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CENTRO PRESBITERIANO DE PÓS-GRADUAÇÃO ANDREW JUMPER

M. DIV. EM TEOLOGIA EXEGÉTICA DO ANTIGO TESTAMENTO

ANÁLISE CRÍTICA TEO-REFERENTE DO LIVRO

O CAÇADOR DE PIPAS

DE KHALED HOSSEINI

Trabalho apresentado ao Centro Presbiteriano


de Pós-Graduação Andrew Jumper, em
cumprimento parcial às exigências da
disciplina Cosmovisão Reformada, ministrada
pelo Professor Fabiano de Almeida Oliveira,
Th.M., para a obtenção de Grau de Mestre em
Divindade em Teologia Exegética do Antigo
Testamento.

POR

RAFAEL FCACHENCO FILHO

São Paulo

2010
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DESCRIÇÃO PANORÂMICA DA OBRA

É o primeiro romance de Hosseini, publicado em 2003. O romance tem como


cenário o Afeganistão antes da queda da monarquia, e uma série de acontecimentos
políticos tumultuosos, que começam com a queda da monarquia, com a deposição
do rei Zahir Shah em Julho de 1973, o golpe de estado comunista em Abril de 1978,
a invasão soviética em Dezembro de 1979, a conseqüente emigração de refugiados
para o Paquistão e para os Estados Unidos, e a implantação no Afeganistão do
governo Talibã.
A publicação ocorre posteriormente aos ataques terroristas contra as Torres
Gêmeas do World Trade Center em Nova York, em 11 de Setembro de 2001, e à
reação norte-americana aos ataques, a Guerra ao Terror, iniciada com a invasão ao
Afeganistão em 07 de Outubro de 2001. Os ataques às Torres Gêmeas foram
coordenados pela Al-Qaeda, organização fundamentalista islâmica baseada no
Afeganistão e apoiada pelo governo Talibã.
Khaled Hosseini nasceu em Cabul, no dia 04 de Março de 1965. Era o mais
velho entre cinco filhos, e passou sua infância em Cabul. Sua família vivia no
afluente bairro de Wazir Akbar Khan, numa atmosfera culta e cosmopolita, onde
mulheres viviam e trabalhavam em condições de igualdade com os homens. Sua
mãe era uma professora da língua farsi (o que incluía a literatura persa, pois a
tradição literária persa é compartilhada pelos iranianos e afegãos) e de História em
uma grande escola de segundo grau para moças em Cabul, e seu pai era diplomata
funcionário do Ministério do Exterior do Afeganistão. Em 1970, o Ministério do
Exterior enviou seu pai para trabalhar na Embaixada Afegã em Teerã, no Irã. Nesse
período, Khaled se aprofunda na literatura persa, e embora a cultura afegã não
disponha de obras do gênero literário ficção, Khaled também aprecia os romances
estrangeiros desse gênero que estavam sendo traduzidos. Nesse período também
faz amizade com o cozinheiro da sua família, um membro do grupo étnico hazara,
uma minoria que há muito sofre discriminação no Afeganistão. Ele ensina o
cozinheiro a ler e a escrever. Ele e sua família permanecem no Irã até 1973. Nesse
mesmo ano (no mês de Julho), ocorre a deposição do rei Zahir Shah. Em 1976,
Khaled e sua família se mudam para Paris, para onde o Ministério do Exterior
realocou seu pai, onde permanecem até 1980. Devido ao golpe comunista ocorrido

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no Afeganistão em Abril de 1978, agravado com a invasão do Afeganistão pela
União Soviética, eles não podem voltar mais para sua terra natal. Deixando tudo
para trás, em 1980, eles buscam e obtêm asilo político nos Estados Unidos, e em
Setembro de 1980 eles passam a residir em San Jose, na Califórnia, onde por um
curto período são forçados a viver com ajuda governamental. Khaled então tinha 15
anos de idade, e praticamente não falava inglês. No seu primeiro ano na escola
secundária ele lutou com o aprendizado do inglês. Seu encontro com o romancista
John Steinbeck, autor de As Vinhas da Ira, no período em que ainda estava no
ensino médio, reacendeu seu amor pela literatura, e ele começou a escrever
novamente, agora em inglês. Khaled se graduou no ensino médio em 1984, e logo
após matriculou-se na Universidade Santa Clara, onde se graduou em biologia, em
1988. No ano seguinte, matriculou-se na Escola de Medicina da Universidade da
Califórnia, em San Diego, onde se graduou em 1993. Completou o período de
residência em Clínica Médica no Cedars-Sinai Medical Center, em Los Angeles, em
1996. Exerceu a Clínica Médica de 1996 a 2004. Nesse período, em Março de 2001,
começou a escrever O Caçador de Pipas. Por um ano e meio, Khaled levantou-se às
quatro horas da madrugada para trabalhar na produção seu romance, antes de um
dia inteiro de trabalho como médico atendendo pacientes. Quando os Estados
Unidos e os países aliados iniciaram as operações militares no Afeganistão, em
Outubro de 2001, ele chegou a considerar a possibilidade de abandonar o projeto.
Mas com a derrota do Talibã, e com os olhos do mundo voltados para o seu país, ele
entendeu a importância de apresentar ao mundo um retrato da sua história e da
história recente de seu povo que permitisse ao leitor olhar para o Afeganistão e para
os afegãos além dos estereótipos pós 11 de Setembro. O livro foi publicado em
2003, e se tornou um best-seller internacional, publicado em 48 países. Em 2006,
em reconhecimento ao tremendo impacto do seu livro em despertar a consciência
para a condição dos refugiados afegãos, ele recebeu a distinção Humanidade do
Ano, nas comemorações do Dia Internacional do Refugiado em Washington, pela
Agência para Refugiados das Nações Unidas, e foi nomeado seu Enviado de Boa
Vontade nos Estados Unidos. Ele tem trabalhado para prover assistência
humanitária no Afeganistão através da Fundação Khaled Hosseini, cujo conceito foi
inspirado numa viagem que ele fez ao Afeganistão em 2007, através da Agência

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para Refugiados das Nações Unidas. É casado com Roya Hosseini, e o casal tem
dois filhos, Haris e Farah.

MOMENTOS ESPECÍFICOS DA OBRA

O personagem principal é Amir, filho de um rico comerciante que nasceu e


cresceu num bairro nobre em Cabul, no Afeganistão. Ele é o narrador da sua
história, desde as circunstâncias relacionadas com o seu nascimento, passando por
sua infância e adolescência, até o momento em que escreve. Sua mãe morreu
durante o parto, e devido ao fato deles serem muito diferentes um do outro, seu pai
não consegue aceitá-lo como ele é. Ele se empenha ao máximo para agradar seu
pai, mas nunca consegue atingir as expectativas que seu pai tinha para com ele.
Esse fato é motivo de grande frustração para ambos. Hassan, um garoto hazara
com um problema de fissura lábio-palatal, filho de um empregado da família, Ali, é
quem se revela ser o melhor amigo de Amir. Amir não entende o afeto que seu pai
demonstra por Hassan, afeto esse que posteriormente resulta numa plástica, paga
pelo pai de Amir, para corrigir o defeito de nascença do garoto, quando este
completa doze anos.
Amir desde a sua infância se refugiara da indiferença do seu pai nos livros de
sua falecida mãe, e na companhia de Hassan. Lia de tudo. Quando esgotou a
biblioteca de sua mãe, passou a gastar sua mesada em livros. Muitas vezes lia
também para Hassan, que era analfabeto, e ainda na infância escreveu a sua
primeira história. Seu pai foi indiferente ao fato. Quem se interessou em lê-la e
expressou sua apreciação pela sua história foi o sócio de seu pai, Rahim Khan, que
o encorajou a continuar escrevendo.
Hassan se destaca como caçador de pipas nos campeonatos anuais de
pipas, que marcavam o início do inverno em Cabul, localizando mais rápido que
qualquer outro e apanhando as pipas caídas durante a disputa, para entregá-las ao
seu amigo, que as exibia como troféus.
Em 1975, quando tinha doze anos, Amir finalmente encontra uma forma de
obter a aprovação do seu pai, vencendo a competição no campeonato anual de
pipas. Hassan corre atrás das pipas que Amir derruba, para mais uma vez entregá-

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las como troféu ao seu amigo, agora vencedor da competição. Infelizmente, quando
ele corre para apanhar a última pipa, encontra Assef, adolescente sociopata e com
tendências sádicas, admirador de Hitler, com quem Hassan anteriormente já tivera
um conflito, defendendo Amir, e que prometera vingar-se. Vendo que Hassan se
demora, Amir sai à procura do seu amigo e acaba testemunhando Hassan sendo
brutalmente estuprado por Assef. Falta a Amir a coragem para intervir em defesa do
seu amigo, e ele opta por manter sua covardia em segredo. No entanto, a culpa que
ele passa a sentir diante da sua covardia naquele momento, envenena lentamente o
seu relacionamento com Hassan.
Não conseguindo lidar com a culpa que a presença de Hassan em sua casa
lhe traz à memória, Amir leva a cabo um maldoso plano para livrar-se da presença
do seu amigo que agora tanto o incomoda. Ele esconde dinheiro e um relógio de
pulso sob o colchão de Hassan para depois acusá-lo de roubo e incriminá-lo. Apesar
de ser inocente, Hassan prefere confessar o roubo a comprometer seu amigo. Ali se
sente forçado a deixar a família à qual serviu durante muitos anos, e a se mudar
para a remota Hazarajat, apesar dos protestos e lágrimas de do pai de Amir. Amir
nunca mais vê Hassan, mas se vê constantemente atormentado por ter agido para
com ele de forma tão covarde e pérfida.
Depois do golpe comunista em Abril de 1978 e da invasão soviética em
Dezembro de 1979, Amir e seu pai fogem do Afeganistão em 1980, indo para
Peshawar, no Paquistão, escapando do novo regime, e de lá, emigram para os
Estados Unidos. Em 1984, eles estão morando em Fremont, Califórnia. Seu pai
trabalha em um posto de gasolina e também vendendo sucatas em uma feira aos
domingos, almejando que Amir ingresse numa universidade. O pai de Amir adoece,
o diagnóstico é de câncer no pulmão. Amir conhece Soraya Taheri, com quem mais
tarde se casa segundo a tradição afegã. Soraya se muda para a casa de Amir e
cuida do pai de Amir até este morrer.
Os anos se passam. Amir torna-se um romancista bem-sucedido. Ele e
Soraya não podem ter filhos e relutam em adotar uma criança. Em 1999, quinze
anos depois da morte de seu pai, Amir recebe um telefonema de Rahim Khan, que
está então em Peshawar, no Paquistão, e muito doente. Amir viaja para o Paquistão
para encontrá-lo. Rahim revela a Amir tudo o que aconteceu no Afeganistão depois
da partida deles. Amir estava ciente de que seu pai tinha “vendido” a casa deles a

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Rahim Khan, que moraria no imóvel e cuidaria dos seus pertences, pois o pai de
Amir achava que os problemas políticos no Afeganistão eram apenas uma
interrupção temporária da vida que até então tinham levado. Rahim Khan passou a
morar no imóvel a partir de 1981. Com a tragédia da guerra, ele perdeu todos os
conhecidos, que ou saíram do país, ou foram mortos. Em 1986, ele tem a idéia de
procurar Hassan. Localizando Hassan já casado, e com um filho, Rahim Khan o traz,
juntamente com sua mulher e seu filho, Sohrab, para morar com ele em Cabul. Em
1999, seis meses antes de se reencontrar com Amir, Rahim Khan, já doente, vai
para o Paquistão para tratar de sua saúde, e deixa Hassan, com sua esposa e seu
filho para tomar conta da casa. Por serem hazaras, Hassan e sua família são
denunciados ao talibã, que querem ocupar a casa. Hassan e sua mulher querem
proteger o local, e são executados pelo talibã, e o filho de Hassan é levado para um
orfanato. Rahim Khan pede a Amir que ele retorne ao Afeganistão para resgatar
Sohrab. Para persuadi-lo, Rahim revela um segredo de família: Ali era estéril, e o pai
de Amir era o verdadeiro pai de Hassan. Amir e Hassan eram meio-irmãos e Sohrab
é meio-sobrinho de Amir.
Amir entende que o caminho para que ele possa se redimir da culpa que o
atormenta pelo que ele fez com Hassan é retornar a Cabul, então controlada pelo
Talibã, e procurar por seu sobrinho e resgatá-lo. Ele localiza o orfanato onde seu
sobrinho estivera internado, e é informado que Sohrab fora levado dali por um oficial
Talibã, que passara a usá-lo como escravo sexual. Amir localiza esse oficial e
pergunta por Sohrab. Quando Amir vai à casa ocupada pelo oficial, ele descobre que
esse oficial na verdade é o velho inimigo seu e de Hassan, Assef. Confrontam-se
nesse momento os conflitos e as culpas reprimidas em Amir durante toda a sua vida,
e ele luta com Assef diante de Sohrab. Não fosse Sohrab ameaçar e cumprir sua
ameaça de atirar com um estinligue no olho esquerdo de Assef, Amir teria morrido.
Amir e Sohrab então fogem para o Paquistão, onde Amir decide adotá-lo, mas
encontra oposição das autoridades americanas locais. Diante disso, Amir conta a
Sohrab que talvez tenha de colocá-lo em um orfanato temporariamente. Devido ao
trauma e ao medo de receber o mesmo tratamento cruel que recebera no
Afeganistão, Sohrab tenta suicidar-se, cortando os pulsos. Amir encontra Sohrab já
quase à morte, quando corre para contar-lhe que sua mulher, nos Estados Unidos,
encontrou uma forma de levá-lo para a América.

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Sohrab é socorrido e salvo da morte. O livro termina com o retorno de Amir e
Sohrab aos Estados Unidos. Sohrab está tão emocionalmente traumatizado, que
não fala, não conversa com ninguém. No dia do Ano Novo afegão, celebrado com a
tradicional competição de pipas, Amir compra uma pipa, e usa uma das antigas
manhas de Hassan para derrubar uma pipa adversária. Nesse momento, um
pequeno, quase imperceptível sorriso de Sohrab enche Amir de alegria e esperança:
uma pipa voando foi o começo do descongelamento das emoções de Sohrab, e para
Amir, o sinal do fim de um longo inverno, e o começo de uma nova estação.

AS COSMOVISÕES SUBJACENTES À OBRA

Partindo de uma Weltanschauung mais geral ou global, o Afeganistão


começou a ser destaque nos noticiários internacionais desde a invasão do país pela
União Soviética, em 1979. A luta dos guerrilheiros afegãos, os mudjahedin, contra os
soviéticos, foi apoiada pelos Estados Unidos, que animados ainda pelo antagonismo
da guerra fria, tinham interesse em deter e neutralizar o avanço do comunismo.
Outro fato significativo de âmbito geral ocorrido concomitantemente, que constituiu-
se em fundamento ideológico para os guerrilheiros afegãos, foi o surgimento do
fundamentalismo islâmico no Oriente Médio. Uma das características desse
fundamentalismo foi a sua hostilidade ao Ocidente, e particularmente aos Estados
Unidos, sobretudo pelo apoio deste a Israel. Essa hostilidade vem sendo expressa
por um período de três décadas através de inúmeros atentados terroristas. Os
atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001 às Torres Gêmeas do World Trade
Center em Nova York, coordenados pela organização fundamentalista islâmica Al-
Qaeda, refletem esse contexto. A conexão dessa organização com o governo talibã
do Afeganistão, e os estereótipos relacionados ao fundamentalismo islâmico,
reforçados ainda mais após os eventos de 11 de Setembro, agora direcionados
também ao Afeganistão e ao seu povo, constituem as percepções de mundo mais
abrangentes que animam o autor, que é afegão, a apresentar aos Estados Unidos
um retrato da sua história e da história recente de seu povo que vá além desses
estereótipos. A ex-primeira dama norte-americana, Laura Bush, esposa do ex-
presidente George Bush, se refere a isso em seu artigo “The Afghan writer whose

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vivid stories shattered some of the West's post-9/11 stereotypes”, publicado na
revista Time em 12 de Maio de 2008.1
A obra é um retrato vívido do Afeganistão, da vida e da cultura afegã, do
mundo do autor e de milhares de outros afegãos antes da queda do rei Zahir Shah
em 1973, e dos eventos históricos que destruíram esse mundo, começando com a
queda da monarquia em 1973, o golpe comunista em 1978, a invasão soviética em
1979, o caos político e a guerra civil que se seguiu após expulsão dos soviéticos, a
ascensão e a implantação do regime teocrático de terror fundamentalista pelo talibã,
e as conseqüências desses eventos, tanto para os que saíram, como para aqueles
que permaneceram no Afeganistão. Khaled nasceu e viveu em Cabul na mesma
época e no mesmo bairro em que Amir, o personagem principal de seu romance, e
também era de uma família abastada. A atmosfera culta e cosmopolita em que viveu,
as influências que recebeu de sua mãe, e do período em que sua família viveu em
Teerã, que cultivaram em Khaled o gosto pela literatura, bem como a sua trajetória e
de sua família em sua emigração para os Estados Unidos, e as dificuldades
inerentes à experiência de reconstrução de suas vidas nesse país, estão refletidas
em seu personagem. O autor quer colocar em evidência a riqueza da cultura afegã,
e a tragédia experimentada pelo povo afegão, de maneira que possam ser avaliadas
as suas verdadeiras dimensões.
A fidelidade do seu retrato não permite que dele sejam excluídas as suas
contradições, injustiças e incoerências. Ele não apresenta um retrato idílico da sua
etnia, a etnia pashtun, que detinha a hegemonia política e econômica no
Afeganistão. Ele apresenta também as suas contradições e incoerências, e as
injustiças por ela praticadas para manter o status quo. A contradição em foco nessa
obra: os preconceitos nutridos pela etnia pashtun em relação à minoria étnica
hazara, bem como as injustiças e a discriminação praticadas contra os hazaras em
virtude desses preconceitos.
Parece-me que alguns elementos mais esclarecidos da elite afegã no período
do reinado do rei Zahir Shah, que desfrutam da atmosfera culta e cosmopolita desse
período, começam em virtude disso a se conscientizar da injustiça desses
preconceitos. Essa consciência vem acompanhada de um profundo sentimento de
culpa, por não conseguirem lidar adequadamente com o dilema: manter o status quo

1
Time, 12/05/2008, Vol. 171, pág. 104-105.
7
ou ter coragem de ser fiel à própria consciência. Esse é o dilema de Amir, de seu
pai, e do sócio de seu pai, Rahim Khan. Todos eles se acham envolvidos em
circunstâncias que lhes proporcionaram oportunidades de desenvolverem
relacionamentos profundamente significativos, criando laços de profunda afeição
pelos hazaras, que tiveram de ser reprimidos para manter o status quo.
A questão da culpa está presente em toda a obra, e a proposta do autor de
como lidar com essa questão está relacionada com os pressupostos religiosos
centrais que animam a obra.

OS PRESSUPOSTOS RELIGIOSOS CENTRAIS DA OBRA

Os pashtuns eram muçulmanos sunitas. No islamismo, tanto sunita como


xiita, o relacionamento entre o homem e Deus não é caracterizado por amor e
proximidade. A justiça de Deus e a prestação de contas do homem a Deus no Dia do
Juízo é enfatizada, e a absolvição nesse dia é baseada nos méritos do homem, e
não na misericórdia e no amor de Deus. A redenção e a expiação estão baseadas no
esforço e nas obras praticadas pelo muçulmano para compensar os atos maus que
praticou. Os muçulmanos crêem que do lado de cada um deles há dois anjos: um
anotando as obras boas que eles praticam, e outro anotando as obras más (Alcorão,
Sura 50, versos 17 e 18). Vejamos o comentário desses dois versículos no site
islâmico <http://www.turntoislam.com>:2
“Nós temos dois anjos que anotam tudo o que falamos e fazemos, eles são encarregados
dessa tarefa a partir do momento em que alcançamos a puberdade, ou seja, a partir do
momento em que nos tornamos responsáveis por nossas ações até o momento da nossa
morte. O anjo da direita anota as boas ações e o da esquerda as más ações, sendo que,
quando nós cometemos uma má ação, o anjo da esquerda não a anota de imediato, ele
espera um tempo para ver se a pessoa se arrepende e pede perdão a Deus pelo que fez.
Caso isto ocorra, ele não a anota, e caso contrário, ele anota uma falta. Os anjos também
anotam as ações do coração, ou seja, as nossas intenções. (Alcorão 50:17-18).”

E também:
“Os anjos anotam aqueles que comparecem à oração de sexta-feira, fica cada anjo em uma
porta, anotando um a um os que entram, e terminam de anotar no momento em que o Imam
(a pessoa que lidera a oração) se senta para ouvirem o sermão.”

2
A Crença Nos Anjos – disponível em <http://www.turntoislam.com/forum/showthread.php?t=30334>
Acesso em 30/09/2010.
8
No Dia do Juízo, tantos as obras boas como as más que foram anotadas
serão pesadas na balança da justiça divina. As obras que pesarem mais
determinarão o destino do indivíduo que está sendo julgado: o Paraíso, ou o Inferno.
No terceiro capítulo do seu livro, Khaled Hosseini menciona a instrução que o
seu personagem, Amir, recebera sobre o Islã, quando estava na escola na quarta
série. De toda essa instrução, parece que o que Amir mais absorveu foi o conceito
de pecado, pois ele observou uma inconsistência entre o que estava aprendendo e o
comportamento de seu pai, pois o observara ingerindo bebida alcoólica em casa, o
que é considerado um grave pecado para um muçulmano. Nessa ocasião, o pai de
Amir, numa das poucas vezes em que o toma para sentar-se no seu colo, conversa
com ele e lhe expressa o seu conceito de pecado, revelando uma visão de mundo já
afetada pelo processo de secularização, que desdenha os ensinos dos líderes
religiosos islâmicos, e que expressa um conceito particular pecado, centrado não no
que os muçulmanos consideram a revelação de Deus, mas no homem:
“— Pouco importa o que diga esse mulá; existe apenas um pecado, um só. E esse
pecado é roubar. Qualquer outro é simples mente uma variação do roubo. Entende o que
estou dizendo?” (Capítulo 3, página 25)

Amir não entende, e seu pai lhe explica:


“— Quando você mata um homem, está roubando uma vida — disse baba. — Está
roubando da esposa o direito de ter um marido, roubando dos filhos um pai. Quando mente,
está roubando de alguém o direito de saber a verdade. Quando trapaceia, está roubando o
direito à justiça. Entende?” (Capítulo 3, página 26)

Amir entende a explicação de seu pai, e em sua narrativa revela o


fundamento do seu entendimento:
“Eu tinha entendido sim. Quando baba tinha seis anos, entrou um ladrão na casa de meu avô,
no meio da noite. Meu avô, um juiz conceituado, reagiu ao assalto, mas o ladrão o esfaqueou
na garganta, matando-o instantaneamente — e roubando de baba o seu pai.” (Capítulo 3,
página 26)

Seu pai reforça ainda mais esse entendimento:


“— Não há ato mais infame do que roubar, Amir — prosseguiu ele. — Um homem que
se apropria do que não é seu, seja uma vida ou uma fatia de naan... Cuspo nesse homem... E
se alguma vez ele cruzar o meu caminho, que Deus o ajude. Está entendendo?” (Capítulo 3,
página 26)

É esse conceito de pecado, que tem como pano de fundo uma visão de
mundo islâmica, que vai animar o mundo de Amir e dos demais personagens do
romance. É a partir desse conceito que ele entende a sua relação com seu pai:
“Fiquei olhando enquanto ele enchia o copo no bar e me perguntando quanto tempo ia se
passar até que tivéssemos outra conversa como essa. A verdade é que sempre achei que
9
baba me odiava um pouco. E por que não? Afinal, eu tinha matado a esposa que ele tanto
amava, a sua linda princesa, não tinha? O mínimo que poderia ter feito era ter a decência de
puxar um pouco mais a ele. Mas não puxei. Não mesmo.” (Capítulo 3, página 26)

É à luz desse conceito que ele, agora já com trinta e oito anos de idade, reage
enquanto reflete sobre o que lhe revelara Rahim Khan:
“Como pôde mentir para mim durante todos esses anos? E também para Hassan? Quando
eu era pequeno, ele me pôs no colo, olhou bem dentro dos meus olhos e disse: "Existe
apenas um pecado, um só. E esse pecado é roubar... Quando você mente, está roubando de
alguém o direito de saber a verdade." Não foram essas as palavras que ele me disse? E
agora, quinze anos depois de eu o ter enterrado, acabo descobrindo que baba era um ladrão.
Um ladrão da pior espécie, porque as coisas que roubou eram sagradas: de mim, o direito de
ter um irmão; de Hassan, a própria identidade; e de Ali, a honra.” (Capítulo 18, página 225)

E é à luz desse conceito que Amir retorna à fé islâmica quando está


desesperado, aguardando na sala de espera do hospital no Paquistão para saber se
Sohrab sobreviveria:
“Estendo o meu jai-namaz improvisado, o meu tapete de oração, e me ajoelho,
baixando a testa até o chão, com as lágrimas encharcando o lençol. Me inclino voltado para o
Oeste. Só então lembro que faz uns quinze anos que não rezo. Esqueci as orações há muito
tempo. Mas isso não tem importância. Vou dizer as poucas palavras de que ainda consigo me
lembrar: La illaha il Allah, Muhammad u rasul ullah. Não há outro Deus senão Allah, e
Mohammad é o Seu mensageiro. Agora percebo que baba estava errado. Existe um Deus,
sim, sempre existiu. Posso vê-Lo ali, nos olhos das pessoas que estão nesse corredor do
desespero. Aqui é a Sua verdadeira casa; é aqui que aqueles que perderam Deus voltam a
encontrá-Lo; não naquela masjid [mesquita] branca, com as suas lâmpadas que brilham como
diamantes e os seus minaretes altíssimos. Existe um Deus, tem que existir, e agora vou rezar,
vou pedir que Ele me perdoe por não ter Lhe dado a devida importância durante todos esses
anos, que me perdoe por eu ter traído, mentido e pecado impunemente, e só ter pensado em
recorrer a Ele nos momentos de necessidade; pedir-Lhe que seja clemente e misericordioso
como o Seu livro diz que Ele é. Inclino a cabeça para o Oeste, beijo o chão e prometo fazer
zakat [esmola], prometo fazer as namaz [as cinco orações diárias], fazer jejum durante o
Ramadan e continuar jejuando quando o Ramadan já tiver terminado. Prometo que vou
decorar cada palavra do Seu livro sagrado, e que vou fazer uma peregrinação àquela cidade
quentíssima do deserto para me curvar também diante da Ka'bah. Vou fazer tudo isso e, de
hoje em diante, vou pensar Nele diariamente, se Ele me conceder um único pedido. As
minhas mãos estão manchadas com o sangue de Hassan. Que Deus não permita que elas se
manchem também com o sangue do filho dele.
Ouço uma choradeira e percebo que sou eu. Os meus lábios estão salgados por
causa das lágrimas que me escorrem pelo rosto. Sinto que todos os olhos daquele corredor
estão voltados para mim, mas continuo inclinado na direção do Oeste. Rezo. Rezo para não
estar sendo punido pelos meus pecados como sempre temi que viesse a acontecer.”
(grifo meu). (Capítulo 25, página 341).

Esse pressuposto religioso é parte integrante da visão de mundo do autor, e


isso pode ser deduzido não somente pelo conteúdo de seu romance. Em um trecho
de uma entrevista sua concedida ao jornal inglês The Times, publicada em 11 de
Abril de 2008, Khaled Hosseini declara:

“Para muitas pessoas que deixam para trás sua terra natal mergulhadas em conflito, e
encontram uma vida muito mais confortável no exterior, há aquele sentimento de culpa do

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sobrevivente, aquele senso de que você escapou enquanto os outros não, e a pergunta: é
isso aleatório? Significa alguma coisa? Por que você? Eu não quero fazer isso soar como se
eu estivesse olhando para o meu próprio umbigo. É pura loteria genética, eu suponho. Faz
você se sentir terrível. Há o tipo de culpa que o corrói, que faz você se sentir mal, e que o
perturba, o enlouquece; e há o tipo onde você a internaliza e a domina, fazendo-a voltar atrás
e retroceder; e a usa como uma ferramenta para fazer alguma coisa a respeito de sua causa.
Você a transforma em algo positivo. Sabe, eu tenho tentado fazer isso, porque eu sinto que
eu devo fazê-lo. Eu não agi por causa da culpa em si, mas há um elemento dela - você tem
de fazê-la retornar àquilo que a causou.” (Tradução minha).

O artigo também afirma que


“…eles [Khaled e sua esposa] não são muçulmanos praticantes, embora ele ocasionalmente
se junte ao seu pai na mesquita, e goste de observar o Ramadã, porque a renúncia [expressa
através do jejum] lhe proporciona a sensação de não ter nada, o que ele considera um
empoderamento, e ele desfruta da familiaridade da cultura islâmica, que é parte dele...”
(Tradução minha).

Khaled Hosseini admite explicitamente tanto que parte de sua identidade está
relacionada com a cultura islâmica, como também que há um elemento de culpa
internalizada em sua ação. Também é particularmente interessante relacionarmos os
cinco livros que ele considera mais importantes, não em ordem de importância
específica, e seus comentários sobre eles:3
1. "Shahnameh: O Livro Persa dos Reis" de Abolqasem Ferdowsi. Esse épico da século XI é
a jóia da Literatura Persa.
2. O Alcorão. Hipnoticamente poético, o Alcorão é o texto central de direção divina para um
bilhão de pessoas.
3. A Bíblia. O texto sagrado cristão através do qual Deus revela-se a si mesmo ao homem.
Nem mesmo "Harry Potter" pode competir com a venda de exemplares por ela alcançada.
4. "A Origem das Espécies" de Charles Darwin. A base da biologia moderna, o modelo
primário para a diversidade da vida na terra.
5. "Crime e Castigo" de Feódor Dostoievsky. Nenhum romance capta o isolamento, a culpa,
o desembaraçamento espiritual e a salvação como este. (Tradução minha).

Khaled Hosseini se refere ao épico Shahnameh em seu romance, como


sendo o livro preferido de Hassan e também de Amir (Amir é quem lia para Hassan).
Dentre as histórias de todos os heróis persas do século X, qual era a favorita de
Hassan, e também a de Amir?
"Rostam e Sohrab", um conto sobre o grande guerreiro Rostam e seu cavalo velocíssimo,
Rakhsh. Durante uma batalha, Rostam fere mortalmente seu valente adversário, Sohrab, e
acaba descobrindo que o rapaz é, na verdade, o filho que tinha perdido há muito tempo.
Atormentado pela dor, Rostam ouve as últimas palavras do filho moribundo:
“Se sois efetivamente meu pai, então manchastes vossa espada com o sangue de vosso
filho. E fizestes isto por vossa própria obstinação. Pois procurei convertê-lo ao amor e
implorei chamando o vosso nome, já que julguei encontrar em vós as qualidades de que
minha mãe tanto falava. Mas foi em vão que apelei para vosso coração, e, agora, é tarde
demais para qualquer aproximação...” (Capítulo quatro, página 36).

3
Khaled Hosseini. Newsweek [serial online]. January 14, 2008;151(2):16.
11
Essa história a que Hosseini se refere em seu romance foi traduzida para o
inglês por Jerome W. Clinton sob o título “The Tragedy of Sohrâb and Rostám from
the Persian National Epic, the Shahname of Abol-Qasem Ferdowsi.” Integra a série
Publications on the Near East University of Washington Number 3, publicada pela
University of Washington Press em 1988, com 190 páginas. Vejamos um trecho da
resenha de Kinga Márkus Takeshita dessa obra:4
“A assim chamada “tragédia de Sohrab” ocorre durante a legendária guerra entre o Irã e
Turan na primeira parte do [épico] Shahname e está relacionado de perto com o ciclo heróico
de Rostam, o maior herói iraniano. O jovem Sohrab é o valente filho [de Rostam] que foi
gerado numa curta aventura amorosa deste com uma princesa turaniana, e que foi criado na
terra de Turan, sem jamais ter conhecido seu pai.
A história está centrada em torno de um tema folclórico-literário amplo, o combate fatal entre
o pai e o filho, que não conhecem a identidade um do outro...” (Tradução minha).

Embora o tema central desse conto seja o conflito entre pais e filhos, uma
tragédia em si mesma não estimula o leitor à reflexão sobre as suas causas ou
sobre quem é o responsável por ela? E essa reflexão não vai relacionar-se
diretamente com o pressuposto religioso pecado e culpa? Obviamente, se houver
um responsável pela tragédia, a este será atribuída a culpa pela ocorrência do
evento trágico. A literatura, nesse caso, interpretada a partir desse pressuposto
religioso, reforça-o, e contribui para a construção de uma psicologia religiosa que é
gradativamente incorporada ao inconsciente coletivo desse contexto cultural.
E em relação à obra “A Origem das Espécies”, há alguma relação desta obra
com o conceito de culpa? Relembremos o conceito de aleatoriedade, referido por
Khaled Hosseini em sua entrevista concedida ao jornal inglês The Times, publicada
em 11 de Abril de 2008, à qual já nos referimos nesse trabalho, para explicar como
se sentia em relação ao chamado sentimento de culpa do sobrevivente. O conceito
de aleatoriedade, ensinado em “A Origem das Espécies” de Darwin, não se relaciona
diretamente com o conceito de culpa, e não constitui justamente uma tentativa de se
evitar a culpa, atribuindo a responsabilidade dos fatos a eventos fortuitos,
aleatórios?
E o que dizer então da obra de Feódor Dostoievsky, Crime e Castigo?
Vejamos o comentário de Hosseini sobre esta obra: “nenhum romance capta o
isolamento, a culpa (grifo meu), o desembaraçamento espiritual e a salvação como
este.”

4
Takeshita, Kinga Márkus. The Tragedy of Sohráb and Rostám from the Persian National Epic, the
Shahname of Abol-Qasem Ferdowsi, Asian Folklore Studies 48 no 2 1989, p 335-337.
12
Vemos, portanto, que esse pressuposto religioso é parte integrante da visão
de mundo do autor. Ele foi moldado por uma cultura na qual esse pressuposto é
central, tanto de uma perspectiva religiosa, como também reforçado pela literatura,
permanecendo central, mesmo quando influenciado por uma perspectiva secular.

MOMENTOS DE VERDADE IDENTIFICADOS

Num contexto como o islâmico, onde a culpa ocupa um lugar tão central,
onde se enfatiza a justiça de Deus e a prestação de contas a Ele no Dia do Juízo, e
onde o relacionamento entre o homem e Deus não é caracterizado por amor e
proximidade, há um profundo vazio e um profundo anseio por amor. Amir era uma
criança que não teve mãe, que morreu quando ele nasceu, e que ansiava pelo amor
do seu pai. Seu retrato é o de uma criança que não teve o amor de mãe, que
cresceu e se desenvolveu procurando obter o amor e a aprovação de seu pai.
Hassan é retratado como aquele que ama incondicionalmente Amir. A culpa de Amir
o impede de desfrutar desse amor, mas nada o marcou mais profundamente do que
as genuínas manifestações de amor incondicional por parte de Hassan.
A obra apresenta muitos momentos onde Hassan demonstra por Amir um
amor incondicional, que em alguns momentos dramáticos se revela um amor
profundamente sacrifical. Dentre eles, destaco três momentos:
1. O momento em que atormentado pela culpa, Amir provoca Hassan,
atirando-lhe várias romãs no peito e no ombro:
“Colhemos bem uma dúzia de romãs. Desdobrei a história que tinha trazido, virei a
primeira página, mas, depois, pus as folhas no chão. Fiquei de pé e peguei uma romã já
passada que tinha caído da árvore.
— O que você faria se eu desse com isso na sua cabeça? — perguntei, jogando o fruto
nas mãos, para cima e para baixo. O sorriso de Hassan desapareceu. Ele parecia mais
velho do eu imaginava. Aliás, mais velho não, velho. Seria possível? Linhas marcavam o
seu rosto moreno, e vincos contornavam os seus olhos e a sua boca. Eu bem que
poderia ter pegado uma faca e escavado ali aquelas linhas com as minhas próprias
mãos.
— O que você faria? — repeti.
Hassan ficou sem cor. Perto dele, o vento soprava as folhas grampeadas da história que
eu tinha prometido ler. Atirei a romã em cima dele. Ela bateu em cheio no seu peito com
um jorro de polpa vermelha. O grito que ele deu estava cheio de surpresa e de dor.
— Bata em mim! — exclamei.
Hassan ficou olhando para a mancha no seu peito e para mim.
— Levante daí! Bata em mim! — disse eu.
Hassan levantou mesmo, mas ficou parado, atordoado como um homem que é arrastado
para o oceano por uma onda repentina quando, minutos antes, estava passeando
calmamente pela praia. Atirei outra romã em cima dele; desta vez, no ombro. O suco
espirrou em seu rosto.

13
— Revide! — exclamei. — Revide, seu maldito!
Queria mesmo que ele fizesse isso. Queria que me desse o castigo que eu estava
pedindo. Talvez, assim, pudesse finalmente dormir de noite. Talvez, assim, as coisas
pudessem voltar a ser como antes entre nós. Mas Hassan não fez nada e continuei
atirando frutas nele sem parar.
— Você é um covarde! — gritei. — Apenas um maldito covarde!
Não sei quantas vezes o atingi. Tudo o que sei é que, quando finalmente parei, exausto e
ofegante, Hassan estava todo lambuzado de vermelho, como se tivesse passado diante
de um pelotão de fuzilamento. Caí de joelhos, cansado, sem forças, frustrado.
Foi então que Hassan apanhou uma romã e veio andando na minha direção. Abriu a
fruta e a esmagou na própria testa.
— Pronto! — disse ele, com voz rouca, e com o suco vermelho escorrendo pelo rosto
como se fosse sangue. — Está satisfeito agora? Está se sentindo melhor?
Depois, virou as costas e começou a descer a colina.
Deixei as lágrimas rolarem livremente e, de joelhos, fiquei balançando o corpo para
frente e para trás.
— O que é que vou fazer com você, Hassan? O que é que vou fazer com você?”
(Capítulo 8, páginas 96, 97 e 98).
2. O momento em que Hassan, mesmo sendo inocente, para proteger o
amigo a quem apesar de tudo ainda ama, assume a culpa do roubo do
dinheiro e do relógio que Amir escondera sob o seu colchão para
incriminá-lo, e assim afastá-lo de sua casa:
“AMBOS TINHAM CHORADO; PODIA VER isso por causa dos seus olhos vermelhos e
inchados. Pararam diante de baba, de mãos dadas e fiquei me perguntando como e
quando eu tinha me tornado capaz de provocar tamanha dor.
Meu pai foi direto ao assunto:
— Você roubou esse dinheiro? Roubou o relógio de Amir, Hassan? — perguntou ele. A
resposta foi uma única palavra, dita em voz baixa e rouca:
— Roubei.
Tomei um susto. Foi como se tivessem me dado uma bofetada. Senti o coração
apertado e quase deixei escapar a verdade. Depois compreendi: aquele era o sacrifício
final que Hassan fazia por mim. Se ele tivesse dito não, baba teria acreditado, porque
todos nós sabíamos que Hassan não mentia nunca. E, se baba acreditasse nele, eu é
que seria acusado. Teria que dar explicações e todos ficariam sabendo quem eu
realmente era. Meu pai jamais poderia me perdoar. E, com isso, pude compreender outra
coisa também: Hassan sabia. Sabia que eu tinha visto tudo o que aconteceu naquele
beco; sabia que eu estava parado lá e não tinha feito nada. Sabia que tinha sido traído e
estava me salvando mais uma vez; a última, quem sabe. Naquele momento, eu o amei;
mais do que jamais amei qualquer outra pessoa, e quis dizer a todos que eu é que era a
serpente oculta na grama, o monstro no fundo do lago. Não merecia aquele sacrifício;
era um mentiroso, um impostor, e um ladrão.” (Capítulo 9, página 110).
3. A carta de Hassan a Amir, escrita pouco antes de Hassan morrer, que foi
entregue a Amir por Rahim Khan:
Em nome de Allah, o mais clemente,
o mais misericordioso,
Amir agha, com os meus mais profundos respeitos,
Farzana jan, Sohrab e eu rezamos para que esta carta mais recente vá encontrá-lo
com saúde e na luz das boas graças de Allah. For favor, transmita os meus melhores
agradecimentos a Rahim Khan sahib por levá-la até você. Tenho esperanças de poder,
um dia, ter nas mãos uma carta sua e ler as notícias da sua vida nos Estados Unidos.
Talvez até uma fotografia sua possa honrar os nossos olhos. Falei muito de você para
Farzana jan e para Sohrab. Contei-lhes como crescemos juntos, como brincávamos e
corríamos pelas ruas. Eles riram muito de todas as travessuras que nós dois
aprontávamos!
14
Amir agha,
infelizmente, o Afeganistão da nossa infância já morreu há muito tempo. A bondade
abandonou esta terra e não se pode escapar às matanças. As matanças constantes. Em
Cabul, o medo está por todo lado: pelas ruas, no estádio, nos mercados. Ele faz parte da
nossa vida aqui, Amir agha. Esses selvagens que governam o nosso watan não têm a
mínima noção do que seja decência humana. Outro dia, fui com Farzana jan ao mercado
para comprar batatas e naan. Ela perguntou ao vendedor quanto custavam as batatas,
mas ele não ouviu. Acho que é um tanto surdo. Então Farzana jan falou um pouco mais
alto e, de repente, um jovem talib veio correndo e bateu nas coxas dela com o bastão
que carregava consigo. A pancada foi tão forte que ela caiu no chão. E ele ficou gritando,
xingando e dizendo que o Ministério do Vício e da Virtude não permite que as mulheres
falem alto. Ela ficou com uma grande mancha roxa na perna por vários dias, mas o que
eu poderia fazer, a não ser ficar parado ali, vendo minha mulher ser espancada? Se
brigasse, aquele cachorro certamente me meteria uma bala, e na maior felicidade! E,
depois, o que seria feito de meu Sohrab? As ruas já estão lotadas de órfãos famintos e
agradeço diariamente a Allah por estar vivo, não porque tenha medo de morrer, mas
porque, assim, minha mulher tem marido e meu filho não é órfão.
Gostaria que você pudesse conhecer Sohrab. Ele é um ótimo menino. Rahim Khan
sahib e eu lhe ensinamos a ler e a escrever, para que ele não cresça burro como o pai. E
como é bom com aquele estilingue! Levei Sohrab para passear em Cabul algumas vezes
e comprei balas para ele. Ainda existe aquele homem do macaco em Shar-e-Nau e,
quando o encontramos, pago para que o macaco dance para Sohrab. Você precisava
ver como ele ri! Vamos quase sempre até o cemitério da colina. Lembra que sentávamos
debaixo do pé de romã para ler histórias do Shahnamah? As secas afetaram muito a
colina e há anos que aquela árvore não dá frutos, mas Sohrab e eu ainda nos sentamos
à sua sombra e eu leio para ele histórias do Shahnamah. Não preciso lhe dizer que a
sua parte favorita é aquela em que aparece o seu xará, o episódio de Rostam e Sohrab.
Em pouco tempo, já poderá ler sozinho. Sou um pai muito orgulhoso e de muita sorte.
Amir agha,
Rahim Khan sahib está muito doente. Passa o dia inteiro tossindo e tenho visto
sangue na manga da sua camisa quando ele enxuga a boca. Emagreceu bastante e
gostaria que comesse um pouco da shorwa com arroz que Farzana jan prepara para ele.
Mas nunca toma mais que uma ou duas colheradas, e acho até que só faz isso para ser
gentil com Farzana jan. Estou preocupadíssimo com esse homem tão querido, e rezo
por ele diariamente. Dentro de poucos dias, vai embarcar para o Paquistão, para
consultar alguns médicos por lá e, Inshallah, voltará com boas notícias. Mas, no fundo
do meu coração, temo muito por ele. Farzana jan e eu dissemos ao pequeno Sohrab que
Rahim Khan vai ficar bom. O que podemos fazer? Ele só tem dez anos e adora Rahim
Khan sahib. Os dois são muito apegados um ao outro. Rahim Khan sahib o levava
consigo ao bazaar para comprar balões e biscoitos, mas, agora, está fraco demais para
fazer isso. Tenho sonhado muito ultimamente, Amir agha. De vez em quando, são
pesadelos, como corpos enforcados em campos de futebol, com a grama tingida de
sangue. Acordo sem fôlego e suando em bicas. No entanto, a maior parte das vezes,
sonho com coisas boas e Allah seja louvado por isso. Sonho que Rahim Khan sahib vai
ficar bom. Sonho que o meu filho cresce e se torna uma pessoa de bem, uma pessoa
livre e importante. Sonho que flores de lawla florescem novamente pelas ruas de Cabul,
que a música do rubab volta a tocar nas casas de chá e as pipas voam outra vez pelo
céu. E sonho que, um dia, você vai voltar a Cabul para rever a terra da sua infância. Se
voltar, encontrará um velho amigo fiel à sua espera.
Que Allah esteja sempre com você.
Hassan
(Capítulo 17, páginas 216-219)

Não é esse amor que Hassan demonstra por Amir um retrato do amor que é
paciente, que é benigno, bondoso, que não se ufana, que não procura os seus
interesses, que não se ressente do mal, que não guarda rancor, que tudo sofre, que

15
tudo crê, que tudo espera e tudo suporta, e que jamais acaba, descrito Paulo em 1ª
aos Coríntios 13:4-8?
Me parece que há no íntimo de cada muçulmano um profundo anseio por
esse amor, pelo amor que perdoa, e um anseio por perdão cabal, completo. E como
o Islamismo não oferece aos seus fiéis esse amor que perdoa, nem a certeza de
perdão cabal, completo, baseado no amor de Deus, o autor inconscientemente
projeta e direciona esse anseio que constitui uma das categorias presente toda
cosmovisão, para a figura de um ser humano ideal. Essa figura se torna um ídolo do
coração. Esse anseio me parece projetado na figura de Hassan e em seu amor
sacrifical por Amir, cujo retrato parece evocar nuances dos sofrimentos de Cristo por
amor a nós.
Há no íntimo do muçulmano o anseio por um Redentor, por expiação vicária.
E a idéia não é de todo estranha ao Islamismo. O feriado Eíd Ul-Adha (Festa do
Sacrifício), comemorado no décimo dia do mês de Dhu Al-Hijja, o décimo segundo
mês do calendário muçulmano, é uma das mais importantes datas do calendário
islâmico. A data lembra a ocasião em que o Profeta Ibrahim - o Abraão dos judeus e
cristãos - cumpriu a ordem de sacrificar seu filho, para os muçulmanos Ismael, e
para os judeus e cristãos Isaque, demonstrando imensa fé e sendo impedido por
Deus, no último momento, de consumar esse ato. Nessa data os muçulmanos se
congratulam, tal como fazem os cristãos entre si no Natal, e todos os que possuem
recursos financeiros devem sacrificar carneiros como forma de lembrar o
acontecimento. É condição obrigatória que o animal seja macho, adulto e saudável.
Os animais são abatidos na forma tradicional, exceto em países cuja legislação
exige que estes sejam abatidos em abatedouros. A carne do animais abatidos é
distribuída a familiares, vizinhos e pobres. Esse feriado ocorre no auge do período
da peregrinação a Meca, que ocorre do 1º ao 10º dia desse mesmo mês. Khaled
Hosseini e os muçulmanos nos países islâmicos estão familiarizados com o abate de
animais na forma tradicional. Hosseini inclusive menciona no seu romance a forma
como eram abatidos os animais que estavam sendo preparados para a festa de
aniversário de Amir (capítulo 8, página 98). Não é estranha para um muçulmano a
imagem concreta do cordeiro sendo imolado, do sangue deste sendo derramado, e
da ovelha muda diante dos seus tosquiadores, usada por Isaías no capítulo 53,
versículo 7, como figura do Servo Sofredor.

16
UMA RESPOSTA CRISTÃ A KHALED HOSSEINI

Creio que a provisão de respostas cristãs adequadas às questões tratadas


por Khaled Hosseini nesse romance a partir de uma perspectiva islâmica devem
partir de uma análise mais aprofundada das cosmovisões que animam esse
contexto, visando compreendê-las e relacioná-las adequadamente com as
categorias centrais da Escritura Criação-Queda-Redenção conforme procurei fazer
nesse trabalho. Através da análise que realizei, pude observar e compreender que a
questão da culpa é central nessa cosmovisão, e também que a proposta que ela
apresenta de redenção, fundamentada no esforço e nos méritos humanos, não é
satisfatória, pois não resolve o problema, por carecer de elementos fundamentais.
Falta-lhe a revelação de Deus como um Deus de amor, de um Deus que está
próximo, e não distante, que se aproxima do homem em amor, um amor tão sublime
que provê o Redentor e a redenção, que provê perdão cabal, completo, baseado
não nos méritos do homem, mas no amor incondicional de Deus.
Assim sendo, creio que uma resposta cristã adequada para esse contexto
deve ter como foco essa revelação de Deus como um Deus que ama
incondicionalmente, e das implicações desse amor incondicional.
Esse amor incondicional precisa ser demonstrado primeiramente através da
construção de um relacionamento de genuína amizade com os muçulmanos. A obra
de Hosseini demonstra de maneira inequívoca o valor de uma genuína amizade
nesse contexto. Tive também oportunidades de ter contato com missionários que
trabalharam ou trabalham entre muçulmanos. Compartilhando sua experiência
missionária, eles confirmam que a construção desse relacionamento é fundamental
em seu trabalho. Para conquistarmos o lugar de lhes poder falar e de o que
dissermos ser levado em consideração por eles, é fundamental encarar o desafio de
mostrar-lhes o amor incondicional de Cristo através de uma genuína amizade. Na
construção dessa amizade, é fundamental tempo, é fundamental estarmos
presentes, não pode faltar proximidade, respeito, diálogo e autenticidade. É dessa
forma que ganharemos a sua confiança, e é nesse contexto que poderão surgir
oportunidades de, com paciência, compartilharmos sobre o amor incondicional de
Deus. É importante também reconhecermos que, lamentavelmente, o
relacionamento da cristandade com o mundo islâmico foi historicamente

17
caracterizado por hostilidade e preconceitos, sobretudo a partir das Cruzadas. Há,
portanto, o desafio de superar essas barreiras de hostilidade e preconceito
construídas por séculos. E infelizmente, em nossos dias esse quadro histórico tem
sido reforçado por eventos como a invasão americana ao Iraque, os atentados de 11
de Setembro, e a invasão americana e de seus aliados ao Afeganistão.
Vencidas essas barreiras, e construído esse relacionamento, nas
oportunidades que se nos apresentarem, também é importante estar preparado para
apresentar uma apologia da fé cristã que faça sentido nesse contexto. O missionário
Samuel M. Zwemer, o “Apóstolo do Islã”, que serviu na região do Golfo Pérsico e
posteriormente no Cairo, que em seus quase quarenta anos de serviço missionário
fez grande progresso em despertar os cristãos para a necessidade de evangelização
entre os muçulmanos,5 em seu livro Raymund Lull: First Missionary to the Moslems,
publicado em 1902, escreve sobre a vida e a obra daquele que foi o responsável
pela condução do primeiro esforço missionário significativo direcionado ao mundo
islâmico, no século XIII. A abordagem missionária de Raymund Lull era tripla:
apologética, educacional, e evangelística. Segundo Zwemer, os princípios básicos
de seu argumento apologético continuam plenamente válidos hoje num debate com
muçulmanos:6
“Todo homem sábio deve reconhecer que a religião, para ser verdadeira, atribui a
maior perfeição ao Ser Supremo e não só transmite a mais alta concepção de todos os seus
atributos, sua bondade, poder, sabedoria e glória, mas demonstra a harmonia e igualdade
existente entre eles. A religião deles era, porém, deficiente por reconhecer apenas dois
princípios ativos na Divindade, sua vontade e sabedoria, deixando sua bondade e grandeza
inoperantes como se (sic) fossem qualidades indolentes, não sendo chamados para o
exercício ativo. Mas a fé cristã não podia ser acusada desta falha. Em sua doutrina da
Trindade ela transmite a mais alta concepção da Divindade, como o Pai, o Filho e o Espírito
Santo em uma simples essência e natureza. Na Encarnação do Filho ela revela a harmonia
existente entre a bondade e a grandeza de Deus; e na pessoa de Cristo demonstra a
verdadeira união do Criador e criatura. Enquanto na Paixão que sofreu por causa de seu
grande amor pelo homem, ela estabelece a harmonia divina da bondade e condescendência
infinitas, a condescendência daquele que por nós, homens, e pela nossa salvação e
restituição a nosso estado primevo de perfeição, submeteu-se a esses sofrimentos e viveu e
morreu pelo homem.”

Eu creio que espírito do argumento de Lull refere-se justamente ao ponto a


que me referi, que falta ao Islamismo a revelação de Deus como um Deus de amor,
que está próximo, e não distante, que se aproxima do homem em amor, que em
amor provê o Redentor, a redenção, e perdão cabal, completo. O Islamismo enfatiza
5
TUCKER, Ruth A., “...Até os Confins da Terra – Uma História Bibliográfica das Missões Cristãs”. São
Paulo, Edições Vida Nova. 1986, páginas 293 a 300.
6
Idem, páginas 54, 55 e 56.
18
a soberania e a justiça de Deus, não em harmonia, não em igualdade, não
proporcionalmente ao seu amor e perdão. Nega a sua natureza essencialmente
amorosa e relacional, evidenciada na Trindade, na Encarnação, e na Redenção. E
cabe a nós, em amor, mostrar isso a eles. Eu creio que precisamos alcançar o lugar
de podermos dizer a Khaled Hosseini e aos muçulmanos que Deus os ama com o
mesmo amor ilimitado e incondicional pelo qual eles tanto anseiam, o amor com que
Hassan amou Amir no romance de Hosseini. Precisamos alcançar o lugar de dizer a
eles que em amor, e por amor, Cristo, o Filho de Deus, sofreu e morreu por nós
sacrificalmente, nos salvando e assumindo a nossa culpa, assim como no romance
de Hosseini, Hassan, o filho do pai de Amir, cuja identidade Amir não conhecia, e
que o amava, assumiu a vergonhosa culpa de Amir, mesmo sabendo perfeitamente
quem ele era. Precisamos alcançar o lugar de dizer a eles que o amor de Deus para
com todos os homens é imutável, assim como no romance de Hosseini o amor de
Hassan por Amir expresso na carta que ele escreveu a Amir resistiu ao tempo de
separação e afastamento, permanecendo o mesmo, e aguardando pelo retorno de
Amir.

REFERÊNCIA

19
A Crença Nos Anjos – disponível em
<http://www.turntoislam.com/forum/showthread.php?t=30334> Acesso em
30/09/2010

Ataques de 11 de setembro de 2001, disponível em


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HOSSEINI, Khaled, O Caçador de Pipas. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira. 2003.
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Acesso em 23/09/2010.

Khaled Hosseini, disponível em <http://www.answers.com/topic/khaled-hosseini>


Acesso em 25/09/2010.

20
Khaled Hosseini, disponível em <http://www.khaledhosseini.com/hosseini-bio.html>
Acesso em 23/09/2010.

Khaled Hosseini, disponível em <http://www.achievement.org/autodoc/page/hos0bio-


1> Acesso em 23/09/2010.

Khaled Hosseini. Newsweek [serial online]. January 14, 2008;151(2):16. Available


from: Academic Search Premier, Ipswich, MA. Informação adicional: Link
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TAKESHITA, Kinga Márkus. The Tragedy of Sohráb and Rostám from the Persian
National Epic, the Shahname of Abol-Qasem Ferdowsi, Asian Folklore Studies 48 no
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TUCKER, Ruth A., “...Até os Confins da Terra – Uma História Bibliográfica das
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The Kite Runner, disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/The_Kite_Runner>


Acesso em 23/09/2010.

Words of support for UNHCR as Kite Runner author publishes new novel, disponível
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25/09/2010.

21