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o Mar e o Remo no

Rio de Janeiro do Século XIX


Victor Andrade de Melo

Introdução

Hoje pode parecer óbvio que o mar e a praia são locais privilegiados de
lazer e de práúca esporúva, como também não é incomum observar homens e
mulheres desfilarem seus corpos seminus por esses espaços, ainda mais quando
nos referimos a uma cidade com tamanho litoral e tão relacionada a tais locais
como o Rio de Janeiro. Atualmente, sem dúvida, a praia e o mar são palco das
mais diversas compeúções, de uma práúca esportiva coúdiana, e uma das opções
de lazer mais utilizadas pelo carioca.
. Esse imenso litoral poderia até mesmo ter determinado um desen­
volvimento precoce do remo na cidade. Mas, ao focalizarmos a história do Rio
de Janeiro no século XIX, momento de surgimento do campo esporúvo 1 no
Brasil, percebemos que o desenvolvimento de tal esporte na cidade é muito mais
complexo, significativo e esclarecedor das mudanças no seu contexto sociocul­
!Ural do que apressadamente, de início, poderíamos supor. Tais mudanças
acabaram por determinar sentidos diferenciados ao uso do mar pela população
;!
fator importante a ser considerado no crescimento do remo no Rio de Janeiro.

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Ao compreendermos tais relações, podemos também identificar com maior


profundidade, e comparativamente, os diferentes tempos de organização e valo­
rização dos diversos esportes na estrutura urbana, desvendando, assim, seus
significados para a cidade.
Como a praia se tornou um lugar de banhos, ligados inicialmente à saúde
e depois à sociabilidade? Como, posteriormente, a praia e o mar se tornaram
lugares de lazer e de prática esportiva? Como se desenvolveram os esportes
vinculados ao mar na cidade do Rio de Janeiro?
Se fôssemos nos ater simplesmente a algumas hipóteses de ordem
econômica, poderíamos, por exemplo, afinnar que o estabelecimento de um
esporte está diretamente ligado ao seu potencial de gerar um mercado ao seu
redor, à sua capacidade de envolver pessoas interessadas em obter lucros e em
investir em seu crescimento. Para tanto, seria necessário obter um espaço signi­
ficativo na imprensa/mídia. Isso seria fundamental para que os 'produtos' ligados
ao esporte fossem vendidos, para que a população conhecesse o esporte, para que
as suas especificidades fossem vulgarizadas. Nesse processo, o surgimento de
ídolos e a obtenção de bons resultados são aspectos centrais. Um esporte que não
obtém resultados positivos vê o interesse ao seu redor diminuído, logo ficando
também mais exposto ao desinteresse dos investidores.
Sem negar a priori a importância do aspecto econômico no desen­
volvimento do campo esportivo, podemos verificar que tais hipóteses não são
linealmente identificáveis, não s6 no Brasil como em muitos outros países. Os
esportes se desenvolvem de forma diferenciada em realidades diversas, mesmo
dentro de um único país. De fato, aquelas suposiçôes de caráter econômico serão
possivelmente falhas se uma condição básica não for observada: deve existir um
mínimo de predisposição e possibilidade de aceitação do esporte por parte da
I população, sem o que os esforços serão duplicados e/ou inférteis.
Havia condições mínimas para o remo se desenvolver no Rio de Janeiro
do século XIX? Devemos considerar que o campo esportivo já estava em pleno
processo de construção antes do desenvolvimento do remo. O rurfe, o primeiro
esporte no sentido moderno a efetivamente se organizar no país, já tinha dado
seus primeiros passos seguros, gozando de reconhecimento e de certa noto­
riedade na cidade, tanto entre as elites quanto entre parte significativa do resto
da população, e sendo também o que apresentou pioneiramente uma organização
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mais estruturada e uma forte inserção social.
Indubitavelmente o desenvolvimento pioneiro do turfe tinha forte re­
lação com seu caráter aristocrático, com sua identificação como 11m 'hábito
europeu' e com sua consideração inicial como um entretenimento 'sadio', o que
o tornava mais aceito pelas camadas mais ricas e influentes. De fato, o turfe era
uma prática bastante adequada para uma sociedade ainda possuidora de acen-

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tuadas características rurais, governada por uma oligarquia agrícola, mas que
procurava buscar meios de identificação com as 'novidades dos países mais
desenvolvidos'. Sem faJar que o cavalo havia já algum tempo fazia parte do hábito
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e do cotidiano da população da cidade.
Já o remo se organizou posteri01M'lnnente, e foram as diferentes injunções
em tomo de tal desenvolvimento que nos conduziram à realização deste estudo.
Por que o remo e os esportes aquáticos (corno a natação) só se estruturaram
tardiamente em relação ao turfe? Quais foram as peculiaridades que determi­
naram isso? Quando o mar começou a ser utilizado para a prática esportiva e
corno f01ma de lazer pela população?

A cidade, a água e o mar - compreensões iniciais e necessárias

o Rio de Janeiro da primeira metade do século XIX nao era absolu­


tamente urna cidade limpa e saneada. Muito pelo contrário, as condições de
saneamento (salubridade) e de saúde da população eram péssimas. Sem uma
estrutura de esgotos, de coleta de lixo e de abastecimento de água, a população
era constantemente agredida pelas epidemias de doenças tropicais, como a cólera
e a febre amarela. Acrescente-se a isso uma medicina bastante embrionária e os
costumes pouco higiênicos trazidos pelos colonos portugueses.
O banho não era um hábito entre os habitantes da cidade. A princípio,
a higiene diária era realizada pela manhã e constituía-se em passar no corpo um
pano embebido em aguardente e/ou loção. Mesmo essa (pequena) preocupação
com a higiene estava mais ligada a questões de civilidade e boa convivência do
que propriamente à saúde. Lavar-se, fundamentalmente, significava trocar de
roupa; e obviamente esta era urna compreensão observável no âmbito das elites.
Naquele momento, apenas alguns indivíduos das camadas populares se
banhavam nos rios e no mar. Entre1anto, também aí não estava colocada urna
preocupação central com a saúde. Era antes urna manifestação de ludismo, até
mesmo porque aqueles indivíduos estavam menos sujeitos aos rígidos impera­
tivos sociais. Seria algo similar ao que observa Georges Vigarello em relação ao
banho ao ar livre no continente europeu: "a finalidade principal é o jogo ou
mesmo a transgressão, a água é essencialmente festiva. O que significa que a
lavagem não é a verdadeira razão do banho" (1988: 31).
O costume do banho de chuveiro somente décadas mais tarde foi ado­
tado, precedido do uso de tinas de madeira corno banheira, até porque a dis­
tribuiçao de água era inexistente ou se resumia a chafarizes espalhados pelo
centro da cidade.
A preocupação com a limpeza da cidade era realmente pequena, e isso se
refletia no mar. Grande parte do lixo era jogado no mar pelos escravos ao fim do

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dia. Quando chovia, o lixo era mesmo jogado nas ruas. Afirma Toussaint Samson
(apud. Mauro, 1991: 16), visitante de origem francesa, que:

As margens da baía [do Rio1 não passavam de um vaso


infecto, em que toda espécie de detrito apodrece espalhando emanações
nauseabundas. Essa foi a primeira desilusão. As praias, que de longe nos
pareciam tão belas e perfumadas, eram os receptáculos das imundícies
da cidade. Posteriormente ela foi saneada por esgotos.5

A relação dos habitantes da cidade com o mar era de distância. Ele não
era utilizado para banhos ou para lazer, e até seus produtos alimentares não
gozavam de prestígio entre a população. Constantes eram os avisos em jornais
condenando o uso alimentar do peixe, supostamente um mal para a saúde.
Obviamente, parte da população, ou seja, os mais pobres, não seguia exatamente
tal16gica.
Um dos marcos apontados pelos memorialistas na mudança dessa re­
lação foi a utilização por D. João dos banhos de mar para curar mordídas
inflamadas de canapato, a partir de sugestão de um médico francês. Ainda assim,
D. João não entrava no mar. Simplesmente utilizava uma banheira colocada na
areia da praia do Caju, no antigo bairro da Prainha, posterioIlllente (e até hoje)
conhecido como Saúde.
De fato, a partir do final do segundo quartel do século XIX as preocu­
pações com o saneamento da cidade começaram a se tomar mais constantes,
mobilizando o esforço de médicos, sanitaristas e engenheiros, que passaram a
ocupar lugar central inclusive como administradores públicos. Mesmo que
lentamente, começaram a ser buscadas medidas que tomassem a cidade 'mais
habitável', os 'poderes' da água começaram a ser ressaltados, e os banhos de mar
passaram a ser sugeridos como prática terapêutica.6
Não por acaso, a primeira casa de saúde do Rio de Janeiro foi aberta em
Botafogo, bairro ainda dístante, mais aprazível e perto de um 'mar mais limpo' ?
A aristocracia começava a procurar locais mais 'arejados' e adequados ao clima
tropical para morar, pois o crescimento urbano desorganizado e a característica
geomorfológica da cidade tornavam 'inabitável' (para elas) o grande centro.
A população mais abastada financeiramente avançava para a Zona Sul e
observavam-se as primeiras baIlacas de banhistas atOladas na praia.8 Anterior­
mente, os poucos que 'se arriscavam' a se banhar faziam uso das flutuantes,
criadas nos anos 1810. Eram na verdade barcos ancorados no meio da baía de
Guanabara, onde se chegava utilizando botes. De fato, a princípio os banhos eram
fundamentalmente considerados um luxo, um sinal de distinção e prazer, e
somente secundariamente havia uma preocupação com a saúde. Por trás dessa

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ocupação crescente das praias se encontrava o desejo aristocrático de veraneio,


de contemplação do belo.
Mas logo, efetivamente, chegaram ao Brasil reflexões mais elaboradas
sobre as propriedades medicinais do banho. Já em 1850, a Câmara Municipal
lançou um edital com uma série de conselhos para a população evitar epidemias,
entre os quais fazer uso repetido dos banhos de mar. No edital também era
recomendado que se evitasse a ação prolongada do sol. Logo, o mar não era
encarado como fOlma de lazer, mas simplesmente como solução para problemas
de saúde.9
Não por acaso, uma das ações estimuladas na busca de melhores con­
dições de higiene foi a redução do uso do mar para o despejo de excrementos,
notadamente observável a partir dos anos 1860. Também aumentaram as preocu­
pações com a água encanada e com os modos de distribuí-Ia, principalmente por
meio de chafarizes. Isso pode indicar uma intenção pioneira de vulgarizar as
preocupações com a higiene para além das elites, que só se tomaria efetivamente
mais identificável no final do século XIX e no século XX.
A 'cidade das lágrimas', como o Rio era chamado nos jornais devido ao
grande número de mortes em decorrência de doenças, começava a paulatina­
mente se modificar. As preocupações com a fOtmação do médico tomaram-se
cada vez maiores e mais exigentes. A medicina francesa desembarcou em terras
cariocas, ainda dividindo o espaço com curandeiros e charlatães.
Surgiram as primeiras casas de banho. Primeiro eram simplesmente
locais onde se ofereciam 'banhos de cachoeira' (chuveiros). Mais tarde, tais casas
surgiram também nas proximidades do litoral. O espaço urbano lentamente se
modificava para garantir a melhor distribuição da 'milagreira' água, considerada
fundamental para evitar as epidemias.
Não podemos negar que os banhos de mar só se tomaram realmente mais
populares já no século XX, no contexto do desenvolvimento de uma refOlllla
urbana e de um novo estilo de vida ligado a uma cultura burguesa em fOlIDação,lO
mas devemos observar que já no decorrer da segunda metade do século XIX essa
prática foi crescentemente ganhando espaço na cidade, entre os membros das
camadas mais ricas da sociedade. Segundo Delso Renault (1978: 53), a partir dos
anos 1850"0 fluminense mais esclarecido, no entanto, se preocupa com a saúde.
(...) Recorre aos meios que podem preservá-la: os passeios campestres, a equi­
tação, o banho de mar e a ginástica, que se introduz, pouco a pouco, nos seus
.li
hábitos"
Nos jornais da cidade, desde aquela época chegavam noúcias dos banhos
de mar em paises europeus e da diminuição crescente das roupas para tais
práticas, inclusive das femininas. No Brasil, com a popularização crescente do
uso do mar para banhos, desde cedo surgiram preocupações com a sua regula-

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mentação. Não foram poucas as dúvidas quanto ao pudor de tais iniciativas,


principalmente dos banhos quentes, que supostamente despertariam o desejo.
Tais inquietações se ligavam principalmente à participação das mulheres, que já
começavam a ganhar maior visibilidade social, embora ainda estivessem sub­
metidas às restrições observadas no primeiro meado do século. Dizia-se que a
mulher somente saía de casa para casar, para a freqüência semanal à missa e
quando morria. De qualquer forma, "para as (...) condenadas ao lar (...) a
prescrição médica possibilita[va) uma liberdade inesperada, reserva de sólidos
prazeres", enquanto "o homem, ao contrário, protagoniza[va) uma cena de
coragem; a1meja[va) o heroísmo de ter enfrentado as invectivas do mar, de ter
sentido na pele o flagelo da água salgada, e de sair vencedor" (Corbin, 1989: 89).
No final do século XIX, ainda havia um separador que colocava homens
e mulheres distantes na praia. As mulheres 'de respeito' tomavam banho de
madrugada, ainda sem sol, e usavam uma indumentária muito pesada. Quem
desrespeitasse e/ou abusasse era admoestado pela polícia, 12 não raro sendo notícia
13
na imprensa (Renault, 1978). As roupas femininas de banho ainda eram muito
rigorosas, sendo constituidas de

calças muito largas de baeta tão áspera que mesmo


molhada não lhe pode cingir o corpo. Do mesmo tecido, um blusão com
gola larguíssima, à marinheira, obrigada a laço, um laço amplo que serve
de enfeite e, ao mesmo tempo, de tapume a uma possível manifestação
de qualquer linha capaz de sugerir o feitio vago de um seio. As calças vão
até tocar o tornozelo quando não caem num babado largo, cobrindo o
peito do pé. Toda a roupa é sempre azul-marinho e encadarçada de
branco. Sapatos de lona e corda, amanados no pé e na perna, à romana.
Na cabeça, vastas toucas de oleado, com franzido à Maria Antonieta, ou
exagerados chapelões de aba larga, tomando disformes as cabeças, por
uma época em que os cabelos são uma longa, escura e pesada massa
(Edmundo, 1957: 838).

Nesse contexto, as casas de banho próximas do mar eram na verdade


locais para trocar a roupa, além de oferecerem alguma estrutura de segurança.
Por exemplo, algumas ofereciam cordas que avançavam no mar, amarradas na
areia, com bóias lia ponta, para evitar afogamentos. Mais tarde também foram
contratados salva-vidas, que no fundo mais livravam os banhistas das preocu­
pações com os bichos do mar, ainda temidos, do que propriamente salvavam
afogados.
Curioso como não eram incomuns as tentativas de ver as mulheres nuas
no interior das casas de banho. A questão do erotismo era realmente acentuada
para os padrões da época, mesmo com tantas restrições ao encontro de homens

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e mulheres nos banhos de mar. As casas de banho chegavam a colocar cartazes


,

do tipo: "E expressamente proibido fazer furos nestas cabines a verruma ou pena,
os encontrados nessa ,prática devendo ser entregues à ação da polícia" (apud
1
Emundo, 1957: 837).
Assim, não é de se estranhar, tanto na Europa quanto no Brasil, os
rigorosos trajes de banho que deviam, por imposição social e muitas vezes legal,
ser utilizados:

o pudor e o medo da violação ocular detelIllinam o traje


de banho. As primeiras mulheres a mergulhar no mar enfiavam um
espesso vestido de lã (...). Na França (...) é assim vestidas que as damas
tomam banho. Em Royan, no início dos anos 1820, homens e mulheres
vestem um longo traje de buril marrom sobre uma calça comprida. Por
muito tempo proliferam ridículas vestimentas individuais (Corbin,
1989: 93).
Ao descrever mais minuciosamente um traje de banho utilizado na
Europa nos anos 1840, Corbin nos possibilita perceber ainda melhor as simili­
tudes com as roupas de banho utilizadas no Brasil:

(...) a calça impõe-se às banhistas; a roupa de banho ( . ..)


compõe-se então de uma camisa e uma calça coladas no corpo e montadas
num mesmo molde, de modo a formar um todo contínuo (...). As jovens
acrescentam um pequeno saiote ajustado à cintura, com a finalidade de
dissimular os quadris. Convém não sublinhar demais esse elemento
promissor do dote estético (Corbin, 1989: 93).

E qualquer 'inovação mais ousada', mesmo que lograsse aceitação popu­


lar, recebia logo restrições dos responsáveis pelos 'bons costumes':

No início dos anos 1840, aparece o 'colete calção de


banho', em tricõ de lã, geralmente de cor marrom, pois se procura evitar
a transparência do branco. Como observa Le Coeur em 1846, 'são
verdadeiros maiõs de uma s6 peça. São muito leves, cômodos para os
nadadores' ( ...). Infelizmente, acentuam demais as f OImas, e o bom
doutor duvida de que 'possam algum dia ser adotados, como roupas de
banho, pelas mulheres' (Corbin, 1989: 93).

No Brasil a ação de regulamentação dos banhos de mar era realmente


rigorosa, a tal ponto que, conta-nos Renault (1978), em 1878 um banhista, em
sinal de protesto e ridicularizando a ação policial, entrou no mar vestindo casaca,
sapato de verniz e claque. Mesmo tanta roupa e tantas restrições não impediam
um cronista de observar nos jornais ser "curioso ver uma moça, quando é bem

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feita ou, como se diz, quando é bem acabada, sair e entrar no mar. (...) quando
sai, e aí está o busilis, a roupa adere ao corpo (...), se nota muito a cinrura bem
feita, o seio bem contornado" (Gazeta da Tarde, 1882, apud Renault, 1982: 173).15
As regulamentações também estavam diretamente ligadas ao que os
médicos determinavam como adequado à saúde. Havia uma série de regras, um
verdadeiro receiruário, que variava segundo as concepções de cada médico a
i
respeito dos beneficios dos banhos e dos meios de alcance de tais benef cios.
Como os banhos de mar eram concebidos como práticas terapêuticas, sua utili­
zação devia ser estritamente codificada pelos detentores do 'conhecimento cien­
tífico'.
Enfim, aos poucos foi-se observando o crescimento de certas preocu­
pações com a saúde, que passavam pelo uso do mar para banho, agora regulamen­
tado e constituindo uma prática minuciosa: "O banho de mar, em particular, e
sobrerudo a partir de 1820-1830, que explora as afirmações dos higienistas do
século Xvrll, toma-se uma prática claramente específica" (Vigarello, 1988: 150).
De acordo com Corbin (1989) a ocupação das praias na Europa teve
também relação direta com a queda da influência da visão religiosa católica acerca
do mar, que induzia a uma cena repulsa e medo. Neste esrudo não investigamos
especificamente essa questão no Brasil, mas não podemos desconsiderá-la. De­
vemos levar em conta que o século XIX foi bastante rico no que se refere à chegada
à cidade de novas religiões (destacando-se as protestantes, principalmente pres­
biterianas e metodistas, e o espiritismo), sem falar que no Brasil conviviam ainda
as religiões locais (de origem indígena), bem como as tradições trazidas pelos
negros, sintetizadas e sincretizadas não só com a religião católica, como também
com as tradições religiosas indígenas, sem dúvida influentes na estrurura social
16
brasileira.
Com os banhos sendo exaltados pelas propriedades terapêuticas, a praia
de Botafogo elitizou-se, sendo sempre ressaltadas, nos anúncios de aluguéis, as
facilidades de acesso nesse bairro à utilização do mar. Nos anúncios dos jornais
da época era comum chamar a atenção para o fato de que a casa oferecida
possibilitava fácil acesso às praias.
As empresas de bonde também utilizavam o mar como estratégia de
marketing, oferecendo passeios às preferidas e mais populares praias do Passeio e
do Russel (hoje, praia do Flamengo). Os passeios marítimos e as excursões às
praias mais distantes (como, na época, Copacabana) se tomaram mais freqüentes.
,

E importante destacar que o desenvolvimento de uma estrutura de transporte


coletivo foi de grande importância para o crescimento do esporte na cidade, por
facilitar o acesso das pessoas aos locais de competições.
Livros ressaltando os ganhos, a hora adequada, os procedimentos, o
vestuário necessário e as precauções com os banhos de mar foram traduzidos do

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francês, como Banhos de mar, em 1876, e COIlSelhos aos banhis/llS, do DI'. Claparede,
em 1882 CRenault, 1 982).
Criou-se uma verdadeira estrutura comercial em torno dos banhos de
mar, que ia desde sua utilização como pano de fundo para propagandas ligadas a
remédios e tônicos ou a produtos específicos para os banhos Ccomo os sapatos de
lona), até sua utilização como vantagem oferecida por casas de saúde e hotéis. Por
exemplo, em 1879 o Hotel do Leme anunciava a possibilidade de banhos de mar
tranqüilos, inclusive com o oferecimento de salva-vidas para os hóspedes
17
CRenault, 1982).
Em 1878, medida governamental muito polêmica agitou a cidade. O
governo deu a Joseph Fogliani a concessão de banhos públicos, concedeu-lhe
uma subvenção de 8.000 réis, ftxou o preço a ser cobrado pelo banho em 200 réis
18
e divulgou que 'distribuiria' 600 banhos à população que não tivesse dinheiro.
A imprensa e a população criticaram ferozmente a iniciativa, que não avançou.
Curiosamente, também fora concedida uma permissão para que aulas de
natação19 e ginástica fossem ministradas.
Nesse ínterim mudanças signiftcativas ocorreram no que se refere à
ocupação/utilização do mar e das praias. As areias da raia começaram a ser
R
utilizadas para atividades de lazer como piqueniques, o para a realização de
corridas de cavalo Cantes da organização efetiva do turfe), até que ftnalmente
surgiram as primeiras corridas de canoa.
Inicialmente, a utilização de canoas/barcos não estava ligada à realização
de competições, mas sim à contemplação do mar e da praia a partir de um outro
ângulo. Estava relacionada a uma nova orientação estética, perceptível no próprio
desenvolvimento dos modelos de contemplação do romantismo. Já as corridas
de canoa (primórdios ainda não estruturados do remo) carregavam um sentido
mais notável de desafto: ao outro, a si mesmo, mas também ao próprio mar. Tal
diferença de sentidos ftca clara quando observamos duas manifestações próximas
. . . 21
que se desenvoIveram d'e llerenClad amente: o lausmo e o remo.
Enquanto o remo logo se desenvolveu enquanto competição, o iatismo
ainda guardou durante um bom tempo, e de certa fOI'llIa ainda mantém, o sentido
de viagem contemplativa pelo mar. Aliás, é curioso observar que o iatismo nunca
logrou grande êxito na cidade do Rio de Janeiro, ao contrário de Niterói, até hoje

um grande pólo da prática de iatismo no Brasi local de origem dos principais
2
campeoes olímpicos brasileiros na modalidade.
A primeira corrida de canoa mais divulgada no Rio de Janeiro foi
realizada em 1846, com as canoas LambeAgua e Cabocla, já contando com grande
,

público na assistência.

Era de se esperar a notável concorrência, que ontem


afluiu à praia de Santa Luzia, para assistir emocionada ao desafto. C... )

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grande era a ansiedade entre a multidão, que já ao longe divisava a luta


homérica entre as rivais, a qual se decidiu afinal a favor da Cabocla, cuja
guarnição foi carregada em triunfo pela mocidade alegre e festiva (Jornal
do Commercio, 1846).
Mesmo que desde o início as corridas de canoas se estabelecessem como
um acontecimento social que mobilizava grande público, ainda demorariam
algum tempo para se tornar mais organizadas. Desde essa primeira iniciativa
ficou "assentado para breve a criação de um grupo para promover passeios
marítimos e corridas em embarcações a remos e vela" (Jornal do Commercio, 1846),
mas faltavam os clubes para que as corridas deixassem de ser, em sua maior parte,
"tripuladas por afoitos amadores" (Mendonça,
1909: 7).
Como bem percebeu Luiz Edmundo (1957: 835), depois dessa corrida
marcante, "desafios idênticos reproduz(iram]-se (... ). Iniciativas, entanto, mera­
mente pessoais, uma vez que as associações náuticas, que se dispusessem a
explorar o esporte, cuidando de regatas, só muito mais tarde é que apare­
ceriam".23
Para que essas associações se desenvolvessem, contudo, ainda eram
necessárias algumas mudanças nos costumes da cidade. Sem dúvida a ocupação
das praias foi um elemento de grande importância para o desenvolvimento do
remo no Rio de Janeiro, mas, apesar de o mar já ser utilizado, existiam muitas
resistências a outro uso que não fosse com objetivos terapêuticos. Era necessária
uma mudança relativa aos sentidos de sua ocupação, que também estavam ligados
a uma nova estética corporal. E, para tanto, ainda deveria ser desenvolvida uma
'nova cultura', ligada a novos valores e a uma nova classe em formação.

Um /lOVO padrão estético para o corpo do homem brasileiro

Diz-nos Edmundo, nas primeiras linhas do capítulo dedicado ao esporte


de seu livro de memórias sobre a cidade do Rio de Janeiro, que:

Até o fim do século que passou nós vivíamos, a bem


dizer, indiferentes aos prazeres e às alegrias salutares do esporte. A
geração que vai proclamar a República, exceção feita dos homens que
seguiam a carreira das armas, era uma geração de fracos e enfezados, de
lânguidos e de raquíticos, sempre enrolada em grossos cache-nez de lã,
a galocha no pé e um guarda-chuva de cabo de volta debaixo do braço
( ...). Mens Sal!a in Corpore Sano não passava de uma frase inexpressiva e
vaga do velho Juvenal. Não se cuidava de cultura física. O que se fazia,
então, era evitar esforços tidos como nocivos à saúde (Edmundo, 1957:
831).

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Embora o autor estivesse enganado quanto ao momento de desen­


volvimento do esporte (ou talvez tivesse uma representação de esporte diferen­
ciada do conceito adotado neste estudo), já que em meados do século XIX já
percebemos o campo esportivo organizado na cidade (no caso já citado do turfe),
não podemos negar que os tipos fisicos valorizados eram os magros e fracos.
Segundo o autor, entre a mocidade

não [se] pratica a ginástica do corpo. A do sentimento


basta. E nesse particular, ninguém supera o jovem desse tempo (... ). Vive
ainda da lírica do poeta Casimiro de Abreu, acha lindo sofrer-do-peito,
bebe absinto e, de melenas caídas nas orelhas, ainda insiste em recitar ao
piano. Toda uma plêiade de moços de olheiras profundas, magrinhos,
escurinhos, pequeninhos (... ). Tipos como o do adeta José Floriano
Peixoto, são olhados, por todos, com espanto (Edmundo, 1957: 833).

Embora efetivamente só no século XX um novo modelo de corpo se


tenha tornado mais amplamente aceito, já no quartel fmal do XIX podemos
perceber mudanças significativas. Ventos que continuavam a chegar da Europa
traziam um novo modelo de homem e novas preocupações com a estética
corporal. Contava-se a história de Severine, atriz francesa que, apresentada aos
brasileiros, decepcionou-se com suas péssimas formas fisicas (Edmundo, 1957:
833.). Os novos padrões chegavam através de jornais e revistas e com a presença
de companhias européias teatrais e de espetáculos. Os tipos fisicos fortes
começaram a ser, ainda que lentamente, valorizados.

E interessante observar que Vigarello considera que as questões estéticas


em torno do corpo tiveram ligação direta com as mudanças nas representações e
nos padrões de higiene e saúde. Quando tais padrões deixaram de ser prioritaria­
mente determinados pelos livros de decoro, passando a ser determinados pelos
médicos e arquitetos ('cientistas'), acabaram tendo ligação direta com a valori­
zação de um novo tipo fisico, com a possibilidade de construção de uma nova
imagem corporal: "Existe, portanto, um imaginário do corpo, e este imaginário

tem a sua história e os seus determinantes (...). E mesmo preciso que as imagens
do corpo mudem para que os constrangimentos possam mudar também" (Vi­
garello, 1988: 10).
Nos últimos 25 anos do século XIX, os banhos de mar já eram também
encarados como exercícios fisicos para a melhoria do padrão estético corpóreo, o
que se articulava plenamente com um outro parãmetro de saúde. Identificamos
mudanças claras nessas práticas. Ainda não se dizia 'ir à praia' e sim 'ir ao banho
de mar', os banhos ainda continuavam sendo realizados bem cedo, mas, por
exemplo, as mulheres já começavam a freqüentar mais constantemente as praias.
Surgiram dois horários para os banhos. Um bem cedo, destinado aos idosos e às

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mulheres 'mais respeitadas', e outro a partir das 8 horas, quando freqüentavam


as 'mulheres mais ousadas' e os homens que "já começavam a mosoar corpos
rijos e bem desenhados de músculos, muito orgulhosos de suas linhas, exibindo­
se em calções, mas dos longos, dos que vão abaixo da linha do joelho" (Edmundo,
1957: 840).
Influência dessa nova aceitabilidade no que se refere à 'exposição' cor­
poral, de um novo modelo aceitável de corpo, da valorização da 'busca da saúde'
e da ocupação das praias com outros sentidos que não somente terapêuticos
(dimensões com certeza bastante articuladas), o remo começou a se desenvolver.
Já era possível assistir a homens nus e musculosos competindo nos mares da
cidade:

Aqueles a quem ameaça a melancolia devem buscar, ao


mesmo tempo, o ar puro, o exercício e as emoções produzidas pelo
espetáculo sublime. Devem movimentar 'as partes musculares do corpo
mais grosseiras', mas também 'excitar', 'exercitar as partes mais deli­
cadas'. Estética, moral e terapêutica, aqui artificialmente separadas,
fonnam um todo coerente (Corbin, 1989: 140).

O primeiro grupo mais organizado surgiu em 1851 (os Mareantes), "na


dependência da chácara do avultado capitalista João de Mattos e que ficava
24
situada no pitoresco Valonguinho" (Mendonça, 1909: 9). Embora conduzido
por membros das elites econômicas, o grupo não era exatamente urna sociedade
bem estruturada. Apenas realizou urna regata em 3 de dezembro daquele ano,
desfazendo-se no ano seguinte.
-

E curioso observar que a regata foi disputada em três páreos, um dos


quais para pescadores. Logo, houve a possibilidade de não associados ao grupo,
possivelmente membros das camadas populares (pescadores), participarem da
competição. Alberto Mendonça ( 1909) nos infonna que, de fato, foram catraeiros
e pescadores que primeiramente se interessaram pelas corridas, seguidos dos
homens da Marinha, sendo tal gosto somente mais tarde difundido pelas classes
economicamente mais abastadas.
Nos anos 1860, novos impulsos podem ser observados. Em 1861, nova
regata agitou a cidade, mobilizando grande público. Segundo 11m jornalista, a
competição deveria ser realizada outras vezes, já que faltavam diversões na cidade
e "porque as regatas reúnem as duas condições recomendadas (...): utile el dulce.
Nós somos um povo essencialmente importador: não admira, portanto, que
importemos as regatas da Inglatena" (CorreW Mercantil, 1861, apud Renault,
1978: 209).
O remo começou a ser considerado uma diversão saudável, a exemplo do
que já era observado na Inglatena. Não por acaso, em 1862 surgiram duas

52
o Mar e o Reli/o 110 Rio de lalleiro do Século XIX

associações capitaneadas por figuras de influência na cidade: o grupo Regata e o


British Rowing Club, este último de fotUlação eminentemente inglesa. As
competições já eram mais organizadas, divididas em uês categorias: profissio­
nais, amadores e marinheiros. Os membros da Almada (Marinha) já conside­
ravam as regatas como uma prática louvável.
Mais ainda, começaram as discussões acerca da necessidade de novas
embarcações, tecnologicamente mais adequadas ao desempenho esperado para
tomar mais emocionantes as competições. O avanço tecnológico sempre foi lima
dimensão marcante no desenvolvimento do remo fluminense:

( ...) o nosso rowing não se limitou à realização de regatas,


como objetivo ao seu ideal, ao contrário, eram animadores o cuidado com
que se construía embarcações aperfeiçoadas e seu conjunto, assim como
a febre de importação que começava a se revelar com a acquisição de
25
out-riggers e pequenos gigs (Mendonça, 1909: 12).

Apesar dos avanços, ainda não havia condições organizacionais nem


tampouco aceitação total por parte dos membros das camadas mais influentes
para que o esporte se desenvolvesse plenamente. No final do ano de 1862, lima
regata fartamente divulgada nos jornais, para decepção geral, não chegou a se
realizar: "ali vimos vapores, botes, lanchas, povo como formiga, menos os botes
do páreo" (Carreio Mercantil, 1862).
A primeira das associações de remo bem estrururada surgiu em 1867 (o
Club de Regatas), mas somente em 1874 foi fundado o clube que iria marcar
definitivamente o desenvolvimento do remo na cidade - o Club Guanabarense:
"baluarte que definitivamente implantou o regime das associações náuticas e
abriu de vez novos horizontes ao seu desenvolvimento" (Mendonça, 1909: 12).
A partir de então, no último quartel do século muitos foram os clubes de
26
remo criados e as competições realizadas. Tais associações iriam possibilitar a
difusão ainda maior e o crescimento da popularidade que sempre acompanhou
as regatas. Ao observarmos os eventos realizados já podemos perceber a grande
organização, com arquibancadas montadas e divididas entre públicos diversos,
com a casa de poules (apostas) funcionando, além de uma notável especialização
nas tarefas a serem realizadas: havia comissões de recepção, juízes de partida, de
chegada, de centro, de raia, entre outros 'cargos'.
Nesse momento, não só o remo, mas também ouuas manifestações
esportivas (como a natação, o ciclismo e o adetismo, que somente se desen­
volveriam já no final do século), utilizavam o turfe como modelo de competição,
i
quando não as próprias instalações turf sticas (caso do adetismo e do ciclismo).
Um exemplo disso é que as provas sempre eram denominadas de páreos.

53
f

estudos hist6ricos • 1999 - 23

A despeito da organização dos clubes, na transição dos anos 1880/1890


ainda era possível tomar pane nas regatas sem ser membro de tais associações.
Muitos grupos de remadores se inscreviam por conta própria, sem representar a
bandeira de nenhum clube: "Assim de misrura com clubs perfeitamente consti­
ruídos, havia esparsos esses pequenos; porém, fortes elementos, para darem
incremento de valia às festa marítimas" (Mendonça, 1909: 17).
Tal possibilidade, contudo, não perduraria por muito tempo. Logo
começariam a surgir iniciativas de unifolInização e controle das regatas. Os
primeiros movimentos surgiriam com as críticas acerca da supervalorização das
apostas e do caráter de jogo nas competições de remo. Isso chegou a conduzir
Luís Caldas, notório remador da cidade, a abandonar o Club Guanabarense e a
se engajar na criação do Grupo de Regatas Botafogo (depois Club de Regatas
Botafogo). Tal clube assumiria a posição de 'guardião das tradições', combatendo
a 'jogatina excessiva' e os 'maus elementos' e se engajando na criaçao de uma
27
entidade única de controle do remo na cidade. Sobre Luís Caldas, observa
Mendonça (1909: 19): "Essa lembrança feliz do ardoroso propagandista dessa
época foi imediatamente abraçada jubilosa pelos amadores de então, que ávidos
vieram a servir à benéfica cruzada cujo móvel era expurgar os elementos inúteis
e depauperantes, que se aninhavam no seio do rowilzg."
As apostas e as casas de poule foram definitivamente extintas em 1905, e
seu declínio crescente a partir de meados dos anos 1890 apontou para o esta­
belecimento (e estabilização) de um significado claro para o remo, compreendido
como um exercício fisico saudável, ligado a uma nova moral e aos bons cosrumes,
incompatível com aquele tipo de prática. Mendonça (1909: 21) observava que as
apostas prejudicavam o desenvolvimento do remo, embora este fosse considerado
um esporte fidalgo, e saudava o seu fim, "porque marca o término em definitivo
desse morbus, cujo vírus impedia a marcha digna do rowing" .
A questão das apostas, entretanto, era somente um forte argumento para
a uniformização. Com a popularização e a adoção de novos valores, tratava-se de
fiscalizar e controlar a prática do remo na cidade, garantindo o encaminhar dos
novos sentidos. Além disso, ao verem diminuídas as subvenções para a organi­
zação das regatas, antes advindas em grande parte das combatidas apostas, os
clubes passaram a ter dificuldades financeiras para organizar suas atividades. Foi
assim que, em 1895, os clubes Botafogo, Union de Canotiers e Luís Caldas (do
Rio de Janeiro), mais o Gragoatá e o Icaraí (de Niterói), criaram a União de
Regatas Fluminense.
Como a União não logrou sucesso nessa primeira tentativa, algumas
confusões continuaram a ocorrer, devido a regulamentos diversos e confusos. Os
custos também se mantinham elevados, pois afinal cada clube organizava sozinho
cada regata. Amplo debate correu então, inclusive nos jornais, sobre a necessidade

54
o Mar e o Remo 110 Rio de Jalleiro do Séclllo XIX

de sucesso de uma associação unificada. Até que em 31 de julho de 1897 a União


8
de Regatas Fluminensé foi novamente criada, pelos clubes Botafogo, Gragoatá
e lcaraí (presentes na primeira União) e mais o Flamengo, Veteranos do Remo e
Praia Veullelha. Segundo dizia seu primeiro presidente, Eduardo Minosi, a
União

sintetiza o uabalho vigoroso e desapaixonado de uma


plêiade de amadores náuticos, em cujos esforços se reflete o amor pelo
progresso e o desenvolvimento desse sport que mais que nenhum outro
coopera para a efetividade da muito sábia proposição de Juvenal-Mens
Sana in Corpore Sano (apud Mendonça, 1909: 67).
29
Aos poucos, com um rígido CÓdig0 e promovendo regatas muito bem
30
organizadas às quais comparecia uma freqüência 'seleta', a União Fluminense
foi se afirmando e ganhando espaço. Era cada vez menor o número de com­
petições realizadas sem a aprovação daquela instituição. Começou-se a discutir a
necessidade de igualar os tipos de embarcações. Muitos clubes passaram a
solicitar filiação à entidade, que foi alcançando seu intuito: "O trabalho desse
grêmio diretor concentrava-se todo em angariar o domínio completo de todas as
sociedades de regatas, a fim de que dispersos não ficassem elementos de valia"
(Mendonça, 1909: 70).
Não é de estranhar que em 1900 a União tenha mudado seu nome para
Conselho Superior de Regatas, um nome que carregava um teor ainda mais forre
de controle e regulamentação. Desde que a União fora criada, já estabelecera
31
parâmetros para eliminar os competidores isolados e/ou os clubes mais pobres.
Mas, a parrir de 1901, o Conselho resolveu tomar mais dificil a entrada de novas
associações, exigindo inclusive contribuições financeiras mais onerosas, "no
sentido de dificultar a criação de novos núcleos náuticos, que forçosamente com
essa continuação viriam acarretar sérias dificuldades aos existentes" (Mendonça,
1909: 71). Tratava-se de manter o mais fechado possível o clube de entidades
'distintas'.
No ano seguinte, mais uma mudança de nome: Federação Brasileira de
Sociedades de Remo. Tratava-se agora de controlar não somente as entidades do
Rio de Janeiro, mas de todo o país. Mesmo que alguns estados tivessem aderido,
nunca a Federação conseguiu efetivamente seu intento, enfrentando algumas
resistências, notadamente de São Paulo, que criaria sua própria federação em
1908.
Mesmo no Rio de Janeiro houve divergências. Em 1903, o Grupo de
Regatas da União Náutica, o Rowing Club e o Club de Regatas Fluminense,
discordando dos rumos da Federação Brasileira, criaram o Conselho Nacional
de Remo. Tal iniciativa não logrou sucesso, tal a força que já tinha a Federação.

55
estudos históricos • 1999 - 23

Futuramente essa instituição controlaria ainda a natação e o pólo aquático,


ampliando o seu poder.
A Federação Brasileira tinha os seguintes regulamentos: regimento
interno, lei do amadorismo, regulamento dos tipos de embarcações, bases de
admissão de federações estaduais e regulamento sobre a classe de remadores.
Enfim, um controle amplo sobre a prática do remo.
Não só pela criação da União de Regatas Fluminense, o avanço do remo
na cidade parece ter tido no ano de 1895 uma data marcante, a partir da superação
da crise que, como vimos, rondava o esporte. João do Rio também percebia o ano
de 1895 como marcante para o desenvolvimento do remo, segundo ele devido à
32
criação do Club de Regatas do Flameng0 e devido à redução das resistências
aos exercícios físicos ligados ao mar:

Fazer esporte há 20 anos ainda era para o Rio uma


extravagância. As mães punham as mãos na cabeça, quando um dos
meninos arranjava um altere. Estava perdido. Rapaz sem um pincenez,
sem discutir literatura dos outros, sem cursar as academias - era um
homem estragado (apud Costa, 1961: 278) .

E interessante perceber como havia uma relação linear entre o esporte e


a não intelectualidade. Isto é, supostamente o esportista não se interessava, não
participava, não estudava. Essas relações até hoje ainda persistem no senso
comum.
A grande importância do Flamengo foi contribuir para a renovação
dentro do próprio remo. Embora já existissem grupos interessados havia algum
tempo, naquele momento eram na sua maioria fOlmados por antigos militantes.
O Flamengo, um grupo constituido eminentemente de jovens entusiasmados,
renovou então a chama do remo na cidade e contribuiu para diminuir as
• •

reslstenclas:

E o clube de Regatas do Flamengo foi o núcleo de onde


irradiou a avassaladora paixão pelos esportes (... ). As pessoas graves
olhavam 'aquilo' a princípio com susto. O povo encheu-se de simpatia.
E os rapazes passavam de calção e camisa de meia dentro do mar, a manhã
inteira e a noite inteira (Costa, 1961: 279).

Também em 1895 foi criada a primeira coluna específica para esportes


náuticos, no jornal O Paiz, redigida por Benjamin Mota. A coluna era prioritaria­
mente dedicada ao remo e ao iatismo, que tivera sua primeira competição
específica na ilha de Paquetá e em breve assistiria à criação dos primeiros clubes
próprios. O remo vencia a resistência inicial dos jornais e definitivamente
ocupava as páginas do principal meio de divulgação da cidade (Marinho, 1943).

56
o Mar e o Remo /lO Rio de !a/leiro do Século XIX

Afmal, já era assunto da moda e mobilizava um interesse maior por parte da


33
população, principalmente das elites, principal público da imprensa.
Tendo o remo como um dos símbolos, no final do século XIX, e
acentuadamente no decorrer do século XX, a estética corporal valorizada na
34
cidade modificava-se substancialmente:

Rapazes discutiam 'muque' em toda parte. Pela cidade,


jovens, outrora raquíticos e balofos, ostentavam largos peitorais e a cinta
fina e a perna nervosa e a muscularnra herculeana dos braços. Era o
delírio do rowing, era a paixão dos esportes. Os dias de regatas tornavam­
se acontecimentos urbanos (Costa, 1961: 279).

Nesses anos finais do século, muitas sociedades ginásticas tinham seções


35
específicas de remo e tomavam parte nas regatas Também muitos dos clubes
36
de remo ofereciam a prática da ginástica e o ensino da natação aos associados.
Tais práticas também se desenvolveram nos colégios e por toda a cidade.
Foi traduzido do francês e vendido com grande sucesso pela Livraria
Laemmert, uma das mais importantes da cidade, um certo Manual da arte de
Iladar. A natação era concebida "não só como exercício higiênico, como propor­
cionado-nos não raras vezes meio de salvar nossa vida e a do próximo" (Jamal do
Commercio, 1879). 37
O Clube de Natação (que depois mudaria o nome para Clube de Natação
e Regatas) surgiu em 1896 e já em 1898 promoveu a primeira edição, que iria
ocorrer até 1912, do Campeonato Brasileiro de Natação. Era uma única prova de
1.500 metros livres, para homens, realizada entre o forte de Villegaignon e a praia
de Santa Luzia, no Rio de Janeiro (ScheIluann, 1954).
Freqüentando as páginas dos jornais da cidade, não só com as notícias
sobre os certames, como também com o anúncio das competições a serem
38 39
realizadas, logo começaram a escrever sobre o remo muitos cronistas e poetas,
40
entre os quais podemos destacar Machado de Assis.
Entre algumas crônicas significativas, destacamos a de Jorge Odemira,
publicada na Gazeta de Noticias de 6 de setembro de 1875, em que o autor
comentava efusivamente as regatas do dia anterior. Enaltecendo essa atividade
como forma interessante de diversão, Odemira cobrava investimentos governa­
mentais para a sua continuidade (inclusive, segundo ele, por ser aquela uma
fOlllla de 'diminuir incêndios e suicídios').
Mas foi realmente Olavo Bilac fAuem expressou enfaticamente o signifi­
cado das regatas, na crônica 'Salamina'. Incentivador da refOlllla wbana, Bilac
era um fã do remo, tão ligado à modernidade, a um novo estilo de vida.
Em sua crônica, começava exaltando a beleza do mar em mais um dia de
regata e a agitação ao redor desse acontecimento social: "Em cada janela de

57
estudos históricos . 1999 - 23

palacete, um grupo feminino tagarelava. Entre ondas do povo, passavam car­


ruagens, conduzindo gente alegre. E a vozeria da multidão em tena, e a matinada
ensurdecedora das lanchas no mar, apitando, enchiam o ar de riso e delírio" (apud
Mendonça, 1909: 398).
Bilac mostrava que o público assistente era originário das mais diversas
camadas sociais, e que os locais nos quais assistiam eram diferenciados, prova­
velmente segundo sua condição econômica: arquibancadas, janelas das casas,
parapeitos do cais e também embarcações fundeadas.
Ao observarmos a realização das regatas, identificamos que os clubes
montavam arquibancadas em locais diferenciados para a família real/presiden­
cial, para os sócios, para os convidados especiais e para a população em geral,
seguindo o mesmo modelo do turfe. Obviamente grande parte da população não
podia sequer pagar o ingresso nas arquibancadas e ficava mesmo assistindo nas
pnuas.

Posteriormente, devido ao elevado custo para montar as arquibancadas,


alguns clubes organizavam barcos com banda ebuffet para o público que desejava
assistir, o que com certeza limitava ainda mais as possibilidades de acesso do
público mais pobre (Mendonça, 1909).
Em 'Salamina', Bilac mostra ainda o frenesi e a panicipação ativa da
torcida ao assistir às regatas e mais uma vez deixa claro que um novo modelo de
estética corpórea j á era aceito e muitas vezes estimulado: "São seis, os barcos que
entram na justa naval. Em cada um deles, 4 rapazes, de braços nus, mostrando
os nós reforçados dos bíceps... " (apud Mendonça, 1 909: 398).
Em outro de seus escritos ('Chronica'), Bilac deixa ainda mais claro seu
entendimento da imponância do remo para a cidade em transfotmação:

Basta comparar a grande geração, que arualmente enve­


lhece no Rio de Janeiro, à geração nova que aí se está formando com o
exercício do remo, para ver que beneficios se estáo colhendo do desen­
volvimento do spon náutico. Ver essa mocidade, exuberante de saúde e
de alegria - é cousa que encanta e orgulha (...). O contacto diário com o
ar livre e com os perigos do mar salva-a do desânimo e do abatimento
moral (apud Mendonça, 1909: 397).

Enfim, as regatas, e depois a natação, assim como já acontecera com


o rurfe, começaram a se tornar práticas culturais significativas para a popu­
lação da cidade, j á nos últimos 25 anos do século, mesmo que as preocupações
e iniciativas para a melhoria da saúde da população ainda não estivessem
completamente difundidas: "Esse número de sociedades serve para demons­
trar como se intensifica, então, o gosto pelos esportes náuticos" (Edmundo,
1957: 843).

58
o Mar e o Remo no Rio de Janeiro do Século XIX

o rClllo 110 COlltcxtO socioalltural do Rio de Jalleiro da virada do séallo

Não é dificil entender essa mudança de senúdos e significados em tomo


do remo na transição do século XIX para o XX. Nesse momento percebemos uma
rápida mudança nos comportamentos, capitaneadas fundamentalmente pelo de­
senvolvimento tecnológico: "De fato, a revolução técnico-científica insÚtuiu um
encadeamento entre as novas tecnologias e, por conta da escalada produtiva,
enormes movimentações populacionais, especialmente voltadas para a concen­
tração nas áreas urbanas que polarizam o processo" (Sevcenko, 1998: 521).
No Brasil esse papel de metrópole coube perfeitamente ao Rio de Janeiro,
que passou a ditar (ainda mais) modas, comportamentos, sistemas de valores,
fOllnas de viver. Não por acaso, o remo se desenvolveu primeiramente nessa
cidade, influenciando o desenvolvimento do esporte em muitos outros mu­
nicípios e estados.
E nesse contexto que devemos compreender por que o remo SÓ iria se
,

desenvolver mais efetivamente no final do século XIX, embora já existisse desde


os anos 1870. Ele estava inserido em um projeto maior, em um processo amplo
de incorporação e controle social da população, necessário devido à rápida
urbanização e à industrialização: a modernidade.
Na verdade, devemos também compreender o desenvolvimento do
remo, em relação ao turfe, no contexto de mudanças no próprio âmbito das
camadas dominantes. O remo carregava em seu interior caracterísúcas mais
próximas das valorizadas por uma camada/cultura burguesa em formação, em
comparação com o caráter aristocrático do turfe. Por exemplo, podemos destacar:
o controle corporal das pulsões e a busca de uma formação corporal adequada às
exigências da modernidade e do desenvolvimento de uma 'nação forte'; a for­
mação do líder forte e empreendedor; a valorização do desafio, entre outras.
Se o desenvolvimento do turfe já significara um avanço da estrutura social
carioca, o remo incorporou perfeitamente a modernidade da virada do século. O
moderno tinha relação com o indivíduo desafiador, audaz, conquistador, vence­
dor. Não se tratava mais de colocar cavalos para correr, e sim de participar mais
aúvamente, de demonstrar no próprio corpo saudável e forte os sinais dos novos
tempos, de incorporar efeúvamente um novo esúlo de vida adequado à velocidade
dos tempos modernos. O remo era o esporte da saúde, do desafio (ao outro e ao
mar), o esporte da velocidade. Afinal, quem chegava primeiro não era mais um
cavalo, que tinha um homem como coadjuvante, mas um homem que conduzia o
mais rápido possível, a parúr de seu próprio esforço, um barco. Por isso os recordes
de tempo começaram a ser valorizados e os desafios tomaram-se algo comum entre
remadores e entre nadadores. Nesse senúdo, Sevcenko (1998: 575) resume bem
o desenvolvimento do campo esportivo no Brasil:

59
estudos históricos . 1999 - 23

Ele surgiu e se impõs como um ritual elitista, revestido


dos valores aristocráticos do ócio, do adestramento militare do sportm an­
ship (cavalheirismo, imparcialidade e lealdade). Ao se apropriar dele a
burguesia o traduziria em termos de agressividade, competitividade e
imperativo da vitória.

Enfim, o esporte já existia e já era popular no Rio de Janeiro desde os


anos 1850, mas na virada do século cresceu sua popularidade (e ainda cresceria
mais) a partir dessas novas dimensões culturais. Seus sentidos passaram a ser
outros, já que se passou a observar

uma vocação para o corpo e a saúde disputada no coração


dos 'novos homens', pelo seu impulso instintivo para a concorrência, a
agressividade e o sucesso. A saúde ( ... ) imprimia uma conotação de
auto-estima, autoconfiança e combatitividade, inscrita na coloração ir­
radiante da pele, na estrutura sólida, nas proporções adequadas, nas
fOimas esbeltas ( ... ) (Sevcenko, 1998: 559).

Ana Maria Mauad de Andrade (1993), em seu estudo sobre as repre­


sentações na fotografia dos novos comportamentos da burguesia do Rio de
Janeiro no início do século XX, nos dá mais confuxnações do papel do esporte
nesse contexto. A autora procura compreender a fotografia no contexto do
desenvolvimento científico da transição do século, argumentando que por meio
delaa classe dominante divulgava os seus valores culturais, forjava uma consciên­
cia de classe e exercia poder nas camadas populares. E entre suas conclusões
percebe que o esporte, e muitas situações ligadas às práticas esportivas, eram
bastante retratados.
Mais ainda, percebe que a mulher e o homem eram retratados de founa
diferenciada. Aos homens se procurava representar a partir de lima imagem de
ação e poder. Essas imagens eram bem características do novo modelo de prática
esportiva. Ao analisarmos as fotos de remadores na transição do século, veremos
que elas reproduzem os mesmos modelos ingleses, deixando clara a nova estética
corporal e procurando destacar a masculinidade, a posição de liderança e desafio.
Já às mulheres estavam associadas a família, a casa e o lazer como
espectadora. Não é por acaso que percebemos uma participação direta ainda bem
42
pequena das mulheres nos esportes. Com algumas poucas exceções, não é
fartamente identificável a participação de mulheres como atletas e mesmo
dirigentes/organizadoras das competições. Seu papel era o de torcedora saudável
e atenta aos novos tempos.
De fato, mesmo a valorização do banhos de mar frios em relação aos
iniciais banhos quentes (hidroterápicos) já expressava essa mudança de sentidos
ligados às disputas no interior das camadas dominantes:

60
o Mar e o Remo 110 Rio de Janeiro do Século XIX

Uma nova classe inventa outra força, perante os mode­


los aristocráticos. Fá-lo reativando energias e dinamismos. Adquire
solidez. Estabelece grandes divisões entre um ascetismo inédito e uma
indolência aparente. Com a austeridade do frio ostenta uma prioridade
em relação aos prazeres considerados demasiados fáceis (Vigarello, 1988:
98).

Mesmo sendo referente à realidade européia, penso que a afirmação


abaixo não é de todo inadequada para pensarmos nossa realidade:

Assim, o tema do banho frio não faz mais do que ilustrar


uma profunda transfollllação de imagens, regulando a aplicação e as
forças do corpo. A verdadeira deslocação é, de resto, social. Crenças numa
força autõnoma, a inventada por uma burguesia confiante nas suas
próprias forças fisicas. Confiante, sobretudo, em vigores totalmente

independentes das filiações e dos códigos de sangue ( ... ). E a mesma


dinâmica que vai desqualificar o código aristocrático das aparências e
das maneiras (Vigarello, 1988: 123).

Se consideramos esta colocação do autor, podemos supor que os


movimentos de crítica e combate ao turfe e as tentativas de o desqualificar como
um esporte 'saudável', focalizadas centralmente na questão das apostas e em suas
características de jogo de azar, surgidas no final do século no Rio de Janeiro,
estivessem nesse contexto de crítica aos códigos aristocráticos. Da mesma f01ma,
como vimos, surgiram muitas críticas às apostas no âmbito dos próprios clubes
de remo. A crítica ao turfe parece ter obtido tamanho espaço e êxito que nos dias
de hoje muitos sequer o consideram um esporte.
O remo, liberto do 'perigo das apostas', estava ligado a um novo estilo de

vida, a uma nova opção de prazer, a novos códigos de conduta: "A beira-mar, ao
abrigo do álibi terapêutico, no choque da imersão que mistura o prazer e a dor
da sufocação, constrói-se uma nova economia das sensações. Elabora-se, para as
classes ociosas, uma nova maneira de experimentar o corpo (... )" (Corbin, 1989:
108).
Enfim, no que se refere à ocupação e à utilização do mar, diferentes
setores das classes ociosas tinham apreensões diferenciadas. A prática de esportes
e a realização de competições estavam mais diretamente ligadas aos interesses e
peculiaridades de uma parte desses setores.
Não é dificil entender, portanto, o número de iniciativas governamentais
de apoio e incentivo ao remo na virada do século. Embora Odemira (como já
vimos) e principalmente Olavo Bilac criticassem a falta de incentivos governa­
43
mentais ao remo, não é dificil identificar que alguma fOIma de ajuda já existia

61
estudos históricos . 1999 - 23

no final do século XIX. Podemos perceber isso nas palavras de Mendonça ( 1909:
80) acerca do Campeonato do Rio de Janeiro realizado em 1897:
Reúna-se a esse fato a valiosa proteção que hoje lhe
dispensam os Exmos. Srs. Presidentes da República, que além de com­
parecerem oficialmente nessas solenidades, ofertam medalhas honrosas
e ricos objetos de arte aos seus vencedores e patenteado fica a aceitação
e o legítimo interesse que o sport náutico desperta em todas as classes
• •

sociais.

Em 1901, Honório Gurgel e Pereira Braga propuseram ao Conselho


Municipal a concessão de uma subvenção anual ao remo, diretamente ao Con­
selho Superior de Regatas, em nome dos serviços prestados com a implantação
de um 'spon útil e benéfico, fonte de uma mocidade sadia e forte'. Não sendo
aprovada a proposta, no mesmo ano Barros Franco Júnior apresentou projeto
semelhante no Congresso Federal, também sem êxito.
Foi mesmo por sugestão e atuação de Pereira Passos, em 1905, que o
Conselho Municipal concedeu à Federação Brasileira de Sociedades de Remo
um auxílio anual de 12.000$00. Anteriormente a Federação reivindicava
5.000$00, e Passos conseguiu conceder mais do que o dobro do esperado. O
argumento utilizado era que a Federação organizaria um campeonato escolar
anual, o que aliás somente ocorreu em 1905 e 1906.
Foi também na gestão de Pereira Passos, no contexto de suas reformas
44
da cidade, que foi construída a primeira instalação específica para as regatas,
mais de 50 anos depois do primeiro hipódromo: o Pavilhão de Regatas, na praia
de Botafogo. Passos ainda construiu barracões para funcionar como garagens de
barcos dos clubes Botafogo e Guanabara e melhorou as condições do local onde
se banhava com freqüência a população e onde se localizavam grande parte dos
45
clubes da cidade, entre as ruas do Passeio e Santa Luzia. Obviamente os maiores
beneficiados foram os representantes das classes mais abastadas financeiramente:
"Passos cria, em 1903 ou 4, dominando a raia marítima da enseada gentil, um
elegantíssimo pavilhão, nele reunindo a melhor gente da cidade, no intuito
louvável de aristocratizar o esporte" (Edmundo, 1957: 840).
Não por acaso a ele foi concedido o título de presidente honorário da
Federação Brasileira de Sociedades de Remo, juntamente com Campos Sales e
Rodrigues Alves. Segundo palavras de Mendonça (1909: 101), "Passos é presen­
temente o nome mais cultuado no sport náutico brasileiro. Essa distinção se revela
pela súmula de seus serviços ao rawi,.g brasileiro no quatriênio de sua adminis­
tração prefeitural".
A construção do Pavilhão de Regatas, bem como as importantes ações
de Pereira Passos que beneficiaram o remo, marcaram a estabilização de sentidos

62
o Mar e o Remo /lO Rio de 'a/leiro do Sécl/lo XIX

e significados que foram se forjando ao redor do esporte e que futuramente se


ratificariam com o boom esportivo e, de alguma f011l1a, ainda hoje persistem. Foi
Pereira Passos que "estabeleceu o nexo entre a Regeneração, a modernidade e os
esportes" (Sevcenko, 1998: 570). Foi ele que definitivamente percebeu que o
esporte poderia ser uma importante estratégia de controle e adaptação do corpo
46
às novas exigências da sociedade.
Conta-nos Edmundo (1957) que certa vez estava Maria de Melo, conhe­
cida por sua ousadia e por seus cosmmes avançados, em um bar nas instalações
do Pavilhão de Regatas, quando percebeu que Monteiro Lopes, conhecido
político, fora proibido de entrar por ser negro. Indignada, Maria de Melo teria
ido até as proximidades do Cais do Porco e convocado cerca de 30 negros. Ao
invadirem o Pavilhão, liderados por ela, todos ficaram assustados e pasmos com
a atitude.
Confesso que avalio que essa é uma história bastante curiosa, até mesmo
improvável. Será que realmente um político conhecido seria proibido de entrar?
E que interesse levava os negros do Cais do Porco a seguir a sugestão de Maria de
Melo? Independentemente da veracidade e/ou exageros de Edmundo, parece
claro que o autor queria deixar claro que o Pavilhão não era um local onde a
camada mais popular era aceita com facilidade, fazendo uma relação entre negros
e populares.
Se as possibilidades de assistir às competições de remo eram mais
facilitadas do que no turfe, já que as regatas se desenrolavam nas praias, não sendo
necessário portanto pagar ingressos (como nos hipódromos), as arquibancadas
montadas pelos clubes e principalmente o Pavilhão acabavam por 'selecionar
melhor o público', de forma a impedir a 'mistura' entre camadas sociais.
Mas as camadas mais populares não deixavam de ir e assistir às com­
petições da fOlUla que fosse possível, nem tampouco é improvável que con­
cedessem diferentes sentidos e significados para tal manifestação cultural: 47

A enseada inteira se engalana para os dias de certame


marítimo. O povo trepa no cais. Cruzam carruagens. No lado do mar há
barcas da Cantareira, pejadas de povo, com charangas, com danças e
namoros. Além das barcas, rebocadores e lanchas pejadas de famílias.
Até as 6 horas da tarde é um delírio no mar, na praia... (Edmundo, 1957:
840).

De acordo com Corbin (1 989: 85), quando, "no início dos anos 1840, na
Europa inteira, a estrada de ferro atinge o litoral e um novo dispositivo de
progresso vem alterar a fisionomia das estâncias (... ) a figura da praia se turva, os
mitos de entrecruzam, os estereótipos se acumulam em uma confusa concorrên­
cia",

63
estudos históricos . 1999 - 23

Isso possivelmente se deu de forma diferenciada no Rio de Janeiro,


inclusive devido às características da organização geográfica da população. A
cidade nasceu ao redor e bem próxima do mar, logo tendo acesso mais facilitado
às praias. Mas a ocupação ou não desses espaços não estava ligada à proximidade
geográfica, e sim a estímulos culturais. Assim, para alguns, principalmente para
os que moravam nas praias mais distantes do centro da cidade, o mar fazia parte
de seu cotidiano, de suas tradições. Já para os que moravam mais no centro, e
estavam mais imersos e sujeitos aos imperativos sociais, a relação de distância
com o mar era mantida, embora possivelmente de forma mais atenuada do que
para os indivíduos das camadas mais abastadas economicamente.
De qualquer maneira, a princípio a utilização do mar pelas camadas
populares seguia uma lógica completamente diferenciada, inclusive no tocante
ao pudor. Mendonça ( 1909), Marinho (1943) e Edmundo (1957) dão fartos
exemplos de utilização dos mares para atividades lúdicas ligadas à cultura
corporal pelos mais pobres, em que procuram ressaltar os indígenas e/ou pes­
cadores, embora cometam o equívoco (pelo menos no sentido de uma definição
de campo esportivo conforme tentamos trabalhar neste artigo) de considerar tais
atividades como esportivas. Tais práticas estavam na verdade ligadas à sua
necessidade de sobrevivência e/ou às suas tradições; aos seus usos e costumes; às
suas festas.
Mas logo tal utilização acabou regulamentada, a partir das considerações
médicas, e/ou mesmo transfollllada simplesmente pelo desejo de imitar os
membros da elite, que passaram cada vez mais a chegar próximo do mar.
Assim, os membros das camadas populares passaram a seguir o modelo
constrUído pelas classes ociosas, não sem antes, contudo, influenciar a prática
específica que estava surgindo: um processo de domesticação, mas que deve ser
compreendido em um processo de dupla via de reinterpretação; não passivo. De
alguma forma, no seio da cultura popular já existiam condições para o desen­
volvimento do remo, que, se não se desenvolveu antes, foi devido às próprias
resistências no âmbito das elites. "Se o prestígio social atraía a população, o fato
é que a cultura popular da cidade já era marcada tanto pelos valores da exuberán­
cia fIsica quanto pelo espírito lúdico de precipitar os oponentes no ridículo pela
48
destreza e rapidez de movimento" (Sevcenko, 1998: 577).
A despeito de reelaborações e da participação ativa das camadas mais
populares,49 temos que admitir que a compreensão que vinha das elites foi
realmente mais influente e poderosa. A citação de Corbin ( 1989: 212) parece ser
adequada para compreendellllos o que houve na cidade do Rio de Janeiro:
(... ) a figura do habitante das praias perde sua solidez
(... ). Nesse meio tempo a domesticaçao imposta (... ) diminui e manifesta,
a uma só vez, a distância que separa o turista dos trabalhadores da areia

64
o Mar e o Remo /10 Rio de Ja/leiro do Séclllo XIX

e do sargaço. Em breve as classes dominantes virão deliberadamente


oferecer-se como espetáculo a essa gente das praias, obrigada a ceder este
espaço a um novo teatro social.

Deve-se também ressaltar que na transição do século XIX para o XX já


se percebiam maiores ações, e mesmo uma intervenção pedagógica, no âmbito
da higiene das camadas populares, expressa na publicação de manuais, no
estímulo à prática da ginástica e da educação fisica nas escolas e na permissão de
acesso controlado a algumas práticas esportivas, ações possivelmente engajadas
em um projeto de melhor controle e preparação da mão-de-obra.
Enfim, nos primeiros anos do século XX,

a revolução, que vinha fazendo o nosso spon, já dissemi­


nador de tanto prestígio e fator inconteste da educação fisica e moral de
nossos moços mareantes, tomou ( ... ) incremento notável (... ). A sua
divulgação excedia a expectativa dos mais inuansigentes céticos e pode­
se afirmar com segurança que esse salutar exercício encontrava, no apoio
moral das nossas classes sociais, margem ilimitada à consecução do seu
nobre ideal (Mendonça, 1909: 41).

Conclusão

Enfim, os sentidos e significados do mar para a população, de forma


diferenciada entre e para as diversas camadas sociais, foram mudando progres­
sivamente no decorrer do século XIX. De ilustre desconsiderado, o mar passou
a ser relacionado à saúde e à nova condição estética que chegava da Europa. Nesse
processo, foi sendo reconhecido como opção de lazer pela população. Mais tarde,
as questões estéticas corporais ainda ganhariam espaço no contexto das preocu­
pações com a saúde. E tais mudanças foram muito importantes para o desen­
volvimento dos esportes náuticos/aquáticos na cidade, tardio em relação ao do
turfe.
O uso do mar para a saúde, a estética e o lazer estava mais ligado aos
padrões de saúde e estética das camadas mais ricas. Para a camada popular, o mar
era inicialmente um meio de subsistência e/ou presença natural nas suas ativi­
dades cotidianas. Depois é que tal população passou a consumir o espetáculo que
era organizado pelos mais ricos, obviamente não de forma 'misrurada'. O Pavi­
lhão era para as elites; as areias e o cais para os mais populares.
Para a utilização das praias e do mar, e principalmente para o desen­
volvimento do remo, foram fundamentais o esboçar de uma culrura burguesa, a
valorização de padrões de vida saudáveis e de um corpo belo e forte, o gosto e a

65
estudos históricos • 1 999 - 23

difusão do 'pensamento científico', a emergência e a valorização do lazer e a busca


de novas formas de sociabilidade.
Enfim, retrato e conseqüência de uma sociedade em mudança, mas
também responsável por e contribuição para a mudança dessa sociedade, o remo
encontrou condições e rapidamente se desenvolveu a partir do final do século
XIX, notadamente no século XX.

Notas

1. O conceito de campo esportivo será ocorridas na cidade no que se refere à


trabalhado neste texto segundo as estrutura urbana de limpeza, já no
concepções de Pierre Bourdieu (1983). momento em que ela escreveu seu relato.
Maior compreensão sobre a contribuição
6. Se considerarmos que na Europa tais
de Picrrc Bourdieu para o estudo do
preocupações começaram a se
esporte pode ser obtida no anigo de Jean
desenvolver nos anos finais do século
Paul Clémem (1995).
XVIll e efetivamente ocuparam espaço
2. E importame fazer esta ressalva, pois

destacado já no século XIX, podemos


em algumas cidades que não são considerar que foi relarivamenrc rápida,
banhadas pelo mar (como São Paulo) o considerando-se os padrões da época, a
remo se desenvolveu nos rios (como o chegada de tais preocupações ao Brasil.
Tietê). No Rio de Janeiro, não
7. Interessante observar que em 1851 foi

pOSSUlamos nos com caractensUcas


• • •

adequadas ao remo, mas tínhamos uma criado o Hospital dos Alienados em


baía (da Guanabara) adequada à sua

Botafogo. E possível que a instalação aí


prática. Na verdade, perceber-se-á, desse estabelecimento estivesse
estaremos abordando uma nova relação relacionada à distância do centro
dos habitantes com a água (inc1usivc rios ('colocar os loucos distantes'), mas
e mar), com a saúde e com o corpo. também poderia estar ligada aos
benefícios já divulgados para a saúde de
3. Maiores informações sobre os paragens próximas do mar.
primórdios do campo esportivo no Brasil
podem ser obtidos nos estudos de Victor 8. Curioso observar que no mesmo jornal
Andrade de Melo (I996) e de Melo e de que retirei tal informação, também se
James Mangan (1997). ressaltava que o governo conÚDuava
4. Maiores informações sobre o rurfe preocupado com a melhoria das vias que
conduziam até Botafogo (Correio
podem ser encontradas no estudo de
Melo (I 998a).
Merca/llil, 1850).

5. Este texto, publicado em 1883, 9. Curioso observar que os conselhos


expressa bem tanto a decepção inicial e a expressos no edital são bastante
impressão de pouco saneamento, que semelhantes aos expressos em países
ficou clara para uma estrangeira ao europeus, inclusive aos publicados em La
chegar à cidade, quanto as mudanças Gazelle de Sami (França) em 1773.

66
o Mal' e o Remo /10 Rio de Janeiro do Século XIX

Maiores informações podem ser obtidas 18. Encontramos aqui mais um exemplo
no estudo de Vigarello (1988). de preocupação, embora bem restrita, de

10. Sobre tais dimensões, sugiro os


vulgarização das noções de higiene para
toda a população. Efetivameme a prática
estudos de Rosa Maria Barboza de Araújo
de banhos, bem como preocupações mais
(1993) e Nicolau Sevcenko ( 1998).
estabelecidas com a higiene, eram típicas
11. Renault observa também que na das eHtes.
travessa do Paço, já nos anos 18S0, um
19. A primeira escola de natação surgiu
cerro professor Bidegorry oferecia lições
em 1785, em Turquim, na França.
de ginástica) com o objetivo de
Segundo Vigarello (1988), foi uma
tratamento de deformidades e fraquezas.
estratégia potencializar os efeitos
12. Na cidade de São Paulo podemos higiênicos dos banhos de mar.
também identificar a preocupação com a Precisamos de mais estudos para afirmar
regulamemação dos banhos de rio. No com ceneza que isso também aconteceu
final do século XIX, quando a cidade no Brasil, mas, a partir do apresentado,
começou a crescer, a população viu seu podemos desconfiar que o sentido pode
antigo hábito de tomar banhos reSlrilo ter sido semelhante.
por uma rígida regulamentação. Maiores
informações podem ser obtidas no estudo 20. Segundo Corbin (1989), na Europa o
de Emani da Silva Bruno (1984). primeiro momento de ocupação mais
efetiva das praias estava mais ligado ao
13. Vejamos só esta notícia publicada no prazer de olhar o mar Ca obra do
Cntzeiro de 1 0 de dezembro de 1 882, com criador'), do que ao ltoque' e ao contato
reclamações à polícia relativas ao com ele.
vestuário: "(...) se apresentam em trajes
impróprios e indecentes, ofendendo 21. No iatismo, as embarcações sáo
assim o pendor das famílias, a moral e os movimentadas por ventos nas velas; no
bons costumes". remo, pela força humana.

14. Curioso observar que, segundo Alain 22. Um breve olhar sobre a cultura
Corbin (1 989), em Brighlon, em 1876, de esponiva da cidade de Niterói já é
acordo com um guia, homens indiscreros suficiente para chamar a atenção para sua
tentavam a todo custo observar as peculiaridade. Podemos observar aí o
mulheres por ocasião de seus banhos de desenvolvimento de espanes pouco
mar. difundidos no Brasil, como o nlgby, e
15. Iniciativas governamentais de mesmo de práticas quase extintas, como o
jogo do bolão. Provavelmente isso
regulamentação dos banhos de mar são
também está ligado às colônias de
observáveis na cidade até os anos 1920.
imigrantes que lá se estabeleceram. Tal
16. Sobre a síntese das religiões cidade sem dúvida merece um estudo
afro-brasileiras e sua influência na mais aprofundado.
sociedade brasileira, ver O estudo de
23. E interessante observar que nesta
-

Reginaldo Prandi (1996).


citação, mesmo que instintivamente, o
17. Nos exemplares doJol1lal tU! Brasil de autor se aproxima de alguma forma de
1894 são fartamente encontrados definições mais aproximadas de esporte
anúncios de hotéis, vilas balneárias e no sentido moderno, no sentido de
institutos medicinais, como o Instituto campo esportivo.
Kneipp, oferecendo banhos de mar 'para
o organismo' e/ou banhos hidrotcrápicos. 24. Essa chácara se localizava em Niterói.

67
estudos históricos . 1999 - 23

25. Out-riggm e gigr eram tipos de glorificação do exercício fisico para a


embarcações mais velozes e adequadas à saúde do corpo e a saúde da alma" (apud
prática do remo. Costa, 1961: 278).

26. Para se ter uma idéia: Club de 33. Quando o remo começou a freqüentar
Regatas Guanabarense (1873); as páginas dos jornais da cidade, o turfe já
Paquetaense (1884); Cajuense (1885); tinha um bom espaço. As primeiras
Internacional (1887); Union des colunas especificamente esportivas foram
Canotiers e Fluminense (1892); Botafogo em grande parte dedicadas ao turfe e
(1894); Gragoatá, Icaraí e Flamengo
• • • •

mesmo eXlsuram )omalS somente


(1895); Natação e Regatas (1896); dedicados a esse espone já no século
Boqueirão do Passeio (1896); Caju (1 897); XIX. Maiores informações podem ser
São Cristóvão e Vasco da Gama (1898); obtidas no estudo de Eduardo Veiga,
Guanabara (1899); Náutico e Fernanda Salazar e Melo (1997).
Internacional de Regatas (1900). 34. E curioso perceber como já no século
,

27. Ernesto CurveUo Júnior, grande XX essa nova estéúca corporal chamou a
incentivador da prática do remo, que atenção de um compositor popular (Noel
Rosa), que chegou a compor uma música
• • • •

assmava cromcas nos )Orn31S como


'Wtltelman, considerava o Botafogo (a pita irônica sobre a questão ('Tarzan, ° filho


sacrossanta e atalaia da tradição do sport'. do alfaiate'). Maiores informações podem
ser obtidas no estudo de Melo (1998, no
28. Nesse mesmo ano tentou-se criar a prelo).
Associação do Yachting Nacional, sem
sucesso. Provavelmente ainda não havia 35. Por exemplo, a Sociedade Francesa de
desenvolvimento suficiente desse esporte Ginástica, o Club Atlético Fluminense, o
para tamo. Clube Ginástico Português.

29. A União controlava o crescimento dos 36. Por exemplo, o Boqueirão, o Vasco, °
Flamengo, o Guanabara.
clubes (os clubes eram mesmo
freqüentemente obrigados a entregar o 37. Interessante observar que em 1878 já
nome das embarcações e o número de fora criado em Botafogo um clube
sócios), estabelecia as categorias específico para a prática da natação: o
(profissionais, amadores e novos), Club de Boiton.
38. Em muitos jornais da cidade os
regulamentava os barcos e até os
uniformes, tendo ainda a possibilidade de
clubes divulgavam suas realizações.
aplicar punições aos que descumprissem
Notadamente encontramos fanos
exemplos no Paiz, na Gazela de NOlícias e
o código.

30. Por exemplo, Prudente de Morais no Jornal do Brasil.


esteve entre os que compareceram à 39. Alguns exemplos: Alvaro Moreira,

primeira regata organizada sob os Coelho Neto, João do Rio, Mránio


auspícios da União. Peixoto, Octávio da Rocha, Ferreira
31. Para ser aceito, o clube deveria: a) ter Viana Filho, entre outros. Algumas
estatuto; b) ter diretoria idônea; c) ter no dessas crônicas podem ser encon rradas
uúnimo três embarcações (Código da no livro de Nélson Costa (1961).
União de Regatas Fluminense, 1897). 4IJ. Maiores informações podem ser
32 Segundo ele: uÉ o novo ground. O obtidas no estudo de Miécio Tati (1991).
Clube de Regatas do Flamengo tem uma 4/. Nessa crônica, Bilac narra a regata
dívida a cobrar dos cariocas. Dali partiu a referente ao Campeonato Brasileiro de
formação das novas gerações, a 1900.

68
o Mar e o Remo 110 Rio de Jalleiro do Século XIX

42 Só foi possível identificar duas local foi o preferido para a prática do


iniciativas de participação de mulheres remo e da natação e seria também onde
como atletas nas regatas. Por volta de futuramente seriam realizados os
1882/1883 algumas mulheres de origem primeiros jogos de pólo-aquático.
francesa remavam em Niterói; a outra
46. Maiores informações sobre a relação
iniciativa foi a criação do Grupo de
entre o remo e Pereira Passos podem ser
Regatas Feminino da ilha de Pombeba
obtidas no esrodo de Melo ( l998b).
(pequena ilha na baia de Guanabara), em
1901. Esse grupo não sobreviveu muito 47. Especificamente, ainda existem
tempo e sequer chegou a participar das poucos esrodos no Brasil sobre a
regatas organizadas pelos clubes. apreensão do espone pelas camadas
43. Em 'Chronica' , Bilac afirma que "o populares, organizadas ou não. Mesmo na
que não se compreende é que até hoje o Europa só recentemente tais estudos têm
governo se não tenha decidido a apoiar sido desenvolvidos, muitos deles
com um aUXIlio oficial de qualquer influenciados pelas consideraçóes de E. P.
natureza os que através de tantas Thompson e pela visão de 'circularidade
contrariedades e tantos tropeços, têm da culrora' de Bakhtin. Os interessados
conseguido introduzir nos nossos hábitos podem procurar os esrodos de Richard
esse spon salvador. Dia virá em que se há Rolt (1992), Stephen G. Jones (1992),
de reconhecer a grandeza dos serviços Jefrey Rill (1996) e Arnd Kruger &
que os clubs de regata estão prestando ao James Riordan (1996).
Brasil". 48. Sevcenko elabora uma discussão
44. Maiores informações podem ser bastante interessante sobre o papel ativo
obtidas nos esrodos de Jaime Benchimol da torcida no espetáculo esportivo.
(1992) e de Oswaldo Pono Rocba (1995). Maiores informações podem ser obtidas
no seu esrodo de 1998.
45. Hoje seria impossível compreender
tal possibilidade, pois essa faixa de mar 49. Maiores infonnaçóes sobre a inclusáo
foi aterrada. Ainda assim, em local da educação física nas escolas brasileiras
aproximado, ainda hoje existem sedes de podem ser obtidas nos esrodos de
alguns cll'bes, como o Boqueirão do eannen Lúcia Soares (1994) e de Melo
Passeio. E interessante observar que esse (1998c).

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