Vous êtes sur la page 1sur 8

A Sociedade em Comum - Erasmo Valladão

CAPÍTULO V. O DIREITO BRASILEIRO ATUAL.


1. Classificação do contrato de sociedade no Código Civil de 2002
O art. 981, do Código Civil, nos enuncia que “​celebram contrato de sociedade as
pessoas que reciprocamente se obrigam a contribuir, com bens ou serviços, para o
exercício de atividade econômica e a partilha, entre si, dos resultados”. A dúvida paira
quando nos perguntamos se a natureza deste contrato é consensual ou formal, caso no
qual haveria uma forma específica de que depende a sua validade.
Devemos lembrar que o Código traz a distinção entre as sociedades personificadas
e as não personificadas. Para as primeiras o legislador optou pela aplicação subsidiária das
regras da sociedade simples, e estabeleceu a exigência de contrato escrito registrado em
órgão competente. Para as segundas, entretanto, não há tal previsão.
O art. 987 diz, por sua vez, que “os sócios, nas relações entre si ou com terceiros,
somente por escrito podem provar a existência da sociedade, mas os terceiros podem
prová-la de qualquer modo”. ​É, portanto, exigência de eficácia do contrato de sociedade
a existência de um contrato escrito, e não uma exigência de validade. Se não existe a
forma escrita do contrato há a ​ineficácia relativa deste: os sócios ficarão privados de provar
sua existência, mas os terceiros poderão prová-la de qualquer modo.
A ideia do legislador era mudar a forma pela qual o direito brasileiro via as
sociedades não-personificadas. O Código Comercial de 1850 as caracterizava como
irregulares, porque não sujeitas ao registro. ​A sociedade em sua fase de formação não é
um “produto bastardo” denominado sociedade de fato, mas um tipo societário
próprio. São criadas relações societárias, um patrimônio especial, pertencente a todos os
sócios, e regras de responsabilidade.

2. Conceituação e distinções
A sociedade em comum, então, abrange ou não o que, no regime anterior se
convencionou em chamar de “sociedade de fato”1 ou de “sociedade irregular”2? ​Para
a doutrina majoritária, sim. Há um autor, Marcelo Andrade Féres, que diz o contrário. Para
este autor, tal tipo se aplica somente às sociedades em fase de formação. Continuariam,
portanto, a existir tanto a sociedade de fato (entendida como aquela em que não há prova
escrita, ou que os sócios não têm consciência da situação de ​cossócios por eles
experimentada), quanto a sociedade irregular (por ele entendida como aquela com
irregularidades ulteriores ao registro do ato constitutivo).
Para Valladão, a tese deste autor não convence. ​O art. 987, do CC, abarca
completamente as sociedades de fato do direito anterior, constituída sem prova
escrita. A questão é de mera eficácia probatória, e não trata de elementos de
existência ou de validade. A situação era a mesma para os regimes do Código Comercial
de 1850, em seu arts. 303 e 3043, e para o Código Civil de 1916, art. 13664. Mesmo nessas

1
Sociedades civis não registradas.
2
Sociedades comerciais não registradas.
3
CCom. Art. 333 - O sócio que, sem consentimento por escrito dos outros sócios, aplicar os fundos
ou efeitos da sociedade para negócio ou uso de conta própria, ou de terceiro, será obrigado a entrar
para a massa comum com todos os lucros resultantes; e se houver perdas ou danos serão estes por
sua conta particular; além do procedimento criminal que possa ter lugar (artigo nº. 316).
circunstâncias, a jurisprudência não afastou a possibilidade de aplicação do instituto do
enriquecimento sem causa à situação de um sócio que não conseguisse provar a existência
do vínculo societário. ​Se, por outro lado, existe uma sociedade segundo a qual os
sócios não têm consciência da existência dos vínculos, tal matéria não é tratada pelo
direito societário, porque este presume que a sociedade é um contrato consensual.
A falta de registro não torna o contrato de sociedade irregular. O que pode ser
considerado irregular é sua atividade, se esta ocorrer antes do registro ou persistir após seu
cancelamento, se este for exigido para seu exercício. Nem há que se falar que as normas
da sociedade em comum são aplicáveis somente às sociedades em formação. Esta figura
existe nos direitos francês e alemão pois, nestes ordenamentos, não há prazo fixo para o
registro dos atos constitutivos da sociedade. ​No Brasil este prazo existe: se registrado
em até 30 dias, os efeitos do tipo societário adotado no contrato terão eficácia
retroativa até o momento de constituição dele. Caso passem os 30 dias, aplica-se o
regime da “sociedade em comum”.
Há, também, a distinção que Férres faz a respeito das sociedades em comum,
em contraposição às sociedades irregulares. A sociedade se tornaria irregular, segundo
o autor, por vícios posteriores ao registro. O primeiro exemplo dado pelo autor é o da
sociedade continuar a exercer sua atividade mesmo depois de 180 dias da verificação da
falta de pluralidade de sócios. Não faz sentido, entretanto, dizer que esta sociedade
continua existindo, porque ela está dissolvida de pleno direito. A atividade é irregular, e não
a sociedade, que sequer existe. O ​segundo exemplo de Férres se refere à sociedade que
se dissolveu irregularmente. Ora, também não diz respeito à irregularidade da sociedade,
mas à uma dissolução irregular. Num ​terceiro exemplo​, segundo o qual é irregular a
sociedade seria irregular caso seu ato constitutivo seja inscrito em registro não competente,
também não se observa irregularidade. O que acontece nesta situação é justamente a falta
de atribuição de personalidade jurídica.
As conclusões de Valladão são as de que a sociedade em comum se configura
em três hipóteses: (a) quando for constituída e exercer sua atividade sem prova
escrita; ou (b) com prova escrita, mas sem inscrição no registro próprio, ou antes
dele; ou (c) seu registro for cancelado, mas continuar o exercício de sua atividade.
Abrange tanto a sociedade de fato (aquela entendida antes do CC/2002 como a
sociedade sem prova escrita), como a antiga sociedade irregular (aquela entendida,
no regime anterior, como sociedade com prova escrita, mas sem inscrição no registro
próprio).
É importante destacar a ​diferença dos tipos “sociedade em comum” da
“sociedade em conta de participação”​. Na sociedade em conta de participação a
atividade social é exercida unicamente pelo sócio ostensivo, que é aquele que responde
perante terceiros, com os bens constantes do seu patrimônio, de modo que mesmo aqueles
bens dados pelos sócios ocultos para o exercício desta atividade, são de propriedade do
sócio ostensivo. A responsabilidade, neste tipo societário, é decidida pelo contrato social,

CCom. Art. 334 - A nenhum sócio é lícito ceder a um terceiro, que não seja sócio, a parte que tiver na
sociedade, nem fazer-se substituir no exercício das funções que nela exercer sem expresso
consentimento de todos os outros sócios; pena de nulidade do contrato; mas poderá associá-lo à sua
parte, sem que por esse fato o associado fique considerado membro da sociedade.
4
CC/1916. ​Art. 1.366. Nas questões entre os sócios, a sociedade só se provará por escrito; mas os
estranhos poderão prová-la de qualquer modo.
enquanto que nas sociedades em comum ela é necessariamente ilimitada e solidária para
todos os sócios.
Valladão também diferencia as “sociedades em comum” das “sociedades
simuladas”. Segundo José Ferraz de Almeida Prado Filho há três situações, no direito
societário, em que podemos ver a simulação:
(a) a ​simulação absoluta​, quando as partes declaram a constituição da sociedade
sem querer negócio algum;
(b) ​simulação com relação à pessoa dos associados​, onde um dos vínculos é
simulado, e atribuem-se direitos e obrigações a pessoa diversa da real; e
(c) ​simulação relativa​, quando as partes declaram negócio distinto do verdadeiro
(disfarçando sob a forma societária outro negócio jurídico), cláusulas não
verdadeiras (dissimulação do objeto social, das efetivas quotas de participação dos
resultados, da sede, o valor da integralização, etc), ou alteram a data dos
instrumentos societários.
Calixto Salomão Filho5, por sua vez, diz que não cabe o instituto da simulação
à atividade, mas somente aos atos. Não há que se falar de sociedade simulada, mas de
simulação em um ato específico desta. As consequências serão as dadas pelo direito
societário, identificando as irregularidades nas atividades sociais, e resolvendo-os, ou
recorrendo-se à desconsideração da personalidade jurídica.
O autor também ​diferencia a “sociedade em comum” da “sociedade de fato”,
existente na França e na Alemanha. Nesses países, diz-se que há uma sociedade de fato
quando há vícios na constituição da sociedade querida pelas partes, e que vem a ser
invalidada em momento ulterior. Em nosso direito a consequência para tal situação é a
dissolução da sociedade. ​Por fim, diferencia a “sociedade em comum” das
“associações”​: ​(a) toda e qualquer sociedade tem por finalidade a distribuição dos lucros
entre os sócios, o que inexiste na associação; (b) na sociedade em comum há direitos e
obrigações entre os sócios, enquanto na associação não; (c) o patrimônio da sociedade em
comum, após sua dissolução, deve ser liquidado e distribuído aos sócios, após o
pagamento dos credores, enquanto na associação o patrimônio se destinará à outra
associação designada no estatuto, ou à instituição pública de fins semelhantes. ​Não é
possível serem aplicadas as normas das sociedades em comum para as associações,
haja visto que são institutos bastante distintos.

3. Prova da existência da sociedade

3.1. Nas relações internas


A exigência de documento escrito para que o sócio prove a existência da sociedade
em comum (sociedade irregular) que participa existe no Brasil desdeantes do Código Civil
de 2002, sob a vigência do Código Comercial de 1850 e do Código Civil de 1916. É
importante ressaltar que a prova escrita da existência da sociedade não se limita
somente ao contrato, mas realmente a qualquer documento escrito (depósitos,
correspondências, pagamento de contas, etc.). Tal situação, somada ao disposto no art.
227, parágrafo único, do Código Civil, de que “​qualquer que seja o valor do negócio jurídico,
a prova testemunhal é admissível como subsidiária ou complementar da prova por

5
Não consegui captar qual seria o posicionamento de Valladão.
escrito​”​, aumenta razoavelmente os meios de prova disponíveis aos sócios para
comprovarem seus vínculos.

3.2 Nas relações externas


Terceiros podem provar a existência da sociedade de qualquer modo, como
disposto ao final do art. 987, do Código Civil, inclusive por indícios que levem à presunção
de sua existência. A doutrina costuma apontar, como elementos que nos permitem presumir
a existência da sociedade, o disposto no art. 305, do revogado Código Comercial de 18506.
Tal prova, entretanto, deve ser muito bem fundamentada, mostrando a ​existência da
contribuição com bens ou serviços para o exercício da atividade empresarial comum
com outro ou outros sócios, bem como a partilha de resultados (lucros e perdas)
entre eles.

4. Regime Jurídico
O art. 983, do Código Civil, estabelece que “​a sociedade empresária deve
constituir-se segundo um dos tipos regulados nos arts. 1.039 a 1.092; a sociedade simples
pode constituir-se de conformidade com um desses tipos, e, não o fazendo, subordina-se às
normas que lhe são próprias”. Os artigos 1.039 a 1.092 dizem respeito à todas as
sociedades personificadas, com exceção da sociedade simples (tipo societário simples).
Defende-se, portanto, que ​o contrato de sociedade é típico, vedando-se, portanto, a
criação de sociedades inominadas, produto exclusivo da autonomia privada. ​Isso
ocorre pelo interesse da lei em proteger o interesse de terceiros e em diminuir os custos de
transação.
Surge o questionamento a respeito das sociedades em comum: seriam elas um tipo
societário específico, mesmo não sendo referidas no art. 983? Primeiramente ​o que
deveríamos entender por tipo societário? ​Para Ferri​, o tipo, dentro do direito societário,
representa o aspecto organizativo da sociedade, de modo a definir as regras pelas quais ela
atuará com terceiros e quais serão os efeitos dessas ações. ​O tipo societário não se
reduz somente à definição do regime de responsabilidade dos sócios, mas a um
universo mais amplo de regras. Esse também é o posicionamento de Wiedemann (e,
aparentemente, de Valladão).
Para Auletta​, seguido por Guerreiro, por outro lado, ​o elemento fundamental para
a diferenciação dos tipos societários é o regime de responsabilidade dos sócios​. O

6
CCom. Art. 305 - Presume-se que existe ou existiu sociedade, sempre que alguém exercita atos
próprios de sociedade, e que regularmente se não costumam praticar sem a qualidade social.
Desta natureza são especialmente:
1 - Negociação promíscua e comum.
2 - Aquisição, alheação, permutação, ou pagamento comum.
3 - Se um dos associados se confessa sócio, e os outros o não contradizem por uma forma
pública.
4 - Se duas ou mais pessoas propõem um administrador ou gerente comum.
5 - A dissolução da associação como sociedade.
6 - O emprego do pronome nós ou nosso nas cartas de correspondência, livros, fatura, contas e
mais papéis comerciais.
7 - O fato de receber ou responder cartas endereçadas ao nome ou firma social.
8 - O uso de marca comum nas fazendas ou volumes.
9 - O uso de nome com a adição - e companhia.
A responsabilidade dos sócios ocultos é pessoal e solidária, como se fossem sócios ostensivos
elemento que faz a diferença entre os vários tipos está na garantia que cada tipo societário
oferece aos credores da sociedade.
Chegamos, então, a um impasse na doutrina, na tentativa de entender a sociedade
em comum. ​Se partirmos da perspectiva de Ferri, ​a sociedade em comum não
constitui um tipo societário​, uma vez que segue a organização estabelecida às
sociedades simples​. Se, por outro lado, analisamos sob o ponto de vista de Auletta, ela
é um ​subtipo das sociedades em nome coletivo​, já que, nesta, nenhum sócio
responde diretamente pelos débitos sociais, como ocorre com o sócio que contrata
pela sociedade em comum7.
Valladão chega, então, há duas conclusões​: (a) ainda que se admita a existência
de sociedades atípicas antes do registro, o regime de responsabilidade ilimitada previsto
para a sociedade em comum é cogente​; (b) a sociedade em comum é, em princípio,
sociedade de pessoas, uma vez que é previsto a aplicação subsidiária à ela o regime das
sociedades simples. ​Se houver contrato escrito, entretanto, o tipo societário a que tal
documento se refere é eficaz entre as partes​, podendo ser configurado um regime de
sociedade de capitais, permitindo-se, até mesmo, a cessão das participações sociais a
terceiros.

4.1. ​A disciplina societária


Uma sociedade em comum é empresária ou não empresária? O que define se
uma sociedade é ou não empresária não é sua forma, mas sua atividade, como
estabelecido no seu objeto social. O Código estabelece cogentemente que são empresárias
pela forma somente as sociedades por ações, e não empresárias, as associações. Desse
modo, ​se a sociedade em comum tiver por objeto atividade própria de empresário
sujeito a registro, será considerada empresária; se não, será considerada não
empresária (simples).
Em que estrutura organizativa se enquadraria a sociedade em comum?
Depende da situação. ​Se não existe nenhuma prova escrita do vínculo societário, ​a
sociedade em comum se submete inteiramente ao regime das sociedades simples, exceto
no regime de responsabilidade dos sócios. ​Por outro lado, ​havendo prova escrita,
sobretudo se houver contrato escrito, ​é este contrato que regerá as relações dos sócios
“entre si” naquilo que não for contrário às normas da sociedade em comum e no que
independer da aquisição de personalidade jurídica.
Se, por exemplo, uma sociedade em comum tem, por documento escrito, a
forma de uma sociedade limitada, é muito claro que a responsabilidade dos sócios
não é limitada, porque isso é contrário à sociedade em comum, mas há diversas
outras consequências que recaem sobre o funcionamento desta sociedade. O quórum
exigido para as deliberações, nas sociedades simples, é de unanimidade, enquanto que nas
sociedades limitadas há diferentes quóruns, segundo o art. 1.076, do CC, dependendo da
matéria que é votada. É importante ressaltar, entretanto, que esse contrato só produzirá
efeitos internos à sociedade.
No intuito de incentivar que as sociedades se registem, entretanto, a lei
impõe uma série de sanções indiretas caso isso não ocorra​, sendo elas:
a. A sociedade não terá legitimidade ativa para requerer falência de seu
devedor;

7
Não entendi.
b. A sociedade não terá legitimidade ativa para requerer recuperação judicial;
c. Não conseguirá registrar seus livros contábeis na Junta, o que impede com
que estes tenham eficácia probatória em seu favor;
d. Caso a sociedade entre em falência, os sócios poderão ser acusados de
crime falimentar;
e. A sociedade não tem seu nome protegido;
f. A sociedade não poderá participar de licitações, nas modalidades de
concorrência pública e de tomada de preço;
g. A sociedade não poderá ter cadastro CNPJ, para fins tributários, ou na
seguridade social;
h. Não poderá requerer o registro de marca.
Parece que tais sanções são direcionadas especificamente às sociedades
empresárias. O regime é bastante semelhante ao do Código anterior: as sociedades civis de
fato não eram consideradas irregulares. ​As sociedades não empresárias, nesse passo,
não sofrem tantas “sanções” caso não sejam registradas.
A dissolução da sociedade em comum segue as regras gerais da sociedade
simples, estabelecidas nos arts. 1.033 e 1.034, do Código Civil. Sua dissolução judicial
só poderá ser feita, nos termos do art. 1.034, quando houver prova escrita de sua
existência. ​Também poderá se dissolver pela decretação de falência, caso seja
empresária, por analogia ao art. 1.044, ou por insolvência, se não empresária. A lei de
recuperação de empresas (Lei 11.101/05) estabelece, em seu art. 81, que “​a decisão que
decreta a falência da sociedade com sócios ilimitadamente responsáveis também
acarreta a falência destes, que ficam sujeitos aos mesmos efeitos jurídicos
produzidos em relação à sociedade falida e, por isso, deverão ser citados para
apresentar contestação, se assim o desejarem”, criando uma exceção, no direito pátrio, à
impossibilidade de falência de pessoa física.

4.2.​ A disciplina do patrimônio e interesses de terceiros


No regime anterior havia muita dúvida a respeito da personalidade jurídica das
sociedades de fato e das sociedades irregulares, sobretudo as de natureza mercantil.
Havia consenso na doutrina a respeito das sociedades civis, que não adquiriam
personalidade jurídica antes do registro. ​As sociedades comerciais irregulares,
entretanto, segundo Calixto, teriam personalidade jurídica antes mesmo de seu
registro, pois o legislador confere capacidade jurídica à sociedade para realizar uma
série de atos.
Nessa perspectiva de argumentação, reconhecendo-se que a personalidade não é
um fenômeno unitário, mas um centro de imputação de direitos e deveres, as sociedades
em comum possuem uma “limitada personalidade jurídica” quando são constituídas por
escrito, como se pode observar no art. 987, ​em que “os sócios, nas relações entre si ou com
terceiros, somente por escrito podem provar a existência da sociedade…”, de modo que
existiria uma entidade societária.
Há quem entenda que ​tal situação não caracteriza a dotação de personalidade,
mas o reconhecimento de um sujeito de direitos8 específico. Valladão concorda mais

8
Sujeito de direito é todo ente, seja ou não pessoa, que o ordenamento jurídico admite ser titular das
posições ativas e passivas que estão no conteúdo das relações jurídicas.
com essa posição pois ela seria mais coerente com o art. 459, do Código Civil, e
também com o fato de que a sociedade em comum não constitui patrimônio
autônomo de seus membros.
A teoria clássica do patrimônio, de Aubry e Rau, possui três grandes consequências:
(a) que somente pessoas podem ter patrimônio; (b) que toda pessoa tem, necessariamente,
um patrimônio; e (c) que cada pessoa tem um, e somente um, patrimônio. O Código Civil
vigente expressamente se afastou dessa teoria, tão influente nos tempos do Código de
1916. Sylvio Marcondes, autor das disposições sobre direito da empresa do Código atual, já
indicava em sua obra a existência de um “patrimônio especial”. Na sociedade em comum
vemos, segundo o art. 988,10 que todos os sócios terão, além de seu patrimônio geral, uma
parcela ideal do patrimônio separado ou especial, dedicado à atividade social. Isso significa,
então, que os credores da sociedade só podem ir contra o patrimônio de cada sócio depois
da execução do patrimônio separado.
Esse patrimônio é especial porque é destinado a uma finalidade: a atividade
negocial da sociedade em comum. Esse patrimônio é de titularidade de todos os
sócios, em comunhão. Esse núcleo patrimonial adquire autonomia, tanto perante os
sócios, quando perante os credores.

4.3.​ A disciplina da atividade negocial


Se a sociedade em comum for constituída sem prova escrita que traduza essa
disciplina, aplicam-se, ​interna coporis​, as regras da sociedade simples, como manda o art.
986, do Código Civil. ​A administração será, então, disjuntiva, seguindo o art. 1.01311.
Perante terceiros vige o disposto no art. 98912, do Código Civil. ​Havendo contrato escrito
que trate de limitação de poderes dos sócios sobre o patrimônio da sociedade,
quando o terceiro conheça ou deva conhecer a existência desse regramento, este
contrato também é aplicável às suas relações com a sociedade. Valladão não concorda
com isso, uma vez que o interesse protegido pela norma não é do terceiro, mas dos sócios,
“que escolheram mal o administrador e nem sequer procederam ao registro da sociedade”.
Havendo contrato escrito, os poderes de gestão ​interna corporis deverão respeitar o
que nele estiver disposto​.
A administração por não sócio é aceita pela doutrina com relação à
sociedade simples e aplicada subsidiariamente, portanto, às sociedades em comum.
A não ser que o administrador tenha expressamente declinado e comprovado a sua
condição para o terceiro quando for contratar (mostrando-lhe, por exemplo, uma cópia do

9
CC. ​Art. 45. Começa a existência legal das pessoas jurídicas de direito privado com a inscrição do
ato constitutivo no respectivo registro, precedida, quando necessário, de autorização ou aprovação
do Poder Executivo, averbando-se no registro todas as alterações por que passar o ato constitutivo.
10
CC. ​Art. 988. Os bens e dívidas sociais constituem patrimônio especial, do qual os sócios são
titulares em comum.
11
CC. Art. 1.013. A administração da sociedade, nada dispondo o contrato social, compete
separadamente a cada um dos sócios.
§ 1​o Se a administração competir separadamente a vários administradores, cada um pode impugnar
operação pretendida por outro, cabendo a decisão aos sócios, por maioria de votos.
§ 2​o Responde por perdas e danos perante a sociedade o administrador que realizar operações,
sabendo ou devendo saber que estava agindo em desacordo com a maioria.
12
CC. Art. 989. Os bens sociais respondem pelos atos de gestão praticados por qualquer dos sócios,
salvo pacto expresso limitativo de poderes, que somente terá eficácia contra o terceiro que o
conheça ou deva conhecer.
contrato social) , este responderá individualmente perante ele. ​O fato de alguém se
intitular administrador de uma sociedade perante terceiros não vincula a esta ou a
seus sócios.

5. Casuística
No regime do Código Civil de 1916 a sociedade de fato entre amantes
(concubinos) era tratada como se fosse sociedade civil (quase-contrato de sociedade).
Então, na dissolução do “concubinato”, aplicavam-se parcialmente as regras a respeito da
dissolução da sociedade. Hoje isso não é mais aplicável, pois, segundo o art. 1.725, do
atual Código, aplicam-se, na união estável, as regras do regime de comunhão parcial de
bens. O STJ, entretanto, aplicava r​egime semelhante somente no sentido de reconhecer
a possibilidade de sociedade de fato em caso de união homoafetiva13.
Outro caso semelhante é o de bandas de música, no qual os integrantes compram
instrumentos musicais para se apresentarem em conjunto. Seus sócios formam uma
sociedade em comum não empresária, porque prestam serviços de natureza artística (art.
966, parágrafo único). Também segue nesse caminho as sociedades de profissionais
liberais, aquelas destinadas para o exercício de atividade agrícola.
Formam sociedades em comum empresariais: (a) sociedade em comum entre
sociedade estrangeira, tida como sócia controladora oculta, e sociedades limitadas
brasileiras integrantes de um grupo; (b) prosseguimento da exploração de estabelecimento
comercial pelos herdeiros do empresário individual falecido; (c) sociedade entre pessoa
física e estabelecimento de saúde para a prestação de serviços médicos hospitalares; (d)
sociedade para a exploração de casa noturna de diversões; (e) sociedade para a
exploração de bancas de jornais; etc.

CAPÍTULO VI. CONSIDERAÇÕES FINAIS


A expressão “sociedade irregular” é uma metonímia, toma a parte pelo todo. A
única coisa que pode ser irregular é a atividade, e não a sociedade. O ato ou negócio
jurídico pode ser analisado sob o enfoque das três esferas, da existência, da validade e da
eficácia. Não há que se analisar sua irregularidade, portanto. Da mesma forma, não existe
atividade nula ou ineficaz. Se a atividade existe, ela só pode ser lícita ou ilícita, regular ou
irregular. Eventuais atos podem ser anulados, mas não a atividade inteira.
A sociedade em comum não é uma sociedade irregular. Tal visão é muito restrita do
fenômeno, uma vez que a sociedade não se limita a sua atividade, mas também à disciplina
das relações entre os sócios (ordenamento societário) e o ordenamento de seu patrimônio,
como estabeleceu Wiedemann.
A sociedade em comum é uma sociedade como qualquer outra, diferenciando-se
das demais única e exclusivamente no plano da eficácia.

13
Valladão cita acórdãos do ano de 2010 sobre este assunto.