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Análise da música Palco1 - Gilberto Gil

Por Givas Demore2


A canção fala sobre o cantar, fala de um palco físico, de cantar, tocar tambor, de estar com o
público e o quanto isso é valioso para o artista.

Eu estava havia três dias pensando em parar de cantar; em deixar a sequência


profissional de discos e shows. Estava prestes a tomar essa decisão - e avisar todo
mundo -, mas não por uma razão que tivesse a ver com cantar, que é a coisa que
mais me encanta na vida. Minha sensação era de fastio; eu queria era um
elemento que me trouxesse um novo ânimo. 'Se eu vou parar mesmo', pensei, 'eu
tenho que fazer uma declaração pública, e essa declaração tem de ser musical.' Aí
eu fiz Palco, uma canção que era na verdade pra não deixar dúvida a respeito de
tudo o que cantar representa para mim, e a respeito da minha relação com a
música - simbolizada de forma completa pelo estar no palco." (Gil, 1981, A Gente
Precisa Ver o Luar, ficha técnica)

Essa canção foi gravada pela primeira vez pela banda a cor do Som (1977). Gil, num belo
dia, mostrou a música para a banda que adorou e resolveu gravar em 1980. Em 1981 Gil a
gravou no álbum “A Gente Precisa Ver o Luar”.
“Subo nesse palco
Minha alma cheira a talco
Como bumbum de bebê
De bebê
Minha aura clara
Só quem é clarividente pode ver
Pode ver”

Para Gil o palco tem função "de um espaço semissagrado; da sua função exorcizante,
catártica, clínica” ((Gil, 1981, A Gente Precisa Ver o Luar, ficha técnica). O palco é um
purificador da alma é um balsamo, como talco, que deixa sua aura (alma) iluminada,
alegre e feliz.
"Do aspecto transmutador da música para mim no palco: de como estar ali faz
provavelmente desaparecer uma opacidade natural do caráter bruto das coisas
comuns sem sabores especiais do cotidiano, e como o haver ali sabores especiais
em tudo me dá um aspecto de transfiguração - daí a ideia de que ali se propicia
que alguém veja minha aura." (Gil, 1981, A Gente Precisa Ver o Luar, ficha
técnica)

“Trago a minha banda


Só quem sabe onde é Luanda

1 © Gege Edições / Preta Music (EUA & Canadá)


2 Cantor, Compositor, Músico e Professor. Especialista em educação musical e mestrando em música (UnB)

givasdemore@gmail.com
Saberá lhe dar valor
Dar valor
Vale quanto pesa
Pra quem preza o louco bumbum do tambor
Do tambor”

Aqui ele faz referência ao reflexo da cultura negra em sua música. O compositor afirma sua
identidade cultural ao falar dos tambores, instrumentos muito ligados a rituais e práticas
musicais africanas. Seu ser musical absorveu elementos africanos, pois o mesmo tinha
acabado de chegar da áfrica (1977) sua música ganharia o título do que chamamos hoje de
"afrobrasileira", com elementos rítmicos variados.

“Fogo eterno pra afugentar


O inferno pra outro lugar
Fogo eterno pra consumir
O inferno fora daqui”
Sobre o refrão, o autor afirma: “Na hora em que compus, eu me lembrava muito do pouco
que sabia sobre as tragédias gregas, o palco grego, Dionísios”. Gil revela que o palco não é
lugar para coisas ruins. Seu pensamento ao considerar as tragédias gregas está conectado
com o fato delas, as tragédias gregas, narrarem os infortúnios e tensões. O palco para Gil é
o lugar "de um sacerdócio; da capacidade de administrar um ritual - o da música em
funcionamento, cumprindo seus ditames; de como eu me vejo nesse papel, como eu
fantasio a minha visão e como eu vejo essas fantasias do meu próprio olhar”.

As expressões fogo eterno e inferno são expressões cristãs. O objetivo de Gil ao usar essas
expressões é fortalecer seu desejo de que no palco só exista sensações boas. A palavra
inferno é expressão para as coisas ruins. O fogo eterno seria a chama musical interior
inextinguível. É esse fogo eterno, numa perspectiva interior, que afugenta as coisas ruins, o
inferno, para outro lugar. É o que consegue consumir esse “inferno”.
Por fim a ideia central é de que ali no palco não pode haver coisas ruins. Elas devem ser
levadas para outro lugar. Quem fica com o cargo de levar, para outro lugar, essas coisas
infernais, sinônimos para coisas ruins, é a alegria, o fogo eterno.
“Venho para a festa
Sei que muitos têm na testa
O deus Sol como um sinal
Um sinal
Eu, como devoto
Trago um cesto de alegrias de quintal
De quintal”
Nesta parte, Gil, pode estar falando do olhar daqueles que eram contrários a liberdade de
expressão, aos agentes do governo, que disfarçados, queriam um motivo para puni-lo de
alguma forma. Gil tinha sido exilado em Londres de 1969 a 1971.
Deus-sol pode ser uma referência ao olho de horus, o Deus sol (Olho que tudo vê, que
vigia). Gil não está ligando para esses que estão espionando suas atividades, ele quer é se
divertir fazendo sua música. De seu quintal, alegrias!

“Há também um cântaro


Quem manda é a deusa Música
Pedindo pra deixar
Pra deixar
Derramar o bálsamo
Fazer o canto cântaro cantar
Lalaiá”
Apesar de cântaro ser um jarro egípcio, Gil expressa, através de um tipo de aglutinação, a
expressão “cantar o”. Esse “cantar o” é o vaso, cântaro, que derrama o balsamo, que faz o
canto “cantar o” (cântaro) lalaiá.

"Cântaro = cantar o" - "Quando eu digo 'cantar o', eu digo de novo 'cântaro'. Mais
do que rima, é recomposição: a palavra 'cântaro' é reconstituída, como se
tivessem embutido ali o cântaro. Muitas pessoas não devem nem perceber o
'cantar o'; na audição deve prevalecer 'cântaro' mesmo." (Gil, 1981, A Gente
Precisa Ver o Luar, ficha técnica)

É a deusa música que pede pra deixar que o “cantar o” derrame o balsamo e faça o canto
cantar.

“No palco, além de diversão, a sensação é de doação,


de benfeitoria do homem para o homem”. (Gilberto Gil)

Ao citar essa análise, por favor, citar o autor!

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