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O ÓD I O À DEMOCRACIA
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RÉPUllLIQUE FRANÇAISE

Cet ouvrage, publié dans le cadre du Programme d' Aide à la Pu blication 2014
Carlos Drumm ond de And r ade de la Médiathêque de la Maison de France, bénéficie du soutien
du j\,linistere français des Alfa.ires Étrangêres et Européennes.

Est e livro, publicado no âmbito do Programa de Apoio à Publicação 2014


Carlos Drummond de Andrade da Mediateca da Maison de France, contou com o apoio
do lviinistério francês das Relações Exteriores e Europeias.
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O ODIO A DEMOCRACIA
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Jacques Ranciere

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EDI T OR I A
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Copyright desta edição© Boitempo Editorial, 201 4
Copyright © La Fabrique éditions, 2005
Título original: La haine de ta démocratie

Coordenação editorial lvana Jinkings


Edição Bibiana Leme e Isabella Marcatti
Assistência editorial Thaisa Burani
Tradução Mariana Echalar
Preparação João Alexandre Peschanski
Revisão Fernanda Guerriero Antunes
Texto sobre o autor Artur Renzo
Capa Ronaldo Alves
Diagramação Carlos Renato e Vanessa Lima
Produção Carlos Renato

1 li ' l l llASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO


',I N I >!CAT O NACIONAL DOS EDITORES DE LNROS, RJ
1( 1 ' 'º
R.,ncicre, Jacques, 1940-
0 ó dio à democracia / Jacques Rancii:re ; tradução Mariana
F, halar. - l. ed. - São Paulo: Boitempo, 2014.
Tradução de: La haine de la démocratíe
fSBN 978-85-7559-400-l
1. Socialismo. 2 . Democracia. I. Título.

14 - 14369 CDD: 321.8


CDU: 321.7

É vedada a reprodução de qualquer parte


deste livro sem a expressa autorização da editora.

1 ,,~ livro atende às normas do acordo ortográfico em vigor desde janeiro de 2009.

l' edição: setembro de 2014

BOITEMPO EDITORlAL
Jinkings Editores Associados Leda.
Rua Pereira Leite, 373
05442-000 São Paulo SP
Tel./fax: (11) 3875-7250 I 3872-6869
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SUMÁRIO

Introdução 7

Da democracia vitoriosa à democracia criminosa 13

A política ou o pastor perdido 47

Democracia, república, representação 67

As razões de um ódio 91

Sobre o autor 123


I NTRODUÇÃO

Uma jovem que mantém a França em suspense com o rL·l.un d1·


u m a agressão imaginária; adolescentes que se r ecusam " l 11,11
o véu na escola; o déficit da Previdência Social; M o ntl'sq1 1w1 1,
Voltaire e Baudelaire desbancando Racine e Corneillc nos t l''.\ 1, ,~

apresentados nos exames finais d o ensino m édio; assalariados q, 1t


fazem manifestações pela manutenção do sistema de apo~v111.1
do ria; uma grande école* que cria u m curso com seleção p :H .il v l.1 , 1,
avanço dos reality shows, d o casamento h o mossexual e da r ep rod 11~,li)

As grandes écoles são est abelecim entos de ensino superior, de granc.k p1 , .,

tígio, que recrutam seus alunos em co ncursos altamente competitjvos e: 11 ,"

quais estudou geralmente a elite política e econômica da França. (N. E.)

t
1
O ÓD!O À DEMOCRACJA
..

,11 t d it i ;1I. É inútil procurar o que une acontecimentos de natureza


1,,., distinta. Centenas de filósofos ou sociólogos, cientistas políti-
1 11•. 111 1 psicanalistas, jornalistas ou escrit ores já forneceram ares-
1•11·,1.1 t·111 livros e mais livros, artigos e mais artigos, programas e
111,11·, 11 1ogr.imas de televisão. Segundo eles, todos esses sintomas ·
i)
11 11 l 11 1v1 11 u 111 mesmo mal , todos esses efeitos têm uma única
1 111,.1 l•l.1 S(' t h .unademocracia, isto é, o reino dos desejos ilimita-
11, , , l, 1~ 1111 lI v1d u os da sociedade d e massa m oderna.
1 111 , , h<, vv r bem o que torna essa acusação singular. É óbvio
111L "11111,1 ,1 tkrnocracia não é novidade. É tão velho quanto a
11 1111" 1 11 1.1, t' por um a r azão muito simples: a própria palavra é
1 , I''' ~s. 1, 1 dv Lltn ódio. Foi primeiro um insulto inventado na
1, 11, i,t 1\ 1111~J. por aqueles que viam a ruína de toda ordem legíti-
111,1 11<> 11111111i 11 ivel governo da multidão. Continuou como sinô-
11111111 ili' ,1hl)111inação para todos os que acreditavam que o poder
, d11,1 .lv d1rciLo aos que a ele er am destinados por nascimento
1111 , l1•11 ,1s por suas competências. Ainda h oje é uma abomina-
~ 1,, p ,11,t ,ttJue les que fazem da lei divin a r evelada o único fun-
, I 11111· 11 t n legítimo da organização das comunidades humanas.
\ \, l11l,·11da desse ódio é atual, não há dúvida. No entanto, não é
, 11 11 1ibJeto deste livro, p elo simples fato de que n ão tenho nada
t·111 u)111um com aqu eles qu e o proferem, portanto, n ão tenho
11..1.da que discutir com eles.
Ao lado desse ó dio à democracia, a história conheceu as for-
m.as de sua crítica. A crítica reconhece sua existência, com o
propósito de estabelecer seus limites. A crítica da democracia
INTROD UÇÃO 9

conheceu duas grandes formas históricas. Houve a arte dos le-


gisladores aristocratas e dou t os, que quiseram compor com a
democracia, considerada um fato incontornável. A redação da
Con stituição dos Estados Unidos é o exemplo clássico desse t ra-
1•,.L· ·~· balho de composição de forças e equilíbrio dos mecanismos ins-
)>' 1
~e- titucionais destinado a tirar do fato democrático o m elhor que
se podia tirar dele, mas ao mesmo tempo contê-lo estritamente
para preservar d ois ben s considerados sinônimos: o governo dos
melhores e a defesa da ordem proprietária. Naturalmente o su-
cesso dessa crítica em ato alimentou o sucesso de seu contrário.
O jovem Marx não teve nenhuma dificuldade par a desvendar o
reino da propriedade no fundamento da constituição republica-
na. Os legisladores republicanos não fizeram nenhum mistério
disso. Mas ele soube estabelecer um padrão de pensamento que
ainda n ão se esgotou: as leis e as instituições da democracia for-
mal são as apar ências por trás das quais e os instrumentos com
os qu ais se exerce o poder da classe burguesa. A luta contra essas
aparências tornou-se então a via para uma democracia "real",
uma d emocracia em que a liberdade e a igualdade não seriam
mais representadas nas instituições da lei e do Estado, mas se-
riam encarnadas nas próprias formas da vida material e da expe-
riência sensível.
O novo ódio à democracia que é o objeto deste livro não per-
tence propriamente a nenhum desses m odelos, embora com-
bine elementos tomados de uns e de outros. Seus porta-vozes
habitam todos os países que se declaram não apenas Estados
!O O ÓDIO À DEMOCRACIA

democráticos, mas democracias tout court. Nenhum reivindica


uma democracia mais real. Ao contrário, todos dizem que ela já
é real demais. Nenhum se queixa das ins titu ições que dizem en-
carnar o poder do povo nem propõe medidas para restringir esse
poder. A mecânica das instituições que encantou os contemporâ-
neos de Montesquieu, Madison ou Tocqueville não lhes interessa.
É 90 povo e de seus costumes que eles se queixam , não das insti-
t~iç?es de seu p oder. Para_eles, a d emocracia não é uma forma de
governo corrompido , mas umak rise·élã-civilEaç:ão/que afeta aso-
ciedade e o Estado através dela. Daí o vaivém que, à primeira vist a,
pode par ecer estranho. Os mesmos críticos que não se cansam
de denunciar essa América democrática da qual viria todo o mal
do respeito das diferenças, do direito das minorias e da affirmative
action [ação afirmativa] que mina nosso universalismo republicano
são os primeiros a aplaudir quando essa mesma América trata de
- espalhar sua democracia pelo mundo através da força das armas.
Na realidade, o discurso duplo sobre a democracia não é
novo. Nós nos acostumamos a ouvir que a democracia era o
pior dos governos, com exceção de todos os outros. Mas o novo
sentimento antidemocrático traz uma versão mais perturbado-
ra da fórmula. O governo democrático, diz, é mau quando se
deixa corromper pela sociedade democrática que quer que to-
dos sejam iguais e que todas as diferenças sejam respeitadas. Em
compensação, é bom quando mobiliza os in divíduos apáticos da
sociedade democrática para a energia da guerra em defesa dos
valores da civilização, aqueles da luta das civilizações. O novo
INTRODUÇÃO li

ódio à democracia pode ser resumido então em uma tese sim


p les: só existe uma democracia boa, a que reprime a catástrofe d.1
civilização democrática. As próximas páginas procuram analis.11
a formação e esclarecer as implicações dessa tese. Não se 11-.11 .1
apenas de descrever uma forma da ideologia conte mpo1 .1111 .1
Informa- nos também sobre o estado do nosso mundo v , , q111
se entende por p olítica. Assim, pode nos aj u dar a compn·,·11.!1,
de modo positivo o escândalo contido na palavra demo, 1.111,1 ,
en contrar o caráter incisivo de sua ideia.
..
DA DEMOCRACIA VITORIOSA
À DEMOCRACIA CRIMINOSA

"A democr acia e r gue-se no Oriente Médio ." Com esse título,
uma r evista que carrega a bandeir a d o liberalismo econômico
comemorou, há algu m temp o, o su cesso das eleições no Iraque
e as man ifestações d e Beirute contra a Síria 1. O elogio da de-
m ocr acia vitoriosa veio acompan h ado apenas de com entários
qu e especificavam a natureza e os lim ites dessa democracia. Ela
triu nfava, co m o explicava antes de mais nada o artigo, apesar
dos protestos daqueles idealistas para quem a democracia é o go-
verno do povo por ele mesmo e, port anto, não pode se r trazida

"Democracy stirs in the Middle East", The Economist, 3 mar. 2005.


14 O ÓDIO À DEMOCRACIA

de fora pela força das armas. Ela triunfava, por conseguinte, se


soubéssemos considerá- la de um ponto de vista realista, sepa-
,, rando seus benefícios práticos da utopia do governo do povo
por ele m esmo . Mas a lição dada aos idealistas nos obrigava a
ser realistas ao extremo. A democracia triunfava, mas era ne-
cessário ter e m mente tudo que seu triunfo significava: levar a
c.lcmocracia a o u tro povo não é levar apenas os benefícios do
fatado constitucional, eleições e imprensa livres. É _levar tam-
bém a bagunça.
. '
Ainda nos lembramos da d eclaração do ministro da Defesa
norte-americano sobre os saques que ocorreram após a queda
de Saddam Hussein. Ele disse, em síntese, que havíamos levado a
liberdade aos iraquianos. Ora, a liberdade é também a liberdade
de errar. A declaração não é apenas um gracejo de circunstân-
cia. Faz parte de u ma lógica que pode ser recon stituída a partir
de seus m embros isolados: a democracia, por não ser o idílio do
governo d o povo por ele mesmo, por ser a desordem das pai-
xões ávidas de satisfação, pode e até d eve ser trazida de fora pelas
armas de uma superpotência, entendendo-se por superpotência
não simplesmente u m Estado que dispõe de uma fo rça militar
desproporcional, mas , de modo mais geral, do poder de contro-
lar a desordem democrática.
Os comentários que acompanham as expedições dedicadas a
propagar a d emocracia pelo mundo nos lembram de argumen-
tos mais antigos, que evocavam a irresistível expansão da d emo-
cracia, mas num registro muito menos triunfal. Na verdade,
DA D E ';! OC RA C I.\ V IT O RI O$ .\ À D EMO CRACI A C RIMINO S A 15

parafraseiam as análises apresentadas trinta anos atrás, na Confe-


rência Trilateral, para demonstrar o que era chamada então de
crise da democracia2.
A democracia ergue-se no rastro dos exércitos norte- amcriu1
nos, apesar daqueles idealistas que protestam em nome do di rl'il n
dos povos de dispor de si mesmos. Trinta anos atrás, o rl·l.11"11"

acusava o m esmo tipo de idealistas, os value-oriented in1ellrctl/r1/, i111


telectuais orientados por valo res], que alimentavam um.i l I il t 111 ,1
de oposição e defendiam um excesso de atividade dc mol 1.1t11 .1 ,

fatal tanto para a autoridade da coisa pública quanto para a a_ç ,m


p ragmática dos policy-oriented intellectuals [intelectuais orientados pela
política]. A democracia ergue-se, mas a desordem e rgue-se com
ela: os saqu eadores de Bagdá, que se aproveitam da nova liberdade
democrática para aumentar seu bem em detrim ento da proprie-
dade comum, lembram, de sua maneira um tanto primitiva, um
dos grandes argum entos que havia trinta anos propunham a "cri-
se" da democracia: a democracia, diziam os relatores, significa o
aumento irresistível de demandas que p r essiona os govern os, acar-
reta o declínio da autoridade e t orna os indivíduos e os grupos r e-
beld es à disciplina e aos sacrifícios exigidos pelo interesse comum.

Michel J. Crozier, Samuel P. H untington e Joji Watanuki, The Crisis of


Democracy: Report on the Governability of Democracies to the Trilateral Commission (Nova
York, New Yo rk University Press, 1975). A Comissão Trilater al, espécie de
clube de reflexão formado por homens de Estado, especialistas e homens de
negócios dos Estados Unidos, da Europa ocidental e do Japão, foi c riada em
1973. Muitas vezes o crédito de ter elaborado as ideias da fu tura "nova ordem
mundial" é atribuído a ela.
À DEMOCRACIA
..
I li O Ó DIO

Assim, os argument os qu e apoiam as campanhas militares des-


1111,1d.1s ao avanço mundial da democracia revelam o paradoxo
,p11· <1 llSO mais com u m dessa palavra en cerra hoje. A dem o cra-
' 1.1 p,ti-et:e ter dois adversários. De um lado, op õe-se a um in im igo
, l.11.1111L't1Lc identificado, o governo do arbitr ário, o governo sem
l11111t vs l jLI C d en ominamos, conforme a época, tirania, ditadu ra ou
1,11 ,d1t.1 ris mo. Mas essa oposição eviden te esconde outra, mais ínti-
111,1. < > hom gover no democrático é aqu ele capaz de controlar um
11 1,11 ,1111· si· ch ama simplesm ente vid '!:_dem ocr ática.
\ d1·111<1ns tração que se fazia em The Crisis of Democracy [A crise
d I d1·1111H, ,u ia] é a seguinte: o q u e provoca a crise do governo
, I, 111<>1 , .1t1, o nada mais é que a intensidade da vida d emocrática.
f\ l. 1\ 1·ss.1 inten sidade e a ameaça subsequ ente se apr esen tavam
, , 1111 li lll duplo aspecto . D e um lado, a "vid a democrática" id e n-
1lf 11 .1 v.1 -sc com o princípio anár quico, que afirmava o poder d o
1H1vo, cio c1ual os Estados U n idos, assim como outros Estad os oci-
d, ·111.1is, conh eceram as consequências extremas nos an os 1960
1 11170: uma contestação militante perman ente, que intervin ha
1 111 111d ns os aspectos da atividade dos Est ados e desafiava t odos
, 1•, p 1incípios do bom governo (a autoridades dos poderes públi-
' 1,.~, o saber dos especialistas e o savoir-faire dos pragmáticos).
O rem édio para esse excesso de vitalidade é, sem dúvida, co-
11hccido desde Pisístrato, se acreditarmos em Aristóteles3. Consiste
e m orien tar para ou t r os fins as energias febris que se ativam na

Aristóteles, A constituição de Atenas (São Paulo, Hucitec, 1995), cap. XVI.


DA DE~,{OCRAC[A VITOR IOSA À D EMOCRACIA CRJMlNOS1\ l7

cena política, desviá-las para a busca da prosperidade material,


da felicidade privada e dos laços de sociedade. Infelizmente, aso-
lução boa já revelava o reverso : diminuir as energias p o líticas ex-
cessivas, favo r ecer a busca da felicidade individu al e das relações
sociais era favorecer a vitalidade de uma vida privada e de formas
de interação social que acarretavam uma multiplicação de as-
pirações e demandas. E estas, é cla ro, tin ham u m efeito duplo :
tornavam os cidadãos indifer entes ao bem público e m inavam a
autoridad e de governos intim ados a r esponde r a essa esp iral de
demandas que emanavam da socied ade.
O enfrentamento d a vitalidade democrática assu mia assim a
forma de um double bind [d uplo vínculo] simples de resumir: o u
a vida democr ática significava u ma ampla participação popular
na discussão dos negócios p úblicos, e isso era r uim, o u significava
uma forma de vid a social que direcionava as ener gias para as sa-
tisfações individuais, e isso também era r uim. A boa democracia
~everia ser então uma forma de governo e de vida social capaz
de controlar o duplo excesso de atividade coletiva o u de r etração
individual in er ente à vida dem ocrática.
Esta é a forma comum com qu e os especialist as enun ciam o
paradoxo democrático: a dem ocr acia, como forma de vida po-
lítica e social, é o reino do excesso. Esse excesso significa a ruína
do governo democrático e, portan to, deve ser reprimido por ele.
Essa quadrat ura do círculo estimulou no passado a engenhosida-
de d os artistas d as constituições. Nias esse tipo d e arte é pouco
apreciado hoje em dia. Os governantes passam bastante bem
18 O ÓDIO À DEMOCRACIA

sem ele. O fato de as democracias serem "ingovernáveis" prova


s u perabundantemente a necessidade de serem governadas e, para
eles, é legitimação suficiente do cuidado que tomam justamente
em governá-l as . Mas as virtudes do empirismo governamental
só conseguem convencer os que governain. Os intelectuais pre-
cisam de outra moeda, sobretudo d o lado de cá do Atlântico e
principalmente na França, onde eles estão muito próximos do
poder e ao mesmo tempo são excluídos de seu exercício. Um pa-
radoxo empírico, para eles, não pode ser tratado com armas d a
bricol agem governamental. Veem nele a consequência de um ví-
cio original, de uma perversão no próprio âmago da civilização,
cujo princípio se empenham em perseguir. Para eles, trata-se de
desatar o equívoco do nome, de fazer de "democracia" não mais
o nome comum de um mal e do bem que o cura, mas apenas o
nome do mal que nos corrompe.
Enquant o os exércitos norte-americanos trabalhavam para a
expansão democrática no Iraque, era lançado na França um livro
que discutia a democracia no Oriente Médio sob uma nova luz.
Intitulava-se Les penchants criminels de l'Europe démocratique [As tendên-
cias criminosas da Europa democrática]*. O auto r, Jean-Cl aude
Milner, desenvolvia, por uma análise sutil e rigorosa, uma tese
tão simples quanto radical. O crime presente da democracia
europeia era pedir a paz no O riente Médio, isto é, uma solução

* Jean-Claude Milner, Les penchants criminels de l'Europe démocratique (Paris,


Verdier, 2003). ( N. E.)
DA DEMOCRACI A V I TO RIOSA À DEMOCRACIA CR I M INOSA l<I

pacífica do con flito israelo-palestino . Ora, essa paz só podia si~


nificar uma coisa: a destruição de Israel. As democracias eu rn
peias propunham sua paz para resolver o problema isracknst·
Mas a paz democrática europeia não era nada mais que o rvs1 1I
tado do rxtermínio dos judeus da Europa. A Europa u n id.1 11.1
paz e n a democracia tornou-se possível depois de 1945 po 1 1111 11
única razão: o territ ório europeu, em virtude do sucvs:-<, 1I,, f'
nocídio nazis ta, estava livre do único povo que criava o lht , 11 11 I,,
à realização de seu sonho, o u seja, os judeus. A Europa sv 11 1 l 11 111
teiras é, na ver dade, a dissolu_s:ão da política , que esLa st• 111 111,
às voltas com totalidades limitadas, na sociedade cujo p111 1< 'i"''
é, ao contrário, a ilimitação. A democracia moderna 1i 1~111l 1, 1
a destruição do limite político pela lei de ilimitaç ão pro1ll 1,1 d.i
sociedade moderna. A vontade de passar por cima dl' q 11 .il q 111 1
limite é servida e ao mesmo tempo emblematizada pvl.1 11 1,<·11
ção moderna por excelência: a técnica. Ela culroin..1 IH>Jt' 1111 11
a vontade de se livrar, pelas técnicas da manipLil açill ~'.t'IH' t1, .1
e da inseminação artificial, das próprias leis da d ivisan Sl'\1 1,il ,
da reprodução sexuada e da filiação . A democracia t'LI rn1w1.1 1•
o modo de sociedade que carrega essa vontade. Par.i t lil'g,11 .1
seus fins, ela precisava se livrar, segundo Milner, do povo 1 11 J• 1
próprio princípio de existência é o da filiação e da tran:-1 111 \,\,11 ,,
o povo que carrega o nome que significa esse princípio, ou M 'J.t , 1,
povo que carrega o nome de judeu. Foi precisamenLl' Í1i1ic1 , .!1
ele, que o genocídio lhe rendeu por meio de uma invc n\ .ic 1 l 11,
mogênea com o princípio.da sociedade democrática, a inv t·11, ,1,,
O Ó DIO À DEM OCRACI A

..
11·1 11 ica d a câmara de gás. A Europa democrá tica, conclui, nasceu
d, , gv 11 ncídio, e dá continuidade à tarefa querendo submeter o
l·.~1.ido jude u às condições de su a paz, que são as condições do
1 :- t 1• rn1í11io dos judeus.
l l,1 vár ias maneiras de se con siderar essa argumen tação. Po-
d1•11111s contrapor a sua radicalidade as razões do senso comu m e
d ,1 p1·v< isa.o his tórica, por exemplo, pergunt ando se o regime n a-
11·.1.1 p,H iv st·r tão facilmente con siderad o um agente do triunfo
, 111111 w 11 d., d c 1n ocracia, salvo por u m a artimanha da razão ou
I"'' 11111 ,1 tvko logiaprovidencial da história. Inversamente, po-
, 1, 111, 11, ,111 ,1l1s,1r a coerência interna dessa ar gu mentação a partir
,I,,, 1•111\' d o pc nsa1nento do autor, ou seja, u ma teoria do nome,
.11111 1il.1d ,t co rn a triplicidade lacaniana do simbólico, do imagi-
11 ,u ín e tio real 4 . Tomarei aqu i uma terceira via: consider ar o nú-
, Ivo da a rg umentação não de acordo com sua extravagân cia aos
1>I h os d o sen so comu m ou seu pertencimento à rede con ceitua!
d,1 1w 1,:wmento de um autor, mas do ponto de vista da paisagem
, 1111111111 qLtC essa argumentação singular n os permite recon sti-
11111 , d .1qL1í lo que ela nos deixa entrever do deslocam ent o que a
p,il .1v1.1 "d emocr acia" sofreu, em d uas décadas, na opinião inte-
11·1 t 11.il d o minante.
No livro d e Milner, esse deslocament o se r esume p ela con-
j 11 1,s-ão de duas teses. A primeira opõe de m aneira radical o

Reme to à obr a mestra de Jean - Claude Milner, Os nomes indistintos (Rio de


faneiro, Companhia de Freud, 2007).
\

DA DE M OCRACIA V I TORI O SA À DEMOCR.;.CIA CR I :VJ[ NOSA 21

nome de judeu e o de democracia; a segunda divide essa oposição


entre duas humanidades: uma humanidade fiel ao princípio da
filiação e da transmissão, e uma humanidade que se esqueceu
d esse princípio e persegue um ideal de a utoe n gendramento
q u e é tam bém um ideal de autodestruição . t u deu e democracia
estão em oposição radical, Essa tese marca a reviravolta daquilo
q u e, na époc a da Guerra dos Seis Dias o u do Sinai, ainda estr u -
turava a percepção d o minant e da democracia. Naquele tempo,
Israel era en altecido por ser uma dernocracia. Entendia-se por
democr acia uma sociedade governad a por um Estado que as-
segurava a liberdade dos indivíduos e a participação da maio-
r ia na vida p ública. As declarações dos direitos h umanos r e-
presentavam a carta m agna dessa relação d e equilíbrio entre a .,':·
força reconhecida da coletividade e a liberdade assegurada dos
indivíduos. O contrário da democracia chamava- se então to-
talitarismo. A linguagem domin ante denominava t o t alitários·
os Est ados que, em nome da forç a da coletividade, negavam
ao mesmo tempo os direitos dos indivíduos e as formas cons-
titucionais da expressão coletiva: eleições livres, liberdade de
expressão e de associação . O nome de totalitarismo pretendia
significar o próprio princípio dessa d u pla negação. O Estado to-
tal era o Estado que suprimia a dualidade do Esta do e da socie-
dade, estendendo sua esfera de exercício à totalidade da vida de
uma coletividade. Nazismo e comunismo eram vistos c omo os
dois par adigmas desse totalit arismo, fundamentados em d ois
conceitos que pretendiam transcender a separação entre Estado
22 O ÓDIO À DEMOCRACIA

e sociedade: raça e classe. O Estado nazista era considerado de


acordo com o ponto de vista que ele próprio havia afirmado, o
do Estado fundamentado na raça. O genocídio jude u era en-
tendido, portanto, como a realização da vontade declarada por
esse Estado de suprimir uma raça degenerada e portadora de
degener ação.
O livro de Milner oferece a exata inversão dessa crença do-
minante em tempos passados: agora a vir tude de Israel é signifi-
car o contrário do princípio democrático; o conceito de totali-
tarismo deixou de ter valia, o regime nazista e sua política racial
perderam toda especificidad~.l Existe uma razão muito simples
para isso : as propriedades que~ram atribuídas ao totalitarismo,
concebido como um Estado que devorava a sociedade, torna-
ram-se simplesmente as propriedades da democracia, concebi-
4
da como uma sociedade que devora o Estad<?J Se Hitler, cuja
preocupação principal não era a expansão da democracia, pode
ser visto como o agente providencial dessa expansão, é porque
os antidemocratas de hoje chamam de d emocracia a mesma
coisa que os partidários da "democracia liberal" do passado
chamavam de t otalitarismo: a mesma coisa às avessas. O gue
e ra denunciado antigamente como princípio estatal da totalida-
de fechada é denunciado hoje como princípio social da ilimitação.
O princípio chamado democracia torna-se o princípio abrangente
da modernidade tomada como uma totalidade histórica e mun-
dial, à qual se opõe apenas o n ome judeu como princípio da tradi-
ção humana preservada. O p ensador norte-americano da "crise
DA DEM OC RACIA VITORIOSA À DEMOCRACIA C RIMINOS A

da democracia" ainda pode opor, a título de "choque das civi l 1


zações", a democracia ocidental e cristã a um Islã sinônimo d t·
Oriente despótico 5. Já o pensador francês do crime d em O< 1.111
co propõe uma versão radicalizada da guerra das civili'.1,.IV><",,
opondo democracia, cristianismo e Islã à exceção jud,ii t .r ,
Portanto, numa primeira análise, podemos ide11tif11 .11 , , 111111
cípio do n ovo discurso antidemocrático. O retrato q11 1• ,·11 1 1
da democracia tem traços que eram atribuídos antiga 1111 •11 11 • ,11,
to talitarismo . Ele passa assim por um processo d e dcs f1g11 1.,, .1,,
como se, tendo se tornado inútil o conceito de to talit. 11 1N11,,,,
moldado pelas necessidades da Guerra Fria, se us tr::i~ os l' ' ll 1, ~
sem ser decompostos e recompostos para refazer o 1Tt1.11 ,, d .,
quilo que se supunha ser seu contrário, a democ rac ia. l't H 11•111, ,.,
acompanhar as etapas desse processo de desfiguração v 1,., 11111
posição. Começou n a virada dos anos 1980, com u 111,1 111 111 i, 1

ra operação que punha em questão a oposição d os d o is 11·111111·1


O campo era o da revisão da herança revolucionária d a d •111, 11 1.,
eia. Enfatizou-se justamente o papel da obra de François 1:111t·1.
Penser la Révolution Française*, publicada em 1978. Mas p o u co sv ti,·
preendeu do duplo móbil da operação que ele efetuava. Rl:l, ,, ,
d uzir o Terror para o centro da revolução democrática e ra , 11, 1

nível mais visível, romper a oposição que a opinião domi11.u111•

Samu el P. Huntington, O choque das civilizações e a recomposição da ordem 111w1cl111/


(Rio de Janeiro, Objetiva, 1997).
François Furet , Pensar a Revolução Francesa (Rio de Janeiro, Paz e Terra, l 989).
(N. E.)
O ÓD IO À DE MOCRACIA
..

h.1v1.1 estruturado. Totalitarismo e democracia, ensinava Furet,


11.1n s.io duas verdades opostas. O r eino do terror stalinis ta foi
,111l <'t ipado no reino do terror revolucionário . Ora, o terror r e-
~.,Jt11 inn ário não foi uma escorregadela da revolução, era con-
~11h-.. 1.1ncial a seu projeto, uma necessidade inerente à própria
<''iM'11l ia da re vol uç ão democrática.
1 kd u zir o terror stalinista do terror revolucionário francês
11.111 \'t ,I l'.111 s i uma coisa nova. Essa análise podia se integrar à
• •1111.'i l\ .1n t lassica entre democracia parlamentar e liberal, funda-
1111•111,H l.1 11.1 n 'strição do Estado e na defesa das liberdades indivi-
1l 11, 11 -.. , , . dv1110 ·racia radical e igualitária, que sacrifica os direitos
, I, ,•, 1111 l1 v1d 11 0s à religião do coletivo e à fúria cega das multidões.
\ 11, 1v.i denuncia da.democracia terrorista parecia conduzir à re-
f 1111d.1\·ao de u1na democracia liberal e pragmática, finalmente
l1 vrt· dos fantasmas revolucionários do corpo coletivo.
M.is essa leitura simples esqu e ce o duplo móbil d a operação.
\ 1 111 it a d o Terror tem um fundo duplo. A chamada crítica li-
l11 · 1.il, tiu c.: ape la dos r igores totalitários da igualdade diante da
-... d11 .1 republica das liberdades individu ais e da r epr esentação
p,11 l.1lllvntar, estava subordinada desde o princípio a uma crítica
11111111 > d iferente, para a qual o pecado da revolução não é seu
<11 l1 ·tivism o, mas, ao contrário, seu individualismo. Nessa pers-
JW l u va, a Revolução Francesa foi terrorista não por ter ignorado
os direitos dos indivíduos, mas, ao contrário, por t ê-los consagra-
d o. [niciada pelos teóricos da contrarrevolução logo depois da
llevolução Francesa, levada adiante pelos so cialistas utópicos na
DA D E'.\o! OC R AC!A V I TORIOSA À DE:v! OC R AC I A CR l~! I NOS.'\ 25

primeira metade do século XIX, consagrada no fim d o mesmo


século pela jovem ciência sociológica, essa leitura predominan-
te se enuncia da seguinte maneira: a r evolução é a consequência
do p ensamento das Luzes e de seu princípio primeiro, a doutri-
na "protestante", que eleva o julgamento dos indivíduos isolados,
em vez das estruturas e das crenças coletivas. Desfazendo as velhas
'
solidariedades que monarquia, n obreza e Igreja haviam tecido, a
revolu ção protestante dissolveu o laço social e atomizou os indi-
víduos. O Terror é a consequência rigorosa dessa dissolução e da
vontade de recriar, pelo artifício das leis e das instituições, u m laço
que apenas as solidariedades naturais e históricas podem tecer.
O livro de Furet repôs essa doutrina no lugar de honra. Ele
mostrava que o terror revolucionário era consubstancial à própria
r evolução, porque toda a dramaturgia revolucionária se baseav a
na ignorância das realidades históricas profundas que a to rnavam
possível. Ela ignorava que a verdadeira revolução, a das institui-
ç õ es e dos costumes, já havia sido realizada nas profundezas da
sociedad e e nas en grenagens da máquina monárquica. Conse-
quentemente, a revolução só podia ser a ilu são de começar do
nada, no registro da vontade consciente, uma revolução já feita. Só
· podia ser um artifício do Terror, esforçand o-se para dar um corpo
imaginário a uma sociedade desfeita. A análise de Fur et se vale das
teses de Claude Lefort sobre a democracia como poder desincor-
porado6. Mas baseia-se mais ainda na obra qu e lhe forneceu o

Ver Claude Lefo rt, A invenção democrática ( Belo Horizo nte, Autêntica, 2011).
26 O ÓDIO À DEMOCRACIA

fundamento de seu raciocínio, ou seja, a tese de Augustin Cochin


sobre o papel das "sociedades de pensamento" que deram origem
7
à Revolução Francesa . Augustin Cochin, como sublinhou Furet,
não era apenas um monarquista partidário da Ação Francesa, mas,
também, um espírito educado na ciência sociológica durkheimia-
na. Era, na verdade, o exato legatário dessa crítica da revolução
"individualista", transmitida pela contrarrevolução ao pensamen-
to "liberal" e à sociologia republicana, que é o fundamento real das
denúncias do "totalitarismo" revolucionário. O liberalismo exi-
bido pela intelligentsia francesa, desde os anos 1980, é uma dou trina
de base dupla. Por trás da reverência às Luzes e à tradição anglo-
-americana da democracia liberal e dos direitos do indivíduo, re-
conhecemos a denúncia absolutamente francesa da revolução
i,Ddividualista rompendo o corpo sociaL
O duplo tnóbil da revolução permite compreender a forma-
ção do antidemocratismo contemporâneo. Permite compreen-
der a inversão do discurso sobre a democracia consecutiva ao
desmoronamento do império soviético. De um lado, a queda
desse império foi saudada, por um período bastante breve, como
a vitória da democracia sobre o totalitarismo, a vitória das liber-
dades individuais sobre a opressão do Estado, simbolizada por
aqueles direitos humanos reivindicados pelos dissidentes sovié-
ticos ou pelos operários poloneses. Esses direitos "formais" foram

7
Augustin Cochin, Les sociétés de pensée et la démocratie moderne (Paris, Copernic,
1978).
DA DEMOCRACIA VITORIOS A À DEMOCRACI A CRIMIN OSA

0 primeiro alvo da crítica marxista, e o desmoronamento d1,.,


regimes construídos sobre a pretensão de promover um ,, "d1
rnocracia real" parecia ser a revanche. :tvias, por trás da sa ull ., .1,,
obrigatória aos vitoriosos direitos humanos e à d em oc ra1 1.11 , , , 1
perada, o que acontecia era o inverso. Uma vez que o e n 111 ,·11,, .ll
totalitarismo não tinha mais uso, a oposição de um a hn.1 il, 111 11
cracia dos direitos humanos e das liberdades indi vid11.11, t 11 11
democracia igualitária e coletivista também se to rno u 11111,1d 1 1
A crítica dos direitos humanos recuperou imediaLa11w111 1• 11 "1, ,
os seus direitos. Pod ia-se enunciar à maneira de Ha n 11.1l1 1\ 1, 11t l 1
os direitos .humanos são uma ilusão, porque são os di11 ·11 11, d,,
homem nu, desprovido de direitos. São os direitos il us,,, 1,1•, .I ,,
homens que foram expulsos de suas casas, de s ua te rra v d,· q, ,,ti
quer cidadania por regimes tirânicos. Conhecem os " .,11111 111I, 1
que essa análise tem angariado em tempos recentes. 1)1• 11 111 l.1, 1, ,
dá um apoio oportuno às campanhas humanitárias c lil w1t.1.111
ras de Estados que, em nome da democr acia militant(' 1• 11 1il 1t.11 ,
defendem os direitos desses sem-direitos. De o utro, i11s p11, 111 .i

análise de Giorgio Agamben, que transforma o "estadll dv n, r


ção" no conteúdo real de nossa democraciaº. M as essa , 11111 ,,
também pode se enunciar à maneira daquele marxism o q11 1• .1
queda do império soviético e o enfraquecimento d os m ovi111,•11
tos de emancipação no Ocidente disponibilizavam de n ovo p,11.1

Ver Giorgio Agam ben, Homo sacer: o poder soberano e a vida nua I (2. ed ., Bvln
Horizonte, UFMG, 2010) e Jacques Rancier e , "Who is theSubjectofthe R.igh 1.~
of Man l", South Atlantrc Quarterly, v. 103, n . 2-3, 2004.
O ÓDIO À DEMOCRACI A
..

qualqL1er uso : os direitos do h omem são os direitos dos indiví-


duos egoístas da sociedade burgu esa.
A questão é saber qu em são esses indivíduos egoístas. Marx
1·111c 11J ia que eram os d eten tores dos meios de prod ução, o u seja,
,, 1 l.iss(.! dominante, da qual o Estado dos direitos humanos er a
n 111s lrL1mento. A sabedor ia contemporânea vê as coisas de ou-
11 1> mod o. E, de fato, basta uma série de ínfimos d eslocamen tos
11.1 1·.1 d.ir aos indivíduos egoístas uma feição completamente di-
11·11·111 1•. 1:m primeir o lugar, substituam os "in divíduos egoíst as"
11' 11 ''t 1111sl1mido res ávidos", o que não dever á causar estranh eza.
1.1, 111 il1q11 l'mos esses consumid o r es ávidos a um a espécie social
111 ·.1, 11 11.1, o " h omem democrático". Lem bremos p or fim qu e a
, 11 111111 1,1 t 1a é o regime d a igualdade e p odemos con cluir: os in-
d I vrd 11 0s 1:goístas são os homens d emocráticos , E a g en eraliz.açã~
, l.1~ 1vi .l~ lit:s mercantis, cujo emblema são os direitos do hom em,
11
·"
1 1· 11.tda mais q u e a realização da exigência febr il d e iguald ade
1
1orin e nta os in divíduos democr á ticos e arru ína a bu sca do
["' ' , ,

l 11 111 , 11111 u tn encarnada no Estad o.


1 ·,, 11 H·m os, por exemplo, a música d essas frases que descre-
11 111 11 tris te es tado em· que n o~ coloca o reino d aquilo q u e a
111 l 111,1 t hama d e democracia providencial:

A~ re lações en tre o médico e o paciente, o advogado e O cliente, 0 p adre


e o crente, o p rofessor e o aluno, o trabalhador e O assistido amoldam-
-se cada vez m ais ao mod elo das r elações contratuais entre indivíduos
iguais, ao modelo das relações fund amentalmente igualitárias que se
DA DE MOC RA CIA V I TORIOSA·'- DEMOCRACIA CR!MIN0 $:I 29

estabelecem entre um prestador de serviços e seu cliente. O homem


democrático se impacienta diante de qualquer competência, inclusive
a do médico ou do advogado, q ue põe em questão sua p rópria sobe-
rania. As relações que ele mantém com os o utros perdem seu hori-
zo nte político ou metafisico. Todas as práticas profissionais tendem a
se banalizar[.-]. O médico torna-se pouco a pouco um assalariado da
Previdência Social; o padre, um assistente social e um distribuidor de
sacramentos[...]. É que a dimensão do sagrado - da crença religiosa,
da vida e da morte, dos valores humanistas ou políticos - se enfra-
queceu. As profissões que instituíam uma forma, mesmo que indireta
ou modesta, aos valores coletivos são afetadas pelo esgotamento da
transcendência coletiva, seja religiosa, seja política.9

Essa lon ga deploração procura descrever o estado de n osso


mundo t al como o moldou o homem d emocrático em suas
diversas figuras: con su midor indiferente de medicamentos o u
sacramentos; sindicalista que tenta tirar cada vez 1nais do Es-
tado-provid ên cia; rep resentante de m inoria étnica qu e exige o
reconhecimento de sua identidade; feminista qu e milita a favor
das cotas; alu no que consider a a escola u m supermercado onde
o cliente é qu em m anda. Mas seguramente a m úsica dessas fra-
ses que afirmam descrever nosso mundo cotidiano numa era de
hipermercad os e reality shows vem de mais longe. Essa "descrição"
do nosso cotidiano já foi feita, tal e qual, há 150 anos, nas páginas
do Manifesto Comunista:

Dominique Schnapper, La démocrat1e provident1elle (Paris, Gallirnard, 2002),


p. 169-70.
JO O ÓD IO À DEMOCRAC I A

[a burguesia] afogou os fervores sagrados da exaltação religiosa, do


entusiasmo cavalheiresco, do sentimentalismo pequeno-burguês
nas águas geladas do cálculo egoísta. Fez da dignidade pessoal um
simples valor de troca; substituiu as numerosas liberdades, conquis-
tadas duramente, por uma única liberdade sem escrúpulos: a do
comércio. [Ela] despojou de sua auréola todas as atividades até en-
tão reputadas como dignas e encaradas co m piedoso r espeito. Fez
do médico, do jurista, do sacerdote, do poeta, do sábio seus servido-
res assalariados.*

A descr ição dos fenômenos é a mesma. O que a socióloga con-


tempo rânea ofer e ce d e novo não são fatos, mas uma interpreta-
ção. O conjunto desses fatos tem para ela uma única causa, a
impaciência do homem democrático , que trata qualquer relação
por um só e m esmo modelo: "as r elações fundamentalmente iguali-
tárias que se estabele cem entre um p restador de serviços e seu
cliente"
1
º. O texto original dizia que a burguesia "substituiu as
numerosas liberdades, conquistadas duramente, por uma única
liberdade sem escrúpulos: a do comércio" ; a única ig ualdade
que ela conhece é a iguald ade mercantil, que repousa sobr e a
exploração cínica e brutal, sobre a desigualdade fundamental
da r elação entre o "prestador" do serviço trabalho e o "cliente"
que compra sua força de trabalho . O texto modificado substi-
tuiu "burguesia" por outro sujeito, "o homem democrático".

* Karl Max e Friedrich Engels, Manifesto Comunista (São Paulo, Boitempo,


1998), p. 42. (N. E.)
10
Dominique Schnapper, La démocratie providentielle, cit., p . 169-70. Grifo meu.
DA D E '.1,! 0 C R A CIA VI TOR IOSA À DE MO C R AC IA C R IM I NOSA

A partir daí, é possível t ransformar o r eino da exploração v111


reino da ig ualdade e identificar sem nenhuma cerimônia a ig1 1.i 1
d ade democrática com a "troca igual" da prest ação m c n .i 111 il
O text o revisto e corrigido de Marx diz, em resumo : a ig 11,ild .1d,
d?s direitos h u manos traduz a "igualdade" da relação ck t ' ' 111, 11.1

S:_ão que é o ideal consumado dos sonhos d o home1n dc 11 H 11 1.i 111 , ,


A equação democracia = ilimitação = socied ade t jll t' ~11:.1 1 11
ta a denúncia dos "crimes" da democracia pressupõe, p, ,11.1111 , ,,
um a operação tripla: em p rimeiro lugar, red uzir a dc1 111 11 1.11 1,1
a uma forma de sociedade; em segundo lugar, idc 11Lilll .11 ,..,,, ,1
forma de sociedade com o reino do indivíduo iguali ta rin, s 1d 1•,11
mindo nesse conceit.o todo tipo de propriedades distin tas, d1•sil1
o grande con sumo até as reivin dicações dos direitO!i dds 111111,,
rias, passando pelas lutas sindicais; e, em terceiro lugal', .111 d111 11
à "sociedade indiv idu alista de m assa", assim id e ntific.1d.1 111111 o1

democracia, a busca de u m cr escimento indefin ido, i11v 11•11l t


à lógica da economia capitalista.
O rebaixamento do político, do sociológico e d o eco11011111 , 1 ,1
um único p lano refere-se de bom grado à an álise tocq uevi Ika 11. 1il.1
democracia como igualdade de condições. Mas essa r eferênciu s, 1Jl• H'
uma reinterpretação muito simplista de A democracia na f \ mrlr1111 '
Tocqueville entendia por "igualdade de condições" o fim d as ,111
tigas sociedades divididas em ordens, e n ão o r eino de um iml1 v1
duo ávido por consumir cada vez m ais. E a questão da dem ocral 1,1

2. ed., São Paulo, Martins Fontes, 2005. (N. E.)


12 O ÓDIO À DEMOCRAC I A

..

era para ele, em primeiro lugar, a das formas institucionais ade-


c1uadas para regular essa nova configuração. Para transformar
l'ocqueville no profeta do despotismo democrático e no pensa-
dor da sociedade de consumo, é n ecessário r eduzir seus d o is
t .i l hamaços a dois ou três parágrafos de um único capítulo do.
svgL1 nd o, em que ele trata do risco de um n ovo despotismo.
11 .ii nd a se tem de esqu ecer que Tocqueville temia o p o der abso-
1111 o de um senhor que dispusesse de um Estado centralizado
•,, ,li,t' uma massa despolitizada, e n ão essa tirania da opinião ·de-
1111 it 1.1t it <l co m que martelam nossos ouvid<?_? A r edução de su a
,111 .il 1•,t• d.i d e mocracia à crítica da sociedade d e consumo passou
,,.,, .ilg umas etapas interpretativas p rivilegiadas 11 . i\!Ias é resulta-
i!, 1, \olm .: t uclo, d e todo u m processo de eliminação da figu ra po-
l111t .1 da democracia, q u e se r ealizou mediante um acerto entre
dvst r ição sociológica e julgamento filosófico.
As e tapas desse processo podem ser discernidas com bastan-
l t· t lareza. De um lado , os anos 1980 assistiram ao desenvol vi-
11H·nto de certa literat ura sociológica na França, escrita em ger al
p,11 f1l osofos, que saudava a aliança selada entre a sociedade de-
llll H 1,ttica e seu Est ado pelas novas formas de consumo e com-
111 11 1a 111c nto individuais. Os livros e artigos de Gilles Lipovetsky

11
Sobre as vias diversas e às vezes tortuosas que levaram ao neotocquevillis-
111<)contemporâneo e, em particular, sobre a reconversão _da interpretação
.-at6Uca tradicionalista de Tocqueville em sociologia pós-moderna da "socieda-
de ele consumo", ver Serge Audier, Tocqueville retrouvé: genêse et enjeux du renouveau
tocquevillien f rançais (Paris, Vrin, 2001).
D .\ DEM O CRACIA VI TORIOSA À DE M OCRACIA CR I Ml '<OS A 33

resumem bastante bem seu conteúdo. Era a época em que


começavam a ser divulgadas na França as análises pessimistas
vindas de além-m ar: as dos aut ores do relatório da Comissão
Trilateral ou d e soció logos como Christopher Lasch e Dan iel
BelL Este ú ltimo pôs em questão o divórcio entre as esferas da
economia, da política e da cultura. Com o desenv olvimento
d o consumo de massa, esta última era dominada por u m valor
supremo, a "realização pessoal". Esse h edonism o r ompia c om
a tradição p uritana q u e s ustent ou conjuntamente o avanço da
indústria capitalista e da igualdade p olítica. Os apetites irres-
tritos que nasciam dessa cultura entravam em conflito dire-
to com as exigências do esforço produtivo, com o os sacrifícios
r equ eridos pelo interesse comum da nação democrática 12 • As
análises de Lipovetsk y e alguns o utros pretendiam contradizer
esse pessimismo. Segund o e les, não havia por qu e temer um di-
vó rcio entre as formas do con s umo d e massa, baseadas na bus-
ca d o prazer p essoal, e as instituições da democracia, fundadas na
r egr a comum. Muit o pelo contrário, o próprio crescimento do
narcisismo consumidor p u nha a satisfação pessoal e a regra co-
letiva em perfeita harmonia. Ele produzia uma adesão mais estri-
ta, uma adesão existencial dos indivíduos a uma democracia vivi-
da não mais apenas com o u ma questão de formas institucionais

12 Daniel Bell, The Cultural Contradictions of Capitalism (Nova York, Basic Books,
1976). É p reciso notar que a exigência de um retorno aos valores puritanos
ainda era articulada em D aniel Bell a uma preocupação de justiça social que
desapareceu naqu eles que retomaram sua problemática na França.
34 O ÓDIO À DEMOCRACIA
..

coercitivas, mas como "uma segunda natureza, um ambiente,


u m meio ambiente" . Segundo Lipovetsky:

À medida que o narcisismo cresce, a legitimidade democrática


vence, ainda que no modo coo/. Os regimes democráticos, com seu
plur alismo de partidos, suas eleições, seu direito à informação, têm
parentesco cada vez mais estreito com a sociedade personalizada
do self-service, do teste e da liberdade combinatória. [... ] Aqueles
mesmos que só se interessam pela dimensão privada da vida per-
manecem presos ao funcionamento democrático das sociedades
por laços criados pelo processo de personalização. 13

Mas reabilitar "o individualismo democrático" contra as críticas


vindas da América era realizar, na verdade, uma operação dupla. Por
um lado, enterrar uma crítica anterior da sociedade de consumo, a
que predominava nos anos 1960-1970, quando as análises pessimis-
tas ou críticas da "era d a opul ência" feitas por Frank Galbraith
ou D avid Riesman eram radicalizadas por J.~~ _l?a~_<:lrülard num
modo marxista. Baudrillard den unciava as ilusões de uma "per-
sonalização" inteiramente su bmetida às exigências mercantis e via
nas promessas do con sumo a falsa igualdade que mascarava "a de-
mocracia ausente e a igualdade inencon t rável" 14. ~ -~ova sociologia.

13
Gilles Lipovetsky) L'€re du vide: essais sur l'individualisme contemporain (Paris,
Gallimard , 1983) , p . 145-6. [Ed. bras.: A era do vazio: ensaios sobre o individualismo
contemporâneo, Barueri, Manole, 2009.J
14
Jean Baudrillard, La société de co.1sommation: ses mythes, ses structures (Paris, S.G'.P.P.,
1970), p . 88. [Ed. port.: A sociedade de consumo, 2. ed., lisboa, Edições 70, 2010.J
DA D EMO CRAC l.-1. V IT ORI OS A À DEMOCRACIA CR IM INOSA

do co?sllmidor narcisista suprimia a oposição entre a igualdt1d1·


representada e a igualdade ausente. Afirmava a positividade d(·ss1
"processo de personalização" que Baudrillard analisou como , 111 1
engodo. Transformando o consumidor alienado de antip,,11111•111 1
no narciso que brinca livremente com os objetos e os s1~1,1111~. , 1, 1
universo mercantil, identificava de maneira positiva d(·1111 H1,111.1
e consu mo; Com isso, oferecia complacentementc ,·s.~., 1li 111, ,

~racia "reabilitada" a uma crítica mais radical.~efuw 1 .1 ili•,, 111


dância entre individualismo de massa e governo clcnH 11 1.1t 11 1, 1 1 1
demonstrar um mal muito mais profundo. Era estabL'il'< ,., I" ,•.i 11
vamente que a democracia não era nada mais d o gul: 11 1·,·11111 , I,,
consu midor narcisist a, qu e varia suas escolhas eleitorais 1.il q 11.il
varia seu s prazeres íntimos. Aos alegres sociólogos pos 111111 11·111, 1•,
respondiam os austeros filósofos à moda antiga. Le mh, av.1 111 q, IL
a política, como a definiam os antigos, era a arte de vivei· j 111111,, 1
busca do bem comum, qu e o próprio princípio d essa bust ., ,. 111·~,.1
arte era a distinção clara entre a esfera dos n egócios co111 111L, ,. 11
reino egoísta e mesquinho da vida privada e dos inte i-cssl's d111111 •,

ticos. O retr ato "sociológico" d a alegre democracia p ós- 1rn 1d1•111 ,1


assinalava a ruína da política, subjugada dali em diante a u 111.1 fIl l

ma de sociedade governada pela ú nica lei da individualid.td\', , >11


sumidor a. Por outrc lado, contra isso, era p reciso r ec upe rai', , 11111
Aristóteles, Hannah Arendt e Leo Strauss, o sentid o puro d,· u 111,1
política desimpedida das expectativas do consumidor de1noL 1·;11 1
co. Na prática, o indivíduo consumidor encontrou muito na I u
ralmente sua identificação na figura do assalariado qu e d efendt.: d(·

i
1
.1
Ih O ÓDI O À DEM OCR ACIA

..
maneira egoísta privilégios ar caicos. Sem dúvida ainda temos na
m e mória a onda literária que rebentou no momento das greves e
manifestações do outono de 1995 para recordar a esses privilegia-
dos a consciência do viver junto e a glória da vida pública, que eles
desonravam com seus interesses egoístas. Contud o, m ais d o que
vsscs usos cir cunstanciais, o que conta é a identificação solidarnen-
1t· l'Stabclecida entre o h omem democrático e o indivídu o con-
s11mido r. O conflito dos sociólogos pós-modernos e dos filósofos
.1 111nda antiga estabeleceu essa identificação sem nenhuma difi-
1 1ild.idc, sobretudo porque os antagonistas apenas apresentavam,
1111111 d uc to bem regrado por uma r evista ironicamente intitulada
/ 1• I 11•/1(1/ [() d ebate], as duas faces da mesma moeda, a mesma equ a-
\ •l<> l1d,1 cm dois sentidos opost os.
1\ ssim se realizou, num primeiro momento, a redução da
dvrn oc racia a um estado de sociedad e . Resta compreender o
st·gu nc.Jo momento d o processo, o que fez da democracia assim
dcfi11ida não mais apenas um estado social que invadiu indevi-
d.1111v11Le a esfera política, mas uma catástrofe antropológica,
11111.1 .1utodestru ição da humanidade. Esse passo a mais passou
11n1· nLtLro acerto entre filosofia e sociologia, menos pacífico em
~< 11 desenrolar, mas que cond uziu ao mesmo resultad o . O palco
f <ll ,1disc ussão sobre a escola. O contexto in icial da disc u ssão dizia
1vs pcito à questão do fracasso escolar, isto é, o fracasso da ins-
ti Ll.lição escolar em dar chances iguais às c rianças oriundas das
classes mais modestas. Tratava-se de saber, portanto, como se
devia entender a iguald ade na escola ou pela escola. A chamada
D A D E M O C R AC I A V I T O R I OS A À D E MO C R AC I A C R I M I N OS .\ 37

tese sociológica apoiava-se nos trabalhos d e Bourdieu e Passeron,


ist o é, na evidenciação d as desigualdades sociais ocultas n as for-
mas aparentemente n eutras da transmissão escolar do saber. Ela
propunha tornar a escola mais igual, tirando-a d a fortaleza em
que havia se refugiado para se proteger da sociedade: mudan-
do as formas da sociedade escolar e adaptando o conteúdo do
ensino oferecido aos alunos mais carentes de herança cu ltural.
A chamada tese r epublicana defendia o oposto : aproximar a es-
cola da sociedade era t orná-la mais homogênea com a desigual-
dade social. A escola trabalhava pela igualdade na est rita medida
em que, abrigada pelos muros que a separavam da sociedade, po-
dia se dedicar à tarefa que lhe era própria: distribuir igualm ente
a todos, sem considerar origem ou destinação social, o universal
dos saberes, utilizando para esse fim d e igu aldade a forma da r e
lação n ecessariamente desigu al entre o que sabe e o que aprende.
Era preciso r eafirmar essa vocação, historicament e encarnada na
escola republicana de Jules Ferry.
O debate parecia referir-se, portanto, às formas da desigual-
dade e aos meios da igualdade . Contudo, os termos eram ex-
trem amente ambíguos. Que o porta-bandeira dessa tendência
tenha sido o livro De l'école [Da escola], de Jean- Claude Milner,
mo~tra essa ambiguidade*. O livro de Mil ner dizia coisa muito
diferente do que se queria ler nele n a época. Ele se preocupava
muito pou co em pôr o universal a serviço da igualdade. Estava

Jean-Claude Milner, De l'école (Paris. Seuil, 1984). (N. E.)


38 O ÓDIO À DE:V!OCRACJA

muito mais preocupado com a relação entre saberes, liberdades


e elites. E, muito mais do que em Jules Ferry, inspirava-se em Renan
e em sua visão das elites cultas responsáveis pelas liberdades num
país ameaçado pelo despotismo inerente ao catolicismo 15• A opo-
sição da doutrina r epublicana à doutrina "sociológica" era, na
verdade, a oposição de uma sociologia a o u tra. Mas o conceito
de "elitismo republicano" permite ocultar o equívoco. O núcleo
duro da tese foi encoberto pela simples diferença entre o uni-
versal republicano e as particularidades e desigualdades sociais.
O debate parecia referir-se ao que o poder público podia e devia
fazer para remediar por seus próprios meios as desigualdades so-
ciais. Muito rapidamente, porém, a per spectiva se corrigiu e a
paisagem se alterou. No decorrer das denúncias do aumento ine-
xorável da falta de cultura, ligado à explosão da cultura de super-
mercado, a raiz do mal foi identificada: era, é claro, o individualismo
democrático. O inimigo que a escola republicana enfrentava não
era mais a sociedade desigual, da qual ela tinha de afastar o aluno,
mas, sim, o próprio aluno, que havia se tornado o representante
por excelência do homem democrático, o ser imaturo, o jovem

15
A tese de Renan é resumida em Oeuvres completes: la réforme intellectuelle et
morale (Paris, Calmann-lévy, s.d.), t. 1, p. 325-546. Não é contraditório que em
Renan essa tese venha acompanhada de uma patente nostalgia do povo ca-
tólico medieval, que colocava seu trabalho e sua fé a serviço da grande obra
das catedrais. As elites devem ser "protestantes", isto é, individualistas e escla-
recidas, e o povo deve ser "católico", isto é, compacto e mais crente do que
culto; de Guizot a Tair,e ou Renan, esse é o cerne do pensamento das elites
do século XIX.
DA DEMOCRACIA V ITORIOSA À DEMOCRACIA C RI MINOSA \IJ

consumidor embriagado de igualdade, cuja carta magna eram ns


direitos humanos. A escola, como se diria em breve, sofria de 11111
único mal, a Igualdade, encarnada naquele mesmo que e la ti1 1'1 ,1
de ensinar. E o que era alcançado pela autoridade d o pmfvs:.11 1
não era mais o universal do saber, mas a própria desigu~dd .1d1
tomada como manifestação de uma "transcendência":

Não há mais lugar para nenhum tipo de transcendênc:i.1, 1•" 111.11• 1


duo que é erigido em valor absoluto e, se alguma coisa d1• ~. l ~'i "1,,
persiste, é ainda a santificação do indivíduo, por meio d,1:, <1 111 1111.
humanos e da democracia [...] Eis, portanto, por que a al1tnr 11l.11 l1 , I,,
professor está arruinada: por essa priorização da igualdad1·. 1·11 11.1,,
é mais do que um trabalhador comum, que se encontra \11.1111 1• ,1,
usuários e é levado a discutir de igual para igual com o ,tlllno, q11,
acaba por se instalar como juiz de seu mestre.' 6

O mestre republicano, aquele que transmite às almas vi rg1• 11.·, 1,


saber universal que torna igual, transforma-se simplesmcn t 1· 11, 1 11·
presentant e de urna humanidade adulta em via de extinç:âo v111 111 1,
veito do reino generalizado da imaturidade, a última testem u 1111.i cl .1
civilização, opondo em vão as "sutilezas" e as "complexidadvs" ti,
seu pensamento à "muralha" de um mundo fadado uo 1·1•111, 1
monstruoso da adolescência. Ele se torna o espectado r dcsi lud1d<>
da grande ~-':t_ástrofe civµizacional, c ujos sinônimos são consL111111 ,
igualdade, democracia ou imaturidade. Diante dele, o "colvg1,il

16
Jean-Louis Thiriet, "l'école malade de !' égalité", Le Débat, n. 92, nov.-dez. 19%.
lil O ÓD IO À DEMOCRACIA
..

imberbe que exige contra Platão o u Kant o direito a sua própria


np inião" é o representante da espiral inexorável da democracia
v111briagada de consu mo e o testemunho do fim da cultura, a não
svr que isso seja o tornar-se cultura de qualquer coisa, do "hiper-
111ncado dos estilos de vida", da "club-mediterraneação do mun-
d u '" e da "entrada de toda a existência n a esfera do consumo" 17 .
i', in u ti l entrar nos detalhes da inesgotável literatura que nos adver-
11 ·, J,t há alg um tempo, semana após semana, das novas manifesta-
,1,,•, d1 >"e rnbalo da democracia" ou d o "veneno da fraternidade" 18:
111 11 1l.1s dv al unos, testemunhando os efeit os devastadores da igual-
il.1il1 · dos u/i u:Írios, ou manifestações altermundialistas de jovens
il, •11 .,d rn; '\:mbriagados de generosidade primaveril" 19 , reality sh.ows
,q11 vsl·11tu.ndo o testemunho assustador de um totalitarismo que
1 l I l k r n ão poderia imaginar20 ou a fabulação de uma jovem

Refe rência a Club Méditerranée, mais conhecida como Club Med, corpora-
, .1,1de origem francesa que tem hotéis e resorts espalhados pelo mundo. (N. E.)
11
l'.1r,l u1n desenvolvimento desses temas, o leitor curioso poderá se r em e-
1,,, ,1, u bras co mpletas de Alain Finkielkraut, em especial L'imparfait du présent
( 11 111•;, ( ,.dJi111ard, 2002) , ou, mais economicamente, à entrevista do mesmo
1111 1>1 , 11111 Marce l Gauchet, "Malaise dans la démocratie: l'école, la culture,
l'1 ,1d1 v1du:11isme ", Le Débat, n. 51, set.-out. 1988. Para uma versão mais desco-
l.1d,,, 110 cs tilo ne ocatólico punk, ver as obras completas de Maurice Dantec.
1
" 1\ l.iin Finkielkraut, L'imparfaitduprésent, cit ., p. 164.
"' lbi d~ m, p . 200.
/ li
Jean-Jacques Delfour, "Loft Story: une machine to talitaire", le M onde, 19
m a.io 2001. Sobre o mesmo tema - e no mesmo tom-, ver Damien Le Guay,
f,'empire de la télé- réalité: comment accroítre le "temps de cerveau humain disponible" (Paris,
Presses de la Renaissance, 2005) .
DA DE MOCRA C IA VITOR IOSA A D EMOCR AC I A CRI M I NOS 1\

que inventa uma agressão racista, em razão de um culto das víti-


mas "inseparável do desenvolvimento do individualismo demo-
crático" 21• As denúncias incessant es do desmoronament o d emocrá-
tico de todo pensamento e t oda cultura não têm ape nas a
vantagem d e prov ar a contrario a inestimável altitude d o pensa-
mento e a insondável profundidade da cultura daq ueles que as
fazem - uma demonstração que às vezes tem dificuldad e de se
realizar por via direta. Permitem mais profundamente situ ar todo
fenômeno em um único e mesmo plano, atribuindo todos a uma
única e mesma causa. Na verdade, a fatal equivalência "democrá-
tica" de todas as coisas é, em primeiro lugar, o produto de um
m étodo que conhece apenas uma única explicação para todo e
qualquer fenômeno - movimento social, con flito religioso ou ra-
cial, efeito de moda, campanha publicitária ou outro. Assim, a ~i·
adolescente que se recu sa a tirar o véu em nome da religião d os
pais, o aluno que opõe as razões do Corão às da ciência o u aquele
que agride fisicamente o professor e os colegas jude u s verão sua
atitude ser colocada na conta d o individuo democrático, desfiliado
e separado de toda transcendência. E a figura do consumidor
democrático embriagado de igualdade poderá se identificar, con-
forme o humor e as necessidades da causa, com o assalariado

2
.,- -;--,Lucien Karpik, "Être victime , c'est chercher un respon sable", entrevista a
Cécile Prieur, Le Monde, 22-23 ago. 2004. Sabemos da impo rtância que a den ún -
cia da tirania de~ocrática praticada pel as vítimas tem na opinião dominante.
Sobre esse tema, ver em especial Gilles William Go ldnagel, Les martyrocrates:
dérives et impostures de l'idéologie victimaire (Paris, Plon, 2004).

\ . .. \
-i2 O ÓD I O À DEMOCRACIA

reivindicativo, com o desempregado que ocupa os escritórios da


Agência Nacional para o Emprego ou com o imigrante ilegal con-
finado n as zonas de espera dos aerop o rtos. Não é de admirar que
os representantes da paixão consumidora que excitam o maior
furor em nossos ideólogos sejam em geral aqueles cuja capacidade
de con sumir é a mais limitada. A denúncia do "individualismo de-
mocrático" cobre, com pouco esforço, duas teses: a clássica dos
favorecidos ( os pobres qu erem sempre mais) e a das elites refinadas
(há índi.,íduos de m ais, gente demais reivindicando o privilégio da
mJividuaüdade). O discur so intelectual dominante une-se assim
ao pensamento das elites censitárias e cultas do século XIX: a indi-
vidualidade é uma coisa boa para as elites; torna-se um desastre
para a civilização se a ela todos têm acesso.
É assim que toda a política é creditada a u ma antropologia
que conhece apenas uma única oposição: entre uma humani-
dade adulta, fiel à tradição que a institui como t al, e uma pue-
ril, cujo sonho d e se engendrar como nova conduz à autod es-
truição . É esse deslocamento que Les penchants criminels de l'Europe
démocratique registr a com mais elegância concei tual. O tema da
"sociedade ilimitada" resume em poucas palavras a abundante
literatura que junta na figura do "homem democrático" o con-
sumidor de hipermercado, a adolescente que se r ec usa a tirar o
véu e o casal homossexual q ue q u er ter filhos . R esume, sobre-
tudo, a dupla metamorfose q ue atribuiu ao mesmo tempo à
democracia a fo rma de homogeneidade social ant es imputada
ao totalitarismo e o movimento ilimitado de cresciment o de si
DA DEMOCRACl.~ VITORIOSA À D E MOCR A CIA CRIM! N0~,1

mesmo próprio à lógica do capital22 . M a rca assim o arre 111.11 l' rl.1
releitura francesa do double bind democrático. A teoria do i/,111/,/,·
bind opunha o bom governo d emocrático ao dup lo exl n,,.," il 1
vida política democrática ,e do individualismo d e m as.\ ,t 1
\ 11
leitura francesa suprime a tensão dos contrários. A vid.i d 1• 11111
crática torna-se a vida apolítica do consumidor in<lil v , v 11 J I d ,
mercadorias, direitos das minorias, indústria cul tural l' 111 lu
produzidos em laboratório. Ela se identifica pu ra(' s111qil 1
mente com a "sociedade moderna", que ela tra n sl'n 1111.1 ,111
mesmo tempo em uma configuração antropológica b o 11111gl't11·.1.
Vale no tar que o d enunciante mais radical do crime d t.:; 111 111 1.1
t ico e r a, vinte anos atrás, o porta-bandeira da escola rt.:; pul ilil .1
na e laica. Na realidade, foi em torno da questão d a ec.l lt l ª \ .111
que o sentido de algum as palavras - república, d emnl 1.11 1.1 ,
i gualdade, sociedade -mudou. No passad o, tratava-se da ig 11 ,il
dade própria à escola republicana e de sua relação co m .1 d1•,•.i
g ualdade social. Hoje, t rata-se apen as do processo d e t ra 11s n 11:,
são que deve ser salvo da tendência à autodestruição co 11tid,1 11 ,1
sociedade democrática. Tratava-se no passado d e trans ,111111 11
universal do saber e seu poder de ig ualdade. O que se tr.11.1 d,

transmitir h oje, e que o nome judeu r esume em Mil,w, , 1

22
Desse ponto de vista, o leitor tirará proveit o da leitura de Le sa/a,re de I' lc/1•11/
la théorie des classes et de la culture au XXe siecle (Paris, Seuil, 1997), em que O l11\"'d 111 1

Jean-Claude Milner analisa, nos termos marxistas d o destino infeliz d e 11111 . ,


"burguesia assalariada" que se torna inútil para a expansão capitalista, os p 11 •
cessos a tribuídos aqui ao desenvolvimento fatal da ilimitação democráttc,t
li O Ó DIO À DEMOCRACIA

..
\i , 11 plesmente o princípio do nascimento, o princípio da divi-
S, lt > sex ual e da filiação.
Cl pai de família que submete os filhos ao "estudo farisai-
1 1
1" pode e ntão assumir o lugar do profess or republicano, que
~11111, ,li a c riança da reprodução familiar de certa ordem social.
I· 11
hrnn gove~no, que se opõe à corrupção democrática, não
111 1·1 is.t mais m anter, por equívoco, o nome de democracia.
N11 p.1s1-1,1do c h a m ava-se república. Mas república não é origi-
11 ,il 1111•1llt' o n om e do governo da l ei, do povo ou de seus re-
i' " •,1 •111.1111 es. República é, desde Platão, o nome do governo
1
111,• g.11 ,1111 v a reprodução do rebanho humano, protegendo-
' 1 • 1111 11 .i o inchaço de seus apetites por bens individuais ou
11111 11•1 11111..' ti vo. É por isso que o bom governo pode adotar
1
11 11, 11 111>11H.:, que atravessa de maneira furtiva, mas decisiva,
,, d1·111011s tração do c rime democrático: ele recupera hoje
0
11, 1 1111· qu e tinha antes que o nome democracia cruzasse seu
1 ,1111111'1 0. l~le se c hama governo pastoral. O crime democráti-

'
11
1• 111 , 1111 l'.l s ua o rigem, então, numa cena primitiva, o esque-
1 1111 ,• 111 tl do past o r 23 .

h 1111 q1 ,e explicitou pou co antes um livro intitulado Le meurtre


i/111,1111,•1,r /O assassinato do pastor]24. Essa obra tem um mérito

J1•;111 l :Jaude Nli!ner, Les penchants criminels de l'Europe démocratique, cit., p. 32.
\g, .id,•i;o a. Jean-Claude Milner as respostas às observaç ões que lhe dirigi
•1111111· .is teses d esse livro.
1
lk nny lévy, Le meurtre du pasteur: critique de la vision politique du monde (Paris,
1,, .isse e- Verdier, 2002).
DA D EMOCRACIA V I TO RIOS A À DEMOCRACIA CRIMINO SA 45

incontestável: ilustrando a lógica das unidades e das to talidades


desenvolvida pelo autor de Les penchants criminels de l'Europe démo-
cratique, fornece uma figura con creta à "transc: ndência", tão
estranhamente reivindicada p e los novos defensores da esco-
la republicana e laica. A aflição dos indivíduos democráticos,
diz, é a dos homens que perderam a medi da pela qual o Um
pode se conciliar com o múltiplo e os uns podem se unir em
um todos. Essa medida não pode se f undamentar em nenhuma
convenção humana, mas somente no cuidado do pastor di-
vino, que cuida de todas as suas ovelhas e de cada uma delas.
Este se manifestou por uma força que faltará sempre à palavra
democrática, a força da Voz, cujo impacto, na n oite d e fo go,
foi sentido por todos os hebreus, enquanto era d ado ao pasto r
humano, Moisés, o c uidado exclusivo de ouvir e explicitar suas
palavras e o rganizar seu povo segundo o ensinamento transmi-
tido por elas.
A p artir daí, tudo pode ser explicado de man eira simples,
pelos males próprios ao "homem democrá tico" e pela divisão
simples entre uma human idade fiel o u infiel à lei da filiaç ão .
A ofensa às leis da filiação é, em primeiro lugar, uma ofensa ao
vínculo da ovelha com seu pai e pastor divino. No lugar da Voz,
diz Benny Lévy, os modernos colocaram o homem-deus ou o
povo-rei, esse homem indeterminado dos direitos humanos
que O teórico da d emocracia Claude Lefort transformou em
o cupante de u m lugar vazio. No lugar da "Voz-para-Moisés"
está um "h omem-deus-morto" que nos governa. E este só
46 O Ó D I O À D E M O C R A C TA

pode governar fazendo-se .fiador dos "pequenos prazeres" que


pagam nossa grande aflição de órfãos condenad os a vagar pelo
império do vazio, o que significa indiferentemente o reino da
democracia, do indivíduo ou do consumo 25 •

25
Ibidem, p. 313.
A POLÍTICA OU O PASTOR PERDIDO

Devemos compr eender que o mal vem de mais longe. O ( 1 111 w


democrático con tra a ordem da filiação humana é, e1n p 1i1 111• 1

ro lugar, o crime político, isto é, simplesmente a organ iz:1~ .11 1


de uma comunidade h umana sem víncu lo com o Ü C LLS p ;11 .

O nome democraciaimplicae, a partir dele, se denuncia a pro p r i ,1

política. Ora, esta não nasceu da descrença moderna. Antes dos


modernos que cortam a cabeça dos reis para poder encher seu s
carrinhos à vontade nos supermercados, há os antigos e, so bre
t udo, os gregos, que romperam o vínculo com o pastor divino e
registraram, com o duplo nome de filosofia e política, o auto d e
infração desse adeus. O "assassinato do pastor", diz Benny Lévy,
ll ÓDI O À DEMOCRACIA

lo

1, :,1· c laramente nos textos de Platão: no Político*, que evoca a


1 1 1 v 111 que o pastor divino governava diretamente o rebanho
11 111 11.i 11 o; n o quart o livro das Leis**, em qu e é evocado mais uma
, 1•, , 1 r\'i 11<) fe liz d o deus Cronos, que sabia que n enhum h omem
J 1111 I,·, 11111,tndar os outros sem se ench er de d esmedid a e injustiça
1 ll '~ JH II K JvLJ ao p roblema d ando COm O ch efes às t ribos h umanas
1111•11d1rns da raça s uperior dos daimones. Mas Platão, contempo-
1,11 11 , 1 ,1 1 o n t ragost o desses homens que afirmavam qu e o poder
111 111 1ll 1· .10 povo, e n ão ten do outra coisa a lhes opor a não ser
11111 ", 111d.1do de si" incapaz d e vencer a distân cia d os uns ao to-
1/111, 11 11.1 1t' IL·re ndad o o adeus, relegando o r eino de Cronos e o
111 t " 1 .J I vi 110 a e ra das fábulas, ainda que tenha tido de disfar çar
11,1 i111 ·,1·1H 1,t com outra fábula, a de uma "república" fund ada
11 ,1 "IH' l.t me ntira" de que o deus, para garantir a boa ordem da
11111 11 111 1d ucle, teria posto ouro na alma dos gover nantes, prat a na
il 1P, f, tH·1·rt:iros e fe rro n a d os artesãos.
l l1· v(' i1HJS conced er ao representante de Deus: é ver dade que a
111, 11 11, .1sv define na separação do model o do pastor aliment ando
· 1 li 11•h.111 h o. Também é ver dade qu e podemos recusar essa se-
Jl,IJ ,1~.111, t·xigir par a o pastor divino e para os pastores humanos
,p11• 11 1tvrp re tam sua voz o gov erno de seu povo. A esse preço,
,t d1•111o c.: racia é apenas "o império do n ada", a figura últim a da

F111 Diálogos: O banquete, Fédon, Sofista, Político (2. ed. , São Paulo , Abril Cul tu ral,
l 1lli.l, Coles:ão Os Pensadores). (N. E.)
• • Platão, .As leis (2. ed., São Paulo, Edipro, 2010) . (N. E.)
A PO L ÍT ICA OU O P AST OR P ERDIDO 49

separ ação política, clam ando o r etorno, do fund o da aflição, para


o pastor esquecido . Nesse caso, podemos dar fim rapid amente à
discu ssão. :Mas também podemos con siderar as coisas no sentido
cont rár io, perguntar por que o retorno para o pastor perdido
acab a por se impor como consequência última de certa análise
da dem ocracia como sociedade dos indivídu os consum idores.
Nesse caso, procuraremos não o que a política rechaça, mas, ao
con trário, o q u e da política é r ec b açado pela análise que to rna a
democracia o estado de desmedida e aflição do qual só u m deus
pode nos salvar. Con sider aremos o texto plat ônico de um ângu - .
lo diferente, por tanto : não o adeus ao past or, pronunciado por
Platão no Político, mas, ao con trário, sua p r eservação nostálgica ,
sua presença obstinada no âmago da República, n a qual ele serve
de r eferên cia ao esboço da oposição entre o bom governo e o
governo democr ático.
Platão faz duas críticas à democracia que, à p rimeir a vista, pa-
recem se opor, mas articulam-se estritamente uma a outra. De
u m lado, a democracia é o reino da lei abstr ata, o p ost a à solici-
tude do médico ou do p astor. A vir tude do pastor ou do médico
·expressa-se d e duas maneiras: a ciência de ambos opõe-se, em
primeiro lugar, ao apetite do tirano, pois se exerce par a o único
proveito daqu eles que eles cuidam; mas opõe-se também às leis
da cidade democrática, porque se adapta ao caso apresent ado por
cada ovelha o u cada pacie nte. As leis da democracia, ao contrá-
rio, pretendem v aler par a t odos os casos. São como receitas que
um m édico que está p r estes a viajar d eixa d e uma vez por t od as,
50 O ÓDI O À DE M O C RA C IA

seja qual for a doença que se deva tratar. Mas essa universalidade
da lei é uma aparência enganosa. Na imutabilidade da lei, não
é o universal da ideia que o homem democrático honra, mas o
instru mento de seu bel-prazer. Em linguagem moderna, dire-
mos que, sob o cidadão universal da constituição democrática,
devemos reconhecer o homem real, isto é, o indivíduo egoísta da
sociedade democrática.
Esse é o ponto essencial. Platão foi o primeiro a inventar esse
modo de l eitura sociológica que proclamamos próprio da era
moderna, a interpretação que persegue por baixo das aparências
da democracia política uma realidade inversa: a realidade de um
estado de sociedade em que é o homem p rivado, egoísta, que go-
verna. Para e le, a lei democrática é apen as o bel-prazer d o povo,
a expressão da liberdade de indivíduos que têm como única lei as
variações de seu humor e de seu prazer, indiferentes a qualquer
ord em coletiva. Sendo assim, a palavra democracia não significa
simplesmente uma forma ruim de governo e de vida política,
mas, propriamente, um estilo de vida que se opõe a qualquer
governo ordenado da comunidade. A democracia, diz Platão
no livro VIII da República, é um regime político que não é regime
político. Não possui uma constituição, p o rque tem todas. É uma
feira de constituições, uma fantasia de arlequim tal qual apreciam
os homens cujo grande n egócio é o consumo dos prazeres e dos
direitos. Mas ela não é só o reino dos indivíduos que fazem tudo a
seu bel-prazer. A democracia é propriamente a inversão de todas
as relações que estruturam a sociedade humana: os governantes
A POLÍ TIC A OU O PA STOR P ER DI DO

parecem governados e os governados, governantes; as mullw11",


são iguais aos homens; o pai se habitua a tratar o filho d e 1g11.il
para igual; o meteco e o estrangeiro tornam-se iguais ao cid,1d.111 ,
o professor teme e bajula alunos que, de sua parte, zomb.1111 d1 11 ,
os jovens se igualam aos v elhos e os velhos imitam os jn v, 11•,, , ,.
próprios animais são livres e os cavalos e os burros, 1 rn 1, , 11 111 r

de sua liberdade e dignidade, atropelam aqueles que 11 .1n l li1 •, 1l.1 11


passagem na rua 1.
Como se vê, não falta nada à recensão dos males ,1 q111 , ,
triunfo da igualdade democrática equivale na auro r a do 11·111 1111
milênio: reino do bazar e de suas mercadorias baralhatl.ts, ig 11.il
dade entre professor e aluno, demissão da auto ridad e, 111h11 d1
juventude , paridade entre homens e mulheres, direitos d.1, 1111
norias, das crianças e dos animais. A longa deploração tio:, 111.1'1
ficios do individualismo de massa na era dos hiperme rc~tdm I il 1
telefonia móvel apenas acrescenta acessórios m od e rnos ,t l,d11il 1
platônica do indomável asno democrático.
Podemos rir, mas podemos sobretudo nos espanl~11 d1.~1,, 1
N ão somos continuamente lembrados de que vivem os 11.1 1·1.i
da técnica, dos Estados modernos, das cidades tentac ulan·s v d1,
mercado mundial, que não têm mais nada a ver c om os v iLu 1·J11~1
gregos que foram o local da invenção da democracia? A co m l u
são à qual chegamos assim é q u e a democ r acia é uma íori11 .1

Idem, La République, VIII, 562d-S63d. (Ed. bras.: A República, São Paulo, Pc·1 s
pectiva, 2006.)
O ÓDIO À DEMOCRACIA
..

política de outra era que não pode convir à nossa, salvo à custa de
sérias mudanças e, em particu lar, de um rebaixament o da utopia
do poder do povo . Mas se a democracia é essa coisa do passado,
torno compreender que a descrição da aldeia democrática, ela-
borada há 2.500 an os por um inimigo d a democracia, possa valer
para o retrato fiel do homem democráticó na ei:a do con sumo
til'. massa e da rede plan etária? A democracia grega, segund o n os
di ;;t·in, e ra apropriada a uma for ma de sociedade que não tem
111.1 1s nada a ver com a nossa. Mas isso é para nos mostrar logo
1·111 Sl'~uida que a sociedade à qual ela era apropriada tem exata-
1111· 111 v os mesmos traços que a n ossa. Como compreender essa
1 t·l.t\ ,LO paradoxal de uma diferença radical e uma perfeita se-
111 1..: I hança? Para explicá-la, apresento a seguinte hipótese: o re-
trato sempre apropriado do homem d emocrático é produto de
uma operação, ao mesmo tempo inaugural e indefinidamente
renovada, que visa conjurar uma impropriedade que diz r es-
pd to ao próprio princípio da política. A sociologia divertida de
u 111. povo d e consumidores displicentes, de ruas atravancadas e
p,tpéis sociais invertidos conjura o pressentimento de um mal
111,tis profundo: que a inominável democracia seja não a forma
de sociedad e refratária ao bom governo e adaptada ao mau, mas
o próprio princípio da política, o princípio que instaura a políti-
ca, fundamentando o "bom" governo em sua própria ausência
d e fundamento .
Para compreender isso, r etomemos a lista das reviravoltas que
manifestam a desmedida democrática: os governantes são como
.\ POLÍTICA OU O PASTOR PERDID O 53

os governados, os jovens como os velhos, os escravos como os


mestres, os alunos como os p rofessores, os animais como seus
donos. Está tudo de cabeça para baixo, sem dúvida. Mas essa de-
sordem tranquiliza. Se todas as relações são in vertidas ao mesmo
tempo, parece que todas são da mesma natureza, que todas essas
inversões traduzem uma mesma reviravolta da ordem natural,
portanto essa orden, existe e a relação política tarnbérn perten-
ce a essa natureza. O retrato divertido da desordem da socieda-
de e do homem democráticos é uma maneira de pôr as coisas
novamente em ordem. Se a democracia inverte a relação entre
governante e governado, assim como inverte todas as outras re-
lações, garante a contrario que essa relação seja hom ogênea com as
outras e exista entre o governante e o governado um princípio
de distin ção tão certo quanto a relação entre aquele que engen-
dra e aquele que é engendrado, aqu ele que vem an tes e aquele
que vem depois: um princípio que garante a continuidade entre
a ordem da sociedade e a ordem do governo, porque garante so-
bretudo a continuidade entre a ordem da convenção humana e
a da natureza.
Chamemos esse princípio de arkhé. Como lembrou Hannah
Arendt, essa palavra significa, em grego, tanto começo quanto
comando. Ela conclui logicamente que, para os gregos, signifi-
ca a unidade de ambos. A arkhé é o comando do que começa, do
que vem primeiro . É a antecipação do direito de comandar no
ato do começo e a verificação do poder de começar no exercício
do comando. Assim se de.fine o ideal de um governo que seja a
54 O ÓDIO À DE MOCRACIA

realização do princípio pelo qual o poder de governar começa,


de um governo que seja a exibição em ato da legitimidade d e
seu princípio. São apropriados para governar aqueles que têm as
disposições que os tornam apropriados a esse papel, e são apro-
priados para serem governados aqueles que têm as disposições
complementares das primeiras .
É aqui que a democracia cria confusão, ou melhor, é aqui qu e
ela a r evela. É o que mostra, no terceiro livro das Leis2, uma lista
que faz eco à list a das relações naturais perturbadas que apresenta,
na República, o retr ato do homem democrático. Estando admitido
que em toda cidade há governantes e governados, homens que
exercem a arkhé e homens que obedecem a seu p oder, o aten iense
dedica-se a r ecensear os títulos para ocupar uma posição ou outra
tanto nas cidades qu anto nas casas. Esses títulos são set e. Quatro
se apresentam como diferen ças que dizem respeito ao n ascimen-
to : natu r almente comandam aqueles que nasceram antes ou
melhor. Esse é o poder dos pais sobre os filhos, dos vel h os sobr e
os jovens, dos mestres sobre os escravos ou das pessoas bem-nas-
cidas sobre os sem-n ada. Seguem-se d ois outros princípios que se
valem da natureza, se não do nascimento . Em primeiro lu gar, a "lei
da natureza" celebrada por Píndaro, o poder dos m ais fortes sobre
os menos fortes. Decer to esse título se presta a controvérsias: como
definir o mais forte? Górgias*, que m ostra tod a a indeterminação do

Idem, Les Lois, III, 690a-690c. [Ed. bras. : As leis, cit.J


São Paulo, Perspectiva, 2011. (N. E.)
A POLÍT I CA OU O P A STOR P ERDIDO ,,

term o , conclui que esse poder só pode ser entendido de n 1a,wi , .1


adequad a se for identificad o com a v irtude dos que sa bt •111
E esse é precisamente o sexto tít u lo recenseado: o p od e r q111
cumpre a lei da natureza, é claro, a autoridade dos sábios sobre• 11•,
ign orantes. Todos esses títulos preenchem as d u as cone.l i\ cw:.. 11
queridas: primeiro, definem urna hierarquia de posiçõ<.:s; st·i,:11 11
do, definem-na em continuidade com a natureza - p o r i11 11• 11111
dio das relações familiares e sociais no caso dos prim eiros, d 11 e l, t
no caso dos dois ú ltimos. Os primeiros fundamen tam a 111cl 1·111
da cid ade na lei da filiação. Os segundos exigem para css.1 111
dem um princípio superior: governa não aquele que nasl el1.i 11 t1•\
ou melhor, mas simplesmente aquele que é melhor. 1~ aq L11 , 111111
efeito, qu e a p olítica começa, quando o princípio do govl·, 111 1 ·.e ·
separada filiação, m as apela ao mesmo tempo à natu reza, , 111.111.I, 1
invoca uma natureza que não se confunde com a simp les rv l.11, .111
com o pai da tribo ou o p ai divino.
Aqui começa a p olítica. Mas é aqui também qu e ela e nco 11 t 1.i,
no caminho que procura separar a excelên cia própria do di 11·1
to de nascimento, um o bje t o estr anho, um sétimo tí t u lo p.11.1
ocupar os lugares de superior e de in ferior, um título que n .111 e·
título e que, no entanto, como diz o ateniense, conside r an,os e,
mais justo: o título de autoridade "amado d os de u ses", a esco l li .,
do deus acaso, o sorteio, que é o procedimento democrático rw lc,
qual um povo d e ig uais decide a distribuição dos lugares.
O escândalo reside nisso: u m escând alo para as pessoas d e bem,
que não podem admitir que seu nascimento , sua ancianidad e o u
À DEMO C RACIA
" ..
O ÓDIO

•,11.1 1 i0ncia tenha de se inclinar diante da lei da sort e; um escân-


d .iln também para os h omens de Deus, qu e acei tam que sejamos
il1•11 1onaLas, d esd e. que r econ h eçam os que tivemos d e mat ar u m
11,1 1, n 1 u rn pastor para isso e, p o rtanto, som os infin it amente cul-
p,1cln1,, em d ívida inexpiável com esse p ai. Ora, o "sétimo títu-
111" 1111 >S t ra que não há n ecessidade d e sacrifícios ou sacrilégios
p.i, .1 11 1111 per com o poder da filiação. Bas}a um lance de dados.
< l ,·s, .111d,il o é simplesm en te o segu inte: entr e os títu los p ara
f' ,v,·111.ir. existe u m q ue qu ebra a corrente, u m que refuta as/
1111·~11 11> . O sétimo títu lo é a a u sên cia d e título. Essa é a con fusão
111.11·, 111n l Lt nd a expr essa p ela palavr a democracia. Não se trata de
11 , ., 111wndo, asno org u lhoso ou indivíd uo guiad o por seu s ca-
l'''' liCls. 1:s Lá claro que essas im agens são m aneiras de esconder o
l 1111cl n d o p roblema. A d em ocracia não é o capricho das cr ianças,
d, 1'., csc 1 ,tvos o u d os animais. É o bel-p razer do deus, o deus do
,1, .1~11, d~· Lima nat u r eza que arruína a si m esma como prin cíp io
il,• lt·gitimidade. A desm edida democrática não tem nad a a ver
, 11111 \1111a lou cura consum ista qu alqu er. É simplesmente a per da
d. 1 11wd ida com a qual a n atureza r egia o artificio comunit ário
li r,tves das relações de autorid ade que est ruturam o corpo so-
e ,.d . O escândalo é o de um títu lo p ara govern ar completamente
disLi nto de qualquer analogia com aqueles qu e o rdenam as rela-
~ nes sociais, d e qualq u er analogia en tre a conven ção humana e
,l ordem da n at ureza. É o de uma su per ioridad e que não se fun-
damenta em n enh u m outro princípio além da própria ausência
de superio ridade.
A POLÍTICA OU O PASTOR P E RDI DO 57

Democr acia qu er dizer, em primeiro lugar, o seguinte: um


"governo" anárquico, fundamentado em nada mais do que na
a u sên cia de qualquer título para governar. Mas há várias maneiras
d e tratar esse paradoxo. Podemos simplesmente excluir o título
d emocr ático, já qu e se trata da contradição de qualquer título
p ar a governar. Também podemos negar que o acaso seja o princí-
p io da democracia, separar democracia e sorteio. Assim fazem os
m odern os, especialistas, como vimos, em jogar alternadamente
com a diferença o u com a semelhan ça dos tempos. O sorteio, se-
gundo eles, convinha aos tempos antigos e aos vilarejos economi-
c amente pouco desenvolvidos. Como nossas sociedades moder-
nas, feitas de tantas engrenagens delicadamente encaixadas,
poderiam ser governadas por homens escolhidos por sorteio, ig-
n or an do a ciência desses frágeis equilíbrios? Encontramos para a
dem ocracia princípios e meios mais apropriados: a representação
do povo sober ano por seus eleitos, a simbiose entre a elit e dos elei-
t os d o povo e a elite d aqueles que nossas escolas formaram no
conhecimento do funcionamen to das sociedades.
Mas a diferença dos tempos e das escalas não é o fundo do pro-
blem a3. Se p ara nossas "democracias" o sorteio p arece contrário

A demonstração foi dada quando, sob um dos governos socialistas, surgiu


a id eia de sortear os membros das comissões u niversitárias encarregadas dos
processos seletivos. Nenhum argumento prático se op unha a essa medida. De
fato, a população era limitada e composta po r definição de indivíduos de igual
capacidade científica. Uma única competência foi questionada: a competência
não igualitária, a habilidade de manobrar a serviço dos grupos de pressão.
Em ou tras palavras, a tentativa não foi longe.
58 O ÓDIO À D E MOCRACIA

..

a qualquer princípio sério de seleção dos governantes, é porque


esquecemos o que democracia queria dizer e que tipo de "nature-
za" o sorteio queria contrariar. Se, ao contrário, a questão da parte
que lhe cabe continuou viva na reflexão sobre as instituições repu-
bhcanas e democráticas da época de Platão à de Mon tesquieu, se
repúblicas aristocráticas e pensadores pou co preocupados com a
igualdade o admitiram, é porque o sorteio era o remédio para um
mal bem mais sério e ao mesmo tempo bem mais provável do que
o governo dos incompetentes: o governo de certa competência,
o dos h omens capazes de tomar o poder pela intriga. A partir
daí, o sorteio foi objeto de um formidável trabalho de esqueci-
mento4. Opomos com muita naturalidade a justiça da represen-
tação e a competência dos governantes a sua arbitrariedade e aos
riscos mortais da incompetência. Mas o sorteio nunca favoreceu
mais os incompetentes do que os competentes. Se ele se tornou
impensável para nós, é porque estamos habituados a considerar
absolutamente natural uma ideia qu e com certeza não era natu-
ral para Platão e muito menos para os constituintes franceses ou
norte-americanos de dois séculos atrás: que o primeiro título que
selecione aqueles que são dignos de ocupar o poder seja o fato de
desejarem exercê-lo.

Platão sabe que a sorte não se deixa descartar facilmente. É claro


que ele insere toda a ironia desejável na evocação desse princípio,

1
Sobre esse ponto, ver Bernard Manin, Príncipes du gouvernement représentatif
(Paris, Flammarion, 1996). ·
A P OLÍTI CA OU O PAS T OR PERD IDO ,,,

que em Atenas era considerado amado dos deuses e sumament t•


justo. Mas mantém na lista esse título que n ão é título. N ão é se1
porque·é um ateniense que faz o recen seamento e não pode exc ll l l 1
da pesquisa o princípio que regula a organização de su a cilhdv
Há duas razões mais profundas para isso. A primeira é que o p ru, e·
dimento democrático do sorteio está de acordo com o prin cipieI e1, ,
poder dos sábios em um ponto essencial: o bom governo é o )/.OW1
no daqueles que não desejam governar. Se há uma catego ri.1 q111
deve ser excluída da hsta dos que são aptos a governar, é a dos q111
intrigam para obter o poder. Aliás, sabemos pelo Gór3ias c.p.11 •, ,te , ••
olhos daqueles, o filósofo tem exatamente os vícios que ele ,tp, 11 11,1
nos democratas. Ele encarna a inversão de todas as relações 11.1111 1,1I'.
de autoridade; ele é o velho que banca a criança e en sina aos J11v1•11 ·,
a desprezar pais e educadores, o homem que rompe coni l <>d ,1~ ,1•,
tradições qu e as pessoas bem-nascidas da cidade, e p o r isso t l1.1 111.1
d as a dirigi-la, transmitem de geração em geração. O fi Ioso/ e1 11 1
tem ao menos um ponto em comum com o povo-rei: é nec t·ss.11111
que o acaso divino o faça rei, sem que ele o tenha desejad o .
Não existe governo just o sem participação do acaso, isto,·. s,·111
participação d aquilo que contradiz a identificação do exerci, io d"
governo com o exercício de um poder desejado e conquis tad, 1
Esse é o princípio paradoxal que se coloca onde o prin cíp io d1 1
governo se desliga daquele das diferenç as naturais e sociais, is Lo ,•,
onde há política. E este é o desafio da discussão platônica sobre 11
"governo do mais forte" . Como pensar a política se ela n ão pmk
ser nem a continuação das dife renç as, isto é, das desiguald ac.k s
1111 O ÓD IO À DEMO C RACIA

..
11 1111 rais e sociais , nem o lugar tornado pelos profissionais da in -
111~:,1? /Vi as quando o filósofo se faz essa pergunta, para que a faça, é
111•, l'SS.irio que a democracia-sem ter de matar nenhum rei nem
1w 11 li u rn pastor - já tenha proposto a mais lógica e a mais intole-
1,,v,·I das respostas: a condição para que um governo seja político
1· q1 a · sl'j:t fundamentado na ausência de título para governar.
1:.ss;1 v a st:gunda razão por que Platão não pode eliminar o sor-
11•111 dl' Sll.t lis ta. O "título que não é título" produz um efeito re-
11, 1,11, vn sobre os outros, uma dúvida sobre o tipo de legitimidade
•111, 1 1,·~ v.s tabele cem. Com certeza são títulos genuínos para go-
\ 111.11 , ),1tJIH' de finem uma hierarquia natural entre governantes
• r'' '' 1 111.1dos. !{.esta saber que governo ao certo eles fundamen-
1 1111 l'11d l' 111 os admitir que os bem- nascidos se diferenciam dos
111.il 11.1 s1 id os e ch amar seu governo de aris tocracia. Mas Platão
~. il 11• 1t1lliLo bem o que Aristóteles enunciará na PoUtica*: aqueles
, pli' ·,.1,1 L il am ados de "melhores" nas cidades são simplesmente
, 1•, 111,11s I icns, e a aristocracia nunca é mais do que urna oligarquia,
11111 )J.ll V\' t 11 0 da riqueza. Na verdade, a política começa onde se
1111 ,1·, 11 1n o nascünento, onde a força dos bem-nascidos -que
, , ,1l1.1 1k um d e us fundador de tribo - é declarada por aquilo
1 p 11 1 .1 1tlf'Ça dos proprietários. E foi o que trouxe à tona a refor-
111 ,1 d1 · CI 1s Lcnes, que instituiu a democracia ateniense. Clístenes
11 •, 11111pôs as tribos de Atenas, agrupando de maneira ar t ificial,
1H II um procedimento não natural, demos - is t o é, d ivisões

2. cd. rev., São Paulo, Edipro, 2009. (N. E.)


A POLÍTICA OU O PAST OR PERDfDO 61

territoriais - geograficamente separados. Com isso, ele destruiu o


poder indistinto dos aristocratas-proprietários-herdeiros do deus d o
lugar. É exat amente essa dissociação que a palavra democracia sig-
nifica. O crítico das "tendências crimin osas" d a democracia tem
r azão em um ponto: a democracia significa urna ruptura na or-
dem da filiação. Ele só esquece que é ju stamente essa r uptura que
realiz a, da maneira mais literal, o que ele pede: u ma heterotopia
estrutural do princípio do governo e do princípio d a sociedade5 .
A democracia não é a "ilimitação" moderna que d estruiria a he-
terotopia n ecessária à política. Ao contrário, é a força fund ador a
dessa heterotopia, a limitação p rimeira do poder d as formas de
autoridade que r egem o corp o social.
Pois, supondo-se que os títulos para governar não sejam d e
fato contestáveis, o problema é saber qual governo da comunida-
de se pode deduzir deles. O poder dos mais velh os sobre os mais
jovens reina nas famílias, e podemos imaginar u m governo d a ci-
dade segundo seu modelo. Ele é devidamente qualificado quando
chamado de gerontocracia . O poder dos sábios sobre os ignoran-
t es reina c o m todo o direito nas escolas, e p odemos instit uir, a
sua imagem, um poder chamado tecnocracia ou epistemocracia.
Estabelece-se assim uma lista d os governos fundamentados em
um título par a governar. Um único governo faltará à lista, p r e -
cisamente o governo político. Se político quer d izer alguma coisa,
quer dizer alguma coisa que se acrescenta a todos os governos

Jean-Claude Milner, Les penchants criminels de l'Europe démocratique, cit., p . 81.


62 O ÓDIO À DE MOCRACIA

..
da p aternidade, d a idade, da riqueza, da força ou da ciência que
prevalecem nas famílias, nas tribos, n as oficinas ou nas escolas
e propõem seus modelos para a edificação de formas mais am-
plas e complexas de comunidades humanas. É necessário algo a
mais, um pode r que venha do céu, diz Platão. Mas do céu sem-
pre vieram apenas dois tipos de governo: o governo dos tempos
míticos, o reino direto do pastor divino apascentando o reba-
nho humano, ou dos daimones incumbidos por C ronos de dirigir
as tribos; e o governo do acaso d ivino, o sorteio dos governantes,
ou seja, a democracia. O filósofo quer suprimir a desordem de-
mocrática para fundar a verdadeira política, mas só pode fazê-lo
com base nessa própria d esordem, que cortou o vínculo entre
os chefes das tribos da cidade e os daímones que serviam a Cronos.
Esse é o fundo do problema. H á uma ordem natural das coisas
segu ndo a qual os homens agrupados são governados por aqueles
que possuem os títulos para governá-los. A história conheceu dois
grandes títulos para governar os h omens: um que se deve à .filia-
ção humana ou divina, ou seja, a superioridade no nascimento; e
outro que se d eve à organização das atividades produtoras e repro-
dutoras da sociedade, ou seja, o poder da riqueza. As sociedades
são habitualme nte governadas por uma combinação dessas d uas
potências, às quais força e ciência, em proporções diversas, dão re-
forço. Mas se os mais velhos devem governar não só os jovens,
mas também os sábios e os ignorantes, se os sábios devem governar
não só os ignorantes, mas os ricos e os pobres, se devem se fazer
obedecer pelos que detêm a força e compreendidos pelos que são
.\ POL Í TICA OU O PASTOR PERDIDO

ignorantes, é p reciso algo mais, u m título suplementar, u m título


comum aos que possuem todos esses títulos, mas também aos que
os possuem e aos que não os possuem. Ora, o ú nico título que
rest a é o título anárquico, o título próprio dos que não têm nem
títu lo para governar nem para ser governados.
É isso , sobretu do, que democracia qu er dizer. A dem ocrac i.1
não é um tipo de constituição nem uma forma de sociedade. <) I",
,,--· der do povo não é o da população reunida, de sua maioria t1111 l.1
classes laboriosas. É simplesmente o pod er próprio daque ll':; q111
não têm mais título para governar do que para ser goverr1 .1d11,
E não podemos nos livrar desse poder denun ciando a tirani,1 d.1·,
maiorias, a estupidez dos animais ou a frivolidade dos indiv,d 1101·,
consumidores. Porque então seria necessário nos hvrarnrns d.1
própria política. Esta só existe se houver um título supk11iv111.11
aos que funcionam h abitualmente nas relações sociais. O est ,1 111 l.1
lo da democracia, e d o sorteio que constitui sua essência, é n·v1·l.11
que esse título só pode ser a ausência de título, o govern o d.is ~,,
ciedades só pode repousar, em última instância, em sua prnp1 1.i
contingência. Há pessoas que governam p orque são as mais vl'i l 1.1·,,
as mais bem-nascidas, as mais ricas ou as mais sábias . Bá nH>dvl11•,
de governo e práticas de autoridade baseados em tal OLt tal d,st 11
buição de lugares e competências. Essa é a lógica que propus 1w11
sar sob o termo de polícia6• Mas se o poder d os mais velhos dl·v1·

Ver Jacques Ranciere, O desentendimento: política e .filosofia (São Paulo, E<litnr.1


34, 1996) e Aux bords du politique (Paris, Folio Gallimard, 2004).
111 O Ó DI O À DEMOCRA C IA

..
..,. , m .lis do que uma gerontocracia e o poder d os ricos mais d o
q1 I<' uma plutocracia, se os ignoran tes devem compreender que
1 J, ·s d('VL' m obedecer às ordens dos sábios, seu poder deve repousar
" ,h1·(' 11 111 título suplementar, o poder dos que não têm nenhuma
11111111ivdacie que os predisponha mais a governar do que a ser go-
' r·111.1dos. IJe deve se tornar um poder político . E um poder polí-
t 11 ,, s1g 11if1rn, em última instância, o poder dos que não têm razão
11.11111 .d p.i ra governar sobre os que não têm razão natural para ser
v1,, 1·1 11.,dos. E1n última análise, o poder dos melhores só pode se
J, ~., 111, 11.11 pe lo poder dos iguais.
1 \.~,·,.o parad oxo que Platão encontra n o governo do acaso e
, p" . 11,, ,·11ta nto, em sua recusa furiosa ou divertida da democra-
' t 1, , lvvl' k var em conta, fazendo do governante um homem sem
111 11p11n lad e, que apenas um feliz acaso chamou a esse lugar. É o
q11,· 1lo bbes, Ro usseau e todos os pensadores modern os do con-
1, .11 , 1 ,. d ,t sobe rania encontram através das questões do consenti-
111c·!ltn ,. d a legitimidade. A igualdade não é uma ficção. Ao con-
11.1111 1, tnd o superior a sente como a mais banal das realidades.
N.1, 1 c' \ISll' m estre que não cochile e não se arrisque assim a deixar
, , ,... , , .,vo escapar; não existe homem que não seja capaz de matar
, ,11 t, , 1 !mm.cm ; não existe força que se imponha sem ter de sele-
f, 111111.ir, sem ter de reconhecer uma igualdade irredutível, para
, i' ', · ,1 desigualdade possa funcionar. Já que a obediência deve pas-
s.11 11o r um princípio de legitimidade, já que deve haver leis que se
1111 po nham enquanto leis e instituições qu e encarnem o comum
d ,1 comunidade, o comando deve supor uma igualdade entre o
A POLÍTICA OU O PASTOR PER D L DO

que comanda e o que é comandado. Os que se acham espertos e


realistas sempre podem dizer que a igualdade é apenas o doce so-
nho angelical dos imbecis e das almas sensíveis. Infelizmente para
eles, el a é uma realidade atestada incessantemente e por toda a
parte. Não existe serviço que se execute, não existe saber que se
transmita, não existe autoridade que se estabeleça sem que o mes-
tre tenha de falar, por menos que seja, "de igual para igual" com
aquele que ele comanda ou instr ui. A sociedade não igualitária só
pode funcion ar gr aças a uma m ulti tude de rel ações igualitárias.
É esse intricamento de igualdade com desigualdade que o escân-
dalo democrático manifesta para fazer dele o próprio fundamento
do poder comum. N ão é só, como se diz de bom grado, que a
igualdade da lei existe para corrigir ou atenuar a desigualdade de
natureza. É que a própria "natureza" se desdobra, a desigualdade
de natur eza se exerce apenas pressupondo uma igualdade de na-
tureza qu e a auxilie e contradiga: impossível, a não ser que os alu-
nos compreendam os professores e os ignorantes obedeçam ao
governo dos sábios. Podemos dizer que há soldados e policiais
para isso. Mas ainda é necessário que estes compreendam as or-
dens dos sábios e o inter esse de obedecer a eles e assim por diante.
É isso que a política requer e a democracia lhe dá. Para que
haja política, é necessário um tít u lo de exceção, um título que se
acrescente àqueles pelos quais as sociedades pequenas e grandes
são "normalmente" regidas e que, em última análise, reduzem-se
ao nascimento e à riqueza. A riqueza visa seu crescimento indei1-
nido, mas n ão tem o poder de exceder a si mesma. O nascimento
66 O ÓD I O À D EM O C RAC I A

..
aspira a exceder-se, mas só pode fazê-lo pulando da filiação hu-
mana para a filiação divina. Ele fundamenta o governo dos pasto-
res, que resolve o problema, mas à custa da supressão da política.
Resta a exceção ordinária, o poder do povo, que não é o da popu-
lação ou de sua maioria, mas o poder de qualquer um, a indife-
rença das capacidades para ocupar as posições de governante e de
governado. O governo político tem assim um fundamento. Mas
esse fundamento o transforma igualmente em uma contradição:
a política é o fundamento do poder de governar em s ua ausên-
cia de fundamento. O governo dos Estados é legítimo apenas na
medida em que é político. É político apenas na medida em que
repousa sobre sua própria ausência de fundamento. É isso que a
democracia exatamente entendida corno "lei da sorte" quer dizer.
As queixas usuais sobre a democracia ingovernável equivalem, em
última instância, a isto: a democracia não é nem uma sociedade a
governar nem um governo da sociedade, mas é propriamente esse
ingovernável sobre o qual todo governo deve, em última análise,
descobrir-se fundamentado .
DEMOCRACIA, REPÚBLICA,
REPRESENTAÇÃO

O escândalo democrático consiste simplesmente em revelar os('


guinte: não haverá jamais, com o nome de política, um princ ipio
uno da comunidade que legitime a ação dos governantes a par1i1·
das leis inerentes ao agrupamento das comunidades humanas.
Rousseau tem razão ao denunciar o círculo vicioso d e H oblws
que pretende provar a insociabilidade natural dos homens alegan
do intrig as de corte e maledicência de salões. Contudo, d esc n:
vendo a natureza a partir da sociedade, Hobbes ta1nbém m ostra
que é inútil procurar a origem da comunidade política em uma
virtude inata de sociabilidade. Se a busca da origem mistura sen,
nenhuma dificuldade o antes e o depois, é porque ela vem sem pre

1
r
O ÓD IO À DEMOCRACIA

..

.11 111)1S. A filosofia que procura o princípio do bom governo ou


,1·. 1,1zncs pelas quais os homens fundam governos vem depois da
, 11 11 H H racia, que por sua vez vem depois, interrompendo a lógica
11 .1il1l 1o n a l segundo a qual as comunidades são governadas por
,11 11wlvs tjLI C têm título para exercer s ua autoridade sobre aqueles
, p 11 ~. 1< l predispostos a submeter-se a ela.
'l'11do assim, a palavra democracia não designa propriamen-
11 111 111 uma forma de sociedade nem uma forma de governo.
\ ",111 1vd.1dc democrática" é apenas uma p intura fantasiosa,
, I, , 1111.1d.1 ,l s ustentar tal ou tal princípio do bom governo. As
., 11 1,·, l.1 l il'S, Lanto no presente quanto no passado, são organiza-
.! 1, 111 l11 Jogo das oligarquias. E não existe governo d emocrático
p1111111.11 111: nLe dito. Os governos se exercem sempre da minoria
11111 1· .1 111,1io ria. Portanto, o "poder do p ovo" é necessariamente
1H't 1·1111 npico à sociedade não igualitária, assim como ao governo
11l 1~\o11quico. Ele é o que desvia o governo dele mesmo, desviando a
· , 11 1c •l l.idl' dda mesma. Portanto, é igualmente o que separa o exer-
' 11 111 d , 1 governo da r epresentação da sociedade.
1l1 m od o geral, simplifica-se a questão, reduzindo-a à oposi-
'· 1, 11·11 Lre democracia.direta e democracia representativa. Então,
111 H 11· se recorrer simplesmente à diferença dos tempos e à oposi-
\ .111 1·1Hre realidade e utopia. A democracia direta, diz-se, era ade-
q11.1d~L para as cidades gregas antigas ou os can tões suíços da Idade
kdia, o nde toda a população de homens livres cabia em uma
u nica praça. A nossas vastas nações e sociedades modernas so-
m ente a democracia representativa convém. O argumento não é
DEMOCRAC I A, REP ÚB LI CA, R EP RE SENTAÇÃO 69

tão convincente quanto gostaria. No início do século XIX, os re-


presentantes franceses não viam dificuldade em reunir na sede
d o cantão a totalidade dos eleitores. Bastava que o número de
eleitores fosse pequeno, coisa que se obtinha com facilidade, re-
servando o direito de eleger os r epresentantes aos melhores da
nação, isto é, aos que podiam pagar um censo de trez entos fran-
cos. "A eleição direta", dizia Benjamin Constant, "constitui o
único verdadeiro governo representativo" 1 . E, em 1963, Hannah
Arendt ainda via na forma revolucionária dos conselhos o verda-
deiro poder do povo, na qual se constituía a única elite política
efetiva, a elite autosselecionada no território daqueles que se sen-
tem felizes em se preocupar com a coisa pública2 .
Em outras palavras, a representação nunca foi um sistema
inventado para amenizar o impacto do crescimento das popula-
ções. Não é uma forma de adaptação da democracia aos tempos
m odernos e aos vastos espaços. É, de pleno direito, uma forma
oligárquica, uma representação das minorias que têm título para
se ocupar dos negócios comuns. Na história da r epresentação,
são sempre os estados, as ordens e as possessões que são repre-
sentados em primeiro lugar, seja porque se considera seu título
para exercer o poder, seja porqu e um poder soberano lhes dá voz
consultiva. E a eleição não é em si uma forma democrática pela

Citado em Pierre Rosanvallon, Le sacre du citoyen: histoire du sujfraBe universel en


France (Paris, Gallimard, 1992), p. 281.
Hannah Arendt, Essai sur la révolution (Paris, Gallirnard, 1985, Coleção Tel),
p. 414. (Ed. bras.: Sobre a revolução, São Paulo, Companhia das Letras, 2011.)
70 O ÓD I O À DEMOCRACIA
..

qual o p ovo faz ouvir sua voz. Ela é o riginalmen te a expressão


de um consen timento que um poder superior pede e que só é de
fato con sentimento na medida em que é unânime 3 . A evid ência
que assimila a democracia à forma do governo representativo,
resultan te da eleição, é r ecente na história. A representação é,
em sua origem, o exato oposto da d emocracia. Ninguém igno-
rava isso nos tempos das r evoluções norte-am erican a e francesa.
Os Pais Fundadores e muitos d e seu s seguid ores franceses viam
n ela justamente o meio de a elite exercer de fato, em n ome d o
p ovo, o p o d er que ela é obrigada a reconhecer a ele, mas ele não
saberia exercer sem arruin ar o próprio princípio do gover no\
Os discípulos de Rousseau , de sua parte, som ente a admitem re-
pudiando o qu e a palavra significa, ou seja, a representação dos
interesses particu lares. A vontade geral n ão se divide e os d epu-
tados representam apenas a nação em geral. Hoje, "d emocr acia
representativa" pode parecer um. p leon asm o, mas foi primeiro
um oximo ro.
Isso não q u er dizer q u e seja necessário opor as virtudes da
democracia direta às mediações e aos desvios da represent ação,
o u apelar das aparências mentirosas da democracia formal diante

A esse respeito, ver Pier re R osanvallon, Le sacre du citoyen, cit. , e Bernard


Manin, Principes du gouvernement représentatif, cit.
A democracia, diz Jo hn Adams, n ão significa nada mais do que "a noção
de um povo que não tem gove rno nenhum" . Citado por Bertlinde Laniel,
Le mot "democracy" et son histoire aux États- Unis de 1780 à 1856 (Saint- Étienne, Presses
de l'Université de Saint-Étienn e, 1995), p . 65.
D EMOCRA C fA , REP Ú BLICA, REPRESENT A ÇÃO 71

da efetividade de uma democracia real. É tão falso id en tificar


democracia e representação quanto faze r de urna a refutação
da outra. Democracia quer dizer precisamente o seguinte: as
formas jurídico-políticas das constituições e das leis de Estado
não repousam jamais sobre uma única e mesma lógica. O q u l·
chamam os de "democracia representativa" ( e seria mais cx.1 t n
chamar de sistema parlamentar ou, com o faz Raymon d A 11 111 ,
"regime con stitucional p luralista") é uma forma mista: lllll,1

form a de funcionamento d o Estado, fundamentad a inicial rnv 11


te n o p rivilégio das elites "naturais" e desviada aos p o u cos de su.1
função pelas lutas democráticas. A história sangrenta das l u Las
pela reforma eleitoral na Grã-Bretanha é, sem dúvida, o melhor
exemplo, complacentemente eclipsado pelo idílio de uma tra
<lição inglesa d a democracia "libe ral". O sufrágio universal não
é em absoluto uma consequência natural da democracia. A d '-
mocracia não t em con sequ ência natural p recisamente porque é
a divisão da "n atureza", o elo rompido entre p ropriedades natu -
rais e formas de governo. O sufrágio universal é uma forma mis-
ta, n ascida da o ligarquia, desviada pelo combate d emocrático e
perpetuamente reconquistada pela oligarquia, que subme te seu s
can didatos e às vezes suas decisões à escolha do corpo eleitoral,
sem nunca poder exclu ir o risco de que o corpo elei toral se com-
porte com o u ma população de sorteio .
A democracia nun ca se identifica com uma forma jurídico-
-política. Isso não quer dizer que lhe seja indiferente. Isso quer
dizer que o p o der do p ovo está sempre aquém e além dessas
O <Í D J O À O E ,\l O C R A C I A

..
f'urrnas. Aquém, porque elas não podem funcionar sem se r eferir,
1·111 ú Jtüna instância, a esse poder dos incompetentes que funda-
111 v11ta e nega o poder dos competentes, a essa igualdade que é
1w t t·ss:íria ao próprio funcionamento da máquina não igualitá-
11.1 . Ale m , porque as próprias formas que inscrevem esse poder
\,1, 1 t n n stantemente readequadas, pelo próprio jogo da máqui-
11,1 w 1vnn a11.1.ental, à lógica "natural" dos títulos para governar,
, p w ,. 11111~1 lógica da indistin_ç:ão do público e do privado. Uma
\ 1 .' q1 iv o vinc ulo com a natureza está cortado, e os governos
,1, 1 , ,l111 g.1dos a se mostrar como inst âncias do comum da co-
11111111! l.1dt'. scparadas da lógica única das relações de autorida-
.1, 111 1.1111•11tcs à reprodução do corpo social, existe uma esfera
111 ilil11 ,1 , 1u \.! é u11.1.a esfera de encontro e conflito entre as duas
1 1),',lt .1·, o pos tas da polícia e da política, do governo natural das
1

, 11111pvt1•11l"ias sociais e do governo de qualquer um. A prática es-


111 1111 o11W,l Jc tod o governo tende a estreitar essa esfera pública, a
11 ,111.~f e 1r111 ú- la em assunto privado seu e, para isso, a repelir para
1 \ 1do1 privad a as intervenções e os lugares de intervenção dos
11 11 11·/i 11 ,io est atais. Assim, a democracia, longe de ser a forma
il, , 1d,1 d os indivíduos empenhados em sua felicidade privada,
1 11 p n>tesso de luta contra essa privatização, o processo d e am-
1il 1.1~.io d essa esfera. Ampliar a esfera pública não significa, como
,li 11·md. o chamado discurso liberal, exigir a intervenção crescente
d,> listado n a sociedade. Significa lutar contra a divisão do públi-
' n e do privado que garante a dupla dominação da oligarquia no
12s tad o e na sociedade.
,;l

D EMO CRACIA, RE P ÚBL ICA , R EPR E SEN T AÇÃ O


73

Essa ampliação significou historicamente duas coisas: conse-


guir que fosse reconhecida a qualidade de iguais e de sujeitos po-
líticos àqueles que a lei d o Estado repelia para a vida priv ada dos
seres inferiores; conseguir que fosse reconhecido o caráter públi-
co d e tipos de espaço e de relações que eram deixados à mercê do
poder da riqueza. Isso significou, em primeiro lugar, lutas para
incluir entre os eleitores e os elegíveis todos aqueles que a lógica
policial excluía naturalmente : todos aqu eles que não possuem
título para participar da vida pública, p orque não pertencem à
"sociedade", mas apenas à vida doméstica e reprodutora, porque
seu trabalho pertence a um senhor ou a um esposo ( trabalha-
dores assalariados assimilados de longa data aos domésticos, que
d ependem de seus senhores e são incapazes de vontade própria,
mulheres submetidas à vontade de seus esposos e incumbidas da
família e da vida doméstica). Significou também lutas contra a
lógica natural do sistema eleitoral, que transforma a representa-
ção em r epresentação dos interesses dominantes e a eleição em
dispositivo destinado ao consentimento: candidaturas oficiais,
fraudes eleitorais, monopólios de fato d as candidatur as. Mas essa
ampliação compreende também todas as lutas para afirmar o ca-
ráter público de relações, instituições e espaços considerados pri-
vados. Essa última luta foi descrita em geral como movimento
social, em razão de seus lugares e de seus objetos: discussões so-
bre salár ios e condições de trabalho, batalhas sobre os sistemas de
saúde e aposentadoria. No entanto, essa designação é ambígua.
De fato , pressupõe como dada uma distribuição d o político e do
7
4 IO À D
O ÓD EMOCRAC
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O Ó DIO À DEMOCRAC I A

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, , 111s1i1uída, não tem nenhum direi to. Os direitos humanos são
, 111 ,11 1 os direitos vazios dos que não têm nenhum direito. Ou
1 111 .11, s.10 os dir eitos dos homens que pertencem a uma comu n i-
, l 1il1 11.11 io n al. Eles são então simplesmente os direitos dos cida-
' l.1t 1\ d1·ssa n ação, os direitos dos que têin direitos, portant o p ura
L,1111,dngi.t. Marx, ao contrário, vê nos direitos do cidadão a cons-
1111111, .111 d !.! uma esfera ideal cuja realidad e consist e nos d ireitos
,111 l11H11t·m, qu e não é o homem nu, mas o homem p r opriet ário
• ! l i< 1111 pc w .1 k i d e seus interesses, a lei da riqueza, sob a m áscara
,111 ,1111• 11 ,1 igual de todos.
1 •,·.,1~ 1l11.1s rosições coincidem em um ponto essencial: a von-
1 1,I, li, •1dl'ira de Platão, de reduzir a díade hom em e cidadão
1,, l',11 il 11s,10 e realidade, a preocupação de que o político tenha
11111 1111 11 n l' só p rincípio. O que ambas recusam é que o um da
I" il 1111 .1 cxis·t a apenas pelo suplemento anárquico expresso pela
1'·1l.1v r.1 tk m ocracia. Concorda-se de bom grad o com Hannah
\H·11d1 c..1uc o homem nu não tem direito que lhe per tença, que
11.i, 1 <' li 111 s ujeito político. Mas o cidadão dos textos constitucio-
11 11•, 11.tc> 0 mais sujeito político do que ele. O s sujeitos políticos
11 ,1, 1 ~v kkntificam nem com "homens" ou agrupamen tos de po-
11111.1~rn.:s nem com identidades definidas por textos constitucio-
11.111-1. l:ks se definem sempre por um intervalo entre identidades,
~•·J.1111 essas identidades determinadas pelas relações sociais ou
1w l.1s categorias jurídicas. O "cidadão" dos clubes revolucioná-
1ios é aq u ele que n ão r econhec e a oposição constitucional dos
cidadãos ativos (isto é, capazes de pagar o censo) e dos cidadãos
DEMOCRACIA, REPÚBLICA, REPRES EN T AÇÃO 77

passivos . O operár io ou o trabalhador com o sujeito político é 0

que se separa da at ribuição ao m u ndo p rivado, não político, que


esses termos implicam. Existem sujeitos políticos no intervalo
ent re diferentes nom es de su jeitos. H omem e cidadão são alguns
desses nom es, n o mes do comum, cu jas extensão e compreen são
são igualmente litigiosas e , por esse motivo, prestam-se a uma
suplementação política, a L1m exercício que verifica a quais sujei-
tos esses nomes se aplicam e a força qu e contêm.
Foi assim qu e a dualidad e d o homem e do cidadão pôde servir
à const rução de sujeitos políticos que põem em cen a e em cau-
sa a d u p l a lógica da dominação, a qu e separa o homem p ú blico
do indivíd uo privado para m elhor assegu rar, nas d u as esferas, a
m esma dominação. Par a que deixe de se identificar com a oposi-
ção da realidade e da ilusão, essa dualidade deve ser divid ida no-
vamente. À lógica policial de separação das esferas, a ação política
opõe ent ão o u tro u so do mesm o t exto jurídico, outra encen ação
da dualidad e entr e o h omem p ú blico e o privado . Ela subverte a
distribuição dos ter mos e dos lugares, jogando o homem contra
o cidadão e o cidadão contra o homem. Como nome político, o
cidadão opõe a regra da igualdade fixada pela lei e por seu p rin-
cípio às d esigu aldades que carac terizam os "homens", isto é, os
indivídu os privados, submetidos aos poderes do nascimento e da
riqueza. E, ao contrário, a refer ência ao "homem" opõe a igual
capacidade de todos a todas as privatizações da cid adania: as que
excluem da cidadania tal ou tal parte da população o u as que ex-
cluem tal ou tal domínio da vida coletiva do reino da igualdade
78 O ÓDIO À D E M OC R .",.(; IA

cidadã. Cada um desses termos cumpre então, polemicamente,


o papel do universal que se opõe ao particular. E a oposição da
"vida nua" à existência política é ela própria politizável.
É o que mostra o famoso silogismo introduzido por Olympe
de Gouges no Artigo 10 d e su a "Declaração dos direitos da mu-
lher e da cidadã": "a mulh er tem o direito de subir ao cadafalso;
mas ela deve igualmente ter o direito de subir à tribuna". Esse
raciocínio é bizarramente inserido no m eio do enunciado do di-
reito de opinião das mulheres, calcado no dos homens ("Nin-
g u ém deve ser molestado por suas opiniões, mesmo que sejam
de princípio; [... ] contanto que suas manifestações n ão pertur-
bem a ordem pública estabelecida pela lei")*. Mas essa mesma
bizarrice marca a torção da relação entre vida e cidadania que
fundamenta a reivindicação de um pertencimento das mulheres
à esfera da opinião política. Elas foram excluídas do benefício dos
direitos do cidadão em nome da divisão entre a esfera pública e a
esfera priv ada. Pertencendo à vida d oméstica, portanto ao mun-
do da p articularidade, elas são estranhas ao universal da esfera
cidadã. Olympe de Gouges inverte o argumento, apoiando-se
na tese que transforma a puniç ão no "direito" do culpado: se
as mulheres têm "o direito de subir ao cadafalso", se um poder
revolucionário pode condená-las a ele, é porque a própria vida

Olympe de Gouges, "Declaração dos direitos da mulher e da cidadã",


Interthesis, trad. Selvino José Assmann, Florianópolis, v. 4, n. 1, jan.-j un. 2007,
p. 3. (N. E.)
DEMOCRACIA , REPÚBLICA , R EPRES EN T AÇÃO

nua delas é política. A igualdade da sentenç a de morte anula a


evidência da distinção entre vida doméstica e vida política. Po r
tanto, as mulheres podem r eivindicar seu s direitos de mullw 1('1,
e cidadãs, um direito idêntico que, n o entanto, somente st.: ,if 11
ma na forma de suplemento.
Fazendo isso, elas refutam a demonstração de Burke O Lt 11.i 1111.1l 1
Arendt. Segundo eles, ou os direitos humanos são os dirt.:illl1' d11
cidadão, isto é, os direitos daqueles que têm direitos, o <Jlll' 1•

uma tautologia; ou os direitos do cidadão são os direitos hu111 ,1


nos. Mas, uma vez que o homem nu n ão têm direitos, sao t.: 1H.1< 1
os direitos dos que não têm nenhum direito , o que é um absl1r
do. Ora, entre as supostas pinças dessa tenaz lógica, Olympe c.k:
Gouges e seus companheiros inserem uma terceira possibilid a-
de: os "direitos da mulher e da cidadã" são os direitos daque las
que não têm os direitos que elas tê m e que têm os direitos que
elas n ão têm. Elas são arbitrariamente privadas dos direitos que a
d eclaração atribui sem distinção aos m embros da n ação francesa
e da espécie humana. Mas elas exercem também, por sua ação, o
direito do(a)s cidadão(ã)s que a lei lhes recu sa. Elas demon stram
desse modo que têm, sim, esses direitos que lhes são n egados.
"Ter" e "não ter" são termos que se desdobram. E a política é a
operação desse desdobramento. A moça n egra que, num dia d..:
d ezembro de 1955 em Montgomery, n o Alabama, decidiu per
manecer no lugar em que estava n o ônibus - lugar que n ão era
o dela - , d ecidiu com esse m esmó gesto que tinha como cidadã
dos Estados Unidos o direito que ela n ão tinha como morado ra
li O ÓDIO À DEMOCRAC I .\

..
il,· 11111 Estad o que proibia aquele lugar a qualquer indivíduo que
11 ,, s:-.v mais d o que 1/ 16 de sangue "não caucasiano" 5 . E os ne-
f!, 1, >\ d v M ontgomery que, diante desse conflito entre urna pes-
,, 1,1 111iv,1dn e uma empresa de transportes, decidiram boicotar
1, 1111 Hvsa agiram politicamente, pondo em cen a a dupla rela-
' ,1,, .11· \' xciL1 são e inclusão inscrita na dualidade do ser humano
,. .!, , , 1d.,d.to.
1 !\\<> llll l' implica o processo democrático: a ação de sujeitos
, 111, , 11 .il i.li h,tndo n o in tervalo das identidades, reconfiguram as
1li 11d 11 11 , 111•s d o p rivado e do público, do universal e do pa.rticu
l 11 \ , l,·111tH racia não pode jamais se identificar com a simples
, 11111111, .1,.1,, do L1niversal sobre o particular. Pois, segundo a ló-
f l• 1 .1., p1 il111,1, o universal é contin uamente privatizado, conti-
1111,11,11•1111· rl'JL1zido a uma div isão do poder entre nascimento,
111111,·z.1 1· "co mpe tência" que atua tanto no Estado quanto na
\111 1,•, l.1d \'. 1:ssa privatização se efetua comumente em nome da
111111 .. 1 d .1 vida pública, que é o p ost a às particularidades da vida
1•1 1\ ,1, l.1 <H I do mundo social. Mas essa pretensa pureza do p olí-
11111, .1p1·11 ,1s a de uma distribuição dos termos, de u m d ado es-
1 1, I,,, l.1·, 1\' l,t1,-ões entre as formas sociais do poder da riqu eza e as
l• IJ 111,1, d,· privatização estatal do poder de todos. O argumento

'-.11111 ., ,IS legislações raciais dos Estados sulinos, remeto a Pauli Murray
( 111 ~1 ), .l'tot,•l l,aws on Race and Calor (Athens, University of Georgia Press, 1997).
\, 1\ q111· t'r)l;uem a q ualqu er propósito o espantalho do "comunitarismo", essa

1, 11111 ,1 poderá dar uma noção um pouco mais precisa do qu e pode significar a
11111 11·, ,10 c.le uma identidade comunitária, estritamente entendida.
DE:VIOCRACIA, REPÚBLICA, REPRESE!'-TAÇÃO 81

confirma apenas o que pressupõe: a separação entre os que são


o u não são "destinados" a se ocupar com a vida pública e com a
distribuição do público e d o privad o. Portanto, o processo demo-
crático deve constantemente trazer d e volta ao jogo o universal
em uma forma polêmica. O processo democrático é o p rocesso
desse pe rpétuo pôr em jogo, dessa invenção de formas de subje-
tiv ação e d e casos de verificação que contrariam a perpétua pri-
vatização da vida pública. A d emocracia significa, nesse sentido,
a impureza da política, a rejeição da pretensão dos governos de
encarnar um princípio uno da vida pública e , com isso, circuns-
crever a compreensão e a extensão dessa vida pública. Se existe
uma "ilimitação" própria à democracia, é nisso que ela reside:
n ão na multiplicação exponencial das necessidades ou dos dese-
jos que emanam dos indivíduos, mas no movimento que desloca
continuamente os lim ites d o público e d o privado, d o político e
d o social.
É esse deslocamento iner ente à própria política que a chama-
da ideologia republicana recusa. Esta exige a estrita delimitação
das esferas do político e do social e identifica a república com o
r ein o da lei, indiferente a tod as as p articularidades. Foi assim que
ela argumentou sua discussão sobre a reforma escolar nos anos
1980. Propagou a simples doutrina de uma escola repu blicana e
laica, que distribui a todos o m esmo saber sem considerar dife-
renças sociais. Estabeleceu como dogma republicano a separação
entre a instrução, isto é, a transmissão dos saberes, que é assunto
público, e a educação, que é privado . Então atribuiu como causa
82 O ÓDIO À DEMOCRACIA

da "crise da escola" a invasão da instituição escolar pela sociedade


e acu sou os sociólogos d e terem se transformado nos inst ru-
mentos d essa invasão, p r opondo reformas que consagravam a
confusão entre a e ducação e a instrução . A república assim en-
tendida pareceu se colocar, portanto, como o reino da igualdade
encarnad o n a neu tralidad e da instituição estatal, indiferente às
difer enças sociais. Pode cau sar espanto qu e o p rincipal teórico
dessa escola laica e r epublicana apresen te hoje, como único o bs-
táculo ao suicídio da humanidade democrática, a lei da filiação
en car nada no pai que incita os filh os a estudar os textos sagrados
de u m a religião. M as o ap ar ente parad oxo mostr a justamente o
equívoco qu e estava escondido na referência simples a u ma tra-
dição r ep u blicana da separ ação ent re Estad o e sociedade.
A palavra república não pode significar simplesmente o reino
da lei igual par a tod os. República é um termo ambíg u o, perseguido
pela tensão implicada pela vontade de incluir nas formas institu í-
das do político o excesso da política. In cluir esse excesso qu er dizer duas
coisas contraditórias: recon hecê-lo, estabelecend o-o nos textos e
nas form as d a instituição comunitária, mas também sup rimi-lo,
identificando as leis do Estado com os costumes de uma sociedad e.
De um lad o, a república m od ern a id entifica-se com o reino de uma
lei que emana de u m a vontade popular que inclui o excesso do
dêmos. Mas, de ou t ro, a in clusão desse excesso exige um princípio
regulador : a rep ública precisa não som ente das leis, mas também
dos costumes republicanos. A repú blica é um regime de h om oge-
neidade entre as instituições do Estado e os costumes da sociedade.
DEMOCRACIA, REPÚBLICA, REPRESEKTAÇÃO ~\

A tradição republicana, n esse sen tido, não remonta nem a Roussed11


n em a Maquiavel. Remonta propriamente à politeia platônica. 0 1.1,
esta não é o reino da igualdade pela lei, da igualdade "aritmetH .1"
entre u n idades equivalentes. É o r eino d a igualdade geomet 11 , .1,
que coloca os que valem mais acima dos que valem menos. ~v11
princípio n ão é a lei escrita e semelhante p ara tod os, mas .t vd 11, ,1

ção que dota cad a pessoa e cada classe da virtude própria J svu li lf, ' 1
e a su a função. A r epública assim en ten dida não op õe sua 1111 H l.1.!, •
à diversidade sociológica. Pois a socio logia n ão é a crônica d.t d1vt·1
sidade so cial. Ao contrár io , é a visão d o corp o social homogl'IH'< 1,
que opõe seu princípio vital in terno à abstração da lei. RcpL1bl1L.1 1·

sociologia são, nesse sentido, os dois nomes de u m mesmo pro jct11:


restaurar para além do esgarçamento democrático uma o rc.le111
política que seja homogên ea com o modo de vida de uma s0Li1•d,1
de. É exatamente o qu e Platão propõe, isto é, u ma comu1111 l.1d,·
cujas leis não sejam fórm ulas m ortas, mas a própria respira~,i<l d.i
sociedade: os con selh os dados pelos sábios e o movimento inte l'in
rizado desde o n ascimento pelos corpos dos cidadãos, expresso pe
los coros d ançan tes da cidade. Foi o qu e propôs a ciência sociológica
moderna após a Revolução Fr ancesa: remediar o esgarçamento
"protestante", individ u alista, do tecido social antigo, organizado
pelo poder do n asciment o; opor à dispersão democrática a recons-
tituição de um corpo social bem distribuído em su as funções e hie-
rarquias n aturais e unido por crenças comuns.
Portanto, a ideia r epublicana n ão pode ser definida como lim i-
tação da sociedade pelo Estado. Implica sempre o trabalho de uma
11 CÍ LJIO À D E MOCRACIA

..
, ti 11, .1, .1n C[Ue harmonize ou rearrnonize as leis e os costumes, o
1,1, 111.1 d..is formas institucionais e a disposição do corpo social.
l l,1 ,l11.1s maneiras de pensar essa educação. Alguns já a veem em
1,, ,111 1111 1 orpo social, do qual é preciso apenas extraí-la: a lógica do
11 ,1 , 111 w11lo e da riqueza produz uma elite das "capacidades" que
1, 111 11·1111)() e m eios de se esclarecer e impor a moderação repu-
lil 1< ,111.1 ,1 .111.trquia democrática. É o pensamento dominante dos
l',11·, 1 1111d.1dores no rte- americanos. Para outros, o próprio sistema
, l.1• , .q 1,11 1d.1dcs está desfeito e a ciência deve reconstituir a har-
11111111,1 1·111n· EsLado e sociedade. Esse pensamento fundamentou
1, 111111• 11.1d.1 1.:d u cativa na Terceira República francesa. :Nias essa
, 1111111 11,,d.1 11u11ca se reduziu ao simples modelo projetado pelos
1t 111il1l11 .111ns" do nosso tempo. Ele foi um combate em duas fren-
1, •, < >111.\ ,11 1.i 11car as elites e o povo do poder d a Igreja Católica e da
1111111.11q111.1" que aquela servia. Contudo, esse programa não tem
11 1.l,1 ,1 v1 ·1 1 0111 o projeto de urna separação entre Estado e socie-
, l.1, I, , 11 L\ l I uc; ào e educação. Na verdade, a república nascente subs-
' 11 \ 1•11 e, prngrama sociológico: refazer um tecido social homo-
~·· 111 , 1 q t l\' s u ceda, par a além do esgarçamento r evolu cionário e
ti, 111111 1.11 ico, ao antigo tecido da monarquia e da religião. Por isso
, , , 11l 1t·l.1, .une nto da instrução e da educação é tão fundamental.
\ , f 1.1s1·s q_ue introduzem os alunos da escola primária no mundo
, lo1 11·i l LI ra e da escrita d evem ser indissociáveis das virtudes morais
qrn· fix am seu uso. E, na outra ponta da cadeia, espera-se que os
,•,v mplos dados por urna literatura latina livre das vãs sutilezas
f do Iógicas passem suas virtudes à elite dirigente.
DE M OC RA CI A , REP ÚB LICA, R E PRES E NTA Ç ÃO

É por isso também que a escola republicana se divide de ime-


diato em duas visões opostas. O programa de Jules Ferry repousa
sobre uma equação postulada entre a unidade da ciência e a da
von tade popular. Identificando república e democracia como
urna ordem social e política indivisível, Ferry reivindic a, em
nome de Condorcet e da revolução, um ensino que seja homo-
gêneo do mais al to ao m ais baixo grau. Sua vontade de suprimir
as barreiras entre primário, secundário e superior e sua defesa de
urna escola aberta para o exterior, n a qual a instrução básica re-
pouse sobr e a diversão das "lições das coisas", e não sobre a auste-
ridade das regras da gramática, e de um ensino moderno que dê
as mesmas oportunidades que o ensino clássico soariarn rnuilu
mal aos ouvid os de muitos de nossos "republicanos" 6 . Em todo
caso, su scitam à época a h ostilidade dos que veem nisso a invasão
da república pela democracia. Estes militam por um ensino que
separa claramente as duas funções da escola pública: transmitir

Ver Discours et opinions de Jules Ferry, editados por Paul Robiquet (Paris, Armand
Colin, 1893-1898), cujo s tomos III e IV são dedicados às leis escolares. Ferdinand
Buisson, em sua intervenção na Cérémonie de la Sorbonne en l'honneur de Jules Ferry
(20 décembre 1906) (Paris, Veuve Drevet et Fils, 1907), enfatiza a radicalidade
pedagógica do moderado Ferry, citando em especial sua declaração no con-
gresso pedagógico de 19 de abril de 1881: "De hoje em diante, entre o ensino
secundário e o ensino primário, não há mais abismo intransponível, n em
quanto ao pessoal nem quanto aos métodos". Isso será lembrado durante a
campanha dos "republicanos" dos anos 1980, que denunciavam a penetração
dos professores primários como "professores de ensino geral" nos ginásios e
deploravam, sem se dar ao trabalho de examinar a realidade material de suas
competências, a "primarização" do ensino secundário.
86 O ÓDIO À DEMOCRACIA

ao povo o que l he é útil e formar uma elite capaz de se elevar aci-


ma do utilitarismo a que estão fadados os homens do povo7 . Para
eles, a distribuição de um saber deve ser sempre, ao mesmo tem-
po, a impregnação de um "meio" e de um "corpo" que os torne
apropriados a sua d estinação social. O mal absoluto é a confusão
dos meios. Ora, a raiz dessa confusão está em um vício que tem
dois nomes equivalentes: igualitarismo ou individualismo. A "falsa de-
mocracia", a democracia "individualista", conduz a civilização,
segundo e les, a uma avalanche de mal es que Alfred Fouillée des-
creve em 1910, na qual o leitor dos jornais dos primeiros anos
do século XXI reconhecerá sem nenhuma dificul dade os efeitos
catastróficos de Maio de 1968, da liberação sexual e do reino do
consumo de massa:

O individualismo absoluto, cujos princípios os próprios socialistas ado-


tam com frequência, gostaria que os filhos [...] não fossem em absoluto
solidários com suas famílias, que fossem cada um como um indivíduo
X, [...] caído do céu, capaz de fazer qualquer coisa, não tendo outras
regras além dos acasos de seus gostos. Tudo que pode unir os homens
entre eles parece uma corrente servil à democracia individualista.

Ela começa a se revoltar até contra a diferença dos sexos e as obri-


gações que essa diferença acarreta: por que educar as mulheres de

Ver Alfred Fouillée, Les études classiques et la démocratie (Paris, Armand Colin,
1898). Para avaliar a importância da figura de Fouillée na época, devemos lem-
brar que sua esposa é autora do best-seller da literatura pedagógica republicana,
Le tour de France de deux enfants (Paris, Veuve Eu gene Belin et Fils, 1884).
DEMOCRACIA, REPÚBLICA, REP RES ENTA Ç Ã O

maneira diferente dos homens, e à parte, e para profissões dilnt·11


tes 1 Vamos juntá-los no mesmo regime e no mesmo caldo ck111if1111,
histórico e geográfico, nos mesmos exercícios geométricos; v.11 111 1·,
abrir a todos e a todas igualmente todas as car reiras. [...) O ill(li v1d 111,
anônimo, insexual, sem ancestrais, sem tradição, sem m eio, st·111 \ 111
culo de nenhuma espécie, eis - como Taine previu - o hrn11t·111 d.i
falsa democracia, aquele que vota e cuja voz conta como 11111, q111 1 ,
chame Thiers, Gambetta, Taine, Pasteur, quer se c h a nw V.11 l 11 ,
O indivíduo acabará sozinho com seu eu, no lugar de todos m ", ~, <1
ritos coletivos", no lugar de todos os meios profissio n ais tpit· , 11,11 .1111 ,
através dos tempos, os la_ços de solidariedade e pres<.:rv.i(, .i, 1 "·" 11 ,
<lições da honra comum. Será o triunfo do indiviclua lis1110 ,11, 11111 1 1,
isto é, ela força, do número e da astúcia.•

Como a atomização dos indivíduos acaba sig nifi <.: .i nd(),, 11 1u 11


fo do número e da força, pode ser algo obscuro para t, k1l111 1\ l.1 .
esse é precisamente o grande subterfúgio que o r e<.: u l'so .11, , 1111
ceito de "individualismo" introdu z. O fato d e o indi vid 11 ,tl 1i11111
encontrar tal desfavor em pessoas que, por outro laJ o, d1·1 l.11 , 1, 1
sua profunda repulsa pelo coletivismo e pelo totalitar-i:-n , 1e , 1 u 111
enigma fácil de resolver . Não é a coletividade em gemi , p tt' , , 1 11
tico do "individualismo democrático" defende com ta11t.1 p,11:-. 11,

É certa coletividade, a cole tividade bem hierarquizada dos , 111 I'', ,

Respectivamente, os sobrenomes de dois estadistas e dois pensado,,·~ l1 11,


ceses, seguidos por um de origem popular. (N. E.)
Alfred Fouillée, La démocratie politique et sociale en France (Paris, Félix 1\ 1, 111
1910), p. 131-2.
O Ó DJO À DEMOCRAC I A

..
,l"•i 111c ios e das "atmosferas" que adaptam os saberes às fileiras
",1, .i S,Lbi a direção de uma elite. E não é o individualismo que ele
11•J<·11.1, m as a possibilidade de qualquer um partilhar de suas prer-
11 1g,111 v.1s. A crítica ao "individualismo democrático" é simples-
1111 • 111 v o od io à igualdade pelo qual uma intelligentsia dominante
11111111111,1 <.[Ue é a elite qualificada para dirigir o cego rebanho.
'-:v 1i.1 injus to confundir a república de Jules Ferry com a de
1\ ll 11•d l'o uill ée . Em compensação, é justo reconhecer que os
" 1q11tl 1lil .in os" d os nossos tempos estão mais próximos do se-
~1 11111111 d 11 qu e do primeiro. Bem mais do que das Luzes e do
L' I ,111111• s, 111 ho de educação erudita e igualitária do povo, são her-
' 11 11 1l', 1l.1 wande obsessão da "desfiliação", da "desvinculação" e
, l 1 1111~1111·,11a ta l das condições e dos sexos produzidos pela ruína
d .is 111·d l• 11s l' d os corpos tradicionais. O que importa é, sobr e-
111d, 1, 1 om p reender a tensão que h abita a ideia de r epública, de
11111 s1s ll' m a d e instituições, leis e costumes q u e su prime o exces-
•,, 1 d 1·111eic rá tico homogeneizando Estado e sociedade. A escola,
p, l.1 q11,tl o Es tado distribui ao mesmo tempo os elementos da
[11 1111.1\ ,tO d os homens e dos cidadãos, oferece-se naturalmente
, 11111n ,1 ins tituição adequada para realizar essa ideia. Mas não
1•, 1s lv111 razões particulares para que a distribuição dos saberes -
111 .11 v111 a Lica ou latim, ciências naturais ou filosofia - forme mais
, 1d.1d,Ios para a república do que conselheiros para os príncipes
1ll1 dérigos para o ser viço de Deus. A distribuição dos saberes
ti.:m eficácia social somente na medida em que é também uma
( re)distribuição das posições. Para medir a relação entre as duas
DEMOC RACIA, REPÚBLI CA, REPRES ENTAÇÃO 89

distribuições, é necessária uma ciên cia a mais. Desde Platão, essa


ciência real tem nome: chama-se ciência política. Tal como foi
imaginada, de Platão a Jules Ferry, deveria unificar os saberes e
definir, a partir dessa unidade, uma vontade e uma direção co-
muns do Estado e da sociedade. Mas sempre.faltou a essa ciência
a única coisa n ecessária para regular o excesso constitutivo da
política: a determinação da justa proporção entre igualdade e
desigualdade. Existe, é claro, t o d o tipo de arranjo institucional
que permite aos Estados e aos governos apresentar aos oligar c as
e aos democratas o rosto que cada u m deseja ver. Aristóteles
apresenta, no quarto livro da Poli'tica, a teoria ainda não sup era-
da dessa arte . Contudo, não existe ciência da justa medida en-
tre igualdade e desigualdade. E menos ainda quando estoura o
conflito entre a ilimitação capitalista da riqueza e a ilimitação
democrática da política. A república gostaria de ser o governo
da igualdade democrática pela ciência da justa proporção . Mas
quando o deus falta à justa distribuição do ouro, da prata e do
ferro entre as almas, essa ciência também falta. E o governo da
ciência é condenado a ser o governo das "elites naturais", no
qual o poder social das competências científicas se combina
com os poderes sociais do nascimento e da riqueza, arriscando-se
a suscitar mais uma vez a desordem democrática que d esloca a
fronteira do político.
Para eliminar essa tensão inerente ao projeto republicano de
homogeneidade entre Estado e sociedade, a ideologia neorrepubli-
cana elimin a a própria política. Sua defesa da instrução pública e
90 O Ó DI O À D E M O C R A C 1 .\

da pureza política equivale a situar a política u nicamente na esfera


estatal, com o risco de pedir aos gestores do Estado que sigam os
conselhos da elite esclarecida. As grandes p roclamações republica-
nas do ret orno à política nos anos 1990 serviram, em essência, para
apoiar as decisões dos governos, no mesmo m o mento em que as-·
sinaram a extinção do político diante das exigências da ilimitação
mundial do capital, e p ara estigmatizar como atraso "populista"
qualquer combate político contra essa extin ção. Restava colocar a
ilirnitação da riqueza, com ingenuidade ou cinismo, na conta do
apetite devorador dos indivíduos democráticos e transformar
essa democracia devoradora na grande catást r ofe pela qual a
h umanidade destrói a si mesma.
AS RAZÕES DE U M ÓDIO

Agora podem os voltar aos termos do nosso p ro ble m a i11 11 1.il


vivemos em sociedades e Estados que se d enomina1n "d t.:1lH H 1,1
cias" e , por esse termo , distinguem-se das sociedades gov1·111 ,1
das p or Est ados sem lei ou p el a lei r eligiosa. Como com prev 11d1• 1
qu e, no interior dessas "d em ocr acias" , u ma intelli3entsia d o n1i 11.111
te, cuja situação não é desesperada e que pouco aspira a vive r s, 111
outras leis, acuse dia após dia, entre todas as desgraças hL1m ,111.1 s,
um único mal, chamado democracia?
Considerem os as coisas e m o rde m. O que q u eremos c.l i,.;v 1
exatamente quando dizemos que vivemos em demo crac i.1s 1
Estritamente entendida, a democracia não é uma for m a d1·
O ÓDIO À DEMOCRACIA

..
h 1.ido. Ela está sempre aquém e além dessas formas. Aquém,
, , "110 f"u ndamento igualitário n ecessário e necessariamente
, ~q1 1v, ido do Estado oligárquico. Além, como atividade pú-
l1l 1, ,1 q u e contraria a tendência de todo Estado de m onopo-
11,,.ir ,. t k spolitizar a esfera comum. ~odo Estado é oligárquico.
el 11·111il..o d a oposição entre de m ocracia e totalitarismo con-
1 < lid.1 svrn nenhuma.dificuldade: "Não se pode conceber re-
i,1, 11111· quv, em algum sentido, não seja oligárquico" 1.G\.1as a
ril 1~:,11 q111.1 dá à democracia mais ou menos espaço, é mais ou
11 11 1111~ 111 vadi da por sua a tividad;: Nesse sentido, as formas
, , 111 s 11111t ionais e as práticas dos governos oligárquicos po-
' h 111 •,1· r den ominadas mais ou menos democráticas . Toma-
'"' li ,\ 11.il mente a existência de um sistema representativo
, 11111<i e ri Lé rio pertinent e de democracia. M as esse sist ema
,. v k próprio um compromisso instável , uma resultante d e
1n 1\ .is co ntrárias. Ele tende para a d emocracia na medida em
'i' " ' Sl' aproxima do poder de qualquer um. Desse ponto de
v1~l.1, p odemos enumerar as regras que definem o mínimo
111•1 ,·ss.irio para um sist ema representativo se declarar demo-
1 1,11 H o: mandatos eleitorais cu rtos, não acumuláveis, não
, ,. 1wv,1veis; monopólio d os r epresentantes do povo sobre a
,·1.iboração das leis; proibição d e que funcion ários do Estado
representem o povo; r edução ao mínimo de campanhas e

Raymond Aron, Démocratie et totalitarisme (Paris, Gallimard, 1965, Coleção


Idées), p. 134.
AS RAZÕES DE U:11 ÓDIO 93

gastos com campa:1ha e controle da ingerência das potências


econôm icas nos processos e leitor ais. Essas regras não têm
n ada d e extr avagante e, no passado, muitos pensadores ou
legisl adores, pouco inclinados ao amo r irrefletido pelo povo,
examinaram-nas atentamente como meios para garantir o
equilíbrio dos poderes, dissociar a representação da vontade
geral da representação dos interesses particulares e evitar o
que consideraram o pior dos governos : o governo dos que
amam o poder e são hábeis em se assenhorar dele. Contu-
do, basta enumerá-los h oje para provocar riso . E com toda
razão, pois o que chamamos de democracia é um funciona-
mento estatal e governament al que é o exato contrário: elei-
tos eter nos, que ac umulam ou al tern am funções municipais,
estad u ais, legislativas ou ministeriais, e veem a popul ação
como o elo fundamental da representação dos interesses lo-
cais; governos que fazem eles mesmos as leis; r epresentantes
do povo maciç ame nte formados em certa escol a de adminis-
traç ão; ministros o u assessores de ministros realocados em
empresas públicas o u semipúblicas; partidos financiados por
fraudes nos contratos públicos; empresários investindo u ma
quantidade colossal de dinheiro em busca de um mandato;
d onus de impérios midiá.ticos privados apoderando-se do
império das mídias públicas por meio de suas funções públi-
cas. Em resumo: apropriação da coisa pública por u ma sólida
alian ç~ ~ntre a oligarquia estatal e a econômica.. É compreen-
... - • k • .,_ • - · -· ;:,,

sível que os depreciado r es do "ind ividualismo democrático"


..
94 O ÓDIO À DEMOCRACIA

não tenham o que censurar a esse sistema d e predação da


coisa e do bem públicos . De fato, essas formas de hiperconsu -
mo dos empregos públicos n ão dizem respeito à d emocracia.
Os males de que sofrem nossas "democr acias" estão ligados
11
1 em primei ro lugar ao apetite in saciável dos o ligarcas .
~ -ã_o _:7ivem os em democracias. Tamp ouco vivemos em cam-
pos, como gar antem cer tos autores que nos veem subm e tidos

-·-
à lei de exceção do gover no biopolítico. Vivem os em Est ados de
:.;., ." ......_ ·-
d~:ei t_C?_ ?._~igárquicos_,_ isto é, em Estados em que o poder da oligar-
quia é limit ado pelo d uplo reconhecimento da sober ania popular
e das liberdades individuais. Conhecemos bem as van tagens desse
tipo de Estado, assim como seus limites. As eleições são livres. Em
essên cia, assegur am a reprodução, com legendas in tercambiáveis,
do mesmo pessoal dominante, mas as urnas n ão são fraudadas
e qualquer um pode se certificar disso sem arriscar a vida. A ad-
m inistração não é corrompida, exceto na questão dos contratos
públicos, em qu e ela se confunde com os interesses dos partidos
dominantes. As liberdades dos indivíduos são respeitadas, à custa
de notáveis exceções em tud o que diga respeito à proteção das
fronteiras e à seguran ça do território . A imprensa é livre: quem
quiser fundar um jornal ou u ma emissora de televisão com ca-
pacidade para atingir o conjunto da p opulação, sem a ajuda das
potências financeiras, terá sérias dificuldades, mas não será pre-
so. Os direitos d e associação, reunião e manifestação permitem
a organização de uma vida democrática, isto é, uma vida política
independente da esfera estatal. Permitir é evidentemente um a
AS RA ZÕE S DE U :Vl ÓD I O 95

palavra ambígua. Essas liberdades não são dádivas dos oligarcas.


Foram conquistadas pela ação democrática e sua efetividade so-
mente é mantid a por meio dessa ação. Os "direitos do homem e
do cidadão" são os direitos daqueles que os torn am reais.
Os esp íritos otimistas dedu zem disso que o Estado oligárq ui
co de direit o realiza esse equilfbrio bem-sucedido d os contrárioN
por onde, segund o Arist óteles, os mau s governos se aproxi 111a111
do impossível bom governo. Uma "democracia" seria, e m rcs u
mo, uma oligarquia que dá à democracia espaço suficiente para
alimentar sua paixão. Os espíritos melancólicos invertem o arg u-
mento. O governo pacífico da oligarquia desvia as paixões dem o-
cráticas para os prazeres privados e as torna insensíveis ao b em co-
m um. Basta ver o que vem acontecendo n a França, dizem. Temos
uma constituição admiravelmente feita para que nosso país seja
bem governado e fique feliz em sê-lo: o chamado sistema majori-
tário elimina os partidos extremos e dá aos "partid os de governo"
o meio de govern ar em alternância; desse modo, permite à maio-
ria - isto é, à minoria mais forte - governar sem oposição durante
cinco anos e t om ar, para a garantia da estabilidade, todas as me-
didas que, para o bem comu m, o imprevist o das circunstâncias e
a previsão de longo prazo exigem. De um lado, essa alternância
satisfaz o gosto democrático pela mudança. De outro, com o os
membros desses partidos de governo estudaram a m esma coisa
nas mesmas escolas de onde saem também os especialist as em
gestão da coisa comum, tendem a adotar as mesmas so lus-õ<.:s
que fazem a ciência dos especialistas primar sobre as p ai..'CÕ<..:s c.l.t
O ÔD IO .\ D E .\1 O C IZ A C l A

..
rrllil tidão. Cria-se assim urna cultura do cons~nso que repudia
, ,:, 111I1fli tos antigos, habitua a objetivar sem paixão os problemas
1li · L 11n o e longo prazo que as sociedades encontram, a pedir so-
l11, 1ks ,LOS especialistas e discuti-las com os representantes quali-
f 11 , 11 lns d os grandes interesses sociais. Infelizmente, todas as boas
, 1,1:,.1.,; 1c?m seu anverso: a multidão desobrigada da preocupação
.!1• W1vv rn ar fica entregue a suas paixões privadas e egoístas. Ou
" ~ 11 Hli v1duos que a compõem se desinteressam do bem público
1• ~1· ,1hs tl' 111 d e votar nas eleições, o u as abordam unicamente do
I" ,111 11 d v vista de seus interesses e caprichos de consumidores. Em
111"1 11• d1 · St:t is interesses corporativistas imediatos, opõem greves
, 111,111 11 l'11 l a~:ões às medidas que visam garantir o futuro dos siste-
111.1·, .!1· .rposentadoria; em nome de seus caprichos individuais, es-
11d111·111 11..1.s e leições o candidato que mais lhes agrada, da mesma
111.11 11·11·,1 c.1ue escolhem entre os inúmeros tipos de pão que aspa-
1 l.111,1,; dvscoladas oferecem. O resultado é que os "candidatos de
1 11111"/I11" ~anha1n mais votos do que os "candidatos de governo".
l'11dn1.1mos o bjetar muitas coisas a esse raciocínio. O inevi-
1 1\. ,•I ,11 )J. ll 111ento do "individualismo democrático" é contestado
11 1111 ,, 1)111 0 em qualquer parte, pelos fatos. Não é verdade que
1 ,1•,1111111s a um avanço inelutável da abstenção. Ao contrário,
, I, \.1 11.1111 0s ver o sinal de uma constância cívica admirável no
111111H·r11 e levado de eleitores que continuam a se mobilizar
I '" ' ,1 ,·sc olher entre r epresentantes equivalentes de uma oligar-
•1111 ,1 de Estado que deu tantas provas de mediocridade, quando
r'
11.111 de corrupção:...E a paixão democrática que incomoda tanto os
AS RAZÕES DE UM ÓD!O 97

"candidatos de governo" não é um capricho dos consumidores ,


é simplesmente o desejo de que a política signifique mais do que
uma escolha entre oligarcas substituíveii] Mas é melhor con-
siderar o argumento a partir de seu ponto forte. O que ele nos
diz é, na realidade, muito simpl es e exato: o admirável sistema
que dá à minoria mais forte o poder de governar sem distúr-
bios e criar uma maioria e urna oposição que estão de acordo com
as políticas a ser praticadas tende à paralisia da própria máqui-
na oligárquica. O que causa essa paralisia é a contradição en-
tre dois princípios de legitimidade. De um lado, nossos Estados
oligárquicos de direito referem-se a um princípio de soberania
popular. Essa noção, é claro, é ambígua tanto em seu princípio
quanto em sua aplicação. A soberania popular é uma maneira
de incluir o excesso democrático, transformar em arkhé o prin-
cípio anárquico da singularidade política - o governo dos que
não têm título para governar. E ela encontr a sua aplicação no sis-
tema contraditório da representação. Mas a contradição nunca
matou aquilo que tem a tensão dos contrários como o próprio
princípio de sua existência. Bem ou mal, a ficção do "povo sobe -
rano" serviu como traço de união entre a lógica governamen-
tal e as práticas políticas que são sempr e práticas de divisão do
pov~, de constituição de um povo suplementar em r elação ao
que está inscrito na constituição, representado por parlamen-
tares ou encarnado no Estado. A p r ó pria vitalidade de nossos
parlamentos foi alimentada e sustentada no passado pelos parti-
dos operários que denunciavam a mentira da representação.
11 111 O ÓD IO À D E MOCRACIA
..
,·i1lffo entre dois sistemas de razões opostas: ela é legitimada, de
111 n l.ad o , pela virtude da escolha popular e, de outro, pela ca-
p,11 i,Lidc d os governantes de escolher as soluções certas para os
11111hlí:mas das sociedades. Ora, as soluções certas são reconheci-
d .1~ pvlo fato de que não precisam ser escolhidas, pois decorrem
do t 0 11 h ecim ento do estado objetivo das coisas, que é assunto
11.11 ., o saber esp e cialista, e não para a escolha popular.
J.r paS,fü LL o tempo, portanto, em que a divisão do povo era su-
l,, 11·11t v111 e 11te a tiva e a ciência era suficientem ente modesta para
' I"'' ns princípios opostos preservassem sua coexistência. Hoje,
r .il r,111, .i o Iigárq uica da riqueza e da ciência exige todo o poder
, 11 .111 .1dmi tc que o povo ainda possa se dividir e se multiplicar.
~1.1 ~ ., di visão que é expulsa dos princípios retorna por todos os
l III, 1•1 1:1,1 retorna no crescimento dos partidos de extrema direita,
du·: 111 nvi rn cntos identitários e dos fundamentalismos religiosos,
q11 1· ,IJ w lam, contra o consen so oligárquico, ao velho princí-
11111 dn 11ascünento e da filiação, a uma comunidade enraizada
11,1 1n, .1, no sangue e na religião dos antepassados . Ela retorna
l,1111l w111 n a 1n ultiplicidade dos combates que rejeitam a neces-
11l.1tl " vco n ômica mundial da qual se vale a ordem consensual
1111 ,1 qu t'S Lion ar mais uma vez os sistemas de saúde e de aposen-
1.11l n 1i,1 o u o direito do t rabalho . Ela retorna enfim no próprio
l 111 1t io 11 a1nento d o sistema eleitoral, quando as soluções únicas
tjlll' se in1põem tanto aos governantes quanto aos governados
·w > s ubme tidas à escolha imprevisível destes últimos. O recente
, t·l'erendo europeu forn eceu a prova. Para os que submeteram
AS R A ZÕES DE UM Ó D:O 101

a questão ao referendo , o voto deveria ser entendido segundo o


sentido primitivo de "eleição" no Ocidente: uma aprovação dada
pelo povo r e unido aos que são qualificados para guiá-lo . E ele
deveria fazer isso, sobretudo, porque a elite dos especialistas de
Estado afirmavam unanimemente que a questão não tinha ca-
bimento, bastava seguir a lógica dos acordos já existentes e em
conformidade com os interesses de todos. A principal surpresa
d o referendo foi a seguinte: uma maioria de votantes considerou,
ao contrário, que a questão era pertinente, dizia respeito não à
adesão da população, mas à soberania do povo e este, portan-
to, podia responder tanto "sim''. quanto "não". Sabemos o que
aconteceu depois. Sabemos também que os oligarcas, seus es-
pecialistas e seus ideólogos encontraram a explicação para esse
infortúnio, assim como para todos os problemas do consenso:
se a ciência não consegue impor sua legitimidade, é por causa
da ignorância. Se o progresso não progride, é por causa dos re-
tardatários. Uma palavra, infinitament e repetida por todos os
intelectuais, resume essa explicação: "populismo ". Com esse ter-
mo, tenta-se classificar todas as formas de secessão em relação ao
consenso dominante, quer se refiram à a.firmação democrática,
quer aos fanatismos raciais ou religiosos. E tenta-se dar ao con-
junto assim constituído um único princípio: a ignorância dos
atrasados, o apego ao passado, seja ele o das vantagens sociais,
dos ideais revolucionários ou da religião dos antepassados. Po- ~(,
1/
pulismo é o nome cômodo com que se dissimula a contradição
entre legitimidade popular e científica, a dificuldade do g o verno
O ÓDIO À DEMOCRACIA
..
I02

da ciência para aceitar as manifestações da democracia e mesmo


a forma mista do sistema representativo. Esse nome mascara e ao
mesmo tempo revela a grande aspir ação da oligarquia: governar
sem povo, isto é, sem divisão do povo; governar sem política.
E permite ao governo científico exorcizar a velha aporia: como a
ciência pode governar aqueles que não a entendem? Essa pergun-
ta de sempre encontra outra mais contemporânea: como se de-
termina exatamente essa medida, da qual o governo especialista
declara conhecer o segredo, entre o bem proporcionado pela ili-
mitação da riqueza e o bem proporcionado por sua limitação?
Em outras palavras, como exatamente se opera na ciência r eal a
combinação entre duas vontades de liquidação da política, a que
se deve às exigências da ilimitaç:ão capitalista da riqueza e a que se
deve à gestão oligárquica dos Estados-nação?
Pois, na diversidade de suas motivações e na incerteza de suas
formulações, a crítica da "globalização", a resistência à adaptação
de nossos sistemas de proteção e previdência sociais a suas impo-
sições ou a rejeição das instituições supraestatais tocam o mes-
mo ponto sensível: qual é exatamente a necessidade em nome da
qual se realizam essas transformações? Que o crescimento d o ca-
pital e os interesses dos investidores tenham leis que dependem
de uma matemática acadêmica é perfeitamente admissível. Que
essas leis entrem em contradição com os limites impostos pelos
sistemas nacionais de legislação social é igualmente claro. Mas
que sejam leis históricas inelutáveis, às quais seja inútil se opor,
e que prometam para as gerações futuras uma prosperidade que
AS RAZÕES DE UM ÓDIO Ili\

vale o sacrifício desses sistemas de proteção, isso não é._ mais uma
questão de ciência, mas de fé. Os partidários mais intransige n
tes do laissez-faire integral penam algumas vezes para demons tra 1
que a preservação dos recursos naturais se organizará h a rmn
niosarnente pelo jogo da livre concorrência. E, embora se ja pn.~
sível estabelecer por comparações estatísticas que certas ro,111.1 •.
de flexibilização do direito do trabalho criam n o m édi o p1 .1 1·1,
mais empregos do que eliminam, é mais difícil demons trdl' q111
a livre circulação de capitais que exigem rentabilidade catl .1 vt•1
mais rápida seja a lei providencial que conduzirá a human id:idt· .,
um futuro melhor. Isso exige fé . A "ignorância" que se crilirn 111,
povo é simplesmente sua falta de fé. De fato, a fé histó ric a nn1
dou de campo . Hoje, parece apanágio dos governantes e d e ~c us
especialistas. Isso porque apoia sua compulsão mais profunda, ,1
compulsão natural ao governo oligárquico: a compulsão a se I i
vrar do povo e da política. Declarando-se simples gesto r es d os
impactos locais da necessidade histórica mundial, nossos govc r
nos se empenham em rechaçar o suplemento democrático. ln -
ventando instituições supraestatais que n ão são Estados, que n ão
prestam contas a nenhum p ovo, eles realizam o fim imanente .L
1
l sua própria prática: despolitizar os assuntos públicos, situá-l os
em lugares que sejam não lugares, e não deixam espaço para a

i invenção democrática de lugares polêmicos. Assim, os Estados e


seus especialistas podem se entender tranquilamente entre si.
A "constituição eu ropeia" subm etida aos infortúnios que já conhe-
cemos ilustra muito bem essa lógica. Um dos partidos favoráveis a
O ÓD IO À DEMOCRACIA

..
•, 11.1 .1dos;ão acreditou que tinha encontrado o slogan perfeito: "O
1ti u 1,il is m o não precisa de constituição". Infelizmente p ara ele,
1 1,1 vl'rdade: o "liberalismo", ou melhor, para chamar as coisas
pr 111 11 0 11H!, o capitalismo não exige tanto2 • Para funcionar, não
J II l I I.~. , qu e a o rdem con stitucional se declare fundamentada na
", 11111 , 1, l'l' nc ia desregulamentad a", isto é, na circulação livre e
il11111t.1d.1 dos capitais. Basta qu e ela tenha liberdade para operar.
1l 1 ,1>,,1111 v11Lo m ístico do capital com o bem comum é inútil
11,11 .1 11 1 ,1pi Lal. Gle serve, em primeiro lugar, ao fim perseguido
111 l.1·, 1111~1..irq ui as estatais: a constituição de espaços interest atais
11\ 1, ·, 1l.1 .~n vic.lão da legitimidade nacional e popular.
\ 111'1 l'SSidade histórica inelutável nad a m ais é, na verdade,
, 111o ,1 , 1111 jl1n~·ão de duas necessidades: uma própria ao cresci-
1,11 111,, il1111i u1do da riqu eza e outra própria ao crescimen to do
11• u l,·1 , ,1 igarquico. Pois o suposto enfraquecimento dos Estados-
11 ,1~·", , H> <..:spaço europeu ou mundial é uma perspectiva en ga-
111 1~.1. /\ 111)va partilha dos poderes entre capitalismo internacional
, h1.1d,,s nacio nais tende bem mais para o fortalecimento dos

\ 11,tl,1v1·,1"liberalismo" presta-se hoje a todo tipo de confusão. A esquerda


111111111•1.1,, 11 tiliza para evitar a palavra tabu "capitalismo" . A direita europeia
1 11.111·,1111111,Lem uma visão de mundo em que o livre mercado e a democra-
' 11 , ,1111l 11 h<Lm de mãos dadas. A direita evangelista norte-americana, para a
1111.i 1, , /1/Jaal é um esquerdista destruidor da religião, da família e da sociedade,
1, 111Ill\ Loportunamente que essas duas coisas são muito diferentes. O peso que
M111'1,)u no mercado da livre concorrência e no financiamento da dívida nor-
1,· sim<.:ricana urna China "comunista" que combina com vantagem as van-
1,,gens da liberdade e da ausência de liberdade mostra isso de outra maneira.
AS R AZÕ E S DE UM ÓDIO 105

Estados do que para seu enfraquecimento3 • Os mesmos Estados


que abdicam de seus privilégios diante da exigência da livre cir:u-
l ação dos capitais imediatamente os r ecuperam para fechar suas
fronteiras à livre cir culação dos pobres do p l aneta em busca de
trabalho. E a guerra d eclarada ao "Estado-providência" revela a
mesma ambivalência. Ela é apresentada comodamente como o
fim de uma situação de assistência e a volta da responsabilidade
dos indivíduos e das iniciativas da sociedade civil. Finge-se consi-
derar benefícios abusivos de um Estado paternalista e tentacular
instituições de previdência e solidariedade nascidas dos combates
oper ários e democráticos e geridas ou cogeridas por repr esen-
tantes dos contribuintes. E, lutando contra esse Estado mítico,
atacam-se precisamente instituições de solidariedade não es-
t atais que er am também os lugares de formação e exercício de
outras competências, outras capacidades para cuidar do comum
e do futuro comum que não as das elites governamentais. Ore-
sultado é O fortalecimento de um Est ado que se faz diretamente
responsável pela saúde e pela vida dos indivíduos. O mesmo Es-
tado que combate as instituições do welfare State mobiliza-se para
que O t ubo de alimentação de uma mulher em estado vegetativo
prolongado seja religado. A liquidação do pretenso Estado- pro-
vidência não é O recuo do Estado. É a redistribuição, entre a lógi-
ca capitalista do seguro e a gestão estatal direta, de instituições e

Ver Linda Weiss, The N[yth of the Powerless State: Governin3 the Eco11omy i11 a Global
Era (Ithaca, Polity Press, 1998).
!06 O ÓDIO À DE M OCRACIA

funcionamentos q ue se interpunham entre as duas. A oposição


simplista entre assistência estatal e iniciativa individual serve para
mascarar as duas implicações políticas d o processo e os conflitos
que ele suscita: a existência de formas de organização da vida ma-
terial da sociedade qu e escapam da l ógic a do lucro; e a existência
de lugares de discussão dos interesses coletivos que escapam do
monopólio do governo científico. Sabemos quão presentes esti-
veram essas implicações nas greves do outono de 1995 na França.
Para além dos interesses particulares das corporações em greve e
d os cálculos orçamentários do governo, o m ovimento "social"
mostrou ser um movimento democrático, porque colocava em
seu centro a quest ão política fundamental: a competência dos
"incompetentes", da capacidade de qualquer um de ju lgar rela-
ções entre indivíduos e coletividade, presente e futuro.
Foi por isso que a camp anha que opunha o interesse comum
ao egoísmo retrógrado d e corporações privilegiadas falhou, as-
sim como a l ad ainha "republicana" sobr e a distin ção do político
e d o social. Um movimento político é sempr e um movimento
que confunde a distribuição dada do individual e do coletivo e
a fronteira admitida do político e d o social. A oligarquia e seus
especialistas cansam d e vê-lo em sua iniciativa para fixar a dis-
tribuição dos lugares e das competências. Mas o que estorva a
oligarquia também dificulta o combate d emocrático. Dizer qu e
um movimento político é sempr e um movimento que deslo-
ca as fron te iras, que extrai o componente propriamente políti,.
co, universalista, de um conflito particular de interesses em tal
o\S RAZÕES DE UM ÓDIO 107

ou tal ponto da sociedade, é dizer que sempre corre o risco de


permanecer confinado no conflito, a levar unicamente à defe-
sa dos interesses de grupos particulares em combates cada vez
mais singulares . Esse dado perman ente ganha peso quando é a
oligarquia que tem a iniciativa dos confrontos, quando faz isso
com sua dupla face de Estado soberano e Estado "sem poder"
e quando traz para seu lado a necessidade da história que no
passado dava um h o rizonte de esperança comum aos combates
dispersos. Pode-se argumentar a legi tim id ade d este ou daquele
combate, mas há sempre a dificuldade de ligar essa legitimida-
de à de o utros combates, de c onstruir o espaço de1nocrático de
convergência de seu sentido e ação. Os que lutam para defen-
der um serviço público, um sistema de legislação do trabalho,
um regim e de indenização por desemprego ou um sistema de
aposentadoria sempre serão acusados, mesmo que sua luta es
teja além de seus in teresses particulares, de travar um combate
que se restringe ao espaço nacional e fortalece esse Estado que
eles exigem que se mantenha fec hado. Inversamente, os que
a.firmam que o m ovimento democrático excede esse quadro e
opõem a esses combates defensivos a afirmação transnacional
das multidões nômades acabam militando pela constituição
dessas instituições interestatais, desses lugares extraterritoriais
em que a aliança entre as oligarquias estatais e as o ligarquias G-
nanceiras é assegurada.
Os est orvos da oligarquia e as dificuldades da democracia
permitem compreender as manifestações intelectuais do furor
o e) n r o .\ D E 1\1 o e R .\ e r A

..
., , 11idc1nocrático. Esse furor é particularmente intenso na França,
, ,1 1111· existe um partido intelectual declarado como tal, cujo lugar
11 ,111m!ia lhe dá um poder desconh ecido em outr os países na inter-
lll c·1.1c, ,to cotidian a dos fenômenos contemporâneos e na formação
, l 111p111ião dominante. Sabemos como esse p oder se afirmou após
l '11!,'I, 1111,tndo os meios dirigentes da opin ião, abalados por um mo-
\ 11111 ·1ll o c uj a compreensão desafiava os instrumentos intelectuais
d , q1 IC' dispunham, iniciaram uma busca febril por intérpretes do
, I' 11 , ·s1.1 v .i ,JContecendo na novidad e desconcertante dos tempos e
11,1\ 1u e1/ 11 nde:l:as o bscuras da sociedade1 . A ch egada d os socialistas
'" p11dv1 l'l11 198 l aumentou mais ainda o peso desses intérpretes
11 ,1l, 11 111.tc, .to da opinião, sem que o número de lugares disponíveis
1, ,~,..,. s1d11 tt'llLC para satisfazer as ambições de uns, sem que o utros
1 l'.•,1• 111 St' 1l'~1u u zir em medidas concretas o interesse que os gover-
11 .11111·.s 111.in il"estavam por suas teses. Desde então, esse partid o se
111·.1.il1111 nessa posição, integrado à gestão da opinião dominante
, , 1111111l'St.: 11tc nas mídias, mas sem influência sobr e as decisões dos
~" ,vc·111.111tcs, celebrado por suas contribuições, humilhado em
~•1.1·, .unhições, sejam elas nobres o u baixas.
1\ lgu ns se acomodam a essa função supletiva. Regularmen te
, l 1.1111 .1d os a explicar à opinião pública o qu e est á acontecendo e o
• jt H' St' d eve pensar a respeito, eles oferecem o apoio de sua ciência

\obre o surgimento dessa figura e sua novidade em relação à figura tra-


illt 1n11al do intelectual porta- voz do universal e dos oprimidos, ver Danielle
,, J.tc ciues Ranciere, "la légende des inrellectuels", em Jacques Ranciere, Les
1
" , ,ws c/11 peuple (Bou rg-en-Bresse, Horlieu, 2003) .
AS RAZÕES DE UM ÓD I O !09

à formação do consenso intelectual dominante. E o fazem sem


nenhuma dificuldade, porque não têm nada que renegar de sua
ciência o u de suas convicções progressist as. D e fato, a ideia-força
do consen so é que o movimento econômico mundial atesta uma
necessidade histórica a que devemos nos adaptar e que somen-
te os representantes de interesses a rcaicos e ideologias obsoletas
podem negar. Ora, essa é também a ideia que fundamenta sua
convicção e sua ciência. Acreditam no p rogresso. Tinham fé no
movimento da história quando este levava à revolução socialis-
ta mundial. Continuam a ter fé nele agora que leva ao triunfo
mundial d o mercado. Não é culpa deles se a história se enga-
n ou. Assim, podem reaplicar tranquilamente às cond ições atuais
as lições que aprenderam no passado. Provar que o movimento
d as coisas é racional, o progresso é progressista e só os a trasados
se opõem a ele, e mostrar em outra p erspectiva que a marcha
para frente do progresso r epele continuamente par a o passado
os retardatários que atrasam a marcha para frente, esses princí-
pios básicos da explicação histórica marxista aplicam-se às mil
m aravilhas às dificuldades da "modernização". Eles legitimaram
o apoio de u m a ampla fração da opinião intelectual ao governo
Juppé durante as greves do outon o de 1995 e, d esde então, n un-
ca deixaram de ajudar na denúncia dos privilégios arcaicos que
atrasam a inevitável modernização que não para de produzir no-
vos arcaísmos. O próprio c?..~~e.~to- rei que anima essa denúncia,
o populismo, foi emprestado do arsenal leninista. Ele permite
interpretar qualquer movimento de luta contra a despolitização
[IO O ÓDIO À DEMOCRACIA

realizada em nome da necessidade histórica como man ifestação


de uma fração atrasada da população ou de uma ideologia ultra-
passada. Mas enquanto houver atrasados, haverá a necessidade
de avanços para explicar seu atraso. Os progressistas sentem essa
solidariedade, e seu antidemocratismo é moderado por ela.
Outros se acomodam bem menos a essa posição. Para eles, a fé
progressista é demasiado ingênua e o consenso, demasiado sorri-
dente. Também beberam na fonte do marxismo. :Nias seu marxis-
mo não era o da fé na história e n o desenvolvimento das forças
produtivas. Em teoria, era o da crítica que mostra o outro lado
das coisas - a verdade da estrutura sob a superfície da ideologia ou
a da exploração sob a aparência do direito e da d emocracia. Na
prática, era o das classes ou dos mundos que se opõem e da rup-
tura que divide em dois a história. Portanto, toleram bem menos
que o marxismo tenha frustrado suas expectativas, que a his tória,
a má, a que não se inter rorr1pe, iinponha seu reino. Em relaça.o a
ela, em relação aos anos antes e depois de 1968, que foram a últi-
ma grande e r upç ão do marxismo no Ocidente, seu ent usiasmo
se transformou em ressentimento. Mas n em por isso renuncia-
ram à tripla inspiração da leitura d os signos, da denúncia e da
ruptura. Apenas deslocaram o alvo da denúncia e mudaram de
ruptu ra temporal. Em certo sentido, continuam a criticar ames-
ma coisa: o que é o rein o do consu mo, senão o reino da rn.erca-
doria? O princípio da ilimitação não é o do capitalismo? Contu-
do, o ressentimento faz a máquina girar ao contrário, inverte a
l ógica das causas e dos efeitos. Antigamente, e ra um sistema
AS RAZÕES DE U ',,1 ÓDIO Ili

global de dominação que explicava os comportamentos indiv1


duais. As boas almas lastimavam o proletário que se dei,-xava kv.11
pelas seduções do PMU* e dos eletrodomésticos como vítinu il11
<lida do sistema que o explorava, ao mesmo tempo que ali 111l'l l t .1
va seus sonhos. Mas urna vez que a ruptura marxista não ( 1111s1
guiu cumprir o que a denúncia exigia, esta se Í!Wl'I tv11 ,,~
indivíduos não são vítimas de um sistema global de c.10 111111,1, .111,
mas os responsáveis por esse sistema; são eles que fazem rl!i 11.11 .1

"tirania democrática" do consumo. As leis de crescimento Jo 1 .1

pital, o tipo d e produção e circulação de mercadorias que elas, o


mandam, tornaram-se simples consequência dos vícios da<.[Lll'it·s
que as consomem e, em particular, daqueles que têm m<.: 11rn,
meios de consumir. A lei do lucro capitalista reina sobr e o mund,,
porque o homem democrático é um ser de desmedida, devo r.1
dor insaciável de mercadorias, direitos humanos e espetácu los
televisivos. A verdade é que os novos profetas não se queixam c.ks
se reino . Eles não se queixam nem das oligarquias financeiras nem
das estatais. Eles se qu eixam, em primeiro lugar, dos que as <.k
nunciam. A coisa é fácil de compreender: d enunciar um sistema
econômico ou estatal é exigir que eles sejam transformados. Mas
quem pode exigir que eles sejam transformados, senão esses ho-
mens democráticos que reclamam que esses mesmos sistemas

O Pari Mutue! Urbain (PMU) é uma empresa que promove e gerencia


apostas em cavalos. Desde 2010. estendeu suas atividades para jogos esporti-
vos e pôquer. (N. T.)
O ÓD IO À DE M OCRA C I.\
..

11.111 s,ttisfazem seu apetii:e? É preciso lev ar a lógica ao extremo.


'\J.1, 1so os vícios do sistema são os vícios dos indivíduos cuja vida é
11·~1,1c1.i pnr ele, como os maiores culpados, os representantes
1 , 111pl,lres do vício, são os que querem mudar esse sistema, os
, 111 , lli opagam a ilusão de sua possível transformação, para ir ain-
il.i 111.11s longe nesse vício . O consumidor dem·o crático insaciável
I"" ,·,e L' li:rn. ia é o que se opõe ao reino das oligarquias financeiras
1 1 ~1.1 1.11s. Recon hecemos aí o grande argu mento da reinterpreta-
\ 1,, dt· M.lio de 68, infinitamente repetido por historiadores e so-
' li il11~•"s t· ilus trad o pelos romancistas de sucesso : o moviment o
.1, l1 ll1X 1111 .,pe nas um movimento da ju ventude sedenta de libe-
1 11,, 1, , w,u,tl e novas maneiras de viver. Como, p or definição, a
)11 , , 1l111dL' l' o desejo de liberdade não sabem nem o que querem
111 111 11 q, 1v /"a:;,;em, eles p roduziram o contrár io do que declar a-
v,1 111 , 111.,s ,l ve rc..lade do que perseguiam: a renovação do c apit alis-
111, 1 ,. ,1 dL·SLru ição de todas as estruturas, familiares, escolares ou
, J1111 .1s, ljlll' se o punham ao reino ilimitado do mercado, penetran-
, l, 1, .1, l.1 Vl''l. mais fundo n a espinha e no coração dos indivíduos.
1 ·,1p1n id a to da política, a palavra democracia torna-se então o
1 111, 1111s111 0 que designa um sistema de dominação que não se
,1111 1 111.11s chamar pelo nome e ao mesmo tempo o nome do
1111 110 diabó lico que toma o lugar desse nome obliterado: um
1111•110 LOmp ósito, em que o indivíduo que sofre esse sistema
.1, d ,1111inação e aquele que o denuncia se misturam. É com os
11,11, m; combinados de um e de outro que a polêmica desen ha
, , 1 c t rato falado do homem democrático : jovem consumidor
AS RAZÕES DE UM ÓD I O II3

imbecil de pipoca, reality show, safe sex [sexo seguro], previdência


social, direito à diferença e ilusões anticapitalistas ou altermun-
dialistas. Com eles, os denuncian tes têm aquilo de que precisam:
o culpado absoluto de um mal irremediável. Não um pequeno
culpado, mas u m grande culpado, que cau sa não só o impér io do
mercado ao qual os denunciantes se acomodam, m as a ruína da
civilização e d a h umanidade.
Instala-se então o reino d os praguejador es qu e mistu ram as
novas formas d a publicidade da m er cadoria e as m anifest ações
d os que se opõem a suas leis, a tibieza d o "respeito da diferença"
e as novas formas d o ódio racial, o fanatismo religioso e a perda do
sagrado. Qualquer coisa e seu contrário tor nam-se a manifestação
fatal desse indivíduo democrático que conduz a human idade a
u 1na perda qu e os praguejadores lamentam, mas lamentariam
mais ainda n ão t er de lamentar. Desse indivíduo maléfico de-
m on sr'ra-se ao m esmo tempo que ele enterra a civilização das
Luzes e te rmina su a obra de morte, é comunitário e sem comu-
nidade, perdeu o sen tido dos valores familiares e o de su a trans-
gr essão, o sentido d o sagrad o e o do sacrilégio . Os velhos temas
edificantes são r epintados com as cores sulfurosas do inferno e
d a blasfêmia - o homem não pode prescindir de Deus, liberdade
não é permissão, a paz amolece o caráter, o desejo de justiça con-
duz ao terror. Un s reclamam o reto r no dos valor es cris tãos em
n o me d e Sade; outros une m .l\ietzsche, Léon Bloy e Guy Debord
para defender de modo punk as posições d os evangelistas n o rte-
-americanos; os adoradores de Céline postam-se na primeira .fila
O ÓDIO À DEMOCRACIA

da caça aos antissemitas, que eles entendem simplesmente como


os que não pensam como eles.
Certos praguejadores contentam-se com a reputação de
lucidez amarga e solidão incorrigível que se ganha quando se
repete em coro o refrão do "crime cotidianamente cometido
contra o pensamento" 5 pelo homenzinho o u pela mulherzinha
ávidos de pequenos praze res. Para outros, isso são pecadilhos
que se devem à democracia. Eles precisam atribuir-lhe verda-
deiros crimes o u, melhor, um único crime, o crime absoluto.
Precisam também de uma verdadeira ruptura do curso da his-
tória, isto é, mais um sentido da história, um destino da moder-
nidade que se r ealize na ruptura. Foi assim que, no momento
d o desmoronamento do sistema soviético, o extermínio d os
jude.us da Europa tomou o lugar da revolução social como o
evento que dividiu em dois a h istória. Mas para que ele ocupas-
se esse lugar, era necessário eximir os verdadeiros autores de sua
responsabilidade. Aqui, na verdade, está o paradoxo: para quem
quer transformar o extermínio dos judeus da Europa no even-
to central da história moderna, a ideologia nazista não é uma
causa adequada, porque é uma ideologia reativa, que se opôs ao
que parecia caracterizar então o movimento moderno da histó-
ria - racionalismo das Luzes, direitos humanos, democracia ou
socialismo. A tese de Erich Nolte, que transforma o genocídio

Maurice Dantec, Le théâtre des opérations: journal métaphysique et politique 2000-


2001. Laboratoire de catastrophe générale (Paris, Folio Gallimard, 2003), p. 195.
AS RAZÕES DE UM ÓDIO 1(

nazista em uma reação de defesa contra o genocídio do aulafJ,


ele próprio herdeiro da catástrofe democrática, não resolve <,
problema. Os praguej adores querem, na verdade, ligar din:t.1
mente os qu atro termos: nazismo, democracia, modernich1d v 1•
genocídio . Mas transformar o nazismo em realização diret.1 d.1
democracia é uma demonstração delicada, m esmo p elo Vil'S d1 l
velho argumento contrarrevolucionário que vê o "indivic.l 11.il L\
mo protestante" como a causa da democracia, loao do terro ris n11,
totalitário. E transformar as câmaras de gás na encarnação tk ss.1
essência da técnica designada por Heidegger como o desti n o f ,1
tal da modernidade é suficiente para colocar H eidegger do l,1d<1
"certo", mas não para resolver o problema: podemos emprvg.i ,
meios modernos e racionais que sirvam a fanatismos arcait rn,
Para que o raciocínio funcione, é preciso chegar a uma so l ur, ,L(l
radical: suprimir o termo que impede o encaixe das p eças, o u
seja, simplesmente, o nazismo . Este se torna, no fim d o proces
so, a mão invisível que trabalha pelo triunfo da humanidade d e-
mocrática, livrando-a de seu inimigo íntimo, o povo fiel à lei da
filiação, para permitir que ela realize se u sonho: a procriação ar-
tificial a serviço de uma humanidade dessexualizada. Da pesqui-
sa atual sobre o embrião, deduz-se retrospectivarnente a razão
do extermínio dos jude u s. Desse extermínio, deduz-se que tudo
que está ligado ao nome de democracia é apenas a continuação
infinita de um único e mesmo crime.
É verdade que essa denúncia da democracia como crime in-
findável contra a humanidade não tem grandes consequências.
À D EM OCRACIA
..
Ili O ÓD IO

e>·, qu e sonham com um governo restaurado das elites sob a


111 nlt'1,ão de uma transcen dência recuperada acomodam-se ao
111d11 d o estad o de coisas existente nas "democracias" . E como
1 11·~•.1·111 co1no alvo principal os "homenzinhos" que contestam
1'\M' t'Sl,Ld o d e coisas, suas imprecações contra a decadência aca-
11,1111 sv juntando às admoestações dos progressistas para apoiar
11~ < il 1g.1rcas gestores que têm de se haver com os humores r e-
1 ,,1 , 111·,111tcs d esses homenzinhos que obstru e1n o caminho do
11111g 1t·s.~o. co1no os burros e os cavalos obstruíam as r u as na
, 11 l.1d1· t km ocrática de Platão. Por mais radical que queira ser
,1 11 tlissv nso, por m ais apocalíptico que seja seu discurso, os pra-
f,1lt'J,tdon.:s o bedecem à lógica da ordem consensual: a que faz
il,1 ~1~•. 1lificante democracia uma noção indistinta, que une em
11111 11 11 il:o LOdo mn tipo de ordem estatal e uma forma de vida
111 1.1 1, u 111 conjunto de maneiras de ser e um sistema de valo-
11•s ,1rriscando-se a levar ao ponto extremo a ambivalência que
1

11 u t I v o d isc urso oficial, apoiar, em nome da civilização demo-


1 1.11 it .t , as campanhas m ilitares d a plutocracia evangelista e, ao
111t•s 1111) tempo, denunciar com ela a corrupção democrática da
1 IY il iz~1ção . O disc urso antidemocrático dos intelectuais d e hoje
,li 1<'111;.tta o esqu ecim ento consensual da democracia pelo qual
11 .1I>.1Ili am a oligarquia estatal e a econômica.
U111. certo sentido, p o rtanto, o novo ódio à democracia é ape-
11.1s Lima das formas da confusão que afeta o termo . Ele duplica a
1 <1 11íusão consensual, fazendo da palavra "democracia" um ope-
1.idor ideológico que despolitiza as questões da vida pública para
AS RAZÕES DE UM ÓDIO II7

transformá-las em "fenômenos de sociedade", ao mesmo tempo


que nega as formas de dominação que estruturam a sociedade.
Ele mascara a dominação das oligarquias est atais identificando
a democracia com uma forma de sociedade e a das oligarquias
econômicas assim ilando seu império aos apetites dos "indiví-
duos democráticos". Assim, pode atribuir circu nspectamente os
fenômenos de agravamento d a desigual dade ao triunfo funest o
e irreversível da "igualdade de condições" e ofer ecer à empreit a-
da oligárquica seu pont o de honra ideológico: é necessário lutar
contra a dern.ocracia, p o rque a democracia é o totalitarismo.
Mas a con fusão não é apenas um uso ilegítimo de palavras
que basta corrigir. Se as palavras servem para confundir as coi-
sas, é porque a batalha a respeito das palavras é indissociável da
batalha a respeito das coisas. A palavra democracia n ão foi in-
ventada por um acadêmico preocu pado em distinguir por meio
de critérios objetivos as formas de governos e os tipos de socie-
dades . Ao contrário, foi invent ada como ter mo de indistinção,
para afirmar que o poder de uma assembleia de homens iguais
só p odia ser a confusão de u m a turba informe e barulhenta,
que equivalia de ntro da ord em social ao que é o caos den tro da
ordem da n at ureza. Entender o que democracia significa é en-
ten der a batalha que se trava nessa p alavra: não simplesmente
o tom de raiva ou desp rezo que pode afetá-la, mas, mais pro-
fundamente, os deslocamentos e as inversões de sentido que ela
auto riza ou que p odem os n os autorizar a seu respeit o . QL1an-
do nossos intelectuais, diante das manifestações da crescente
n8 O ÓDIO À DEMOCRACIA

desigualdade, indign am-se contra os estragos da igualdade, re-


correm a um truqu e que não é novo. Já no século XIX, sob a
monarquia censitária o u o império auto ritário, as elites de uma
Fran ça legal, red u zida a 200 mil homens ou submetida a leis e
decretos qu e restrin giam todas as liberdades individuais e pú-
blicas, assustavam-se seriamente com a "torrente democrática"
que arrastava a sociedade. Proibida a democracia na vida públi-
ca, e las a viam triunfar nos tecidos baratos, n as carruagens, na
can oagem, na pintura ao ar livre, nos novos modos das moças
ou nos novos torneados dos escri tores6 . Nisso, eles não foram
mais inovad ores. O p ar da democracia como forma de governo
rígido e como form a de sociedade laxista é o mod o original so-
bre o qual o ó d io à democracia se racionalizo u com Platão .
Essa racionalização, como se viu, não é a simples expressão
de um h u mor aristocrático. Serve para conjurar uma anarquia
ou uma indist inção mais temível que a das ruas invadidas por
crianças insolentes ou burros recalcitrant es: a in distinção pri-
meira do governante e d o governado, que se revela quando a
evidência do p oder n atural dos melhores ou dos mais bem-nas-
cidos é despida de seu prestígio; a ausência de título par ticular
p ara o govern o político dos homens reunidos, se não precisa-
mente a ausência de título. A d emocracia é, em primeiro lugar,

Para um bom florilégio desses temas, ver Hippolyte Taine, Vie et opinions de
Frédéric Thomas Graindorae (2. ed., Paris, Hachette et Cie, 1867). Sobre a "democra-
cia na literatura" , ver a crítica a Madame Bovary por Armand de Pontmartin, em
Nouvelles causeries du samedi ( Paris, Michel Lévy Freres, 1860).
AS RAZÕES DE UM ÓDIO 111

essa con dição paradoxal da política, esse ponto em q L1c.: tml.1


legi timidade se c onfronta com s ua ausê ncia de legi ti1111d.1d1
última, com a contingência igualitária que sustenta a p1up 11 .1
contingência não igualitária.
É por isso que a democracia não pode deixar d e S ll Sl 11.11 "
ódio. É por isso também q u e esse ó dio se apresen ta semprl' t 11111

um disfarce: o humor trocista contra os burros e os cav.dus 1111~


tem pos de Platão, os ataques furiosos contr a as campa11 h .1s d .1
Benetton ou a emissão de Loft Story* nos t empos da Quinta Rt•p1 1
blica com balida. Por trás dessas máscaras ríspidas o u en g r..1.\·.1tl.1•,,
o ó dio tem um objeto mais sério. Ele visa a in tolerável cond1\ .111
igu alit ária da própria desigu ald ade. Portanto, pod emos trant111 1
lizar os soció logos de profissão ou de humor qu e dissertam sob1t·
a inqu ietante situação de uma democracia agora privad a de.: i 11 i
migos7 . A democracia não está perto de enfrentar a angústia dt:
t al conforto. O "govern o d e q ualquer um" está fadado ao ód io
infindável de todos aqueles que têm de apresentar títulos p ara o
governo dos homens: n ascimento, riqu eza o u ciência. Hoje, está
mais radicalmente fadado a isso do qu e nunca, porque o poder
social da riqueza não tolera mais entr aves a se u crescimento ili-
mitado e p orque seus m ó beis estão cad a dia mais estreitamente

Versão francesa do Big Brother, reality show criado na Holanda em 1999. A p ri-
meira temporada foi ao ar de 26 de abril a 5 de julho de 2001. (N. T.)
Ver Ulrich Beck , Democracy without Enemies ( Cambridge, Políty Press, 1998), e
Pascal Bruckner, La mélancolie démocratique: comment vivre sans ennemis? (Paris, Seuil,
1992).
O ÓD lO À DEMOCRAC
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AS RAZÕES DE UM ÓDI O 121

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122 O Ó D I O À D E M O C R AC I A

corpos, capaz de explodir as barreiras do império8 . Compreender


o que d emocracia significa é renunciar a essa fé. A inteligência
coletiva produzida por um sistema de dominação nunca é mais
do que a inteligência desse sistema. A sociedade desigual não tem
em seu flanco nenhuma sociedade igual. A sociedade igual é so-
mente o conjunto das relações igualitárias que se traçam aqui e
agora por meio de atos singulares e precários. A democracia est á
n u a em sua relação com o poder da riqueza, assim como com o
poder da filiação que hoje vem auxiliá-lo ou desafiá-lo. Ela não se
fundamenta em nenhuma natureza das coisas e não é garantida
por nenhuma forma institucional. Não é trazida por nenhuma
necessidade histórica e não traz nenhuma. Está entregue apen as
à constância de seus próprios atos. A coisa tem por que susci-
tar medo e, portanto, ódio, entre os que estão acostumados a
exercer o magistério do pensamento. Mas, entre os que sabem
partilhar com qualquer um o poder igual da inteligência, pode
suscitar, ao contrário, coragem e, portanto, felicidade.

Ver Michael Hardt e Antonio Negri, Império (9. ed., Rio de Janeiro, Record,
2010) e Multidão: guerra e democracia na era do império (Rio de Janeiro, Record, 2005).
SOBRE O AUTOR

Nascido em Argel em 1940, Jacques Ranciere é um dos mais imporlan


tes filósofos da atualidade. Formado nos densos anos 1960 em Paris,
estudou filoso6a na École Normale Supérieure. Em 1969, passou a lc
cionar no Centre Universitaire Expérimental de Vincennes, que setor-
naria, em 1971, a Universidade de Paris VIlI, onde per maneceu até se
aposentar, em 2000, com o título de professor emérito. Ao lado de pen-
sadores como Alain Badiou, Etienne Balibar e Pierre Macherey, Ranciere
foi um dos discípulos de destaque do filósofo marxista Louis Althusser.
Em 1965, tornou-se mundialmente conhecido quando colaborou com o
volume seminal Lire 'Le Capital ', organizado por Althusser. No projeto,
que visava estabelecer novas bases para um marxismo científico,
Ranciere assinou a primeira seção, sobre o conceito de crítica e a crítica
1
l
n <lll l O À DEMOCRACIA

..
d 1 ,., 0 11o m.ia política do jovem Marx dos Manuscritos econômico-filosóficos
,, , 1\tl.1rx maduro d'O capital.
o desenrolar dos levantes de maio de 1968 em Paris, no entanto,
< ' e1 111
1
, 1, ~,· distanciou decisivamente do mentor. Em "Sur la théorie de
1' 1, h•, ,logi<.!: poli tique d'Althusser" (Sobre a teoria da ideologia: política
.!, \ lt husscr], artigo de 1969, Ranciêre insistia que, quando a "luta de classes
, ,pi, 1d1u abertamente nas universidades", o que viu como uma massiva
W\ q l 1,1 ideológica expunha clar amente os limites do althusserianismo -
, 11 /" 111 1cleo estar.ia em sua concepção de .ideologia. Para ele, "Althusser
, l..r II a • ,1 f"Lmção da ideologia dominante como a função da ideologia: para
111 11.~.11 11111a ti.inção geral da ideologia, postula a dominação de uma ideolo-
y,1,1, 111110 do m.inação da ideologia", de modo que a "função geral da ideo-
1, '>'1,1 ~t t·11t.enderá como exercida em beneficio da dominação de classe; a
l 1111~ ,lll H1bversiva será confiada ao outro da ideologia, a ciência".
1·.~s:i ruptura é tema de La Leçon d'Althusser [A lição de Althusser], pri-
1111·111 , livm autoral de Ranciêre, publicado em 1974. Traçando uma análi-
,, l11s 11H ica da esquerda francesa da década de 1960 e seu rescaldo nos anos
JI) 70, !l li vro critica a censura feita por Althusser aos levantes estudantis de
111,110 d1• 1968. Filiado ao Partido Comunista Francês, Althusser rejeitava as
111·,1111 .1~ ncs maoistas que impulsionavam esses eventos e relativizava seu
, jl 11"/l t< marn e nto das hierarquias e das estruturas de poder no interior das
1111 J'vt·r·sidades. Em seu livro, Ranciêre relaciona essa postura ao refluxo
11•\ 1·.ionista qu e se seguiu ao fracasso de maio de 1968.
\n ditismo in telectual do antigo mestre, Ranciêre contrapunha a
1111, 1110 111ia das revoltas populares que haviam tomado as ruas. Para ele,
11•, 11,thalhadores seriam perfeitamente capazes de compreender sua pró-
1" 1.1 opressão e de se emancipar sem terem de ser conduzidos por uma
111s t.i nda intelectual o u partidária superior. Uma das principais ideias po-
11111 .is de Ranciêre é, justamente, a de que uma política dem ocrática surge
1
SO BRE O AU TO R 125

da pressuposição da igualdade. Para ele, a igualdade tem de ser ponto de

1 p artida , não ponto de chegada ou objetivo da política. O equ:voco o rigi-


nal, de acordo com o autor, ocorre quando ouvimos o brado das massas
em vez de pessoas falando.
Parte considerável da produção inicial de Ranciêre é voltada ao estudo
e à recuperação histórica da experiência das classes trabalhadoras france-
sas do conturbado século XIX ·e das lutas políticas marginalizadas pela
historiografia oficial. É o caso de seu segundo livro, La Parole ouvriere: 1830-
1851, publicado em 1976, e de s ua tese de dou torado, La Jormation de la pensée
ouvriere en France: le prolétaire et son double, defendida em 1980, e também de seu
aclamado A noite dos proletários: arquivos do sonho operário (1981, publicado n o
Brasil em 1988).
Ranciêre é muitas vezes con hecido por posições remotas no interior
do pensamento contemporâneo francês; atualrnente, sua pro<lução teó-
rica abrange grande variedade de assuntos, corno pedagogia, historio-
grafia, filosofia, cinema, estética e arte contemporânea, e não é difícil en-
contr á-lo situado em pontos distintos como filósofo, crítico literário,
teórico da arte e marxista. Ademais, a r adicalidade da forma pela qual
Ranciêre compreende a igualdade no mundo das ideias se reflete na liber-
dade com a qual justap õe obras de autores como Platão, Aristóteles e
Gilles Deleuze com as de out ros relativamente desconhecidos, corno
Joseph Jacototy e Gabriel Gauny.
Sua obra mais recente discute as interfaces entre estética e política
procurando repensar, entre outras coisas, os parâmetros da crítica artísti-
ca para além de sua tendência desmistificadora, que teria o equívoco de
situar o crítico em uma posição de autoridade em relação a seu objeto.
Em A isthesis, Scenes du ré3ime esthétique de l'art, de 2011, Ranciêre busca reima-
ginar a experiência estética como um processo fundamentalmente de-
mocrático, acessível a todos.
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..

. O jogador Sôcrates (à direita) participa do último comício pelas Direras Já.


Vale do A11ha119aba1í, Stio Paulo, 16de abril de 1984.
Publicado em setembro de 2014, trinta anos após Sócrates,
em protesto pela reprovação, no Congr esso Nacional , da
emenda Dante de Oliveira. que propunha eleição direta para
presidente da República em 198·1. ter deixado o Corinthians
pela Fiorentina, na Itália, o que enfraquece u e levou ao fim a
Democrada Corintiana, este livro foi composto em Spectrum
MT Std, corpo 12/17, e impresso em papel Norbrite 66,6 g/m 2
na gráfica Mundial para a Boitempo Editorial com tiragem
de 3 m il exemplares.