóginos, que dificilmente eram
reconhecidos como tais. Não se trata aqui de apontar e/ou
acusar os(as) participantes de “homofóbicos” ou “sexistas”,
mas de problematizar como discursos hetero-cisnormativos
ressoam e se proliferam de modo naturalizado e invisibilizado
nos mais diversos contextos.
Para a construção das capacitações, foram organizadas
reuniões com pesquisadores(as) do Núcleo Margens e integran-
tes da Adeh, a fim de preparar o material e o conteúdo a ser
trabalhado. O núcleo comum a todas as capacitações foi esco-
lhido de acordo com temas relevantes e transversais a todas as
áreas, como: gênero, sexualidades, corpo, feminismo, violên-
cias, homo-lesbo-transfobia, movimentos LGBT e direitos hu-
manos. Além desse núcleo comum, aprofundamos em temas
específicos a cada área, problematizando questões pertinentes
a educação, saúde, assistência social, turismo, cultura e esporte.
A Adeh encaminhou convites às secretarias de cada área
de abrangência do projeto, oferecendo 20 vagas gratuitas para

do temporário de uma hegemonia provisória, como estabilização do poder […] que sem-
pre acarreta alguma forma de exclusão” (p. 21). Mouffe, ao salientar a diferença entre os
termos antagonismo (luta entre inimigos) e agonismo (luta entre adversários), sugere que
na perspectiva de um “pluralismo agonístico” o objetivo da política é transformar an-
tagonismo em agonismo, tarefa essa que não elimina as contradições, os dissensos e as
paixões do campo político. Para a autora: “a tarefa primordial da política democrática
não é eliminar as paixões da esfera do público, de modo a tornar possível um consenso
racional, mas mobilizar tais paixões em prol de desígnios democráticos” (p. 21). Assim,
a confrontação agonística seria a própria condição de existência da democracia.
8
Para uma discussão sobre alguns axiomas presentes no pensamento ocidental que
mantém hierarquias sexuais e de gênero, conferir Rubin (2003).
Políticas de equidade para a população LGBT – Daniel K. dos Santos et al. • 147

cada capacitação de 20 horas. Coube às secretarias eleger os


setores e os(as) servidores(as) que participariam dos cursos.
As datas, horários e locais foram firmados de acordo com a
disponibilidade de cada secretaria.
Cada capacitação foi ministrada por dois facilitadores(as):
uma integrante da Adeh (a maioria mulheres trans estudan-
tes de graduação) e um(a) pesquisador(a) do Núcleo Margens
(todos(as) estudantes de doutorado). As metodologias utili-
zadas nos cursos foram bem variadas: aulas expositivo-dialo-
gadas, grupos de discussão e reflexão, filmes, documentários,
análise de propagandas, debates sobre documentos oficiais,
relatos de experiências de convidados e dos(as) próprios(as)
participantes, estudos de casos emblemáticos e dinâmicas de
grupo foram algumas das estratégias utilizadas durante as ca-
pacitações. Apostilas com textos-base foram solicitadas pelas
secretarias e por isso construídas e distribuídas para cada área
durante os encontros como uma forma de os(as) participan-
tes poderem compartilhar com os(as) colegas de trabalho que
não puderam participar das capacitações.
Vale a pena salientar que no projeto inicial apenas quatro
esferas seriam contempladas com capacitações: saúde, educa-
ção, assistência social e segurança pública. No entanto, fomos
procurados pela Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e
Esporte, que se mostrou interessada em nossas atividades de
capacitação, o que nos possibilitou abranger mais essa área
nesse processo multiplicador.

4. Discussão sobre alguns modos de se


re(conhecer) e re(pensar) as práticas

Durante as atividades de capacitação desenvolvidas jun-


to aos(às) servidores(as) das políticas públicas no município
de Florianópolis, foi recorrente o fato de algumas falas não
148 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

serem reconhecidas como a reprodução de enunciados que


reforçam as normativas de gênero e de sexualidade, ou que
funcionam, como destaca Rogério Junqueira (2011), como
modos de vigilância das normas de gênero. Em diversos mo-
mentos, a hetero-cisnormatividade presente nos discursos
dos(as) participantes passava despercebida, mesmo com nos-
sos apontamentos que visavam a evidenciar a contradição
entre “discursos tolerantes em relação à diversidade sexual
e de gênero” e a “perpetuação de enunciados e práticas nor-
mativas”. Homofobia, machismo e transfobia, por exemplo,
pareciam fenômenos que “só acontecem nas outras escolas,
nunca na minha”, evidenciando uma estratégia discursi-
va que nega a existência de discursos hetero-cisnormativos,
como também observou Rogério Junqueira (2009) em suas
pesquisas junto a educadores(as). O não reconhecimento
e a não enunciação dessas microviolências no âmbito da
educação, da saúde, da assistência social e da segurança pú-
blica funcionam como operações que invisibilizam lógicas
excludentes na escola, nos centros de referência em assistên-
cia social (Cras e Creas), nas delegacias, no sistema prisional,
nas unidades básicas de saúde, nos centros de atenção psicos-
social, entre tantas outras instituições públicas. Negar e/ou
não reconhecer esses fenômenos são estratégias que afastam
o incômodo de precisar (re)pensar sobre as próprias práticas,
discursos, projetos e políticas institucionais, e/ou mesmo va-
lores pessoais.
Se, por um lado, os(as) participantes concordavam que
o machismo está presente na escola, por outro também ou-
vimos algumas falas como: “garotas andam muito malcom-
portadas; elas vão à escola com roupas provocantes e andam
mais bagunceiras que os garotos”. As divisões de gênero
mantidas pela instituição escolar também dificilmente eram
questionadas, de modo que pudemos ouvir repetidas vezes
que na escola têm coisas que “só podem ser feitas por meni-
Políticas de equidade para a população LGBT – Daniel K. dos Santos et al. • 149

nas e outras só por meninos”, como o uso de determinados


tipos de roupas, o acesso a determinados espaços da escola,
a prática de determinadas modalidades esportivas e a deli-
mitação de certos tipos de comportamentos específicos para
cada sexo.
Também foi recorrente o uso de concepções essencialistas
sobre gênero, como “meninas gostam mais de coisas delica-
das, de rosa, enquanto meninos são naturalmente mais agres-
sivos, mais fortes e mais ativos”. Tais concepções produziam
espanto, desconforto e/ou um “não saber o que fazer” quando
os(as) estudantes evidenciam a fragilidade dessas normas e de-
sestabilizam algumas concepções rígidas sobre gênero. Assim,
“uma menina agressiva, bagunceira ou que fala palavrão”, “um
menino delicado ou afeminado” e “uma travesti que reivindica
usar o banheiro feminino na escola” incorporam um espectro
de ininteligibilidade na visão de alguns(mas) educadores(as) e
fazem questionar práticas institucionais e pedagógicas insti-
tuídas. Esses questionamentos podem tanto funcionar como
elemento transformador da realidade escolar (quando o(a)
professor(a) propõe uma discussão em sala de aula, uma roda
de conversa, um debate sobre um filme etc.) quanto encontrar
discursos que barram sua expressão (reprimindo ou negando
a existência desses sujeitos na escola), como pudemos ouvir
nos relatos de alguns(mas) educadores(as).
Em relação à possibilidade de se discutir diversidade
sexual e homofobia na escola, também testemunhamos al-
gumas falas que sustentavam que os(as) educadores(as) não
têm obrigação de tratar de tais temas. Alguns(mas) alega-
vam que essas temáticas poderiam “ir contra os princípios
morais do(da) professor(a)” e que, portanto, ele(a) não teria
responsabilidade de tratar desses assuntos. Essa desimplica-
ção por parte de alguns(mas) educadores(as) denota o des-
conhecimento, ou mesmo o negligenciamento, de políticas e
diretrizes educacionais já estabelecidas, como os Parâmetros
150 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

Curriculares Nacionais (PCNs), que pressupõem que a plu-


ralidade cultural e a sexualidade sejam assuntos que devem
transversalizar os currículos.
Essa desresponsabilização, aliada ao desconhecimento
das realidades da população LGBT, também foi percebida
nos encontros com servidoras da assistência social, quando se
discutiu, por exemplo, a problemática dos albergues munici-
pais para moradores(as) de rua. Em relação à possibilidade de
aceitar e acolher mulheres trans (travestis e transexuais) em
albergues públicos femininos, evocava-se a retórica da “lógica
do perigo”, que sustentava que a presença de mulheres trans e
travestis geraria “medo e a iminência de relações sexuais com
as usuárias mulheres”. Do mesmo modo, essa estigmatização
da população trans se impôs quando o assunto foi o acolhi-
mento de mulheres trans na Casa de Passagem para Mulheres
em Situação de Violência.
Outro discurso que nos impressionou, pautado pelo
risco e pelo perigo, foi o desconhecimento, por parte de
alguns(mas) poucos(as) educadores(as), sobre a questão do
vírus HIV e da Aids. Um dos professores presentes na capa-
citação oferecida à Secretaria de Educação disse que resolveu
fazer o curso porque alegava desconhecer como proceder em
casos de haver, na escola, algum(a) estudante vivendo com
HIV. Segundo o professor, seria “importante reconhecer o(a)
aluno(a) soropositivo(a) para proteger os(as) demais estudan-
tes e os(as) próprios(as) professores(as)”. O professor apresen-
tava uma concepção bastante problemática e discriminató-
ria, sustentando que em nome da proteção de um “coletivo”
seria necessário marcar o sujeito soropositivo, revelando sua
sorologia para a comunidade escolar (pais de estudantes,
professores(as) e funcionários(as) da escola). Ao tentarmos
problematizar junto a ele sobre os efeitos segregadores, discri-
minatórios, estigmatizantes e preconceituosos desse tipo de
prática, ele insistia em que os(as) professores(as) e os(as) cole-
Políticas de equidade para a população LGBT – Daniel K. dos Santos et al. • 151

gas corriam “grande risco” com a “presença oculta” de um(a)


estudante portador(a) do vírus na escola. Para argumentar
sobre tal “perigo inerente”, o professor apresentava a hipóte-
se de situações como “acidentes com possíveis sangramentos
(ferimentos e/ou cortes) que poderiam acontecer nas aulas
de educação física” e o “início da vida sexual do(a) estudante
soropositivo(a)”, que poderiam expor outros(as) estudantes
ao “risco da infecção”.
É evidente que tais argumentos denotam um pânico mo-
ral e sexual (Rubin, 2003; Miskolci, 2007) sobre o HIV e um
nítido desconhecimento sobre as formas de transmissão do
vírus. Não ficou claro para nós o nível de compreensão e de
conhecimento que esse professor tinha sobre HIV/Aids, po-
rém deduzimos que seu entendimento sobre a questão era
bastante limitado e carregado de estereótipos. Por mais que
nós e alguns(mas) outros(as) integrantes do grupo tentásse-
mos relativizar suas percepções sobre pessoas vivendo com
HIV e sobre formas de cuidado e de transmissão do vírus, o
professor parecia insistir para que oferecêssemos uma respos-
ta (que aparentemente ele já tinha formulado para si mesmo)
sobre “como agir com um(a) estudante soropositivo(a) na es-
cola”. A noção de indivíduo perigoso (Foucault, 2006), associada
à vigilância típica promovida pelo dispositivo da sexualidade
(Foucault, 1988) sobre os corpos dos(as) jovens e das crian-
ças, encontrava ressonância no discurso do professor, dei-
xando evidente como algumas práticas discursivas orientam
posturas normativas e discriminatórias no ambiente escolar.
Destacamos que não concebemos o discurso desse professor
como um caso “isolado” ou como apenas uma perspectiva
individual sobre o tema em questão. É importante conside-
rar que alguns retrocessos e entraves observados nas políticas
de Aids nos últimos anos, como a censura a algumas campa-
nhas de prevenção e a políticas relativas aos direitos sexuais,
interferem e afetam as possibilidades de políticas mais efeti-
152 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

vas de prevenção e de direitos humanos (Associação Brasileira


Interdisciplinar de Aids – Abia, 2014).9 A posição do referido
professor reflete uma carência de formação continuada e crí-
tica que deveria ser oferecida a todos(as) os(as) profissionais
da educação, da saúde e da assistência social. O que esse tipo
de discurso nos indica é que os retrocessos das políticas de
prevenção afetam não somente os grupos considerados mais
vulneráveis, mas também os(as) profissionais que atuam na
ponta das políticas públicas e que ficam sem ferramentas e
formações que contribuam com o debate sobre direitos hu-
manos e sexuais.
Em nossas experiências de capacitações, percebemos que
se, por um lado, a vigilância e o controle em torno das sexuali-
dades e dos corpos dos(as) jovens estudantes é uma constante,
a preocupação não parece se propagar com a mesma urgência
no que diz respeito a identificação, denúncia, acolhimento e
proteção aos(às) jovens LGBT vítimas de homo/lesbo e trans-
fobia. Durante o curso com a assistência social, ficou clara a
impotência das profissionais diante da ineficiência de locais
de acolhimento quando um sujeito maior de 18 anos sofre al-
gum tipo de violência homofóbica. Em função da maioridade,
sua violação de direitos não confere mais ao Conselho Tutelar,
tendo apenas a delegacia como local para recorrer, caso o(a)
jovem tenha condições de denunciar. Referimos-nos às “con-
dições de denunciar” levando em conta que, na ausência de es-
paços de proteção, a maior parte dos(as) jovens é obrigado(a)
a retornar para seus lares, frequentemente o espaço no qual
acontecem as agressões. Segundo o relato dos(as) profissio-
nais, quando os serviços oferecidos pela assistência social são
buscados pela família, na maioria das vezes a intencionalidade

9
Conferir também a Carta da Abia em repúdio à censura da campanha sobre prostitui-
ção e HIV/Aids pelo Ministério da Saúde. Disponível em: <http://www.sxpolitics.org/
pt/?p=3417#sthash.nit7qDXf.dpuf>.
Políticas de equidade para a população LGBT – Daniel K. dos Santos et al. • 153

dessa demanda é “tratar” a sexualidade do(a) jovem. Nesses


casos, a homofobia frequentemente acaba sendo encarada,
tanto pela equipe despreparada quanto pela família, como
um problema familiar, individual e privado, colaborando para
que recaia sobre a vítima a culpa da agressão sofrida.
Os(as) servidores(as) da área da saúde também manifes-
taram dificuldades em reconhecer indicadores de possíveis
violências homofóbicas, lesbofóbicas e/ou transfóbicas até o
momento da capacitação. No entanto, durante os encontros
oferecidos a esses(as) profissionais, muitos(as) deles(as) come-
çaram a expressar preocupações sobre os efeitos das violências
na vida de pessoas LGBT. Notamos também que alguns(mas)
participantes passaram a questionar, com certa angústia,
como proceder em casos de usuários(as) dos serviços de saúde
que estejam vivenciando situações de violência/discriminação
por causa de orientação sexual e/ou identidade de gênero, es-
pecialmente quando se trata de crianças e jovens.
Apesar da presença de discursos normativos entre os(as)
educadores(as), não podemos deixar de mencionar que havia
pessoas bastante implicadas e interessadas nas discussões
sobre diversidades sexuais e de gênero. Algumas já haviam
participado de outros cursos de formação, como o curso Gê-
nero e Diversidade na Escola (GDE), oferecido pela Univer-
sidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e já tinham desen-
volvido em suas escolas experiências e projetos interessantes
relativos às questões de sexualidade e gênero. No caso da as-
sistência social, algumas participantes atuam no Centro de
Referência de Atendimento à Mulher em Situação de Violên-
cia (CREMV) e, por isso, já participaram de formações sobre
gênero e violências contra a mulher, além de cursos sobre
feminismo oferecidos pelo Instituto de Estudos de Gênero
(IEG/UFSC). No entanto, nenhuma das profissionais havia
participado de um curso voltado especificamente para a po-
pulação LGBT.
154 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

Na área da saúde, os(as) participantes relataram não te-


rem participado anteriormente de nenhuma capacitação, cur-
so ou treinamento sobre as questões LGBT. Disseram, porém,
ter tido cursos e informações diversas sobre DSTs e HIV/Aids,
ocasiões nas quais estabeleceram uma relação problemática
e linear entre homossexualidades, transexualidades e temas
como de DSTs, HIV/Aids e prostituição. Pareceu-nos evidente
que, no âmbito da saúde, as necessidades da população LGBT
ainda estão muito relacionadas apenas com a busca de pre-
servativos e/ou prevenção, diagnóstico e tratamento do HIV/
Aids e outras DSTs.
Entre os(as) profissionais da saúde, notamos uma atitude
de interesse, atenção e vontade de compreender a temática,
até então não muito aprofundada pelos(as) participantes. Isso
pode sinalizar já algum efeito da existência da Política Nacio-
nal de Saúde LGBT (Brasil, 2010b), que orienta que os(as)
servidores(as) públicos(as) da área da saúde conheçam e com-
preendam mais essa população em questão. Por esse motivo,
ressaltamos a importância da Política Nacional LGBT base-
ada na carta de usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).
Para refletir sobre formas de implementação dessa política,
foram tratados temas como identidade de gênero, orientação
sexual, processo transexualizador, uso do nome social em ins-
tituições de saúde, entre outros. Procuramos articular essas
questões aos temas já conhecidos dos(as) profissionais da saú-
de pública, como os princípios do SUS, a Estratégia Saúde da
Família, Atenção Básica em Saúde etc.
Procuramos dar maior ênfase à discussão dos documen-
tos que não eram conhecidos pelos(as) participantes, como
a Política Nacional de Saúde LGBT, e as portarias que regu-
lamentam o processo transexualizador no âmbito do SUS.
Em referência à Política Nacional de Saúde LGBT, ouvimos o
questionamento: “esta é mais uma política, assim como a do
idoso, a da mulher, a do homem, porque tem que estar tudo
Políticas de equidade para a população LGBT – Daniel K. dos Santos et al. • 155

em ‘casinhas’?”. Verificamos nessa fala um desconhecimento


sobre as especificidades da população LGBT no âmbito da
saúde, bem como uma dificuldade de reconhecer a necessida-
de de se pensar a saúde LGBT a partir do princípio da equida-
de, tão caro ao SUS.
As iniciativas do Governo Federal relativas à saúde LGBT
são resultado de um longo processo de reivindicações do mo-
vimento social que nos últimos anos vem pressionando todas
as esferas governamentais (municípios, estados e Governo Fe-
deral) para a implementação de políticas públicas voltadas à
população LGBT. Tais políticas indubitavelmente constituem
importantes avanços, no entanto ainda constatamos inúme-
ras dificuldades para implementar e incorporar seus conteú-
dos no cotidiano das práticas, como mostrou Díaz (2012) em
sua pesquisa sobre as concepções de psicólogos(as) que atuam
nas unidades básicas de saúde da cidade de Florianópolis/SC
acerca da diversidade sexual. Durante a capacitação com ser-
vidores(as) da área da saúde, observamos que, de forma geral,
eles(as) desconhecem as políticas públicas dirigidas à popula-
ção LGBT.
Em relação à capacitação oferecida à Secretaria de Esta-
do de Turismo, Cultura e Esporte, em função da complexida-
de das três áreas abrangidas por essa secretaria, optou-se por
uma proposta metodológica diferente das demais capacita-
ções. Durante esse curso, após apresentarmos um panorama
geral de gênero e sexualidade, trabalhamos com alguns estu-
dos de caso,10 com “situações-problema” e com “perguntas
disparadoras” que objetivaram estimular a problematização
entre os(as) participantes. As situações e as perguntas dispa-
radoras para cada área foram organizadas da seguinte forma:

10
Os estudos de caso foram selecionados a partir de situações emblemáticas para cada
área que tiveram alguma repercussão na mídia (tanto nas grandes mídias quanto em
mídias alternativas).
156 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

Turismo:
– Debate sobre pink money e mercados GLS.
– Afinal, turismo para quem?
– Discussão sobre mercado versus direitos humanos: é pos-
sível resolver essa tensão?
– Turismo GLS ou LGBT?
– Gay-friendly como estratégia de mercado: seria possível
les-friendly? trans-friendly?
– Debate sobre inclusão versus exclusão: o turismo é real-
mente inclusivo? Quem ele inclui e quem ele exclui?
– Quem viaja no Brasil? Quem circula na própria cidade?
– Pensar na relação entre turismo e mobilidade urbana.
– Relativizar discursos midiáticos sobre o caráter gay-frien-
dly de Florianópolis e dos destinos turísticos no Brasil em geral.

Cultura:
– Ações e políticas culturais podem promover os direitos
humanos?
– As artes (música, teatro, literatura, cinema, artes visuais)
podem ser um meio de discussão sobre diversidade sexual e
de gênero?
– Problematizar as categorias: “políticas culturais LGBT”
e “cultura LGBT”. O que querem dizer? Como aparecem nos
documentos oficiais?
– Eventos de visibilidade massiva: as Paradas do Orgulho
LGBT pelo Brasil.
– Como os(as) gestores(as) da cultura podem inserir o
tema da diversidade sexual e de gênero em suas agendas?
– Como as questões de diversidade sexual e de gênero se
integram às discussões sobre pluralidades culturais?

Esporte:
– Esporte como pedagogias do corpo, do gênero e das
sexualidades.
Políticas de equidade para a população LGBT – Daniel K. dos Santos et al. • 157

– O esporte reproduz estereótipos de gênero?


– Por que alguns esportes são considerados “mais para
homens” (ex.: futebol, artes marciais) e outros “mais para mu-
lheres” (ex.: balé, ginástica rítmica, ginástica olímpica)?
– Qual o efeito desses padrões?
– O esporte pode ser sexista? Homofóbico? Transfóbico?
– O esporte pode ser um espaço de resistência contra as
desigualdades de gênero e sexuais?
– Como pensar políticas de direitos humanos, especifica-
mente as relativas à orientação sexual e identidade de gênero,
de modo transversal no esporte?

Durante a capacitação aos(às) servidores(as) da Secre-


taria de Estado de Turismo, Cultura e Esporte, também nos
deparamos com estratégias discursivas que silenciavam a
questão da heteronormatividade. Foi recorrente um discur-
so complacente em relação às diversidades sexuais, mas ao
mesmo tempo também identificamos a dificuldade de algu-
mas pessoas em reconhecer a proliferação das normas de gê-
nero e sexuais em suas áreas de atuação. Os(as) servidores(as)
que atuam na área do esporte, por exemplo, conheciam al-
guns casos de homofobia no esporte que levamos para discus-
são durante a capacitação (como o caso do jogador de vôlei
Michael, que sofreu injúria homofóbica da torcida adversária
de seu time durante um jogo; e a repercussão homofóbica
gerada pela publicação da foto de um “selinho” que o jo-
gador de futebol Sheiki deu em um amigo). Embora os(as)
participantes reconhecessem a existência da homofobia no
esporte e reprovassem tais atitudes, também notamos no
grupo a dificuldade de pensar o tema de diversidade sexual
e de gênero como uma questão a ser trabalhada em políticas
relativas ao esporte e em suas atuações na própria Secretaria
do Esporte. Pudemos observar uma “vontade de fazer algo”,
porém esse desejo esbarrava na dificuldade em articular o
158 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

esporte aos direitos humanos e à temática da diversidade se-


xual de gênero.
Com os(as) servidores(as) do turismo, procuramos rela-
tivizar discursos midiáticos sobre o caráter gay-friendly de Flo-
rianópolis, destacando que por trás da aparente tolerância em
relação à população LGBT ainda testemunhamos cotidianos
casos de homofobia, lesbofobia e transfobia na cidade. Procu-
ramos estimular um debate que problematizasse as tensões
entre mercado, economia e turismo e as questões de direitos
humanos.
Quanto aos(às) servidores(as) que atuam na área da cul-
tura, muitos(as) reconheciam a importância da temática de
gênero e sexualidade nas políticas culturais, no entanto a falta
de verba e incentivo à cultura em geral parecia ser algo “mais
urgente”. Assim, apesar de concordarem que ações culturais
podem contribuir com a minimização das discriminações
por causa de orientação sexual e identidade de gênero, a pre-
ocupação com a escassez de recursos destinados à cultura era
mais evidente. Como sugestão sobre como políticas culturais
podem fortalecer as discussões sobre direitos humanos da
população LGBT,11 apresentamos alguns exemplos de ações
concretizadas no país, como o “Festival Mix Brasil de Cultura
da Diversidade”; a mostra audiovisual sobre o cineasta Vagner
de Almeida: “Homossexualidades, feminismos, raça e violên-
cias: a obra de Vagner de Almeida”, realizada em Florianópolis
em 2011; o projeto CineD, realizado na própria sede da Adeh,
que divulga e debate filmes com a temática da diversidade se-
xual e de gênero; o Concurso de Cartazes sobre Lesbofobia,
Transfobia, Homofobia e Heterossexismo nas escolas, promo-
vido pelo Núcleo de Identidades de Gênero e Subjetividades
(NIGS/UFSC); entre outros exemplos.

Para uma discussão mais aprofundada sobre o que tem sido chamado de “Cultura
11

LGBT” no âmbito das políticas de cultura no Brasil, conferir Braz (2013).


Políticas de equidade para a população LGBT – Daniel K. dos Santos et al. • 159

Em relação às dificuldades enfrentadas, sem dúvida a


distribuição do tempo de discussão e a especificidade de cada
área foram os principais desafios. Nas capacitações aos(às)
servidores(as) da saúde e da educação, o desafio foi construir
uma proposta de curso concentrada em 20 horas, distribuídas
em dois intensos dias de trabalho, sob o risco de que o cansaço
levasse os(as) participantes à desistência do curso. Ao contrá-
rio das áreas mencionadas, na capacitação às profissionais da
assistência social, a dificuldade foi elaborar uma proposta de
curso distribuída em cinco dias espaçados com quatro horas
de duração. Manter a assiduidade em todos os encontros se
mostrou um desafio, porém o interesse das profissionais e a
implicação política com os temas discutidos fizeram com que
esse risco fosse minimizado.
Já o curso oferecido à Secretaria de Estado de Turismo,
Cultura e Esporte teve duração menor em relação às outras
secretarias. Tivemos o desafio de ter apenas 10 horas para
aprofundar as discussões, somado à dificuldade de termos de
tratar, em um mesmo grupo, sobre a articulação entre gêne-
ro e sexualidade com três áreas diferentes (turismo, cultura e
esporte).

5. Algumas considerações

Acreditamos que as capacitações oferecidas para as Secre-


tarias de Educação, de Assistência Social, de Saúde e de Tu-
rismo, Cultura e Esporte funcionaram como um dispositivo
de sensibilização em relação à importância de pensar políticas
de equidade para a população LGBT nos âmbitos de atuação
desses órgãos. Ainda que ações como essas sejam limitadas, o
simples fato de nomear, localizar e reconhecer fenômenos que
muitas vezes são naturalizados e passam despercebidos (como
algumas sutilezas da heteronormatividade, do sexismo, da
160 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

homofobia e da transfobia) já se constitui em uma potência


para transformações sociais. Acreditamos também que essas
sensibilizações necessitam de continuidade para se tornarem
efetivamente capacitações promotoras de alguma mudança
na atual conjuntura das políticas públicas.
Em nossos encontros com os(as) profissionais das políti-
cas públicas, buscamos firmar um compromisso de urgência
de esforços, de implicação, de responsabilização e de politiza-
ção diante das violências. Tais violências não apenas se carac-
terizam pela agressão física ou verbal contra pessoas LGBT,
mas também pelo apagamento e silenciamento dessas opres-
sões e discriminações nos serviços públicos que permitem/
consentem formas de violências simbólicas.
Pudemos observar que, em geral, os(as) participantes das
capacitações até conseguiam apreender a existência do ma-
chismo, do sexismo, da homofobia, da transfobia etc. Tais
expressões da violência são, de certa forma, “demonstráveis”
a partir de exemplos concretos, como vídeos, filmes, reporta-
gens, dados de pesquisa e exercícios de reflexão. Apreender e
perceber certamente já são um passo, considerando que as de-
sigualdades sociais baseadas no gênero e nas sexualidades são
extremamente naturalizadas em nossa cultura, o que dificul-
ta produzir uma “dobra” sobre aquilo que está estratificado
no campo social. No entanto, pensamos que um dos grandes
desafios reside na dificuldade de reconhecer as mais diversas
modalidades de violências, bem como as vidas que em alguns
contextos são consideradas de “menor valor” ou “precárias”,
ou nem mesmo são apreendidas como “vidas”. Judith Butler
(2010, p. 18) sinaliza as diferenças entre apreensão e reconheci-
mento:

[…] tal vez sea necesario considerar la posible manera de distinguir en-
tre «aprehender» y «reconocer» una vida. El «reconocimiento» es un
término más fuerte, un término derivado de textos hegelianos que ha
Políticas de equidade para a população LGBT – Daniel K. dos Santos et al. • 161

estado sujeto a revisiones y a críticas durante muchos años. La «aprehen-


sión», por su parte, es un término menos preciso, ya que puede implicar
el marcar, registrar o reconocer sin pleno reconocimiento. Si es una for-
ma de conocimiento, está asociada con el sentir y el percibir, pero de una
manera que no es siempre – o todavía no – una forma conceptual de co-
nocimiento. Lo que podemos aprehender viene, sin duda, facilitado por
las normas del reconocimiento; pero sería un error afirmar que estamos
completamente limitados por las normas de reconocimiento en curso
cuando aprehendemos una vida. Podemos aprehender, por ejemplo, que
algo no es reconocido por el reconocimiento. De hecho, esa aprehensión
puede convertirse en la base de una crítica de las normas del reconoci-
miento. (grifos nossos)

Assim, as capacitações, quando conduzidas de modo


a fazer com que possamos pensar, identificar, apreender e,
sobretudo, reconhecer os problemas que afetam a nós mes-
mos e os grupos considerados mais vulneráveis, podem fazer
como que o “invisível opere visibilidade e o impensado se tor-
ne enunciável” (Fernández, 2008, p. 31). Nesse sentido, acre-
ditamos que espaços como os produzidos durante os cursos
podem funcionar como importantes dispositivos políticos
nas lutas pelos direitos humanos e contra todas as formas de
violências, discriminações e preconceitos baseados não ape-
nas no gênero e nas sexualidades, mas também na raça/etnia,
na classe social, na idade, no local de origem, entre outros
marcadores sociais de diferença que estabelecem hierarquias
e exclusões.

Referências

Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA). Abia


responsabiliza perda da ousadia na resposta brasileira pelo aumento de infecções por
HIV no país. 18 jul. 2014. Disponível em: <http://abiaids.org.br/?p=26647>.
Acesso em: 29 ago. 2014.
162 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

BRASIL. Conselho Nacional de Combate à Discriminação. Brasil sem Ho-


mofobia: programa de combate à violência e à discriminação contra GLTB
e de promoção da cidadania homossexual. Brasília, 2004.

______. Ministério da Saúde. Política nacional de saúde integral de lésbicas, gays,


bissexuais, travestis e transexuais. Brasília, 2010a.

______. Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da Re-


pública. Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3). Brasília, 2010b.
BRAZ, C. Políticas culturais LGBT no Brasil contemporâneo: interpreta-
ções antropológicas de uma cultura adjetivada. In: Congress of the
Latin American Studies Association, Anais… Washington, DC,
29 maio/1o jun. 2013.

Butler, J. Marcos de guerra: las vidas lloradas. Barcelona: Paidós Ibérica,


2010.

______. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de


Janeiro: Civilização Brasileira, 2003 [1990].

DÍAZ, G. A. Sexualidade(s): concepções de psicólogos/as de unidades bá-


sicas de saúde de Florianópolis. Dissertação (Mestrado em Psicologia) –
Programa de Pós-graduação em Psicologia, Universidade Federal de Santa
Catarina, Florianópolis, 2012. 175 p.

FERNÁNDEZ, A. M. Las lógicas colectivas: imaginários, cuerpos y multiplici-


dades. 2. ed. Buenos Aires: Biblos, 2008.

FOUCAULT, M. A evolução da noção de “indivíduo perigoso” na psiquia-


tria legal do século XIX. In: ______. Ditos & escritos: ética, sexualidade e
política. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. v. V.

______. História da sexualidade: a vontade de saber. São Paulo: Graal, 1988.


v. 1.

JESUS, J. G. Orientações sobre identidade de gênero: conceitos e termos. Guia


técnico sobre pessoas transexuais, travestis e demais transgêneros, para for-
madores de opinião. 2. ed. Brasília, 2012. Disponível em: <http://www.ser-
tao.ufg.br/up/16/o/ORIENTA%C3%87%C3%95ES_SOBRE_IDENTIDA-
Políticas de equidade para a população LGBT – Daniel K. dos Santos et al. • 163

DE_DE_G%C3%8ANERO__CONCEITOS_E_TERMOS_-_2%C2%AA_
Edi%C3%A7%C3%A3o.pdf>. Acesso em: 30 ago. 2014.

JUNQUEIRA, R. D. “Aqui não temos gays nem lésbicas”: estratégias dis-


cursivas de agentes públicos ante medidas de promoção do reconhecimen-
to da diversidade sexual nas escolas. Bagoas, Natal, n. 4, p. 171-189, 2009.

______. Heterossexismo e vigilância de gênero no cotidiano escolar: a pe-


dagogia do armário. In: SILVA, F. F. da (Org.). Corpos, gêneros, sexualidades e
relações étnico-raciais na educação. Uruguaiana: Unipampa, 2011.

______. Pedagogia do armário: a normatividade em ação. Revista Retratos da


Escola, Brasília, v. 7, n. 13, p. 481-498, jul./dez. 2013.

MISKOLCI, R. Pânicos morais e controle social: reflexões sobre o casamen-


to gay. Cadernos Pagu, Campinas, n. 28, p. 101-128, jan./jun. 2007.

MOUFFE, C. Por um modelo agonístico de democracia. Rev. Sociol. Polít.,


Curitiba, n. 25, p. 11-23, nov. 2005.

Panegassi, J. Ativistas criticam Padilha por veto aos quadrinhos sobre


sexualidade e comparam medida à censura imposta pela ditadura. Agência
de Notícias da Aids, São Paulo, 16 mar. 2013. Disponível em: <http://www.
agenciaaids.com.br/noticias/interna.php?id=20477>. Acesso em: 29 ago.
2014.

PRINCÍPIOS DE YOGYAKARTA. Princípios sobre a aplicação da legislação


internacional de direitos humanos em relação à orientação sexual e identidade de
gênero. 2007. Disponível em: <http://www.clam.org.br/pdf/principios_de_
yogyakarta.pdf>. Acesso em: 30 ago. 2014.

RUBIN, G. Pensando o sexo: notas para uma teoria radical das políticas da
sexualidade. Cadernos Pagu, Campinas, n. 21, p. 1-88, 2003.
Chá de Damas: desafios e estratégias
para a inserção no campo-tema
prostituição
Jaileila Menezes, Karla G. Adrião, Amanda K. C. Guedes,
Ana Letícia Veras, Cristiano C. Ferreira, Douglas B. de Oliveira e
Sarana M. de S. Santos

O presente texto tem por finalidade realizar uma reflexão


sobre a ação Chá de Damas, integrante do Programa Diálo-
gos para o Desenvolvimento Social em Suape1. Esta tem como
eixo norteador o uso de metodologias e estratégias que visem:
a) ao empoderamento2 de mulheres profissionais do sexo; b)
ao protagonismo delas na conscientização quanto ao uso de
preservativos durante as relações sexuais, no combate à explo-
ração sexual infantojuvenil por parte de agenciadores(as) ou
estabelecimentos; e c) ao combate ao uso abusivo de álcool e
outras drogas.
Para o desenvolvimento das ações junto às prostitutas3
dos municípios de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca, a equi-

1
Queremos expressar nossos agradecimentos às professoras Luciana Vieira e Wedna
Galindo, que estiveram à frente do trabalho do Chá de Damas entre maio de 2012 e
junho de 2013. Decerto, muito do aqui narrado e discutido tem a contribuição delas.
Também gostaríamos de agradecer a Nanci Feijo, da Associação Pernambucana de Pro-
fissionais do Sexo (APPS). O próprio capítulo mostrará o quanto sua participação no
Chá de Damas foi importante para o êxito do projeto. A Nanci dedicamos este texto.
2
Apesar das tensões em torno do termo empoderamento, optamos por utilizá-lo com-
preendendo que, ao considerarmos a polissemia que o caracteriza ao ser trazido para
o português e o deslocarmos de seu uso inicial em inglês, ele ganha configurações que
condizem com nossa proposta metodológica. Empoderar significa retomar o poder que
já existe a partir da tomada de consciência de que ele pode e deve ser acessado nas vidas
das mulheres.
3
Usaremos neste texto os termos “prostituta” e “profissional do sexo” como sinônimos,
conscientes das distinções que carregam. Para nós, o termo “prostituta” reatualiza,
a partir dos deslocamentos do que seria abjeto, para o centro do debate. A expressão
Chá de Damas – Jaileila Menezes et al. • 165

pe realizou um processo de formação teórico-metodológica


a fim de subsidiar a entrada no campo e o delineamento de
estratégias para conhecimento dos pontos de prostituição e
interação direta com as profissionais do sexo. Essa primeira
etapa de trabalho teve inspiração etnográfica, pautada pela vi-
vência de diferentes níveis de estranhamento, pela equipe de
trabalho, no processo de aproximação da cultura local desse
determinado grupo. A intenção era – da experiência com o
diferente/a diferença – questionar nossas matrizes culturais
admitindo o olhar parcial e subjetivo do(a) pesquisador(a)
(Geertz, 2005). A entrada no campo implicou conhecer a rede
de causalidades intersubjetivas, as diversas vozes implicadas,
os artefatos e materialidades que constituem e dinamizam as
práticas cotidianas desse universo de atores/atrizes sociais.
Adotamos a estratégia de mapeamento (Menezes e Costa,
2010), que tem por objetivo dar visibilidade à circunscrição
geográfica de pessoas e/ou grupos sociais no território, iden-
tificando pontos que se interconectam e permitem o enten-
dimento de fluxos sociais, políticos e financeiros. Durante o
mapeamento, a equipe distribuía os materiais de redução de
danos, como preservativos femininos e masculinos e marca-
dores de texto e folhetos informativos produzidos pelo Pro-
grama Diálogos com informações sobre DSTs e HIV/Aids e
orientação acerca do não uso abusivo de álcool e outras dro-
gas, assim como alguns telefones e endereços importantes
para as mulheres, crianças e/ou adolescentes em situações de
vulnerabilidade social.
Ao viver o estranhamento, a equipe também se depa-
rou causando estranhamentos, afinal as pessoas locais não
pareciam familiarizadas com procedimentos de distribuição
de preservativos e algumas se mostraram desconfiadas, inqui-

“profissional do sexo”, em contrapartida, aporta o debate no campo do acesso a direitos,


particularmente os trabalhistas, questão central para o cotidiano de lutas das prostitutas.
166 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

rindo-nos se não seríamos vinculados(as) a órgãos governa-


mentais ou mesmo à polícia, já que andávamos procurando
pontos de prostituição pela cidade. A vivência desse tipo de
dificuldade foi fundamental para a equipe compreender as-
pectos da cultura sexual do local. A chegada de uma assisten-
te de pesquisa com experiência no campo-tema prostituição
trouxe novo fôlego para o mapeamento, dado seu conheci-
mento da rede de relações do mercado sexual do local. Como
fechamento desse primeiro momento de inserção no campo,
aplicamos um questionário junto às prostitutas sobre o per-
fil delas. As respostas ao questionário colaboraram para a
montagem de nossa segunda intervenção, agora por meio de
um formato de oficinas para o trabalho mais contínuo com
os temas do projeto e também com os temas sugeridos pelas
próprias prostitutas.
O presente texto está dividido em três partes: os pressu-
postos teórico-metodológicos do trabalho de intervenção, es-
tratégias de entrada no campo-tema prostituição, conhecen-
do as Damas e elaborando novas ações.

1. Pressupostos teórico-metodológicos do
trabalho de intervenção

O projeto Diálogos para o Desenvolvimento Social em


Suape é uma pesquisa-intervenção e tem como finalidade in-
vestigar quais foram os impactos causados nos municípios de
Cabo de Santo Agostinho, Ipojuca e entorno com a chegada
das principais empresas e a Refinaria Abreu e Lima (Petrobras)
a Suape. Por se caracterizar como uma pesquisa-intervenção,
a metodologia utilizada em tal projeto é voltada para uma
atuação potencializadora de mudança nos sujeitos e/ou gru-
pos sociais que vivenciam dada realidade sociopolítica. Os ca-
minhos traçados durante a pesquisa são tematizados como
Chá de Damas – Jaileila Menezes et al. • 167

possibilidades de garantia da participação dos sujeitos envol-


vidos ao longo do processo. A presença do(a) pesquisador(a)
interfere na dinâmica do grupo social, e esse aspecto ganha re-
levo em uma perspectiva que abdica da neutralidade e quer dá
visibilidade aos efeitos de poder do próprio ato de pesquisar/
intervir (Rocha e Aguiar, 2003).
Consideramos os diversos níveis de intervenção da pes-
quisa na realidade social, bem como seus efeitos de mudança.
O trabalho com grupos em condição de vulnerabilidade social
em contexto de desenvolvimento econômico parece já anun-
ciar que os riscos existentes no projeto de desenvolvimento
afetam, de modo desigual, diferentes grupos populacionais,
a exemplo de mulheres, jovens e crianças. Nesse cenário, o
projeto se propõe discutir as consequências da instalação do
complexo industrial na região e estabelecer soluções para de-
mandas da população local, como o enfrentamento à explo-
ração sexual infantil, a prevenção ao uso abusivo de álcool e
outras drogas, a violência física e sexual contra as mulheres e
o agenciamento sexual de profissionais do sexo, assim como
a conscientização do uso de preservativos durante as relações
sexuais.
A ação “Chá de Damas” tomou como referência propo-
sições do campo dos direitos sexuais (DS) e dos direitos re-
produtivos (DR) para o entendimento da complexidade que
envolve a prática da prostituição, as possibilidades de ações
que visem à redução de danos no exercício da profissão e as
condições sociais que envolvem entrada, permanência e sa-
ída das mulheres desse mercado sexual. Em consonância
com Sonia Corrêa e Rosalind Petchesky (1996), entendemos
o campo dos DS e dos DR a partir da dinâmica poder e re-
cursos. Logo, do ponto de vista das demandas das mulheres
em condição de prostituição, importa, entre outras ações,
proporcionar-lhes informações qualificadas e recursos que
garantam sua atividade sexual e profissional pautada pela
168 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

segurança existencial (recursos objetivos e subjetivos que


possibilitem sua integridade corporal). É ampla a literatura
que relaciona precariedade das condições de vida com entra-
da na prostituição, o que nos leva a ratificar o argumento das
autoras quanto à necessária vinculação dos DS e dos DR aos
direitos sociais.
As práticas de autonomia que o projeto intenta fomen-
tar estão em consonância com o discurso político dos movi-
mentos feministas brasileiros, que visam a fortalecer grupos
historicamente subalternizados para que possam desenvolver
um senso crítico sobre as condições sociais que circunscre-
vem suas opressões, de modo a modificá-las (Adrião, 2008).
Nesse sentido, há também diversos níveis de autonomização
e mesmo das negociações com relação ao acesso e uso de pre-
servativos em uma situação de trabalho – caso da prostituição
–, e este pode figurar-se como uma dimensão importante do
processo de modificação da situação de opressão por parte
das mulheres.
A ação de entrada em campo do Chá de Damas foi pau-
tada por práticas educativas que incentivam o sexo mais segu-
ro em relação às doenças sexualmente transmissíveis (DSTs),
além de formar lideranças políticas e sociais que possam dar
continuidade às reflexões sobre temas como violência, cons-
trução de identidade na prostituição e sexismo/machismo. O
plano de ação consta de três eixos gerais: 1) mapeamento dos
espaços de prostituição; 2) elaboração e distribuição de ma-
terial informativo e insumos (camisinhas e gel) entre as pro-
fissionais e clientes; e 3) realização de oficinas para discutir a
vulnerabilidade de mulheres e travestis engajadas no trabalho
sexual e fomento de acesso à cidadania e à saúde.
O grupo Chá de Damas foi composto por estudantes de
ciências sociais, psicologia e pedagogia, seguindo a proposta
interdisciplinar que perpassa o projeto Diálogos – e coordena-
do por professoras vinculadas ao curso de graduação em psi-
Chá de Damas – Jaileila Menezes et al. • 169

cologia e pedagogia e ao Programa de Pós-graduação em Psico-


logia. O processo de formação do grupo contou com reuniões
semanais para discussão das temáticas de gênero e sexualida-
de, assim como estudos etnográficos aplicados ao campo-te-
ma prostituição e conteúdos de trabalho em grupo, principal-
mente em relação a oficinas e trabalhos com grupos. A partir
das reuniões de orientação teórico-metodológica, passamos a
sistematizar, discutir e refletir sobre as ações que aconteciam
e a planejar as futuras, além de nos familiarizarmos com expe-
riências e contextos antes de adentrarmos o campo.
A prostituição é uma prática social com significativo las-
tro histórico, tem sido estudada nas mais diversas áreas do
saber e é marcada pela pluralidade de pontos de vista quanto a
seu caráter opressor/libertador. No debate feminista, há uma
vertente que ressalta a relação da prostituição com o tráfico de
seres humanos, a opressão patriarcal advinda do machismo e
demais práticas de subordinação que posicionam as mulheres
prostitutas como vítimas do assédio e abuso sexual. Outras
correntes atuam “rejeitando a ideia de que a prostituição é
inerentemente degradante, valorizam-na como uma forma
de serviço, de trabalho, traçando nítidas distinções entre a
prostituição voluntária exercida por adultos e a prostituição
forçada infantil” (Piscitelli, 2013, p. 118). Na tentativa de de-
finição mais ampla, encontramos em Letícia Barreto, Cláudia
Mayorga e Míriam Grossi (2013) a referência a uma prática
que envolve trocas financeiras, afetivas e sexuais, não necessa-
riamente envolvendo a prática sexual.
Como postura ético-política que orientou as ações do
Chá de Damas, a equipe não buscou atribuir juízo de valor às
práticas das profissionais do sexo, o objetivo não era tirar nin-
guém da prostituição nem questionar os motivos pessoais de
cada uma. Desde o início nosso trabalho em campo consistia
em proporcionar discussões sobre cidadania e saúde e favore-
cer a formação de lideranças.
170 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

Antes mesmo da entrada no campo (físico), fomos


afetados(as) pelos efeitos do tema do projeto em nós. Segun-
do Marisa Peirano (1995), na pesquisa de campo é preciso
interesse e empatia. Pelo fato de sermos seres sociais pesqui-
sando outros, certamente somos direcionados por nossa sub-
jetividade dentro e fora do campo. A trajetória de vida do(a)
pesquisador(a) exerce grande influência no estudo e na for-
ma de compreendermos e nos relacionarmos com os sujeitos
e com suas práticas sociais. Por esse motivo, a identificação
com o estudo funciona como um incentivo; o reconhecimen-
to da importância do que se está fazendo funciona como mo-
tivação. E, certamente, foi isso que nos levou adiante, enfren-
tando dificuldades que surgiram ao longo do processo. Sobre
essas questões, acompanhemos o que diz o diário de campo de
dois dos participantes de nossa equipe.

Dentre todas as temáticas estudadas no projeto Diálogos, o


Chá de Damas foi o primeiro que me chamou a atenção. Sem-
pre gostei de estudar assuntos referentes à sexualidade e nunca
tinha tido a oportunidade de ver este tema relacionado à pros-
tituição, tema que na minha cabeça ainda era constituído por
diversos estereótipos e tabus. Eu tive a intenção de me surpre-
ender com a temática depois que li o edital ousado do projeto
Chá de Damas. (Amanda, extraído do diário de campo)
Quando soube da proposta do Chá de Damas e seu público-al-
vo de intervenção, o interesse despertado em mim foi imediato.
Era uma oportunidade de experiência atípica dentro da temáti-
ca que me interesso, e se pensava que tinha conhecimento sobre
a área, vi o quanto ainda tinha de aprender e aprendi com as
prostitutas. (Douglas, extraído do diário de campo)

Esse momento de preparação do grupo de estudantes


foi bastante enriquecedor, já que era possível colocar opini-
ões, dúvidas, inquietações e satisfações. As leituras e discus-
sões teórico-metodológicas também foram importantes para
vivenciarmos deslocamentos em nossos próprios discursos
Chá de Damas – Jaileila Menezes et al. • 171

preconceituosos e normatizantes, além da necessidade de cons-


truir familiaridade com formas de organização, discursos e có-
digos do grupo específico com o qual estávamos trabalhando.
A inspiração etnográfica foi fundamental ao processo
de estranhamento e à reflexão sobre os efeitos e implicações
do(a) pesquisador(a) no campo. Assim, sem desconsiderar a
análise de documentos elaborados por terceiros, resolvemos
investir na produção de dados próprios, dando relevo a nossos
registros em diário de campo, operando por meio de descri-
ção e interpretação das cenas e cenários que pudemos acessar.
Trabalhamos na perspectiva de que costumes e crenças têm
significados de acordo com contextos socioculturais. Assim,
a ação humana é orientada pelo significado canônico, que re-
gula a complexidade da vida social, buscando coerência e inte-
gração. Por outro lado, sabemos dos efeitos da política sobre
a cultura, e a diferença/o diferente impõe-se em dada ordem,
ora ratificando a organização, ora desestabilizando os códigos
da cultura local. Entendemos que as prostitutas estão integra-
das aos códigos da cultura sexual local, desde que seus corpos
circulem nos locais reservados à sua presença.
Nós, pesquisadores/pesquisadoras, não fazemos parte da
paisagem local, e quando adentramos o território produzimos
diferença, damos visibilidade a pessoas e/ou temáticas até en-
tão silenciadas e passamos a compor o campo de referências
semióticas daquela população. Essas pistas sobre as possíveis
intervenções (aqui entendidas como ação que intervém sobre
outras) que operaríamos no campo nortearam a produção dos
diários de campo. De acordo com Florence Weber (2009, p.
168): “É o diário que permite o distanciamento indispensável
na pesquisa de campo e que permitirá mais tarde a análise do
desenvolvimento da pesquisa.”
Um de nossos desafios foi relacionar o trabalho teóri-
co com o trabalho de campo. Para nós, conhecer teorias não
significa que o(a) pesquisador(a) irá ao campo cheio de ideias
172 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

preconcebidas e fixas. Deve-se ir com questões norteadoras,


no entanto com disposição para mudá-las, levando problemá-
ticas e sendo flexível na formulação de novas questões sobre
os fenômenos observados, como nos aponta Roberto Cardo-
so de Oliveira (1998). Os estudos teóricos nos serviram como
inspiração na relação com o campo, que, por sua vez, é marca-
do pela complexidade da dinâmica social e cultural.

2. Primeiras inserções e desafios no território

Nossa primeira visita de campo ocorreu em março de


2012 no município de Cabo de Santo Agostinho. Esse foi um
momento de exploração e formação de redes de contato. Hou-
ve a visita ao Mercadão do Cabo e a equipamentos da área
de saúde e de assistência social, como o Centro de Testagem
e Aconselhamento em DST-Aids, o Centro de Prevenção em
Violência Doméstica e Sexista e o Centro de Apoio Psicosso-
cial em Álcool e outras Drogas (CAPS-AD), com o objetivo de
localizar uma rede que pudesse interagir com demandas das
prostitutas. É válido salientar que, nessa visita, assim como
durante a aplicação de questionários PCAP,4 realizada pelo
programa Diálogos e em conversas informais dos componen-
tes do projeto com a população, a busca de pontos de prosti-
tuição era constante.
Lembramos que essa busca visava ao atendimento ao
primeiro eixo do plano de ação, a saber, o mapeamento dos
espaços de prostituição. A técnica de mapeamento consiste

4
A Pesquisa de Conhecimentos, Atitudes e Práticas (PCAP) constituiu os primeiros pas-
sos práticos do projeto Diálogos, reunindo as diversas ações que integram tal projeto
para a aplicação de questionários nos domicílios da população de 15 a 64 anos de idade
das diversas áreas dos municípios do Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca. As perguntas
do questionário envolviam indicadores de conhecimentos, atitudes e práticas relaciona-
das com a infecção pelo HIV e outras DSTs.
Chá de Damas – Jaileila Menezes et al. • 173

em montar um mapa em que se possam visualizar e localizar


os pontos de prostituição, verificando aspectos sociais, eco-
nômicos, culturais e políticos que circunscrevem as práticas
sociais locais. Esse procedimento foi considerado fundamen-
tal para o desempenho das atividades do projeto Chá de Da-
mas, tendo em vista que estávamos lidando com um campo
dinâmico, pois, pelo fato de o agenciamento ser considera-
do ilegal, é muito provável que casas de prostituição abram
e fechem de maneira repentina e, até mesmo, sigilosa. Esse é,
portanto, um campo no qual há diversas mudanças de bares
e pontos onde o trabalho é desempenhado, com repercussões
para o processo de localização das prostitutas, conhecimen-
to das condições em que desempenham seu trabalho, atores/
atrizes sociais que compõem a rede de prostituição, atuação
destes/destas como fatores de proteção ou mesmo contri-
buindo para uma maior vulnerabilização das mulheres. A
intenção era que o mapeamento possibilitasse nosso enten-
dimento da dinâmica do campo-tema prostituição, conhe-
cendo as pessoas envolvidas direta e indiretamente nesse co-
mércio, os lugares de negociação e exercício da prostituição,
e mesmo nossa entrada no campo como representantes de
um projeto de intervenção no âmbito da saúde e dos direitos.
A partir desse momento, também passamos a fazer parte do
circuito da prostituição na sub-região de Suape, e os efeitos
de nossa presença nesse campo também serão aqui relatados
e problematizados.
Nessa primeira visita, poucas foram as pessoas que sa-
biam informar locais onde poderíamos encontrar as profis-
sionais do sexo, mas dois nos foram indicados: um bar em
Gaibu5 e o Mercadão Municipal do Cabo. Almejando averi-

5
Gaibu é um dos bairros que compõem o município do Cabo de Santo Agostinho, e
sua praia é uma das mais famosas e movimentadas de todo o litoral pernambucano,
recebendo grande número de turistas.
174 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

guar tais informações, dois dos bolsistas de pesquisa, do sexo


masculino, se dispuseram a visitar o bar de Gaibu, em caráter
informal, sem explicitar a condição de bolsistas de um projeto
de pesquisa-intervenção. Em consenso, foi decidido que não
seria estratégico que todo o grupo adentrasse o local, e como
maior parte do grupo era composta por integrantes do sexo
feminino, havia certo receio das próprias pesquisadoras sobre
os possíveis impactos oriundos da chegada de um grupo de
jovens mulheres em um espaço de prostituição.
Trabalhando com uma perspectiva de gênero na qual as
relações de poder regulam os corpos e as subjetividades das
pessoas, a partir de marcadores binários da ordem do sexo/
gênero na interface com outros marcadores de desigualdades
(Butler, 2003; Piscitelli, 2013), por que reiterar uma regra na
qual a circulação de corpos em espaços públicos e à noite é
legitimada para aquelas pessoas que performatizam o gêne-
ro no masculino? Nossa resposta fala dos próprios limites do
campo e da potência de estar atentos a essas restrições. Não
reproduzimos práticas desiguais, antes utilizamo-nos delas
para entrarmos em um campo tenso e complexo, de forma tal
que pudéssemos trabalhar – homens e mulheres – nas mesmas
condições.
Feitas as negociações na equipe, os dois pesquisadores fo-
ram ao estabelecimento e já na entrada receberam a informa-
ção, dada por um segurança, de que era necessário pagar uma
taxa. É importante registrar que as mulheres tinham entrada
gratuita, e os pagantes recebiam um papel que permitia saída
e nova entrada sem que houvesse outra cobrança. O bar estava
pouco movimentado e, logo após a entrada, podiam-se ver as
prostitutas sentadas na frente com figurinos que evidencia-
vam seus corpos, umas próximas às outras, e algumas já nas
mesas com os frequentadores. Sentamo-nos, pedimos uma
bebida e agimos como clientes comuns de um bar.
Chá de Damas – Jaileila Menezes et al. • 175

Lá atentamos para a estrutura do local, uma espécie de casa


gradeada que funcionava como bar, e que em seu quintal – de-
limitado por um muro – ficavam as mesas para os clientes. O
local possuía uma jukebox, onde era possível escolher músicas
para tocar a partir da compra de fichas no bar. O local também
contava com um jogo de luzes, além de um palco. Inclusive,
uma banda estava marcada para tocar música ao vivo. O bar só
tinha banheiro masculino, e nesse havia um grande buraco em
que era possível ver o lado da casa onde tinha vários quartinhos
que as prostitutas utilizavam, aos quais se tinha acesso através
do interior da casa. (Douglas, extraído do diário de campo)

A estrutura do local revela bem o cenário da prostitui-


ção exercida em estabelecimentos para esse fim. As mulheres
ficam dispostas no salão, e o palco, além de shows de músi-
ca, também abriga performances de strip-tease. O uso de grades
chama atenção como procedimento de segurança, evitando a
entrada de pessoas e principalmente a saída sem pagamento
da consumação. E a existência de um único banheiro como
identificado “para homens” traz à tona uma compreensão de
que a organização desse espaço é pautada pela heterossexua-
lidade, espaço de homens que vão em busca de mulheres “da
casa”. Não se espera uma clientela feminina, que pode inclu-
sive ameaçar o negócio da casa, gerando concorrência entre
frequentadoras e prostitutas.
Os pesquisadores escutaram uma conversa entre um
cliente e uma prostituta, na qual havia uma negociação do
“programa”. A profissional disse que cobrava 50 reais, e logo
depois os dois foram ao interior da casa. A prostituta deu a
quantia para o responsável pelo bar. De acordo com Letícia
Barreto e Marco Aurélio Prado (2010), há variações na práti-
ca da prostituição a depender do local onde ela ocorre, o que
repercute, entre outras coisas, no preço médio e no tipo de
programa. Deve-se atentar para as condições que circunscre-
vem o trabalho no sentido do enfrentamento às situações de
176 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

exploração econômica que marcam historicamente a inserção


das mulheres no mercado de trabalho, ainda mais quando a
ocupação que exercem é mantida na clandestinidade por cau-
sa do preconceito social: “[…] o forte estigma relacionado à
prostituição, seu status ilegal e sua exclusão de proteções so-
ciais que habitualmente são oferecidas a outras profissões im-
plicam numa [sic] maior vulnerabilidade à violação de direi-
tos” (Barreto e Prado, 2010, p. 201).
A primeira visita institucionalizada do Programa Diálo-
gos aconteceu no Mercado Municipal do Cabo de Santo Agos-
tinho, o “Mercadão”. Trata-se de um local espaçoso, onde há
uma área para venda de legumes, frutas, verduras, entre outros
objetos, como roupas e panelas. Há um local ao lado, que tam-
bém faz parte do Mercado, que agrega bares, muitas mesas e
cadeiras, um pequeno palco e um “pátio livre”, onde, prova-
velmente, as pessoas devem dançar quando há show. Esse é um
local central da cidade do Cabo, próximo ao Terminal Integra-
do, ao metrô, ao comércio, sendo, portanto, de fácil acesso e
considerado “ponto de encontro” na cidade. O Mercado pare-
ce reunir uma diversidade de frequentadores, como famílias,
casais namorando, pessoas sozinhas e grupos de amigos. No-
tamos que o local é bastante frequentado por funcionários de
Suape, por causa do uniforme. Quando chegamos, não havia
muita gente, provavelmente por ser uma quinta-feira e pelo
horário, relativamente “cedo” da noite.6
A institucionalização de nossa presença em campo ficou
evidente pelo transporte utilizado (van devidamente identifi-
cada com o símbolo da Universidade Federal de Pernambuco
– UFPE) e a camisa utilizada pelos membros da equipe com a
logomarca do Diálogos, da UFPE e dos principais apoiadores

6
Comumente nossas idas a campo ocorriam às quintas e sextas-feiras à noite, com che-
gada a partir das 19h.
Chá de Damas – Jaileila Menezes et al. • 177

do Programa. A ação teve o caráter de explorar o território e


também para procedermos à entrega de insumos para a po-
pulação: fôlder de divulgação do Programa Diálogos, explici-
tando seus objetivos, eixos temáticos, atividades, alvo popula-
cional e apoiadores e executores do projeto; panfleto “Vamos
conversar sobre sexualidade?”, com informações sobre doen-
ças sexualmente transmissíveis (DSTs), a importância do uso
do preservativo e a indicação de locais de distribuição; marca-
dores de página abordando temas como redução de danos de
álcool e outras drogas, visibilidade trans e respeito à mulher.
Os relatos do diário de campo revelam nuanças dessa inserção
em campo:

Aquela quinta-feira, de fato, era um dia regado de alegria; por


ser um momento que tanto esperávamos e um caminho que es-
tava sendo traçado há meses; de expectativa pela ânsia de conhe-
cer o campo a ser explorado, as informações que poderíamos
explorar de lá; e de insegurança pelo desconhecimento das sur-
presas positivas ou negativas que o campo poderia nos reservar,
e a angústia em saber que aquele primeiro contato poderia não
resultar na fluidez que desejávamos. Neste primeiro momen-
to, o grupo, em geral, se apresentava bastante nervoso, pois tí-
nhamos palavras prontas para um discurso estrategicamente
ligeiro que comportasse as minúcias de um campo (ainda) des-
conhecido, uma fala mais ou menos ensaiada, onde ainda não
estávamos inteirados completamente acerca do que o projeto se
propunha, havendo o temor de surgir alguma pergunta e não
sabermos responder. (Sarana, extraído do diário de campo)

Antes da visita, foi acordado que todos(as) iriam obser-


var, distribuir o material, informar sobre o Projeto Diálogos e,
se houvesse abertura, falar dos diversos eixos de ação, inclusi-
ve do Chá de Damas. Também foi planejado que não houves-
se comentários entre os(as) pesquisadores(as) sobre o que foi
observado durante a visita, reservando a troca de informações
para um momento posterior. Por esse motivo, cada integrante
178 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

estava com caneta e papel para, se necessário, anotar observa-


ções que serviriam como base para a organização do diário de
campo após a visita. Antes das intervenções, o grupo foi divi-
dido em duplas, que iriam abordar os frequentadores do local.
Realizamos uma abordagem na qual entregamos os kits
aos diversos cidadãos que circulavam pelo local, de ambos
os sexos e diversas faixas etárias, e conversamos um pouco
sobre a proposta do Programa Diálogos e sobre sexo seguro
e exploração sexual infantil. Denominamos kit uma embala-
gem de plástico devidamente etiquetada com a logomarca do
programa na qual colocávamos uma cartela com três preser-
vativos masculinos, uma camisinha feminina, dois sachês de
gel lubrificante, panfletos informativos sobre o projeto, sobre
métodos de prevenção às DSTs, demonstrativo de como co-
locar as camisinhas – com ilustração – e uma cartilha com in-
formações de endereços locais e números nacionais do Con-
selho Tutelar, disque-denúncia para os casos de exploração
sexual e de ONGs como o Centro das Mulheres do Cabo7.
Os kits funcionaram como bons mediadores do contato da
equipe com a população local, pois havia interesse em abrir a
embalagem, ver os materiais e a equipe aproveitava a oportu-
nidade para falar sobre algo que literalmente estava nas mãos
da população.
Nessa visita ao Mercadão, começamos por abordar as
pessoas nas mesas dos bares, mas antes pedimos permissão
para os funcionários dos estabelecimentos e explicamos qual

7
O Centro das Mulheres do Cabo (CMC) é uma organização feminista, constituída
como entidade privada sem fins econômicos e organizada como associação de mulheres,
tendo como missão construir a igualdade de gênero e afirmar os direitos de cidadania
das mulheres. A ação do CMC contribuiu para interiorizar o movimento de mulheres e
feministas em Pernambuco, além de ampliar e fortalecer as organizações autônomas de
mulheres. (Disponível em: <http://www.mulheresdocabo.org.br/wordpress/?p=404>.
Acesso em: 9 ago. 2014.) O CMC integra um dos projetos vinculados ao Programa Diá-
logos em Suape e se destaca pelo uso da rádio comunitária como tecnologia fundamen-
tal para a mobilização comunitária.
Chá de Damas – Jaileila Menezes et al. • 179

era nossa função ali. Percebemos que algumas pessoas ficaram


um pouco incomodadas com nossa abordagem, recusaram-se
a receber os insumos, enquanto outras não permitiram que
falássemos do Programa. Contudo, aquelas que permitiram
recebiam os kits e agradeciam por nosso “trabalho”. Muitas
vezes, nossa presença foi solicitada. Íamos até as mesas ou
mesmo para dentro dos bares a pedido de donos e funcioná-
rios. As pessoas tinham muitas dúvidas em relação à nossa
presença e chegamos a escutar alguns comentários como: “O
que será que eles querem aqui?”; “Por que estão dando camisi-
nha de graça?”; Será que são mandados da prefeitura?”.
Durante a entrega dos preservativos, observamos situa-
ções que merecem ser relatadas. Expressões como “me dá mais,
pois hoje a noite vai ser longa” eram frequentemente ditas por
homens, deixando clara a forte necessidade de demonstração
de virilidade e da intensa atividade sexual. A dominação mas-
culina em relação à mulher também, já que era comum es-
cutar frases de homens, no momento da entrega, como “não
quero mulher minha com isso”. Também foi comum a reação
de homens que não aceitaram camisinhas, justificando que
possuem apenas uma parceira fixa. Mas na sequência a essa
afirmação surgia a seguinte: “se eu chegar com camisinha, a
mulher me bota para fora de casa”, demonstrando que o pre-
servativo não é utilizado entre casais com relacionamento fixo,
certo fechamento das possibilidades de negociação de uso en-
tre o casal, o posicionamento da mulher como intolerante e a
representação da camisinha como ameaça ao relacionamento
do casal, possivelmente significando quebra de confiança rela-
cionada com a infidelidade. A recusa em receber o preservati-
vo informa sobre os códigos sexuais da cultura local, em que
um homem bem casado, com parceira fixa, não é bem visto
quando tem em sua posse preservativos. Esse comportamento
sugere também que a camisinha não é utilizada como método
anticoncepcional entre casais casados.
180 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

Nessa ocasião, as jovens mulheres da equipe também so-


freram investidas que demonstram códigos de gênero e sexu-
alidade da cultura local. As pesquisadoras receberam convites
para “tomar uma cervejinha depois do trabalho” ou foram
questionadas de modo malicioso sobre “como se usa isso (a
camisinha)?”. Essas situações de “saia justa” vivenciadas no
campo serviram como dado de que mulheres circulando em
determinados locais públicos da cidade e sem a devida com-
panhia de seus parceiros estão disponíveis para investidas dos
homens do lugar. Ainda mais em se tratando de mulheres jo-
vens oferecendo produtos para uso durante relações sexuais,
ou seja, ousando ter conhecimento em uma dimensão da vida
que tem forte inscrição como símbolo de masculinidade e viri-
lidade, a sexualidade. A adesão às práticas sexuais frequentes,
a forte disposição para a atividade sexual, estar sempre pronto
para ter relações sexuais com uma mulher foram observados
em várias situações nas quais os homens foram abordados
(Quadros, 2011, p. 70).
As informações coletadas em situações de conversas in-
formais mediadas pela entrega dos kits possibilitaram o enten-
dimento de uma cultura sexual local marcada por uma com-
plexa lógica de permissões e proibições. Práticas sexuais entre
homens são condenadas, assumir-se homossexual exige forte
disposição para lidar com o preconceito e, por que não dizer,
também com o medo.8 Além disso, a complexidade do campo
e dos/das atores/atrizes que o compõem é grande. Em nossas
inserções, encontramos informantes que indicaram a presen-
ça de travestis que “se montam” e dançam no local nas sextas
e sábados a partir das 21h, o que caracteriza também uma for-

8
Matéria veiculada em 22 de julho de 2013 por um jornal virtual informou sobre os as-
sassinatos de sete homossexuais em um período de pouco mais de um ano registrados
no município do Cabo de Santo Agostinho, na Região Metropolitana do Recife (RMR).
Chá de Damas – Jaileila Menezes et al. • 181

ma de comercialização de sexo.9 Em relação às travestis, houve


um comentário que merece ser salientado: alguns motoboys
informaram que “um travesti foi morto porque falava muito”,
sugerindo que ela comentava sobre seus clientes. E uma gar-
çonete de um dos bares do Mercadão relatou que seu colega
de trabalho “é [gay], mas tem vergonha de assumir”. Além dis-
so, um motoboy que estava próximo afirmou ter um parceiro
sexual, mas que essa relação não era explícita, nem pública.
Nessa primeira visita, também aproveitamos para per-
guntar sobre a presença de mulheres prostitutas no local. A
impressão deixada foi de que a prostituição é silenciada. Em
geral, o questionamento a respeito da prostituição foi reali-
zado com os próprios funcionários dos bares, no entanto a
maioria do grupo não conseguiu informações, não tendo fi-
cado claro para nós se os funcionários não sabiam ou se não
queriam falar. No entanto, duas pessoas da equipe consegui-
ram a informação de que as prostitutas ocupavam os arredo-
res do Mercadão aos sábados por volta das 21h. Elas ficavam
dançando no centro da praça, tornando fácil identificá-las.
Algumas já eram conhecidas ali, e uma funcionária chegou a
dizer que “tem uma que sempre passa toda roxa por aqui”,
dando a entender que ela sofre violência física. Alertaram
também que elas talvez fossem resistentes a qualquer contato,
pois não “queriam saber de ninguém”, e que até em momen-
tos de brigas elas não aceitavam a ajuda de nenhuma pessoa,
mostrando-se, inclusive, hostis a esse auxílio.
A informação mais concreta que obtivemos a respeito
da prostituição nas proximidades foi de que havia “na rua,
9
A prostituição foi incluída na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) em 2002 e
compõe a descrição “profissionais do sexo”. Nesta, cabem diversos profissionais, como
transexuais e travestis, o que torna evidente que a ocupação não é exclusivamente de
mulheres. Estão inclusos na definição da área de atividade: batalhar programa, produ-
zir-se visualmente e dançar para o cliente (Barreto, 2008). Tais descrições e definições
colaboram para a compreensão da complexidade social do comércio sexual, corrobo-
rando a ampliação dos significados das práticas sexuais.
182 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

lá ‘pra’ cima”. Um mototaxista também confirmou, dizendo


que, se continuássemos subindo a rua, encontraríamos uma
praça onde havia alta concentração dessas profissionais. Com
essa informação, voltamos à van e procuramos o local indica-
do pelo rapaz, em vão. Após algum tempo procurando pela
praça, decidimos interromper nossa busca naquele dia. Fina-
lizado esse primeiro contato, voltamos para casa com muitas
dúvidas, receios e observações sobre o campo, o que nos moti-
vou para as próximas inserções.
Percebemos que o Mercadão não se caracterizava exa-
tamente como um ponto de concentração das prostitutas.
Sentíamos, portanto, que precisávamos ir em busca de ou-
tros locais, a fim de encontrar esses pontos, mas estávamos
extremamente “perdidos”, sentindo necessidade do apoio de
alguém que facilitasse o mapeamento.

3. Entre nós e elas: mediação como estratégia


de mapeamento

Diante das dificuldades vivenciadas pela equipe em loca-


lizar os pontos/lugares de prostituição e acessar as profissio-
nais do sexo, foco de nosso trabalho de intervenção, passa-
mos a contar com a presença de uma assistente de pesquisa
qualificada: a presidente da Associação Pernambucana de
Profissionais do Sexo (APPS), Nanci Feijó. Por seu papel de
liderança e militante em diversas causas relacionadas com a
garantia de direitos para as profissionais do sexo, Nanci pas-
sou a nos acompanhar no trabalho de campo, contribuindo
sobremaneira para o mapeamento. Sua abordagem segura,
sua fala militante de conscientização das mulheres com rela-
ção ao preconceito, direitos e deveres da profissão, violência,
atenção ao sexo seguro e o papel da APPS em Pernambuco
possibilitaram nossa aproximação dos estabelecimentos co-
Chá de Damas – Jaileila Menezes et al. • 183

merciais e das próprias mulheres prostitutas. Notamos que as


prostitutas ficaram muito à vontade com a presença e a fala
da coordenadora da APPS e que isso tornou nossa chegada
leve e agradável.
No total, visitamos cinco pontos de prostituição no Cabo
de Santo Agostinho e Ipojuca, ao longo de seis meses de atua-
ção. Nossas visitas ao Mercadão continuavam, pois acreditáva-
mos que ali podíamos encontrar clientes das prostitutas, mes-
mo que elas não estivessem necessariamente no local. Conti-
nuávamos a distribuir os kits aos frequentadores do lugar e
utilizamos esse material também como mediador de nosso
contato com as profissionais nos bares, boates e cabarés.
Na situação de entrega dos materiais, podíamos conver-
sar de modo mais informal com as mulheres profissionais do
sexo, que relataram, entre outras coisas, a dificuldade de uso
do preservativo feminino. Muitas disseram que o preserva-
tivo incomoda, que com ele não é possível fazer sexo em vá-
rias posições, faz barulho, temem que ele entre na região da
vagina. A intervenção da assistente do projeto nesse cenário
de reclamações consistiu em fazer uma demonstração do uso
seguro do preservativo feminino e orientar as mulheres para
que sempre o tivessem na bolsa. Isso porque há também uma
resistência muito grande dos homens/clientes em usar o pre-
servativo masculino, principalmente homens casados. Essa
recusa parece-nos estar relacionada, entre outros aspectos,
com uma não familiaridade com a camisinha, pois ela não faz
parte do cotidiano de suas práticas sexuais com a parceira fixa
e acaba não sendo usada também com as parceiras ocasionais,
o que vulnerabiliza ambas as mulheres a contrair doenças e in-
fecções sexualmente transmissíveis. Nesse cenário, assistente e
pesquisadores(as) sustentavam a importância de as profissio-
nais terem um preservativo “seu” para garantir sua segurança
no exercício de seu trabalho, não contrair DST ou HIV, ou
ainda gravidez indesejada.
184 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

Chegar aos locais de prostituição com uma assistente de


pesquisa qualificada experiencialmente na temática nos deu
a segurança necessária para futuras investidas e mesmo nos
afirmou junto à população local como representantes de um
projeto de intervenção, e não informantes da polícia. A coor-
denadora da APPS era conhecida por alguns donos de esta-
belecimentos e pelas prostitutas; logo, por estarmos em sua
companhia, ia ficando claro que não tínhamos ali uma função
policialesca. Fomos paulatinamente incorporados(as) no cir-
cuito da prostituição, e os episódios de cerceamento de nossa
presença no interior de bares e boates foram se tornando me-
nos frequentes.
Esse processo de entrada no campo deixou clara a im-
portância do “informante-chave” e de seu papel mediador.
Ficou evidente também a importância da experiência como
solo de compartilhamento de vivências de dificuldades, desi-
gualdades, resistências. Se, por um lado, nós, da comunida-
de acadêmica, “pessoal da universidade” (como passamos a
ser denominados no campo), não tínhamos um solo comum
de experiência profissional com aquelas mulheres, por outro
passamos a entender que em vários outros pontos podíamos
nos encontrar, compartilhando também nossas experiências
com relação ao uso de preservativo e sendo propositivos(as)
no sentido de indicar formas de superação das dificuldades
vivenciadas. Passamos a observar situações que poderíamos
propor para deixá-las à vontade, bem como a nós mesmos,
para compartilhar experiências. É importante afirmar que até
mesmo o “não dado”, isto é, a ausência de alguns comparti-
lhamentos, também foi levado em consideração, já que essa
ausência exprime as formas de relações entre os diferentes su-
jeitos envolvidos.
Já com certa aceitação e familiaridade no campo, a assis-
tente nos alertou sobre a importância de ser feito um perfil
das profissionais do sexo. O objetivo era termos um arquivo
Chá de Damas – Jaileila Menezes et al. • 185

com as informações das mulheres com as quais estávamos


trabalhando. Elaboramos em conjunto um questionário
com perguntas referentes ao cotidiano das prostitutas no es-
paço de trabalho e as condições socioeconômicas vivenciadas
por elas.
A coleta das informações ocorreu em três bares mapea-
dos como lugares onde havia o exercício da prostituição na
cidade do Cabo de Santo Agostinho. Aproveitamos os dias de
entrega dos preservativos e panfletos educativos para convi-
dar e aplicar o questionário, deixando explícito o caráter vo-
luntário da participação. No fim, contabilizamos os dados de
30 mulheres.
Entre as 30 profissionais, 25 eram naturais de cidades de
Pernambuco e cinco eram de outros estados (três da Paraíba,
duas da Bahia e uma do Rio de Janeiro). Em relação à orien-
tação sexual, 25 se afirmaram como heterossexuais, quatro
como bissexuais e uma como homossexual. A maioria delas
tinha o ensino médio (16 completo e oito incompleto) e 24
delas tinham filhos.
Quanto à prostituição, nove mulheres estavam no exer-
cício há, no máximo, um ano; quatro, dentro de um período
de seis a nove anos; 16, de dois a cinco anos; e uma, há mais
de 10 anos. Um dado interessante foi que, quando questiona-
das sobre o fato de encarar ou não a prostituição como traba-
lho, 24 das 30 mulheres disseram considerar a prostituição
um trabalho. Esse dado foi questionado e modificado quan-
do começamos a realizar as oficinas (rodas de conversas) com
elas.10 Sobre o Código Brasileiro de Ocupação, 26 mulheres
não o conheciam, e, quando perguntadas acerca da existên-
cia da Associação Pernambucana das Profissionais do Sexo, as
que conheciam era por causa da presença da coordenadora em
nossas intervenções.

10
Esse aspecto será objeto de discussão em um próximo texto da ação Chá de Damas.
186 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

No campo que compreende as DSTs, todas as partici-


pantes do questionário afirmaram fazer exames preventivos
regularmente, e só uma afirmou já ter tido alguma DST (não
informou qual). A maioria também alegou usar preservativos
em todas as relações sexuais, só uma que disse não usar com o
companheiro. Mesmo com essas informações, que evidenciam
um bom cuidado com a saúde íntima, as profissionais do sexo
evidenciaram grande demanda referente a esses assuntos, que
foram exploradas nos encontros do grupo.
Em relação à violência contra a mulher, foram questiona-
das sobre a Lei Maria da Penha, e as 30 participantes afirma-
ram ter algum conhecimento sobre ela, metade afirmou já ter
sofrido algum tipo de violência (12 delas violência física e três
violência sexual) e 25 conheciam a Delegacia da Mulher.

4. (Re)considerações iniciais

Mesmo com as tensões e dificuldades, o trabalho de cam-


po foi muito prazeroso e nos levou a montar estratégias mais
eficientes para o próximo passo: realizar as oficinas e nos sen-
tirmos mais à vontade para adequar as temáticas que gostaría-
mos de utilizar a partir da exploração e investigação do campo
que fizemos em torno de um ano e quatro meses com a entre-
ga dos materiais do projeto e as conversas informais com a
população local e as prostitutas.
É interessante observar como o trabalho de entrega de
materiais (kits), que inicialmente parecia enfadonho, foi se
mostrando um eficiente mediador de nossa inserção e rela-
ção com o circuito da prostituição. As visitas aos pontos de
prostituição, com o objetivo de entregarmos os insumos, pos-
sibilitaram-nos o contato direto com os/as diferentes atores/
atrizes sociais envolvidos na cena. Encaramos esse primeiro
momento de entrada no campo com uma boa dose de enten-
Chá de Damas – Jaileila Menezes et al. • 187

dimento das práticas sociais, culturais e sexuais do cenário de


pesquisa-intervenção e problematizando os diferentes signifi-
cados que a atividade de prostituição tem para os diferentes
grupos, inclusive para nós mesmos. O mapeamento dos pon-
tos de prostituição, a abordagem direta aos donos dos estabe-
lecimentos comerciais, as conversarsas com as prostitutas e a
aplicação do questionário constituíram etapas fundamentais
para o entendimento do “outro”.
Segundo Marisa Peirano (1995, p. 4), “a antropologia tem
como projeto formular uma ideia de humanidade construída
pelas diferenças, resultado do contraste dos nossos conceitos
(teóricos ou de senso comum) com outros conceitos nativos”.
Como já dito, tinhamos questões norteadoras advindas de
nossos referentes culturais e teóricos. No entanto, tínhamos o
propósito e a disponibilidade de nos deslocarmos e desestabi-
lizarmos nossas certezas a partir do encontro e da convivência
com a alteridade.
Ainda durante o processo de formação teórica, elabora-
mos uma primeira proposta de oficina para realizamos com
as prostitutas, com a temática “Cuidados de si”, envolvendo
cabelo, unhas, maquiagem, corpo, violência, DSTs, de modo
a realizar uma aproximação gradual e a formação de víncu-
lo com o grupo. Contudo, após termos contato com as da-
mas pela ação de mapeamento, percebemos que seria mais
estratégico escutar a demanda delas com relação aos temas
que consideravam relevantes para trabalharmos no contexto
das oficinas.11
A partir do desenvolvimento de uma postura de escuta
e de uma perspectiva de trabalho participativo, pautado pela
pesquisa-intervenção (Rocha e Aguiar, 2003), acreditamos que

11
No momento de escuta de suas demandas, alteramos a proposta inicial de modo a
contemplar temas como família, identidade e movimentos sociais. A experiência das
oficinas com o grupo de prostitutas será abordada em outro texto.
188 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

conseguimos construir um bom vínculo com o campo, o que


nos possibilitou a realização posterior das oficinas com boa
adesão por parte das prostitutas. Já em perspectiva para esse
segundo momento, nossas voltas para casa, após o trabalho
de campo, tarde da noite, traziam-nos mais estímulo, prin-
cipalmente por sabermos que a expectativa era recíproca por
parte das mulheres que passamos a conhecer melhor.

Referências

ADRIÃO, K. G. Encontros do feminismo: uma análise do campo feminista


brasileiro a partir das esferas do movimento, do governo e da academia.
Tese (Doutorado), UFSC, Florianópolis, 2008. 301 p.

BARRETO, L. C. Prostituição, gênero e sexualidade: hierarquias sociais e en-


frentamentos no contexto de Belo Horizonte. Dissertação (Mestrado) –
Programa de Pós-graduação em Psicologia, Universidade Federal de Minas
Gerais, Belo Horizonte, 2008. 

______; MAYORGA, C.; GROSSI, M. P. Pesquisando e intervindo na pros-


tituição: reflexões sobre subjetividade, experiências e militância. In: SEMI-
NÁRIO INTERNACIONAL FAZENDO GÊNERO 10 – DESAFIOS ATUAIS
DOS FEMINISMOS. Anais… Florianópolis, 2013.

______; PRADO, M. A. M. Identidade das prostitutas em Belo Horizonte:


as representações, as regras e os espaços. Pesquisas e Práticas Psicossociais, São
João del-Rei, v. 5, n. 2, dez. 2010.

BUTLER, J. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio


de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. Série Sujeito e História.

CORRÊA, S.; PETCHESKY, R. Direitos sexuais e reprodutivos: uma pers-


pectiva feminista. Physis: revista de saúde coletiva, Rio de Janeiro, v. 6, n.
1/2, p. 147-177, 1996.
Chá de Damas – Jaileila Menezes et al. • 189

GEERTZ, C. Obras e vidas: o antropólogo como autor. 2. ed. Rio de Janeiro:


UFRJ, 2005.

MENEZES, J. de A.; COSTA, M. R. Desafios para a pesquisa: o campo-tema


movimento hip-hop. Psicologia & Sociedade, v. 22, n. 3, p. 457-465, 2010.
OLIVEIRA, R. C. De. O trabalho do antropólogo. Brasília: Paralelo Quinze;
São Paulo: Unesp, 1998.

PEIRANO, M. A favor da etnografia. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1995.


PISCITELLI, A. Tensões: tráfico de pessoas, prostituição e feminismos no
Brasil. Desafios da Antropologia Brasileira. Brasília: ABA, 2013.

QUADROS, M. T. de. Homens, valores e práticas relacionadas à contracepção em


grupos populares. Recife: UFPE, 2011. Publicações especiais do Programa de
Pós-graduação em Antropologia/Fages.

ROCHA, M. L. da; AGUIAR, K. F. de. Pesquisa-intervenção e a produção de


novas análises. Psicol. Cienc. Prof., Brasília, v. 23, n. 4, dez. 2003.

WEBER, F. A entrevista, a pesquisa e o íntimo, ou por que censurar seu


diário de campo?. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 15, n. 32, dez.
2009.
Portas entreabertas à produção de cuidados:
o acesso dos homens à atenção básica em
saúde

Túlio Quirino, Benedito Medrado, Jorge Lyra e Michael Machado

Este texto foi construído a partir de análises relativas a re-


sultados da pesquisa intitulada “Homens nos Serviços Públi-
cos de Saúde: Rompendo Barreiras Culturais, Institucionais e
Pessoais”.1 Este estudo em particular teve por objetivo desen-
volver uma leitura psicossocial dos modos como usuários (ho-
mens) e trabalhadores de saúde produzem o cuidado à saúde
do homem no cotidiano da atenção básica.
Alguns elementos nos ajudam a situar a relevância do
tema do acesso/uso dos serviços de saúde no contexto das po-
líticas públicas voltadas à população masculina no Brasil. Um
desses elementos é a Política Nacional de Atenção Integral a
Saúde do Homem (PNAISH) (Brasil, 2009), cujo texto ressalta
a importância de ações voltadas aos homens no contexto da
atenção integral à saúde, reconhecendo, em consonância com
pesquisas e recomendações da Organização Mundial da Saúde
(OMS), que o envolvimento dos homens no contexto da saú-
de pode contribuir para melhorar os resultados de programas
voltados: 1) à prevenção de doenças sexualmente transmissí-
veis (DSTs); 2) ao controle da violência de gênero; e 3) à saúde
reprodutiva, minimizando o sofrimento das mulheres e dos
próprios homens e garantindo o exercício pleno da cidadania.
Dando sustentação a esta proposta, informações publica-
das nos Indicadores e Dados Básicos para a Saúde (IDB 2006)
(Brasil e Opas, 2007) ressaltam que:

1
A pesquisa foi realizada em três cidades brasileiras: Recife/PE, Campinas/SP e Floria-
nópolis/SC. Neste texto, privilegiamos as informações de Recife.
Portas entreabertas à produção de cuidados – Túlio Quirino et al. • 191

• o sexo masculino apresenta maior mortalidade em todas as


idades, até os 79 anos, sendo o excedente de mortes mascu-
linas mais acentuado nos grupos etários de 15 a 29 (80%) e
de 30 a 39 anos (73%);
• em 2004, 84% dos óbitos notificados por causas externas
ocorreram entre a população masculina;
• lesões decorrentes de causas externas motivaram parcela
considerável (28%) da hospitalização de homens de 15 a 29
anos em 2005.

A leitura crítica de determinantes sociais em saúde nos


leva a reconhecer que as informações citadas denunciam, por
um lado, a construção social de modos de ser homem (Me-
drado et al., 2000) e, por outro, a necessidade de investirmos
esforços em pesquisas e projetos de intervenção, a partir do
enfoque de gênero, que permitam ampliar a procura da popu-
lação masculina por serviços de saúde e compreender como
se dá o acesso à rede de saúde, reconhecendo seus limites e
obstáculos.
É, também, a partir do reconhecimento da dimensão
simbólica, institucional e relacional de gênero (Scott, 1995)
e das transformações nas relações e redes sociais que é pro-
posta uma abordagem feminista também para o masculino
e para os modos de ser homem em nossa cultura. Nesse sen-
tido, como afirmam Benedito Medrado e Jorge Lyra (2008), a
leitura do sistema sexo/gênero não deve reificar a dicotomia
natureza-cultura, mas buscar compreender os usos e efeitos
que práticas sociais (entre as quais podemos incluir aquelas
que operam serviços de saúde) produzem a partir do exercício
constante de oposição entre o masculino e o feminino.
Esses autores apostam na complexa teia que define as re-
lações de gênero, que nos aponta mais para a diversidade do
que para a diferença, como resposta à dicotomia e à desigual-
dade. Ao mesmo tempo, afirmam que as discussões sobre os
192 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

homens e as masculinidades, a partir de leituras críticas, são


resultados dos desafios e avanços dos debates científicos e po-
líticos originalmente produzidos pelo movimento feminista
e pelo movimento em defesa da diversidade sexual. Segundo
eles:

Quando se pretende (re)fazer perguntas ao campo da produção


de conhecimento (ainda fortemente sexista e androcêntrico)
ou quando se deseja (res)significar relações sociais de poder e
desconstruir o machismo institucionalizado […] é necessário
adotar essa matriz analítica e de compreensão ético-conceitual.
(Medrado e Lyra, 2008, p. 824)

Assim, diante da análise crítica do estado da arte de estu-


dos e pesquisas sobre homens e masculinidades, esses autores
postulam que é preciso romper com modelos explicativos que,
em geral, reafirmam a diferença e que nos permitem somen-
te explicar como (ou por que) as coisas assim o são, mas que
não apontam contradições, fissuras, rupturas, brechas, fres-
tas, que nos permitam visualizar caminhos de transformação
progressiva e efetiva. Logo, devemos apostar na necessidade
de abrirmos espaço para novas construções teóricas que res-
gatem o caráter plural, polissêmico, político e crítico das lei-
turas feministas para pensar os homens e as masculinidades
(Medrado e Lyra, 2008).
Além disso, esses autores enfatizam que não existe uma
única masculinidade e que não devemos falar em formas
binárias que supõem a “di-visão” entre formas hegemôni-
cas e subordinadas de ser homem. Tais formas dicotômicas
baseiam-se nas posições de poder social dos homens, mas
são assumidas de modo complexo por homens particula-
res, que também desenvolvem relações diversas com outras
masculinidades.
No que se refere à atenção básica, até o momento os pro-
gramas governamentais de saúde existentes nesse nível de
Portas entreabertas à produção de cuidados – Túlio Quirino et al. • 193

atenção têm aberto pouco espaço para a discussão sobre as


necessidades específicas dos homens e sobre a importância
da participação masculina no compartilhamento do cuidado
dos outros.
Muitos profissionais de saúde têm admitido ter difi-
culdades em obter empatia e cumplicidade dos homens nos
serviços públicos de saúde, o que nos dificulta conhecer
mais claramente as necessidades específicas dos homens e
nos impede também de definir melhores estratégias para
envolvê-los.
Ao pensarmos a rede do Sistema Único de Saúde (SUS),
os serviços oferecidos pela atenção básica são aqueles mais
próximos do cotidiano das pessoas. Por meio da Estratégia de
Saúde da Família (ESF), é disponibilizada uma série de pro-
cedimentos que visam, sobretudo, à melhoria da qualidade
de vida e à prevenção, promoção e recuperação dos agravos
em saúde. Informações do Ministério da Saúde (Brasil, 2010)
apontam que 80% dos problemas de saúde podem ser solucio-
nados na atenção básica. Assim, em um território sanitário é
possível realizar uma verdadeira sinergia e acessar elementos
da rede, gerando uma corresponsabilização em uma constru-
ção coletiva da equidade.
Além disso, é importante ressaltar que um dos objetivos
da PNAISH é o fortalecimento e a qualificação da atenção bá-
sica à saúde, de modo que esta esteja preparada para atrair e
acolher as demandas dos homens na saúde. Compreende-se
que muitos dos agravos à saúde dos homens poderiam ser
evitados se eles realizassem, periodicamente, as medidas de
proteção primária. No entanto, percebe-se uma resistência da
população masculina na adesão a esse tipo de cuidado com
a própria saúde (Brasil, 2009), mas também uma resistência
dos serviços de saúde à incorporação da leitura feminista de
gênero e, consequentemente, uma percepção equivocada de
que cuidados em saúde são atribuições exclusivamente femi-
194 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

ninas (Medrado, 2003; Medrado e Lyra, 1999; Medrado et al.,


2000).
A partir do posicionamento das microrrelações estabe-
lecidas pelas pessoas com o território, os saberes/fazeres em
saúde e os serviços oferecidos pelo Estado, essa configuração
possibilita outras formas de produção de cuidados em saú-
de. Isso porque a ESF permite a utilização de todos os recur-
sos disponíveis no território por ela coberto, havendo espaço
para o desenvolvimento de práticas alternativas em que os(as)
“comunitários(as)” são ao mesmo tempo público-alvo e autor,
além de que é nesse lugar em que as políticas desenvolvidas
pelo Estado se encontram com a população, ocorrendo aí os
espaços de negociação, resistência, controle, burla, entre ou-
tras estratégias.

1. Contexto da pesquisa

Este estudo foi desenvolvido a partir de uma abordagem


qualitativa, por meio da realização de uma pesquisa explora-
tório-descritiva. O trabalho de campo procedeu em meio aos
contextos institucionais destinados às práticas públicas de
produção do cuidado à saúde, mais especificamente no âmbi-
to da atenção básica.
Optamos como “campo de investigação” pelo espaço de
uma Unidade Básica de Saúde (UBS) referenciada ao cuidado
à saúde do homem na Região Metropolitana de Recife/PE. A
escolha dessa UBS foi orientada pelo fato de ela ser a única na
cidade que oferecia, na época, alguma atividade voltada espe-
cificamente para o público masculino, permitindo-nos uma
maior aproximação ao acesso e à adesão de homens/usuários
às atividades propostas.
Assim, a UBS escolhida tem como diferencial iniciati-
vas da equipe de trabalhadores que buscam contemplar os
Portas entreabertas à produção de cuidados – Túlio Quirino et al. • 195

homens em seu cotidiano. Entre essas iniciativas citam-se: o


Grupo de Homens (reunião semanal em espaço extrasserviço,
na qual homens da comunidade discutem temáticas diversas
sob a mediação de algum trabalhador de saúde da unidade,
orientada nos princípios da educação popular em saúde) e
o Dia do Homem (atividade pontual que tem por objetivo o
atendimento exclusivo à população masculina, com o ofereci-
mento de ações habituais do serviço, como exames, consultas
médicas, vacinação etc.).
A referida UBS cobre um território povoado por 2 mil
famílias, distribuídas em 15 microáreas, atendidas por duas
equipes de Saúde da Família (SF). Cada equipe de SF é com-
posta por: médico(a), enfermeiro(a) e auxiliar de enfermagem,
dentista e auxiliar de saúde bucal, e de cinco a sete agentes
comunitários de saúde.
A unidade é bastante movimentada e costuma abrigar/
acolher pesquisadores/visitantes, estagiários de diversas espe-
cialidades na saúde, profissionais residentes e desenvolve par-
cerias com ONGs e equipamentos sociais do próprio bairro, e
também de outras localidades no município. As ações da equi-
pe de saúde nessa unidade também são potencializadas com
a participação de uma equipe dos Núcleos de Apoio à Saúde
da Família, que trabalha com matriciamento e suporte a casos
identificados no território.

2. Produção das informações em campo

Como procedimentos para a produção de informações,


foram utilizadas a “observação no cotidiano” (Spink, 2007),
com registro e escritura em “diários de bordo” (Medrado et al.,
2011), e a realização de entrevistas com os atores do serviço. A
observação no cotidiano reconhece a coprodução no contexto
da pesquisa, levando-nos a perceber as dinâmicas de interação
196 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

entre os atores envolvidos (profissionais/trabalhadores, usu-


ários e comunidade), bem como os modos de cuidado desen-
volvidos no dia a dia do serviço de saúde.
Os momentos de observação foram registrados em diários
de bordo (Medrado et al., 2011), os quais se relacionam com
um posicionamento do pesquisador em direção ao campo,
de modo a permitir-se ser conduzido pelas imprevisibilidades
do contexto da pesquisa. Tais diários, mais que meros instru-
mentos de registro dos dados do campo, funcionaram como
elementos coconstrutores de informações.
O modelo de entrevista que utilizamos assemelha-se à en-
trevista narrativa (Jovchelovitch e Bauer, 2002). Segundo essa
modalidade de entrevista, o sujeito é convidado a falar de si
como se contasse uma história, a qual vai sendo construída
a partir do compartilhar de seus pensamentos e opiniões. A
entrevista serviu como possibilidade de aprofundamento das
informações produzidas nos momentos de interação em cam-
po, a partir da produção discursiva dos profissionais/traba-
lhadores e usuários do serviço.

3. Interlocutores

Neste texto, optamos por focalizar as entrevistas realiza-


das com 12 homens/usuários que frequentavam a UBS. Elas
foram audiogravadas, com a utilização de aparelho digital
(mp3), e posteriormente transcritas na íntegra, de modo a
subsidiar o processo de análise das informações produzidas.
Entre os entrevistados, oito eram participantes do Grupo de
Homens, e os demais (quatro) foram contatados no dia a dia
da unidade de saúde, especificamente no corredor/sala de
espera.
O contato com os homens entrevistados ocorreu de ma-
neira diferente para os dois grupos destacados. Os usuários
Portas entreabertas à produção de cuidados – Túlio Quirino et al. • 197

que frequentavam o Grupo de Homens foram contatados e con-


vidados a conversar nos momentos posteriores às reuniões se-
manais do próprio grupo. Quanto aos homens da sala de espera,
o contato se deu após os atendimentos que iriam receber na
unidade. Não houve critério a priori para definir quais homens
seriam contatados e entrevistados. Entrevistamos aqueles que
estavam disponíveis para a conversa.

Quadro 1. Informações sobre os homens entrevistados

Grupo de Homens Sala de Espera


Pseudônimo Idade Pseudônimo Idade
Marcelo 49 anos Felipe 33 anos
Roberto 66 anos Tomás 23 anos
Péricles 41 anos Vítor 22 anos
Vinícius 62 anos Romeu 26 anos
Santiago 48 anos
Luís 23 anos
Tarcísio 18 anos
Cristiano 52 anos

Vale ressaltar que este estudo se orientou pela Resolução


no 196 do Conselho Nacional de Saúde (Brasil, 1996), que dis-
põe sobre os cuidados e procedimentos que devem ser segui-
dos para a realização de pesquisas com seres humanos. Garan-
timos que não se tornaram públicos quaisquer aspectos que
possam causar danos pessoais aos participantes envolvidos no
estudo e buscamos respeitar o mais alto sigilo no tocante à
identificação dos entrevistados, de modo a resguardar o ano-
nimato e a preservação da identidade deles. Neste texto, os no-
mes foram substituídos por pseudônimos com essa finalidade.
198 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

4. Análise

Para o processo de análise, as entrevistas transcritas fo-


ram organizadas em quadros previamente construídos, se-
gundo estratégia metodológica inspirada no uso dos Mapas
(Spink e Lima, 2004). A perspectiva dos Mapas nos pareceu
interessante por favorecer a construção dialógica e a preserva-
ção do contexto interativo em que as conversas operam.
Construímos e trabalhamos com nossos quadros analíti-
cos a partir desses princípios. Um primeiro quadro foi produ-
zido a partir das questões que orientaram a pesquisa e cons-
tituiu-se em uma espécie de painel temático que contemplava
diferentes aspectos de nosso objeto, os quais foram abordados
durante as entrevistas mediante roteiro.
A disposição desse quadro possibilitou o estabelecimen-
to de comparações nas falas entre diferentes interlocutores.
Dessa organização, partimos à produção de outro quadro sin-
tético, em que os pontos em comum favoreceram a constru-
ção de sínteses analíticas, e em contrapartida os dissonantes
marcaram rupturas e ressignificações possíveis dos sentidos
produzidos.
As sínteses resultantes desse quadro foram importantes
elos de condução da análise e escrita dos resultados do estu-
do. Optamos por organizar nossas informações considerando
três segmentos que se subdividem e se estruturam a partir de
questões-eixo de análise. As questões-eixo orientadoras são
“respondidas” a partir das sínteses construídas. Neste texto,
dedicamo-nos a responder à seguinte questão-eixo: “Como os
homens/usuários acessam e produzem sentidos sobre os ser-
viços de saúde da atenção básica?”
A seguir, apresentamos e discutimos esse aspecto da
pesquisa. Em sua construção, buscamos seguir uma linha
argumentativa tal que possibilitasse uma maior compreen-
são dos sentidos produzidos a partir do contato com as falas
Portas entreabertas à produção de cuidados – Túlio Quirino et al. • 199

dos interlocutores supracitados. Ao longo do texto, fazemos


tentativas de articulação teórico-analítica e trazemos como
ilustração recortes de falas de nossos interlocutores que, em
certa medida, exemplificam cada aspecto que pretendemos
visibilizar.

5. Discussão

As informações produzidas pelo estudo desenvolvido no


Recife de certa maneira corroboram resultados de pesquisas
realizadas em outros contextos que destacam a baixa frequên-
cia dos homens nos serviços de saúde da atenção básica (Go-
mes e Nascimento, 2006; Schraiber et al., 2010; Couto et al.,
2010; Gomes et al., 2011).
Os homens entrevistados, mesmo apresentando o profis-
sional médico como o elemento central para o cuidado à pró-
pria saúde, não costumam buscá-lo ou acessar os serviços em
busca desse atendimento de maneira preventiva.
O movimento de “ir à unidade” tem como fundamento
maior uma resposta ao adoecimento. Esses homens só pro-
curam a rede de serviços de saúde quando estão sentindo al-
guma coisa, quando a doença já está instalada ou quando há
uma piora no quadro clínico. Isso porque a unidade de saúde
não é a primeira opção de busca ou a equipe da ESF. A maioria
dos entrevistados recorre aos serviços de urgência e emergên-
cia, como os hospitais, e as Unidades de Pronto-Atendimento
(UPA).
O argumento utilizado por eles para explicar tal prática
decorre da própria situação de adoecimento, que requer cui-
dados e procedimentos imediatos, aliado a uma agilidade no
atendimento e rapidez da resposta, pois, segundo os colabo-
radores do estudo, na unidade é necessário aguardar em filas
enormes e ter que retornar para ser atendido.
200 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

Esse aspecto foi abordado por Wagner Figueiredo (2005),


que ressalta a preferência entre os homens pela utilização
de farmácias ou prontos-socorros, uma vez que tais serviços
apresentam respostas mais rápidas a suas demandas, pois as-
sociam tais serviços à não existência de filas de espera e à reso-
lução de seus problemas com maior facilidade.
Um componente importante para a discussão é que, mes-
mo com essas reclamações acerca do atendimento e de não co-
mumente frequentarem a unidade, a maioria dos homens en-
trevistados tece elogios aos serviços e à equipe de saúde, além
de avaliar, de maneira geral, positivamente a UBS. O recorte de
uma das entrevistas ilustra tal posicionamento:

Pesquisador: Tá! E quando o senhor chega à unidade, como é


que o senhor é recebido?
Roberto: Rapaz, é tranquilo de todo modo! É porque a turma
reclama muito, mas essa é uma… uma das melhores equipes é
essa agora! O povo num… num… nunca tá satisfeito, sempre
quer mais, né?! Desunião! Do jeito mesmo que a menina falou!
Doutor [diz o nome do médico] passou o remédio caseiro, ela
queria o antibiótico! Aí é bronca!
Pesquisador: O senhor já, sempre que o senhor quis algum
atendimento na unidade, conseguiu tranquilamente?
Roberto: Tranquilo! Toda vez que eu vou é tranquilo lá! Aten-
dem bem, eles…
Pesquisador: Tem alguma coisa que o senhor gostaria que lá
mudasse? Que mudasse na unidade, “pra” melhorar?
Roberto: Rapaz, por enquanto, não!

Consideramos que uma das razões para a avaliação po-


sitiva pelos usuários está centrada na efetivação de um aten-
dimento imediato: quando ele ocorre, o serviço é bem avalia-
do. Outra explicação para a avaliação positiva do serviço pela
maioria de nossos entrevistados, presente na fala de Roberto,
citado anteriormente, relaciona-se com um tradicional mo-
vimento assistencialista que marca o processo de construção
Portas entreabertas à produção de cuidados – Túlio Quirino et al. • 201

do SUS a partir da incorporação da saúde como um direto e


da compreensão de que se trata de um sistema voltado “para
o pobre”. Assim, ao mencionar “a turma reclama muito” ou
“o povo nunca tá satisfeito”, podemos pensar na existência de
uma lógica clientelista que remete à ideia de que “se tá ruim
com ele, é pior sem ele”.
Desse modo, a existência de serviços voltados ao homem
nessa unidade, per se, acaba sendo reconhecida positivamente
como um ato de concessão benevolente do Estado e de preo-
cupação com o bem-estar da população. Quanto a isso, Noe-
mi Jéssica Noca (2011) argumenta que a assistência à saúde,
tomada como um atendimento público universal, ainda não
foi apropriada pelos usuários dos serviços como um direito de
cidadania e dever do Estado, o que faz com que essa lógica assis-
tencialista ainda seja um imperativo no interior desses serviços.
Quando suas necessidades não são atendidas, como
aconteceu com Tomás, que acabou precisando ir a outro ser-
viço, por encaminhamento, para conseguir o que queria, a
avaliação torna-se negativa em função da articulação com os
demais elementos da rede, conforme o trecho:

Tomás: Não, só… fiquei meio frustrado porque eu, como dia-
bético, eu falei, né, fiquei… você tem que pegar a insulina, só te-
nho uma insulina em casa, um pouco, né, então, eu encontrei o
médico, ele… “Não, vá lá!”… quatro horas eu vim, mas ele só me
deu um encaminhamento pra o [cita o nome de um serviço de
saúde], né, só que eu não sei se eu chegar lá eu vou receber, como
é que vai ser… e se a que tá em casa acabar? É aquela questão, né,
então eu acho que o posto de saúde poderia fornecer, né, já que
tem um médico aqui capacitado e tal, acho que podia ficar sendo
acompanhado por ele e também receber a insulina aqui quando
realmente precisasse, não que recebesse de um e de outro!

Dessa maneira, o atendimento recebido por esse homem


foi visto como “frustrante”, uma vez que tinha a expectativa
202 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

de resolução de seu problema de maneira imediata, o que aca-


bou não acontecendo.
Outro ponto de reflexão é que se, outrora, exames e medi-
camentos eram utilizados como artefatos de apoio à prática
de saúde, auxiliando no combate aos sintomas e na elabo-
ração de diagnósticos, atualmente tais materiais são consu-
midos incessantemente pelos usuários dos serviços, sendo
demandados por eles. Tal prática faz com que, muitas vezes,
um trabalhador de saúde ou um atendimento realizado sejam
bem avaliados por tais usuários a partir do uso ou recomenda-
ção de tais recursos, exemplificado neste trecho:

Pesquisador: E o que é que tu achou, assim, do atendimento


daqui, das vezes que tu veio?
Vítor: Eu acho que foi bom, né?! Tirando a demora, o resto tá
bom demais!
Pesquisador: Tu acha? O que é que tu mais gostou?
Vítor: Eu gostei porque eu contei um problema a ela, ela pas-
sou… a doutora passou vários exames, fez um checkup geral, coi-
sa que nunca mais eu tinha feito, aí… achei o atendimento bom!

Logo, um atendimento só é bom se houver prescrições e


encaminhamentos, o que auxilia na manutenção de uma cul-
tura de cuidado normatizado em constante retroalimentação.
Além disso, há de se levar em consideração a relação eco-
nômica existente na produção da saúde pela via da tecnologiza-
ção das práticas médicas, o que é referido por Maria Helena Au-
gusto (2000) como “economicina”. O estímulo cada vez maior
à realização dos chamados “exames de rotina”, por exemplo,
constitui uma prática que reflete essa lógica. Nesse caso, uti-
lizam-se recomendações médicas complementares para o cui-
dado, pautadas por processos biotecnológicos que, na verdade,
pouco contribuem para a saúde das pessoas, mas que consti-
tuem grande atividade lucrativa para seus propositores, sendo
tais práticas supervalorizadas pela população que as consome.
Portas entreabertas à produção de cuidados – Túlio Quirino et al. • 203

Sobre isso, concordamos com o argumento de que a re-


gularidade no uso e na produção da tecnologia em saúde, ao
mesmo tempo que contribui para a revelação de alguns pro-
cessos, acaba acelerando outros, como a crescente medicaliza-
ção da saúde. Assim, o “direito à saúde” é confundido com o
“direito à assistência médica” (Noca, 2011).
Acerca das considerações dos participantes do Grupo de
Homens organizado pela unidade, o “estar” no grupo é tam-
bém uma forma de acessar e de utilizar as atividades oferecidas
no serviço de saúde. Além disso, apesar de eles reconhecerem
mudanças em suas práticas de autocuidado após começarem
a frequentar o grupo, vemos certa centralidade dessas práti-
cas na autoridade do trabalhador de saúde, uma vez que “é
ele quem supostamente sabe o que é certo ou errado para a
minha saúde”. Assim, pensamos que as atividades de educa-
ção em saúde, realizadas no grupo por alguns trabalhadores,
ainda parecem se realizar no plano da transmissão de infor-
mações, e não na aprendizagem e no desenvolvimento de ou-
tras práticas pelos homens, os quais ainda parecem tutelados
pelas indicações desses trabalhadores.
Quando aparecem críticas ao funcionamento da unidade
básica de saúde, estas parecem se situar mais no sistema (atra-
sos, burocracia) e na estrutura física do serviço (lugar onde a
unidade está situada), nunca sendo referidas as relações entre
usuários e trabalhadores, ou os processos de trabalho e oferta
de serviços específicos à população masculina. Há, de modo
geral, uma compreensão positivada dos trabalhadores de saú-
de e das relações (apesar de poucas) estabelecidas com os usu-
ários, os quais afirmam “não ter do que reclamar”.
Por outro lado, quando são solicitados a sugerir mudan-
ças na unidade para melhorar e atrair mais o homem, mais
uma vez a infraestrutura é bastante citada. Surge também o
desenvolvimento de atividades de lazer, as quais têm sua au-
sência justificada pelos próprios usuários em razão da ine-
204 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

xistência, na comunidade, de um espaço que possibilite essa


prática. Entre os entrevistados da sala de espera, aparecem
ainda a realização de campanhas para atrair mais o homem, a
ampliação das vagas de atendimento e a facilitação do acesso
para a marcação de consultas, por exemplo.
Convém pontuar, acerca das campanhas, a inexistência
de programas que contemplem as necessidades dos homens.
Outro ponto para reflexão são as estratégias de comunicação
em saúde presentes na unidade que privilegiam as crianças,
idosos ou mulheres gestantes, mesmo com o material produ-
zido a partir da PNAISH (Brasil, 2009).
Outra demanda apresentada por um de nossos entrevis-
tados foi a necessidade de um profissional especialista para
o homem, no caso o urologista, na UBS, o que nos chamou
a atenção tendo em vista a grande centralidade atribuída pe-
los trabalhadores às questões da próstata para os homens. O
que não significa, no entanto, que nossos entrevistados não
tenham tal preocupação, mas que quando conversamos sobre
a produção de sua saúde em geral nem sempre a próstata ti-
nha tanto destaque.
Por fim, um aspecto merece ser assinalado: os homens re-
conhecem que a unidade tem feito ações voltadas para eles,
citando, por exemplo, o próprio Grupo de Homens e o Dia do
Homem. Para eles, depende do homem ir mais ao serviço, pois
já existem ações direcionadas a ele, o que mais uma vez nos re-
mete à percepção positivada do serviço em vias de uma cultu-
ra assistencialista, sem que tais homens reflitam, por exemplo,
se as atividades oferecidas pela unidade estão de acordo com
suas necessidades particulares.

Pesquisador: E tu acha que é… a unidade de saúde poderia fazer


alguma coisa pra melhorar, o cuidado ao homem? Tu acha que
precisa de alguma coisa lá?
Marcelo: Precisa…
Portas entreabertas à produção de cuidados – Túlio Quirino et al. • 205

Pesquisador: O que, por exemplo? O que poderia…? Se fosse di-


zer… “ah, eh, pra melhorar o atendimento ao homem na unida-
de eu queria que isso existisse”… uma sugestão, ou poderia ter
mais o quê? Ou tu acha que talvez…
Marcelo: Rapaz se… se… melhorar o homem não vai, porque o
homem não vai. A gente vê, a gente conta a dedo. Se tiver vinte
mulher, tem dois homens! A ocupação é a mesma, a gente quer
melhorar, mas a própria… o próprio homem num deixa!
Pesquisador: E tu acha que poderia fazer o que pra que o ho-
mem começasse a ir mais?
Marcelo: Não, ele mesmo… ele deve ele mesmo ir, que nem as
mulheres vão… Homem não, homem é… medroso pra ir ao
médico!
Pesquisador: O agente de saúde não podia fazer nada com re-
lação a isso…!?
Marcelo: Não!… Eu creio que não!

A esse respeito, uma discussão é realizada por Lilia Schrai-


ber e Ricardo Mendes-Gonçalves (2000) no tocante às neces-
sidades e demandas apresentadas pelos homens na saúde.
Uma necessidade se configura no momento em que alguém
tem diante de si um impedimento que dificulta seu viver e
gera sofrimento. Podemos compreender que as necessidades
encontram-se em todos os domínios da vida: no trabalho,
na família, no meio sociocultural, no lazer etc. Uma pessoa,
quando apresenta determinada necessidade, recorre na cole-
tividade a um meio para a resolução de sua situação. Assim,
acaba endereçando a outrem a possibilidade de ter atendidos
seus desejos, legitimando-o como aquele que pode intervir de
modo a responder a seus carecimentos. A necessidade, então,
se formula a partir do resultado das intervenções sobre os ca-
recimentos da população, e a demanda, por sua vez, se situa
na busca ativa da intervenção (Schraiber e Mendes-Gonçalves,
2000).
No caso das necessidades em saúde, consideramo-las
como resultado de uma compreensão particular do aparelho
206 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

social ao qual a pessoa recorre em busca de ajuda; nesse caso,


trata-se de uma produção dialética que se realiza na compre-
ensão de alguém sobre seu próprio sofrimento e nas respostas
e recursos tecnológicos possíveis, situados em códigos cultu-
rais específicos e disponíveis para lidar com aquele sofrimento
(Camargo Jr., 2003).
Desse modo, as necessidades são construções sociais
(Schraiber e Mendes-Gonçalves, 2000). Isso implica que as
pessoas, para reconhecer determinados carecimentos como
necessidades direcionadas para um ou outro serviço, depen-
dem do reconhecimento das potenciais respostas a esses care-
cimentos, construídas a partir dos (des)usos possíveis, na cor-
respondência entre as necessidades apresentadas e os serviços/
bens disponíveis. Dito de outro modo, as necessidades podem
corresponder a construções diversas dos carecimentos, a de-
pender do tipo de resposta proporcionada na produção dos
bens ou serviços (Noca, 2011).
No caso dessa UBS, as atividades oferecidas para os ho-
mens foram construídas mediante certa maneira de encarar
suas necessidades. Assim, ao se definirem tais atividades como
formas de produzir o cuidado à população masculina, tem-se
em conta quais os carecimentos apresentados por ela, bem
como as formas possíveis de o serviço lhe ofertar respostas.
Nas falas de nossos interlocutores, quando pontuam que são
os homens que devem ir mais ao serviço, vemos como os pró-
prios serviços em suas proposições acabam por criar também
outras demandas, instaurando entre os sujeitos novas neces-
sidades, como a da própria busca do serviço.
É importante considerar o movimento que, como aponta
Lilia Schraiber (2005), atribui à baixa frequência dos homens
nos serviços sua suposta resistência aos cuidados à saúde, não
sendo reconhecida, muitas vezes entre eles mesmos, sua pouca
inclusão em propostas assistenciais ou em atividades específi-
cas voltadas a suas reais necessidades. Dessa forma, é possível
Portas entreabertas à produção de cuidados – Túlio Quirino et al. • 207

compreender que há também uma tendência à responsabili-


zação, por parte dos próprios usuários entrevistados, dos ho-
mens pela menor busca dos serviços.
Há de se considerar que os próprios usuários acabam re-
produzindo também tais ideias, sendo corresponsáveis pelos
impasses em sua relação com os serviços (Couto et al., 2010).
Quanto a isso, cabe-nos questionar: ao assumirem a perspec-
tiva de que o acesso aos serviços de saúde depende deles, esses
homens não estão assumindo um lugar a eles imputado his-
toricamente, naturalizando suas posições de não cuidadores,
por exemplo?
Sobre a relação estabelecida entre os usuários homens e
os serviços de saúde, historicamente os serviços ofertados nas
unidades de saúde são voltados para a saúde materno-infantil
e/ou, a partir dos anos 1980, para a população idosa (Couto
et al., 2010; Arilha, Unbehaum e Medrado, 1998), levando os
homens a assumirem o posicionamento de distanciamento
desses ambientes (Figueiredo e Schraiber, 2011).
No ensejo dessa discussão, outro elemento importante é
a invisibilidade dos homens no serviço, decorrente do machis-
mo presente nas relações entre os profissionais e os usuários,
já que existe uma matriz sexista que circula no tecido social
em que os homens são caracterizados como fortes, provedo-
res, invulneráveis, e que a doença é considerada um sinal de
fragilidade.

6. Considerações finais

Neste trabalho, buscamos discutir, a partir das falas de al-


guns interlocutores, o acesso e os usos de homens/usuários a
um serviço público da atenção básica à saúde. Nossa intenção
maior, com a realização da pesquisa apresentada, era situar al-
guns pontos, por nós visibilizados, que pudessem contribuir
208 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

para as discussões que têm aproximado os homens da pro-


dução de cuidados à saúde, um campo, até algumas décadas
atrás, ainda carente de produções e que nos últimos anos tem
ganhado destaque.
Tomando por base as entrevistas que realizamos, pode-
mos elencar alguns argumentos que supostamente fazem
com que os homens não busquem os serviços de saúde e que
esses serviços não acolham/reconheçam as demandas deles, o
que é encarado por nossos interlocutores como um indicativo
de descuido de si e de uma porta entreaberta desses serviços
que parece acolher/reconhecer apenas parcialmente suas de-
mandas: a associação do hábito de cuidar ao âmbito femini-
no, as diferenças de horário entre trabalho e funcionamento
dos serviços, a precarização dos serviços – no caso, infraestru-
tura, falta de materiais e recursos para promover outras ações
de atenção –, em menor grau o medo de descobrir que está
doente e ao mesmo tempo o medo de ter sua masculinidade
questionada, a vergonha de ficar exposto a um profissional, a
falta de serviços específicos e, em consequência, o não reco-
nhecimento dos serviços existentes como espaço para o cuida-
do à sua própria saúde.
É importante destacar que, com a realização desta pes-
quisa, não tínhamos o intuito de levantar responsáveis pelas
dificuldades apresentadas pelos serviços em desenvolver
práticas de cuidado que atendam às necessidades dos homens
na saúde. Não apoiamos ou legitimamos uma lógica de
culpabilização, mas reconhecemos a existência de uma série de
aspectos que favorecem o não acesso dos homens às unidades
básicas de saúde. Desse modo, da parte dos usuários vemos
algumas reclamações sobre o atendimento dos trabalhadores,
sobre a burocratização da rede, sobre as demoras nos atendi-
mentos médicos e na falta de especialistas nas unidades.
Gostaríamos de visibilizar também o (des)preparo dos
trabalhadores na lida com os homens. Como indicadores,
Portas entreabertas à produção de cuidados – Túlio Quirino et al. • 209

podemos citar os próprios processos formativos particulares,


que não investem em discussões de gênero, a suposta falta de
costume em atender homens em seu cotidiano, a posição de
saber-poder ocupada pelos trabalhadores, que pode encontrar
resistências em face do suposto poder do masculino, além dos
preconceitos existentes com relação ao homem: homem não
se cuida, homem não quer se cuidar, homem é difícil. Ao mes-
mo tempo, o despreparo também acaba funcionando como
uma explicação para não incluir ações voltadas ao homem no
serviço.
Não podemos perder de vista, no entanto, que estamos
nos referindo ao funcionamento de um serviço de saúde e que
há uma racionalidade médica mais ampla ao qual ele deve ace-
der. O que pontuamos neste trabalho seria o diálogo possível
entre diferentes modos de encarar o processo saúde-doença-
cuidado, tendo este último como objetivo maior dos serviços.
Acreditamos que é necessário que os serviços de saúde
possam investir no desenvolvimento de atividades centradas
nos processos de prevenção e promoção da saúde de maneira
a incluir também os homens. Estes apresentam demandas e
necessidades em saúde, e é preciso que os serviços se dispo-
nham a acolhê-las e responder a elas. Reconhecemos que as
atividades propostas no cotidiano do serviço pesquisado têm
efeitos positivos nas ações de cuidado dos homens, no entan-
to vemos que elas apresentam tensões. Falta, por exemplo,
continuidade.
Nesse sentido, lançamos alguns questionamentos, pois
traduzir o acesso apenas como o ato de “ir ao serviço” nos pa-
rece uma forma reducionista, tomando de forma unidirecio-
nal a discussão sobre acessibilidade à saúde. É preciso resgatar
princípios que orientem o funcionamento da atenção básica,
centrada em uma abordagem territorial, que preconiza uma
articulação usuário-equipe-comunidade que transcende a
busca da unidade. Esta deve mostrar-se acolhedora e acessível
210 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

a esse homem, mas também proativa. Assim, não se trata de o


usuário acessar a unidade, mas de se reverem os processos que
acessam trocas entre usuários e trabalhadores de saúde e que
tornam o cotidiano do serviço o lugar para produzir saúde e
cuidados de si.

Referências

ARILHA, M.; UNBEHAUM, S.; MEDRADO, B. (Org.). Homens e masculini-


dades: outras palavras. São Paulo: Ecos/Ed. 34, 1998.

AUGUSTO, M. H. Reflexões sobre o uso das tecnologias médicas. In: CAN-


ESQUI, A. M. (Org.). Ciências sociais e saúde para o ensino médico. São Paulo:
Hucitec, 2000. p. 151-166.

BRASIL. Ministério da Saúde. Resolução no 196, de 10 de outubro de 1996.


Aprova as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo
seres humanos. Diário Oficial da União, 10 out. 1996.

______. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamen-


to de Ações Programáticas e Estratégicas. Política Nacional de Atenção Inte-
gral à Saúde do Homem: princípios e diretrizes. Brasília, 2009.

______. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departa-


mento de Ações Programáticas Estratégicas. Área Técnica de Saúde do
Adolescente e do Jovem. Diretrizes nacionais para a atenção integral à saúde
de adolescentes e jovens na promoção, proteção e recuperação da saúde. Brasília,
2010.

BRASIL; ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE (OPAS). IDB


2006 Brasil: indicadores e dados básicos para a saúde. Rede Interagencial de In-
formações para a Saúde (Ripsa). Brasília: Ministério da Saúde, 2007.
CAMARGO JR., K. Biomedicina, saber e ciência. São Paulo: Hucitec, 2003.

COUTO, M. T.; PINHEIRO, T.; VALENÇA, O.; MACHIN, R.; SILVA, G. S.


N. da; GOMES, R.; SCHRAIBER, L. B.; FIGUEIREDO, W. dos S. O homem
Portas entreabertas à produção de cuidados – Túlio Quirino et al. • 211

na atenção primária à saúde: discutindo (in)visibilidade a partir da pers-


pectiva de gênero. Interface, Botucatu, v. 14, n. 33, p. 257-270, 2010.

FIGUEIREDO, W. dos S. Assistência à saúde dos homens: um desafio para


os serviços de atenção primária. Ciência e Saúde Coletiva, v. 10, n. 1, p. 105-
109, 2005.

______; SCHRAIBER, L. B. Concepções de gênero de homens usuários e


profissionais de saúde de serviços de atenção primária e os possíveis im-
pactos na saúde da população masculina, São Paulo, Brasil. Ciência e Saúde
Coletiva, v. 16, n. l, p. 935-944, 2011.

GOMES, R.; NASCIMENTO, E. A produção do conhecimento da saúde


pública sobre a relação homem-saúde: uma revisão bibliográfica. Cadernos
de Saúde Pública, v. 22, n. 5, p. 901-911, 2006.

______; SCHRAIBER, L. B.; COUTO, M. T.; VALENÇA, O.; SILVA, G. S. N.


da; FIGUEIREDO, W. dos S.; MACHIN, R.; PINHEIRO, T. O atendimento
à saúde de homens: estudo qualitativo em quatro estados brasileiros. Phy-
sis, Rio de Janeiro: Uerj, v. 21, n. 1, p. 113-127, 2011.

JOVCHELOVITCH, S.; BAUER, M. Entrevista narrativa. In: BAUER, M.;


GASKELL, G. Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual práti-
co. Petrópolis: Vozes, 2002. p. 90-113.

MEDRADO, B. Hombres y políticas públicas: un abordaje feminista y de


género. In: SANCHIS, N. (Org.). Família y género: aportes a una política
social integral. Buenos Aires: Progen/Consejo Nacional de la Mujer, 2003.
p. 77-84.

______; LYRA, J. Construindo um lugar para o masculino na saúde repro-


dutiva. Informativo Elos, p. 7, 1999.

______; ______. Por uma matriz feminista de gênero para os estudos sobre
homens e masculinidades. Revista Estudos Feministas, v. 16, n. 3, p. 809-840,
2008.

______; ______; DANTAS, L.; VALENTE, M.; QUIRINO, T.; MACHADO,


M.; FELIPE, D.; OLIVEIRA, L.; SILVA, M. C.; GONDIM, S. Paternidades no
212 • Desafios para pesquisa-intervenção-pesquisa

cotidiano de uma unidade de saúde em Recife: traços, curvas e sombras em


redes heterogêneas. In: TONELI, M. J. F.; MEDRADO, B.; TRINDADE, Z.
A.; LYRA, J. (Org.). O pai está esperando? Políticas públicas de saúde para a gravi-
dez na adolescência. Florianópolis: Mulheres, 2011. p. 189-211.

______; ______; NASCIMENTO, P.; GALVÃO, K. Homens, por quê? Uma


leitura da masculinidade a partir de um enfoque de gênero. Revista Perspec-
tivas em Saúde e Direitos Reprodutivos, v. 3, n. 1, p. 12-16, 2000.

NOCA, N. J. M. Produções discursivas sobre saúde e masculinidades em um serviço


público de atenção à saúde dos homens. Dissertação (Mestrado), Universidade
Federal de Pernambuco, Recife, 2011.

SCHRAIBER, L. B. Equidade de gênero e saúde: o cotidiano das práticas do


Programa de Saúde da Família do Recife. In: VILLELA, W.; MONTEIRO,
S. (Org.). Gênero e saúde: Programa Saúde da Família em questão. Rio de
Janeiro: Abrasco, 2005. p. 30-61.

______; FIGUEIREDO, W. dos S.; GOMES, R.; COUTO, M. T.; PINHEI-


RO, T.; MACHIN, R.; SILVA, G. S. N. da; VALENÇA, O. Necessidades de
saúde e masculinidades: atenção primária no cuidado aos homens. Cader-
nos de Saúde Pública, v. 26, n. 5, p. 961-970, 2010.

______; MENDES-GONÇALVES, R. B. Necessidades de saúde e atenção


primária. In: ______; ______; NEMES, M. I. B. A saúde do adulto: programas
e ações na unidade básica. São Paulo: Hucitec, 2000. p. 29-47.

SCOTT, J. Gênero: uma categoria útil para análise histórica. Educação &
Realidade, v. 20, n. 2, p. 71-99, 1995.

SPINK, M. J. P. Pesquisando no cotidiano: recuperando memórias de pes-


quisa em psicologia social. Psicologia e Sociedade, v. 19, n. 1, p. 7-14, 2007.

______; LIMA, H. Rigor e visibilidade: a explicitação dos passos da inter-


pretação. In: SPINK, M. J. P. (Org.). Práticas discursivas e produção de sentidos
no cotidiano: aproximações teóricas e metodológicas. São Paulo: Cortez,
2004. p. 93-122.
POSSIBILIDADES
Monitoramento de projeto social:
uma metodologia de pesquisa-ação
participativa
Telma Low, Danielly Spósito, Flávia Lucena, Nivete Azevedo,
Maria Aparecida Araujo Santos, Jorge Lyra, Benedito Medrado,
Talita Rodrigues, Ana Carolina Cordeiro e Gabriela Cordeiro

Este texto apresenta reflexões críticas baseadas, por um


lado, na produção científica sobre princípios e métodos para
monitoramento de projetos e intervenções político-sociais e,
por outro, nas lições aprendidas durante a implementação
da “Ação Mulheres e Educação para Cidadania”, como parte
do Programa Diálogos para o Desenvolvimento Social em
Suape.
Essa ação foi desenvolvida pela equipe do Centro das
Mulheres do Cabo (CMC), aqui referida como equipe executora,
ONG feminista baseada na região de Suape. Teve por obje-
tivo contribuir com o empoderamento de mulheres e jovens
dos municípios do Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca com
vistas à prevenção e ao enfrentamento da violência domésti-
ca e sexual na microrregião de Suape. Para tanto, focou-se o
desenvolvimento de atividades formativas e informativas so-
bre temas relacionados com as questões de gênero, violência,
participação política das mulheres, atuação e fortalecimento
da rede de assistência a mulheres em situação de violência, po-
líticas públicas, controle social etc.
O processo de monitoramento e avaliação (M&A), parti-
cipativo e contínuo, foi desenvolvido pela equipe do Núcleo
Feminista de Pesquisas em Gênero e Masculinidades (Gema/
UFPE), formada por um coordenador (professor do Departa-
mento de Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco
– UFPE), duas assistentes (pesquisadoras) e um grupo de cola-
Monitoramento de projeto social – Telma Low et al. • 215

boradoras e estudantes/estagiárias de psicologia e ciências so-


ciais da UFPE, incluindo quatro bolsistas vinculadas ao Pro-
grama Diálogos Suape. Essa equipe de monitoramento buscou
desenvolver um processo de acompanhamento e formação
ético-política, principalmente junto às estudantes/estagiárias,
seguindo os princípios de horizontalidade e participação que
estruturavam as atividades de M&A. Vale destacar que as es-
tudantes/estagiárias estavam vinculadas não somente à Ação
Mulheres e Educação para Cidadania, mas também ao Gema
de modo mais amplo como núcleo de pesquisa com objetivos,
atividades e planejamento anual especificamente definidos.1
Neste texto, focalizaremos as atividades de monitora-
mento desenvolvidas pelo Gema/UFPE. Além de destacar al-
gumas das principais lições aprendidas ao longo do Programa
Diálogos Suape nesses dois contextos, buscaremos comparti-
lhar algumas discussões sobre o processo de monitoramento
como fundamental para o desenvolvimento dessas ações.
Destacamos que a construção deste texto está fundamen-
tada nos registros sistematizados e produzidos a partir dos re-
latórios das oficinas de M&A facilitadas pela equipe do Gema,
nos relatórios narrativos elaborados pela equipe do CMC e em
outras fontes de informações geradas ao longo do Programa
Diálogos Suape.

1. Monitoramento de projetos sociais: breve


linha do tempo, limites e possibilidades

Historicamente, o processo de avaliação de políticas pú-


blicas e programas sociais está intimamente ligado aos pro-
cessos de reajustes da administração pública, ou seja, do uso
do recurso público. Seu desenvolvimento se dá por meio de
1
Para mais informações, acesse: <www.genero.org.br>.
216 • POSSIBILIDADES

esforços do governo dos Estados Unidos em criar mecanismos


de controle que possibilitassem aferir o grau de êxito ou fra-
casso dos programas relacionados com a pobreza.
O final da Segunda Guerra Mundial marcou a expansão
de programas de bem-estar social e favoreceu que a avaliação de
políticas públicas se constituísse, pouco a pouco, em uma área
bastante interessante para intervenção profissional. A exem-
plo disso, é notável, na época, uma crescente oferta de cursos,
pós-graduações, revistas, centros de pesquisas etc. relaciona-
dos com o tema. Porém,

[e]ste esfuerzo fue marcado por el eje comportamental y neutralista,


direccionado para la eficiencia y eficacia de las políticas, sin considerar la
evaluación de los principios y de los fundamentos y su contenido sustan-
tivo, centrada en criterios que ignoraban las variables contextuales que
pueden obstacularizar (o facilitar) el proceso de intervención social. Lo
que verificó es que este tipo de evaluación de políticas y programas socia-
les creó lo que la literatura nombra como “industria” de la investigación
evaluativa. (Silva, 2001, p. 44)

Segundo Derlien (2001), a década de 1980 foi marcada


por mudanças profundas no mundo, sendo a avaliação de po-
líticas públicas apresentada como um instrumento a serviço
da reforma (desmonte) do Estado. Nos Estados Unidos, por
exemplo, o governo neoliberal de Ronald Reagan coordenou
reformas no modelo econômico, estabelecendo prioridades
econômicas e reduzindo significativamente as subvenções di-
recionadas para políticas e programas sociais. No outro lado
do oceano, as reformas administrativas do Estado se iniciaram
na Inglaterra com a ascensão da também neoliberal Marga-
reth Thatcher. A “nova” primeira-ministra inglesa, com base
em estudos de avaliações de políticas e análises socioeconômi-
cas, deu início ao processo de minimização do Estado adotan-
do princípios “novos” na administração pública e mudanças
nas relações entre sociedade e governo.
Monitoramento de projeto social – Telma Low et al. • 217

Ao longo dos anos 1990, alguns sistemas de avaliação fo-


ram influenciados pela União Europeia, em especial aqueles
que, como Espanha e Alemanha, receberam grande volume de
recursos. Na América Latina, os países que tiveram importantes
aportes de instituições, como Banco Mundial, Fundo Monetá-
rio Internacional, Banco Interamericano de Desenvolvimento
etc., necessitaram seguir orientações internacionais e aderir ao
processo de avaliação por eles impostos. Porém, vale ressaltar
que tal processo influenciou diretamente a construção de uma
cultura de monitoramento e avaliação de políticas públicas.
Nesse contexto, Silva (2001) relata que o desenvolvimen-
to do processo de avaliação de políticas públicas está fundado
em quatro gerações.

1a Geração 2a Geração 3a Geração 4a Geração

Marcada por Marcada pelo Marcada pela Marcada como a


pesquisas na área crescimento acele- introdução de juízo avaliação, sendo
da política de rado de pesquisas de valor (a partir uma ferramenta
educação e aumento de de critérios “exter- importante para
programas sociais nos”) no processo medir a qualida-
(Welfare State) de avaliação de dos serviços
por parte do(a) e subvencionar
avaliador(a) decisões acerca
da viabilidade de
políticas públicas/
programas/
projetos

Buscou-se medir Buscou-se colabo- Buscou-se criar ins- Buscou-se refletir e


e classificar o rar com a tomada trumentos para co- construir parâme-
desempenho de de decisões, para nhecer a realidade tros capazes de
estudantes (inteli- isso se utilizou (contextualizar-se) mensurar a eficá-
gência, produtivi- de indicadores e posterior emissão cia e eficiência de
dade, resultados quantitativos e qua- de juízo de valor políticas públicas/
do processo litativos para medir acerca de políticas programas/
pedagógicos os resultados das públicas/progra- projetos
etc.) inseridos(as) políticas públicas/ mas/projetos
no campo da programas/proje-
educação tos (objetivo)
218 • POSSIBILIDADES

Como podemos observar, o Estado passou a reconhecer


que políticas públicas, programas e projetos sociais subven-
cionados por ele não estavam sendo eficazes e/ou eficientes, e
que a destinação de recursos não garantia os resultados espe-
rados. Nessa linha, avaliar e monitorar se tornou uma estra-
tégia importante para observar – de forma contextualizada e
complexa – as possibilidades de investimento do próprio Es-
tado e das demais agências financiadoras.
Dessa forma, os princípios e as estratégias de M&A fo-
ram evoluindo e tomando direções políticas que requerem
também tomadas de decisões por parte do(a) avaliador(a).
Um olhar mais atual acerca do monitoramento e da avalia-
ção conduz-nos para além de tê-los como um instrumen-
to de tomada de decisões políticas. Ou seja, é importante
ver que ambos, monitoramento e avaliação, podem ser um
instrumento que contribui para a construção da cidadania
(Spósito, 2009).
Processos como M&A podem ir além da consulta e/ou
mensuração de resultados, objetivos etc., pois, ao se tornarem
os resultados de M&A públicos, podem ser construídos es-
paços de caráter político que impliquem o debate coletivo e
público, no qual sejam compartilhadas ideias, possibilidades,
inquietações, fragilidades, limites, avanços etc.
Ter o M&A como um dispositivo intrínseco do processo
de uma sociedade democrática é superar a noção hierarqui-
zada e centralizada do poder de decisão (Silva, 2001; Spósito,
2009), favorecendo, por um lado, o aperfeiçoamento do pro-
cesso democrático e, por outro, a instrumentalização e a po-
tencialização dos sujeitos.
Monitoramento de projeto social – Telma Low et al. • 219

2. Metodologia de pesquisa: observações e


outras formas de registro
No Programa Diálogos Suape (anos I e II), a equipe de
M&A do Gema procurou construir um espaço coletivo de
aprendizagem no qual o CMC e o próprio Gema pudessem
dialogar democraticamente acerca do processo de M&A. No
entanto, vale salientar que desde o âmbito político e pedagó-
gico as ações estiveram voltadas para a construção de levanta-
mento de informações que possibilitaram, por um lado, iden-
tificar em que medida a metodologia utilizada pelo CMC na
realização de suas ações permitiu instrumentalizar mulheres
adultas e jovens no enfrentamento da violência doméstica e
sexual, e, por outro, sistematizar informações que favorece-
ram analisar – de forma contextualizada – a efetividade da
Ação Mulheres e Educação para Cidadania.
Compreendendo a realidade como algo inesgotável (Fli-
ck, 1992; Gergen, 2010; Spink, 1995), a metodologia utiliza-
da no M&A pretendeu captar um fragmento de um fenôme-
no, levando em consideração os momentos compartilhados
pelas(os) profissionais e estudantes envolvidas(os). Embarcar
no desafio de M&A, além de construir pesquisas acadêmicas,
fez com que decidíssemos por “fixar âncora” em um campo
cercado por princípios que possibilitassem uma construção
reflexiva e crítica. Ou seja, algo que nos deixasse alçar voos e
contribuir para a formação de nossas estudantes e o desenvol-
vimento institucional do CMC.
Tal como previsto, realizamos entrevistas e grupos focais;
elaboramos questionários, planilhas de M&A, enquetes etc.;
e analisamos informações/dados produzidos no contexto do
desenvolvimento das atividades do CMC. O primeiro passo
adotado pela equipe Gema foi reunir-se com o CMC para iden-
tificar “coerência” entre o projeto proposto e as atividades que
foram desenvolvidas.
220 • POSSIBILIDADES

Nesse primeiro momento, realizamos reuniões nas quais


a pauta esteve fundamentada na apresentação: a) do Progra-
ma Diálogos Suape; b) do CMC e de sua incidência na micror-
região de Suape; c) do Gema/UFPE; e d) da proposta de M&A
a ser desenvolvida pela equipe Gema. Inicialmente, foram ne-
cessários ajustes no Plano Operativo Anual (POA) proposto
pelo CMC, pois identificamos a importância de alinhar o POA
à nova realidade de Suape.
Esse processo possibilitou aprendizados diversos, como
a necessidade de pensar/refletir sobre palavras/termos apre-
sentados no projeto. A intervenção do Gema, nesse caso, se
deu especialmente por garantir que todos os compromissos
assumidos pelo CMC tivessem afetiva possibilidade de ser
concretizados. Não obstante, o fator “nitidez” na escrita de
um POA favorece construir relações mais transparentes entre
os distintos sujeitos envolvidos no projeto.
Após “alinhar” propostas, remetemo-nos a um segundo
momento, que denominamos planejamento operacional de
M&A. Para tal, realizamos reuniões, visitas ao CMC, parti-
cipação em atividades promovidas pelo CMC, grupos focais
com as mulheres, análise de dados etc. No entanto, destaca-
mos que as oficinas de M&A foram primordiais para o êxito
desse processo e construção do conhecimento. Elas marcam
o processo sistemático de planejar do CMC e do refletir sobre
cada atividade visibilizada ou invisibilizada desenvolvida pela
equipe.
Nossa preocupação inicial se deu quando observamos que
a cada atividade proposta pelo CMC havia muitas outras ativi-
dades invisibilizadas por ela, no POA e pelas instituições finan-
ciadoras. Como o programa de rádio, por exemplo, que não
apenas exigia ir à rádio, fazer sua gravação (em alguns casos
apresentações ao vivo) e veiculá-la. Pouco a pouco, por meio de
uma planilha, refletimos sobre como uma “simples atividade”
exigia das profissionais e como elas as registravam de fato.
Monitoramento de projeto social – Telma Low et al. • 221

Partindo do princípio de que é importante visibilizar


que há investimentos diversos (humano, material, financeiro
etc.) envolvidos nas atividades, construímos instrumentos de
monitoramento que possibilitassem um registro rápido e di-
dático destas. Como exemplo, o relatório narrativo dos pro-
gramas de rádio, no qual foi possível apresentar atividades an-
teriores (necessárias) a eles: a) articulação com instituições e
pessoas convidadas nos programas de rádio; b) interação com
o público ouvinte; c) pesquisas e levantamentos realizados etc.
Dessa forma, buscamos criar instrumentos que visibilizassem
os desdobramentos que cada atividade exigia, mostrando, por
outro lado, quantos recursos eram utilizados e que, algumas
vezes, o que parece ser suficiente pouco a pouco se torna escas-
so e pode comprometer o desenvolvimento da Ação.
A observação, a reflexão e os questionamentos acerca das
ideias e dos ideais pretendidos pelo CMC foram um com-
ponente que influenciou diretamente a construção de uma
metodologia democrática e participativa de M&A, também
funcionando como um mecanismo importante para quebrar
barreiras institucionais e políticas que, de certa forma, pode-
riam comprometer o M&A e, talvez, o próprio êxito da Ação
Mulheres e Educação para Cidadania.
O contexto e a conjunção de uma série de fatores influen-
ciaram adotar uma metodologia de M&A na qual a escuta era
primordial e o saber, respeitado e compreendido como um
processo que se constrói cotidianamente. Tal posicionamen-
to exige – pela própria natureza – uma flexibilidade crucial,
posto que falamos aqui de políticas públicas/programas/pro-
jetos, mas, antes de tudo, tratamos com sujeitos que protago-
nizam sua existência em um mundo no qual há relações de
poder, forças políticas etc.
Possivelmente, o “ousado” e diferencial de nossa propos-
ta foram os princípios feministas – que primam por uma des-
construção dos valores/padrões patriarcais e heteronormati-
222 • POSSIBILIDADES

vos, fomentando a igualdade entre os sexos – e participativos,


que concebem o poder de decisão como “próprio” das pessoas
usuárias e da sociedade. Posto que ainda que não temos resul-
tados a priori definidos e alcançados mesmo ao final de dois
anos, consideramos que essa experiência por si só já foi pro-
dutora de questionamentos e conhecimentos diversos (Lyra
et al., 2012).

3. Alguns resultados

Relatamos a seguir algumas atividades do processo de


M&A desenvolvidas pela equipe do Gema/UFPE durante a
implementação da Ação Mulheres e Educação para Cidada-
nia. Nesse processo, buscamos:
a) desenvolver um processo de M&A participativo;
b) contribuir com o êxito das atividades executadas pelo CMC;
c) colaborar com o desenvolvimento social da população lo-
cal, a melhoria de suas condições de vida, especialmente no
que tange à prevenção e ao enfrentamento da violência do-
méstica e sexual na microrregião de Suape.

a) Reuniões semanais de equipe

Foram realizadas reuniões semanais com o objetivo de


planejar as atividades de M&A, analisá-las, debatê-las etc.
Todas as reuniões foram registradas em atas (modelo criado
pela equipe), por meio de um revezamento das estudantes/
estagiárias, que foram responsáveis por garantir o registro de
cada reunião. As atas continham a pauta, os encaminhamen-
tos, a avaliação e as principais discussões construídas em cada
reunião. Ademais, a equipe também assinava uma lista de fre-
quência – em todas as atividades – a fim de ter registros de nos-
sas atividades.
Monitoramento de projeto social – Telma Low et al. • 223

Esses são aspectos importantes, especialmente quando se


trabalha em grupo e com M&A, posto que, além de favorecer o
registro e a sistematização das atividades ao longo do tempo –
subsidiando a construção da memória do programa/projeto/
ação –, facilitam o processo de elaboração de relatórios, que
visam a apresentar as atividades, fazer autocríticas à equipe
de monitoramento, rever percursos, rotas, ajustar propostas
e ideias, saberes e fazeres e, por que não, “prestar contas” aos
financiadores e parceiros/instituições etc.

b) Realização de oficinas de M&A

Essas oficinas eram realizadas, geralmente, uma vez por


mês, durante todo o dia, no CMC ou na UFPE (alternando-se
o lugar). Participavam as integrantes de ambas as equipes,
que se dedicavam a debater, analisar e compartilhar olhares/
ideias/opiniões/avaliações sobre as atividades desenvolvidas
pelo CMC junto às mulheres etc.
A equipe Gema preparava um fôlder e o enviava por
e-mail para o CMC com uma proposta de pauta/convite para
a oficina e com as responsabilidades que cada equipe deve-
ria assumir na atividade (para democratizar o papel de cada
equipe).
As oficinas se iniciavam com uma técnica de aquecimen-
to, em seguida os informes eram compartilhados e depois as
equipes se “debruçavam” sobre a pauta pactuada. As oficinas
foram se construindo como um espaço diverso, algumas vezes
polêmico e tenso, nas quais eram vivenciadas e compartilha-
das diferentes impressões, intenções, opiniões, visões, senti-
dos, equívocos etc. sobre as atividades, seus contextos, interfa-
ces. Ao mesmo tempo, tornaram-se um “lugar” de construção
de um vínculo afetivo e solidário, o que nos faz pensar que as
equipes aprenderam a desfrutar do coletivo e a (res)significar
os conflitos, possibilitando novas/outras formas de entender
224 • POSSIBILIDADES

e construir os conhecimentos, expectativas, experiências par-


tilhadas etc.
Assim, ao longo do processo, as oficinas possibilitaram
a identificação, o debate, a análise de questões estruturado-
ras relacionadas com ênfase em: instrumentais, planejamen-
to e organização das atividades, identificação das fragilidades
e potencialidades, dos resultados esperados e/ou efetivados,
desafios encontrados, expectativas, relações pessoais e institu-
cionais e lições aprendidas.

c) Elaboração de instrumentos de M&A

Uma das principais atividades realizadas pela equipe


Gema foi pensar e construir instrumentais de M&A que faci-
litassem ao CMC:

a) identificar os elementos essenciais do projeto;


b) planejar, sistematizar, monitorar e avaliar as atividades rea-
lizadas etc.;
c) refletir possibilidades e limites de cada atividade proposta;
d) construir estratégia para contribuir com o êxito das ativi-
dades;
e) colaborar com o desenvolvimento institucional;
f) visibilizar atividades muitas vezes “não percebidas” como
tais;
g) sugerir mudança de rotas e redirecionamentos de planeja-
mentos, entre outros.

Para tanto, o Gema criou uma planilha de monitoramen-


to das principais atividades-eixo do projeto (estruturação e
reestruturação da equipe; rodas de diálogo (RD); cursos de
formação política; programas de rádio; seminários temáticos;
audiência popular; campanhas de comunicação e elaboração
de cartilha sobre a Lei Maria da Penha) que foi apresentada,
Indicadores Instrumentos
de monitora- Periodi-
Metas Informações necessárias Datas Marco zero
Quantitativos Qualitativos mento/fonte cidade
de informação

Nome, localidade, comunida-


de, documento de identifica-
ção, contato, sexo, raça/
etnia, grau de escolaridade,
No de rodas
Ficha de idade, se tem filhos(as) ou não,
de diálogo
Inscrição instituição/segmento de que
realizadas
participa, participou de algum
evento ou formação sobre a Após cinco
temática (violência doméstica dias da roda
Pessoas mais
200 e sexual) de diálogo
fortalecidas
pessoas será enviado
para discutir
debatendo No de Lista de Nome, documento de identifi- relato para Levantamento
e disseminar
ações de participantes Presença cação e assinatura a equipe de do perfil das
informa- Trimestral
prevenção M&A. A equipe pessoas
No de ções sobre Roteiros do programa de rádio
da violência tem cinco dias participantes
participantes violência
doméstica e Áudios do para retomar o
da roda de doméstica e
sexual Programa material para
diálogos no sexual
Rádio Mulher a equipe do
Programa CMC
Rádio Mulher

Perfil das pessoas participan-


Relato escrito da
tes, dia/hora/local, facilitado-
roda de diálogo
ras, abordagem metodológica,
provocações, depoimentos e
Fotografias
avaliação
Monitoramento de projeto social – Telma Low et al. • 225
226 • POSSIBILIDADES

rar e avaliar os acordos e “retornos” produzidos nas oficinas


de M&A. Além das planilhas, o Gema desenhou outros instru-
mentos de M&A que atenderam às demandas e sugestões pen-
sadas coletivamente, como foi o caso das fichas de inscrição
para o Curso de Formação Política, das enquetes utilizadas
nas campanhas de comunicação etc.

4. Algumas considerações

Neste tópico, apresentaremos algumas reflexões sobre


a pesquisa-ação que permitiram dar visibilidade ao processo
de desenvolvimento político e acadêmico por parte tanto do
CMC quanto do Gema, nele incluindo coordenador, assisten-
tes e estagiárias. Assim, pretendemos apresentar condicionan-
tes que interagem e que nos proporcionaram um olhar sobre
limites e possibilidades das ações desenvolvidas pelo CMC, e
como tais limites também incidem no processo de M&A pro-
posto pelo GEMA.

4.1. Planejamento e desenvolvimento da Ação

Ao desenvolver as oficinas de M&A, foi possível observar


em um primeiro momento uma deficitária “clareza” acerca do
projeto final que o CMC iria desenvolver entre tantas idas e
vindas cada vez mais comuns na realidade das ONGs no Bra-
sil (Abong, 2013). No entanto, vale salientar que a deficiência
aqui apresentada também resulta de um complexo processo
de negociação dos recursos que subvencionaram o Programa
Diálogos. Ou seja, o tardio início das ações abalou a incidên-
cia do Programa, especialmente em razão de a realidade não
ser estática, mas estar em constante transformação, e quando
falamos em política pública e projetos sociais a entendemos
como um campo complexo e controvertido.
Monitoramento de projeto social – Telma Low et al. • 227

Dessa forma, podemos refletir sobre o compromisso políti-


co e social que existe por parte da proposta de desenvolvimento
econômico gestada ao longo dos anos na microrregião de Sua-
pe. Onde os esforços estão concentrados? Quais objetivos dos
escassos financiamentos de políticas sociais tornam-se prioritá-
rios? De que forma o desenvolvimento social é compreendido?
No contexto neoliberal, as condições objetivas de mate-
rialização de políticas para mulheres são escassas. Tomar de-
cisões é, antes de tudo, negociar em uma arena política com-
posta por distintos sujeitos sociais/políticos que têm como
princípio uma sociedade patriarcal, portanto hierarquizada e
assimétrica (Rocha, 2011; Spósito, 2013).

[…] no es casualidad que no priorizar – en sus diferentes esferas: pla-


nificación, seguimiento, evaluación y asignación de presupuestos – las
políticas para mujeres es un aspecto generalizado; tal proceso ocurre en
todas las esferas del Estado, especialmente por que cada área de una polí-
tica pública (social, económica, estructural, etc.) asume valor distinto, y
podemos estimar que estos valores evidencian un proceso que se resume
en: la substitución del compromiso social por el compromiso con la sub-
sistencia de los mercados. (Spósito, 2013, p. 173)

O jogo de interesses políticos, as contradições do sistema


público e a correlação de forças em um processo de desenvol-
vimento de projetos sociais integrados, ainda que sejam posi-
tivos do ponto de vista democrático, colaboram para deterio-
rar o desenvolvimento social e ampliar a sombra clientelista
de políticas públicas.

4.2. Aplicação de instrumentos de monitoramento

Dois dos argumentos utilizados pelo neoliberalismo com


o objetivo de minimizar o Estado de bem-estar social são a
ineficácia dos programas e a reduzida preparação dos(as)
profissionais da administração pública (Brito, 2000; Pasina-
228 • POSSIBILIDADES

to, 2009). Tais discursos funcionaram como um elemento


que desqualifica o público e mina os serviços operacionaliza-
dos por ele. Ou seja, coloca-se em xeque a capacidade técnica
dos(as) profissionais para enfrentar as múltiplas facetas da
questão social.
De fato, a ausência de preparo, sensibilidade e capacitação
de equipes/profissionais, além da própria cultura patriarcal e
neoliberal, tem efeitos drásticos na vida das pessoas usuárias
de qualquer política social, seja ela executada pela administra-
ção pública, pela Organização da Sociedade Civil de Interesse
Público (Oscip), por ONG etc. Em nosso caso, a instituição
executora (CMC) tinha preparo, sensibilidade, capacidade téc-
nica e olhar crítico diante do patriarcado e do neoliberalismo;
porém, a cultura de avaliação, ao menos inicialmente, era um
tanto deficitária.
A ausência de rigor metodológico na aplicação dos ins-
trumentos de monitoramento e avaliação foi um condicio-
nante preocupante, especialmente quando a Ação Mulheres
e Educação para Cidadania era desenvolvida com o apoio e
aporte financeiro de outros projetos da instituição. Talvez
essa realidade não seja unicamente do CMC, especialmente
porque:

Sería una equivocación establecer una relación disyuntiva, determinan-


do cuáles elementos se podrían caracterizar como causa y cuáles como
efecto o consecuencia. Lo que es indudable es que sumándolos tenemos
como resultado un contexto que debilita la Política de Asistencia a Muje-
res en Situación de Violencia y ocasiona un déficit en el carácter político
de tales políticas. (Spósito, 2013, p. 196)

Sem dúvida, a equipe de M&A poderia ter escolhido atuar


de maneira que colocasse empecilhos à construção da autono-
mia técnica do CMC e a possível incorporação de uma cultu-
ra de M&A. Acreditando ser importante monitorar e avaliar
políticas públicas/programas/projetos de forma democrática,
Monitoramento de projeto social – Telma Low et al. • 229

e portanto horizontalizar as relações, optou-se, apesar da exis-


tência de riscos (mas afinal onde não se arrisca?), por debater
possibilidades e limites de aplicação dos instrumentos para
monitoramento e avaliação e fortalecimento das profissionais
nesse processo.
No entanto, os resultados não foram satisfatórios. O
envolvimento/“dependência” do desenvolvimento da Ação
Mulheres e Educação para Cidadania com projetos institu-
cionais colocou em xeque o rigor metodológico exigido para
M&A de forma planejada e ordenada, além de fragilizar ou-
tros elementos necessários no processo de M&A democráti-
co (relação horizontal, transparência, construção coletiva de
instrumentos etc.) que permitiriam “sair” da perspectiva de
avaliação, que se baseia na auditoria externa e/ou fiscalização.
Com isso, fica uma nova indagação: a que tipo de M&A as ins-
tituições que operacionalizam políticas sociais/programas/
projetos estão adaptadas? Há um planejamento que prevê
M&A interno? Há investimentos para desenvolver M&A onde
as relações têm perspectiva de horizontalidade?

4.3. Dificuldade em planejar atividades

Um dado importante observado durante o M&A foi um


escasso conhecimento da importância do planejamento e,
portanto, do monitoramento das ações. E certa dificuldade de
organizar as distintas fontes de recursos (humanos, materiais,
financeiros etc.). Podemos afirmar que tal fator foi retratado,
especialmente, nos primeiros momentos de contato com a
instituição. Ou seja, por meio de reuniões de apresentação e
das oficinas realizadas durante o ano I do Programa.
Por meio das reuniões, identificamos que, apesar de o
projeto ser construído em um contexto diferente do que foi
iniciado, a linguagem generalista dificultava a compreensão
dos reais objetivos e intenções (nas atividades) que seriam de-
230 • POSSIBILIDADES

senvolvidos pelo CMC. Não obstante, em um longo e demo-


crático processo de diálogo, os termos linguagem, objetivos
etc. foram se modificando e tomando a forma de um projeto
com possibilidades de êxito e viabilidade.
Todavia, é importante salientar que outra dificuldade
foi encontrada ao longo das oficinas de M&A. O CMC tinha
dificuldade em dar visibilidade a suas ações. Ou seja, ações
invisíveis exigiam investimentos de distintas características
que consumiam parte representativa dos recursos (distintos
níveis). Ao perceber essa fragilidade, decidimos investir em
um processo que, embora lento, poderia ser estruturante caso
todas as profissionais tomassem para si a ideia de construção
democrática.
Tal situação requereu da equipe do Gema um giro me-
todológico, a construção de uma proposta que possibilitas-
se uma direção contrária ao reducionismo ou fragmentação
das ações desenvolvidas pelo Ação Mulheres e Educação para
Cidadania. Isso reflete a importância de estabelecer relações
com o(a) outro(a) sem transformá-lo(a) em objeto, sem criar
barreiras, sem ignorar uma leitura contextualizada e crítica de
onde e como se insere esse(a) outro(a) (Spósito, 2013).

4.4. Estratégias de comunicação: ampliando o impacto


da Ação

Uma forma de potencializar essa “outra” ação foi traba-


lhada pelo CMC. Os programas de rádio são atividades impor-
tantes para a instituição, pois preveem que as participantes de
seus projetos/ações saiam do lugar de telespectadoras/ouvin-
tes e ocupem um lugar de protagonistas, no qual suas vozes,
experiências e conhecimentos são publicizados. Ou seja, a in-
cidência das mulheres no exercício da fala pública ocupou um
lugar especial nessa atividade promovida pela Ação Mulheres
e Educação para Cidadania.
Monitoramento de projeto social – Telma Low et al. • 231

Os discursos das mulheres participantes das rodas de di-


álogo e, em especial, dos cursos levam-nos a reconhecer que
há um processo de empoderamento, ainda que em níveis di-
ferenciados, por parte dessas mulheres. Sem dúvida, reelabo-
rar uma construção de gênero requer compromisso, significa
investimento em vários âmbitos: humano, social, político,
econômico etc. Porém, cabe-nos dizer que dificilmente os
avanços ocorrerão sem a dimensão humana presente, sem o
empoderamento das mulheres, sem que sua capacidade crí-
tica seja “revisitada”, sem que exista compromisso de todas
com o coletivo.
Nesse processo de empoderamento, há movimentos con-
tínuos de avanços e recuos, especialmente porque é muito co-
mum que as mulheres se sintam destituídas do poder de suas
vidas, e o sentimento de culpa traz movimentos que podem
paralisar. Como forma de enfrentamento, os programas de rá-
dio colaboram para que elas possam reconhecer-se como pro-
tagonistas de suas vidas, buscando (inicialmente) construir
planos, assim como procurando outras formas de relacionar-se
consigo mesmas e com o mundo. A existência de redes sociais
e institucionais amplas é um elemento-chave para visibilizar e
fortalecer o enfrentamento da violência (Saffioti, 1999; Alves
e Coura-Filho, 2001; Vieira et al., 2008).

5. Considerações finais

Em suma, o processo de M&A que desenvolvemos e (des)


construímos nestes últimos dois anos se refere ao M&A de um
projeto executado por uma ONG, como dissemos no início
deste texto. Para tanto, nossa experiência se pautou pela pers-
pectiva feminista e de gênero, que nos “permitiu” a constru-
ção de um processo de M&A participativo, de modo que nos
possibilitou construir e pensar o conhecimento, as relações,
232 • POSSIBILIDADES

as intervenções, o contexto, a violência contra as mulheres, o


marco zero e o marco lógico de um projeto, os sujeitos, en-
tre outros elementos constituintes do projeto original. Estes
últimos, os sujeitos, e, por que não nomear, “as sujeitas”,2 fo-
ram pensados não como simples reprodutores de uma norma
preestabelecida, e sim como protagonistas e corresponsáveis
pelo contexto social-econômico-político-cultural de que par-
ticipam e que constroem.
Nesse sentido, ao construirmos o processo de M&A jun-
to à ONG, concebemos primeiramente a existência de uma
parceria entre ambos os grupos, que, de modo simétrico, co-
letivo, participativo e horizontal, nos permitisse construir
e situar qual o lugar e o papel de cada um nesse processo.
Diante disso, nos questionamos sobre o papel e o lugar que
ocupamos/protagonizamos na sociedade. Da mesma forma,
ao desenvolvermos um processo de M&A das ações da ONG,
que têm interface direta com as políticas públicas e o Estado,
também nos perguntamos como podemos produzir conheci-
mentos que favoreçam um olhar crítico sobre o que está posto
e incidam na (re)criação de mecanismos de enfrentamento da
violência contra as mulheres e de promoção da igualdade en-
tre os sexos.
Entretanto, apesar de estarmos realizando um processo
de M&A das ações executadas pela ONG, também oferece-
mos subsídios para o Estado, sem não nos limitarmos a isso.
Especialmente porque acreditamos que o processo de M&A
participativo concebe que o poder decisório não deve estar
circunscrito ao Estado ou a uma organização, mas exercido
pela sociedade. Por isso, a proposta que desenvolvemos visa

2
Deveríamos ter subvertido a desinência de gênero neste texto desde o início, mesmo
que ferisse as regras formais da língua portuguesa e a estilística, na medida em que as
equipes de execução do projeto, bem como de monitoramento das ações, eram majori-
tariamente compostas por mulheres, com exceção apenas dos professores/coordenado-
res do Gema. Mas essa ousadia fica para as próximas reflex(ações).
Monitoramento de projeto social – Telma Low et al. • 233

também a fomentar o protagonismo da sociedade civil no


processo de tomada de decisões e no exercício do controle so-
cial. Com base nas teorias críticas sobre políticas públicas, a
concepção de avaliação participativa é uma proposta que não
apenas permite analisar aspectos implícitos no desenvolvi-
mento de uma política pública, mas também pode ser um
instrumento capaz de proporcionar e fomentar o exercício da
cidadania plena pela participação ativa da sociedade, especial-
mente das pessoas “atendidas/beneficiadas” pela política pú-
blica (Spink, 2001 e 2007).
Esse panorama apresentando anteriormente expressa,
portanto, a necessidade de investir em projetos sociais que
favoreçam a sinergia entre as organizações governamentais
e não governamentais, com ênfase na melhoria das políticas
públicas voltadas para o enfrentamento e a prevenção da vio-
lência contra as mulheres. Partimos do pressuposto de que
as práticas sociais dos movimentos feministas e de mulheres
têm apontado para a necessidade da formação política conti-
nuada de mulheres como ações estruturantes, no sentido de
permitir e fomentar que elas – protagonistas de suas histórias
– se constituam em força social com capacidade política efe-
tiva para incidir em comunidades e reafirmar seus direitos e
cidadania. Esse tipo de ação tem se revelado estratégico para o
processo de empoderamento e de formação de pessoas críticas
e comprometidas com o desenvolvimento sustentável local.
Esperamos, portanto, que, ao final desta experiência de
reflexão, tenhamos podido revisitar nossas práticas, projetos,
participação política e processo de elaboração, execução de
M&A das políticas públicas/projetos/programas com ênfase
na identificação dos entraves que muitas vezes parecem crista-
lizar as desigualdades, para então fazermos de nosso protago-
nismo e participação uma ferramenta de fato comprometida
e voltada para a promoção da igualdade. Consideramos que,
ao desenvolvermos o processo de M&A de um projeto social –
234 • POSSIBILIDADES

que visou a incidir na questão da violência contra as mulheres


–, tornou-se extremamente necessário construí-lo e pensá-lo
dentro dos parâmetros da igualdade, isto é, de um saber/fa-
zer/investigar que somente se torna crítico e ético quando re-
flete os princípios participativos e feministas.

Referências

ALVES, A.; COURA-FILHO, P. Avaliação das ações de atenção às mulheres


sob violência no espaço familiar atendidas no Centro de Apoio à Mulher
(Belo Horizonte), entre 1996 e 1998. Revista Ciência e Saúde Coletiva, Rio de
Janeiro, v. 6, n. 1, p. 243-257, 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/
pdf/sausoc/v17n3/12.pdf>. Acesso em: 10 maio 2011.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ORGANIZAÇÕES NÃO GOVERNA-


MENTAIS (ABONG). Abong 2010-2013: em defesa dos direitos e bens
comuns. Relatório Trienal da Abong. São Paulo, 2013. Disponível em:
<http://www.abong.org.br/final/download/revista_abong.pdf>. Acesso
em: 3 fev. 2013.

BRITO, J. Enfoque de gênero e relação saúde/trabalho no contexto de


reestruturação produtiva e precarização do trabalho. Caderno Saúde Públi-
ca, Rio de Janeiro, v. 16, n. 1, p. 195-204, jan./mar. 2000. Disponível em:
<http://www.scielo.br/pdf/csp/v16n1/1578.pdf>. Acesso em: 1o ago. 2011.
DERLIEN, H.-U. Uma comparação internacional em avaliação de políticas
públicas. Revista do Serviço Público, Rio de Janeiro, v. 52, n. 1, p. 105-122,
jan./mar. 2001.

FLICK, U. Combining methods – lack of methodology: discussion of


Sotirakopoulou e Breakwell. Ongoing Production on Social Representations:
threads of discussion, v. 7, n. 1, p. 43-48, 1992.

FURTADO, J. P. Avaliação de programas e serviços. In: CAMPOS, G. W.


S.; MINAYO, M. C. S.; AKERMAN, M.; DRUMOND JR., M.; CARVALHO,
Y. M. (Org.). Tratado de saúde coletiva. São Paulo: Hucitec; Rio de Janeiro:
Fiocruz. 2009. p. 715-740.
Monitoramento de projeto social – Telma Low et al. • 235

GERGEN, K.; GERGEN, M. Construcionismo social: um convite ao diálogo.


Rio de Janeiro: Instituto Noos, 2010.

LYRA, J.; MEDRADO, B.; SPÓSITO, D.; LOW, T.; CORDEIRO, A. C. S.;
CORDEIRO, G. R. S. Gênero, saúde das mulheres e violência: uma pro-
posta de monitoramento e avaliação participativa. In: 17o ENCONTRO
DA REDOR, 2012, João Pessoa. Anais digitais… João Pessoa: UFPB, 2012.
p. 1-12.

PASINATO, W. Estudo de caso. Juizados especiais de violência doméstica e familiar


contra a mulher e a rede de serviços para atendimento de mulheres em situação de
violência em Cuiabá – Mato Grosso. São Paulo: Observe, 2009.

ROCHA, M. S. Silenciosa conveniência entre transgressão e conservadorismo: tra-


jetórias feministas frente à epidemia da Aids no Brasil. Tese (Doutorado
em Serviço Social), Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2011.
218 f.

SAFFIOTI, H. Já se mete a colher em briga de marido e mulher. São Paulo


em Perspectiva, São Paulo, v. 13, n. 4, p. 82-91, out./dez. 1999.

SILVA, M. O. Avaliação de políticas e programas sociais: teoria e prática. São


Paulo: Veras, 2001.

SPINK, M. O estudo empírico das representações sociais. In: ______


(Org.). O conhecimento no cotidiano: as representações sociais na perspectiva
da psicologia social. São Paulo: Brasiliense, 1995. p. 85-108.

SPINK, P. K. Avaliação democrática: propostas e práticas. 2001. Coleção


Abia Fundamentos de Avaliação. Disponível em: <http://www.abiaids.org.
br/_img/media/colecao%20fundamentos%20avaliacao%20N3.pdf>. Aces-
so em: 4 set. 2013.

______. Processos organizativos e ação pública: as possibilidades eman-


cipatórias do lugar. In: JACÓ-VILELA, A. M.; SATO, L. (Org.). Diálogos em
psicologia social. Porto Alegre: Evangraf, 2007. p. 315-328. Disponível em:
<file:///C:/Users/Usuario/Downloads/JACOVILELA_SATO_Dialogos_
em_psicologia_social_FINAL%20(1).pdf>. Acesso em: 16 jul. 2014.
236 • POSSIBILIDADES

SPÓSITO, D. Diseño de evaluación del plan de medidas del gobierno Valenciano


para combatir la violencia que se ejerce contra las mujeres (2005-2008). Disserta-
ção (Mestrado em Gênero e Políticas de Igualdade) – Institut Universitari
d’Estudis de la Dona, Valência, 2009. 138 p.

______. Violencia contra las mujeres y políticas públicas: evaluación de la po-


lítica de asistencia a las mujeres en situación de violencia de la ciudad de
Recife/Pernambuco/Brasil (2005-2009). Tese (Doutorado em Estudos de
Gênero) – Institut Universitari d’Estudis de la Dona, Valência, 2013. 317 p.
VIEIRA, L. et al. Fatores de risco para violência contra a mulher no contex-
to doméstico e coletivo. Revista Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 17, n. 3, p.
113- 125, jul./set. 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/sausoc/
v17n3/12.pdf>. Acesso em: 18 maio 2011.
Análise da prática do aconselhamento
em HIV/Aids
Wedna C. M. Galindo

Neste texto, abordamos o aconselhamento em HIV/Aids


como prática no campo da saúde cujo objetivo é acolher pes-
soas que demandam atenção nessa área. Apresentamos uma
proposta de análise da prática do aconselhamento como es-
tratégia que pode qualificá-lo no quadro de respostas à Aids.
Interessa-nos focalizar ocorrências no encontro aconselha-
dor-usuário e as possíveis implicações, ressonâncias, impactos
que tal encontro pode ter na própria prática do aconselha-
mento. Para tanto, fragmentos de sessão de aconselhamento
ilustram as análises.
Antecede a análise propriamente dita uma contextualiza-
ção sobre o aconselhamento em HIV/Aids na realidade brasi-
leira. O aconselhamento é uma prática preconizada pelo Mi-
nistério da Saúde (MS) para acompanhar a testagem anti-HIV
e compõe o quadro de políticas públicas de enfrentamento da
Aids, cuja origem conta com uma história específica de reivin-
dicações e disputas de poder protagonizada por movimentos
sociais diante dos primeiros casos de Aids nos anos 1980. O
trabalho em saúde é discutido como modalidade de trabalho
específica na realidade capitalista, que imprime marcas tam-
bém no aconselhamento. O encontro aconselhador-usuário
merece ser analisado como processo, considerando o que
ocorre no momento entre eles, que pode assumir contornos
diversos.
238 • POSSIBILIDADES

1. Elementos da história social da Aids

As referências históricas sobre a formulação de políticas


públicas para enfrentamento da Aids no Brasil (Parker, 2000)
indicam certa letargia do Poder Executivo nacional em bus-
car respostas para os casos que surgiam ano após ano, nos
grandes centros urbanos, na década de 1980. Nesse período,
“alguns militantes de movimentos pelos direitos dos homos-
sexuais começaram a cobrar da Secretaria de Estado da Saúde
de São Paulo (SES-SP) uma posição frente à nova doença”, o
que impulsionou os primeiros esforços para enfrentamento
da situação (Gianna et al., 2012).
Um contexto complexo sustentou essa situação e envol-
veu diversos aspectos. Os casos de Aids nos anos 1980 esta-
vam altamente concentrados no estado de São Paulo. Esse
estado era o “centro principal para o surgimento de um mo-
vimento pela liberação gay” (Parker, 2000, p. 12), que, além
de pressionar o Executivo estadual por respostas, constituía
eleitorado significativo que merecia ser escutado. Além dis-
so, a ditadura militar no Brasil estava chegando ao fim, e
o estado de São Paulo havia “eleito um líder de oposição
progressista […] [o Franco Montoro, que por sua vez] havia
nomeado figuras políticas progressistas em quase todas as
áreas de seu governo” (Parker, 2000, p. 12). O movimento
de reforma sanitária e o movimento gay constituíram forças
importantes para pressionar o governo estadual, que insti-
tuiu em 1983 um grupo de trabalho sobre o tema. A experi-
ência de São Paulo inspirou a formatação de programas de
Aids em outros estados da Federação e no próprio Governo
Federal.

Em 1985, quando o Ministério da Saúde começou a se mover


mais na direção da criação de um Programa Nacional de Aids,
o Programa Estadual de Aids já havia sido estabelecido e estava
Análise da prática do aconselhamento em HIV/Aids – Wedna C. M. Galindo • 239

em funcionamento em pelo menos 11 dos 27 estados brasilei-


ros e Distrito Federal. (Parker, 2000, p. 13)

O complexo quadro que envolve a história brasileira de


atenção à Aids inclui diversos aspectos e marcos envolvendo
elementos da política, da economia, das relações internacio-
nais, dos movimentos da sociedade civil, além de aparato
técnico-científico na área. Consideremos este último aspecto,
que nos ajuda a pensar sobre o aconselhamento como um dos
esforços no amplo quadro de resposta à Aids. Parker (2000,
p. 66) sistematiza o que identifica como as três tendências ou
abordagens distintas que a humanidade foi construindo des-
de a década de 1980 para “responder às dimensões sociais da
epidemia” de Aids no mundo e inspiraram também os esfor-
ços brasileiros na questão, traduzidos por investimentos em
pesquisas e orientações de políticas.
A partir de meados dos anos 1980 (Parker, 2000), a pri-
meira abordagem se constitui com ênfase nas pesquisas so-
bre comportamento de risco e identificação de conhecimen-
tos, atitudes e práticas da população, associadas ao risco de
contrair HIV. Investimentos foram dirigidos à persuasão das
pessoas para não assumirem atitudes de risco em relação ao
HIV. É nesse contexto que o atendimento a pessoas em torno
da temática do HIV/Aids tem como referência a mudança de
comportamento e, portanto, ênfase em uma “psicologia indi-
vidual” (Parker, 2000, p. 68), que inspiraria a formatação de
programas mais amplos para a população.
Com o passar do tempo, essa abordagem mostrou-se ine-
ficaz e passou a ser questionada em meados a final da década
de 1980. As pesquisas indicavam que investir na informação
sobre como se pega/não pega Aids não era suficiente para
provocar mudanças de comportamento. Assim, a segunda
abordagem para responder à Aids foi ganhando espaço dian-
te das argumentações de que era imprescindível considerar,
240 • POSSIBILIDADES

para além de uma “psicologia individual”, uma dimensão


“intersubjetiva dos significados culturais relacionados à sexu-
alidade e ao uso de drogas” (Parker, 2000, p. 71), situações de
risco para infecção. O foco da atenção passou a ser dirigido
aos ambientes culturais que sustentavam os comportamen-
tos das pessoas. A intervenção esperada no aconselhamento,
de acordo com essa tendência, deixava de ser com ênfase na
persuasão para mudança de comportamento e passava a ser
voltada para as representações sociais ou coletivas dos temas
implicados com a questão, como sexualidade, uso de drogas,
risco, prevenção. Coerente com essa tendência de se conside-
rar a dimensão cultural nos esforços de enfrentamento da
Aids, intervenções comunitárias ocuparam espaço como es-
tratégia de sensibilização e mobilização das pessoas para a
questão diante da insuficiência constatada em intervenções
no comportamento individual.
A terceira abordagem apresentada por Parker (2000) ga-
nha espaço no cenário a partir do final dos anos 1990 por
pesquisas que destacavam a presença de fatores políticos e
econômicos na disseminação do HIV. A ideia dessa tendência
era que as causas da Aids são muito mais complexas do que
originalmente se acreditava. Intervenções apenas na direção
da persuasão para mudança de comportamentos ou até as
mais abrangentes, dirigidas às coletividades, apresentaram-se
ineficazes no enfrentamento da Aids. O argumento que ga-
nhava destaque é que são necessárias intervenções estrutu-
rais e ambientais para enfrentar a doença. As decisões políti-
cas e o campo da economia política merece ser considerado
como contribuindo para a transmissão ou controle do HIV
em determinada população. Esses aspectos podem indicar
as condições de vulnerabilidade ao HIV/Aids de determina-
da população e assim merecem ser considerados para, ade-
quadamente manejados, construir respostas efetivas à Aids.
Nessa abordagem também merece destaque o modo como
Análise da prática do aconselhamento em HIV/Aids – Wedna C. M. Galindo • 241

as comunidades afetadas pelo HIV/Aids têm lidado com essa


situação.
Ora, vemos que as orientações para intervenção no cam-
po de HIV/Aids passam, nos primeiros tempos, da persuasão
individual para mudança de comportamento a uma atenção
mais efetiva a coletividades e suas construções simbólicas,
para enfim dedicar atenção aos aspectos políticos e sociais
implicados na disseminação do HIV. O aconselhamento atra-
vessa essa história e se mantém como prática indispensável na
testagem anti-HIV e na prevenção ao HIV/Aids. Dediquemos
atenção a essa prática, segundo as recomendações do MS e as
contribuições da literatura científica.

2. O aconselhamento em HIV/Aids

O aconselhamento é preconizado (Brasil, 1993, 1998 e


1999) para ser realizado antes da coleta de sangue para exame
anti-HIV (aconselhamento pré-teste) e na entrega do resulta-
do (pós-teste) por profissional de saúde capacitado para tal.
Caracteriza-se como recurso estratégico fundamental diante
da constatação de que o imaginário social em torno da Aids
sustenta fantasias e informações equivocadas que podem ser
abordadas e manejadas no espaço de diálogo entre profissio-
nal de saúde e usuário do serviço. O aconselhamento consti-
tui, portanto, importante dispositivo na resposta brasileira à
Aids (Galindo, 2013).
As proposições elaboradas pelo MS para o aconselhamen-
to são difundidas por manuais em todo o país e utilizadas na
formatação de serviços e formação de aconselhadores. Chama
nossa atenção a fragilidade de debate teórico-metodológico
que fundamente o aconselhamento nos textos oficiais do MS.
Associado ao trabalho do psicólogo norte-americano Carl
Rogers, o aconselhamento é referido como prática de acordo
242 • POSSIBILIDADES

com a abordagem centrada na pessoa, e no mesmo manual


reconhece-se que, ao ser incorporado às práticas de saúde na
América Latina, o aconselhamento recebe influência da psi-
canálise, em especial a de orientação argentina (Brasil, 1998).
Em manual difundido no ano seguinte, o MS problematiza
as possíveis filiações ideológicas do aconselhamento e inscre-
ve-o como prática social e historicamente construída, implica-
da com valores da sociedade capitalista (Brasil, 1999). Nessas
referências não há um debate consistente sobre os fundamen-
tos do aconselhamento.
Filgueiras e Deslandes (1999), em pesquisa de avaliação
das ações de aconselhamento no Brasil, entrevistando profis-
sionais do Sistema Único de Saúde (SUS), analisaram experi-
ências a partir de um crivo construído pelas diretrizes para essa
prática recomendadas pelo MS, que envolvem acolhimento,
escuta, comunicação, avaliação de riscos e alternativa de pre-
venção, orientações sobre tratamento para estimular adesão e
qualidade de vida. De acordo com a investigação das autoras,
a dimensão da escuta ficou comprometida, sendo substituída
pela transmissão de informações e orientações, além de busca
de dados sobre o usuário em atendimento.
Análise de manuais do MS sobre recomendações ao tra-
balho de aconselhadores (Galindo, 2013) identifica tendência
diretiva e normatizante nos textos oficiais, tanto na aborda-
gem ao usuário quanto nos procedimentos a serem tomados
pelo profissional de saúde. As orientações à postura adequada
do aconselhador são diretivas, com referências técnicas priori-
tariamente dirigidas a procedimentos que sugerem uma ação
quase mecânica por parte do profissional, o que envolve cuida-
dos com o ambiente, garantia de sigilo, avaliação de riscos,
atenção ao fluxo no serviço (recepção, aconselhamento pré-
-teste, coleta de sangue, aconselhamento pós-teste). Enfim, as
orientações parecem priorizar o entorno do aconselhamento.
Quando se referem ao encontro profissional de saúde-usuá-
Análise da prática do aconselhamento em HIV/Aids – Wedna C. M. Galindo • 243

rio propriamente dito e recomendam cuidado em escutar o


usuário, não julgá-lo e apoiá-lo emocionalmente, as recomen-
dações não deixam claro como fazer isso. A meta do aconse-
lhador, nessa perspectiva, é contribuir para a mudança de
comportamento do usuário, o que remete à primeira aborda-
gem da Aids (Parker, 2000), que tem como ênfase a persuasão.
Identificamos, portanto, uma significativa lacuna em relação
ao que ocorre na cena do aconselhamento entre profissional e
usuário que merece atenção.
Pesquisas sobre comportamento e atitudes diante das
DSTs/HIV/Aids (Brasil, 2011) indicam que a grande maioria
das pessoas tem informações adequadas sobre riscos e preven-
ção no campo de HIV/Aids, conhecem e têm acesso a insumos
como preservativos, mas continuam tendo práticas sexuais
desprotegidas. O aconselhamento apresenta-se, assim, como
locus privilegiado para abordar questões relacionadas com o
tema, por ser momento de diálogo entre profissional de saúde
e usuário.
É na perspectiva de contribuir com avanços na análise da
prática do aconselhamento que construímos a proposta de
análise apresentada adiante.

3. O trabalho no campo da saúde

Concordamos com Merhy (2007) que o trabalho em


saúde é da ordem da produção não material. Como nomeia
o autor, é um trabalho vivo em ato, isto é, ele é produzido no
momento mesmo em que está sendo realizado. Diferente, por-
tanto, da produção industrial, cuja ação de um operário é par-
te da produção geral, da qual ele não participa, efetivamente,
de forma plena. O trabalho em saúde, de acordo com Merhy
(2007), utiliza-se de tecnologias de relações, de encontros de
subjetividades, que o autor define como tecnologias leves, para
244 • POSSIBILIDADES

diferenciá-las das leve-duras (saberes estruturados) e duras


(equipamentos). Fazem parte das tecnologias leves o olhar, o
sorriso, a atenção, a escuta, a acolhida; enfim, o cuidado.
Uma forte contradição com que convive o trabalho em
saúde (trabalho vivo em ato) é que, em sociedades capitalistas
como a nossa, o setor de serviços de saúde tende a funcionar
com igual lógica de mercado que o setor produtivo (Traverso-
Yépez, 2008), isto é, a saúde tende a funcionar como uma mer-
cadoria. Entendemos (Galindo, 2013) que o aconselhamento
se inscreve também nessa lógica.
Decorre dessa contradição que um componente de alie-
nação indiscutivelmente presente na lógica capitalista de pro-
dução material (Marx, 1984) pode estar também presente na
prática do aconselhamento (Galindo, Francisco e Rios, 2013).
A alteração desse quadro de alienação não se consegue apenas
com investimentos racionais, de compreensão dos antago-
nismos que envolvem o processo de trabalho, mas, como ar-
gumenta Žižek (1992 e 1996), atenção merece ser dirigida ao
campo das práticas, na perspectiva de alterar o jogo de forças
que está na base do trabalho executado.
Proposições de Merhy (2009) ajudam-nos a aprofundar
reflexões sobre a prática profissional em saúde, em especial as
que se referem ao encontro entre trabalhador de saúde e usu-
ário. Para o autor, esse encontro se dá em um espaço intercessor1
que só ocorre em ato. Compreender os tipos de encontro que
ocorrem ajuda o profissional em saúde a conhecer as forças
presentes e em disputa no processo de seu trabalho.
Merhy (2009) indica dois tipos de interseção no encontro
trabalhador de saúde-usuário:

• a intersecção objetal, na qual os envolvidos se posicionam em


espaços externos e distintos um em relação ao outro e re-

1
Apoia-se no conceito de intercessor de G. Deleuze.
Análise da prática do aconselhamento em HIV/Aids – Wedna C. M. Galindo • 245

produzem um modelo de atenção à saúde típico da racio-


nalidade capitalista. Ao que podemos sugerir: lidam com a
questão da saúde (ou do aconselhamento) como uma mer-
cadoria;
• a interseção partilhada, na qual os envolvidos estabelecem
trocas, marcam a situação pelo diálogo e pelo encontro in-
tersubjetivo. O encontro de interseção partilhada é o que
deve ocorrer no processo de trabalho em saúde, pois possi-
bilitará a emergência da relação entre profissional e usuário
como cenário do atendimento.

Para Merhy (2009), os espaços de interseção são de pro-


dução instituinte, isto é, merecem ser considerados como
trabalho vivo, que, se adequadamente observados, analisados
pelo trabalhador, podem, inclusive, qualificar os encontros
por sugerir/indicar aspectos até então não considerados, não
instituídos no encontro.

4. Análise de fragmentos de sessões de


aconselhamento

Selecionamos alguns relatos de sessões de aconselhamen-


to em DSTs/HIV/Aids feitos por profissionais de saúde atuan-
do em Centro de Testagem e Aconselhamento em DSTs/HIV/
Aids (CTA) no estado de Pernambuco no contexto de pesquisa
de tese2 sobre o assunto.

2
Trata-se da tese O dispositivo do aconselhamento na resposta à Aids, defendida em janeiro
de 2013 na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) com incentivo de bolsa de
doutorado da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco
(Facepe), orientação da professora doutora Ana Lúcia Francisco (Unicap) e co-orienta-
ção do professor doutor Luís Felipe Rios (UFPE). A pesquisa foi aprovada no Comitê de
Ética da Unicap, Parecer no 034-2010. As entrevistas foram realizadas entre dezembro
de 2011 e janeiro de 2012.
246 • POSSIBILIDADES

Fragmentar as entrevistas extraindo-lhes relatos parece


incongruente com a argumentação que travamos sobre o en-
contro profissional de saúde-usuário e o próprio trabalho em
saúde como trabalho vivo em ato. Optamos por usar o recurso
de discutir fragmentos de sessões como exercício que pode ser
realizado por trabalhadores em saúde e equipes diante de sua
própria rotina. Voltando-se para sua prática e contexto em
que atuam, trabalhadores em saúde têm maiores possibilida-
des de superar a dimensão alienante em sua rotina de trabalho.
Assim, os relatos que ilustram as discussões neste texto não
devem ser tomados como referências estáticas para a prática
do aconselhamento em quaisquer espaço e tempo. Ensejamos
que as análises dos relatos possam mobilizar novas análises da
realidade de profissionais de saúde e suas equipes de trabalho.

Fragmento 1:
Aconselhadora: Você tem vida sexual ativa? Já transou alguma
vez na vida? É importante fazer [o exame] pelo menos uma vez.
Usuária (Ana3): Eu sou casada há 40 anos, minha filha, e é [com]
a mesma pessoa. Eu não tenho isso não.
Aconselhadora: Sim, eu sei que a senhora não tem, mas tem
que fazer o exame, pelo menos uma vez na vida; todo mundo
deveria fazer uma vez na vida.

O diálogo entre a aconselhadora e a usuária Ana sugere


um encontro do tipo de interseção objetal (Merhy, 2009), pois
ambas parecem falar, cada uma a partir de um referencial es-
pecífico, sem interação com a outra. A aconselhadora susten-
ta, em uma postura imperativa, que o exame deve ser feito,
sem abordar de forma satisfatória, diante de Ana, os motivos
para tal. Reduz a necessidade do exame ao fato de Ana ter vida
sexual ativa, perdendo a oportunidade de tratar com mais cui-
dado de riscos e formas de transmissão do HIV, por exemplo. Ana,

3
Os nomes de usuárias são fictícios.
Análise da prática do aconselhamento em HIV/Aids – Wedna C. M. Galindo • 247

por sua vez, ao argumentar que é casada e tem contato sexual


exclusivamente com o marido, comunica nas entrelinhas de
sua narrativa que está protegida do risco de contrair HIV.
Ora, para Ana, o casamento e a fidelidade protegem-na
do HIV. Tal fantasia de invulnerabilidade é identificada na
literatura científica como coerente com as construções sim-
bólicas dos primeiros tempos da Aids, que equivocadamente
associaram a doença aos chamados grupos de risco: os homos-
sexuais, hemofílicos, usuários de heroína (Souza e Czeresnia,
2007; Parker, 2000; Ayres et al., 2003). Por ter 40 anos de casa-
da, é possível supor que Ana vivenciou o surgimento da Aids e
guarda como referência simbólica o risco de infecção associa-
do ao fato de se ter vários(as) parceiros(as). É como se ter só
um parceiro garantisse sua proteção. Por conseguinte, o HIV
pode estar relacionado com as pessoas que são “promíscuas”,
para usar o termo do senso comum, que parece cristalizar es-
sas referências de risco versus proteção e das fantasias de vul-
nerabilidade/invulnerabilidade.
Percebe-se que a aconselhadora usa como recurso para
o convencimento de Ana para realizar o exame uma ordem,
quase como uma determinação externa a elas, como se alguém
ausente da cena orientasse que “todo mundo deve fazer esse
exame uma vez na vida”. A dimensão subjetiva que parece
sustentar a “verdade” de Ana, de que sendo casada e fiel está
protegida, mantém-se intocável na tentativa de “diálogo” pro-
posto pela aconselhadora. Isto é, a oportunidade de abordar o
universo simbólico que Ana torna presente no aconselhamen-
to é perdida por uma postura de aparente obediência da acon-
selhadora (à norma: “todos devem fazer o exame”), que tenta
impor a Ana a partir de informação racional (“deve fazer”).
Tal postura da aconselhadora é claramente indicadora de um
encontro do tipo objetal. Além disso, ao apresentar a norma
de que deve fazer o exame, a aconselhadora parece não se dis-
por a ouvir o que pode haver de instituinte nesse encontro.
248 • POSSIBILIDADES

Quer dizer, poderia escutar o que significa para Ana a equação


casamento = não exame/não risco. E, a partir do que a usuária
expressasse, ir tecendo o diálogo na perspectiva de contribuir
para que Ana qualifique as informações sobre riscos de infec-
ção e se sensibilize para considerar riscos onde à primeira vis-
ta não existem. Além disso, poderia abordar outros possíveis
conteúdos com os quais convive Ana em sua relação com a
Aids. Ao contrário, a aconselhadora não abre o diálogo para
essa possibilidade de escuta, preenchendo o espaço do encon-
tro por regras instituídas, ainda que não fique claro quem as
definiu.
Aspecto curioso no Fragmento 1 é a afirmativa da acon-
selhadora: “sim, eu sei que a senhora não tem”. Como ela po-
deria saber que Ana não tem HIV? Estaria a aconselhadora
também apoiada em fantasias de invulnerabilidade em rela-
ção a mulheres casadas e fiéis? Nosso exercício de análise não
tem como aprofundar a motivação da aconselhadora, questão
que pode ser objeto de investigações posteriores. Aqui, mais
uma vez, foi perdida a oportunidade de abordar questões
como diferença entre HIV e Aids, mudanças no perfil epide-
miológico da Aids, sintomatologia inespecífica do HIV, me-
canismo de vida desse vírus no corpo humano. Enfim, ao ser
construído um encontro de intervenção objetal, o diálogo não
foi suficientemente capaz de envolver aconselhadora e usuá-
ria em contexto no qual houvesse trocas e aprofundamentos
de questões em nível subjetivo. Ao contrário, mantiveram-nas
em uma abordagem superficial dos conteúdos que emergiram
no encontro marcado por um investimento da aconselhadora
em aspectos racionais e por sua indisposição em dialogar com
as questões subjetivas.
Cabem algumas reflexões sobre a postura da aconselha-
dora no Fragmento 1. À primeira vista, podem-se sugerir uma
inabilidade e/ou indisponibilidade para trabalhar usando tec-
nologias leves (escuta, olhar, sorriso, cuidado), e uma tendência
Análise da prática do aconselhamento em HIV/Aids – Wedna C. M. Galindo • 249

a procurar impor tecnologias leve-duras (saberes estrutura-


dos) com ênfase no saber do profissional sobre motivos para
fazer o exame anti-HIV. A tendência mais comum de análise é
responsabilizar o(a) profissional por sua “inadequada” postu-
ra na tentativa de diálogo.
Nossa proposta de análise busca incluir o máximo de fa-
tores, coerente com a perspectiva de que a realidade é comple-
xa e o aconselhamento é atravessado por diversas dimensões.
Não desconsiderando a hipótese de fragilidade da formação
de profissionais para a prática do aconselhamento, conside-
ramos que aspectos da política local (municipal) de enfrenta-
mento das DSTs/HIV/Aids podem estar na base das práticas
de atenção à saúde que se caracterizam pelo encontro de tipo
interseção objetal.
No caso específico de municípios de Pernambuco, iden-
tificamos (Galindo e Francisco, 2011) condições de trabalho
que comprometem a qualidade de atendimento à população.
É comum, por exemplo, quantidade restrita de servidores
para atendimento de alta demanda de usuários nos CTAs, ou
opção por realizar mutirões de testagem (em bairros e/ou dis-
tritos rurais) de dezenas, às vezes centenas de pessoas em cur-
to espaço de tempo e sem recursos humanos suficientes para
garantir o aconselhamento. Além disso, a ausência de concur-
so público para os postos de trabalho em CTAs de vários mu-
nicípios mantém o funcionamento dessa unidade refém do
cenário político-partidário-eleitoral, o que deixa a equipe de
trabalho do CTA vulnerável às mudanças no Executivo mu-
nicipal. Enfim, as condições de trabalho de aconselhadores
merecem ser consideradas ao se refletir sobre a qualidade do
atendimento oferecido à população no que se refere ao acon-
selhamento em DSTs/HIV/Aids.
Se, por um lado, temos frágeis condições de trabalho em
CTAs, por outro, como vimos, a população compartilha “verda-
des” sobre riscos, prevenção, necessidade (ou não) de testagem,
250 • POSSIBILIDADES

que demandam atenção e manejo, o que envolve habilidades


diversas por parte dos profissionais de saúde. Escutamos de
nossos entrevistados diversos relatos indicando que usuários
consideram a necessidade de fazer exame anti-HIV quando sa-
bem de ex (ou atual) parceiro(a) infectado(a) pelo vírus. Isto é,
suas práticas sexuais desprotegidas se configuram como risco
diante do resultado concreto (ou boato, em alguns casos) de
um resultado reagente para HIV de ex (ou atual) parceiro(a).
São comuns, também, relatos de pessoas que buscam a tes-
tagem quando sabem de alguém próximo a elas (parente,
amigo(a), vizinho(a)) que está com HIV. Nesses casos, o que
mobiliza as pessoas a buscarem exame é a possibilidade de te-
rem também o HIV, já que outros (próximos) também têm.
Não se trata, nessas situações, de fantasias de contágio por
modos improváveis, como ar, saliva, contato com a pele. Um
diálogo aberto para acolher conteúdos com os quais lidam
os usuários configura-se como estratégico para garantir um
aconselhamento produtivo.

Fragmento 2:
Aconselhadora: Qual é a sua idade?
Usuária (Bruna): 17.
Aconselhadora: Já tinha feito esse exame antes? Por que veio
fazer?
Bruna: Não, nunca fiz. É que eu descobri que meu namorado é
gay, aí fiquei morrendo de medo de ter pegado Aids.
Aconselhadora: Que bom que você veio. Mas vamos conversar
melhor sobre isso. O fato de seu namorado ser gay não é um
motivo para você pegar HIV. Vocês tinham intimidade sexual
sem camisinha?
Bruna: É. Tivemos sexo sem camisinha por seis meses.
Aconselhadora: A preocupação é essa – o sexo sem camisinha.
Vamos entender o porquê…

O Fragmento 2 sugere um encontro entre aconselha-


dora e usuária do tipo interseção partilhada. As primeiras per-
Análise da prática do aconselhamento em HIV/Aids – Wedna C. M. Galindo • 251

guntas da aconselhadora indicam um rapport com objetivo


de construir um espaço para diálogo. É possível supor que
o olhar foi utilizado pela aconselhadora, que, tendo diante
de si uma pessoa muito jovem, inicia o diálogo indagando
sua idade. A questão seguinte sobre o motivo de Bruna para
fazer o exame anti-HIV parece indicar a preferência pelo uso
de tecnologias leves (como o olhar já referido), pois a pergunta
feita a Bruna oferece-lhe acolhida às suas demandas/motiva-
ções. E, de fato, ela as expressa livremente ao informar que
teme ter contraído Aids porque descobriu que o namorado
é gay.
A abertura proporcionada pela aconselhadora e o diálogo
engendrado por ambas parecem ir se consolidando em um es-
paço no qual pode ser expresso o que se passa com Bruna: suas
impressões, fantasias, temores e comportamentos.
A primeira informação que Bruna expõe sobre risco de
infecção salta aos olhos! Segundo ela, a associação entre gay e
Aids é direta. A relação que essa jovem faz entre orientação se-
xual e Aids remonta aos primeiros tempos da epidemia, quan-
do, inclusive, ela nem tinha nascido! Bruna reproduz a cons-
trução simbólica de que homossexuais fazem parte de grupo de
risco para pegar Aids, referência essa que orientou o desenho
de políticas e de investimentos em pesquisas no setor, ainda
no final dos anos 1980 (Souza e Czeresnia, 2007; Parker, 2000;
Ayres et al., 2003).
A livre expressão do que Bruna acredita apresenta-se
como oportunidade para ser identificado na rotina do tra-
balho de aconselhamento o que pesquisadores argumentam
sobre construção social da realidade, cujas marcas simbóli-
cas são passíveis de ser apreendidas por práticas discursivas
(Spink, 2004). Bruna não precisou viver nos anos 1980 para
compartilhar as referências simbólicas sobre Aids construí-
das naquela época. Ainda que a literatura científica indique
essa construção discursiva (Souza e Czeresnia, 2007) como
252 • POSSIBILIDADES

obsoleta na tarefa de enfrentar a Aids, ela ainda permane-


ce no senso comum, consolidando concepções, valores e
comportamentos.
A história social da Aids a todos(as) envolve, mantendo-
-nos emaranhados em sua teia de fios que articulam fatos,
fantasias, preconceitos, orientando comportamentos e inspi-
rando concepções sobre o assunto. Como fenômeno social, te-
mos aprendido diversas lições com a Aids, além de construir-
mos “verdades” sobre essa doença. Bastos (2006) argumenta
que a história de vitórias do ser humano na Terra, em relação
a outros seres vivos, vive um capítulo novo – o da luta humana
contra o vírus da Aids –, cujo desfecho é ainda desconhecido,
pois até então não vencemos o HIV.
Nos primeiros tempos da Aids no Brasil, o desejo homos-
sexual foi associado à morte pelo estabelecimento da íntima
relação entre Aids-subjetividade-morte naqueles anos 1980
(Birman, 1994). A associação da Aids à homossexualidade
masculina contribuiu ainda para a construção de fantasias
de invulnerabilidade em boa parte da população (Labaki,
1996). Isso é o que parece ocorrer com Bruna, que esteve
por seis meses com parceiro fixo em atividade sexual despro-
tegida, e só lhe ocorreu o risco de pegar Aids quando “soube
que o namorado é gay”. Ora, Bruna parece guiada por uma
fantasia de invulnerabilidade, que antevemos pela “certeza”
de proteção, apenas abalada diante do conhecimento de que
“o namorado é gay”. Explorar mais profundamente o que
compõe tal fantasia de invulnerabilidade pode ser objeto
de estudos futuros que certamente auxiliarão na prática do
aconselhamento.
O diálogo entre a aconselhadora e Bruna prossegue e in-
dica mais uma vez a postura acolhedora da profissional de
saúde ao destacar que foi bom a moça ter buscado o CTA e
pelo fato de ter anunciado que conversarão sobre o motivo do
atendimento de Bruna.
Análise da prática do aconselhamento em HIV/Aids – Wedna C. M. Galindo • 253

Sutilmente, a aconselhadora afirma que não é o fato de


ter sexo com gay que torna Bruna mais exposta à Aids, mas
sim a prática sexual sem camisinha. O modo como essas “ver-
dades” são anunciadas sugere que a aconselhadora assume
um lugar de cuidadora de Bruna. Ousamos dizer que a acon-
selhadora possivelmente tem uma percepção crítica da his-
tória social da Aids e supõe que Bruna tem construído seus
conhecimentos sobre risco, prevenção, sexo protegido ancora-
da em preconceitos e informações equivocadas. Destacamos
que a postura de acolhida parece orientar os procedimentos
da aconselhadora. Esta não julga Bruna ou qualifica suas in-
formações como indevidas. A aconselhadora posiciona-se em
diálogo com Bruna, “preenchendo” o encontro com o que tem
de informações adequadas, e possivelmente tentará manejar o
que se apresenta como preconceito por parte da moça. É co-
mum ouvirmos no cotidiano queixas de que o profissional de
saúde não deu a devida atenção à pessoa que está atendendo.
Um profissional de saúde, diante do que Bruna apresenta no
encontro, poderia ser minimalista e apenas dizer “o impor-
tante é usar camisinha”, ou falar “isso de que só pega com gay
está errado; no passado se pensou isso, mas hoje, não”. Esses
procedimentos não são difíceis de ser encontrados por parte
do profissional de saúde.
Indicamos, na análise do Fragmento 2, que o tipo de re-
lação interseção partilhada valoriza o que o usuário traz consigo
para o encontro com a aconselhadora. Esta, por sua vez, uti-
lizando tecnologias leves, como o olhar, a escuta, o cuidado,
possibilita a construção de espaço intersubjetivo, cuja produ-
ção de diálogo tende a ser em benefício da usuária e de sua
saúde.
254 • POSSIBILIDADES

5. Considerações finais

Entendemos que a prática do aconselhamento é atraves-


sada por várias dimensões/contextos que se fazem presentes
no encontro profissional de saúde-usuário. Ocupam a cena do
aconselhamento, direta ou indiretamente, valores socialmen-
te construídos e partilhados em torno dos temas envolvidos;
referências pessoais de usuários sobre os assuntos em ques-
tão; aspectos relacionados com os investimentos financeiros e
decisões políticas em torno da oferta do serviço de aconselha-
mento; elementos da gestão interna da unidade de saúde; as-
pectos relacionados com a formação de aconselhadores, entre
outros.
O que destacamos como desafiante para o profissional de
saúde diante da tarefa do aconselhamento é posicionar-se no
encontro com o usuário na perspectiva de que aquelas dimen-
sões que povoam a cena recebam atenção devida, de modo que
o encontro seja producente para quem procura ajuda. Acre-
ditamos que o encontro do tipo interseção partilhada apre-
senta-se como mais produtivo, por possibilitar um espaço de
genuíno diálogo, ainda que ele nem sempre ocorra, diante das
várias questões que podem estar implicadas na situação.
Neste texto, apresentamos um exercício de análise das si-
tuações de atendimento pelas quais passam, em sua rotina,
profissionais de saúde-aconselhadores em HIV/Aids. Espera-
mos que os profissionais e suas equipes mantenham como sis-
temática o estudo de casos, a troca de experiências, a partilha
de descobertas e inquietações, pois acreditamos que a garan-
tia de espaço para os profissionais se expressarem sobre suas
práticas de trabalho contribuirá para qualificar sua tarefa de
escutar e ajudar as pessoas que buscam o aconselhamento em
HIV/Aids.
Análise da prática do aconselhamento em HIV/Aids – Wedna C. M. Galindo • 255

Referências

AYRES, J. R. C. M.; FRANÇA JR., I.; CALAZANS, G. J.; SALETTI FILHO, H.


C. Conceito de vulnerabilidade e as práticas de saúde: novas perspectivas
e desafios. In: CZERESNIA, D.; FREITAS, C. M. (Org.). Promoção da saúde:
conceitos, reflexões tendências. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2003.

BASTOS, F. I. Aids na terceira década. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2006.

BIRMAN, J. Sexualidade: entre o mal e as maledicências. In: LOYOLA, M.


A. (Org.). Aids e a sexualidade: o ponto de vista das ciências humanas. Rio de
Janeiro: Relume Dumará/Uerj, 1994. p. 109-115.

BRASIL. Aconselhamento em DST, HIV e Aids: diretrizes e procedimentos bá-


sicos. 3. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 1998.

______. Diretrizes dos Centros de Testagem e Aconselhamento – CTA: manual.


Brasília: Ministério da Saúde, 1999.

______. Normas de organização e funcionamento dos Centros de Orientação e


Apoio Sorológico. Brasília: Ministério da Saúde, 1993.

_______. Pesquisa de conhecimentos, atitudes e práticas na população brasileira de


15 a 64 anos. Brasília: Ministério da Saúde, 2011.

FILGUEIRAS, S. L.; DESLANDES, S. F. Avaliação das ações de aconselha-


mento: análise de uma perspectiva de prevenção centrada na pessoa. Cad.
Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 15, sup. 2, p. 121-131, 1999.

GALINDO, W. C. M. O dispositivo do aconselhamento na resposta à Aids. Tese


(Doutorado), Universidade Católica de Pernambuco, Recife, 2013.

______; FRANCISCO, A. L. Gestão municipal em ações de HIV/Aids. In:


XXVIII CONGRESSO INTERNACIONAL DA ALAS. Anais… Recife: UFPE,
6-11 set. 2011.

______; ______; RIOS, L. F. Proposições para a formação de aconselhado-


res em HIV/Aids. Physis: revista de saúde coletiva, Rio de Janeiro, v. 23,
n. 3, p. 741-761, 2013.
256 • POSSIBILIDADES

GIANNA, M. C.; KALICHMAN, A.; DE PAULA, I.; CERVANTES, V.; SHIM-


MA, E. Políticas públicas e prevenção das DST/Aids: ontem, hoje e ama-
nhã. In: PAIVA, V.; AYRES, J. R.; BUCHALLA, C. M. Vulnerabilidade e direitos
humanos: prevenção e promoção da saúde. Da doença à cidadania. Curiti-
ba: Juruá, 2012. livro I.

LABAKI, M. E. P. Aids: uma clínica da indagação. Cadernos de Subjetividade,


v. 4, 1o e 2o sem., p. 153-161, 1996.

MARX, K. O capital: crítica da economia política. 9. ed. São Paulo: Difel,


1984.

MERHY, E. E. Enfrentar a lógica do processo de trabalho em saúde: um


ensaio sobre a micropolítica do trabalho vivo em ato, no cuidado. In: CAR-
VALHO, S. R.; FERIGATO, S.; BARROS, M. Elizabeth (Org.). Conexões: saú-
de coletiva e políticas de subjetividade. São Paulo: Hucitec, 2009.

______. Saúde: a cartografia do trabalho vivo. 3. ed. São Paulo: Hucitec,


2007.

PARKER, R. Na contramão da Aids: sexualidade, intervenção, política. Rio de


Janeiro: Abia; São Paulo: Ed. 34, 2000.

SOUZA, V.; CZERESNIA, D. Considerações sobre os discursos do aconse-


lhamento nos centros de testagem anti-HIV. Interface: comunicação, saú-
de, educação, v. 11, n. 23, p. 531-548, 2007.

SPINK. M. J. (Org.). Práticas discursivas e produção de sentidos no cotidiano:


aproximações teóricas e metodológicas. São Paulo: Cortez, 2004.

TRAVERSO-YÉPEZ, M. A psicologia social e o trabalho em saúde. Natal: UFRN,


2008.

ŽIŽEK, S. Como Marx inventou o sintoma?. In: ______ (Org.). Um mapa da


ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.

______. Eles não sabem o que fazem: o sublime objeto da ideologia. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
Caravana da Cidadania: a psicologia
comunitária mobilizando as
comunidades para a promoção à
saúde e direitos humanos
Camila Santos, Verônica Carrazzone,
Renata E. de S. Nunes e Luís Felipe Rios

Neste capítulo discutiremos a experiência da Caravana


da Cidadania, uma das ações de mobilização comunitária
do Programa Diálogos para o Desenvolvimento Social de
Suape.1 O subprojeto teve início em maio de 2012, encerran-
do-se em janeiro de 2015. Por meio das diferentes frentes
dessa ação, foram acessadas cerca de 605.269 pessoas sobre
os diferentes temas de que trata o Programa (Carrazzone et
al., 2015).2
O capítulo está dividido em quatro partes. Na primeira,
discutimos o canário no qual o subprojeto Caravana da Ci-
dadania trabalhou. Na segunda, apresentamos a perspectiva
teórica que orientou as atividades realizadas. A terceira parte
é dedicada à apresentação da metodologia de trabalho. Nas
duas últimas partes, tecemos algumas reflexões sobre o pro-

1
É importante expressar nossos agradecimentos aos professores Eniel Sabino de Olivei-
ra e Rafael Diehl, que, junto com os autores deste texto, formaram a equipe da Caravana
da Cidadania durante boa parte do percurso aqui narrado. Também queremos agrade-
cer aos gestores e profissionais dos municípios de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca.
Sem a participação deles, definitivamente não obteríamos êxito.
2
Vale ressaltar que contabilizamos as pessoas acessadas pela quantidade de material in-
formativo e insumos de prevenção (camisinhas) distribuídos. Temos inteira consciência
de que, em uma população de cerca de 285 mil pessoas, o número acima revela que uma
mesma pessoa foi acessada várias vezes pelo Programa a partir de suas diferentes frentes
de trabalho, expressas nos temas dos materiais distribuídos. É justamente essa possibi-
lidade de acessar uma mesma pessoa várias vezes que permite o êxito de um trabalho de
promoção da saúde como o aqui proposto.
258 • POSSIBILIDADES

cesso de interferir em comunidades de dois municípios para


propor mudanças que favoreçam a promoção da saúde, consi-
derando e respeitando as dinâmicas socioculturais locais.

1. O cenário: as duas faces do Complexo


Suape

Complexo Industrial Portuário de Suape:


Pernambuco preparado para grandes negócios
(Governo do Estado de Pernambuco)

Com essa frase, o governo de estado de Pernambuco apre-


senta o Complexo Suape em encarte com exposição visual que
alterna imagens de praias com beleza natural paradisíaca e
imagens de imensas estruturas metálicas cuja infraestrutura
se estende por 13.500 hectares. O Complexo é apontado como
a locomotiva do desenvolvimento de Pernambuco e o polo de
desenvolvimento mais dinâmico do Brasil. Com empreendi-
mentos estruturadores, como a Refinaria Abreu e Lima, o Polo
Naval e Offshore, o Polo Petroquímico e o Polo Siderúrgico e
Metal-mecânico, Suape anuncia que todos esses investimen-
tos estão em sintonia com uma política de sustentabilidade
social e ambiental da região. Outro ponto enfatizado é a polí-
tica de capacitação, que procura engajar os trabalhadores per-
nambucanos nas diversas cadeias produtivas por um grande
programa de treinamento (Complexo Industrial e Portuário,
s.d.).
Apesar do desenvolvimento e dos números positivos con-
firmados a partir da implantação do Complexo Suape, muitas
dificuldades também se fizeram presentes. Situações de vul-
nerabilidade social, juntamente com violência, uso abusivo de
álcool e outras drogas, e aumento nos números de DSTs/Aids
foram alguns dos agravos identificados, os quais pediam ação
Caravana da Cidadania – Camila Santos et al. • 259

imediata, pois fugiam ao controle da população e dos equipa-


mentos do governo.
O Complexo Industrial, além de apresentar grande movi-
mento econômico, trouxe também uma nova realidade para
os moradores dos municípios de Cabo de Santo Agostinho e
Ipojuca. Com as mais de 100 empresas em operação e os mais
de 25 mil empregos suscitados, houve também grande aumen-
to populacional e grande diversidade de hábitos e costumes,
assim como benefícios e agravos para a população. Diante de
tal fato, como a comunidade vem lidando com esse cenário?
Como vem se desenhando essa desconstrução e reconstrução
da representação social de seu ambiente?
Ao longo de nossas incontáveis visitas às comunidades,
um dos moradores nos sinaliza que “a cultura do local é bom-
bardeada por diversas culturas”, apontando seu sentimento
de não pertencimento ao local que sempre sentiu como seu,
partilhando do sentimento de outros tantos moradores acerca
de sua identidade social. Afirmam, assim, sentir-se desprepa-
rados para lidar com esse “bombardeio” de pluralidade. Vale
também destacar algo que pode soar contraditório. Quan-
do as pessoas eram reunidas para discutir as implicações do
Complexo Suape em suas vidas (momento inicial da forma-
ção, cuja metodologia aprofundaremos mais adiante), o que
para alguns era listado como agravo para outros era benefício.
Um exemplo disso era a supervalorização dos imóveis, o de-
senvolvimento acelerado e a própria convivência com atores
de diferentes culturas. Todos esses pontos eram apresentados
tanto como agravos quanto como benefícios.
As integrantes da ação Caravana da Cidadania perguntaram
a um grupo de profissionais da comunidade de Gaibu, no Cabo
de Santo Agostinho, “quais foram os benefícios e agravos advin-
dos do complexo de Suape”, e a lista começou a ser elaborada,
sendo os benefícios arrumados do lado esquerdo e os agravos do
lado direito, o que remete a uma balança social, descrita a seguir:
260 • POSSIBILIDADES

• benefícios: “mais emprego, desenvolvimento do comércio,


mais ofertas de cursos técnicos, mais pessoas capacitadas e
novas empresas”;
• agravos: “violência, danos ambientais, prostituição, tráfico
de drogas, furtos, marginalidade, perda da identidade, inva-
são de território, superlotação, aumento da demanda para
os serviços de saúde e serviços básicos, erradicação da práti-
ca de esportes por causa do uso de drogas nos espaços, falta
de habitação, ausência de vagas nas escolas e aumento do
custo de vida”.

Percebe-se que a lista dos agravos compreende uma


quantidade expressiva de elementos, apontados pelos diver-
sos profissionais e moradores do litoral sul de Pernambuco,
que afirmam não saber como lidar com o número de pessoas
que chegaram de repente à região sem que houvesse a cons-
trução de uma base firme que pudesse sustentar a prestação
de um serviço de qualidade a todos(as) nas áreas da saúde,
educação, lazer, moradia e segurança. Relatam que a cidade
sofreu um inchaço em razão da superlotação de pessoas que
vieram de outras regiões do país para trabalhar nas diversas
empresas do Complexo de Suape e trouxeram consigo outro
jeito de falar, de se comportar, de comer, outras drogas, novos
vícios.
Assim, um novo contexto social se apresenta; novos va-
lores, novos saberes e fazeres se anunciam. Nada é igual ao
anteriormente estabelecido. Também não é necessariamente
nem pior nem melhor, é simplesmente diferente. Diante da
rápida transformação, novos modelos e padrões de conduta
são criados, adaptados às novas mudanças, muitos sem ser
questionados, nascidos da urgente demanda de adaptação.
Esse é essencialmente o conflito expresso pelos morado-
res do Cabo e de Ipojuca, que, vivenciando essas transforma-
ções, falam desse bombardeio cultural, falam do grande vo-
Caravana da Cidadania – Camila Santos et al. • 261

lume de mudança e anunciam que referências anteriores não


são mais suficientes para transitar nesse novo contexto. Além
disso, sentem-se perdidos, sem se darem conta do volume de
transformações, e, assim, não se apropriam mais da nova rea-
lidade. A insegurança e a ausência de expertise para lidar com
as problemáticas fragilizam a todos(as), enquadrando-os em
uma categoria já conhecida de vulnerabilidade social. Vul-
nerabilidade revelada no uso abusivo de álcool e drogas, nas
constantes cenas de violência, no aumento da gravidez precoce
e das DSTs etc.
Em nossa interpretação, a expressão “bombardeio cultu-
ral”, utilizada pelos moradores do Cabo e de Ipojuca, tenta
traduzir essa vivência de sofrimento que faz com que cada su-
jeito, ao se deparar com a insegurança de seu mundo, mergu-
lhe na confusão e na desorientação a respeito de si mesmo. Tal
sofrimento é atribuído não só às mudanças estruturais trazi-
das por Suape, mas é “personificado” nos “estrangeiros”, tra-
balhadores que vieram de diferentes estados do Brasil e até de
outros países e que se instalam/invadem com seus costumes
e vivências a dinâmica local. Um sentimento velado de raiva
passa a ser nutrido em relação a esses “estrangeiros”, vistos
como responsáveis pelo caos instalado.
Do outro lado, os trabalhadores vindos dos diferentes
locais do país, estranhos a essa cultura local, sinalizam o mal-
estar por estarem sendo vistos como responsáveis por esse
caos. Falam do sofrimento em andar pelas ruas e serem iden-
tificados como violentos, inconsequentes e maus. Homens
que deixaram suas famílias e se inserem em uma cultura que
também desconhecem, o que requer uma imensa habilidade
de observação para transitar sem desrespeitar um contexto
cultural e simbólico tão diferente do seu. A intensa convivên-
cia desses novos atores que passam a compor o cenário local,
com tantas diferenças, aumenta o potencial para conflitos e
mal-entendidos.
262 • POSSIBILIDADES

2. (Re)construindo cenários pela psicologia


social comunitária

Nascida após a tensão da psicologia social nos anos 1970,


a psicologia comunitária, sobretudo na América Latina, mos-
trou-se uma prática distinta para a entrada profissional e po-
lítica do psicólogo (Ramos e Carvalho, 2008).
Vale relembrar o aspecto normalizador que marca a psi-
cologia, como ciência e como profissão, desde suas origens,
sempre se preocupando com o anormal e o diferente, e sempre
chamada a regular e colocar em ordem o que era visto como
desordenado (Rios, 2011). No entanto, por muito tempo,
como disse uma vez George Canguilhem (s.d.), muitos traba-
lhos realizados pela psicologia careceram (e ainda carecem) de
ética e rigor, deixando de fazer crítica à sociedade, deixando de
se perguntar se a demanda recebida para promover tal ou tal
mudança era eticamente louvável.
Na contramão de uma psicologia da norma, Góis (2003,
p. 280) sugere que a psicologia comunitária deveria se basear
em dois pontos: “o do desenvolvimento humano e o da mu-
dança social (busca de alternativas sociopolíticas)”, a partir de
uma crença positiva acerca da comunidade e dos sujeitos, em
que ambos possuem competências para atuar como autores
de suas histórias. Nesse processo, conta-se com a participação
do psicólogo comunitário como ferramenta de conscientiza-
ção e auxiliar na tomada de decisões dos cidadãos, buscando
promover condições dignas para o exercício da cidadania, de-
mocracia e igualdade (Pereira, 2009).
Assim, a psicologia comunitária lida com diversas proble-
máticas, como saneamento, nutrição, qualidade de trabalho
e poluição, ou seja, deve abordar as dificuldades que afligem
os(as) moradores(as) da comunidade (Gonçalves e Portugal,
2012). Perceber e respeitar esse panorama para cada comuni-
dade particular tem sido essencial para a execução de ações
Caravana da Cidadania – Camila Santos et al. • 263

transformadoras (Novara, 2003). Esse processo de interven-


ção, segundo Gonçalves e Portugal (2012), inicia-se, em geral,
por meio de um diagnóstico da comunidade, levantando in-
formações, buscando saber qual a necessidade específica da
população, sempre com o apoio dos membros da localidade.
E é por meio da parceria desse conjunto que a comunidade
vai se desenvolvendo, com a valorização dos movimentos po-
pulares da região pela arte, história, resistência e cultura local
(Pereira, 2009).
Fundamentada nessas reflexões, a equipe que realizou
a ação, ou subprojeto, Caravana da Cidadania do Programa
Diálogos para o Desenvolvimento Social de Suape trabalhou
a partir da mobilização das comunidades dos municípios de
Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca e da instrumentalização
dos profissionais das secretariais e equipamentos sociais para
um movimento de promoção da saúde sexual e reprodutiva, e
enfrentamento à violência e ao uso abusivo do álcool e outras
drogas.

3. Caravana da Cidadania

Essa ação foi organizada em quatro movimentos, os quais


passaremos a apresentar: articulação da rede, formação dos
atores sociais, Caravana da Cidadania e instrumentalização
dos profissionais.

3.1. Articulação da rede

A articulação da rede se deu em dois tempos. O primei-


ro momento consistiu em apresentar o Programa Diálogos
Suape para todos(as) os(as) gestores(as) das secretarias dos
municípios de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca com o ob-
jetivo de firmar parcerias para a realização dos movimentos
264 • POSSIBILIDADES

posteriores e também conhecer o olhar desses atores sobre a


realidade das comunidades que receberiam as ações.

O apoio veio pela indicação dos espaços para realizar as


formações; pelo repasse dos contatos dos responsáveis pelos
equipamentos sociais de cada localidade, permitindo que a
equipe da Caravana tivesse uma pessoa de referência para fa-
cilitar o diálogo com os demais funcionários; pela disponibi-
lização de materiais (tendas, caixas de som, materiais infor-
mativos de seus serviços etc.) e pessoal de apoio para o dia da
ação de rua, que descreveremos mais adiante, sempre que pos-
sível. Ao conhecer o Programa Diálogos e a proposta de inter-
venção da Caravana da Cidadania, os(as) gestores(as) muitas
vezes solicitaram a presença da equipe e suas ações em proje-
tos em andamento de iniciativa das prefeituras, como o Social
Itinerante (uma iniciativa da Secretaria de Programas Sociais
do Cabo de Santo Agostinho) e o Fórum de Saúde Mental do
Cabo (iniciativa da coordenação de Saúde Mental do municí-
pio de Cabo de Santo Agostinho).
Após a articulação com os(as) gestores(as), e mapeando
junto com eles as comunidades mais afetadas pelo agravos em
saúde e violações de direito, objeto do trabalho do Diálogos
Suape, seguimos para o segundo momento de articulação
junto a cada comunidade.
Identificada a comunidade que seria trabalhada, a equi-
pe realizava uma primeira visita, apresentando o projeto para
Caravana da Cidadania – Camila Santos et al. • 265

os integrantes de cada equipamento social e convidando-os a


participar de uma formação.
Entre as diversas instituições acionadas, e a depender da
localidade, estavam os Creas, CRAs, CAPs, NASF, PSF, con-
selhos tutelares, projetos e programas locais, casas de acolhi-
mento, postos da Polícia Militar, guardas municipais, escolas
estaduais e municipais, centros comunitários e lideranças
identificadas como agentes mobilizadores em seus bairros.

3.2. Formação dos atores sociais

O segundo movimento do trabalho da Caravana da Ci-


dadania consistiu em promover um grande diálogo entre os
atores que atuam na comunidade, um encontro dos múltiplos
olhares.
266 • POSSIBILIDADES

O encontro era iniciado com a reflexão coletiva sobre a


maneira como cada um dos atores, posicionados por seus fa-
zeres e saberes, percebe os agravos em seu ambiente de tra-
balho/comunidade. Os participantes eram chamados a expor
as práticas realizadas com o público beneficiário das ações. A
ideia era refletir sobre como os serviços (formais e informais)
podem se ajudar a ampliar e qualificar um processo de pro-
moção da cidadania e saúde já em curso. Vale dizer que a pró-
pria existência dos equipamentos sociais e ações comunitárias
apontava que já existiam muitas coisas acontecendo. No en-
tanto, o que o encontro mostrou é que muitos não sabiam
que várias inciativas estavam em curso, e o trabalho seguia no
mais das vezes solitário.
Os participantes da formação eram chamados a pensar na
construção da grande ação de rua, onde estariam reunidos os
equipamentos sociais e a comunidade, com o objetivo de pro-
mover ações de conscientização e promoção de cidadania aos
cidadãos das mais variadas faixas etárias. Um ensaio para um
trabalho em rede. Os participantes eram questionados como
poderiam contribuir a partir de seus dispositivos (setores) e o
que cada um poderia levar para a Caravana como estratégia
de aproximação à comunidade e facilitação do diálogo. Eles
também definiam as regiões que deveriam ser contempladas
pelo evento.
O processo formativo aconteceu de modo participativo,
colaborativo e dinâmico, configurado a partir de uma estrutura
que favoreceu o diálogo sobre os benefícios e agravos que advie-
ram da chegada do Complexo Suape. Contaram com atividades
estruturadas a priori que davam movimento e singularidade a
cada formação em cada comunidade, como técnicas de relaxa-
mento, colagem e construção de painéis, estudos de caso, dra-
matizações etc., distribuídas em quatro horas de duração total.
Finalmente, a última parte do encontro consistia em
apresentar aos participantes os materiais informativos
Caravana da Cidadania – Camila Santos et al. • 267

confeccionados e disponibilizados pelo Programa Diálogos


Suape, como filmes, cartilhas, fôlderes etc., de modo a faci-
litar o diálogo sobre as possibilidades de enfrentamento às
vulnerabilidades.

3.3. Evento Caravana da Cidadania

O ponto de culminância do subprojeto em tela era o


evento Caravana da Cidadania (que empresta o nome ao pró-
prio subprojeto). Consistia em uma mobilização social, em
geral de rua, a partir de atividades socioeducativas e culturais,
estruturadas e realizadas com o protagonismo dos atores so-
ciais que participaram da formação e da comunidade como
um todo, além da presença de alunos de diversas escolas e das
268 • POSSIBILIDADES

sete ações do Programa Diálogos Suape: Caravanas da Cida-


dania, Observatório Suape, Ação Juvenil, Chá de Damas, Diá-
logos com os Homens das Terceirizadas, Ação Mulheres e Co-
nhecer o Território.
De forma geral, chegando ao local que aconteceria o mo-
vimento, uma tenda de cidadania era montada. Esse espaço
servia como ponto de apoio para o que iria se desenrolar e
favorecia um espaço de diálogo e troca de saberes. Em seu en-
torno, desenvolviam-se ações educativas, teatro, jogos, canto e
distribuição de materiais informativos sobre violência, DSTs/
Aids, uso abusivo de álcool e outras drogas.
Durante a mobilização social, uma equipe percorria as
ruas e ladeiras da comunidade, que, em geral, são bastante po-
voadas, distribuindo materiais e convidando a população para
integrar o evento. Nessa caminhada, era comum deparar-se
com famílias sentadas nas portas de casa, vendedores de pi-
poca, crianças brincando, trabalhadores(as) chegando a seus
Caravana da Cidadania – Camila Santos et al. • 269

lares, bares lotados. Enquanto isso,


nesse movimento diversificado, era re-
alizada a distribuição de informações,
visando a promover a tomada de cons-
ciência sobre seus direitos, provocan-
do reflexões sobre as possibilidades
para reduzir os agravos do cenário em
que vivem.
Cada ambiente exibia condição e
narrativa diferentes, sendo necessário
incorporar o caminhar da comunida-
de, estar em movimento, dialogando
com histórias e sentimentos trazidos
por cada morador. Por exemplo, em
uma das ocasiões, uma mãe, sentada
em frente à sua casa, recebeu um mar-
cador de página falando sobre redu-
ção de danos. Lembrou-se de seu filho,
pediu mais um material, dizendo que
entregaria a ele.
Em outro momento, uma senho-
ra, parando de frente para um cartaz
sobre exploração sexual, questionou
se a denúncia era mesmo sigilosa. Con-
versamos sobre o fenômeno e modos
de enfrentamento, a ocorrência na re-
gião, e ela levou um folheto sobre o as-
sunto na intenção de guardar o núme-
ro de telefone para fazer a denúncia.
Também vale recordar quantas vezes
crianças e jovens pediam mais e mais
materiais para levar para distribuir en-
tre seus pares nas escolas.
270 • POSSIBILIDADES
Caravana da Cidadania – Camila Santos et al. • 271

A participação da população nas microrrodas de conver-


sa promovidas pelos esquetes e jogos lúdicos também foi um
ponto importante das atividades das Caravanas da Cidadania,
sempre consolidadas com a distribuição de materiais infor-
mativos e insumos, como camisinhas masculinas e femininas
e lubrificantes íntimos.

3.4. Instrumentalização dos profissionais do Cabo de


Santo Agostinho e de Ipojuca

Finalmente, o último movimento consistiu em ampliar a


multiplicação das informações. Nessa quarta etapa, houve o
272 • POSSIBILIDADES

repasse de grandes quantidades dos materiais elaborados pelo


Programa para os equipamentos sociais dos dois municípios,
visando a ampliar a rede de diálogos sobre saúde e direitos
humanos.
A escolha das temáticas e quantidades de materiais for-
necidos ficou a critério dos próprios profissionais, aos quais
foram apresentados os materiais disponíveis no momento
da formação. A ideia era que eles avaliassem a adequação das
peças de acordo com a pertinência e demanda do espaço de
trabalho e do público acolhido. Quando entregues, eram rece-
bidos com entusiasmo! As ideias começavam a ser articuladas,
Caravana da Cidadania – Camila Santos et al. • 273

e cada um já ia pensando qual atividade poderia ser desen-


volvida a partir desses materiais. Lembramos, por exemplo, o
profissional da Secretaria de Combate às Drogas de Cabo de
Santo Agostinho que sinalizou: “Esse material é importante
para nossa ação de Carnaval!”, referindo-se ao kit sobrevivên-
cia, que ajudava a disseminar informações e distribuir camisi-
nhas para a população masculina.

4. Promoção à saúde e direitos humanos

Uma realidade complexa, um mundo em movimento,


uma leitura crítica, uma impaciência democrática são fatores
que impulsionam a sair do lugar e demarcar uma interferên-
cia na sociedade, com saberes e fazeres comprometidos com
os direitos humanos e com o fomento para a estruturação de
políticas públicas que não mais se conformam com a paisa-
gem de desigualdades, colorindo, assim, um movimento de
transformação de nossa realidade.
Saberes e fazeres que rompem com a ingenuidade histó-
rica e avançam na direção da transformação da realidade. O
tempo, a educação, a saúde, o trabalho, as diferentes formas
de exclusão social clamam por uma perspectiva crítica dos di-
reitos humanos.
A Caravana da Cidadania, como uma das estratégias do
Programa Diálogos para o Desenvolvimento Social em Sua-
pe, assim cumpriu seu papel, desarrumando saberes e práti-
cas consolidadas, e fazendo pensar. Construindo senão novas
formas de agir, pelo menos novas formas de (des)configurar o
que já estava posto.
É importante destacar que o Programa Diálogos Suape
teve por pilar doutrinário e organizativo as premissas do Sis-
tema Único de Saúde (SUS), caudatárias do movimento sani-
tarista e inscritas na Constituição de 1988.
274 • POSSIBILIDADES

A equipe da Caravana da Cidadania, em sua grande parte


formada por psicólogas, fez ecoar o grito, muitas vezes ainda
calado, por uma psicologia que não mais se alie ao aparato
repressivo. Uma psicologia politicamente posicionada e etica-
mente orientada.
Uma psicologia que se proponha sair do enquadramento,
das quatro paredes, dos modelos engessados e mergulhar no
mundo de subjetividades, de diferentes olhares, no qual se in-
daga o para quê. Eis o grande desafio. Andar na corda bamba,
em que o passo é sempre incerto, pois não há mais a crença em
estrutura forte e firme para se equilibrar. Uma psicologia co-
munitária, como prática implicada no mundo e com o mun-
do, e por isso mesmo incerta.
Incerteza de uma psicologia como prática que se presta
a ouvir, a sentir, a provar a realidade, não com nossas bocas,
nossos olhos, nem nossos ouvidos, mas com nossa presença
no mundo. É simplesmente estar lá, implicada com a própria
vida, e aí sim os atores fazem a dança e o movimento.
E assim acontece na Caravana da Cidadania. Os atores
sociais foram para a rua, fugindo ao script e à regra, recons-
truíram a realidade, elaboraram estratégias e articularam uma
rede de parcerias com o desenho que só aquela comunidade é
capaz de gerar. Talvez uma única experiência, mas que acredi-
tamos poder ser um exemplo de que é possível fazer algo que
mobilize os atores, as comunidades a trabalharem em rede.
Assim foi na praça da Estação, no centro do Cabo de San-
to Agostinho: um mural sendo pintado por crianças, acompa-
nhadas pelos(as) professores(as) e gestores(as) das escolas, e
que lá deixavam seu recado. Qual? O recado de quem vai para
a escola, de quem tem fé, de quem brinca, de quem aprende e
também ensina.
A dança de rua, com B-boys que cantam e dançam sua
cultura, seus valores, que falam das drogas, das dores, dos me-
dos, das conquistas, uma dança de resistência, de superação.
Caravana da Cidadania – Camila Santos et al. • 275
276 • POSSIBILIDADES

Adolescentes cantam suas composições, levam seus equi-


pamentos, seu microfone, sua caixa de som, emprestam-se
para comunicar dúvidas, soluções, estratégias que não são só
suas, mas de muitos dessa idade. Gestores(as) da saúde, edu-
cação, infraestrutura, juventude seguem no apoio e participa-
ção, identificam os atores locais, participam da organização
do evento, oferecem suporte e vibram juntos(as), em uma par-
ceria que também é deles(as).
A população para com o objetivo de assistir e participar, e
dessa forma também constrói, sugere e se insere. Uma riqueza
de material impresso é disponibilizado para a população, que
lê, que tira dúvidas, que questiona.
A psicologia comunitária na promoção da saúde, tradu-
zindo no fazer a essência da clínica ampliada. E nada é por
acaso, esse esforço conjunto é fruto de um grupo que se en-
controu na formação, que pensou e idealizou esse momento,
que pensou junto o melhor local para fazer acontecer a ação
Caravana da Cidadania – Camila Santos et al. • 277

na rua, que construiu junto esse jeito de fazer diferente, que


saiu de sua sala e foi para a rua dançar e brincar de fazer saúde
e direitos humanos.
Um grupo que transita da gestão para a comunidade e
que na articulação trouxe seu rol de preocupações, de incer-
tezas, de impotências e de possibilidades. E entra nesse jogo
de brincar de fazer, e vai junto para as ruas, para as casas, para
os comércios, até o quintal desse compromisso social. E assim
alinhava a promoção da saúde e dos direitos humanos.
Essa psicologia comunitária cantada, dançada, encenada
é quebra-cabeça montado a cada visita no processo de articu-
lação. Cada depoimento, cada vivência e dificuldade narrada
pelos atores nas visitas de articulação política viram roteiro
dessa viagem, e assim é possível fotografar a própria crença,
impregnada nesse agir de que é possível construir pelo contá-
gio uma epidemia de saúde e direitos humanos.

5. Dar o peixe ou ensinar a pescar?


O protagonismo da comunidade e o
respeito à cultura local

Como promover saúde e direitos humanos dentro da co-


munidade? Será que há um molde, um modo único de pro-
mover conhecimento? Diante de tal complexidade, as ações
da Caravana da Cidadania buscaram mobilizar os atores lo-
cais a integrar ativamente as intervenções do projeto.
A partir de cada barraca montada, cada material distri-
buído dos/por dispositivos locais, cada apresentação musical,
dançante, cartazes temáticos, a partir do diálogo de comuni-
dade para comunidade acerca das temáticas trabalhadas nas
formações promovidas pela equipe Caravana junto à popu-
lação, foi possível facilitar a reflexão da comunidade sobre
278 • POSSIBILIDADES

as possibilidades presentes em seus próprios contextos para


lidar com suas demandas, gerando uma atividade coletiva e
favorecendo o movimento de autonomia da comunidade que
enxerga a possibilidade de tornar-se agente de sua própria
mudança.
A troca de conhecimentos e experiências entre Progra-
ma Diálogos Suape e comunidade enriquece o processo de
construção de saberes e o empoderamento social acerca das
temáticas envolvidas no Projeto, de modo que a comunidade
possa atuar como principal veículo multiplicador da promo-
ção de saúde e direitos humanos, sendo estimulado o papel
ativo de cada indivíduo para a superação de condições de
vulnerabilidade e enfrentamento às situações de ameaça e/
ou violação de direitos. A comunidade se firma como agente
de transformação e exerce seu protagonismo social impul-
sionando a reflexão sobre os conhecimentos dialogados e
facilitando a troca de saberes e possibilidades encontradas
pela população.
Dessa forma, ao entrar na comunidade e ampliar a pro-
posta de intervenção, saindo do local de transmitir conhe-
cimento e adotando a postura de um diálogo aberto com a
comunidade, de modo a integrá-la às ações, todas as inter-
venções foram pensadas de modo a respeitar cultura, regras,
crenças e modo de funcionar de cada comunidade, partindo
de uma abordagem que reconhece e respeita a diversidade cul-
tural e de conhecimentos.
Pois como assegura Góis (2003, p. 280), na psicologia co-
munitária há
[…] o reconhecimento da capacidade do indivíduo e da própria
comunidade de serem responsáveis e competentes na cons-
trução de suas vidas, bastando para isso a existência de certos
processos de facilitação social baseados na ação local e na cons-
cientização.
Caravana da Cidadania – Camila Santos et al. • 279

Nessa perspectiva, a cada ação foram incorporados ele-


mentos característicos da cultura local, elementos esses apre-
sentados pelos atores locais e que por tantas vezes, além do
caráter educativo, foram capazes e responsáveis por atrair ou-
tros tantos moradores para a ação, trazendo para esta um mo-
vimento próprio e único.
Esse modo de intervenção adotado pelo Projeto junto à
comunidade foi recebido de forma positiva pelos moradores,
que sinalizaram a importância de entrar em contato com a
realidade local ao se trabalhar a demanda comunitária de
modo dialogado. Assim, jovens que participaram da ação
informaram:

Essa parceria com o Programa Diálogos Suape, a gente achou


bem legal, pelo fato de a gente ser estudante e poder fazer parte
da sociedade, que, querendo ou não, convive com tudo isso, e
participar foi uma ótima oportunidade para a gente conhecer e
ao mesmo tempo mostrar também a opinião da gente.

Do mesmo modo, profissionais de dispositivos locais


também deixaram seu recado:

Foi ótima essa parceria com o Programa Diálogos Suape, por-


que eles vieram com uma proposta muito boa, que a gente já
pensou em fazer, mas nunca realizou, e essa parceria foi pri-
mordial para que pudesse acontecer a ação de prevenção à saú-
de sexual do jovem […]. A gente acredita que as atividades que a
gente faz são ferramentas para chamar a atenção da população
“pra” que a gente possa trabalhar os temas específicos que a
gente quer levar para a população, e o meio que a gente usa são
as atividades culturais com a juventude.

Foi valorizado, assim, o método de aproximação dos ato-


res sociais da proposta interventiva. Há também o depoimen-
to do transeunte, que viu o movimento acontecendo, parou
para saber o que é e logo contribuiu: “Vou ficar e esperar a
280 • POSSIBILIDADES

apresentação de B-boy. Vi o tapete no chão e resolvi dar uma


sacada. É assim que deve ser. Você traz a sua informação e va-
loriza o que é da gente”, sinalizando a importância de inserir
cultura local em ações como a Caravana da Cidadania, enri-
quecendo essa alternativa metodológica, que adota uma pos-
tura aberta ao diálogo.
Desse modo, a Caravana da Cidadania, ao facilitar o de-
senvolvimento do protagonismo social, respeitar e incorporar
a cultura local às ações, aprende um novo jeito de “pescar o
peixe”, em que não se tem um único recurso, sendo este cons-
truído a partir dos saberes e das vivências locais.
Cada indivíduo é capaz de “construir sua rede de pesca”; e
é desse modo participativo que se torna espontâneo e singular
o processo de mobilizar as comunidades e instrumentalizar
profissionais, acontecendo a promoção da saúde, o combate à
violação dos direitos, ficando claro que a ação, mesmo facili-
tada pelo Programa Diálogos Suape, só ocorre com o envolvi-
mento efetivo das comunidades, que multiplicam o potencial
de desenvolvimento social.

Referências

CANGUILHEM, G. O que é a psicologia?. In: Pensamento político contem-


porâneo. Rio de Janeiro: Departamento de Filosofia da PUC-Rio, [s.d.].
Disponível em: <http://geocities.yahoo.com.br/guaikuru0003/oquepsi.
html#_ftnref2>. Acesso em: 25 maio 2011.

CARRAZZONE, V.; SANTOS, C.; QUEIROZ, T.; RIOS, L. F.; NUNES, R.;
OLIVEIRA, E. S.; DIEHL, R. Caravana da Cidadania: mobilização popu-
lacional por cidadania e saúde em Suape-PE. In: RIOS, L. F., QUEIROZ,
T.; LINS, M. B.; OLIVEIRA, C. (Org.). Diálogos para o desenvolvimento social em
contextos de grandes obras: a experiência do Programa Diálogos Suape. Recife:
EdUFPE, 2015.
Caravana da Cidadania – Camila Santos et al. • 281

COMPLEXO INDUSTRIAL E PORTUÁRIO. O que é Suape?. [s.d.]. Dispo-


nível em: <http:// www.suape.pe.gov.br/institutional/institutional.php>.
Acesso em: 18 ago. 2014.

CONSELHO REGIONAL DE PSICOLOGIA. 2a Região. III Seminário de Di-


reitos Humanos: Direitos Humanos pra quem?. Recife: Edupe, 2007.

GÓIS, C. W. L. Psicologia comunitária. Universitas: ciências da saúde, Bra-


sília, v. 1, n. 2, 2003. Disponível em: <http://www.publicacoesacademicas.
uniceub.br/index.php/cienciasaude/article/view/511/332>. Acesso em: 2
jul. 2014.

GONÇALVES, M. A.; PORTUGAL, F. T. Alguns apontamentos sobre a tra-


jetória da Psicologia social comunitária no Brasil. Psicol. Cienc. Prof., Bra-
sília, v. 32, número especial, 2012. Disponível em: <http://www.scielo.br/
scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932012000500010&lng=pt&
nrm=iso>. Acesso em: 3 jul. 2014.

MACHADO, L. D.; LAVRADOR, M. C. C.; BARROS, M. E. B. de (Org.). Tex-


turas da psicologia: subjetividade e política no contemporâneo. São Paulo:
Casa do Psicólogo, 2001.

NOVARA, E. Promover os talentos para reduzir a pobreza. Estud. Av., São


Paulo, v. 17, n. 48, ago. 2003. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.
php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142003000200009&lng=pt&nrm=i
so>. Acesso em: 3 jul. 2014.

PEREIRA, E. Tecendo diálogos entre socionomia e psicologia comunitá-


ria. Rev. Bras. Psicodrama, São Paulo, v. 17, n. 1, 2009. Disponível em: <http://
pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-5393200900
0100006&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 3 jul. 2014.

RAMOS, C.; CARVALHO, J. E. C. de. Espaço e subjetividade: formação e


intervenção em psicologia comunitária. Psicol. Soc., Porto Alegre, v. 20, n.
2, ago. 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_
arttext&pid=S0102-71822008000200004&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em:
5 jul. 2014.
282 • POSSIBILIDADES

RIOS, L. F. Indisciplina: apontamentos de um (etno)psicólogo clínico so-


bre as políticas do saber no campo psi (e adjacências). In: MEDRADO, B.;
GALINDO, W. (Org.). Psicologia social e seus movimentos: 30 anos de Abrapso.
Recife: Abrapso/UFPE, 2011. p. 295-316.

SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS DA PRESIDÊNCIA DA REPÚ-


BLICA. Programa Nacional de Direitos Humanos – PNDH – 3. Brasília: SEDH/
PR, 2010.
Sobre os autores

Alessandro de Oliveira dos Santos: Mestre e doutor em Psicologia,


professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo
(USP) e pesquisador do Núcleo de Estudos e Prevenção da Aids (Ne-
paids) da USP. Tem experiência na produção de materiais teóricos e
técnicos sobre promoção de direitos e prevenção às DSTs/Aids e ao
uso abusivo de álcool/drogas. Contato: alos@usp.br

Amanda K. C. Guedes: Graduanda em Psicologia pela Universidade


Federal de Pernambuco (UFPE). Foi estagiária no Programa de Edu-
cação pelo Trabalho para a Saúde (PET – Saúde/Redes), trabalhando
com a perspectiva de pesquisa-intervenção na temática de prevenção
às doenças crônicas. Participou do Projeto de Extensão Palhaçotera-
pia (Perto) da UFPE e integrou a equipe “Chá de Damas” do Progra-
ma Diálogos Suape. Contato: amanda.cavalcantig@hotmail.com

Ana Carolina Cordeiro: Mestranda em Antropologia pela Univer-


sidade Federal de Pernambuco (UFPE). Formada em bacharelado no
curso de Ciências Sociais pela UFPE. Participa do Núcleo de Pesqui-
sas Família, Gênero e Sexualidade (Fages) e também é vinculada ao
Grupo de Estudos sobre Masculinidades (Gema/UFPE). Integrou a
equipe “Mulheres e Educação para Cidadania” do Programa Diálogos
Suape. Contato: ana_carola.6@hotmail.com

Ana Letícia Veras: Graduanda em Ciências Sociais pela Universidade


Federal de Pernambuco (UFPE), com grande interesse por antropo-
logia social, compondo o Grupo de Estudos sobre Saúde Indígena
que integra o Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Etnicidade, desen-
volvendo pesquisa na área de meio ambiente, saúde e etnodesenvol-
vimento. Integrou a equipe “Chá de Damas” do Programa Diálogos
Suape. Contato: analeticiaveras@gmail.com

Ana Luísa Cataldo: Graduada em Psicologia pela Universidade Fe-


deral de Alagoas (Ufal), mestranda em Psicologia pelo Programa de
Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Pernambu-
284 • Contextos, desafios e possibilidades da pesquisa-intervenção-pesquisa

co (UFPE) e pesquisadora do Núcleo Feminista de Pesquisas em Gê-


nero e Masculinidades (Gema/UFPE). Integrou a equipe “Homens,
Gênero e Saúde: Diálogos com os Trabalhadores das Terceirizadas”
do Programa Diálogos Suape. Contato: analuisacataldos@gmail.com

Andréa Paula da Silva: Graduanda em Psicologia pela Universida-


de Federal de Pernambuco (UFPE). Compõe a equipe do Grupo de
Estudos sobre Masculinidades (Gema/UFPE). Integrou a equipe de
estagiários do projeto “Homens, Gênero e Saúde: Diálogos com os
Trabalhadores das Terceirizadas” do Programa Diálogos Suape.
 
Anna de Cássia P. de Lima: Graduanda em Psicologia pela Univer-
sidade Federal de Pernambuco (UFPE). Compõe a equipe do Núcleo
Feminista de Pesquisas em Gênero e Masculinidades (Gema/UFPE).
Integrou a equipe de estagiários do projeto “Homens, Gênero e Saú-
de: Diálogos com os Trabalhadores das Terceirizadas” do Programa
Diálogos Suape.

Benedito Medrado: Doutor em Psicologia Social pela Pontifícia


Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Atualmente, é pro-
fessor adjunto da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE),
vinculado aos cursos de graduação e pós-graduação em Psicologia
e colaborador do Programa de Pós-graduação em Estudos sobre a
Mulher da Universidad de Valência (Espanha). Desenvolve projetos
que aliam ensino, pesquisa e extensão em temas relativos a gênero,
saúde e sexualidade. É líder do Grupo de Estudos sobre Masculinida-
des (Gema/UFPE) e bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq.
Coordenou a equipe “Homens, Gênero e Saúde: Diálogos com os Tra-
balhadores das Terceirizadas” do Programa Diálogos Suape. Contato:
beneditomedrado@gmail.com

Camila Santos: Psicóloga e terapeuta comunitária em formação.


Participou de projetos sociais, atuando com população em situação
de vulnerabilidade, assim como do projeto Escola Legal do Governo
Federal, atuando como mediadora em escolas públicas. Integrou a
equipe “Caravana da Cidadania” do Programa Diálogos Suape. Con-
tato: camila.santos_cbs@yahoo.com.br
Sobre os autores • 285

Cinthia Oliveira: Doutoranda do Programa de Pós-graduação em


Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). É
graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco
(UFPE), mestra em Psicologia pelo Programa de Pós-graduação em
Psicologia da UFPE e pesquisadora do Laboratório de Estudos sobre
a Sexualidade Humana (UFPE) e do Núcleo de Pesquisa Modos de
Vida, Família e Relações de Gênero (Margens) da UFSC. Integrou a
equipe “Observatório Suape” do Programa Diálogos Suape. Contato:
cinthiaopsi@gmail.com

Claudemir Silva Filho: Graduando em Psicologia pela Universi-


dade Federal de Pernambuco (UFPE). Compõe a equipe do Grupo
de Estudos sobre Masculinidades (Gema/UFPE). Integrou a equipe
de estagiários do projeto “Homens, Gênero e Saúde: Diálogos com
os Trabalhadores das Terceirizadas” do Programa Diálogos Suape.

Cristiano C. Ferreira: Graduando do curso de Pedagogia da Univer-


sidade Federal de Pernambuco (UFPE) e aluno integrante do Grupo
de Estudo e Pesquisa em Linguagem, Leitura e Letramento (Gepelll).
Participa do Coletivo de Diversidade Sexual e de Gênero Além do
Arco-íris. É pesquisador nas áreas de diversidade sexual e de gênero
e cultura africana. Integrou a equipe “Chá de Damas” do Programa
Diálogos Suape. Contato: chryscavalcante@gmail.com

Daniel K. dos Santos: Doutorando do Programa de Pós-graduação


em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e
pesquisador do Núcleo de Pesquisa Modos de Vida, Família e Rela-
ções de Gênero (Margens). Contato: dakerry@gmail.com

Danielly Spósito: Doutora em Estudos de Gênero pela Universida-


de de Valência (Espanha) e assistente social do Instituto Federal de
Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco (IFPE), vinculada ao
curso de graduação da Faculdade Anchieta do Recife e ao curso de
pós-graduação da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).
Concluiu Serviço Social pela Unicap. É mestra em Educação Brasilei-
ra pela Universidade Federal do Ceará (UFC), em Gênero e Políticas
de Igualdade. Coordena o Grupo de Pesquisa e Estudos de Políticas
286 • Contextos, desafios e possibilidades da pesquisa-intervenção-pesquisa

Públicas: Gestão e Avaliação do IFPE e compõe o Núcleo de Pesquisas


em Gênero e Masculinidade da Universidade Federal de Pernambuco
(UFPE). Integrou a equipe “Mulheres e Educação para Cidadania” do
Programa Diálogos Suape. Contato: danysposito@gmail.com

Dayse A. dos Santos: Graduada em Ciências Sociais, mestra e dou-


tora em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco
(UFPE). Atualmente, realiza estagio pós-doutoral no Programa de
Pós-graduação em Antropologia da UPFE, no qual atua como pes-
quisadora do Núcleo de Família, Gênero e Sexualidade (Fages).

Douglas B. de Oliveira: Graduando do curso de Psicologia pela Uni-


versidade Federal de Pernambuco (UFPE) e estagiário no Tribunal de
Justiça do Estado de Pernambuco, lotado na Vara de Infância e Juven-
tude da comarca de Jaboatão dos Guararapes. Integrou o Laboratório
de Interação Social Humana (LabInt) do Departamento de Psicologia
da UFPE, pesquisando as representações sociais sobre a gravidez na
adolescência. Integrou a equipe “Chá de Damas” do Programa Diálo-
gos Suape. Contato: psycho.dog.7@hotmail.com

Flávia Lucena: Jornalista, coordenadora do projeto “Mulheres e


Educação para Cidadania” do Programa Diálogos Suape e integran-
te da equipe de coordenação de projetos do Centro das Mulheres do
Cabo. Contato: flaviamlucena@ig.com.br

Felipe Alves: Graduando em Psicologia pela Universidade Federal de


Pernambuco (UFPE). Compõe a equipe do Núcleo Feminista de Pes-
quisas em Gênero e Masculinidades (Gema/UFPE). Integrou a equipe
de estagiários do projeto “Homens, Gênero e Saúde: Diálogos com os
Trabalhadores das Terceirizadas” do Programa Diálogos Suape.

Gabriela A. Diaz: Graduada em Psicologia pela Universidade do


Vale do Itajaí (Univali) e mestra em Psicologia pela Universidade Fe-
deral de Santa Catarina (UFSC). Atualmente, é doutoranda em Psi-
cologia pela UFSC e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa Modos de
Vida, Família e Relações de Gênero (Margens). Contato: gavypsi@
yahoo.com.br
Sobre os autores • 287

Gabriela Cordeiro: Mestranda em Antropologia pela Universidade


Federal de Pernambuco (UFPE), graduada em Psicologia pela UFPE
e pesquisadora associada ao Núcleo Feminista de Pesquisas em Gê-
nero e Masculinidades (Gema/UFPE). Integrou a equipe “Mulheres
e Educação para Cidadania” do Programa Diálogos Suape. Contato:
gabrielaregina88@hotmail.com

Jaileila Menezes: Doutora em Psicologia pela Universidade Federal


do Rio de Janeiro (UFRJ), professora adjunta da Universidade Fede-
ral de Pernambuco (UFPE) e pesquisadora vinculada ao Programa
de pós-graduação em Psicologia da UFPE, orientando dissertações e
teses na linha de pesquisa Processos Psicossociais, Poder e Práticas
Coletivas. Pesquisa as temáticas: participação política, juventude e
projeto de vida, movimentos sociais. Integra o Grupo de Estudos e
Pesquisas sobre Poder, Cultura e Práticas Coletivas (Gepcol). Coorde-
nou as equipes “Chá de Damas” e “Ação Juvenil” do Programa Diálo-
gos Suape. Contato: jaileila.araujo@gmail.com

Jorge Lyra: Professor dos cursos de Graduação e Pós-graduação em


Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Psicólo-
go e graduado em Psicologia pela (UFPE), mestre em Psicologia Social
pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e doutor
em Ciências (Saúde Pública) pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)/
Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães (CPqAM)/Núcleo de Estudos
em Saúde Coletiva (Nesc), com estágio de doutorando no exterior
(PDDE/Capes) na Universidad Autonoma de Barcelona. É líder do
Núcleo Feminista de Pesquisas em Gênero e Masculinidades (Gema/
UFPE). Coordenou a equipe “Mulheres e Educação para Cidadania”
do Programa Diálogos Suape. Contato: jorglyra@gmail.com

Karla Galvão Adrião: Psicóloga, mestra em Linguística pela Univer-


sidade Federal de Pernambuco (UFPE) e doutora em Ciências Huma-
nas com área de concentração em estudos de gênero pela Universidade
Federal de Santa Catarina (DICH/UFSC). É professora do Programa
de Pós-graduação em Psicologia da UFPE e pesquisadora do Labora-
tório de Estudos da Sexualidade Humana (LabESHU) e do Núcleo
de Pesquisa Modos de Vida, Família e Relações de Gênero (Margens).
288 • Contextos, desafios e possibilidades da pesquisa-intervenção-pesquisa

Coordenou as equipes “Chá de Damas” e “Ação Juvenil” do Programa


Diálogos Suape. Contato: galvaoadriao@gmail.com

Luís Felipe Rios: Psicólogo pela Universidade Federal de Pernambu-


co (UFPE), mestre em Antropologia pela (UFPE) e doutor em Saúde
Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Atual-
mente, é professor associado I da UFPE, coordenador do Programa
de Pós-graduação em Psicologia e líder do Laboratório de Estudos
da Sexualidade Humana (LabESHU). É bolsista de produtividade em
pesquisa do CNPq. Coordenou o Programa Diálogos Suape. Contato:
lfelipe.rios@gmail.com

Marcelo Peixoto: Arte-educador do movimento de luta contra a


Aids. Atua com formação de profissionais e multiplicadores comuni-
tários em promoção de saúde sexual masculina e prevenção do HIV/
DSTs/hepatites. Produziu diversos materiais educativos. Contato:
marcelopeixoto1950@hotmail.com

Maria Aparecida Araujo Santos: Graduada em Administração de


Empresas. Integrante da equipe de educadoras do Centro das Mulhe-
res do Cabo. Educadora do projeto “Mulheres e Educação para Cida-
dania” do Programa Diálogos Suape. Contato: cida@mulheresdocabo.
org.br

Maria Betânia Lins: Graduada em Psicologia pela Faculdade de


Ciências Humanas Esuda. Especialista em Atenção e Promoção da
Saúde da Família nos Aspectos Psicossociais pela Faculdade Paula
Frassinette (Fafire). Tem formação em socioeducação pela Faculdade
Mauricio de Nassau, relações interpessoais pela Funase e gestão em
pessoas pela UFPE. Atuou como psicóloga na Prefeitura Municipal
do Cabo de Santo Agostinho (Secretaria de Promoção Social e da Mu-
lher) no Centro de Referência Assistência Social (Cras) Integrou as
equipes “Conhecer o Território” e “Observatório Suape” do Programa
Diálogos Suape. Contato: mbelamorim@hotmail.com

Maria Juracy F. Toneli: Professora titular do Departamento de Psi-


cologia e do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universi-
dade Federal de Santa Catarina (UFSC). Bolsista de produtividade do
CNPq. Graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Minas
Sobre os autores • 289

Gerais (UFMG), mestra em Educação pela UFSC e doutora em Psi-


cologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade
de São Paulo (USP). Realizou pós-doutorado pela Psicologia Social
na UFMG e na Universidade do Minho/Portugal. É coordenadora
do Núcleo de Pesquisa Modos de Vida, Família e Relações de Gênero
(Margens). Contato: juracy.toneli@gmail.com

Marília dos S. Amaral: Mestra em Psicologia pela Universidade Fe-


deral de Santa Catarina (UFSC) e graduada em Psicologia pelo Cen-
tro Universitário Franciscano. É doutoranda do Programa de Pós-gra-
duação em Psicologia da UFSC e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa
Modos de Vida, Família e Relações de Gênero (Margens). Contato:
mariliapsico@hotmail.com

Michael Machado: Professor assistente I em Saúde Coletiva na


Universidade Federal do Piauí (UFPI), psicólogo pela Universidade
Federal de Alagoas (Ufal), mestre em Psicologia pela Universidade
Federal de Pernambuco (UFPE) e pesquisador do Núcleo de Estu-
dos em Saúde Pública (Nesp/UFPI/Campus Parnaíba). Tem experi-
ência na área de saúde pública com ênfase em gênero. Integrou a
equipe “Homens, Gênero e Saúde: Diálogos com os Trabalhadores
das Terceirizadas” do Programa Diálogos Suape. Contato: michael.
mmachado@gmail.com

Nivete Azevedo: Graduada em Geografia. É coordenadora-geral do


Centro das Mulheres do Cabo. Contato: nivete@mulheresdocabo.
org.br

Rafael de F. D. Acioly: Mestre em Antropologia pela Universidade


Federal de Pernambuco (UFPE) e graduado em Ciências Sociais pela
UFPE. Atualmente, exerce a função de educador social no Instituto
Papai e tem experiência na área de antropologia, com ênfase em teoria
da antropologia, metodologia, sexualidade, gênero, geração, saúde e
corpo. Contato: aciolyrafael@gmail.com

Regina Figueiredo: Doutoranda em Saúde Pública pela Universi-


dade de São Paulo (USP), socióloga e mestra em Antropologia da
Saúde pela USP. Pesquisadora científica do Instituto de Saúde da
Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, membro do Núcleo
290 • Contextos, desafios e possibilidades da pesquisa-intervenção-pesquisa

de Estudos para a Prevenção da Aids (Nepaids-USP), articuladora


nacional da Rede Brasileira de Informações e Disponibilização da
Contracepção de Emergência (Rede CE) e membro do Consórcio La-
tinoamericano de Anticoncepción de Emergencia (Clae). Contato:
reginafigueiredo@uol.com.br

Renata E. de S. Nunes: Psicóloga, especialista em avaliação e reabi-


litação neuropsicológica e em neuropsicologia da educação pelo Pro-
grama de Pós-graduação da Faculdade de Ciências Humanas Esuda.
Tem experiência nas áreas de psicologia clínica, escolar, social, comu-
nitária e avaliação e reabilitação neuropsicológica. Integrou a equi-
pe “Caravana da Cidadania” do Programa Diálogos Suape. Contato:
renata_e_s@hotmail.com

Rocio del Pilar Bravo Shuña: Mestra em Psicologia, integrante do


Laboratório de Estudos de Sexualidade Humana (LabESHU) da Uni-
versidade Federal de Pernambuco (UFPE) e graduada em Psicologia
pela Faculdade de Psicologia da Universidad Nacional Mayor de San
Marcos em Lima (Peru). Atua principalmente nos seguintes temas:
estudos de gênero, políticas públicas, juventude, direitos sexuais e re-
produtivos. Integrou a equipe “Ação Juvenil” do Programa Diálogos
Suape. Contato: rociodelpilar.bravo@gmail.com

Rosangela S. de Souza: Mestra em Antropologia. Tem experiência na


área de ciências sociais com ênfase em antropologia – família, gênero e
sexualidade. É pesquisadora do Núcleo de Família, Gênero e Sexualida-
de (Fages) do Programa de Pós-graduação em Antropologia da UFPE.

Russell P. Scott: Professor titular de Antropologia do Departamento


de Antropologia e Museologia da Universidade Federal de Pernam-
buco (UFPE), graduado em Línguas Contemporâneas (concentração:
Espanhol) pelo Hamilton College, mestre em Latin American Studies
pelo Institute of Latin American Studies da University of Texas em
Austin e doutor em Antropologia pela University of Texas. Já passou
temporadas como professor e pesquisador visitante nas Universida-
des de Georgetown (1984-1985), Harvard (1991-1993) e Salamanca
(2006-2007). É líder do Núcleo de Família, Gênero e Sexualidade (Fa-
Sobre os autores • 291

ges) do Programa de Pós-graduação em Antropologia da UFPE. Con-


tato: rparryscott@gmail.com

Sarana M. de S. Santos: Graduanda no curso de Psicologia pela Uni-


versidade Federal de Pernambuco (UFPE) e integrante do Laboratório
de Estudos da Sexualidade Humana (LabESHU), pesquisando sobre a
homofobia e processos de subjetivação na comunidade homossexual
do Recife. Integrou a equipe “Chá de Damas” do Programa Diálogos
Suape. Contato: sarana_santos@hotmail.com

Sirley Vieira da Silva: Mestre em Antropologia pelo Programa de


Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pernam-
buco (UFPE), graduado em Ciências Sociais pela Universidade Fede-
ral Rural de Pernambuco (UFRPE) e professor da Pós-graduação em
Saúde Pública, Saúde Mental e Dependência Química da Faculdade
de Ciências Humanas Esuda. Integrou a equipe “Homens, Gênero e
Saúde: Diálogos com os Trabalhadores das Terceirizadas” do Progra-
ma Diálogos Suape. Contato: sirleyvieira@gmail.com

Tacinara N. de Queiroz: Doutoranda em Psicologia pela Univer-


sidade Federal de Pernambuco (UFPE) e mestra em Psicologia pela
UFPE. Pesquisa temas como sexualidades, infância e juventude, tec-
nologias da informação e comunicação, processos psicossociais, po-
der e práticas coletivas. É pesquisadora do Laboratório de Estudos
da Sexualidade Humana (LabESHU). Integrou as equipes “Ação Juve-
nil”, “Caravana da Cidadania” e “Observatório Suape” do Programa
Diálogos Suape. Contato: tacinq@hotmail.com

Talita Rodrigues: Graduanda em Psicologia pela Universidade


Federal de Pernambuco (UFPE), integrando o Grupo de Estudos
sobre Masculinidades (Gema/UFPE). Integrou a equipe “Mulheres
e Educação para Cidadania” do Programa Diálogos Suape. Conta-
to: tali.gues@gmail.com

Telma Low: Psicóloga pela Universidade Federal de Pernambuco


(UFPE), especialista em Psicologia Social Comunitária, mestra em
Género y Políticas de Igualdad e doutora em Estudios de Género,
292 • Contextos, desafios e possibilidades da pesquisa-intervenção-pesquisa

ambos os cursos vinculados ao Institut Universitari d’Estudis de la


Dona da Universitat de València (Espanha). Atualmente, é professora
adjunta do curso de Psicologia da Universidade Federal de Alagoas
(Ufal). Integrou a equipe “Mulheres e Educação para Cidadania” do
Programa Diálogos Suape. Contato: telmalow@gmail.com

Tulio Quirino: Graduado em Psicologia pela Universidade Federal do


Vale do São Francisco (Univasf) e mestre em Psicologia pela Univer-
sidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente, é doutorando do
Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFPE. Integrou a equipe
“Homens, Gênero e Saúde: Diálogos com os Trabalhadores das Tercei-
rizadas” do Programa Diálogos Suape. Contato: trlquirino@gmail.com

Verônica Carrazzone: Mestra em Ciências Sociais pela Universidade


Federal de Pernambuco (UFPE), graduada em Psicologia e em Educa-
ção Artística pela UFPE, especialista em Psicologia Escolar e Clínica
Infantil e terapeuta comunitária pela Universidade Federal do Ceará
(UFC). Atualmente, é vice-presidente da ONG Espaço Família, mem-
bro da Diretoria da Associação Brasileira do Ensino da Psicologia
(Abep), colaboradora da comissão de Educação do CRP 02, professora
e coordenadora de curso de graduação em Psicologia, pesquisadora na
área de violência, organização social e assentamento rural, com atua-
ção na área de psicologia escolar, clínica e social comunitária. Faz parte
da Conexão de Saberes (MEC/UFPE) e do Gerenciamento das Ações
da Reforma Agrária (MDA/IICA). Coordenou a equipe “Caravana da
Cidadania” do Programa Diálogos Suape. Contato: vecaz@bol.com.br

Wedna C. M. Galindo: Psicóloga, mestra em Sociologia e doutora


em Psicologia Clínica. Desenvolve atividades como docente na Uni-
versidade Federal de Pernambuco (UFPE). Acumula experiências de
trabalho com psicologia em diversos campos: psicoterapia em con-
sultório particular, assessoria a pesquisas, unidades de saúde do Sis-
tema Único de Saúde (SUS/Recife), assessoria a movimentos sociais.
Integrou a equipe do “Chá de Damas” do Programa Diálogos Suape.
Contato: wedna.galindo@gmail.com
“Crescimento Econômico, Cidadania, Saúde: Contextos, desafios e
possibilidades da pesquisa-intervenção-pesquisa em direitos sexuais
e reprodutivos” é o quarto livro da série Gênero, Sexualidade e
Di­reitos Humanos, publicada pelo Laboratório de Estudos da Se-
xualidade Humana. Os textos aqui reunidos apresentam as possi-
bilidades, desafios e limites da pesquisa-intervenção-pesquisa no
campo da promoção da saúde e cidada­nia por meio de um uso
consistente de gênero e sexualida­de como conceitos capazes de,
ao mesmo tempo, analisar a realidade social e melhor qualificar o
marco normativo dos direitos sexuais e reprodutivos.

Realização:

Apoio:

View publication stats