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UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS - CAMPUS I
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDO DE LINGUAGENS
LINHA 1 - LEITURA, LITERATURA E IDENTIDADES

JORGE AMADO E OS RITOS DE BAIANIDADE:
UM ESTUDO EM TENDA DOS MILAGRES

MARCOS ROBERTO DE SANTANA

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MARCOS ROBERTO DE SANTANA

JORGE AMADO E OS RITOS DE BAIANIDADE:
UM ESTUDO EM TENDA DOS MILAGRES

Dissertação apresentada ao
Programa de Pós-Graduação
em Estudo de Linguagens da
Universidade do Estado da
Bahia como requisito para a
obtenção do título de mestre
sob a orientação do Prof. Dr.
Luciano Rodrigues Lima.

SALVADOR
2008

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FICHA CATALOGRÁFICA – Biblioteca Central da UNEB
Bibliotecária : Jacira Almeida Mendes – CRB : 5/592

Santana, Marcos Roberto de
Jorge Amado e os ritos de baianidade : um estudo em tenda dos milagres / Marcos Roberto de
Santana . – Salvador, 2008.
133f

Orientador : Luciano Rodrigues Lima.
Dissertação ( Mestrado) - Universidade do Estado da Bahia. Departamento de Ciências
Humanas. Campus I. 2008.

Contém referências e anexos.

1. Nacionalismo na literatura. 2. Literatura e sociedade. 3. Tenda dos Milagres. I. Lima,
Luciano Rodrigues. II. Universidade do Estado da Bahia, Departamento de Ciências Humanas.

CDD: B869.2

4 JORGE AMADO E OS RITOS DE BAIANIDADE: UM ESTUDO EM TENDA DOS MILAGRES .

5 .

Tio Durval. Tio Delmiro. Tataygbi. Tia Mariath. Ojé Orepê. Tio Antonio. Tia Rute. Aos parentes e amigos que desde tenra infância incutiram em mim a necessidade de estudar para ser alguém na vida. pela inspiração. Tia Chiquinha. Tia Dalva. orixá que abre os caminhos e a estradas para que passe neles o desenvolvimento tecnológico e os resultados das lutas por melhores dias na sociedade brasileira e baiana. Tio Djalma. Dedico especialmente ao orixá Oxum. Obá Até (Aiê). Tia Iracema. Tia Carmelita. Tia Carolina. Tia Joana. A meus pais pela minha encarnação nesta vida. Tia Angelina. Tio Timóteo. Tia Iracy. A todos e todas. Tia Tatá. Ijibola (Orum). Tia Eunice. A Ogum. Tia Lycia (in memoriam. Tio Antenor. Tia-mãe Nazifa. . indistintamente. 6 DEDICATORIA À memória de meu avô Miguel Archanjo de Sant’Anna. (in memoriam). pelo entusiasmo e pelo encantamento para escrever. Tio Dão. que me ajudaram na concretização deste sonho. Aos meus irmãos e minhas irmãs. Zabá. Tia Dulce. Tia Jaguaracyra.). Tia Lourdes. Aos tios e tias que me acolheram e ainda me acolhem: Tia Dadi.

Lindalva Lopes. Fundação Casa de Jorge Amado. Priscila. Ao Clube da Maior Idade Renascer. Fundação Pedro Calmon. Raquel Mendes. Secretaria (Ilana Azevedo. Egnaldo Araújo. Bartô Daltro. Iraci Simões da Rocha. Fundação Gregório de Mattos. Verbena Rocha. IRDEB. Edmilson Queiroz. Rita Almeida. Arizângela. Lindinalva. Alzira. Camila Araújo e Danilo Araújo). Márcio Pereira. Chico Mota. 7 AGRADECIMENTOS A Olorum. Departamento de Ciências Humanas . Aos professores Sílvio Oliveira. Coordenador do Ateliê de Projetos da Faculdade de Economia da UFBA. . Centro de Estudos Miguel Santana. DIMAS. Á Secretaria Municipal de Educação e Cultura. Sociedade Cruz Santa do Axé Opô Afonjá. Narcimária Luz. A UNEB/PPGEL: Coordenação: Márcia Rios da Silva / João Santana Neto. A Mãe Stella de Oxóssi. Neide Macedo. Á Biblioteca Central. Antonio Vieira (in memoriam). UDO e ASSCOM. A Daniel Teixeira. Edivaldo Santos. Ao Ilê Axé Opô Afonjá: Comunidade-Terreiro. Lisa Earl Castillo. Aos Orixás. Á Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia. Jornal A Tarde.Campus I. Rosa Helena Blanco. A Mãe Georgete de Oxum. José Carlos Limeira. Colegiado de Letras. Núcleo de Cultura Popular da Bahia. Walmir Lima. Celeste Bispo. Alexandre Babilônia. Flávia. Aos alunos da disciplina Literatura Baiana. A Victor Athaíde Couto (in memoriam). Juraci Tavares. Valdite Barbosa. Camerata Castro Alves. Clarindo Silva. Denise. Ildásio Tavares. Lícia Soares. Aos colegas: Rodrigo Matos. Ateneu Musical Osvaldo Devay de Sousa. Grupo Ambientalista Ecoterra. Salete Souza. Socorro. Odete.

Tataygbi. 8 EPÍGRAFE “Quero ver meus filhos aos pés de Xangô. Obá Biyi Ialorixá fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá “Meu tempo é agora!” Maria Stella de Azevedo Santos Mãe Stella de Oxóssi. Obá Aré . com anel no dedo!” Eugênia Anna dos Santos Mãe Aninha. Ojé Orepê. Odé Kayodê Ialorixá n’Ilê Axé Opô Afonjá “Não foi à toa. não!” Miguel Archanjo de Sant’Anna Zabá.

as acusações de alguns críticos e entidades sobre a apropriação das manifestações culturais do povo negro. PALAVRAS CHAVES: Literatura. Identidades. 2) Ogun kapê dan meji: candomblé. também. no romance Tenda dos milagres (1969). Religião. As conclusões apontam para um comprometimento político e estético de Jorge Amado. tanto como cidadão quanto como autor. Discutem-se. acrescidos de material jornalístico. na construção de um exotismo estético na obra amadiana. luta e resistência num sortilégio amadiano. a dissertação apresenta documentos representativos do Centro Estudos da Memória Popular Miguel Santana. onde se verifica a expressão literária de inspiração quixotesca como instrumento de luta pelo oprimido e 3) Ojuobá Arolu: uma leitura dos olhares de Jorge em Tenda dos milagres. no qual se analisa. do Núcleo de Cultura Popular da Bahia e da atividade de extensão I Ciclo Leituras de Jorge. Cultura. Segue-se um glossário de termos afro-baianos utilizados na pesquisa e. onde se discute a relação do escritor e do sujeito empírico com o orixá Exu. com a preservação da cultura afro-baiana. A dissertação está estruturada em três capítulos: 1) Laroiê! Jorge Exu Amado e a transgressão como expressão literária. 9 RESUMO Esta pesquisa analisa os traços reveladores de uma possível identificação e compromisso político e estético do escritor Jorge Amado com a defesa e valorização das tradições. coordenadas pelo autor desta dissertação e cujas atividades estão ligadas ao tema desta pesquisa. história e cultura do povo negro-mestiço da Bahia. bem como em depoimentos autorais. Transgressão. em sua obra ficcional. mais detidamente. no item ANEXOS. a provável relação identitária do escritor com o povo negro-mestiço da Bahia. .

les accusations de aucun critiques des un exotisme estetique dans l’oeuvre amadienne. 2) Ogun kapê dan meji: candomblé. . dans le quel se analise. Culture. ou se verifie la expresion literaire d’ inspiration quixotesque comme instrument de lutte pour oprimè et 3) Ojuobá Arolu: une lecture sur les regardes du Jorge dans Tende des les miracles. avec la preservation de la culture afro-bahianaise. dans le roman Tende des les miracles. Transgression. accroitru des materiel journalistique. dans une l’ouevre ficitionel. et. tant comme citoyen autan comme l’écrivain . «La boutique aux miracles». plus detiment. La disertation il’est estructuré dans troisiemme chapitres: 1) Laroiê! Jorge Exu Amado et la transgression comme expresion literaire. dans l’item ANNEXES. la probable relation identitaire du écrivain avec le peuple noire-mésti du Bahia. Ce débat. «La boutique aux miracles» (1969). 10 RÉSUMÉ Ils s’agit d’un travail que analise les traits revelateurs d’une possible identification et compromisse politique du écrivain Jorge Amado avec la dèfense et valorization des traditions. coordenés pour l’auteur de cette disertation et lorsque activité sont liés au thème des cette recherche. Les conclusions pointen pour une comprometiment politique et estètique du Jorge Amado. Se suivre une glossaire du terme afro-bahianaise utilisé dans la recherche. bien comme en depoiments auteuriels. du Nucle de la Culture Populaire du Bahia et de la activité de la extention 1e Cicle Lectures du Jorge. histoire e culture du peuple noire du Bahia. ou se débat la relation du écrivain et de sujet empirique avec l’orixá Exu. Identités. MOTS CLES: Literature. aussi. Religion. la disertation presente documents representatifs du Centre des Études de la Memoire Populaire Miguel Santana. lutte e resistence dans le sortilège amadienne.

... 11 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 1............... 30 2....................... 63 3..3 Odu quixotesco: uma literatura de valorização do oprimido .................................................... sob a inspiração de Oxum ...3 Faraimará: um abraço carnavalesco em Jorge-Pedro-Amado-Archanjo ....Documentos institucionais do Centro de Estudos Miguel Santana e do Núcleo de Cultura Popular da Bahia ANEXO B ..... luta e resistência num sortilégio amadiano ... SEGUNDO CAPÍTULO 2...5 Adjá e abebé: nas águas de Jorge....... 45 2.....1 “Ogun kapê dan meji”: candomblé...................................................2 Ogó e tridente: Jorge e a desconstrução do simbolismo negativo de Exu ....2 Xirê ou as voltas que o mundo dá ...................... 14 1........... 80 CONSIDERAÇÕES FINAIS Ofá e eruexin ou Jorge Amado................. ..1 Laroiê! Jorge Exu Amado e a transgressão como expressão literária .. 49 3... 84 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GLOSSÁRIO DE TERMOS AFRO-BAIANOS ANEXO A .....Material jornalístico............... TERCEIRO CAPÍTULO 3... 17 2.......... 75 3.......... 25 2.............4 Oriqui: histórias de luta e superação contra o degredo na diáspora brasileira ..................4 Adarrum: o Pelourinho revisitado .....3 Agô.............. 43 2....................... agô Lonã! a presença ancestral do orixá dos caminhos em Salvador .. 68 3...2 Ojuobá: Pedro Archanjo na encruzilhada do materialismo .....1 Ojuobá Arolu: uma leitura dos olhares de Jorge em Tenda dos milagres ............... 12 1.. Tenda dos milagres e a construção da cidadania........................... PRIMEIRO CAPÍTULO 1........... fichas e questionários do I Ciclo Leituras de Jorge .....

1982. amando o riso e a festa. e na proclamação da República no ano seguinte. imagens fotográficas. à época. desenhos. artigos. 12 INTRODUÇÃO De uma força vital sem medida. 1 A publicação do romance Jubiabá. em 1935. a partir da década de 1930. p. se constitui numa tentativa de elucidação de uma trama literária que foi construída como um mosaico e que propõe ao leitor um contínuo exercício de reflexão sobre a importância das matrizes culturais afro-baianas. marcou época com a publicação. cuja repercussão provocou grandes desdobramentos políticos- ideológicos e resultou na promulgação da Lei Áurea em 1888. Entretanto. Desenvolver uma pesquisa cuja orientação e questionamento se posicionam numa perspectiva que vai quase ao encontro de todo o material publicitário e ideológico que foi produzido com a finalidade de legitimar um procedimento literário e expandir o seu conteúdo temático como elementos definidores de uma realidade social. posteriormente. artista de nascença. política e cultural reduzida na expressão “baianidade”. capaz de superar as piores condições de existência e seguir adiante. Ao iniciar uma pesquisa voltada para o reconhecimento de traços identitários na obra do escritor Jorge Amado. um famoso babalorixá que. reportagens. logo nas primeiras tentativas de abordagem o pesquisador se depara com uma infinidade de livros. histórica. senhor da gentileza. criador de civilização e de cultura. ano da chegada de D. ambientadas num terreno histórico de desigualdade social e de fisiologismo institucional dominantes. teria provocado uma retratação pública do autor. pinturas. O trabalho “Jorge Amado e os ritos de baianidade: um estudo em Tenda dos milagres”. foi uma tarefa árdua no sentido de buscar e encontrar um referencial bibliográfico adequado e suficientemente embasado. . que remonta a 1808. intitulado Jubiabá1. desde quando o referido autor iniciou-se no mundo editorial até quando. se insere num conjunto de ações lideradas pelo etnógrafo e escritor Édison Carneiro e pelo antropólogo Artur Ramos no sentido de legitimar a religião do candomblé. João VI ao Brasil. recortes. esculturas e demais produções e artefatos que foram sendo desenvolvidos ao longo de aproximadamente 70 anos. revistas. o povo baiano marca e atesta toda a obra da criação aqui realizada (AMADO. 33). nome homônimo religioso de Severiano Manuel de Abreu. do seu primeiro romance com temática afro-baiana. e mesmo antes.

p. resultado de sua tese de mestrado. em outros livros como Teresa Batista cansada de guerra (1972) e Bahia de Todos os Santos(1945). publicado. na tentativa de encontrar elementos que comprovem ou não a sua relação identitária com o povo negro-mestiço da Bahia. da antropologia e da história. bedel da Faculdade de Medicina. Obá Aré. 81). Miguel Santana já teria sido homenageado como personagem vivo. .) Arcanjo é a soma de pessoas diferentes. isto é: “própria dos baianos”. apud RAILLARD. Sobre o seu relacionamento com Miguel Archanjo. herói e principal protagonista do romance Tenda dos milagres . Com uma metodologia investigativa muito própria e que envolveu uma intensa atividade de pesquisa bibliográfica e de extensão como o I Ciclo Leituras de Jorge. em autores próximos do universo amadiano. em 1977. Ele já morreu. 13 uns poucos avanços e contribuições para o entendimento da expressão “baianidade”. está relacionado com a representação fragmentada da história de vida de Miguel Archanjo de Sant’Anna. mas uma delas é Miguel Santana. que por sua vez. acumula os oiês de Ogã e Obá do Ilê Axé Opô Afonjá. glossário e dois anexos e. no Ilê Axé Opô Afonjá. neste trabalho. servindo como uma forma de esclarecer a relação entre a vida de pessoas reais da comunidade afrodescendente e sua importância na constituição na obra amadiana. na vida do povo. 1990. têm surgido através de trabalhos no campo da sociologia. realizado 2 Miguel A. O modo como a pessoa da vida real Miguel Santana é tratada na obra de Jorge Amado. inicialmente. logo após o falecimento de Mãe Aninha em 1938. deliberadamente. de Sant’Anna foi informante de muitos pesquisadores entre os quais destaca-se o antropólogo Vivaldo da Costa Lima. parente ritual hierárquico do Obá Arolu Jorge Amado2. Amado daria um importante depoimento. outros raríssimos. fundamentada. que foi um personagem importantíssimo na vida da cidade da Bahia. que passaria a ser exercida ao lado da ialorixá Senhora de Oxum. transformada em personagem de ficção será objeto de estudo. mas foi retratado em sua completude biográfica através do personagem multifacetado Pedro Archanjo Ojuobá. são encontradiços no campo dos estudos lingüísticos e literários.. (AMADO. Um grande desafio na tentativa de responder à pergunta dessa pesquisa. a pesquisa se direciona para o ambiente identitário do autor.. Estruturada em três capítulos. ele faz um registro muito importante sobre o perfil religioso do Obá Aré Miguel de Sant’Anna e a sua proeminência no culto ao orixá Xangô. líder religioso e empresário. alguns seguidos da proposta acadêmica mais atual e mais compatível e que se denomina estudos culturais. Obá Aré. No seu clássico livro A família-de-santo nos candomblés jeje-nagô da Bahia. registrado numa conversa com sua editora francesa Alice Raillard: (.

de lideranças eruditas e populares. este trabalho propõe um outro olhar sobre a obra literária do escritor baiano. No primeiro capítulo intitulado “Laroiê! Jorge Exu Amado e a transgressão como expressão literária”. A sua formação intelectual e religiosa e principalmente a sua militância como mobilizador cultural são aqui tomadas como fatores determinantes na condução de cada capítulo. 5 Considerado simplesmente como guia. no período de março a junho de 2007. ganhou estatus de bairro. que registrou os 70 anos do 2º Congresso Afro-Brasileiro da Bahia. Ildásio Tavares. o largo que abrigava o pelourinho terminou por dar nome ao lugar e sua abrangência simbólica atual. mediante uma abordagem contextualizada na cultura popular e que utiliza um referencial teórico diversificado de base antropológica. procura-se estabelecer. através da análise do livro Bahia de todos os Santos. de levantamento bibliográfico e de glossário de termos ambientados nas tradições nagô-iorubás de Salvador e do Recôncavo4. considerado de fundamental importância para a compreensão das dinâmicas sociais e culturais que ocorreram em finais do século XIX e inícios do século XX. como Pelourinho3. como: Walmir Lima. um elo com o romance Tenda dos milagres (1969). democrática e igualitária. Cid Seixas. 3 Pelourinho inicialmente. no complexo residencial do centro antigo de Salvador que ficou conhecido mais recentemente. Yeda Pessoa de Castro. . que publicou em 2000. Outro traço diferencial desta pesquisa é o caráter opinativo e iconográfico do autor- pesquisador. renasce recriada no texto amadiano como cidade cujo domínio pertence a Exu. 4 Os falares africanos na Bahia têm sido alvo de longos anos de pesquisa e estudo da etnolingüísta Yeda Pessoa de Castro. um livro cujo título homônimo oferece uma contribuição importante nesta pesquisa. teria elegido valores negro-mestiços como elementos definidores da construção de uma sociedade brasileira mais justa. Em Salvador. obra na qual o autor se mostra mais maduro do ponto de vista estético-literário e mais independente do ponto de vista político e ideológico. Ordep Serra. Ao tratar da cultura afro-brasileira como tema fulcral do seu romance. realizado em novembro de 2007. o livro Bahia de Todos os Santos também pode ser tratado como obra literária representativa. tendo grande relevância na elaboração do glossário que foi aposto ao trabalho. Hildegardes Vianna. e relatos autobiográficos como o do líder religioso e empresário Miguel Santana. na Fundação Casa de Jorge Amado. guia de rua e mistérios (1945)5. 14 mensalmente. que inclui depoimentos orais e escritos. enriquecidos de notas de rodapé. é uma referência ao instrumento de suplício colocado em lugar público para castigar escravos e desertores da Coroa Portuguesa. apesar do grande apelo turístico dado pelo autor. que tem como referência cultural colonizadora a herança africano-brasileira e que. no Salão dos Espelhos da Fundação Pedro Calmon. pois se constitui em uma verdadeira epopéia dedicada à cidade do Salvador. e o Simpósio Encontros com a Cultura Popular: A memória não pode falhar.

O terceiro e último capítulo intitula-se “Ojuobá Arolu: um leitura dos olhares de Jorge em Tenda dos milagres” e nele será analisado de forma mais aprofundada e dialógica o projeto literário que Jorge Amado teria criado para construir o romance publicado em 1969. ao lado de Eugênia Anna dos Santos. a uma tradução livre do orucó Obá Sañyá. 15 O segundo capítulo tem como título “Ogun kapê kapê dan meji: candomblé. Assim como no livro Bahia de todos os Santos. onde predomina um projeto literário de desconstrução da influência ibero-portuguesa-espanhola. disse o compositor. quando a Escola de Samba Filhos do Tororó prestou-lhe uma homenagem com o samba enredo Jorge Amado em quatro tempos. Por sua vez. . esta pesquisa tem no 6 Essa expressão refere-se segundo LIMA. com uma finalidade específica e determinada. luta e resistência num sortilégio amadiano” e nele será abordado um conteúdo temático muito caro ao autor e refere-se à perseguição policial institucionalizada aos líderes da religião afro-brasileira. alusivo ao babalorixá Joaquim Vieira da Silva. deixam marcas claras da opção preferencial que o autor-narrador fez pelo mais fraco. transformada através da escrita eloqüente e libertadora de Jorge Amado. em “Roma Negra” ou melhor em cidade dominada pelo orixá Exu. na qual os recursos estéticos e os gêneros literários aparecem de forma intensa e recorrente. de autoria do sambista santamarense Walmir Lima. 1987. 71. que revela uma estrutura bem elaborada do ponto de vista estratégico e argumentativo. p. Em Tenda dos milagres o autor. em linhas gerais. “Era a primeira vez que Jorge Amado recebia uma homenagem pública em pleno carnaval”. pelo injustiçado e perseguido. a trajetória sócio-cultural e religiosa percorrida pelo autor-narrador Jorge Amado. que avançou no seu tempo e que inaugurou uma estética regional peculiar e uma escrita transgressora marcada pelo caráter identitário e cúmplice. afastado das amarras político-ideológicas do Partido Comunista. co-fundador do Ilê Axé Opô Afonjá. considerada como fator determinante para a construção de um projeto literário nacional dos mais ousados e dos mais inovadores. Procurando ratificar o que foi escrito no preâmbulo deste projeto cujo título já foi referido acima. e que supostamente fora germinado na mente e no coração do autor no sábado de carnaval daquele mesmo ano. originário de uma sociedade racista. A utilização desses recursos. mais especificamente o candomblé. Obá Biyi. Também será alvo de análise a construção da trama textual amadiana. na velha Cidade da Bahia. busca-se identificar. preconceituosa e excludente. mostrou-se justiceiro e libertador ao tentar vingar o insulto6.

com ênfase na cultura afro-baiana. tráfico e mortandade. atividade de extensão comunitária realizada anualmente. conferências. a obra de Jorge Amado. da definitiva contribuição que trouxe para o desenvolvimento da indústria turística e de entretenimento. pouco ou quase nada se estuda ou se pesquisa. . Por sua vez. com o seguinte tema: O mais importante na Bahia é o povo!7 Durante esse período. bem como. 8 Em Tenda dos milagres Jorge Amado deixa muito bem marcada uma crítica remota aos efeitos da cultura de massa nas relações institucionais e sociais. a marginalidade e extensivamente a vulnerabilidade que tende a aumentar os índices de violência. no Pelourinho. isto é. Ainda se fala muito. mormente os mitos greco-romanos. criada pelo Sebrae-Bahia em conjunto com a Secretaria da Cultura e Turismo. principalmente. a exclusão. a partir do desenvolvimento de um projeto piloto voltado para as comemorações do centenário de nascimento do seu patrono. instalações e apresentações artísticas em torno do contributo da herança africano-brasileira em Salvador). nas universidades brasileiras. se pesquisa de forma quase exaustiva. 16 seu antecedente histórico uma afinidade institucional com o Núcleo de Cultura Popular da Bahia e o Centro de Estudos da Memória Popular Miguel Santana. sobre os mitos fundadores da cultura ocidental. se estuda e. 7 O Centro de Estudos Miguel Santana foi fundado em 1998. o Núcleo de Cultura Popular da Bahia surgiu como expressão e orientação da Rede de Agentes Culturais (RAC). através da campanha desenvolvida pelo Jornal da Manhã em torno da memória obscurecida de Pedro Archanjo. através do Simpósio Encontros com a Cultura Popular. palestras. Outro aspecto da problemática em torno da obra de Jorge Amado é o somatório das declarações do próprio autor sobre o seu compromisso político com as camadas populares da Bahia e a realidade ou não dessas declarações. corrupção. desde novembro de 2001. serviu de tema e inspiração às atividades realizadas (debates. Formado por uma equipe multidisciplinar procura desenvolver ações sócio-educativas de preservação e resgate do legado cultural originário das matrizes africanas na Bahia. sobre a origem dos mitos africano-brasileiros. muitos menos sobre os mitos afro-baianos e seus ancestrais diretos representativos de uma população que tem herdado historicamente o degredo. se elas se comprovam na sua obra ficcional. pesquisas. difundindo a Bahia para o Brasil e projetando o país no cenário internacional dos negócios culturais. a sua representação fragmentada nos romances do escritor e a sua controvertida relação com o surgimento da indústria cultural e turística na década de 19708. como forma de sistematização e profissionalização dos negócios culturais e turísticos no Estado. Essa característica tem sido marcante na trajetória do povo negro-mestiço de Salvador. apesar do rico acervo cultural que criou.

na época. 17 Ao se auto-declarar. – certamente por ter defendido algumas lideranças religiosas do candomblé da perseguição policial. por ter convivido em meio à gente humilde no Cais Porto de Salvador. por sua vez. Da ficção para a realidade ou da realidade para a ficção? é o próprio autor que nos responde: – O meu materialismo não me limita! Neste sentido. . em reconhecimento aos préstimos civis. algo fantástico. de narrar os fatos e contar os acontecimentos. Possibilitando o surgimento de mecanismos de superação. através da criação literária. TAVARES. que conseguiram impor o lugar de onde teriam surgido e adquirido forma literária. selecionado historicamente pela resistência aos embates sociais da coroa portuguesa e aos conflitos doutrinários da religião católica9. A força do texto amadiano reside nesse tipo de abordagem e nessa peculiar maneira de dizer as coisas. com robustez e solidez tais. idiossincrasias de um povo marcado pela exploração comercial e sexual. 87. p. talvez comparável somente àqueles criados pelo arquiteto do concreto e da forma Oscar Niemayer. a sua obra temática também ultrapassaria os limites da arte. 9 Cf. Jorge Amado deixou para a posteridade um projeto literário impregnado de ambientes regionais da Bahia que ganharam notoriedade e status de patrimônio cultural. se apropriado de elementos representativos da cultura nagô-iorubá e os teria modificado para o seu público leitor. o fazer literário de Jorge Amado se constituiu num exercício contínuo de afirmação da identidade afro-baiana. 1996. por receber a mais alta comenda religiosa do candomblé. teria transformado numa linguagem literária inovadora. alcançando o cotidiano. irônico. Uma experiência qualquer vivida pelo autor-narrador se torna. da galhofa e do ridículo. por ter recebido o título de Ogan. os teria “trocado em miúdos” e por conseguinte. assume caracteres do riso. ambiente onde se originou. como porta-voz da comunidade negro- mestiça e afro-baiana. e ter se tornado um Obá em 1961 –. no seu texto. sobrenatural. um novo e definitivo visual. Jorge Amado teria.

o termo “baianidade”. De maneira tão eficiente que despertou a atenção para a Bahia de estrangeiros como Pierre Verger e impregnou efetivamente aquele espaço edificado. Um longo e árduo percurso trilhado em arquivos. acervos documentais públicos e privados e. 1982. 18 1. 11 . não somente para construir o elogio literário do nascente operariado brasileiro. Dentre as inúmeras perspectivas possíveis de orientação desta pesquisa. ganharem o nome de seus personagens (PINHO. à releitura. Utilizou dos recursos disponíveis à época. horas incontáveis dedicadas à reflexão. a ponto de as praças internas. reinventadas com a reforma de 1993. GOMES. utilizado largamente pela indústria do turismo é aqui analisado à luz de documentos teóricos críticos de estudiosos e especialistas no tema e à luz de publicações periódicas e informativas de instituições acadêmicas representativas. p. Além da memória da colonização portuguesa. acima de tudo. político e controverso. à escrita e à reescrita no sentido de tentar desalinhar o “sortilégio encomendado” pelos defensores do racismo e do preconceito contra os afrodescendentes. construto social que foi produzido ao longo dos anos e que. mesmo que seja uísque ou vodca. p. bibliotecas. um sentimento de valorização do sincretismo e da alegria brasileira de viver. mas também para materializar e dotar de endereço e feição concreta o sentido de uma metáfora narrativa que conduziria de maneira facilmente decomponível e decodificável o objeto cultural que chamo de Idéia de Bahia. o substrato originário de um modus vivendi da cultura baiana que possibilitou ao escritor Jorge Amado escrever o seu romance de maior predileção10: Tenda dos 10 Cf. da cordialidade e do “relacional” damatiano.1 Laroiê! Jorge Exu Amado e a transgressão como expressão literária Polissêmico. tem resultado numa grande operação política de aculturação simbólica e de adesão alienada e fantasiosa a “um certo modo de ser baiano”. na falta. aceita um substitutivo. ultimamente. deu forma narrativa e ideológica a um sentimento persistente construído na época de sua formação como escritor. 1. busca-se nesse trabalho reencontrar no ambiente do hiper-estrato que se formou num período aproximado de 30 anos. A obra de Jorge Amado deu ao conjunto histórico do Pelourinho um sentido adicional. (AMADO. PRIMEIRO CAPÍTULO Exu bebe cachaça. 1996). tornou-o representação encarnada da Bahia como Idéia. mas. 17). 1981.

predominantes sobre todas as outras. que abrangem desde o elogio pela valorização da cultura afro-baiana até a acusação de que nela o autor estaria se apropriando de elementos superficiais e fragmentários dessa cultura. em lugar e cenário de espetacularização e folclorização da cruel realidade social em que viviam os negros e as negras de Salvador. no romance ainda ficou registrado aquilo que poderia esclarecer a principal pergunta formulada nesta pesquisa. Tenda dos milagres se constitui numa espécie de manual de referência das principais matrizes culturais e religiosas nagô-iorubás. No caldeirão transbordante de informações midiáticas sobre o legado cultural deixado pelos antepassados e que a indústria cultural e de entretenimento tendem a reproduzir. Nela o autor cria e recria momentos cruciais de embate entre os representantes da polícia: o personagem Nilo Argolo. o delegado auxiliar Pedro de Azevedo Gordilho. expoente da Faculdade de Medicina da Bahia. A sua veia de jornalista- 11 Cidade da Bahia. Sabaji. como mero produto de consumo. com destaque para a região mais famosa do seu centro antigo. históricas e afetivas sobre a cidade do Salvador. assim como para o desenvolvimento de sua obra ficcional. Cf. 1982. para utilizá-la como moldura ou “enfeite” dos seus romances. e que serviram de esteio para a vida política e literária do escritor. surge no decorrer desse discurso introdutório da pesquisa voltada para a obra temática amadiana Tenda dos milagres. A obra de Jorge Amado tem sido objeto de críticas desencontradas. 19 milagres. primeira capital do Brasil. o seguinte questionamento? Em que medida a obra de Jorge Amado se constitui como um elemento de afirmação da identidade do povo negro da Bahia? A força que a literatura de Jorge Amado adquiriu ao descrever. e os líderes religiosos do candomblé: ialorixás (Majé Bassan. Menininha). PINHO. recriar e reinventar a Bahia de outrora teria convertido os ambientes residuais do colonialismo – Salvador é descrita como vera cidade de Exu. 1996 e SEIXAS. à época. os seus principais comandados: Zacarias da Goméia. Velha Cidade da Bahia ou simplesmente Bahia são referências arcaicas. AMADO. 2000. evocativo dos tempos remotos da sua chegada à Cidade da Bahia11 e depositário de sua mais lídima identidade pública e pessoal por representar uma convergência entra a literatura e a vida real. Felipe Mulexê). Cobra Coral e Zé Alma Grande. denominada Pelourinho –. sistematicamente. conhecido como Pedrito Gordo. babalorixás (Procópio de Ogunjá. Aninha. distanciado do seu locus e despido de sua identidade. Olga. .

pois é ligado à criação e ao domínio do conhecimento. a comunicação.12 Sobre aspectos referentes ao culto de adoração a Exu. trabalham nos caminhos. James Amado. embora o IPHAN tivesse determinado a retirada da escultura representativa do orixá. Integrante do Movimento Negro Unificado (MNU). no dia 7 de janeiro de 2008. Significa correr um risco ou de estar numa má situação por não ter recorrido a ele que. a cerimônia referida acima aconteceu à meia. membro efetivo do Ilê Axé Opô Aganju e representante do Grupo Cultural e Carnavalesco Ilê Aiyê. Exu trabalha junto com Ifá para prestar esclarecimentos sobre o destino de cada um e traduzir.noite. Nos debates sobre as situações sociais estabelecidos ou sobre os constrangimentos naturais. em comovido depoimento dado no encerramento do Sarau do XVIII. foi das mais tranqüilas e teve a participação entre outros. p. Segundo Myriam Fraga. Segundo Myriam. teriam por sua vez. construiu um discurso próprio para justificar a similitude com um dos arquétipos de sua representação. Quando se trata de prever o futuro. a mesma permanece no local até a presente data. a sua capacidade objetiva e às vezes reducionista. Siqueira (1998).. que extrapolou o ambiente literário e virou slogan publicitário de acesso ao centro cultural que homenageia o escritor. e saúda a todos e todas com a expressão transgressora ilustrada por uma xilogravura de Carybé: “Se for de paz pode entrar”. este. para os seres humanos. oferece uma descrição etnográfica bastante significativa: (. Exu representa o início de tudo. instituição cultural que tem a sua guarda sob os auspícios do orixá Exu. a palavra dos deuses (SIQUEIRA. Nada se faz nos terreiros sem sua presença e mesmo na cada dos que nele acreditam. juntamente com Ogum. 20 escritor. esta seção trata de um simbolismo que remete diretamente ao culto de adoração expresso ao orixá Exu. Outra marca desse culto é o “assentamento” do “orixá dos caminhos” na “porteira”. A expressão de incertezas humanas. (. representado numa escultura do artista Mário Cravo. 56-7). Maria de Lourdes 12 A Fundação Casa de Jorge Amado.2 Ogó e tridente: Jorge e a desconstrução do simbolismo negativo de Exu Ainda sobre o tema introdutório da pesquisa em torno da relação identitária do escritor Jorge Amado com traços da cultura baiana de matriz afro-brasileira. presente de forma fragmentária na obra amadiana. transformado os fatos reais e históricos em ficção. integrando o cenário pitoresco do Pelourinho. 1. atribuída ao escritor e irmão do patrono da casa..) Ele é o princípio da dinâmica social e da personalidade. ele é a afirmação da liberdade e autonomia do ser humano. instalado no Largo do Pelourinho. . presidente da Fundação Casa de Jorge Amado.. do escritor Jorge Amado e da ialorixá Stella de Oxóssi..) a dificuldade na relação com Exu é não saber tratar com essa realidade no momento propício. 1998.

56-7). e que tem despertado o interesse crescente da indústria cultural. um Orixá privilegiado. oferendas deixadas para Exu. p. Siqueira. Bem ao contrário: ele exige trabalho. ao utilizar um discurso que coloca em evidência elementos próprios da pedagogia “nagô”. 56). ritos e organização em terreiros de candomblé da Bahia. anti-bem. Agradar a Exu é uma “obrigação”. o conformismo. ago Lonã: mitos. compromisso o que ele transforma no direito ao bem que a pessoa espera receber (SIQUEIRA. oferece muitas informações culturais e religiosas e nele o leitor pode encontrar algumas referências diretas e indiretas ao arquétipo do orixá Exu. sob a ameaça de se inverter a ordem das relações estabelecidas e. em seu livro referencial Ago. em cada manifestação literária se reveste de um caráter transgressor quanto às tentativas de superação de velhas expressões culturais e inovador quanto às propostas de reelaborações e ressignificações de um modus vivendi particular. o “deixar o barco correr”. reflexão. . pode-se encontrar com freqüência – a qualquer momento do dia ou da noite – nas encruzilhadas ou nos cruzamentos de ruas. 1998. p.. sobretudo aquelas ambientadas nas tradições nagô-iorubás da Bahia. materiais e sociais. quando foram implementadas as primeiras ações institucionais em defesa do patrimônio cultural brasileiro13. a confiança cega nos Orixás. ver SANTOS. turística e de entretenimento que remonta ao período getulista de 1930. 2005. Ele não deixa qualquer margem para a resignação. a esperança que “eles vão endireitar tudo para nós”. Ele é a positividade da busca. caminhos ou estradas. como também na lucidez de suas conclusões: Exu é aquele que realiza a ponte entre quem lhe confiou a mensagem e a resposta / resultado (opus cit. ao contrário de acreditar-se que ele seja o anti-deus. 13 Para uma melhor compreensão dos aspectos que originaram o desenvolvimento das políticas patrimoniais e turísticas no Brasil. a anti-luz. esforço. A presença marcante da representação desse orixá em cada obra amadiana publicada. 21 Siqueira (1998). A sua descrição minuciosa sobre a relação de Exu com os ritos afro-baianos e que um tratamento que o reconhece como orixá dotado de poderes tais e que a sua primogenitura deve ser sempre considerada e respeitada. mostra-se bem respaldada na literatura afro-baiana e afro-brasileira. causando prejuízos morais. Na Bahia. combatido em algumas regiões da Bahia e do Brasil extensivamente.

o outrora temível orixá desprovido de sua força simbólica ancestral. parte do seu conteúdo simbólico africano e afro-brasileiro originais. erroneamente. na qual aborda os diversos aspectos da tradição nagô-iorubá. na “terra do axé”. com uma certa convicção. e muito respeitado pela sua capacidade de inversão da ordem. considerando a relação simbiótica com o diabo ou demônio cristão. ao tradicional arquétipo do orixá Exu. talvez fosse mais fácil. representantes de segmentos religiosos fundamentalistas como a Igreja Universal do Reino de Deus. para o bem. muito rico do ponto de vista cultural. vendidos diariamente aos turistas como kitsch amadiano. inclusive entre os adeptos tradicionalistas das religiões que cultuam Exu. por outro. de se-lhe atribuir. pois. por outro lado. desde os tempos imemoriais. palestras. o “orixá dos caminhos” como também é tratado pelo povo-de-santo.14 Jorge Amado teria deixado um importante legado literário. parece perder na atualidade. realmente. Todavia. ostensivamente. Para o mal. poderes mágicos eficazes deve ter despertado interesses diversos para o bem e para o mal da própria entidade. apenas como estratégia de marketing da economia capitalista. 22 No ensejo do longo e difícil processo de desconstrução amadiana dos aspectos e atributos negativos relacionados. principalmente na sua obra temática de referência afro-baiana. ainda tem sido duro embate. 1986. cursos e documentários na busca de melhor entender o seu arquétipo e o seu ambiente ancestral. teriam aprendido durante o passado de perseguição. como marketing institucional da Fundação Casa de Jorge Amado e representação ilustrativa de objetos os mais variados como imã de geladeira e abridor de garrafa. Descobrir ou tornar público que a temível entidade das religiões afro-brasileiras tinha. insistentemente. na cidade do Salvador. muitas tendências foram se formando e muitas correntes devem ter surgido nesse ínterim. ainda suscita. teria passado a representar. debates. Exu. demonizar a figura de Exu atribuindo-lhe as piores mazelas sócias brasileiras. A associação do orixá Exu com as forças do mal. Antes restrito aos espaços internos das casas de candomblé. principalmente pela Igreja Católica. . desde quando passou a ser utilizado. as piores imagens e mazelas sociais da cultura cristã. ver CALDAS. antes ambientada nos terreiros de candomblé. que procura. ambientada em pontos estratégicos da velha 14 Para maiores esclarecimentos sobre o fenômeno e possíveis desdobramentos capitalistas na chamada indústria cultural. Se de um lado. é tão antiga que se perde na noite dos tempos.

17). guia de ruas e mistérios. Nele o orixá é transformado em entidade fundadora de uma nova civilização. natural da cidade de Ferradas. Ao demonstrar familiaridade com as liturgias afro-brasileiras.3 Agô. culturais e principalmente as de cunho religioso. orixá dos mais importantes na liturgia dos candomblés. Postado nas encruzilhadas de todos os caminhos. o autor se vale de uma narrativa que utiliza o discurso direto em que o interlocutor- viajante recebe as instruções iniciais do narrador-anfitrião sobre procedimentos. arreliento. Quem guarda os caminhos da cidade do Salvador da Bahia é Exu. 1. Jorge Amado revelou-se também. . ou para aqui se dirigir tangido pela violência ou pelo azedume: o povo dessa cidade é doce e cordial e Exu tranca seus caminhos ao falso e ao perverso (AMADO. gosta de confusão e de aperreio. não sabe estar quieto. o escritor baiano. pois ele é malicioso. típicas da velha Cidade da Bahia. no escuro da noite. com o coração de ódio ou de inveja. p. Título homônimo de um dos livros da pesquisadora maranhense radicada na Bahia. escondido na meia-luz da aurora ou no crepúsculo. estaria contribuindo diretamente para o enfraquecimento do arquétipo do orixá das encruzilhadas e dos caminhos perigosos. inaugural na forma de abordagem e novo na da história literária brasileira e baiana. 1982. considerado do ponto de vista político-literário. a hierarquia dos orixás: sua função e sua necessária utilização. 15 Expressão de saudação ao orixá Exu. utilizada na abertura da cerimônia pública dos terreiros e que se denomina xirê. distrito de Itabuna. Maria de Lourdes Siqueira. No livro Bahia de todos os santos. por muitos confundido com o Diabo no sincretismo com a religião católica. 23 Cidade da Bahia. na barra da manhã. Ai de quem aqui desembarcar com malévolas intenções. normas e etiquetas sociais. também considerado uma verdadeira epopéia afro- baiana. elaborou um discurso grandiloqüente. Contudo a utilização constante de uma imagem plástica de Exu. Exu guarda sua cidade bem amada. mormente. orixá do movimento. datado de 1945. no cair da tarde. conhecedor da estrutura religiosa do candomblé. criada pelo artista Carybé para ser a logomarca institucional da Fundação Casa de Jorge Amado. agô Lonã!15 a presença ancestral do orixá dos caminhos em Salvador No livro Bahia de todos os santos.

culto e fundamento relacionais existentes na África e na Bahia. as conseqüentes adaptações e recriações culturais e religiosas que ocorreram nesse período. parte integrante do livro Iconografia dos deuses africanos na Bahia de autoria do pintor e gravador Hector Paride Bernabó Carybé. “Os negros trouxeram consigo parte da África!”. são exemplos norteadores de estudo neste capítulo. citado acima. hierarquia. mares.). inquices e voduns. seus interlocutores e seus informantes diretos16. onde se pode ver uma relação direta estabelecida entre a paisagem africana. 24 Sobre a presença. florestas. adequados para a implantação do culto aos ancestrais. Expressões do tipo: “Por onde os negros passaram deixaram marcas profundas e indeléveis!”. O seu artigo foi estruturado em quatro partes distintas cujos títulos as identificam nitidamente: A vinda dos escravos. diques etc. Valdeloir “um porreta em embaixadas”. A sua capacidade descritiva e o seu domínio sobre a temática tratada resultaram em informações muito caras e talvez definitivas para a compreensão do legado africano- brasileiro que se formou durante os séculos de escravidão e que vêm sendo recriadas ao longo dos últimos anos de deflagração da resistência negro-mestiça na Bahia. no seu discurso realizado durante o Exame de Qualificação desta pesquisa. pós- República. a contribuição informativa da ialorixá Olga do Alaketu tem uma presença definidora e marcante no texto do escritor Valdeloir Rego. no dizer de Jorge Amado. Na quarta e última parte do artigo Valdeloir Rego voltou sua atenção para o tema da liturgia afro-brasileira denominando-a de Ritos. o culto de adoração e respeito à figura do orixá “primogênito”. constrói o seu texto através de inúmeras escavações no substrato colonial e se enriquece nas tradições orais oriundas de lideranças religiosas como o Obá Aré Miguel Santana e as ialorixás Menininha do Gantois e Olga do Alaketu. cachoeiras. Enquanto o texto amadiano opta pela desconstrução e pela ação literária transgressora. Nela o autor estabelece os rígidos critérios de origem. 16 Segundo a pesquisadora Yeda Pessoa de Castro. o pesquisador e capoeirista Valdeloir Rego deixou uma valiosíssima contribuição etnográfica através do seu artigo Mitos e ritos africanos na Bahia (1980). assim como. denominada O espaço sagrado. o autor identifica as estratégias de apropriação de ambientes naturais (rios. a brasileira e a baiana mais especificamente. Na segunda parte. . a terceira parte trata de forma aprofundada sobre As divindades. conhecido universalmente como Carybé. orixás. abordando nela a sua complexidade e a sua prática cotidiana nos terreiros mais tradicionais de Salvador.

a representação de Exu na obra amadiana surpreende o leitor pela força anti-colonizadora. colonização dos espaços públicos de circulação. ou seja. No entanto. Nessa lógica. o autor apresenta no seu artigo informações objetivas sobre algumas práticas rituais que foram sendo incorporadas no cotidiano da cidade e que passaram a determinar o reconhecimento. descreve. é resultante de um erro de tradução. logo de início. ialorixá fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá. na cidade alta. como lugares referenciais sagrados da religião afro-brasileira. pode ser considerada a cidade de Exu. a denominação original teria sido “Roma Africana”. situados na região que compreende o Porto. por alguns. arreiam-se oferendas e se lhe fazem pedidos para o bem e para o mal. ou melhor ibero-portuguesa-negro-mestiça. O que se observa. utilizando o modelo etnográfico. a cidade do Salvador. pelo poder de subversão e pela 17 Segundo LIMA (1987). posteriormente. como se dava esse continuum ancestral em Salvador. fazem sacrifícios. as encruzilhadas pertencem a Exu. principalmente nos chamados “bairros negros”. é que o autor registra uma ação colonizadora do africano escravizado e do afrodescendente já liberto muito intensa e fortemente marcada pela adequação regional e pela prática cultural. muito próximo do texto amadiano. 25 Para uma melhor compreensão da forte presença e atuação da cultura nagô-iorubá na cidade do Salvador nos inícios do século XX. principalmente essa hora. sobretudo nas horas mais perigosas que são ao meio dia e à meia noite. na diáspora africano- brasileira. também chamada de “Roma Negra” 17. Sob esse ponto de vista. Logo abaixo.1980). contida em LANDES (1967). A paisagem local teria se tornado adequada e propícia. apesar do holocausto negro durante o período colonial caracterizado pela ambição comercial européia e que resultou na estratégia ignominiosa da escravidão africana. o texto ilustrativo de Valdeloir Rego (1980). As ruas. Atribuída a Eugênia Anna dos Santos. porque a noite é governada pelo perigosíssimo odu Oyeku Meji (REGO. a forma de demarcação de território desenvolvida pelos colonos portugueses teria contribuído para uma adequação inteligente e objetiva da aculturação dos africanos escravizados e. . na cidade baixa e o Pelourinho. Obá Biyi. através da descrição de uma cidade negro-mestiça. do exposto acima. Nesses lugares se invoca a sua presença. essa denominação. a pátria iorubana dos nagôs no Novo Mundo. os caminhos.

se constitui num valioso referencial quando afirma: – Exu é o dono dos caminhos. um exegeta ou mesmo um teólogo do candomblé. seria ingênuo pensar que os negros não deixariam marcas profundas durante os séculos de colonização portuguesa. pela a sua capacidade intelectual na formulação de um texto rico e descritivo da população negro-mestiça de Salvador. Beco dos Nagôs e Cabula. o texto amadiano elaborado com requintes de sedução turística. 18 Vários outros locais são citados por Valdeloir Rego como Ogunjá. surge cada vez mais a necessidade de marcar a contribuição africano-brasileira. às vezes. No entanto. resistências e insurgências. São chamados bairros negros pela grande concentração desse contingente populacional . em seu clássico estudo sobre o fluxo e o refluxo de escravos e libertos em África e na diáspora brasileira.). tem características especiais de uma teia literária. em zonas periféricas de Salvador. ao contrário da associação negativa que lhe fora atribuída pela Igreja Católica no passado. giri. um marco literário inaugural da indústria turística na Bahia. com a conseqüente comercialização e espetacularização de elementos da cultura afro-baiana. Giri. pelas igrejas protestantes. orixá da comunicação. a contribuição etnográfica deixada por REGO (1980). é antes de qualquer coisa uma obra literária especialmente dedicada ao culto do orixá Exu. Os assuntos abordados não seriam próprios para serem tratados em ambientes laicos e ditos profanos. Por sua vez. evangélicas e segmentos ditos neopentecostais. Segundo Verger (1987). 18 com o advento da indústria turística e de entretenimento. como poucos etnólogos. . Valdeloir Rego se mostra. uma trama burlesca. ou mesmo afirmar os processos de colonização africana na Bahia. com o desenvolvimento urbano (alargamento de ruas. é o chamado Ojise (mensageiro). das ruas. resultantes de “encontros”. mais recentemente. e. tal a sua compreensão e tal o seu posicionamento sobre os fatos culturais e religiosos que foram sendo deflagrados pelos negros escravizados. abertura de avenidas. Gberu. das encruzilhadas. Contudo. Considerado um manual de sobrevivência numa terra mística e misteriosa. seria igualmente ilusório reduzir a capacidade de resistência à colonização e o potencial criativo dos escravos a eventuais “sincretismos” e ocasionais “simbioses” culturais. também. ou um emaranhado de sutilezas que impede qualquer recusa. Neste sentido. uma obra de referência. à época. construção de viadutos etc. titubeio ou deslize. 26 capacidade inventiva de universalizar o seu domínio na velha cidade da Bahia. pois se tratam de ensinamentos rituais e iniciáticos preservados pelos mais velhos no dia-a-dia das comunidades-terreiros. o livro-guia Bahia de todos os santos torna-se.

o escritor Jorge Amado. tornando-O um grande aliado. para depois então se fazer o que se quer (REGO. identificando-se perfeitamente os lugares onde Exu faz ponto.1980). Ao ser protagonizado no livro amadiano. mais que uma entidade de culto da religião afro-brasileira que impõe respeito e às vezes. independência e propriedade intelectual a ordem estabelecida durante os séculos de colonização portuguesa e constrói uma nova ordem de política social. cultural e religiosa onde a herança negro- mestiça aparece com predominância sobre todas as outras. um escudo. uma armadura eficiente capaz de segurar e aparar sobre Si os resultados – na maioria das vezes surpreendentes – das “travessuras” e “transgressões” literárias que o escritor lhE impingiu e lhE atribuiu. todos os pontos da cidade da Bahia são sagrados. Por outro lado. que lhe fora atribuído pela Igreja Católica. ainda na Idade Média. um sacerdote do candomblé. E Valdeloir continua a sua formulação exegética e litúrgica sobre Exu. assim como o lugar onde há egun (alma) de alguém que negociava. por sua vez. por ser um iniciado. para que outra pessoa não viesse ocupá-lo (REGO. representa mais do que o epíteto negativo de Diabo e Demônio. informando didaticamente o seu leitor: Exu é a divindade por onde tudo se inicia. inclusive a própria escrita do autor-narrador. Exu se materializa no cotidiano das pessoas. temor. Exu é para Jorge Amado mais que um simples orixá. 27 Como se vê.1980) . a realização de atos transgressores. exerce na comunidade religiosa afro-brasileira e que se expande na sociedade multicultural de Salvador. que no seu percurso literário desconstrói com autonomia. que recria cultura e reinventa religião. nas relações institucionais. que gera movimento. estabeleceu uma relação de cumplicidade com o orixá Exu. mas que ao falecer o egun ficou guardando o local. quem cuida dele. desde a simples saudação até um ritual complexo. O autor deixa muito bem marcado o papel primordial que o orixá primogênito da cultura nagô-iorubá. no centro ou afastado da cidade. na cultura. que renova ambientes. . redutor de traços culturais milenares. A presença atuante do orixá permite. Exu é para o escritor uma força propulsora da vida que vivifica as coisas e os seres. na religião e na política. sabedor desses “pormenores”.

Jorge Amado teria feito o seu ebó “bem feito”. escreveu para além do seu tempo. 1990. tem farofa. Nesse caso não seria demasiado. tem dendê. e o romance Tenda dos milagres (1969). o desenvolvimento do livro alcança níveis consideráveis de magia em sua bem urdida trama. caracterizada principalmente. daí se pedir a sua proteção dizendo Exu Oba Iketu gba mi o [Exu rei de Ketu me valha] (REGO. unindo-se por etnias. Deste modo. tem comunidade afro-baiana. Jorge Amado dizer: – Tudo posso naquEle que me fortalece! Todavia. essa pequena área que hoje deu nome a todo o vale (Vale do Bonocô). Como um iniciado legitimado pela comunidade. Em outro ponto da cidade onde existe uma baixada chamada Baixa do Bonocô. numa obra inspirada por Exu e verdadeiramente consagrada ao orixá dos caminhos e das encruzilhadas. GOMES. tem Axé. sofreu com isso duras críticas. tem insurgência. segundo a tradição nasceu em Ifé e se fez ele próprio rei de Ketu. neste sentido. era onde se fazia a maior concentração de negros (REGO. parodiando o apóstolo Paulo. acomodavam-se em determinados locais.. da “forma perfeita e acabada” da tradição literária brasileira. a sua escrita se constitui. p. Por outro lado. p. que é uma corruptela de Igunokô (. nisso ela se mantém até os dias atuais. considerado reiteradas vezes pelo autor como o de sua maior predileção19. vindos do Bohomey. o seu perfil identitário e a sua escolha pessoal dentre o conjunto da sua obra literária. Tem oferenda certa: tem sacrifício. Nisso está a força da obra amadiana. e RAILLARD. antes Gunocô.1980). prevalece nas duas. pela utilização de elementos do sobrenatural e que resulta em encantamento de controversa e eficiente feitiçaria. assim é o romance Tenda dos milagres (1969).1980). 1981. guia de ruas e mistérios (1945). 19 O escritor Jorge Amado deixou marcado em duas das suas principais entrevistas publicadas. tem espera e tem resposta. Sob essa perspectiva fantástica e transgressora. tem cachaça.). Para maior detalhamento. os africanos quando aqui chegaram e foram se libertando. Cf. 11.. . Com Exu no meio. no local chamado Goméia. foi rotulado. que é uma corruptela da Abomei. 28 Por ser o mensageiro entre os demais deuses e. onde se reuniam os povos de língua fon. enfrentou os defensores das “boas letras”. hoje República Popular do Benin. 83. Assim é o livro Bahia de todos os santos. tem negro.

perspectivas. Reapropriando-se do real. mas nele intervindo com agudas incisões. pagou um alto preço com a publicação da sua obra reconhecidamente inovadora e transgressora. em seu livro O romance social brasileiro. ofereceu-lhe matéria prima. muitos frutos. reside na capacidade de fazer rir através de uma narrativa simbólica sobre os costumes de um povo sofrido. Jorge Amado representa uma espécie de síntese transfigurativa do Brasil do século 20 (ARAÚJO. cor de cobre. da Bahia mítica ou do Brasil da periferia e da servidão – urbano ou rural – . dos costumes políticos e sociais. 75-6). Jorge Amado. com argumentos fortes e decisivos: Ao Jorge Amado contrário à erudição de gabinete se concentra. assunto inesgotável para escrever com “impulso” e com coerência estética . não apenas como narrador autoral onisciente. atravessadas as personas pelo intenso e extensivo afeto do romancista. p. da poeticidade afro-baiana (a Cidade da Bahia transformada em extensão globalizada da África e. Atingido pela crítica justa de ARAÚJO (2008). farol do entendimento). Segundo Benjamim Abdala Júnior (1993). deixou registrado um contributo no qual descreve traços definidores de sua atividade como romancista: Narrador por impulso e empatia com as personagens que movimenta. no entanto. dos conflitos ideológicos. por outro lado. pondo em cena impulso e empatia particularmente exercitados quando trata. em sua inteireza como escritor. o escritor Jorge de Souza Araújo (2008). recebeu muitas láureas e continuou desafiando as tradições acadêmicas com as “novidades” de uma literatura de forte apelo popular e marcadamente identitária. Jorge Amado teria sido contemplado. 74). porto de mistério. marginalizado e historicamente excluído da sociedade institucionalizada oficialmente. a obra amadoana pode ser lida na amplitude de suas projeções. 2008. 2008. no dizer do próprio romancista. flor da mulataria. especialmente. Essa realidade. permeada por sua natureza de colorido mestiçamento étnico e cultural (ARAÚJO. cidade perfumada de pimenta e alecrim. 29 Sobre o perfil literário de Jorge Amado. apura e contrapõe o romancista pulsando de emoção e força dionisíacas. esse continuum ancestral bastante arraigado na sua vida pessoal. A sua força. através de sua obra Floração de imaginários: o romance baiano no século 20. na obra referida acima. ainda que tardiamente. colheu. p. prospecções e retrospectivas e como emersões das bases civilizacionais da visão neo-barroca da paisagem urbana de Salvador.

prestigiando-as. posteriormente. também. 30 nas páginas dos jornais locais. ministro leigo de vários terreiros. além de Ogan. A representação literária da presença atuante do orixá dos caminhos. característica essencial de um típico griô. de uma tradição. Jorge Amado não se enquadrou em padrões estéticos e valores previamente estabelecidos pelas escolas literárias tradicionais. Jorge Amado é Obá Arolu. também. principalmente quando procura transpor fatos do cotidiano para a literatura e o faz de maneira realista e factual. resultando em verdades mitificadas e mitos reificados. p. das ruas e das encruzilhadas é. se confunde com o jornalístico. uma mentalidade “própria de ser baiano”. também utilizada nesse período. livre de pieguismo. um adorador de Exu. ás vezes. É inegável a sua atuação em defesa das religiões negras da Bahia. seguida da indústria cultural e de entretenimento que se desenvolveram nas últimas três décadas. . utilizando como forte atrativo e referencial a obra amadiana. A vocação especial de contador de histórias. atuando como jovem repórter. marcadamente a de temática afro-baiana. como estratégia de marketing político que se notabilizou nacionalmente. de uma crença. de cultismo e gongorismo. A literatura de Jorge reflete o seu pensamento libertário e materialista. 21). 1996. pela estética e pela crítica. Atualmente. conseqüentemente. lhe proporcionou. o desenvolvimento de um estilo literário peculiar. entronizando em seu lugar devido as grandes figuras negras de nossa história que não constam nos manuais oficiais e que somente agora começam a merecer memórias com apoio interessado de televisões estrangeiras (TAVARES. ministro de Xangô do Axé Opô Afonjá. como romancista. Na particularidade do culto expresso ao orixá Exu. A sua utilização fragmentada como cartão postal e como representação da realidade local teria criado. os inúmeros livros que publicou em sua longa carreira literária. o escritor Jorge Amado deixa muito bem marcada a sua experiência como jornalista. termo aqui empregado na concepção marxista. O seu texto literário. difundindo sua beleza. segue o seu curso natural e ainda encontra fortes resistências. é a chamada “baianidade”. Como um iniciado. uma personificação de uma mentalidade. barreiras e incompreensões pela sua estreita ligação com a indústria do turismo. e.

e finalmente obá. 1969. principalmente. 83). “Acabe com este Santo Pedrito vem aí Lá vem cantando ca ô cabieci Lá vem cantando ca ô cabieci. 31 SEGUNDO CAPÍTULO A luta de toda a minha vida contra o racismo é uma luta que apóia diretamente a religião negra. eu já tinha outros títulos: fui ogã de Oxóssi no candomblé do Procópio. legendas e mitos).”. através do seu artigo intitulado “Acabe com este santo.” (AMADO.1 “Ogun kapê dan meji”: candomblé.. 191). com os gêneros literários de apelo fantástico (fábulas. 1990. durante longo período. conhecido universalmente na Bahia por Pedrito Gordo. desde os finais do século XIX. políticas e sociais que teriam reforçado os níveis de preconceito racial vigentes. ogan de Iansã no candomblé de Joãozinho da goméia. metonímias. . em defesa da religião do candomblé e representado através de uma cena memorável. personificações). p. Evidentemente por essa razão fui designado. a etnomusicóloga alemã Ângela Lühning (1995/1996). de forte conteúdo argumentativo que mescla a utilização dos recursos estéticos de linguagem (metáforas. Sobre esse aspecto que marcou a vida e a rotina da cidade do Salvador.(AMADO. pelo delegado auxiliar Pedro de Azevedo Gordilho. oferece uma grande contribuição para o entendimento das circunstâncias históricas.. p. luta e resistência num sortilégio amadiano A memória recente dos principais terreiros de Salvador ainda guarda registros da ação implacável de perseguição policial aos líderes religiosos do candomblé (ialorixás e babalorixás). Este capítulo analisa o importante contributo literário criado pelo escritor Jorge Amado no romance Tenda dos milagres. 2. Pedrito vem aí. um candomblé de caboclo. acrescido de informações e de acontecimentos históricos. apud RAILLARD. liderada.

presente nas redações dos jornais da época. em terceiro. mesmo quando se concedeu licença aos negros para divertirem ao som monótono do batuque. a coibição prepotente do poder do senhor que não admitia no negro outra vontade que não fosse a sua.”’’ “Galinha tem força n’aza o galo no esporão Procópio no candomblé Pedrito é no facão” (AMADO. pela sua deliberada oposição ao negro e ao mestiço. tais foram os verdadeiros motivos porque. contundentes e reveladoras de uma realidade histórica que afligia sobremaneira os afrodescendentes ligados ao culto religioso e práticas culturais consideradas violentas ou sensuais como a capoeira e o samba-de-roda . O tema da perseguição policial. favorável às teorias racistas de Auguste de Gobineau. Apesar de estar relacionado na obra amadiana através do personagem Nilo Argolo. o personagem real Raymundo Nina Rodrigues. o temor supersticioso de práticas cabalísticas de caráter misterioso e desconhecido. de contínuo. mostra-se no texto que se segue. aliás bem fundado de que as práticas e festas religiosas viessem obstar a regularidade do trabalho e justificassem a vadiagem. em segundo. “Procópio tava na sala Esperando santo chegá quando chegou seu Pedrito Procópio passa pra cá”. “Não gosto de candomblé Que é festa de feiticeiro Quando a cabeça me dói Serei um dos primeiros. o receio. os candomblés eram. em primeiro lugar. 191-2). p. como ficou registrado em trovas como as que foram citadas acima. que representa o anti-herói. dissolvidos pela violência. teria sido explorado exaustivamente nos ambientes populares e teria chegado aos cordelistas e cantadores. pelos quais os africanos e afrodescendentes foram submetidos durante séculos: O medo do feitiço como represália pelos maus tratos e castigo que lhe eram infligidos. 32 prolongando ainda mais o processo humilhante a que os negros foram submetidos com o regime da escravidão. com uma visão mais ampla dos processos ignominiosos de escravidão. os santuários . 1969.

trouxe-lhe uma marca indelével de xenofobismo aos africanos e aos afrodescendentes. obrigado à vida inteira. 10). na sua trama literária. o território do mito e da fantasia. O autor se teria deixado conduzir pela inspiração livre e criativa. que ainda no século XXI. através dos perfis biográfico. procurou situar o leitor do ponto de vista histórico. p. preliminarmente. A sua adesão açodada às teorias racistas do século XIX. expressas no aparato policial que por si só já se constitui. 2005. Talvez. durante o regime da escravidão. subsiste ainda hoje na memória do negro e subsistirá por longo tempo a lembrança das perseguições de que foram vítimas nas suas crenças. o escritor Jorge Amado construiu em Tenda dos milagres. reforçando o conteúdo dramático da cena de forma mágica e envolvente em cada um dos personagens e dando mais ênfase nos atributos físicos e nas suas principais características de forças antagônicas. um percurso literário estratégico e argumentativo. em 1937. Apesar desse traço com características identitárias da população negro-mestiça a imagem de Nina Rodrigues assumiria um visual mais forte e negativo. preparando o leitor . Mesmo liberto. sofre as conseqüências e sutilezas do apartheid instaurado no Brasil desde então. polarizando-os de forma extravagante e caricatural. durante a realização do 2º Congresso Afro-Brasileiro da Bahia. com uma lucidez científica incomum. porque a lei tinha então a missão de manter esse regime (RODRIGUES. intimamente associadas no seu espírito ao temor de confessá-las e das explicações a respeito (ibdem. em intimidação e a aparente situação indefesa do líder religioso Procópio de Ogunjá. físico e psicológico. o negro não podia encontrar na lei proteção e amparo para a livre manifestação das suas crenças. 33 violados e os fetiches destruídos. formado por antagonismos marcantes nos personagens e estabeleceu paralelos estruturais bem definidos. quando se lhe prestou um verdadeiro tributo pelo pioneirismo nos estudos africanista na Bahia. E Nina Rodrigues no texto introdutório do seu clássico Animismo fetichista dos negros baianos (1995). p. 11). Ao instaurar. impregnado de preconceito racial e purismo étnico arianista. a dissimular e a ocultar a sua fé e as suas práticas religiosas. quase solidária: De tudo isto resultou que. esse tipo de posicionamento tivesse inspirado a defesa do seu discípulo e fiel seguidor Arthur Ramos.

atirou longe os sapatos. estarrecido. Exu. Ojuobá entra no contexto como juiz imperativo absoluto. Exu! Fui tudo muito rápido. o matador de Manuel de Praxedes. Ojuobá ou o próprio Exu conforme opinião de muitos. ogun em fúria. 1969. fraturada a base do crânio. digressões e pormenores fortuitos. Zé de Ogun deu um salto e um berro. o bom gigante das alvarengas e navios. mas que têm o efeito de aumentar a tensão e o interesse do leitor. nos instantes finais de sua vida.. dan pelú oniban! (AMADO. no meio do urro desmaiou. encontrou pela frente a Pedro Archanjo. Do tamanho de um sobrado. as mãos de morte. os olhos de assassino. nessa hora exata. conhecidas no ambiente ritual interno dos terreiros como sortilégio de ofó. e no momento exato da catarse profere as palavras mágicas. o autor conviveu mais proximamente com algumas lideranças religiosas do mundo afro-brasileiro que também moravam no local. Ojuobá disse: Laroiê. 1969. na objurgatória fatal! – Ogun kapê dan meji. 34 através da narrativa com requintes de suspense. de volta do horizonte penetrou na sala. no santo sua força duplicava. para o embate final da trama mortal. Nesse episódio o protagonista do romance Pedro Archanjo. e que lhes foram reveladas e confiadas pela temível sacerdotisa do terreiro de Xangô Majé Bassan. Ogunhê! gritou e todos os presentes responderam: Ogunhê. o negro Zé Alma Grande parou ao ouvir o sortilégio. mãe-de- santo dele e de Zé Alma Grande. A cabeça enterrou-se no pescoço. Zacarias da Goméia ia atirar. Quando Zé Alma Grande deu um passo em direção a Oxóssi. enriquecida de comentários. defunto aos pés do delegado. dentre as quais se . Contam que. girou com ele como se fosse um brinquedo de menino. Uma catarse prolongada pela descrição minuciosa de cada cena. rotos os ossos da espinha. (. rodopiou na sala. A voz se abriu imperativa no anátema terrível. partiu para Pedrito. não serviu pra briga nunca mais (AMADO. Nessa época. não teve tempo. Suspendeu-o no ar. as mãos de tenazes eram duas cobras: Zé Alma Grande. virou orixá. 195-6). meu pai Ogun! Ergueram-se os braços dos orixás. A relação de Jorge Amado com o candomblé remete ao período da sua juventude. 195). p.) com a mão direita Zé Alma Grande segurou Samuel Cobra Coral. levou um ponta pé nos quimbas. de cabeça para baixo. Depois com toda a força o atirou no chão.. p. quando morou na região do Pelourinho e atuou como repórter policial nos jornais Diário da Bahia e O Imparcial. o braço de guindaste.

11). homonimamente. remete para um outro ambiente diverso de Salvador. como algo espontâneo. Essa experiência humanitária de solidariedade e seguida posteriormente. quando lançou o polêmico e controverso romance Jubiabá. Ainda na fase inicial de sua carreira como escritor. que foi libertado por ele inúmeras vezes da delegacia (AMADO.20 Nele o autor introduz pela primeira vez na sua 20 A utilização do nome Jubiabá como título de seu romance provocou uma onda de protesto nos jornais da época. talvez. apud GOMES. de um compromisso político e social teria gerado insatisfação. o que permite entender que a sua ligação com a religião do candomblé é mais remota do que aquela obtida no Pelourinho. O convívio ao qual se refere Amado. seria reinventada artisticamente. Suas declarações se mostram sempre pontuais. Em todo caso. certamente teria ficado de forma latente na vida do jovem escritor e.) Desde criança eu vivo misturado como o povo dos candomblés (GOMES. Jorge Amado não se furta em deixar marcada a sua vocação identitária e o seu envolvimento. p. fundadora do Axé Opô Afonjá e o lendário babalorixá Procópio de Ogunjá. mais tarde. sempre se manifestou favorável à sua manutenção como religião afro-brasileira e pela superação de obstáculos sociais e culturais historicamente imbricados nesse construto. no romance considerado pelo autor como o de sua maior predileção. temporariamente. Embora tivesse assumido. de forma recriada. isso teria ofuscado um traço característico da sua ambiência temporária no Pelourinho e. 1981). Numa entrevistada concedida ao professor Álvaro Cardoso Gomes (1981). postura de ateu e materialista. em suas raras entrevistas sempre fez questão de marcar as origens do seu envolvimento com a religião do candomblé. o título do romance com o nome do “encantado” de Severiano. com as matrizes culturais africano- brasileiras. Jorge Amado estreou uma temática nova em 1935. por conseguinte. comoção e revolta. Jorge Amado.. quando trabalhou em jornais locais. tendo Severiano Manuel de Abreu como principal alvo das discussões e debates pelo fato de coincidir. desde cedo. tivesse determinado um certo distanciamento da realidade sócio- cultural da “sua gente”.. reaparecia na sua obra ficcional. principalmente com um posicionamento firme. já signatário de uma certa fama no Brasil e no exterior. e sempre reveladoras de um sentimento mais profundo e mais identitário com a cultura afro-baiana. 35 destacam o respeitadíssimo babalaô Martiniano Elizeu do Bomfim. a iyalorixá Eugênia Anna dos Santos. típico do Partido Comunista. Sobre esse tema o . Jorge Amado afirmou taxativamente: (.

Balduíno já aparece no contexto do cenário amadiano com capacidade nata para o exercício da liderança entre os demais.2 Ojuobá: Pedro Archanjo na encruzilhada do materialismo A estreita relação da literatura de Jorge Amado com as expressões populares mais genuínas do mundo afro-baiano. tinha uma clientela muito concorrida e exercia uma liderança legítima e respeitada. 36 obra literária o negro como protagonista e herói. a liderança comunitária e o falecimento em 28 de outubro de 1937. nele. concluiu. Nesse romance amadiano a religiosidade afro-brasileira é tratada de uma forma distanciada. ver BRAGA. se resume no desejo de superação dos limites sociais em busca de um lugar ao sol.) Da mãe Antonio Balduíno não sabia nada” –.. que às vezes se confunde e se mescla com o próprio texto. antropólogo Júlio Santana Braga reservou um capítulo especial em seu livro Na gamela do feitiço (1995. pode revelar uma profunda identificação do autor com essa cultura. polemizou ao confrontar elementos da cultura local com o movimento sindical e trabalhista que surgia no Brasil como marco histórico e social. A trajetória de Antonio Balduíno remete à história de vida de milhares de afrodescendentes que ainda vivem nos ambientes sociais construídos resultantes das solidariedades familiais e comunitárias dos bairros de ajuntamento negro.. no romance Tenda dos milagres. do religioso Severiano Manuel de Abreu. sobretudo com informações jornalísticas da época. 123. tratado respeitosamente por Jubiabá. disse: - Baldo. cresceu órfão e sua tia Luíza fora-lhe pai e mãe -. “Apesar de seus oito anos Antonio Balduíno já chefiava as quadrilhas de molecotes que vagabundeava pelo morro do Capa Negro e morros adjacentes (AMADO. mais adiante complementa a origem familiar do seu personagem: “(. .. 21 Sobre a fama. A sua biografia. trata do assunto com riqueza de detalhes. demonstradas de uma maneira peculiar. Jubiabá21. no entanto. 93-124).7 ). p. que fora jagunço de Antonio Conselheiro. e.. Sobre o perfil do protagonista.) – De seu pai Antonio Balduíno apenas sabia que se chamava Valentin.(. nele o autor. p... 2. p. 1935. 1995. pai-de-santo estabelecido e muito respeitado. residente no morro do Capa Negro. do ponto de vista identitário.

Desse modo. essa comunidade filia-se como potencial legatária da produção literária que lhe representou. em sua passagem por Salvador: No encontro realizado na casa do antropólogo e indigenista Ordep Serra. essas marcas não teriam sido suficientes a ponto de enquadrá-lo numa dessas estéticas literárias. 37 Por assumir a função social de porta-voz de uma comunidade cuja população se define por ser formada. assim como sérias acusações por parte do ativista político Abdias do Nascimento. Jorge Amado se configura também com um escritor “negro”. Funciona também 22 Cf. Mas. sem que provocasse debates entre pesquisadores e estudiosos. tratamento dado ao religioso Severiano Manuel Abreu. majoritariamente. ao circunscrever parte de sua obra ficcional nos limites de uma zona sociocultural chamada de “negritude” e que reflete uma determinada época de conscientização política de algumas lideraças negras. a escritora e pesquisadora gaúcha Zila Bernd (1988). em territórios e estética próprios: Mais do que proporcionar prazer estético. Reportagem intitulada Deputado negro reitera crítica a Jorge Amado. logo após a publicação de seu primeiro romance com temática afro-baiana. o escritor negro pretende oferecer aos membros de seu grupo a consistência mítica de que eles necessitam para fundar sua identidade. Essa contribuição teórica permite traçar um caminho que poderá definir melhor o entendimento sobre a importância da literatura amadiana no contexto da literatura nacional e internacional. Por sua vez.22 Na mira do Movimento Negro Unificado desde os inícios da década de 1970. assim foi em 1935. por negros e mestiços. publicada em O Estado de São Paulo. delimita-o por conseguinte.disse Abdias do Nascimento . Por outro lado. além de ser considerado um autor “regionalista” e de “costumes”. ela. Amado já deveria estar acostumado com censuras e acusações. quando teve que se retratar.é o êxito que o escritor Jorge Amado alcançou em todo o mundo como representante de uma cultura negra de origem africana. diante das acusações de apropriação do nome “Jubiabá”. exatamente o oposto disso tudo (NASCIMENTO. dia 15 de novembro de 1983 . Mas o dado mais escandaloso . ao enquadrar determinado escritor nesse parâmento. publicamente. quando ele é. Nesta perspectiva. 1983). criou um perfil identitário do escritor negro e a sua respectiva atividade como elemento fundante de uma marca literária. o deputado afirmou que a Bahia tem vergonha do que ela é e oprime sua própria identidade ‘numa situação meio esquizofrênica’.

cuja construção literária baseada . nesta pesquisa. ele próprio gerador de mitos. nem cientificamente. neste caso. Sobre esse aspecto marcante na sua obra ficcional. e a sua representação fragmentada principalmente. Thomas. ainda são discutíveis no mundo acadêmico. apesar de seus traços físicos serem predominantemente brancos. alta taxa de tributo acadêmico. Thomas apud BERND. apresentada como modelo de adequação num ambiente histórico e cultural de adversidade. V. 54-55). o escritor Jorge Amado ao ser considerado como “escritor negro”. a Negritude não possui verdadeiramente realidade conceitual.V. pagando por isso. seria enquadrada numa trajetória de legitimação da cultura negra. parece enfraquecer o empenho de poetas como Aimé Cesaire e líderes políticos como Leopold Senghor e Abdias do Nascimento. e é por isso que a poesia da Negritude por sua vez nutre-se de mito (L. o perfil biográfico do autor de Tenda dos milagres. O desconcerto provocado pela assertivda referida acima. nem filosoficamente. tão propalada e ainda assim discutível. pode definir-se com rigor o termo “negritude”: realidade histórica e psiclógica. em falsidade. 38 como instrumento elucidativo sobre um projeto literário que procurou inovar no conteúdo e na forma. considera-se de grande relevância. decrito acima por BERND(1988)? Este visual que Jorge Amado passaria a assumir. A sua relação identitária. 54). afirmando possuir o munus necessário para se posicionar como escritor afro-baiano e consequentemente. Thomas conclui o seu racicínio com uma justificativa compensatória do ponto de vista ideológico: É por isso que Negritude é um mito. citado por BERND(1988. a sua literatura sob esse aspecto. no personagem Pedro Archanjo Ojuobá. por fim. a certa altura de sua carreira literária. constituir-se-ia. No entanto. p. a sua utilização como elemento essencial na construção de personagens protagonistas e secundários das tramas literárias criadas no imaginário do escritor. o “ser negro”. um exemplo a ser seguido pela capacidade de superação dos limites e obstáculos que a distingue das outras. justificaria extensivamente. 1988. Os mitos são elementos fundadores das culturas e nelas alimentam a sua existência simbólica. posteriormente. A estreita relação da literatura de Jorge Amado com as expressões populares mais genuínas do mundo afro-baiano e. mito não implica. Ainda assim. Segundo L. Nesse sentido. afro-brasileiro.

39 na história e na cultura popular. entre outros. 24 Ver SANTOS. p. Miguel Santana. como ficou dito em uma de suas entrevistas: “[Pedro Archanjo] é a soma de diferentes pessoas”. e na década de 1930. participou da reinauguração da Casa de Yemanjá. representando o Ilê Axé Opô Afonjá. dando-lhe munus para escrever os seus romances e inserir neles o mundo afro-baiano de sua época e a gente com a qual ele conviveu e que certamente passou a habitar no seu imaginário de uma forma muito particular e definitiva. “Pedro Archanjo vem a ser. Personagens reais e ficcionalizados do mundo da velha Cidade da Bahia surgem de maneira surpreendente e inusitada nos romances amadianos como legitimadores de uma ordem social e como porta-vozes de mensagens ideológicas do escritor. p. Já foi dito anteriormente que entre os romances de Jorge Amado publicados na década de 1930. 1962. realizado no Instituto Geográfico e Histórico. pois.. agoniado por essa contradição”. Aydano do Couto Ferraz. Centro Histórico23. Isso acontece principalmente nos romances que abordam temas sobre a questão racial e a questão religiosa. 1981. morou durante um curto período.. participou ativamente do II Congresso Afro-Brasileiro da Bahia. a Jorge Amado. Jubiabá se constitui um modelo literário muito elogiado pela crítica da época. um auto-retrato de Jorge Amado. .65). 32. Segundo o antropólogo Ordep Serra (2000. Em 1959. Em 1945. pode muito bem derivar de elementos definidores de sujeitos reais como Manuel Querino. Martiniano Eliseu do Bomfim. Em 1936. O escritor Jorge Amado teve um convívio direto com as camadas mais pobres e marginalizadas de Salvador. identificáveis mais sutilmente. no Ilê Axé Opô Afonjá e em 1937. ao menos em parte. Esse perfil biográfico influenciaria mais tarde. Martiniano Eliseu do Bonfim (babalaô) e Eugênia Anna dos Santos (iyalorixá).9. e um 23 Cf GOMES. p. então Deputado Constituinte conseguiria a aprovação no Congresso Nacional do Projeto de Lei pela liberação do culto afro- brasileiro. no seu estudo intitulado O sagrado na obra de Jorge Amado: a cidade de todos os santos. fez o discurso de abertura do IV Colóquio Luso-Brasileiro. num casarão do Pelourinho. juntamente com o escritor Édison Carneiro. numa iniciativa da então Universidade da Bahia24.

32). mais especificamente. que pensa segundo o modelo positivista. Nele o escritor assume. que prescreve e define o negro baseado nas teorias de Gobineau. ao defender uma posição política e social frente ao racismo. o escritor estabeleceu paralelos rígidos entre o erudito personificado no doutor Nilo Argolo. passaram a considerar algumas marcas editoriais colocadas intencionalmente pelo autor.) Sua força de escritor reside na relação muito próxima entre sua obra de ficção e a realidade cultural da Bahia. 1993. assume o papel de protagonista do romance e herói do seu povo. 40 parâmetro conceitual para a inserção definitiva da temática afro-brasileira e. Procurando ambientar os possíveis traços identitários presentes na narrativa amadiana.. além de ser o escritor brasileiro mais conhecido e traduzido no exterior. p.. autores mais recentes. a temática da identidade afro-baiana e afro-brasileira extensivamente. 1989. em que a contribuição africana é essencial.(. principalmente no romance Tenda dos milagres. sobre a célebre crítica publicada no jornal A Tarde no dia 9 de setembro de 1989. representado por Pedro Archanjo Ojuobá. conquanto não se esteja aqui defendendo o conceito de raça adotado por Jorge Amado.25 O negro. Magnífico Reitor. representado através da Faculdade de Medicina e o Pelourinho como representação simbólica da sede da Tenda dos Milagres idealizada por Jorge Amado como universidade aberta popular e multicampi. representado através do personagem Antonio Balduíno. despojados das técnicas tradicionais de análise estrutural e de conteúdo. . Essa cultura mestiça. mais nitidamente. e o saber popular. Levenson. ficaria latente e reacenderia a chama outra vez em 1969. Ao demarcar o território baiano como núcleo pensante do país. riquíssima. afro-baiana no cenário da literatura nacional e internacional. sob o pretexto de epígrafes e co isso passaram a interpretar a obra com o auxílio dessas informações implícitas nos fragmentos apostos. ano da publicação do romance Tenda dos Milagres. Essa marca inaugural. como um atraso social e cultural. Jorge Amado é o romancista mais popular do Brasil. CAMUS. é apresentada pela perspectiva da população marginalizada (ABDALA. retirados por sua vez de narrativas outras que tentam dialogar e 25 Cf. cuja vocação comunitária adquiriu um sentido universal com a adesão solidária do prêmio Nobel norte americano James D. tema histórico e área de seu domínio.

1990. vereador. p. que. a pesquisadora e estudiosa da obra amadiana Rita Olivieri-Godet. No entanto. 115). professor do Liceu de Artes e Ofícios e membro do Instituto Geográfico e Histórico26. sua editora na França. Em outro momento. Obá Aré e ele próprio. do estudioso das questões do negro no Brasil (AGUIAR. 1955. Escreveram-se louvores à sua memória. a partir das informações contidas nas margens do livro. a sua memória recriada e reinventada no romance Tenda dos milagres ficaria marcada para sempre e de forma eloqüente. a figura de Manuel Querino. do artista devotado ao seu trabalho. Por sua vez. que entre as pessoas que inspiraram Pedro Archanjo estava Miguel Santana. do exemplar chefe de família e amigo dedicado. numa longa entrevista. 80-1. como ele mesmo declarou. Nas primeiras estava fadado ao fracasso. ficou órfão em tenra idade. Quanta vez deve ter ouvido a frase feita e ainda corriqueira: Este negro não se enxerga! (EDELWEISS. do defensor das causas dos trabalhadores e operários. dos sem nível. 2004. Faleceu em 14 de fevereiro de 1923. O depoimento que se segue define muito bem o ambiente social freqüentado por Querino: Manuel Querino foi a estranha resultante das suas aspirações sociais reacionárias e do seu pendor para os estudos tradicionalistas. 41 ratificar o discurso inicial que precede o prólogo e que oferece pistas importantes para o leitor. 5). bastante significativa na primeira metade do século XX: foi escritor. 1946. p. o autor informaria a Alice Raillard27. p. como assinalou acima. Foi com o propósito de ampliar a sua leitura amadiana que Olivieri-Godet (2004). em 28 de julho de 1851. 5). é a soma de diferentes pessoas (OLIVIERI-GODET. A partir de então os seus trabalhos começaram a ter certa notoriedade na Bahia. seus pais morreram vítimas da famosa epidemia de 1855. . nascido em Santo Amaro da Purificação teve uma atuação política e cultural em Salvador. já citado neste trabalho. 27 Cf. Os seus biógrafos contaram a história do humilde professor negro. quando introduziu a temática sobre a 26 Manuel Raymundo Querino nasceu em Santo Amaro-Bahia. baiano de liderança marcante. RAILLARD. p. fez um estudo minucioso do romance Tenda dos milagres. Dela é a seguinte conclusão: Amado serve-se da vida e obra de Querino como mais uma fonte inspiradora para construir seu personagem Pedro Archanjo.

Jorge Amado receberia o título religioso de Otun Obá Arolu. Isto seria no meu entendimento. 28 Pertencendo a uma antiga família-de-santo e tendo sido. lesse orixá (nos pés do santo)” (LIMA. o assobá Didi: “Iyá Obá Biyi. na Sociedade Cruz Santa do Axé Opô Afonjá. cujo título de Obá Aré. ogã confirmado de Omolu no Engenho Velho. tradicional terreiro que funciona no bairro de São Gonçalo do Retiro. 9). mulherengo. e você eu quero que fique ao lado da Ossi Dagan. desenvolveu com propriedade no ensaio Jorge Amado e a escrita da margem na figuração identitária. Por outro lado. lhe fora atribuído em 1936. guia de ruas e mistérios e Teresa Batista cansada de guerra. bedel da dita Faculdade de Medicina. pela ialorixá fundadora Obá Biyi. disse: Obá Aré. na Baixa do Sapateiro e mais precisamente no Ilê Axé Opô Afonjá. pardo. o grande terreiro de São Gonçalo do Retiro. seria mais tarde. nelas o homenageado aparece como sujeito empírico. e que era descendente direto de linhagem real e sacerdotal da nação africana denominada Tapa. que fora batizado de Pedro Archanjo 28. festeiro. real. o autor desloca para o centro as classes sociais historicamente excluídas e marginalizadas. 1996. em suas determinações finais. nascido na região do Pelourinho em 29 de setembro de 1898. mais tarde. poliglota. no Mercado Modelo. pesquisador e escritor autodidata. sedutor. local aonde. em Salvador. em 1961. já com a fala um pouco incompreensível. como relata o seu neto-de-santo. A importância de sua participação naquela casa de Xangô pode ser avaliada pelo cargo que lhe foi atribuído pela Ialorixá Aninha. o seu sobrenome ao protagonista Pedro. um dos primeiros Obás de Xangô . É a chamada escrita da margem que Rita Olivieri-Godet (2004). . o cerne da utopia amadiana. fundadora do Opô Afonjá. representa o ambiente popular que se realiza na espontaneidade e que também questiona a hegemonia da academia. Conforme descreve Olivieri-Godet. propondo uma nova ordem de justiça social. A figura de Miguel Santana ficaria eternizada em outras obras de Jorge Amado como Bahia de Todos os Santos. Obá Abiodun fica como presidente da Sociedade.com o nome de Obá Aré. desde moço. p. Miguel Archanjo de Sant’ Anna. A estreita relação do cidadão Jorge Amado com o líder religioso e empresário Miguel Santana teria sido construída no chamado ambiente da vida popular da Bahia: no Porto de Salvador. religioso. enquanto no romance Tenda dos milagres ele representa uma das facetas mais marcantes do protagonista e que se resume nas expressões singulares do ser boêmio. 42 condição materialista do protagonista do romance. Pedro Archanjo Ojuobá. face ao contributo popular que resiste em meio às adversidades sociais. emprestaria ainda.

um socialista. mormente as de gênero e raça. na realização de uma sociedade justa e fascinado por este ideal. é um Obá de Xangô. é descrita de forma muito bem apropriada. um homem que se dedicou a lutar pela grande utopia socialista.. O romance Tenda dos milagres foi escrito numa época de efervescência cultural e de conturbada ambientação política no Brasil e no exterior.. mas. 43 A respeito da estreita relação do escritor Jorge Amado com o herói do romance Tenda dos milagres. ao mesmo tempo. um homem empenhado na revolução futura. ao mesmo tempo é um ogã. Jorge Amado é um materialista dialético. A citação transcrita que se segue. Jorge Amado. é apaixonado pela divina beleza de Exu (SERRA. Ordep Serra (2000). por (SANTOS.. p. numa região de fronteira. não deixaria passar despercebidos os traços de uma consciência contemporânea ambientada na década de 1950. Essa tendência. como outros escritores de sua época. 2000. é representativa desse conflito que situa o personagem Pedro Archanjo Ojuobá. ao desconstruir seu discurso para trazer à tona o reprimido.. em que cita o filósofo francês do Pós-Modernismo Jacques Derrida: Em guerra contra a tradição ocidental. 2000). ateu.. 2000. refletiria algumas tendências desse momento fulcral com as chamadas “minorias identitárias emergentes”. oferece importante comentário informativo ao leitor amadiano. com um alto posto num ilê axé. um pensar sem centro e sem fim. aprofundada na contemporaneidade. mais para a literatura que para a filosofia (SANTOS. um ministro de Xangô. e a sua obra literária.) Eles pensam as manias mentais ocidentais. p. O herói de Tenda dos milagres é um materialista dialético. com papel de destaque no culto dos terreiros. mas. 80). Esse cenário teria influenciado o autor na construção de uma temática marcadamente identitária e com uma contundente defesa da cultura afro-baiana. conforme a referência transcrita abaixo: Ora. Derrida e outros filósofos pós-modernos querem injetar vida nova nas diferenças. certamente.. caracterizada como elemento civilizatório importante no conjunto das expressões nacionais.. (. muito ligado a este deus radiante (e também a Exu): um membro do povo de santo. 65). ora . note-se que Pedro Archanjo se parece muito com Jorge Amado. É plenamente ateu.

Nesse episódio representativo do romance Tenda dos milagres. meu ilustre professor. de questionamento e decisão. Cf. ao diálogo aberto. Tenho um compromisso.disse arremedando Archanjo e lhe interrompendo os pensamentos.Pois meu bom . a provocar inquirições e a sofrer enquadramentos de quem o teria observado na rotina diária.Porque você acredita não é? Se não acreditasse. um tema inusitado que diz respeito à história de vida pessoal e pública do próprio escritor Jorge Amado. inicialmente. 1969. 44 denominada de encruzilhada29. no terreiro e na tenda. Ainda assim. uma responsabilidade (AMADO. ser ao mesmo tempo o não e o sim? . fraternal e solidário. não deixaria de ser o bedel da Faculdade de Medicina. cobrando posturas políticas rígidas de uma mentalidade cartesiana e fragmentária. onde. Oriundo de ambientes com marcas culturais afro-brasileiras bastante enraizadas. . 200). com características adequadas e propícias ao inquisidor. embora se dispusesse. Surge. sou branco e negro ao mesmo tempo. Sabe o que significa Ojuobá? Sou os Olhos de Xangô. conciliar tantas diferenças.Pergunto como é possível que você acredite em candomblé? . tenho do negro e do branco. mestre Pedro. um marxista em processo de proletarização. nesse fragmento. CASTRO. cresci com os orixás e ainda moço assumi um alto posto no Terreiro. há muito desejava lhe falar. o protagonista Pedro Archanjo assume características biográficas sociais e pessoais do autor. O narrador criou um cenário próprio para o diálogo inquisitorial. professor de parasitologia da Faculdade de Medicina da Bahia. p.há uma coisa que me escapa e me deixa curioso. tudo 29 Encruzilhada é uma referência direta ao território habitado pelo orixá Exu e remete a um estado de tensão. Trata-se de uma passagem que relata um diálogo crucial entre o bedel Pedro Archanjo e Fraga Neto. . não se prestaria a tudo aquilo: cantar. de aporia. Fraga Neto seria sempre o livre docente de parasitologia no exercício da cátedra e Pedro Archanjo com seu enigma e sua vocação cultural integrada.Sou um mestiço. 232. fazer aqueles trejeitos todos. Nasci no candomblé. ele teria desenvolvido uma vocação identitária especial de representante civil- religioso e defensor da liberdade de culto: Como lhe é possível. Pedro Archanjo pudesse responder ao seu interlocutor e esse pudesse expandir o seu domínio intelectual e a sua posição de superioridade. dançar. .Que coisa é? Diga e se puder. desarmado. Sobre ela. lhe responderei. 2005. [Fraga Neto] . dar a mão a beijar. p. .

não estabelece limites. espontâneo e integrado. ganhei novos bens. o frade chega a se babar de gosto. e o narrador ao assumir um posicionamento mais radical e mais agressivo perante o seu personagem protagonista que até então só havia recebido o reconhecimento de herói popular e de . mas. 1969. construindo relações de solidariedades. vamos convir. tudo muito primitivo. 1969. barbarismo. mestre Pedro. Como é possível? (AMADO. convive com o medo. que mede conseqüências e que qualifica as relações sociais. O saber de Archanjo é cumulativo. fetichismo. Nesse tempo tudo que eu sabia aprendera na rua. Não é um saber policialesco. professor. perdi a crença. superstição. por isso. que racionaliza o tempo todo. restritivo: é um saber livre. no Cristo e na Virgem. estágio primário da civilização. ao contrário do materialismo cartesiano do professor Fraga Neto. ideológico e sectário. 45 muito bonito. com a dúvida e com a ameaça iminente. é mais que uma cobrança ideológica e partidária. não li os autores que o senhor cita. de enriquecimento mútuo e de aprendizado constante. mas sou tão materialista quanto o senhor. Se acredito ou não? Vou dizer ao senhor o que até agora só disse a mim mesmo e. A expressão “O meu saber não me limita!” não se refere a um saber condicionante. Situar-se ou ser situado numa encruzilhada é mais que uma simples indagação de aspectos pessoais e identitários. nesse sentido se constitui em um saber de incertezas e ao mesmo tempo funciona como um saber estratégico de superação de obstáculos impostos socialmente pelo preconceito religioso e pela discriminação racial. O saber de Pedro Archanjo abre possibilidade para um convívio harmonioso com as diferenças. não engessa. Ainda mais quem sabe? (AMADO. sim senhor. Depois busquei outras fontes de saber. Durante anos e anos acreditei nos meus orixás como frei Timóteo acredita nos seus santos. 200). uma metáfora do ambiente religioso muito conhecida entre o povo-de-santo dos candomblés da Bahia. se o senhor contar a alguém. O senhor é materialista. integrado e processual. 200). p. p. não discrimina. serei obrigado a lhe desmentir. O histórico debate político-ideológico entre Pedro Archanjo e Fraga Neto situa o protagonista numa região de fronteira muito peculiar e já fora denominado nesta pesquisa de encruzilhada: espaço geográfico bastante característico na cidade do Salvador.

próximo ao antigo armazém Bola Verde. nome religioso da mãe biológica de Martiniano. introduzindo nele algo que até então não se havia tratado. assume o visual multifacetado de Pedro Archanjo. quando. sequer sugerido ou mencionado nas entrelinhas. O autor. Do ponto de vista da construção do personagem esta inserção pode parecer um tanto abrupta. Jorge Amado consegue perscrutar os sentimentos mais profundos da comunidade. . personagem que teria sido associado na obra em estudo. 30 Essa referência à Rua do Caminho Novo. assumiu traços biográficos do babalaô Martiniano Eliseu do Bomfim. inicialmente como reitoria da universidade aberta do Pelourinho. e o Oju Obá Pierre Verger. Ao assumir o papel sócio-cultural de griô. numa determinada noite de sua vida. num instante aparentemente harmônico do capítulo mais extenso do romance Tenda dos milagres. O terreno sólido que teria funcionado como esteio para o surgimento e evolução do protagonista começaria a perder a sua estabilidade num instante fugaz. de encantamento e de capacidade intelectual. Tornou-se escritor autodidata. ao mestre Manuel Querino. afim de trazê-los para a superfície e questioná-los. incômodo. se relaciona com a ialorixá Maje Bassan. por outro lado. e. surpreende o seu leitor. Um projeto literário amadiano provocativo e inquietante entra em cena e desestabiliza a ordem. e quando demarca a sede da “universidade aberta” entre a Ladeira do Tabuão e a rua do Caminho Novo30. se constitui numa marca criada intencionalmente pelo autor para registrar o local onde funcionava a famosa e frequentadíssima tenda de milagres do famoso riscador João Duarte da Silva e que inspirou Jorge Amado na escolha do título do seu romance. quando teve o seu enterro datado no ano de 1943. e se associa ao líder religioso e empresário Miguel Archanjo de Santana. profundo conhecedor das tradições baianas e profícuo intérprete do seu povo. de questionamentos pessoais e existenciais. no qual instaura um diálogo mais íntimo com o seu interlocutor Fraga Neto. e que se intitula Da batalha civil de Pedro Archanjo Ojuobá e de como o povo ocupou a praça. sempre exaltado pelas características inigualáveis de sedução. isto é: aquele que sabe mais e que acumula os conhecimentos ancestrais. levando Pedro Archanjo a viver literalmente a “noite existencial”. Outras referências importantes podem ajudar na compreensão dessa escolha: Lá moraram o babalaô Martiniano Eliseu do Bomfim. quando o autor enfatiza e descreve com pormenores o potencial sedutor do protagonista e cita episódios de sua vida no Porto de Salvador. Esse mesmo autor no referido capítulo. 46 liderança comunitária inconteste. dotado de valores mundanos. e lá Miguel Santana freqüentava diariamente suas aulas de inglês. O autor direciona a sua trama literária para um ambiente instável.

em Tenda dos milagres (1969). Ojuobá. um mulato só (Tenda dos milagres. na altura dos seus 57 anos de idade. com a turista finlandesa Kirsi. Entretanto. um enigma pessoal. o autor oferece um perfil biográfico do protagonista adequado e harmonizado com os ambiente sociais e culturais que ele freqüentava: (. Nesse contexto. quase de prestação de contas. o leitor de livros e o bom de prosa. inicialmente.. 47 envolvendo-se amorosamente. uma marca individual. em uma entrevista. Não satisfeito. Jorge Amado aproveitaria a oportunidade de uma entrevista para ampliar o significado da sua mensagem literária. iyalorixá. quando utiliza o nome religioso Ojuobá. “restaurado em sua grandeza” com o fim da perseguição policial institucionalizada.) Pedro Archanjo. seguida de uma “festa” no Terreiro do Engenho Velho. Certamente. realizadas com o intuito de aproximação entre os povos do Benin e do Brasil. 1969. Muitas outras identificações poderiam ser feitas. não satisfeito com o mosaico estabelecido no seu romance de maior predileção. “trocando em miúdos” o que teria escrito em sua obra ficcional de maneira sintética e simbólica: . o autor. ao etnógrafo francês Pierre Verger pela iyalorixá Maria Bibiana do Espírito Santo. um só. mediante uma simples indagação entre amigos que se juntaram em um bar para beber. uma quebra de paradigmas e uma reflexão existencialista mais profunda ao afirmar: “O meu materialismo não me limita!” e conclui o seu posicionamento político com um grande desabafo que define o seu livre arbítrio e a sua estreita relação de identidade com as camadas populares representativas dos terreiros de candomblé. p. para ele. Jorge Amado. uma característica singular da sua personalidade e que serviu de álibi num contexto decisório de cobrança. propõe. atribuído. o que conversa e discute com o professor Fraga Neto e o que beija a mão de Pulquéria. 200). Mistura dos dois. quem sabe o branco e o negro? Não se engane professor. e. criado na década de 1960. após uma lida profissional diária. Aliás. que teria retornado à sua pátria grávida do mulato baiano. introduziu algo mais “cabuloso”. em conseqüência de suas pesquisas. teria sido muito pouco escrever uma obra carregada de elementos atributivos de sua relação estético-identitária com o povo negro-mestiço da Bahia sem mesclar a sua trama literária com um desfecho surpreendente de sua participação. dois seres diferentes.. dos quais 38 consagrados à literatura.

p. 1981.A. eu tenho que cumprir as obrigações desse título. eu não estaria tendo com eles o mesmo tipo de relacionamento de amizade que eles têm comigo.11). o cunho autobiográfico teria tirado o foco. como conheço. mas o meu materialismo não me limita. 11). extensivamente. sugere uma alternativa eficaz e harmoniosa de um possível convívio político-ideológico. os candomblés. traços identitários do marxismo. LIMA. O candomblé para ele adquire. por sua vez.o meu materialismo não me limita!. ter a pretensão de ser um romancista da Bahia se não conhecesse realmente por dentro. mesmo que indiretamente. 45-46. onde se fundem os sujeitos estético e empírico. abrigou na década de 1930. justificada de forma enfática e libertária no seu perfil biográfico e. O conceito de Desconstrução aqui adotado é o mesmo atribuído ao pós-estruturalista francês Jacques Derrida. Cf. de alguma maneira. Na finalização do romance Tenda dos milagres. na casa de Oxum. p. faço tudo o que tenho que fazer e faço exatamente tudo com o maior prazer (AMADO apud GOMES. daí a sua autodefesa e o seu álibi: “Eu não poderia escrever sobre a Bahia. Por isso quando entro no Axé Opô Afonjá. Neste sentido ele conclui o seu raciocínio com uma lição exemplar de coerência existencial ao afirmar taxativamente: . Jorge Amado ao eleger a religião do candomblé como sua. um novo perfil e um novo parâmetro de ser ateu e materialista. literalmente. nos seus diversos romances. . por conseguinte. inaugura também. que é a religião do povo da Bahia” (GOMES. reflete com profundidade uma escolha pessoal que. o status quo de sua baianidade. 1969. ao “desconstruir” uma ideologia que norteou a sua vida. 48 Eu sou materialista. p. O seu depoimento. tornando-se uma religião inclusiva. reduto de marxistas e ex-ateus32. Se não. p. como exilado político o etnógrafo Édison Carneiro. Ao inaugurar uma nova fase na sua vida. com meus colares. 201). Então. no entanto. um vínculo religioso ritual e iniciático mais profundo. estabelece. 32 O Ilê Axé Opô Afonjá. sou um mulato. O cidadão Jorge Amado ao assumir o visual da identidade afro-baiana reivindica. se o povo dos candomblés me dá um título e eu aceito. 1981. 31 N. um brasileiro!” (Tenda dos milagres. do projeto inicial de reconhecimento e louvação ao ilustre desconhecido Pedro Archanjo e a sua trajetória existencial levou o autor à seguinte assertiva: “Sou a mistura de raças e de homens. 1987. num período aproximado de quarenta anos31. episódio que ficou em sigilo durante décadas até ele próprio tornar público esse fato. também.

Além de protagonista. quando concluiu o seu discurso carregado de incertezas teóricas e vacilante perante a exposição convicta do seu depoente: .3 Odu quixotesco: uma literatura de valorização do oprimido A vocação libertadora e transgressora do escritor Jorge Amado. ao contrário.Talvez você tenha razão. Pedro Archanjo. 49 O protagonista Ojuobá tem do velho e do novo. porém com temática universal como a questão dos direitos humanos e a prática do racismo como resultado de uma perpetuação de erros históricos coloniais. não sei. representada no personagem Fraga Neto. da cultura milenar originária das matrizes africanas e da ciência centenária de tradição européia. que teria se desenvolvido desde jovem como repórter policial. da religião envolvente e do materialismo marxista. ainda assim. mais tarde. 2. o seu discurso argumentativo foi coerente e deixou o seu interlocutor Fraga Neta na “corda bamba”. sai vitorioso do debate que sugere ao leitor uma jornada intensa e desafiadora que teria avançado pela madrugada e alcançado a exaustão. se enriquece com o somatório de experiências individuais e comunitárias. já como advogado daria elementos ao jovem escritor para construir um legado literário rico em traços culturais e definidor de uma realidade social marcadamente regional. p. Esse seria o novo perfil materialista? Avança ou recua? Permanece ou sai? Uma coisa é certa. torna-se modelo de herói literário que anuncia uma sociedade integrada. Os resultados dessa “prosa” ainda são alvo de estudo e pesquisa. O professor Fraga Neto. no entanto a sua atualidade se mantém firme nas rodas de discussões sobre a necessidade de implementação de ações afirmativas através das cotas sociais. . companheiro de Pedro Archanjo. Archanjo assume um visual novo de proto-herói romanesco da modernidade brasileira. Diante dessa interpelação Pedro se defende com argumentos um tanto quanto evasivos. impôs o seu questionamento ideológico com severidade na tentativa de enquadrar o bedel. emoção e razão. criticando-o pela sua entrega e o seu envolvimento com as práticas culturais e religiosas do candomblé. 1969. culturais e científicas. que vão se alternando a cada investida externa. do popular e do erudito. ancestrais. como estudante de Direito e. de certa forma. que não exclui o diferente. inconcebível sob a ótica materialista da época. Devo pensar ( AMADO. 201).

Uma verdadeira arma mortal e infalível contra o inimigo. dan pelú oniban! Esse fragmento de um oriki atribuído ao orixá Ogun. a linguagem espontânea do cotidiano. ao sentenciar publicamente o seu algoz. Prevalece nesse momento a força sobrenatural sobre os poderes materiais de dominação humana. das lutas e das guerras”. a fermentação de desejos e prazeres como um direito. “senhor dos caminhos. conforme assinalou ARAÚJO (2008). novelesca do . 1969. é em Tenda dos milagres que Jorge Amado retoma. o tema da perseguição policial aos candomblés da Bahia e nele realiza um feito surpreendente de catarse literária: o escritor vinga o insulto do opressor e através dos seus personagens promove um ato de justiça com força sobrenatural. em favor do povo oprimido dos candomblés. estereotípicas de mau gosto –. em sua obra Floração de imaginários: O lirismo libertário. Tenda dos milagres (1969). resultante de um posicionamento literário que extrapolou as medidas dos cânones. com novo vigor. através de uma seqüenciação de fatos e desdobramentos circunstanciais. com as palavras mágicas com forte poder de transformação. utilizado por Jorge Amado num contexto dramático de embate e de confronto assume uma força mágica transformadora e conduz o leitor a uma catarse literária. de redução e ampliação de forças opostas. tudo isso constitui a construção artísticas. picaresco e cômico. trazida nos tumbeiros. a estética para a maioria – sem necessariamente descambar para o mero anedótico pactário de simplificações espontaneistas. Pedrito Gordo. nos impõe uma reflexão mais ampla sobre o importante contributo das populações africanas que aqui aportaram e o seu clamor de justiça continua inspirando movimentos quilombolas de insurgências definidas nos diversos setores da sociedade: na literatura. sintetiza um projeto de vida integrada à comunidade e a ela dedicado. 197) A força de uma cultura oral milenar. conforme seguem abaixo: Ogun kapê dan meji. 50 Mas. p. ora revisitada. na época da escravidão e reinventada na literatura amadiana. de aniquilamento e de retração. na arte e na cultura. Esse acontecimento ganharia ampla repercussão social e alcançaria o ambiente literário através dos seguintes versos: “Mestre Archanjo já acabou Com a farromba de Pedrito” (AMADO.

aqui. trouxe consigo. contador de histórias. com certeza. O culto aos orixás e ancestrais. SANTANA. adaptada ao regime de escravidão. as práticas rituais milenares ao perderem as características tribais peculiares da África. oriqui. elementos de adequação tópica 33 Cf. na sua mente e no seu coração práticas culturais e religiosas: danças. 2008. O que na África já era estabelecido e aceito como tradição e cultura.4 Oriqui: histórias de luta e superação contra o degredo na diáspora brasileira O africano ao sobreviver no degredo a que foi submetido. que o romancista amalgamou num território de emblemas e ícones: a Bahia dos santos e dos orixás. foi também. 77). trazido para o Brasil nas inúmeras levas dos tumbeiros. passaria a ser recriado no Brasil e nos demais países da diáspora africana. ritos. A Bahia do romancista talvez não exista fora do arbítrio e imaginário do criador – povoação de putas pobres. p. O diferente encontrado aqui no Brasil. p. acumulando munus cultural e político fundamentado nas pouquíssimas brechas que a estrutura colonial lhe assegurava. culinária e demais construtos da milenar civilização africana. tributo. 51 Jorge Amado fohetinista. As duas principais geografias dessa novelística (o Sul e o Recôncavo baianos). mas guarda. 2006. poesia. Os escravos utilizaram a imaginação e a inventividade como articulação política e daí foram surgindo manifestações embrionárias de uma nova cultura recriada e reinventada. empalmadas por civilizações integradas no perfil urbano e revestidas de complexidades. 82. 2. ganharam. música. O africano escravizado. de polícia ideológica comandado pela Igreja Católica e pela Coroa Portuguesa. Mas a dimensão sociológica de sua obra não o faria escravo de facilidades e conveniências para o consumo das massas. teria sido assimilado através das reelaborações sincréticas e das estratégias de simbiose que possibilitariam a sobrevivência da cultura africana numa ambiente marcado pela exclusão e pela adversidade33. através de recursos mentais sobre-humanos. os marcos inscritos na obra fervilhante de misticismo. . crenças. cultos. encontram em Jorge Amado seu mais completo e abrangente amador e intérprete (ARAÚJO. desaguadouro de escárnios sociais –. penhor e crença na humanidade imortalizada pela beleza e cultura humanista. mitos.

as encruzilhadas a Exu e as trilhas de fuga da opressão a Ogum. igualdade e liberdade. as forças da natureza cultuados e adorados através dos seus elementos representativos. do rei). rios. filha gêmea do Alaketu. Enquanto da Europa vinham degredados da África vinham príncipes e princesas. os deuses. Olga Régis (em latim. organização religiosa suprapartidária que integrou as diversas etnias numa prática de solidariedade e de fortalecimento grupal. eram presos políticos. Ao utilizar como estratégia política e cultural a religião do candomblé os africanos e afrodescendentes conseguiram minar as forças do colono opressor e driblá-lo com astúcia e ginga. as exuberantes florestas e matas consagradas a Oxóssi. Esta elite aqui uniu-se aos mais aptos na 34 O conceito afro-colonizador. .fossem consagrados a Oxum. os charcos a Nanã. fundadora de seu terreiro. os ventos a Iansã. arma nenhuma. seus mitos passaram a habitar as praças apontando caminhos. Como não poderia deixar de ser na mitologia africana. Durante os séculos de escravidão muitas foram as insurgências realizadas por africanos e afrodescendentes contra o Estado escravocrata e a Igreja alienante. como Otampê Ajarô. rei de Ketu. se manteve. Olga de Alaketu. que descende em linha reta de Oxóssi. A África renasceu recriada no Brasil. não lhes retirou a capacidade de superação. conforme atesta TAVARES (1996). passaria a afro-brasileiro colonizador34. reapareceriam e passariam a realimentar os anseios da comunidade. os raios e trovões a Xangô. no entanto. seus sonhos e anelos de justiça. criando cultura e impondo civilização. por lutas hegemônicas na África. e já pessoas de alto nível. tema do livro do Otun Obá Aré Ildásio Tavares. O fato de serem os africanos escravizados pelos portugueses. Nesse processo árduo e intenso o africano da diáspora antes colonizado pelo europeu. A essência. orientando rumos e suscitando lideranças e inspirando a realização de movimentos aquilombados nas zonas rurais e urbanas. A mais silenciosa e a mais representativa do ponto de vista cultural. muita menos tropas impediram que o mar da Bahia fosse consagrado a Iemanjá. Essa é ancestral de D. o arco-íris a Oxumarê. Nesta perspectiva. 52 e representação estética. cachoeiras e lagos. é ilustrado com inúmeras referências sobre a atuação e adequação do negro no Brasil e a sua capacidade de superação. utilizando estratégias as mais inusitadas e mais desafiadoras da mente humana. em seu livro Nossos colonizadores africanos: presença e tradição negra na Bahia: Boa parte dos africanos trazidos como escravos. que superou os embates bélicos. prisões e mortes foi o candomblé.

1996. apresentada na maioria das vezes como uma instituição de grande força neo-colonizadora. intitulado “Acabe com este santo. surgindo daí. Um Jorge Amado narrador mestiço é responsável pela fusão dos contrários. 1995. que vêm arrastando quase 500 anos de privação e marcha sempre à frente (TAVARES. o autor e a realidade local onde estão ambientados: O candomblé é culto sincrético evemerizado. onde os seus principais representantes e líderes comunitários recebem características mágicas. beirando o fantástico e o sobrenatural. colhendo-lhe a alegria simples e espontânea. surge como uma defesa e expressão eloqüente de quem conhece a obra. sobretudo. 21). tratado pela alcunha de Pedrito Gordo. processo no qual Jorge Amado teria utilizado de forma fragmentária a religião do candomblé em seus romances.”. estrategicamente. Dele se utilizaria Jorge Amado. da herança de virtudes abstratas e da miscigenação. afro-baiana. 53 sobrevivência. aonde procura elucidar fatos e mitos em torno da memória popular do delegado Pedro de Azevedo Gordilho. quando morou num casarão na região do Pelourinho. o trabalho “sistemático” da etnomusicóloga Ângela Lühning (1995/1996). renovando-a com o espírito sensível da negritude em sua vocação de viver. Entretanto. 87). com o auxílio de alguma notícia de jornal (BRAGA. a perseguição policial ao candomblé é um tema que Jorge Amado conheceu ainda bem jovem. se tornou muito cara ao escritor Jorge Amado e se constitui uma área do conhecimento que ele aprendeu a respeitar e a defender. surgiu em seguida.35 A religião do candomblé. O animismo de herança africana na obra romanesca de Jorge Amado surge para reformar a alma emperdenida do rigor censório da sociedade branca. Essa relação aparece de forma fragmentada e às vezes alterada no sentido e na forma. os acontecimentos. Pedrito vem aí. em especial. o natural 35 Após o comentário referido acima. e se mostra transgressora. . p. A cultura popular.. Pouco ou quase nada de sistemático se escreveu sobre isso. Sobre o relacionamento literário.. A repressão policial aos terreiros de candomblé na Bahia se verificou permanentemente ao longo da primeira metade deste século. uma relação quase simbiótica de cumplicidade ampla e irrestrita. embora diversos autores façam referência às batidas policiais registrando vez por outra. nos seus romances temáticos sobre a cultura afro-baiana. reunindo o épico ao humor. encontra soluções e ferramentas eficazes de superação dos obstáculos impostos pela conjuntura social dominante. se impõe e se reveste de poder contra as perseguições do branco opressor e. o comentário crítico de Jorge Araújo (2008). p.

o logos ao ritualístico. em que a presença negro-mestiça era determinante e transbordante em todos os seus aspectos. E Jorge de Souza Araújo (2008). De quando em vez o corpo de um capoeirista aparecia crivado de balas na madrugada. Porco Espinho. p. Um depoimento em forma de síntese. robustecendo o direito positivo de livre manifestação de ideais e idéias. enquanto durou o reinado do todo-poderoso delegado auxiliar. 1969. O romance reage através de sucessivos intercursos entre o físico. indiscriminando os credos. Com os capoeiristas a coisa fiava mais fino. a bala se preciso. social. . desde a condição de abandono. pode elucidar melhor o projeto literário que se concretizou no romance Tenda dos milagres. Cassiano do Boné (AMADO. ganhou um capítulo especial no romance Tenda dos milagres e nele o autor teria deixado possíveis marcas do seu compromisso identitário. ruelas e casebres perdidos. Escrito numa época bastante representativa de acontecimentos históricos e sociais no Brasil e no mundo. conseguiu uma interpretação muito singular e digna da estatura amadiana: Em Tenda dos milagres (1969). De 1920 a 1926. Budião andou um tempo escondido. o para-físico e o metafísico. obra da malta de facínoras. das vendedoras de comida até os orixás foram objeto de violência contínua e crescente. 86). o mágico ao real histórico (ARAÚJO. O samba de roda foi exilado para o fim do mundo. a metahistória (ou uma história dentro da outra) provoca o real revisitado pelo imaginário. 192). o mítico ao patético. até à contraditória situação de prestígio econômico. abolindo preconceitos. Valdeloir comeu da banda podre. cultural e religioso. os secretas não os enfrentavam de peito aberto. sem exceção . Esse assunto que marcou um longo período nas crônicas policiais e manchetes dos principais jornais que circulavam nos inícios e até meados do século XX. Assim morreram Neco Dendê. As escolas de capoeira fecharam suas portas. João Grauçá. quase todas. 54 ao abstrato. Tenda dos milagres foi considerado pela critica especializada como um romance de costumes e isso se deve ao fato de nele o autor deixar um registro muito forte da velha Cidade da Bahia. O delegado mantinha-se disposto a acabar com as tradições populares a porrete e a facão. os costumes de origem negra. subvertendo a lógica dos aparelhamentos formais da ordem (ou horda) que persegue os candomblés e elege a arrogância e a intolerância como vias de diálogo. p. quase de indigência. da sua ação solidária e do seu manifesto cúmplice através de um discurso estilístico próprio com forte poder argumentativo. tiros de tocaia. 2008. tinham medo.

a partir da contribuição . Esse tipo de procedimento literário. p. procuraram entender e analisar essa obra através de uma metodologia inclusiva de fundo sócio-antropológico. ora à esquerda. Essa lacuna. essa crítica.. de cujas instituições ele havia se tornado membro e que nutria um sentimento especial de pertencimento e filiação. 55 conceitos e crenças numa sociedade realmente democrática e pluralista. e foi a Bahia que ele tentou reproduzir reinventada. ora à direita. o que a tornaria desmerecida de integrar o Olimpo das obras pesquisáveis. sob a inspiração de Oxum A compreensão do homem e da obra amadiana no contexto sociocultural e político do Brasil e da América Latina constituem grande desafio para os estudiosos. 2008. injustificável sob qualquer motivo. sem nunca chegar a uma compreensão mais profunda e abrangente do objeto em estudo (PAULO BEZERRA apud DUARTE. Alguns dos pouquíssimos estudiosos da obra amadiana como Miécio Tátti. pesquisadores e membros das academias brasileira e baiana de letras. tem como objetivo primordial reconhecer o valor de cada autor. da inferioridade racial.5 Adjá e abebé: nas águas de Jorge. (.. 11). Situando a ação entre fins do século 19. Essa teria sido a Bahia que Jorge viveu na sua juventude “desenfreada” e “irresponsável”. Tenda dos milagres contrapõe-se à idéia do progresso atrelado à eliminação da mestiçagem. Entre os absurdos que a universidade brasileira comete. Amado ressignifica a democracia étnica na Bahia. deve-se a vários fatores. há um que certamente chega ao paroxismo: a ausência de estudos sistemáticos e abrangentes sobre a obra de Jorge Amado.) Sob o pretexto de defender a continuidade do projeto estético do modernismo. no seu romance preferencial e mais característico do ponto de vista autobiográfico e identitário. Roberto Da Matta e Eduardo Assis Duarte. interpondo Pedro Archanjo como ideólogo da auto-estima do mestiço. credo cientificista baseado em Gobineau. pelas críticas às teses manifestas pela convenção acadêmica e persuasão dos tipos humanos para a aceitação de suas premissas identitárias (ARAÚJO. 80-1). um dos quais ligado ao falacioso argumento de que a obra do romancista baiano seria de baixa qualidade estética. Daí a ausência ou o número ridiculamente irrisório de teses sobre Jorge Amado nas nossas universidades. acaba resvalando na unilateralidade ao enfatizar aqui os aspectos apenas centrado nas fragilidades ou nos méritos. Com o romance. 2. 1996. p. o nosso escritor mais lido dentro e fora do país. princípios do 20.

Com esse procedimento metodológico de análise crítica e estrutural. Jorge Amado deixa como exemplo uma ficção que não teme dizer de novo a mais antiga das histórias: a da eterna viagem do homem em busca de seu destino (DUARTE. A necessidade de revisitação a determinados ambientes literários fundantes como o que se verifica na obra. p. tem surgido um movimento intenso de adesão a partir de uma compreensão mais adequada do seu valor. se aproximado daquilo que nessa pesquisa se denomina de perfil identitário e comunitário do escritor Jorge . principalmente no ambiente acadêmico das universidades baianas. Para isso. na seara da antropologia cultural e isso tem de certo modo. A essa prática. com sua poesia e seu ritmo. do que é popularizado ou vem da tradição. atribui-se nesta pesquisa. mais interessavam na possível contribuição que advém das classes populares. o nome de “crítica justa”. conceito aproveitado de Hildegardes Vianna. favorecido o surgimento de textos importantes de resgate e valorização do escritor Jorge Amado. na realização de eventos que permitem reunir pesquisadores e estudiosos da obra amadiana e na publicação de livros com os resultados desses encontros. Da sua identificação com o resgate literário de Jorge Amado na história da literatura. o conjunto de sua obra oferece de benefícios para a sociedade em geral. acreditamos residir aí o legado do escritor para o desenvolvimento do romance modernista. Uma contribuição que não abdica do enredo bem tramado e que passa distante dos “jogos gratuitos” com a linguagem. tudo isto amalgamado no cadinho fervente do questionamento de estruturas injustas e do incentivo à luta e à resistência ao poder que subjuga e humilha: eis a contribuição amadiana para a evolução de nosso romance. 252). 56 que a obra. tem sido um dos raros críticos que assumem publicamente o seu ardor pela obra amadiana e levantam a bandeira da sua literatura despojada de valores burgueses. críticos e pesquisadores da obra ficcional amadiana teriam por conseguinte. O clima de aventura e heroísmo. o apego à tradição da narrativa popular. Em suma. Eduardo Assis Duarte (1996). Vale a pena registrar o seu comentário crítico sobre o fazer literário de Jorge Amado: Por outro lado. têm concorrido de forma decisiva as iniciativas lideradas pela Fundação Casa de Jorge Amado. E que não se envergonha do que é popular. tem orientado os pesquisadores na contextualização de alguns romances como Tenda dos milagres. a busca dos modelos incrustados na herança da oralidade. os estudiosos. 1996. ou melhor.

um efeito muito positivo sobre vários aspectos: de um lado ela estaria se associando ao prestígio literário e ao reconhecimento 36 Embora a terminologia adotada pela autora se restrinja à ciência do folclore. o fez com base em suas vivências sociais e comunitárias. com referências teóricas ou não. às exigências estéticas do Partido Comunista. e isso teve. que Jorge Amado era “um portador de folclore”36. nesta pesquisa. despojado do ranço elitista que teria impregnado a literatura ocidental e que se espalhou paulatinamente no Brasil. poucos são os estudiosos que conseguiram se debruçar sobre o mundo ficcional amadiano com a proposta de encontrar um percurso analítico amplo no sentido sociocultural. temporariamente. Entretanto. ao escrever os seus livros. vinculado. A autora conseguiu enquadrar o seu amigo e confrade de academia. . esta pesquisa propõe a adequação dessa tradicional área de conhecimento para o conceito mais específico. na descoberta de um autor que se notabilizou. pela capacidade inata de contar histórias. de certo modo. 1996. O fazer literário de Jorge Amado. 13). mais atual e universalmente aceito: cultura popular ou cultura popular afro-baiana. mas cresce e afirma sua dignidade na resistência à opressão e na luta por sua superação (Paulo Bezerra apud DUARTE. procurei seguir o estímulo e a orientação da folclorista baiana Hildegardes Vianna (1982). Conforme enunciado inicialmente. a partir do século XIX. Bahia de Todos os Santos e Tenda dos milagres. na limitação das poucas informações sobre a relação identitária de Jorge Amado com as tradições afro-brasileiras e mais especificamente. Mergulhado na dificuldade acadêmica de encontrar material adequado à proposta metodológica da pesquisa em curso. o que significa dizer que a referida obra não está dissociada do ambiente que a originou. principalmente. e. isto é: o autor de Jubiabá. procura-se construir parâmetros metodológicos para auxiliar os leitores amadianos. quando disse taxativamente. e despertando o riso. não poderia ser condenado ao esquecimento nem receber como legado apenas manifestações expressas de indiferentismo e de alijamento conforme ficou implícito no comentário que se segue: Jorge Amado produz uma representação positiva do oprimido. afro- baianas. que não apenas fala. p. 57 Amado. através da caricatura. e a sua obra ficcional seria uma extensão desse cotidiano. da galhofa e fantasia. recriando ambiente. nos parâmetros da ciência do folclore. em afinidade com a obra amadiana.

Na sua singeleza comunicativa a pesquisadora de folclore citada acima oferece. na interpretação de Jorge Amado com um portador de folclore. um grande esforço no sentido de dar dignidade a uma cultura e a um povo que no passado. Folclore rejeitado é o que aparece em certos e determinados trabalhos de vários autores. característica que possibilita uma maior interlocução com o leitor. deixando adivinhar palavrões ou palavras afins (VIANNA. tinham sido jogados num ambiente vil e que ela identificou como “folclore rejeitado”. conseqüentemente. farto material ilustrativo e informativo sobre a relação do escritor baiano com as manifestações populares de sua época. orientando-o e advertindo-o sobre a sua experiência como leitora amadiana. 120). expresso apenas pela letra inicial e pontinhos. 1982. mesmo nos catalogados como estudiosos da matéria. a sua intimidade com os ambientes descritos e a sua aceitação “pacífica” por ser folclorista. Jorge Amado estaria amparado pela “crítica justa37” feita por uma autoridade da ciência do folclore na Bahia e que num gesto aparentemente solidário procurou interpretar os procedimentos literários do seu amigo não só como um gesto transgressor. desconstrói parâmetros e conceitos legitimados pelo cânone literário de inspiração européia. . É o que já mereceu ser proibido sob o anátema de obsceno. de outro. por sua vez. p. O seu texto flui natural e interativo. 120). como o escritor as utilizou e em que nível sociocultural as posicionou para serem enquadras como “podridão”. ditas folclóricas. Para um melhor entendimento da linguagem técnica específica da ciência do folclore utilizada pela pesquisadora e acadêmica Hildegardes Vianna (1982). 58 internacional da sua obra. muita matéria-prima em meio à ‘podridão’ dos textos de Jorge Amado (VIANNA. carnavalesco ou iconoclasta. A explicação vem da própria Hildegardes Vianna: É o folclore que se situa na ‘ponte podre’ entre o sexo indecoroso e a pornografia oportuna ou não. que de certa forma. o fazer literário de Jorge Amado era. p. 1982. ela mesma se explica: 37 A expressão faz referência direta ao trabalho do pesquisador que procura assegurar àqueles autores que ficaram estigmatizados ao optarem por uma linha de procedimentos do fazer literário. Vianna resume a sua visão do texto amadiano com o seguinte comentário: o estudioso de folclore encontra um manancial grande. Ao contrário. na concepção da autora.

portador de folclore não esconde a sua mentalidade folclórica. às vezes mal . mundo que exerce um imperioso fascínio à sua imperiosa imaginação e que torna a sua obra o mais fascinante espelho da alma e vida baianas” no dizer do crítico literário Afrânio Coutinho. Não considerando suficientes os argumentos iniciais. vivendo aquela ou essa situação conforme convenha ao desenvolvimento da história. mesmo com todos os honoris causa que lhe tenham atribuído. Sendo escritor espontâneo. A força implícita e o poder de persuasão do texto argumentativo elaborado pela autora e apresentado acima. no mesmo sistema empregado pelos coreógrafos e arranjadores musicais (VIANNA. não se preocupa com a forma de empregar o cabedal que armazenou graças à sua sensibilidade. nem situar rigorosamente no tempo e no espaço o fato folclórico que lhe tenha servido de inspiração. p. Jorge Amado não considera o fato ou a pessoa como integrante de um determinado contexto de que se pode separar sob pena de perder a vitalidade. A escritora e ensaísta Hildegardes Vianna construiu uma defesa histórica em favor do seu amigo e confrade Jorge Amado. fazendo o que tecnicamente se chama de projeção de folclore. quando foi enquadrado. sintetizando ou fragmentando. Ela usou a terminologia da sua ciência para justificar “o mundo de Jorge Amado. não um exegeta (Ibdem. porém ele transforma no que se denomina de projeção estética do folclore. teriam livrado. Pode ter sido tudo real. na década de 1930. O folclore faz parte do seu eu. por considerar a sua imagem de líder religioso. público. apresentada de forma caricata e destorcida. intercalando até o que for essencial ao correr da sua pena. Por ser uma literatura construída sobre fatos e imagens da Bahia. tratado pelo nome do seu encantado Jubiabá. como fosse coisa sua. 119-20). notório. Encaixa o episódio ou personagem na sua imaginação. Escreve utilizando material folclórico. pelo famoso babalorixá Manuel Severiano Abreu. Aproveita-o. o escritor das críticas e acusações que sofreu com a publicação do romance Jubiabá. Não pode sujeitar o que está escrevendo à realidade. É um romancista. parcialmente. criando uma ambiência justa. solicitou do autor uma retratação pública. 1982. ela continua refletindo sobre o processo criativo do autor de Jubiabá e Tenda dos milagres. p. 59 Jorge Amado. utilizando as suas ferramentas de trabalho: os textos teóricos de conceituados folcloristas como Renato Almeida e Paulo de Carvalho Neto. dois dos seus principais romances temáticos sobre a cultura popular afro-baiana. modificando-o se necessário. que por sua vez. 119-20).

A sua recomendação. p. simplista e caricatural. agrupado por Paulo de Carvalho Neto em cinco divisões: genital. Segundo Hildegardes Vianna (1982). sobretudo racista e preconceituosa. Um folclore julgado “não-aproveitável”. dentro dos ambientes que retrata. de subliteratura pornográfica e obscena. é que num passado recente fora rotulada. numa valiosíssima chave de leitura amadiana. ela enumera e classifica a terminologia que o escritor usou e marcou os seus principais romances. ou imagina. A confusão aumenta quando o aproveitamento do folclore é no sentido do folclore “rejeitado”. durante longo período. exposta em forma de defesa cúmplice. um escritor que procura sobretudo satisfazer a procura de uma clientela de mentalidade mórbida e depravada? Não. e com os tipos que maneja em tais cenários. sem endereço para tal classe de leitores (Ibdem. a leitura da obra de Jorge Amado não pode ser enquadrada em padrões literários do chamado cânone que estabelece critérios rígidos e ortodoxos de leitura e interpretação. p. Será Jorge Amado um apelativo. útil a qualquer leitor e que necessitaria de divulgação ampla e adequada. ao sabor do seu estilo criativo. parapsicopatológico e agressivo. Contudo. principalmente numa sociedade dita pluricultural. Como “boa baiana” e sabedora dos costumes da sua terra. apresentar em linguagem policiada tudo muito puro e diáfano para significar o que é realmente escatológico? Um literato ortodoxo ficará horrorizado perante a crueza do palavreado dos personagens e da própria linguagem narrativa do escritor em seus comentários às situações por ele criadas. E continua a sua defesa de forma persuasiva: Perguntamos nós: como poderia Jorge Amado. 60 compreendida em sua riqueza cultural e social. terreno em que Jorge Amado é um dominador. As denominações dadas dispensam maiores explicações (Ibdem. É tímido. se constitui na verdade. 120). paraescatológico. ou aproveitadas do seu arquivo de portador de folclore. a folclorista Vianna assomou à sua defesa amadiana informações utilíssimas que revelam ao seu leitor uma região de fronteira obscura que na maioria das vezes é omitida até pelos próprios estudiosos da ciência folclórica. escatológico. Quem conhece Jorge Amado de perto sabe que ele não diz palavrão. 120). sem os quais o leitor não poderia assimilar a obra. tema tratado amplamente na obra amadiana. Escreve sobre o que viu e sabe. .

que resultou em livro homônimo. afirma taxativamente: Jorge Amado é antes de tudo um portador de folclore. revolta. eventos. muita matéria- prima em meio à “podridão” dos textos de Jorge Amado. complementando um quadro de coisas apontadas como negativas. apesar da larga experiência como folclorista e do seu profundo conhecimento das dinâmicas sociais que caracterizam a cultura popular da Bahia. o fato ou personagem à sua exata posição no espaço e no tempo. porém. se for o caso. situações. alusões agressivas. comparações pouco edificantes. Cabe-lhe identificar e devolver. Contudo. 61 O estudioso de folclore encontra um manancial grande. e reflexivos como o Ciclo de Palestras A Bahia de Jorge Amado. insultos furiosos. ambos os livros publicados no ano de 2000. trânsfuga pelos defensores do hermetismo dos cultos primitivos (serão primitivos?). sensações. práticas sociais e religiosas da maneira mais criativa possível. resultado dos anais e atas de eventos comemorativos: Simpósio Internacional de Estudos sobre Jorge Amado. Ao desvendar rituais mágicos informando sobre mitos e superstições que podem conduzir a estados de perturbação mental ele intercala de forma oportuna. integrantes do “folclore não-aproveitável” (Ibdem. que registrou os 80 anos do escritor e que resultou no livro Um grapiúna no país do carnaval. inovadoras e transgressoras. lirismo. apresentam um leque de títulos bastante significativos e que . Recolher a verdade que salta do imaginativo. todos se mostraram insatisfatórios pela falta de profundidade teórica. provocando no leitor estados de humor. p. Jorge Amado pode ser considerado escritor pornográfico pelos puritanos. tal o seu domínio e envolvimento com os temas tratados. linguagem violenta. 120-1). Esse recurso utilizado largamente pelo escritor e que se denomina tecnicamente de “projeção estética do folclore” lhe permitiu utilizar recortes históricos. Vianna é enfática na sua tese e os seus argumentos são apresentados de forma elucidativa e científica. A cada capítulo que escreve surpreende o leitor com uma destreza laboral na criação de metáforas ricas de sentido. réplicas desaforadas. ditas folclóricas. Na minha busca bibliográfica deparei-me com alguns títulos sedutores de especialistas sobre a obra amadiana. o autor de Tenda dos milagres tornou-se um mestre cuja comparação escasseia na atualidade. em ocasiões nem sempre julgadas oportunas por certos leitores. Neste terreno. A denominação “portador de folclore” é uma justificativa abrangente para o fazer literário de Jorge Amado quando se refere às manifestações populares. fatos do cotidiano. publicações mais recentes do selo Casa de Palavras da Fundação Casa de Jorge Amado.

principalmente. e aqui utilizado como elemento elucidativo.39). 11). Em vista disso mantém-se quase sempre alheia à natureza do projeto amadiano. A sua análise contextualiza a obra ficcional do famoso autor baiano em um momento histórico de grandes transformações e marcado por insurgências sociais e políticas. 1996. retrato incompleto. pelo despreparo técnico para compreender o real significado da obra. idealizada por Alencar. com raras exceções. os documentos que integram as referidas publicações são apenas sugestivos e indicativos. pela falta de abrangência e profundidade. Nele o autor analisa com propriedade a trajetória política da fase inicial e o compromisso comunitário da segunda fase. a obra de Jorge Amado desenvolve. pelo negro real e palpável que conseguiu afirmar a sua cultura. p. Por sua vez a crítica da obra amadiana tem se caracterizado. uma vertente identitária da nacionalidade destinada a substituir a figura do índio. A obra amadiana e o seu autor. passando à margem ou simplesmente ignorando as convenções de que o autor lançou mão para concretizá-lo (PAULO BEZERRA apud DUARTE. . afora iniciativas particulares de amigos e admiradores baianos que acompanharam a sua trajetória com o médico Paulo Tavares que publicou o livro Criaturas de Jorge Amado e Itazil Benício que publicou Jorge Amado. além do desconhecimento das matrizes populares que a alimentam. expresso nos romances mais significativos do autor. por um preconceito estético que freqüentemente mascara o preconceito ideológico e. ainda aguardam iniciativas acadêmicas dignas de sua estatura. 62 remetem diretamente para os aspectos multifacetados presentes na vasta obra ficcional legada à posteridade pelo controverso autor baiano. denominado: Jorge Amado e o canto épico da mestiçagem. a despeito do aniquilamento do sujeito propiciado pela escravidão (SEIXAS. 2006. ou uma louvação seduzida e sedutora de gente da mais alta expressão intelectual. Talvez pela natureza do evento. talvez pela limitação do projeto editorial. de forma conseqüente e definida. A partir dos anos 70. política e cultural. p. ou um depoimento qualquer sobre a relação de proximidade com o festejado autor. às vezes se constituem numa simples participação solidária de um amigo. Outro texto rico em informações sobre o perfil identitário de Jorge Amado. é de autoria do professor e estudioso da obra amadiana Cid Seixas.

é o livro que introduz definitivamente em sua obra. passaria por uma fase estratégica e experimental em 1945. assim como para os chamados grupos minoritários de jovens representativos dos seguimentos de negros. passa a ocupar espaço importante de protagonista e herói dos romances temáticos do autor baiano. ou desconstrutores do estabelecido . SEIXAS (2005).constituíram a isto que chamo de “mitologia crioula” da obra amadiana (Ibdem. estabeleceu um contraponto em que ficaram configuradas algumas manifestações de resistência e de repúdio aos “estereótipos” criados pelo autor. obra referencial bastante utilizada pelas empresas e instituições de turismo e que se tornou consulta obrigatória inclusive para os nativos. guia de ruas e mistérios. A valorização de uma mitologia crioula pela obra amadiana punha em pé de igualdade velhos mitos europeus e novos mitos afro-brasileiros. apesar do forte apelo político-ideológico implícito na luta de classe38. . Construir um personagem que figurasse como herói numa trama literária ousada e inovadora não foi tarefa fácil para o escritor. O escritor e psicanalista Cid Seixas assume. que fora lançado em 1969. p. quer sejam politicamente corretos quer não. 81). 63 Publicado em 1969. um perfil opinativo. no seu ensaio Jorge Amado e o canto épico da mestiçagem. o romance Tenda dos milagres se insere na conjuntura nacional e internacional que se caracteriza pela reivindicação de direitos iguais para homens e mulheres. considerando que essa façanha que fora iniciada em 1935.valores integrantes dos costumes crioulos da Bahia . 2000. Tenda dos milagres. Valores. patriarcais. o tema da identidade cultural como fator predominante e autônomo. com a publicação do romance Jubiabá. o de sua maior predileção. crítico e combativo principalmente com as novas tendências acadêmicas de classificação da mestiçagem e contra os movimentos puristas de origem americana. Contextualizando a obra amadiana. 38 A crítica feita pelo escritor franco-argelino Albert Camus (A Tarde. com o surgimento do livro Bahia de Todos os Santos. obra inaugural na literatura brasileira que teve grande repercussão e boa aceitação por parte da crítica da época. antes localizado nos porões das senzalas. tem sido utilizada com certa recorrência pelos pesquisadores como referencial para comprovar o impacto internacional da publicação do romance Jubiabá. Seixas identifica na literatura de Jorge Amado elementos marginais que historicamente foram execrados dos cânones literários. E por fim. 09/09/1989). p. 42). na imundície e na sarjeta periférica dos centros urbanos coloniais. O negro. homossexuais e de gênero (SANTOS. machistas. considerado publicamente pelo próprio autor.

presente de forma marcante em Salvador. 42). indistintamente. setores envolvidos com questões raciais apontaram a valorização da mestiçagem no universo de Jorge Amado como uma mistura impura. assim como. sob a mira de jovens afrodescendentes que. teria tido uma influência direta dos movimentos norte-americanos de insurgência política e cultural Black Panther e Black Power. os papéis que os afrodescendentes podem ou devem ocupar nos diversos setores da sociedade brasileira. Seixas assim conclui: Desconstruir a herança colonial européia e fortalecer a auto estima da gente mestiça ou do povo brasileiro . a exemplo do que ocorreu nos Estados Unidos. o MNU da Bahia e o Grupo Cultural e Carnavalesco Ilê Aiyê (reconhecido como primeiro bloco afro de Salvador). estava nascendo no Brasil. A origem ou as origens das tradições africanas no Brasil ainda continuam na ordem do dia dos debates entre sociólogos. sob a decisiva participação do ativista político Abdias do Nascimento. inspirados nas experiências políticas dos afro-americanos. fundado em 1974. p. ou um apagamento da pureza racial negra (Ibdem. p. a partir dos anos 70. 64 No Brasil.é o que Jorge Amado começou a fazer. diferentes daqueles que historicamente. 40). foram sendo reservados ao longo dos séculos de escravidão institucionalizada promovidos pelo Estado em parceria com a Igreja Católica. ainda são questionados em pleno alvorecer do século XXI. em 1988. Mais tarde. 39 O Movimento Negro Unificado (MNU). têm sido os grandes baluartes de referencial histórico que se mantêm firmes nos ideais de construção de uma sociedade igual para brancos e negros. durante a primeira metade do século XX. em São Paulo. assumiriam um visual até então inédito no país39. residentes em bairros periféricos dos Estados Unidos. surgiria em Salvador outro grupo remanescente do MNU e que fora denominado de União de Negros pela Igualdade (UNEGRO). Dessa época em diante. desse contato. por entre as frestas da história contada e por entre as festas dos sentidos incendiados na tempestade do texto (ibdem. o Movimento Negro Unificado e com ele uma forte onda de reivindicação social e definição de território negro. Jorge Amado estaria a partir de então. antropólogos e historiadores. Em meio à efervescência cultural e política de 1968. assim como o tributo que ele pagou pela orientação ideológica da sua obra quer no sentido de afirmação quase panfletária dos ideais comunistas. quer no sentido de resgate e valorização da cultura afro- baiana. . e. Ao analisar a trajetória política e cultural de Jorge Amado. surgiram várias iniciativas que refletiriam em uma aguda tomada de consciência política na reivindicação de um “espaço” social de reconhecimento e valorização da contribuição africana na Bahia.

Os diversos e multifacetados ambientes culturais freqüentados pelo festejado e contraditoriamente. quer queira. que os povos africanos desenvolveram durante o longo período em que foram subjugados na diáspora da terra brasilis. No caso particular do escritor Jorge Amado. Tem sido evidente o tratamento que os críticos. o elemento negro passou a figurar nos romances amadianos como protagonista e a sua marca cultural passou a se sobrepor ao perfil europeu e indígena. o faz como se fosse um igual. para o constelado e restrito ambiente da literatura brasileira. 65 Na história da literatura brasileira poucos escritores souberam conviver e se relacionar com o manancial cultural originário das diversas etnias africanas trazido nos tumbeiros. execrado escritor baiano teriam sido transpostos. 40). à medida que alça vôos e ganha notoriedade com a sua obra publicada. quer não. Essa atitude carregada de sentimento solidário revela também um perfil pouco conhecido do autor e que por isso. O escritor Jorge Amado ao eleger corajosamente. torna-se um homem público e a sua popularidade pode crescer e interferir diretamente na sua rotina diária de cidadão. Jorge Amado se vale da sátira e do humor para compor uma crônica de costumes do viver baiano. aprofundado e adequado conforme a sua história de vida. estudiosos e especialistas dão ao perfil político-partidário do escritor Jorge Amado. alvo de pesquisas acadêmicas. é esquadrinhado nessa ou naquela obra literária e o rótulo de panfletário dificilmente lhe é negado. merece um estudo mais criterioso. A partir de então. estudos culturais. Sabe-se no entanto. através da recriação e reinvenção amadiana. Dentre o escasso número de escritores com perfil de identidade cultural. assume a função de porta-voz e representante comunitário inconteste. mais especificamente da cidade do Salvador e do Recôncavo. sociológicos e antropológicos conforme ficou assinalado por Seixas (2006). de forma sábia e estratégica. mais recentemente. Jorge Amado tem sido. fatores de vária ordem . afirmando a identidade e os valores do povo mestiço (opus cit: p. um negro ou um mestiço para ocupar o papel de herói e protagonista de sua trama literária. e isso se deve ao fato incomum de sua obra literária se mostrar impregnada de elementos culturais daquilo que passou a ser chamado de “baianidade” ou seja: um conjunto de marcas identitárias de afro-brasilidade regionais da Bahia. O seu vínculo ideológico ao Partido Comunista nos idos de 1930. que um escritor. modelos utilizados largamente e que ainda servem de parâmetros para alguns saudosistas e preconceituosos.

ama e respeita ( RAILLARD. Evidentemente por essa razão fui designado. presidente de honra do certame. eu já tinha outros títulos: fui ogã de Oxóssi no candomblé de Procópio. [. Em outro momento.] É o caso de Carybé.. Miguel Santana. obter a libertação do seu “pai-de-santo” da prisão. por outro lado. e acho que isso explica tudo. Obá é um cargo vitalício. do povo e dos candomblés. em maior ou menor grau. É inegável em Jorge Amado essa marca do homem público. quase insignificante do ponto de vista político ao Jorge Amado ogan do candomblé do finado Procópio de Ogunjá. 1991. que já foi um personagem importantíssimo na vida do povo. Portanto. mas uma delas é Miguel Santana. p. de Caymmi. Archanjo é a soma de pessoas diferentes. Em 1937..] Fui escolhido obá por que sou um homem que toda a vida lutei para defender os direitos dos negros. uma pessoa que o povo conhece. aquele que atuou inúmeras vezes. sobre o qual construí o Pedro Archanjo de Tenda dos milagres . Jorge Amado foi sacerdote do candomblé e exerceu a sua vocação de forma intensa e produtiva.. já consagrado como autor. como também de um homem que já faleceu. [.ele não é o único. junto aos representantes policiais para. sob a égide da então Universidade da Bahia e no qual fez o discurso de abertura. a sua adesão ao Partido Comunista tivesse funcionado com um fator determinante e tivesse contribuído para a existência de uma espécie de fusão. jornalista-romancista e o homem da política partidária. . 80). eleito para exercer um mandato de deputado constituinte nos anos de 1940. entre o homem das letras. Obá Aré. 66 implicaram na sua invejável popularidade nacional e internacional.. Jorge Amado obá “suspenso” do Axé Opô Afonjá na gestão da ialorixá Senhora de Oxum. Ele já morreu. A luta de toda a minha vida contra o racismo é uma luta que apóia diretamente a religião negra. atuaria publicamente e de forma comprometida em eventos de projeção nacional e internacional como o Congresso Luso-Brasileiro que aconteceu em 1959. há vinte e cinco anos. É nesse sentido que sou um obá. mas não se pode. através do alvará de soltura. Sou um obá. isto é. a gente é obá para sempre. tendo a arte literária como ferramenta principal: Tornei-me um obá em 1961. um obá é escolhido quando outro morre. Certamente. negar ou dar um tratamento menor. ogã de Iansã no . durante a realização do II Congresso Afro-Brasileiro da Bahia o autor de Jubiabá faria um discurso emocionado de saudação ao babalaô Martiniano Elizeu do Bomfim.

nas irmandades de negros e nos cantos. como se tudo e todos funcionassem de maneira orgiástica e carnavalesca numa rotina anual. Apesar do seu caráter enfático. Fica mais fácil. homens e mulheres de estirpe que trouxeram consigo nos tumbeiros. da cantada e decantada sensualidade dos povos africanos e afrodescendentes. bem humorada e comprometida com a realidade coetânea de onde surgiu. a compreensão de uma obra literária que se distingue por ser multifacetada.15). transbordantes e exuberantes na cidade do Salvador e em algumas regiões do Recôncavo. Para uma melhor compreensão do fazer literário de Jorge Amado é necessário. percorrer alguns anais da história do povo negro no Brasil.. colorida. não teria sido outra coisa senão fragmentos da religião. O que o jovem escritor baiano conseguiu transpor para a sua obra literária inaugural. através de discursos transbordantes de sentimento nostálgico de uma Bahia distante. Alguns estudiosos desses aspectos “negativos”. sensual e aparentemente “ingênua”. nos quilombos. p. um candomblé de caboclo. enquanto vieram de Portugal presos políticos e degredados. e finalmente obá (ibdem. nos terreiros. preliminarmente. Expressões muito comuns como “O mais importante na Bahia é o povo” e outras alusivas a essa temática são recorrentes na literatura amadiana. representantes de linhagem sacerdotal e real. vieram cativos. O convívio com essas expressões. da culinária. publicitário e apelativo. que procura vender uma imagem distorcida da Bahia e dos baianos. de maneira especial durante a elaboração do romance Tenda dos milagres. 2002. nos mercados. teria provocado uma relação identitária muito profunda com o povo negro da Bahia. 81). 67 candomblé de Joãozinho da Goméia. ou melhor: dos povos africanos da diáspora brasileira. do continente africano. da música. construtos recriados e reinventados inicialmente e de forma imorredoura. da dança. mais especificamente da Costa da África. Nessa perspectiva se insere a presente pesquisa e nela busca-se reconstruir o percurso trilhado pelo escritor baiano. teria provocado em Jorge Amado mais que uma simples inspiração para escrever. presentes no discurso grandiloqüente do escritor Jorge Amado questionam o seu posicionamento . enfim. p. com essa abordagem. nas senzalas. Sabe-se que no início da colonização. fragmentos de culturas e civilizações milenares (SODRÉ. da cultura.

Chamados de “mitos crioulos” por Cid Seixas (2005). Era o que se chamava de um ‘negro vosmincê’. com o advento dos estudos culturais. membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. na verdade. em Salvador. era um negro de projeção entre os mais provectos intelectuais do seu tempo. quitandeiras. 1982. entre as décadas de 1960 e 1970. Nesse intenso processo de retomada do percurso literário de Jorge Amado foi de grande utilidade o depoimento da escritora e folclorista Hildegardes Vianna (1982). marginais. sociólogos. a partir dos resquícios de um Brasil escravocrata ou melhor: sobrevivências culturais afro-baianas que o autor de Jubiabá e Tenda dos milagres teria encontrado durante a sua adolescência em Salvador. cujo referencial fundante dessa ideologia teria sido inspirado no discurso amadiano sobre a gente “preta e pobre” de Salvador. Negro de vergonha. farto material para justificar o surgimento e atuação de movimentos sociais. 68 autoral e a sua força literária como principal responsável pela idéia de baianidade difundida massivamente dentro e fora do Estado. 121). capoeiristas. procurando o seu lugar quando necessário (VIANNA. culturais. etc. políticos e religiosos. fateiras. etnolingüístas. a obra de Jorge Amado tem sido revisitada e nela diversos teóricos e pesquisadores têm encontrado de forma sistemática. Manuel Querino. etnomusicólogos. formada em sua grande maioria por prostitutas. nele a autora oferece informações importantíssimas e bastante esclarecedoras sobre a origem do material que o autor Jorge Amado teria utilizado em sua obra literária e que conseqüentemente teria provocado as mais duras críticas oriundas de seus leitores mais pudicos e dos seus estudiosos mais ortodoxos. Não é difícil descobrir que Pedro Archanjo é o que deveria ter sido Manuel Querino. Alías. Na contemporaneidade. estivadores. etnopsicanalistas. Sob essa perspectiva. uma interpretação tendenciosa e manipuladora surgiria. essas pessoas teriam saído da vida real e cruel e passariam a habitar no imaginário popular recriado por Amado. vendedoras ambulantes etc. a obra de Jorge Amado tem sido ferramenta útil para antropólogos. menores abandonados. p. sempre fiel às suas origens. A capacidade artística e literária de reunir em seu romance uma diversidade de tipos e ambiências culturais teria inspirado comentários como o que se segue: .

1962. 86).) O turismo tem todos os defeitos. de certo modo. à tradicional literatura 40 Ojuobá. sem dúvida. em 1936. ordenados através de títulos introdutórios. .1 Ojuobá Arolu: uma leitura dos olhares de Jorge em Tenda dos milagres40 O romance Tenda dos milagres foi escrito no período de março a julho de 1969.. é o nome de um dos doze Ministros de Xangô.. apud RAILLARD. Uma ‘projeção estética do folclore’ de primeira grandeza (VIANNA. nome ou título religioso iniciático atribuído a Pierre Verger e circunscrito ao Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá. Em A Tenda dos Milagres (sic). SANTOS. descrevendo toda a palhaçada dos que cavalgam sobre as glórias alheias. como depreciativos por representantes do Movimento Negro Unificado entre os quais destaca-se o ilustre poeta e líder político Abdias do Nascimento. (AMADO. e também. organização religiosa instituída pela ialorixá Eugênia Anna dos Santos. no sítio do casal Genaro e Nair de Carvalho. ele corrompe. 1990. Mãe Aninha. (. a coisa é assim: o turismo existe e usurpa tudo. os olhos do rei. p. A literatura amadiana. Cf. O romance foi estruturado em 15 capítulos. p. Arolu. que remetem diretamente à literatura cavalheiresca medieval. por sua vez. o que é da vida e o que é de Jorge Amado. pode ser considerada como proto-literatura do negro na Bahia. 69 Jorge Amado está magnífico. referentes a algumas representações literárias em que o povo negro figura com objeto sexual. também chamados de Obás de Xangô. 3. e que teve a participação decisiva do babalaô Martiniano Elizeu do Bomfim. mesmo apresentando traços culturais que são analisados mais recentemente. que fez sérias acusações públicas ao escritor baiano. 121). 1982. chega a ser difícil dizer o que é realmente folclórico e o que é criação literária. TERCEIRO CAPÍTULO No que se refere ao turismo e a tudo o que vem com ele.

ter tratado as questões de raça e cultura com o desprezo típico da ideologia marxista. todas. Jorge Amado procurou elaborar um prólogo especial que apresentasse. naquilo que seria denominado. para sempre. Nela se encontram registros históricos de importantes lideranças do mundo afro-brasileiro pós- escravidão. 70 de cordel. de forma sintética. através da catequese dos padres jesuítas e preservada em sua estrutura. muitas vezes recordei o falecido professor Martiniano Elizeu do Bonfim. seguido de uma queima de arquivos. sobremodo. 2007. O autor de Tenda dos milagres ao conceber um prólogo para o romance que fora considerado por ele próprio de sua maior predileção.000 de africanos que foram trazidos nos tumbeiros para o Brasil (CASTRO..000. de escritura da margem. difundida no Brasil. Ou poderia. Os dados estatísticos somam 4. o outro nome lembrado em grau de importância é o ilustre santamarense Manuel Querino. ainda na atualidade. Ao escrever o seu romance Tenda dos milagres. desde quando foi iniciado o tráfico negreiro para o Brasil. que ele conheceu pessoalmente. Trata-se da herança negro-mestiça acumulada durante séculos. ainda. tendo a característica arcaizante do local. pelo menos dois deles são citados na dedicatória. . Ajimuda. os governantes teriam achado que um simples ato cerimonial e protocolar. e que já haviam morrido à época da publicação de seu livro. natural de Itabuna. ele escreveu os seguintes termos: Enquanto escrevi este livro. as mais variadas expressões da cultura popular afro-baiana. como fenômeno decisivo para a sua permanência vigorosa. metaforicamente. banimento e degredo àqueles e àquelas pessoas que foram escravizadas pelo regime colonial sob a tutela da religião oficial. até mesmo contrário. No entanto. também. O escritor baiano. que aparece mediante 41 A tradição do cordel vindo de Portugal teria encontrado um terreno fértil na região Nordeste do Brasil. Com uma rubrica editorial muito particular. sábio babalaô e meu amigo: quero aqui deixar memória de seu nome. pelo autor. apagaria. a história de um holocausto humano cujas dimensões são incalculáveis. ambientadas. não olvidaria de dotá-lo de informações muito caras aos estudiosos de sua obra. reforçando os valores republicanos de repulsa. e que se situam numa zona que foi identificada pela pesquisadora Rita Olivieri-Godet (2000). de “universidade aberta do Pelourinho”. teria desenvolvido uma vocação literária especial de características marcadamente identitárias.. na região do nordeste41. Ele poderia ter seguido outro percurso. ao findar-se o regime escravocrata. 126).. p.

de certo modo. formado majoritariamente. também funcionam como preâmbulo para o que será apresentado no miolo do livro. representado principalmente. resultando. irônico. se voltaram para a comunidade soteropolitana formada por negros e negras. em linhas gerais. àqueles que desejam fazer uma leitura sociológica e antropológica do romance. o quadro que servirá de cenário para a escritura do romance Tenda dos milagres será. daí.tirado a sabichão e a porreta” (AMADO. As diversas formas de adequação implantadas pelo europeu a ferro e fogo. sob o signo da criação literária ou seja: são antecipações ligeiras daquilo que se desdobrará ao longo do romance aludido acima. propriamente dito. homens e mulheres da resistência escravocrata do Brasil colonial. paisano e pobre . Contudo. poderá encontrar algumas dicas que ajudarão. feitas em forma de rubrica editorial. Também não foi por acaso que o autor introduziu logo de início essa referência policialesca cujos dados traçam um perfil marginal daquele que representa. principalmente. Não sendo postas à toa. por afrodescendentes: negros e mestiços. na cor da epiderme e na singeleza e espontaneidade das expressões culturais e religiosas42. Esse aspecto preponderante revela. o autor Jorge Amado ainda apensou nas credenciais do romance alguns dados retirados de um suposto relatório policial sobre o personagem Pedro Archanjo. o Quilombo de Palmares. insurgências de negros e índios na luta pela terra e por liberdade. 1969. . p. 42 Sociólogos e antropólogos como Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro em suas respectivas obras referenciais Casa grande & Senzala e O povo brasileiro. essas citações inicias. nos dão conta através de relatos minuciosos como teria sido o encontro cultural das etnias formadoras da nação brasileira. o leitor amadiano. os olhares de Jorge (crítico. o papel de protagonista e herói da trama literária. o seu gesto preferencial de identificação com o povo de Salvador. social e psicológico do protagonista: “Pardo. Nas referidas epígrafes. na obra. 71 uma citação feita em forma de epígrafe: “O Brasil possui duas grandezas reais: a uberdade do solo e o talento do mestiço”. nostálgico). teria provocado nesse período. entre outros. Não considerando suficientes essas referências. e que tentam definir o perfil físico. Em Tenda dos milagres. distanciado. uma transposição figurada de uma realidade histórica cruel de homens e mulheres que integram uma sociedade distinta pela superficialidade e pelo banimento daquilo que lhe parece diferente. datado de 1926. 6).

que surge no momento crucial da morte de Pedro Archanjo e participa da última solenidade alusiva ao protagonista. Esses aspectos. aqui. E este mesmo cardeal vendeu. Alguns episódios corriqueiros das camadas populares de Salvador são transformados pelo escritor em verdadeiros momentos de lirismo. a festa de Nosso Senhor do Bonfim. foi nomeado cardeal Dom Augusto da Silva. em tom irônico e sarcástico. ratificando a sua lição de popularidade baiana de “Pai dos pobres”. a baianidade identitária que o autor assume. Aliás. assume traços biográficos do major Cosme de Farias. sim. 72 Como forma de situar o leitor e contribuir diretamente para a construção de uma leitura mais crítica da obra amadiana. em que o personagem major Damião de Souza. como o episódio do romance Tenda dos milagres. voltado sobremaneira. 1991. definindo. ele elegeu o candomblé em sua obra ficcional como a religião mais adequada politicamente. dariam à sua obra um caráter estritamente crítico. p. Uma outra característica marcante na obra de Jorge Amado e que revela a sua capacidade literária e domínio de escritor é a ironia. à sua biografia político-partidária de comunista e à sua adesão açodada ao marxismo. invariavelmente. (AMADO. a antiga Catedral da Bahia: a igreja em que o padre Vieira havia pronunciado os seus grandes sermões contra os holandeses (AMADO apud RAILLARD. que deixou uma triste lembrança na cidade . p. Segue. Em momentos oportunos e apropriados o autor de Tenda dos milagres não teria economizado a sua verve crítica aos modelos perpetrados pela religião dita oficial. devido às suas características de resistência histórica e ao seu caráter popular.ele entrou em disputa aberta com as congregações religiosas querendo suprimir as festas populares. . vendeu um de nossos mais antigos monumentos históricos. O projeto estético-literário de Jorge Amado apresenta uma característica fundamental que remete. assim. em particular. 1969. um depoimento crítico do autor que revela a sua indignação com o descaso da Igreja Católica com a preservação do seu patrimônio histórico: A Bahia era então uma pequena cidade de cento e cinqüenta mil habitantes cujo patrimônio artístico começava a ser destruído. 23-34). em 1927. os olhares de Jorge são. 40). apresentados através de pequenos comentários que procuram traduzir a materialização da sua veia artística na representação literária dos romances que escreveu. para a desconstrução de paradigmas ocidentais advindos do mundo academicista judaico-cristão. Se não me engano. abaixo.

no entanto. (. 1990. . Para o meu trabalho de escritor. p. O escritor Jorge Amado não abandonou a experiência que teve na juventude quando morou no Pelourinho. permitiu tratar de temas polêmicos e históricos e com isso o efeito social da sua literatura foi o de provocar especulações e estimular um certo tipo de condicionamento sugestivo. sua cultura. esta época foi muito importante para mim. também o fiz figurar em Tenda dos milagres .um dos que foram a base para o Pedro Archanjo. apud RAILLARD. de autoria do etnólogo Antonio Monteiro. mas também. prostituição e boemia.ele tinha as costas marcadas pelo chicote da polícia.) Foi meu amigo como foi Aninha. Minha intimidade com a vida do povo tomou forma nestes anos em que vivi muito livremente (AMADO apud RAILLARD. 40). pelo preconceito religioso. o mais perseguido de todos. p. a fundadora do Opô Afonjá. estes anos foram fundamentais. ao contrário. O seu olhar distanciado.. Conheci sua vida.. Literariamente. grande amigo meu. pelo conhecimento do povo baiano que adquiri. absorveu e cristalizou em sua memória uma época marcada principalmente pela perseguição policial. inspiraram-lhe uma literatura marcada pela ausência física e pelo tom nostálgico. uma Bahia distante no tempo e no espaço. Os homens que conheci já morreram. Belarmino (sic). Conheci todo este mundo. 43 Sobre as reminiscências de alguns mitos crioulos na Bahia é interessante ver o trabalho referencial Notas sobre negros malês na Bahia. publicado em 1987. de(sic) Bate Folha. Os lugares e as pessoas que não existiam mais passaram a existir e aqueles existentes se adequaram ao seu olhar distanciado. 73 Jorge Amado sempre escreveu sobre temas relacionados com a Bahia. Os longos anos que passou distante. Procópio. 40). como grandes pais-de-santo da época. mais ainda do ponto de vista humano. não muito próxima da realidade em que são publicados. “Era um tempo glorioso. Os seus romances são ambientados em época não muito distante. pela pobreza e pela marginalidade. uma Bahia com seus mitos crioulos43 sob a iminência de desaparecimento. incrivelmente cheio de beleza e aventura”. 1991. geograficamente. eu era um menino mas já era jornalista e muito “agitado”. de Tenda dos milagres. e fazia muitas coisas (AMADO. da sua terra natal e da sua cidade do Salvador. pela editora Ianamá. Martiniano Elizeu do Bomfim .

instalada no Terreiro de Jesus (conhecido também como Pátio dos Jesuítas). se entendido simplesmente. sem saberem. 45 Dentre os inúmeros personagens secundários que constam no romance amadiano Tenda dos milagres. Por outro lado. instituição educacional criada por D. 3. Martiniano Eliseu do Bomfim era babalaô e professor de inglês e ioruba. p. representado no romance pela Faculdade de Medicina. 2005. político e pesquisador. Salvador tinha uma população com predominância de negros concentrada. quitandas. tratamento um tanto pejorativo nos terreiros. 112. 302. tendas e escritórios. 74 Até meados da década de 1950. está Bibiano Soares Cupim. a Faculdade de Medicina da Bahia tem passado por reformas estruturais profundas e se organiza na atualidade para registrar a efeméride dos 200 anos de sua fundação em 2008. representado através de serviços prestados à população. 1969. Manuel Querino foi professor. e Miguel Santana foi alfaiate e empresário na administração de embarcações no porto. incluindo aqueles que foram atraídos pelo som dos atabaques e se aproximaram do terreiro podem entrar para ver o que está acontecendo e participar da festa (SIQUEIRA. 1987. e que “entraram mudos e saíram calados”. sobretudo. É o momento de reunião de todos os participantes dos rituais precedidos como também membros da Família de Santo extensa. O autor contudo. 1998. p. Ver CASTRO. líder religioso de grande representatividade comunitária em Salvador e que foi presidente de honra da Sociedade Protetora dos Desvalidos na época do seu centenário de fundação em 1932. É uma cerimônia “a portas abertas”. artistas anônimos que produziram cultura e desenvolveram atividades importantes ou que desempenham uma função social intermediária. as necessidades e apelos das camadas populares45. 139). como “ogã de faca”. . destinadas ao serviço de intermediação de mercadorias para a região do recôncavo e das ilhas. A posição de prestígio financeiro de Miguel Santana o fez figurar no livro As elites de cor na Bahia. João VI em 1808. 52). Ver MONTEIRO. os negros e mestiços mais bem sucedidos exerciam atividades de mando à frente de armazéns. locais típicos para o ganho diário e para as diversas formas de sobrevivência dos afrodescendentes44. 47 O xirê é a síntese de tudo o que foi festejado desde o bori. como transportes de bens e pessoas e atividades outras como a de calafate. que ficava em determinado local do centro de Salvador e que denominavam de Canto. p. de autoria do sociólogo Thales de Azevedo Essas pessoas que são citadas pelo autor não passariam de simples artesãos. p. cujo mérito era atender. de imediato. realizavam. no Pelourinho e adjacências. na região do Porto. utilizando a expressão: “axogum (sic) do Gantois” (AMADO. no Tabuão. Enfim.2 Xirê ou as voltas que o mundo dá47 44 A população negra masculina que sobrevivia do subemprego braçal. 46 Após ter sido abandonada por longos anos. em sua passagem pela Bahia46. teria deixado uma marca muito forte aliada ao seu nome quando se referia a ele. uma interface contínua e histórica com o segmento erudito oposto.

chibata armada. Sete Mortes. açoite. 1969. Zacarias Grande. Angola Dobrada. Doze Homens. martelo. 9). Amazonas. Chico Me Dá. Cavalaria. galopante. Antonio Maré. Iúna. p 7). destacados pelo valor e competência conforme segue abaixo: Querido de Deus. E o autor continua a sua descrição detalhada sobre a capoeira mediante a representação e enumeração dos seus principais mestres. chapa-de-frente. Apanhe a Laranja no Chão Tico Tico. Saveirista. p. os rapazes jogam ao som dos berimbaus. 75 O prólogo de Tenda dos milagres tem uma característica muito especial e se constitui num grande leque de registros de manifestações da cultura popular afro-baiana. como um conhecedor da vida popular da Bahia e torna o seu leitor. Piroca Peixoto. ora se tem: aqui nesse território a capoeira angola se enriqueceu e transformou: sem deixar de ser luta foi balé (AMADO. chapa-de-costas. introduzindo-o nas dinâmicas do cotidiano soteropolitano através de atmosfera onde predominam a espontaneidade e o associativismo. Santa Maria. através de uma imensa variedade de golpes e toques: Os berimbaus comandam os golpes variados e terríveis: meia-lua. . Samongo e Cinco Salomão – e tem mais. boca de siri. Vicente Pastinha. cuja memória ficou registrada nos seguintes versos: Besouro antes de morrer Abriu a boca e falou Meu filho não apanhe Que seu pai nunca apanhou. descrita minuciosamente. óxente!. Bom Cabelo. Angola Pequena. sem falar no lendário capoeirista santamarense Besouro Cordão de Ouro. 1969. pelo também santamarense Antonio Vieira. Angola. cabeçada. São Bento Pequeno. na louca geografia dos toques São Bento Grande. que me fora apresentado em 2000. boca de calça.48 (AMADO. Tiburcinho de Jaguaribe. chapa-pé. bananeira. Bigode de Seda. rasteira. cutilada. Chico da Barra. rabo-de-arraia. No expressivo memorial contido no referido prólogo. que abrange desde a tradicional luta-capoeira angola e regional. o autor se apresenta na realidade. o mais próximo possível dessa realidade. Pacífico do Rio Vermelho. escorão. Nô da Empresa e Barroquinha. Nele se tem 48 Tomei conhecimento de Besouro Cordão de Ouro através do Cordel Remoçado O encontro de Besouro com o valentão Doze Homens. aú com role. aú de cambaleão.

Jorge Amado faz uma referência direta à literatura de cordel. 1969. umas e outras de espantar (AMADO. o autor fez uma menção honrosa e bem humorada do cordel no seu romance. onde se pode cantar um pequeno refrão ou uma pequena estrofe de cantigas tradicionais da capoeira. Agripiniano Barros e Raimundo Fraga. panfletários. Em Tenda dos milagres (1969). cronistas. Nos seus enunciados. e Lídio Corro. Noticiam e comentam a vida da cidade. Queiroz. p. artistas e artesãos. em especial. utilizadas para esculpir os orixás e caboclos encomendados pelos devotos. Ainda no prólogo. vendem a cinqüenta réis e a tostão o romance e a poesia no livre território. p. repentistas. entre a apresentação de um tema e outro. Ajay. resultante do longo processo religioso de catequese desenvolvido nas comunidades rurais. certamente por considerá-lo um importante veículo de comunicação. Licídio Lopes. do jacarandá. crítica e diversão: Trovadores. 1969. compostas e impressas na tipografia de mestre Lídio Corro e em outras desprovidas oficinas. o autor fez uma utilização exaustiva desse contributo. Para melhor falar do escultor Agnaldo o autor antecipa o seu comentário listando a variedade de madeiras de lei. cada acontecido e as inventadas histórias. é aqui transcrita pelo seu conhecimento universal na Bahia: Ai. em rimas. violeiros. ai aidê Jogo bonito que eu quero aprender Ai. 76 conhecimento dos nomes expressivos de lideranças comunitárias. São poetas. estudiosos engajados. São citados pelo autor: Budião. como se cada um deles tivesse uma preferência sobre tal ou qual madeira: assim. expressão literária remanescente dos tempos medievos e que sobreviveu no interior do Brasil. introdutórios de cada capítulo. o leitor encontra no texto corrido uma pausa criada propositadamente pelo autor. Entre um parágrafo e outro. moralistas. . escrita utilizada como forma de protesto. o anonimato tem sido o principal repositório do legado cultural que se formou ao longo dos séculos de escravidão no Brasil. do vinhático. uma. ensino.8). principalmente na região nordeste. Entre os pintores primitivos foram destacados: João Duarte da Silva. do putumuju e da 49 Característica marcante da cultura popular. da peroba. tornando a sua escrita baseada no modelo dos romances medievais e na tradicional literatura de cordel. Valdeloir. autores de pequenas brochuras. do pau-brasil. ai aidê49 (AMADO. 8).

o caminho da industrialização e do desenvolvimento urbano. realizado mediante processos sucessivos de louvação solidária acabaria resultando em eloqüente consagração popular. tacitamente. Três Estrelas e Sete Espadas. de uma civilização afro-baiana: “uma imagem nova e original”. A expressão ”No amplo território do Pelourinho”. Retomando o assunto introdutório do prólogo. feitas pelos “camaradas” do sul e sudeste do país. sabia das dificuldades históricas para sobreviver numa sociedade considerada elitista e desigual economicamente. as formas de resistência cultural e social que foram sendo desenvolvidas e aperfeiçoadas pelo povo negro de Salvador e que. no qual o autor procura descrever. passos e sangue”. um continuum ancestral que resultou naquilo que os antropólogos passaram a chamar. tema que se desenvolveria logo em seguida. no dizer do autor. antes de ler o miolo do livro. o conjunto de saberes e fazeres. O próprio Jorge Amado. percorrendo. o continuum do local. que misturava “ritmo. funciona como uma rubrica romanesca inicial. as figurações dos caboclos Rompe Mundo. descritos com riqueza de detalhes pela voz autoral. O fragmento seguinte do parágrafo inicial tem um caráter elucidativo e. nos capítulos escritos de forma envolvente. crítica. 77 massaranduba saem oxês de Xangô e representações de Oxum e Yemanjá. com o passar dos anos. e bem humorada. ou seja: as atividades que ali se desenvolvem. como também. tardiamente. . de certa forma. às críticas carregadas de um certo preconceito. Ler na íntegra o aludido prólogo é ter uma oportunidade rara de conhecer de antemão. entre uma investida policial e um alvará de soltura. O referido ritual literário de abertura. esses ofícios de artesania popular foram se consolidando e aos poucos. como cidadão. isto é. essa gente descrita como operária da cultura e que sabia trabalhar os metais e as madeiras. uma credencial ou mesmo um cartão postal de apresentação do território demarcado para servir de cenário à trama literária. que sabia utilizar as ervas e as raízes. introduz o longo parágrafo inicial do prólogo. foi criando uma dinâmica muito própria. como desenvolvem e o que fazem para assegurar a sua continuidade. assim como a aparente desvantagem que Salvador teria com relação às demais capitais do país. responde. mostrando que o baiano não é preguiçoso: “homens e mulheres ensinam e estudam”. mais recentemente. em estilo conciso.

passa pelo final do Império. É inegável a identificação com o povo negro-mestiço da Bahia. Jorge Amado procura construir ou melhor. Em Tenda dos milagres. o advento do Estado Novo. para nos explicar culturalmente. situada com maior freqüência na cidade do Salvador. A trama do romance se desenvolve no caldeamento histórico e cultural do país e se resume no profundo desejo de liberdade. a trajetória de resistência. p. escrever um livro. A utilização de elementos da Antropologia. Cid Seixas (2006). através da recuperação da história não oficial (RAMOS. Na identificação do projeto literário de Tenda dos milagres. fez o seguinte comentário: “Jorge Amado pagou tributo à adesão açodada à ideologia do proletariado”. no qual ele pretende mostrar a formação do povo e da cultura brasileira. econômica e cultural do país. em dezembro de 1968. reconstruir do ponto de vista estético-literário. a Antropologia esteja presente. O autor introduziu elementos de vária ordem em seu projeto literário. e de sobrevivência cultural da herança africano-brasileira na Bahia. política. início da República. assim como nas entrevistas e depoimentos esclarecedores. podem ser considerados os seguintes itens: • Iniciativa deliberada de escrever um livro • Escolha do tema / temática . A história de vida do autor é fator determinante no romance e. de luta. na sua obra. constitui um meio de denunciar a realidade das minorias para nos fazer compreender a sua importância na explicação dos fenômenos sociais e econômicos. se bem que . durante a sua fase de militância. e culmina com a instalação do Regime Militar e a decretação do Ato Institucional 5 (AI-5). O romance Tenda dos milagres é uma revisitação da história social. 78 Por mais experiente que seja o autor. obscura e surpreendente trajetória a ser percorrida. presentes nos discursos amadianos. 1868. às vezes. Sobre o visual político do seu autor. que o autor de Tenda dos milagres procura imprimir no seu texto. 2000. é sempre uma nova “viagem” a ser feita. formando um rico e colorido mosaico da sociedade brasileira que remonta ao período da escravidão no país. 52). se confunde com a própria narrativa identificável através de mecanismos de comparação e que revelam dados biográficos e pessoais. uma longa. a partir de referências e pistas deixadas no texto. É o caso de Tenda dos milagres.

VII. enumeradas. negras e sueca (que em verdade era finlandesa). VI. Capítulo: Onde Fausto Pena conta sua experiência teatral e outras tristezas. Capítulo: Onde se trata de gente ilustre e fina. com mulatas. Capítulo: Do nosso vate e pesquisador em sua condição de amante (e corno) com amostra de poesia. VIII. professorinhas e o gaiato Crocodilo. Levenson e de suas implicações e conseqüências. Capítulo: Onde se conta de livros. IX. em geral sabidíssimos. a seqüenciação dos títulos e dos capítulos sucessivos do romance em análise. foi encarregado de uma pesquisa e a levou a cabo. publicitários. de catedráticos e trovadores. uma lição e uma proposta. . brigas de rua e outras mágicas. XI. III. bacharel em ciências sociais. com poetas. Capítulo: Da morte de Pedro Archanjo Ojuobá. e. X. II. Capítulo: Da chegada ao Brasil do sábio norte americano James D. V. recebe um vale (pequeno). Capítulo: Onde Fausto Pena. Capítulo: Onde se conta de entrudos.conteúdo dramático da narrativa • Desfecho: mensagem final do narrador Abaixo seguem. se propõe uma adivinha e se exprime ousada opinião. em meio a tanto ipisilone. intelectuais de alta categoria. Capítulo: De como o poeta Fausto Pena. da rainha de sabá. e de seu enterro no Cemitério das Quintas. teses e teorias. Capítulo: Da batalha civil de Pedro archanjo Ojuobá e de como o povo ocupou a praça. Tenda dos milagres: I. 79 • Seleção do material • Escolha do território cenográfico/ ambientes das cenas • Definição do protagonista e papéis secundários • Discurso introdutório: convite sedutor à leitura da obra • Enredo . da condessa e da iaba. indócio arrivista. IV. Capítulo: Onde Pedro Archanjo é prêmio e assunto de prêmio.

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XII. Capítulo: Filosofando sobre o talento e o sucesso, despede-se Fausto Pena: já
era tempo.
XIII. Capítulo: Da pergunta e da resposta.
XIV. Capítulo: Da glória e da Pátria.
XV. Capítulo: “Do território mágico e real.” - “Epílogo”

Inspirado na expressão latina “Urbe et Orbe”, que pode ser traduzida literalmente por “Da
cidade para o mundo”, Tenda dos milagres, se define como projeto literário de expansão e
de afirmação do contributo africano na diáspora brasileira, e, mais especificamente, afro-
baiana.
Com uma experiência acumulada de 38 anos de literatura e com uma trajetória de vida
marcada por grandes embates, e, definida, também, por grandes vitórias, Jorge Amado,
nesse romance, não esqueceu das suas origens mais remotas e de seus ambientes de maior
inspiração. Antes, ao perceber certo distanciamento do referencial crioulo que a Bahia lhe
proporcionou vivenciar, em tenra juventude, ele procurou, se não imortalizar; legitimar
com fundas raízes, as principais expressões da cultura popular afro-baiana, mormente o
candomblé e a capoeira, fixando na memória dos seus leitores, os nomes de suas mais
destacadas lideranças.
Sobre esse audacioso projeto literário que se realizou em Tenda dos milagres, o próprio
autor deixaria em forma de registro a sua deliberada iniciativa e a sua plena consciência de
escritor. Dotado de capacidade intelectual e política suficientes para interferir nos destinos
da história, afirmaria o seu projeto político-literário em depoimento de notável lucidez,
conforme nos informa Ramos (1992), em sua tese de doutoramento: “Quis registrar hábitos
e modos de viver dessa gente, que está desaparecendo diante da massificação operada pelos
meios modernos de comunicação”.
De um tudo o leitor pode encontrar em Tenda dos milagres: noções de história,
antropologia, teologia, filosofia, crítica literária, poesia, cordel, autobiografia, etnografia,
etnomusicologia, folclore, agnosticismo, arianismo, jornalismo, turismo, indústria cultural,
africanismo, negritude, publicidade, marketing, cultura popular.
Tenda dos milagres, além de ser uma obra ficcional, pode, também, ser utilizado como um
livro de informações sócio-culturais sobre a diáspora africana na Bahia. Sem nenhum

81

exagero na classificação, também pode ser utilizado como um manual de referência
histórico-literária, que teria sido idealizado par servir de consulta, principalmente, dos
baianos, que vêem dia-após-dia, a crescente dilapidação do patrimônio cultural, criado e
legado pelos ancestrais negros, assim como a sua utilização fragmentada, com o intuito de
seduzir os turistas, criando estereótipos, para ameaçar com feitiçaria os incautos; e para
gerar alienação política, mediante o esvaziamento do sentido cultural e de resistência
histórica (PINHO, 1996).
A gente negro-mestiça, que totaliza mais de 80% da população da Cidade
da Bahia, metrópole inaugural do Brasil, é um fator decisivo na formação
do povo brasileiro. Por isto mesmo, o negro constitui o herói plural da
narrativa amadiana. Assim como os poetas épicos e dramáticos da tradição
européia (SEIXAS, 2006, p. 45).

Tenda dos milagres surge como uma proposta alternativa de adequação e de convívio
harmonioso entre os povos formadores da nacionalidade brasileira.
Tenda dos milagres é também, um grande relato dos conflitos existentes entre brancos e
negros; eurodescendentes e afrodescendentes, mestiços, todos.
Os brancos, descendentes diretos dos degredados europeus (portugueses, espanhóis, etc.);
Os negros, descendentes diretos dos africanos escravizados de linhagem sacerdotal e real.
Todos brasileiros, todos baianos, todos mestiços.
(...) O texto amadiano se instaura como diálogo intertextual com o
substrato popular de uma civilização nascida na Bahia: os mitos e tradições
dos descendentes de príncipes e súditos africanos trazidos como escravos
(ibdem).

A tese racial de Jorge Amado em Tenda dos milagres, inspirada em Casa Grande &
Senzala de Gilberto Freyre, é, nada mais, nada menos de adequação e enriquecimento
mútuos. Para ele, todos os brasileiros, de norte a sul, são beneficiários desse ajuntamento,
dessa força cultural, dessa brasilidade, dessa baianidade, sem arianismo e sem africanismo.

3.3 Faraimará50: um abraço carnavalesco em Jorge-Pedro-Amado-Archanjo

50
Ara Ketu ê, fara imorá! Ara Ketu ê, fara imorá! Fragmento em forma de corruptela de um cântico
dedicado a Oxóssi que faz uma alusão à coexistência harmoniosa e à união de todos os povos nagô-iorubás.
Segundo Silveira (2006, p. 528), este canto é uma espécie de hino nacional dos nagôs de Ketu (sic) na Bahia,
traduz um apelo à fraternidade de todo o povo “que deve unir-se e viver em paz”.

82

“Do território mágico e real” - “Epílogo”
O título do último capítulo do romance também denominado por esta pesquisa de Epílogo,
chama a atenção do leitor mais atento para o fato dele ser apresentado entre aspas. Essa
descoberta remete a um fato histórico que aconteceu no carnaval de 1969, em que a Escola
de Samba Filhos do Tororó elegeu para seu enredo o tema “Jorge Amado em quatro
tempos” e o samba enredo do compositor santamarense Walmir Lima foi o vencedor.
Embora o autor colocasse de forma fragmentária a letra do samba, ele teria agido, também,
como co-autor da letra, pela iniciativa que teve de fazer alterações em alguns versos e
omitir uma estrofe que faz referência ao título de quatro das suas principais obras
homenageadas no samba-enredo original. Segue abaixo, o texto integral do samba de
Walmir Lima:

“Jorge Amado em quatro tempos”

Escritor emocionante
Realista, sensacional
Deslumbrou o mundo
Oh! Jorge Amado genial;
Sua vida em quatro tempos
Apresentamos neste carnaval.

Do território mágico e real
Grandeza da inteligência nacional;
Extraiu dos seres e das coisas
Um lirismo espontâneo.
Glória, glória!
Do romance brasileiro,
Contemporâneo.

Foram estas as suas obras escolhidas
Para serem exaltadas, revividas:
Bahia de todos(sic) os Santos,
Gabriela Cravo e Canela,
Dona Flor e seus dois maridos
E O país do carnaval.

Louvemos pois as glórias alcançadas
Nas suas grandes jornadas
Nesse mundo de meu Deus;
E tudo que expomos nas avenidas

Eleger Jorge Amado. através de uma obra inaugural sobre a presença e contribuição do povo negro-mestiço na sociedade brasileira. em pleno desfile apoteótico da Escola de Samba Filhos do Tororó. exaltaria a cultura mestiça que se instaurou de forma definitiva na Bahia. ao ser tomado de encantamento pela música melodiosa e ritmada. cantar e deixar-se extasiar pelo colorido das fantasias e pelo jogo das alegorias. e que. da sua vida de “escritor emocionante. O samba-enredo de Walmir Lima representa a mais completa tradução do sentimento que a obra amadiana teria provocado nos seus leitores. O escritor. representativo de uma coletividade. teria traçado o seu perfil múltiplo e vário. faria o agradecimento aos seus leitores. Jorge Amado deixaria cair por terra os limites e as barreiras pessoais. depois de receber as devidas homenagens carnavalescas. O desfile da Escola de Samba Filhos do Tororó garantiu o 2º lugar na classificação geral do campeonato carnavalesco. ouvir. dançar. cujo anseio de conquistas o narrador onisciente expôs de forma enfática nas páginas que escreveu. tendo Manuel Querino como ídolo icônico da intelectualidade negra da Bahia. naquele instante mágico de celebração da vida encarnada. supostamente. 83 São histórias já vividas Contadas nos livros seus. Tomado de emoção súbita ao ver. realista. entraria para os anais da literatura brasileira e ganharia espaço na pesquisa sócio- . o qual por sua vez. sua vida e sua obra para disputar uma campeonato carnavalesco acirrado como o de 1969. Jorge Amado buscaria inspiração no exemplo deixado pelo escritor e ativista político Manuel Raimundo Querino. ganhou em 1º lugar. após definir o nome e sobrenome do protagonista: Pedro Archanjo Ojuobá. Os Filhos do Morro. a Escola de Samba Diplomatas de Amaralina e em 3º lugar. sensacional”. que porventura existissem. na noite do sábado de carnaval de 1969. Ao escrever o romance Tenda dos milagres. que “deslumbrou o mundo” com a sua literatura. teve uma repercussão ampla e irrestrita e que ficou registrada no romance Tenda dos milagres. no entanto. entoada com vigor e com ternura na voz do sambista Walmir Lima. converter-se-ia em baianidade. em especial. supostamente. teria sido germinado no coração e na mente de Jorge Amado. O samba-enredo de Walmir Lima. teria sido inspirado no referido desfile carnavalesco. no palanque da Praça da Sé. O romance Tenda dos milagres. Sob essa perspectiva e com a vontade deliberada de homenagear velhos amigos. tornar-se-ia mito crioulo. sob o signo da arte literária.

Há sempre um fio de esperança. integrante do corpo de jurados e tema de um samba enredo que inspirava um dos desfiles daquela noite de sábado. ambientes sociais e culturais habitados por negros e negras. mestiços e não mestiços. vemos as oposições se fazerem dialeticamente entre a cidade e o prostíbulo. 2000. donos de terras e de destinos humanos (COUTINHO. no romance que Jorge Amado começaria a escrever na “ressaca” daquele verão. Tudo é da vida. misturando as hierarquias de cima e de baixo. sejam vagabundos ou prostitutas. talvez. Jorge Amado se volta para eles. 221) Assim como se supõe que ele tivesse desenvolvido um talento especial para submeter a sua literatura à ideologia do Partido Comunista. com o carnaval se instalando no espaço da alegria e . livro inaugural. Na tentativa de aproximar a narrativa amadiana das teorias bakhtinianas sobre o carnaval e a prática carnavalizadora que o autor de O país do Carnaval. Depois de ter sido cantado efusivamente no carnaval de 1969. mostrando que a maioria do povo é infeliz.diria Bakhtin . confundindo-as ou mesmo fundindo-as como o fez com vários de seus personagens.no de cima. domina a cena do romance amadiano a violência e o riso. 84 antropológica do musicólogo carioca José Ramos Tinhorão. não são aceitas pelos que estão no nível . Dona Flor e seus dois maridos. não teria sido difícil para ele. Por vezes. pelos governantes que infelicitam o País. E não se deixa vencer. invertendo papéis. o dos poderosos. Gabriela cravo e canela. Assim o romancista dá voz aos sem voz e vez aos sem vezo aceito socialmente. construiu um texto que se propõe elucidar para o leitor uma das características mais controversas de escritor Jorge Amado e que o distingue dos demais. malandros de beira de cais ou pistoleiros do sertão. que o autor transfigura em arte narrativa. sendo ao mesmo tempo. chegando a ser panfletário. melhor dizendo: Jorge Amado trouxe para o seu fazer literário a rotina de uma população marginal e marginalizada. ficaria eternizado com ligeiras alterações. era a primeira vez que o famoso escritor baiano recebia uma homenagem pública em pleno “reinado de momo”. transpor igualmente. mas não vencida. objeto de estudo desta pesquisa. Em Jorge Amado. As máscaras que desenha nessa carnavalização do social mal resolvido pelos políticos. Segundo depoimento de Walmir Lima concedido ao autor desta pesquisa. A morte e a morte de Quincas Berro D’água e Tenda dos milagres. Trata-se da transgressão literária. que reuniu dezesseis escolas de samba e que foi considerada pelo Jornal da Bahia como: “Das mais contagiantes que Salvador já viu”. entre eles Pedro Archanjo Ojuobá. Edilberto Coutinho (2000). p.

1982. Traz às suas fortes. recria. alterada pela perspectiva de ampliação de sentido literário. O autor de Tenda dos milagres descreve o carnaval como pretexto para a transgressão literária. Sob a égide da construção formal e de catarse imposta. lhes atribui no epílogo. p. ao reaproveitar de forma fragmentada a letra do samba enredo Jorge Amado em quatro cantos de autoria do compositor Walmir Lima. desde as primeiras páginas de Tenda dos Milagres (sic) (DWYER. tendo já legitimado o seu projeto literário. tão universal (COUTINHO. 221). realizando. a compor um desfile carnavalesco e são descritos numa dimensão sociológica. a voz autoral onisciente. Em um verdadeiro tour de force. doravante. O único narrador efetivo que sobra para contar a verdadeira história é uma escola de samba composta de indivíduos que representam tudo aquilo que Pedro Archanjo Ojuobá foi e é. nome cunhado no decorrer do romance Tenda dos milagres. Se houve tentativa de carnavalização no desenvolvimento da trama literária amadiana. 2000. nesse caso teria sido apenas um “ensaio”. 85 da esperança entre dois pólos. por fim. segundo a interpretação de John Dwyer (1982). O Brasil é o país do carnaval? Jorge Amado faz a carnavalização que leva sempre a refletir. Os seus personagens que já teriam sido carnavalizados na sucessão dos capítulos passam. 2000. por sua vez. p. Ao retirar as máscaras que teriam dado vida aos seus personagens. 221). o desfile da Escola de Samba Filhos do Tororó e reinventa novas funções transgressoras para um fazer literário já alterado nos parâmetros. a voz autoral implícita admite que Pedro Archanjo pertence ao povo e que o carnaval será o derradeiro narrador de sua vida. a voz narrativa autora. que passa a se chamar no romance. Solução perfeita para o que de fato havia sido uma contínua carnavalização. pela necessidade de conclusão da trama literária. como espaço de contínua reelaboração. . idealizado no romance. Pedro Archanjo em quatro tempos. a meta-literatura com seus personagens. criados no decorrer do romance. 115). tão ligado ao seu povo da Bahia e por isto. p. aliciantes e belas páginas a vivência que vem do fato de experimentar no plano da experiência afetiva e efetiva. Jorge Amado opera com maestria a carnavalização do discurso literário (COUTINHO. uma tarefa conclusiva sob a catarse apoteótica de um desfile carnavalesco na Escola de Samba Meta-literária Filhos de Pedro Archanjo.

árabes e turcos. teria se tornado. recebeu uma denominação metafórica de Tenda dos Milagres. por parte do escritor Jorge Amado. A força recriadora e legitimadora da ficção amadiana sobre o território do Pelourinho teria influenciado. dessa vez. por sua vez. a literatura que havia sido carnavalizada no desenvolvimento do romance Tenda dos milagres. famoso teórico da carnavalização. cada qual com a sua especificidade laboral. reduto de cortiços. os personagens passam a viver intensa e amplamente a dimensão do verdadeiro carnaval amadiano. 3. espaço geográfico do largo mais famoso do centro antigo de Salvador e que. por sua vez.115). tornando-se espaço de convergências de uma comunidade solidária formada em sua maioria por afrodescendentes. deu lugar ao Pelourinho. Ainda utilizando o raciocínio de Dwyer (1982. no entanto. p. espanhóis e ciganos. portugueses. no surgimento de um dinâmica sócio-política . a partir dos finais do século XIX. no próprio carnaval. Pelourinho passaria a ser um território de elaborações e reelaborações. simbioticamente.4 Adarrum: o Pelourinho revisitado E o pelourinho. sem as “hierarquizações” sociais formuladas por Bakhtin. Nessa interpretação. pelos espaços físico e social. Agora. nesse episódio conclusivo. fora palco da nobreza e dos mais insignes signatários da elite colonial. conhecido instrumento de castigo e condenação pública. encenando “O doce ofício de Pedro Archanjo” que tivera sido apresentado em fragmentos nos sucessivos capítulos do romance. um centro comercial bastante movimentado. direta ou indiretamente. havia se tornado bairro popular. tornar-se-ia. no passado. cada uma buscando defender a melhor maneira de tirar o sustento familiar. Esse mesmo local onde. de invenções e recriações. 86 um aquecimento dos termômetros limitado. já sem as “marcas” impostas pela literariedade dos formalistas russos. Por conseguinte. formado pelo ajuntamento das mais variadas etnias representadas por africanos e afrodescendentes.

um sentimento de valorização do sincretismo e da alegria brasileira de viver. de cunho político. crítico e inovador. remete à festejada “Idéia de Baianidade” que vem sendo trabalhada de maneira consistente e regular pelas empresas oficiais de turismo e pelas agências de publicidade e propaganda desde o início da década de 1970. por outro lado. pontual. e Tenda dos milagres (1969). condicionador do Pelourinho como local importante de afirmação e difusão de um conjunto de aspectos relevantes da cultura negra. o autor fez uma análise aprofundada tendo como referência dois corpos textuais distintos: a obra amadiana e uma certa literatura tradicional de exaltação da “cultura baiana”. Ao construir um texto objetivo. tendo como principal referência os textos de afirmação de uma certa baianidade. Nela. perversa e redutora. territórios e desigualdades raciais no Centro Histórico de Salvador. identificando “a cristalização de uma determinada leitura ideológica da Bahia como comunidade imaginada” e o papel desta leitura como um instrumento eficaz e poderoso. tornou-o representação encarnada da Bahia como Idéia. Utilizou dos recursos disponíveis à época. procurou desconstruir do ponto de vista sócio-antropológico um construto ideológico de legitimação de uma realidade considerada alienante. na sua pesquisa de mestrado intitulada Descentrando o Pelô: narrativas. teria aberto espaço para uma interpretação “no plano discursivo de contradições e desigualdades raciais que teria permanecido sem respostas no plano das relações sociais concretas”. não somente para construir o elogio literário do nascente operariado brasileiro. deu forma narrativa e ideológica a um sentimento persistente construído na época de sua formação como escritor. Além da memória da colonização portuguesa. Pinho. da cordialidade e do “relacional” damatiano. Bahia de Todos os Santos (1945). 87 determinante e isso teria chegado num ponto tal de desenvolvimento que despertou a atenção do antropólogo Osmundo Pinho. Essa “Idéia de Bahia” apontada por PINHO (1996). publicados por Jorge Amado: Jubiabá (1935). que foram massificados e que ele o definiu como “Idéia de Bahia”. A obra de Jorge Amado deu ao conjunto histórico do Pelourinho um sentido adicional. Neles. por outro lado. mas também para materializar e dotar de endereço e feição concreta o sentido de uma metáfora narrativa que conduziria de maneira facilmente decomponível e . o autor analisa o caráter ideológico das “leituras” feitas por alguns representantes políticos no período aproximado de trinta anos e que esse procedimento literário.

traço marcante dos escravos. na realidade. como uma característica da convivência da democracia racial. e mostram isso à população do Brasil. reinventadas com a reforma de 1993. mostra-se lúcido na abordagem e contundente na argumentação. à população estrangeira. se refere à cultura baiana. Em sua crítica aos mecanismos institucionais de alienação social. política e cultural quando João Jorge (1995). originária de negros e negras. que no passado foi desprezada e marginalizada. de uma música. Outra visão crítica sobre a realidade social. A cultura popular afro-baiana. resultante de constantes reelaborações feitas pela presença majoritária dessa população em Salvador. qualquer estrangeiro ou pessoa de outro estado andar um pouquinho mais nas ruas de Salvador para detectar que aqui. . de um folclore caracteristicamente negros. como comunidade imaginada e como “dissolvente” simbólico de contradições raciais de modo a concorrer para a construção do consenso político (hegemonia). dos quais 5% têm efetivamente poder de conmpra. os habitantes da cidade do Salvador. com os efeitos da discriminação racial e social. a ponto de as praças internas. ganharem o nome de seus personagens (PINHO. se pratica um apartheid social e um apartheid racial (RODRIGUES. política e cultural referida logo abaixo. 1996). Expressam isso com um cinismo fácil de ser desmontado: a cidade do Salvador é uma cidade pobre com 2 milhões e 72 mil habitantes. p. as autoridades da cidade do Salvador. homens e mulheres afrodescendentes que sofrem ainda. a inteligência da cidade do Salvador expressam-se como uma cidade negra. 88 decodificável o objeto cultural que chamo de Idéia de Bahia. 1995. Basta qualquer turista. Quando é para apresentar para o mundo exterior o que nós somos. aqui ratificado de forma contundente pelo antropólogo Osmundo Pinho (1996): É um objeto construído e reposto com argamassa ideológica para a Bahia. segundo o autor. e de autoria do líder comunitário e presidente do bloco afro Olodum. 1996). base para a dominação (PINHO. de uma profunda religiosidade africana. 85). De maneira tão eficiente que despertou a atenção para a Bahia de estrangeiros como Pierre Verger e impregnou efetivamente aquele espaço edificado. contextualiza o bairro do Pelourinho como reduto de negros e negras. de maioria africana. a cidade do Salvador. estaria assumindo a responsabilidade de representar o Estado ao tornar-se elemento exótico de atrativo turístico.

nem como meros cidadãos de um contingente populacional ativo. torna-se um lugar “excêntrico” na abertura radical do sentido do sentido de uma centralidade comum. 165). Registre-se o longo período em que a região do Pelourinho ficou entregue ao abandono. procurando mostrar o seu compromisso de militante da causa negra comenta também. A cultura não se mata. construto político-social que mais tarde. aqui há o candomblé. Ela viaja através dos mares. como reduto de marginais. segrega comunidades residenciais de comunidades flutuantes no turismo e não residenciais no comércio. mas não morreu. há uma ciência de resistência que foi reelaborada nos últimos 500 anos de Brasil (RODRIGUES. viria a se chamar “baianidade”. através da filosofia e da religião. No esforço de situar e descrever o modus vivendi daquela comunidade soteropolitana tradicionalmente apagada dos sensos. tornando-os elementos “notáveis”. No entanto. cria possibilidade de uma reflexão mais ampla e mais adequada sobre a utilização e até mesmo. Mesmo quando se tentam destruir pessoas ou deslocar pessoas. se dispersa em seus valores e costumes. aqui há a capoeira e há aqui os blocos afro. A cultura africana chegou aqui com os escravos africanos. “peças valiosas” de figuração identitária. apropriação por parte de alguns seguimentos governamentais e da sociedade como um todo. ela se conduz através dos ares. João Jorge Rodrigues (1995). sobre as diversas formas de resistência e de sobrevivência cultural afro-brasileira e afro-baiana. Para uma melhor compreensão da herança africana na Bahia. Sobreviveu. pois não aparecia nas estatísticas nem como produtora de cultura. 90). não se mata a cultura. conclui a sua reflexão denunciando a limpeza étnica que acompanhou a . passaram a representar o Estado da Bahia. há a filosofia negra africana. teria contribuído para uma mudança qualitativa. p. ao se posicionar criticamente. polisêmico na diversificação de suas convergências sociais e culturais (ÁLAMO. Aqui houve revoltas islâmicas. vem sobrevivendo. atrativos para o comércio local de negociação turística. 1995. de elementos representativos da capoeira e do candomblé. crianças abandonadas e prostitutas. a projeção do local a partir do potencial artístico de seus moradores. 89 Osmundo Pinho (1996). p. 2006. respectivamente como peças publicitárias que simbolicamente. O lugar que na colônia definia a centralidade histórica das dimensões sociais e culturais da cidade fratura-se com a reforma do Pelourinho. Álamo (2006). na sua dissertação.

mais tarde. 1982. a Bahia e grande parte dos baianos assumiriam como seus. 2006. como lutei. com as suas grandes estruturas montadas. e. crivado de incógnitas. 201). CONSIDERAÇÕES FINAIS Na Bahia a cultura popular entra pelos olhos. contratados. 168). p. é sua viga mestra (AMADO.151). certamente será. como lutei. 90 “reforma” do Pelourinho: “O efeito mais contundente da diáspora foi o banimento dos grupos sociais locais para os diversos bairros da cidade” (ÁLAMO. p. se dirige para o interlocutor Fraga Neto e sentencia como quem tem o controle da situação: Amanhã será como o senhor diz e deseja. Pedro Archanjo Ojuobá. Tenda dos milagres e a construção da cidadania O narrador onisciente autoral. p. a certa altura. o homem anda para frente (AMADO. E pra chegar ao ponto que cheguei. supostamente movido por um sentimento súbito assume o discurso do seu personagem-herói. p. Quem sabe. penetra sentidos adentro. fala pela boca de Archanjo coisas muito particulares. Wilson Moreira / Nei Lopes Ofá e eruexim ou Jorge Amado. o herói e protagonista do romance Tenda dos milagres. pelos ouvidos. para “legitimar” esse novo visual que. Esse contingente populacional que a partir de então tornou-se “produto” recomendado ao consumo. 2005. pela boca (culinária tão rica. determina a criação literária e artística. guardadas e nutridas nas suas entranhas durante boa parte da sua vida? Apontando para o porvir. passaria a receber uma atenção especial dos escritórios de publicidade e de propaganda (SANTOS. e concluiu o seu discurso com uma eloqüência profética e sacerdotal: . 1969. tão colorida e saborosa). 34).

201). 91 Nesse dia tudo já se terá misturado por completo e o que é hoje mistura de gente pobre. Ao assumir uma função sócio-religiosa de onisciente a voz do narrador representada por Pedro Archanjo se mostra mais confiante ao analisar os fatos com a lucidez de um sábio. nosso riso. Entretanto. num misto de griô e sacerdote. conseguiu um desempenho tão satisfatório que teria deixado o seu interlocutor Fraga Neto vacilante. nossa cor. uma mistura de conformismo determinante e uma atitude pragmática de ver as coisas solucionadas de forma racional e coerente. 201). 1969. Vê-se nesse fragmento. cunhada na década de 1930. o desfecho que o autor reservou para a finalização do longo e crucial diálogo entre o bedel da Faculdade de Medicina e o professor de parasitologia e que supostamente entrou noite a dentro. p. com uma força legitimadora renovada. Pedro Archanjo. um brasileiro” (AMADO. Sobre este aspecto Jorge Amado estaria alienado da realidade brasileira e baiana ou insistindo na continuidade de um modus vivendi que apesar de ter lhe proporcionado o desenvolvimento de uma vasta literatura “regionalista”. p. Aparentemente. sou um mulato. E o autor. muito claramente a influência da obra freyriana. ela ressurge no texto amadiano circunscrita no romance Tenda dos milagres. tudo isso será festa do povo brasileiro. instrumentaliza do ponto de vista filosófico-ideológico e político-cultural aquele que lhe parece menos . balé. assim como os diversos estágios de expiação pelos quais passou. pelo jovem sociólogo Gilberto Freyre. música. também estaria distanciado dos seus ideais sociais e libertários. capaz de persuadir o leitor e dissuadi-lo de qualquer outra contestação política. munido de uma consciência clara e objetiva. candomblé. O autor. antevê um futuro mais próspero e esperançoso para o povo negro-mestiço da diáspora brasileira. em especial Casa grande & senzala. 2006). Ao se situar na região fronteiriça da realidade. samba. dança ilegal. Surge daí. Enquanto leitor do ativista político Manuel Querino (GOLDSTEIN. capoeira. música proibida. compreende? (AMADO. roda de negros e mestiços. nesse fragmento. condenava ao obscurantismo e à extinção a gente preta e pobre da periferia social de Salvador. aceita em uma época e noutra bastante criticada. os modos e as formas de resistência cultural e religiosa. 1969. conduziria a sua narrativa para servir de instrumento capaz de provocar uma profunda reflexão sobre a trajetória do negro na sociedade brasileira. Bastante amadurecida a idéia da democracia racial. o protagonista é taxativo ao afirmar: “Sou a mistura de raças e de homens.

O texto-ensaio antropológico. e CASTRO. O teor do discurso ideológico que foi embutido na fala de Pedro Archanjo pode ser situado num período histórico muito crítico do ponto de vista político. índios e negros. etnolingüístico e etno-histórico de Yeda Pessoa de Castro se constitui em uma leitura de cabeceira: agradável. um comentário remoto sobre o desenvolvimento da indústria cultural na Bahia. 2005. a sua profundidade e o seu 51 Cf. e ainda inconformado com o nível de conteúdo argumentativo apresentado pelo seu personagem protagonista. ao afirmar “O meu materialismo não me limita”. o autor extrapola os limites de uma simples conversasão e passa a atuar numa freqüência de diálogo em que a persuasão cultural prevalece sobre a imposição ideológico-partidária. a partir da análise científica de fatos ocorridos nesse ajuntamento de brancos. surge logo de imediato uma indagação: a “festa do povo brasileiro” anunciada de forma eloqüente pelo narrador acima. 125-139). ela disseca de forma sintética e objetiva importantes fenômenos socioculturais e religiosos deflagrados nos longos séculos de colonização européia e que resultaram num conjunto de elementos idiossincráticos ora denominado de afro-Brasil. 449. Retomando o assunto “profético” permeado no diálogo entre Fraga Neto e Pedro Archanjo. 1996. 2006. Tendo chegado ao nível de catarse literária através do poderoso recurso de auto-definição. para o embate. p. coincidência ou não. para desespero de muitos. O seu estilo objetivo e sóbrio revela nas entrelinhas o seu domínio sobre a matéria. . p. informativa e abrangente. instigante. anunciava. seria uma referência antecipada. o Ato Institucional 5 (AI- 5)51. A leitura do ensaio Dimensão dos aportes africanos no Brasil é nada mais. p. Numa singularidade característica de seu trabalho como pesquisadora. para os seus filhos refletirem melhor e mais sossegadamente. sedutora. reflexiva. em março de 1968. 312. SZTERLING. culminando com o Regime Militar que. a partir dos inícios de 1970? A possível resposta para esse questionamento surge de um texto elucidativo da etnolingüísta Yeda Pessoa de Castro (2007. nada menos que uma dádiva do orixá Oxum. 9. se celebra a festa de Nossa Senhora da Conceição da Praia52. e que se inscreve na transição da República e se estende até a Era Vargas. p. numa manhã de sábado que. 92 aparelhado socialmente. 52 Ver SILVEIRA.

reconhecendo-a na sua importância como elemento fundante da nação brasileira. e. procura-se identificar a necessidade de revisitação contínua do texto amadiano como referencial histórico e estético-literário. Na possibilidade de atualização do discurso narrativo do protagonista do romance Tenda dos milagres. uma maior aproximação intertextual com Yeda Pessoa de Castro (2007). sem valorizar a adequada difusão permitirão que seu avanço. analisado com maior prospecção neste capítulo. o papel do negro como força preponderante de trabalho no estabelecimento da economia do país. . às vezes. com os temas tratados. além de sublimar. e que teriam sobrevivido na sua quase totalidade. estabelecendo. vincular-se a ela. por conseguinte. conforme se segue: Apesar da evidência dos fatos e de sua notória exploração em vários meios. de seus códigos. 136). 128). tanto quanto sua participação em movimentos anticoloniais e no processo abolicionista ainda necessitavam ser avaliados e devidamente reconhecidos pela historiografia do Brasil. ela oferece ao seu público leitor uma comovida orientação metodológica: Uma correta interpretação da cultura negro-africana. passe a ser visível e explícito no Brasil (Ibdem. sem contudo. e. como um importante elemento de contestação de uma realidade que se nutre de práticas predatórias e de aniquilamento do ser pela prática sedutora do ter e. extensivamente. do querer apropriar-se da alteridade. econômica e política (CASTRO. porém de forma fragmentada e. sobretudo na Bahia. Posicionando-se como uma mestra conhecedora das ambiências culturais e religiosas que se desenvolveram ao longo dos séculos e ainda se desenvolvem em África. O mesmo deve-se dizer sobre as formas de resistência ao regime de escravidão a que foi submetido no passado e o protesto negro atual entre a sua discriminação social. 2007. p. p. na diáspora brasileira. 93 conhecimento familiar de mais ou menos 40 anos. muito menos. “Aportes africanos dos negros no Brasil” vai brotando nesta pesquisa como vetor que aponta para a necessidade de maior debate e reflexão sobre o legado afro-brasileiro. seu conseqüente desgaste do âmbito meramente folclórico ou lúdico. antropológicos e políticos que foram sendo estratificados ao longo dos tempos. fora dos contextos originais. Com a mesma intimidade acadêmica Pessoa de Castro procura situar o leitor nos contextos históricos: “trocando em miúdos” eventos sociais.

. para a sossegada realização de suas funções religiosas e litúrgicas. no candomblé com suas danças e seus ritos. o candomblé e a capoeira. Marcas de um longo período em que grassaram a escravidão e o preconceito racial na diáspora brasileira. 2005. essa aproximação do Estado com as matrizes da cultura afro-brasileira. fora rotulado de “fetichismo”. Para maiores esclarecimentos ver também BARBOSA. não só de nacionalidade brasileira (CASTRO. p. 53 Embora todo o empenho de lideranças como Édison Carneiro. então Chefe da Casa Civil53. e o escritor Jorge Amado como Deputado Constituinte em 1945. realizado em 1937. a ialorixá Eugênia Anna dos Santos teve destacada participação nesse processo. tudo aquilo que no passado de escravidão e forte preconceito racial. Além disso a herança africana no Brasil tem sido fonte valiosa de criação artística e literária na promoção internacional de escritores. na publicação do livro O poder da cultura e a cultura no poder : disputa simbólica da herança cultural negra no Brasil. em especial. de “barbarismo” e de “estágio primário da civilização”. através do Decreto Lei 25. bailarinos. Contudo. Só em 1976. através do II Congresso Afro-Brasileiro da Bahia. através de seu filho-de-santo Osvaldo Aranha. através de Oswaldo Aranha. É evidente o aspecto da herança africana nas mais conhecidas manifestações culturais que foram legitimadas como autenticamente brasileiras e são utilizadas para projetar a imagem do Brasil no exterior. ao que se sabe. na cozinha à base de dendê. seja no samba. O seu criterioso trabalho foi enriquecido pelo farto material bibliográfico pesquisado e que estabelece um recorte histórico decisivo e de grande repercussão nacional e internacional. 2007. essa realidade veio a se tornar concreta. fotógrafos. 127-128). universalizou-se no Brasil e no mundo todo. resultaria em uma espécie de esvaziamento de conteúdo simbólico e de resistência histórica. no início do governo Roberto Santos. 156. artistas plásticos. cineastas. compositores. Nesse percurso histórico de luta e resistência. de lá pra cá. intercedendo junto a Getúlio Vargas. 1984. que atuaram de forma decisiva no sentido de liberação do candomblé. conforme SANTOS. na capoeira. p. no traje de baiana. 94 Assim foi feito sem pestanejar nesses anos desastrosos de ditadura e. de “superstição”. p. Os desdobramentos sobre esse interesse súbito pelas coisas “imundas” praticadas pelos negros foram analisados com profundidade pelo antropólogo Jocélio Santos em sua pesquisa de doutoramento e que resultou em 2005. 70. 095 de 15 de janeiro de 1976. muitas foram as lideranças religiosas e políticas que se empenharam na liberação do culto afro-brasileiro. a ialorixá Aninha. com a crescente onda de nacionalismo. abriria espaço para uma interpretação ideológica dessa herança cultural como parte do patrimônio nacional e por conseguinte.

encontros e reencontros. representação simbólica inspirada engenhosamente. se constitui. nesta pesquisa. certamente com o intuito de substituir o tradicional instrumento que. Note-se. marcada. na contemporaneidade. Conclui-se portanto. constituiu-se em uma atividade muito prazerosa e muito edificante. sua instituição representativa. instalada de forma estratégica noTabuão. 95 Analisar o texto amadiano Tenda dos milagres sem esse importante referencial seria ignorar o fator político decisório dos destinos que o país tomou e continua tomando. orixá da comunicação. em espaço de visitação diuturna. Nessa sua tenda armada no Pelourinho. nem desapareceu. em toda a sua trajetória. por interlocução textual. também não conseguiu perpetuar a dinâmica e alvissareira vida feliz e pujante de antanho. havia sido utilizado para castigar o corpo. por crimes e delitos supostamente cometidos. fora plantada no Largo do Pelourinho. Ali procurei representar a nossa comunidade-terreiro Ilê Axé Opô Afonjá e principalmente. na tenda de João Duarte da Silva. debruçar-se sobre o livro referencial Tenda dos milagres. a Fundação Casa de Jorge Amado. expresso inicialmente. ainda que num espaço de tempo exíguo para tal empreitada. outrora. quando no dia 6 de agosto de 2001. sobretudo. em plena praça pública. manifestando. Contudo. não caiu. pela afirmação de um compromisso social e comunitário assumido em 1992. Sob essa perspectiva que ratifica a iniciativa acadêmica de preservar um projeto literário dinâmico e autônomo insere-se a Jorge Amado e os ritos de baianidade: um estudo me Tenda dos milagres. de negros e negras. por um sentimento de solidariedade e espírito fraternal. cuja presidência de honra e universal é ocupada por Exu. “A tenda de Jorge”. no entanto. participei das cerimônias fúnebres daquele que fora no passado meu irmão ritual. por descobertas. uma etapa desse meu projeto de vida. “A tenda literária de Jorge”. por afinidades e. em franco local atrativo do turismo cultural. de arte e de lazer. de poder. homens e mulheres condenados pela polícia colonial. o profundo sentimento de gratidão pela cativante amizade . de pesquisa. foi instalada em 1987. ainda sob o impacto do passado recente de recessão de ditaduras e militarismos. que a oportunidade dada ao autor desta pesquisa. dos movimentos e das reelaborações contínuas.

o obé. no qual teriam ficado marcas identitárias de um escritor que afirmara no passado. Neste “despacho” acadêmico do projeto referido acima. a adaga. 4). o ofá e o eruexim. seu irmão de Axé mais velho. é vário. reconhecido mais recentemente. andarilho. rapazola. O “ebó encomendado” está pronto e será entregue ao “mensageiro” para cumprir o seu destino. namorado. grevista. tocador de violão e cavaquinho. Feito o padê conforme manda o figurino. dançador. para que outros daqui e d’além mar também conhecessem e desfrutassem dos benefícios da capoeira. sedicioso. boa-prosa. pardos. sábio. como fator estruturante e conjuntural da nação (RIBEIRO apud QUERINO. aonde “Pedro Archanjo Ojuobá vem dançando. seguiu-se o xirê no ritmo do afoxé e no toque do adarrum. do escrever inspirado e do ser libertário. enquanto viveu. passistas e formosas cantam. se mostrado desejoso de assegurar a sua continuidade. exibem-se: “capoeiristas. p. dançam e abrem alas”. não é um só. o ogó. moço. pai-dégua. bom no trago. arruaceiro. escritor. orixás. Obá Aré. do samba . Jorge Amado teria achado esse modus vivendi bom para si? Teria por outro lado. paisanos”. 96 que ele nutriu por meu avô Miguel Archanjo de Sant’Anna. no desfile lítero-carnavalesco anual instituído desde sempre. dos elementos essenciais indispensáveis à liturgia da vida. múltiplo. 1955. um feiticeiro. velho. pastoras. quarentão. Todos pobres. sobretudo. numeroso. pedir-lhe passagem na comunicação aiyê-orun. Ao lado. terno amante. rebelde. na celebração da festa diária ou mesmo. ora revisitada através desta pesquisa tem se revelado. ter encontrado nos ambientes de resistência nagô-iorubá da Bahia. iaôs. na noite dos tempos. já com a lamparina acesa. como um projeto político-literário de valorização e resgate da contribuição africano-brasileira. Este trabalho desenvolveu-se na tentativa de identificar na obra amadiana indícios de um projeto pessoal mais ambicioso e mais ousado por parte do autor. A “tenda literária de Jorge” representada simbolicamente pelo romance Tenda dos milagres. estão a comida e a bebida prediletas e necessárias para agradar o “orixá da rua” e assim. do candomblé. o Terno de Reis e o Afoxé. o sentido do viver integrado. às vésperas de completar quarenta anos. filhas-de-santo. Nele foram utilizadas as ferramentas rituais milenares trazidas pelos africanos nos tumbeiros: o tridente. o abebé e o adjá.

atirou “flexas” certeiras na personificação da injustiça social que. Salvador. São Paulo: Editora Scipione. encontrou terreno fértil e plantou árvores frondosas. . BERND. por uma burguesia elitista e preconceituosa? Talvez sim . utilizando-se de forma estratégica do ofá e do eruexim. Floração de imaginários: o romance baiano no século 20. terra mater brasilis. Júlio. São Paulo: Martins Fontes. talvez não. acreditando piamente no seu potencial criativo. 1988. _______. a priori. A Federação Baiana do Culto Afro-Brasileiro. 32ª ed. Jubiabá. e garantiu. Nomenclatura poética do culto afro-brasileiro. Dorothy Miranda Oliveira. ANDRADE. 201p. O que é negritude. seus ancestrais rituais. sobrevivências culturais e religiosas ambientadas contraditoriamente. Salvador: Ianamá/ CEAO/CED. ALAMO. por conseguinte. ferramentas rituais do seu orixá Oxóssi. São Paulo: Brasiliense. Rio de Janeiro: Record.. In: Encontro de nações-de-candomblé. 1993. In: Centro da cultura de Salvador. Benjamim. 1999. teria resultado de um esforço ingente do escritor baiano que. por sua vez. Edufba. 1984. 1999. na Bahia. 1982. ARAÚJO. O romance Tenda dos milagres. Tenda dos milagres. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABDALA Jr. 2008. em uma sociedade fundada. Zilá. Salvador: SCT/EGBa. 2006. AMADO. Jorge de Souza. _______. 1995. 97 e do afoxé. Luiz Sérgio. fartura de assunto nas páginas imorredouras que escreveu e com a licença concedida pelos antepassados guerreiros. sob o regime escravocrata colonial e. Rio de Janeiro: Record. Bahia de Todos os Santos: guia de ruas e mistérios. 1969. Da diáspora cultural à busca de sentido para a contemporaneidade educadora do Pelourinho. 56ª tiragem. formada. Salvador: EdUFBa/SEI. a posteriori. investiu na elaboração desse projeto literário e com engenho e arte conduziu as sucessivas etapas de sua realização. Itabuna/Ilhéus: Via Litterarum. BRAGA. Pimentel. Na gamela do feitiço: repressão e resistência nos candomblés da Bahia. Jorge. O romance social brasileiro. BARBOSA.

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VERGER. tornou-se alvo de mercantilismo turístico. de Tasso Gadzanis. 101 TINHORÃO. Embora se possa encontrar à mão. constituem algumas das sobrevivências coloniais e colonizadoras que foram sendo estigmatizadas ao longo dos séculos.120-125. em qualquer comércio de revistas e bancas de jornais. Clarival do Prado. não se constitui em única e exclusiva fonte de consulta. Salvador: UFBA. In: Jorge Amado: ensaios sobre o escritor. José Ramos. Trad. A música popular no romance brasileiro (vol. Parte]). através do seu . Corrupio. Com a utilização da ortografia brasileira dicionarizada e recomendada pela etnolingüísta Yeda Pessoa de Castro. VALLADARES. que busca contribuir para o reconhecimento digno da comunidade de afrodescendentes que utiliza os falares africanos como língua corrente não só nas funções litúrgicas e que por ser mal interpretada. considerado simplista e de caráter pejorativo. O presente glossário. Rio de Janeiro: Sociedade Gráfica. II. certamente. um portador de folclore. do velho continente africano. Fluxo e Refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos: dos séculos XVII e XIX. Pierre. [1982]. Hildegardes. entretanto atende aos objetivos imediatos a que se propõe. organizado pelo publicitário mineiro Nivaldo Lariú. o festejado Dicionário de baianês. VIANNA. apesar de ser constituído de verbetes retirados de autores de representatividade no mundo afro-brasileiro. inadequado para esta pesquisa. Banco Econômico. por serem próprias de negros e negras ou pelo completo desconhecimento marcado também pelo desinteresse. século XX [1ª. portanto. ambientados nas casa-de-santo e nos terreiros tradicionais de candomblé nagô-queto. 1987. Jorge Amado. 718p. 1967. através do seu “linguajá” tradicional. voltado para uma melhor compreensão dos termos utilizados neste trabalho. 2000. GLOSSÁRIO Glossário de termos afro-baianos ambientados nas tradições nagô-iorubás de Salvador e do Recôncavo Os falares africanos. p. também denominados de língua popular da Bahia. São Paulo. São Paulo: Editora 34. Riscadores de milagres: um estudo sobre a arte genuína.

33). 1993.m. B BABALAÔ . . 1993. o maior bem da existência para as religiões negras africanas (SCISÍNIO. 112). (CASTRO. campainha de metal ou campa. anotados e sistematizados pela pesquisadora Yeda Pessoa e fartamente utilizados pelo escritor Jorge Amado.s. p. 161). p. ARÉ .m. toque muito rápido de tambor para acelerar o transe de possessão durante as cerimônias rituais (CASTRO. usado no culto de Oyá(sic) e geledé (SANTOS. 2005. “Senhor do segredo” (SANTOS. A ADARRUM (kwa) (ºBR) . assim como dos “falares africanos na Bahia”. p. 2005. (CASTRO. A elaboração deste glossário justifica-se. p. 112).m. não dicionarizada no “Aurélio Século XXI” e muito recorrente em Salvador e na região do Recôncavo. 146). usada durante as celebrações litúrgicas afro-brasileiras (CASTRO. 1993. 1997. de informações técnicas de citação para facilitar a consulta de terceiros à fonte que forneceu os verbetes. pela ampla utilização da língua popular da Bahia anotada na década de 1930. 123). (CASTRO. 1993. p. p. Item muito importante nesta pesquisa o glossário que se segue tem uma função informativa e educativa pela abrangência e pelo tratamento dado aos verbetes. 33). (CASTRO. 141).s. 144). 1993. AJIMUDA .Forma de pedir licença (SANTOS. 1997.s. 2005. 2005. Grupo carnavalesco constituído por negros pertencentes ao candomblé (SCISÍNIO. 111). 2005. AGÔ . 2005. 141). 164). “o universo” (SANTOS.Literalmente. p. 112).Um dos membros de Obá de Xangô (SANTOS. 143). p. pelo etnógrafo e folclorista Édison Carneiro. 1993. (ºPS) .Literalmente. AROLU . (CASTRO.Aquela que carrega a espada.1. ainda. Palavras como “afitim”. p. p. Festa profana celebrada pelos negros malês e que era comum no Rio de Janeiro e na Bahia. Nome dado pelos nagôs à força vital. p. . portanto. p. AIÊ . 2. (CASTRO. ADJÁ (kwa) 1. p. p. 2005. título feminino. 148).Um dos obás de Xangô (SANTOS. 102 livro Falares africanos na Bahia: um vocabulário afro-brasileiro. 113).sm. AFOXÉ . AXÉ . p. p. ideofone. 2005. consta.

ser tapeado. Cada divindade dispõe de um Exu. 81). abraço. sacrifício de animais e oferendas lhe são feitas.(kwa) 1. Jiramavambo. 2. os caminhos perigosos e escuros. mas sempre representado por figura de barro ou ferro. notadamente Exu. 6. ora masculino. Tibiriri. mantida pelos seus descendentes e mestiços. p. fraternidade (SANTANA. Lugar onde esta festa se realiza. qualquer tipo de quadrúpede. Lebá. 1985. p. Tiririlonã. p. que toma nomes diferentes. 2005. Odara.s.s. F FARAIMARÁ . (CASTRO. às vezes. 2005. .m. BAMBOXÊ . Bará.exp. tido como mensageiro dos orixás. sempre preparadas pela dagã. 3. 1993.(ºPS) . Tiriri. tridente e lança de ferro. Elebara.Homem que ocupa a posição hierárquica mais elevada no culto aos orixás (SANTOS. espírito maligno. Ás vezes com sacrifício de animais. Seu ilê fica do lado de fora do barracão e está sempre cuidadosamente trancado. (LP) . p. com o barracão onde os filhos-de-santo cumprem sua longa iniciação sob a direção do pai-de-santo ou mãe-de-santo (SCISÍNIO. não ser Exu pra gostar de farofa”. Simbolismo: ogó. p. Saudação: laroiê!.m. Tronqueira.Sacerdote supremo do culto ao orixá Xangô (SANTOS.m. Lonã. ser tomado de cólera. Umbó. 113). G . 1993. 1997.Trabalho para os orixás. 5.224). Sede religiosa do culto do negro. para deixar-se enganar por mentiras ou lisonjas. Eroco. Cores: vermelho e preto. p. Compadre. Dia: segunda-feira. “virar Exu”. 2008). 2. não (MAIA. Macumba no Rio de Janeiro. 196). 164). pipoca.(kwa) (PS) . 2005. Comida: axoxó. 4. Homem-da-rua. divindade nagô-queto. “tio” africano. Outros nomes: Alaqueto.1. 2005. 113). Sacrifícios: bode e galo pretos. Homem-das-encruzilhadas. preside a fecundidade. Antes de qualquer cerimônia. originário da Nigéria. Tranca-rua. (CASTRO. p. 103 BABALORIXÁ . Espécie de batuque dos negros. Jeguedê. solidariedade.Em uma tradução livre pode significar também união. Baranlá. Baru. ora feminino. capaz de fazer tanto o bem quanto o mal. Xangô em Alagoas e Pernambuco. Jiguidi. Olodé. E EBÓ . Mavumbo. feijão preto. que morou na cidade do Salvador no fim do século XIX. Bangbose (CASTRO. o diabo. 112). 3. (º BR)-s. EXU . Yor. C CANDOMBLÉ . Festa religiosa dos negros jeje-nagôs na Bahia. as encruzilhadas. Xequetê.s. aminuó). farofa de dendê (aminjá. BALÉ XANGÕ .m. Aqueçã. enfurecer-se. 167. mel e cachaça. (CASTRO. Anã. Mavambo. p.

Janaína.(kwa) 1. anua.(p. espada. Sabaji. uma das três esposas de Xangô. Dia da semana: 4ª. .s. Iamim. p. o ioruba. 2. Cuqueto. (CASTRO. Ialodê. do trovão e tempestade. 2g.f. braceletes.m.1. Nomes: Açaba. detém todos os conhecimentos orais de sua comunidade e em conformidade com o momento oportuno os utiliza como instrumento didático-educacional. avó maternal (CASTRO. 260). Turqué (CASTRO.adj. Oloxá. o orixá do mar. O griô ou griot. 104 GRIÔ . mulher corajosa e destemida.(ºPS) . p. p. p. Feira. 1997. . Indumentária: coroa. os nagôs tiveram prestigiosa influência social e religiosa entre os povos mestiços. Coque. 2000). Cor: azul claro. conservando com os mesmos processos de aculturação. do Carmo. ecuru. 2007). s. que na Bahia foi a língua geral dos escravos (.. I IANSÃ (kwa) (ºBR) . 2005. reflexivo e crítico (SANTANA. m. NEGRO . 2005. preto. Obá. 2005. s. 248).m. 249-50). Sra. Relativo ao ou indivíduo dos nagôs. orixá do fogo.). 2005. N NAGÔ . Saudação: eparrei! Nomes: Ajimuda. manjar de arroz.) escravo.266). (pej. p. ext. NANÂ . Xalugá. formador. 2005. Nomes iniciáticos: Iademim.295). Insígnia: afindijá.m.adj. IEMANJÁ (kwa) (ºBR) .s.f. Inaê. odoiá! (CASTRO. 260). isto é. L LONÃ (kwa) (ºPS) -s. o dono dos caminhos. mel de uruçu. a única aiabá a quem é permitido dançar qualquer toque consagrado às outras divindades. galinha. (CASTRO. Sacrifício: carneiro. Cuiabalé. da Conceição. iruxim. (CASTRO. Morbô. Eua. Ágüe. 263). Comida: amalá. grupo de escravos sudaneses oriundos da região de Ioruba e que receberam esse nome na Bahia. das Candeias. 2. Cores: vermelha e rosa.s. Balé. s. abebé. alfanje. azeite doce. Olé. ebó. f.1. segundo (CASTRO. Abundantemente exportados para o Brasil. 1997. A língua falada pelos nagôs. . mãe. Iemanjá Acaba. p. equivalente a N. galo. 2005. seus mitos e tradições sociais (CÂMARA CASCUDO apud SCISÍNIO. Saudação: eruiá!. p. nome de Exu.s. eruiamim!. Ocunjimum. iruquerê. omolucum. p. Dia da semana: sábado. Nomes iniciáticos: Mitauadê. Comida: ado. LAROIÊ (kwa) (lS) saudação para Exu.. Diz-se do ou indivíduo de raça negra.) indivíduo que trabalha muito (SCISÍNIO. 3. 296). Simbolismo: pedras marinhas e conchas.

conforme a sua disposição (CASTRO.(PS) . 2005. (CASTRO. 161). OPÔ AFONJÁ . p. Macete com o cabo em forma de cabeça humana. Cf. Filho de Iemanjá. (SILVEIRA.303). Cf. m. 311). 2005.304). preside as lutas. (CASTRO. p. pertencem a duas categorias: ogã suspenso ou confirmado (CASTRO. no Axé Opô Afonjá. OGUM . p. 1995. p. p. 2005. 309). ODU . durante as cerimônias públicas religiosas. 266).Rei (SANTOS. intermediário entre os crentes e a divindade suprema (SCISÍNIO.Encantamento que tem o poder de aliviar a dor (CAMPOS. p. o lado direito (CASTRO. p. cânticos especiais de louvor aos feitos de cada orixá ou referente a seus atributos (CASTRO. ou seja. Título hierárquico de 12 ministros” de Xangô entronizados em [1937].Sacerdote supremo do culto de egungun (SANTOS. p. OJÉ .é quando Ogum lá no mato vai morar. o valor de cada uma das sementes ou dos búzios. 1997.305).m. p. p. 88). 120). 105 O OBÁ . Ogunjá pode também ser Ogum da encruzilhada.298).305).S. OTUM (kwa) (LS) -s. (CASTRO. podendo desempenhar papéis especificamente religiosos no contexto sagrado.(kwa) (ºPS) . 1997. 121). 303). 2005. (CASTRO. (CASTRO. dado aos membros do terreiro que são escolhidos pelos orixás para exercer uma função civil. Divindade nagô das macumbas e candomblés. OIÊ . 2005. p. 301).M. p.hier. ORIXÁ . 120). 398). símbolo de Exu (CASTRO. ORIQUI . que recebe o “carrego” para o Exu da estrada (MIRANDA. OGUNJÁ .sm. 2005. 1993. p. 2005. OGÂ .sm. 120). se juntando com Oxóssi pra juntos irem caçar. 2005. p. de + Xangô (CASTRO. 2005. .m. p.Título hierárquico (SANTOS. p.(kwa) ( º LS) .s. 1993. p. as guerras e o ferro (SCISÍNIO. seis que se sentam á esquerda[obá otum] e seis à direita [obá ossi] da ialorixá. 265). enquanto Afonjá é o epíteto de Xangô. 2005.(kwa) (PS) . 1993. p. 298). (CASTRO. p. 2005. (CASTRO. OBÁ-DE-XANGÔ . 2005. OGÓ . No jogo do Ifá. 2006. 2005.Ogunjá .Divindade do culto iorubano.(FB) (PS) . 301). p. Título nagô-queto. a “raiz de Xangô” (SANTOS. 2003. 102). OFÓ .s.m.Opô: raiz. p. . p. 1993. 309).s. obá + port.

p. livros. 2005. 2005. por exemplo: Ilê Ia Nassô (Casa Branca). Já fetichista como todo bom africano. Deusa do rio Oxum. entre nós. Talvez os maiorais da cidade pensassem serem os beneditinos dotados de sangue mais frio. idã. alegando que as execuções ali consumadas interrompiam as cerimônias religiosas. o orixá da riqueza. p. Menininha do Gantois..). P PELOURINHO . 311). 266). Acredita-se ser criado de Xangô. p. .. 1997.Ideário que atribui inferioridade cultural e biológica ao negro. p. (CASTRO. “Para o pesquisador do século XIX. 1997. Saudação: arroboboi (CASTRO.. o pelourinho que havia muito se erguia defronte ao colégio dos jesuítas. 312). sem significado para o seu espírito. (. foi de lá removido a pedido do provincial da Companhia. p. uma coluna de pedra. RELIGIÃO . a começar pela imposição dos mestres-reza e pela força da lei que o obrigava a ter a religião católica ele ficou com duas religiões.1. 312). adotou um catolicismo nominal que reduziu a simples gestos.O escravo africano trouxe de sua terra a seita religiosa de lá e aqui.) Na Bahia. Não havia aquilo que conhecemos hoje como ‘mito da democracia racial’ a encobrir ou. (CASTRO. 2005. Era. 287). (SCISÍNIO. documentos do século XIX e veremos que as tensões existentes entre os negros e os brancos reconhecidas abertamente. Oxumarê (MAIA.m. geralmente diante das municipalidades. A religião que trazia da África resultava de sua crença.s. 320). no tempo de César. SCISÍNIO. (.s. 1985. foi colocado nas vizinhanças do Convento Beneditino. p. pintada. Ogunjá. (CASTRO. Por ordem da Câmara Municipal. Q QUETO -“Nação” a que pertencem candomblés importantes na Bahia. Basta folhear jornais.s. legitimar a prática do racismo” (Cf. p. OXUMARÊ (kwa) (PS) . Simbolismo: brejá. 1997. p. 1997.f.. talvez fosse melhor dizer. Mesmo batizado. Alaketo.m. 115). cabra. Insígnia: ebile. de maneira a não se condoerem tão facilmente com as flagelações do pelourinho (SCISÍNIO. não se sabe se . 2.introduzido na Gália. 266). 273). Comidas: aberém. p. Sacrifícios: carneiro. E a que adotou no Brasil resultava da obrigatoriedade imposta da lei. Não renegou sua fé.. R RACISMO . há uma diferença básica entre as relações raciais daquela época e as do nosso tempo. o pelourinho nada mais foi que o moenia romano. que se colocava em lugares públicos. o escravo viu-se no Brasil. . da sua fé.Deus protetor da caça. e onde os criminosos recebiam açoites.m. identificado com o arco-íris. Orixá iorubá. Lici. em 1727. Dia: terça-feira. OXUM . galo. 106 OXÓSSI . equivalente a São Bartolomeu e simbolizado pela serpente. o negro escravo fetichista continuava o seu culto. 2005. Cores: verde e amarelo. lagos e cursos de água. deusa das fontes. da região africana de Ijexá (SCISÍNIO.s. Opô.

p. Dia: 4ª. e seu criado é Oxumarê. identificado com São Pedro. (ºBR) -s. diz-se de uma pessoa turbulenta. sua primeira posição foi aceitar e adotar. 289).m. X XANGÔ (kwa) 1. Obaraeji. ordem de precedências na qual são cantados os cânticos em louvor às divindades afro-brasileiras. RESISTÊNCIA . que se inicia por Exu e termina com Oxalá: festividade (CASTRO. 1997.“Durante as viagens.) Destarte não teve o africano. T TERREIRO . Nomes iniciáticos: Lingucicoiá. O velho.m.. Outros nomes e títulos: Adanji. Obaraí. nome genérico das religiões afro-brasileiras em Pernambuco e Alagoas. Alafim. Ogodô. Obaladê. Adelaiê. ilu. 2. xerê. ibim. Baianim. equivalente a São João. negando-se a comer. Xangô-Menino. Balé. e onde elas se realizam. 341).f. Airá. Suas três mulheres são Obá.m.m. 2005. enforcando-se nas suas correntes ou lançando-se pela borda do oceano.Apará.Qualquer lugar onde se bate candomblé (MAIA. Xangô-Leí. obé.rei-herói do povo iorubá. Obalaiê. . Sacrifícios: agutã. é chamado de Obacoçô. p. 1985. Feira. XIRÊ (kwa) (PS) -s. Obalodê.como lembra Manoel Querino. para cada moléstia. labá. é cultuado como Aganju. geralmente corresponde a São Jerônimo. Insígnias: oxê. Simbolismo: banté. Comida: amalá. obrigado a aceitar o catolicismo popular.353). agressiva (banto) 3. (.. conforme o poder milagroso de cada um (SCISÍNIO.s. bata. . dificuldade em encontrar uma como semelhança entre as divindades do culto católico e os ídolos do seu fetichismo. (PS) . ou por superstição. eriçado por barbatanas ou tubarões” (EDUARDO GALEANO apud SCISÍNIO. orixá dos raios e do trovão. é venerado nos meteoritos e machados de pedra que são colocados em um pilão de madeira esculpida (odô) a ele consagrado.290). Jacutã. um santo protetor. p. Toques: alujá. Saudação: cão cabieci obá.s. 107 por influência indígena. Oiá e Oxum. cágado. Cores: branca e vermelha. O jovem. numerosos africanos morriam vítimas de epidemias ou desnutrições ou se suicidavam. 120). 1997. p. 2005.s. Badê. p. (CASTRO. Xangô-de-Oro. galo. Obaraji. (PS) .

.Documentos institucionais do Centro de Estudos Miguel Santana e do Núcleo de Cultura Popular da Bahia. 108 ANEXO A .

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memória que fica da gente que vai. marcas de um passado de bens e escravidão. memoria é vida. é viva a memória.Programa de Pós-graduação Mestrado em Estudo de Linguagens CICLO DE PALESTRAS LINGUAGENS EM DEBATE Apresenta: ENCONTROS COM A CULTURA POPULAR “ O mais importante na Bahia é o povo” Jorge Amado Programação: palestra. juntaram os ombros lutaram com fé. A Memória Não Pode Falhar Memória do povo que luta que chora. memória do lugar. shows Convidados: Antonio Vieira: Cordel Remoçado Celeste Bispo: Projeto Aruá do Garcia José Carlos Limeira: Quilombhoje Michel de Freitas: Núcleo de Estudos Afrouneb Salvador Sílvio Oliveira: Teafro Bartolimara Daltro: Núcleo de Cultura Popular da Bahia Dia: 27 de novembro de 2006 Horário: às 15h. Engenhos de cana. Lindinalva Barbosa. Luís Barreto e Michel Freitas. faz escola. memória da vida. justiça se faz. da longa história. memória constrói cidadania. 112 UNEB. memória resgata contrói. Memória com arte é alegria. A memória é uma história de luta do povo brasileiro. Um dia formaram quilombos. A memória tem jeito é o jeito da história. usinas de corpos humanos batizados na fé. Flávia Mucarzel. ficaram em pé. Local: Uneb CampusI/Prograd-Auditório Milton Santos Realização: Mestrado em Estudo de Linguagens Núcleo de Cultura Popular da Bahia Núcleo de Estudos Afrouneb Salvador e Teafro Coordenação: Marcos Santana Colaboração: Sílvio Roberto Oliveira. é povo na história. memória edifica. Memória de um povo. memória é história de um povo. debate. a memória é um apelo da história. mesa-redonda. lavouras de café. Marcos Santana . Arizângela Figueiredo.

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ANEXO B - Material jornalístico; fichas e questionários do I Ciclo Leituras de Jorge.

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no Maciel. se estende e ramifica no Taboão. nas Sete Portas e no Rio Vermelho. seguida de debates temáticos propostos em torno da obra amadiana. Com essa metodologia. Café Teatro Zélia Gattai Quando? 28 de junho de 2007 Hora? Das 15 às 16h30min. no Totoró. preferencialmente. imagem nova universal. ************************************************************************* O que? Leituras de Jorge (reflexões e debates inspirados em Tenda dos Milagres) Onde? Fundação Casa de Jorge Amado. Universidade vasta e vária. além de agregar pessoas e valores culturais ao projeto em desenvolvimento. passos e sangue: na mistura criaram uma cor e um som. e especialmente dedicado a Oxóssi. na afirmação do conceito de “baianidade” amplamente divulgado nos meios de comunicação de massa encabeçado pelas empresas oficiais de turismo. homens e mulheres ensinam e estudam. Jorge Amado. o I Ciclo Leituras de Jorge propõe uma contínua reflexão. assim como a sua influência a partir da década de 1970. na Barroquinha. tem o prazer de convidar Vossa Senhoria para participar da atividade de extensão: I CICLO Leituras de Jorge. em todas as partes homens e mulheres trabalham os metais e as madeiras. nas Portas do Carmo e em Santo Antonio Além do Carmo. no Largo da Sé. Coordenado por Marcos Santana. aluno do curso de Mestrado do Programa de Pós- Graduação em Estudo de Linguagens (UNEB/PPGEL). Quanto? Entrada Fraca Apoio: . 122 NÚCLEO DE CULTURA POPULAR DA BAHIA . na Lapinha. num dia de quinta-feira. nos mercados. misturam ritmos. CONVITE O NÚCLEO DE CULTURA POPULAR DA BAHIA através do Projeto Jorge Amado: mito ou baianidade?. utilizam ervas e raízes. na medida em que possibilita o exercício progressivo de abordagens temáticas e transversais. o I Ciclo Leituras de Jorge funciona como um valioso instrumento acadêmico. busca-se uma melhor compreensão do legado literário que foi deixado pelo famoso escritor baiano.I CICLO Leituras de Jorge No amplo território do Pelourinho. na Baixa dos Sapateiros. 1969: Tenda dos Milagres. prólogo. Realizado uma vez por mês.

Já ouviu falar sobre mitos afro-baianos? 10. Já leu o romance Tenda dos Milagres? 6. Conhece as manifestações da cultura popular afro-baiana? 13. Qual a sua opinião sobre o candomblé? 16. Como tomou conhecimento desse evento? 2. Pra você o que significa “baianidade”? 14. Desenvolve alguma atividade cultural ou artística? 8. solicitamos a gentileza de responder às questões formuladas abaixo. Qual o significado do “Pelourinho” pra você? 12. 123 NÚCLEO DE CULTURA POPULAR DA BAHIA . Como você reage diante da expressão “Exu”? 17. Gostaria de sugerir algum tema especial para os debates? . O que representa a capoeira pra você? 15. Já assistiu a representações da obra de Jorge Amado em: Tv/Cinema/Teatro? 18. Já conhecia a Fundação Casa de Jorge Amado? 3. Tem alguma informação sobre Miguel Santana? 11. Tem gosto preferencial por qual romance amadiano? 7. 1. 20. Participa de alguma comunidade-terreiro? 9.I CICLO Leituras de Jorge FICHA DE INSCRIÇÃO DO PARTICIPANTE NOME:__________________________________________________________________ ENDEREÇO:_____________________________________________________________ _________________________________________________________________________ TEL. Gostaria de fazer algum comentário sobre a obra literária de Jorge Amado. Considera importante um debate sobre a obra amadiana? 19. Já participou de alguma atividade sobre Jorge Amado? 4. Conhece a obra de Jorge Amado? 5.________________________E-mail:______________________________________ NÍVEL EDUCACIONAL: Fundamental ( ) Médio ( ) Superior ( ) Pós-graduação ( ) INSTITUIÇÃO QUE REPRESENTA:________________________________________ ATIVIDADE QUE DESENVOLVE:__________________________________________ Projeto Jorge Amado: mito ou baianidade? Visando estabelecer uma maior interatividade com o participante.

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