Vous êtes sur la page 1sur 13

Trends in Psychology / Temas em Psicologia DOI: 10.9788/TP2018.

2-02Pt
ISSN 2358-1883 (edição online)

Artigo

Para (Re)Colocar um Problema:


A Militância em Questão

André Luis Leite de Figueirêdo Sales1, *


Orcid.org/0000-0001-8607-7532
Flávio Fernandes Fontes2
Orcid.org/0000-0003-2036-8147
Silvio Yasui1
Orcid.org/0000-0001-5015-6634
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
1
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Assis, SP, Brasil
2
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Santa Cruz, RN, Brasil

Resumo
Mesmo usado com frequência em literatura científica e no cotidiano de partidos e movimentos sociais,
são escassas as definições do termo militância. Nosso objetivo é reconduzir a ideia de militância à
condição de problema. Através de uma revisão de literatura nacional, mostramos que o vocábulo é
empregado ora como adjetivo, ora como substantivo. Propomos definir militância como metodologia para
produzir ações coletivas a fim de intervir, ou interferir, nas normas sociais vigentes. Essa metodologia
privilegia como estruturas organizativas os partidos, os diretórios, as centrais sindicais e afins. O modo
de funcionamento destas é marcado pela disciplina e visa produzir docilidade, comprometimento e
obediência. Apresentamos em seguida como os Novos Movimentos Sociais (NMS) produziram
alternativas táticas e organizativas à militância. Prezando por relações horizontalizadas; operando em
redes descentralizadas e autônomas; reconhecendo a pluralidade dos interesses de seus atores, os NMS
têm ocupado ruas e reinventado os repertórios de ação e de protesto. O termo “ativismo” é sugerido
para designar essa outra metodologia. Ao diferenciar ativismo e militância objetivamos recolocar os
problemas ligados ao campo da participação social, da contestação e dos protestos.
Palavras-chave: Ativismo, militância, subjetividade, movimentos sociais.

(Re)Framing a Problem: Militancy in Question

Abstract
Even though “militancy” is frequently used in scientific literature and in the daily life of parties and
social movements, there are few definitions of the term. Our goal is to convert the idea of militancy
into a research problem. A Brazilian scientific literature review shows that the term is used either as an

–––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
* Endereço para correspondência: Av. Dom Antonio, 2100, Parque Universitário, Assis, São Paulo, CEP 19806-
900. Fone: (18) 3302-5800. E-mail: andreluislfs@gmail.com, flaviofontes61@gmail.com e silvioyasui@
gmail.com.
Este trabalho foi financiado em 2016 do através do processo 2015/26241-0 pela Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Agradecemos o apoio da instituição

Trends Psychol., Ribeirão Preto, vol. 26, nº 2, p. 565-577 - Junho/2018


566 Sales, A. L. L. F., Fontes, F. F., Yasui, S.

adjective, either as a noun. We conceptualize militancy as a methodology to produce collective action


aiming to intervene, or to interfere, in current social norms. This methodology focuses on organizations
such as parties and unions, characterized by strict discipline that aims to produce docility, commitment,
and obeisance. Then, we show how New Social Movements (NSM) have created unconventional tactics
and organizations, offering an alternative to the militant methodology. Organizing teams using horizontal
arrangements, operating with decentralized and autonomous networks, recognizing the diversity of its
participants, NSM are occupying the streets and reinventing the repertoires of collective action and
protest. We suggest the use of the word “activism” to describe this methodology. By distinguishing
militancy from activism we wish to re(frame) some problems in the Brazilian scene of political
engagement and protest.
Keywords: Activism, militancy, subjectivity, social movements.

Para (Re)Colocar un Problema: La Militancia en Cuestión

Resumen
“Militancia” se utiliza con frecuencia en la literatura científica y en la vida diaria de los partidos y
movimientos sociales, pero definiciones del término son escasas. Nuestro objetivo es llevar la idea de
militancia a la condición de problema. Una revisión de la literatura brasileña muestra que el término se
usa ocasionalmente como un adjetivo o como un sustantivo. Proponemos definir militancia como una
metodología para producir acciones colectivas a fin de intervenir, o interferir, en las normas sociales
vigentes. Esta metodología se centra en organizaciones como partidos y sindicatos. El funcionamiento
de éstas está marcado por la disciplina y tiene como objetivo producir la docilidad, el compromiso y
la obediencia. Entonces presentamos cómo los Nuevos Movimientos Sociales (NMS) han producido
diferentes tácticas y organizaciones, constituyendo una alternativa a la militancia. Valorizando relaciones
más horizontales; operando redes descentralizadas y autónomas; reconociendo la diversidad de los
intereses de los participantes, los NMS han ocupado las calles y reinventado los repertorios de acción
y manifestación. Se sugiere el término “activismo” para describir esta otra metodología. Al diferenciar
activismo y militancia deseamos recolocar los problemas relacionados al campo de la participación
social y manifestaciones.
Palabras clave: Activismo, militância, subjetividade, movimientos sociales.

Em 04 de março de 2016, após avaliar a ria gera tumulto, conflitos e desordem nos cen-
condução coercitiva do ex-presidente da repú- tros urbanos. Tal fato, ocorrido em um momento
blica Luiz Inácio Lula da Silva, a fim de prestar em que estudamos as metodologias para produ-
depoimento à polícia federal como um “seques- zir ações coletivas a fim de intervir nas normas
tro” e uma afronta à democracia, o presidente sociais vigentes, tornou ainda mais pungente a
em exercício do Partido dos Trabalhadores (PT), necessidade de tentar responder a uma questão:
Ruy Falcão, em vídeo divulgado no Youtube, afinal, do que falamos quando usamos a palavra
convoca os militantes e a militância do PT a militância?
montarem vigília nos diretórios estaduais, en- Silva (2004) adverte quanto aos riscos
quanto esperam a orientação da direção nacio- oriundos da naturalização de algumas ideias,
nal. Ruy Falcão ressalta que os militantes e a como a de social na Psicologia Social:
militância da Central Única dos Trabalhadores É preciso em primeiro lugar deixar de to-
(CUT) iria seguir a mesma orientação. A reação mar o social como uma evidência e passar
ao discurso foi intensa, e fez circular na impren- a constituí-lo como um problema, isto é, ...
sa nacional a ideia de que essa convocação pode- passar a constituí-lo como uma multiplici-

Trends Psychol., Ribeirão Preto, vol. 26, nº 2, p. 565-577 - Junho/2018


Para (Re)Colocar um Problema: A Militância em Questão. 567

dade necessariamente construída a partir de dos estudos que explicitem os modos de enga-
uma relação de forças num campo historica- jamento dos indivíduos em carreiras militantes;
mente dado. (Silva, 2004, p. 13) (b) à continuidade e ampliação das investigações
Transpondo as ponderações da autora para acerca das diferentes retribuições para os sujei-
o campo da militância, é nosso objetivo neste tos oriundos do engajamento militante; (c) à pro-
artigo reconduzir a ideia de militância à condi- posição de um exame atento da relação entre as
ção de problema. Estranhar obviedades, produzir transformações macrossociais e a composição e
dúvida, descontentar-se com certezas, eis a tá- organização da militância. Ao caracterizar o en-
tica argumentativa aqui empregada. Afinal, “há gajamento militante como “toda forma de parti-
momentos na vida em que a questão de saber se cipação coletiva que vise à defesa ou à promo-
é possível pensar de forma diferente da que se ção de uma causa” (Sawicki & Simeant, 2011, p.
pensa e perceber de forma diferente da que se vê 201), os autores empregam militância como uma
é indispensável para continuar a ver, ou refletir” espécie de “adjetivo”, que qualifica uma forma
(Foucault, 1977, p. 19). específica de engajamento de sujeitos em causas.
Para reconduzir a ideia de militância à con- Além disso, esse uso também indica a relação
dição de problema fizemos o seguinte trajeto: do termo com a participação em movimentos em
(a) revisão da literatura investigando os usos da defesa de causas e formação de associações e
noção de militância, que nos leva a propor uma agrupamentos de pessoas em defesa de interes-
definição e uma caracterização da mesma nas ses coletivos.
seções “Procurando Palavras” e “Militância: uns O dossiê “Educação e política: novas con-
quês, uns quais e alguns poréns”; (b) uma pro- figurações nas práticas de militância” publicado
blematização do uso naturalizado da noção de pela Revista Pro-Posições (vol. 20, n. 2, 2009)
militância à luz da sua comparação com aquilo aborda o assunto multidisciplinarmente, ressal-
que seria um exemplo de outra metodologia para tando aspectos antropológicos, sociológicos e
produzir ação coletiva executada pelos ditos no- políticos do assunto. A apresentação da obra a
vos movimentos sociais no Brasil, a saber, o ati- caracteriza como “referência fundamental para
vismo. Esta segunda parte é levada a cabo nas os pesquisadores que se dedicam ao tema do
seções “O Olhar Atento à Repetição Faz Nascer engajamento militante, bem como contribuição
a Diferença” e “Ativar e Ocupar”. Ao final, es- para um debate, cada vez mais necessário, sobre
peramos ter lançado operadores teóricos que ini- os referenciais teórico-metodológicos dos es-
ciam um debate para melhor compreender fenô- tudos sobre o fenômeno político” (Engelmann,
menos de ação coletiva, tais como os repertórios 2009, p. 19). Já a coletânea de artigos sobre o
empregados, as táticas de contestação e as for- tema publicada pelos Cadernos CERU (vol. 20,
mas de protesto. Recolocar o problema é o passo n. 1, 2009), apresentada por Lucena, Tomizaki e
inicial para perscrutar a forma como diferentes Campos (2009), tem sua pertinência justificada
repertórios de ação e organização empregados, pela diversificação, ampliação e complexifica-
diferentes táticas, podem ser relacionadas a dis- ção dos espaços de participação política e ainda
tintos modos de produção de subjetividades. pela urgência de se forjarem ferramentas teóri-
cas e analíticas mais adequadas para circunscri-
Procurando Palavras ção das experiências militantes.
Empregando a palavra-chave “militância”,
A busca por bibliografias que auxiliassem realizamos, em março de 2016, uma revisão da
a entender o que seria militância conduziu a literatura na base de dados do SciELO e loca-
atenção para a sociologia do engajamento mi- lizamos 102 artigos. Uma leitura dos resumos
litante. O trabalho de revisão de Sawicki e Si- buscando sintetizar uma definição que permitis-
meant (2011) aponta que os desafios atuais de se entender os usos do termo, indicou o emprego
compreensão deste campo estão ligados: (a) ao do vocábulo ora com o sentido de adjetivo, usa-
aprimoramento e diversificação metodológica do para caracterizar a forma como os indivíduos

Trends Psychol., Ribeirão Preto, vol. 26, nº 2, p. 565-577 - Junho/2018


568 Sales, A. L. L. F., Fontes, F. F., Yasui, S.

se engajam e “lutam” por certas causas, ora com das do núcleo familiar. É interessante observar a
o sentido de substantivo, que definiria um sujei- ressalva da autora ao apresentar esses resultados:
to, ou um coletivo, engajado em uma causa para “Isso não significa dizer que com essa militância
defendê-la. O termo aparece com maior frequên- estamos querendo reforçar uma ideia, muito re-
cia na literatura que discute movimentos sociais, corrente entre muitos militantes e até ex-militan-
partidos políticos e ação coletiva e o emprego do tes, de que o envolvimento e a participação em
mesmo é realizado de forma semelhante ao feito diversas formas de organização popular geram
pelo presidente do Partido dos Trabalhadores. sofrimento e dor” (Baltazar, 2004, p. 188).
Na convocação de Ruy Falcão, os diretórios, Melo (2010), abordando discursos cine-
as centrais sindicais e outros dispositivos são ad- matográficos sobre a ditadura militar no Brasil,
jetivados como militantes, ao mesmo tempo em destaca que a representação do militante é fei-
que é informado que estes mesmos dispositivos ta pela exaltação de sua capacidade de resistir.
devem convocar as suas militâncias. Tais usos “As cenas reais e construídas trazem militares
sugerem uma naturalização da ideia, tratando-a com tanques de guerra e militantes a pé, num
como algo auto evidente, que dispensaria maio- confronto que simboliza a luta do mais fraco,
res definições ou conceituações. de mãos dadas e bocas lacradas com adesivos
Quando evocamos a imagem de um militan- para indicar o silenciamento provocado pela re-
te, quem facilmente nos vem ao pensamento pressão” (Melo, 2010, p. 77). Alves (2012), em
é alguém de fala firme e disposto ao sacrifí- trabalho semelhante, sublinha, entre os sentidos
cio por uma causa . . . Vemos que, frequen- atribuídos à militância nas obras por ela estuda-
temente, é posto em cena um militante/már- das, a capacidade de resistir exercida pelos mi-
tir disposto até mesmo a morrer em nome de litantes e os efeitos das posições defendidas por
seus ideais. (Oliveira et al., 2009, p. 1807) estes sobre seus amigos e familiares. Sublinhar
Como observou Canguilhem (2014): “as- a forma como são apresentadas as representa-
sim que procuramos aquilo que faria da vida um ções discursivas sobre militância na cultura,
meio, procurando uma razão de viver, encontra- pontuando como vão constituindo o imaginário
mos também razões para perder a vida”1 (p. 88). acerca do tema em foco, cumpre aqui a função
Disso é possível deduzir a suposição comum de de ajudar a sustentar a hipótese de que uma
que a militância produziria um modo específico posição militante aumentaria o vigor e a capa-
de investimento dos indivíduos nas atividades, cidade de sustentar a resistência de um indiví-
marcado por força e vigor, e também pela posi- duo. Tendo em vista a investigação dos modos
ção de disponibilidade e sacrifício de suas neces- de uso do termo colhidos até aqui, propomos
sidades pessoais em nome da defesa de um ideá- definir militância como uma metodologia para
rio. Parte dos resultados alcançados por Baltazar produzir ações coletivas a fim de intervir, ou in-
(2004) em estudo exploratório sobre a percepção terferir, nas normas sociais vigentes. No Brasil,
dos efeitos decorrentes do engajamento militante tal metodologia tem sido usada como estratégia
para os aspectos pessoais da vida cotidiana de preferencial para produzir, conduzir e acompa-
militantes reforça essa suposição. nhar muitas formas de ação coletiva. Captado
São indicadas como consequências da mili- do campo dos estudos sobre as técnicas de guer-
tância: a falta de tempo para atividades pessoais, ra, estratégia remete
prejuízos à vida profissional, interferências na à forma de organizar, planejar, e orientar
continuidade da educação formal e o desafio de os diversos combates (campanhas e opera-
conciliar as atividades militantes com as deman- ções), tendo em conta, uma visão conjunta
de todas as forças com as quais se conta,
assim como das forças inimigas, para atin-
1
Dès que l’on cherche ce dont la vie devrait être gir um objetivo fixado: ganhar a guerra con-
le moyen en cherchant une raison de vivre, on
trouve aussi des raisons de perdre la vie. tra determinados adversários. (Harnecker,

Trends Psychol., Ribeirão Preto, vol. 26, nº 2, p. 565-577 - Junho/2018


Para (Re)Colocar um Problema: A Militância em Questão. 569

2012, p. 63) nas pautas defendidas pelo movimento.


Militância: Uns Quês, Uns Quais Em texto sobre o papel dos integrantes do
e Alguns Poréns partido comunista na condução da revolução,
Ernesto Che Guevara (2010) explicita essas
Valverde (1986) abre seus estudos sobre ideias ao afirmar que o militante seria
militância afirmando que um orientador que plasma em diretivas con-
militar é a organização do movimento se- cretas os desejos por vezes obscuros das
gundo a lógica da guerra: militar é a opo- massas; um trabalhador incansável que tudo
sição de espaço e tempo em uma relação entrega a seu povo, um trabalhador sofri-
operacional, a determinação de um lugar e do que entrega suas horas de descanso, sua
de um momento de uma determinada ação tranquilidade pessoal, sua família ou sua
bélica. Militar, portanto, é ainda, a própria vida à revolução. (Guevara, 2010, p. 129)
ação que se desenrola sobre a topologia e a Soldados do partido, cuja missão é cons-
cronometria dos campos de batalha. (p. 60) cientizar o povo sobre a necessidade da revolu-
Militância e Poder (Valverde, 1986), traba- ção. Combatentes dedicados em tempo integral
lho cujo objetivo inicial era realizar uma análi- à causa revolucionária. Esses militantes mártires
se historiográfica das condições de declínio das carregariam o conjunto de atributos necessários
tendências anarcossindicalistas e a ascensão das para o cumprimento da árdua tarefa a que se
lideranças comunistas sobre o proletariado bra- propõem – afrontar o presente e fazer chegar o
sileiro, acaba derivando para uma genealogia futuro.
da militância, cujo mérito encontra-se em loca- Mapeando as distintas figuras da subjetivi-
lizar, apontar e analisar “os mecanismos pelos dade, Rolnik (2014) não esconde o espanto ao se
quais se constitui o corpo militante, submetido deparar com o militante:
aos dispositivos de poder e saber engendrados A primeira coisa que chama a atenção do
pela militância” (p. 182). A investigação apon- cartógrafo é a visão épico-dramática que os
ta, em textos dos Congressos da Internacional revolucionários têm da história: dizem obe-
Comunista, em obras de Marx e Lênin e, ainda, decer ao programa da linha de destino a que
em publicações dos movimentos sindicalistas todos os povos serão, um dia, necessaria-
brasileiros, o modo como a produção do enga- mente submetidos. Essa linha, explicam, é
jamento militante foi construído a partir de um totalmente previsível: basta “conscientizar-
regime de exercício de poder disciplinar, centra- -se” e “assumí-la”. O cartógrafo nota que a
lizado e totalitário, que tem no partido seu prin- linha que imaginam é a do seu partido, linha
cipal dispositivo2 de subjetivação; no engaja- que, segundo eles, os levaria fatalmente, de
mento militante, uma das táticas para produção modo revisionista ou radical (ou seja, com
de corpos dóceis; e na subjetividade obediente, ou sem escalas), à terra prometida da socie-
reativa, comprometida e ressentida, a garantia dade revolucionária. Por isso é que a defen-
de continuidade do engajamento dos militantes dem com unhas e dentes. Por isso - ele com-
preende - é que o discurso e as atitudes de
alguns beiram o fanatismo. (Rolnik, 2014,
2
Dispositivo está sendo utilizado no sentido de p. 128)
nomear “a) um conjunto heterogêneo, linguístico A cartógrafa elenca dois mitos fundadores
e não-linguístico, que inclui virtualmente qualquer
da subjetivação militante: a identidade cultural
coisa no mesmo título: discursos, instituições,
edifícios, leis, medidas de polícia, proposições nacional popular e a revolução. Do primeiro
filosóficas etc. O dispositivo é em si mesmo, a emanaria: (a) a afirmação do território existen-
rede que se estabelece entre esses elementos” cial identitário e cristalizado, localizado ideal-
(Agamben, 2014, p. 25). Sendo assim, terá sempre mente em um passado glorioso onde o inimigo
função estratégica num conjunto de relações de
saber e poder. ainda não existia; (b) o entendimento da dimen-

Trends Psychol., Ribeirão Preto, vol. 26, nº 2, p. 565-577 - Junho/2018


570 Sales, A. L. L. F., Fontes, F. F., Yasui, S.

são dos desejos e necessidades individuais ex- ficarem questionando continuamente o ideário
clusivamente como captura do modelo de vida que norteia suas ações; eles devem é seguir,
burguês; (c) a tendência a organizar seus discur- junto com seus pares, as ações e os preceitos
sos e atividades pela afronta e desconstrução do já desenhados por alguns poucos” (p. 273). A
tempo presente – macropoliticamente dominado consequência desse modelo organizativo é que
pelo inimigo. Do segundo, emanaria parte da o militante se produz: (a) subjetivado a partir
força que os faz suportar a dura realidade con- de uma perspectiva hierárquica disciplinar; (b)
creta na qual travam suas batalhas, já que é a consciente da necessidade de martírio pessoal
defesa irrestrita deste futuro revolucionário que como condição para ascese a um mundo ideal
tornaria habitável o tempo presente. “O que os pós-revolucionário; (c) libidinalmente ligado a
alimenta, em sua cultura militante, desse ponto seus pares por uma necessidade de reconheci-
de vista, é imaginar-se de peitos ensanguentados mento; (d) orientado a posicionar-se dentro de
nas trincheiras embandeiradas da luta revolucio- uma topologia de guerra. Lutando em prol de uma
nária, conseguindo dar fim a essa realidade que causa, “o militante é, em realidade, um soldado
consideram maldita” (Rolnik, 2014, p. 133). a serviço de sua lei; e será tanto melhor solda-
Macedo e Silva (2009) apontam o militan- do quanto mais sua obediência decorrer de sua
te comunista como sendo o modelo de militante opção interior, de sua consciência e não de me-
político do século 20. “Fé, hierarquia e discipli- canismos reguladores” (Valverde, 1986, p. 92).
na constituem a tríade explicativa deste militante Atentos à ressalva de Silva (2004) sobre os
total, engajado de maneira organizada e devota riscos decorrentes da naturalização de algumas
na transformação da sociedade” (Macedo & Sil- ideias, observando a forma como o termo foi
va, 2009, p. 379). Impossível entrar em contato empregado na literatura estudada e levando em
com esse tripé de sustentação e não perceber nele conta todas as considerações feitas até aqui, tor-
ressonâncias das discussões de Freud em Psico- nam-se relevantes as seguintes questões: a me-
logia de Grupo e Análise do Ego (1921/2006). todologia militante ainda perdura em nós como
Nesta obra, o autor apontou que a sustentação forma de produzir coletivos de sujeitos capazes
da grupalidade de instituições como o exército de sustentar mudanças? Se admitirmos que “a
e a igreja estão alicerçadas na ilusão de que, no modernidade foi construída em torno do ideário
momento de ingresso nesses grupos, o indiví- da revolução, que materializava, como metáfora,
duo passar a ser amado por um líder superior, a crença transformadora do sujeito coletivo [mas
integrando-se a uma massa de indivíduos que ele que] a atualidade pós-moderna lançou uma pá
ama incondicionalmente e pelos quais é amado. de cal em tal pretensão” (Birman, 2007, p. 82),
É por essa via que Freud explica a coesão e falta ainda identificamos a militância como metodo-
de liberdade individual de um sujeito integrado logia preferencial para produzir ações coletivas
em grupos. Mezan (2006), ponderando sobre os a fim de intervir nas normas sociais vigentes? É
efeitos de um grupo fundado com tais caracte- possível produzir “movimentos de mudança e
rísticas, reforça a hipótese de que a militância ruptura” fora “dos temas, conceitos, métodos e
imprimiria força e vigor aos militantes. O autor instituições derivadas da ciência marxista” (Val-
é preciso ao afirmar que “enquanto perdura a verde, 1986, p. 182)?
massa, a agressividade é inibida no interior des- As indagações trazidas tiveram o intuito de
sa, sendo desviada para os que não pertencem a fazer uma provocação e, em certa medida, re-
ela (os inimigos militares, ou crentes em outras forçar a necessidade de desnaturalização do uso
religiões)” (Mezan, 2006, p. 154). corrente de um termo que comparece com frequ-
Veiga-Neto (2012) fornece outros elemen- ência aos discursos daqueles que trabalham para
tos elucidativos sobre os efeitos decorrentes do interferir nas normas sociais vigentes. O uso
uso do tripé (fé, hierarquia e disciplina) como tautológico da expressão militância na biblio-
forma de organização. “Não cabe aos militantes grafia consultada – aquele no qual a militância

Trends Psychol., Ribeirão Preto, vol. 26, nº 2, p. 565-577 - Junho/2018


Para (Re)Colocar um Problema: A Militância em Questão. 571

confunde-se com o ato de militar – já justificaria O Olhar Atento à Repetição


a necessidade de lançar a militância à condição faz Nascer a Diferença
de problema. O imperativo de reposicionamen-
tos e reajustes táticos frente às condições sócio Baltazar (2004), na pesquisa intitulada “Os
históricas atuais adensa o quadro que motiva a encontros e desencontros da militância e da vida
realização de uma pesquisa que se ocupe de in- cotidiana” aponta a existência de contradições
vestigar as metodologias para produzir ações co- entre os posicionamentos discursivos dos mili-
letivas a fim de intervir, ou interferir, nas normas tantes e algumas práticas da sua vida privada. Em
sociais vigentes. Que modelo de sociedade será uma nota de rodapé muito adequada às ponde-
preciso criar agora que o comunismo, a social rações apresentadas aqui, a autora informa que,
democracia e o nacional populismo estão desa- no curso do trabalho, ela teve acesso, em espa-
creditados como alternativas às problemáticas ços informais da pesquisa, a reclamações sobre
experimentadas nas democracias representativas “maridos militantes”, “namorados militantes” e
do mundo ocidental (Mouterde, 2003)? Fé, hie- “pais militantes” cuja postura na vida domésti-
rarquia e disciplina mantêm-se como tripé ade- ca é incompatível com seus discursos militantes.
quado para produzir adesão? Quão produtivas Trazendo este extratexto para o plano das ques-
têm sido as táticas da militância e dos militantes tões conclusivas da pesquisa, a autora indica o
para orientar formas de atuação social e coletiva desafio de “expressar nessa prática [militância]
na direção de “mudar a ordem social existente, não só o aspecto racional da necessidade de su-
ou parte dela, e influenciar (...) decisões insti- peração das mais diversas formas de exploração
tucionais de governos e organismos referentes e injustiça, mas expressar também o componente
à definição de políticas públicas” (Machado, afetivo e emocional, sentindo a necessidade de
2007, p. 253)? mudanças e interiorizando essa prática” (Balta-
zar, 2004, p. 189).
Os materiais estudados indicam o campo
Vasconcelos e Paulon (2014), analisando
do engajamento militante como marcado por
alguns pontos nevrálgicos na forma de atuação
disputas de modelos e posições polarizadas, ten-
militante em prol da reforma psiquiátrica bra-
sões estruturais, antagonismos irreconciliáveis e
sileira, ponderam sobre os efeitos do exercício
paradoxos insolúveis, que costumam demandar
de um modo de militância eminentemente iden-
dos sujeitos que neles adentram uma tomada de
titária, que opera em uma lógica reativa e res-
posição (Silva, 2003). Atentos a isso, marcamos
sentida, em termos nietzschianos (Kehl, 2004).
que as ponderações feitas não visam destituir de
Afinal, “o parâmetro é sempre um outro com que
mérito as inúmeras iniciativas desenvolvidas por
se luta contra, ao invés de se lutar por afirmar
militantes das mais diversas causas. O tom críti-
a vida” (Vasconcelos & Paulon, 2014, p. 231).
co e contundente adotado é mantido para expor
Alinhadas a essa lógica, o repertório de ação da
– ali mesmo onde se alega haver inovação, pro-
militância privilegia, enquanto tática, a desqua-
gresso e transformação – a atualização de meca- lificação das posições contrárias e a oposição ra-
nismos de disciplinamento dos corpos e controle dical entre movimentos que militam por causas
das populações que se engajam em ações coleti- distintas, dificultando a construção de interfaces
vas para intervir nas normas sociais vigentes. O e a visualização da dimensão comum das reivin-
olhar atento visa interrogar o presente a fim de dicações que estão sendo feitas.
mapear os caminhos de produção de diferenças Mesquita (2003), em estudo dedicado a
que nele já se expressam. Afinal, ainda parece investigar as práticas militantes do movimento
válida a questão de Foucault (1977) expressa na estudantil universitário brasileiro a partir da in-
introdução americana de a Anti-Édipo: “como fluência dos novos movimentos sociais (NMS),
fazer para não vir a ser fascista mesmo quando aponta a existência de duras críticas à forma de
(sobretudo quando) se crê um militante revolu- organização centralizada, hierarquizada e buro-
cionário?” (p. 3). cratizada de ação da militância estudantil. Ainda,

Trends Psychol., Ribeirão Preto, vol. 26, nº 2, p. 565-577 - Junho/2018


572 Sales, A. L. L. F., Fontes, F. F., Yasui, S.

destaca a presença de um questionamento forte mente diversa, cujo foco de atuação não estaria
da ação político-partidária sobre essa militância. alicerçado, necessariamente, na noção de classe
Ao aparelharem entidades como a União Nacio- social e estrutura social, mas, sim, na considera-
nal dos Estudantes, os diversos partidos acabam ção de questões como cultura, identidades, gêne-
reduzindo as assembleias e fóruns dos estudantes ro, raça, etnia, entre outros. A autora esclarece
a espaços para continuidade da articulação das que “embora não vise à conquista do poder, os
pautas partidárias. O aparelhamento produziria, movimentos geram demandas a serem atendidas
ainda, um estilo de intervenção centrado no con- pelo Estado, propiciando, assim, a instalação de
vencimento e conscientização, deixando pouco um processo de democratização da sociedade”
ou nenhum espaço para a construção comparti- (Saraiva, 2010, p. 9). Machado (2007) aponta
lhada de agendas de trabalho e entendimento das como novidade a perspectiva pela qual os mo-
necessidades dos próprios estudantes. Por fim, a vimentos entram em relação com o Estado – a
investigação deu visibilidade ao “surgimento de relação que outrora se constituiu pela via da opo-
uma nova sociabilidade militante no movimento sição, passa a ser articulada em termos de coope-
estudantil, contrapondo-se às práticas mais tradi- ração. Segundo ele,
cionais da militância dos estudantes, reprodutora as iniciativas da sociedade civil incorpo-
de um comportamento político institucionaliza- radas na ação dos movimentos sociais . .
do e (re)produzida nos espaços de apoio do mo- . em vez de serem vistas como subversi-
vimento estudantil como os partidos, sindicatos vas, revolucionárias ou marginais, passa-
etc.” (Mesquita, 2003, p. 135). ram a ser entendidas como manifestações
Pautada em relações mais horizontalizadas, próprias, típicas e até mesmo sadias de um
valorizando a dimensão mais subjetiva do enga- ambiente político e social plural. (Macha-
jamento, com formas de organização descentrali- do, 2007, p. 255)
zadas e relativamente autônomas, investindo em Há pouco consenso sobre o que haveria efe-
estratégias pedagógicas vivenciais e não restritas tivamente de novo no campo dos movimentos
às práticas argumentativas de convencimento ra- sociais. Partiremos da opinião de Gohn (2006),
cional, essa “nova sociabilidade militante” tem quando diz que a novidade consiste na politiza-
se fortalecido no embate com os modos tradi- ção de novos temas e em uma nova forma de se
cionais e, assim, vem ganhando espaço dentro fazer política. Poderia essa nova forma de fazer
do movimento estudantil. A incorporação de tais política trazer consigo uma mudança na meto-
características da “nova lógica de militância” dologia a ser usada para interferir nas normas
tem se mostrado uma alternativa ao esvaziamen- sociais vigentes? Estariam eles produzindo uma
to dos espaços de participação estudantil, uma “nova lógica de militância, uma nova sociabili-
vez que produz, reconhece e põe em funciona- dade militante” (Mesquita, 2003, p. 136)? Diante
mento outros dispositivos de participação além de tais mudanças, seria o termo militância ainda
dos diretórios, comitês e centros acadêmicos. adequado? Nesta seara, pode ser útil convocar
São signos destas novas linguagens as Exe- para a discussão as palavras precisas com que
cutivas de Curso (que apesar de algum tem- Foucault (2015) se posiciona em relação a uma
po de existência somente se fortaleceram e polêmica gerada a partir de algumas afirmações
ganharam maior visibilidade na última dé- suas sobre a questão da homossexualidade:
cada), os coletivos de cultura, grupos de es- um combate não pode se perpetuar sempre
tudantes negros, grupos de extensão univer- nos mesmos termos, caso contrário ele se
sitária realizados pelos estudantes, coletivo esteriliza, se imobiliza, sucumbe a armadi-
de mulheres universitárias etc. (Mesquita, lhas. Logo, uma mudança de frente de ba-
2003, p. 135) talha. E, consequentemente, uma mudança
Saraiva (2010) caracteriza os novos movi- de vocabulário. A mudança de objetivos é
mentos sociais (NMS) como um conjunto diver- também absolutamente indispensável. (pp.
so de movimentos, dotados de natureza igual- 6-7)

Trends Psychol., Ribeirão Preto, vol. 26, nº 2, p. 565-577 - Junho/2018


Para (Re)Colocar um Problema: A Militância em Questão. 573

Veiga-Neto (2012), apresenta “ativismo” organização sindical e partidário, do qual a no-


como termo alternativo à militância. “Ativismo, ção de militância é correlata, por criticar nele
ativar, atitude, ação, agitar, atuar e agir fazem um excesso de centralização das informações
parte de um mesmo campo semântico que nos e decisões, assimetria nas relações de poder e
remete à forma latina agěre: ag (adiante, para pouco espaço para participação dos membros
frente) + gerěre (produzir, carregar, proceder) na construção das ações a serem desenvolvidas.
= impelir para frente, fazer avançar” (p. 273). Veiga-Neto (2012) elenca distinções que auxi-
Seria o ativismo um termo mais adequado no liam a compreensão.
cenário atual para tratar da adesão dos sujeitos a militância – como uma actio militaris –
em movimentos de contestação da ordem social e o ativismo são, ambos, da ordem do agir
vigente? Ativismo seria um vocábulo mais pre- para frente, da ação para uma mudança de
ciso para designar os repertórios de ação coletiva posição, da ação para uma outra situação di-
e as táticas utilizadas por parte dos atores dentro ferente da que se tem. Mas enquanto aquela
dos novos movimentos sociais no Brasil? se rege pela lógica da obediência hierárqui-
ca, este se funda na maior liberdade possível
Ativar e Ocupar e permitida pela combinação entre a díade
pensável-dizível e o visível. (p. 273)
Ainda que, no contexto brasileiro, as ex- Saraiva (2014) esclarece que há no interior
pressões ativista/militante sejam usadas como da organização prática e discursiva do MPL uma
sinônimos, é fundamental destacar que elas tentativa de se distanciar daquilo que ela cha-
guardam conotações distintas, como é possível ma de “esquerda institucional”, representada
perceber na ponderação de Saraiva (2010) sobre por organizações não governamentais, entida-
o uso delas em seu estudo sobre o Movimento do des estudantis (União Nacional dos Estudantes,
Passe Livre (MPL). Diretórios Centrais Acadêmicos, etc.), partidos
No início do movimento, houve um intenso políticos, sindicatos e outros atores sociais. Na
debate quanto ao termo a ser utilizado para acepção dos ativistas do MPL, essas organiza-
definir a ação de seus integrantes no âmbito ções têm
do MPL: de um lado, muitos defendiam o atuação marcadamente auto referenciada,
uso do termo militância, por ser este já em- usa as pessoas e situações como massa de
pregado para designar a ação de uma pessoa manobra para atingir seus próprios fins.
em um movimento de cunho político e so- Além disso, trata-se de organizações hie-
cial, trazendo à mente uma noção de respon- rarquizadas e com uma leitura ortodoxa e
sabilidade e compromisso; por outro lado, teleológica das classes sociais, com foco
outros integrantes advogavam a utilização predominante em um único sujeito revolu-
do termo ativismo, justamente por não ser cionário: a classe operária; não costumam
tão usado no Brasil e, portanto, diferenciar- compreender ou lidar com a multiplicidade
-se dos significados costumeiramente atri- de sujeitos e lutas existentes dentro da pró-
buídos ao termo ‘militância’ que denotavam pria classe. (Saraiva, 2014, p. 43)
posturas e atitudes das quais se queria afas- Jefrey Juris (2006), apontando caracterís-
tar. (Saraiva, 2010, p. 3) ticas elencadas como importantes pelos jovens
O extrato explicita a intenção dos integran- ativistas que participaram do Fórum Social
tes do MPL, considerado por autores da área Mundial em Porto Alegre, em 2006, destaca a
como um representante legítimo dos Novos valorização das lógicas de organização em rede
Movimentos Sociais (Scherer-Warren, 2014a, em detrimento daquilo que denomina como uma
2014b), de demarcar um distanciamento dos lógica de comando.
sentidos atribuídos à militância. Seidl (2014) Esta última [lógica de comando] estaria pre-
esclarece que há, por parte dos novos movi- sente em todas as formações tradicionais
mentos, uma tentativa de negar o modelo de tais como partidos políticos e sindicatos, ba-

Trends Psychol., Ribeirão Preto, vol. 26, nº 2, p. 565-577 - Junho/2018


574 Sales, A. L. L. F., Fontes, F. F., Yasui, S.

seando-se no recrutamento de novos mem- consensos progressivos e ausência de lideranças


bros, na construção de estratégias unificadas formais. É indispensável destacar que tais mo-
e na luta por hegemonia. Em contraste, a vimentos questionam radicalmente a capacidade
primeira [organização em rede] envolveria dos partidos e demais instituições políticas tradi-
a criação de um amplo guarda-chuva de cionais de representarem os interesses da maior
espaços, para o qual os diversos movimen- parte da população. Ao fazerem isso, retomam e
tos convergiriam em torno de um pequeno atualizam premissas de ação e organização pre-
núcleo comum de posições/princípios, pre- sentes em movimentos outros, tais como: anar-
servando sua autonomia e especificidade. quismo de Mikhail Bakunin e Joseph Proudhon;
Mais do que recrutar novos membros para movimento zapatista do México; Movimento
qualquer organização particular, o objetivo dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) do Brasil;
torna-se a expansão horizontal, por meio da movimento Autônomo Alemão de 1980; entre
conexão com movimentos, organizações e outros (Day, 2005).
redes já existentes. (Juris, 2006, para. 6)3 Slavoj Zizek (2013), em sua acurada
O Movimento Passe Livre São Paulo (MPL, leitura sobre a pauta de reivindicações do
2013), ao descrever suas intenções e modo de movimento Occupy Wall Street, aponta duas
organização, se apresenta como ente aglutinador questões centrais:
de participação social e engajamento cidadão, o descontentamento com o capitalismo
autogerido, com forte apelo à horizontalidade como sistema (o problema é o sistema capi-
no exercício das relações de poder, e com uma talista em si, não sua corrupção em particu-
pauta de caráter transversal às classes sociais – lar); a consciência de que a forma de demo-
mobilidade humana em centros urbanos. cracia multipartidária não é suficiente para
A Primavera Árabe, os Indignados da Plaza combater os excessos capitalistas, ou seja,
Del Sol em Madri e os movimentos Occupy nos que a democracia tem de ser reinventada.
Estados Unidos também são expressões desse (Zizek, 2013, p. 104)
“novo” modo de movimentação social e parti- Na literatura nacional, as expressões ativis-
cipação cidadã. Uma análise das táticas de orga- mo e militância são predominantemente usadas
nização e funcionamento destes protestos (Cas- como sinônimos. Quando definidas como me-
tells, 2013) destacou: articulação em rede com todologias para produzir ações coletivas a fim
vários outros movimentos; ocupação dos espaços de intervir, ou interferir, nas normas sociais
urbanos como forma de dar visibilidade à causa vigentes, não poderiam ser empregadas de tal
em debate; preservação da autonomia dos parti- forma, uma vez que, com isso, homogeneízam-
cipantes; uso estratégico das novas tecnologias -se as diferenças e extinguem-se a potências de
de informação e comunicação; preferência por mudança existentes. Haveria algo na forma de
metodologias participativas diretas para toma- atuação dos Novos Movimentos Sociais que
da de decisão de forma coletiva; construção de possa servir de indício para a renovação diante
da crise de representatividade que vivemos na
aurora do século 21? Há nessa retomada 2.0 de
3
The latter, characteristic of traditional formations
such as political parties and unions, is based ideais autonomistas indícios de renovação nas
on recruiting new members, building unified formas de produzir ação coletiva? É possível
strategies, political representation, and struggle vislumbrar, nas ruas e nas formas de atuação
for hegemony. In contrast, the former involves the desses atores, pistas que possibilitem a recons-
creation of broad umbrella spaces, where diverse
movements converge around a few common
trução da política? Apostamos que sim, por en-
hallmarks, while preserving their autonomy and tender que “em momentos de crise, de questio-
specificity. Rather than recruiting new members namento generalizado dos grandes paradigmas
to any particular organization, the objective teóricos, a confrontação com a realidade empí-
becomes expanding horizontally by linking up
rica e a atenção aberta ao novo, àquilo que está
with already existing networks, organizations,
and movements. nascendo, àquilo que alguns chamam de histó-

Trends Psychol., Ribeirão Preto, vol. 26, nº 2, p. 565-577 - Junho/2018


Para (Re)Colocar um Problema: A Militância em Questão. 575

ria imediata, são mais que nunca, necessárias” terá sua resposta condicionada à precisão dos
(Mouterde, 2003, p. 170). termos nos quais foi proposto (Deleuze, 1988),
Experimentações políticas fortemente em- entendemos que reconduzir a militância à con-
bebidas das questões trazidas à pauta por esses dição de problema pode criar uma zona de visi-
novos movimentos sociais têm partilhado conos- bilidade tanto dos limites decorrentes do uso da
co a aposta supracitada. Conscientes dos limites metodologia militante hoje quanto de vislumbre
do nosso modelo de democracia representativa de quais caminhos se apresentam como poten-
multipartidária, mas tomados pela urgência de tes para reinvenção de nós mesmos e dos nossos
propor alternativas ao debate dentro da insti- modos de agir coletivamente.
tucionalidade democrática atual, organizações Nosso estudo do tema em questão segue
como o Syryza na Grécia, os movimentos de em andamento, uma vez que o mesmo é objeto
candidaturas cidadãs e a formação do Podemos de tese de doutorado de um dos autores. Con-
na Espanha são expressões significativas dessas tudo, reconhecendo a dimensão política do ato
tentativas de reinvenção da democracia (Cava & de produzir conhecimento, foi necessário tornar
Béltran, 2014). público aquilo que estamos produzindo. Cientes
da necessidade de encontrar operadores teóricos
Considerações Finais para recolocar o problema, esperamos, com esse
texto, iniciar o debate que nos conduza a ser me-
No início de 2016, a crise das democracias nos fascistas, principalmente quando nos cremos
representativas ocidentais somou-se, no Brasil,
revolucionários.
a uma crise de governabilidade e de institucio-
nalidade tamanhas que fazem circular em vários
Referências
meios públicos frases de desalento como “um
governo que não dá pra defender, uma oposição Agamben, G. (2014). O amigo & o que é um disposi-
que não dá pra apoiar, uma justiça que não dá tivo? Chapecó, RS: Argos.
pra confiar, uma imprensa que não dá pra crer,
Alves, R. V. (2012). Em exibição nos cinemas: A re-
uma população que não dá pra dialogar”. Mudar presentação discursiva da militância de esquer-
os termos nos quais o debate está posto, apresen- da e da resistência na ditadura militar (Disser-
tar diferenças onde se vê identidade, realizar um tação de mestrado apresentada ao Programa de
diagnóstico do presente, identificar as virtualida- Pós-Graduação em Letras da Universidade Es-
des inatualizadas disponíveis para reinventar o tadual de Maringá, Maringá, SC, Brasil). Recu-
futuro. “Esse é, a meu ver, o papel que podem perado em http://www.ple.uem.br/defesas/pdf/
e devem, desempenhar os intelectuais, e, entre rvalves.pdf.
eles, os pesquisadores em ciências sociais, cida- Baltazar, B. (2004). Os encontros e desencontros da
dãos como outros, mas que possuem mais tempo militância e da vida cotidiana. Psicologia: Te-
que os demais para se dedicar ao estudo” (Piket- oria e Pesquisa, 20(2), 183-190. doi: 10.1590/
S0102-37722004000200011
ty, 2014, p. 11).
Apresentar uma distinção entre ativismo e Birman, J. (2007). Mal-estar na atualidade: A psi-
militância não visa criar uma taxonomia estéril canálise e as novas formas de subjetivação (6.
com a pretensão de objetificar a realidade. Trata- ed.). Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira.
-se de uma proposta para desnaturalização de Canguilhem, G. (2014). Ouvres Complètes, tome iv.
termos usuais no debate sobre ação coletiva. Ex- Résistance, philosophie biologique et histoire
plicitando o silêncio na literatura nacional sobre des sciences 1940-1965. Paris: J. Vrin.
as diferenças entre ativismo e militância, almeja- Castells, M. (2013). Redes de Indignação e Esperan-
-se dar visibilidade às diferenças presentes nas ça. Rio de Janeiro, RJ: Zahar.
formas de operar, sentir e agir passíveis de serem Cava, B., & Béltran, S. A. (Eds.). (2014). Podemos e
agrupadas dentro destes termos. E mais, partin- Syriza: Experimentações políticas e democracia
do da premissa deleuziana de que um problema no século 21. São Paulo, SP: Annablume.

Trends Psychol., Ribeirão Preto, vol. 26, nº 2, p. 565-577 - Junho/2018


576 Sales, A. L. L. F., Fontes, F. F., Yasui, S.

Day, R. J. F. (2005). Gramsci is dead: Anarchist cur- Melo, P. B. (2010). A intervenção cultural do discur-
rents in the newest social movements. London: so cinematográfico: Os sentidos da ditadura mi-
Pluto Press. litar no Brasil. Revista FAMECOS, 17(2), 68-80.
Deleuze, G. (1988). Diferença e repetição (L. Orlan- Mesquita, M. R. (2003). Movimento estudantil bra-
di & R. Machado, Trads.). Rio de Janeiro, RJ: sileiro: Práticas militantes na ótica dos novos
Graal. movimentos sociais. Revista Crítica de Ciências
Sociais, 66, 117-149.
Engelmann, F. (2009). Apresentação. Pro-Posições,
20(2), 17-19. doi: http://doi.org/10.1590/S0103- Mezan, R. (2006). Freud, pensador da cultura. Rio
73072009000200002 de Janeiro, RJ: Companhia das Letras.

Foucault, M. (1977). Introdução à vida não fascista. Mouterde, P. (2003). Reinventando a utopia: Práti-
In G. Deleuze & F. Guattari, Anti-Édipo: cas alternativas da esquerda latino-americana.
Capitalismo e esquizofrenia (pp. 3-4). Lisboa: Porto Alegre, RS: Tomo Editorial.
Assírio e Alvim. Movimento Passe Livre. (2013). Não começou em
Foucault, M. (2015). O saber gay. Ecopolítica, 11, Salvador, não vai terminar em São Paulo. In C.
2-27. Vainer, D. Harvey, E. Maricato, F. Brito, J. A.
Peschanski, J. L. S. Maior, …V. A. Lima, Ci-
Freud, S. (2006). Psicologia de Grupo e Análise do dades Rebeldes. Passe Livre e as manifestações
Ego. In S. Freud, Edição Standard Brasileira que tomaram as ruas do Brasil (pp. 12-18). São
das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Paulo, SP: Boitempo.
Freud (Vol. XVIII, pp. 79-154). Rio de Janeiro,
RJ: Imago. (Original publicado em 1921) Oliveira, G. N., Pena, R. S., Amorim, S. C., Carva-
lho, S. R., Azevedo, B. M. S., Martins, A. L. B.,
Gohn, M. G M. (2006). Teoria dos movimentos so- & Guerra, M. B. (2009). Novos possíveis para a
ciais: Paradigmas clássicos e contemporâneos militância no campo da Saúde: A afirmação de
(5. ed.). São Paulo, SP: Edições Loyola. desvios nos encontros entre trabalhadores, ges-
Guevara, E. C. (2010). O Partido Marxista-Leninista. tores e usuários do SUS. Interface (Botucatu),
In A. Bogo (Ed.), Teoria da organização políti- 1(13), 523-529.
ca – escritos de Mariátegui, Gramsci, Prestes, Piketty, T. (2014). O capital no século XXI. Rio de
Che, Ho Chi-minh, Marighella, Álvaro Cunhal, Janeiro, RJ: Editora Intrínseca.
Agostinho Neto, Florestan Fernandes (Vol. II,
pp. 119-130). São Paulo, SP: Expressão Popular. Rolnik, S. (2014). Cartografia sentimental -Trans-
formações contemporâneas do desejo (2. ed.).
Harnecker, M. (2012). Estratégia e Tática (2. ed.). Porto Alegre, RS: Editora Sulina.
São Paulo, SP: Expressão Popular.
Saraiva, A. C. (2010). Movimentos em movimento:
Juris, J. (2006). Youth and the world social forum. Uma visão comparativa de dois movimentos
Retrieved from http://ya.ssrc.org/transnational/ sociais juvenis no Brasil e Estados Unidos
Juris/ (Tese de doutorado apresentada ao Programa
Kehl, M. R. (2004). Ressentimento. São Paulo, SP: de Pós-Graduação em Estudos Comparados
Casa do Psicólogo. Sobre As Américas, Universidade de Brasília,
DF, Brasil). Recuperado em http://repositorio.
Lucena, C. de T., Tomizaki, K., & Campos, M. C. unb.br/bitstream/10482/6974/1/2010_
S. de S. (2009). Apresentação. Cadernos CERU, AdrianaCoelhoSaraiva.pdf
20(1), 7-13.
Saraiva, A. C. (2014). Movimento Passe Livre e Bla-
Macedo, E. A., & Silva, A. J. (2009). Militante ck Blocs: Quem são os novos atores que emer-
trotskista: O dissidente por definição. Anais do giram dos protestos de 2013. In A. D. Cattani
IV Congresso Internacional de História, 377- (Ed.), Protestos: Análises das ciências sociais
387. doi: 10.4025/4cih.pphuem.398 (pp. 41-52). Porto Alegre, RS: Tomo Editorial.
Machado, J. A. S. (2007). Ativismo em rede e co- Sawicki, F., & Simeant, J. (2011). Inventário da so-
nexões identitárias: Novas perspectivas para os ciologia do engajamento militante: Nota crítica
movimentos sociais. Sociologias, 18, 248-285. sobre algumas tendências recentes dos trabalhos
doi: 10.1590/S1517-45222007000200012 franceses. Sociologias, 13(28), 200-255.

Trends Psychol., Ribeirão Preto, vol. 26, nº 2, p. 565-577 - Junho/2018


Para (Re)Colocar um Problema: A Militância em Questão. 577

Scherer-Warren, I. (2014a). Dos movimentos sociais partamento de História, Universidade Esta-


às manifestações de rua: O ativismo brasileiro dual de Campinas, SP, Brasil). Recuperado
no século XXI. Política & Sociedade, 13(28), em http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/
13-34. document/?view=000017675
Scherer-Warren, I. (2014b). Manifestações de rua no Vasconcelos, M. F. F., & Paulon, S. M. (2014). Ins-
Brasil 2013: Encontros e desencontros na políti- tituição militância em análise: A (sobre)impli-
ca. Caderno CRH, 27(71), 417-429. cação de trabalhadores na Reforma Psiquiátri-
ca brasileira [Edição especial]. Psicologia &
Seidl, E. (2014). Notas sobre ativismo juvenil, capital
Sociedade, 26, 222-234. doi: 10.1590/S0102-
militante e intervenção política. Política e Socie-
71822014000500023
dade – Revista de Sociologia Política, 13(28),
63-78. Veiga-Neto, A. (2012). É preciso ir aos porões. Re-
vista Brasileira de Educação, 17(50), 267-282.
Silva, A. J. (2003). A formação do militante anar-
quista: Primeiros movimentos para uma leitura Zizek, S. (2013). Problemas no Paraíso. In C. Vai-
distinta (Tese de doutorado em História apresen- ner, D. Harvey, E. Maricato, F. Brito, J. A. Pes-
tada ao Programa de Pós-Graduação de Histó- chanski, J. L. S. Maior, …V. A. Lima, Cidades
ria, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, Rebeldes. Passe Livre e as manifestações que
PR, Brasil). Recuperado em http://acervodigi- tomaram as ruas do Brasil (pp. 101-108). São
tal.ufpr.br/bitstream/handle/1884/24591/T%20- Paulo, SP: Boitempo.
-%20SILVA,%20ANGELO%20JOSE%20DA.
pdf?sequence=1
Silva, R. N. (2004). Notas para uma genealogia da
Psicologia Social. Psicologia & Sociedade,
16(2), 12-19.
Valverde, M. E. G. L. (1986). Militância e poder: Recebido: 25/07/2016
Balizas para uma genealogia da militância 1ª revisão: 21/02/2017
(Dissertação de mestrado apresentada ao De- Aceite final: 09/04/2017

__________________________________________________________________________________________
© O(s) autor(es), 2018. Acesso aberto. Este artigo está distribuído nos termos da Licença Internacional Creative
Commons Atribuição 4.0 (http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/), que permite o uso, distribuição e reprodução sem
restrições em qualquer meio, desde que você dê crédito apropriado ao(s) autor(es) original(ais) e à fonte, fornecer um link para a
licença Creative Commons e indicar se as alterações foram feitas.

Trends Psychol., Ribeirão Preto, vol. 26, nº 2, p. 565-577 - Junho/2018