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Arquivo Nacional
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Nº 10
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Ano 10
Ano 10 de 2013
Novembro de
Nacional Novembro 2013 de Arquivo
Cinema de
de Cinema Arquivo DE JANEIRO,
CAPITAL DO
Internacional de
Festival Internacional

CINEMA
do Festival
Revista do
Revista
MINISTÉRIO
MINISTÉRIODA
DACULTURA,
CULTURA,CORREIOS,
CORREIOS,
ARQUIVO
ARQUIVONACIONAL
NACIONALEERIO
RIODE
DECINEMA
CINEMA
APRESENTAM
APRESENTAM

EM PROSA E FITAS
FILMES
FILMES//PALESTRAS
PALESTRAS//REVISTA
REVISTARECINE
RECINE

25-29 
NOV/2013
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ARQUIVO
ARQUIVONACIONAL
NACIONAL
PRAÇA
PRAÇADA
DAREPÚBLICA,
REPÚBLICA,173
173
CENTRO
CENTRO––RIO
RIODE
DEJANEIRO
JANEIRO
ENTRADA
ENTRADAFRANCA
FRANCA

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© 2013 by Arquivo Nacional do Brasil
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CEP 20211-350 - Rio de Janeiro - RJ - Brasil
Tel. 55 21 2179 1286

Presidente da República
Dilma Rousseff

Ministro da Justiça
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Coordenadora de Pesquisa e Difusão do Acervo


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Editora
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Santos do Vale • Viviane Gouvêa

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Coordenadora de Preservação do Acervo


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Adolfo Celso Galdino • Cícero Bispo • Fábio Martins
Flávio Lopes (supervisão) • Janair Magalhães
José Humberto • Rodrigo Rangel
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Esta obra foi impressa pela Imprensa Nacional


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Tiragem: 1.000 exemplares
cine
Apresentação 4
Renata dos Santos Ferreira

A cidade no cinema brasileiro: Rio de Janeiro, ontem e hoje 8


Michelle Sales

O cinema no Rio de Janeiro pelas lentes da Família Ferrez 18


Renata William Santos do Vale

Uma nova arquitetura para a Cinelândia carioca:


um espaço público de magia nos anos 1920 e 1930 34
Evelyn Furquim Werneck Lima

O filme musical carioca dos anos 30 e 40 46


Suzana Cristina de Souza Ferreira

O cinema independente carioca dos anos 1950 54


Luís Alberto Rocha Melo

As imagens de cinejornais da Agência Nacional


– um passeio pelos anos 1950 64
Renata Vellozo Gomes

Adorável Carvana 72
Regina Zappa

O Rio de Janeiro sob o olhar de Hollywood 80


Leonardo Name

Rio que não é rio, imagens: a representação da modernidade


urbana carioca no cinema brasileiro entre 1955 e 1970 92
Carlos Eduardo Pinto de Pinto

Os cineclubes e a Cinemateca do MAM: espaços


culturais da cidade do Rio de Janeiro na década de 1960 104
Alice Pougy

A socialização de cineastas na cidade do Rio de Janeiro


entre as décadas de 1950 e 1970 112
Rosália Duarte

Múltiplas cidades: representações do Rio de Janeiro


no cinema e em outras mídias 124
Ana Paula Alves Ribeiro

Entrevista: O Rio amoroso e encantador de 138


José Inácio Parente

Investigação e catalogação da coleção SRTV do acervo do


Centro Técnico Audiovisual do Ministério da Cultura 150
Igor Andrade Pontes

Para além da digitalização: aspectos e desafios


da preservação sonora hoje 158
Marco Dreer Buarque

A importância da produção cinematográfica


do Rio de Janeiro no mercado do cinema nacional 168
João Luiz de Figueiredo Silva

A favela em cena: uma trajetória do idealismo à selva de sangue 176


Lúcia Loner Coutinho
Ana Paula Alves Ribeiro  Doutora em Saúde Coletiva e mestre em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Antro-
póloga, professora universitária e pesquisadora associada do Grupo de Análises Políticas e Poéticas Audiovisuais e do Núcleo de Estudos em Cultura,
Identidade e Subjetividade (Cultis), ambos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Colaboradora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e
do Núcleo de Pesquisa das Violências, ambos da UERJ.

Múltiplas cidades
Representações do Rio de Janeiro
no cinema e em outras mídias

“ De uma cidade não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete


maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas.

Ítalo Calvino, em Cidades invisíveis.

Quantas cidades cabem em uma cidade? Quantas Este artigo é uma reflexão inicial do projeto de
cidades cabem em filmes sobre a(s) cidade(s)? pesquisa que desenvolvo atualmente sobre as múl-
Quantas cidades estão na experiência dos diretores tiplas representações da cidade do Rio de Janeiro
e personagens, na sua vivência e inscritas nos seus no cinema e em outras mídias. Na pesquisa, tanto
corpos? Quantas cidades são possíveis em uma ficções como as não-ficções me interessam, assim
narrativa e nas interpretações que estas narrativas como suas inter-relações. Para o desenvolvimento
suscitam? deste texto estou considerando especificamente
os documentários de longa metragem produzidos
Meninos Estas perguntas são frutos da minha curiosidade (e que entraram em cartaz) entre 1995 e 2010, que
observam
do alto do
sobre os diálogos entre cinema, espaço urbano e retratem o Rio de Janeiro (ou que o Rio de Janeiro
Morro do suas representações. Interessa-nos refletir, a partir esteja representado) ou, mais especificamente, sua
Pasmado
a praia de
do enfoque da Antropologia do Cinema em parti- arquitetura e a relação da população com o espaço
Botafogo, cular (e das Ciências Sociais & Cinema), sobre as urbano, do indivíduo com a metrópole, a partir
1961.
Correio da
imagens das cidades no cinema, nas (re)construções do entendimento da multiplicidade desta cidade.1
Manhã dos espaços urbanos e das formas de se apropriar
desses espaços, nas políticas culturais desenvolvidas Este artigo é, ainda, um desdobramento das minhas
na(s) cidade(s), nos sujeitos envolvidos no processo reflexões sobre a cidade do Rio de Janeiro, desen-
do fazer cinematográfico. Desdobram-se também volvidas nos últimos 15 anos, desdobramentos dos
em outras possíveis análises: metrópoles e dilemas meus estudos de pós-graduação. Entre 2000 e 2009,
das metrópoles no cinema, militância e engajamen- enquanto realizava o mestrado e o doutorado, uma
to, subjetividades e memórias, filmes de arquitetos das metodologias de pesquisa utilizadas por mim
e sobre arquitetos, enfim, as mais diversas relações para pensar meu tema de pesquisa foi a análise
entre cinema e cidade. fílmica, que ajudou a refletir sobre o que eu traba-

1 Importante ressaltar que a análise apenas dos documentários se deve a questões metodológicas, e que não deixo de lado outras pers-
pectivas, tais como uma comparação com as imagens e representações do Rio de Janeiro no cinema de ficção do mesmo período, assim
como em outras mídias, principalmente séries televisivas, produzidas pelas TVs abertas ou para os canais a cabo.
cine Rio de Janeiro,
capital do
cinema

125

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Múltiplas cidades

Os jardins
encharcados
pela chuva

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torrencial: o
cenário urbano
sujeito às
intempéries dá
lugar a uma
visão poética,
imagem de
uma cidade
de múltiplos
olhares. Correio
da Manhã

lhava naquele momento: apropriação dos diversos inclusive como radicalmente diferentes dentro de-
espaços da cidade pelos seus moradores, violência las mesmas (bairros que fazem parte da Zona Oeste
urbana e políticas sociais e culturais (principalmente são muitos diferentes entre si, podendo contemplar
relacionadas ao carnaval e ao samba).2 Barra da Tijuca e Santa Cruz, por exemplo). E esta
percepção não se refere apenas ao Rio de Janeiro,
Uma das principais questões percebidas naquele basta olhar para a produção em cinema e TV de
momento era a impossibilidade de, em pesquisas outras cidades, como Recife3 ou na Nova Orleans
socioantropológicas, generalizar sobre os espaços (EUA) pós-Katrina.4
da cidade, fosse porque a cidade se constitui em
sua diversidade de povoamento, economias, cons- Essas diferentes reflexões e suas possibilidades de
truções arquitetônicas, da dinâmica de políticas pensar qualquer cidade sob a óptica de múltiplos
(de todo tipo: urbanísticas, culturais, de segurança olhares, múltiplas representações e identidades, vai
pública) e de acesso a bens e serviços e equipamen- desde um debruçar sobre fenômenos urbanos, tais
tos culturais, do ethos e das identidades dos seus como violência urbana, as transformações radicais
moradores e de zonas da cidade que se compõem nas paisagens urbanas causadas por catástrofes ou

2 Este texto que agora apresento é um desdobramento também de reflexões sobre a cidade do Rio de Janeiro nos últimos 15 anos.
Cientista social de formação, desde a graduação venho pesquisando os diferentes espaços da cidade e como a violência urbana afeta
moradores de áreas menos cuidadas ou com menos políticas públicas e equipamentos (sejam eles direitos sociais, sejam equipamentos
culturais). No caso específico do Rio de Janeiro, optei por estudar movimentos culturais e políticas sociais de prevenção à violência
no subúrbio do Rio de Janeiro, pensando principalmente em ONGs e associações que tivessem projetos ligados à musicalidade negra
(afro-brasileira), principalmente o samba e o jongo.
3 No Recife, realizadores como Kléber Mendonça Filho, Cláudio Assis, Gabriel Mascaro, entre outros, têm representado os seus
“Recifes” nas telas nos últimos anos.
4 Após a passagem do furacão Katrina, em 29 de agosto de 2005, e a inundação de várias cidades no entorno do Golfo do México,
deixando mais de 1.800 mortos e um rastro de destruição, houve como consequência a diáspora de seus moradores para outras cidades
norte-americanas e uma reconfiguração do seu espaço urbano e da sua cultura local. Desde o furacão, período denominado pós-K, têm
sido produzidos pelos próprios moradores da cidade e ativistas (músicos, ambientalistas, do movimento negro, por exemplo) filmes de
ficção e documentários, assim como programas televisivos sobre a cidade, recuperando trajetórias, memórias, culturas musicais e, no
caso das ficções, utilizando a cidade como cenário e incrementando a indústria cinematográfica local, as ofertas de emprego e o turismo.
cine Rio de Janeiro,
capital do
cinema

megaeventos, um olhar mais acurado para determi- guerras de facções do tráfico de drogas, altamente 127
nadas áreas da cidade, passando por personalidades armado e violento. No Rio de Janeiro visto pelo ci-
e suas biografias individuais, movimentos culturais, nema, estes dois fatores, juntos ou separados, estão
ou elementos de identificação de um determinado presentes, fazendo com que tenhamos um eterno
meio característico da cidade, como praias ou fave- retorno a estas questões e imagens, mesmo com
las, espaços estes que aparecem nas representações a diferença de abordagem dos diretores em cada
sobre identidade do Rio de Janeiro. produção, tornando tais representações do Rio uma
recorrência. Neste sentido, cabe perguntar: O Rio
Pensar esta multiplicidade se faz necessário e deve de Janeiro da ficção é tão múltiplo assim?
ser feita com algumas ressalvas: a primeira é que
a cidade pensada por especialistas, sejam estes ar- Rio cenário, Rio turístico, violência, favela
quitetos e urbanistas, antropólogos, sociólogos e e poucas coisas mais
geógrafos entre tantos é, via de regra, radicalmente
diferente da cidade filmada. A cidade filmada é Antes de olharmos para os documentários, cabe
uma obra de arte e daí vem nossa segunda res- falar dessas imagens quase homogêneas do Rio, de
salva: mesmo levando em consideração que ela é uma era pré-UPP (Unidade de Polícia Pacificadora),
resultado e por si só uma obra de arte, há o olhar como uma cidade violenta e que esta violência está
do cineasta, que é um olhar no mundo. Cinema en- localizada em bairros mais pobres e favelas. Este
gajado, interesse social, ativismo político. Algumas Rio de Janeiro enfrenta o dilema de lidar com o
representações influenciarão olhares e percepções, tráfico e a guerra gerada pela necessidade de se as-
geram identificações, poderão ser utilizadas em sala sumir os pontos de drogas e, posteriormente, uma
de aula como metodologia de pesquisa e estratégia mudança nesta dinâmica, que é o aparecimento
de divulgação de resultados. das milícias e a disputa do mercado de segurança.

Uma das premissas deste trabalho é que a fotogra- Dos 33 filmes levantados inicialmente, em 13 pelo
fia, desde meados do século XIX, depois o cinema menos uma destas duas abordagens está presente.
e hoje os registros em novas mídias têm captado A violência aparece em dois dos filmes de Murilo
e retratado as várias cidades existentes no Rio de Salles, Como nascem os anjos (1996) e Seja o que Deus
Janeiro. Das diferenças dos espaços – povoamento, quiser (2002). Está presente em Orfeu (1999), de
construções, apropriações, políticas públicas, dis- Carlos Diegues; Cidade de Deus (2002), de Fernando
cursos – emergiu uma cidade que se entende como Meirelles; Quase dois irmãos (2004) e Maré – nossa
múltipla, o que se reflete nas imagens produzidas história de amor (2008), de Lúcia Murat; Tropa de elite
sobre ela. Esta ideia de múltiplas cidades agrega (2007) e Tropa de elite 2: o inimigo agora é outro (2010),
ou absorve os discursos urbanísticos e arquite- de José Padilha; Cidade dos homens (2007), de Paulo
tônicos e as proposições da antropologia de uma Morelli; Era uma vez... (2008), de Breno Silveira;
determinada época. E se cada cidade é plural, em Verônica (2008), de Maurício Farias; Última parada
suas várias dimensões, os filmes também o são. 174 (2008), de Bruno Barreto; 5x favela: agora por
São inúmeras as possibilidades de representar uma nós mesmos (2010), de Manaíra Carneiro & Wagner
cidade, sejam estas na ficção ou na não-ficção. Es- Novais, Rodrigo Felha & Cacau Amaral, Luciano
pecificamente no caso do Rio de Janeiro, a análise Vidigal, Cadu Barcellos e Luciana Bezerra. Filmes
prévia dos dados demonstra que as representações como os de Murilo Salles (principalmente Como
da cidade na ficção são compostas, em sua maioria, nascem os anjos) e Carlos Diegues (com Orfeu) são
por imagens de uma metrópole que enfrentou dile- frequentemente objetos de análise em áreas como
mas específicos de um crescimento acelerado e de sociologia, antropologia, comunicação e estudos
mudanças em suas organizações políticas durante de cinema. Não é exagero dizer que Cidade de
o processo que emerge ao final da ditadura militar Deus e os dois Tropa de elite são três dos filmes
e no período de redemocratização. Emergência e mais analisados no Brasil e por brasilianistas na
crescimento das favelas ao longo do século XX e última década, originando artigos, dissertações e
um quadro de violência urbana consequente das teses também nestas áreas, e que caberia um le-
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Múltiplas cidades
cine Rio de Janeiro,
capital do
cinema

vantamento específico sobre os diferentes olhares so de Expedito e no seu contato com o urbano. 129
e reflexões oriundos destes filmes. Olhares “de Transeunte é um filme no qual o envolvimento se
perto” e “de dentro”, como diria o antropólogo dá aos poucos, assim como o reconhecimento
urbano José Guilherme Cantor Magnani sobre a de espaços e situações, numa construção em que
diferença de olhares entre quem “sabe” e quem ficam pouco claros os limites entre documentário
“vivencia”. Tendo Cidade de Deus virado roteiro a e ficção, entre aqueles que são atores e os não
partir do livro de Paulo Lins, do mesmo nome, profissionais. A ausência de limites, algumas vezes,
publicado pela Companhia das Letras em 1997, e nos joga dentro do filme, já que alguns planos dão
de Tropa de elite ser originado de Elite da tropa, de a sensação de sermos um na multidão, testemu-
André Batista, Rodrigo Pimentel e Luiz Eduardo nhas da história de Expedito e da sua memória. O
Soares, publicado pela Objetiva em 2006, os Rios que se vê pelos olhos de Expedito? Gente comum
de Janeiros contidos nas narrativas de Paulo Lins, como o próprio personagem, os trânsitos entre
ex-morador da Cidade de Deus, e dos policiais do as várias cidades (cemitério, estádio de futebol,
Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), bares, ruas, transportes) e em uma cidade que está
no caso de Batista e Pimentel, ou do ex-secretário em transformação acelerada, assim como a vida
de segurança pública do Estado do Rio entre 1999 do personagem, obras em andamento, operários
e 2000, no caso de Soares, podem ter feito destes trabalhando e construções. Em contrapartida, o
filmes símbolos desta cidade. que não vemos? E por que não vemos o que Ex-
pedito provavelmente não vê? Favelas. Parte do
Outros olhares neste quadro surgem na produção centro do Rio de Janeiro é cercado de morros e
de 5x favela: agora por nós mesmos, um projeto de favelas. No centro do Rio deste filme se vê prédios
cinco curtas, que, como o nome diz, foi concebido e nenhuma favela.
e realizado por moradores de favelas da cidade.
É uma cidade fora do eixo, fora do espaço,
Ainda que as favelas ou o tráfico de drogas (ou deslocada. É Rio de Janeiro e não é. Como foi
os dois juntos) não sejam foco ou cenário dos apontado em toda a divulgação do filme, poderia
filmes, a violência urbana, mesmo quando não ser qualquer cidade da América Latina, e seu
é parte constituinte da narrativa, algumas vezes centro poderia ser o centro de qualquer grande Foliões
descansam na
emerge em episódios para marcar a especificidade metrópole. Assim, Expedito poderia estar em calçada após
de se viver em uma metrópole onde a pobreza qualquer lugar, em qualquer metrópole. Isso se dá mais um desfile
de escola de
e a desigualdade estariam postas. Para além da porque em Transeunte, o que é comum, o cotidiano samba. O
equação favelas, tráfico de drogas, violência ur- é privilegiado e qualquer imagem pré-concebida carnaval é
uma das mais
bana, parte do que passa essas ficções “reais” é a do Rio de Janeiro é recusada. Não há violência, frequentes
imagem de um Rio de Janeiro cenário/paisagem tráfico de drogas, favelas no horizonte, e o preto representações
ou do exotismo do olhar sobre a cidade e seus e branco aplaca a imagem (real) de abandono e da cidade do
Rio de Janeiro
moradores. Neste sentido, quais são as imagens decadência que a cidade pode ter. Tudo tem um no cinema.
alternativas a estas que a ficção apresenta? Acre- pouco de abandono e decadência na vida, na casa Correio da
Manhã
dito que Transeunte (2010), de Eryk Rocha, é uma e na cidade que Expedito habita, trazendo um ar
destas possibilidades. atemporal ao filme. Tudo mesmo, até a camiseta
oficial do Flamengo que ele utiliza. Cabe notar,
O filme Transeunte tem como protagonista Expe- porém, o centro antigo do Rio de Janeiro se revi-
dito, um recém-aposentado e sem grandes laços talizando aos poucos, ao mesmo tempo em que a
sociais, morador do Rio de Janeiro que tem uma vida de Expedito sofre transformações.
experiência singular com a cidade onde mora.
Na sinopse, aparece como um filme que fala Tendo a considerar Expedito um narrador singular
principalmente da vivência de um indivíduo na de cidades que vão sendo desvendadas por meio
metrópole, do seu envelhecimento e da sua soli- dos trânsitos, que se mostram mais possíveis e
dão. Com 125 minutos, filmado em película e em plurais nos filmes documentários produzidos sobre
preto e branco, o filme é um mergulho no univer- e na cidade do Rio de Janeiro.
Múltiplas cidades

Documentários sobre o Rio de Janeiro João Moreira Salles produziu em anos anteriores
uma série para o canal a cabo GNT chamada Futebol
Quando os documentários sobre o Rio entram (1998),6 que apresentava a vivência na cidade dos
em foco, comparando com as ficções produzidas jogadores de futebol – aspirantes, profissionais e
no mesmo período, as perspectivas mudam. Nos aposentados. A luta para se consolidar no campo, o
documentários, o Rio de Janeiro que aparece é trânsito pela cidade para participar das diversas pe-
muito mais plural. A cidade que nos é apresentada, neiras, as dificuldades de deslocamento no caso das
no mesmo período é muito significativa: Santo Forte, famílias mais pobres, assim como o início do sucesso
de Eduardo Coutinho, assim como Notícias de uma e as possibilidades de vivenciar a profissionalização
guerra particular, de João Moreira Salles, os dois de no futebol no caso dos que estavam se consolidando
1999, trazem uma perspectiva muito própria em na profissão são algumas das propostas apontadas
cada um. Em Santo Forte, filmado na Vila Parque da naquele filme. No terceiro filme da série, Paulo Cé-
Cidade, na Zona Sul do Rio, o documentário nos sar Caju, antigo jogador, morador de Copacabana,
apresenta a visões da religiosidade carioca, brasi- era uma possível interpretação das escolhas feitas
leira, sincrética, e como se dá a relação com esta durante o processo de profissionalização.
religiosidade – independente qual seja: o sincretis-
mo, os trânsitos religiosos e a fé estão presentes. Ao fazer o filme Edifício Master (de 2002), sobre
Notícias de uma guerra particular, de João Moreira Sal- um edifício de apartamentos conjugados em Co-
les, vai retratar os dilemas de uma cidade em guerra pacabana, Eduardo Coutinho dá face a histórias
constante por conta do tráfico de drogas, trazendo e trajetórias que teriam se despersonalizado em
a dimensão de especialistas, soldados em lados uma metrópole.
opostos nesta guerra e moradores. Ambos de 1999,
ambas perspectivas plurais. Eduardo Coutinho já São estas várias faces da cidade que passam a emer-
havia retratado uma favela do Rio de Janeiro (Santa gir em documentários tão distintos em estilo como
Marta: duas semanas no morro, 1987), assim como em propostas: o centro do Rio quase desconhecido
retratará no ano seguinte outra favela, em Babilônia em uma pré-revitalização da área do porto e seus
2000 (filmado no Morro da Babilônia, estreou em antigos moradores em Morro da Conceição (Cristiana
2000). Três favelas da Zona Sul com personagens Grumbach, 2005), a tradição de bate-bolas nos
construídos distintamente, assim como estes três bairros do subúrbio do Rio de Janeiro em Carnaval,
documentários têm perspectivas muito distintas, bexiga, funk e sombrinha (de Marcus Faustini, 2006)
que recusam um olhar maniqueísta sobre a favela ou sobre o próprio subúrbio, como Alma suburbana
A praia como bem como recusam colar a favela a uma imagem (de Luiz Cláudio Lima, Hugo Labanca, Leonardo
espaço de
de violência. As pessoas vivem suas religiosidades, Oliveira e Joana D’Arc, 2007), uma suposta identi-
convivência
e lazer é um têm as suas expectativas quanto ao futuro no início dade carioca que passa pela praia em Faixa de areia
dos locais que
de uma nova década e vivem um cotidiano que não (Daniela Kallmann e Flávia Lins e Silva, 2007) são
melhor descreve
uma suposta nega a violência urbana ou a criminalidade existente alguns destes exemplos. Há outros passos a analisar
identidade
na cidade, mas que ao mesmo tempo está para além mais detalhadamente nos casos a seguir. Um dos
carioca. Correio
da Manhã dela. O filme de João Moreira Salles, Notícias ..., faz mais interessantes é a cidade como palco eleitoral
com que acompanhemos personagens tão distintos dos aspirantes a vereadores de Vocação do poder
como Hélio Luz, que foi chefe da polícia civil do (Eduardo Escorel e José Joffily, 2005).
Rio de Janeiro de 1997 a 1999, Paulo Lins e Rodrigo
Pimentel, então do Bope, hoje comentarista da área O filme acompanha seis candidatos a vereador na
de segurança pública da Rede Globo.5 A cidade na eleição de 2004 na cidade do Rio de Janeiro. Mari-
qual estas pessoas nasceram e a cidade que perce- nheiros de primeira viagem, Carlo Caiado, a pastora
bem definitivamente não é a mesma. Márcia Teixeira, André Luiz Filho, Antonio Pedro,

5 Paulo Lins e Rodrigo Pimentel têm se constituído como vozes constantes sobre imagens da cidade.
6 O primeiro filme da série Futebol, de João Moreira Salles, acompanha durante meses meninos do subúrbio e das favelas do Rio de
Janeiro, alguns de outros estados, que têm como sonho tornarem-se jogadores de futebol.
cine Rio de Janeiro,
capital do
cinema

131
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Múltiplas cidades

Felipe Santa Cruz e MC Geleia representam um


pouco da diversidade política do município. Com
inserções religiosas, idades, classes sociais e trajetó-
rias políticas bem distintas, os candidatos conseguem
construir uma relação de empatia com a câmera,
algo dificultado pelas filiações político-partidárias
de cada um. Eles encarnam quase à perfeição uma
fatia do eleitorado carioca e suas opções. A tentativa
deles de passar credibilidade, mostrar a relação com a
família e os amigos e o apoio que eles têm cria certa
simpatia com o público que os assiste.

Ao expor suas plataformas de campanha, algumas


falas clientelistas emergem nos discursos, e a tenta-
tiva de se aproximar do eleitor, seja ele quem for,
faz com que se explicite como a política municipal
é exercida de maneiras e com estratégias tão dife-
rentes nas várias regiões da cidade.

Projetos sociais que só funcionam em função das


eleições, distribuição de cadeiras de roda, apa-
drinhamento político, reconstrução de telhados,
pagamento de cabos eleitorais e, em alguns casos, a
Copacabana vontade de se manter distante deste tipo de prática
vista do Morro
da Babilônia.
tão natural para alguns candidatos que reproduzem
Durante os parcialmente o que vemos desde que o voto foi
preparativos
para a festa da
instituído no Brasil.
virada do ano
2000, Eduardo
Coutinho
Já em documentários como Moro no Brasil e Contra-
gravou tempo, cineastas vão começar a trabalhar não apenas
depoimentos
dos moradores
com a concepção de que os jovens são o futuro do
da favela país, mas também de que os projetos sociais foram
sobre suas
expectativas
criados para aumentar o leque de oportunidades
para a nova dos jovens quanto à capacitação profissional, à
década, inserção no mercado de trabalho e às oportunida-
resultando no
documentário des de lazer nos bairros mais pobres e nas favelas.
Babilônia 2000.
Correio da
Manhã Esses filmes apresentam um duplo movimento.
Primeiro porque demonstram que a história desses
jovens e das pessoas que fizeram diferença em suas
BRJANRIO_PH_0_FOT_04134_060

comunidades é passível de virar filmes produzidos


por Hollywood, para a televisão ou se transfor-
marem em documentários e objeto de programas
vespertinos no estilo Oprah Winfrey. Ao mesmo
tempo, ao transformar em ficção algumas dessas
histórias reais, inspiram diversas comunidades a
se organizarem para defender seus interesses po-
líticos e criar alternativas educacionais, esportivas,
culturais e de lazer para suas crianças e jovens,
cine Rio de Janeiro,
capital do
cinema

133
Múltiplas cidades
cine Rio de Janeiro,
capital do
cinema

além de efetivamente trabalhar com a prevenção e


135
o desenvolvimento do capital cultural e da cultura
cívica dentro das vizinhanças a que elas pertencem.

No documentário Moro no Brasil (de 2002), Mika


Kaurismäki defende a tese de que o samba é a mú-
sica por excelência do Brasil e como tal não é único,
não tem uma única matriz, não tem um único dono.
É a partir das influências regionais de Pernambuco,
Bahia e Rio de Janeiro que o diretor pensa também
na transformação deste ritmo e em como as novas
gerações o recebem, o respeitam, o transformam
e tem suas vidas também transformadas por ele.
Especificamente no Rio de Janeiro, o projeto es-
colhido é o Funk’n’Lata, criado por Ivo Meirelles,
que deixa claro no filme disputar os meninos com
o tráfico por meio do consumo. A escolha deste
grupo traz uma face moderna e atual da música
inserida em políticas sociais, a importância do
trabalho voluntário e a negritude como elemento
agregador desses jovens, imagem próxima (sem
o elemento da cultura negra carioca) apresentada
em Contratempo, de 2009. Documentário de Malu
Mader e Mini Kerti, conta a história de 11 jovens
do Rio que tiveram suas vidas transformadas pela
música através do projeto Villa-Lobinhos.

Perfis biográficos e musicais podem ser pensados


de diversas maneiras, entre as quais o biografado
como partícipe de movimentos culturais, ícone
de uma geração ou determinado comportamento,
referência fundamental em determinado estilo de
BRJANRIO_PH_0_FOT_00091_107

música, ou aquele que viaja entre os bairros para A comunidade


levar seu talento ou pensar a si e sua própria cidade. do Morro Santa
Marta retratada
Destaco alguns deste período que são bons para por Eduardo
pensar as diversas conexões que a cidade pode ter, a Coutinho em
Santa Marta:
partir dos movimentos musicais. Paulinho Viola: meu duas semanas
tempo é hoje (de Izabel Jaguaribe, 2003) é um deles. no morro
(1987). Correio
Paulinho da Vila, carioca nascido em Botafogo, da Manhã
morador da Zona Oeste, portelense e frequentador
de Oswaldo Cruz, com parceiros e amigos em toda
cidade, representante do samba, do choro e um dos
melhores músicos brasileiros, nos apresenta parte
da cidade que frequenta, quase como um flâneur.
Da sinuca aos sebos, das rodas de samba à vida em
família, o trânsito pela cidade mostra uma possibi-
lidade cotidiana não estereotipada, seja da vivência
da cidade pautada em sua identidade de carnaval e
samba, seja da cidade violenta que o Rio apresenta
Múltiplas cidades

no mesmo momento nos filmes de ficção. Em uma Estamos falando de Rios de Janeiros e as possibi-
linha semelhante, a escola de samba Mangueira dos lidades interpretativas são tão múltiplas quanto
filmes de Thereza Jessouroun (Samba, de 2001, e esta cidade, estas cidades. São cidades e análises
mais recentemente Coração do samba, de 2012) ou abertas e que podem se desdobrar em muitas
do filme de Geórgia Guerra-Peixe (O samba que outras. Porém, não gostaria de deixar de apontar
mora em mim, 2010), ou a Portela do filme de Lula uma categoria que existe como campo de pesquisa
Buarque de Hollanda e Carolina Jabor (O mistério das relações entre o cinema e a cidade, que são os
do samba, 2008), filmes “de dentro”. Dentro da filmes de arquitetos ou que retratam marcos ou
escola, dentro das comunidades, dentro da cidade. expoentes da arquitetura. Reidy: a construção da utopia
Mesmo que as escolas sejam do Grupo Especial (2009), de Ana Maria Magalhães, sobre o urbanista
e importantes no cenário do carnaval do Rio de Affonso Eduardo Reidy (1909-1964); Irmãos Roberto
Janeiro, e que sejam olhares “de fora”, pois foram (2011), de Ivana Mendes e Tiago Arakilian, sobre os
realizados por cineastas não moradores dos bairros arquitetos e irmãos cariocas Marcelo (1908-1964),
onde estas escolas estão, são “olhares de dentro” Milton (1914-1953) e Maurício Roberto (1921-
de quem vivencia aquelas experiências, e o olhar 1996); e HU (2011), de Pedro Urano e Joana Traub
homogêneo e estereotipado passa longe, da dança, Csekö, sobre o Hospital da Universidade Federal
da bateria, do morro e da velha guarda e sua tra- do Rio de Janeiro, fazem parte deste último caso.
dição, respectivamente. Aliás, o que está posto é a
tradição das escolas, sua consolidação comunitária Nesses três filmes, o que está em jogo é a memória da
e o engajamento que os sambistas e cineastas têm cidade e de sua arquitetura em três casos singulares.
nestes casos. Outro exemplo de trânsito entre a ci- Como exemplo temos o Conjunto Habitacional do
dade que falará sobre a tradição e os percussionistas Pedregulho, em São Cristóvão, o Museu de Arte Mo-
das escolas de samba é o filme As batidas de samba, derna do Rio de Janeiro, ambos de Reidy; os edifícios
de Bebeto Abrantes (2010), só que, neste caso, o da Associação Brasileira de Imprensa e do Instituto
diretor opta por não focar em uma escola ou no de Resseguros do Brasil no centro da cidade, dos ir-
carnaval, mas na profissionalização do músico de mãos Roberto; e a história do Hospital Universitário
samba, que atravessa a cidade para apresentar sua Clementino Fraga Filho, da UFRJ, que funcionou
arte. Cenas de trânsitos, de passagens, dos bairros parcialmente durante anos até que sua parte inativa
são, neste sentido, constantes nesses filmes. A arte foi implodida em dezembro de 2010. Filmes que uti-
existe na cidade, sambistas, funkeiros e rappers são lizam arquivos para refletir sobre edifícios e pessoas
cronistas e mediadores desta cidade filmada. que fazem parte da memória e da história da cidade.
Cidade, paisagem, arquitetura. Mais um exemplo de
Fala tu, de Guilherme Coelho (2004), Sou feia mas como uma cidade pode ser múltipla.
tô na moda (2005), de Denise Garcia, e L.A.P.A: um
filme sobre o bairro da Lapa, um filme sobre o rap carioca Conclusão ou como a cidade se
(2008), de Cavi Borges e Emílio Domingos, podem torna uma cidade filmada
ser pensados nesta mesma categoria. Destaco Fala tu,
que ao optar por entrevistar e acompanhar três per- Hoje vivemos dois momentos distintos. Por parte
sonagens, incorporando o cotidiano do trabalho e a do poder público uma euforia da cidade em trans-
vivência familiar a uma busca pela profissionalização formação, de mudanças urbanísticas significativas
no hip-hop, fez de Macarrão, anotador de jogo do e megaeventos, que, em contrapartida, impactam
bicho morador do Morro do Zinco (região central (uma vez mais) em migrações internas, remoções.
da cidade), da operadora de telemarketing Mônica Nesse processo junta-se outro, em curso há algum
Combatente e do vendedor de produtos esotéricos tempo: a difusão de equipamentos como celulares
Thogun, ambos moradores da Zona Norte, nossos e câmeras digitais e a existência de universos tão
guias entre as diversas partes da cidade e suas percep- amplos quanto diversos, que incluem cineclubes,
ções sobre as diferenças apresentadas entre o andar diálogos entre cinema e escola, grupos de sensibi-
de dia, a noite, a favela, a não favela, o que é centro, lização ao audiovisual, projetos de extensão reali-
o que não é, os olhares masculinos, o feminino. zados nas faculdades e universidades, o audiovisual
cine Rio de Janeiro,
capital do
cinema

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O Museu de
Arte Moderna
do Rio de
Janeiro, obra
do arquiteto
Affonso Reidy,
tema do
documentário
Reidy: a
construção da
utopia (2009),
de Ana Maria
Magalhães.
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Correio da
Manhã

como ativismo e engajamento político e cultural, fazer cinema e no estudar cinema e seus diálogos
fazem com que percebamos que há uma maior interdisciplinares com a cidade. E daí temos alguns
apropriação da cidade (e de várias cidades) por seus projetos para se colocar nas agendas: a) o que foi
atores e uma consequente reflexão dos espaços que produzido na oficina do REcine sobre as cidades
habitamos e transitamos. Desta forma, vai sendo (e sobre o Rio de Janeiro); b) análises dos curtas
traçado um mapa visual do Rio de Janeiro (assim documentais, pois se as cidades desenham sua di-
como de outros municípios). Especificamente no versidade de representações nos longas-metragens,
Rio de Janeiro, o samba, o carnaval, o hip-hop, as a hipótese é que resultados tão ou mais interessan-
festas, os bailes, assim como as cenas menos cen- tes podem surgir nos curtas; c) a ideia de mapas
trais (periféricas), a religiosidade, as transformações colaborativos das produções audiovisuais sobre
(n)a paisagem, (n)a arquitetura, (n)o espaço, (n)as os bairros e cidades. Lá do Leste – uma etnografia
pessoas: anônimas e ilustres. Coberturas das ma- audiovisual compartilhada, cujos DVDs e livro
nifestações que ocuparam a cidade desde maio de são de Rose Satiko e Carolina Caffé, é um bom
2013, realizadas por mídias alternativas, coletivos exemplo deste trabalho;7 d) mais pesquisas e au-
e indivíduos têm trazido outras faces da cidade. torreflexões sobre a produção cineclubista, como
no recém-lançado livro O cerol fininho da Baixada –
Para terminar uma reflexão que está começando, Histórias do cineclube Mate com Angu, de Heraldo HB
vejo inúmeras possibilidades aos dispostos, no (Aeroplano, 2013).8

7 Ver http://www.ladoleste.org/sobre.html.
8 Referências bibliográficas: BALLERINI, Franthiesco. Cinema brasileiro no século 21: reflexões de cineastas, produtores, distribuidores,
exibidores, artistas, críticos e legisladores sobre os rumos da cinematografia nacional. São Paulo: Summus, 2012; COSTA, Maria Helena.
A cidade como cinema existencial. RUA: Revista de Urbanismo e Arquitetura, v. 7, n. 2, 2006. Acesso em: 15 ago. 2013; LINS, Con-
suelo; MESQUITA, Cláudia. Filmar o real: sobre documentário brasileiro contemporâneo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. NAME,
Leonardo. Escalas de representação: sobre filmes e cidades, paisagens e experiências. RUA: Revista de Urbanismo e Arquitetura, v.
7, n. 2, 2006. Acesso em: 7 jun. 2012; RIBEIRO, Ana Paula Alves. A memória – a leveza – o olhar – o olfato – o tato – o jogo: Transeunte, de
Eryk Rocha. Trabalho apresentado na 28ª Reunião Brasileira de Antropologia, realizada entre os dias 2 e 5 de julho de 2012, em São
Paulo, SP, Brasil. Grupo de trabalho 09: Antropologia do cinema: entre narrativas, políticas e poéticas; ROCHA, Ana Luiza Carvalho
da; ECKERT, Cornelia. O tempo e a cidade. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 2005.