Vous êtes sur la page 1sur 4

A REVOLUÇÃO SERÁ FEMINISTA

2017, o ano das bruxas em ação


Edição - 126 | Brasil por Carla Rodrigues
Janeiro 8, 2018
Imagem por Odyr

Se há um Brasil que caminha célere para as trevas, é ali mesmo onde há cinzas que os movimentos
feministas atuam, resistem, existem. É nesse sentido que se pode tomar a política feminista como a
mais forte manifestação ao contra-ataque conservador que tem varrido a política brasileira
Era o dia seguinte ao 8 de Março de 2017 e à greve geral convocada pelas mulheres contra o atual
governo, cuja crise institucional se arrasta desde a retirada da presidenta Dilma Rousseff da
Presidência da República. Caminhava por uma calçada estreita no centro do Rio de Janeiro quando
cruzaram comigo dois homens. De um deles ouvi, enquanto passava por mim: “Mas essas mulheres
têm de sair da rua, essas mulheres estão fazendo muito barulho”. A adversativa com que a frase
parecia começar indicava uma contrariedade, quase um desgosto. Agora, que aos homens que
usurparam o poder parecia haver alguma chance de fazer as tais reformas exigidas pela abstrata
entidade chamada mercado, enfim havia aparecido no radar político daquele executivo a incômoda
categoria “mulheres que protestam”.
De debacle em debacle, o governo Temer chega a 2018 – que legalmente deve ser seu último ano –
sem ter começado, em que pesem os sucessivos golpes que se seguiram, seja na universidade, nas
leis trabalhistas, na política de saúde mental, nas artes e na cultura. Mas – e repito a adversativa
como provocação – a ação das mulheres na política nunca esteve tão em evidência. Se fosse para
escolher uma única imagem para representar 2017, apontaria para a que mais parece nos ofender:
uma bruxa sendo queimada, uma enorme boneca de pano mimetizando a filósofa feminista Judith
Butler no tribunal da Inquisição.
Se há um Brasil que caminha célere para as trevas, é ali mesmo onde há cinzas que, a cada vez, os
movimentos feministas atuam, resistem, existem. É nesse sentido que se pode tomar a política
feminista como a mais forte manifestação ao contra-ataque conservador que tem varrido a política
brasileira. Em grande medida, porque as mulheres são o alvo mais frágil ao ataque, mas ali mesmo
onde seria a nossa maior fraqueza estamos também na ponta mais forte de resistência. Para isso, é
preciso pensar a política como um jogo de forças ativas e reativas, uma relação dialética entre
avanços e recuos, em que cada passo adiante ameaça e, portanto, provoca novas violências. Nesse ir
e vir, no fluxo e no refluxo das forças, justifica-se a contabilidade dos movimentos feministas em
ondas.1
Há uma grande controvérsia sobre essa divisão. Embora a estratégia esteja estabelecida como forma
de marcar os momentos de maior intensidade das lutas pela emancipação das mulheres, o fato é que,
se tomarmos a onda como uma metáfora, correremos sempre o risco de estar começando de novo,
porque as ondas varrem do solo as marcas do passado. Haveria ainda uma interpretação pior: “isso é
onda”, forma jocosa de se referir à política feminista como aquilo que, por só interessar às
mulheres, não teria nenhuma importância no cenário de disputa de poder nacional e internacional.
Minha hipótese é oposta e parte do princípio de que fazer política feminista tem sido, em todas
essas ondas históricas, trazer ao debate público os temas mais candentes para a sociedade. E
justamente por isso as forças conservadoras insistem em nos dizer que “estamos fazendo muito
barulho”, porque estamos afirmando que os problemas de gênero não são meras questões regionais,
muito ao contrário, são o ponto central a partir do qual se pode colocar em pauta o interesse comum.
A cada reivindicação dos feminismos, em geral empurrada para escanteio como uma demanda
específica, equivale uma pauta global, o que me permite defender que a luta contra a opressão das
mulheres é a própria luta contra a opressão. Tomo em defesa da minha hipótese a expansão dos
feminismos negros como o melhor exemplo: a estrutura racista do Estado brasileiro é fundante na
desigualdade entre pessoas brancas e pessoas negras, então é fundamental denunciar, confrontar e
enfrentar o racismo presente nas relações sociais. Não é outra coisa o que as mulheres negras estão
fazendo nas ruas, nas marchas nacionais, na Marcha do Orgulho Crespo, exibindo seus cabelos
rebeldes aos processos de embranquecimento que são marca da violência histórica do Estado
brasileiro contra o corpo das pessoas negras.
O filósofo Michel Foucault afirma que o Estado só consegue garantir sua função de assassino se
funcionar, “no modo do biopoder, pelo racismo”. O que ele definiu como biopoder é forma política
de controle sobre os corpos, controle que, do meu ponto de vista, se dá preferencialmente sobre os
corpos marcados pela subalternidade, ou, para falar como Michelle Perrot, sobre os excluídos da
história: operários, mulheres e prisioneiros. Por isso, faz sentido pensar que o corpo das mulheres é
o alvo preferencial do biopoder, do constrangimento de suas ações e liberdade. Se é verdade que as
mulheres são o primeiro alvo do biopoder, pode ser verdade também que os feminismos são a
constituição histórica da resistência a esse controle estatal sobre os corpos. Nas quatro grandes
ondas da história dos movimentos feministas, a liberdade do corpo contra a opressão do Estado é
centro da disputa.
Foi assim na Revolução Francesa, quando as mulheres denunciaram que o corpo feminino estava
excluído da concepção de universalidade; foi assim quando as sufragistas lutaram para ter seu corpo
contado como eleitoras e, com isso, aprimoraram os sistemas de representação democrática; tem
sido assim desde a segunda metade do século XX, quando a segunda onda feminista se levantou
contra a violência exercida sobre o corpo das mulheres e a terceira onda permitiu perceber que a
violência é contra todo corpo que carregue a marca da feminilidade, sobremarcada por raça, classe,
religião, lugar de moradia e/ou nascimento, idade, sexualidade, idioma e uma infinidade de
indicadores que reforçam as estratégias do biopoder e da violência.
Para falar da quarta onda feminista, retomo a primeira Marcha das Vadias, realizada em 2011 no
Canadá e em diversos outros países que imediatamente aderiram, inclusive o Brasil.2 Foi puxada
por jovens estudantes canadenses que, diante da reivindicação de atuação policial contra os estupros
ocorridos em torno do campus da universidade, ouviram do chefe de polícia: “Se não querem ser
estupradas, não saiam na rua vestidas como vadias”. As mulheres se mobilizaram valendo-se da
estratégia que o movimento queer já havia adotado: subverter o termo “vadia” de sua conotação
negativa para usá-lo de forma debochada contra a violência que ele pretende perpetrar. A
participação do movimento de legalização da prostituição foi importante para reforçar a pauta da
descriminalização da profissão, numa dinâmica muito própria dos feminismos brasileiros: a
articulação entre as reivindicações globais e os itens do debate local.
A resposta do policial de Toronto é apenas a face mais evidente da opressão sobre o corpo da
mulher, que deve ser mantido sob controle, enquanto o do homem pode e deve gozar do imperativo
da liberdade absoluta. Contra essa forma estrutural de violência, manifesta em diferentes
fenômenos, uma nova geração de mulheres começou a retomar as ruas, inúmeros coletivos de
jovens feministas se organizaram, inclusive nas universidades e escolas públicas de ensino médio,
como tão bem mostra o documentário Primavera das mulheres, de Antonia Pellegrino.3 Era
setembro de 2015 quando manifestações ocuparam ruas, praças e redes sociais para pedir, no grito
de #ForaCunha, a queda do presidente da Câmara que, naquele momento, além de autor do Projeto
de Lei n. 5.069 – que volta a exigir boletim de ocorrência para o atendimento, na rede pública, das
mulheres vítimas de estupro que desejem realizar o aborto legal –, era um dos mentores do golpe
que viria a derrubar, poucos meses depois, a presidenta Dilma.
O PL de Cunha era apenas um sinal de como os retrocessos na política apontavam para o corpo das
mulheres em primeiro lugar. Em dezembro de 2017, foi a vez da PEC 181, cujo objetivo original era
ampliar o direito à licença-maternidade em casos de nascimento de bebês prematuros. Depois, foi
transformada num projeto que visa à proibição do aborto em casos já autorizados por lei, como
estupro, anencefalia fetal e risco de morte para a mãe. Na contraofensiva, um grupo de organizações
feministas organizou um manifesto público no qual 270 mulheres, inclusive eu, declararam já ter
realizado aborto e apoiaram a decisão da jovem Rebeca Mendes, cujo recurso ao STF pedindo
autorização para interrupção de gravidez foi negado.
Se a imagem de uma bruxa sendo queimada na porta do Sesc Pompeia é exemplar de um ano
poderoso, vale evocar também a publicação de Calibã e a bruxa – Mulheres, corpo e acumulação
primitiva, livro da feminista italiana Silvia Federici que conta a história do capitalismo como uma
história de guerra contra as mulheres e a história da resistência das mulheres nas Américas como as
“principais inimigas do domínio colonial”. Não é por outra razão que as teorias feministas no Brasil
se colocam, há tempos, o problema da importação da bibliografia feminista e a importância de
afirmar nossos saberes localizados, para falar como Donna Haraway.
O campo acadêmico feminista começou a se constituir no Brasil no final do século XIX graças a
uma dupla estratégia: a validação dos argumentos pela emancipação da mulher com base na
importação de pensadoras europeias – com destaque para o trabalho da educadora Nísia da Floresta,
tradutora da inglesa Mary Woolstonecraft no Brasil – e a inclusão de pautas locais, como o fim da
proibição do ensino para mulheres. Essa disjuntiva permanece estratégica até hoje. Receber a
filósofa Judith Butler no Brasil foi uma oportunidade de dimensionar a importância que tem hoje o
pensamento político feminista, ameaçador a ponto de mobilizar tantas forças reacionárias ao mesmo
tempo.
Nos anos 1980, a norte-americana Susan Faludi identificou os discursos conservadores que
insistiam na tese de que as feministas já teriam conseguido todas as conquistas de que precisavam e,
pior, estavam infelizes com o ponto aonde haviam chegado. Segundo eles, estava na hora de recuar.
Dentro dos movimentos feministas, no entanto, a questão era oposta: como ampliar as lutas? O
sopro de vigor e resistência veio com a publicação, em 1989, de Gender Trouble [Problemas de
gênero], livro que marca a entrada de Butler no campo da teoria feminista. Inspirada principalmente
pelos trabalhos das feministas Gayle Rubin e Monique Wittig, Butler trava um debate com a
filosofia existencialista de Simone de Beauvoir a fim de interrogar o que ela chama de ligação
natural entre sexo e gênero. Afinal, se não se nasce mulher, torna-se mulher, em que estaria
fundamentada a ligação entre um corpo de fêmea e a construção de uma pessoa do gênero
feminino?
Nesse momento, a terceira onda feminista se dobrou sobre si mesma, seguindo a proposta de Butler
de que o feminismo deixasse de ser feito apenas em nome do sujeito mulher, e de sua provocação
surgiram novos sujeitos e a oportunidade de ampliação dos feminismos para além dos direitos das
mulheres, mais uma vez sobrepondo a luta contra a opressão das mulheres à luta contra toda forma
de opressão. Universal e particular ao mesmo tempo, paradoxal como provocação, agonística como
método.
Foi mais ou menos assim que as mulheres voltaram a ser as bruxas da história, aquelas que não se
calam diante das opressões e injustiças, as que são queimadas e mortas – seja como metáfora, seja
no alto índice de feminicídios no país – por denunciarem que, sem nem mesmo termos chegado a
algo que pudéssemos chamar de Estado de bem-estar social, já estamos em furioso processo de
desmonte do pouco que havíamos alcançado.

*Carla Rodrigues é filósofa, professora de Filosofia (UFRJ) e pesquisadora (PPGF/Faperj)