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ESCATOLOGIA CRISTÃ

Pe. Henrique Soares da Costa

O HOMEM, O FIM DOS TEMPOS E AS REALIDADES ETERNAS

www.padrehenrique.com
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Índice

Pe. Henrique soares da Costa.....................................................................................................................1


Índice......................................................................................................................................................2
Algumas questões sobre e morte e o Além....................................................................................................3
Escatologia - Sobre o fim do mundo!............................................................................................................7
A Vinda do Senhor segundo o Antigo Testamento ........................................................................................8
A Vinda do Senhor segundo o Novo Testamento - I .....................................................................................9
A Vinda do Senhor segundo o Novo Testamento - II ..................................................................................11
A Vinda do Senhor segundo o Novo Testamento - III ................................................................................12
A Parusia do Senhor e o Juízo Final ...........................................................................................................13
A ressurreição dos mortos - I ......................................................................................................................14
A ressurreição dos mortos - II .....................................................................................................................15
A ressurreição dos mortos - III ....................................................................................................................17
A ressurreição dos mortos - IV ...................................................................................................................18
A ressurreição dos mortos - V .....................................................................................................................20
A Reencarnação: uma idéia cristã ou pagã? - I ...........................................................................................21
A Reencarnação: uma idéia cristã ou pagã? - II ..........................................................................................22
A Reencarnação: uma idéia cristã ou pagã? - III ........................................................................................23
A Reencarnação: uma idéia cristã ou pagã? - IV ........................................................................................25
A Vida Eterna: comunhão com Jesus ressuscitado – I.................................................................................26
A Vida Eterna: comunhão com Jesus ressuscitado - II ...............................................................................27
A Vida Eterna: comunhão com Jesus ressuscitado - III ..............................................................................29
O inferno - morte eterna, existência na contradição - I ...............................................................................30
O inferno - morte eterna, existência na contradição - II .............................................................................31
O inferno - morte eterna, existência na contradição - III ............................................................................32
A visão cristã da morte - I ...........................................................................................................................34
A visão cristã da morte - II ..........................................................................................................................35
A visão cristã da morte - III ........................................................................................................................36
A retribuição imediata. O estado intermédio. A imortalidade......................................................................38
A retribuição imediata. O estado intermédio. A imortalidade - II ...............................................................39
A retribuição imediata. O estado intermédio. A imortalidade - III .............................................................41
A purificação após a morte: o estado purgatório..........................................................................................42
Anjos, Diabo, demônios: o que a fé da Igreja ensina sobre eles? – I...........................................................45
Algumas questões sobre e morte e o Além

Pe. Henrique Soares da Costa www.padrehenrique.com

É importante compreender que nossa esperança repousa unicamente em Cristo: sua


Ressurreição é garantia e modelo da nossa: o destino de Jesus na sua morte e ressurreição é o
único critério para o cristão; é a garantia da nossa Esperança. Aquilo que aconteceu nele é feliz
antecipação da nossa herança futura.
A Escritura nos ensina que a Parusia do Senhor Jesus, sua Manifestação gloriosa no final dos
tempos, será causa da Ressurreição dos mortos: Cristo glorioso glorificará toda a humanidade, vivos
e mortos! “Esperamos o Salvador Jesus Cristo, que transformará nosso mísero corpo, tornando-o
semelhante ao seu corpo glorioso, em virtude do poder que tem de sujeitar a si toda criatura” (Fl
3,20s).
É importante, desde já, fazer uma distinção sobre o modo como o Novo Testamento utiliza a
palavra ressurreição. Há três modos de usá-la:
· em sentido figurado: como volta de um morto a esta vida. É o caso da “ressurreição” de
Lázaro, da filhinha de Jairo, do filho da viúva de Naim... etc. Aqui não se trata rigorosamente de
ressurreição no sentido cristão da palavra, mas de revitalização: ou seja, alguém estava morto e
voltou a esta vidinha nossa... e, depois, morrerá novamente!
· em sentido neutro: como passo prévio ao juízo: o homem não ficará na morte: ele, quer salvo,
quer condenado, continuará vivendo após a morte. Todos “ressuscitarão” para serem julgados! Este
não é ainda o sentido teologicamente mais profundo, mais forte e verdadeiro de ressurreição;
· em sentido teologicamente positivo: como plena participação e configuração à vida de Cristo
ressuscitado. Tal ressurreição é reservada somente aos bons. Aqueles que viveram na comunhão
com Cristo serão completamente transfigurados, transformados em Cristo ressuscitado: serão como
o próprio Cristo: passarão desta vida para uma outra Vida, plena, realizada, eterna! Este último
sentido é o que realmente tem importância e faz parte essencial do anúncio cristão; antes, é o
próprio centro do Evangelho! Quando dizemos que Cristo ressuscitou e que, nele, nós
ressuscitaremos, é neste último sentido que estamos falando! A Ressurreição que nos interessa é
esta última!
A Ressurreição, então, é a passagem desta vida (limitada, ambígua, precária) para uma
Vida plena, diversa desta nossa vida de agora: teremos a Vida do próprio Cristo ressuscitado, uma
Vida divina, na qual nosso corpo e nossa alma serão transfigurados. Como diz a III Oração
Eucarística para as crianças: “No Reino de Jesus ninguém mais vai sofrer, ninguém mais vai chorar,
ninguém mais vai ficar triste!” Nosso corpo será transfigurado, como o de Jesus: não mais estará
sujeito às leis da física, da matéria como a conhecemos agora; nossa alma também será
ressuscitada, transformada: nunca mais teremos tristezas, depressão, saudades... seremos
plenamente realizados, porque estaremos para sempre com o Senhor, que saciará todas as nossas
sedes e realizará todos os mais profundos anseios do nosso coração! É isto que significa ressuscitar!
Mas, vamos seguir passo a passo o Novo Testamento!
Vejamos, primeiro, o ensinamento do próprio Jesus Cristo. No seu tempo, a Ressurreição
era uma doutrina muito divulgada e aceita entre os judeus. Somente os saduceus achavam que a
vida acabava com a morte (cf. Mc 12,18; At 23,6-8). Uma idéia que nunca existiu no meio do povo
de Israel foi a da reencarnação - esta não tem nada a ver com a Bíblia! Contra os saduceus, Jesus
ensinou que Deus é o Deus dos vivos e não dos mortos: ele é o Deus que ressuscita seus amigos
(cf. Mc 12,18-27). Ainda para Jesus, essa vida após a morte será vida com o corpo e não somente
como a alma: “Não tenhais medo dos que matam o corpo mas não podem matar a alma. Deveis ter
medo daquele que pode fazer perder-se a alma e o corpo no inferno” (Mt 10,28). Observe-se bem
que segundo o Evangelho, corpo e alma sofrerão no inferno: “Se teu olho direito te leva a pecar,
arranca-o e joga longe de ti, pois é preferível perder um dos teus membros do que teu corpo inteiro
ser lançado no inferno. E se tua mão direita te leva a pecar, corta-a e joga longe de ti, pois é
preferível perder um dos teus membros do que teu corpo inteiro ser lançado no inferno” (Mt 5,29s).
É o homem todo, no seu corpo e na sua alma, que é salvo ou condenado! A idéia de uma alma
desencarnada que não tem nada a ver com o corpo, é totalmente contrária ao pensamento bíblico!
Jesus ensina também que bons e maus “ressuscitarão” (no segundo sentido, que apresentamos
acima) para o julgamento: e, assim, uns ressuscitarão para a Vida (verdadeira Ressurreição: estar
com Cristo e, com ele, ser glorificado) e outros ressuscitarão para a morte (ressurreição em sentido
figurado: viver no Inferno, viver na morte!): “Não vos admireis, porque vem a hora em que todos
os que estão mortos ouvirão sua voz. Os que praticaram o bem sairão dos túmulos para a
ressurreição da vida; os que praticaram o mal ressuscitarão para serem condenados” (Jo 5,28s). O
próprio Senhor ensinou também que, após a sua Ressurreição, aqueles que comessem, na
Eucaristia, seu corpo ressuscitado, pleno de Vida eterna, ressuscitariam também com ele e como
ele. Ressurreição, aqui, no sentido forte, profundo, verdadeiro: “Jesus lhes disse: “Na verdade eu
vos digo: se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a
vida em vós. Quem come minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no
último dia. Quem come minha carne e bebe meu sangue permanece em mim, e eu nele” (Jo
6,53s.56).
Assim, Jesus não somente anunciou sua própria Ressurreição (cf. Mc 8,31; Mt 16,21ss; Lc
9,22, etc), como também ensinou que todos ressuscitariam através dele! Há uma passagem em
Mateus que mostra bem isto: “Os túmulos se abriram e muitos corpos de santos ressuscitaram. Eles
saíram dos túmulos, depois da ressurreição de Jesus, entraram na Cidade Santa e apareceram a
muitos” (Mt 27,52s). Qual o significado deste trecho tão misterioso? Será que os mortos voltaram a
viver e entraram em Jerusalém, espantando as pessoas?! Não! Não é isto que Mateus quer dizer! Ele
quer afirmar somente que a Ressurreição de Cristo é causa da nossa ressurreição. A Cidade Santa
na qual os mortos entrarão é a Jerusalém celeste, a Glória do Corpo de Cristo, isto é, o Céu (cf. Ap
21,2.10; 22,19). Mateus usa, aqui, aquele tipo de linguagem que os estudiosos da Bíblia chamam de
apocalíptica: uma linguagem cheia de figuras!!
Concluindo, por enquanto: 1) Jesus ensinou a Ressurreição; 2) ensinou que ressuscitaremos
em todo o nosso ser, corpo e alma; 3) ensinou que há uma Ressurreição para a Vida (verdadeira
Ressurreição) e uma ressurreição para a morte (para a condenação: ressurreição às avessas!); 4) o
próprio Jesus é a causa da nossa Ressurreição: ressuscitaremos porque ele ressuscitou!
Vimos que Jesus nos prometeu a ressurreição: ressuscitaremos nele e por ele: “Eu sou a
Ressurreição!” (Jo 11,25), ressuscitaremos em todo o nosso ser, corpo e alma. Agora, nos
perguntamos: como e quando será isso?
Ressuscitaremos da morte, que é o término de nossa vida terrena. Mas, que é a morte? É
certo que, com ela, a condição humana chega a seu ponto culminante e também a seu ponto crítico,
pois esta experiência da morte toca o homem não somente pela dor da progressiva dissolução de
seu corpo como também pelo temor da desaparição perpétua. Não podemos, portanto, fazer de
conta que a morte não existe ou, se existe, diz respeito aos outros e não a nós. Pelo contrário: a
morte dos outros deve recordar-nos que também nós morreremos: com a morte, realiza-se o ponto
crítico da passagem desta vida para uma outra situação - aquela podemos esperar somente na fé.
Todo organismo vivo decai até chegar à morte natural. Não dá para escapar da morte. A medicina
pode prolongar a vida, mas não pode evitar a morte
Mas, o que significa morrer? A morte, primeiramente, revela nossa finitude, nossa limitação!
Que estranho é o ser humano: sonha com a vida, deseja a vida... mas sabe que um dia morrerá!
Aliás, o homem é o único ser que sabe que morrerá... por isso mesmo, a morte não é somente uma
questão física, biológica: não é apenas um corpo que morre e vira cadáver; é uma pessoa que
morre! Eu não digo: “Meu corpo morre”, ao invés, digo e sinto: “Eu morro!” São minhas relações, é
minha história, meus sonhos, que são colocados em crise com a morte! E é interessante: em geral,
aproximamo-nos da morte exatamente quando mais queremos viver, quando, já adultos, damos
tanto valor à vida e somos já maduros. Em certo sentido, nunca estamos prontos para morrer, mas
para viver. E é assim, já que Deus é o Deus vivo e nos criou para a vida e não para a morte. A
morte terá sempre um gostinho amargo, mesmo para quem crê. A morte com gosto de morte
entrou no mundo pelo pecado (cf. Sb 2,23s). Nossa passagem pelo mundo deveria terminar com o
desabrochar da eternidade, sem esta experiência dolorosa a que chamamos morte. A morte como
experiência negativa e ameaça do nada é conseqüência do pecado (cf. Rm 6,23). A morte, como nós
experimentamos atualmente, na nossa situação de pecadores, não é somente uma questão
biológica, física; é também uma decadência pessoal, existencial. É dolorosa no corpo e na alma!
Tem um gosto de derrota, de salto no escuro, de pulo no desconhecido! E não adianta fingir que a
morte não existe! O que nossa fé nos ensina é exatamente isso: Deus não é o autor dessa situação
de morte em que vivemos: as mortes de cada dia, de cada derrota, de cada sofrimento, de cada
injustiça, traição ou lágrima... tudo isso é conseqüência de uma humanidade pecadora.... Tampouco
Deus é o autor da última morte, daquela que marca o término da nossa vida terrena... Se a
experimentamos como derrota, dissolução, salto no escuro... é devido à situação de pecado. Se o
homem não tivesse dito “não” a Deus, não experimentaria a partida deste mundo como morte,
como derrota dolorosa, como salto no escuro...
É dessa morte que Cristo, o Ressuscitado, nos liberta: “Eu sou a Ressurreição!” Ora, desde
o Batismo, estamos unidos a ele; vamos morrendo com ele nesta vida para, enfim, ressuscitar
também com ele, participando da sua ressurreição: para nós, morrer é morrer com Cristo e como
Cristo, é completar em nós a morte de Jesus para que a vida ressuscitada de Jesus nos plenifique.
Assim, aquele que é batizado já não vê na morte o angustioso fim do seu ser, mas a possibilidade
última e mais radical de configuração com seu Modelo, que é Cristo ressuscitado. Sim, seremos
como Cristo ressuscitado! Vista deste modo, a morte torna-se o ato que deve ser vivido com
vontade de entrega livre e amorosa, na esperança da ressurreição. A morte torna-se um co-morrer
com Cristo para co-ressuscitar com ele: ”Com ele fomos sepultados pelo batismo na morte para
que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim também andemos em
novidade de vida. Pois, se estamos inseridos no solidarismo de sua morte, também o seremos no da
ressurreição” (Rm 6,4s). Desde o Batismo começamos a morrer com Cristo, isto é, começamos a
viver as mortes de cada dia como participação na morte do Senhor. Tal participação deve ser
ratificada pela mortificação de cada dia, pela participação da Eucaristia, que é mergulho na morte e
ressurreição do Senhor Jesus. Assim, o cristão vai se apropriando da própria morte e dando-lhe um
sentido, fazendo de sua morte uma morte-ação, morte como união com o Cristo morto! Morrer, para
o cristão, já não deveria ser uma fatalidade: ele deveria dizer: “Morro a cada dia, em cada lágrima,
em cada tristeza, em cada derrota... Mas não morro como um derrotado: uno minhas mortes à
morte do Senhor, para como ele ressuscitar!” A morte, assim, vai ganhando sentido em nós, vai se
tornando uma realidade humana e cristã, e não uma fatalidade biológica. Enquanto isso, para quem
não se abre para o Cristo, para quem o refuta, a morte vai sendo experimentada a cada dia como
poder aniquilador, vazio do ser e total fracasso da existência... Assim, vamos morrendo e
caminhando para o encontro com Cristo. Para nós, com efeito, a morte tem também este aspecto
belíssimo: é um encontro com o Senhor: “Ficai preparados, porque, numa hora que não pensais, o
Filho do homem virá” (Lc 12,40).
Sim, Jesus virá: ele é aquele que vem ao nosso encontro (cf. Mt 11,2): “Vou e retorno a vós” (Jo
14,18.28). Ele vem vindo sempre na nossa existência: veio no Batismo, quando entramos em
comunhão com sua morte e ressurreição, vem sobretudo na Eucaristia, quando mergulhamos na sua
Páscoa e já experimentamos o gosto da comunhão com ele, vem a cada dia para nos fazer passar
da “carne” (pecado) ao “espírito” (vida no Espírito Santo). Finalmente, ele virá na passagem
definitiva, no momento do encontro final. Por isso mesmo Paulo exclamava: “O meu desejo é partir
para estar com Cristo” (Fl 1,23). Assim, morrer é ir ao encontro do Salvador que vem, quem
irrompe com sua Glória na minha pobre existência; morrer é ser surpreendido por Cristo, é ser
invadido pela sua Vida divina e plena. Santa Teresinha dizia com sabedoria: “Não é a morte que virá
me buscar, é o bom Deus!”
Pois bem: eis a conclusão maravilhosa: não morreremos sozinhos; morreremos como Cristo e com
Cristo; mais ainda: morreremos em Cristo. Ele não vem sozinho ao nosso encontro! Ele é o
primogênito dentre os mortos, é a Cabeça da Igreja. Tendo sido batizados, morremos como
membros do seu corpo, que é a Igreja e morremos no seu corpo. Assim, não morremos sozinhos:
morremos na comunidade dos santificados, dos batizados! A morte será o passar da Igreja terrestre
para a Igreja da Glória. É também mistério de comunhão com os irmãos que ficam e que fazem
parte do Corpo de Cristo, que é a Igreja!
O que ressuscitará em mim?
Comecemos deixando claro que, para a Sagrada Escritura, o homem é um todo, corpo e
alma espiritual ou em outra linguagem, corpo, alma e espírito. Nós temos a dimensão material
(nosso corpo) e aquela dimensão imaterial (a que denominamos alma). São dimensões, não
pedaços nossos! Eu sou um todo: sou meu corpo e sou minha alma! É absolutamente contrário à
Sagrada Escritura e a uma sã antropologia pensar o ser humano simplesmente como um espírito
que “tem” um corpo, que está encarnado num corpo! Nada disso: sou corpo e alma!
Pois bem, dizer que ressuscitarei, é afirmar que todo o meu ser, corpo e alma, é chamado à
comunhão com o Cristo. Não é um pedaço de mim que vai ressuscitar, mas eu todo! Minha alma,
sede de toda a minha vida inteligente, afetiva, sentimental e espiritual, será ressuscitada; também
meu corpo, com o qual eu amei, chorei, sorri, criei relações, exprimi sentimentos, também será
transfigurado!
Meu corpo ressuscitará: São Paulo diz de modo belíssimo: “Semeado corruptível, o corpo
ressuscita incorruptível; semeado desprezível, ressuscita reluzente de glória; semeado na fraqueza,
ressuscita cheio de força; semeado corpo psíquico, ressuscita corpo espiritual” (1Cor 15,42-44). É
interessante que a ressurreição da carne sempre foi escândalo, já no novo Testamento: os
atenienses zombaram de São Paulo, quando este falou sobre ela: “Ao ouvirem falar da ressurreição
dos mortos, alguns começaram a zombar, enquanto outros diziam: ‘A respeito disto, te ouviremos
outra vez’” (At 17,32). Como os espíritas atuais e os espiritualistas de todas as épocas, os gregos
aceitavam que a alma era imortal e “desencarnava”... mas que também o corpo ressuscitava, não
aceitavam de modo algum! Até os cristãos de Corinto, na Grécia, pensavam que a ressurreição era
somente espiritual. São Paulo os repreende duramente: “Se se proclama que Cristo ressuscitou dos
mortos, como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? Se não há
ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou!” (1Cor 15,12s). É o mesmo engano dos
espíritas e de todos os espiritualistas! Nós cremos que nosso corpo também ressuscitará.
Mas como isso é possível? Ele será destruído totalmente e, mais ainda, já nesta vida, meu
corpo vai mudando, células vão morrendo e outras vão nascendo... Por um lado é meu corpo mas,
por outro, é sempre e continuamente renovado... Então, como ressuscitará? O engano aqui é querer
descrever o corpo da ressurreição! Também os coríntios perguntavam a São Paulo como isso seria
possível: “Mas, dirá alguém, como ressuscitam os mortos?” E o Apóstolo respondia com firmeza e
quase indignação: “Insensato!” (1Cor 15,36). Não se pode descrever o corpo da ressurreição, não
se pode imaginar como será, e isso por uma razão simples: o corpo da ressurreição não pertence
mais a este mundo. Será o meu corpo, mas não mais do modo como eu agora o possuo; será minha
matéria, mas totalmente transfigurada pelo Espírito do Ressuscitado: “Semeado corpo psíquico,
ressuscita corpo espiritual” (1Cor 15,44). Um dos grandes enganos de muitos teólogos atuais é a
preocupação em imaginar como será possível um corpo ressuscitado a partir do nosso pobre corpo
mortal. É totalmente impossível qualquer descrição! Basta pensar no corpo do Ressuscitado: era seu
corpo, o mesmo que fora crucificado e os apóstolos conheciam tão bem: tinha as marcas da paixão
(cf. Lc 24,40; Jo 20,27); e, no entanto, eles tinham dificuldades em reconhecer o Senhor, pois seu
corpo estava agora glorificado: “Depois disso, manifestou-se em outra forma a dois deles” (Mc
16,12); “Seus olhos estavam impedidos de reconhecê-lo. Ele ficou invisível diante deles” (Lc
24,16.31); “Já amanhecera, Jesus estava de pé, na praia, mas os discípulos não sabiam que era
Jesus” (Jo 21,4). Então: é pela potência do Espírito do Ressuscitado que nosso corpo ressuscitará
como o corpo do Cristo glorioso. Especular mais que isso, é inútil e presunçoso.
E a alma? Também ressuscita. É importante não confundir ressurreição com imortalidade!
Os espíritas confundem direitinho as duas coisas! Dizer que a alma é imortal é dizer que ela, por ser
imaterial, não pode ser desagregada, decomposta, destruída. Mas isso não quer dizer que ela tem a
garantia de ser feliz. Muito pelo contrário: a alma, simplesmente entregue a si mesma, teria as
mesmas privações que já tem aqui: solidão, medo, tristeza, angústia, incompletude, etc...Afirmar
que a alma ressuscita é afirmar que ela também – e não só o corpo! – será transfigurada e
glorificada: nada mais de tristeza, solidão, saudade, angústia, medo... O mesmo Espírito Santo que
ressuscitou Jesus será a vida de nossa alma: passaremos de uma vida simplesmente psíquica para
uma vida espiritual (= “espirituada”)!
Então, em todo o nosso ser, corpo e alma, estaremos com o Senhor, revestidos totalmente
de sua glória, participando da sua ressurreição!
Como e quando será a ressurreição?
Nossa ressurreição é um processo que inicia logo após a morte e terminará na Parusia: logo
após a morte, com uma dimensão mais individual e na Parusia do Senhor, com uma dimensão mais
marcadamente comunitária e cósmica. Vejamos:
A morte, além de ser uma realidade que me atinge como “eu”, como identidade e como
alguém que vive neste mundo em relações com as coisas e as pessoas, é também uma dilaceração
de minha unidade psicossomática: meu corpo e minha alma, inseparáveis, separam-se! Por isso
também a morte é experimentada por nós como algo existencialmente doloroso, como uma
realidade que traz em sai algo de violência... Eu sou meu corpo, e na minha corporeidade
experimento a morte e a dissolução do meu corpo, que vai decompor-se até o nada. Eu sou minha
alma, que padece a separação do corpo com o qual e para o qual foi criada.
Mas imediatamente após a morte, minha alma ressuscita, isto é, é transfigurada com Cristo e em
Cristo. Note-se bem: a alma ressuscita! Não basta, para ela, ser imortal porque é indestrutível: isso
não garantiria a felicidade da alma. Somente transfigurada pelo Espírito do Cristo ressuscitado,
temos a plenitude! É nesta plenitude feliz que nossa alma entra logo após a morte. Isto é o céu:
estar com Cristo; aí ninguém mais vai sofrer, ninguém mais vai chorar, ninguém mais vai ficar
triste, ninguém mais vai ter saudade. Perder o Cristo é o inferno, que também começa logo após a
morte para a alma dos condenados. Note-se que, para os cristãos, não é suficiente afirmar que a
alma é imortal; é necessário afirmar também que ela ressuscitará e será plenificada em Cristo!
Mas, o que é a alma? É o nosso princípio de vida, de consciência e liberdade, é o núcleo de nossa
personalidade, do nosso eu. Não é uma parte, um pedaço de mim, mas uma dimensão minha. Na
minha alma, na minha dimensão anímica, eu tenho consciência de mim, de minha identidade: sei
quem sou, sei o que quero, recorde plenamente o que fui e o que vivi! Então, logo após a minha
morte uma minha dimensão – a alma! - já entra na plenitude de Cristo, mas o meu ser humano
como um todo ainda não está totalmente glorificado: falta a dimensão corporal...
Na Parusia do Senhor, quando ele se manifestar na sua glória, todo o mundo físico será
glorificado e, aí também meu corpo, minha dimensão somática, física, material, será ressuscitada.
Então, em corpo e alma eu estarei com o Senhor glorificado ou, estarei eternamente distante dele.
Então, há duas afirmações que é necessário manter quisermos ser coerentes com a Tradição
da Igreja e com os dados da Escritura: 1) após a morte não ficamos dormindo, mas já
ressuscitamos; 2) esta ressurreição imediata atinge somente uma dimensão nossa – a alma; no
final dos tempos, também nosso corpo ressuscitará. Nosso corpo não ressuscita logo após a morte,
mas somente no final dos tempos, no Dia da Ressurreição!
Alguns teólogos perguntam: como pode existir uma alma separada? É preciso ter cuidado
com esta questão! Filosoficamente falando, não pode existir alma separada neste mundo: a alma foi
feita para animar o corpo e o corpo só é corpo humano porque animado por uma alma humana! Isto
vela para este mundo! Com a morte, nós saímos deste mundo e, então, não há muito que a filosofia
ou a teologia possam falar sobre o além de modo descritivo. Não podemos descrever nossa situação
no além! Um outro ponto importante, a ser tomado em consideração: o modelo do que acontecerá
conosco após a morte é Cristo! Ora, entre sua morte e ressurreição, enquanto seu corpo era
destruído pela morte, no túmulo, sua alma humana não estava ali, unida ao corpo; não estava
morta, apesar de ainda não estar glorificada! Então, não é impossível falar numa alma “separada”.
Além do mais, a alma não fica propriamente separada: desde o Batismo e pela Eucaristia estamos
incorporados em Cristo, no seu corpo, que é a Igreja: mesmo sem o nosso corpo físico e individual,
estamos inseridos em Cristo e unidos ao seu corpo! Mesmo antes da ressurreição final do nosso
corpo, não somos alma sem corpo algum, separada de todo corpo! Estamos no corpo de Cristo!
Como é isto? Não podemos descrever nem imaginar, pois são realidades que pertencem ao mundo
futuro! Sabemos disso, no entanto, pela fé naquilo que o Novo Testamento atesta e a contínua
Tradição da Igreja ensina.
Quanto ao modo como o corpo ressuscitará no final dos tempos, já vimos nos artigos
passados; basta dar uma olhadinha.
Uma última observação: em Maria, a Virgem, a ressurreição já foi totalmente realizada. Ela
– e somente ela entre todos os santos – já está totalmente com Cristo, em corpo e alma, devido à
sua singularíssima união com o Cristo!
Ficamos por aqui. Espero que, de modo geral, algumas questões sobre o além tenham
ficado mais clara. Para uma apresentação mais detalhada, leia uma série de artigos sobre
escatologia, que escrevi neste mesmo site.

Escatologia - Sobre o fim do mundo!

Este tópico deveria chamar-se “Escatologia”. Mas, se eu colocasse este título, quem iria lê-
lo? Com o título que escolhi, tenho certeza que ninguém resistirá à curiosidade!
O presente escrito é o primeiro de uma série que pretendo apresentar sobre a Escatologia, a
parte da teologia que trata das “últimas coisas”, dos novíssimos, como se dizia antigamente...
“morte, juízo, inferno e paraíso”. É assim que se aprendia no catecismo.
Mas, para que possamos compreender bem a Escatologia cristã, é necessário, antes,
entender uma coisa muito importante: o centro da esperança cristã é Cristo ressuscitado; assim, ele
é também o centro de tudo aquilo que vamos afirmar nestes tópicos. Jesus é o centro da fé e da
história humana: tudo quanto o Pai fez e pensou para a humanidade e o mundo foi através de Cristo
e somente em Cristo terá sua realização (cf. Cl 1,15-20). Portanto, as coisas últimas que
acontecerão nada mais são que o cumprimento amoroso daquilo que o Pai sonhou para nós desde o
início em Cristo: “Disse-me, então: “Está feito. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim. A
quem tiver sede, darei gratuitamente água da fonte da vida” (Ap 21,6). Jesus é, assim, o Fim (quer
dizer, a Finalidade, Escaton, em grego) de toda a criação e de toda a humanidade: Jesus é o nosso
único Futuro; Futuro certo, Futuro para o qual tudo quanto foi criado caminha: ele é o Alfa e o
Ômega, o Princípio e o Fim!
Este Futuro nosso, que é Jesus, tem quatro características:
· É um Futuro Absoluto. Nós estamos acostumados com tantos futuros: todo dia planejamos e
enchemos a agenda de compromissos; fazemos planos para o futuro. Os futuros que esperamos e
planejamos podem acontecer ou não... e, se acontecerem, um dia vão virar passado. É, assim: de
futuro em futuro, nossos futuros vão se tornando presentes e, depois, passados... Mas, quando
dizemos que Cristo é um Futuro absoluto, estamos afirmando que ele vai acontecer de certeza
porque tudo foi criado pelo Pai através dele e para ele. Cristo é o único Futuro certo da humanidade!
E mais ainda: é o Futuro que nunca será passado. Quando ele vier, quando estivermos nele,
seremos plenos; nós e toda a criação... para sempre!
Ele é um Futuro que vem. Este Futuro, que é o próprio Cristo, é vinda, é chegada! Nos nossos
futurozinhos, somos nós que vamos até eles, eles estão sempre dentro do tempo: viram presente e
depois passado. Nossos futuros vão sendo feitos de presente: com o presente vou plantando o
futuro, vou caminhando para ele. Com Cristo não é assim: ele vem e vem trazendo algo novo: um
mundo novo, uma vida nova, uma Glória sem fim, que vai transformar tudo! Ele será a Novidade
que vai renovar toda esta velha criação, toda esta velha humanidade! Quando ele vier fará novas
todas as coisas (cf. Ap 21,5). É por isso que não podemos nem pensar direito como será o final dos
tempos e a Vida na eternidade: é Futuro novo, é algo muitíssimo diferente deste mundo que
conhecemos. Não tem nada a ver com aquele céu boboca da novela “A Viagem”, nem com as coisas
que a gente imagina. Por isso a Escritura exclama: “Santo, santo, santo
é o Senhor Deus, o Todo-poderoso, que era, que é e que vem” (Ap 4,8). Não se diz: “Deus que era,
que é e que será”, mas “Deus que vem!”... vem como novidade que enche de alegria a vida do
mundo e a nossa, porque vem trazendo a graça e a salvação! Por isso mesmo Jesus ensinou a pedir
no Pai nosso: Venha o teu Reino!” E a Bíblia termina pedindo: “Vem Senhor Jesus!” (Ap 22,20).
· Ele é um Futuro que já se faz presente. Este Futuro, que é Cristo, que será uma novidade linda
para toda a criação, é também um Futuro já presente de modo misterioso. Ele está vivo,
ressuscitado no nosso meio, agindo pela força do seu Espírito. Basta pensar na Eucaristia e nos
demais sacramentos, na graça que Cristo derrama no nosso coração. Quantas vezes a gente
experimenta o aperitivozinho do céu aqui na terra, quando experimenta a união com Cristo no nosso
coração! Estar com Cristo agora é já o início do Futuro que virá!
· Este Futuro exige uma resposta humana. Este Futuro que é Cristo, vem ao nosso encontro;
mas nós também vamos ao encontro dele. Como? Respondendo-lhe “sim” na nossa vida! Cada
escolha nossa, cada palavra, cada decisão, cada ato, é um “sim” ou um “não” a esse Futuro, a
Cristo. Então, nossas ações neste mundo têm já um gosto de eternidade, preparam o nosso
encontro com o Senhor que vem. Não existe ação neutra: é sim ou não ao Cristo que vem!
Ainda uma coisa, para terminar: se Cristo é o nosso Futuro, o nosso Fim último, a nossa Finalidade,
nosso Destino, nosso Porto, então, tudo aquilo que vai acontecer conosco e com o mundo, no final
dos tempos, somente pode ser compreendido a partir de Cristo: ele é o Fim Último (Escaton) que dá
sentido às “coisas últimas” (escatà). Por exemplo: só poderemos compreender o que é a morte, o
céu, o inferno, o purgatório, o juízo, etc... se colocarmos tudo isto em relação com Cristo
ressuscitado, nosso Destino! É isto que vamos fazer neste série de tópicos. Então a gente vai ver
quanto é bela a esperança cristã!
Guardemos bem isto: a esperança cristã não tem outro objeto a não ser o próprio Deus, Futuro
absoluto e definitivo do homem, que vem a nós em Jesus Cristo. Assim, podemos compreender as
palavras de um grande teólogo deste século: “Deus é o fim último (Escaton) das criaturas: ele é o
céu para quem o alcança, o inferno para quem o perde, o juízo para quem por ele é examinado, o
purgatório para quem é por ele purificado... e tudo isto no modo em que ele dirigiu-se ao mundo,
isto é, no seu Filho, Jesus Cristo, que é a revelação de Deus e, portanto, a síntese das coisas
últimas!”
Resumindo: nosso Fim é Deus que vem a nós em Jesus Cristo para nos salvar. Nele tudo se
explica: o céu é estar com ele; o inferno é perdê-lo; o juízo é se ver na sua luz; o purgatório é ser
purificado no seu amor e verdade!

A Vinda do Senhor segundo o Antigo Testamento

Vimos, no tópico passado, que o Futuro que Deus prepara para o mundo todo e para os
cristãos é o próprio Cristo: a criação toda caminha para ele, a história caminha para ele, nossa vida
caminha para ele!
No Credo nós professamos, conforme a Escritura, que o Senhor Jesus ressuscitado “está
sentado à Direita de Deus Pai, donde há de vir em sua Glória para julgar os vivos e os mortos. E o
seu Reino não terá fim”.
Esta Vinda gloriosa de Cristo no final dos tempos é chamada de Parusia do Senhor. A
palavra grega “parusia” era usada para significar a chegada solene do rei em uma determinada
cidade. Quando ele chegava, provocava um ambiente de alegria e distribuía ao povo benefícios e
alimentos em fartura. Os cristãos, ao pensarem na vinda do Cristo como Rei eterno, que virá
trazendo a alegria da salvação final, deram a este último acontecimento da história humana o nome
de Parusia do Senhor.
A idéia de que haveria um Dia do Senhor já existia desde o Antigo Testamento. O povo de
Israel sempre soube que o seu Deus era o Senhor dos tempos, Deus que age na história humana,
levando o seu povo para um futuro sempre melhor e cheio de esperança. Se observarmos bem os
textos do Antigo Testamento aparece claro que Deus sempre está prometendo ao seu povo um
futuro de bênção e felicidade: ele é o Deus da Promessa, o Deus que nunca fica parado no presente,
o Deus que sempre faz o povo caminhar ao encontro do futuro que o Senhor preparou, futuro
sempre melhor, futuro de vida. Por isso mesmo aparece tanto nos profetas aquelas expressões: “eis
que virá um tempo”, “eis que virão dias”, “naqueles dias”, “acontecerá no fim dos dias”... Assim,
enquanto para os pagãos o tempo nunca mudava e tudo que já tinha acontecido ia continuar
sempre acontecendo e o mundo não tinha jeito mesmo, para o povo de Deus a história do mundo e
a história do povo de Israel caminham para um destino, uma finalidade, uma plenitude, que o
próprio Deus prometeu e preparou! Bastava que o povo não se fechasse para Deus, que aceitasse
caminhar com o Senhor. Isto é muito importante, pois fica claro que não existe destino: o homem é
chamado a construir seu destino dizendo sim a Deus e caminhando para o futuro que ele lhe
preparou. Cada pessoa é livre: pode dizer sim ou não ao convite de Deus!
É assim que Israel vai tendo cada vez mais certeza de que Deus age na história, conduzindo
todos os acontecimentos. O povo da Bíblia sabe que pode se confiar nas mãos do Senhor e esperar
num futuro no qual Deus vai agir de modo pleno, com uma intervenção fulgurante, mudando toda
tristeza do seu povo em alegria, toda opressão em liberdade, todo pranto em sorriso, toda morte em
vida. Todo sofrimento do povo de Israel, todas as suas humilhações terão fim e Deus vai consolar
para sempre o seu povo, numa nova situação, em que não haverá mais dor, opressão, pecado nem
morte. Este futuro é conhecido, no Antigo Testamento, com o nome de Dia do Senhor. Será um Dia
de Julgamento e de derrota para todo o pecado do mundo, para todo o mal praticado na história
humana e um Dia de salvação e vitória para todos os amigos de Deus, particularmente para o povo
de Israel. Por exemplo: “Os olhos orgulhosos do homem serão humilhados, e será abatida a
arrogância humana; naquele Dia só o Senhor será exaltado. Porque é o Dia do Senhor Todo-
poderoso contra tudo que é orgulhoso e arrogante, contra tudo que se exalta e que será humilhado
(...); só o Senhor será exaltado naquele dia. Os ídolos desaparecerão completamente...” (Is
2,11s.18s). É importante observar que quando o Antigo Testamento fala desse Dia do Senhor usa
comparações, imagens, figuras, metáforas, para ensinar que será um Dia solene e decisivo, Dia da
verdade, Dia de julgamento, Dia que envolverá não somente a humanidade, mas toda a criação:
“Tocai a trombeta em Sião, dai alarme em minha montanha santa! Tremam todos os habitantes do
país, porque está chegando o Dia do Senhor! Sim, está próximo! É um Dia de trevas e escuridão,
um Dia de nuvens e obscuridade”! (Jl 2,1s); “Colocarei sinais no céu e na terra, sangue, fogo e
colunas de fumaça! O sol se transformará em trevas, a lua em sangue, antes que chegue o Dia do
Senhor, grande e terrível”! (Jl 3,3s); “Eis que vem o Dia, que queima como um forno. Todos os
arrogantes e os que praticam o mal serão como palha; o Dia que vem os queimará de modo que
não lhes restará raiz nem ramo. Mas para vós que temeis o meu nome, brilhará o sol de justiça, que
traz a cura em seus raios” (Ml 3,19s). Nestes textos, a imagem da trombeta significa solenidade,
julgamento (pois os julgamentos e as entradas dos personagens solenes eram sempre anunciadas
com o toque da trombeta), os sinais no céu e na terra são imagens para mostrar que esse Dia do
Senhor terá importância para toda criação e o fogo recorda que o Senhor purificará sua criação de
todo pecado e maldade. Trata-se de um tipo de linguagem chamado de linguagem apocalíptica, que
descreve as coisas de modo bem estonteante, vivo, exagerado, em que o importante não são os
detalhes, mas a idéia que as imagens querem transmitir!
Mais uma coisa: aos poucos, os profetas vão descobrindo que este Dia do Senhor estará
ligado à chegada de um personagem misterioso, chamado de Messias (= o Ungido de Deus) e, às
vezes, de Filho do Homem: “Continuei a prestar atenção às visões noturnas, eis senão quando, com
as nuvens do céu, vinha vindo um como filho de homem; ele avançou até junto do Ancião e foi
conduzido à sua presença. Foram-lhe dados domínio, glória e realeza, e todos os povos, nações e
línguas o serviam. Seu domínio é eterno e não acabará, seu reino jamais será destruído” (Dn 7,13-
14). Esse Filho do Homem viria de junto de Deus (representado aqui pela imagem do Ancião,
recordando a sua eternidade). Quando a profecia diz que ele vem sobre as nuvens, quer dizer que
ele vem do mundo divino, que é alguém mais que um simples ser humano. Ele vem para
estabelecer um reino eterno, reino de Deus, o Dia do Senhor! Assim, na esperança do povo de Deus,
o Senhor mandaria Alguém, chamado de Messias ou Filho do Homem, um personagem misterioso,
que traria consigo o Dia do Senhor.
Então, resumindo: (1) o povo de Deus sempre soube que sua história estava nas mãos de
seu Deus; (2) este Deus preparava para o seu povo um futuro de salvação, alegria, plenitude e paz,
chamado Dia do Senhor, (3) este Dia será de julgamento para os maus e os opressores do povo
eleito, um Dia eterno, de uma situação completamente nova, (4) este Dia será trazido pelo Filho do
Homem, pelo Messias.
No próximo tópico veremos o que o Novo Testamento ensinou sobre este Dia do Senhor.
A Vinda do Senhor segundo o Novo Testamento - I

No tópico passado vimos que a Vinda do Senhor no final dos tempos é chamada de Parusia,
que significa chegada, vinda de alguém importante e que traz consigo dons e bênçãos. Vimos
também que já no Antigo Testamento Israel esperava pelo Dia do Senhor, Dia de salvação para os
amigos de Deus e de julgamento para os maus. Este Dia do Senhor, anunciado pelos profetas,
estava ligado à vinda de um personagem misterioso: o Messias, o Filho do Homem.
O Novo Testamento continuou falando no Dia do Senhor, relacionando tudo a Cristo: é ele o
Messias, o Filho do Homem prometido pelo Antigo Testamento. Para os cristãos, o Cristo que veio
para salvar, voltará com glória para levar tudo à plenitude da salvação. Esta Vinda ou Manifestação
do Senhor Jesus era chamada pelos cristãos e pelo Novo Testamento com o nome de Dia do Senhor
ou Parusia do Senhor. Esta Parusia de Cristo será Dia de alegria, de plenitude, de consumação, de
glória. Será também Dia da Aparição do Senhor, que vai revelar toda a sua glória, toda a vitória da
sua Ressurreição; vitória sobre o pecado, o egoísmo e a morte! A Vinda do Senhor será, portanto,
uma verdadeira manifestação: todo o mundo verá e reconhecerá, finalmente, a soberania de Cristo!
Nos primeiros tempos da Igreja esta Parusia foi ardentemente desejada e pensada como
algo iminente, que iria acontecer logo, a qualquer momento. Mas, por que esta pressa da Vinda de
Cristo? O motivo era este: se Jesus ressuscitou e tudo lhe está submetido é normal que se pensasse
que o domínio do Senhor devesse manifestar-se rapidamente: quem tem a alegria da salvação,
deseja logo a sua plenitude; fica impaciente para estar na plenitude do Cristo ressuscitado. Assim,
encontramos nos textos mais antigos do Novo Testamento afirmações dessa proximidade da
Parusia: “Irmãos, não queremos que ignoreis coisa alguma a respeito dos mortos, para não vos
entristecerdes, como os outros homens, que não têm esperança. Se cremos que Jesus morreu e
ressuscitou, cremos também que Deus levará com Jesus os que nele morrerem. Eis o que vos
declaramos conforme a palavra do Senhor: nós, que ficamos ainda vivos, não precederemos os
mortos na vinda do Senhor. Quando for dado o sinal, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de
Deus, o próprio Senhor descerá do céu e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois
nós, os vivos, que estamos ainda na terra, seremos arrebatados juntamente com eles para as
nuvens, ao encontro do Senhor nos ares. Assim estaremos sempre com o Senhor” (1Ts 4,13-17).
É necessário fazer algumas observações sobre este texto:
· Note-se que Paulo esperava para muito breve a Parusia; e não só: ele mesmo pensava que
estaria vivo quando o Senhor viesse. Para ele, quem estivesse já morto ressuscitaria corporalmente
e quem estivesse vivo seria transformado em Glória!
· No entanto, é importante notar que Paulo não fazia cálculo algum... não fazia como as seitas
nem como os videntes de fim de ano, contratados pelo “Fantástico” da Rede Globo! Não inventava
datas para a Vinda do Senhor... somente esperava para logo... porque esperava ansiosamente,
esperava com amor!
· Quanto à linguagem que Paulo usa, é a linguagem apocalíptica, que exagera nas figuras e
comparações: ele fala em “sinal”, em “som da trombeta”, em “voz do arcanjo”, em “ser arrebatado
nos ares”, simplesmente para afirmar que nós seremos elevados até à Glória de Cristo Senhor. O
som da trombeta significa que este momento será solene, como as chegadas dos grandes
personagens e como os julgamentos: antigamente as trombetas soavam quando chegavam os reis e
os juízes! Paulo, aqui, não quer descrever a Vinda do Senhor: é impossível fazer tal descrição
porque o Dia do Senhor já não pertence a este mundo como nós conhecemos, mas será o começo
de um mundo novo! Do mesmo modo a imagem do arrebatamento nos ares é somente uma
imagem! As seitas se apegam a isto literalmente por pura e cristalina ignorância!
O que era bonito nos cristãos é que eles não somente esperavam o Senhor, mas sobretudo
desejavam sua Vinda. A primeira Comunidade cristã espera e deseja o Senhor na sua Parusia; tanto
que exclamava freqüentemente: Marana thá! (= Vem, Senhor!) (cf. 1Cor 16,22; Ap 22,20).
Portanto, é muito importante, para o cristão, viver no desejo da plena Manifestação do Senhor. A
Liturgia latina exclama ainda hoje em cada Missa: “Anunciamos a vossa morte... vinde, Senhor
Jesus!”
Diante disto, uma questão pode ser colocada: os primeiros cristãos erraram, esperaram em
vão ao pensar que o Senhor viria logo? Afinal, o tempo passou e o Senhor não veio! Para responder
bem a esta questão é necessário primeiramente distinguir sentido cronológico e sentido teológico. É
certo que, cronologicamente (ou seja, se olharmos o tempo contado pelos dias e anos), séculos já
se passaram e o Senhor ainda não voltou; porém teologicamente (ou seja, do ponto de vista da fé),
a certeza da manifestação de Jesus Cristo, o desejo dessa manifestação e a consciência de que ele é
Senhor são tão profundas em nós e a sua salvação é tão presente na vida dos cristãos que, para nós
a sua Vinda é algo próximo, que exige sempre de nós uma opção imediata, urgente, por ele em toda
a nossa vida! A cronologia não é o mais importante! Sabemos que o Senhor virá e, nosso desejo é
tanto que continuamos dizendo: ”o Senhor virá em breve: preparemo-nos! Sua Vinda é tão
importante que o tempo é breve para nos converter!” É por isso mesmo que o Novo Testamento dá
tanta importância à Parusia do Senhor, que levará tudo à plenitude. Tal expectativa revela o desejo
e, ao mesmo tempo, a urgência da escolha - o tempo é breve!
É interessante que já no tempo dos Apóstolos alguns cristãos começaram a perder o fervor
porque o Senhor não voltava logo, Na sua Epístola São Pedro responde: “Deveis saber que nos
últimos dias virão zombadores cheios de escárnio que vivem segundo suas próprias paixões,
dizendo: ‘Onde está a promessa de sua vinda? Pois, desde que morreram os pais, tudo permanece
igual desde o princípio da criação’. Mas há uma coisa, caríssimos, de que não vos deveis esquecer:
um dia diante do Senhor é como mil anos e mil anos como um dia. O Senhor não retarda o
cumprimento de sua promessa, como alguns pensam, mas usa de paciência para convosco. Não
deseja que alguém pereça. Ao contrário, quer que todos se arrependam. Entretanto, virá o dia do
Senhor como ladrão! Por isso, caríssimos, vivendo nesta esperança, esforçai-vos para que ele vos
encontre imaculados e irrepreensíveis na paz. E crede que a paciência do Senhor é para nossa
salvação!” (2Pd 3,3-15). Notemos que Pedro dá ao problema do atraso da Parusia uma resposta em
duas partes: (1) Para o Senhor um dia é como mil anos: é inútil fazer cálculos e esperar que o
Senhor cumpra nossos cálculos! (2) Não se devem angustiar se o Senhor não chega; se ele tarda é
para a nossa conversão!
Resumindo o que vimos:
· Para nós, cristãos, o Senhor Jesus virá na sua Glória; é isto que chamamos Dia do Senhor.
· Esta Vinda manifestará a todos que Cristo é o Senhor de todas as coisas e de toda a história
humana.
· Os primeiros cristãos esperavam para logo a Parusia do Senhor simplesmente porque amavam
ardentemente o Cristo: quem ama, deseja logo a presença do Amado.
· Os cristãos não faziam cálculo sobre quando o Senhor voltaria.
· Como o Senhor não veio logo, os cristãos começaram a compreender que o importante é estar
sempre preparados e desejando a Vinda do Cristo, aproveitando o tempo para a conversão.
No próximo tópico veremos o que acontecerá na Vinda do Cristo!

A Vinda do Senhor segundo o Novo Testamento - II

Vimos, no tópico passado, que os cristãos esperam o Dia do Senhor, que será o Dia da
Parusia, da Manifestação gloriosa de Cristo. Mas, em que consistirá esta Manifestação?
Primeiramente é necessário deixar bem claro que o Dia da Vinda do Senhor não é um dia
entre os outros dias: é o Dia, Dia que já não pertence à seqüência de dias do nosso modo de contar
o tempo... não é um dia de 24 horas. O Dia do Senhor não pertence mais a este nosso tempo; é um
Dia sem fim, um Dia eterno, um Dia que já não é mais iluminado pela luz deste sol, mas pelo
próprio Sol de Justiça, Cristo gloriosos, pleno do esplendor do Espírito Santo.
Assim sendo, duas coisas devem ser claras para nós:
· Não podemos marcar a data do Dia do Senhor: este Dia estará fora dos dias, meses e anos; já não
pertence ao nosso tempo!
· Também não podemos descrever o que ocorrerá neste Dia. Isto por um motivo simples: este Dia
pertence já à eternidade, à Glória e, assim, não pode ser descrito nem comparado a nada neste
mundo! Quando a Escritura usa imagens para falar deste Dia, é somente para nos dar uma idéia
distante daquilo que ocorrerá. Nós já escrevemos sobre isto no tópico passado... Querer descrever o
final dos tempos é fundamentalismo tolo; é rebaixar o Dia eterno aos nossos pobres dias!
Uma coisa é certa: o Senhor virá, glorioso, pleno do esplendor do Espírito Santo, que o ressuscitou
dos mortos. A sua Vinda, que será Manifestação da sua Glória, terá conseqüências imensas:
1) Primeiramente ficará clara, na Vinda do Senhor Jesus, sua relação com o Pai e o Espírito Santo,
ou seja, aparecerá a Glória da Trindade que nos salva: é o Pai quem enviará o Cristo glorificado:
“Virão da parte de Deus os tempos de refrigério e enviará aquele que vos é destinado: o Cristo
Jesus” (At 3,20). O mesmo Pai que enviou o Filho a primeira vez, enviá-lo-á na sua Parusia, que é
iniciativa salvífica do Pai que tanto nos ama! O Pai, que tudo criou pelo Filho e para o Filho e quer,
através dele, tudo levar à plenitude, tudo glorificar (cf. Cl 1,16). Este Filho vem glorificado pelo
Espírito que o Pai derramou sobre ele na Ressurreição (cf. Rm 1,3s). É o Espírito quem glorifica o
Filho na sua natureza humana, morta e ressuscitada; é na potência do Espírito que o Cristo
aparecerá diante do mundo com Senhor e Juiz. Ele vem, pleno do Espírito, para encher da Glória do
Espírito todas as coisas: “A este Jesus Deus o ressuscitou. Exaltado pela direita de Deus, ele
recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e o derramou” (At 2,32s; cf. Jo 14,26; 20,19-23);
“Sucederá os últimos dias, diz o Senhor, que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne”...(At
2,17).
2) A Vinda do Cristo será também manifestação da Glória do Senhor ressuscitado. Desde a
Ressurreição Jesus assume pleno domínio sobre todas as coisas, mas este domínio não se exerce
ainda em toda a plenitude. Jesus já é o Senhor; a salvação já aconteceu; o seu domínio é real, mas
não ainda plenamente manifestado. Quando ele se manifestar, então sim, tudo ser-lhe-á submetido
para que tudo entre na Glória do seu Espírito e chegue até o Pai. A Parusia manifestará em toda a
criação, e em nós, particularmente, aquela plenitude de Vida que, em Cristo, já é uma realidade
plena: “Vi o céu aberto e eis um cavalo branco. Quem o montava chama-se Fiel e Verdadeiro e é
com justiça que julga e faz guerra. Seus olhos são como chamas de fogo, traz na cabeça muitos
diademas e tem um nome escrito que ninguém conhece, só ele mesmo. Está vestido com um manto
tinto de sangue e seu nome é Verbo de Deus. Seguem-no os exércitos celestes em cavalos brancos,
vestidos de linho branco puro. De sua boca sai uma espada afiada para ferir as nações. Deverá
governá-las com cetro de ferro e pisar o lagar do vinho com o furor da cólera de Deus Todo-
poderoso. Sobre o manto e sobre a coxa está escrito seu nome: Rei dos reis, Senhor dos senhores”
(Ap 19,11-16). Neste texto aparece o domínio de Cristo sobre a história: ele é a realização da nova
criação, gloriosa, feliz, livre do pecado. A nova criação coincide com a Vinda do Cristo: ele vem para
trazer a glória da salvação, pois é e será sempre o Salvador: “Do mesmo modo também Cristo, que
se ofereceu uma vez para tirar os pecados de muitos, aparecerá, pela segunda vez, sem pecado
para os que o esperam a fim de receberem a salvação” (Hb 9,28).
3) A Vinda do Cristo será também glorificação e realização plena da Igreja. Se ela é o Corpo de
Cristo, a Glória da Cabeça (Cristo) glorificará plenamente todo o Corpo. Esta idéia aparece muito
clara no Apocalipse, onde a Igreja é apresentada como a Jerusalém gloriosa, toda enfeitada como
Esposa do Cordeiro, toda pura e toda iluminada pela luz do próprio Cristo ressuscitado (cf. Ap 21).
4) A Manifestação do Cristo será também glorificação do homem pela ressurreição. O cume da obra
de Jesus e a plenitude da Igreja serão também a plenitude do homem: “Na verdade Cristo
ressuscitou dos mortos como primícias dos que morrem. Com efeito, assim como por um homem
veio a morte, assim também por um homem vem a ressurreição dos mortos. Assim como em Adão
todos morrem, assim em Cristo todos reviverão. Cada qual, porém, em sua ordem: como primícias,
Cristo, em seguida os que forem de Cristo por ocasião de sua vinda. Depois será o fim, quando
entregar o reino a Deus Pai” (1Cor 15,20-24).
A Vinda do Cristo será para nós Dia da Ressurreição, Dia em que todos ressuscitarão em seus
corpos revestidos do mesmo Espírito que ressuscitou o corpo do Cristo! Assim, a Jerusalém celeste,
que é a Igreja, estará plenamente gloriosa, com todos os seus filhos ressuscitados pela Glória do
Espírito, todos como membros do Cristo no seio amoroso do Pai!
Este tópico ainda continuará no próximo número. Aí veremos o que acontecerá com a
história humana e com toda a criação. Veremos também o que significa o juízo final, que ocorrerá
na Vinda do Senhor!

A Vinda do Senhor segundo o Novo Testamento - III

Vimos, no tópico passado, que a Vinda do Senhor será ação salvífica da Trindade, plena
manifestação da glória de Cisto, glorificação e consumação da Igreja e glorificação do homem pela
ressurreição. Mas, não é só: a Parusia do Senhor não somente diz respeito ao homem considerado
individualmente, mas será glorificação de toda a história humana. Cristo glorificado iluminará tudo
aquilo que o homem realizou, de bom e de mal neste mundo! Aí, então, toda a história humana será
passada a limpo e a justiça será feita: “Mostrou o poder de seu braço e dispersou os que se
orgulham de seus planos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Encheu de
bens os famintos e os ricos despediu de mãos vazias. Acolheu Israel, seu servo, lembrando-se de
sua misericórdia, conforme o que prometera a nossos pais, em favor de Abraão e de sua
descendência, para sempre” (Lc 1,51-55).
Esta verdade aparece de modo belo no Apocalipse, que apresenta o Cristo, Cordeiro imolado e
ressuscitado, tendo nas mãos o livro da história humana. É ele, que na sua Vinda, desvendará o
sentido último de todas as coisas (cf. Ap 5).
Além da história humana, todo o universo, toda a criação será transfigurada, plenificada pelo
Espírito Santo que o Senhor Jesus derramará sobre tudo: “Vi um céu novo e uma terra nova,
porque o primeiro céu e a primeira terra haviam desaparecido e o mar já não existia. Vi a cidade
santa, a nova Jerusalém, que descia do céu do lado de Deus, ornada como uma esposa se enfeita
para o esposo. Ouvi uma voz forte do trono, que dizia: ‘Eis a tenda de Deus entre os homens. Ele
levantará sua morada entre eles e eles serão seu povo e o próprio Deus-com-eles será o seu Deus.
Enxugará as lágrimas de seus olhos e a morte já não existirá nem haverá luto nem pranto nem
fadiga, porque tudo isso já passou’” (Ap 21,1-4). Portanto, a manifestação da Glória do Ressuscitado
será também plena libertação da criação, lugar da história do homem com o seu Deus em Cristo:
“Com efeito, o mundo criado aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus. Pois as
criaturas foram sujeitas à vaidade, não voluntariamente mas pela vontade daquele que as sujeitou,
na esperança de serem também elas libertadas do cativeiro da corrupção para participarem da
liberdade gloriosa dos filhos de Deus. Pois sabemos que toda a criação até agora geme e sente
dores de parto. E não somente ela mas também nós que temos as primícias do Espírito gememos
dentro de nós mesmos, aguardando a adoção, a redenção de nosso corpo” (Rm 8,19-23).
Notemos que a Sagrada Escritura não anuncia a destruição do mundo, da criação, mas a sua
transformação, a sua glorificação! A história humana terminará; terminará o tempo como nós
conhecemos, toda a criação será glorificada - já não mais será assim, como a conhecemos agora.
Poderíamos até afirmar, em certo sentido, que a criação toda ressuscitará, isto é, será glorificada!
Passará para a plenitude de Deus e de seu Cristo glorioso na potência do Espírito. Há um texto na
Escritura que parece afirmar a destruição de tudo pelo fogo: “Entretanto, virá o dia do Senhor como
ladrão, e nele passarão com estrépito os céus, e os elementos abrasados se dissolverão e a terra
será consumida com suas obras. Pois, se deste modo tudo vai desagregar-se, como não deveis
perseverar em vossa santa conduta e em vossa piedade, aguardando e acelerando a chegada do dia
de Deus, quando os céus em fogo se dissolverem e os elementos abrasados se derreterem?” (2Pd
3,10-12).
Mas, se olharmos este texto com bem atenção não é bem assim: Pedro está comparando o fim de
todas as coisas com o dilúvio (cf. v. 6): ora, no dilúvio o mundo não foi destruído pela água, mas
purificado! O apóstolo quer ensinar que, pelo Espírito de Cristo, a criação toda será ainda mais
plenamente purificada que na época de Noé, desta vez pelo fogo do Espírito de Cristo, que destruirá
toda impiedade para sempre (cf. 2Pd 3,7). Notemos que o fogo purifica mais radicalmente que a
água; por isso Pedro usa a imagem do fogo (a trata-se apenas de uma imagem)! Então, não será a
destruição do mundo, mas sua purificação, sua glorificação. Pensemos no fogo que, em contato com
uma barra de ferro, purifica-a e torna-a incandescente. É esta a imagem: um mundo purificado e
transfigurado, impregnado da Vida do Cristo ressuscitado, que é dada pelo Espírito Santo! Passará
este mundo como o conhecemos, e teremos - são palavras do próprio Pedro! - “novos céus e nova
terra onde habitará a justiça!” (v. 13). Assim pensar em fim do mundo como destruição apavorante
de tudo não está de acordo com as Escrituras! Deus não odeia nada do que criou: “Pois Deus não
fez a morte, nem se alegra com a perdição dos vivos. Criou todas as coisas para subsistirem” (Sb
1,13s); “Sim, tu amas todos os seres, e nada detestas do que fizeste; se odiasses alguma coisa,
não a terias criado. E como poderia subsistir alguma coisa, se não a quisesses? Ou como poderia
conservar-se se não a tivesses chamado à existência? Porém, a todos poupas, porque te pertencem,
ó soberano amigo da vida” (Sb 11,24-26).
A Parusia do Senhor, será portanto, acontecimento de vida, plenitude, alegria! O Senhor consumará
a obra de sua salvação!
Falta-nos ainda meditar sobre um aspecto desta Parusia: o juízo! Sim, o Senhor virá para julgar os
vivos e os mortos. Este será o tema de nosso próximo tópico!

A Parusia do Senhor e o Juízo Final

Várias vezes, nesta série de tópicos sobre Escatologia, tenho dito que tudo quanto
acontecerá no final dos tempos está ligado à Manifestação ou Parusia do Senhor Jesus glorioso. Isto
também vale para o que chamamos Juízo Final. Pensemos um pouco: a Parusia do Senhor será
manifestação plena da sua Glória, do seu esplendor, da sua luz e, por isso mesmo, iluminará todas
as coisas: a história humana e nossa história pessoal. Na luz de Cristo nós veremos claramente o
que foi a história humana e o que foi a nossa vida: na sua luz veremos a luz! Jesus é o critério
último, o ponto de referência de toda a humanidade; ele é o centro da vida do mundo e da nossa
vida. Assim, saberemos o que vale o mundo e o que valeu a nossa vida quando estivermos diante
da luz do Cristo glorioso! Ele é, ao mesmo tempo, juiz e critério de julgamento! No encontro com o
Senhor confrontamo-nos, ao mesmo tempo, com nossa realidade. Jesus não aparecerá para, depois,
julgar! Não! Sua aparição, sua luz, sua verdade, já serão, para nós juízo. Que fique claro: ele não
aparecerá para, posteriormente, julgar; sua aparição mesma é juízo!
Em Mt 25 Jesus conta várias parábolas que mostram sua chegada como momento de julgamento: as
dez virgens, que deverão ser examinadas pelo Noivo que chega, o homem, que viajando, na volta
pede conta dos talentos aos empregados e o último julgamento, quando o Filho vier em glória e
separar bons e maus, chamando a si os bons e apartando de si os maus. Repito: a ambigüidade da
história desaparecerá à manifestação de sua luz - ele, que é o seu sentido último. Por isso mesmo,
somente a Deus e a seu Cristo compete o julgamento (cf. Mt 13,24-30: a parábola do trigo e do
joio), porque nenhum juízo humano atinge a realidade última das coisas e situações: somente Cristo
revelará o íntimo das coisas e das pessoas: “Quanto a mim, mui pouco se me dá de ser julgado por
vós ou por qualquer tribunal humano, pois nem a mim mesmo me julgo. Certo que de nada me
acusa a consciência, mas nem por isso me creio justificado; quem me julga é o Senhor. Também
vós, pois, não julgueis antes do tempo, enquanto não vier o Senhor, que iluminará os esconderijos
das trevas e tornará manifestos os propósitos dos corações, e então cada um terá o louvor de Deus”
(1Cor 4,3-5). Por outro lado, o juízo acontece a cada dia, na nossa atitude de acolhimento ou
rejeição de Deus em Jesus Cristo presente no irmão (cf. Jo 3,18; 3,36; 5,24; Mt 25,31s), pois o Pai
deu ao Filho ressuscitado todo o poder de julgar: “O Pai não julga ninguém mas entregou ao Filho
todo o poder de julgar” (Jo 5,22). Este julgamento já começou, na potência do Espírito Santo,
Espírito do Cristo ressuscitado, pois o Espírito vai mostrando ao coração daqueles que o acolhem
que Cristo é o Salvador do mundo e que o mundo pecou ao rejeitá-lo: “Quando ele (o Espírito
Santo) vier, convencerá o mundo quanto ao pecado, à justiça e ao julgamento. Convencerá quanto
ao pecado, porque não creram em mim, quanto à justiça, porque vou para o Pai e já não me vereis;
e quanto ao julgamento, porque o príncipe deste mundo já está condenado” (Jo 16,8-10). No
entanto, na Parusia do Senhor o julgamento aparecerá claramente: todo o pecado do mundo, quer
pessoal, quer coletivo, será para sempre desmascarado e eliminado!
O juízo tem, portanto, uma dimensão trinitária: o Pai entregou ao Filho o julgamento, que se dará
na luz e na potência do Espírito! Em Cristo glorificado pelo Pai e pleno do Espírito, tudo será julgado!
Já vimos que no Antigo Testamento aparece claro que haveria um Dia do Senhor, que seria
Dia de Salvação, mas também Dia de Juízo. Este juízo é salvífico: Deus não vem para condenar,
mas para salvar... agora quem se fechou para o Senhor, claro que ficará fora da salvação de Deus
(cf. Sb 3,10 e também o capítulo 5). Neste sentido, o juízo final discriminará bons e maus: “Nesse
tempo, muitos dos que dormem na terra poeirenta, despertarão; uns para a vida eterna, outros
para vergonha, para abominação eterna. Então os sábios brilharão como o firmamento
resplandecente, e os que tiverem conduzido a muitos para a justiça brilharão como estrelas para
sempre” (Dn 12,2s).
Para o Novo Testamento, como já foi dito acima, é nossa atitude em relação a Cristo nesta
vida que definirá nosso destino: ele é o critério do juízo (cf. Lc 12,8ss; 9,26; 11,30; Mc 3,38; Mt
16,27). Em Jesus manifestar-se-á no fim dos tempos a justiça de Deus, que é de salvação, que nos
justifica (cf. Rm 3,26): na cruz do nosso Juiz o príncipe deste mundo foi jogado fora (cf. Jo 12,21s).
Sim, nunca nos esqueçamos: quem nos julgará é o nosso Salvador! Para Deus não é difícil unir
justiça e misericórdia. Cristo nos julga salvando!
A respeito do julgamento, alguns autores atuais falam em auto-juízo: na luz do Cristo nós
mesmos nos julgamos. Tal expressão é ambígua: é correta se pensamos que, à luz de Cristo, nos
veremos como somos e veremos nossa própria verdade; por outro lado, é errada se pensarmos que
nós mesmo seremos nossos juizes! A clara consciência do que somos, sem máscaras e mentiras,
faz-se somente à luz de Cristo! Não somos nós mesmos que chegamos a esta idéia clara do que
fomos e somos: a realidade do mundo, da nossa vida e da história somente aparecerão quando
forem iluminadas pela manifestação do Senhor Jesus.
Agora, pensemos bem: se na Parusia do Senhor será manifestado aquilo que fomos na nossa vida, é
importantíssimo valorizar cada momento da existência! É esta minha vida que aparecerá diante do
Cristo Jesus! O que estou fazendo dela?
Finalizando, devemos deixar claro ainda uma coisa: para a Sagrada Escritura, o mais importante é o
Juízo Final, aquele, da Vinda do Senhor, quando toda a história e toda a humanidade serão passadas
a limpo! Mas, isto não elimina a responsabilidade individual: cada um de nós comparecerá diante do
tribunal de Cristo (cf. Rm 14,10) e haverá de responder por si. Fica, portanto, uma questão: como
explicar juízo particular (no momento da morte) e juízo final? Não são dois juízos, mas dois
momentos do mesmo julgamento: no momento da morte é a verdade da minha vida que aparece,
no juízo final tudo quanto fui e fiz aparecerá dentro do contexto de toda a humanidade: verei,
então, claramente, as conseqüências de todo o bem e de todo o mal que realizei ou deixei de fazer!
A ressurreição dos mortos - I

Já dissemos, quando falamos sobre a Parusia do Senhor Jesus, que sua Manifestação
gloriosa será causa da ressurreição dos mortos: Cristo glorioso glorificará toda a humanidade, vivos
e mortos! “Esperamos o Salvador Jesus Cristo, que transformará nosso mísero corpo, tornando-o
semelhante ao seu corpo glorioso, em virtude do poder que tem de sujeitar a si toda criatura” (Fl
3,20s).
No presente tópico vamos estudar a ressurreição no Antigo Testamento; no próximo,
refletiremos sobre o Novo Testamento.
Na Sagrada Escritura a vida e a morte são primeiramente noções teológicas, não biológicas
ou mesmo antropológicas: viver é estar em comunhão com Deus, que é a Vida; morrer é apartar-se
dele. Como uma pessoa que se feche para o sol, cai na treva, assim quem se aparta do Deus da
Vida, cai na morte... morte aqui é tudo que torna o homem infeliz: a dor, a solidão, a falta de
solidariedade, a doença, o medo, a fome, a injustiça... e, finalmente, a morte física. Daí a palavra da
Escritura: “Eis que hoje ponho diante de ti a vida e a felicidade, a morte e a desgraça” (Dt 30,15).
No início do Antigo Testamento não havia a esperança na ressurreição: aqueles que
morriam, assim se pensava, iriam simplesmente para o sheol, a morada dos mortos, para um sono
eterno: lá, bons e maus teriam a mesma vida! A recompensa pelo bem ou mal que se fizesse era
dada nesta vida mesma: riqueza, vida longa e muitos filhos para os bons e, para os maus, morte
trágica, pobreza e esterelidade! Era assim que se pensava nos inícios do Antigo Testamento... e é
assim que pensam algumas seitas pentecostais! Pensem-se, por exemplo, naquelas que prometem
mundos e fundos a quem paga o dízimo o dá dinheiro para correntes de oração! Leia, por exemplo,
Is 38, 9-11.18-19. Para quem morresse só restaria o sheol!
No entanto, devagarinho, a confiança no amor de Deus faz o israelita fiel ter a certeza de que nem
mesmo a morte o separará do amor do seu Senhor: “Tenho sempre o Senhor na minha presença;
com ele à minha direita, não vacilarei. Por isso se alegra meu coração e exulta minha alma; até
minha carne descansa, serena, porque não abandonarás minha alma ao abismo nem deixarás teu
fiel ver o fosso. Tu me ensinarás o caminho da vida; em tua presença há plenitude de alegria, à tua
direita delícias eternas” (Sl 16,8-11). Note-se que vai surgindo a certeza que o Deus da Vida não
deixará na morte os seus amigos. Não se diz como será esta vida após a morte, mas somente que
esta pessoa estará com Deus e, assim, será plenamente feliz! Basta! Estar como o Senhor é a
felicidade plena, a vida sem fim! Toda a atenção é colocada na relação com o Senhor. Para a Bíblia,
o importante não é como será a ressurreição, mas o que será a ressurreição: a amizade plena com o
Senhor, a felicidade sem fim, a plenitude da Vida! ”Eu sei que meu Redentor está vivo e que, no
fim, se levantará sobre o pó, e, através de minha pele retalhada, na minha carne, verei a Deus. Eu
verei aquele que está a meu favor, e meus olhos contemplarão quem não é um adversário” (Jó
19,25ss). Deus, que por amor, ressuscitou o povo de Israel da sua miséria no Exílio de Babilônia,
também ressuscitará seus amigos: “Teus mortos reviverão, os cadáveres ressurgirão! Despertai e
alegrai-vos, vós que habitais o pó! Porque o teu orvalho é um orvalho de luz e a terra das sombras
dará à luz” (Is 26,19). Finalmente, a profecia de Daniel fala claramente que no Dia do Senhor
(lembre-se do que dissemos sobre o Dia do Senhor) os mortos ressuscitarão, uns para a Vida com
Deus e, outros, para a morte eterna: “Nesse tempo se apresentará o grande príncipe Miguel
assistente de teu povo, e haverá um tempo de tribulação, como não houve até agora, desde que há
povo. Mas nesse tempo, teu povo será salvo, todos os que se acharem registrados no Livro. Muitos
dos que dormem na terra poeirenta, despertarão; uns para a vida eterna, outros para vergonha,
para abominação eterna. Então os sábios brilharão como o firmamento resplandecente, e os que
tiverem conduzido a muitos para a justiça brilharão como estrelas para sempre” (Dn 12,1-3).
“Quanto a ti, vai até o fim e repousa; tu te levantarás para receber o teu quinhão no fim dos dias!”
(Dn 12,13). “Repousar”, aqui, refere-se à morte e “levantar-se” refere-se à ressurreição. Um texto
belíssimo do Antigo Testamento sobre a ressurreição é 2Mc 7, a história da mãe dos sete filhos. Vale
a pena ler! Há, ainda, um outro testemunho: “Depois, tendo organizado uma coleta entre os
soldados, mandou a Jerusalém cerca de duas mil dracmas, para que se oferecesse um sacrifício
expiatório. Ação muito justa e nobre, inspirada no pensamento da ressurreição! Pois, se não
esperasse que os soldados caídos haviam de ressuscitar, teria sido supérfluo e insensato orar pelos
mortos. 45 Considerando ele, porém, que belíssima recompensa está reservada aos que morrem
piedosamente, seu pensamento foi santo e piedoso. Eis por que mandou oferecer aquele sacrifício
pelos mortos, para que ficassem livres do seu pecado” (2Mc 12,43-45).
Ainda uma coisa importante: para o Antigo Testamento, o homem é um todo, de modo que
sua comunhão com Deus ou sua condenação eterna envolverão todo o seu ser: corpo e alma! Nunca
se pensa na Bíblia que o homem é um espírito que apenas mora, encarnado, num corpo! Sou eu
todo que estarei glorificado com o Senhor ou perdido, longe dele! Veremos isto quando tratarmos do
Novo Testamento e da reencarnação...
Resumindo: 1) a idéia da ressurreição vai surgindo aos poucos no Antigo Testamento; 2) o
importante não era “como” seria esta ressurreição, mas o fato de que Deus é fiel e não deixaria na
morte os seus amigos; 3) a vida após a morte é estar com Deus com todo o nosso ser, corpo e
alma, e esta é a alegria eterna, a felicidade sem fim e 4) a ressurreição aconteceria no Último Dia,
no Dia do Senhor e seria de salvação para os bons e condenação para os maus.
Nos próximos tópicos veremos a idéia da ressurreição no novo Testamento!

A ressurreição dos mortos - II

No tópico passado, vimos a ressurreição dos mortos no Antigo Testamento. Vamos, agora
iniciar o estudo da ressurreição no Novo Testamento!
Primeiramente é importante fazer uma distinção sobre o modo como o Novo Testamento
utiliza a palavra ressurreição. Há três modos de usar o termo “ressurreição”:
· em sentido figurado: como volta de um morto a esta vida. É o caso da “ressurreição” de
Lázaro, da filhinha de Jairo, do filho da viúva de Naim... etc. Aqui não se trata rigorosamente de
ressurreição no sentido cristão da palavra, mas de revitalização: ou seja, alguém estava morto e
voltou a esta vidinha nossa... e, depois, morrerá novamente!
· em sentido neutro: como passo prévio ao juízo: o homem não ficará na morte: ele, quer salvo,
quer condenado, continuará vivendo após a morte. Todos “ressuscitarão” para serem julgados! Este
não é ainda o sentido teologicamente mais profundo, mais forte e verdadeiro de ressurreição;
· em sentido teologicamente positivo: como plena participação e configuração à vida de Cristo
ressuscitado. Tal ressurreição é reservada somente aos bons. Aqueles que viveram na comunhão
com Cristo serão completamente transfigurados, transformados em Cristo ressuscitado: serão como
o próprio Cristo: passarão desta vida para uma outra Vida, plena, realizada, eterna! Este último
sentido é o que realmente tem importância e faz parte essencial do anúncio cristão; antes, é o
próprio centro do Evangelho! Quando dizemos que Cristo ressuscitou e que, nele, nós
ressuscitaremos, é neste último sentido que estamos falando! A ressurreição que nos interessa é
esta última!
A ressurreição, então, é a passagem desta vida (limitada, ambígua, precária) para uma Vida
plena, diversa desta nossa vida de agora: teremos a Vida do próprio Cristo ressuscitado, uma Vida
divina, na qual nosso corpo e nossa alma serão transfigurados. Como diz a III Oração Eucarística
para as crianças: “No Reino de Jesus ninguém mais vai sofrer, ninguém mais vai chorar, ninguém
mais vai ficar triste!” Nosso corpo será transfigurado, como o de Jesus: não mais estará sujeito às
leis da física, da matéria como a conhecemos agora; nossa alma também será ressuscitada,
transformada: nunca mais teremos tristezas, depressão, saudades... seremos plenamente
realizados, porque estaremos para sempre com o Senhor, que saciará todas as nossas sedes e
realizará todos os mais profundos anseios do nosso coração! É isto que significa ressuscitar! Mas,
vamos seguir passo a passo o Novo Testamento!
Vejamos, primeiro, o ensinamento do próprio Jesus Cristo. No seu tempo, a ressurreição era
uma doutrina muito divulgada e aceita entre os judeus. Somente os saduceus achavam que a vida
acabava com a morte (cf. Mc 12,18; At 23,6-8). Uma idéia que nunca existiu no meio do povo de
Israel foi a da reencarnação - esta não tem nada a ver com a Bíblia! Contra os saduceus, Jesus
ensinou que Deus é o Deus dos vivos e não dos mortos: ele é o Deus que ressuscita seus amigos
(cf. Mc 12,18-27). Para Jesus, essa vida após a morte será vida com o corpo e não somente como a
alma: “Não tenhais medo dos que matam o corpo mas não podem matar a alma. Deveis ter medo
daquele que pode fazer perder-se a alma e o corpo no inferno” (Mt 10,28). Observe-se bem que
corpo e alma sofrerão no inferno: “Se teu olho direito te leva a pecar, arranca-o e joga longe de ti,
pois é preferível perder um dos teus membros do que teu corpo inteiro ser lançado no inferno. E se
tua mão direita te leva a pecar, corta-a e joga longe de ti, pois é preferível perder um dos teus
membros do que teu corpo inteiro ser lançado no inferno” (Mt 5,29s). Jesus ensina também que
bons e maus “ressuscitarão” (no segundo sentido, que apresentamos acima) para o julgamento: e,
assim, uns ressuscitarão para a Vida (verdadeira Ressurreição: estar com Cristo e, com ele, ser
glorificado) e outros ressuscitarão para a morte (ressurreição em sentido figurado: viver no inferno,
viver na morte!): “Não vos admireis, porque vem a hora em que todos os que estão mortos ouvirão
sua voz. Os que praticaram o bem sairão dos túmulos para a ressurreição da vida; os que
praticaram o mal ressuscitarão para serem condenados” (Jo 5,28s). O próprio Senhor ensinou
também que, após a sua ressurreição, aqueles que comessem, na Eucaristia, seu corpo
ressuscitado, pleno de Vida eterna, ressuscitariam também com ele e como ele. Ressurreição, aqui,
no sentido forte, profundo, verdadeiro: “Jesus lhes disse: “Na verdade eu vos digo: se não
comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem
come minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia. Quem
come minha carne e bebe meu sangue permanece em mim, e eu nele” (Jo 6,53s.56).
Assim, Jesus não somente anunciou sua própria ressurreição (cf. Mc 8,31; Mt 16,21ss; Lc
9,22, etc), como também ensinou que todos ressuscitariam por ele! Há uma passagem em Mateus
que mostra bem isto: “Os túmulos se abriram e muitos corpos de santos ressuscitaram. Eles saíram
dos túmulos, depois da ressurreição de Jesus, entraram na Cidade Santa e apareceram a muitos”
(Mt 27,52s). Qual o significado deste trecho tão misterioso? Será que os mortos voltaram a viver e
entraram em Jerusalém, espantando as pessoas?! Não! Não é isto que Mateus quer dizer! Ele quer
afirmar somente que a ressurreição de Cristo é causa da nossa ressurreição. A Cidade Santa na qual
os mortos entrarão é a Jerusalém celeste, a Glória do Corpo de Cristo, isto é, o Céu (cf. Ap 21,2.10;
22,19). Mateus usa, aqui, aquele tipo de linguagem que os estudiosos da Bíblia chamam de
apocalíptica: uma linguagem cheia de figuras! Já falamos sobre isso nos primeiros tópicos!
Concluindo, por enquanto: 1) Jesus ensinou a ressurreição; 2) ensinou que ressuscitaremos
em corpo e alma; 3) ensinou que há uma ressurreição para a Vida (verdadeira ressurreição) e uma
ressurreição para a morte (para a condenação: ressurreição às avessas!); 4) o próprio Jesus é a
causa da nossa ressurreição: ressuscitaremos porque ele ressuscitou!
No próximo tópico veremos como o restante do Novo Testamento desenvolve e aprofunda a
idéia de ressurreição! Até lá!

A ressurreição dos mortos - III

No tópico passado vimos que Jesus, com os fariseus também, ensinou a ressurreição dos
mortos. Só que Cristo ligou a ressurreição da humanidade à sua ressurreição: os homens
ressuscitarão porque Cristo ressuscitou, ressuscitarão em Cristo ressuscitado, ressuscitarão como
Cristo ressuscitado, ressuscitarão com Cristo ressuscitado. Em outras palavras: Cristo é a nossa
ressurreição, a nossa Vida plena!
Esta idéia é retomada e desenvolvida pelo Novo Testamento todo, sobretudo por São Paulo.
Desde o nosso Batismo nós recebemos o Espírito do Cristo ressuscitado, o Espírito Santo,
aquele mesmo que ressuscitou Jesus. Recebendo este Espírito de Ressurreição, nós já começamos,
nesta vida, a viver a Vida nova do Cristo ressuscitado... Vida que explodirá em nós, de modo pleno e
total, após a nossa morte, quando em corpo e alma seremos configurados a Cristo! Escutemos o
Apóstolo: “Ignorais que todos nós, batizados para Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Com
ele fomos sepultados pelo batismo na morte para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos
pela glória do Pai, assim também andemos em novidade de vida. Pois, se estamos inseridos no
solidarismo de sua morte, também o seremos no da ressurreição. Sabemos pois que nosso velho
homem foi crucificado para que fosse destruído o corpo de pecado e já não servíssemos ao pecado.
Com efeito, quem morre está livre do pecado. Se morremos com Cristo, cremos que também
viveremos com ele. Pois sabemos que, ressuscitado dos mortos, Cristo já não morre, a morte já não
tem poder sobre ele. Porque, morrendo, morreu para o pecado uma vez para sempre. Mas, vivendo,
vive para Deus. Assim, pois, considerai-vos mortos para o pecado, porém vivos para Deus em Jesus
Cristo” (Rm 6,3-10).
Assim, já nesta vida, a ressurreição de Cristo começa a agir em nós desde o Batismo. E
cada vez que rezamos, que fazemos o bem, sobretudo quando recebemos os sacramentos -
particularmente a Eucaristia! - é o Espírito do Ressuscitado que vai agindo em nós, desenvolvendo
sua ação, preparando-nos para a eterna e plena configuração com Cristo ressuscitado.
Vejamos e analisemos alguns textos paulinos sobre a ressurreição. O mais antigo deles é da carta
aos tessalonicenses. Os cristãos de Tessalônica estavam confusos pela morte de vários membros da
Comunidade antes da Parusia. E agora? Aqueles irmãos tinham morrido antes da Vinda de Cristo!
Então quando Cristo voltasse (já vimos que, no início, eles pensavam que Cristo voltaria logo), como
ficariam aqueles irmãos já mortos? Notemos que, para os primeiros cristãos, o importante era a
ressurreição final de todos, no dia da Ressurreição, Dia da Vinda do Cristo! Então todos os mortos
participarão da Glória do Cristo! Paulo, então, explica aos tessalonicenses que os vivos não
precederão os mortos: “Irmãos, não queremos que ignoreis coisa alguma a respeito dos mortos,
para não vos entristecerdes, como os outros homens, que não têm esperança. Se cremos que Jesus
morreu e ressuscitou, cremos também que Deus levará com Jesus os que nele morrerem. Eis o que
vos declaramos conforme a palavra do Senhor: nós, que ficamos ainda vivos, não precederemos os
mortos na vinda do Senhor. Quando for dado o sinal, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de
Deus, o próprio Senhor descerá do céu e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois
nós, os vivos, que estamos ainda na terra, seremos arrebatados juntamente com eles para as
nuvens, ao encontro do Senhor nos ares. Assim estaremos sempre com o Senhor. Consolai-vos,
pois, uns aos outros, com estas palavras”. (1Ts 4,13-18). Notemos os ensinamentos de Paulo: (1)
Deus nos ressuscitará com Jesus ressuscitado. Nunca vamos nos cansar de repetir: é Cristo a causa
de nossa ressurreição. Ressuscitaremos não simplesmente porque temos uma alma imortal, mas
porque Cristo nos dará sua Vida de ressuscitado! (2) É interessante também observar que Paulo
esperava a Vinda do Senhor para logo: neste texto ele pensa que estará vivo quando Cristo voltar.
No entanto, quando Cristo vier - notemos bem! - todos serão ressuscitados, vivos e mortos! Ou
seja, quem estiver morto, será transformado pela Glória de Cristo e quem estiver vivo será também
revestido, no corpo e na alma, desta Vida nova, completamente diferente desta nossa vidinha atual!
(3) Outra coisa, que já expliquei antes: quando Paulo usa a imagem do anjo, do toque da trombeta,
do arrebatamento, das nuvens, de ir pelos ares... tudo isto é figura, é metáfora, é a linguagem
apocalíptica! Já falamos sobre isto antes! Aquela história de arrebatamento, como algumas seitas
falam, é um fundamentalismo tolo e completamente ingênuo! (4) O que Paulo quer é chamar
atenção para o ponto mais importante: nós iremos ao encontro com o Senhor; nós estaremos para
sempre com o Senhor! Isto é que é o importante, isto é o que vale, isto é o que interessa!
Estaremos para sempre com ele e nele, na sua Glória eterna! Seremos como ele... para sempre!
Como será isto? Paulo não diz e não sabe... e nem interessa! É impossível descrever como será o
mundo futuro! Já falamos sobre isto nos tópicos passados!
Mas o texto mais importante do Novo Testamento sobre a ressurreição é 1Cor 15! Nós
vamos começar a estudá-lo neste tópico e vamos continuar o estudo no próximo. Vamos por partes:
“Recordo-vos, irmãos, o Evangelho que vos tenho pregado e recebestes, no qual estais firmes. Por
ele sereis salvos, se o conservardes como eu vos preguei. De outra forma em vão tereis abraçado a
fé. Pois na verdade eu vos transmiti, em primeiro lugar, o que eu mesmo recebi: que Cristo morreu
por nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que ressuscitou ao terceiro dia,
segundo as escrituras, e que apareceu a Cefas, depois aos Doze. Posteriormente apareceu a mais
de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais muitos ainda vivem, outros já morreram. Depois
apareceu a Tiago, depois a todos os apóstolos. E depois de todos, como a um filho abortivo,
apareceu também a mim. É que sou o menor dos apóstolos. Nem sou digno de ser chamado
apóstolo, pois persegui a Igreja de Deus. Mas pela graça de Deus sou o que sou, e a graça que me
conferiu não foi estéril. Ao contrário, tenho trabalhado mais do que todos eles, mas não eu e sim a
graça de Deus comigo. Pois tanto eu como eles é assim que pregamos e foi assim que crestes” (vv.
1-11).
Notemos a importância da fé na ressurreição: é o centro do cristianismo, é o Evangelho, a
Boa Notícia que Paulo prega! Cristo ressuscitou dos mortos, venceu a morte para sempre! Sem
ressurreição não há Evangelho; há somente a velha história: nascemos e morremos... e basta!
Paulo nos diz que crer na ressurreição de Cristo é acolher a salvação! E pensar que tem gente que
crê em reencarnação e se considera cristã! Mas, vamos pra frente: “Ora, se pregamos que Cristo
ressuscitou dos mortos, como é então que dizem alguns de vós que não há ressurreição dos
mortos? Se não há ressurreição dos mortos também Cristo não ressuscitou. Se Cristo não
ressuscitou, é vã nossa pregação e vã vossa fé. Seremos também falsas testemunhas de Deus,
porque contra Deus afirmamos que ele ressuscitou Cristo dos mortos, a quem não teria
ressuscitado, visto que os mortos não ressuscitam. Pois, se os mortos não ressuscitam, também
Cristo não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, vã é vossa fé, e ainda estais em pecado. E até
os que em Cristo morreram, pereceram. Se só temos esperança em Cristo para esta vida, somos os
mais miseráveis de todos os homens” (vv. 12-19).
Por que Paulo repreende os coríntios? Porque alguns pensavam que a ressurreição era
somente espiritual, era ter uma vida honesta, direita! Paulo não aceita nada disso! Nós
ressuscitaremos pra valer. Negando que os cristãos ressuscitarão, os coríntios negam a ressurreição
de Cristo: se não há ressurreição, Cristo não ressuscitou e a fé cristã é vã. Assim, se Cristo não
ressuscitou, também nós não ressuscitaremos... e a fé cristã não serviria para nada! Estamos vendo
como é forte e central a fé na ressurreição! Sem ela não há nenhuma fé cristã!
Por enquanto, fiquemos por aqui. No próximo tópico vamos continuar a estudar este e
outros textos de Paulo! Veremos, sobretudo, com que corpo os mortos ressuscitarão!
A ressurreição dos mortos - IV

No tópico passado estávamos falando sobre a ressurreição. Estudávamos 1Cor 15. Vamos
prosseguir analisando o nosso texto: “Mas na verdade Cristo ressuscitou dos mortos como primícias
dos que morrem. Com efeito, assim como por um homem veio a morte, assim também por um
homem vem a ressurreição dos mortos. Assim como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos
reviverão. Cada qual, porém, em sua ordem: como primícias, Cristo, em seguida os que forem de
Cristo por ocasião de sua vinda. Depois será o fim, quando entregar o reino a Deus Pai, após haver
destruído todo principado, toda potestade e toda dominação. Porque é necessário que ele reine até
pôr todos os inimigos debaixo de seus pés. O último inimigo reduzido a nada será a morte, pois ele
pôs todas as coisas debaixo dos pés. Quando diz que todas as coisas lhe serão submetidas,
evidentemente não inclui aquele que as submeteu todas. Ao contrário, quando tudo lhe estiver
sujeito, então também o próprio Filho renderá homenagem àquele que lhe sujeitou todas as coisas,
a fim de que Deus seja tudo em todos” (vv. 20-28).
Paulo agora usa a imagem de Adão, o primeiro homem, para comparar com Cristo: assim
como pelo primeiro homem veio a morte para a antiga humanidade marcada pelo pecado, pelo Novo
Adão, Cristo Jesus, vem a Vida plena para a humanidade nova, que são aqueles que nele crêem e
recebem a salvação! Cristo é a Cabeça, as primícias, o início da ressurreição de toda a humanidade:
nele, todos reviverão (não no sentido de voltar a esta vidinha, mas de viver a Vida nova na Glória).
Então, já não haverá mais morte, mas só a Vida plena... e toda a criação será sujeitada a Cristo, ou
seja, será glorificada! Lembrem-se: novos céus e nova terra! E Deus Pai, pelo seu Filho, na Glória do
Espírito, será tudo em todos!
Paulo continua: “De outra maneira, o que pretendem aqueles que se batizam em favor dos
mortos? Se os mortos realmente não ressuscitam, por que se batizam por eles? E nós, por que nos
expomos a perigos a toda hora? Cada dia, irmãos, me exponho à morte, tão certo como sois a
minha glória em Jesus Cristo, nosso Senhor. Se foi por intenção humana que combati com feras em
Éfeso, o que me aproveita isso? Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos porque
amanhã morreremos. Não vos enganeis: “As más companhias corrompem os bons costumes”. Caí
em vós, como é justo, e não pequeis porque alguns vivem na ignorância de Deus. Para vossa
vergonha é que o digo” (1Cor 15,29-34).
O Apóstolo apresenta agora duas motivações a favor da ressurreição: 1) alude à prática
coríntia de fazer-se batizar pelos mortos: os coríntios tinham um costume estranho de se batizarem
em nome dos antepassados que morreram sem o batismo. Paulo não aprova nem desaprova este
costume; simplesmente faz a ligação dele com a necessidade da fé na ressurreição: somente teria
sentido este costume se existir ressurreição e 2) recorda seu próprio apostolado: todas as lutas e
privações seriam perdidas se não fossem motivadas pela esperança na ressurreição: se não há
ressurreição - e aqui Paulo exagera retoricamente! - comamos e bebamos porque depois
morreremos... “Mas alguém perguntará: como ressuscitam os mortos? Insensato! O que semeias,
não nasce sem antes morrer. E, quando semeias, não semeias o corpo da planta, que há de nascer,
mas o simples grão, como o de trigo ou de alguma outra planta. E Deus lhe dá o corpo segundo
quis, a cada uma das sementes o próprio corpo. Não é toda carne a mesma carne, senão que uma é
a carne dos homens, outra a do gado, outra a das aves e outra a dos peixes. E há corpos celestes e
corpos terrestres, e um é o resplendor dos corpos celestes e outro o dos terrestres. Um é o
resplendor do sol, outro o da lua e outro o das estrelas, e uma estrela difere da outra no brilho. Pois
assim será também a ressurreição dos mortos. Semeia-se em corrupção e ressuscita-se em
incorrupção. Semeia-se em ignomínia, e ressuscita-se em glória. Semeia-se em fraqueza, e
ressuscita-se em vigor. Semeia-se um corpo animal, e ressuscita-se um corpo espiritual. Pois, se há
um corpo animal, há também um espiritual. E por isso está escrito: O primeiro homem, Adão, foi
feito alma vivente; o último Adão, espírito vivificante. Mas não é primeiro o espiritual, e sim o
animal, e depois o espiritual. O primeiro homem, feito da terra, é terreno; o segundo homem é do
céu. Qual foi o homem terreno, tais são também os terrenos; qual é o celestial, tais são também os
celestiais. E, assim como trazemos a imagem do terreno, traremos também a imagem do celestial”
(1Cor 15,35-49).
Esta última parte da explicação de Paulo é importantíssima: como ressuscitam os mortos? A
resposta de Paulo é irritada: insensato! Por que quem faz esta pergunta é insensato? Porque pensa
no além como se fosse esta vida! O mundo futuro não pode ser descrito, pois é uma realidade
completamente nova! Já falamos tanto disso! Qualquer tentativa de descrever o além, o final dos
tempos, a Vinda de Cristo, o modo da ressurreição é pura insensatez! Bem que as seitas podiam
aprender isto! Nos evangelhos, Jesus já repreendera os saduceus por pensarem o além como o
aquém: “Jesus lhes respondeu: ‘Estais enganados e não conheceis nem as Escrituras, nem o poder
de Deus. Porque na ressurreição, as pessoas não se casam, nem se dão em casamento, mas são
como os anjos no céu’” (Mt 22,29s). O Apóstolo faz, então, duas comparações:
1) A primeira é o nascimento da planta a partir de uma semente morta na terra: para os antigos, a
semente nascia por uma ação de Deus: é ele quem dá um corpo a cada semente. Assim também
acontecerá com a ressurreição: ela é ação de Deus, ligada ao seu poder criador, capaz de
transformar uma semente numa planta. Paulo também recorda que Deus tem este poder porque é o
criador de tudo: se tirou tudo do nada pode também ressuscitar os mortos: “Ele (Abraão) é nosso
pai diante daquele em quem acreditou, o Deus que dá vida aos mortos e chama as coisas não
existentes como se fossem existentes” (Rm 4,17b).
2) Paulo faz, então, uma segunda comparação: como na natureza, por obra de Deus, há muitos
tipos de carne, também há uma carne ressuscitada, um corpo glorioso, diferente de tudo que nós
conhecemos: o corpo ressuscitado não será como o nosso corpo de agora, frágil e mortal! Assim,
também a transformação que se dá na ressurreição é fruto da ação de Deus: Nosso corpo, semeado
morto como um corpo corruptível, ressuscita incorruptível, semeado humilhado pela morte,
ressuscita glorioso, semeado fraco, ressuscita em potência. Em outras palavras: nosso corpo será
como o de Cristo! Semeado corpo animal (ou seja, com esta vidinha biológica), ressuscita corpo
espiritual, ou seja, espirituado, pleno da Vida do Espírito Santo! Não será um corpo imaterial, mas
sim um corpo cuja matéria será impregnada da Glória: pleno de potência e incorruptibilidade!
Paulo, então, fala do primeiro homem, Adão. Assim como nós somos como ele: frágeis,
mortais, com a ressurreição, seremos como o novo Adão, Cristo ressuscitado, que é pleno do
Espírito Santo que dá a Vida!
Resumindo, nós ressuscitaremos como Jesus: teremos um corpo totalmente transformado pelo
mesmo Espírito que ressuscitou o Cristo: será um corpo que não mais pertence a este mundo, não
mais tem as limitações deste mundo e, por isso mesmo, é impossível descrevê-lo! É bobagem
querer descrever o que o coração humano não pode imaginar!
Fiquemos com as palavras de Paulo: “Sabemos que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus
nos ressuscitará também a nós com Jesus e nos fará comparecer diante dele convosco” (2Cor 4,14);
“Deus, que ressuscitou o Senhor, também nos ressuscitará a nós pelo poder” (1Cor 6,14).
No próximo tópico terminaremos de tratar sobre a ressurreição, tirando as conclusões finais.
Depois, falaremos sobre um erro muito comum hoje em dia: a reencarnação. Então, vamos mostrar
porque é impossível para um cristão aceitar esta idéia. Até lá!

A ressurreição dos mortos - V

Depois de termos visto a ressurreição no Novo Testamento, vejamos um pouco como a


Igreja desenvolveu sua fé e esperança.
A convicção da Igreja antiga era esta: aqueles que morrem em Cristo estarão com Cristo
após a morte. Tertuliano, no século III, afirmava de modo simples e profundo: “Nós cremos que
Deus nos ressuscitará por meio do seu Cristo e nos tornará incorruptíveis, impassíveis e imortais”. É
importante observar que os primeiros cristãos não se preocupavam tanto com o modo da
ressurreição; não se perguntavam tanto se alma é ou não imortal. Nada disso! A preocupação era
outra: estar com Cristo: eu estarei com Cristo e nele serei eu mesmo, plenamente feliz! São Justino,
já no século II, tem uma frase estupenda: “Não penses que são cristãos aqueles que dizem que não
há ressurreição dos mortos, mas dizem que no momento da morte as almas são recebidas no céu!”
O que é que Justino deseja afirmar com estas palavras: é cristão não aquele que crê na imortalidade
da alma. Isto os gregos pagãos e as religiões antigas pagãs também afirmavam! Cristão é o que
acredita na ressurreição, ou seja, é quem afirma que nós estaremos com Cristo, em todo o nosso
ser, numa vida totalmente transfigurada! O homem sobrevive à morte unicamente para estar com
Cristo, para participar da sua vida ressuscitada, para estar na sua glória! Para o cristão nem é
possível pensar um além sem Cristo: ele é nosso além, nossa vida, nossa plenitude, nosso paraíso.
Aquele paraíso da novela A Viagem é completamente pagão!
O grande Sto. Irineu, também no século II, grande adversário dos hereges gnósticos, que negavam
a ressurreição do corpo, insistia que o cristão alcança a salvação em todo o seu ser porque está
ligado a Cristo, morto por nós, ele que virá na glória do Pai para nos ressuscitar e recapitular todas
as coisas em si mesmo: é somente em Cristo que temos a imortalidade verdadeira e a
incorruptibilidade! Tertuliano afirmava sem meias palavras: “A esperança dos cristãos é a
ressurreição da carne. Somos cristãos por esta fé! Quem fala somente em alma imortal fala de uma
ressurreição pela metade!” Belo Tertuliano! É cristão somente quem crê na ressurreição! Quem crê
em reencarnação, rompe com a fé do Cristo, esvazia a fé cristã! Renega nossa esperança! E
Tertuliano explica: “O nosso corpo não se torna outro, mas outra coisa. Ressuscitará, pois,
realmente a carne: toda ela, a mesma e intacta! E isto graças ao fidelíssimo Mediador de Deus e dos
homens, Jesus Cristo, que restituirá Deus ao homem e o homem e Deus, o espírito à carne e a
carne ao espírito”. Escutemos ainda Justino: “Que é o homem, senão um ser composto de uma alma
e um corpo? Será que a alma é o homem? Não! Ela é a alma do homem. Será, então, que o corpo é
o homem? Não! Ele é chamado corpo do homem. Se, pois nenhuma destas duas coisas é por si
mesma o homem, mas chama-se homem o composto de ambas, e se Deus chamou o homem à
vida, então não chamou uma parte, mas o (homem) todo é que chamou”. E só mais uma vez
Tertuliano: “Se a carne não houvesse de salvar-se, o Verbo de Deus não se teria encarnado. Nossos
corpos, depositados na terra e nela dissolvidos, ressuscitarão a seu tempo, porque o Verbo de Deus
dar-lhes-á a graça de erguerem-se para a glória de Deus Pai”.
Então, que fique bem claro: a Igreja sempre esperou na ressurreição: o homem, pela força do
Espírito do Cristo ressuscitado, sairá da morte totalmente transformado, completamente configurado
ao Senhor Jesus glorioso! Eis alguns textos de documentos da Igreja; bastam dois, como exemplo:
O Lateranense IV afirma: “Todos ressurgirão com os corpos de que agora estão revestidos, para
receber, de acordo com suas obras boas ou más, uns, a pena eterna e outros, a glória eterna com
Cristo”.
Também o Concílio de Lião II: “A mesma sacrossanta Igreja romana crê firmemente e com firmeza
afirma que, no dia do juízo, todos os homens comparecerão, com os seus corpos, ante o tribunal de
Cristo e prestarão contas de suas ações”.
Se quisermos resumir a fé da Igreja na ressurreição, diremos o seguinte:
1) A ressurreição é um evento escatológico, ou seja, terá lugar no Último Dia, na Vinda de
Cristo, no Dia do juízo, também chamado de fim dos tempos.
2) A ressurreição é um evento universal: ressuscitarão todos os homens ou todos os
mortos. Tal ressurreição fundamenta-se no Novo Testamento, que espera uma ressurreição de
justos e pecadores Já estudamos isto!
3) A ressurreição envolve todo o nosso ser. O conceito de ressurreição inclui uma identidade
somática: os mortos ressuscitam com seus próprios corpos. Isto não significa que ressuscitaremos
como somos atualmente. Seremos nós, com nossos corpos, mas completamente transformados em
glória! Como Cristo, que era o mesmo, mas de um modo totalmente diferente. Lembram-se como os
discípulos tinham dificuldades de reconhecê-lo?
Espero que tenha ficado claro qual é a nossa esperança: atravessando a morte, sermos totalmente,
em todo o nosso ser, transformados em glória à imagem do Cristo glorificado! Como será isso? Pela
força do seu Espírito Santo, o mesmo que o ressuscitou dos mortos e que já recebemos no Batismo.

No próximo tópico vamos falar sobre a reencarnação. É ela possível? Há provas científicas
sobre a reencarnação? Um cristão pode ser reencarnacionista?

A Reencarnação: uma idéia cristã ou pagã? - I

Nos nossos tópicos sobre escatologia não deveríamos tratar de reencarnação... Mas, dada a
divulgação que esta doutrina tem em nossos dias, faz-se necessária uma reflexão serena sobre o
tema. É uma triste realidade que muitos cristãos nela acreditem e alguns pseudo-intelectuais
ensinem, sem base histórica nenhuma, que até o século VI a reencarnação era aceita como fé cristã!
Portanto, refletir sobre o problema é urgente.
A doutrina da reencarnação, popularizada no Brasil pelo Espiritismo, é comum a várias
religiões pagãs. Por exemplo: nas antigas religiões da Austrália e da África, na religião da cultura
inca, dos esquimós do Alasca e dos indígenas da Malásia. Entre as religiões antigas, também o
budismo, o maniqueísmo e o hinduísmo professam essa doutrina. O hinduísmo ensina que toda vida
está sujeita à lei do karma: há uma de causa e efeito no que alguém faz: o mal que eu fizer, torna-
se um karma, um débito, uma conta que eu tenho que pagar, que purificar pela provação e o
sofrimento... o que se faz, se paga! Se não pagar nesta vida, paga-se numa outra existência aqui na
terra, numa outra encarnação! Para os hindus, a reencarnação tem um sentido de castigo e
purificação. Não é, portanto, um ideal! A existência encarnada é negativa e a salvação consiste em
conseguir escapar do círculo das reencarnações pela ascese, pela devoção aos deuses (vestígios do
único Absoluto) e pelas boas obras.
Ora, essa doutrina pagã entrou também no mundo grego: para alguns filósofos gregos, o
mais conhecido dos quais era Platão, a alma é o princípio divino do homem, é o homem, e se
encarnou num corpo para se purificar de suas faltas. Notemos bem: para esses gregos o homem é
somente espírito; o corpo é só uma casca e é negativo! Pelos sofrimentos e provações desta vida, a
alma vai se purificando até separar-se do corpo. Aí volta a viver aqui em outro corpo e, assim,
sucessivamente, até purificar-se totalmente e não precisar mais reencarnar-se!
Uma tal doutrina influenciou vários intelectuais europeus, como Kant, Lessing, Goethe,
Schopenhauer, Rudolf Steiner. Vinculou-se posteriormente ao evolucionismo de Darwin: se o mundo
material está em constante evolução, por que não o espiritual? Finalmente, difundiu-se através do
espiritismo moderno, sistematizado e codificado no século passado pelo francês Léon Hippolyte
Denizard Rivail, que adotou o pseudônimo de Allan Kardec. Hoje, no espiritismo em todas as suas
formas e na Nova Era tal doutrina continua presente e atual, sendo muito divulgada pelos meios de
comunicação como, por exemplo o programa do Gugu, que é espírita, várias novelas da Globo, a
revista Manchete, que é reencarnacionista e vários outros meios de comunicação, inclusive em
nosso Estado. Basta prestar atenção como se fala em karma, em lei de causa e efeito, em
desencarnar, etc!
Mais ainda: hoje em dia querem dar à reencarnação uma autoridade científica, dizendo que
há provas da sua verdade. Somente para que se tenha uma idéia: um enorme número de psicólogos
aqui em Maceió não somente aceita a reencarnação, como também aplica técnicas de psicologia
transpessoal que se fundamentam na reencarnação! Basta pensar nos psicólogos que fazem a
famosa terapia de vidas passadas! Transforma-se o consultório num centro espírita... e chamam a
isso de ciência!
Mas, para que possamos compreender bem e avaliar corretamente a reencarnação,
devemos responder a três questões:
Por que essa doutrina atrai tanto as pessoas?
Ela é provada cientificamente?
Ela é compatível ou incompatível com a Sagrada Escritura e a fé cristã?
Por que a reencarnação atrai tanto as pessoas?
Primeiramente porque parece dar uma resposta para a questão do sofrimento humano.
Como explicar que Deus seja bom e justo quando existe tanto sofrimento no mundo? Por que uns
nascem de bem com a vida e outros vivem na miséria? Como explicar uma criancinha inocente que
nasce doente ou aleijada? Que pecado ela cometeu: Que Deus é esse, que permite isso? Por que
uns são pobres, doentes, infelizes e outros não? A reencarnação responde: esses que sofrem estão
purificando o seu karma, a sua conta de pecado: eles foram maus numa outra encarnação e estão
se purificando nessa e vão se reencarnar ainda, até que paguem tudo! Assim, Deus é justo e não
tem nada a ver com o sofrimento humano: cada um é responsável pelo seu sofrimento: aqui se faz,
aqui se paga! Essa lei não tem exceção: é a lei da causa e do efeito... e nem Deus pode cancelá-la!
Notem que essa é a cabeça de muita gente... inclusive de gente que pensa que é cristã! Pense bem:
quantas vezes você já ouviu ou já disse essa frase cretina: aqui se faz, aqui se paga?... Ela é ótima
porque satisfaz a nossa sede mesquinha de vingança e de uma justiça meio doentia, que se alegra
com o sofrimento e a pena dos outros...
Só que essa explicação para o sofrimento é furada. Vejamos:
· Como eu posso pagar por uma coisa da qual não me recordo? Até o pai mais estúpido quando
castiga o filho explica porque vai castigá-lo! Que Deus é esse, que me castiga sem me dizer o
motivo? Como posso pagar por uma coisa da qual não tenho consciência e pelos pecados de uma
vida da qual nem sequer me recordo? Esse Deus é maluco, então! Vejam que a reencarnação não
livra Deus da questão do mal!
· Além do mais, se cada vez que a gente se reencarna vai progredindo, melhorando, purificando
o karma, a humanidade deveria ir melhorando cada vez mais, ficando moralmente mais elevada.
Não é isso que a gente vê na história! Pelo contrário: antes se matava com uma espada... agora
basta uma bombinha atômica! Basta pensar na imoralidade e no paganismo dos meios de
comunicação, na dissolução das famílias, na desagregação social! Belo progresso da humanidade!
Será que quanto mais nos reencarnamos ficamos pior?
· Ainda mais: se estamos sempre nos reencarnado e, depois de purificar nosso karma não
precisaremos mais nos reencarnar, como se explica o contínuo aumento da população da terra? A
população deveria diminuir, não crescer. Os reencarnacionistas dizem que é porque espíritos que
antes estavam encarnados em outros planetas ou moravam lá desencarnados vêm encarnar-se
aqui! Bom, se para explicar a reencarnação vale esse tipo de idéia, então a gente pode também
acreditar na Cuca e no Saci Pererê e dizer que o Ulysses Guimarães foi seqüestrado por um disco
voador! Estamos na Ilha da Fantasia!
· Um outro erro grave dessa explicação para o sofrimento humano é alimentar um certo
conformismo: você sofre porque está pagando pela sua vida passada: tem que aceitar, tem que ter
paciência, é assim mesmo! Ora, não é a toa que a Índia, que é reencarnacionista na sua religião
primitiva, desenvolveu um sistema de castas: os pobres, os pequenos são impuros, pecadores de
encarnações passadas!
Por enquanto, basta! No próximo tópico continuaremos e vamos responder à segunda
questão: a reencarnação é provada cientificamente? E os espíritos que baixam? E os mortos que
aparecem? E os fantasmas e as casas mal-assombradas? Tudo isso não seria prova da
reencarnação? Vamos ver isso no próximo tópico!

A Reencarnação: uma idéia cristã ou pagã? - II

Começamos, no tópico passado, a tratar da reencarnação. Vimos que ela é uma crença
pagã e que não explica o problema do mal no mundo nem o escândalo do sofrimento dos
inocentes... Aliás, a reencarnação não explica nada! No tópico presente vamos responder outra
questão:
A reencarnação é provada cientificamente?
Atualmente os defensores da idéia da reencarnação esforçam-se para dar-lhe uma cara de
ciência... Mas, inutilmente. Não há nenhuma prova científica a favor dessa idéia! Por mais que o
Fantástico, o Gugu, o Globo Repórter e os outros meios de comunicação queiram mostrar o
contrário!
É verdade que há fenômenos que parecem confirmar a reencarnação. Por exemplo: a
pessoa ter a sensação de já ter estado em determinado lugar quando, na verdade nunca tinha
estado lá antes. Não seria uma prova que esteve lá na outra vida? E a terapia de vidas passadas:
quando se hipinotiza uma pessoa e faz sua memória regredir até uma vida anterior... e a pessoa se
recorda do que foi numa outra vida? Tudo isso não seria prova da reencarnação?
Nada de reencarnação! A ciência pode explicar tranqüilamente todos esses fenômenos, boa
parte deles provocada pelo nosso inconsciente. A psicologia e a parapsicologia científica hoje estão
em condições de responder a tudo isso. E, mesmo que não estivessem, isso não provaria a verdade
da reencarnação. Simplesmente a ciência não teria ainda chegado às causas verdadeiras.... mas um
dia chegaria, como, de fato, chegou!
A famosa “terapia de vidas passadas”, a pessoa não volta a uma outra existência, mas o
que acontece é que seu inconsciente cria, inventa uma realidade fantasiosa; isso pode acontecer por
vários motivos. Por exemplo: a pessoa hipnotizada aceita e dramatiza tranqüilamente as sugestões
do hipnotizador já que a sua criatividade está exaltada pelo estado alterado de consciência; além do
mais, quem se submete à terapia de vidas passadas, acredita na reencarnação, acha que já viveu
outras vidas: é, portanto, um prato cheio para ser sugestionada! Já chegam ao hipnotizador com a
tendência inconsciente de criar fatos.
Como exemplo, cito a interessante experiência de um parapsicólogo, Wellington Zangari. Ele
submeteu 10 pessoas à hipnose e sugeriu que elas fossem até à vida futura (não à vida passada!).
Todas foram até o ano 2500. Todas estavam na mesma cidade no ano de 2500... o hipnotizador
pediu que cada uma delas descrevesse como era o mundo ao seu redor. Digo somente o que duas
viram: uma viu aeronaves nos céus, pois as pessoas não usavam mais carros; não havia mais
viadutos, mas somente estações de pouso aéreas; não havia mais doenças; a pessoa hipnotizada
disse que tinha 213 anos de idade e vivia com os pais, cada uma deles com 250 anos... e por aí a
fora! A outra pessoa hipnotizada também foi para o ano 2500... mesma data, mesma cidade! E o
que ela vivenciou? Tudo era escuridão: ela era uma das poucas sobreviventes da IV Guerra
Mundial, cega de um olho, morando nas ruínas em que a cidade se tinha transformado; não há
médicos, há muita fome, não há água sadia para beber... uma grande nuvem atômica cobre a terra
e já não se pode ver o sol!
O que concluir? Cada uma das pessoas hipnotizadas criou uma fantasia de acordo com o seu
inconsciente ou com a sugestão do hipnotizador. Ambas as narrações são puras fantasia, como são
puríssimas fantasias as narrativas que as pessoas fazem sobre suas vidas passadas! Pode-se
objetar: ah, mas muitas vezes as narrações descrevem fatos e lugares do passado que são
comprovadamente reais e a pessoa que fez a regressão não tinha conhecimento deles! Como
explicar. É muito simples: quem tem noção de psicologia do profundo, quem conhece o significado
do inconsciente individual e do inconsciente coletivo e quem conhece o fenômeno extranormal de
conhecimento chamado HIP ou os fenômenos paranormais chamados telepatia e clarividência, além
da retrocognição, não se impressiona com esses argumentos!
O mesmo vale para as aparições dos mortos, de fantasmas, de casa mal-assombradas e
esses fenômenos todos. A ciência os explica! Certamente são fenômenos impressionantes e, quem
não tem a mínima noção de parapsicologia atribui ou ao diabo, ou aos espíritos, ou aos exus... é
tudo superstição! Os cristãos que atribuem isso ao diabo são tão supersticiosos quanto os espíritas,
que os atribuem aos espíritos dos mortos ou quanto os adeptos do candomblé, que os atribui aos
orixás! É triste que em pleno final de século XX ainda vejamos tanta superstição... e muitas vezes
com capa de ciência e seriedade!
Concluindo:
· Não há nenhuma prova científica que fundamente a reencarnação: ela é uma crença, fundada
simplesmente nas convicções de fé de cada um e não na ciência. Veremos no próximo tópico que ela
é incompatível com a fé cristã.
· Os fenômenos que aparentemente seriam causados por espíritos desencarnados são
simplesmente causados por elementos deste mundo, sobretudo pelo nosso inconsciente ou, outros,
por uma energia que temos e se chama telergia, que provoca fenômenos estranhos e
impressionantes, tais como movimento de objetos, barulhos estranhos, incêndios fora do normal,
vozes, etc.
No próximo tópico vamos responder a questão: a reencarnação é compatível com a fé
cristã? Pode-se ser cristão reencarnacionista?

A Reencarnação: uma idéia cristã ou pagã? - III

Já há três tópicos estamos tratando da reencarnação. Como já expliquei, este tema não
pertence à teologia nem à fé cristã. Trato dele aqui por motivos práticos, para deixar claro que a
reencarnação não faz parte da fé cristã, não tem fundamento científico e contraria nossa esperança
na ressurreição que Cristo nos prometeu.
Nos dois tópicos precedentes procuramos, resumidamente, responder à duas questões: 1)
por que a reencarnação atrai tanto as pessoas e 2) a reencarnação é provada cientificamente.
Vamos, no presente tópico, responder à última questão a que nos propomos:
A reencarnação é compatível com a Escritura e com a fé cristã?
Se olharmos a Sagrada Escritura, veremos que aí não existe, nem por longe, a idéia de
reencarnação. Para o povo judeu, bem como para todos os povos semitas, o homem é um todo
inseparável: corpo e alma. A Bíblia jamais imagina o homem como sendo um espírito que vive preso
num corpo! Na Bíblia a idéia é outra: eu sou meu corpo; eu sou minha alma! No Antigo Testamento,
quando ainda se aguardava o Salvador, os judeus acreditavam que todos os mortos iam para o
sheol, a morada dos mortos, até o dia da ressurreição, quando o messias viesse. Ressurreição,
como já explicamos, do homem todo, corpo e alma! No Novo Testamento, com a Ressurreição do
Senhor Jesus, já não há mais o sheol do Antigo Testamento: todos os que morremos no Senhor,
ressuscitaremos no Senhor e como o Senhor - em corpo e alma! Jesus ressuscitado não é um
fantasma: come, bebe, pode ser tocado! Ele é o modelo e o princípio da nossa ressurreição. É claro,
portanto, que a Escritura nem sonha com esta idéia de reencarnação; nem mesmo se dá ao trabalho
de combatê-la condená-la, pois os judeus nem a conheciam! É interessante, no entanto, citar um
texto da Epístola aos Hebreus que, de passagem, fecha qualquer porta para a reencarnação: “Para
os homens está estabelecido morrerem uma só vez e logo em seguida virá o juízo” (9,27). Como se
vê, a Escritura é clara: morrer uma só vez e depois comparecer diante do Cristo juiz. Nada de
voltar, nada de karma, nada de reencarnação! Peço que você releia os tópicos nos quais falávamos
da ressurreição; aí aparece claro qual é a fé da Bíblia e dos cristãos.
Mas, há ainda mais. Caso houvesse reencarnação, Cristo não teria utilidade nenhuma e o
Novo Testamento estaria completamente enganado. Vejamos bem: a mensagem central do
cristianismo é que Cristo morreu pelos nossos pecados: fomos salvos gratuitamente, sem
merecimento nosso, graças ao Cristo que por nós morreu e ressuscitou. Paulo diz claramente, para
citar só uma passagem: “Nós éramos, como os outros, por natureza destinados à ira. Deus, porém,
rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, e estando nós mortos por nossos
pecados, deu-nos vida por Cristo –de graça fostes salvos! –e nos ressuscitou com ele e nos sentou
nos céus em Cristo Jesus” (Ef 2,3-6). São inúmeras as passagens do Novo Testamento que nos
ensinam isso: o homem, por si mesmo, não pode se purificar nem merecer a salvação: é somente
pela graça que nos é dada em Cristo que podemos ser salvos! Então, como falar ainda em karma,
em purificar meu karma, em pagar meu débito? Pensemos na parábola do filho pródigo: se fosse
para falar em reencarnação o pai diria ao filho: “Volta e paga até o fim tudo quanto fizeste de
errado!” Mas não: o pai - que é imagem do Pai do Céu - perdoa, acolhe e, no seu amor, perdoa o
filho completamente! É esta a idéia que a Bíblia tem de Deus e do perdão!
Enquanto isso, os espíritas, que são reencarnacionistas, vejam o que dizem - exatamente
por causa da reencarnação: “Não, a missão de Cristo não era resgatar com o seu sangue os crimes
da humanidade. O sangue, mesmo de um Deus, não seria capaz de resgatar ninguém. Cada qual
deve resgatar-se a si mesmo, resgatar-se da ignorância e do mal” (Leão Denis). “A salvação não se
obtém por graça nem pelo sangue derramado por Jesus no madeiro, mas é ponto de esforço
individual que cada um emprega, na medida de suas forças” (O Reformador - jornal espírita,
outubro de 1955). “Toda falta cometida, todo mal realizado é uma dívida contraída que deverá ser
paga; se não for em uma existência, sê-lo-á na seguinte ou seguintes” (Allan Kardec). No livro
espírita “Roma e o Evangelho”, o pretenso “espírito da Virgem Maria” (que horror!) diz assim:
“Jesus Cristo não podia, nem quis assumir todas as responsabilidades individuais... e muito menos
podia, pelo sacrifício de sua vida, remir a humanidade... A redenção da humanidade não se firma,
pois, nos méritos e sacrifícios de Jesus, e sim nas boas obras dos homens!” Pensamentos assim são
completamente contrários ao Novo Testamento. São Paulo teria um ataque cardíaco! Cito somente
duas frases do próprio Cristo, que desmascara toda essa heresia reencarnacionista: “O Filho do
Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc
10,45), “Este cálice é a nova aliança no meu sangue, que é derramado em favor de vós” (Lc 22,20)
“... derramado por muitos para a remissão dos pecados” (Mt 26,28).
Quem tem razão: Cristo ou Allan Kardec? O Novo Testamento ou os espíritas?
Não se pode ficar com os dois! É preciso escolher! Aqui é ou ou! Não se pode crer, ao mesmo
tempo, na reencarnação e na ressurreição; não se pode dizer que Cristo nos salvou na cruz e dizer
que eu me salvo me reencarnando! Repito: um reencarnacionista elimina a cruz de Cristo e a sua
ressurreição. Quem crê na reencarnação não é cristão nem pode ser! Dá pena a ignorância de quem
coloca no retrovisor do carro um terço da Virgem Maria e, no vidro traseiro, a frase: Espiritismo:
ciência, filosofia, religião! Que doidice! Que contradição! Que falta de raciocínio e coerência! Ou o
terço cristão... ou o reencarnacionismo pagão!
No próximo tópico falaremos de algumas passagens da Bíblia que os reencarnacionistas
querem interpretar em favor da doutrina deles e mostraremos o que a Igreja sempre pensou da
reencarnação. E aí terminaremos esta parte.
Se você quiser aprofundar o que escrevi, leia o excelente livro de Frei Boaventura
Kloppenburg: Espiritismo. Orientação para os católicos, Ed. Loyola.

A Reencarnação: uma idéia cristã ou pagã? - IV

Já é hora de terminarmos nossa apresentação sobre a reencarnação e voltar ao que nos


interessa realmente: apresentar, como temos feito, a escatologia cristã, a nossa esperança em
Cristo Jesus! Com este tópico, portanto, concluiremos nossa apresentação da doutrina da
reencarnação... tão querida ao Gugu Liberato, ao Fautão, à Rede Globo e à imprensa sensacionalista
em geral!
No presente tópico vamos responder a duas questões:
· Que pensar de alguns textos da Escritura que os reencarnacionistas citam como prova de
que a Bíblia aceita a reencarnação?
· A Igreja em alguma época ensinou a reencarnção?
Comecemos por deixar claro que, em relação à fé cristã, deve-se afirmar com firmeza que o
cristianismo nunca aceitou a reencarnação como uma explicação do que ocorre após a morte. J.
HEAD e S.L. CRASTON, reencarnacionistas, afirmam que a Bíblia teria falado na reencarnação e que
a Igreja teria alterado a Escritura para retirar daí a idéia de reencarnação. Pura loucura! Basta
comparar a Bíblia cristã com a Bíblia dos judeus - não há diferença. Mais ainda: se a Escritura
ensinasse tal idéia, a Igreja não teria nenhum problema em aceitá-la; se a Igreja rejeita
decididamente a reencarnação é exatamente por ela ser contra a Escritura! Estes mesmos senhores,
com pose de intelectuais, afirmam que a reencarnação era doutrina dos primeiros cristãos -como
Orígenes, o grande teólogo de Alexandria do século III-, e isto até o século VI, quando a Igreja
mudou a doutrina no III Concílio Constantinopolitano, em 563. Tal opinião não tem nenhum
fundamento histórico, sendo fruto da ignorância ou da má fé.
A doutrina da reencarnação jamais poderia entrar na doutrina judeu-cristã, simplesmente
porque, dados os pressupostos antropológicos e teológicos dessa doutrina, não existe a possibilidade
de uma crença semelhante. Se não fosse a brevidade deste tópico, eu poderia citar numerosos
textos anteriores ao século VI nos quais aparece claro que a Igreja jamais, em tempo algum e de
modo algum, foi reencarnacionista. Repito: somente ignorância ou má fé podem afirmar o contrário.
Os reencarnacionistas dizem que Jesus aceitou a reencarnação ao afirmar que João Batista é o Elias
que devia vir (cf. Mt 11,14; 17,12). Estão errados! Esquecem alguns detalhes importantes:
1. Segundo a tradição popular dos judeus, Elias não tinha morrera (ou desencarnado, no modo de
falar dos reencarnacionistas!). Se não desencarnou, se não morreu, não poderia se reencarnar!
Leia-se, sobre isto, 2Rs 2,1-13, que narra o arrebatamento de Elias com corpo e tudo!
2. O próprio João Batista afirmou claramente que não era Elias: basta dar uma olhadinha em Jo
1,21: “Quem és, então? És tu Elias?” - Ele disse: “Não o sou!”
Por que, então, a Escritura diz que Elias voltará (cf. Ml 3,23-24)? Primeiro, o profeta
Malaquias não diz que Elias vai se reencarnar... o texto diz assim: “Eis que vou enviar-vos Elias, o
profeta, antes que chegue o dia do Senhor, grande e terrível. Ele fará voltar o coração dos pais para
os filhos e o coração dos filhos para os pais, para que eu não venha ferir o país com extermínio”. O
profeta Elias tinha vivido num tempo em que os filhos de Israel haviam abandonado a fé de seus
pais no único Deus verdadeiro e tinham adorado a Baal. Elias, com sua pregação forte, fez o coração
dos filhos voltar à fé dos pais! Para preparar a vinda do Messias, Deus enviaria um profeta com a
mesma missão e a mesma força de Elias: o profeta João Batista que, com sua pregação forte
exortou os filhos de Israel a abrirem o coração para as promessas que Deus fizera aos pais,
promessa que mandaria o Messias. Só isso! Não adianta pegar frases soltas da Escritura para querer
defender a idéia de reencarnação! É furado!
E na transfiguração, quando Moisés e Elias aparecem ao lado de Jesus? Não são espíritos
desencarnados? Nada disso! Repito pela milésima vez: não existe na Bíblia esta idéia. Aqui, trata-se
de uma aparição, do mesmo tipo das aparições de Nossa Senhora. Seria muito longo explicar aqui
como acontecem essas aparições... basta dizer tranqüilamente que nem Moisés nem Elias desceram
do céu para vir sobre o Monte Tabor!
Aliás, vários textos da Escritura afirmam claramente que não há retorno a este mundo depois
da morte. Por exemplo: “Davi respondeu: ‘É verdade, enquanto o menino estava com vida, jejuei e
chorei. É que pensava: Quem sabe, o Senhor terá piedade de mim, deixando com vida o menino.
Mas agora ele está morto: por que então eu ainda jejuaria? Acaso posso trazê-lo de volta? Um dia
irei para junto dele, mas ele não pode mais voltar a mim’” (2Sm 12,22-23). “Ele contudo,
misericordioso, perdoava a culpa e não os destruía; muitas vezes reprimiu a cólera e não acendeu
todo o furor, recordando-se de que eram carne, um alento fugaz que não retorna” (Sl 78,38s).
“Sabemos, com efeito, que ao se desfazer a tenda que habitamos – nossa casa terrestre – teremos
nos céus uma casa preparada por Deus e não por mãos de homens, uma casa eterna. Pois
gememos em nossa tenda, desejando revestir-nos de nossa morada celeste... Realmente, enquanto
moramos nesta tenda, suspiramos oprimidos porquanto não queremos ser despidos mas sim
revestidos de uma veste nova sobre a outra, para o mortal ser absorvido pela vida. Estamos, repito,
cheios de confiança, preferindo ausentar-nos do corpo para morar junto do Senhor” (2Cor 5,
1s.4.8). “Estou como que na alternativa. Pois de um lado desejo partir para estar com Cristo, o que
é muito melhor” (Fl 1,23).
Quanto a Orígenes, o teólogo cristão do século III, deve-se esclarecer que ele não foi
condenado por sustentar a doutrina da reencarnação, mas a doutrina da pré-existência das almas
(as almas existiriam lá no céu antes de entrarem no corpo... depois da morte voltariam para lá com
o corpo ressuscitado... para sempre!) e a doutrina da apocatástase (no final dos tempos tudo seria
restaurado... e até Satanás se converteria!). O próprio Orígenes refutou decididamente a doutrina
da reencarnação como sendo contrária às Escrituras e à fé da Igreja, justamente ao comentar Mt
11, acerca de João Batista e Elias! Orígenes, como todo cristão, acreditava e esperava na
ressurreição! E, mesmo que Orígenes tivesse ensinado a reencarnação, ele não é a Igreja: seria
apenas a opinião de um teólogo!
A crença na reencarnação é incompatível com a mentalidade judeu-cristã; é muito
condizente, ao invés, com a mentalidade burguesa moderna, baseada nos princípios de eficácia e
rendimento e na idéia de progresso autônomo do homem. A reencarnação é condizente com a visão
do homem que se faz sozinho. Esta crença acaba por negar a esperança cristã: não há nada mais
que esperar, somente um perdurar desfrutando os bens deste mundo uma e outra vez, mas sem
nenhum “ser mais”. Para os cristãos, ao contrário, nosso destino é fruto do amor misericordioso de
Deus Pai, que nos transformará para sempre à imagem do Cristo Jesus ressuscitado, numa vida tão
plena que não dá nem para imaginar!
Bom, terminamos por aqui nosso tema da reencarnação. A conclusão é a seguinte: trata-se
de uma idéia de origem pagã, completamente estranha à mentalidade bíblica e à fé cristã. Crer na
reencarnação elimina a fé na ressurreição, que é o centro da fé cristã. Assim, de modo algum é
cristão quem afirma a reencarnação, já que não aceita que Cristo é Deus, não aceita nem pode
aceitar que Cristo nos salvou (a pessoa se salva somente se reencarnando!) e não acredita na
ressurreição! Por isso mesmo a Igreja não reconhece como seu filho nem como católico quem
professa a reencarnação, quem invoca os espíritos ou quem participa de sessões espíritas. Estes
colocam-se fora da comunhão com a Igreja católica... se auto-excomungam!
Até que enfim... terminamos. No próximo tópico voltaremos à escatologia, falando sobre o
céu, a Vida eterna. Isto sim, é assunto de teologia, é assunto para cristão!

A Vida Eterna: comunhão com Jesus ressuscitado – I

A Vida Eterna no Antigo Testamento


Antes dos quatro tópicos sobre a reencarnação, tínhamos conversado sobre a ressurreição
dos mortos. Agora vamos tratar do destino que Deus sonhou para nós: a comunhão com ele através
do seu Filho Jesus; comunhão que nós chamamos de Vida Eterna ou céu.
Mas, afinal de contas, o que é esse céu, para onde todos mundo quer ir um dia? É um lugar?
Onde fica?
Vejamos: já dissemos que a plenitude da vida de cada um de nós e de toda a humanidade é a
comunhão com Jesus ressuscitado: ser como ele, está com ele é a nossa Vida para sempre. Na
nossa ressurreição, o Senhor Jesus vai encher-nos totalmente do seu Espírito de Glória e, então,
seremos como o Filho bendito de Deus, totalmente glorificados e, nele e por ele, estaremos no
coração do Pai. É isso que nós chamamos de céu! O céu não é um lugar; é uma relação de amor
eterno: cheios do Espírito, estaremos imersos em Cristo e, por ele e nele veremos o Pai!
Mais uma coisinha: quando falamos em vida “Eterna” não estamos querendo dizer somente que esta
vida não terá fim. “Eterna” aqui quer dizer “Vida do Eterno”, “Vida do Deus Eterno”, “Vida divina”.
Por exemplo: que significa “vida humana”? Vida do homem, não é? Pos bem, “Vida Eterna” significa
“Vida do Deus Eterno”... uma vida que não deste mundo, nem tem as limitações deste mundo!
Mas, vamos com calma. Vejamos como a Sagrada Escritura trata do assunto. Vamos ver
primeiro a Vida Eterna no Antigo Testamento.
Aí nós descobrimos que Deus é um Deus que promete, promete sempre. Sua promessa é de bênção
e glória para o seu povo. Uma bênção e uma glória tão grandes, que não são somente deste mundo
nem de coisas deste mundo. Aos poucos, Israel percebe que sua bênção e sua glória é o próprio
Deus! Lembre-se que eu já expliquei que para o Antigo Testamento “vida” não é uma idéia
primeiramente biológica, mas teológica: a vida em sentido estrito é a existência plena das bênçãos
do Senhor, numa relação de amizade íntima e constante com ele. Somente o Senhor pode realizar
as aspirações mais profundas do crente, ele, Deus fiel, cujo amor é mais forte que a morte. Vejamos
alguns exemplos:
· Moisés vai se tornando tão amigos de Deus, vai se apaixonando de tal modo por ele, que um
dia pede: “Mostra-me a tua glória!”, quer dizer: deixa-me te ver, ser teu amigo íntimo! Para ele, o
maior presente que Deus poderia lhe dar não era coisas, mas a sua própria amizade! “Moisés disse:
“Mostra-me a tua glória!” E o Senhor acrescentou: ‘Não poderás ver minha face, porque ninguém
me pode ver e permanecer vivo’” (Dt 33,18.20).
· A mesma idéia aparece nestes versículos dos salmos: estar com Deus é a maior alegria, é a
plenitude, é a Vida do ser humano; tendo a Deus, que mais importa? “Tu me ensinarás o caminho
da vida; em tua presença há plenitude de alegria, à tua direita delícias eternas” (Sl 16,11); “Mas eu
sempre estou contigo, tu me seguras pela mão direita, tu me guias segundo teus desígnios, e no fim
me arrebatarás para a glória. Se tu, a quem eu tenho no céu, estás comigo, nada mais desejo na
terra. Embora a carne e o coração se extingam Deus é a rocha do meu coração, minha herança para
sempre” (Sl 73,23-26).
· O Livro da Sabedoria diz claramente que a recompensa do justo não são coisas ou prazeres,
mas o próprio Deus: ele é nossa herança, nossa Vida para sempre: “Os justos, ao contrário, vivem
eternamente; sua recompensa está no Senhor, e o Altíssimo vela por eles” (Sb 5,15). “Quanto às
almas dos justos, estão nas mãos de Deus e nenhum tormento as atingirá. Os que nele confiaram
compreenderão a verdade, e os que perseveraram no amor ficarão junto dele, pois a graça e a
misericórdia são para seus eleitos” (Sb 3,1.9).
Esta amizade com Deus nos preenche de tal modo, que vale a pena perder a própria vida
neste mundo para tê-la. É isso que ensina aquela mãe dos sete filhos, no Segundo Livro dos
Macabeus. Ela sonha tanto com esta amizade eterna com o Senhor, que aconselha os seus filhos a
entregarem a própria vida. E o filho mais novo, no momento de morrer nas mãos do perverso Rei
Antíoco, diz: “Estando prestes a dar o último suspiro, disse: ‘Tu, execrável como és, nos tiras desta
vida presente. Mas o Rei do universo nos ressuscitará para um vida eterna, pois morremos por
fidelidade às suas leis’. Quase a expirar, disse: ‘É desejável passar para a outra vida às mãos dos
homens, conservando em Deus a esperança de ser um dia ressuscitado por ele. Para ti, porém, não
haverá ressurreição para a vida!’” (2Mc 7,9-14).
Por estes textos a gente pode perceber bem que, no Antigo Testamento, o que vale é a
comunhão com Deus. Nem sempre foi assim. Se você olhar nos primeiros livros da Bíblia, vai ver
que, no início, as pessoas pensavam que a recompensa de ser bom era uma vida longa, riquezas e
filhos... Ainda hoje há algumas seitas “cristãs” que vivem pregando isso: “Pague o dízimo e você vai
ter tudo: saúde, dinheiro, casa, os problemas resolvidos...” Coitados! Ainda estão no começo do
antigo Testamento. Sim, porque, aos poucos, o povo de Israel foi percebendo que sua grande
riqueza não era nem a Terra Santa, nem os exércitos, nem suas casas e cidades... A única riqueza
verdadeira era a comunhão com Deus, seu carinho e amizade neste mundo e no outro.
Uma última coisa: note que o Antigo Testamento não descreve o céu. O importante é o que é
este céu: a amizade eterna com Deus... descansar na alegria do seu coração! O resto é resto!
No próximo tópico veremos o que o Novo Testamento afirma sobre o céu.

A Vida Eterna: comunhão com Jesus ressuscitado - II

A Vida Eterna no Novo Testamento


Vimos, no tópico passado, o que é o céu segundo o Antigo Testamento; agora, veremos o
que o Novo Testamento afirma sobre o céu ou a Vida eterna.
Jesus referiu-se freqüentemente ao céu, chamando-o de reino, reino de Deus, reino dos céus,
paraíso, glória, céu, visão de Deus. Estas imagens exprimem a bem-aventurança, a felicidade e,
para isto, recordam as experiências de plenitude que o povo da Bíblia conhecia bem, dando a idéia
de gozo supremo de uma vida plenamente realizada. Vejamos as principais imagens e noções que
no Novo Testamento merecem destaque. Todas elas, juntas, dão-nos uma bela idéia do que o Novo
Testamento quer ensinar sobre o céu.
1. Banquete messiânico e convite para as bodas (cf. Mt 22,1-10; 25,1-10; Lc 12,35-38;
13,28s; 14,16-24) - Estas imagens já estão presentes no Antigo Testamento (cf. Is 25,6). As bodas
e o banquete recordam os instintos prioritários do homem, como a conservação da espécie (núpcias)
e a auto-preservação (banquete). Sexualidade e nutrição estão ligadas à vida. O céu é vida, é gozo!
Outra coisa importante é o caráter comunitário destas imagens: aí a alegria nào é de um só.. é
compartilhada! Tanto nas núpcias quanto no banquete ninguém está sozinho: a alegria, a vida são
comum a todos os participantes. O mesmo sentido comunitário encontra-se nas imagens de cidade
celeste, nova Jerusalém (cf. Ap 21,9ss). Na Bíblia o céu nunca é coisa somente para um indivíduo!
2. Reino de Deus - esta expressão mostra a Vida eterna como presença triunfante de Deus
que enche com sua majestade toda a humanidade e toda a criação. Com esta imagem aparece claro
que o final e a finalidade da história são primeiramente a manifestação da glória de Deus: esta
glória encherá toda a criação e todos juntos seremos glorificados, plenificados! Mais uma vez: a
Bíblia não pensa na glória do céu como uma coisa simplesmente individual: é a criação toda, a
história toda, a humanidade toda que participarão da glória de Deus! Por isso mesmo a Igreja, que é
a comunidade dos que foram salvos, é a melhor imagem do reino; imagem e início. Seria um grande
erro, uma traição à Bíblia, pensar o céu como uma coisa entre Deus e o indivíduo sozinho!
3. Paraíso - esta imagem vem de Gênesis 2, do paraíso original, mas quer se referir ao
futuro, àquilo que Deus nos prepara como nossa plenitude definitiva. Assim, o paraíso torna-se não
somente uma recordação do Gênesis, mas uma esperança de realização plena no futuro, quando o
desígnio inicial de Deus consumar-se-á ao fim.
4. Visão de Deus - visão, aqui, tem um sentido muito profundo, próprio do mundo bíblico. Ver
a Deus é participar na sua vida, viver na sua presença. A idéia de visão de Deus vem da idéia
oriental de ver o rei. Para um oriental somente os cortesãos gozavam da intimidade real: os que se
sentavam à mesa do rei eram destinguidos pela familiaridade com ele: viam o rei! Ver o rei é
participar do seu banquete, da sua mesa, da sua vida e da sua amizade! Aí há não só a idéia de
comunhão, mas também a de participação de muitos nesta comunhão. Que idéia belíssima:
comunhão com o rei e com os outros convidados! A visão de Deus deve ser entendida também como
mútua compenetração daquele que conhece e daquele que é conhecido: estaremos em plena
comunhão com Deus; vamos estar com ele sem nenhum intermediário! Trata-se de uma imediatez
somente possível no encontro direto de pessoa a pessoa: ao conhecimento parcial, sucederá o
conhecimento tal e qual Deus conhece (cf. 1Jo 3,2).
5. Vida eterna - esta designação é usada nos evangelhos sinóticos como fase final do Reino:
o Reino é a Vida eterna. Aí encontram-se frases como: “é melhor entrar no Reino” ou “é melhor
entrar na Vida...” (cf. Mc 9,43-48). É Evangelho de João, no entanto, quem mais aprofunda esta
idéia. Para ele a Vida eterna é já possuída agora pela fé: quem crê no Cristo tem a Vida eterna, ou,
simplesmente a Vida (cf. Jo 3,36; 5,24; 6,47.53s; 1Jo 3,14; 5,11.13). Cristo é a fonte desta Vida
que estava nele desde toda a eternidade (cf. Jo 1,4; 1Jo 1,1); ele possui a vida (cf. Jo 6,57; 14,19)
e, ainda mais: é a Vida (cf. Jo 11,25; 14,6; 1Jo 5,20). Este dom da Vida é eterno, definitivo, pois
trata-se de ser revestido da própria Glória de Cristo (cf. Jo 14,3; 17,24). Esta Vida é possuída como
dom do Pai através do Filho (cf. 1Jo 5,11), fazendo o crente viver na comunhão com o Pai e o
Filho... de tal modo que a Vida eterna é a plenitude do amor (cf. Jo 17,26).
6. Estar com Cristo - esta é, sem dúvida, a expressão que melhor exprime a esperança
cristã: ver-conhecer a Deus é ver o Cristo ressuscitado tal qual é (cf. 1Jo 3,2), é morar junto do
Senhor Jesus glorificado (cf. 2Cor 5,8). Ter a Vida já aqui na terra é crer em Cristo, escutar sua
palavra, comer sua carne e beber seu sangue. Isto será pleno no céu! A participação do ser de Deus
é, portanto, participação no ser de Cristo ou “estar com Cristo”. Nos evangelhos sinóticos
encontram-se muitas referências a este estar com o Senhor: a parábola do convite às bodas (cf. Mt
22,1-14), as dez virgens (cf. Mt 25,1-13), a promessa do Senhor de beber o fruto da vide com os
discípulos no Reino do Pai (cf. Mt 26,29), o convite a entrar na alegria do Senhor (cf. Mt 25,21.23).
Particularmente interessante é a palavra de Jesus ao ladrão: “Hoje mesmo estarás comigo no
Paraíso” (Lc 23,42s). Aqui o importante é o “comigo”: o que importa é o estar com Cristo, na sua
companhia, associado intimamente a ele, compartilhando a sua vida, na comunhão com o destino
glorioso do Senhor. Assim, a mais importante da salvação é “estar com Cristo”.
Por isso mesmo Paulo usa com freqüência a fórmula “com (em) Cristo”: “Assim estaremos
sempre com o Senhor” (1Ts 4,17); “Estamos, repito, cheios de confiança, preferindo ausentar-nos
do corpo para morar junto do Senhor” (2Cor 5,8); “Estou como que na alternativa. Pois de um lado
desejo partir para estar com Cristo, o que é muito melhor” (Fl 1,23). Nos escritos de São João
aparece esta mesma idéia: “Pai, quero que os que me deste estejam também comigo onde eu
estiver, para que vejam esta minha glória que me deste, porque me amaste antes da criação do
mundo” (Jo 17,24); “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir minha voz e abrir a porta,
entrarei em sua casa e cearemos juntos” (Ap 3,20); “Quando tiver ido e tiver preparado um lugar
para vós, voltarei novamente e vos levarei comigo para que, onde eu estiver, estejais também vós”
(Jo 14,3).
Conclusão: o que se denomina Reino de Deus, paraíso, visão de Deus, Vida eterna, resume-
se em estar com Cristo numa existência definitiva e numa comunhão plena. Onde está o Cristo está
o Reino. A promessa feita no Antigo Testamento aos patriarcas (uma terra, um país, bens materiais)
agora virou uma pessoa: Jesus Cristo, ele é a nossa promessa! Toda a plenitude dos bens
messiânicos condensa-se na figura do Filho e na comunhão gloriosa com ele! Nosso céu é estar com
Cristo!

A Vida Eterna: comunhão com Jesus ressuscitado - III

Já meditamos sobre a Vida Eterna nas Sagradas Escrituras. Vimos que o céu é,
fundamentalmente, participar da Vida plena que o próprio Pai do Céu nos dá pelo seu Filho
ressuscitado. O Cristo vivo e vivificante nos plenificará com a glória do seu Espírito, Espírito que ele
nos deu no Batismo.
No presente tópico, vamos aprofundar nossa meditação.
Os primeiros grandes escritores cristãos insistiam em falar do Céu como visão de Deus. Para
eles, a Vida eterna consiste, em ver a Deus; e esta visão dá ao homem a vida do próprio Deus,
aquela Vida plena, total e feliz. É esta visão de Deus, comunhão com ele, que dará ao homem a
imortalidade. Vejamos bem: o homem não é primeiramente imortal e depois vê a Deus; é o
contrário: seremos imortais precisamente porque veremos a Deus! É esta visão de Deus que é fonte
de imortalidade, de vida plena! Assim dizia Sto. Irineu, no século II: “Todos aqueles que vêem a Luz
estão na Luz. Quem vê a Deus percebe a sua Glória: o que dá a Vida é a Glória de Deus. Deus dá a
Vida a quem o contempla e o vê”.
Outra idéia que aparece entre os primeiros escritores cristãos é a do louvor e do gáudio, da
alegria. Sto. Agostinho dizia, no século V: “A exultação da nossa Vida eterna será o louvor de Deus,
para o qual ninguém estará preparado se não se exercitar desde agora”; “Lá veremos a Deus e
louvaremos! Nem toda a alegria entrará em nós, mas nós entraremos totalmente na alegria!”
O céu, portanto, será louvor e alegria, plenitude completa: estaremos completamente
imersos na alegria! Por isso, Sto. Hilário, no século V, afirmava: “Não haverá nada o que desejar
porque não faltará nada!”
S. Tomás de Aquino, o grande teólogo medieval, explicava que o homem, com suas forças,
não poderia chegar a Deus, jamais poderia contemplá-lo. O homem não pode nem merece ver a
Deus... somente pela graça de Cristo é que chega ao Pai. E ver a Deus é a realização plena do
homem, é ser ele mesmo, é ser feliz! Lembrem-se que “ver a Deus” significa estar na comunhão
com ele, como quem vê a luz está dentro da luz, cercado, envolvido pela luz!
Mas, como poderemos ver a Deus, o Pai? Veremos a Deus porque estamos enxertados em
Cristo ressuscitado, estamos unidos, inseridos no seu Corpo ressuscitado por obra do Espírito Santo.
Não dá nem para imaginar como será isso, mas que será, será! Então, pelo Cristo, plenos do
Espírito, veremos a Deus Pai! Vejamos o que dizem alguns dos antigos escritores cristãos: “Deus
será visto no reino dos céus... e o Filho conduzirá ao Pai” (Sto. Irineu); “Na pátria celeste estão
todos os justos e santos, que desfrutam do Verbo de Deus” (Sto. Agostinho).
Que beleza a afirmação de Agostinho! Nossa felicidade é desfrutar do Verbo, do Filho de
Deus: estar com ele é o paraíso, como ele disse ao ladrão. Também S. João Damasceno explicava
que o resplendor da glória é estar com Cristo: “Os que fizeram o bem, resplandecerão como o sol...
com Nosso Senhor Jesus Cristo”.
Finalmente, S. Cipriano, o santo Bispo de Cartago, no século III, afirmava: “Quem não
deseja ser transformado e transfigurado o quanto antes à imagem de Cristo? Cristo, o Senhor...
roga por nós para que estejamos com ele e com ele possamos nos alegrar na morada eterna e no
reino celeste. Quem quiser chegar ao trono de Cristo... tem que manifestar alegria somente na
promessa do Senhor”.
Vale a pena, ainda, refletir sobre um importante documento da Igreja a respeito da Vida
Eterna. Trata-se da Constituição Benedictus Deus, do Papa Bento XII, do século XIV. Aí a Igreja
ensina, pela boca do Sucessor de Pedro, que veremos a Deus e isto é o céu. Mais ainda: esta visão,
esta comunhão com Deus vai nos dar um gozo sem limites, um gozo que é descanso eterno para o
nosso coração... para sempre. O Papa insiste ainda, baseado nas Escrituras e na fé constante da
Igreja, que esta Vida eterna começa logo após a morte, uma vez purificados os nossos pecados:
estaremos para sempre com Cristo. No Último Dia, quando Cristo se manifestar, nossos corpos
também ressuscitarão!
Uma última questão: se o céu é estar com Cristo, então ele não é um lugar?! Já disse mil
vezes que não podemos simplesmente descrever o além. No entanto, uma coisa é certa. Como já
vimos, tudo quanto existe foi criado por Deus, um Deus que não destruirá a sua criação, mas vai
levá-la à plenitude. Já falamos, quando tratamos da Vinda de Cristo, sobre o novo céu e nova terra!
Ora, toda a criação - e também nossos corpos - será o “lugar” feliz, bem-aventurado, jubiloso no
qual viveremos a comunhão com Deus. Assim, se o Céu é uma relação com Deus em Cristo, esta
relação, no entanto, não é algo individualista: envolve os outros e toda a criação, renovada e
plenificada. Em outras palavras o nosso céu, a nossa comunhão com Deu, terá “algo” de lugar
também. Só não é “lugar” no sentido que conhecemos aqui. E como será, então? Não sabemos!
Assim, terminamos nossa meditação sobre a Vida Eterna. No próximo tópico meditaremos
sobre uma possibilidade terrível: ficar fora desta festa, desta Vida com Deus... aquilo que chamamos
de inferno.

O inferno - morte eterna, existência na contradição - I

Depois de termos falado da Vida eterna, que é a comunhão plena com o Pai através do Filho
na potência do Espírito, a que chamamos de céu, vamos agora tratar da perda eterna desta
comunhão com o Senhor, a que chamamos de inferno. Mas, antes, é necessário levar em conta três
coisas importantes:
1) Segundo a Escritura Sagrada e a fé cristã a história humana e a criação não têm dois fins,
mas apenas um: a salvação. Em outras palavras: tudo caminha para a salvação, porque, como já
vimos, Deus criou tudo para a comunhão com ele através do Filho Jesus. Deste modo, o triunfo de
Cristo e dos seus é uma certeza absoluta: a humanidade será salva na glória eterna e a criação toda
será transformada. E a condenação eterna? É possível, para aqueles que não quiserem entrar na
salvação que Deus oferece a todos! Dá para perceber a diferença? A salvação é para todos, é o
destino de todos... a não ser daqueles que ficarem, livremente, fora dela. A condenação é, portanto,
acidente de percurso, é escolha particular e não um destino que Deus colocou diante do homem!
Deus nunca pensou em condenar ninguém: “Sim, tu amas tudo o que criaste, não te aborreces com
nada do que fizeste; se alguma coisa tivesses odiado, não a terias feito. E como poderia se manter
alguma coisa, se não a tivesses querido? Como conservaria sua existência, se não a tivesses
chamado? Mas a todos perdoas porque são teus: Senhor, amigo da vida!” (Sb 11,24s). Pois bem:
Deus quer a salvação de todos, a vida de todos. Não é um Deus neurótico, que sente prazer em
condenar e destruir o que ele mesmo criou com amor! Assim, é necessário deixar clara logo uma
coisa: os textos da Escritura que falam de uma condenação eterna de modo nenhum podem
simplesmente ser colocados ao lado dos que falam da salvação! A mensagem da Escritura é de
salvação; Jesus trouxe uma Boa Nova, uma Alegre Notícia, um Evangelho: o Pai nos ama e nos quer
com ele - esta é a mensagem central da Escritura. Eu posso dizer “não” ao Pai e ficar fora da
salvação, ser condenado. Mas a condenação não é a finalidade da Escritura nem a sua mensagem
central! Você já havia pensado nisso? E pensar que tem tanta gente e tanta religião que faz do
inferno a sua pregação principal e vive pregando a ameaça do inferno para os outros... e chamam
isso de pregar o Evangelho, a Boa Notícia!
2) Falar do inferno, da morte eterna envolve diretamente cada pessoa; não se deve falar do
inferno para os outros! Para a Bíblia deve-se falar do inferno com o seguinte pensamento eu posso
dizer “não” à proposta de salvação que Deus me dirige! Assim, não se pode falar do inferno de modo
neutro, como se eu não tivesse nada com isso, como se o inferno fosse para os outros. O inferno
faz-me recordar que eu sou capaz de me fechar para Deus e, assim, chama atenção para a minha
responsabilidade, para o que eu estou fazendo com minha vida.
3) Eu disse que Deus não pensou no inferno para nós e que o seu plano é de salvação. No
entanto, falar do inferno exige responsabilidade! Tem gente que diz que o inferno não existe porque
Deus é amor. Isso é um erro grave! Não se pode banalizar o amor de Deus: seu amor respeita a
nossa liberdade: eu posso dizer “sim” e posso dizer “não”. O inferno existe e é possível para mim
porque Deus respeita o “não” que eu lhe posso dizer! Se Deus não respeitasse o meu “não” também
não respeitaria o meu “sim”; se não há inferno, também não há céu, pois um céu sem liberdade não
seria céu nem seria amor nem seria digno do homem!
Tendo deixado claro estes três pontos, vamos prosseguir na nossa reflexão.
O que a Sagrada Escritura afirma sobre o inferno? Vejamos! Tanto o Antigo quanto o Novo
Testamento insistem na bondade de Deus e de sua obra (cf. Gn 1): ele não criou nada para a morte
(cf. Sb 1,13; 11,24), não quer a morte do pecador (cf. Ez 18,23; 33,11). Mais ainda: Deus revela-se
como aquele que é amor (cf. 1Jo 4,8) e deseja que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da
verdade (cf. 1Tm 2,4; 2Pd 3,9). O próprio Jesus anuncia somente a salvação - e isto é o Evangelho!
Tal misericórdia manifesta-se nas várias parábolas de Jesus (cf. Lc 15). No evangelho de João Jesus
afirma claramente que Deus, no seu amor, o enviou para salvar o mundo (cf. 3,17; 12,47). Assim, a
doutrina da morte eterna não é parte integrante do Evangelho, ou seja, a morte eterna é um
acidente, é um “não” nosso e não uma armadilha que Deus nos preparou!
Contudo, apesar deste sentido marcadamente voltado para a salvação, presente nos textos
bíblicos, a Escritura também aponta para a possibilidade de fracasso absoluto do homem, de um
destino cujo horror ultrapassa qualquer experiência e ruim desta vida!
No Antigo Testamento, numa linguagem figurada aparece claramente o destino negativo dos
pecadores. Por exemplo: “Ao sair, poderão contemplar os corpos dos homens que se revoltaram
contra mim; pois o seu verme não morre, e seu fogo não se apaga; eles serão objeto de
abominação para todos os mortais” (Is 66,4). O livro de Daniel fala claramente do opróbrio e horror
eterno no final dos tempos: “Muitos dos que dormem na terra poeirenta, despertarão; uns para a
vida eterna, outros para vergonha, para abominação eterna” (12,2). Também o livro da Sabedoria
fala, em diversas passagens, do destino dos ímpios: “Sim, a esperança do ímpio é como palha
levada pelo vento, como a espuma tênue que a tempestade espalha. Ela se dissipa como a fumaça
ao vento, e se apaga como a lembrança do hóspede de um dia” (5,14-23). “Os ímpios receberão o
castigo devido por seus pensamentos, pois desprezaram o justo e se afastaram do Senhor” (3,10).
“Em breve tornar-se-ão cadáver sem honra, objeto de opróbrio para sempre entre os mortos: o
Senhor os precipitará de cabeça para baixo, sem que digam palavra, e os arrancará de seus
fundamentos. Serão completamente destruídos, estarão na dor e sua memória perecerá. Virão
cheios de medo, quando se fizer a conta de seus pecados; suas iniqüidades se levantarão contra
eles para os acusar” (4,19s).
Como se pode ver, o Antigo Testamento afirma claramente a possibilidade de uma
condenação eterna para quem tornou-se fechado para Deus. Faz isso, usando imagens que mostram
que aqueles que se afastam de Deus ficarão longe dele nesta vida e na outra.
No próximo tópico veremos como o Novo Testamento trata a questão do inferno.

O inferno - morte eterna, existência na contradição - II

No Novo Testamento a idéia da condenação eterna exprime-se fundamentalmente como


negação daquela comunhão com Deus que constitui a bem-aventurança, a Vida eterna: o inferno é a
negação, a ausência da comunhão com o Pai. Daí as expressões como “perder a vida“ ou “perder a
alma e o corpo na geena” (cf. Mc 8,35; Mt 10,28; Jo 12,25), “não ser conhecido” (cf. Mt 7,23), “ficar
ou ser jogado fora” (cf. Lc 13,23s); “apartai-vos de mim” (cf. Mt 7,23), “não herdar o Reino” (cf.
1Cor 6,9s; Gl 5,21), “não ver a Vida” (cf. Jo 3,36). Todas estas fórmulas querem indicar a exclusão
do acesso imediato a Deus através de Cristo. A conclusão é clara: o inferno não pode ser pensado
por si mesmo, como realidade autônoma, mas a partir da negação daquilo que é a bem-
aventurança. Somente podemos compreender a gravidade e tristeza do inferno quando percebemos
a felicidade e plenitude do céu. Em outras palavras, o inferno é, fundamentalmente, a imagem
invertida da Glória, a eventual frustração daquilo que Deus sonhou para o homem. Portanto, assim
como o mistério da salvação, o céu que Deus nos prepara, podem expressar-se simplesmente com a
palavra Vida, o inferno, a condenação eterna, pode ser expresso simplesmente pela palavra morte
(cf. Lc 13,3; Jo 5,24; 6,50; 8,51; Jo 3,14; 5,16-17; Ap 20,14; Rm 5,12; 6,21; 7,5.11.13.24; 1Cor
15,21s; Ef 2,1-5; 1Tm 5,6, etc). Este estado de morte é tão definitivo e irrevogável quanto e de
vida: é eterno, tanto quanto a felicidade do céu! Ou seja: como o céu, o inferno é para sempre! O
Apocalipse fala de um tormento que dura eternamente: “E a fumaça de seu tormento sobe pelos
séculos dos séculos. Não terão repouso dia e noite aqueles que adoram a besta e sua imagem e
quem quer que receba a marca de seu nome” (14,11s). Além destas imagens negativas, o Novo
Testamento oferece várias descrições, em imagens, da morte eterna:
- fala-se em geena de fogo (cf. Mt 18,9);
- forno de fogo (cf. Mt 13,50);
- fogo inextinguível (cf. Mc 9,43.48);
- pranto e ranger de dentes (cf. Mt 13,42);
- lago de fogo e enxofre (cf. Ap 19,20);
- verme que não morre (cf. Mc 9,48).
Todas estas imagens querem mostrar que a privação eterna de Deus supõe para o homem o
trágico fracasso de sua existência e, portanto, supremo sofrimento. Se quiséssemos, hoje, dá uma
idéia bem atual do inferno, deveríamos dizer que ele é como uma depressão eterna, uma solidão
sem fim, uma melancolia sem cura, uma frustração sem remédio! A imagem do fogo, tão comum no
Novo Testamento para exprimir a condenação, corresponde exatamente a esta idéia: fora da
comunhão com Deus e com os outros, totalmente frustrada, a existência humana não serve para
mais nada; é como uma árvore que não deu fruto, imprestável e que, portanto, só serve para ser
queimada.
Diante da possibilidade do inferno, muitos se perguntam: como é possível falar no inferno
quando se crê num Deus que é bondade e misericórdia? É necessário recordar que o juízo de
condenação não é simplesmente um decreto que Deus emite de modo vingativo ou cheio de zanga!:
diante da luz da verdade, que é Deus, a própria pessoa se vê como é, vê a verdade de sua vida e se
condena ao não aceitar o Cristo e sua palavra de salvação: “Se alguém escuta as minhas palavras e
não as guarda, eu não o condeno, porque não vim para condenar o mundo, mas para o salvar.
Quem me rejeita e não recebe minhas palavras, já tem quem o condene: a palavra que falei é que o
condenará no último dia” (Jo 12,47s). Nesta mesma direção move-se a afirmação de Paulo: “Não
sabeis que os injustos não possuirão o reino de Deus? Não vos iludais: nem os imorais, nem os
idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os pederastas, nem os ladrões, nem os
avarentos, nem os beberrões, nem os insultadores, nem os assaltantes, possuirão o reino de Deus”
(1Cor 6,9s). Assim, que fique claro: o inferno é possível porque Deus respeita nossa liberdade,
nossas escolhas! Se eu posso dizer um sim verdadeiro ao seu amor, também posso dizer não! E,
como Deus respeita o meu sim, também leva a sério o meu não. E o sim e o não são ditos não com
palavras, mas com a vida de cada dia! É isto que o Novo Testamento nos ensina! Deus quer a nossa
salvação, criou-nos para a glória, para a comunhão com ele... mas a decisão é nossa... e Deus vai
respeitá-la. Assim, não é Deus quem nos manda para o inferno como se estivesse irado ou com dor
de cotovelo! Não: exatamente porque ele nos ama, respeita-nos, ainda que isto signifique a
perdição eterna. Uma coisa é certa: o inferno não é para a glória de Deus: Deus não quer o inferno
nem o criou para nós. A possibilidade do inferno é conseqüência do mal uso da nossa liberdade!
A Igreja, em toda a sua história, sempre insistiu na necessidade de levar a sério a nossa
liberdade, nosso sim e nosso não! Assim, a convicção da existência do inferno aparece nos
documentos mais antigos! Aparece também claramente a consciência, baseada no Novo
Testamento, que o inferno é eterno. Somente Orígenes, o grande teólogo da Igreja antiga, ensinou
de modo diferente: ele colocava em dúvida a eternidade do inferno: para ele os textos bíblicos sobre
uma morte eterna têm apenas uma função educativa, de modo que as penas são, na verdade,
medicinais. A alma teria sempre uma capacidade de reorientar a opção que fez durante a vida,
mesmo depois da morte. Assim, Orígenes ensina a apocatástasis, ou seja, a restauração de todas as
coisas. No final, portanto, não haveria ninguém - nem Satanás - no inferno. A Igreja condenou
fortemente tal doutrina no Sínodo chamado endemousa: “Se alguém afirma ou retém que o castigo
dos demônios e dos homens ímpios é temporário e terá fim após um certo tempo, ou seja, que
haverá um restabelecimento (apocatástasis) dos demônios e dos homens ímpios, seja anátema”.
Assim fica assentado pela Tradição eclesial a convicção a respeito da duração eterna do inferno.
Mais tarde, São João Crisóstomo e Santo Agostinho irão deixar claro que a grande pena do estado
de perdição é a exclusão do Reino de Deus, da comunhão com o Senhor: “Desde o momento que
alguém é condenado ao fogo, evidentemente perde o Reino, e esta é a desgraça maior. Sei que
muitos tremem só de ouvir o nome da geena, mas para mim a perda daquela glória suprema é mais
terrível que os tormentos da geena. Acontecerá a morte sempiterna quando a alma não mais puder
viver, ao não mais ter Deus”. O Concílio Lateranense IV, contra os albigenses, que defendiam a
reencarnação, ensinava: “Todos ressurgirão com os corpos dos quais agora estão revestidos para
receber, de acordo com a bondade ou maldade de suas obras, uns a pena eterna com o diabo,
outros, a glória eterna com Cristo”. Mais tarde, a Constituição Benedictus Deus, do Papa Bento XII,
fazia eco à fé da Igreja: “As almas dos que morrem em pecado mortal atual... descem ao inferno,
onde são atormentadas com penas infernais”.
Por enquanto, basta. No próximo tópico vamos concluir nossa meditação sobre o inferno.
Uma coisa é certa: (1) a Escritura ensina a existência do inferno, (2) o inferno não é criação de
Deus, mas fruto do mal uso da liberdade das criaturas, (3) o inferno é a negação de toda a
felicidade do céu, é a frustração radical do homem e (4) o inferno é eterno.

O inferno - morte eterna, existência na contradição - III

Vimos o que a Sagrada Escritura afirma sobre o inferno. A nossa apresentação ficou claro
que o morte eterna, a condenação ou inferno consiste fundamentalmente em viver longe de Deus,
que é a Vida, a fonte da nossa vida. Agora, vamos concluir com algumas reflexões finais.
Ao pensarmos no inferno é necessário insistir sempre que o único fim da história e da
humanidade é a salvação. Quem coloca no mesmo nível a promessa do céu com a ameaça do
inferno, como se ambas as coisas tivessem os mesmos direitos e fizessem parte da mesma forma do
plano de Deus, deturpa gravemente a fé cristã e elimina seu caráter de Evangelho, de alegre e boa
notícia! Por isso mesmo, a Igreja, que testemunha a salvação definitiva de muitos santos, jamais
emitiu um juízo de condenação eterna para alguém, jamais disse que há alguém no inferno!
No entanto, é necessário não banalizar a convicção sobre a existência do inferno!
Certamente o estado de perdição não é criação de Deus nem é por ele desejado: é fruto da livre
opção da criatura, da nossa liberdade quando usada contra Deus. Deus não criou o inferno, como
também não criou o pecado. O inferno é possível porque é possível o nosso “não” a Deus, “não” que
Deus respeita, porque fruto de uma liberdade criada, mas que tem sua real consistência e
autonomia. Muita gente pensa: Deus é bom demais para admitir o inferno! Este argumento é
superficial e muito irresponsável! A possibilidade do inferno existe realmente porque existe
realmente a possibilidade do céu: se eu não pudesse dizer um “não” autêntico a Deus, tampouco
poderia dizer um “sim”; se não há inferno, tampouco há céu!
Pode-se perguntar se o inferno é somente uma possibilidade ou se é algo que realmente
pode ocorrer para o homem. A resposta depende de outra questão: alguém pode viver
coincidentemente, em pleno uso de sua liberdade, fechado para Deus? Certamente é difícil imaginar
alguém vivendo num “não” explícito e consciente a Deus, já que aquele que não crê não tem
consciência de dar um não explícito a Deus e o que crê não se atreveria a dar esse não! No
entanto, não é impossível! Aqui estamos diante do mistério do homem e da profundidade de seus
sentimentos e consciência! Além do mais, o Novo Testamento conhece um outro tipo de negação de
Deus: aquela que se concretiza na negação do irmão, quer individual, quer socialmente (cf. Mt
25,31): sempre houve pessoas animadas por uma vontade demoníaca de negação do próximo,
pisando nos outros, mentindo, corrompendo, oprimindo, provocando sofrimento! Quem prejudica
gravemente o irmão diz não a Deus! Além do mais, se o homem não pudesse dizer um “não” radical
a Deus, tampouco poderia dizer um “sim” que seja expressão plena de si mesmo e da sua vida! O
importante é notar que a escolha por Deus ou contra Deus dá-se na vida, nas nossas ações e opções
de cada dia. Essas ações nossas, tomadas em seu conjunto, vão deixando uma marca indelével, que
formam a nossa história e que será selada com a morte! Assim, o inferno revela-se como uma
terrível possibilidade que não é uma teoria, mas um convite a uma decisão! O inferno, portanto, é
possível! A humanidade será salva... mas eu, pessoalmente, posso ficar fora dessa salvação! É
preciso, portanto, decidir-me por Deus, abrir para ele meu coração!
Quanto à teoria da apocatástasis (de que todos, no final, vão ser salvos) é um exagero, que
não está de acordo com a Escritura Sagrada: é verdade que a humanidade como um todo será
salva... mas isso não garante que todos os indivíduos serão salvos (porque nem todos aceitarão
essa salvação). O que é válido para a humanidade como um todo não tem que ser válido
necessariamente para todos e cada um dos indivíduos, sob pena de destruir qualquer respeito pela
liberdade humana.
É necessário ainda perguntar pela essência da morte eterna: o que é essa morte eterna,
morte segunda ou morte da alma? Trata-se do definitivo distanciamento em relação a Deus; perdê-
lo eternamente. Nesta vida é impossível imaginar em que consista realmente o inferno porque ainda
não temos experiência real do que significa perder a Deus, já que, enquanto peregrinamos, ele
nunca está tão distante que não possamos alcançá-lo! O inferno é, portanto, um modo de existência
completamente inédita: uma existência que já não tem sentido nem objetivo! É exatamente por esta
não experiência atual do inferno que a Escritura fala por imagens. E pensemos: estar fora da
comunhão com Deus deixará os condenados eternamente em desarmonia com eles mesmos, com os
outros, com o mundo! O inferno é eterna frustração, profunda solidão e falta de sentido para tudo!
Aí a única linguagem possível é a não-linguagem do “ranger de dentes”; aí ninguém conhece
ninguém, ninguém está em comunhão com ninguém. O inferno é o não-povo (contrário do Povo
eleito), a não-cidade (contrário da Jerusalém celeste), a negação de toda comunhão! Em uma
palavra, é viver na contradição visceral: criado para a comunhão com Deus, com os outros e com o
mundo, o homem torna-se pura contradição, negação de si mesmo... alguém que vive na morte!
Não é por acaso que o Apocalipse denomina tal estado de “segunda morte” (cf. 21,8).
Ainda um última questão: quantos estão no inferno? Para dar uma resposta, é necessário
levar em conta duas coisas:
1) nada de apocatástasis (a restauração de todas as coisas, de modo que até Satanás seria
convertido). Já vimos que o inferno é uma possibilidade bem real!
2) por outro lado, é necessário levar em conta o desígnio salvífico universal de Deus: Deus
que a salvação de toda a humanidade; criou-nos para a salvação! No entanto, é preciso não
banalizar! Jesus advertia: “...se não vos converterdes, todos vós morrereis...” (Lc 13,4). “Alguém
lhe perguntou: ‘Senhor, são poucos os que vão se salvar?’ Ele lhes disse: ’Esforçai-vos por entrar
pela porta estreita, porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão’” (Lc 13,23s).
Afirmar, portanto, que não há ninguém no inferno seria uma irresponsabilidade gritante e
contrária à revelação! No entanto, levando em conta o desígnio salvífico universal de Deus, vale a
pena considerar a seguinte reflexão: a esperança é uma virtude cristã, fundamentada na
ressurreição de Cristo e no dom do Espírito. Ora, se devemos esperar na nossa salvação, será que a
caridade não nos obriga também a esperar na salvação dos irmãos? Esta esperança universal é
profundamente cristã! Temos a obrigação cristã de esperar que todos se salvem! Contudo, atenção:
esperar não significa ter segurança! A esperança é uma virtude teologal que fundamenta tudo em
Deus; a segurança apoia-se presunçosamente no homem. Permanecemos, portanto, em profunda
esperança de que todos sejam salvos, dizendo “sim” ao apelo salvífico de Deus em Cristo...
esperança que coloca tudo nas mãos de Deus e não se funda na nossa presunção! Sabemos, no
entanto, que o homem é livre e pode dizer não...
Com estas reflexões, terminamos nossa apresentação do que é o inferno. Que ela nos ajude
a compreender o quanto é importante optar por Deus, dizendo-lhe sim com nossa vida, nos dias da
nossa existência terrena.
No próximo número, vamos meditar sobre o modo que os cristãos têm de encarar a morte.
O que é a morte para a fé cristã?
A visão cristã da morte - I

Com este tópico iniciamos nossas reflexões sobre a morte. É um tema complexo e, ao
mesmo tempo, muito belo, quando tratado com profundidade! Assim, nos próximos números deste
Jornal, estaremos meditando sobre este tema. Desde já, observem bem o título que dei a estas
meditações: A visão cristã da morte! Não vamos nos preocupar simplesmente com a morte pela
morte, como simples fato biológico; nossa preocupação será com a morte aos olhos da fé cristã e,
conseqüentemente, com o modo cristão de morrer! Sim, porque existe um modo cristão e um modo
pagão de encarar a morte.
Comecemos com uma questão: como a Escritura encara a morte? Ela trata da questão
sempre sob o enfoque da fé. Jamais a vida e a morte são vistas em si mesmas, mas sempre em
relação a Deus: é na fé que podemos compreender em profundidade o sentido do viver e do morrer.
Se o mundo atual já não sabe mais o que pensar da morte, é porque já não vive mais em
profundidade e com seriedade a fé. Infelizmente, hoje em dia, crer parece que se tonou sinônimo de
ser crédulo, supersticioso...
É claro, no Antigo Testamento, que são as obras da nossa existência no mundo que
determinam o mérito ou demérito da pessoa. O sheol (ou seja, a mansão dos mortos) aparece
claramente, nas concepções mais antigas do Antigo Testamento, como o lugar da total passividade,
de absoluta ausência de decisões: já não se pode mais refazer a existência temporal (cf. Sb 2-5). No
Novo Testamento também está presente a convicção de que o juízo vai depender das obras
realizadas no tempo da vida terrena (cf. Mt 13,37ss; 25,34ss; Jo 3,17ss; 5,29; 12.47ss). A mesma
convicção aparece na parábola do rico epulão (cf. Lc 16,19ss). Texto particularmente claro é 2Cor
5,10: “Pois teremos todos de comparecer perante o tribunal de Cristo. Aí cada um receberá segundo
o que houver praticado pelo corpo, bem ou mal”. Também Hb 9,27: “Para os homens está
estabelecido morrerem uma vez e logo em seguida virá o juízo”. Ambos os textos mostram
claramente que a vida é irrepetível e definitiva. O que nela plantamos será decisivo na hora de
nossa morte!
Feito este primeiro esclarecimento, avancemos na nossa reflexão. Atualmente, tanto a
filosofia quanto a teologia ocupam-se, com especial interesse, da questão da morte. O problema é
que somente podemos falar da morte dos outros. Vemos os outros morrerem... mas quem
experimentou a morte, não fala mais... não volta aqui! Assim, é sempre difícil falar da morte, já que
ninguém tem experiência da sua própria! Mas, vamos tentar!
Com a morte, a condição humana chega a seu ponto culminante e também seu ponto crítico, pois
esta experiência da morte toca o homem não somente pela dor da progressiva dissolução de seu
corpo como também pelo temor da desaparição perpétua. Não podemos, portanto, fazer de conta
que a morte não existe ou, se existe, diz respeito aos outros e não a nós. Pelo contrário: a morte
dos outros deve recordar-nos que também nós morreremos! Para a escatologia, a morte tem
interesse porque com ela acontece o fim da história para cada homem, com ela realiza-se o ponto
crítico da passagem desta vida para uma outra situação - aquela podemos esperar somente na fé.
Vejamos parte por parte: é próprio de todo ser vivo, inclusive do ser humano, a
mortalidade. Todo organismo vivo decai até chegar à morte natural. É verdade que a Escritura diz
que a morte é salário do pecado (cf. Rm 6,23), mas disso trataremos mais adiante. Por enquanto é
importante compreender isso: a morte faz parte da vida; o homem é mortal! Não dá para escapar
da morte. A medicina pode prolongar a vida, mas não pode evitar a morte
Mas, o que significa morrer? Primeiramente, a morte revela nossa finitude, nossa limitação!
Que estranho é o ser humano: sonha com a vida, deseja a vida... mas sabe que um dia morrerá!
Aliás, o homem é o único ser que sabe que morrerá... por isso mesmo, a morte não é somente uma
questão física, biológica: não é apenas um corpo que morre e vira cadáver; é uma pessoa que
morre! Eu não digo: “Meu corpo morre”, ao invés, digo e sinto: “Eu morro!” E é interessante: em
geral, aproximamo-nos da morte exatamente quando mais queremos viver, quando, já adultos,
damos tanto valor à vida e somos já maduros. Em certo sentido, nunca estamos prontos para
morrer, mas para viver. E é assim, já que Deus é o Deus vivo e nos criou para a vida. Santo Irineu
já dizia: “A glória de Deus é o homem vivo!” Assim, a morte tem sempre um gostinho amargo,
mesmo para quem crê. Como compreender isso?
Deus é Vida e criou-nos para a vida. É verdade que ele não nos criou para a morte, não é o
autor da morte. A morte entrou no mundo pelo pecado: “Deus criou o homem para a
incorruptibilidade e o tornou imagem de sua própria natureza. A morte entrou no mundo por inveja
do diabo e a experimentarão os que a ele pertencem” (Sb 2,23s). Por outro lado, também é verdade
que Deus não nos criou para vivermos aqui eternamente. A Escritura não ensina que, se o homem
não tivesse pecado iria viver aqui para sempre! Pelo contrário. O Eclesiástico diz claramente: “Da
terra o Senhor formou o homem, e para ela o faz voltar. Aos homens concedeu dias contados e
tempo medido. Ele disse-lhes: “Precavei-vos de toda injustiça”; e a cada um deu mandamentos em
relação ao próximo” (Eclo 17,1-2.14). Vejamos bem: Deus criou o homem e deu-lhe apenas um
punhado de dias contados: o homem não viveria aqui eternamente... de qualquer modo, voltaria à
terra, ao pó! E isso, mesmo que não tivesse pecado! Então, temos que conciliar essas duas idéias:
Deus nos criou para a vida, não é o autor da morte e, por outro lado, mesmo sem o pecado
morreríamos.
Já expliquei que a morte não é simplesmente uma questão física. Fomos criados para a
comunhão com Deus e, mesmo sem o pecado, nossa comunhão com o Senhor somente seria plena
na Glória. O homem, mesmo sem o pecado original, teria ainda que crescer muito na comunhão
com Deus, até chegar ao cume desta comunhão na Glória. Ele não viveria aqui para sempre:
passaria para a Glória. Esta passagem de modo algum teria o gosto de morte... seria, isto sim, uma
feliz partida para o Deus da vida. Ora, com o pecado, o homem distanciou-se de Deus e esta
passagem passou a ser desintegradora, dolorosa... passou a ser uma morte! Em outras palavras:
experimentar a saída deste mundo como uma morte, é conseqüência do pecado. Daí a palavra de
Paulo: “O salário do pecado é a morte” (Rm 6,23). A morte, como nós experimentamos atualmente,
na nossa situação de pecadores, não é somente uma questão biológica, física; é também uma
decadência pessoal, existencial. É dolorosa no corpo e na alma! Tem um gosto de derrota, de salto
no escuro, de pulo no desconhecido! E não adianta fingir que a morte não existe! Assim, o que
nossa fé nos ensina é exatamente isso: Deus não é o autor dessa situação de morte em que
vivemos: as mortes de cada dia, de cada derrota, de cada sofrimento, de cada injustiça, traição ou
lágrima... tudo isso é conseqüência de uma humanidade pecadora.... Tampouco Deus é o autor da
última morte, daquela que marca o término da nossa vida terrena... Se a experimentamos como
derrota, dissolução, salto no escuro... é devido à situação de pecado. Se o homem não tivesse dito
“não” a Deus, não experimentaria a partida deste mundo como morte, como derrota dolorosa, como
salto no escuro...
Bom, no próximo número, continuaremos nossas reflexões. Ainda temos muito o que dizer!

A visão cristã da morte - II

Vimos, no tópico passado, que Deus não é o autor da morte. É verdade que o Senhor não
nos criou para vivermos aqui para sempre: desde o início Deus nos criou para que passássemos
deste mundo para a Glória, para uma comunhão mais plena com ele. Esta passagem, no entanto,
não teria o “gosto” de morte, de medo, de destruição, de derrota. A morte como a experimentamos
atualmente, morte que dá medo, que entristece, está vinculada ao pecado de uma humanidade que
disse não a Deus. Lembrem-se que o homem, desde o início, desde que pecou, passou a fugir do
encontro com Deus: “O Senhor Deus chamou o homem, dizendo: ‘Onde estás?’ E este respondeu:
‘Ouvi teus passos no jardim. Fiquei com medo porque estava nu, e me escond’i” (Gn 3,9-10). É
neste sentido que Paulo dizia que o salário do pecado é a morte! Morrer tornou-se apavorante,
passou a ter o gosto de derrota e salto no escuro! Por isso mesmo a experiência de morrer tem um
caráter de escravidão, tirania e absurdo, contra os quais não se pode fazer nada! O homem que
passaria para a Glória, deve, agora, experimentar esta sua passagem como uma morte: “ De morte
morrerás!” (Gn 2,17)
Mas, então, com o nosso pecado, a morte seria simplesmente derrota amarga? somos
destinados ao nada? Não há mais esperança? Não! Para nós, cristãos, há uma grande esperança!
Certamente, também nós nos perturbamos e nos angustiamos diante da proximidade da morte...
Mas, até o próprio Jesus ficou perturbado e angustiado diante dela, tanto que chorou diante de
morte de seu amigo Lázaro: “Quando viu que Maria e todos os judeus que vinham com ela estavam
chorando, Jesus se comoveu profundamente. E emocionado, perguntou: ‘Onde o pusestes?’ ‘Senhor,
vem ve’”–disseram-lhe. Jesus começou a chorar” (Jo 11,33-35).
Mais ainda: ele quis viver a nossa morte, experimentá-la e, diante dela, sentiu pavor e
angústia: “Levou consigo Pedro, Tiago e João, e começou a sentir medo e angústia, e lhes disse:
‘Minha alma está triste até à morte. Ficai aqui e vigiai’” (Mc 14,33).
É impressionante e consolador para nós: o Senhor Jesus teve medo da morte; diante dela,
sentiu a necessidade dos amigos, do seu consolo, do seu apoio! É que ele viveu de verdade nossa
situação mortal; ele experimentou o que é morrer como ser humano, ele sabe por experiência a dor
e o medo de morrer!
Pois bem, para nós, cristãos, a morte somente poderá ser compreendida se olharmos Jesus,
nosso Salvador e Senhor, se compreendermos como ele vivenciou, como ele enfrentou a morte e o
sentido que lhe deu!
Primeiramente é necessário deixar bem claro que a morte não é um mal absoluto, total: se
fosse assim, o Filho de Deus não teria morrido! Ao contrário, Cristo não somente morreu como fez
de sua morte um ato de amor: “O Pai me ama porque dou minha vida para de novo a retomar.
Ninguém a tira de mim. Sou eu mesmo que a dou. Tenho o poder de dá-la e o poder de retomá-la.
Esta é a ordem que recebi do meu Pa”i (Jo 10,17s). “Ninguém tem maior amor do que aquele que
dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). Se, por um lado, Cristo morreu da nossa morte, isto é, com
a angústia que lhe é própria enquanto algo que nos é imposto, algo que não desejamos e não
escolhemos, por outro lado, transformou isto em abandono confiante no Deus vivo, esperança de
ressurreição e amor para com os irmãos. Assim, em Cristo, a morte mudou de sentido! A morte, que
era simplesmente conseqüência do pecado, agora, em Cristo, tem um novo sentido: é um ato de fé,
esperança e amor! Cristo morreu por amor: amou-nos até dar a vida por nós; morreu de amor! A
morte, portanto, já não tem um sentido totalmente negativo. Mais ainda: nós somos chamados a
dar um sentido à nossa morte. Vou explicar: o homem não morre como um animal irracional, como
uma planta... nós sabemos que morremos! Assim, podemos morrer com sentimentos diversos, com
atitudes variadas: eu posso ver na minha morte uma derrota, morrer como um derrotado, como um
amargurado; posso ver na minha morte um absurdo, sem sentido... ou posso fazer da minha morte
um ato de entrega confiante nas mãos do Pai do céu. Foi assim que Cristo morreu: para ele, a morte
não significava o fim, o absurdo, o vazio, a destruição! Para ele, a morte foi um jogar-se confiante,
amoroso, nas mãos do Pai, Deus de amor, de ternura, de carinho e de vida: “Pai, nas tuas mãos
entrego o meu Espírito!” Assim, Jesus fez de sua morte sua última declaração de amor ao Pai, uma
declaração de total confiança e abandono nas mãos do Pai. É como se ele dissesse: “Paizinho
querido, eu me jogo em ti, abandono-me nas tuas mãos, para além da morte; sei que tu és amor,
que tu és o Deus da vida! Sei que tua mão potente jamais me abandonará... e nem mesmo a morte
poderá arrancar-me de tuas mãos! Pai, eu me abandono a ti, eu te entrego, te confio a minha vida!
Vivi sempre para ti, por ti nasci e, agora, consumo amorosamente minha existência neste mundo!
Lanço-me nas tuas mãos com infinita confiança, porque tu és o meu Pai querido!”
Portanto, para Jesus, mesmo sendo sofrida e angustiante, a morte tomou um novo sentido!
Para nós, cristãos, é necessário olhar o Cristo na sua morte e ressurreição para aprendermos a
morrer, para dar um novo sentido à morte. Somos chamados, na fé, a fazer da morte não uma
derrota, não um salto no escuro, no desconhecido, no além apavorante dos espíritas... mas um salto
confiante, como o de Jesus, nas mão do Pai querido, cujo amor é mais forte que a morte, cujo
carinho e misericórdia são infinitos. Nós não morreremos sozinhos: morreremos da mesma morte
que o Senhor Jesus morreu: morte humana, triste... morte que ele venceu, morte à qual ele deu um
novo sentido! Nele, morte e vida não se opõem: “Aquele que crê em mim, mesmo que morra
viverá!” (Jo 11,25).
Que promessa fantástica! Nós morremos com Cristo e ressuscitaremos com ele também! Já
falamos sobre a ressurreição, já vimos que ressuscitaremos com Cristo. O que desejo mostrar é que
morremos também com Cristo; que não morreremos sozinhos! São Paulo diz, de modo maravilhoso:
“Ignorais que nós todos que somos batizados em Cristo é na sua morte que fomos batizados?” (Rm
6,3) É uma afirmação impressionante: o verbo batizar significa “mergulhar”; Paulo nos diz que
fomos, desde o Batismo, mergulhados na morte de Cristo! Vejam: não morreremos sozinhos; não
passaremos sozinhos pelo vale da morte: estamos mergulhados, batizados, na morte de Cristo!
Morreremos com ele e nele! É disto que tratarei no próximo tópico!
Ainda temos muito a dizer sobre “nossa irmã, a morte corporal, da qual ninguém pode escapar!”

A visão cristã da morte - III

Vimos, no tópico passado, que para nós, morrer é morrer com Cristo e como Cristo, é
completar em nós a morte de Jesus para que a vida ressuscitada de Jesus nos plenifique. Assim,
aquele que é batizado já não vê na morte o angustioso fim do seu ser, mas a possibilidade última e
mais radical de configuração com seu modelo, que é Cristo ressuscitado. Sim, seremos como Cristo
ressuscitado! Vista deste modo, a morte torna-se o ato que deve ser vivido com vontade de entrega
livre e amorosa, na esperança da ressurreição. A morte torna-se um co-morrer com Cristo para co-
ressuscitar com ele: “Com ele fomos sepultados pelo batismo na morte para que, assim como Cristo
ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim também andemos em novidade de vida. Pois, se
estamos inseridos no solidarismo de sua morte, também o seremos no da ressurreição” (Rm 6,4s).
Compreendamos bem o pensamento de São Paulo: desde o Batismo começamos a morrer com
Cristo, isto é, começamos a viver as mortes de cada dia como participação na morte do Senhor. Tal
participação deve ser ratificada pela mortificação de cada dia, pela participação da Eucaristia, que é
mergulho na morte e ressurreição do Senhor Jesus. Assim, o cristão vai se apropriando da própria
morte e dando-lhe um sentido, fazendo de sua morte uma morte-ação, morte como união com o
Cristo morto! Morrer, para o cristão, já não deveria ser uma fatalidade: ele deveria dizer: “Morro a
cada dia, em cada lágrima, em cada tristeza, em cada derrota... Mas não morro como um
derrotado: uno minhas mortes à morte do Senhor, para como ele ressuscitar!” A morte, assim, vai
ganhando sentido em nós, vai se tornando uma realidade humana e cristã, e não uma fatalidade
biológica. Enquanto isso, para quem não se abre para o Cristo, para quem o refuta, a morte vai
sendo experimentada a cada dia como poder aniquilador, vazio do ser e total fracasso da
existência...
Assim, vamos morrendo e caminhando para o encontro com Cristo. Para nós, com efeito, a
morte tem também este aspecto belíssimo: é um encontro com o Senhor: “Ficai preparados,
porque, numa hora que não pensais, o Filho do homem virá (Lc 12,40); Sim, Jesus virá: ele é
aquele que vem ao nosso encontro (cf. Mt 11,2): “Vou e retorno a vós” (Jo 14,18.28). Ele vem vindo
sempre na nossa existência: veio no Batismo, quando entramos em comunhão com sua morte e
ressurreição, vem sobretudo na Eucaristia, quando mergulhamos na sua Páscoa e já
experimentamos o gosto da comunhão com ele, vem a cada dia para nos fazer passar da “carne”
(pecado) ao “espírito” (vida no Espírito Santo). Finalmente, ele virá na passagem definitiva, no
momento do encontro final. Por isso mesmo Paulo exclamava: “O meu desejo é partir para estar
com Cristo” (Fl 1,23). Assim, morrer é ir ao encontro do Salvador que vem, quem irrompe com sua
Glória na minha pobre existência; morrer é ser surpreendido por Cristo, é ser invadido pela sua Vida
divina e plena. Santa Teresinha dizia com sabedoria: “Não é a morte que virá me buscar, é Deus!”
Pois bem: eis a conclusão maravilhosa: não morreremos sozinhos; morreremos como Cristo e com
Cristo; mais ainda: morreremos em Cristo. Podemos recordar aqui, para o momento da morte, a
palavra de Jesus: “Nesse dia sabereis que... estais em mim e eu em vós!” (Jo 14,20).
Mas, não é só! Cristo não vem sozinho ao nosso encontro! Ele é o primogênito dentre os
mortos, é a Cabeça da Igreja. Tendo sido batizados, morremos como membros do seu corpo, que é
a Igreja e morremos no seu corpo. Assim, não morremos sozinhos: morremos na comunidade dos
santificados, dos batizados! A morte será o passar da Igreja terrestre para a Igreja da Glória.
É interessante que se apresenta muitas vezes a morte como um mistério de escuridão,
solidão e medo! Nada disso! Para o cristão, ela é primeiramente mistério de comunhão com Cristo:
“Ainda que eu passe pelo vale da morte, nenhum mal eu temerei: tu estás comigo; teu bordão e teu
cajado me dão segurança!” (Sl 22). Mas é também mistério de comunhão com os irmãos que ficam.
Pensemos no belíssimo dom que são a Unção dos Enfermos e o Viático. Pela Unção, a Igreja toda
coloca-se ao nosso lado, reza por nós, implora o perdão dos pecados e nos unge com o óleo que
simboliza a força do Espírito que cura e perdoa. Sim, a Igreja ora conosco e por nós! E o viático, o
alimento dos que viajam? Nele, recebemos pela última vez a Eucaristia, Corpo do Senhor
ressuscitado, que está na Glória: “Pai, aqueles que me deste quero que onde eu estou, também eles
estejam comigo, para que contemplem a minha Glória” (Jo 17,24). O sacerdote, ao nos dar o
Viático, diz: “O Corpo de Cristo!” e acrescenta: “Que ele te guarde para a vida eterna!” Eis o sentido
de morrer com Cristo e com os irmãos! Assim, passaremos do Corpo de Cristo, que é a Igreja da
terra, para o Corpo de Cristo, que é a Igreja celeste! Nada de solidão, de medo, de escuridão!
Se nós compreendermos bem o sentido cristão da morte, já não vamos temê-la como algo
absurdo e apavorante. É necessário, portanto, cristianizar a morte!
Peço que você releia estes três tópicos sobre a morte, para poder vivenciá-la como cristão.
Que graça saber morrer em Cristo. Que graça poder morrer calmamente, preparando-se para o
encontro, tendo nas mãos a vela, que simboliza a fé do nosso Batismo e, como o atleta que corre
até ao fim da corrida, poder dizer: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a
fé. Desde já me está reservada a coroa da justiça, que me dará o Senhor, justo juiz, naquele Dia; e
não somente a mim, mas todos os que tiverem esperado com amor a sua Aparição” (2Tm 4,6ss).
Espero que estas meditações ajudem a compreender de modo cristão este que será o
momento mais definitivo de nossa existência.
No próximo bloco, trataremos da retribuição imediata: o que acontecerá após a morte?
Vamos ficar dormindo, como dizem os protestantes? Vamos ao encontro de Cristo, como diz São
Paulo? Vamos para o nada, como dizem os ateus? Vamos ficar zanzando à toa, como dizem os
espíritas?
A retribuição imediata. O estado intermédio. A imortalidade.

Continuamos ainda nossa reflexão sobre a morte; ou melhor, sobre o que acontecerá
conosco após a morte. Vejamos: é certo que nossa esperança em Cristo, nossa certeza da Parusia
do Senhor nos abre um horizonte esplêndido: Cristo virá e nos transfigurará e estaremos para
sempre com o Senhor, em glória! Mas... a nossa experiência de cada dia é bem outra: é de homens
que morrem, saem deste mundo... e a vida continua sem eles. Isso mesmo: morreremos e o sol
continuará brilhando, o mundo continuará existindo... como se nós nunca tivéssemos existido. Pois
bem: como combinar a história que caminha, que continua e eu, que agora morro, que desapareço
deste mundo? Para onde vou, que será de mim? Eu morro... mas o Cristo não voltou ainda; ainda
não aconteceu a Parusia... E então? Será que se acaba nossa amizade com Deus - afinal estou
morto! Será que esta amizade só vai ser reatada no fim de tudo, na Parusia? Então, desde a minha
morte até o final eu não mais amarei a Deus nem por ele serei amado? Mas Deus é o Deus dos
vivos, não dos mortos! E agora?! Ou, talvez, será que vou ficar “dormindo” ou ser destruído e, no
fim dos tempos Deus vai tirar-me do nada, como se criasse uma outra pessoa? Se a morte é minha
destruição total, então, na Ressurreição eu vou ser recriado, vou ser outra pessoa! É preciso
responder todas estas questões! Mas, vamos por partes!
No Antigo Testamento, antes da vinda do Cristo, pensava-se que quem morria ficava no
sheol (mansão dos mortos), à espera da Vinda do Senhor, quando se dariam a Ressurreição dos
mortos e o Juízo Final. Até lá, o sheol era igual para todo mundo, bons e maus: era o reino dam orte
para todos! Os mortos ficavam numa situação de espera até à consumação final. Aos poucos foi
nascendo a idéia de que, mesmo no sheol, há diferença entre os bons e maus; basta pensar na
parábola do rico epulão e do pobre Lázaro: os dois estão no sheol (no seio de Abraão), mas um está
feliz enquanto o outro pena. Em resumo: segundo o Antigo Testamento, os mortos ficavam
“dormindo” no sheol até a ressurreição final, quando o Messias viesse.
No Novo Testamento, o Messias chegou: tudo muda! Com Cristo, que é o Messias esperado,
os mortos não mais ficarão esperando, pois chegaram os últimos tempos! Recordemos aquela
passagem de Lucas 23,42s, do bom ladrão: “E falou: ‘Jesus, lembra-te de mim quando vieres como
Rei’. E Jesus lhe respondeu: ‘Eu te asseguro: ainda hoje estarás comigo no paraíso’”. O ladrão,
como os judeus da época de Jesus, esperava a Ressurreição no final dos tempos, quando o Senhor
viria em glória: “Lembra-te de mim, quando vieres com teu Reino!” Mas, o Reino já chegou, com a
Ressurreição de Jesus chegaram os tempos finais. Por isso mesmo Jesus responde: “Hoje mesmo
estarás comigo!” Agora que ele chegou, que venceu a morte, não há mais o que ficar esperando:
com Cristo, os mortos não têm mais o que esperar! O futuro esperado torna-se hoje, torna-se
presente em Cristo: a salvação definitiva não é uma realidade meramente escatológica, futura, mas
surte efeitos imediatos para quem parte desta vida na comunhão com Cristo; o paraíso, estado final
da bem-aventurança, é estar com Cristo, “já”, “agora”!. A morte de Cristo abre as portas do paraíso,
de modo que a morte do cristão é entrada na Vida eterna. Por isso mesmo São Paulo afirma preferir
ausentar-se desta vida terrena para ir estar com Cristo: “Estamos, repito, cheios de confiança,
preferindo ausentar-nos do corpo para morar junto do Senhor” (2Cor 5,8). Aqui aparece claramente
que o término da existência terrena leva imediatamente a habitar junto do Senhor. Não tem essa de
ficar dormindo: morrer é ir estar imediatamente com o Senhor... por isso Paulo prefere morrer logo!
Os que morrem antes da Vinda de Cristo na glória vivem já com o Senhor. O Apóstolo acrescenta,
em outra carta: “Para mim viver é Cristo e a morte, lucro. Entretanto, se o viver na carne ainda me
permitir um trabalho frutuoso, não sei o que escolher. Estou como que na alternativa. Pois de um
lado desejo partir para estar com Cristo, o que é muito melhor” (Fl 1,21ss). Note-se que aqui o
importante é que “ o viver é Cristo”: a morte não é um lucro em si mesmo, mas somente se for um
partir para estar logo com Cristo. Uma morte que fosse separação de Cristo ou que interrompesse a
comunhão com ele, não seria “lucro” para Paulo. A morte somente é desejável porque permite a
entrada nessa comunhão com Cristo, que constitui o objetivo último da esperança cristã. Em mais
sete textos paulinos a expressão “com Cristo” aparece com este significado. Por exemplo: “Se
cremos que Jesus morreu e ressuscitou, cremos também que Deus levará com Jesus os que nele
morrerem. Depois nós, os vivos, que estamos ainda na terra, seremos arrebatados juntamente com
eles para as nuvens, ao encontro do Senhor nos ares. Assim estaremos sempre com o Senhor” (1Ts
4,14.17); “Pois Deus não nos destina à ira mas à salvação por Nosso Senhor Jesus Cristo, que
morreu por nós a fim de que, vivos ou mortos, fiquemos unidos a ele” (1Ts 5,10). Outros textos são
2Cor 4,14; 13,4; Rm 6,8; 8,32. Estar com o Senhor exprime a firme certeza da comunhão com
Cristo logo após a morte! Se o estar com Cristo fosse possível somente na Parusia, o melhor para
Paulo não seria partir! Partir para ficar dormindo?! Partir somente é bom porque é para estar com
Cristo!
Resumindo tudo isto que vimos até agora: aparece claríssimo no Novo Testamento que logo
após a morte “partimos para estar com Cristo”. Então, erram aqueles protestantes que afirmam
que, após a morte, ficamos dormindo até à Ressurreição final! Afirmar que, após a morte ficamos
dormindo, é esquecer que Cristo ressuscitou, que com ele, ressuscitamos para a Vida! Erram
gravemente os espíritas, que pensam que, após a morte, ficamos à toa, zanzando num além, até
reencarnarmos novamente! Isso seria desconhecer que nem a morte, nem a vida, nem criatura
alguma nos poderá separar do amor de Cristo (cf. Rm 8,39).
Para terminar, cito um importante texto do magistério da Igreja, a Constituição Benedictus
Deus, do Papa Bento XII, no século XIV, que ensinou claramente e de modo infalível: “ Nós, com a
força da autoridade apostólica, definimos que, segundo a geral disposição de Deus, as almas de
todos os santos que deixaram este mundo antes da paixão de nosso Senhor Jesus Cristo, e aquelas
dos santos apóstolos, dos mártires, dos confessores, das virgens e dos outros fiéis que morreram
após receber o santo Batismo de Cristo, e nos quais não há mais nada para purificar quando
morreram, e não haverá também no futuro, quando morrerem, ou caso tenham algo para purificar,
uma vez purificado, já que foram purificados após a sua morte (...) imediatamente após a morte e a
purificação - se disto tinham necessidade -, mesmo antes de reassumirem os seus corpos e do juízo
universal, após a Ascensão do nosso Senhor Jesus Cristo ao céu, estavam, estão e estarão no céu,
no reino dos céus e no celeste paraíso, com Cristo...”
A doutrina da Igreja é clara: aqueles que já estão purificados de seus pecados,
imediatamente após a morte, mesmo antes do juízo final, estarão no paraíso, que é estar com
Cristo. E isto por quê? Porque Jesus já ressuscitou e já subiu ao céu. Na sua Ascensão, já nos abriu
o coração do Pai! Repito: quem nega que logo após a morte vamos estar com Cristo, está
desconhecendo que Cristo ressuscitou, está ainda no Antigo Testamento!
No próximo tópico vamos continuar com nossa reflexão. A questão a ser respondida será:
como ficamos entre a nossa morte e o juízo final? Se não vamos ficar dormindo, vamos estar com
Cristo em corpo e alma ou é só a alma que vai e o corpo só vai depois? Ou é só a alma que
interessa e o corpo vai ser destruído para sempre? Vamos ver...

A retribuição imediata. O estado intermédio. A imortalidade - II

Vimos, no tópico passado, que, imediatamente após a morte estaremos com Cristo. Esta é a
fé do Novo Testamento e da Tradição da Igreja. Imediatamente após a morte o indivíduo encontra-
se no estado definitivo e não no de espera. No entanto isto não significa isolá-lo do momento final,
da Vinda do Senhor, com toda a sua importância. Assim, dois pontos devem ser mantidos firmes na
nossa fé: (1) estaremos com Cristo no momento da morte e, (2) no entanto, o momento final da
Vinda do Senhor será importante para todos e para cada um.
Vejamos, passo a passo. Primeiramente é necessário deixar claro que somente no final dos
tempos, na Vinda do Senhor, é que toda a criação e toda a humanidade (todos os mortos) chegará à
plenitude. É o que chamamos de ressurreição final, a ressurreição no Último Dia. Vamos, então,
como dizem os protestantes, ficar “dormindo”? Desde o século passado os protestantes dizem que é
anti-bíblico falar em imortalidade da alma: na morte, seria o homem todo que sucumbiria, em corpo
e alma, e é todo o homem que ressuscita. Então, serei totalmente destruído, em corpo e alma, de
modo que, a realização de toda e qualquer esperança para mim somente acontecerá no juízo final!
Até lá, eu serei nada!
O que pensar disso? Trata-se de uma idéia completamente falsa. Se nós fôssemos
totalmente destruídos após a morte, então a ressurreição não seria ressurreição, mas recriação:
Deus criaria uma outra pessoa - outro corpo e outra alma! Já não seria eu! Além do mais, na Bíblia
existe a palavra “alma”, que significa o eu do homem, aquilo que nele é permanente, que subsiste à
corrupção. Assim, a alma é a dimensão que garante a continuidade do indivíduo com sua identidade
pessoal após a morte: sou eu mesmo que ressuscito! Esta alma, por ser imaterial, não é destruída
nem com a morte. Mas por que isso? Porque Deus nos criou para a Vida e, assim, ele, que é fiel, já
nos criou para a imortalidade... por isso deu-nos uma alma imortal. Mas, vejamos bem: somente a
alma imortal não garante a vida eterna ao homem: a vida eterna é dom de Deus, é estar com Cristo
para sempre. Do que valeria uma alma imortal se vivêssemos longe de Cristo? Seria viver no
inferno, seria melhor nem existir! Portanto, com alma imortal e tudo, é somente Cristo, na potência
do seu Espírito Santo, quem nos garante a vida eterna! Neste sentido, podemos dizer que a alma
também ressuscita, ou seja, será transfigurada, passará desta vida limitada para a Vida plena, feliz,
a Vida que o próprio Senhor ressuscitado vive. Sem Cristo, a alma imortal não serviria para nada! Já
falamos sobre isto em outros tópicos! O certo é que o “estar com Cristo” irá nos transformar
completamente, em todas as dimensões do nosso ser (corpo e alma), transfigurando-nos totalmente
à imagem do Senhor: seremos semelhantes a ele pois o veremos como ele é (cf. 1Jo 3,2). Muito
bem: com a morte, minha alma não é destruída, não se acaba minha amizade com Deus nem eu
deixo de ser amado pelo Senhor: para ele eu continuo existindo, pois ele é fiel no seu amor! Por
isso, já vimos, que Paulo falava em partir para estar com Cristo!
Mas, se após a morte, minha alma vai estar com Cristo (ou ficar longe de Cristo, se eu fui
fechado para ele)... e o meu corpo? E a ressurreição final, no final dos tempos? E pode existir uma
alma separada do corpo?
Já vimos, no tópico passado, que segundo o judaísmo do tempo de Jesus, os mortos
ficavam esperando o Messias: seus corpos eram destruídos pela morte, mas, mesmo assim, eles
continuavam existindo - basta recordar a parábola do rico e do pobre Lázaro! Por sua vez, São Paulo
afirma que, quer continuando nesta vida, quer saindo “da tenda em que habitamos”, quer dizer, do
nosso corpo, o importante é que estaremos com Cristo: “Sabemos, com efeito, que ao se desfazer a
tenda que habitamos – nossa casa terrestre – teremos nos céus uma casa preparada por Deus e
não por mãos de homens, uma casa eterna. Pois gememos em nossa tenda, desejando revestir-nos
de nossa morada celeste, na suposição de sermos encontrados vestidos e não despidos. Realmente,
enquanto moramos nesta tenda, suspiramos oprimidos porquanto não queremos ser despidos mas
sim revestidos de uma veste nova sobre a outra, para o mortal ser absorvido pela vida. Foi Deus
mesmo que assim nos fez, dando-nos o primeiro sinal de seu Espírito. Assim estamos sempre
confiantes, persuadidos de que o tempo em que passamos no corpo é um exílio distante do Senhor.
Andamos na fé e não andamos na visão. Estamos, repito, cheios de confiança, preferindo ausentar-
nos do corpo para morar junto do Senhor. É também por isso que nos esforçamos quer na pátria
quer no exílio por lhe ser agradáveis. Pois teremos todos de comparecer perante o tribunal de
Cristo. Aí cada um receberá segundo o que houver praticado pelo corpo, bem ou mal” (2Cor 5,1-
10). O que interessa aqui, para Paulo e para nós, é que, no corpo ou fora dele, após a morte
estaremos com o Senhor! A mesma coisa a Igreja diz. Vejamos a Constituição Benedictus Deus, que
já apresentamos no tópico anterior. Aí a Igreja ensinou que logo após a morte com nossa alma,
receberemos o prêmio ou o castigo eternos: “Nós, com a força da autoridade apostólica, definimos
que, segundo a geral disposição de Deus, as almas de todos os santos que deixaram este mundo
antes da paixão de nosso Senhor Jesus Cristo, e aquelas dos santos apóstolos, dos mártires, dos
confessores, das virgens e dos outros fiéis que morreram após receber o santo Batismo de Cristo, e
nos quais não há mais nada para purificar quando morreram, e não haverá também no futuro,
quando morrerem, ou caso tenham algo para purificar, uma vez purificado, já que foram purificados
após a sua morte (...) imediatamente após a morte e a purificação - se disto tinham necessidade -,
mesmo antes de reassumirem os seus corpos e do juízo universal, após a Ascensão do nosso
Senhor Jesus Cristo ao céu, estavam, estão e estarão no céu, no reino dos céus e no celeste
paraíso, com Cristo... e que estas, após a paixão e morte de nosso Senhor Jesus Cristo, viram e
vêem a Essência divina com uma visão intuitiva e, mais ainda, com uma visão face a face, sem que
haja, em razão do objeto visto, a mediação de nenhuma criatura, revelando-se, ao invés, a elas a
Essência divina de modo imediato, descoberto, claro e notório e que aquelas que assim vêem,
gozam plenamente da mesma Essência divina e, assim, em força de tal visão e gozo, as almas
daqueles que estão já mortos, são verdadeiramente bem-aventuradas, e possuem a vida e a paz
eternas, e também aqueles que em seguida morrerão, verão a mesma Essência divina e dela
gozarão, antes do juízo universal”. Então, logo após a morte, na nossa alma, veremos a Deus e, no
final dos tempos, nossos corpos ressuscitarão. Como compreender isso? Vejamos!
Entre a morte de cada pessoa e a ressurreição final de todos nós há um “período” que não é
como o nosso tempo da terra, feito de dias, meses e anos - para usar a linguagem dos teólogos:
uma duração extensa de natureza diversa da nossa temporalidade espácio-temporal (estado
intermédio). Ora, durante este “período” algo de nós não morre, continuamos vivos e já com Cristo,
transformados! É este algo de nós, este “eu” que pode ser chamado de “alma”. Posso, então dizer
com certeza: imediatamente após a morte, eu (ou se quiser, pode usar a palavra alma) estarei com
Cristo. E meu corpo? Também não é parte de mim, do meu eu? É sim! Ele ressuscitará no Último
Dia: um corpo glorioso, como já vimos antes, em outros tópicos. E eu, em corpo e alma, estarei
para sempre com Cristo!
Mas, então até lá, fica a minha alma separada do corpo? É possível isso? Não. Minha alma
não ficará separada: quem está em Cristo nunca está “separado”, sozinho! Desde o Batismo somos
membros do Corpo de Cristo, que é a Igreja. Assim, mesmo esperando a ressurreição de nosso
corpo, estamos no aconchego do Corpo de Cristo, todos juntos, como membros da Igreja celeste,
como membros uns dos outros, todos unidos pelo Espírito Santo ao Cristo, nossa Cabeça. É assim
que estão os santos todos, esperando a ressurreição do seu corpo, no Último Dia, quando todos nós
seremos glorificados! Portanto, mesmo dizendo que nosso corpo ainda não ressuscitou, não é
correto dizer que até o final dos tempos nossa alma ficará separada do corpo: estaremos no Corpo
de Cristo! É assim que estamos desde o nosso Batismo; é isto que experimentamos em cada
Eucaristia!

A retribuição imediata. O estado intermédio. A imortalidade - III

Vimos, no tópico passado, que logo após a morte estaremos com Cristo, com nosso “eu”
unido à nossa alma. Nosso corpo, no entanto, ressuscitará somente no Último Dia, quando o Senhor
vier em glória. Mas vimos também que nossa alma ressuscitará, quer dizer, será transformada,
transfigurada pelo Espírito Santo do Cristo Jesus, de modo que já não sofreremos, não teremos
saudades, tristezas, solidão nem nenhuma das limitações desta vida. Vimos, finalmente, que não se
deve dizer que, até à Vinda do Senhor, nossa alma ficará “separada” do corpo, pois estaremos,
mesmo antes da ressurreição final, no Corpo de Cristo ressuscitado, que é a Igreja celeste, a
Jerusalém do Alto. Para quem vive na amizade com Cristo, não há isolamento: há somente
comunhão de amor! Sim, para quem crer, não é o isolamento que o espera após a morte, mas a
incorporação no Corpo eclesial de Cristo, numa situação marcada pelo conforto e pela alegria da
Comunhão dos santos, imersa na Vida trinitária: estaremos plenos do Espírito, incorporados
plenamente em Cristo - no seu Corpo (incorporação iniciada no Batismo) e, assim, contemplaremos
o Pai.
Que fique bem claro: mesmo se não ressuscitaremos logo com nosso corpo, mas, por
enquanto, somente com nossa alma, nem por isso nossa alma fica à toa na vida! Não fica separada
coisa nenhuma: fica unida; bem unida ao Corpo de Cristo no qual estamos desde o nosso Batismo.
Esta união é vivida e celebrada por nós sobretudo em cada Eucaristia!
Assim, o estado intermédio (entre a nossa morte individual e o final dos tempos) é uma forma de
tempo escatológico da Igreja a caminho, ou seja, é um modo de estar, de viver, dos cristãos que
partem desta vida e esperam ainda a Vinda final do Senhor em glória. Neste sentido, “alma
separada” quer simplesmente significar a personalidade do homem enquanto permanece em vida e,
com Cristo em Deus, também além da morte, até à nova reunião com o corpo transfigurado dos
ressuscitados. Nem a morte nos poderá separar do amor de Cristo! Não seria justo, portanto,
colocar a ênfase na idéia de alma separada, mas sim na comunhão com o Senhor e seu Corpo:
quem se encontra com o Senhor goza de uma plenitude humana superior à nossa, ainda aqui na
terra, mesmo se “espera” a plenitude do Corpo de Cristo, a transformação do universo e, com ela, a
plena identidade consigo mesmo em todas as sua dimensões pessoais e sociais. No Corpo de Cristo,
no estar com Cristo, o “eu” daquele que morreu, mantém juntamente com a “alma”, uma
corporeidade: a do Corpo de Cristo, de modo que nem o corpo nem a alma imortal são
independentes de Cristo.
Para terminar, gostaria de comentar rapidamente algumas partes do documento “Algumas
questões de Escatologia”, da Congregação para a Doutrina de Fé, de 17 de maio de 1979. O
Documento apresenta os seguintes pontos firmes, que devem ser afirmados por todos os católicos:
1. A Igreja crê em uma ressurreição dos mortos.
2. A Igreja compreende tal ressurreição como referente ao homem inteiro (corpo e alma). Para os
eleitos esta ressurreição não é outra coisa que a extensão aos homens da própria Ressurreição de
Cristo, já que ressuscitarão por causa de Cristo, com Cristo e como Cristo.
3. A Igreja afirma a sobrevivência e a subsistência, depois da morte, de um elemento espiritual, que
é dotado de consciência e de vontade, de modo que o “eu humano” subsista, mesmo faltando neste
meio tempo o complemento do seu corpo. Para designar este elemento, a Igreja usa a palavra
“alma”, consagrada pelo uso da Sagrada Escritura e da Tradição. Sem ignorar que este termo
assume na Bíblia diversos significados, a Igreja pensa, contudo, que não há nenhuma razão séria
para refutá-lo e considera, também, que é absolutamente indispensável um instrumento verbal para
sustentar a fé dos cristãos. Assim, podemos continuar falando na “alma” dos que morrem, desde
que alma signifique “eu”. Quando dizemos: “pela alma de fulano”... queremos dizer: “por fulano”!
4. A Igreja, em conformidade com a Sagrada Escritura, espera “a manifestação gloriosa do Senhor
nosso Jesus Cristo” - que ela deseja - como distinta e em outro momento em relação à situação que
é própria dos homens imediatamente após a morte. Ou seja, a Vinda do Senhor vai acontecer para
todos no momento final da história humana, no Último Dia, mesmo que já estejamos com Cristo na
glória logo após a nossa morte.
5. A Igreja, no seu ensinamento sobre a sorte do homem após a sua morte, exclui toda explicação
que tire o sentido à Assunção de Maria naquilo que ela tem de único, ou seja, o fato que a
glorificação corpórea da Virgem é a antecipação da glorificação reservada a todos os outros eleitos.
Em outras palavras: dentre todas as criaturas, somente a Virgem Maria já está no céu em corpo e
alma, desde a sua Assunção. Todos os outros mortos em Cristo estão no céu com suas almas, à
espera da ressurreição corporal.
Uma última questão: os protestantes dizem que esta história dos católicos de falarem numa
“alma imortal” é contra a Bíblia; é uma idéia da filosofia grega! Isso não é verdade! Já vimos o
exemplo da parábola do pobre Lázaro e do rico epulão: eles, o pobre e o rico, mesmo após a morte
e antes do Juízo Final, estão “vivos”, um no seio de Abraão e o outro, longe dele. Estão vivos nas
suas almas!
Quando a Igreja fala em alma imortal é no seguinte sentido: Deus nos ama e não permite
que sejamos destruídos; ele criou o homem para a comunhão com ele e, assim, nos deu uma
dimensão imaterial, espiritual (alma) que, mesmo após a morte, sobrevive. Temos uma alma
imortal, indestrutível, porque Deus nos criou para nos amar eternamente e, somente vivos podemos
ser amados: ele não é Deus dos mortos, mas dos vivos! Se vivermos unidos a Cristo, estaremos
com ele e esta nossa “alma” será glorificada, completamente transformada, plena da bem-
aventurança de Cristo. Mas, se lhe dissermos “não” nesta vida, vamos estar longe do Senhor,
naquela situação que a Escritura chama de inferno. Mas, nem aí, deixaremos de existir - porque
Deus nos ama e não permite que sejamos destruídos: nossa “alma” viverá na tristeza, no “inferno”
de estar longe do Senhor. Então, a alma sozinha, coitada, não garante nossa felicidade nem nossa
vida: somente estando com Cristo é que seremos felizes e nossa alma terá a vida bem-aventurada!
Assim, quando a Igreja fala na imortalidade da alma, não tem nada a ver com o modo de
pensar dos pagãos, que imaginam que a alma é imortal porque é superior ao corpo e porque é
imaterial e, assim, basta ficar livre do corpo para ser feliz. É esta, mais ou menos, a idéia dos
espíritas, por exemplo! Para nós não é nada disto: somente em Cristo, na união com ele e
transformados por seu Espírito Santo é que seremos felizes, tanto no nosso corpo quanto na nossa
alma.
Pronto! Agora só nos falta falar sobre o purgatório - é o assunto do próximo tópico... e
terminaremos estes tópicos sobre escatologia!

A purificação após a morte: o estado purgatório

Depois de termos tratado de todos os temas da escatologia cristã, vamos falar sobre o
purgatório.
Nossos irmãos protestantes criticam-nos e dizem que o purgatório é invenção da Igreja
católica! Nada disso! A doutrina do purgatório está presente na Sagrada Escritura e na contínua
Tradição da Igreja. O problema é compreendê-la bem, para não terminar colocando na nossa cabeça
coisas que a Igreja jamais ensinou, deturpando, assim, a nossa fé católica!
Primeiramente é necessário deixar claro uma coisa: não existe, na Bíblia, uma passagem
falando sobre o purgatório, nem tampouco existe esta palavra “purgatório”! É inútil procurar. Mas,
vejamos bem os seguintes pontos:
* No Antigo Testamento aparece uma constante convicção que somente uma absoluta pureza é
digna de ser admitida à visão de Deus; nada de impuro pode estar diante dele: “Tendo Moisés
transmitido ao Senhor a resposta do povo, o Senhor lhe disse: “Vai ter com o povo e o santifica,
hoje e amanhã. Eles devem lavar as vestes, e estar prontos para o terceiro dia, pois no terceiro dia
o Senhor descerá à vista de todo o povo sobre a montanha do Sinai. O povo todo presenciou os
trovões, os relâmpagos, o som da trombeta e a montanha fumegando. à vista disso, o povo
permaneceu ao longe, tremendo de pavor. Disseram a Moisés:’“Fala-nos tu, e te escutaremos. Mas
que não nos fale Deus, do contrário morreremos’” (Ex 19,10s; 20,18s). “Ai de mim! Estou perdido,
porque sou um homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de lábios impuros, e meus
olhos viram o rei, o Senhor Todo-poderoso” (Is 6,5). “Lá haverá um caminho; chamar-se-à Caminho
Santo. Nenhum impuro passará por ele; os insensatos não errarão nele” (Is 35,8). Também o Novo
Testamento tem esta mesma convicção: Jesus afirma que os puros de coração verão a Deus (cf. Mt
5,8) e o Apocalipse diz que nada profano entrará na nova Jerusalém (cf. 21,27).
* Outro elemento, ainda mais importante, presente na Bíblia é a convicção da responsabilidade
humana no processo da justificação (isto é, de sermos santificados por Deus), que implica na
necessidade de uma participação pessoal na reconciliação com Deus e na aceitação das
conseqüências penais derivadas dos pecados. Em outras palavras: Deus não salva o homem
automaticamente, sem a sua aceitação e sem a sua participação - não somos fantoches de Deus!
Em 2Sm 12, que conta o pecado de Davi com a mulher de Urias, existe uma típica distinção entre
culpa e pena: Deus perdoou o pecado de Davi, mas a pena pelo pecado permaneceu: o filhinho
morreu! Afinal de contas, o pecado, como fruto de uma livre decisão, não é um ato mecânico nem
isolado, mas afeta a estrutura global do homem, tanto na sua dimensão pessoal quanto comunitária.
Dou um exemplo: imaginem uma pessoa que gosta de difamar os outros. Cada vez que ela cai neste
pecado e se confessa, o pecado é perdoado... mas as conseqüências permanecem: em primeiro
lugar, esta pessoa, cada vez que cai neste pecado, fica mais fraca, mais viciada nele; em segundo
lugar, pensem no mal, na difamação que ela espalhou! Tudo isto pesa na nossa vida: nós somos
aquilo que fomos fazendo na vida; nossos atos nos formam, formam nossa personalidade e terão
conseqüências no nosso destino eterno!
Agora, vejam bem: é precisamente estas duas idéias que abrem a possibilidade de que
alguma pessoa de bem, amiga de Cristo, morra sem ter alcançado o grau de maturidade espiritual
requerida para viver na comunhão imediata com Deus, havendo, portanto, a necessidade de uma
purificação após a morte. Imaginem uma pessoa que ama o Cristo, que vive nele, que tem uma vida
de Igreja... mas esta pessoa tem um vício, uma falha, uma má tendência que não consegue
superar. Ora, após a morte, certamente esta pessoa vai ter que ser purificada desta má tendência
que estava “colada” nela: é como a ferrugem que precisa ser raspada! É à luz dessa situação que a
Escritura apresenta e aprova o costume da oração pelos defuntos. Leia, por exemplo, 2Mc 12,40ss.
Vejamos também outros textos: “De outra maneira, o que pretendem aqueles que se batizam em
favor dos mortos? Se os mortos realmente não ressuscitam, por que se batizam por eles?” (1Cor
15,29). O Apóstolo, aqui, refere-se a uma rito existente na Igreja de Corinto de ‘fazer-se batizar
pelos mortos”. Parece que os fiéis esperavam que um batismo no lugar dos mortos favoreceria os
membros pagãos de suas famílias que já haviam falecido. Ou então, o batismo no lugar dos
catecúmenos falecidos antes do batismo. Paulo nem aprova nem desaprova tal prática... O que nos
interessa aqui é a convicção que Paulo mostra de que certas ações litúrgicas, certas orações da
Igreja, poderiam ser proveitosas aos mortos! Isso aparece claro! “O Senhor conceda sua
misericórdia à família de Onesíforo, porque muitas vezes me socorreu e não se envergonhou de
minhas algemas. Pelo contrário, quando veio a Roma, procurou-me com solicitude até me
encontrar. O Senhor lhe conceda a graça de obter misericórdia junto ao Senhor naquele Dia. Sabes
melhor do que ninguém, quantos bons serviços prestou ele em Éfeso (2Tm 1,16-18). Segundo os
indícios, Onesíforo está morto e Paulo intercede por ele, suplicando a misericórdia do Senhor. Em
outras palavras, Paulo reza por um morto!
Concluindo, está presente na Escritura a oração pelos mortos, que a Igreja conheceu e
praticou constantemente. Também a Tradição mais antiga da Igreja atesta abundantemente o
costume de rezar pelos mortos litúrgica e privadamente. Tais testemunhos encontram-se
particularmente nas catacumbas e cemitérios. Pense-se, por exemplo, na famosa inscrição
encontrada sobre o túmulo de um cristão chamado Abércio, no início do cristianismo. Aí lê-se: “...
quem compreende e está de acordo com estas coisas, rogue por Abércio”. Tertuliano, no século III,
atesta largamente o costume de orar pelos defuntos pública e privadamente, inclusive oferecendo
por eles a Eucaristia. Ele diz claramente que a viúva “ora pela alma (do marido)... e oferece um
sacrifício em cada aniversário de sua morte”. Assim, é claríssimo o costume da oração pelos mortos
nos quatro primeiros séculos cristãos. Um texto que teve particular importância para o nosso tema
foi o de São Cipriano, bispo de Cartago no século III. Explicando uma frase de Cristo, ele diz o
seguinte: “Uma coisa é não sair o encarcerado até pagar o último centavo e outra é receber sem
demora o prêmio da fé e do valor. Uma coisa é purificar-se dos pecados pelo tormento de grandes
dores e purgar muito tempo pelo fogo... e outra, ser coroado logo pelo Senhor”. Cipriano aqui
refere-se aos que fugiram do martírio nas perseguições: para aqueles que não puderam se purificar
antes da morte ou pelo martírio, haverá um “fogo purificador”, fogo purgatório. Aqui aparece pela
primeira vez um testemunho explícito da convicção deste estado purgatório. Mas, notemos que a
expressão “fogo purgatório” é, metafórica.
Desde então, vai aparecendo cada vez mais claro para os cristãos:
(1) a existência de um estado no qual os defuntos são purificados,
(2) o caráter penal-expiatório deste estado e
(3) a ajuda que os sufrágios, as orações dos vivos podem dar aos defuntos.
Afinal, como devemos entender o purgatório? Vamos partir de uma belíssima imagem do
Apocalipse, que descreve o Cristo ressuscitado: “Os olhos eram como chamas de fogo. Os pés,
semelhantes ao bronze incandescente no forno, e a voz, como a voz de muitas águas” (Ap 1,14b-15
cf. Dn 10,6).
Morrer é partir para estar com Cristo, para encontrar aquele que “tem os olhos de fogo”,
quer dizer, que nos vê como somos. No nosso encontro com ele, este fogo do seu olhar amoroso,
fogo que é o próprio Espírito Santo, nos purificará: tudo aquilo que em nós foi “poeira do caminho”,
aquelas pequenas coisas que ainda nos atrapalhavam e impediam que fôssemos totalmente livres,
serão “queimadas”, purificadas no abraço final que Cristo nos dará! Então, compreendamos bem: o
purgatório não é um lugar, nem está entre o céu e o inferno! O purgatório é a purificação que
recebemos logo após a nossa morte, quando o abraço amoroso de Cristo nos envolve no fogo do seu
amor! A gente passa pelo purgatório logo após a morte, caso ainda tenhamos aqueles apegozinhos,
aquelas escravidõezinhas, aqueles pecadinhos de estimação.... Cristo completará em nós a obra
começada. Mas, atenção: não é que a gente vai se converter depois da morte! Nada disso! Com a
morte acaba nossa possibilidade de escolha: o purgatório é para quem escolheu o Cristo, viveu com
ele, mas ainda tinha as pequenas incoerências de cada dia! Quem escolheu viver longe de Cristo não
experimenta o purgatório, mas, ao contrário, viverá para sempre na contradição. Vimos isso quando
falamos sobre o inferno!
E as famosas penas do purgatório? Tratam-se simplesmente da dor, do sofrimento por ver
que não amamos o bastante o Senhor. Quem é amado e descobre que não correspondeu a este
amor como devia, sofre! Assim, o sofrimento do purgatório não é algo que Deus nos impõe, mas
algo que vem da nossa própria imperfeição, da dor de não ter amado o bastante.
E para que rezar pelos mortos que passam por este estágio purgatório? Já vimos que a
Bíblia atesta a oração pelos mortos: trata-se de uma expressão belíssima da solidariedade dos
membros do Corpo de Cristo: os mortos não cumprem seu destino de modo solitário, mas inseridos
no Corpo do Senhor. A Igreja da terra está unida à Igreja que se purifica: o amor de Cristo nos
uniu! Inseridos no Corpo de Cristo pelo Batismo, jamais estamos isolados, jamais estamos sozinhos!
Mais ainda: neles, a Igreja mesma se purifica para ser Igreja glorificada!
Uma última questão: se o purgatório acontece imediatamente após a morte e ninguém
“fica” no purgatório, mas “passa” logo e pronto, para quê, então, rezar pelos mortos? É que para
Deus não há tempo; tudo para ele é presente: a oração que fazemos hoje serve para um irmão
nosso que já morreu há cem anos!
Assim, rezemos pelos nossos mortos. Às vezes a gente escuta dizer na missa: “pelas almas
do purgatório...” O que significa isso? Simplesmente: “pelos nossos irmãos que se purificam...”
Rezamos para que sintam nossa solidariedade, já que a Igreja é a comunhão dos santos (=dos
batizados), todos unidos no Corpo de Cristo ressuscitado.
É muito errado fantasiar o purgatório, pensando que é um lugar, ou que lá se está sofrendo
castigos, ou que alguém fique lá por uns tempos... Na outra vida não há tempo como aqui, nesta
vida! Cuidado com as afirmações tolas e infantis!
Uma coisa é certa: somente purificados de nossas incoerências poderemos estar com
Aquele que é a Verdade. Se não arrancarmos nossos pecadinhos de estimação aqui, o Senhor vai
arrancá-los no momento de nosso encontro com ele! E que dor saber que não fomos generosos o
bastante! É isto - e só isto - que a Igreja quer dizer quando fala em purgatório!
Com isto terminamos nossos tópicos de escatologia. Espero que tenham servido para
esclarecer melhor nossa esperança em Cristo e nossa fé católica! Obrigado a você que me
acompanhou ao longo destes artigos neste site.
Anjos, Diabo, demônios: o que a fé da Igreja ensina sobre eles? – I

Vivemos num mundo bastante contraditório, cheio de paradoxos: de um lado, a tecnologia


tão espetacularmente desenvolvida, lavando boa parte da humanidade à miopia do materialismo e
ao ateísmo. Há tantos e tantos, coitados, que pensam que a ciência é tudo e que nada mais existe
fora da matéria e deste mundo físico: vale e é real somente aquilo que é palpável, mensurável,
compreensível! Mas (êta mundo doido!), de outro lado, constatamos o renascimento de um certo
misticismo, de um gosto pelo religioso, o misterioso e sobrenatural, só que de um modo mítico,
mágico, ingênuo. Isso mesmo: uma religiosidade muito parecida com aquela das religiões pré-
cristãs, cheia de anjos, demônios, duendes, espíritos e toda esta parafernália mítica e mágica! E,
infelizmente, tanto um erro (o materialismo e o ateísmo) quanto o outro (a religiosidade mágica e
simplória, quase pagã) tentam os cristãos. Temos hoje discípulos de Cristo extremamente
racionalistas e outros, extremamente crédulos, com uma visão ingênua e tola de Deus e de tudo
aquilo que diz respeito à fé.
É neste contexto que decidi, por sugestão de um padre amigo, dedicar alguns artigos àquilo
que a fé católica, à luz da Palavra de Deus e da Tradição, afirma sobre os anjos e os demônios. Não
é um tema fácil de ser abordado. Vamos seguir o Catecismo e o Magistério eclesial e aprofundá-los
com aquilo que a teologia tem de mais recente na sua reflexão sobre este tema.
A primeira coisa que deve ficar bem clara é que a doutrina sobre os anjos e demônios não
faz parte da essência, do núcleo do cristianismo. O centro da nossa fé não é o Diabo ou os anjos,
mas Jesus morto e ressuscitado. Se tivéssemos de dizer que os anjos e os demônios não existem,
em nada a fé cristã seria afetada! No cristianismo a importância das várias afirmações de fé
depende do grau de ligação que tenham com o mistério do Senhor Jesus morto e ressuscitado.
Então, não se deve supervalorizar a doutrina sobre os anjos e os demônios! Cada coisa no seu lugar
e com a sua devida importância. São Paulo já prevenia os Colossenses neste sentido: “Ninguém vos
prive do prêmio, com engodo de humildade, de culto dos anjos, indagando de coisas que viu...
ignorando a Cabeça, Cristo... (Cl 2,18s).
Ainda mais, há alguns pontos que devemos deixar logo assentados, para começar o nosso
tema: (1) Deve-se evitar todo antropomorfismo a respeito dos anjos, com base na nossa realidade
espácio-temporal. Em outras palavras: não se deve nem se pode imaginar os anjos como os seres
humanos. Eles não são humanos, não têm aparência humana nem estão sujeitos ao tempo e ao
espaço do modo que nós estamos. Seu modo de existir é diverso do nosso! Quando a própria
iconografia mostra os anjos com asas, é para nos recordar isso: eles são de outra natureza, diversa
da nossa: não são humanos! (2) Também é indispensável recordar que quando as Escrituras falam
nos anjos ou nos demônios, é necessário levar em conta os gêneros literários e o rico simbolismo
que envolve tantas vezes a figura destes seres. Então, cuidado para não se tomar tudo
simplesmente ao pé da letra! As conclusões seriam ridículas! Querem exemplos? Aquele demônio,
apaixonado por Sara e que foge com o cheiro da fumaça do fígado e do coração do peixe (cf. Tb 2,8;
6,14-18); outro exemplo: os querubins com espadas de fogo, que Deus coloca à porta do paraíso
(cf. Gn 3,24). Nestes dois casos – e em vários outros – tratam-se de símbolos. Demônio não se
apaixona nem tem medo de fumaça e querubim não tem espada, nem o paraíso tem porta. A
Escritura usa, aqui, uma belíssima linguagem poética e simbólica. (3) Os anjos devem ser
considerados sempre como espíritos criados, finitos, limitados, pessoais e autoconscientes,
pertencentes a este mundo criado por Deus, dele fazendo parte e sendo parte dele. Os anjos não
são divinos, não são pequenos deuses! São criaturas e pertencem a este mundo criado por Deus.
(4) Os anjos não são autônomos, não podem ser pensados por si mesmos; segundo a Escritura, eles
somente podem ser compreendidos em relação com Deus: estão sempre a seu serviço e só
aparecem na Escritura em função do plano de salvação de Deus para a humanidade e para toda a
criação. Somente nos interessa a respeito dos anjos aquilo que tem a ver com o plano de salvação
de Deus. Saber mais que isso seria vã curiosidade e fazer teologia da besteira! (5) Como criaturas,
os anjos existem através de Cristo e para Cristo e somente nele encontram o sentido de sua
existência e de sua missão. Também os anjos foram salvos por Cristo, pois somente através de
Cristo podem ter acesso à vida de Deus Pai na potência do Espírito Santo. Cristo é Cabeça dos anjos
e a graça na qual os anjos foram criados é graça de Cristo, através de quem e para quem tudo foi
criado no céu e na terra (cf. Jo 1,3; Cl 1,15ss). Por extensão, é necessário também afirmar que eles
são e vivem somente no Espírito do Cristo ressuscitado e somente nele podem encontrar sua
plenitude como criaturas, que consiste na comunhão com Deus e com toda a criação! (6) Assim
sendo, o modo correto de pensar sobre os anjos e demônios é ligando-os a este mundo criado, já
que por sua essência os anjos pertencem ao cosmo e compartilham com o homem a única e mesma
história da salvação em Cristo Jesus. A angelologia mostra que o homem se encontra numa
comunidade de salvação e de perdição mais ampla que a própria humanidade; desta mesma criação
a ser salva em Jesus Cristo, os anjos fazem parte. Se o homem é o cume do mundo visível, nem por
isso pode pensar que é o centro da criação ou seu ponto mais alto.
Vamos adiante! Deixemos logo claro que “a existência de seres espirituais, que a Sagrada
Escritura chama habitualmente de anjos é uma verdade de fé” (Catecismo da Igreja Católica, 328).
Então, a Igreja crê firmemente que, além dos seres humanos, Deus criou outros seres inteligentes e
livres, invisíveis ao nosso mundo, mas também chamados a amar e servir a Deus. Um católico não
deve negar a existência dos anjos! Mas, o que a Sagrada Escritura ensina sobre eles?
Apesar dos textos bíblicos não afirmarem explicitamente a criação dos anjos, estes
aparecem simplesmente na história da salvação como criaturas de Deus, de modo particular como
seus mensageiros (= malak, em hebraico e angelos, em grego) e realizadores de sua vontade.
Então, a palavra “anjo” não indica uma natureza, não quer dizer o que estes seres são em si, mas
sim a função que eles têm em relação à humanidade: “são espíritos destinados a servi , enviados
em missão para o bem daqueles que devem herdar a salvação” (Hb 1,14). Para a Bíblia, os anjos
somente têm interesse enquanto estão a serviço da nossa salvação. Aqui já fica de fora toda aquela
especulação boba que a Nova Era faz sobre os anjos! Tudo isso não passa de paganismo barato!
Não confundamos os anjos como os cristãos entendem com os espíritos das outras religiões ou os
orixás dos cultos afros! Nada a ver! Para nós, os anjos não têm uma ação independente, não fazem
simplesmente o que querem, mas estão debaixo das ordens de Deus e como todas as criaturas eles
foram criados para Cristo, de modo que ele é seu Cabeça e Senhor (cf. Cl 1,16): Cristo está acima
de todos os anjos (cf. Hb 1,5).
No Antigo Testamento, o Senhor Deus é apresentado muitas vezes como se fosse um
soberano oriental com sua corte. É um modo simbólico de representar Deus naquele tempo. Neste
contexto, os anjos aparecem como servos (cf. Jó 4,18), santos (cf. Jó 5,1; 15,15; Sl 89,6; Dn 4,10)
ou filhos de Deus (cf. Sl 29,1; 89,7). São chamados, por sua missão, “mensageiros” (cf. Gn 19,1;
28,12; 32,2; Sl 103, 20), por sua figura ou aparência, “homens” (cf. Gn 18,2.16; 19,12.16), por sua
relação com o Senhor Deus, “príncipes dos exércitos celestiais” (cf. Js 5,14) ou “senhores do céu”
(cf. 1Rs 22,19). São todos títulos simbólicos, que devemos usar com cuidado e não ao pé da letra!
Há também referências aos querubins (cf. Sl 80,2; 99,1; Ez 10,1s; Sl 18,11; Gn 3,24) e aos serafins
– cujo nome significa “ardentes” – que cantam a glória do Senhor (cf. Is 6,7). Os querubins e
serafins não são anjos no sentido originário da palavra; por isso no início não recebiam o nome de
“anjos”. Somente aos poucos, no judaísmo tardio, foram incluídos no grupo de seres designados por
anjos. Ao lado desses enigmáticos mensageiros, os relatos bíblicos mais antigos falam no “Anjo do
Senhor” (cf. Gn 16,7; 22,11; Ex 3,2; Jz 2,1) que não é diverso do próprio Senhor Deus, manifestado
na terra de modo visível (cf. Gn 16,13; Ex 3,2). Parece que esse “Anjo do Senhor” é um modo
respeitoso que a Bíblia tem de falar do próprio Deus, sobretudo nos textos mais antigos. À medida,
porém, que a revelação bíblica foi progredindo, o papel desse “Anjo do Senhor” vai sendo sempre
mais atribuído aos anjos, mensageiros de Deus. Os anjos são descritos de modo geral pela Escritura
Sagrada, como seres incorpóreos (cf. Tb 12,19; Gn 18,9; Sl 78,25; Sb 16,20), por isso não
poderiam ser percebidos pelos seres humanos. Além de mensageiros de Deus junto aos homens (cf.
1Cr 21,18; Jó 33,23; Tb 3,17; Dn 14,33) e seu protetores (cf. Dn 3,49; 6,23), acreditava-se que os
anjos falassem a Deus em favor dos homens (cf. Jó 33,23s; Tb 12,15). Em resumo, o Antigo
Testamento afirma claramente a existência dos anjos, mas não apresenta nenhuma reflexão teórica
sobre eles. Seu número é muito grande e eles constituem uma espécie de séquito de Deus, sujeitos
ao seu domínio universal. Executam os serviços que Deus lhes confia tanto em cada homem quanto
na totalidade do povo (cf. 1Cr 21,18; Tb 3,17; Dn 14,22). Mencionam-se somente os nomes de
Miguel, Gabriel e Rafael. Qualquer outro nome de anjo é fora da revelação bíblica!
No Novo Testamento também se fala dos anjos como mensageiros celestes, a serviço da obra
de Cristo: toda a obra dos anjos aparece, então, relacionada ao Senhor Jesus e à realização da
salvação por ele trazida. Eles transmitem aos homens as incumbências divinas; quando aparecem,
apresentam-se normalmente como jovens com brilhantes vestes brancas (cf. Mc 16,5; Mt 28,3; Lc
24,4; Jo 20,12; At 1,10). Grande é seu número (cf. Mt 28,53; Hb 12,22; At 5,11; Mt 22,30; 26,53;
Lc 12,8s; 1Tm 5,21; Hb 12,22; 1Pd 3,22; Hb 12,22ss). Acompanham especialmente os
acontecimentos da vida de Cristo desde o seu início até sua consumação: o Anjo do Senhor, que em
Lucas se chama Gabriel, predisse o nascimento e a missão de João Batista (cf. Lc 1,11-12); o
mesmo anjo transmite a Maria a mensagem de que há de ser Mãe de Deus (cf. Lc 1,26ss); o Anjo
do Senhor tranqüiliza José a respeito do que o Espírito Santo produziu em Maria (cf. Mt 1,20-25);
também foi um anjo quem anunciou aos pastores o nascimento de Jesus e uma multidão de anjos
louva a Deus por sua benevolência, às portas de Belém (cf. Lc 2,9-15). É ainda o Anjo do Senhor
quem aconselha a José a fuga para o Egito com Maria e o menino e, passado o perigo, transmite-lhe
a nova ordem de voltar (cf. Mt 2,13.19s). Anjos servem a Jesus quando este, levado pelo Espírito ao
deserto, permanece ali quarenta dias em jejum (cf. Mc 1,13; Mt 4,11). O Pai podia enviar a Cristo
mais de doze legiões de anjos, se o Filho lhe pedisse, para livrá-lo do sofrimento que sobre ele caiu
no Jardim das Oliveiras. Mas como se cumpriria então a Escritura? (cf. Mt 26,53). Um anjo aparece
a Cristo em sua angústia mortal e o conforta (cf. Lc 22,43). Quando as mulheres, na manhã da
Páscoa, encontram o sepulcro vazio e ficam confusas, homens com vestes brilhantes aparecem
diante delas e lhes anunciam a ressurreição do Senhor (cf. Mc 14,5s; Lc 24,1-7). A estes Mateus e
João dão o nome de anjos (cf. Mt 28,2; Jo 20,12). Todos os anjos acompanharão o Senhor quando
vier para o julgamento do mundo (cf. Mc 8,38; Mt 25,31; 26,27). O Filho do Homem enviará seus
anjos com estrépito de trombetas, e eles ajuntarão os eleitos dos quatro ventos, de extremo a
extremo do céu (cf. Mt 13,31.39ss.49; 24,31; Mc 13,27).
Segundo o testemunho de Cristo, as crianças têm os seus anjos no céu (cf. Mt 18,10). O
próprio Cristo, como Filho de Deus, está acima de todos os seres angélicos, tanto antes da
encarnação como depois de sua exaltação à direita de Deus (cf. Mc 13,27; Ef 1,20s; CI 1,16; 12.10;
Hb 1,5-14; 2,1-9; 1Pd 3,22). Segundo o desígnio divino, a Igreja criada por Cristo notificará aos
anjos a salvação dos homens (cf. Ef 3,10; 1Tm 3,16). Os anjos alegram-se de que os homens se
convertam a Deus (cf. 1Pd 1,12). O Apocalipse de João expõe o grande papel que os anjos
desempenham na história da salvação.
Já vimos o que o Antigo e o Novo Testamento dizem sobre os anjos. É certo que o Novo
Testamento acolheu do Antigo a convicção da existência dos anjos e, ao que parece, o próprio Jesus
compartilhou de tal convicção, que aliás, não era unânime na sua época (cf. At 23,8). Isto é
importante: os saduceus, por exemplo, não aceitavam a existência deles; Jesus, no entanto, como
os fariseus, aceitava e ensinava sobre os seres angélicos. Não é possível, então, dizer que Jesus
estava simplesmente adaptando-se à mentalidade do seu tempo: nem todos acreditavam em
anjos... e, no entanto, Jesus afirmou a existência deles!
São Paulo, nos seus escritos, segue a convicção do Senhor, e cita também outros grupos de
seres celestes: virtudes (cf. Rm 8,38; 1Cor 15,24; Ef 1,21), potestades (cf. 1Cor 15,24; Ef 1,21, Cl
1,16), principados (cf. Rm 8,38; 1Cor 15,24; Ef 1,21; Cl 1,16), dominações (cf. Ef 1,21; Cl 1,16) e
tronos (cf. Cl 1,16). Não se estabelece a diferença entre eles; parece que Paulo simplesmente aceita
a crença corrente no mundo helênico e julga tais seres a partir de Cristo: se existem, foram criados
através de Cristo e para Cristo; se são adorados e cultuados pelos pagãos, Paulo os trata como
demônios e os reduz a nada (cf. 1Cor 15,24; Ef 6,12; Cl 2,15). O importante é a primazia absoluta
de Cristo. Por isso mesmo, neste contexto, o culto dos anjos é reprovado (cf. Cl 2,18).
Concluindo o que diz respeito aos dados bíblicos, poderíamos afirmar o seguinte:
(1) A Escritura afirma a existência dos anjos. A revelação bíblica sobre eles tem sempre uma
preocupação com o homem: a Bíblia fala de Deus não primeiramente para revelar quem ele é, mas
o que faz em nosso favor: o quanto ele é para nós. Ora, o envio dos anjos é apenas um momento
deste voltar-se de Deus para o homem e o nosso mundo: eles estão a serviço da salvação (cf. Hb
1,14). É unicamente deste ponto de vista que a Escritura trata dos anjos: enquanto eles servem ao
plano de Deus para a nossa salvação. É totalmente ausente da Revelação qualquer tipo de
especulação sobre os seres celestes. Seria, então, ímpio e descabido, além de pura perda de tempo,
as especulações, como a de muitas seitas ou de correntes de Nova Era.
(2) Servindo ao plano de Deus, a Escritura mostra-nos sempre os anjos em relação à glória
da Deus: o Anjo de IHWH evoca a presença amável do Deus de Israel na história, despertando
adoração, louvor, ação de graças. Os querubins exprimem a grandeza e onipresença de IHWH; os
anjos na liturgia celeste são constante convite ao louvor e à adoração. Assim a angelologia está em
função da teologia: só a Deus o louvor e a glória! É preciso, então, que a atenção aos anjos nem de
longe concorra com a centralidade de Cristo, o Filho de Deus, nosso único Senhor.
(3) Os nomes dos anjos, mais que exprimirem uma individualidade deles próprios,
comunicam uma qualidade de Deus: sua força (Gabriel = força de Deus), sua unicidade (Miguel =
quem como Deus?) e seu cuidado compassivo (Rafael = cura de Deus). O vulto dos anjos é análogo
ao vulto dos mártires da Igreja: resplandecem da glória que contemplam... que não é outra que a
glória de Cristo, Senhor e Salvador de tudo quanto foi criado, inclusive dos anjos!
(4) Todos os textos do Novo Testamento sobre os anjos devem ser vistos num estreito
vínculo com o evento Cristo, em relação à sua encarnação, sua presença operante na Igreja e sua
vinda na glória: somente como servos de Cristo e de seus discípulos é que os anjos aparece no Novo
Testamento.
(5) O serviço dos anjos a Cristo continua no serviço à Igreja e na Igreja (cf. At 5,20; 12,11;
8,26-29; 10,3; 1Cor 4,9). A sua colaboração no caminho histórico da humanidade continuará até
que venha a Parusia do Senhor.
Vejamos, agora, brevemente, o que a Igreja, guiada pelo Espírito Santo do Senhor Jesus e
refletindo sobre a Palavra de Deus, ensinou sobre os anjos. Muitos dos antigos Santos Padres
falaram sobre eles. Mas o documento mais importante do magistério sobre o assunto é do IV
Concílio do Latrão, em 1215: “(O Deus uno e trino é) único princípio do universo, criador de todas
as coisas visíveis e invisíveis, espirituais e materiais, que com a sua força onipotente desde o
princípio do tempo criou do nada uma e outra ordem de criaturas: as espirituais e as materiais, isto
é, os anjos e o mundo terrestre, e depois o homem, como participante de um e de outro, composto
de alma e corpo”. O Concílio Vaticano I reafirmou a doutrina do Concílio Lateranense, citando-o
textualmente. Outro texto significativo é o Credo do Povo de Deus, professado pelo Papa Paulo VI
em 1972, no encerramento do Ano da Fé: “Cremos em um só Deus, Pai, Filho e Espírito Santo,
Criador das coisas visíveis, como este mundo, onde se desenrola a nossa vida passageira; Criador
das coisas invisíveis, como os puros espíritos, que também denominamos Anjos...”
Depois de tudo quanto vimos até aqui, deve ficar claro que um católico não pode duvidar da
existência de seres inteligentes e livres criados por Deus, além do homem. Isso seria uma
temeridade, pois negaria a Escritura, a própria convicção do Senhor Jesus e a constante Tradição da
Igreja. Deve-se estar atento que a existência dos anjos – ou a sua não-existência jamais poderiam
ser demonstradas cientificamente. Somente pela fé na Revelação sabemos que além de nós,
humanos, o Senhor criou um mundo invisível, no qual também seres inteligentes e livres são
chamados à comunhão de amor com Ele, o Deus Uno e Trino, e com toda a criação. Por outro lado,
é também contrária ao sentir da Igreja e a uma fé madura, uma visão infantil dos anjos. A própria
liturgia da Igreja nos dá a justa medida do lugar e do culto desses seres criados por Deus. Na
liturgia há somente duas festas que os recordam: a solenidade dos arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael
e a memória dos anjos da guarda. Além do mais, de modo discreto, vários textos da Santa Missa
citam os anjos, sobretudo os prefácios da Missa.
Para concluir, vejamos algumas afirmações da teologia, com o intuito de refletir de modo mais
detalhado sobre os seres angélicos. Recordemos que são pontos da teologia, importantes, mas não
necessariamente obrigatórios para o católico.
Quanto à essência angélica, a doutrina mais antiga afirmava que eles tinham um corpo
sutil, diverso do nosso não somente no aspecto, como também no tipo, no modo de ser dessa
matéria, de tal forma que não poderíamos imaginar como é um anjo. Hoje, a opinião mais comum
entre os teólogos é a favor da pura espiritualidade angélica, apesar de haver teólogos que ainda
sustentam a opinião em favor de uma corporeidade sutil. O magistério eclesial não tem nenhum
pronunciamento dogmático sobre este tema particular, podendo os fiéis opinarem livremente sobre
o tema.
Quanto à personalidade dos anjos, pelo que se pode compreender da revelação bíblica, eles
possuem um “eu” pessoal, ou seja, têm uma vida consciente, autodomínio e são capazes de
relacionar-se com Deus, com os outros anjos e com a humanidade. A tradição eclesial refuta reduzi-
los a simples forças ou qualquer coisa do gênero: eles são “eus” reais. Como nome de anjos devem
ser usados somente os três que ocorrem na Escritura: Miguel, Rafael e Gabriel. A Igreja também
rejeita que os anjos tenham responsabilidade de dirigir os fenômenos da natureza, como os orixás
dos cultos afros. Que todo homem tenha um anjo da guarda não é até agora definido pelo
Magistério, mas esta é opinião comum da Igreja desde os tempos antigos. Portanto, é prudente
afirmar a existência dos Anjos da Guarda. No que concerne à questão se os anjos estão agrupados
em ordens distintas, não há nenhum pronunciamento normativos da Igreja sobre o tema e não se
deveria especular sobre isso.
Quanto à questão do conhecimento angélico, sem querer entrar em especulação, podemos,
seguindo a Escritura, afirmar um modo de conhecimento superior ao nosso por parte dos anjos. A
Escritura exprime tal convicção ao descrevê-los cobertos de inumeráveis olhos, como que afirmando
que toda a sua essência é ver. Entretanto, os anjos são limitados e, como tais, não penetram nem
as profundezas de Deus (cf. 1Cor 2,10) nem as profundezas do homem: este tem uma esfera íntima
escondida aos próprios anjos. Sendo finitos, podemos pensar que os anjos podem crescer na sua
ciência em relação à historiada salvação. Os anjos não sabem tudo nem podem tudo!
Ligada a este saber superior está também sua vontade: por ser muito mais penetrante que a
nossa e por sua força de conhecimento, eles tomam suas decisões de modo simples e total, tendo
consciência de todas as conseqüências de seus atos, de modo que suas escolhas são irrevogáveis
nas suas opções: um anjo não pode se arrepender em suas decisões.
Finalmente, quanto à oração aos anjos, os cristãos e toda a Igreja os invocam, já que eles,
como os santos, fazem parte da única comunidade de salvação, reunida e vivificada no Espírito
Santo do Cristo morto e ressuscitado. Os anjos rezam por nós e nós podemos rezar para eles, como
fazemos para os santos de Cristo.
Concluindo, não poderíamos deixar de salientar mais uma vez que as afirmações dos
cristãos sobre os anjos haverão de ser sempre fundamentadas e limitadas pela Escritura Sagrada,
sem se perder em especulações que a fariam descambar para o mito, a crendice e o esoterismo. É
necessária também certa reserva em relação a algumas opiniões excessivas dos antigos Padres da
Igreja e de alguns teólogos, inclusive atuais. Ao se falar dos anjos é necessária modéstia: somente
podemos afirmar aquilo que a Escritura e a Tradição da Igreja autorizam! Um cristão que deseje ter
uma fé madura não mais pode atribuir aos anjos fenômenos que são deste mundo e podem, com
tranqüilidade, ter uma explicação natural, o que não significa negar-lhes a ação neste mundo. Como
quer que seja, as ciências nunca poderão provar a existência dos anjos e nós sabemos da sua
existência somente pela fé.
Se é verdade que a doutrina sobre os anjos não faz parte das doutrinas centrais da fé e não
deve ser demasiadamente enfatizada na pregação, é também verdade que tem seu sentido próprio,
pois ilustra a vontade de Deus de se comunicar aos homens em Jesus Cristo já a partir da criação. A
fé na existência e ação dos anjos leva-nos também a confessar o quanto é limitada a realidade vista
por nós e que o Reino de Deus é mais amplo que a realidade que conhecemos. Seria triste se
reduzíssemos a realidade e a criação àquilo que nós vemos e tocamos.
Uma coisa é certa: tudo foi criado através de Cristo e para Cristo e, como nós, somente nele tudo
encontra o sentido e a realização: “Jesus Cristo é a Imagem do Deus invisível, o Primogênito de
toda criatura, porque nele foram criadas todas as coisas, nos céus e na terra, as visíveis e invisíveis:
Tronos, Soberanias, Principados, Autoridades, tudo foi criado por ele e para ele. Ele é antes de tudo
e tudo nele subsiste” (Cl 1,15-17).
+++++
Depois de ter apresentado a fé da Igreja sobre os anjos, vamos fazer o mesmo para os
demônios. Se não é fácil falar equilibradamente sobre os anjos, bem mais difícil é apresentar nos
dias atuais, de modo sério e teologicamente consistente, o que a consciência da Igreja afirma sobre
o Diabo e os demônios. É importante, desde já, observar que, se a fé cristã crê na existência dos
anjos como criaturas livres, é plenamente compreensível a afirmação da Igreja que alguns desses
anjos tenham dito “não” ao chamado amoroso de Deus à comunhão com ele. Mas, atenção: nós
não devemos especular sobre o que teria sido este “não” a Deus. A Igreja não faz nunca tal
especulação! Uma coisa é certa: se tudo foi criado através de Cristo e para Cristo (cf. Cl 1,16) e se
Cristo é Cabeça dos anjos e dos homens, então a comunhão dos anjos com Deus ou a perda de
comunhão com ele somente pode acontecer através de Cristo e em Cristo. O “sim” ou “não” dos
anjos a Deus somente pode se dar em Cristo! Como foi este “sim” e este “não”, não sabemos. A
Escritura não é um conjunto de livros para matar nossa curiosidade, mas a revelação de Deus para a
nossa salvação; nela é revelado somente aquilo que é importante para o nosso “sim” a Deus. Uma
coisa é certa: não se deve pensar no Diabo e nos demônios como seres iguais a Deus em poder ou
como seus concorrentes poderosos. O Diabo somente existe porque Deus o criou e permite que ele
continue existindo. Os seres diabólicos são seres criados bons e que usaram mal a sua liberdade;
eles somente continuam existindo porque Deus continua a amá-los, já que o Senhor é fiel ao seu
amor e, uma vez tendo amado, não deixa nunca de amar: o seu nome é Fidelidade, o seu nome é
Amor! Então, quando a fé e a teologia cristãs falam sobre o Diabo e seus anjos não é para
amedrontar ou fazer especulações fantasiosas mas, ao contrário, para desmascarar o medo e a
importância que o mal possa dar ao mal (cf. Jo 12,31). Um cristão maduro e consciente não fica
fascinado pelo diabólico, amedrontado, vendo o Diabo em tudo, falando do Diabo o tempo todo,
fazendo exorcismo a cada momento! Isso seria superstição e desconhecimento do sentido do Cristo
e de seu senhorio! Em Cristo, o mal é desmascarado, perde seu segredo e sua aura apavorante:
Cristo é a luz que desmoraliza e desmascara o aparente poderio do mal: “Morte, onde está a tua
vitória? Morte, onde está o teu aguilhão?” (1Cor 15,55). A Morte aqui é o Inferno, o Maligno, o
Pecado! Somente Cristo é Vencedor e Senhor! Mais uma vez: é proibido ao cristão pensar o
demoníaco como um poder contrário a Deus, do mesmo nível que ele e com faculdades de entrar
em luta ou em diálogo com ele. O Diabo não tem diálogo nem comunhão com o Senhor Deus:
somente a criatura que vive na graça tem tal possibilidade de relação com Deus! Supervalorizar o
Diabo é desconhecer o senhorio de Cristo Jesus: ele não é um adversário do Diabo; ele, o Senhor, é
o Vencedor!
No Antigo Testamento os termos hebraicos “Satã” ou “Satanás” ou o grego “Diabo” (= aquele
que confunde, perturba, desconcerta, desorienta) indicam um ser espiritual malvado, muitas vezes
rodeado por muitos demônios que dele dependem e agem sob seu comando. As idéias a respeito do
Diabo e seus demônios foi evoluindo aos poucos nas Escrituras Sagradas. Por exemplo,
completamente subalterno a Deus, Satã já é apresentado no livro de Jó como uma vontade hostil
não ao próprio Deus, mas ao homem: ele não acredita no amor desinteressado (cf. Jó 1-3). Em Zc
3,1-5 ele já é apresentado como verdadeiro adversário dos desígnios do amor de Deus para com
Israel. Em 2Cr 21,1, a peste, que na concepção mais antiga era tida como obra do Senhor, é
atribuída a esse instrumento da catástrofe e da destruição que já possui um nome próprio - Satã.
Em Sb 2,24 é dito claramente que a entrada da morte no mundo deveu-se à inveja do Diabo! Mais
tarde, nos escritos do povo judeu e nos ensinamentos dos rabinos um pouco antes do nascimento
de Jesus, no período chamado judaísmo tardio, Satã era apresentado como inimigo e sedutor do
homem e se esperava a sua derrota no final dos tempos. Satã era visto como alguém que age mal e
tem ódio pelos homens; era considerado o príncipe dos espíritos maus (os demônios), de modo que
o homem deveria saber distinguir entre os anjos do Senhor e os de Satã. No escrito apócrifo sobre a
vida de Adão e Eva, Satã aparece como o tentador que fala através da serpente do Paraíso. Quando
Adão pergunta o motivo de seu ódio pelos homens, ele responde que Miguel o expulsou do céu
porque se recusara a adorar o homem, imagem de Deus.
O Novo Testamento serve-se freqüentemente das idéias do judaísmo, muitas vezes numa
linguagem simbólica, para chamar atenção sobre a urgência de abrir-se para o Reino de Deus
trazido por Jesus, expulsando de nossa vida e da vida do mundo o Reino de Satanás: ódio, morte,
violência, prepotência e todo o poder do mal moral no mundo.É muito importante compreender que
a essência dos textos do Novo Testamento é o anúncio da salvação; os textos que falam de Satanás,
são uma advertência para a necessidade e a urgência de decidir-se pelo Reino de Deus! Então, os
textos que falam sobre Satã e os demônios jamais podem ser considerados como tendo a mesma
importância dos textos que anunciam a salvação: eles são simplesmente o contraponto que alerta
para a responsabilidade humana e a possibilidade concreta que temos de dizer um “não” a Deus!
Nos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), o diabo é chamado “o Inimigo” (cf. Mt 13,36; Lc
10,19) e “o Maligno” (cf. Mt 6,13; 13,19.38) e, nos escritos joaninos, ainda mais intensamente, o
Diabo é denominado “o Príncipe deste mundo” (cf. Jo 12,31; 14,30; 16,11; 17,15; 1Jo 2,13s; 5,18)
e, portanto, o Adversário da obra da redenção do Filho encarnado (cf. 1Jo 3,8; 3,10). A própria vida
e missão de Jesus são apresentadas como uma luta contra Satanás e seu reino: o objetivo de Jesus
é a vitória do homem sobre o Diabo, reduzindo-o à impotência.
A Escritura fala em Diabo, Satanás, por um lado, e sempre no singular e, por outro, refere-se
aos demônios, também no plural. Que pensar desses demônios? Quem são? Separemos o teológico
do mitológico, próprio das culturas antigas!
Era comum a crença em demônios nas culturas do antigo Oriente. Culturas pré-científicas,
davam uma feição pessoal a inúmeras forças obscuras que se pensava presentes por trás dos males
que assaltam o homem: as várias doenças, sobretudo aquelas mentais, as forças da natureza, tudo
isso era personificado, sendo atribuído aos demônios. Praticavam-se, então, ritos mágicos, como
parte da medicina, para livrar as pessoas e controlar tais demônios: toda doença era atribuída a um
tipo de demônio.
No Antigo Testamento fala-se em demônio do deserto (cf. Lv 16,8-26), da noite (cf. Is
34,14),do meio-dia (cf. Sl 91,6) e outros tantos demônios nocivos (cf. 2Cr 11,15; Is 2,6; Sl 106,6),
exprimindo-se, assim, uma clara relação com a natureza. Observe-se que aqui a Escritura não
deseja ensinar uma doutrina sobre os demônios, mas simplesmente exprime as crenças populares
daquela época. É importante notar que a severa proibição da magia na Lei de Moisés tendia a excluir
a doutrina e a prática demonológicas em Israel. A crença nos demônios, portanto, não se refletia de
modo importante no Antigo Testamento, salvo em algumas alusões presentes na linguagem popular
e em algumas referências à superstição entre os hebreus (cf. Dt 32,17; Sl 106,37; Is 13,21; 34,14).
Os profetas protestaram energicamente contra uma visão pagã de tais demônios, na qual eles eram
tidos até mesmo como deuses. Além de não falar quase nada sobre demônios, quando fala neles o
Antigo Testamento afirma sempre que são subordinados ao Senhor Deus. Nesta linha o judaísmo os
vê como espíritos maus, identificados com os ídolos estrangeiros, capazes de seduzir o homem. A
literatura dos judeus extra-bíblica demonstra uma crença forte nos demônios e os via como anjos
decaídos. Em muitos aspectos tais crenças eram influenciadas pelos mitos da Mesopotâmia e da
Grécia. Os demônios eram também identificados com os filhos de Deus que casaram com as filhas
dos homens (cf. Gn 6,1-4), de cuja união teriam nascido os gigantes folclóricos da mitologia.
Acreditava-se que tais demônios são responsáveis pelas doenças e pelas desgraças. Eles estariam
organizados em um reino, sob um chefe chamado Mastema, Belial ou Satanás! Note-se bem que tais
crenças eram convicções populares e não doutrina teológica da Escritura! O Novo Testamento
adotou a linguagem do judaísmo da sua época, mas purificou-a, adaptando-a à sua missão: os
demônios são espíritos impuros que se opõem ao advento do Reino de Deus instaurado por Jesus
(cf. Mc 3,22-30); por isso ele os expulsa como sinal do Reino que começa a se fazer presente (cf. Lc
11,20). O ensinamento teológico é importante: onde entra o Reino de Deus que Jesus veio trazer, o
reino de Satanás e tudo aquilo que demoniza a vida do homem é expulso! A Páscoa de Jesus é
vitória que destruiu tais potências demoníacas (cf. 1Cor 15,23-28; Cl 2,15). Em outros textos
neotestamentários, as vítimas dos sacrifícios pagãos são imoladas aos demônios (cf. 1Cor 10,20s) e
os demônios são apresentados como espíritos sedutores, responsáveis por falsas doutrinas (cf. 1Tm
4,1); eles chegam mesmo a fazer maravilhas (cf. Ap 16,14), são chamados “anjos de Satanás” (cf.
Mt 25,41) e lhes está reservado o fogo eterno. Quanto aos principados, tronos, autoridades,
soberanias, dominações e autoridades (cf. Rm 8,38; 1Cor 15,24; Ef 1,21; 3,10; 6,12; 1,16; Cl 2,10)
são de difícil compreensão. O importante é que o Novo Testamento afirma diante deles o absoluto
primado de Cristo: se são perversos, foram subjugados por Cristo; se são bons, têm a Cristo como
cabeça e estão a seu serviço! Um cristão jamais valoriza os demônios ou se fixa neles, jamais vive
falando neles ou os teme: Cristo é o Senhor, Cristo é o centro de tudo e tudo que existe é a ele
submetido!
Aqui é necessário perguntar: até que ponto o Novo Testamento, ao falar em Satanás e em
demônios, utiliza uma linguagem simbólica da mitologia para personificar o mal? Satanás e seus
demônios são seres reais ou somente símbolos do mal e dos males presentes no mundo? Vamos
responder a isto mais adiante!
Antes, vejamos o que ensinaram os Padres da Igreja, aqueles santos doutores da Igreja
Antiga. O Diabo é chamado sobretudo Satanás, o Maligno, Lúcifer (o portador da luz; isto com base
numa exegese inexata de Is 14,12 e Jó 41,10). Metódio chama-o “faraó”, Basílio o denomina
“misantropo” (inimigo dos homens, ser anti-social) e muitos outros identificam-no com a serpente
de Gn 3 e 2Cor 11,3. No que diz respeito aos demônios, os Padre os consideram anjos decaídos,
vítimas do desejo de possuir as filhas dos homens. Quanto ao Magistério da Igreja, impelido pelos
erros dualistas dos hereges priscilianos, o Papa Leão I, ensinou em 447, que o diabo não é uma
substância originária saída de modo autônomo do caos: ele é criatura de Deus, essencialmente boa,
que fez mau uso de sua liberdade. Em outras palavras: o Diabo é criatura de Deus, essencialmente
bom, mas que se perverteu pelo mau uso de sua liberdade. Assim, ensinava Inocêncio III, o seu
pecado é estruturalmente igual ao dos homens: um ato de livre vontade: “Nós cremos que o Diabo
tornou-se mau não por predisposição, mas por livre escolha”. O Sínodo de Braga, em 561 já
ensinava igual doutrina e rejeitou a opinião segundo a qual o Diabo seria o responsável pelos
trovões, raios e temporais ou, ainda, pela formação do corpo humano no seio materno! Declaração
infalível da Igreja sobre o assunto é a do IV Concílio Lateranense em 1215: “O Diabo e os outros
demônios foram criados por Deus naturalmente bons e tornaram-se maus por sua própria culpa. E o
homem pecou por sugestão do Diabo”. A intenção do Concílio era condenar a heresia dualista dos
cátaros e albigenses: estes afirmavam que a matéria não é obra de Deus e que o Diabo e os
demônios também não são criaturas de Deus: eram perversos e incriados ou chamados à existência
por um princípio do mal anti-divino, independente de Deus. O ensinamento primário do concílio é
muito sóbrio: ele ensina que há um só princípio, um só criador de tudo quanto existe: Deus, criador
de todo o bem. O mal não vem de Deus, mas do mau uso da liberdade por parte da criatura. Assim,
afirma-se a qualidade positiva da criação: tudo que existe vem de Deus e é radicalmente bom!. O
concílio não diz nada sobre o número dos demônios, sobre sua culpa ou a extensão de seu poder.
Em outras ocasiões o Magistério pronunciou-se sobre o Diabo, mas somente de passagem: ele é o
soberano do império da morte e de todo o mal moral presente no mundo; ele é sujeito a uma
condenação perpétua.
Quanto ao modo de ação do Diabo e seus anjos no mundo, a teologia clássica e o Magistério
ordinário afirmam três modos diversos: (1) a tentação, que se faz à maneira de sugestão, que
desperta normalmente uma inclinação para o mal. Mas só há pecado quando a pessoa consente na
tentação; (2) a obsessão, ação diabólica apenas exterior, na qual a vítima é atormentada
fisicamente, sem que perca o domínio sobre os atos do seu corpo: um tipo de doença, de dor, de
mal-estar, que não apresenta causa natural, e (3) a possessão, na qual o demônio se serve do
corpo da pessoa, como esta mesma o faria: move-o, fala, atua, sem que o possesso consiga resistir
a isso, embora sua vontade permaneça inatingida. Convém ressaltar que não há nenhuma
declaração solene da Igreja sobre temas como a possessão e a obsessão.
Diante de tudo quanto já vimos nas Escrituras, nos Santos Padres e no Magistério da Igreja,
podemos perguntar: hoje em dia, com o desenvolvimento das ciências psíquicas, com o
desenvolvimento científico e tecnológico, tem sentido ainda pensar que o Diabo e seus demônios
sejam seres pessoais?
Alguns teólogos e estudiosos da Bíblia mostram-se hoje propensos a negar a existência
individual do Diabo: ele seria apenas uma manifestação concreta e simbólica do mal moral no
mundo, expressa numa cultura e numa linguagem pré-científicas pelos escritos do Novo
Testamento; seria apenas um modo mitológico para representar o mal presente no mundo, mal tão
forte e atuante , que ultrapassa a simples soma dos males individuais. Segundo esses estudiosos,
na atual sociedade científica pensar num ser não humano que é pervertido, perverso e perversor,
seria uma concepção ingênua, insustentável e desnecessária! Há outros teólogos mais moderados
que afirmam que ainda que o Diabo não exista como indivíduo, é absolutamente necessário
continuar falando nele, como símbolo do mal que ultrapassa a mera soma das opções negativas das
liberdades individuais e das maldades dos homens: o mal desencadeado pelo mau uso da liberdade
humana teria uma tal força e dinamismo que já não está mais sob o controle do homem, mas se
constitui uma realidade como que autônoma, independente de nossa vontade. Por isso seria
importante dar a este mal incontrolável, que ultrapassa as forças do homem, uma cara e um nome:
Diabo! Mas, que pensar de tais tentativas de compreender a questão do Diabo? São de acordo com
a Escritura e com o Magistério da Igreja?
Já vimos que, segundo a maioria dos teólogos, a existência dos anjos é verdade de fé
definida pela Igreja. Então, torna-se muito difícil negar a existência individual de Satã e seus anjos
sem ferir a fé eclesial! Como já foi dito anteriormente, se existem liberdades criadas além da
humanidade e se estas liberdades, apesar de superiores às do homem, são também limitadas,
finitas, então é necessário afirmar que tais liberdades são capazes de um “não” a Deus e é
plenamente lícito supor que algumas de tais liberdades tenham, efetivamente, respondido de modo
negativo a Deus, afastando-se dele de modo definitivo! É isto que de modo constante a Escritura
Sagrada e a Tradição da Igreja ensinam! O próprio Catecismo da Igreja reflete tal convicção: ”Por
trás da desobediência de nossos pais, há uma voz sedutora que se opõe a Deus. A Escritura e a
Tradição da Igreja vêem neste ser um anjo caído chamado Satanás ou Diabo... O Diabo e os outros
demônios foram criados naturalmente bons por Deus, mas por si mesmos se tornaram malvados”
(Catecismo, 391 – aí o texto cita o Concílio Lateranense IV). Assim, deve-se manter firmemente
como sendo parte da fé católica a afirmação da existência do Diabo e seus demônios. No entanto, é
necessária a moderação e um mais cuidadoso senso crítico nas afirmações que muitas vezes são
feitas sobre o Diabo e os demônios. Há grupos de cristãos que fazem tanta propagando do Diabo,
falam tanto em possessão e coisas do gênero, têm uma visão tão infantil e tola sobre estes temas,
que chegam perto da heresia! A fé não nos deve fazer tolos e infantis!
Aproveitando o pensamento de grandes teólogos da atualidade, gostaria de fazer algumas
observações sobre este tema. (1) Não se pode com tranqüilo desembaraço afirmar que Jesus, no
que diz respeito ao Diabo, simplesmente conformou-se à mentalidade do seu tempo: quer dizer, ele
falou no Diabo porque as pessoas acreditavam no Diabo, mas o Diabo mesmo não existiria! Ora,
nem todos na cultura judaica do tempo de Jesus aceitavam a existência de Satã: é o caso dos
saduceus (cf. At 23,8). Então, se Jesus falou sobre Satã, é porque queria realmente ensinar algo
sobre ele e prevenir-nos de sua ação nociva! (2) Comparando o Novo Testamento com o Antigo,
podemos ver como que um aumento enorme da ação do Diabo, sobretudo no ministério de Jesus!
Por quê? Porque quanto mais o homem está próximo a Deus, tanto mais torna-se realista, lúcido e
com mais clareza distingue e experimenta o que é santo; em contrapartida, consegue desmascarar
o engano do Diabo: ali, onde ninguém vê o mal porque o mal está mascarado, ele consegue
enxergá-lo e desmascará-lo. Ora, é precisamente esta a realidade trazida por Cristo: ele é a Luz;
com ele as Trevas são desmascaradas e dissipadas! Por isso manifestam-se em toda a sua força: “É
a vossa hora e o poder das Trevas” (Lc 22,53). (3) Para avaliar se alguma doutrina é mais ou menos
importante para a fé cristã, é necessário sempre perguntar que relação ela tem com a realização
prática da vida de fé do crente. Ou seja, uma verdade de fé que tenha um influxo mais direto no
desenvolvimento prático da existência cristã deve ser considerada como parte daquilo que é
essencialmente cristão. Ora, a luta de Jesus com as potências demoníacas pertence ao específico
caminho religioso do próprio Jesus: os estudiosos atuais reconhecem que Jesus, na sua vida
histórica, se considerava vindo ao mundo para destruir o reino de Satanás e instaurar o Reino de
Deus na força do Espírito Santo (cf. Mc 3,20-30). É surpreendente que ele, que não aceitava ser um
Messias “milagreiro”, considerasse a luta contra o Diabo como parte central de sua missão (cf. Mc
1,35-39) e dos poderes que ele concede aos discípulos (cf. Mc 3,14s). É de tal modo importante
como Jesus se refere a tais forças demoníacas e sua luta contra elas, que se retirássemos este
aspecto, a missão e o caminho espiritual de Jesus teriam que ser interpretados de um modo
totalmente diferente! (4) É necessário também observar de que modo determinadas realidades da
Escritura foram acolhidas na fé da Igreja: a Igreja deu-lhes uma importância central ou, mesmo
sem negá-las, deu-lhes uma importância menor? No nosso tema, pensemos no Batismo, que é
experiência central do ser cristão e sempre foi celebrado na Igreja num contexto de luta contra os
demônios (basta ver as orações de exorcismos que ainda hoje são feitas sobre os que vão ser
batizados!) e renúncia a Satanás, introduzindo o homem no modo de existência de Cristo, na sua
luta e na sua liberdade. Para o Novo Testamento e para a Igreja, a partir do Batismo o cristão
deverá apropriar-se do caminho do próprio Senhor, vencendo Satanás como Jesus venceu. Portanto,
negar a potência demoníaca implicaria numa radical mudança do modo de conceber o Batismo e sua
realização na vida cristã! Neste sentido, é importante que a teologia esteja atenta à experiência dos
santos. A experiência deles é a mesma de Jesus: quanto maior é a presença da santidade, menos o
diabólico pode esconder-se. É sintomático que o escondimento do demoníaco no mundo atual
intensifica-se na mesma proporção do desaparecimento do que é santo! Quanto menos santidade,
menos consciência do Diabo e de sua obra - o pecado!
Já afirmei que não devemos negar a existência do Diabo e seus demônios, e expliquei o
motivo. É verdade que um sério problema atual é a questão de conciliar a fé com a visão científica e
até mesmo materialista do mundo atual. Ora, a fé deve ser continuamente crítica daquilo que
muitas vezes aparece para o mundo como certeza absoluta simplesmente porque é moderno e novo.
Se é verdade que a fé deve respeitar a ciência e não pode contradizer um conhecimento científico
garantido e comprovado, não é menos verdadeiro que ela não pode se mover ao sabor dos gostos e
modas mentais de cada época e, particularmente, do mundo atual.
Biblicamente falando, é inegável a convicção da existência de forças demoníacas. Também é
inegável que tais forças são apresentadas e denominadas de modo muito variável na Escritura. Ora,
o problema de sua existência não pode ser resolvido com um simples sopro de desmitização: não
basta argumentar que o Diabo e seus demônios são apenas frutos de uma linguagem própria de
uma cultura pré-científica e supersticiosa e apenas simbólica e que anjos e demônios não têm uma
existência individual concreta! O modo verdadeiro de o homem se libertar do Diabo não é negando
sua existência, mas sim colocando-se debaixo do senhorio do Cristo, que vence o mal e as trevas!
Por outro lado, é preciso superar aquela visão do Diabo e dos demônios ligadas a um modo de ver o
mundo naquela época, como, por exemplo, responsabilizar os demônios pelas doenças, pelos males
psíquicos e por todos os problemas da vida ou falar em “potências dos ares” (cf. Ef 2,2). É ridículo e
vergonhoso o uso que as seitas pentecostais fazem do Diabo, com prática de falsos exorcismos e
outras bobagens! Que os grupos católicos tenham cuidado para não colocarem o Diabo em tudo e
verem o Diabo em tudo e em todos. A Igreja não é uma seita nem curral de fanáticos ignorantes!
Uma questão muito interessante é a seguinte: o Diabo é um ser pessoal? O melhor é
responder assim: o Diabo é um ser individual, um ser com vontade e inteligência, mas não é um ser
pessoal. Por quê? Que significa isso? Vejamos! Que é uma pessoa? É um ser capaz de profunda
coerência interior e capacidade de ter relação construtiva com os outros, numa autêntica dimensão
de relação eu-tu, no diálogo, na comunicação e na responsabilidade construtiva. Quem é incapaz de
amar, de doar-se e de fazer comunhão, vai se despersonalizando! Assim, “pessoal” indica algo de
exigência de amor, de construtivo, não sendo uma realidade neutra, mas pressupondo um
verdadeiro encontro. Como, então falar do Diabo como pessoa? Ele é “homicida desde o princípio e
não permaneceu na verdade porque nele não há verdade: quando ele mente, fala do que lhe é
próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8,44). Então, podemos fazer as seguintes
observações:
(1) Satanás é um ser dotado de capacidade de conhecimento e vontade que, porém, não lhe
servem para conhecer a verdade e desejar o bem, de modo que o seu agir é profundamente
condicionado pela vontade de destruição. Na sua essência puramente espiritual aparece o quanto o
mal não é somente privação do bem, mas também um agir ativo contra o bem: o Diabo não é
somente uma coisa má; ele é malvado, “Maligno”, no dizer de Jesus, que nos ensinou a pedir:
“Livra-nos do Maligno” (Mt 6,13)! Portanto, o bem e o mal, do ponto de vista teológico, só podem
ser definidos em relação a Deus, isto é como uma falta diante de Deus ou perversão da relação com
ele. Malvada é aquela criatura dotada de liberdade que não reconhece o sentido do seu ser de
criatura e quer ser ela mesma seu deus. Ora, o sentido do ser contra Deus somente pode ser
encontrado no ser Ninguém: Satanás é Ninguém, mas não é nada! Assim, o mal de Satanás e seus
anjos constitui-se na livre negação de Deus e do seu plano salvífico em Jesus Cristo. O mal,
portanto, não é simples privação do bem, mas privação de Deus até à perversão de si mesmo, do
seu ser criatural: o Diabo é dobrado sobre si mesmo, fechado, endurecido, não pelo seu próprio ser
criado, mas por livre decisão sua, de modo que ele subverte seu próprio ser e anula sua própria
liberdade como capacidade de bem, de resposta positiva ao Criador, de tal sorte que ele é o
Maligno, de um modo que não é possível encontrar nenhuma comparação com tal situação na esfera
criada. Dramaticamente, sua essência é o não estar jamais contente consigo mesmo na sua obra de
destruir, desejando destruir sempre mais! Por tudo isso, o Maligno é contraditório, perverso,
esquizofrênico, totalmente alienante, absurdo, desorganizado, destrutivo e caótico.
(2) O poder das trevas se manifesta, mas jamais se revela: o Diabo esconde-se a qualquer
identificação: ele é o “Príncipe das Trevas”, agindo sempre no escuro... e aqui reside a fonte da
incompreensibilidade do Maligno: único na sua essência, múltiplo no seu aparecer, nada e ao
mesmo tempo extremamente destrutivo, pessoal e ao mesmo tempo irreconhecível, transfigurado
em anjo de luz! Por isso mesmo, ele é a negação de pessoa e da personalidade: ele age de um
modo que dissolve a pessoa, deformando o homem em uma massa, uma multidão sem
personalidade, sem moral e sem forma, que pensa que se acha livre de toda a responsabilidade
pessoal. É o que se esconde por trás das modas do mundo, por trás dos poderes anônimos dos
meios de comunicação, dos mercados financeiros e das potências políticas... O Diabo não tem cara,
não tem identidade! É aqui que aparece a característica do demoníaco: a sua ausência de
fisionomia, o seu ser anônimo, impessoal: ele é não-pessoa, a desagregação, a dissolução do ser
pessoa, o sem-face, de modo que sua irreconhecibilidade é sua verdadeira força. Assim, ele é uma
potência real, ou melhor, um concentrado de potências e não uma simples soma de “eu” humanos.
Daqui é possível compreender como a força anti-demoníaca por excelência seja o Santo Espírito do
Ressuscitado: ele é o laço de Amor no qual Pai e Filho se constituem numa só coisa; nele o cristão
encontra a unidade com Deus em Cristo e, através de Cristo, com os irmãos; nele, no Santo
Espírito, somos muitos, mas formamos um só corpo; ele é unidade que respeita a diversidade e
diversidade que gera unidade! Por isso mesmo o cristianismo terá sempre uma missão de
exorcismo: não aqueles exorcismos ridículos das seitas pentecostais, mas sim o verdadeiro
exorcismo: desmascarar e expulsar o demoníaco que se esconde no anonimato das modas e
ideologias de cada época e no nosso próprio coração. O primeiro e mais importante exorcismo é
descobrir, com a luz de Cristo, nossos demônios e expulsá-los em nome do Senhor ressuscitado...
expulsá-los também das realidades e estruturas pecaminosas do mundo!
(3) Estas reflexões mostram que o ser pessoal do Diabo revela aspectos coletivos, a
tendência de mascaramento, a intenção de enganar e o caráter de anonimato: “o mundo é assim
mesmo... se todo mundo faz assim, pensa assim, então o certo é assim...” – pensar e viver deste
modo é diabólico! O Diabo é não-pessoa, manifestando-se em estruturas tipicamente a-pessoais,
dissolvidas na massa. É exatamente aqui que os cristãos receberam de Cristo a missão de exorcizar
Satanás e seus demônios: é dever dos discípulos de Cristo desmascarar e denunciar o mal,
exorcizando-o em nome do Ressuscitado: a “inocência” diabólica da Xuxa, a “bondade” pagã do
Gugu, a gracinha maléfica do Papai Noel, a “paz” do carnaval, a “liberdade” que os sexólogos
defendem e que não passa de vulgar egoísmo e irresponsabilidade... Este exorcismo não se constitui
simplesmente numa renúncia ao mal, “humanamente correta”, mas numa invocação do poder
daquele Cristo Senhor, que recebeu toda autoridade no céu e na terra: somente na sua graça e com
sua força o homem poderá vencer e expulsar o Maligno do seu coração e do coração do mundo!
Já vimos que é de fé da Igreja a convicção da existência dos anjos e, conseqüentemente,
dos demônios. Também vimos que não se deve ver o demônio em tudo! O Pe. Oscar Quevedo, no
seu livro “Antes que os demônios voltem” procura exatamente acabar como esta mania de demônios
que muita gente possui. No entanto, o Pe. Quevedo exagera na direção contrária, afirmando que os
demônios não agem no mundo. Isso não é verdade e, para sermos bem francos, fere a fé católica!
Com prudência e bom senso, analisemos as três formas de ação dos demônios no mundo:
1. A tentação. Aqui o demônio procura colocar o ser humano à prova. Não podendo conhecer
o íntimo do homem (só Deus nos conhece até o íntimo!), o demônio procura descobrir nossos
pontos fracos, sugerindo pensamentos e afetos que possam despertar nossos vícios e más
tendências. Quando o demônio tenta, não pode determinar nossa vontade nem ferir nossa
liberdade: a tentação é uma sugestão e o homem pode refutar tal sugestão maléfica. Jesus ensinou-
nos a pedir que o Pai não nos deixe cair na tentação, mas nos livre do Maligno! A tentação, em si,
não é pecado. O pecado começa quando a pessoa começa a deleitar-se com aquela sugestão,
consentindo que ela volte sempre e permaneça na mente e no coração. O deleite torna-se,
finalmente, consentimento, e aí se passa à ação pecaminosa! A tentação é possível devido à nossa
natureza humana ferida pelo pecado, tornada tão contraditória. Note-se que a ciência (psicologia,
psiquiatria, parapsicologia) jamais poderão discernir a ação do demônio, porque ele age de modo
mascarado na e através da nossa estrutura psíquica. Como se vence a tentação? Pela prática dos
sacramentos, pela escuta da Palavra de Deus, pela oração, pela penitência e pela perseverança na
prática do bem! Aí a tentação torna-se ocasião de mérito e crescimento para nós. O demônio, então,
perde a batalha!
2. A obsessão. Também é chamada de infestação, e é dividia em infestação local e infestação
pessoal. A infestação local é o influxo do demônio sobre determinado lugar, podendo causar efeitos
extraordinários e fazer mal a plantas e animais. A infestação pessoal atua no corpo ou no psiquismo
da pessoa, provocando distúrbios neuro-psquícos. O demônio, de modo bizarro, molesta sua vítima
com a produção de sons, de vozes e imagens, além de provocar tentações que são diferentes das
comuns pela violência, pelo modo repentino e pela continuidade. Aqui é necessário discernimento,
porque muitas vezes tudo não passa de problemas naturais mesmo! O nosso povo tem a tendência
de atribuir doenças nervosas e psíquicas ao sobrenatural. Está errado! É necessário discernimento.
Nestes casos deve-se procurar um padre de bom senso (nada de pastores, pais-de-santo ou
médiuns espíritas!). Seria bom o sacerdote escutar algum médico, psicólogo ou psiquiatra para
completar bem o seu julgamento sobre a questão. O padre verificará e, percebendo que realmente
pode haver algo mais que uma realidade simplesmente natural, é aconselhável naquele lugar fazer
algumas orações. Por exemplo: pode, de estola roxa, convidar as pessoas à oração, rezar o salmo
90, ler algum texto do Evangelho que narre um exorcismo e, de modo espontâneo, fazer uma
oração ao Pai, pelo Filho no Espírito, suplicando que Deus afaste daquele lugar ou daquela pessoa
todo o mal, todo o pecado e toda a possível influência do Maligno. Não seria necessário dirigir-se
diretamente ao demônio. Ao final aspergiria o local ou a pessoa com a água benta, rezaria o Pai-
nosso, a Ave-Maria ou o Sub tuum praesidium e daria a bênção final. Em se tratando de uma
possível infestação pessoal mais grave, poderia usar o exorcismo do Papa Leão XIII. Pode fazê-lo
sem a permissão do Bispo. O que não deve é dar show, mas ter bom senso, ser reservado e evitar
incentivar ver o demônio em tudo! Seria muito errado um padre fazer essas orações por qualquer
doença ou qualquer fenômeno psíquico! Por sua vez é errado o fiel católico não seguir a orientação
do padre e querer, por fim da força, ver o demônio onde não há ação do demônio, a não ser na
teimosia do leigo impressionado!
3. A possessão. É a forma mais grave de influxo do demônio sobre o ser humano. Trata-se de
um domínio que o demônio exerce diretamente sobre o corpo e indiretamente sobre a alma de uma
pessoa. Aqui é preciso ser claro: se é verdade que boa parte dos teólogos afirma a possessão e o
magistério da Igreja também fala da sua possibilidade, por outro lado, não há nenhuma afirmação
dogmática da Igreja que nos obrigue a aceitar a possessão. Pode ser prudente aceitar que exista a
possessão, mas não é contra a fé católica negar que ela exista! Em todo o caso, somente um padre
encarregado pelo Bispo poderá averiguar se a possessão é real e, somente com a ordem do bispo
poderá proceder ao exorcismo de acordo com o ritual da Igreja. Recorde-se, porém, que pelas leis
da Igreja nem ao Bispo é permitido autorizar um exorcismo sem antes ter ouvido médicos,
psicólogos, psiquiatras e parapsicólogos. Somente após verificar todas as possibilidades naturais é
que deve pensar na possibilidade de autorizar um exorcismo.
Concluímos aqui nossa apresentação sobre os anjos e demônios. Espero que estas reflexões
tenham ajudado a compreender melhor estas realidades da nossa fé. Que saibamos louvar a Deus
pelos nossos irmãos, os anjos que, como nós, foram criados para Deus e o glorificam sem cessar e
nos ajudem a combater os demônios e nossos demônios interiores. Mas, este combate é sem
superstições grosseiras e sem cair numa demonomania: parafraseando o Pe. Quevedo, quem faz de
toda besteira um demônio, faz do demônio uma besteira! O centro de nossa fé e de nossa atenção é
o Cristo, morto e ressuscitado, vencedor do mal e da morte! Estando unidos a ele nada temeremos!
Uma última e insistente observação: afirmar a existência dos anjos e demônios não autoriza os
cristãos a uma concepção mítica da realidade nem a uma interpretação ingênua e grosseira dos
textos evangélicos! Já bastam as seitas nascidas do protestantismos para fazerem esse papelão que
leva ao ridículo a fé cristã!