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ao contrário do livro de Inês Meneses, a propósitos e ferramentas que merecem a nossa

ao contrário do livro de Inês Meneses, a propósitos e ferramentas que merecem

a nossa reflexão: novos meios de fideli-

zação de leitores; a importância de um grupo identitário bastante demarcado ter espaço para falar dos seus temas. Mas então o que justifica esta crítica e estes minutos roubados ao leitor? Se a objetos como este livrinho de Inês Meneses respondermos sempre com o nosso silêncio, acabamos por assistir ao alastrar deste contágio de publicações sem sentido que tem como resultado máximo a estupidificação do leitor e a diluição de todo o texto escrito, corren- do nós o risco de sermos obrigados pela multidão a dizer (em jeito de sketch) que a frase escrita na porta da casa de banho do bar tem o mesmo valor que os sonetos do Antero ou que o Raul Minh’alma é a nossa Maria Velho da

Costa da era digital. Em suma, no meio da falta de sentido é preciso dizer: por aí, não vou.

Em jeito bernhardia- no, repetimo-nos na busca do espírito e motivo da obra. Este livro de Inês Mene-

ses só é possível devido à sua populari- dade enquanto radialista e enquanto figura pública nas redes sociais (e jun- tamos assim a lógica deste livro à do “Resumo de 2017 para Todos” de Miguel Somsen e Hugo van der Ding, que, par- tindo da popularidade dos seus autores

e de textos do Facebook, é ainda assim

mais oportuno que este). Com um grande e variado alcance de pessoas ao seu dispor, Inês Meneses não continua uma tradição literária, não rei- vindica uma nova forma de comunicar, não expõe assuntos tabu ou de difícil

descrição. E também por isso somos obrigados a pensar que Inês Meneses

nos brinda com os seus “Amores (Im)pos- síveis” por um impulso narcisista ou de natureza financeira. Outra tarefa que caberá a cada leitor que conheça o catálogo da Abysmo é a de refletir o que é esta peça disforme e

o que significa para a identidade edito-

rial de um projeto que, tendo-se apre- sentado bastante desigual nas suas apos-

tas, nunca largou as rédeas da ambição de publicar livros relevantes.

Quando trocava impressões sobre

este texto com um amigo, este trouxe- -me uma imagem há muito esquecida:

a ditadura do coração que é praticada

no reino do kitsch, como explica Milan Kundera n’“A Insustentável Leveza do Ser”. Talvez estejamos perante o piná- culo dessa lógica em que, como sabe- mos, só a sensibilidade de cada um inte- ressa e a razão já não tem lugar para levantar objeções nesta fraternidade onde todos aceitam tudo o que se lhes apresenta, em nome de uma camarada- gem inerte e sem capacidade de mapea- mento da realidade. Ultrapassamos assim em larga medida os chavões do final do século passado, porque já nem só de aproveitamento da alienação das massas estamos a falar. Os agentes artísticos e culturais que culmi-

nam hoje na elaboração estratégica de campanhas de marketing e legitimação (formal e institucional ou informal e popu- lar) chegam à massa consumidora sem

a necessidade de um plano prévio ou de

algo a ser alcançado: um prémio, uma referência no jornal, uma troca de impres- sões entre dois leitores. O marketing é a própria pessoa e a sua biografia, que foi erguida pelo seu ofício e pela sua pose nas áreas de entretenimento. É também por isso que acabamos este texto sem estarmos especialmente deses- perançados. Quem aderir a esta jogada abysmal (e aqui relembramos que a fra- se icónica de Teixeira de Pascoaes con- tinua na última folha do livro como um frame absurdo num filme onde o reali- zador tivesse adormecido por cinco minu- tos) não sofreu, de todo, a habitual com- pressão de perspetivas que ao livro estão normalmente subjacentes e que tentam, quase sempre, alcançar a homogenei- zação das ideias e das edições. Quem compactuar com esta ideia já terá o seu sentido crítico arrasado e, sobre isso, a

cada um caberá mapear e nomear os responsáveis que encomendaram o ser- viço aos bulldozers.

arrasado e, sobre isso, a cada um caberá mapear e nomear os responsáveis que encomendaram o