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E.

DIREITOS HUMANOS
DAS MULHERES

OS DIREITOS HUMANOS ATRAVÉS DE UM OLHAR SENSÍVEL AO GÉNERO


EMPODERAMENTO DAS MULHERES

“O avanço das mulheres e a conquista da igualdade entre mulheres e homens são uma
questão de direitos humanos e uma condição para a justiça social; não devem, portanto,
ser encarados isoladamente, como um problema feminino.”
Declaração de Pequim e Plataforma de Ação. 1995.
192 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

HISTÓRIA ILUSTRATIVA
Um caso da vida real: A história de Selvi T. taram nele. Disseram-lhe então: “Vai para
casa para o teu marido e fica lá”.
Selvi tem 22 anos e está grávida do seu quin- Selvi foi, secretamente, ao tribunal de fa-
to filho. O seu marido iniciou os ataques en- mília, mas disse ao procurador que tinha
quanto ela estava grávida do seu primeiro muito medo de apresentar uma queixa
filho. “Naquela primeira vez ele bateu-me, formal. Sendo o caso muito grave o pro-
pontapeou o bebé na minha barriga e atirou- curador iniciou, independentemente, um
me do telhado”, disse ela. “O bebé sobreviveu, processo para assegurar uma ordem de
mas penso que [a criança] tem uma doença proteção para a Selvi. O tribunal ordenou
mental.” Desde então, a violência tem au- ao marido da Selvi que se afastasse dela e
mentado, quanto à frequência e gravidade, e lhe pagasse uma prestação de alimentos.
agora afeta mesmo as crianças. O marido da Mas a ordem nunca foi executada. Ele não
Selvi controla todos os aspetos da sua vida e pagou quaisquer prestações de alimentos,
é extremamente ciumento. Ela relatou: “Ele nunca se mudou de casa e continuou a
viola-me a toda a hora e verifica os meus flui- bater-lhe. A polícia nunca a foi ver depois
dos ‘lá em baixo’ para confirmar que eu não da ordem ter sido emitida.
tive sexo [com um outro homem].” Numa dada altura Selvi mudou-se para
Em 2008, Selvi foi finalmente à polícia um abrigo. Porém, nem mesmo o abrigo
depois do seu marido ter “partido o seu oferecia segurança do seu marido que apa-
crânio e braço”. A polícia trouxe o seu ma- receu um dia depois da polícia ter revela-
rido à esquadra, deram ao casal alguma do a localização do abrigo. Uma mulher,
comida e mandaram-nos para casa, dizen- a trabalhar no abrigo disse à Selvi: “Fala
do-lhe: “Não há problema, falámos com com o teu marido, ele está aqui, a chorar.”
ele, estão novamente juntos.” A segunda Quando ela falou com ele, ele espetou um
vez que Selvi foi à esquadra, eles levaram- garfo no seu braço, resultando numa ci-
na ao hospital já que ela estava a sangrar catriz que ela mostrou na entrevista. Ele
da sua cabeça, pois ele tinha-a atingido levou-a para casa.
com uma pedra. No entanto, disseram-lhe Em junho de 2010, na altura em que a Hu-
que se devia reconciliar com o seu esposo. man Rights Watch falou com a Selvi, os
Nesta altura, em 2009, o marido da Selvi abusos continuavam. O seu esposo vive
trancou-a num quarto, batendo-lhe todos com ela, raramente trabalha, joga, não
os dias. Quando, numa terceira vez ela es- paga as contas e agride Selvi e as crianças
capou e foi à esquadra, eles chamaram o frequentemente. Ela tem muito medo de
marido e ele pediu desculpa. A polícia en- mandar as crianças para um dormitório do
viou-a para casa novamente. Em 2010, Sel- Estado e tem terror de fugir. Não consegue
vi foi, pela quarta vez, à esquadra quan- cuidados pré-natais que são urgentes, já
do o seu marido trouxe, à noite, amigos a que os abusos incluem pontapés no seu
casa tendo-lhes “oferecido” a Selvi. Para abdómen, pois o seu cartão do Estado do
fugir, ela saltou do telhado e fugiu para a seguro de saúde está entre os documen-
esquadra da polícia. O seu marido disse à tos civis que o seu marido queimou, numa
polícia que ela estava a mentir. Eles acredi- dada ocasião.
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Um grupo municipal de mulheres conhece a ciais estão em jogo devido ao sexo da


situação da Selvi e presta assistência, mas ela vítima?
não vê escapatória para si e os seus filhos. 3. Serão as leis e os regulamentos su-
(Fonte: Human Rights Watch. 2011. He ficientes para garantirem oportuni-
loves you, he beats you) dades iguais para todos os seres hu-
manos? O que mais pode assegurar o
Questões para debate tratamento igual entre os homens e
1. Quais são as questões principais para os as mulheres?
direitos humanos das mulheres, levan- 4. Como se podem prevenir casos seme-
tadas por este caso? lhantes? Especifique como se podem
2. Como se pode fazer justiça se o acesso usar mecanismos ao nível local, regio-
aos tribunais e os procedimentos judi- nal e internacional.

A SABER
1. DIREITOS HUMANOS DAS MULHE- o Artº 1º da Declaração Universal dos Di-
RES reitos Humanos (DUDH) estava a ser redi-
gido em 1948. Esta mudança na formula-
As mulheres tiveram de lutar pelo seu re- ção tornou claro que os direitos humanos
conhecimento como seres humanos ple- pertencem a todos os seres humanos, não
nos e pelos seus direitos humanos básicos importa se mulher ou homem, e introdu-
por um longo período de tempo e, infe- ziu a igualdade como um dos princípios
lizmente, a luta ainda não terminou. Em- fundamentais no discurso e regime de pro-
bora a sua situação tenha melhorado de teção dos direitos humanos internacional.
muitas formas, quase globalmente, fatores O princípio da igualdade como é formal-
sociais ainda impedem a total e imediata mente expresso na lei, sem diferenciação
implementação dos direitos humanos para entre mulheres e homens, envolve fre-
as mulheres em todo o mundo. O séc. XX quentemente uma discriminação oculta
trouxe muitos avanços, mas também mui- contra as mulheres. Devido às diferentes
tos retrocessos, e nem mesmo em tempo posições e papéis que as mulheres e os ho-
de paz e progresso as mulheres e os seus mens têm tradicionalmente na sociedade,
direitos humanos foram alvo de atenção a igualdade de iure resulta, muitas vezes,
especial e nem ninguém, nessa altura, se na discriminação de facto. Esta situação
opôs a tal política. No entanto, em todos obrigou os ativistas dos direitos humanos
os períodos da história se podem encontrar das mulheres a promover a diferenciação
heroínas que lutaram pelos seus direitos entre igualdade formal e substantiva.
e pelos direitos de outras mulheres, com Em muitos contextos, as noções formais
armas ou palavras. Eleanor Roosevelt, por de igualdade não ajudaram as pessoas em
exemplo, insistiu que devia ser usado “to- situações de desvantagem. A noção tem de
dos os seres humanos são iguais” em vez evoluir na direção de uma definição subs-
de “todos os homens são irmãos” quando tantiva de igualdade tendo em conta plu-
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ralidade, diferença, desvantagem e discri- fico em vez de aceitá-las como a metade


minação. Como Dairian Shanti sublinhou da população do mundo, de cada país, de
no seu artigo “Igualdade e as Estruturas da toda a população indígena e de muitas
Discriminação”, “a neutralidade não per- comunidades. Esta conceção está refleti-
mite a sensibilidade a desvantagens que da nos documentos em que as mulheres
possam impedir que algumas pessoas be- surgem num parágrafo ou capítulo em
neficiem de um tratamento igual. Assim, o conjunto com os grupos vulneráveis,
enfoque deve mover-se para uma ênfase em tais como população indígena, população
‘resultados iguais’ ou ‘benefícios iguais’”. idosa, população com outras habilidades
Uma igualdade genuína entre homens e e crianças. O que une estes grupos vul-
mulheres só pode ser alcançada se tanto neráveis é que todos sofreram e ainda
a igualdade formal como a substantiva fo- sofrem discriminação e ainda não foram
rem completamente realizadas. capazes de gozar plenamente os seus di-
reitos básicos.
“Traduzir o poder dos números no poder
de ação para as mulheres, pelas mulheres e Não Discriminação
em parceria com os homens, é o que será o
próximo milénio.” Contudo, o género é uma categoria de
Azza Karan. 1998/2005. análise útil que nos ajuda a compreender
como os seres humanos assumem respon-
Género e o Equívoco Generalizado dos sabilidades, papéis e posições diferentes
Direitos Humanos das Mulheres na sociedade. Introduzir uma análise de
O género é um conceito que não se dirige género na teoria e na prática de direitos
apenas às mulheres e aos seus direitos hu- humanos torna-nos especialmente sensí-
manos, é antes um conceito mais complexo veis às diferenças entre homens e mulhe-
que inclui todos os sexos: homens, mulhe- res na sociedade e às formas específicas
res, assim como os transsexuais. Foi usado pelas quais os direitos humanos das mu-
pela primeira vez nos anos 70 e definido lheres são violados.
por Susan Moller Okin “[…] como a ins- É evidente que o pensamento sensível ao
titucionalização profundamente enraizada género deve ser promovido para se alcan-
da diferença sexual que permeia a nossa çar os mesmos direitos para todos, inde-
sociedade,” mas evoluiu posteriormen- pendentemente do género, cor, etnia e re-
te devido à dinâmica das transformações ligião.
políticas, sociais e económicas por todo o
mundo. Em 1998, o Artº 7º do Estatuto Segurança Humana e Mulheres
de Roma do Tribunal Penal Internacional
definiu género como “sexos masculino e A Segurança Humana e a condição das
feminino, dentro do contexto da sociedade mulheres estão intimamente ligadas,
[…]”, depois dos representantes dos Esta- uma vez que os conflitos tendem a pio-
dos debaterem intensivamente o conteúdo rar as desigualdades e as diferenças de
do conceito de género e de alguns se terem género. Quer os refugiados, quer as pes-
oposto à sua extensão à orientação sexual. soas deslocadas internamente, a maioria
No entanto, é comum encontrar as mu- dos quais são mulheres, idosos e crian-
lheres definidas como um grupo especí- ças, carecem de particular atenção e que
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lhes seja assegurada proteção especial. A prol da libertação e igualdade. Uma das
violência doméstica e outras formas de mais famosas proponentes do movimen-
violência ameaçam a segurança humana to foi Olympe de Gouges que escreveu a
das mulheres. Declaração dos Direitos da Mulher e da
Cidadã. Ela, assim como muitas das suas
A segurança humana trata, também, de companheiras, pagou na guilhotina o com-
assegurar o acesso igual à educação, promisso assumido com os direitos das
aos serviços sociais e ao emprego para mulheres.
todos, mesmo em tempo de paz. Às
mulheres é muitas vezes negado o ple- “A mulher nasce livre e goza de direitos
no acesso a estas áreas e o pleno gozo iguais aos dos homens em todos os as-
destes direitos. Assim, as mulheres e as petos”.
crianças, em particular, podem benefi- Artº 1º Declaração dos Direitos da Mulher e da
ciar de uma abordagem com base nos Cidadã.1789.
direitos humanos à segurança humana,
o que prova que esta não se atinge se os Também a Grã-Bretanha se revê numa
direitos humanos não forem totalmente longa e forte tradição de luta das mulhe-
respeitados. Desta forma, a erradica- res por direitos iguais. É até muitas vezes
ção de qualquer forma de discrimina- referida como “a terra natal do feminis-
ção, particularmente contra mulheres mo”. Logo por volta de 1830, as mulheres
e crianças, deve constituir uma priori- britânicas começaram a exigir o direito ao
dade na agenda da segurança humana. voto. Lutaram durante mais de 80 anos
Tem também particular relevância para com métodos distintos e, finalmente, em
a segurança humana, a situação das 1918, alcançaram os seus objetivos quan-
mulheres nos conflitos armados e a sua do lhes foi concedido o direito ao voto, a
proteção. partir dos 30 anos de idade. Outras áreas
de ação prioritárias destas primeiras fe-
Direitos Humanos em Conflito
ministas incluíram o acesso à educação,
Armado
o direito das mulheres casadas à proprie-
dade e o direito a desempenhar cargos
2. DEFINIÇÃO públicos.
E DESENVOLVIMENTO
DA QUESTÃO O Conselho Internacional das Mulheres
foi fundado logo em 1888 e, ainda hoje,
Uma Retrospetiva Histórica existe. Tem a sua sede em Paris e participa
Um importante acontecimento histórico, ativamente no processo de garantia dos di-
a Revolução Francesa, marca o começo reitos das mulheres, através de encontros
da luta das mulheres no sentido de serem internacionais, de seminários e workshops
reconhecidas como seres humanos iguais, nacionais, regionais e sub-regionais, com
num mundo masculino. Esta época consti- um programa de desenvolvimento intensi-
tui não só o começo do movimento a favor vo de projetos, em cooperação com agên-
dos direitos civis e políticos das mulheres cias internacionais, pelas Resoluções redi-
como também preparou o caminho para gidas e adotadas pela Assembleia-Geral,
o primeiro movimento de mulheres em pela cooperação, a todos os níveis, com
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outras organizações não governamentais as pessoas cegas perante este facto. Os di-
e através de planos trienais de ação, em reitos fundamentais de mais de metade da
cada um dos seus cinco Comités Perma- humanidade foram esquecidos, o que, ine-
nentes. vitavelmente, conduziu à conclusão de que
não pode haver neutralidade de género nas
O primeiro órgão intergovernamental a leis internacionais ou nacionais, enquan-
tratar dos direitos humanos das mulheres to as sociedades, em todo o mundo, não
foi a Comissão Interamericana sobre as forem neutrais relativamente ao género, e
Mulheres (CIM), criada em 1928, para a continuem a discriminar as mulheres.
região da América Latina. Este órgão foi
o responsável pela elaboração do proje- Foi apenas nos anos 70 que a desigualdade
to da Convenção Interamericana sobre em muitas áreas da vida diária, a pobreza
a Nacionalidade das Mulheres, adotado entre mulheres e a discriminação contra me-
pela Organização dos Estados Americanos ninas levou as Nações Unidas a decidir ini-
(OEA), em 1933. Este tratado provocou ciar a Década para as Mulheres das Nações
um debate sobre o modo como a região Unidas: Igualdade, Desenvolvimento e
estava a desenvolver legislação que tratas- Paz, de 1976 a 1985. Em 1979, a Década cul-
se dos direitos humanos. minou com a adoção da Convenção sobre
a Eliminação de Todas as Formas de Dis-
Desde o início das Nações Unidas, em 1945, criminação contra as Mulheres (CEDM).
as mulheres procuraram participar na estru- Este documento é o mais importante instru-
tura e fazer sentir a sua presença no conteú- mento de direitos humanos para a proteção
do e na implementação dos instrumentos e e promoção dos direitos das mulheres e o
mecanismos dos direitos humanos. primeiro documento a reconhecer expres-
samente as mulheres como seres humanos
A Comissão para a Estatuto da Mulher plenos. A CEDM contém direitos civis e po-
(CEM) foi criada em 1946, com o mandato líticos, assim como direitos económicos, so-
de promover os direitos das mulheres em ciais e culturais, unindo os direitos humanos
todo o mundo. A sua primeira presidente que, por exemplo, nos Pactos Internacionais,
foi Bodil Boegstrup, da Bélgica. A CEM pro- estão divididos em duas categorias.
moveu a inclusão explícita dos direitos das
mulheres na DUDH e apresenta recomen- A Convenção regula questões relaciona-
dações ao Conselho Económico e Social das com a vida pública e privada das mu-
(ECOSOC), no respeitante a problemas ur- lheres. Vários artigos lidam com o papel
gentes a necessitarem de uma resposta ime- da mulher na família e na sociedade, a
diata, na área dos direitos das mulheres. necessidade de partilhar responsabili-
dades dentro da família e a urgência na
Embora as mulheres contribuíssem de igual implementação de mudanças nos sis-
forma, e desde o início, para a evolução do temas sociais e culturais que atribuem
sistema internacional político, económico e uma posição subordinada às mulheres.
social, a atenção dada aos problemas das Só através de tais mudanças elementa-
mulheres era mínima. Décadas de cegueira res é que o reconhecimento dos direitos
relativamente ao género, nos documentos humanos das mulheres pode ser trazido
dos direitos humanos, tornava, também, ao nível global. Até maio de 2012, 187
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Estados ratificaram a Convenção. Muitos - Tomar todas as medidas adequadas


Estados islâmicos apresentaram reservas para eliminar a discriminação contra as
de alcance substancial às obrigações da mulheres por qualquer pessoa, organi-
CEDM. O Comité da CEDM coloca ênfa- zação ou empresa;
se na remoção das reservas que obstam
ao gozo pleno dos direitos das mulheres - Revogar todas as disposições penais
contidos na Convenção. nacionais que constituam discrimina-
ção contra as mulheres;
A discriminação contra as mulheres é - Assegurar o total desenvolvimento e o pro-
definida pelo Artº 1º da Convenção como gresso das mulheres tendo em vista garan-
“qualquer distinção, exclusão ou restrição tir-lhes o exercício e a satisfação dos direitos
baseada no sexo que tenha como efeito ou humanos e das liberdades fundamentais
como objetivo comprometer ou destruir o numa base de igualdade com os homens;
reconhecimento, o gozo ou o exercício pelas - Modificar os padrões sociais e culturais
mulheres, seja qual for o seu estado civil, de conduta dos homens e mulheres;
com base na igualdade dos homens e das
mulheres, dos direitos humanos e das liber- - Eliminar preconceitos e costumes e to-
dades fundamentais nos domínios, políti- das as outras práticas baseadas na ideia
co, económico, social, cultural e civil ou em de inferioridade ou superioridade de
qualquer outro domínio”. qualquer um dos sexos ou em papéis
estereotipados para homens e mulheres;
- Garantir que a educação da família inclua
A CEDM obriga os Estados Partes a:
a compreensão correta da maternidade
- Incorporar o princípio da igualdade como uma função social e o reconheci-
dos homens e mulheres nas respetivas mento da responsabilidade comum dos
constituições nacionais ou outra legis- homens e das mulheres na educação e
lação apropriada; desenvolvimento dos seus filhos, reconhe-
cendo que o interesse das crianças é a con-
- Assegurar a realização prática do prin-
sideração primordial em todos os casos;
cípio da igualdade;
- Tomar todas as medidas adequadas
- Adotar medidas legislativas apropria-
para reprimir todas as formas de tráfico
das ou outras, incluindo sanções se
de mulheres e exploração da prostitui-
oportunas, proibindo toda a discrimi-
ção feminina;
nação contra as mulheres;
- Estabelecer a proteção legal dos direi- - Garantir às mulheres o direito de voto
tos das mulheres numa base de igual- em todas as eleições e referendos pú-
dade com os homens; blicos e de serem elegíveis, em todos
esses atos, por eleição;
- Abster-se do envolvimento em qual-
quer ato ou prática de discriminação - Garantir às mulheres os mesmos direi-
contra as mulheres e assegurar que as tos dos homens para adquirir, mudar
autoridades e as instituições públicas ou conservar a sua nacionalidade;
atuarão em conformidade com esta - Assegurar às mulheres os mesmos direi-
obrigação; tos dos homens no campo da educação.
198 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

A 6 de outubro de 1999, a Assembleia-Geral A Conferência Mundial sobre Direitos


adotou, através de consenso, o Protocolo Humanos que teve lugar em Viena, em ju-
Opcional à Convenção sobre a Elimina- nho de 1993, juntou milhares de ativistas
ção de Todas as Formas de Discriminação e peritos em direitos humanos. A Decla-
contra as Mulheres, e chamou todos os Es- ração de Viena e o Programa de Ação,
tados, sendo parte da Convenção, a torna- adotados como resultado da conferência,
rem-se parte do novo instrumento também. coloca ênfase na promoção e proteção dos
Ao ratificar este Protocolo Opcional, um Es- direitos humanos das mulheres e meni-
tado reconhece a competência do Comité nas no geral e na prevenção da violência
sobre a Eliminação de Todas as Formas de contra as mulheres. Aquela declara que os
Discriminação contra as Mulheres – o ór- direitos humanos das mulheres e das me-
gão que monitoriza o cumprimento da Con- ninas são uma parte inalienável, integral
venção por parte dos Estados Partes – para e indivisível dos direitos humanos univer-
receber e considerar queixas de indivíduos sais. Declara também que a total e igual
ou grupos, dentro da sua jurisdição. participação das mulheres na vida políti-
O Protocolo contém dois procedimentos: ca, civil, económica, social e cultural ao
• O procedimento de participação per- nível nacional, regional e internacional e
mite que mulheres, individualmen- a erradicação de todas as formas de discri-
te ou através de grupos de mulheres, minação com base no género são objetivos
submetam ao Comité participações de prioritários da comunidade internacional.
violações de direitos protegidos pela
Convenção. O Protocolo estabelece que Como parte do seu mandato, a Comissão para
para que as participações individuais o estatuto da Mulher (CEM) organizou quatro
sejam admissíveis para consideração grandes conferências globais com o objetivo
pelo Comité estejam preenchidos diver- de integração dos direitos das mulheres como
sos critérios, por exemplo, que se te- direitos humanos: México (1975), Copenha-
nham esgotado as soluções domésticas. ga (1980), Nairobi (1985) e Pequim (1995).
• O protocolo também estabeleceu um Após cada uma destas conferências lançou-se
procedimento de inquérito, permitindo um Plano de Ação, com medidas e diretrizes
ao Comité iniciar inquéritos a situações políticas que os Estados devem considerar
de violações graves ou sistemáticas dos para alcançarem a igualdade entre mulheres
direitos das mulheres. Em qualquer um e homens. Adicionalmente, o progresso relati-
dos casos, os Estados têm de ser parte da vamente aos compromissos feitos inicialmen-
Convenção e do Protocolo. O Protocolo te pelos governos na Conferência Mundial de
inclui uma “cláusula de autoexclusão”, Pequim de 1995 sobre as mulheres é avaliado
permitindo aos Estados que declarem, a cada cinco anos. A CEM, na retrospetiva dos
aquando da ratificação ou adesão, que 15 anos da implementação da Declaração e
não aceitam o procedimento de inquéri- Plataforma de Ação de Pequim (março de
to. O Artº 17º do Protocolo estabelece, 2010), deu ênfase à partilha de experiências
explicitamente, que nenhuma reserva é e boas práticas e à responsabilização no que
admitida ao Protocolo. O Protocolo Op- respeita aos Objetivos de Desenvolvimento
cional entrou em vigor em 22 de dezem- do Milénio.
bro de 2000. Até maio de 2012, 104 Esta- A Plataforma de Ação de Pequim é espe-
dos ratificaram o Protocolo Opcional. cialmente importante, já que constitui o
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programa mais completo sobre os direitos x As mulheres ganham, em média, 17%


humanos das mulheres, com um diagnós- menos que os homens.
tico global da situação das mulheres e um
exame das políticas, estratégias e medidas x Embora as mulheres realizem 66% do
para a promoção dos direitos das mulheres trabalho no mundo e produzam 50%
em todo o mundo. É dada especial atenção dos alimentos, elas ganham apenas
às seguintes doze áreas críticas de preocu- 10% dos rendimentos e detêm apenas
pação: pobreza, educação, saúde, violên- 1% da propriedade.
cia, conflitos armados, economia, a toma- x Em algumas regiões, as mulheres rea-
da de decisões, mecanismos institucionais, lizam mesmo 70% do trabalho agríco-
direitos humanos, meios de informação, la e produzem mais do que 90% dos
ambiente, meninas, sistema institucional e alimentos.
financeiro. Algumas destas áreas serão es-
pecificadas abaixo. A pobreza é também criada através de sa-
lários desiguais por trabalhos iguais, ne-
Mulheres e Pobreza gação ou acesso restrito à educação ou
Para compreender o diferente impacto da serviços públicos e sociais e em relação a di-
pobreza nas mulheres e nos homens é ne- reitos sucessórios e à propriedade de terras.
cessário olhar para a divisão da maioria dos A pobreza, na sua dimensão política, mostra
mercados de trabalho do mundo de acordo a desigualdade de direitos entre membros
com o género. Muitas vezes, as mulheres das nossas sociedades e coloca significativos
trabalham em casa, cumprindo os seus de- obstáculos no acesso aos seus direitos hu-
veres nos cuidados das crianças, dos doen- manos civis, políticos, económicos, sociais
tes e dos idosos, executando os trabalhos e culturais. Também diminui o acesso à in-
sem receber pagamento e, em quase todo o formação e as possibilidades de participação
lado, sem um seguro adequado e próprio, em organizações públicas e tomada de de-
apesar de as suas contribuições serem so- cisão. No contexto da migração, a pobreza
cial e economicamente necessárias e deve- conduz também a um aumento no tráfico de
rem ser altamente valorizadas. mulheres, especialmente na América Latina,
A divisão do trabalho baseada no género é Ásia, África e Europa de Leste.
uma das dimensões estruturais da pobreza
que afeta as mulheres. A função biológica Mulheres e Saúde
da maternidade é outra dimensão estrutural A saúde envolve o bem-estar emocional,
que é entendida como uma função social de social e físico. É determinada pelo contexto
parentalidade e responsabilidade social. social, político e económico das vidas das
mulheres, assim como pela biologia. O facto
Direito ao Trabalho das mulheres terem filhos implica uma re-
Direito a Não Viver na Pobreza levância especial à sua saúde reprodutiva e
sexual. Relações iguais entre homens e mu-
Factos e números lheres em matérias de relações sexuais e re-
produção requerem respeito mútuo, consen-
x O crescimento económico aumenta timento e responsabilidade partilhada. Tal
com a participação das mulheres no encontra-se implícito no direito dos homens
trabalho. e das mulheres a serem informados sobre os
200 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

métodos seguros de controlo de fertilidade


e a terem acesso a métodos seguros, eficazes, “Enquanto a assistente social estiver por
acessíveis e aceitáveis da sua escolha, bem perto, algumas mulheres dizem que não
como o direito ao acesso a serviços de saú- irão purificar as suas filhas. Elas entre-
de adequados, que permitam às mulheres têm-na até que ela se vá embora e uma vez
terem uma gravidez e parto seguros e darem que ela se tenha ido, vêm e pedem-me para
a possibilidade aos casais de terem um bebé circuncidar as suas filhas. Eu corto-as en-
saudável. A realidade, porém, é diferente: quanto as suas mães, tias ou vizinhas as
a discriminação com base no sexo conduz seguram.”
a muitos perigos para a saúde das mulhe- Parteira de aldeia Om Mohammed, Egito. 2012.
res, incluindo a violência física e sexual, as
doenças sexualmente transmissíveis (DST), Os costumes e tradições também consti-
VIH/SIDA, a malária e a doença pulmonar tuem uma fonte de perigo para as meninas
crónica obstrutiva, por cozinharem sobre as e adolescentes. A tradição persistente da
fogueiras. As taxas de mortalidade durante mutilação genital feminina (MGF), uma
a gravidez e parto continuam elevadas em violação fundamental dos direitos huma-
países do hemisfério Sul, tal como demons- nos das mulheres refere-se a diversos ti-
trado pela OMS, numa visão geral global. pos de cortes tradicionais profundamente
Para além do sistema das Nações Unidas, a enraizados, realizados em mulheres e em
questão também se encontra na agenda de meninas. A MGF integra-se, frequente-
organizações locais ou regionais: lançou-se, mente, em rituais de fertilidade ou de ini-
por exemplo, uma campanha para a adoção ciação no estado adulto e é, por vezes,
de uma Convenção Interamericana sobre justificada como forma de assegurar a
os Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos, castidade e a “pureza” genital. Estima-se
apoiada por uma aliança regional de organi- que mais de 130 milhões de meninas e de
zações latino-americanas. mulheres vivas, no momento presente, te-
nham sofrido a MGF, sobretudo em África
“Quando visitava a Nigéria, expliquei a e em alguns países do Médio Oriente; e
minha história pessoal. Todos recordam o dois milhões de meninas por ano encon-
meu nascimento como tendo sido 13 de ju- tram-se em risco de sofrerem a mutilação.
nho, mas não é exato. Foram relatados casos de MGF em países
Tenho de verificar, ainda não sei qual o dia asiáticos, tais como a Índia, Indonésia,
exato [do meu nascimento]. Na altura quan- Malásia e Sri Lanka, pensando-se que se
do nasci a taxa de mortalidade na Coreia realize por entre alguns grupos indíge-
era muito elevada, e, por isso, os pais não nas na América Central e do Sul. Apesar
registavam os nascimentos. Vamos apenas das leis nacionais proibirem a MGF, esta
ver se este rapaz ou menina irá sobreviver. também é praticada nas comunidades de
Por vezes tinha-se de esperar um ano ou seis migrantes na Europa, América do Norte
meses. [...] e Austrália.
Por isso, o meu nascimento foi registado Por não compreenderem a questão em ter-
mais tarde, muito mais tarde. O meu pai mos médicos, as meninas e as mulheres
apenas esperou [...] por isso, não acreditem vítimas da MGF, ficam sujeitas a enormes
na data de nascimento no meu passaporte.” dores, riscos para a saúde e, possivelmen-
Ban Ki-moon. 2011. te, perigo de vida. Para além de muitas
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ONG internacionais (como a Amnistia In- trou que o Egito ainda está entre os países
ternacional) e locais (como a Coligação do com a mais elevada (90%) prevalência de
Cairo do Egito contra a MGF), também as MGF no mundo. Para além das atitudes
Nações Unidas abordam frequentemen- pró-MGF de uma maioria de mulheres
te este assunto: em 2005, através de uma em ambos os cenários urbanos e rurais
abordagem estatística da UNICEF sobre a e das discussões políticas cada vez mais
MGF, em 2008, com a publicação de uma acesas com a Irmandade Muçulmana e fa-
declaração de interagências sobre a eli- ções Salafi, a impunidade é um dos prin-
minação da mutilação genital feminina cipais obstáculos para a redução da MGF
e, em 2010, através da promoção de uma no Egito. “Se denunciarmos a um polícia
estratégia global dirigida aos profissionais na esquadra local, estaremos a apresentar
da saúde para não realizarem a MGF. As uma denúncia junto a alguém que acre-
conclusões da UNICEF permanecem váli- dita nela”, explica um ativista anti MGF
das: as taxas de prevalência da MGF es- local.
tão lentamente a diminuir nalguns países,
as atitudes perante a MGF estão a mudar Uma pandemia que coloca seriamente em
lentamente com mais mulheres a oporem- risco as mulheres é o VIH/SIDA. Apesar
se à sua continuação. Considerando que, das novas infeções em todo o mundo terem
nalguns países, a Primavera Árabe trouxe atingido o pico em 1997 e de o número de
parlamentos e/ou governos com participa- novas infeções ter diminuído desde então,
ção islâmica, que tendem a adotar atitudes a percentagem de mulheres a viverem com
benevolentes em relação à MGF. Os luta- o VIH tem aumentado continuamente nas
dores contra a MGF devem considerar as últimas décadas. Em termos globais, as
seguintes recomendações: as estratégias mulheres representam metade de todas as
para acabar com a MGF enquanto um pessoas que vivem com VIH: nas Caraíbas,
comportamento social devem ser acom- no Norte de África e no Médio Oriente, a
panhadas de educação integral, com base percentagem é de cerca de 50%, na África
na comunidade e sensibilização; os pro- Subsaariana é de 59%, enquanto que as ta-
gramas devem ser específicos para cada xas de infeção na Europa são cerca de 27%
país e adaptados de forma a refletirem as e a América do Norte apresenta a menor
variações regionais, étnicas e socioeconó- taxa de todo o mundo de 21%.
micas, e a separação pormenorizada dos No entanto, o Relatório do Dia Mundial
dados por variáveis socioeconómicas pode da SIDA do UNAIDS para 2011 mostrou
otimizar significativamente e fortalecer os algumas tendências encorajadoras na luta
esforços de promoção ao nível nacional. contra a SIDA: a proporção de mulheres
a viverem com o VIH permaneceu está-
O caso do Egito mostra a necessidade vel e as novas infeções, em geral, dimi-
destas estratégias na linha de ação: em- nuíram em 33 países, 22 deles na África
bora a mutilação genital feminina tenha Subsaariana (a região mais afetada pela
sido proibida e seja punível com multa ou epidemia de SIDA), devido a mudanças
prisão, logo em 1959 (uma proibição con- no comportamento sexual, aumento da
firmada por vários decretos e decisões de idade do primeiro contacto sexual e au-
tribunais superiores, o mais recente em mento do tratamento antirretroviral nas
2008), o estudo de 2005 da UNICEF mos- mulheres grávidas.
202 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

O relatório apresenta uma visão positiva vivem ou que sejam afetadas pelo VIH em
cautelosa de que o objetivo de erradica- situações de conflito e pós-conflito.
ção das novas infeções em crianças pode
ser alcançado até 2015, se os esforços se Direito à Saúde
intensificarem em quatro áreas de ação:
prevenção da infeção do VIH nas mulhe- “Os Estados devem estabelecer um me-
res em idade reprodutiva, parando-se a lhor equilíbrio entre o controlo das fron-
transmissão sexual e relacionada com as teiras e a sua obrigação de proteger as
drogas; integrando-se os esforços de pre- pessoas que são titulares de direitos,
venção no cuidado pré-natal, possibilitan- nomeadamente, requerentes de asi-
do-se o acesso das mulheres aos serviços lo e vítimas presumidas de tráfico. [...]
de planeamento familiar; garantindo-se As obrigações de proteção para com as víti-
testes regulares de VIH e aconselhamen- mas de violações de direitos humanos devem
to às mulheres grávidas, assim como o ser vistas como parte integrante de uma po-
acesso a medicamentos antirretrovirais às lítica de migração ‘saudável’.”
mulheres grávidas com o VIH e aos seus Maria Grazia Giammarinaro. 2012.
recém-nascidos. A este respeito a África
do Sul pode servir como um exemplo de
boas práticas: em 2010, o país forneceu Mulheres e Violência
medicamentos antirretrovirais a cerca de Em muitas sociedades, mulheres e meni-
95% das mulheres elegíveis, para preve- nas são sujeitas a violência física, sexual
nir novas infeções do VIH entre as crian- e psicológica que é transversal a diferen-
ças, o que significa que a taxa de provisão tes rendimentos, classes e culturas, tanto
quase duplicou em apenas três anos. Esta na vida pública, como na privada. Muitas
conquista reflete o compromisso político, vezes, as mulheres são vítimas de viola-
o forte envolvimento da sociedade civil, ções, abusos sexuais, assédio sexual ou
uma prestação de serviços descentralizada intimidação. Escravidão sexual, crimes
e o empoderamento dos enfermeiros. relacionados com o dote, crimes de hon-
Também em 2011, o Conselho de Seguran- ra, gravidez forçada, prostituição forçada,
ça das Nações Unidas, na sua Resolução esterilização e abortos forçados, seleção
1983, afirmou que as mulheres e meninas pré-natal do sexo, infanticídio feminino e
são particularmente afetadas pelo VIH e a mutilação genital feminina são também
que o fardo desproporcional de VIH e SIDA atos de violência cometidos contra as mu-
nas mulheres é um dos obstáculos persis- lheres.
tentes e desafios para a igualdade de gé-
nero e empoderamento das mulheres. No Factos e números
âmbito do seu mandato de manutenção de
paz, o Conselho de Segurança apelou aos x No mínimo, uma em cada três mulhe-
Estados-membros e a outras partes inte- res no mundo já foi abusada, de algu-
ressadas para apoiarem o desenvolvimen- ma forma, durante a sua vida. Assim,
to e fortalecimento das capacidades dos a violência sexual contra as mulheres
sistemas nacionais de saúde e redes da so- e meninas é um problema de propor-
ciedade civil, a fim de prestarem uma as- ções pandémicas. Para além do mais,
sistência sustentável para as mulheres que as mulheres e as meninas normalmen-
E. DIREITOS HUMANOS DAS MULHERES 203

te conhecem o abusador. A violência abrange os seguintes atos, embora não se


contra as mulheres e meninas é uma limite aos mesmos:
das formas mais generalizadas de vio- x violência física, sexual e psicológica
lações de direitos humanos. Deixa vi- ocorrida no seio da família, incluindo os
das devastadas, fratura comunidades maus tratos, o abuso sexual das crian-
e empata o desenvolvimento. ças do sexo feminino no lar, a violên-
cia relacionada com o dote, a violação
x A violência contra as mulheres cau- conjugal, a mutilação genital feminina e
sa custos económicos enormes. Nos outras práticas tradicionais nocivas para
EUA, estima-se que o custo de vio- as mulheres, os atos de violência prati-
lência íntima do parceiro exceda 5.8 cados por outros membros da família e a
biliões de dólares por ano: $4.1 biliões violência relacionada com a exploração;
são para serviços de cuidados médi- x violência física, sexual e psicológica pra-
cos e de saúde diretos, com perdas ticada na comunidade em geral, incluin-
de produtividade contabilizadas em do a violação, o abuso sexual, o assédio
aproximadamente $1.8 biliões. A vio- e a intimidação sexuais no local de tra-
lência contra as mulheres diminui o balho, nas instituições educativas e em
desenvolvimento económico de cada outros locais, o tráfico de mulheres e a
nação; empobrece os indivíduos, fa- prostituição forçada;
mílias e comunidades. x violência física, sexual e psicológica
x O Fundo de População das Nações praticada ou tolerada pelo Estado, onde
Unidas estima que o número de víti- quer que ocorra.
mas de “crimes de honra” é cerca de
5.000 mulheres por ano. Em algumas Além disso, foi estabelecido, em 1994, um
sociedades a castidade das mulheres Relator Especial sobre a Violência contra
é considerada como um assunto de as Mulheres.
família, de forma a que as vítimas de
violação, mulheres suspeitas de terem Além do sistema das Nações Unidas, com
relações sexuais antes do casamento os seus esforços contínuos, algumas or-
e mulheres acusadas de adultério são ganizações regionais comprometeram-se
assassinadas pelos seus familiares. com a prevenção, ou até com a erradica-
ção, da violência contra as mulheres. O
Todos estes atos de violência violam e sistema Interamericano dos Direitos Hu-
enfraquecem ou anulam o gozo dos di- manos, por exemplo, promove a prote-
reitos humanos e liberdades fundamen- ção das mulheres através da Convenção
tais pelas mulheres. Por esta razão foi Interamericana para Prevenir, Punir e
de máxima importância que a Declara- Erradicar a Violência contra a Mulher,
ção sobre a Eliminação da Violência de Belém do Pará, de 1994. Até maio de
contra as Mulheres fosse adotada pela 2012, 32 dos 35 Estados independentes
Assembleia-Geral das Nações Unidas, das Américas ratificaram a Convenção,
por consenso, em 1993, como uma ferra- que é um dos mais significativos marcos
menta para prevenir a violência contra as na chamada de atenção para a questão das
mulheres. Nos termos do Artº 2º da De- mulheres no âmbito do sistema de direitos
claração, a violência contra as mulheres humanos. Esta Convenção foi desenvolvi-
204 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

da pela Comissão Interamericana das Mu- lho sem discriminação em razão do género,
lheres ao longo de um processo de cinco encontra-se previsto no Protocolo Adicional
anos e constitui um quadro importante a de 1988.
nível político e jurídico. Lança as bases
para uma estratégia coerente de aborda- Mulheres e Conflitos Armados
gem ao problema da violência, tornando As mulheres muitas vezes tornam-se as
obrigatória a implementação, por parte primeiras vítimas de violência durante a
dos Estados, de estratégias públicas para a guerra e o conflito armado. No seu ensaio
prevenção da violência e apoio às vítimas. “A Segunda Frente: a Lógica da Violência
Sexual”, Ruth Seifert afirma que, em mui-
No quadro da Comissão Africana dos Di- tos casos, é uma estratégia militar atingir
reitos Humanos e dos Povos, o Protocolo à as mulheres, de modo a destruir o inimigo.
Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Tal como demonstrado acima, a violência
Povos sobre os Direitos das Mulheres em sexual contra a mulher é um crime que as-
África (Protocolo de Maputo), foi elaborado sume proporções pandémicas. Se, na vio-
e adotado pelos Estados-membros da União lência com a origem num parceiro íntimo
Africana (UA) em 2003, e subsequentemen- esta constitui uma forma dos homens do-
te entrou em vigor em 2005. Até maio de minarem as mulheres, a violência sexual
2012, 30 dos 53 Estados-membros da União em tempos de guerra consiste numa forma
Africana ratificaram este Protocolo. de comunicação entre homens, através do
atropelamento dos corpos das mulheres.
Entre as principais convenções do Conselho As mulheres e as meninas são considera-
da Europa (CdE), há duas convenções no das como táticas de guerra para humilhar,
âmbito dos direitos das mulheres: a Con- dominar, introduzir o medo, punir, disper-
venção Europeia dos Direitos Humanos sar e/ou deslocar à força os membros de
(CEDH) e a Carta Social Europeia, e os seus uma comunidade ou grupo étnico. A vio-
respetivos Protocolos. Embora os direitos lação e outras formas de violência sexu-
das mulheres não sejam explicitamente dis- al podem mesmo ser consideradas como
cutidos na CEDH, o artº 14º proíbe qualquer genocídio quando cometida com o intuito
distinção em razão do género (ou outras de destruir um grupo no seu todo ou em
razões). O Protocolo Adicional nº7 à Con- parte, como foi considerado pelo Tribunal
venção adicionou aos direitos protegidos, a Penal Internacional para o Ruanda (TPIR)
igualdade entre cônjuges no respeitante aos na sua decisão relativa a Jean-Paul Akaye-
seus direitos e responsabilidades no casa- su. Conclui-se, também da guerra na Bós-
mento, e no Protocolo nº12, é estabeleci- nia do início dos anos 90, que a “limpeza
da a proibição geral da discriminação por étnica” é uma estratégia de guerra e a vio-
qualquer autoridade pública, por qualquer lação não é um efeito lateral mas um dos
razão, incluindo o género. Os direitos espe- seus métodos. Tendo começado com os tri-
cíficos das mulheres são definidos na Carta bunais do Ruanda e da antiga Jugoslávia,
Social Europeia, tais como a remuneração estes crimes são agora perseguidos e não
igual, proteção materna, proteção de traba- mais permanecem na sombra da impuni-
lhadoras e a proteção social e económica de dade. O Estatuto de 1998 do Tribunal Penal
mulheres e crianças. O direito a oportunida- Internacional, pela primeira vez na histó-
des e tratamento iguais, em relação ao traba- ria, designa expressamente a violação, a
E. DIREITOS HUMANOS DAS MULHERES 205

gravidez e prostituição forçadas como cri- mente violência sexual, durante o confli-
mes contra a humanidade e estabelece um to. Todos estes fatores devem ser tidos em
sistema de responsabilização individual consideração, especialmente em futuras
que tem como objetivo tanto trazer justi- missões de manutenção de paz, de modo a
ça para as vítimas como a pena adequada que seja fornecida às mulheres a máxima
para os perpetradores de tais crimes. assistência possível para lidar com as suas
necessidades especiais.
“Agora é mais perigoso ser-se uma mu-
lher do que um soldado num conflito mo- Uma mudança de paradigma na recons-
derno.” trução pós-conflito foi trazida pela Res.
Maj. Gen. Patrick Cammaert. 2008.
1325 (2000) do Conselho de Segurança da
ONU que foi o primeiro documento legal
do Conselho a exigir às partes em conflito
Factos e números o respeito pelos direitos das mulheres e o
apoio à sua participação nas negociações
x Foram proferidas, no Tribunal Penal para a paz e na reconstrução pós-conflito,
Internacional para a antiga Jugoslá- e que foi seguida pelas Resoluções 1888,
via, 18 condenações relacionadas com 1889 e 1894 (2009). As Resoluções enfati-
a violência sexual, enquanto funcio- zaram a necessidade de adotar uma pers-
nários das Nações Unidas estimam petiva de género em conflitos armados,
que as vítimas de violações ascendam assim como na gestão institucional dos
a 60.000. O número de condenações conflitos, na manutenção da paz e recons-
de outros tribunais é mais baixa: oito trução pós-conflito, para dar formação aos
pelo Tribunal Penal Internacional para funcionários sobre os direitos das mulheres
o Ruanda e seis pelo Tribunal Especial e, da mesma forma, incluir as mulheres em
para a Serra Leoa. processos de manutenção da paz e segu-
rança, especialmente ao nível da tomada
As mulheres raramente têm um papel ati- de decisões. Vários Estados estabeleceram,
vo nas decisões que levam ao conflito ar- entretanto, planos nacionais de ação para a
mado. Pelo contrário, elas trabalham para implementação das Resoluções e iniciativas
preservar ordem social no meio dos confli- da sociedade civil trabalham com o mes-
tos e dão o seu melhor para garantir uma mo objetivo. Contudo, na prática, a ONU
vida o mais normal possível. Além disso, dificilmente consegue atingir os seus pró-
as mulheres, “muitas vezes suportam uma prios objetivos: Nenhuma mulher foi, até
parte desproporcional das consequências agora, nomeada chefe ou mediadora prin-
da guerra”, como o Centro Internacional cipal para a paz em processos de negocia-
para a Investigação sobre as Mulheres afir- ção para a paz promovidos pela ONU, mas
mou no seu boletim informativo sobre re- em alguns processos desenvolvidos pela
construção pós-conflito. Muitas mulheres UA ou outras instituições, mulheres faziam
são esquecidas como viúvas que enfren- parte de equipas de mediadores. Um caso
tam o fardo pesado de apoiarem as suas recente positivo é o papel de Graça Machel
famílias, enquanto muitas vezes elas pró- como um dos três mediadores para a cri-
prias têm de lidar com o trauma causado se no Quénia em 2008. A participação das
por estarem expostas à violência, especial- mulheres nos processos de negociação para
206 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

a paz é ainda feita de forma ad hoc, não epidémicas. Esta bio-pirataria está a ser
sistematizada - em média, é menor do que agora justificada como uma nova “parce-
8% nos 11 processos de paz relativamente ria” entre agronegócios e as mulheres do
aos quais tal informação se encontra dis- Terceiro Mundo. Para nós, o furto não pode
ponível. Menos de 3% dos signatários dos ser a base de uma parceria.”
acordos de paz são mulheres. Fazendo face Vandana Shiva. 1998.
a estas insuficiências, entre outras, a As-
sembleia-Geral das Nações Unidas apoiou A deterioração dos recursos naturais tem
adicionalmente as Resoluções do Conselho efeitos negativos na saúde, bem-estar
de Segurança com a sua Resolução 66/132 e qualidade de vida da população como
em 2011. um todo, mas afeta especialmente as mu-
lheres. Além disso, o seu conhecimento,
Direitos Humanos em Conflito competências e experiências são raramen-
Armado te tomados em consideração pelos deci-
sores, que são maioritariamente homens.
Mulheres e Recursos Naturais A Conferência das Nações Unidas sobre
De acordo com o excerto de “Monocultu- Desenvolvimento Sustentável Rio+20,
ras, Monopólios e Mitos e a Masculiniza- centrou-se, por isso, na igualdade de gé-
ção da Agricultura”, de Vandana Shiva, nero como sendo fundamental para um
as mulheres na Índia têm um papel im- futuro sustentável, na discussão de estra-
portante no que respeita à preservação de tégias e programas para a igualdade de
conhecimentos sobre recursos naturais e género e o desenvolvimento sustentável e
ambiente: “as mulheres que se dedicam destacou o empoderamento das mulheres
à agricultura têm sido as guardiãs das se- nas chamadas economias verdes. A Dire-
mentes e as que as fazem crescer, através tora Executiva da ONU Mulheres, Michel-
dos tempos”. Isto não é apenas verdade na le Bachelet apelou a políticas robustas e
Índia, mas em todo o mundo. Através da compromissos fortes que refletissem com
sua gestão e uso dos recursos naturais, as clareza o papel central das mulheres no
mulheres providenciam sustento às suas desenvolvimento sustentável e condu-
famílias e comunidades. Assim, a tendên- zissem a uma mudança real na vida das
cia recente para a “apropriação das terras” pessoas, através da participação plena das
– aquisições de terras em larga escala por mulheres na agenda do desenvolvimento
empresas domésticas e transnacionais, sustentável.
governos e indivíduos, no seguimento
da crise mundial do preço dos alimentos A Menina
de 2007-2008 – fez das mulheres e das Em muitos países, a menina enfrenta dis-
suas crianças, as primeiras vítimas em criminação desde os seus primeiros anos
muitas regiões do hemisfério sul. de vida, ao longo da infância e na idade
adulta. Devido às atitudes e práticas no-
“O fenómeno da bio-pirataria através da civas, como a seleção pré-natal do sexo,
qual as empresas ocidentais estão a furtar o infanticídio feminino, a mutilação ge-
séculos de conhecimento coletivo e inova- nital feminina, a preferência pelos filhos
ção levada a cabo pelas mulheres do Tercei- rapazes, o casamento precoce, a explora-
ro Mundo está agora a atingir proporções ção sexual, as práticas relacionadas com
E. DIREITOS HUMANOS DAS MULHERES 207

a saúde e a distribuição da alimentação, peito aos direitos das mulheres. A diversida-


menos meninas do que rapazes alcançam de cultural é demasiadas vezes usada como
a idade adulta em algumas áreas do mun- uma desculpa ou impedimento para a total
do. Em sociedades que preferem os filhos implementação dos direitos humanos das
às filhas, a seleção pré-natal do sexo e o mulheres. O documento adotado durante a
infanticídio feminino são práticas genera- Conferência Mundial sobre Direitos Huma-
lizadas que entretanto conduziram a uma nos em Viena, em 1993, é também um êxito
tendência demográfica do sexo masculino importante para as mulheres, uma vez que
que afeta já a vida de mais do que uma sublinha que “todos os direitos humanos
geração. Devido à falta de leis de proteção são universais, indivisíveis, interdependen-
ou ao fracasso na efetivação de tais leis, as tes e interrelacionados. […] Embora se deva
meninas são mais vulneráveis a todos os ter sempre presente o significado das especi-
tipos de violência, particularmente, a vio- ficidades nacionais e regionais e os diversos
lência sexual. Em muitas regiões, as meni- antecedentes históricos, culturais e religio-
nas enfrentam discriminação no acesso à sos, compete aos Estados, independentemen-
educação e à formação especializada. te dos seus sistemas políticos, económicos e
A tradição dos casamentos infantis tam- culturais, promover e proteger todos os direi-
bém conduz a problemas de saúde para as tos humanos e liberdades fundamentais”.
meninas. O casamento antes dos 18 anos
é uma realidade para muitas jovens. De Apesar do conceito amplamente partilha-
acordo com estimativas da UNICEF, mais do de universalidade, muitas áreas da vida
de 64 milhões de mulheres com idades quotidiana das mulheres ainda são fontes
compreendidas entre os 20 e os 24 anos de controvérsia. Em algumas religiões e
eram casadas ou viviam em união de facto tradições, as mulheres não gozam do mes-
antes dos 18 anos. Mais comum na Ásia, o mo tratamento que os homens. A negação
casamento precoce conduz inevitavelmen- de um acesso igual às oportunidades de
te à maternidade precoce e provoca “uma educação e de emprego, assim como a
mortalidade materna cinco vezes maior en- exclusão explícita da tomada de decisões
tre meninas de 10 a 14 anos do que entre políticas é considerada normal. Em casos
as mulheres com idades entre os 20 e os extremos, estas políticas e perceções colo-
24 anos”, como referiu o Comité de ONG cam mesmo uma ameaça à segurança pes-
sobre a UNICEF, na sua documentação re- soal e ao direito à vida das mulheres.
ferente à questão da saúde das meninas.
Em 2002, uma jovem mulher nigeriana foi
Direito à Educação sentenciada à morte por “apedrejamento”
Direito à Saúde por um tribunal que aplica a lei da Sharia.
De acordo com a Amnistia Internacional da
3. PERSPETIVAS Austrália, o crime alegadamente cometido
INTERCULTURAIS pela Amina Lawal foi dar à luz uma criança
E QUESTÕES CONTROVERSAS fora do matrimónio. Este veredicto causou
um enorme tumulto internacional e ques-
O conceito de universalidade é de importân- tiona a compatibilidade de algumas práticas
cia central para os direitos humanos, mas culturais e religiosas com a universalidade
indispensável especialmente no que diz res- dos direitos humanos. Infelizmente, inciden-
208 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

tes recentes, tais como o caso de Sakineh sa do dote na Índia e nos países vizinhos,
Ashtiani no Irão, cuja execução foi adia- desde há décadas, as estatísticas da Índia
da diversas vezes e, no fim, transformada sobre criminalidade relatam milhares de
numa sentença de dez anos, depois de uma casos anuais e números crescentes desde
vaga de protestos internacionais em 2010 e a década de 90.
2011, ou o caso de 2012 de um casal do Mali,
condenados a 100 vergastadas pelo crime Hoje, a participação política das mulhe-
de terem tido um filho fora do casamento, res é considerada mais importante do que
demonstram que se alcançaram poucos re- nunca, uma vez que as mulheres podem
sultados na reconciliação da religião ou da abordar melhor as suas preocupações.
tradição com os direitos das mulheres. Nos últimos 50 anos, mais e mais mu-
lheres alcançaram o direito de voto e de
Proibição da Tortura se candidatar e ocupar cargos públicos.
Liberdades Religiosas De acordo com o anterior Fundo de De-
senvolvimento das Nações Unidas para a
Outra prática religiosa que afeta o quoti- Mulher (UNIFEM), cada vez mais mulhe-
diano das mulheres pode ser encontrada res procuram transformar a política, e os
na Índia onde a Sati, a tradição Hindu de grupos de mulheres estão-se a centrar em
autoimolação na pira funerária com o seu esforços para aumentarem a representação
marido falecido, foi proibida pelo gover- das mulheres nas eleições, para revigorar
no britânico em 1829, mas ainda ocorre a responsabilização política. Hoje, existem
como é provado pelos últimos casos docu- mais mulheres no governo do que nunca.
mentados em 2006 e 2008. Enquanto que A proporção de mulheres deputadas a ní-
a Sati, vista tradicionalmente como o ato vel nacional aumentou 8% na década de
altamente respeitado de uma total devo- 1998 a 2008, em relação à média global
ção da mulher ao seu marido, ainda existe atual de 18,4%, em comparação com o
embora mais raramente, na Índia moder- aumento de apenas 1%, nas duas décadas
na, há um aumento chocante do número após 1975. No entanto, em todo o mundo,
de mortes entre mulheres (na maioria, jo- a igualdade de género no âmbito da gover-
vens) cujos maridos estão bem e vivos. As nação democrática continua a ser bastante
chamadas “mortes por causa do dote”, às limitada. As mulheres encontram-se em
vezes também referidas como “homicídios menor número, de 4 para 1, nas legisla-
de noivas”, ocorrem muitas vezes após turas em todo o mundo. Em meados de
um longo período de perseguição e tortura 2009, apenas 17 chefes de Estado ou de
pelos parentes do noivo, de forma a pres- governo eram mulheres. Mesmo continu-
sionar a família da noiva a pagar um dote ando a aceleração da taxa atual relativa à
mais elevado do que o anteriormente acor- participação das mulheres, em compara-
dado. Estes incluem casos de mulheres ção com as décadas anteriores, estaremos
que são assassinadas, mas também que ainda muito longe de alcançar a “zona de
são, presumivelmente, forçadas a cometer paridade” de 40-60%. De acordo com esti-
suicídio por autoimolação, envenenamen- mativas da ONU Mulheres, os países com
to ou enforcamento. Apesar das ONG e do sistemas eleitorais representativos por
governo, bem como de iniciativas interna- maioria simples dos votos, sem qualquer
cionais de luta contra as mortes por cau- tipo de regime de quotas, não vão atingir
E. DIREITOS HUMANOS DAS MULHERES 209

o limiar de 40% de mulheres em cargos migrante ou muçulmana terá mais difi-


públicos até perto do final deste século. culdades em encontrar um trabalho ade-
Também se tem assistido, nos últimos quado do que um homem migrante ou
anos, a uma forte participação feminina muçulmano ou uma mulher pertencente
nos movimentos e revoluções democráti- à maioria da população. A Agência dos
cos e sociais, assim como nos retrocessos Direitos Fundamentais da União Europeia
imediatos. Durante a Revolução Verde Ira- descreve a discriminação múltipla como
niana de 2009 e 2010 e a Primavera Árabe situações em que a discriminação tem lu-
de 2011, as estações de televisão de todo gar com base em mais do que um funda-
o mundo transmitiram imagens de mu- mento protegido e centra-se nas práticas
lheres na linha da frente, a manifestar-se das legislações nacionais e de organismos
e a lutar pela democracia e participação, para a igualdade, no entanto, até hoje este
transmitindo a ideia daquilo que poderia problema recorrente para muitas mulheres
ser a igualdade de género e participação não se encontra claramente refletido na le-
nas sociedades islâmicas. Porém, tendo as gislação Europeia contra a discriminação.
revoluções terminado em repressão contí-
nua, guerra civil ou as eleições democrá- Direito ao Trabalho
ticas ganhas pelos partidos islâmicos, a
participação política das mulheres parece 4. IMPLEMENTAÇÃO
ter sido novamente adiada. E MONITORIZAÇÃO

Direito à Democracia A total implementação dos direitos huma-


nos das mulheres requer esforços especiais
Desde o fim do comunismo, as mulheres para reinterpretar alguns instrumentos de
em países pós-comunistas ganham cer- direitos humanos internacionais e para de-
ca de um terço a menos do que os seus senvolver novos mecanismos para garantir
colegas masculinos pelo mesmo trabalho a igualdade de género.
realizado, com as mesmas qualificações.
Dentro da União Europeia, o artº 141º do Relativamente à implementação dos di-
Tratado Constitutivo da Comunidade Eu- reitos humanos das mulheres existem
ropeia exige um pagamento igual, para diferentes abordagens que podem ser se-
trabalho igual para homens e mulheres, guidas não apenas pelos governos, mas
com as mesmas qualificações. Contudo, também pela sociedade civil:
na realidade muitos Estados-membros x A primeira é a disseminação dos ins-
da UE estão ainda longe de alcançar com- trumentos e mecanismos de direitos
pletamente o pagamento igual, para tra- humanos das mulheres através da edu-
balho igual, entre homens e mulheres. cação para os direitos humanos nos
Além disso, está a aumentar a consciência sistemas educativos formal e informal.
de que ser mulher nem sempre é motivo Não é possível às mulheres poderem
único para a discriminação. Por exemplo, exercer os seus direitos humanos se não
em muitas áreas, é muito mais provável souberem o que são.
que seja a mulher e não o homem a per- x Outro passo é encorajar as mulheres
der o emprego quando envelhecer ou, em a monitorizar a atuação dos seus Es-
muitas sociedades europeias, uma mulher tados para saber se estes estão a cum-
210 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

prir os seus deveres, de acordo com os mentos de direitos das mulheres é a


instrumentos de direitos humanos que formação de mulheres defensoras
ratificaram. Se as obrigações do Esta- sobre o uso dos mecanismos de di-
do não são devidamente cumpridas, reitos humanos. Atualmente, poucas
as ONG podem preparar relatórios al- mulheres conhecem os instrumentos
ternativos ou “sombra” para o Comi- de direitos humanos e ainda menos
té específico. As mulheres devem ser percebem os passos apropriados para
encorajadas a preparar relatórios alter- invocá-los.
nativos tanto para o Comité da CEDM
que monitoriza o cumprimento pelos A Conferência Mundial sobre Direitos
Estados Partes das suas obrigações de Humanos realizada em Viena, em junho
acordo com a CEDM, e para outros ór- de 1993, apoiou a criação de um meca-
gãos dos tratados. Os relatórios sombra nismo novo, um Relator Especial sobre
permitem aos membros da sociedade a Violência contra as Mulheres, estabe-
civil responsabilizar os seus governos lecido em 1994. Em 2009, Rashida Man-
pelas obrigações e compromissos que joo, da África do Sul, assumiu a posição
aceitaram ao nível internacional. Para de Yakin Ertürk, da Turquia. Como parte
além de contribuírem para uma maior das suas obrigações, ela visita países e
consciencialização sobre o processo examina o nível de violência contra as
de elaboração de relatórios relativos à mulheres nesses países, mas também
CEDM, no país. emite recomendações para que esses pa-
x Nos países onde o Protocolo Opcional íses adaptem as suas práticas em confor-
à CEDM ainda não foi ratificado, de- midade com as normas jurídicas interna-
vem ser organizadas campanhas para cionais no campo dos direitos humanos
influenciar a sua rápida ratificação. A das mulheres.
ratificação deste Protocolo Opcional
significa que o Estado que ratifica reco- Apesar das melhorias significativas, nos
nhece a competência do Comité para a últimos 30 anos, no campo dos direitos
Eliminação da Discriminação contra a humanos das mulheres, o surgimento de
Mulher para receber e considerar quei- pensamentos ultraconservadores e do
xas de indivíduos ou grupos dentro da fundamentalismo em muitas sociedades
respetiva jurisdição do Estado. No caso significou um enorme retrocesso para
de violações graves e sistemáticas, o Co- os direitos humanos das mulheres e por
mité pode decidir iniciar uma investi- isso é de extrema importância que o ape-
gação, se esta possibilidade não for ex- lo urgente para uma total implementação
cluída pelo respetivo Estado ao ratificar dos direitos humanos das mulheres para
o Protocolo. todas as mulheres seja mantido a todo o
x Um passo importante em direção à custo.
completa implementação dos instru-
E. DIREITOS HUMANOS DAS MULHERES 211

CONVÉM SABER
da Declaração de Pequim e da Plataforma de
1. BOAS PRÁTICAS Ação relaciona as obrigações jurídicas com
a realidade, em muitos países, baseado em
Os Direitos Humanos numa Perspetiva relatórios de peritos, bem como em testemu-
de Género nhos de mulheres afetadas. Um outro manu-
O processo de interpretação dos instru- al “Between their Stories and our Realities”
mentos internacionais de direitos humanos foi produzido com o apoio do Instituto de
numa perspetiva sensível ao género já co- Viena para o Desenvolvimento e Coopera-
meçou. Um dos melhores exemplos é a ado- ção e pelo Departamento para a Cooperação
ção, pelo Comité dos Direitos Humanos das no Desenvolvimento do Ministério dos Ne-
Nações Unidas, do Comentário Geral nº gócios Estrangeiros Austríaco, em 1999, para
28, em março de 2000. Ao interpretar o artº comemorar o 20º aniversário da CEDM e é
3º do Pacto Internacional sobre os Direitos uma parte integrante da série de vídeo aci-
Civis e Políticos (PIDCP) no que respeita ma mencionada “Women Hold Up The Sky”.
aos direitos iguais de homens e mulheres no Com esta contribuição o People’s Movement
gozo de todos os direitos civis e políticos, o for Human Rights Education forneceu mate-
Comité reviu todos os artigos do Pacto atra- rial valioso para a formação das gerações fu-
vés de uma perspetiva sensível ao género. turas de ativistas dos direitos das mulheres.
Em 1992, o Comité Latino-Americano e
do Caribe para a Defesa dos Direitos da “Neste momento, gostaria de prestar home-
Mulher (CLADEM) lançou uma campanha nagem às mulheres da Women’s Caucus
que incluiu organizações de todo o mun- for Gender Justice, que tiveram em consi-
do que resultou na redação da Declaração deração as experiências das mulheres na
Universal dos Direitos Humanos (DUDH) guerra, identificaram estratégias para lidar
sob a perspetiva do género. Agora, esta com violações e ultrapassar a oposição in-
Declaração é usada como uma declara- tensa de muitos representantes nas nego-
ção “sombra”, para efeitos pedagógicos. ciações do Tribunal Penal Internacional
O objetivo é encorajar as mulheres não só (TPI), procurando garantir que a violação,
a aprender sobre direitos humanos, mas escravidão sexual, gravidez forçada e ou-
também a incluir neste quadro as suas tras formas de violência baseada no género
próprias experiências, necessidades e de- e sexual são incluídas no estatuto do TPI.”
sejos, expressos na sua própria língua. Mary Robinson, Alta Comissária das Nações Unidas
para os Direitos Humanos. 2000.
Formação para os Direitos das Mulheres
O People’s Movement for Human Rights O Apoio dos Meios de Informação Digi-
Education (PDHRE) fez uma importante tais aos Direitos das Mulheres e das Me-
contribuição para o avanço dos direitos das ninas
mulheres com o seu pioneiro “Passapor- Apesar do hiato digital mundial, mais mu-
te para a Dignidade” e as séries de vídeo lheres do que nunca, especialmente jo-
“Women Hold up the Sky”. O Passaporte vens e mulheres instruídas, têm acesso aos
para a Dignidade com a sua pesquisa global meios de informação eletrónicos e à World
sobre as 12 principais áreas de preocupação Wide Web. Um número crescente destas
212 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

mulheres não se limita a consumir conte- diversas questões de direitos humanos e


údo digital, mas aproveita também ativa- de direito humanitário. As mulheres aper-
mente as oportunidades de participação ceberem-se de que sem agrupamentos or-
oferecidas pelas tecnologias e aplicações ganizados, as preocupações das mulheres
da Web 2.0. Uma boa prática para se supe- não seriam apropriadamente defendidas e
rar a comunicação de apenas um sentido e promovidas. Em 1998, um grupo de mu-
se utilizar os meios de informação digitais lheres participou na Conferência de Roma
para compromissos sociais é o Prémio Ci- para a elaboração do Estatuto do Tribu-
meira Mundial de Juventude, que incenti- nal Penal Internacional para garantir que
va os jovens a utilizarem os meios de infor- os direitos humanos das mulheres fossem
mação digitais para agirem pelos Objetivos seriamente considerados e incorporados
de Desenvolvimento do Milénio das Nações pelos redatores. Avaliando o Estatuto de
Unidas: Metade dos vencedores, em todas Roma que entrou em vigor a 1 de julho
as categorias, foram projetos inicializados de 2002, elas foram bem sucedidas: O di-
ou executados por mulheres, com uma for- reito internacional humanitário atingiu um
te componente educativa, de informação novo marco com o Estatuto de Roma, es-
e de participação. Em 2011, dois dos três pecialmente no que respeita à inclusão de
vencedores do prémio “Poder para as Mu- crimes de violência sexual. As atrocidades
lheres” (Power 2 Women) abordaram expli- no território da antiga Jugoslávia e no Ru-
citamente a violência contra as mulheres: o anda também mostraram que a proteção
“Mapa de Assédio” (Harrassmap) do Egito das mulheres e dos seus direitos humanos
implementou um sistema de SMS para re- necessita de ser parte do mandato do Tri-
latar casos de assédio sexual, e o “Toque bunal Penal Internacional.
a Campainha!” (Bell Bajao), foi uma cam- O Estatuto de Roma menciona explicita-
panha multimédia para abordar os homens mente, pela primeira vez na história, uma
diretamente, no contexto da violência, an- variedade de crimes puníveis de acordo
tes um tabu grave na Índia, e para ajudar com o Estatuto que são principalmente co-
os homens a sentirem-se com legitimidade metidos contra as mulheres. Por exemplo,
para intervirem de forma a terminar, com o artº 7º, nº1, declara que “[…] violação,
eficácia, a violência doméstica. O terceiro escravatura sexual, prostituição forçada,
vencedor, “Estação de Rádio apenas para gravidez à força, esterilização à força ou
Mulheres” (Girls Only Radio Station), estabe- qualquer outra forma de violência no cam-
lecida no Egito em 2008, descreve-se como po sexual de gravidade comparável […]”
uma revista digital a incluir tópicos como constituem crimes contra a humanidade.
a autodefesa e a reabilitação após o abuso Além disso, é dada explícita atenção a ví-
sexual, assim como a consciência política timas e a testemunhas. O artº 68º do Esta-
para as mulheres em muitas áreas e desafia tuto afirma que “[…] a segurança, o bem-
a cultura prevalecente profundamente en- estar físico e psicológico, a dignidade e a
raizada de discriminação das mulheres. vida privada das vítimas e testemunhas”
deve ser preservada e que qualquer um
2. TENDÊNCIAS dos juízos pode decretar “[…] que um ato
processual se realize, no todo ou em par-
Nas últimas duas décadas, as ONG para te, à porta fechada ou permitir a produção
as mulheres envolveram-se ativamente em de prova por meios eletrónicos ou outros
E. DIREITOS HUMANOS DAS MULHERES 213

meios especiais. Estas medidas aplicar-se- adotaram a Declaração do Milénio das


ão, nomeadamente, no caso de uma vítima Nações Unidas, a partir da qual deriva-
de violência sexual ou de um menor que ram os oito objetivos. Todos os objetivos
seja vítima ou testemunha”. Estas medidas referem-se, explicita e implicitamente, às
de proteção são também um resultado de condições de vida das mulheres e dos ho-
experiências feitas durante os julgamentos mens; dois deles, os objetivos 3 e 5, ex-
que tiveram lugar no TPIAJ e no TPIR. clusivamente, a questões de mulheres:
Em março de 2012, 121 Estados de todo • Objetivo 3: Promover a igualdade de
o mundo haviam ratificado o Estatuto de género e empoderar as mulheres: o
Roma. Instituto de Estatística da UNESCO (UIS)
é a fonte oficial de dados estatísticos que
Também ao nível nacional, os movimentos monitoriza o progresso em direção aos
de mulheres foram bem sucedidos na pro- objetivos, e divulga os factos e números
moção dos direitos humanos das mulhe- mais recentes no Digesto da Educação
res. No Uganda, por exemplo, as mulheres Global. A edição de 2010 do digesto cen-
legisladoras pressionaram no sentido de trou-se no género e demonstrou a ten-
uma nova lei sobre as terras que permitiria dência geral de que apenas um em cada
as mulheres herdarem terras dos seus ma- três países alcançou a paridade em am-
ridos falecidos. O costume tinha proibido bas as educações primária e secundária.
este direito há muito tempo. Finalmente, As regiões em que a maioria dos países
elas conseguiram e agora muitas mulhe- se arriscam a não atingir as metas até
res sabem que têm o direito à terra de que 2015 são a África Subsaariana, a Amé-
necessitam para se sustentarem. Este su- rica Latina, os Estados Árabes, a Ásia
cesso encorajou-as a abordar outras ques- Oriental e a região do Pacífico.
tões relacionadas e importantes para as • Objetivo 5: Melhorar a saúde materna:
mulheres, tais como a Lei sobre Relações de acordo com as estimativas referentes
Domésticas que procura banir a violência à mortalidade materna, da Interagência
doméstica e algumas tradições, como a po- das Nações Unidas, de 2012, tanto o nú-
ligamia. mero global de mortes maternas como
a ratio de mortalidade materna caíram
O compromisso da comunidade interna- um terço desde 1990. Embora tenha ha-
cional de eliminar as disparidades de gé- vido um progresso significativo em to-
nero em todos os níveis de educação, até das as regiões em desenvolvimento, o
2015, faz parte dos Objetivos de Desen- declínio médio da percentagem anual,
volvimento do Milénio (ODM). O esco- em termos globais, ainda está aquém da
po dos Objetivos de Desenvolvimento do meta dos ODM. A taxa anual de declí-
Milénio é encorajar o desenvolvimento, nio estimada de 1,7% na África Subsa-
através da melhoria das condições sociais ariana, onde os níveis de mortalidade
e económicas nos países mais pobres do são os maiores, é mais lenta do que em
mundo. Estes objetivos derivam de metas qualquer outra região.
de desenvolvimento internacionais ante-
riores e foram oficialmente estabelecidos A campanha Unidos para a Eliminação
após a Cimeira do Milénio, em 2000, na da Violência contra as Mulheres (UNi-
qual todos os líderes mundiais presentes TE) foi lançada em 2008 e consiste num
214 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

esforço de vários anos a prevenir e elimi- ma das Nações Unidas, que se centravam
nar a violência contra as mulheres e me- exclusivamente na igualdade de género e
ninas em todas as partes do mundo. A empoderamento das mulheres: a Divisão
UNiTE apela aos governos, sociedade civil, para o Progresso das Mulheres, o Institu-
organizações de mulheres, jovens, ao setor to Internacional de Pesquisa e Formação
privado, aos meios de informação e a todo para a Promoção da Mulher, o Gabinete
o sistema da ONU para unirem forças para do Assessor Especial para Questões de
se enfrentar a pandemia global da violên- Género e Promoção da Mulher e o Fundo
cia contra as mulheres e meninas. de Desenvolvimento das Nações Unidas
A UNiTE pretende atingir até 2015 os se- para a Mulher (UNIFEM). As principais
guintes cinco objetivos, em todos os países: funções da ONU Mulheres são:
• a adoção e execução das leis internas • apoiar organismos intergovernamentais,
para enfrentar e punir todas as formas como a Comissão sobre o Estatuto das
de violência contra mulheres e meni- Mulheres, na sua formulação de políti-
nas; cas, padrões internacionais e normas;
• a adoção e implementação de planos de • ajudar os Estados-membros a imple-
ação nacionais multissetoriais; mentarem estas normas, disponibili-
• o reforço da recolha de dados sobre a zando-se para prestar apoio técnico e
prevalência da violência contra as mu- financeiro adequado aos países que o
lheres e meninas; solicitem, e estabelecerem parcerias efi-
• o aumento da consciência pública e mo- cazes com a sociedade civil; e
bilização social; e • manter o sistema das Nações Unidas
• a abordagem da violência sexual nos responsável pelos seus próprios com-
conflitos. promissos sobre a igualdade de género,
incluindo a monitorização regular do
Em 2010, as Nações Unidas agruparam as progresso de todo o sistema.
suas competências e esforços respeitantes
às mulheres e questões de género através da “No âmbito da ordem patriarcal existente,
criação da ONU Mulheres e a Entidade das a CEDM é um documento revolucionário
Nações Unidas para a Igualdade de Género extraordinário, único na sua perceção das
e o Empoderamento das Mulheres. mulheres enquanto seres humanos plenos.”
Shulamith Koenig. 2009.
Os Estados-membros da ONU deram,
desta forma, um passo histórico na ace- Um dos documentos mais recentes para a
leração do processo para se atingirem os aplicação e integração de questões de géne-
objetivos da organização respeitantes à ro na legislação e administração, bem como
igualdade de género e ao empoderamen- no âmbito das próprias Nações Unidas é a
to das mulheres. A constituição da ONU Resolução da Assembleia-Geral das Nações
Mulheres surgiu como parte da agenda Unidas 66/132, para o acompanhamento
de reforma das Nações Unidas, reunindo da Quarta Conferência Mundial sobre as
recursos e mandatos para obtenção de Mulheres, a implementação integral da De-
um impacto maior. Funde-se e constrói- claração e Plataforma de Ação de Pequim e
se sobre o trabalho importante de quatro dos resultados da vigésima terceira sessão
instituições distintas anteriores do siste- especial da Assembleia-Geral, em 2011.
E. DIREITOS HUMANOS DAS MULHERES 215

3. CRONOLOGIA 1985 Terceira Conferência Mundial das


Nações Unidas sobre as Mulheres
1789 Declaração dos Direitos da Mulher (Nairobi): Adoção das Estratégias
e da Cidadã (Olympe de Gouges) Prospetivas de Ação, de Nairobi,
1888 Fundação do Conselho Internacio- para o Progresso das Mulheres até
nal das Mulheres ao ano 2000
1921 Convenção Internacional para a 1994 Estabelecimento do Relator Espe-
Supressão do Tráfico de Mulheres cial sobre a Violência contra as
e Crianças e Protocolo retificativo Mulheres
1950 Convenção para a Supressão do Trá- 1994 Convenção para Prevenir, Punir e
fico de Pessoas e da Exploração da Erradicar a Violência contra a Mu-
Prostituição de Outrem (em vigor: lher, de Belém do Pará (em vigor
1951, ratificações até março 2012: 82) 1995)
1953 Convenção sobre os Direitos Políti- 1995 Quarta Conferência Mundial das
cos das Mulheres (em vigor: 1954, Nações Unidas sobre as Mulheres
ratificações até maio 2012: 122) (Pequim)
1957 Convenção sobre a Nacionalidade 1998 Estatuto de Roma do Tribunal Pe-
das Mulheres Casadas (em vigor: nal Internacional (em vigor: 2002,
1958, ratificações até maio 2012: 74) ratificações até maio 2012: 121)
1962 Convenção sobre o Consentimento 1999 Protocolo Opcional à Conven-
para o Casamento, a Idade Mínima ção sobre a Eliminação de Todas
para o Casamento e o Registo dos as Formas de Discriminação con-
Casamentos (em vigor: 1964, rati- tra as Mulheres (em vigor: 2000,
ficações até maio 2012: 55) ratificações até maio 2012: 104)
1967 Declaração sobre a Eliminação da 2000 Resolução do Conselho de Se-
Discriminação contra as Mulheres gurança das Nações Unidas S/
RES/1325 (2000) relativa a mulhe-
1975 Primeira Conferência Mundial das res, paz e segurança
Nações Unidas sobre as Mulheres
(Cidade do México) 2000 Protocolo relativo à Prevenção,
Repressão e à Punição do Tráfico
1976 Início da Década das Nações Uni- de Pessoas, em especial de Mu-
das para as Mulheres: Igualdade, lheres e Crianças, como suple-
Desenvolvimento e Paz mento à Convenção das Nações
1979 Convenção sobre a Eliminação de Unidas contra a Criminalidade
Todas as Formas de Discriminação Organizada Transnacional (em
contra as Mulheres (CEDM) (em vigor: 2003, ratificações até maio
vigor: 1981, ratificações até maio 2012: 147)
2012: 187) 2000 23ª Sessão Especial da Assem-
1980 Segunda Conferência Mundial das bleia-Geral sobre “Mulheres 2000:
Nações Unidas sobre as Mulheres Igualdade de Género, Desenvolvi-
(Copenhaga) mento e Paz para o Século XXI”
216 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

2003 Protocolo Adicional à Carta Afri- 2009 Resolução do Conselho de Se-


cana dos Direitos Humanos e dos gurança das Nações Unidas S/
Povos sobre os Direitos das Mu- RES/1894 (2009) relativa à prote-
lheres em África (Protocolo de ção de civis em conflitos armados
Maputo) 2010 Resolução do Conselho de Se-
2005 Pequim+10: Revisão dos Dez gurança das Nações Unidas S/
Anos e Apreciação da Declaração RES/1620 (2010) relativa a mulhe-
e Plataforma de Ação de Pequim res, paz e segurança
e do Documento Resultante da 2010 Pequim+15: Revisão dos Quinze
23ª Sessão Especial da Assem- Anos e Apreciação da Declaração
bleia Geral e Plataforma de Ação de Pequim
2008 Resolução do Conselho de Se- 2010 Estabelecimento da ONU Mulheres
gurança das Nações Unidas S/ (entidade das Nações Unidas para
RES/1820 (2008) relativa a mulhe- a igualdade de género e o empo-
res, paz e segurança deramento das mulheres) pela As-
2009 Resolução do Conselho de Se- sembleia-Geral das Nações Unidas
gurança das Nações Unidas S/ 2011 Resolução da Assembleia-Geral das
RES/1888 (2009) relativa a mulhe- Nações Unidas A/RES/66/132 sobre
res, paz e segurança o acompanhamento da Quarta Con-
2009 Resolução do Conselho de Se- ferência Mundial sobre as Mulheres
gurança das Nações Unidas S/ e a implementação plena da Decla-
RES/1889 (2009) relativa a mulhe- ração e Plataforma de Ação de Pe-
res, paz e segurança quim e dos resultados da 23ª Sessão
Especial da Assembleia-Geral

ATIVIDADES SELECIONADAS
ATIVIDADE I: a terminologia legal; trabalhar diferentes
PARAFRASEANDO A CEDM perspetivas sobre direitos das mulheres;
debater instrumentos jurídicos que lidam
Parte I: Introdução com os direitos das mulheres.
Esta atividade procura melhorar a compre- Grupo-alvo: Jovens adultos e adultos
ensão da CEDM e é especialmente direcio- Dimensão do grupo: 20-25; pequenos gru-
nada a não juristas que não estão familia- pos de trabalho e debate com o grupo todo
rizados com a terminologia jurídica. Duração: aproximadamente 60 minutos
Material: Cópias da CEDM, papel e caneta
Parte II: Informação Geral Competências envolvidas: leitura e para-
Tipo de atividade: Exercício fraseamento da terminologia jurídica, co-
Metas e objetivos: Sensibilização sobre os municação, cooperação e análise de dife-
direitos das mulheres; familiarizar-se com rentes pontos de vista.
E. DIREITOS HUMANOS DAS MULHERES 217

Parte III: Informação Específica sobre a intermédio dos homens? Quais são os
Atividade obstáculos à autonomia das mulheres?
Instruções: x O que diz a Constituição do seu país
Depois de fazer uma introdução à CEDM, sobre os direitos das mulheres? Existe
pedir aos participantes que se dividam em disparidade entre a realidade e a Cons-
grupos de 4 ou 5 pessoas. Cada grupo será tituição?
responsável por traduzir uma determinada x Tem conhecimento de algum processo
parte da CEDM para linguagem não jurídi- jurídico a decorrer atualmente a respei-
ca, linguagem corrente. É também possível to dos direitos humanos das mulheres?
entregar o mesmo artigo ou artigos a todos Qual é o assunto? Quais são os direitos
os grupos, o que torna o debate mais in- lesados?
teressante uma vez que diferentes pessoas Sugestões práticas:
poderão entender certas expressões de for- Trabalhar em pequenos grupos de quatro
ma diferente. ou cinco possibilita um debate mais inten-
Dar 30 minutos ao grupo para trabalhar sivo e permite aos participantes silencio-
e depois chamá-los para o plenário. sos ou tímidos uma melhor oportunidade
Cada grupo apresenta a sua “tradução” de se envolverem. Contudo, os resultados
ao grupo inteiro. Deixar tempo para o dos trabalhos de grupo devem ser sempre
debate e esclarecimento de questões. apresentados e debatidos na presença de
Depois, o grupo deve pensar na situa- todos de modo a garantir o mesmo nível
ção no seu país natal. O debate de todas de conhecimento a todos os participantes.
ou algumas das seguintes questões pode Outras sugestões:
ser útil na análise sobre o que pode ser A atividade pode ser realizada com qual-
modificado: quer documento jurídico de acordo com o
x A sua sociedade coloca os direitos das interesse dos participantes e os tópicos do
mulheres separados dos direitos huma- curso.
nos? Como é feita esta segregação: pela
lei? Pelo costume? Parte IV: Acompanhamento
x A segregação é direta? É um “facto da Um acompanhamento adequado pode ser
vida” sobre o qual ninguém fala? a organização de uma campanha para os
x A segregação afeta todas as mulheres? direitos das mulheres.
Se não, quais são as mulheres mais afe- Direitos relacionados/ outras áreas a ex-
tadas? plorar:
x Descreva exemplos particulares de se- Direitos humanos em geral, direitos das
gregação de género. minorias, não discriminação.
x Como respondem as mulheres à segre-
gação? ATIVIDADE II:
x Existem direitos humanos dos quais os O CAMINHO PARA A IGUALIA
homens gozam naturalmente enquanto
as mulheres têm de fazer um esforço Parte I: Introdução
especial para terem esses direitos reco- O caminho para a igualdade é longo e si-
nhecidos? nuoso...
x Existem aspetos da vida onde se espera Os participantes ajudam os viajantes a
que as mulheres devam agir através do encontrarem o seu caminho, por entre
218 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

diversos obstáculos, desenhando um rias que usem a metáfora de uma pessoa


mapa de fantasia do caminho para a em viagem para defender ideais morais.
Igualia, um país onde existe a igualda- Descobrir algumas metáforas comuns
de de género verdadeira. No presente, a por exemplo, a forma como uma flo-
Igualia existe apenas na imaginação das resta escura pode ser usada como uma
pessoas, mas o seu mapa mostra o cami- metáfora para o mal ou uma maçã ver-
nho para o futuro. melha para representar a tentação. O
viajante pode demonstrar força moral
Parte II: Informação Geral ao atravessar a nado um rio que flui
Tipo de atividade: Trabalho de grupo, rapidamente ou humildade ao auxiliar
imaginação e desenho outra pessoa.
Metas e objetivos: Desenvolver a com- Analisar brevemente a forma como se con-
preensão e a apreciação dos objetivos de cebem os mapas. Apontar os caminhos re-
igualdade e equilíbrio de género; o desen- presentados pelas linhas, o sombreamento
volvimento da imaginação e criatividade para as montanhas e os rios e os símbolos
para vislumbrar o futuro; promovendo a usados para as florestas, charnecas, pré-
justiça e o respeito dios, cabos de energia, etc.
Grupo-alvo: Jovens adultos e adultos Pedir às pessoas que se organizem em pe-
Dimensão do grupo: 10-30, trabalho em quenos grupos de 3 a 5 pessoas. Distribuir
pequenos grupos e debate com o grupo as folhas de papel e lápis e dar-lhes cer-
todo ca de 15 minutos para fazerem 3 curtas
Duração: aproximadamente 90 minutos discussões sobre como imaginam Igualia,
Material: Folhas de papel e lápis para a que obstáculos iriam encontrar no trajeto
chuva de ideias, folhas de papel grandes, para Igualia e como os iriam superar.
marcadores de diferentes cores, um mapa Entregar as folhas de papel grandes e os
pedestre ou qualquer outro tipo de mapa marcadores. Pedir a cada grupo que dese-
que contenha caraterísticas físicas, tais nhe o seu mapa de fantasia, a representar
como montanhas, vales, rios, florestas, al- as paisagens do presente e do futuro e um
deias, pontes, etc. caminho a passar entre os dois. Eles de-
Preparação: Familiarizar-se com o mapa e vem fazer os seus próprios símbolos para
os símbolos utilizados as características geográficas e para os
Competências envolvidas: Análise, dis- obstáculos e facilidades que se encontram
cussão e decisões de grupo, aptidões cria- ao longo do caminho.
tivas/desenho Dar aos grupos 40 minutos para desenha-
rem seus mapas. Lembrá-los de fazerem
Parte III: Informação Específica sobre a uma tabela para os símbolos que usaram.
Atividade Reunir o plenário e pedir às pessoas para
Instruções: apresentarem os seus mapas.
Explicar que nesta atividade os participan- Reações:
tes irão desenhar um mapa de fantasia de Começar com uma conversa sobre a for-
como chegar à Igualia, um país onde exis- ma como os diferentes grupos trabalha-
te igualdade de género verdadeira. ram juntos e como eles tomaram decisões
Pedir aos participantes que se lembrem sobre o que representar e sobre a forma
de contos populares ou de outras histó- como desenharam o mapa. Ao prosseguir,
E. DIREITOS HUMANOS DAS MULHERES 219

abordar a forma como na realidade seria a prazo para aumentar a igualdade de gé-
Igualia e sobre os obstáculos: nero?
• As pessoas gostaram da atividade? De • Quais outros grupos são discriminados
que gostaram? na sua sociedade? Como se manifesta
• Qual das três perguntas foi a mais fácil de essa discriminação? Quais os direitos
debater? Qual foi a mais difícil? Porquê? humanos que estão a ser violados?
• Quais são as principais caraterísticas da x Como se podem empoderar os grupos
Igualia? desfavorecidos de forma a poderem re-
• Quais são os principais obstáculos que clamar os seus direitos?
impedem que a sociedade do presente
seja a Igualia ideal? Parte IV: Acompanhamento
• Se tivesse de classificar o seu país en- Considerar a política da sua escola, clube ou
tre todos os países do mundo, no que local de trabalho sobre a igualdade de oportu-
respeita à igualdade de oportunida- nidades em relação ao género e discutir como
des entre homens e mulheres, como o as políticas são implementadas e se são ne-
classificaria numa escala de 1 a 10? 1 é cessárias mudanças ou esforços para elevar a
muito desigual, 10 é a igualdade quase sua instituição ao estatuto da Igualia.
ideal. Direitos relacionados/ outras áreas a ex-
• O que precisa mudar, de forma a cons- plorar:
truir-se uma sociedade onde exista Direitos humanos em geral, direitos das
igualdade de género? minorias, não discriminação.
• Qual é o papel da educação para o em- (Fonte: Rui Gomes et al. (eds.). 2002.
poderamento e os direitos humanos? COMPASS. A manual on human rights
• Justificam-se as políticas de discrimina- education with young people.)
ção positiva enquanto medidas a curto

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