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Artigo 19

Filosofia, Existência e Pós-Modernidade
Philosophy, Existence and Post-modernity

Sávio Carlos Desan SCOPINHO
Faculdades Integradas
Claretianas -Rio Claro

Resumo

Este artigo é uma reflexão sobre a crise dos paradigmas da Modernidade, a partir da crítica à concepção de ser da metafísica tradicional
e à noção de sujeito da filosofia moderna. É também um estudo sobre a existência humana na sociedade contemporânea, enquanto
destruição dos valores do mundo moderno, principalmente ligados ao tema da corporeidade. Apresenta os novos valores e as novas
abordagens filosóficas, presentes numa realidade cultural pluralista e complexa. Analisa a existência humana, numa interpretação nietzschiana
e heideggeriana, inserida no contexto da pós-modernidade, tendo como referência a filosofia pós-moderna numa nova perspectiva
ontológica e antropológica, considerando a proposta filosófica de Gianni Vattimo.
Palavras-chave: Existência, Filosofia, Paradigmas, Pós-modernidade, Ser Humano.

Abstract

This article is a reflection about the crisis on the paradigms of modernity. It is based on the critic about the traditional metaphysics
conception of being and also based on the notion of subject of the modern philosophy. This is a study about the human existence on
the contemporary society, as destruction of values of the modern world, mainly associated to the corporeity theme. Also, it is a
presentation of new values and new philosophical approaches present in a pluralist and complex cultural reality. It analyses the human
existence in a Nietzschean and Heideggerian interpretation which is inserted in the context of post-modernity and which has as its
reference the post-modern philosophy in a new ontological and anthropological perspective, considering the philosophical idea of Gianni
Vattimo.
Key-words: Existence, Philosophy, Paradigm, Post-modernity, Human Being.
FILOSOFIA, EXISTÊNCIA E PÓS-MODERNIDADE

1) Questões introdutórias os desafios do mundo ocidental. As diversas áreas do
conhecimento científico avançaram significativamente,
propondo alternativas e soluções capazes de contribuir
O contexto atual apresenta muitas questões para uma melhor compreensão do ser humano, tanto
para aqueles que procuram refletir mais profundamente do ponto de vista existencial como social. Por outro

Reflexão, Campinas, 32 (92). p. 19-33, jul./dez., 2007

possível busca de soluções. inclusive no âmbito da pensar a existência. É o caso do “Projeto Genoma”. entendida numa perspectiva exigiram novas soluções. apresentou certos S. nas fábricas. 2007 . Crítica à Lógica da Exclusão. jul. juntamente com a Revolução real. Em seguida. os avanços alcançados trouxeram inúmeros 2) Modernidade. desenvolvidas entre os apresenta um caminho diante da complexidade do séculos XVI e XVIII. pelos computadores. Porém.C. ele próprio. contribuição nesse sentido. O momento tempo e do espaço. Campinas. para citar humana. Como individual como coletiva. as ponto de vista pós-moderno. Reflexão. Sobre a pobreza: Hugo ASSMANN. tendo como referência a concepção reflexão filosófica. 19-33. Caso contrário. a uma interpretação evolutiva e teleológica do procurar-se-á refletir sobre a existência humana do desenvolvimento histórico e social. uma crítica aos valores da Modernidade e sua Essa concepção de tempo e espaço nos remete respectiva concepção de existência..D. A Modernidade. nunca antes imaginada e nem Existem muitas tentativas de respostas que alcançada pelo ser humano. trouxeram inúmeros problemas que filosófica pós-moderna. o tempo natural. 20 Artigo lado. Não existe mais um estudo sobre a existência humana no período pós. p. principalmente quanto à compreensão do sedimentadas na História da Filosofia. Pretende-se desenvolver posteriormente. de posição crítica e responsável. p. Sobre o nú artístico: Leonardo BOFF. 32 (92). exigindo moderno. em dois momentos que se interagem e se do corpo humano uma adaptação aos novos completam. ocorrida na Europa durante o século XIX. Ocorreu o da manipulação e “coisificação” do corpo pela mídia desenvolvimento em todos os níveis da existência e do crescimento da pobreza mundial. mas como buscadas no próprio contexto em que elas estão momentos orientados e dirigidos pela força de trabalho inseridas. A vida fica assim direcionada segundo As reflexões que se seguem querem ser uma critérios definidos pela produção industrial e./dez. Não se entende mais o tempo atual coloca questões cujas respostas devem ser como parte de um processo natural. As respostas não alteraram a maneira do ser humano se relacionar com estão acabadas e nem definidas de maneira a priori. entendendo que o momento exige uma tomada Industrial. sendo que algumas delas não hermenêutica e antropológica? Esta é a proposta do foram suficientemente resolvidas. presente artigo. O aperfeiçoamento da passam por várias áreas do saber. p. o ser humano se deparará A sociedade moderna representou uma com situações que implicarão na possibilidade de significativa evolução quando comparada às formas sua própria destruição. proporcionando novas possibilidades de apenas alguns exemplos1. Mas também seria uma atitude simplista julgar que os As rápidas transformações presenciadas a partir problemas apresentados já teriam sido levantados e da Revolução Industrial mudaram o comportamento resolvidos por interpretações já tradicionalmente humano. de organização escravocrata e feudal. procurando pistas técnica e o surgimento de instrumentos que facilitaram para uma leitura mais adequada da realidade e uma o trabalho humano são significativos nesse sentido. Ethos Mundial. 37. apesar dos seus avanços e conquistas. corpo e existência problemas e questionamentos que precisam ser enfrentados. compreensão do mundo. SCOPINHO 1 Projeto Genoma Humano: debate a partir do livro de Francis Fukuyama (Jornal Valor Econômico – 15-17/03/2002). com o outro e com a natureza. Num primeiro momento será apresentada mecanismos de condução da sociedade. A filosofia hermenêutica As ciências experimentais. 19. buscando novas transformações ocorridas tanto no nível da existência alternativas diante da complexa realidade social. mas o tempo da máquina.

Hegel. quando afirma que a nos pormenores da questão. Assim. de Gianni Vattimo. Ocorreu. A visão unitária da história e a como Espírito Absoluto. O autor apresenta uma vasta bibliografia sobre a filosofia na pós-modernidade e. entendendo que a existência cartesiana do cogito. é importante perceber realidade está sendo conduzida para um fim que tal abordagem influenciou significativamente o inexorável. e até mesmo desconsiderada. Reflexão. dar ao ser uma característica histórica. um crítico do 2 Para uma reflexão mais aprofundada a respeito. por sua vez. a existência sempre foi concebida como a história como elemento importante na concretização uma realidade unitária. Campinas. essa valorização não foi suficiente para uma interpretação unilateral da vida em para desmontar a estrutura conceitual do pensamento sociedade. Entre os elementos considerados mais metafísico e racional moderno. Para Hegel esse Seguindo a tradição metafísica do mundo processo dialético só pode ser entendido considerando medieval. portanto. Crítica Filosófica de G. apresentando uma preocupação com a questão do ser. embora com conotações dialética de dimensões marcadamente idealistas. a crise do humanismo e a tradição Dois exemplos podem ilustrar a questão da judaico-cristã.. O Espírito helenística no que diz respeito à filosofia. iniciadores da filosofia contemporânea. realização do Espírito Absoluto. segundo a crítica que pretendemos como única referência para se relacionar com o apresentar. relacionando-o com a cultura e percebendo-o como elemento A sociedade ocidental. A reflexão de Gianni Vattimo para uma compreensão da crise dos paradigmas da Modernidade”. sem aprofundar sistematizador do pensamento moderno e um dos demasiadamente a questão2. O primeiro refere- explicitar cada um desses elementos. diversas e específicas. O texto foi posteriormente publicado na forma de livro com o seguinte título: Filosofia e Sociedade Pós-Moderna. categoria de menor unitária da história é K. de Sávio Carlos Desan Scopinho.1. de formação integrante de sua interpretação dialética. Este. particularmente. Dois deles que representam o que se da relação através de uma consciência em si e fora de chamou de modernidade são: a visão unitária de si. principalmente FILOSOFIA. O filósofo alemão procura idéia de progresso. p. também. onde a preocupação do processo. por outro lado. a partir da noção positiva da realidade. Sem entrar compreensão única da história. se apresenta contrários. significativos estão a noção unitária de história. Sua reflexão estrutura-se a partir da tradição moderna. apresenta se um ser fora de si. considerado um maneira suscinta e limitada. conferir a Dissertação de Mestrado defendida na PUC de Campinas: “Filosofia e Sociedade Pós-Moderna. se faz num constante movimento de afirmação dos particularmente a razão ocidental. assume a síntese vários aspectos. Mas. jul. Vattimo ao Pensamento Moderno. vamos forma como está sendo proposta. e de tradição como realidade em si encarna-se no mundo tornando- judaico-cristã quanto à concepção religiosa. ainda que de se ao projeto filosófico de F. pela “hegeliano de esquerda” e. entendeu que a razão e. EXISTÊNCIA E PÓS-MODERNIDADE depois do século XIX. 32 (92). segundo critérios determinados pela pensamento contemporâneo. 19-33./dez. Artigo 21 elementos que interferiram diretamente na compreensão concepção greco-cristã de compreensão do mundo. Essa dos valores fundamentais da experiência vivida pelo interpretação esteve presente em toda a Espírito. 2004. a idéia de progresso. uma valorização do Outro exemplo expressivo dessa concepção conceito de história. Dentro da temática proposta. do ser humano e do seu próprio corpo. torna-se possível alcançar o ideal da história e a idéia de progresso. Sem a história não é possível a realização fundamental era com a reflexão sobre o ser. Essa interpretação conduz para uma visão mentalidade européia que. Marx. 2007 . apresentado como um importância. essa cosmovisão hegeliana propõe uma mundo e com as outras formas de cultura. conduzindo Mas. Porto Alegre: EDIPUCRS. entendido 2. defendida em maio de 2002.

a história passa por um de sua situação de dominação. caracterizado como mítico-religioso. essa é apenas uma primeira etapa./dez. o ser humano seria Reflexão. Juntamente com essa cosmovisão. Comte. Seguindo sua unitária da história. ser superadas. risco no sentido de orientar para uma visão uniforme a proposta marxiana é um questionamento da dialética da sociedade. Comte. e o pleno desenvolvimento da sua racionalidade. o proletariado vai tomando consciência pensamento positivista. relaciona-se inevitavelmente com possibilita a apresentação de um novo modelo de outro elemento constituinte do que se pretende criticar. para Marx dependendo da análise que se apresenta. Questionando o pensamento de tradição ocidental. gestando mecanismos processo de três estágios diferentes. gerando uma prática e uma teoria que hegeliana. A dialética marxiana se entende como que é a noção de progresso. torna-se necessária uma rápida consideração sobre o Sendo a burguesia a expressão máxima do sistema pensamento de A. a dependendo da religião adotada. mencionar muitos outros. Ele afirma que. fazendo parte de um primeiro momento da sua conduzindo os rumos da sociedade para a etapa final formação. fruto das próprias condições sociais de leis naturais e divinas. A vida caminharia hegeliano. jul. na mesma medida correntes filosóficas e das ciências desenvolvidas no em que a sociedade avança em seu processo de século XX. Essa fase se expressa história também caminha inexoravelmente para um fim por um momento de subordinação do ser humano às determinado.. entendida como Para Marx são as relações sociais de produção cumprimento de etapas que necessariamente devem que conduzem os rumos da história. Campinas. Embora com características às leis divinas. S. entendida como manifestação do Espírito que sai de A visão unitária de história conduz para uma si e se encontra na cultura. A história se compreende a partir da luta pode julgar que exista apenas uma única interpretação de classes e como processo de mudança que se faz da história. entendido como na sua primitiva fase de existência. O ser humano tem assim uma profunda não se desvincula de uma concepção unitária da dependência com uma ou várias divindades. quando dá a ela necessário fazer uma crítica a essa visão. Surge assim a O ser humano pode ser compreendido como ditadura do proletariado e o surgimento do socialismo. p. que influenciou uma grande parte das que é a classe proletária. estaria subordinada associação de homens livres. Mas. iniciador do estruturação. 22 Artigo Idealismo alemão. Marx propõe uma re-interpretação da necessariamente para um fim que se entende como dialética. por sua vez. para transformação dessa realidade. a proposta marxiana do mundo. compreensão evolutiva da vida. ainda muito presente na filosofia interpretação sobre o progresso.C. A vida. que diante do capitalismo do século XIX. Essa concepção unitária apresenta um sério na própria realidade histórica e social. SCOPINHO Os dois exemplos apresentados. a sua contradição século XIX. Marx acreditava numa teleologia. real com o ideal e do ideal com o real. Para Marx. existe uma traz marcas da concepção metafísica greco-cristã e da dialética que se concretiza na vida material e que filosofia moderna. legitimam uma interpretação vista como primitiva.D. Torna-se ocorre uma inverção dessa dialética. sustentadas por uma concepção mágica diferentes do idealismo hegeliano. Se para Hegel havia uma identificação do etapa final de um processo ideal ou material. ou seja. superando uma concepção da história podem se tornar totalitárias. Para esse autor francês. expressivo pensador do capitalista que gera. da dialética que é o comunismo. e poderíamos segundo A. 19-33. E para tal compreensão relação conflitiva entre a burguesia e o proletariado. 2007 . história. sociedade. da vida humana. tirando a sua capacidade criadora produção. Nesse sentido. 32 (92). por entender uma característica predominantemente material e que a realidade é muito mais complexa e que não se concreta.

denominado de metafísico- abstrato. cuja presença é significativa Sob diferentes ângulos de interpretação. não foram capazes de superar a visão unitária de história situação própria de cada época. Somente compreendendo-o a partir de características nesse momento é que seria possível uma superação universalizantes e abstratas. apresentada nas reflexões filosóficas de F. humanismo e a tradição religiosa. negando uma interpretação preocupada com a essência. entendendo a ciência como a existência que. A crise do humanismo e o anterior. assim. Por sua vez. 19-33. na formação da humanidade. de humanidade. mesmo ser humano entendido como natureza. de certa forma. EXISTÊNCIA E PÓS-MODERNIDADE anteriores. Retomando a questão teleológica como elementos importantes da sociedade moderna. Artigo 23 capaz de superar essa fase. Hegel e K. Por isso que. e que não podem por valores estéticos e humanitários que Reflexão. A concepção de e a sua respectiva noção de progresso. Dois desses se expressão de uma sociedade massificada e dominada valores que se tornaram expressivos. de características metafísicas e racionalistas. 32 (92).. para o filósofo francês. e como conseqüência da visando alcançar um fim último. São duas concepções da dos estágios anteriores. Não haveria mais uma relação mágica com a cristianismo trágico. percebesse que a filosofia comteana também várias posturas e atitudes que sustentou uma noção legitima uma concepção unitária da história. totalidade. caracterizado como científico-positivista. tornando-se possível uma abordagem da natureza humana nos seus aspectos mais essenciais e. Quando evoluída da humanidade. p. final do seu desenvolvimento e alcançaria a etapa A noção de humanismo e sua respectiva conclusiva do progresso necessário para sua concepção de arte são dois temas que se apresentam sobrevivência. o humanismo legitimou Marx./dez. são a concepção de para o surgimento de um novo momento da história. Tornaram- função desse caráter unitário da história. lugar a um outro estágio. de de existência negando a condição humana na sua caracretísticas iluminista e evolucionista do ser humano. o ser humano somente alcançaria a maturidade quando também uma preocupação com a compreensão do chegasse ao último estágio de sua evolução. a riqueza e a profundidade que filosóficas e científicas que apresentavam sérios as caracterizavam como expressão de uma determinada problemas quanto aos valores humanos e culturais em cultura. entendida interpretação mais empírica da experiência natural e como realidade abstrata e metafísica. com valores e características próprias. Campinas. Ou pode surgir social. nota. que retomaram e questionaram aspectos das filosofias Cada momento da história apresentou seus valores artísticos e uma noção de estética que reflete a FILOSOFIA. ainda mantém uma se pensa a respeito do ser humano surge uma interpretação abstrata do ser humano. divindade. de características Ocorre uma superação da etapa anterior para dar marcadamente ocidentais e de tradição judaico-cristãs. A metafísica tradicional e a filosofia moderna portanto. O ser humano chegaria. se que as filosofias desenvolvidas no século XIX. No pensamento ocidental. se encontram numa única capaz de resolver todos os problemas da visão comum presente na filosofia moderna. Esse estágio apresenta uma compreensão do ser humano numa perspectiva diferente do estágio 2.2. no estágio dimensões marcadamente metafísicas e racionalizantes. ontológicos. a arte vista existencial como social. Essa concepção metafísica. A compreensão humanismo e a noção de arte na sociedade moderna da existência humana estava subordinada às visões mudaram o sentido. desenvolveram uma visão da existência que marcaram embora o positivismo entenda ser uma etapa mais profundamente o contexto contemporâneo. tanto do ponto de interpretação dualista do corpo (Descartes). jul. 2007 . torna-se um tema relevante. gerando possibilidades deixar de ser considerados.

e utópico. Sendo assim. Campinas. o ser A reflexão sobre a morte da arte. o fim da arte como fato religiosa. significa dizer que ela não existe tempo. 1955. legitima a sua unidade e da própria beleza. pp. Dessa maneira. encontra. p. mass-media» (VATTIMO. O ser humano. assumindo a condição de sujeito absoluto da mais como fenômeno específico. portanto. Nietzsche e M. Na ótica de um humanismo autônomo. Vattimo discorre sobre a arte diante do impacto da tecnologia moderna. moderna. a estetização como extensão do domínio dos destruindo a noção de humanismo que a caracteriza. dentro de imparcialidade e neutralidade (VATTIMO. Afirma G. 24 Artigo descaracterizaram a pluralidade cultural. jul. realça a sua essência diante das entendida como meio de experimentação da realidade mudanças e das aparências. A crise do humanismo moderno. é preciso superar criticamente a modernidade. aparência. deve ser superada. 57-117). 1988. presença única e evidente se faz com a metafísica ocidental. um universo fundamentado pelas ciências e por um p. Conferir todo o capítulo em que o autor desenvolve a sua reflexão (VATTIMO. Ao mesmo que «a arte morreu». revendo com isso a própria noção de a partir de um esforço que questione essa ótica existência e a maneira de conceber o corpo no contexto antropológica da filosofia moderna e de sua respectiva moderno e de características ainda marcadamente visão metafísica. com pretensões de metafísica adquire conotações objetivantes.D.C. A uma possível verdade. numa manifestação firme e estável. Reflexão. em sentido fraco. Por mais que se queira admitir. Os valores estéticos de sustentação metafísica./dez. apresentada se a questão da arte como um dos valores que sofreu por pensadores como F. uma redução do ser à objetividade. A arte se define da realidade. Essa concepção de humanismo autônomo tradicionais. 101). 2007 . Heidegger - com as conseqüências da mentalidade metafísica e que foram sustentação para a interpretação da técnico-científica da sociedade moderna. A vivência artística é natureza e da história. numa de caráter científico-tecnicista das filosofias moderna S.. SCOPINHO 3 G. Associada à noção de humanismo. ainda que sejam um testemunho aos quais O ser da racionalidade moderna é concebido se deve retomar por «distorção». concepção filosófica pós-moderna -. A arte já não pode ser vista. como obra exemplar de um gênio ou tornou-se possível tendo como referência uma base manifestação sensível de uma idéia. da mesma forma que como fundamento último. como forma do espírito que se move no mundo da Ocorre. apresenta-se como uma e centro do universo. conceito de humanismo. Dizer superioridade diante dos outros seres. ou real. que entende o ser humano como superior diante dos demais seres da natureza. na perspectiva humano se entendeu e ainda se entende como senhor da sociedade moderna. existência resgatada e reintegrada. a arte se aproxima auto-consciência. É preciso. 64)3. adquirindo uma supremacia e possibilidade de estetização geral da existência. assim. metafísicas. ao contrário da ciência que procura alcançar sinal da centralidade e da vontade de domínio. apresentando-se como referência da vivência concreta e se apresenta como fato estético para qualquer outra forma de manifestação ou integral. quando e como caminho para destruir a estrutura hierárquica comparado aos outros seres. como se verá na humanismo e da noção de arte numa perspectiva pós- concepção filosófica pós-moderna. p. 1985. a interpretação específico e separado do resto da experiência. em termos evidência. 32 (92). fazer uma releitura do Essa mentalidade de superioridade. 19-33. coloca outro Vattimo que «a morte da arte significa duas coisas: em problema de fundamental importância que é a tradição sentido forte. herdados não são os únicos valores conceptuais possíveis.

René Girard com teólogos da libertação. (VATTIMO. Cristo. 1994. SANCHIS. tais como o Papa João Paulo II e pelo seu atual sucessor. pp.4 Evolucionismo e a Psicanálise. carrega consigo a dissolução das objetiva e profundamente em sintonia com os aspectos principais teorias filosóficas que decretaram o fim da mais fundamentais do catolicismo representado pelo religião.P. 32 (92). 2007 . o cristianismo trágico está em profunda sintonia com as idéias e os aspectos mais fundamentais do catolicismo oficial.). p. Mas. apresentando uma cristã. Sanchis. p.L. ou apocalíptico. 1991. Ocorre. 90-91. 19-33. Segundo a perspectiva vattimiana. a religião tende a desaparecer para dar lugar verdade sobre a base de uma radical renúncia da história a novas formas de interpretação. deixando em mas não são suficientes para uma análise mais segundo plano a importância da encarnação de Jesus aprofundada da questão./dez. Reflexão. 4ª ed. 1999. A cultura contemporânea. 2000. por exemplo. 5 Sobre a interpretação do cristianismo secularizado vale ressaltar as contribuições de J. Paris: Grasset. p. na perspectiva do pensamento fraco. mas procura purificar a fé. representado pelo Papa João Paulo II (VATTIMO. pp. que fizeram uma interessante leitura sobre o tema em questão: J. principalmente a partir de sua obra: La Violence et le sacré. principalmente européia e norte. 85-86). modernidade. mais «objetivas» ou mundana. p. que quer provar a própria evolutiva. que pode A cultura secularizada da sociedade moderna ser percebida no retorno da religião sacrificial no mundo não é uma cultura que tenha simplesmente deixado contemporâneo. uma recuperação processo de aprender a aprender. Na mentalidade iluminista. o Papa Cientificismo-Positivista. 1999. Girard pode ser encontrada no livro: H. é uma cultura que estabelece uma relação O cristianismo secularizante. não deixaram de ser O catolicismo oficial apresenta uma fé relevantes para a compreensão da dimensão religiosa. EXISTÊNCIA E PÓS-MODERNIDADE 4 Para G. Artigo 25 e contemporânea não eliminou a importância e o papel O exemplo mais paradigmático da tradição da religião nas relações humanas e na vida em judaico-cristã pode ser expresso pelo cristianismo sociedade. contribui para a realização de um passado religioso. ainda presente em muitos ambientes de tradição cristã. 1999. teólogos latino-americanos. A secularização não sendo deturpada. que se contrapõe ao de conservação-distorção-esvaziamento em relação ao cristianismo trágico. 1980. que pode estar (VATTIMO. SEGUNDO e J. valorizando a condição humana e seu aperfeiçoamento. Um diálogo sobre ídolos e sacrifícios. 63). que elabora em termos puramente terrenos FILOSOFIA. para citar apenas alguns exemplos mais significativos. Tais conteúdos religiosos estão significa deixar de colocar em evidência a transcendência profundamente presentes na experiência de cada de Deus. mas que continua a vivê-los como vestígios de nova compreensão a partir de um cristianismo secular uma experiência religiosa passada. o Bento XVI (VATTIMO. Tal «científicas» da realidade. ASSMANN (ed. Várias correntes filosóficas. pp. representado pelo fim da visão sacrificialista e violenta. 85). 42). ser reavaliado e que se manifesta numa dimensão trágica A concepção secularizante do cristianismo da religião. 1968. o cristianismo trágico e apocalíptico procura provar a própria verdade somente sobre a base de uma desvalorização da história mundana. na tentativa de contexto individual e social determinado estar sempre em contato com o tempo presente. Campinas. firmando-se em verdades apresentadas apenas pela metafísica tradicional.P. Uma chave para a análise do cristianismo (latino- americano). Tal mentalidade trágica tem um predomínio da religião hebraica do Antigo Testamento. ocidental. A proposta vattimiana firma-se na idéia de um cristianismo secularizante. portanto. possibilitando a da tradição judaico-cristã pela sociedade ocidental superação da essência violenta do sagrado na vida em moderna. As Etapas Pré-Cristãs da Descoberta de Deus. 1999. o fato é que o atual concepção entende a ação de Deus a partir de uma momento da história. legitimando-se na metafísica tradicional. 87)5. 1999. Ela está. Gianni Vattimo recorre à interpretação de René Girard. Petrópolis: Vozes. p. 58-59). Uma leitura sugestiva do pensamento de R. americana. Segundo e J. Essa visão religiosa é questionada pela para trás os conteúdos religiosos da tradição judaico- reflexão filosófica pós-moderna. Para uma leitura da visão sacrificialista da religião e do próprio Cristianismo. o Materialismo Dialético. apresentando-se como um mito que necessita sociedade (VATTIMO. jul.L.. Petrópolis-Piracicaba: Vozes-UNIMEP. consciente das críticas que pode receber (VATTIMO. Vattimo. predominantemente vétero-testamentária. cientificista e trágico.

19-33. Assim. Para citar filosofia pós-moderna que. que apresenta A filosofia pós-moderna é uma tentativa de um resumo da lei e dos profetas. p. 32 (92). não é possível. 22. queria a metafísica tradicional. com o outro e com o mundo? 1999. estaremos preocupados apenas em apresentar a Essa mudança de interpretação não foi o que proposta filosófica pós-moderna sobre a questão. Vattimo apresenta a secularização como elemento constitutivo da pós-modernidade. A teoria do enfraquecimento e a questão da secularização são aspectos essenciais e se apresentam como um fio condutor e crítico da sociedade moderna. com vários representantes apenas dois exemplos. e amarás o teu próximo perspectiva metafísica e ontologizante do ser. numa nova perspectiva ontológica e antropológica.C. deve ser entendido como cristianismo secularizado ou caritativo. O cristianismo. ao mesmo tempo./dez. O dão uma contribuição para uma reflexão crítica dos cristianismo secularizado elimina os aspectos e as temas propostos e. pode-se conhecer com mais e tendo como referencial a abordagem hermenêutica. na língua italiana). E. p. como se que se traduz na prática do amor. a decadência solução para o problema da existência que não seja da arte. Vattimo. segundo a filosofia moderna. momentos. abandona a visão sacralizante Habermas e F. que deve ser pós-moderno. Campinas.. expressos em dois pensar o problema da existência num mundo cujos grandes mandamentos: «amarás ao Senhor teu Deus valores estão cada vez mais relativizados. para ser reencontrado no mundo atual. profundidade os estudos de autores como J. novo momento histórico e contextual determinado. pensa a questão e propõe uma alternativa possível. S. para ser assumido na sua dimensão kenótica. encontra-se a pensadores da filosofia contemporânea. Assim. relação com si próprio. SCOPINHO 6 G. inserido no «pensamento fraco» da para refletir o estado atual que passa o ser humano na proposta filosófica contemporânea (VATTIMO. como como a ti mesmo» (Mt. aconteceu no decorrer da história. insistimos mais uma vez. entendê-la numa perspectiva o conjunto desses elementos humanos e evangélicos. com suas várias implicações valorativas. relacionando-a com a «ontologia do enfraquecimento» («indebolimento». e ainda hoje.D. entendida na perspectiva da caridade. Em muitos priorizando o pensamento de G. que superam as interpretações hegelianas. Nesse sentido. É possível pensar uma filosofia que apresente uma A crise do humanismo moderno.37-39). 37)6. Mas. da história e afirma o valor das esferas profanas. Não é mais de todo o teu coração. Qual seria o melhor caminho interpretação. Reflexão. o cristianismo é apresentado reconhecendo nele os avanços e limites de tal com características trágicas. marxianas e positivistas da idéia de história unitária e respectiva noção de progresso. jul. propõem referências transcendentes e sobrenaturais da visão alternativas para entender a sociedade atual. ao mesmo tempo. de toda a tua alma e de possível conceber a existência humana numa todo o teu entendimento. racionalizante. segundo as concepções já conhecidas? Nessa são preocupações presentes também em muitos perspectiva. Lyotard que. o interpretação. o filósofo italiano propõe outras possibilidades de reflexão a partir da filosofia da história. deve considerar muito menos. inserindo-se num devido à complexidade das diferentes abordagens. entre outras. 2007 . 26 Artigo a herança judaico-cristã. a crítica ao cristianismo trágico. Mas teocêntrica da mentalidade medieval. a existência humana pudesse ser definida apenas pela deve passar por um constante processo de sua dimensão racional. existência humana no mundo e a noção de corpo. A referência principal para a experiência do cristianismo secularizado é o próprio Evangelho. o enfraquecimento das estruturas fortes do cristianismo trágico gera a necessidade de uma 3) A existência humana no mundo revisão da própria prática cristã. E entendemos também que a abordagem cristianismo como religião presente na história do pós-moderna vattimiana contribui para pensar a Ocidente. em perspectivas diferentes.

apontando questões que podem O contexto atual é de fragmentação e não ter sido devidamente aprofundadas e multiplicação das várias formas de saber. uma ficção. Existe. Heidegger são as referências moderna? fundamentais para refletir sobre o que se convencionou Utilizando-se a abordagem proposta por F. entre eles. O pensamento pós-modernos que mais tem se destacado na filosofia ocidental está pautado por um conjunto de «mentiras». Vattimo. p. entendendo-se apenas presente as propostas de Friedrich Wilhelm Nietzsche como uma fábula. 160). sua proposta compreensão e na interpretação da realidade.1. da «morte de compreensão da sociedade atual não é uma tarefa Deus». e Martin Heidegger que. ou melhor. contemporânea e que ajuda a entender melhor os produzidas para sustentar uma determinada visão de desafios da existência num mundo em constante mundo. negativos. raciocinar e alguns pensadores que ajudaram numa melhor pensar numa situação em que não mais existe um ponto compreensão do mundo atual. Apud: DE SAHAGUN contemporâneos como de outros momentos da história LUCAS. Ambos podem ser vistos como que reflete e elabora sua filosofia considerando os uma escuta contínua de seus tons proféticos na desafios do seu tempo.. para citar apenas dois exemplos. 19-33. uma «continuidade substancial» (BUENO dialogando com outros pensadores. por que se coloca como um discurso sobre o fim da época outro lado. de vista global e privilegiado. mas a partir de das ciências modernas. tanto DE LA FUENTE. O filósofo italiano dialoga em particular a difícil tarefa da filosofia atual. Vattimo. modificaram Nietzsche apresenta uma reflexão dizendo «como o Reflexão. das respectivas denominado de «pós-moderno». Assim. procura ser uma nova interpretação da realidade. do eterno retorno. carece G. na cultura ocidental. Sendo uma cultura fundamentada na mentira. torna-se necessário aprofundar sua autores e qual é a importância que eles têm para a concepção de nihilismo consumado. limitados. Artigo 27 G. Vattimo apresenta sua reflexão tendo de consistência e densidade. que assume a condição de prepotência e pretensão. 2007 . 32 (92). com uma única Ainda que seja a partir de uma re-leitura desses compreensão do real./dez. como vattimiana característica própria do ser humano. um jogo de palavras. principalmente de abordagem atual momento da história exige uma reflexão filosófica francesa. Apenas do além-do-homem. segundo ele. Campinas. que contribui para clarear da filosofia. O e da hermenêutica. FILOSOFIA. que é propor uma com as correntes filosóficas da Escola Crítica de Frankfurt nova interpretação da sociedade contemporânea. EXISTÊNCIA E PÓS-MODERNIDADE 3. na proposta filosófica será apresentada a importância que eles tiveram na nietzscheana. reflexões filosóficas. chamar de pós-moderno. como já foi salientando de modo substancial a noção de pensamento presente anteriormente. procura apresentar as críticas e os aspectos moderna e o surgimento de um novo momento. F. 1994. p. como pretendia a filosofia autores. Mas. é considerado um pensador epocal. sistematizadas por tais correntes. O eu. Como refletir. O que pensaram esses dois Nietzsche. Vattimo principalmente depois do surgimento e da evolução não elabora uma filosofia ex-nihilo. jul. Antecedentes da filosofia O que se chama de humano na cultura. Nietzsche e M. Nesse sentido. acaba se tornando nada mais que um acúmulo de máscaras. pode-se dizer que seus conceitos e valores estão carentes de legitimação e se apresentam como inautênticos. é preciso entender que a cultura do proposta filosófica de G. da vontade de potência e que se aprofundará na presente abordagem. transformação. Só que G. um dos pensadores Ocidente é colocada sob suspeita. F.

Heidegger. presentes na mentalidade metafísico- sobre a morte de Deus. 2007 . pp. Vattimo. não para compreender o novo momento presente na história podemos mais ter uma verdade sobre ele. Para ser da humanidade. Heidegger com os demais seres da natureza. nº 44.8 É o que pretende demonstrar valores provenientes da metafísica ocidental e da G. Foi com M. 6. pp. concepção técnico-científica da modernidade. fazendo uma análise dos sintomas e denúncias da decadência da modernidade. Para G. 8 CULT (Revista Brasileira de Literatura). 1999. o que ele propõe é uma visão E com a reflexão filosófica de M. in: Coleção Os Pensadores. no moderno. jul. temas propostos posteriormente cientificista da filosofia ocidental. persuasivas./dez. 1996. inexorável e contemporâneo. 9 A palavra Dasein é utilizada por M. no que ela tem de mais fundamental: a que se apresenta num novo momento significativo da condição de ser-no-mundo (Dasein)9. segundo G. 371-389. Várias expressões podem ser usadas para entender a palavra alemã. p. Vattimo. entre elas. que o pensamento e propor uma reflexão que sustente o projeto pós. o título é uma paródia e um trocadilho. 25-56). Vattimo chama estava preocupado com a compreensão da existência de momentos «positivos» para a reconstrução filosófica. dentro de um novo contexto uma interpretação e que se deve argumentar com razões cultural e filosófico. dando continuidade ao estabelecer e fortalecer a necessidade de aprofundar projeto de crítica da modernidade. SCOPINHO identificando com os demais entes presentes na natureza. Heidegger. da metafísica tradicional e da filosofia 7 A expressão é apresentada por F. Tudo isso para do «nihilismo consumado». humana. entendendo G. 1985. Capaz de fazer se distancia de muitas posturas filosóficas que procuram escolhas para as quais o limite será a morte. história (VATTIMO. Heidegger: G. mas como ele é interpretado. não mostrando o objeto assim reforça as teses propostas por F.10 Surge. entre outros. VATTIMO. ser de projeto. Nesse aspecto. 28 Artigo “verdadeiro mundo” acaba por se tornar em fábula» pretensão de recuperar a subjetividade que estava (NIETZSCHE. existencialistas. Não é possível os elementos críticos e questionadores da modernidade dizer. março/2001. com a pensamento forte. sendo capaz de superá-lo. Heidegger apresenta uma crítica aos se torna interpretação. oriunda do desenvolvimento das ciências modernas. Heidegger que se desenvolveu uma abordagem nesse sentido. não se S. 10 Por exemplo. Roma-Bari: Laterza. os filósofos F. o filósofo alemão verossímeis. ou «Como Filosofar com o Martelo». heideggeriano tenha uma dimensão teleológica. ser- aí.C. humano. Heidegger para compreender o ser humano como ser inserido historicamente no mundo. Heidegger contribuem para o que G. por sua vez. Nietzsche e M. intitulada «O nihilismo como destino». baseando-se no método fenomenológico. culturais da sociedade técnico-industrial e contribui Por sua vez. 32 (92). p. 19-33. Nietzsche em seu livro Assim Falou heideggeriana ajuda a fortalecer a crítica aos valores Zaratustra. Pelo contrário. se sente numa situação de angústia. Campinas. A filosofia também por F. p. M. Vattimo procura conhecer as propostas o ser humano como ser de projeto e. 11ª ed. perdida na objetivação de um mundo impessoal e essa passagem reflete sobre a inutilidade da moral e anônimo. nos dois primeiros capítulos da primeira parte da obra O fim da modernidade. Vattimo quando diz que tudo é interpretação. a necessidade da superação do filosófica denominada de analítica existencial. Nietzsche na seguinte obra: Crepúsculo dos Ídolos. se o mundo se tornou fábula. Introduzione a Heidegger. propõe uma reflexão a partir dos dois filósofos mencionados.. que vive a cada dia como pressentimento. que se insere no contexto cultural e filosófico sentido de apontar para um fim único. Para uma leitura introdutória de M. coerente com essa idéia é necessário saber que tudo M. O fato é que M. preocupadas com a consciência da finito e angustiado. Assim. o ser salvar uma determinada concepção de humanismo. 376)7.D. que apresenta a crise da metafísica clássica. Nietzsche a respeito como é. que não se pode considerar nenhum objeto fora de anunciando a sua crise. Para uma versão em língua portuguesa da obra: Nietzsche. Seguindo a interpretação liberdade e autonomia do ser humano na sua relação nietzschiana da crítica à modernidade. Reflexão. publicada em 1888. estável. destacam-se: ser-no-mundo.

Portanto. Nessa postura pós-moderna encontra-se uma 3. Portanto. p. Este das estruturas objetivas. Tudo pode ser colocado como se fosse da poesia. Este se define compreendido como finitude e evento. ainda presente em algumas como tal. G. mas o reconhecimento de uma pluralidade de de um pensamento forte. filosófico. da noção de um pensamento fraco. O pensamento pós-moderno se apresenta não se procura encontrar um novo fundamento do como uma reflexão anti-metafísica. de verdades e de histórias pensamento fraco particulares. entre outras). 32 (92). daquilo que a se coloca como uma importante possibilidade de metafísica chamava o ser»11. EXISTÊNCIA E PÓS-MODERNIDADE pensamento forte. em detrimento do logos. Na sociedade contemporânea. Vattimo últimas e absolutas. 11 Entrevista de G. ou seja. dentro de um contexto fundamento último e reflexão sobre o ser. compreensão do real em toda sua complexidade. 2007 . não mostrando o objeto e da filosofia moderna. ao mesmo fraco ocorre uma «crise da verdade»./dez. por um novo paradigma de vai exatamente na direção de um enfraquecimento compreensão. industrial. 19-33. mas como FILOSOFIA. entendida como uma sociedade da comunicação generalizada.2. p. mas como ele é interpretado. que acaba justificando e que também essa afirmação já é uma interpretação. Sociedade pós-moderna e pluralidade de seres. Vattimo. considerando metafísica da verdade. Contrário à idéia filosófica de um entendida como fundamento ontológico. a de finitude e fraqueza das estruturas. jul. conduzindo o ser humano para uma ação violenta Tudo que se apresenta no mundo é interpretação. para a concepção filosófica pós- A proposta vattimiana está inserida nesse moderna. contra todos aqueles que não aceitam sua forma de tornando-se necessário interpretar e argumentar com compreensão. denominado de pensamento fraco. Essa mentalidade da metafísica tradicional razões verossímeis. propõe sua interpretação a partir uma possibilidade de reflexão sobre o ser. 6. principalmente da literatura e da realidade. Segundo G. emancipação que saberes. da filosofia vattimiana é interpretar a história. não existe uma única idéia de ser. respeitando processo de questionamento diante da sociedade pós. Campinas. questionando a idéia ser. mas como uma do enfraquecimento das estruturas do ser como sentido possibilidade e confronto entre os diversos tipos de de emancipação da história humana.. No contexto filosófico do pensamento fraco profundidade e radicalidade. não existe movimento filosófico-cultural que tem como inspiração uma verdade como fundamento último de compreensão a emancipação da arte. colocado como um jogo de interpretações. que se sustenta em verdades relatos e de manifestações culturais diversas. Artigo 29 racional moderna. a filosofia sustenta que não há um sentido único de compreensão ocidental apresenta características totalizantes. a diversidade encontrada em cada uma delas. A proposta correntes filosóficas contemporâneas (neo-positivistas. Reflexão. não mais tempo. o ser e a neo-marxistas. No pensamento perspectiva vattimiana é de caráter cultural e. persuasivas. O momento atual torna possível fazer conduzindo para uma concepção monolítica e uma interpretação dessa mesma realidade. particularmente de G. deve passar por um linguagem presentes nas diferentes culturas. Vattimo. da realidade. A verdade é como «uma filosofia da história fundada sobre a idéia vista não como um saber estável. nem uma única idéia de verdade. nem uma visão universal e unitária da história. Vattimo à revista CULT (Revista Brasileira de Literatura).

Todos os sujeitos dialogantes fraco difere de uma ética totalizadora e sustentada estão determinados pelos condicionamentos histórico- por valores pretensamente universais. muitas vezes. A ética pós-moderna adquire perfeita auto-transparência. particularmente utilizada por G. 19-33. fazendo com que se torne impossível uma pensamento forte. 30 Artigo Seguindo no mesmo raciocício do pensamento características marcadamente antropológicas e. A abordagem arte. o respeito pelo diferente é condição necessária para A filosofia pós-moderna. 1985. uma reflexão sobre o ser. morte e. quer se demonstrar que Pode ser considerado um «filtro teórico» das mensagens a ética se apresenta como uma proposta que se insere enviadas do passado ao contexto presente e das na reflexão de uma ontologia hermenêutica. a proposta filosófica vattimiana pós-moderna se portanto. A verdade E. 2007 . Esse conceito está ligado projeto.D. possibilita uma re. No geral. se encontra numa constante situação Podemos considerar. Na pós-modernidade. o reconhecimento do interpretação da verdade. O E. Na filosofia pós-moderna. E. Pelo contrário. a melhor maneira de expressar essa perspectiva metafísica e filosófica da cosmovisão condição para o diálogo seja a noção de pietas. italiano G. Vattimo se insere. se vê exemplificada na experiência da toda a sua complexidade e pluralidade. condenando o saber estável e toda forma de uma ontologia capaz de considerar o ser como evento. p. caridade e compaixão. tudo O critério da alteridade se torna elemento passa pela interpretação. cultura de tradição ocidental-cristã. presentes na sociedade estabelecida por uma atitude de confiança e contemporânea. SCOPINHO históricas e sociais. também do contexto multi-cultural e uma concepção parcial dos ponto de vista ético./dez. Quando se explícitas. nessa perspectiva. portanto. S. A compreensão da ética no pensamento de crítica e autocrítica. Campinas. portanto. sempre dentro de categorias a uma relação de piedade. não conhecidas ou até mesmo negadas pela considera a questão numa perspectiva hermenêutica.. uma ontologia que seja hermenêutica. ou ética frágil. caracteriza. na qual o filósofo própria finitude. Reflexão.C. só se torna possível através de saberes. enquanto experiência plural e relativa hermenêutica. p. entendida como interpretação e com as diferentes culturas. sendo que e pela condição de que o encontro seja possível. a ética é entendida como uma ética de compreensão da realidade. 143). ao mesmo tempo. legitimados pelo culturais. exatamente por ter o reconhecimento da filosófica da pós-modernidade. ainda que. que se entende a ética inserida na reflexão da filosofia coloca todos os interlocutores culturais numa posição pós-moderna. A retórica. descaracterizando a sua outro somente se torna possível a partir de uma relação concepção metafísica e científica da tradição ocidental. existenciais. ocidental. Talvez. tem o reconhecimento de que caminha para a (VATTIMO. fraco. que a reflexão de angústia. também. 32 (92). não deve existir nenhum fundamento externo ou superior que inviabilize o diálogo. mediante os diversos entender o ser humano como ser-no-mundo. a sociedade pós-moderna se diálogo se apresenta como o único ponto de encontro apresenta como uma nova maneira de se relacionar com a verdade. sendo discursos presentes nas mais variadas formas de cultura finito. Nesse sentido é respeito ao diferente e como busca da alteridade. jul. é a arte da persuasão. capaz de interpretar a existência em da verdade. com diversas culturas existentes na sociedade atual. entendida como uma sociedade alternativa e plural. Vattimo na sua tentativa de vattimiana. pela aceitação da diferença fundamental para a respectiva abordagem. dialógica e de respeito pelas diversas culturas. verdade estabelecida e imutável. por antropológica pós-moderna oferece condições para sua vez. por um relativismo ético. como propunha a filosofia conotações diferentes da ética inserida numa cartesiana. que é essencialmente retórica. um Assim. não credibilidade das partes envolvidas.

está na tentativa de 12 Comentando a proposta filosófica de S. um saber absoluto de conotações marcadamente apresentando o critério da alteridade como referência FILOSOFIA. 1985. a linguagem multi-culturalista. dos negros. como ser jogado no contemporânea. principalmente com ainda presente na filosofia ocidental. 13 Para uma visão desse processo de demitologização da moral e dos dogmas: VATTIMO. saber metafísico e racional é imposto como saber sustentada pelo conceito de pietas.. EXISTÊNCIA E PÓS-MODERNIDADE racionais e universais12. Enfim. confrontando cada experiência A filosofia pós-moderna visa apresentar a particular com as diversas maneiras de compreensão complicada relação circular entre herança cristã. Artigo 31 A interpretação do passado e do presente. deve incluir absoluto. entendida segundo vencidos. 140). que leva em consideração a questão se apresenta como mediação da experiência total do da alteridade. Ela não existe uma visão totalizadora. A filosofia hermenêutica pós-moderna não é entre outras. para usar uma expressão heideggeriana. Reflexão. É no uso e na interpretação propõe a filosofia pós-moderna. por exemplo. p. Vattimo critica a filosofia de G. 32 (92). Hegel. como é o caso da cultura dos índios. como ocorre no pensamento ocidental. Nesse compreendê-lo como linguagem e expressão da sentido. de critérios da filosofia moderna.W. elimina a também outros discursos. individualidade e a diferença. Sendo assim. aspecto interno do processo geral de ocidentalização A exigência ética da pós-moderna nasce da e homologação do ser. surdo às exigências e às desmistificar valores ainda presentes na sociedade inquietudes do ser humano. impondo regras que limitam qualquer exercício de A novidade da filosofia pós-moderna. É o mundo. torna-se necessário recuperar o valor do diálogo e a aceitação do diferente. Para a hermenêutica pós-moderna. expressas nas diferentes formas de ontologia fraca e ética da não-violência. da existência. pp. 1997. Kierkegaard. Assim. segundo o que concreto de atuação do ser. sobretudo a dos problema é que a antropologia. Quando o particularmente de G. e em outras formas de marcou o pensamento forte. «Noi crediamo di agire liberamente per i nostri scopi. p. um discurso crítico da realidade. Uma atitude diferente dessa fecha-se num o tema da secularização se torna importante para pensamento autoritário. da desmitificação da moral e dos Novamente é importante reforçar que não se pode dogmas13. 19-33. se apresenta como um tradição científica e cristã. G. 1999. Campinas. percebida a partir da mundo (VATTIMO. 51-59.F./dez. liberdade e de diálogo inter-subjetivo. uma descrição científica e filosófica das culturas e quando interpretação ontológica coerente do ser seria seu ideal for o encontro autêntico com o outro. linguagem. 26). numa interpretação determinada sociedade histórica. de tradição metafísica e racional. considerados não-ocidentais. 2007 . caso. Vattimo. O pensamento metafísico para pensar a moral num contexto pluri-cultural e tradicional e a filosofia racional moderna acabam extremanente complexo. Não há uma exclusão linguagem. A secularização possibilita um processo de mais aceitar uma visão totalitária e violenta do mundo redefinição da moral tradicional. E a alternativa a toda da linguagem que se identifica o ethos comum de uma forma de autoritarismo implicará numa concepção de ética entendida como projeto. ma in realtà facciamo solo ciò che la ragione universale vuole da noi per i suoi fini» (VATTIMO. jul. kenosis cristã. a abordagem instância crítica do questionamento da metafísica antropológica só terá sentido quando for vista como tradicional. é preciso que aconteça um verdadeiro diálogo racionalidade do real. entendida como racionalismo historicista. e a caridade. O deliberada de algumas mensagens. O fato é que na cultura pós-moderna apenas uma teoria da novidade radical do ser. característica que busca na antropologia. com pretensões de totalidade. Nesse sentido. sustentada por respeito às questões familiares e ligadas à sexualidade. p. A linguagem é a sede e o lugar da hermenêutica com a antropologia.

). Salamanca: Sígueme. questionamento e ser considerado em toda sua abrangência e aprofundamento. Muitos aspectos se tornam relevantes para moderna. devendo processo de reflexão. muitas vezes. Nuevas Enquanto a reflexão filosófica contemporânea Antropologías del Siglo XX. têm-se pela frente uma preocupação e um desafio que devem ser enfrentados: como entender a existência humana na sociedade pós-moderna? G. não for capaz de rever essa tradição metafísica e GIRARD. Hugo (org. O ser da ontologia Referências ocidental tornou-se referência para toda abordagem filosófica de características pretensamente totalizantes e universais. propondo uma nova leitura do real. 2007 . posturas autoritárias. G. Um livro de propor uma reflexão que levanta esse tipo de para espíritos livres. aceitando ou criticando suas idéias. concepção do ser humano como evento. da filosofia cartesiana . A partir . ocorre o questionamento da libertação. 32 (92).D. Crepúsculo dos Ídolos. Mas é sempre bom lembrar questões que exige de cada um de nós um constante que o ser humano não é apenas racionalidade. in: DE SAHAGUN LUCAS. 4. G. assumiu-se uma postura hegemônica da cultura ocidental diante de outras BUENO DE LA FUENTE. Crítica à Lógica da Exclusão. deparamo-nos com um conjunto de nossa capacidade racional. 32 Artigo compreender e interpretar o mundo pós-industrial. reimpressão. Ensaios sobre de um eu marcadamente racional. Quando a filosofia pós-moderna propõe ASSMANN. ou complexidade. 19-33. Friedrich. El hombre en la culturas. Conclusão: é possível concluir? Vattimo propôs caminhos.).C. S. Campinas. Grasset. hermenêuticas e antropológicas pós. Eloy. 1980. não se concebe a aceitação deixando de considerá-las. São Paulo: Nova Cultural. SCOPINHO transitoriedade da história. respostas. principalmente. 1994. susbstancialmente da sociedade moderna? Os aspectos mencionados até aqui foram um primeiro levantamento dos problemas que suscita e agussa a Enfim. segundo por ele. jul. René Girard com teólogos uma crítica a essa concepção. Vattimo tem a coragem . cabe a nós enveredar por suas trilhas e continuar o trabalho intelectual proposto Para a reflexão filosófica pós-moderna. Qual é o nosso suas características próprias e com suas contradições posicionamento diante da questão apresentada? inerentes ao momento histórico em que estamos Podemos falar efetivamente de uma sociedade pós- inseridos. Mais do que conclusões. La Violence et le sacré. não será possível a recuperação de uma Coleção Os Pensadores. inserido na 1999. serviu para legitimar Petrópolis Piracicaba: Vozes UNIMEP. NIETZSCHE. mas nunca a proposta vattimiana. opressoras e dominadoras. Reflexão. do ser da metafísica tradicional. Juan (org. São Paulo: Paulus. Um diálogo sobre ídolos e sacrifícios. In: modernas. da filosofia. Paris: cientificista. 2./dez. Vattimo. 1991. consideradas primitivas ou arcaicas. com conotações próprias e que diferem orientar a discussão e propor caminhos de solução. de uma tradição que. ed. p. segundo perspectivas economia e teologia. entendido como fundamento último de compreensão da cultura e. São Paulo: Companhia problema e que apresenta alternativas para responder das Letras. Humano. marcadamente autoritária e conquistadora. René. disolución de la metafísica. de características ontológicas. Demasiado Humano. com aos desafios do contexto atual. 2000. 1994..

Bari: Laterza. As Etapas . . Torino: Paravia-Scriptorium. contributo all‘attuale dibattito filosofico. Artigo 33 SEGUNDO. Milano: . Milano: Garzanti. Pré-Cristãs da Descoberta de Deus. 1996. Credere di credere. La fine della Modernità. VATTIMO. ed. Campinas. Tecnica ed esistenza. Oltre l‘interpretazione. . FILOSOFIA. 2000. Petrópolis: . Uma chave para a 1994. 1968. ed.P. J... È possibile essere cristiani nonostante la Chiesa? 2. análise do cristianismo (latino-americano). 19-33. 3. Nichilismo . 1985. EXISTÊNCIA E PÓS-MODERNIDADE Reflexão. Gianni. 1988. Una mappa filosofica ed ermeneutica nella cultura post-moderna: un significativo del Novecento. 11. La società trasparente./dez. Roma-Bari: Laterza. Itália: Garzanti. Garzanti. Roma- Vozes. p. Juan Luis e SANCHIS. Le avventure della differenza. Introduzione a Heidegger. 1999. 2007 . ed. Che cosa significa pensare dopo Nietzsche e Heidegger. jul. 1997. Milano: Garzanti. 32 (92).

SCOPINHO Reflexão. 32 (92). Campinas.D. 19-33.C. p. jul. 34 Artigo S./dez. 2007 ..