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Práticas educativas dos serviços dirigidos a trabalhadores(as) do sexo em


Portugal

Article  in  Saude e Sociedade · June 2017


DOI: 10.1590/s0104-12902017160804

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Marta Graça Manuela Gonçalves


University of Aveiro University of Aveiro
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571
Práticas educativas dos serviços dirigidos a
trabalhadores(as) do sexo em Portugal1
Educational practices of services for sex workers in Portugal

Marta Graça Resumo


Universidade de Aveiro. Departamento de Educação e Psicologia.
Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação Os projetos de educação social e em saúde dirigidos
de Formadores. Aveiro, Portugal.
a trabalhadores(as) do sexo são sobretudo desenvol-
E-mail: msgraca@yahoo.com
vidos por organizações não governamentais. Essas
Manuela Gonçalves organizações têm diferentes perspectivas sobre a
Universidade de Aveiro. Departamento de Educação e Psicologia.
prostituição, entendendo-a como opressão ou tra-
Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação
de Formadores. Aveiro, Portugal. balho. No entanto, pouco é conhecido sobre a forma
E-mail: manuelag@ua.pt como essas perspectivas moldam suas práticas
educativas. Neste estudo qualitativo, pretende-se
identificar as ações educativas empreendidas pelas
23 organizações que dirigem serviços a trabalha-
dores(as) do sexo em Portugal, tendo em conta as
perspectivas em que se inserem. A partir dos três
paradigmas teóricos presentes na literatura sobre
o trabalho sexual – opressão, empoderamento e
polimorfo (neutro) –, estabelecemos ligação com a
perspectiva institucional sobre o trabalho sexual.
Concluímos que as ações educativas são influencia-
das pelas visões sobre a prostituição; incidem pre-
dominantemente na educação em saúde e, de forma
menos expressiva, focalizam no desenvolvimento
de competências sociais e no empoderamento. Não
obstante a importância e a relevância do trabalho
dessas organizações, evidencia-se a necessidade de
uma avaliação mais estruturada e participada das
ações, que devem promover a participação dos(as)
trabalhadores(as) do sexo no planejamento, na im-
plementação e na avaliação dos projetos que lhes
são dirigidos.
Palavras-chave: Educação Não Formal; Trabalho
Sexual; Organizações.

Correspondência
Marta Graça
Campus Universitário de Santiago, 3810-193. Aveiro, Portugal.

1 Pesquisa financiada pela Feder através do Programa Operacional Fatores de Competitividade (Compete), pela Fundação para a Ciência
e a Tecnologia (FCT), projeto PEst-C/CED/UI0194/2013 e pela bolsa de doutoramento da FCT (SFRH/BD/78139/2011).

DOI 10.1590/S0104-12902017160804 Saúde Soc. São Paulo, v.26, n.2, p.571-583, 2017 571
Abstract Introdução
Health and social education projects for sex work- A educação não formal (ENF), definida como uma
ers are run mainly by nongovernmental organiza- atividade baseada em fundamentos educacionais
tions. These organizations have different perspec- e pedagógicos que se desenvolve em organizações
tives regarding prostitution, seeing it as either educacionais e da comunidade exteriores à escola,
oppression or as work. However, little is known implicando atributos únicos, contextos específi-
about how their ideological stance shapes their cos e metodologia característica (Romi; Schmida,
educational practices. In this qualitative study, we 2009), encontra-se associada a movimentos sociais
aim to identify educational initiatives undertaken que almejam a mudança da sociedade (Finger,
by the 23 agencies that provide services for sex 2005). Caracteriza-se pela flexibilidade, abertura
workers in Portugal, considering their respective à mudança, capacidade de adaptação a populações
stances on the subject. We link their perspectives heterogêneas, com muitas e diversas necessidades
on sex work with the three theoretical paradigms educacionais (Romi; Schmida, 2009), assumindo-
in sex work literature: oppression, empowerment -se como um processo de aquisição e conjunto de
and polymorphous (neutral). We concluded that competências, destrezas e atitudes adquiridas com
educational initiatives are influenced by views on estímulos diretamente educativos em atividades
prostitution. These are focused mainly on health não confirmadas pelo sistema escolar (Touriñán
education; and, in at lesser degree, on developing López, 1996). Essas aquisições contribuem para o
social skills and on empowerment. Despite the exercício pleno de uma cidadania ativa, consciente
importance and relevance of these organizations’ e emancipatória, contemplando as diversas dimen-
work, the findings highlight the need for more sões do desenvolvimento e da satisfação humana.
structured and participatory initiatives, which Enquanto processo de aprendizagem, a ENF parte
should seek to encourage sex workers’ participa- do entendimento dos sujeitos como portadores
tion in the design, implementation and evaluation de capacidade e poder de acrescentar mais e me-
of projects that concern them. lhores competências à sua realização pessoal em
Keywords: Non-formal Education; Sex Work; uma participação ativa na sociedade (Freire, 1972).
Organizations. Desse modo, a educação deve ser entendida como
processo dialógico do aperfeiçoamento humano,
concretizando-se no plano dos direitos humanos e
das liberdades fundamentais (Amado, 2013).
As práticas educativas associadas à ENF são
maioritariamente empreendidas por organizações da
sociedade civil e assumem as mais diversas formas,
muitas vezes ligadas à intervenção comunitária, à
ação social ou à animação sociocultural; e encontram-
-se normalmente integradas em programas com
objetivos sociais mais amplos (Luque, 1997), como é
o caso do trabalho desenvolvido por programas e or-
ganizações não governamentais (ONG) com pessoas
que se prostituem. Essas organizações assumem um
papel preponderante, na medida em que desenvolvem
espaços e tempos educativos mais próximos dos ci-
dadãos e conseguem fornecer respostas imediatas e
adaptadas às necessidades prementes.
Em Portugal, a intervenção educativa desen-
volvida com os(as) trabalhadores(as) do sexo (TS)

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centra-se sobretudo numa abordagem de educação e a última, por sua vez, ao modelo dialógico, centra-
em saúde, no sentido da redução de riscos e minimi- da numa abordagem crítica, reflexiva e no diálogo
zação de danos, prevenção das doenças sexualmente (Figueiredo; Rodrigues-Neto; Leite, 2010).
transmissíveis (DST), como a hepatite B, a sífilis e o As iniciativas de educação em saúde, com os(as)
HIV/aids (Coutinho; Oliveira, 2014; Maia; Rodrigues, TS, assumem sobretudo um cariz epidemiológico
2014; Oliveira, 2011). (Coutinho; Oliveira, 2014; Maia; Rodrigues, 2014;
Muito embora, no decorrer das últimas décadas, Oliveira, 2011), o que pode remeter para a preva-
assistimos à transformação dos conceitos quer de lência de dispositivos de controle sobre o corpo
educação, quer de saúde, alargando os espectros a e a sexualidade, consolidada numa estratégia de
outros contextos, formas e atores (Feio; Oliveira, Saber-Poder (Foucault, 1990) para a vigilância
2015), existe ainda pouco conhecimento sobre as higiénico-sanitária dos(as) TS com benefícios para
práticas educativas empreendidas pelas ONG com a saúde pública, tal como ocorreu no passado com
os(as) TS, suas potencialidades e limitações. a proliferação de discursos sobre a sexualidade
A educação em saúde é considerada uma ati- (Foucault, 1990). É possível que essa abordagem se
vidade de promoção de saúde, relacionada com o enquadre no advento da aids e na construção pro-
empoderamento dos sujeitos, no sentido destes babilística do risco (Almeida Filho, 1989), uma vez
adquirirem um maior controle sobre os fatores que que a prostituição encontra-se associada à atividade
afetam a saúde. Ewles e Simnett (2003) distinguem sexual com diversos parceiros e, por isso, sujeita a
cinco abordagens de promoção de saúde: (1) a abor- um risco ocupacional (Ross et al., 2012). Justifica-se,
dagem médica, que recorre a métodos de interven- por essa via, a centralidade da educação em saúde e,
ção persuasivos e paternalistas; (2) a abordagem consequentemente, a relativa escassez de estudos
de mudança comportamental, que visa encorajar a sobre a intervenção socioeducativa dessas organi-
adoção de um estilo de vida saudável; (3) a aborda- zações, numa perspectiva mais abrangente – com
gem educativa, na qual se inclui o facultar informa- exceção de Ayuste González e Payá Sánchez (2014).
ção, assegurar o conhecimento e compreensão de Vários estudos apontam que o preservativo é
questões ligadas com a saúde e permitir a tomada usado com frequência nas relações sexuais comer-
de decisão informada; (4) a abordagem centrada no ciais (Day, 1988; Mckeganey; Barnard, 1996; Ward
cliente, em que o papel do educador é de facilitador et al., 1993), sendo que é nas relações íntimas e
no processo de ajudar as pessoas a identificar as com clientes habituais que se pratica mais sexo
preocupações, a adquirir conhecimento e competên- sem preservativo (Oliveira, 2011; Ward et al., 1993).
cias para a mudança. Nessa abordagem os sujeitos Outras investigações demonstram ainda uma pre-
são considerados como iguais, com conhecimento, valência baixa de HIV entre os TS na Europa, com a
competências e capacidades de assumir controle exceção de consumidores de drogas intravenosas,
sobre suas vidas, estando presente o constructo de e migrantes de países onde o HIV é endémico, que
empoderamento; (5) a abordagem de mudança da são infetados no país de origem e não no país de
sociedade, que se propõe a efetuar mudanças no acolhimento (Gaffney et al., 2008). No entanto, em
ambiente físico, social e econômico, e se incluem Portugal, a prevalência de infeção pelo HIV é ainda
os que defendem que têm o direito democrático de bastante alta entre os(as) TS, pelo que são recomen-
mudar a sociedade e estão comprometidos em colo- dados esforços no sentido da promoção do diagnós-
car a saúde na agenda política. A essas abordagens tico e prevenção sobretudo com os subgrupos mais
correspondem três gerações diferentes de educação vulneráveis ao risco, por exemplo, TS masculinos e
em saúde em função do seu foco: transmissão de transgênero (Dias et al., 2014).
informação; mudança comportamental; e promoção A partir da revisão da literatura sobre riscos de
da capacidade individual (Feio; Oliveira, 2015) As saúde, ocupação e segurança no trabalho sexual,
primeiras abordagens encontram-se associadas à Ross et al. (2012) salientam que os riscos ocupacio-
concepção de educação bancária (Freire, 1972), isto nais associados ao trabalho sexual ultrapassam
é, a um modelo tradicional de educação em saúde, as DST. Nessa sequência, enfatizam aspectos re-

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lacionados com a saúde física e mental, bem como no trabalho sexual e a forma como se repercutem
questões associadas à segurança, nomeadamente nessas práticas.
burnout, estresse pós-traumático, estresse, de- Para o efeito, entendemos por trabalho sexual
pressão, dependência de álcool e drogas, alergia ao as situações que envolvem a troca comercial de
látex, morte, ferimentos/lesões a nível muscular e serviços sexuais, performances ou produtos, entre
do esqueleto; coação para relações desprotegidas e adultos e com consentimento, na qual se incluem
gravidez; violência e assédio perpetrados por clien- atividades de contato físico direto entre compra-
tes e/ou proxenetas. Para diversos autores (Lazarus dores e vendedores (por exemplo, a prostituição);
et al, 2012; Oliveira, 2011; Ross et al., 2012), esses e e as de estimulação sexual indireta (Oliveira, 2011;
outros riscos encontram-se associados à legislação Weitzer, 2009). Referimo-nos à prostituição como
vigente e à estigmatização das(os) TS. uma forma de trabalho sexual e utilizamos as duas
Em termos do enquadramento legal do trabalho designações indistintamente.
sexual em Portugal, não existe criminalização de
quem compra ou vende serviços sexuais, apenas é Método
punível legalmente a prática de lenocínio. O Estado
não reconhece a profissão e não existem quaisquer Participantes e respectiva seleção
medidas que protegem as condições de trabalho
e de vida dos(as) TS. Não obstante o denominado Para este estudo qualitativo, consideramos as or-
vazio legal (Oliveira, 2011), a sociedade continua a ganizações em território nacional que, à data deste
considerar os(as) TS como desviantes, na medida estudo, contemplam as(os) TS como população-alvo
em que desafiam as regras de gênero de honra/ e, portanto, desenvolvem trabalho com esses sujei-
desonra (Pheterson, 1993), imposta pela dominação tos, num total de 23.
do patriarcado (Bourdieu, 1999) e pela construção
social do gênero (Bourdieu, 1999; Scott, 1995). Técnica de recolha de dados e procedimentos
Os discursos, que (in)formam as representações so- éticos
cialmente construídas sobre a prostituição, tendem
a vulnerabilizar os(as) TS à exclusão, discriminação Foram efetuadas 23 entrevistas semiestruturadas
e estigmatização com coordenadores da equipe ou a elementos da equi-
De acordo com Weitzer (2009), os discursos pe técnica. Ressalvamos que efetuamos uma análise
sociais e científicos tendem a assumir duas posi- tendo em conta a atuação da instituição e não os
ções divergentes – uma que defende a prostituição percursos individualizados dos seus representantes.
enquanto trabalho (empoderamento) e outra que a Essas entrevistas foram realizadas entre outu-
considera uma atividade a erradicar (opressão). Para bro de 2012 e março de 2013. Os(as) entrevistados(as)
o autor, o trabalho sexual não pode ser reduzido a consentiram a participação no estudo e a gravação
um dos paradigmas, sugerindo, desse modo, o pa- em áudio das entrevistas, tendo sido as respectivas
radigma polimorfo para designar uma constelação transcrições enviadas para eles para eventuais reti-
de arranjos ocupacionais, relações de poder e expe- ficações. Retiramos, ainda, todas as referências que
riências de trabalho diferentes. Estudos recentes podiam identificar os participantes, preservando a
apontam que estes três paradigmas correspondem confidencialidade e anonimato. Esta pesquisa foi
às orientações ideológicas das organizações e mol- conduzida respeitando os princípios éticos, tendo
dam os objetivos e a prática dos serviços dirigidos sido previamente aprovada pelo Centro de Investi-
a TS (Graça; Gonçalves, 2015; Oselin; Weitzer, 2013). gação que acolhe este estudo.
Nesse seguimento, este estudo tem por obje-
tivo identificar divergências e convergências nas Procedimento de tratamento dos dados
práticas educativas não formais, empreendidas
pelas organizações que dirigem serviços a TS, em Para analisar o corpus optamos pela técnica de
Portugal, tendo em conta os paradigmas presentes análise de conteúdo das respostas, do tipo categorial

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ou temática, tendo sido considerada a técnica mais ONG, onde se incluem três de índole religiosa.
adequada pelas suas dimensões descritiva e inter- O perfil dos(as) educadores(as) entrevistados(as)
pretativa. Adotamos os princípios e procedimentos é predominantemente técnico e não existem as-
indicados na literatura especializada sobre esta sociações de profissionais do sexo em Portugal.
técnica (Strauss; Corbin, 2008) Recorremos ainda Subsistem, no entanto, ainda que de forma residual,
ao software de análise qualitativa WebQDA. organizações que integram TS como mediadores e/
ou educadores(as) de pares.
Resultados e discussão Os serviços disponibilizados encontram-se fo-
calizados sobretudo nas seguintes áreas: (1) apoio
Neste ponto apresentamos brevemente algumas à saída da atividade (opressão); (2) defesa dos di-
características das organizações e dos serviços reitos dos(as) TS, incluindo a saúde e a segurança
que disponibilizam, para posteriormente focalizar ocupacional (empoderamento); (3) redução de riscos
as iniciativas de ENF empreendidas. Procedemos e minimização de danos decorrentes do trabalho
ainda à identificação de necessidades formativas sexual (polimorfo).
e refletimos sobre a relação educativa estabelecida De forma geral, os serviços disponibilizados
entre técnicos e TS. Para esta análise estabelecemos abrangem a saúde, o apoio psicossocial e a edu-
ligação entre a perspectiva sobre a prostituição cação/formação, sendo que o apoio à saída da
identificada no discurso dos(as) entrevistados(as) atividade é efetuado por duas das organizações de
e os paradigmas presentes na literatura sobre o cariz religioso. A instituição mais antiga iniciou a
tema (Quadro 1). A categorização das posições das intervenção em 1967 e a mais recente em 2012, mas
organizações foi encontrada por meio de questão é nos anos 2000 que se regista um maior número de
aberta, sobre a forma como entendem o trabalho novas iniciativas, num total de 18, relacionado com
sexual e os atores envolvidos. a abertura de candidaturas a projetos financiados
da Direção-Geral da Saúde e, possivelmente, na
Quadro 1 – Categorias de análise sequência da integração oficial das ONG, a partir
Paradigma Argumentos N=23 de 1994, na estratégia nacional de combate à aids
olhamos a prostituição como (Lopes, 2001) Esses serviços dirigem-se sobretudo a
uma violação da dignidade e mulheres, havendo apenas um projeto especializado
Opressão dos direitos humanos e uma n=2 no atendimento a homens e outro a transgênero.
forma de violência contra a Essa opção encontra-se relacionada com a notorie-
integridade da pessoa (E5).
dade da prostituição feminina, maioritária e mais
As pessoas devem ter acessível; e com as dificuldades na acessibilidade,
assegurado os direitos e falta de recursos e conhecimentos para intervenção
Empoderamento n=11
os deveres, como outros
com homens e transgênero.
trabalhadores (E21).
Foram identificadas iniciativas educativas di-
A atividade profissional não
rigidas a três tipos de público: (1) aos(às) TS; (2) à
é igual para toda a gente.
Algumas pessoas na prostituição
comunidade e (3) a técnicos de outras organizações
incluem umas práticas que da rede de serviços local, conforme explicitamos
Polimorfo
outras não incluem, incluem em seguida.
(inclui neutro) n=10
sentimentos que outros não
incluem, incluem determinado Ações dirigidas a TS
tipo de clientes que outros não
incluem (E2).
Iniciativas de educação em saúde e social
De acordo com os resultados obtidos, a maioria
À data deste estudo, as 23 organizações que das organizações desenvolve ações de ENF para
ofereciam serviços a TS, à exceção de duas que TS, incidindo sobre as questões de saúde. Esse
pertencem ao Ministério da Saúde, são na maioria aspecto, associado aos objetivos delineados pelas

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organizações, que se centram predominantemente promoção social, encontramos ainda referência
na promoção da saúde, pode ser explicado pela a outro tipo de ações, conforme nos apresenta a
entidade financiadora e ainda pela atribuição Tabela 1. Essas ações são geralmente semiestru-
de papéis nessa área a diferentes indivíduos, turadas, informais, realizadas individualmente,
grupos e comunidades ou instituições (Feio; Oli- não obedecendo a programas pré-estabelecidos.
veira, 2015; Greene; Simons-Morton, 1988; WHO, Assumem, desse modo, características associadas
1978, 1986). Contudo, como mais da metade das a iniciativas de ENF, conforme elencadas por Romi
organizações contemplam objetivos comuns de e Schmida (2009)

Tabela 1 – Tipologia de ações de ENF dirigida a TS


Referências
ENF dirigida a TS
Opressão Empoderamento Polimorfo Total
Educação em saúde 1 11 10 22
Educação para a cidadania 1 3 5 9
Segurança na atividade prostitutiva 0 1 3 4
Curso de formação sem equivalência escolar 2 0 0 2
Educação pelos pares 0 4 2 6
Competências pessoais e sociais 2 1 5 8

Educação em saúde: a saúde como um direito fun- não discriminação e do não julgamento são essen-
damental ciais para pessoas estigmatizadas que raramente
A Organização Mundial de Saúde estabelece a se sentem confiantes para procurar ajuda nos
saúde como um direito fundamental (WHO, 1978), serviços de saúde e sociais formais.
pelo que, em todas as categorias, a saúde é aponta-
da como um aspecto prioritário, no entanto, difere Os próprios serviços de saúde ainda não estão mui-
a forma como é abordada Os(as) entrevistados(as) to, ainda há muito a fazer para mudar mentalidades
da categoria opressão consideram que é e deve ser e acabar com preconceitos e ideias pré-formadas
assegurada pelos serviços formais, e justificam a (E1 – polimorfo).
pouca iniciativa nessa área com a inclusão, empo-
deramento e rentabilização dos recursos. a questão dos transexuais, por exemplo, […] há
muitos serviços onde são discriminados, onde são
Tem a ver também com a nossa pedagogia, é impor- olhados, e aqui, as administrativas, toda a gente
tante ensinar as pessoas, não criar guetos, porque está habituada, podem vir mais espampanantes,
em guetos elas já vivem. Vamos criar outro gueto menos espampanantes (E11 – polimorfo).
com o médico, com o enfermeiro? (E12 – opressão).
No campo da educação em saúde, as organizações
Ao contrário dos(as) entrevistados(as) da cate- adotam uma abordagem educativa (Ewles; Simnett,
goria opressão, os(as) entrevistados(as) da catego- 2003; Feio; Oliveira, 2015), na prestação de informa-
ria empoderamento e polimorfo consideram que os ção genérica sobre saúde sexual e reprodutiva; sobre
serviços formais de saúde nem sempre respondem o uso correto e consistente do preservativo, bem
de forma adequada, o que justifica seu papel no como sobre os diferentes preservativos, incluindo o
âmbito da educação em saúde e a necessidade iden- feminino; sobre cuidados de higiene; sensibilizam
tificada de sensibilização nos serviços formais, de para a importância da realização do Plano Nacional
forma a diminuir o preconceito, os julgamentos de Vacinação (PNV) e rastreios a DST; prestam acon-
morais e a promover o respeito pelas pessoas. selhamento e esclarecem dúvidas. Com a exceção de
O estigma associado ao trabalho sexual tem sido uma instituição da categoria opressão, todas dispo-
apontado como uma barreira de acesso aos serviços nibilizam material preventivo, como preservativos
(Lazarus et al., 2012), pelo que os pressupostos da e lubrificantes, e algumas facultam folhetos com

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informação diversa sobre DST. A disponibilização de vadora e assistencialista, que permeou grande parte
material preventivo, a par da estratégia de outreach das ONG que desenvolviam atividade no âmbito da
(utilizada por 19 organizações), é a tática mais ado- luta contra a aids, em Portugal, até aos anos 2000
tada para contornar a dificuldade de acessibilidade (Lopes, 2001). Essas abordagens podem incorrer
inicial à população. O outreach é considerado uma na imposição de discursos de solidariedade, empo-
estratégia de alcance de grupos considerados de deramento, autoestima e inclusão social (Agustín,
difícil acesso, que não procuram os serviços formais 2007), tanto mais se tenderem a não incluir os(as)
existentes na comunidade, com o principal objetivo próprios(as) TS, enquanto agentes ativos, nos pro-
de estabelecer contacto com estes e providenciar o cessos educativos.
suporte adequado (Mikkonen et al., 2007). É diferente
dos outros serviços porque ocorre no ambiente das Promoção social: os direitos humanos em questão
populações identificadas. É menos burocrático e mais As organizações empreendem ações não formais
fácil de acessar, estando a sua potencialidade rela- focalizadas nos direitos humanos e cívicos, no de-
cionada com a redução de distâncias e o aumento de senvolvimento de competências e no empoderamen-
intimidade entre utentes e profissionais, em estabe- to Todavia, tal como na saúde, essa questão assenta
lecimento de relações de confiança (Mikkonen et al., em premissas distintas: na categoria opressão, a
2007; Porter; Bonilla, 2010). Dada esta componente prostituição constitui uma violação dos direitos
de proximidade relacional, a importância dos prin- humanos, que deve ser erradicada e as pessoas
cípios éticos e de respeito pelo outro são cruciais, o protegidas; na categoria empoderamento, a única
que conduz Mikkonen et al. (2007) a considerarem o forma de garantir direitos é pelo reconhecimento
outreach primeiramente como uma atitude e depois da atividade. A categoria polimorfa, ao contemplar
com um método. Desse modo, podemos afirmar que a diversidade, compreende a existência de situações
o outreach traduz as características inerentes à ENF, de exploração que devem ser protegidas e outras de
isto é, flexibilidade, abertura à mudança, capacidade exercício voluntário, que devem ser salvaguardadas.
de adaptação a populações diferenciadas, tal como
identificadas por autores como Romi e Schmida O nosso objetivo é contribuir para a promoção
(2009), assumindo um papel fundamental na imple- dos direitos humanos, da igualdade de género e de
mentação das iniciativas educativas. oportunidades, denunciar situações de violência de
Sobre a segurança na atividade, já foram aborda- gênero e exploração sexual, que são geradoras de
das questões de defesa pessoal e de cuidados a ter vulnerabilidade e exclusão (E5 – opressão).
com os clientes potencialmente perigosos, de forma
a protegerem a integridade física e psicológica, O modelo [jurídico] devia ser um modelo de descri-
coerente também com a perspectiva de redução de minalização com regulamentação da atividade,
riscos. A inclusão destes aspectos na agenda das com alguma regulamentação da atividade mas sem
ONG denota o reconhecimento de outros riscos as- registo obrigatório, por exemplo, e sem rastreios
sociados ao trabalho sexual, tal como elencados por obrigatórios (E14 – empoderamento).
Ross et al. (2012), alargando a visão da educação em
saúde para uma concepção mais holística. Apesar de considerarmos que as pessoas devem
No entanto, a abordagem descrita parece inscre- poder fazer escolhas livres mas informadas e cons-
ve-se num modelo substancialmente tradicional de cientes e que o nosso trabalho está exatamente aí,
educação, centrada na transmissão da informação temos também a noção de que muitas vezes associa-
e na mudança comportamental. É possível que esse do ao trabalho sexual podem estar situações muito
fato esteja relacionado com o pouco conhecimento complicadas de exploração, mesmo de tráfico e nós
e capacitação, por parte dos profissionais, para não somos coniventes com elas (E20 – polimorfo).
aplicar o modelo dialógico, conforme verificaram
Figueiredo, Rodrigues-Neto e Leite (2010), ou ainda Dessa forma, o desenvolvimento de competências
com o modelo de funcionamento de matriz conser- sociais e pessoais na categoria opressão encontra-se

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sobretudo relacionado com a procura de emprego estigma e à discriminação nos serviços públicos e
(elaborar um currículo, como procurar emprego privados, sensibilização para o atendimento e sobre
e como se comportar numa entrevista), treino e questões relacionadas com o TS e de informação
aprendizagem para o trabalho (cumprimento de um sobre o trabalho da organização/projeto, de forma
horário de trabalho) e cursos de formação profissio- a estabelecer parcerias (categoria empoderamento
nal; na categoria empoderamento com competências e polimorfo).
promotoras de saúde e cidadania; e na categoria
polimorfa com a reflexão, tomada de consciência Na medida em que houver menos preconceito mais
de si e da atividade. Esses resultados sugerem que possibilidades há destas mulheres serem atendidas
as ONG da categoria opressão estão alinhadas com como outras quaisquer, tudo depende do trabalho
uma perspectiva assistencialista de reeducação e de que se for fazendo a nível da sensibilização das
reinserção na sociedade, enquanto as outras catego- pessoas (E1 – polimorfo).
rias se aproximam mais à educação freiriana, pela
conscientização e promoção da mudança Os(as) entrevistados(as) postulam a mudança
de postura e mentalidades, de maneira a promover
Ações dirigidas à comunidade e outros técnicos a aproximação das pessoas aos serviços e destacam
a importância do respeito na relação com as(os) TS,
No que se refere às ações dirigidas à comunidade, para que dessa forma seus direitos fundamentais
podem assumir um carácter de sensibilização/infor- não se encontrem comprometidos:
mação sobre a atividade, de forma a reduzir o estigma
e a discriminação associados ao trabalho sexual Sim, coisas tão simples como tratar a pessoa pelo
(categoria empoderamento e polimorfo), ou ainda nome social e não insistir no nome legal do passa-
de prevenção de entrada na prostituição (categoria porte durante o atendimento, coisas tão básicas
opressão), como atestam os seguintes exemplos: como evitar os comentários jocosos quando passa
uma patrulha […] Porque coisas tão simples como
Há um trabalho fundamental a fazer junto da po- estas criam uma distância às vezes e uma resistên-
pulação em geral que é a luta contra o preconceito, cia a recorrer ou a serviços de saúde ou a serviços
contra o estigma, contra a segregação e, no fundo, policiais (E15 – polimorfo).
nós encaramos a saúde como um direito humano.
A saúde como direito humano engloba lutar contra a Assim, essas ações, ao implicar outros técnicos
segregação, contra o estigma, contra o preconceito, e cidadãos, realçam uma compreensão holística e
esse trabalho eu acho que tem de ser feito junto de complexa do fenômeno, alargando a concepção de
toda a população (E1 – polimorfo). saúde a outros aspectos psicossociais. Nessa lógica,
promover a saúde implica desafiar preconceitos e
Eu acho que o fundamental era trabalhar ao nível da estigma, assim como desmitificar imagens estere-
educação, ou seja, muito antes, desde pequeno […] a otipadas e representações negativas do trabalho
questão é cultural, aprender [que] recorrer à prática sexual e dos seus atores. Essa abordagem educativa
da prostituição, isso nem [é] uma opção e para isso em saúde para a mudança societal poderá constituir-
é preciso mudar [a] mentalidade (E5 – opressão). -se uma forma de derrubar barreiras e criar elos
entre categorias sociais usualmente estigmatizadas
Convém ressalvar que algumas das organiza- e a sociedade.
ções desenvolvem ações mais amplas de educação
em saúde na comunidade onde estão inseridas e Necessidades de educação/formação identificadas
destacamos que três organizações relataram que
desenvolvem ações com os clientes de sexo pago. Foram identificadas necessidades de ENF para
Quanto às ações dirigidas a outros técnicos, são TS centradas na formação de educação pelos pares,
também de sensibilização, no sentido do combate ao competências pessoais e sociais, higiene e saúde, se-

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gurança na atividade e legislação (empoderamento [a instituição] fez parte de um grupo de trabalho
e polimorfo). A menção à necessidade de educação a pedido do Conselho de Ministros para dar o seu
pelos pares denota uma aproximação das organi- parecer sobre a moldura jurídica que enquadrava a
zações do empoderamento ao modelo dialógico de prostituição e nós, naturalmente, que defendemos o
educação em saúde, mostrando coerência com os sistema abolicionista que é o que está a vigorar hoje
princípios de promoção da capacidade individual em Portugal, porque não concordávamos de modo
do sujeito. As necessidades de educação, no âmbito algum que as mulheres fossem presas pelo fato
escolar e profissional, foram identificadas nas cate- de se prostituírem, e que todos os outros agentes
gorias opressão e polimorfo, coerente também com ficassem completamente impunes, aliás o proibir
a perspectiva na qual se inserem. acho que leva à transgressão (E12 – opressão).
No que concerne à identificação de necessidades
de ENF para comunidade e técnicos, encontra-se Perante esses resultados, podemos inferir que
a legislação, isto é, transmissão de conhecimento as ONG adotam, de acordo com as categorias onde
sobre as leis que permitem a acessibilidade aos estão inseridas, abordagens centradas na mudança
serviços por parte dos(as) TS e a sensibilização para da sociedade (Ewles; Simnett, 2003), considerando
o atendimento a TS, no sentido de combate ao estig- prioritária a inclusão da discussão sobre essa maté-
ma, à discriminação, ao preconceito e à mudança de ria em termos legislativos que visem proteger os(as)
mentalidades. Os(as) entrevistados(as) reforçam a TS. Essa proteção tanto é perspectivada no sentido
necessidade de discutir sobre o trabalho sexual, no da erradicação da prostituição (opressão), como no
sentido de trazer à luz um tema que se encontra sentido do reconhecimento da profissão e respetivas
envolto em moralismo, como atestam os seguintes condições de trabalho (empoderamento).
testemunhos da categoria empoderamento e poli-
morfo respectivamente: Relação educativa centrada na pessoa

Também existe aqui um grande movimento no sen- Apesar das divergências mencionadas foi possível
tido de desmistificar estes tabus e tentar colocar verificar a prevalência de pontos comuns relativamen-
mais estas questões mesmo em termos de debate, te às características da relação educativa. Essa rela-
em termos de intervenção para ver se conseguimos ção, dita de confiança e de proximidade, parece reger-
que em termos de mentalidade também umas coisas -se por princípios enunciados por autores como Carl
se modifiquem (E16 – empoderamento). Rogers (1985) ou Paulo Freire (1972), e materializam-se
no estabelecimento de horizontalidade, empatia e
O interesse que nós temos em lutar contra os tabus, suporte, associadas à promoção do empoderamento.
contra os mitos e contra a estigmatização das pes- Como princípios rogerianos (Rogers, 1985)
soas (E20 – polimorfo). entendemos, para esta análise, exemplos como a
atitude de não julgamento, não discriminação:
Acresce ainda a preocupação de informar o po-
der político, centrada em dois polos antagónicos: Nós, profissionais de saúde, não temos que fazer
legalização do TS (categoria empoderamento) e juízos de valor, temos que cuidar (E1 – polimorfo).
erradicação da prostituição (categoria opressão).
A aceitação, o respeito pelas opções e o apoio
O Estado tem responsabilidade perante esta classe. incondicional:
E como responsabilidade que tem, deve tomar todas
as medidas para a que a legalização seja efetuada a pessoa perceber que a equipa estará aqui, indepen-
nos trâmites da lei. Como é lógico, uma sociedade dentemente das decisões que ela tomar (E5 – opressão).
tem direitos e para que haja esses direitos tem de
haver deveres, sobretudo claramente a legalização Na linha de Freire (1972), as relações estabele-
do trabalho sexual (E6 – empoderamento). cidas com os(as) TS são descritas como sendo de

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igual para igual, colaborativas, valorizando uma aquela família ou para aquela utente no fundo, mas
abordagem de proximidade, continuidade e confian- dizermos perante isto cada um de nós vai ter aqui
ça como fundamentais para o desenvolvimento de responsabilidades e compromissos e todos vamos
uma intervenção socioeducativa. Desse modo, os(as) ter de cumprir (E16 – empoderamento).
entrevistados(as) referenciam a aprendizagem mú-
tua como estratégia educativa. Nessa sequência, podemos afirmar que o tipo de
relação privilegiado pelos profissionais insere-se no
Eu tenho esta convicção, e sempre trabalhei com modelo dialógico de educação em saúde, reforçando
esta convicção, […], não vou ensinar ninguém, eu o conceito de educação de Amado (2013) como um
aprendi sempre mais do que o que ensinei, muito processo dialógico de aperfeiçoamento humano.
mais com toda a gente (E1 – polimorfo). O empoderamento guia também grande parte
das intervenções, entendido como um processo
Uma visão da educação do “ah eu vou-te ensinar, pelo qual as pessoas, organizações e comunidades
vais ver como é que é”, não é nada disso, na verdade ganham controle e habilidade sobre questões que as
nós aprendemos muito numa lógica mutualista preocupam, relacionadas com suas vidas e partici-
(E14 – empoderamento). pação democrática nas suas comunidades (Zimmer-
man; Rappaport, 1988). Neste incluímos o trabalho
Uma vez que os entrevistados acreditam no po- desenvolvido em direção à autonomia e poder de
tencial dos seus usuários: decisão, o desenvolvimento de ações que promovem
uma maior consciência de si e da atividade, a parti-
Não partimos do princípio que as pessoas são um li- cipação dos usuários na definição dos seus projetos
vro branco em que vamos escrever, não, as pessoas de vida, a informação sobre os recursos existentes
têm a sua cultura, têm as suas crenças, os seus para que as pessoas possam usufruir dos seus di-
conceitos, portanto, tem que haver uma partilha que reitos e proceder, dessa forma, a escolhas livres e
nós temos [que] ser elementos facilitadores, temos informadas. Neste ponto, as categorias divergem
de respeitar as capacidades que todas as pessoas uma vez mais na medida que o empoderamento é
têm (E1 – polimorfo) entendido ora como uma forma de libertação da
opressão masculina e estrutural que submete as
Nesse sentido, os(as) entrevistados(as) perspec- mulheres à prostituição (categoria opressão), ora
tivam-se como facilitadores(as) no processo educa- como emancipação pelo exercício voluntário do
cional, numa relação horizontal: trabalho sexual (categoria empoderamento); e ainda
como consciencialização na diversidade de situa-
Na intervenção social também passa por uma rela- ções que caracteriza o trabalho sexual (categoria
ção de igualdade e não uma relação em que eu sei e a polimorfo). Para alguns, essa forma de conduzir a
menina não sabe. Não, a menina é que sabe porque é prática é uma potencialidade da intervenção (E4,
quem está na situação e é quem me vai dizer aquilo E8, E12, E14 e E18), sendo esse pressuposto coerente
que necessita. Não sou eu que lhe vou dizer o que com os modelos de promoção da saúde, de promoção
precisa, as funções é que são outras, de resto esta- social e com a visão holística, que defende grande
mos numa situação de igualdade (E12 – opressão). parte dos participantes

Tendo por base o compromisso de ambas as Considerações finais


partes:
As ações de ENF promovidas pelas organizações
Os nossos modelos de intervenção passam muito aos(às) TS encontram-se relacionadas com as pers-
por esta filosofia do trabalho do autocuidado pectivas sobre a prostituição e centram-se no apoio
em saúde, da responsabilização, de negociação à saída da atividade; na defesa dos direitos dos(as)
também no sentido de fazermos um plano para TS; e na redução de riscos e minimização de danos.

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Quanto à redução de riscos, empreendida pelas estariam provavelmente numa situação de ainda
organizações da categoria empoderamento e poli- maior vulnerabilidade, uma vez que, por norma,
morfo, a intervenção focaliza-se principalmente na não solicitam os serviços formais. No entanto, para
educação em saúde, incidindo predominantemente reforçar consideramos que urge envolver os(as)
na prevenção de DST e HIV/aids, conforme reco- TS na concepção, implementação e avaliação de
mendações de vários organismos internacionais. serviços que lhes são dirigidos, com o objetivo de
Embora não exista um modelo específico ou comum, romper com mecanismos e processos de exclusão,
encontramos sobretudo três tipos de abordagens, estigmatização e discriminação; e adequar ações
normalmente utilizadas em promoção da saúde: a que respondam às necessidades e expectativas dos
educativa, a centrada no cliente e a de mudança da participantes, para que as práticas não assentem
sociedade. Quanto à educação em saúde e à promo- em discursos impostos de inclusão social.
ção social, nas quais se situam as práticas educati- Por fim, postulamos que, enquanto áreas do
vas das organizações, verificamos uma descrição saber, a educação e a formação, em contextos não
congruente com um modelo de educação bancária. formais, podem assumir um papel relevante quer
No entanto, a valorização da relação educativa com no âmbito da reflexão para a adequação de propos-
base em princípios rogerianos e a focalização no tas educativas que contemplem as necessidades
empoderamento dos sujeitos permite-nos inferir dos(as) TS, quer no âmbito formativo dos educado-
que os profissionais adotam modelos dialógicos de res que estabelecem relações educativas com essa
educação em saúde e promoção social. É possível população ou ainda na comunidade. Em concreto,
que esse fato ilustre a coexistência de ambas as podem contribuir para a compreensão e interven-
abordagens e alguma dificuldade na aplicação do ção nas relações educativas que ocorrem nesses
modelo dialógico. Destacamos ainda que é também contextos não formais, produzindo conhecimen-
a relação educativa que confere uma proximidade to sobre as necessidades reais da população e
às perspectivas díspares, designadamente das orga- avaliando de forma colaborativa os processos
nizações da categoria opressão e empoderamento. educacionais adotados. De forma mais específica,
Não podemos deixar de referir que a focaliza- poderão assumir um papel na formação continua
ção na epidemiologia, numa época pós-pandemia e atualizada dos educadores e com a comunidade,
da aids, pode remeter para discursos higiênico- no sentido de combater o estigma, a violência e a
-sanitários como estratégia de Saber-Poder, com a discriminação associados ao trabalho sexual em
intenção de controlar a saúde com benefícios para geral, no qual se inclui a prostituição. Além disso,
os clientes de sexo pago e não para os(as) TS, como uma vez que os profissionais, de diferentes áreas
aconteceu durante praticamente todo o século XIX. do conhecimento, assumem o papel de educadores,
Essa centralização de ações educativas em saúde, a formação poderá contribuir para a definição de
pode inadvertidamente contribuir para a perpetu- uma identidade diferenciada do educador tradicio-
ação da estigmatização dos(as) TS. Por outro lado, nal e para o estabelecimento de um perfil profis-
a posição pró-trabalho sexual tende a ignorar as sional neste contexto em particular.
pessoas que se encontram temporariamente numa
situação de trabalho sexual com determinadas van- Referências
tagens, mas sobre a qual não pretendem construir AGUSTÍN, L. M. Questioning solidarity: outreach
uma identidade. Do mesmo modo, as organizações with migrants who sell sex. Sexualities, London,
que apoiam o abandono da prática estão também v. 10, n. 4, p. 519-534, 2007.
sujeitas a críticas na medida que reproduzem dis-
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Independentemente das perspectivas sobre o Janeiro: Campus, 1989.
trabalho sexual, parece-nos importante o traba- AMADO, J. A investigação em educação e
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Contribuição das autoras


Graça foi responsável pela concepção do estudo e pela análise
dos dados. Gonçalves foi responsável pela orientação científica do
estudo. Ambas as autoras contribuíram para a redação do artigo.

Recebido: 07/03/2016
Reapresentado: 17/04/2017
Aprovado: 19/04/2017

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