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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

RODRIGO JOSÉ DUARTE BAPTISTA FILHO


DRE 116.177.654

HOMO SAPIENS: A RELAÇÃO ENTRE O TRABALHO E A ESSÊNCIA


HUMANA EM MARX

Rio de Janeiro
2018
RESUMO

O presente trabalho busca compreender a concepção de essência humana na obra


de Karl Marx, bem como investigar o desenvolvimento do gênero Homo, a partir da obra
de Yuval Noah Harari, e as transformações evolutivas que ocorreram ao longo de
milhares de anos e possibilitaram o desenvolvimento do trabalho como atividade humana
que possibilita formas complexas de vida social.

INTRODUÇÃO

György Lukács (2013) afirma que se pode conhecer pelo menos três modalidades
do ser na natureza: as moléculas inorgânicas, por exemplo, a água, sais minerais,
oxigênio, etc. é a forma da matéria caracterizada por não se reproduzir; também há os
seres orgânicos, mais complexos: plantas e animais, que são caracterizados por não terem
consciência e obedecerem a um ciclo de vida no qual nascem, crescem, reproduzem-se e
morrem e estão biologicamente restritos a essas determinações. Há ainda, por último, o
nível mais complexo dentre os níveis de ser encontrados na natureza: o ser social.

Essa última modalidade do ser, a saber o ser social, é que se pretende investigar
ao longo da pesquisa, compreender, a partir da evolução biológica e em diálogo com o
pensamento marxiano, qual é a característica fundante desse ser e como deriva disso sua
essência. Para isso, faz-se necessário uma investigação histórico-biológica (ainda que
breve) do gênero Homo – desde os primórdios da humanidade até a espécie melhor
adaptada, o sapiens.

E só a partir disso, será possível responder, finalmente, qual é a concepção de


essência humana (menschliche Wesen), em Marx? Ou ainda, qual foi a determinação
biológica que permitiu ao gênero humano1, em especial o Homo sapiens, ser a espécie de
seu gênero que melhor se adaptou ao meio natural?

1
Gênero humano, no presente trabalho, é o termo utilizado para se referir a todas as espécies
do gênero Homo. Enquanto que ao se utilizar ‘’natureza humana’’ ou ‘’essência humana’’, referir-se-á ao
‘’menschliche Wesen’’ presente na obra marxiana.
DA EVOLUÇÃO DO GÊNERO HOMO

É consenso entre os arqueólogos o fato de que a primeira espécie do gênero


humano, o Homo habilis surgiu no planeta Terra há aproximados 2,5 milhões de anos.
Além disso, não há discordância significativa sobre o fato de que a nossa espécie, Homo
sapiens, conviveu com outras espécies humanas como o Homo neanderthalensis e
floriensis, ao longo de quase 200 mil anos. Mas, o que todos nós do gênero Homo, desde
a espécie menos biologicamente adaptada à mais socialmente complexa, temos em
comum?

Para responder tal questionamento, parte-se das investigações históricas e


biológicas de Yuval Noah Harari2 acerca da evolução do gênero humano. Ele afirma que
todas as espécies humanas possuem um cérebro significativamente grande se comparado
com as demais espécies de mamíferos (HARARI, 2015, p.16).

Além disso, é um traço comum aos humanos que caminhem eretos sobre as duas
pernas. Esse passo evolutivo trouxe uma consequência evolutiva fundamental para o
gênero Homo. Isso porque, ao se adotar uma postura ereta para caminhar, as mãos se
encontravam livres do exercício de locomoção e puderam assim passar a desempenhar
tarefas mais complexas como “a manufatura e o uso de ferramentas’’, sendo esses “os
critérios pelos quais os arqueólogos reconhecem humanos antigos’’ (HARARI, 2015,
p.17).

É fato que os humanos de hoje partilham, desde os primeiros ancestrais, essa


capacidade de transformar a natureza, inédita do ponto de vista da evolução biológica até
2,5 milhões de anos. Além dessas características, Harari aponta para a necessidade
evolutiva de cooperar mutuamente e ‘’formar fortes laços sociais’’ (HARARI, 2015,p.18)

2
Yuval Noah Harari leciona no departamento de História da Universidade Hebraica de
Jerusalém, é especialista em História Medieval, Militar e também em História Mundial, autor do
Best-seller internacional, ‘’Sapiens: uma breve história da humanidade’’, publicado também no
Brasil, em 2015, pela editora L&PM Editores.
para proteger e ensinar às crias humanas o necessário para sobreviverem, essa foi também
uma determinação biológica destacável. Essa peculiaridade humana foi necessária para a
sobrevivência dos nossos antepassados em um mundo onde a maioria dos predadores já
nascia com a capacidade de se locomoverem sozinhos.

De todas as espécies de nosso gênero, apesar de toda sua luta pela adaptação às
condições impostas pela natureza, somente o Homo sapiens foi capaz de se adaptar e
prosperar, do ponto de vista da evolução. Isso se concretiza pelo fato de nossa espécie ter
sido a única que passou por aquilo que ocorreu há aproximados 70 mil anos, que Harari
chama de Revolução Cognitiva.

Tal revolução trouxe ao sapiens novas habilidades e seus consequentes benefícios


para a sua adaptação. Sabe-se que a capacidade de transmitir maiores quantidades de
informação sobre o mundo trouxe consigo o benefício da possibilidade de planejamento
de ações mais complexas; ao passo que a capacidade de transmitir grandes volumes de
informação a respeito das relações sociais entre os sapiens permitiu que nossa espécie
fosse capaz de se organizar em grupos maiores e mais coesos (próximos de 150
indivíduos, em contraste com os bandos de 30, por exemplo, do neardethalensis); por
último, e mais importante, a capacidade de elaborar subjetivamente ficções sobre o
mundo, tais como a criação de espíritos tribais, religiões e, futuramente, até mesmo das
nações e o dinheiro. (HARARI, 2015, p.45). Isso trouxe para nossa espécie a definitiva
possibilidade de cooperarmos entre números exacerbadamente grandes de indivíduos
estranhos entre si.

Harari entende que a ‘’Revolução Cognitiva é, portanto, o ponto em que a história


declarou independência da biologia’’. Segue afirmando que a partir de então ‘’as
narrativas históricas substituem as narrativas biológicas como nosso principal meio de
explicar o desenvolvimento do Homo sapiens.’’ E encerra pontuando que a aceitação de
tal fato ‘’não significa que o Homo sapiens e a cultura humana tenham se tornado isentos
de leis biológicas. Ainda somos animais, e nossas capacidades físicas, emocionais e
cognitivas continuam sendo moldadas por nosso DNA.’’ (HARARI, 46)
É a partir dessas características, biológicas e sociais, do ser humano, em especial
sua espécie melhor adaptada e a única que sobreviveu, que se iniciará, então, a tentativa
de se estabelecer um diálogo entre o que a biologia mais sofisticada aponta como verdade
acerca de nossa espécie com aquilo que Karl Marx, ainda no século XIX, apresentou ao
mundo como sendo verdadeiras categorias constitutivas do ser social, extraídas de seu
objeto de pesquisa: as relações de produção do ser social e o mundo burguês de seu tempo
histórico.

MARX: A RELAÇÃO ENTRE TRABALHO E ESSÊNCIA HUMANA

É certo que Karl Marx, contemporâneo de Charles Darwin, não dispunha de toda
a sorte de pesquisas especializadas sobre o tema da evolução do Homo sapiens como
dispomos em nosso século. Entretanto, ainda que cronologicamente distante de Harari,
também é central no pensamento marxiano a relação de intercâmbio orgânico entre o
homem e a natureza. A saber, tal relação que o homem estabelece com a natureza pode
se chamar de trabalho.

Diferentemente do trabalho de uma formiga, o ser humano é dotado de uma


capacidade específica de construir suas ações na consciência antes de construí-las na
natureza – a que se nomeia trabalho teleológico. Esse processo de transformação da
realidade é uma categoria específica e natural do gênero humano e que, se observarmos
os últimos 200 mil anos de nossa espécie, tal atividade cada vez mais se torna complexa.
A respeito disso, Marx diz:

Antes de tudo, o trabalho é um processo de que participam o homem e a


natureza, processo em que o ser humano com sua própria ação, impulsiona,
regula e controla seu intercâmbio material com a natureza. Defronta-se com
a natureza como uma de suas forças. Põe em movimento as forças naturais
de seu corpo, braços e pernas, cabeça e mãos, a fim de apropriar-se dos
recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana. Atuando
assim sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica
sua própria natureza. Desenvolve as potencialidades nela adormecidas e
submete ao seu domínio o jogo das forças naturais. [...] Uma aranha executa
operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto
ao construir sua colmeia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor
abelha é que ele figura na mente sua construção antes de transformá-la em
realidade. No fim do processo do trabalho aparece um resultado que já existia
antes idealmente na imaginação do trabalhador. Ele não transforma apenas
o material sobre o qual opera; ele imprime ao material o projeto que tinha
conscientemente em mira, o qual constitui a lei determinante do seu modo
de operar e ao qual tem de subordinar sua vontade (Marx, 1987, p. 202).

Ainda sobre as diferenças ontológicas entre uma formiga (ser orgânico) e um ser
humano (ser social), também Pannekoek3 contribui para o debate, em ‘’Marxismo e
Darwinismo’’ (obra de 1909):

A principal diferença entre os homens e os animais reside neste ponto. O


animal obtém sua comida e vence seus inimigos com seus próprios órgãos
corporais; o homem faz a mesma coisa com a ajuda de ferramentas artificiais.
Órgão vem do grego organon que também significa ferramentas ou
instrumento. Os órgãos são ferramentas naturais do animal, um crescimento
próprio do animal. As ferramentas são os órgãos artificiais dos homens. Melhor
ainda, o que o órgão é para o animal, a mão e a ferramenta são para o homem.
As mãos e as ferramentas realizam as funções que o animal deve realizar com
seus próprios órgãos. Devido à construção da mão para segurar várias
ferramentas, tornasse um órgão geral adaptado a todos os tipos de trabalho; as
ferramentas são as coisas inanimadas que são apanhadas pela mão cada uma,
por sua vez, e fazem dela um órgão que pode realizar uma variedade de
funções.

Evidentemente, a concepção marxiana do comunista holandês, embora tenha sido


escrita há aproximadamente um século antes, encontra-se em conformidade com aquilo
que foi concluído na obra de Harari: as espécies do gênero Homo (e principalmente o
Homo sapiens) só sobreviveram porque tiveram condições fisiológicas de desenvolver a
complexa capacidade de trabalhar para suprir suas necessidades.

Nesse sentido, a complexificação do trabalho, categoria que funda a humanidade,


expressa-se objetivamente de acordo com o movimento histórico do desenvolvimento dos

3
Antonie Pannekoek foi um astrônomo e teórico marxista que militou no Partido Social-
democrata holandês. (Nasceu em 1873 e faleceu em 1960).
meios de sobrevivência e produção, e as sociedades que se formam a partir disso: das
lanças de sílex aos automóveis, passando pelas religiões primitivas indo até as mais
sofisticadas descobertas da ciência moderna. Tudo isso se realiza por meio da
possibilidade do homem transformar teleologicamente a natureza ao seu redor – e assim
fazendo, transforma também sua subjetividade, eis o movimento da história!

É a partir desse movimento histórico do ser social e o desenvolvimento de suas


forças produtivas que se desvela aos olhos de Marx a sua própria concepção de natureza
humana, que surge necessariamente a partir do trabalho. Vejamos o que ele diz em ‘’A
ideologia alemã’’:

Os indivíduos, sempre e em todas as circunstâncias, ‘’partiram de si mesmos’’,


mas como eles não eram únicos no sentido de não precisar estabelecer relações
uns com os outros, e como suas necessidades – portanto, sua natureza – e o
modo de satisfazer essas necessidades, os conectavam uns aos outros (relação
entre os sexos, troca, divisão do trabalho), então eles tiveram de estabelecer
relações. Ademais, como eles não firmaram relações como puros Eus, mas
como indivíduos num determinado estágio de desenvolvimento de suas forças
produtivas e necessidades, e como essas relações, por seu turno, determinaram
a produção e as necessidades, então foi justamente o comportamento pessoal –
individual – dos indivíduos, seu comportamento uns em relação aos outros
como indivíduos que criou as relações existentes que diariamente volta a criá-
las. (MARX, p.421, negrito meu)

Para compreender o que Marx quer expressar quando fala das necessidades
humanas como natureza humana, é preciso levar em consideração o modo como ele
concebe, em sua obra, o ser. Assim como para Hegel, o ser é movimento porque ele, em
sua natureza, é um campo de contradições. Tais contradições dinamizam o ser, não só em
sua expressão social, mas esse movimento dos contrários permeia toda a realidade.

De tal modo, Marx afirma que o ser social desempenha esse processo de
reproduzir antes na consciência aquilo que posteriormente se pretende transformar na
natureza, para suprir as próprias necessidades (sejam elas orgânicas ou sociais). É, então,
que o ser humano se encontra em constante transformação. E nesse processo, o homem
supre suas necessidades, ora mais complexas (sociais), ora mais simples (orgânicas). Ao
passo que, para suprir tais necessidades, ele necessariamente precisa transformar o mundo
ao seu redor.

Nesse sentido, quando Marx afirma que o conjunto das necessidades humanas é a
própria natureza humana, ele quer dizer (1) que a expressão objetiva da essência humana
está determinada pelo conjunto das necessidades dos indivíduos em seu desenvolvimento
histórico; (2) que as necessidades humanas, compreendidas a partir do materialismo
histórico dialético, estão, portanto, em movimento em função desse desenvolvimento.

Essa mutabilidade que se tem (2), resulta da relação metabólica entre ser humano
e natureza, onde não há superação histórica entre esses opostos, pois o homem é
determinado por suas necessidades, tanto biológicas (orgânicas) quanto sociais, a se
relacionar infinitamente com a natureza. Isto é, a relação ser humano/natureza não é ‘’de
submissão de um termo para com o outro, como se enquanto um agisse e transformasse,
o outro cederia e pereceria: o ser humano e a natureza aparecem como um corpo de mútua
implicação. ’’ (MOTA, 2016, p. 89).

Para Marx, aqui sem a preocupação de produzir uma cisão epistemológica entre
um ‘’Jovem’’ e um ‘’Velho’’ pensador, cita-se um trecho de sua Magnum opus (escrita
já em sua maturidade) que fortalece a perspectiva de que o trabalho é a categoria fundante
do ser social:

O processo de trabalho, que descrevemos em seus elementos simples e


abstratos, é atividade dirigida com o fim de criar valores-de-uso, de apropriar
os elementos naturais às necessidades humanas; é condição necessária do
intercâmbio material entre o homem e a natureza; é condição natural eterna da
vida humana, sem depender, portanto, de qualquer forma dessa vida, sendo
antes comum a todas as suas formas sociais. (MARX, 2011, p. 218)

A atividade metabólica fundante do ser social que permanece, apesar das


permanências e rupturas históricas, é o trabalho. Pois é este a ‘’condição natural eterna
da vida humana’’, uma vez que sem ele, não há ser social.
Nota-se que a transformação do mundo é infinita, pois parte de um processo
metabólico entre ser e natureza que não pressupõe superação de um pelo outro, porque o
“ o homem é uma parte da natureza. ’’ (MARX, 2010, p.84). Por essa razão a essência
humana está em constante movimento, uma vez que as necessidades humanas são a todo
tempo sanadas para que sobreviva o ser, de modo que as sanando o homem recria a
natureza ao seu redor e, portanto, recria em si mesmo novas necessidades.

Observando esse movimento perpétuo de transformações mútuas entre os


humanos e o mundo ao seu redor, Marx observa:

A natureza é o corpo inorgânico do homem, a saber, a natureza enquanto ela


mesma não é corpo humano. O homem vive da natureza significa: a natureza
é o seu corpo, com o qual ele tem de ficar num processo contínuo para não
morrer. Que a vida física e mental do homem está interconectada com a
natureza não tem outro sentido senão que a natureza está interconectada
consigo mesma, pois o homem é uma parte da natureza. (MARX, 2010, p.84)

Necessariamente, ‘’a busca contínua para não morrer’’ implica, historicamente,


na busca contínua por novas necessidades do ser social, cada vez mais complexas e
desenvolvidas. Nesse sentido, ocorre então o movimento da natureza humana de acordo
com as relações de produção que se estabelecem para o ser social alcançar essas
necessidades que surgem da transformação da natureza pelo homem em um processo
inesgotável.

De tal modo, essa mutabilidade presente no movimento da essência humana,


objetivada nas necessidades e relações de produção de determinados momentos históricos
do desenvolvimento das forças produtivas, não ocorre sem uma razão histórica específica.
Sempre há, então, uma relação entre passado-presente e, necessariamente, entre presente-
futuro. Marx afirma sobre essas permanências e rupturas:

A história não é senão a sucessão das diferentes gerações, cada uma das quais
explora os metais, os capitais, as forças produtivas que lhe são transmitidas
pelas gerações precedentes; assim sendo, cada geração, por um lado,
continua o modo de atividade que lhe é transmitido, mas em circunstâncias
radicalmente transformadas, e, por outro lado, ela modifica as antigas
circunstâncias, entregando-se a uma atividade radicalmente diferente.
(MARX, 2007, p.47)

Esse fio condutor entre o primeiro hominídeo que transformou a natureza em uma
relação metabólica de trabalho ao produzir a primeira ferramenta de caça da história
humana; e um operário contemporâneo que pensa suas ações antecipadamente para a
construção de um navio, por exemplo, são ambos herdeiros do movimento perpétuo da
natureza – obviamente, sem entrar aqui no debate sobre trabalho alienado. Sendo o
segundo um continuador histórico daquilo que se inicia com nossos ancestrais, aquele
processo que nos distingue dos animais: o trabalho. Portanto, esse operário representa a
expressão materializada de todas as necessidades humanas de tempos anteriores e,
repousa sobre suas ferramentas de trabalho, um apontamento para o futuro da essência
humana, isto é, suas necessidades históricas, e que está, necessariamente, fadado a se
manter em movimento, gerando, eternamente, novas necessidades e, em função disso,
novas formas de sanar tais carências.

CONCLUSÃO

O que se pode depreender a partir das investigações realizadas e expostas acima é


que se inicia a história do gênero Homo quando nossos ancestrais deixam de ter um
intercâmbio com a natureza típico dos animais orgânicos, ou seja, deixam de estar
(necessariamente) determinados biologicamente a executarem ações mecânicas decididas
somente por um código genético. E passam, então, a realizar um intercâmbio orgânico
com a natureza típico do ser social, a que se nomeia: trabalho. Que nada mais é do que
uma forma específica da humanidade de desempenhar um intercâmbio com a natureza no
qual se constrói primeiro a ação na consciência para depois objetivá-la no mundo.

A partir disso, é concebível a verdade de que o Homo sapiens foi a única espécie
humana que conseguiu se adaptar ao planeta Terra, visto que a Revolução Cognitiva foi
o advento evolutivo exclusivo de nossa espécie e que possibilitou relações mais
complexas entre os indivíduos e, por isso, permitiu também a complexificação do
trabalho.
Então, após as investigações biológicas e históricas, de Harari a Marx, conclui-se
que a categoria trabalho é, definitivamente, a atividade que possibilita a humanidade de
se diferenciar dos seres menos complexos encontrados na natureza – inorgânicos e
orgânicos. E o ser social, segundo Marx:

é imediatamente ser natural. Como ser natural, e como ser natural vivo, está,
por um lado, munido de forças naturais, de forças vitais, é um ser natural
ativo; estas forças existem como possibilidades e capacidades (Anlagen und
Fähigkeiten), como pulsões; por outro, enquanto ser natural, corpóreo,
sensível, objetivo, ele é um ser que sofre, dependente e limitado, assim como
o animal e a planta, isto é, os objetos de suas pulsões existem fora dele, como
objetos independentes dele. Mas esses objetos são objetos de seu
carecimento (Bedürfnis), objetos essenciais, indispensáveis para a atuação e
confirmação de suas forças essenciais. Que o homem é um ser corpóreo,
dotado de forças naturais, vivo, efetivo, objetivo, sensível significa que ele
tem objetos efetivos, sensíveis como objeto de seu ser, de sua manifestação
de vida (Lebensäusserung), ou que ele pode somente manifestar (äussern)
em objetos sensíveis efetivos (wirkliche sinnliche Gegenstände) (MARX, 2004,
p.127)

A partir da compreensão do trabalho é que se pode, então, compreender a essência


do homem que é um ‘’ser natural, e como ser natural vivo, está, por um lado, munido de
forças naturais, de forças vitais, é um ser natural ativo; estas forças existem nele como
possibilidades e capacidades, como pulsões’’ e que necessita de um objeto que lhe é
externo para materializar todas essas ‘’possibilidades e capacidades’’, a saber, esses
objetos externos se encontram na natureza.

É, de fato, necessário afirmar que Marx rompeu com alguma definição a-histórica
de natureza humana, por exemplo as concepções de Hobbes e Rousseau, nos quais,
respectivamente, o homem seria, a priori, um ser mau ou bom. Entretanto, superar alguma
concepção não significa, logicamente, que se tenha rompido com toda a concepção de
essência humana. Nesse caso, o que restaria do materialismo em sua obra? É o que afirma
Norman Geras:
Marx – like everyone else – did reject certain ideas of human
nature; but he also regarded some as being true. It is important to
discriminate the sort that he rejected from the sort that he did not.
(GERAS, 1984, p. 14)

É bem verdade que Marx não rompe com a ideia de que há uma essência humana.
Resumidamente, a essência humana em Marx, é o conjunto das necessidades humanas
em eterna transformação histórica. Isso porque o ser social, por meio do trabalho, realiza
o suprimento histórico dessas carências humanas. E ao supri-las, esse ser transforma,
necessariamente, a natureza objetiva do mundo, ao passo que para executar essa eterna
transformação, inevitavelmente, gera novas necessidades históricas que transformam a
ele próprio.

Por fim, cabe citar aquilo que Marx escreveu, ainda muito jovem acerca da
essência humana: ‘’ a natureza humana é constituída de modo que ele [o ser humano]
apenas pode alcançar sua própria perfeição apenas trabalhando em prol da perfeição, do
bem, de seus iguais. ’’ (MARX, p. 4). E os homens e a história, nessa eterna
transformação mútua, franquearão as belas alamedas para a construção de uma sociedade
na qual o ‘’livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento
de todos’’. (MARX, 2010, p. 59)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

GERAS, Norman. Marx and Human Nature: Refutation of a Legend. London: Verso
Books, 1983.
HARARI, Yuval Noah. Sapiens: Uma Breve História da Humanidade. São Paulo:
L&PM Editores, 2015.
LUKÁCS, G. Para uma ontologia do ser social v. II. São Paulo: Boitempo, 2013.
MARX, K. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2006.
_____. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2010.
_____. Manuscritos Econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2010.
_____. O capital: Crítica da Economia Política. Livro I: o processo de produção do
capital. São Paulo: Boitempo, 2013.
MOTA, Paulo Henrique Pereira. A noção de essência humana no jovem Marx. Revista
Filogênese, São Paulo, Volume 9, 16, p.88-103, 2016.
PANEKOEK, Antoine. Marxismo e Darwinismo, 1909. Disponível em:
http://www.afoiceeomartelo.com.br/posfsa/Autores/Pannekoek,%20Anton/Darwinismo
%20e%20Marxismo.pdf. Acesso em: 01/07/2018.