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PREFÁCIO

Durante muitos anos, ministrei cursos universitários sobre o fascismo,


às vezes como seminário de pós-graduação, outras, de graduac,:ão. Quanto
mais lia e discutia o tema com os alunos, mais perplexo cu ficava. Embora
um grande número de monografias brilhantes tratasse de forma esclarece-
dora de aspectos específicos da Itália ele Mussolini, ela Alemanha de Hitler
e de outros casos semelhantes, as obras sobre o fascismo como fenômeno
genérico, comparativamente, me p,ircciam abstratas, estereotipadas e anê-
micas.
O presente livro representa uma tentativa ele trazer a literatura mo-
nográfica para mais perto das discussões sobre o fascismo cm geral e ele
apresentá-lo de uma forma que leve cm conta suas variações e sua comple-
xidade. Ele tenta descobrir como o fascismo funcionava. É por essa razão
que se centra mais nas ações cios fascistas que cm suas palavras, ao contrário
da prática comum. Além disso, um tempo maior que o normal é dedicado
a seus aliados e cúmplices, e às maneiras pelas quais os regimes fascistas
interagiam com as sociedades que eles pretendiam transformar.
Esta obra é um ensaio, não uma enciclopédia. Muitos leitores, prova-
velmente, verão seus temas favoritos serem tratados aqui com maior brevi-
dade cio que gostariam. Espero que o que escrevi os induza a outras leitu-
ras. Esse é o propósito das notas e do amplo ensaio bibliográfico-crítico.
Tendo trabalhado nesse tema em diversas ocasiões, ao longo de muitos
anos, minhas dívidas intelectuais e pessoais são mais numerosas que o nor-
12 A ANATOMIA DO FASCISMO

mal. A Fundação Rockefeller me permitiu redigir o rascunho dos capítulos


na Villa Serbelloni, às margens do Lago Como, onde os partisans mataram
Mussolini, cm abril de 1945. A École des Hautes Études cn Sciences So-
ciales de Paris, o Istituto Uni,Trsitario Europeo de Florença, e algumas
uni,ersidades americanas permitiram-me testar algumas dessas idéias cm
suas salas de aula e auditórios. Toda uma geração de alunos da Columbia
University questionou minhas interpretai,·ões.
Philippe Burrin, Paul Corner, Patrizia Dogliani e Henry AshbyTurner
Jr. generosamente comentaram uma wrsão anterior deste trabalho. Carol
Gluck, Herbert S. Klein e Ken Ruoff leram partes do manuscrito. Todos
me salvaram de erros embaraçosos, e aceitei a maior parte de suas suges-
tões. Caso cu tivesse acolhido todas, este livro provan_,Jmente seria melhor.
Agradei,·o também a ajuda de diversos tipos prestada por Drue Heinz, Stu-
art G. Woolf, Stuart Proffit, Bruce Lawder, Cario Moos, Fred Wakeman,
Jeffrcy Bale, Joel Coitem, Stanley Hoffmann, Juan Linz e às equipes de rc-
fori.'-ncia elas bibliotecas da Columbia Univcrsity. Os erros que permanece-
ram são de minha exclusiva responsabilidade.
E, sobretudo, Sarah Plimpton foi firme cm seu estímulo e sábia e cri-
teriosa cm sua leitura crítica.

Robert. O. Paxton
1
INTRODUÇÃO

A INVENÇÃO DO FASCISMO

O fascismo foi a grande inovação política do século xx, e também a


origem de boa parte de seus sofrimentos. As demais grandes correntes da
cultura política do Ocidente moderno - o conservadorismo, o liberalismo
e o socialismo -- atingiram forma madura entre fins do século XVIII e mea-
dos do século XIX. Na década de 1890, contudo, o fascismo não havia ainda
sido imaginado. Friedrich Engels, no prefácio de 1895 para a nova edição
<le A luta de classes na França, de Karl Marx, deixa claro que acreditava que a
ampliação do eleitorado, fatalmente, traria mais votos para a esquerda. Se-
gundo a firme crença <le Engels, tanto o tempo quanto os números estavam
do lado dos socialistas. "Se [a crescente votação socialista] continuar assim,
ao final deste século [o século XIX], nós [os socialistas] teremos conquistado
a maior parte dos estratos médios da sociedade, os pequenos burgueses e
os camponeses, trans f.ormanclo-nos na f'orça e1ec1s1va
. · e1o pais.
' ""O s conser-
vadores", escreveu Engels, "já haviam percebido que a legalidade trabalhava
contra eles. Ao contrário, "nós [os socialistas], sob essa legalidade, adquiri-
mos músculos rijos, faces rosadas, e a aparência de vida eterna. A eles [os
conservadores] nada resta a fazer senão encontrar, eles também, brechas
nessa legalidade". 1 Embora Engels previsse que os inimigos da esquerda

1. Friedrich Engels, 1895, prefácio a Karl Marx, Thc Class Struggks in France
( 1848-1850), cm The Marx-Engels Reader. cd. Robert C. Tucker, 2. cd., Nma York: W. W.
Norton, 1978, p. 571.
14 A ANATOMIA DO rASCISMO

acabariam por larn,'ar um contra-ataque, ele, cm 1895, não poderia esperar


que esse ataque \ iria a conc1uistar o apoio das massas. Uma ditadura anties-
querdista cercada de entusiasmo popular - essa foi a combinação inespe-
rada que os fascistas conseguiriam criar no curto espaço de uma geração.
Os Yislumbrcs premonitórios foram poucos. Um deles partiu ele um
jmTm aristocrata francês de índole inquisitiva, Alexis ele Tocquevillc. Em-
bora Tocc1ucville tenha encontrado muito o c1ue admirar cm sua visita aos
Estados Unidos, cm 18 3 1, preocupou-se com o fato de que, numa demo-
cracia, a maioria detinha o poder de impor conformidade pela pressão so-
cial, na ausência de uma elite social independente.

O tipo de opressão com o c1ual são ameac;ados os pon>s democráticos


não se parecerá com nada antes visto no mundo; nossos contemporâneos
não encontrariam em sua memória imagem c1ue a ele se assemelhasse. Eu
mesmo busco em vão uma expressão que reproduza com exatidão a id(ia que
formo dek e c1ue o contenha. As velhas pala\Tas despotismo e tirania não são
adec1uadas. A coisa/._, nova e, portanto, tenho que tentar defini-la, já c1ue não
sou capaz de nomeá-la.'

Uma outra prcmoni\:ão \Tio na umkcima hora e partiu de um enge-


nheiro francês transformado cm comentador social, Georgcs Sore 1. Em
1908, Sorcl criticou Marx por não ter percebido que "uma rcvolu~:ão al-
can\·acla cm tempos ele ckcaclência" poderia "tomar como ideal uma volta
ao passado, ou até mesmo a conservação social".'
A palaHajé1scismo tem origem nojéiscio italiano, literalmente, um feixe
ou maço. Em termos mais remotos, a palavra remetia aojéisccs latino, um
machado cercado por um feixe ele varas que era lendo diante cios magis-
trados, nas procissões públicas romanas, para significar a autoridade e a

2. Akxis dl'ºfocquc,illc, Dcmocra,y in ilmcrica, trad., cd. e· intro. de I lancy C. Mans-


field e Dclba Winthrop. Chicago: Uni\l'rsity of Chicago l'ress, 2000, p. 662, v. II, parte
4, cap. 6.
3. Ceorges Sorel, Rcfleclions on l'iolcncc. Cambridge: Cambridge Uni,ersity Press,
1999, p. 79-80.
ROBERT O. PAXTON 15

unidade cio Estado. Antes de 1914, de modo geral, foi a esquerda que se
apropriou do simbolismo dojéisccs romano. Marianne, o símbolo da Repú-
blica Francesa, foi muitas vezes retratada, no século XIX, portando oféisccs,
para representar a força da solidariedade republicana contra seus inimigos
aristocratas e clericais. 4 Fasees figuram com proeminência no Shcldonian
Theater da Universidade de Oxford, ele autoria de Christopher Wren, e
também no Lincoln Memorial de Washington (1922), bem como na moeda
norte-americana de um quarto de dólar cunhada em 193 2. 5
Os revolucionários italianos usaram o termo jéiscio em fins do sécu-
lo XIX, para evocar a soliclarieclacle e o compromisso dos militantes. Os
camponeses que se insurgiram contra os senhores de terra na Sicília, em
1893-1894, denominavam a si mesmos de os Fasci Siciliani. Quando, em
fins de 1914, um grupo de nacionalistas de esquerda, aos quais logo veio a
se juntar o pária socialista Benito Mussolini,6 tentou levar a Itália a partici-
par da Primeira Guerra Mundial cio lado dos Aliados, eles escolheram um
nome cujo fim era comunicar tanto o fervor quanto a solidariedade de sua
campanha: O Fascio Rivoluzionario d' Azione Interventista (A Liga Revo-
lucionária de Ação Intervencionista). 7 Ao fim da Primeira Guerra Mundial,
Mussolini cunhou o termo fascismo para descrever o estado de ânimo do
pequeno bando de ex-soldados nacionalistas e de revolucionários sindica-
listas pró-guerra 8 que vinha reunindo a seu redor. Mesmo então, ele não

4. Ver Mauricc Agulhon, Marianne <1u combat: L'imagerie et la symholique répuhlicaine


de 1789 à 1880. Paris: Flammarion, 1979, p. 28-9, 108-9, e Marianne au pouvoir. Paris:
Seuil, 1989, p. 77, 83.
5. Simonetta Falasca-Zamponi, Fascist Spectacle: The Aesthetics of Power in Mussolini 's
Italy. Berkeley: Univcrsity of California l'rcss, 1997, p. 95-9.
6. Mussolini ha,ia sido figura de destaque na ala revolucionária do Partido Socialista
Italiano, hostil ao reformismo e desconfiada das concessões feitas pela ala parlamentar
do partido. Em 1912, com apenas 29 anos, t>le se tornou editor do jornal do partido,
Avanti. Foi expulso do partido no outono de 1914 por sua maioria pacifista, por defender
a entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial.
7. Pierre Milza, Mussolini. Paris: fayanl, 1999, p. 174, 176, 189. Já cm 1911, Mus-
solini chamava de.fàscio o grupo socialista liderado por ele. R. J. 13. Bosworth, Mussolini.
Londrcs:Arnold, 2002, p. 52.
8. O termo é explicado nas p. 17- 18.
16 A ANAl'OMIA DO l;ASC!SMO

possuía o monopc)lio da palaHajàscio, que continuou sendo de uso geral


9
entre grupos ativistas de diYcrsos matizes políticos.
Oficialmente, o fascismo nasceu cm Milão, cm um domingo, 23 de
março de 1919. Naquela manhã, pouco mais de cem pcssoas, 10 entre elas
Ycteranos de guerra, sindicalistas que haYiam apoiado a guerra e intelec-
tuais futuristas, 11 além de alguns repórteres e um certo número de me-
ros curiosos, encontraram-se na sala de reuniões da Aliança Industrial e
Comercial de Milão, cujas janelas se abriam para a Piazza San Sepolcro,
para "declarar guerra ao socialismo ( ... ) cm razão de este ter-se oposto ao
nacionalismo". 11 Nessa ocasião, Mussolini chamou seu mcwimento ele Fasci
di Combattimcnto, o que significa, aproximadamente, "fraternidades de
combate".
O programa fascista, divulgado meses mais tarde, era uma curiosa mis-
tura de patriotismo de veteranos e de experimento social radical, uma cs-
pt'cie de "nacional-socialismo". Do lado nacionalista, ele condamava pela
consecução dos objetivos expansionistas italianos nos Bálcãs e ao redor cio
Mediterrâneo, objetivos esses que haviam sido frustrados meses antes, na
Conferência de Paz de Paris. Do lado radical, propunha o sufrágio feminino
e o Yoto aos dezoito anos de idade, a abolição da câmara alta, a convocação
de uma assembkia constituinte para redigir a proposta de uma nova cons-
tituição para a Itália (presumivelmente sem a monarquia), a jornada de
trabalho de oito horas, a participac,·ão dos trabalhadores na "administração

9. Depois da derrota dos t·xt'.·rcitos italianos cm Caporetto, cm novembro de 1917,


um grande grupo de deputados e senadores liberais e conservadores formou um Jàscio
porlwncntarc Ji d1fesa nazionale, ciue buscava mobilizar a opinião pública em defesa dos
esfon;os de guerra.
1O. A lista se expandiu mais tarde, com acréscimos oportunistas, quando pertencer
ao grupo dos fundadores os sanscpolcristi passou a ser vantajoso. Renzo de Feiice,
Jfussoliní íl rírnhuíonarío, 1883-1920. Turim: Einaudi, 1965, p. 504.
11. O termo /· explicado na p. 18.
1 2. Uma Yersão em inglc's dos discursos proferidos por Mussolini naquele dia foi
puhlicadJ cm ChJrks F. 1klzcll, Medítcrrancan Fascísm, 1919-194 Ç. Nova York: 1-larper &
Row, 1970, p. 7-11. Os relatos mais completos são De Feiice, Mussolini il rirnluzionario,
p. 504-9, e Milza, .lfussolíní, p. 2 ~6-40.
ROBERT O. PAXTON 17

técnica das fábricas", e a "expropriação parcial de todos os tipos de rique-


za", por meio de uma tributação pc~acla e progressiva do capital, o confisco
de certos bens da Igreja e ele 85 % dos lucros de guerra. 1 i
O movimento de Mussolini não se restringia ao nacionalismo e aos ata-
ques à propriedade, mas fervilhava também de prontidão para atos violen-
tos, ele antiintelectualismo, de rejeição a soluções de compromisso e ele
desprezo pela sociedade estabelecida, características essas comuns aos três
grupos que constituíam a massa de seus primeiros seguidores veteranos
de guerra desmobilizados, sindicalistas pró-guerra e intelectuais futuristas.
Mussolini - ele mesmo um ex-soldado que se gabava ele seus quarenta
ferimentos 14 esperava voltar à política como líder dos veteranos. Um
sólido núcleo central de seus seguidores provinha dos Arditi . unidades de
combatentes de elite, calejados por experiência de linha ele frente, e que se
sentiam no direito de governar o país que eles haviam salvo.
Os sindicalistas pró-guerra haviam sido os companheiros mais próxi-
mos de Mussolini durante a luta para levar a Itália à guerra, em maio de
1915. Na Europa anterior à Primeira Guerra Mundial, o sindicalismo era
o principal rival ela classe trabalhadora do socialismo parlamentar. Embo-
ra, por volta ele 1914, a maioria cios sindicalistas estivesse organizada cm
partidos eleitorais que competiam por cadeiras no parlamento, estes ainda
mantinham suas raízes sindicais. Os socialistas parlamentares trabalhavam
por reformas pontuais, enquanto esperavam pelos desdobramentos históri-
cos que tornariam o capitalismo obsoleto, tal como profetizado pelos mar-
xistas, ao passo que os sindicalistas, desdenhando as concessões exigidas
pela ação parlamentar, e também o fato de a maioria dos socialistas estar
comprometida com a evolução gradual, acreditavam que poderiam derru-
bar o capitalismo com a força de sua vontade. Concentrando-se na meta

13. Texto de 6 de junho de 1919, cm De Feiice, Mussolini íl rirnluzionario, p. 744-


45. Versões inglesas em Jeffrcy T. Schnapp, cd., A Primer of ltalian Fascísm. Lincoln, NE:
University ofNebraska Press, 2000, p. 3-6, e Delzell, p. 12-3.
14. Mussolini chegou a esse número auto-engrandecedor contando cada um dos es-
tilhaços, grandes e pequenos, que o feriram cm fevereiro de 1917, durante um exercício
de treinamento com um lan\:ador de granadas.
18 A ANATOMIA DO FASCISMO

revolucionária final, mais que nas reivindicações corriqueiras de cada setor


da classe trabalhadora, eles seriam capazes de formar "um grande sindicato"
e provocar a queda do capitalismo de um só golpe, numa greve geral ele
proporções monumentais. Após a derrocada do capitalismo, os trabalhado-
res organizados internamente em seus próprios sindicatos permaneceriam
como as Únicas unidades funcionais do sistema produtivo e do sistema de
trocas, numa sociedade livre e coletivista. 15 Em maio de 1915, quando a
totalidade dos socialistas parlamentares e a maioria dos sindicalistas italia-
nos opunham-se \Tcmentcmcntc à entrada da Itália na Primeira Grande
Guerra, uns poucos espíritos ardorosos, reunidos em torno ele Mussolini,
concluíram que a guerra levaria a Itália para mais perto da revolução social
do que aconteceria se o país permanecesse neutro. Eles haviam-se tornado
os "sindicalistas nacionais". 16
O terceiro grupo ligado aos primeiros fascistas ele Mussolini era com-
posto de jovens intelectuais e estetas antiburgueses, como os futuristas.
Os futuristas eram uma associação livre de artistas e escritores que apoia-
vam os "Manifestos Futuristas" de Filippo Tomaso Marinctti, o primeiro
dos quais fora publicado cm Paris, cm 1909. Os seguidores de Marinetti
repudiavam o legado cultural do passado reunido nos museus e nas biblio-
tecas e exaltavam as qualidades libertárias e vitalizantes da velocidade e da
. l'cnc1a.
no . l)e Io que a v·1tona
. "U m carro e1e cornc. 1a e' mais ' · e1e Samo t rac1a.
' · " 17

1 5. Uma útil introdu<,·ão ao sindicalismo { Jeremy Jennings, Syndicalism in France: A


Study of /Jeas. Londres: Macmillan, 1990. O sindicalismo revolucionário era mais atraen-
te para os trabalhadores fragmentados e mal-organizados da Espanha e da Itália do que
para os numerosos e bem-organizados trabalhadores do norte da Europa, que obtiveram
ganhos com a legisla<,·ão reformista e com greves táticas cm apoio a reiYindica,,:ões espe-
cíficas ao local de trabalho. Na verdade, ek de,T ter atraído mais intelectuais do que tra-
balhadores. Ver Peter N. Stcarns, Rernlutionary Syndicalism cmd French Lahor: Cause without
Reheis. N cw Brunswick. N J: Rutgcrs University Prcss, 1971 .
16. Zeev Sternhcll ct ai. The Birth ofFascist !deoloay. Princeton: Princeton UniYersity
Prcss, 1994, p. l 60ff; DaYid Roberts, The Syndicalist Tradition and ltalian Fascism. Chapei
Hill: University of North Carolina Press, 1979; Emílio Gcntilc, fc oriaini dell'ideoloaia
jàscista. Rari: Latcrza, 1975, p.114-52.
17. Publicado no diário parisiense fe Fiaaro cm 15 de mar<,·o de 1909. Citado aqui a
partir de Adrian Lyttdton. ecl., !talian Fascisms: From Pareto to Gentile. Nova York: Harpcr
Torchbooks, 197 3, p. 211.
ROBERT O. PAXTON 19

Em 1914, eles haviam ansiado pela aventura da guerra, e continuaram a


seguir Mussolini em 1919.
Uma outra corrente intelectual que fornecia recrutas a Mussolini c<m-
sistia daqueles que criticavam as vergonhosas concessões feitas pelo par-
lamentarismo italiano, e que sonhavam com um "segundo Risor9imento". 1 s
O primeiro Risorgimcnto, a seu ver, havia deixado a Itália nas mãos ele uma
oligarquia estreita, cujos insensíveis jogos políticos não condiziam com o
prestígio cultural da Itália, nem com suas ambições ele Grande Potc'.ncia.
Era hora de concluir a "revolução nacional" e de dar à Itália um "novo Esta-
do", capaz ele convocar líderes enérgicos, cidadãos motivados e a comuni-
dade nacional unida que a Itália merecia. Muitos desses defensores de um
"segundo Risor9imento" escreviam para a revista cultural florentina La ~oce,
da qual o jovem Mussolini era assinante, e com cujo editor, Giuscpe Pre-
zzolini, ele se correspondia. Após a guerra, a aprovação da revista conferiu
respeitabilidacll· ao movimento fascista nascente e difundiu entre os nacio-
nalistas de classe média a aceitação de uma "revolução nacional" radical. 1"
Em 5 de abril ele 191 9, pouco depois da reunião inaugural cio fascis-
mo, realizada na Piazza San Sepulcro, um grupo de amigos ele Mussolini,
incluindo Marinctti e o chefe dos Arcliti, Ferruccio Vecchi, invadiram o es-
critório do jornal socialista Avanti, cm Milão, cio qual o pr<>prio Mussolini
havia sido editor, entre 1912 e 1914. Eles destruíram todo o equipamento.
Quatro pessoas foram mortas, inclusive um soldado, e trinta e nove ficaram
feridas. )o O fascismo italiano, desse modo, irrompeu na história por meio
ele um ato de violência contra não apenas o socialismo como também c<m-
tra a legalidade burguesa, em nome de um pretenso bem nacional maior.
O fascismo recebeu seu nome e deu seus primeiros passos na Itália.
Mussolini, entretanto, não era um aventureiro solitário. Movimentos se-
melhantes vinham surgindo na Europa do pós-guerra, independentes cio

18. O primeiro Risoraimento, ou renascimento, inspirado pelo nacionalismo huma-


nista ele Giuseppe Mazzini, havia unido a Itália entre 18 59 e 1870.
19. Emílio Gentil e, li mito Jello stato nuorn dall'antiaiolittismo a!Jàscismo. 13ari: Later-
za, 1982; Walter Adamson, Arnnt-aardc Florencc: From Modernism to Fascism. Cambridge,
MA: Hanard Univcrsity Press, 1993.
20. De Feiice, ,}lussolini il rivoluzionario, p. 521.
20 A ANATOMIA DO FASCISMO

fascismo de Mussolini, mas expressando a mesma mistura de nacionalismo,


anticapitalismo, voluntarismo e violt-ncia ativa contra seus inimigos, tanto
burgueses quanto socialistas. (Tratarei de maneira mais completa, no capí-
tulo 2, da longa lista dos primeiros fascismos).
Pouco mais de três anos após a reunião da Piazza San Sepolcro, o Par-
tido Fascista de Mussolini ocupava o poder na Itália. Onze anos mais tarde,
um outro partido fascista tomou o poder na Alemanha. 21 Não demorou
muito para que a Europa, e até mesmo outras regiões do mundo, fervilhas-
sem com aspirantes a ditador e marchas de esquadrões que acreditavam
estar trilhando o mesmo caminho para o poder que Mussolini e Hitler. Em
outros seis anos, Hitler havia jogado a Europa numa guerra que acabaria
por tragar grande parte do mundo. Antes de ela chegar ao fim, a humanida-
de havia sofrido não apenas as barbaridades costumeiras das guerras, desta
vez alçadas a uma escala sem precedentes pela tecnologia e pela paixão,
mas também a tentativa de extinguir, por meio de um massacre cm escala
industrial, todo um povo, sua cultura e sua própria memória.
Ao ver Mussolini ex-mestre-escola, boêmio, escritor menor e, em
épocas anteriores, orador e editor socialista - e Hitler - ex-cabo do exérci-
to e estudante de arte fracassado-, cercados por seus rufiões encamisados,
governar Grandes Potc'.ncias européias, muitas pessoas educadas e sensíveis
supuseram, simplesmente, que "uma horda de bárbaros ( ... ) armou suas

21. Há um intenso debate sobre se o Partido Nazista era "fascista" ou se ele era
algo sui gene ris. Mais adiante, explicaremos por que consideramos o nazismo uma forma
de fascismo. Por ora, observamos simplesmente que Hitler mantinha um monumental
busto do Ducc cm seu gabinete na sede do partido nazista, na Casa Marrom, cm Munique
(lan Kershaw, Hitler 1889-1936: Huhris. Nova York: Norton, 1999, p. 343). Mesmo no
auge do poder nazista, quando a maior parte destes preferia não dar precedência à Itália
ao rotular a Akmanha de "fascista", Hitler ainda definia a si mesmo como "sincero admi-
rador e discípulo" de Mussolini. Uma carta contendo esses termos, remetida ao Duce cm
21 de outubro de 1942, no vigósimo aniversário da Marcha sobre Roma, foi publicada
cm Meir Michaelis,"! rapporti fra fascismo e nazismo prima dell'avvento di Hitler aipo-
tere ( 1922-19 33)", Rii·ista Storica Italiana, v. 8 5, n. 3, p. 545, 197 3. A análise mais recente
dos la1,·os existentes entre Hitler e Mussolini é de Wolfgang Schieder, "The German Right
anel Italian Fascism", em Hans Mommscn, cd., The Third Reich Between Vision and Reality:
New Pcrspectiies on German History. Oxford: Berg, 2001, p. 39-57.
ROBERT O. PAXTON 21

tendas no interior da nação". 22 O romancista Thomas Mann, cm 27 de mar-


ço de 1933, dois meses após Hitler ter se tornado Chanceler da Alemanha,
anotou em seu diário que ele havia testemunhado uma revolução jamais an-
tes vista, uma revolução "sem idUas que a embasassem, contrária às idéias,
contrária a tudo o que há de mais nobre, de melhor, de mais decente, con-
trária à liberdade, à verdade e à justiça". A "ralé comum" havia tomado o
poder, "cercada de grande júbilo por parte das massas". n
Em seu exílio interno em Nápoles, o eminente filósofo-historiador e
liberal italiano, Benedetto Croce, observou desdenhosamente que Musso-
lini havia acrescentado um quarto tipo de mau governo - a "onagrocracia",
o governo dos asnos zurrantes - aos três famosos tipos descritos por Aris-
tóteles: a tirania, a oligarquia e a democracia. 24 Croce, mais tarde, concluiu
que o fascismo fora apenas um "parênteses" na história italiana, o resultado
temporário de um declínio moral agravado pelos deslocamentos da Pri-
meira Grande Guerra. Friedrich Meinekc, historiador alemão de tendência
liberal, pensou ele forma semelhante, após Hitler ter levado a Alemanha
à catástrofe, que o nazismo havia surgido de uma degeneração moral na
qual técnicos ignorantes e superficiais, os Machtmcnschen, apoiados por uma
sociedade de massas sedenta por excitação, haviam triunfado sobre os hu-
manistas equilibrados e racionais, os Kulturmcnschcn. 75 A solução, na opinião
de ambos os autores, era restaurar uma sociedade onde o governo estivesse
nas mãos dos "melhores".

22. PalaHas do próprio Mussolini, zombando da incapacidade de seus inimigos de


compreender "a nohr(' paixão da jun:ntude italiana". Discurso proferido cm 3 de janeiro
de 1925, cm Eduardo e Duilio Susmcl, cds., Opera Omnia di Bcnito Mussolini. Florença: La
Fenice, 1956, v. XXI, 238ff.
23.Thomas Mann, Diaries 1918-1939, seleção e prefácio de Herman Kesten, trad.
do alemão por Richard e Clara Winston. Nova York: H. N. Abrams, 1982, p. 1 36 e se-
guintes. A repugnância que Mann sentia pelo "barbarismo" nazista não o impediu de
confessar, em 20 de abril de 1933, um "certo grau de compreensão da rebelião contra o
elemento judeu" (p. 15 3).
24. Citado cm Alberto Aquarone e Maurizio Vernassa, eds., II regimejàscista. Bolo-
nha: II Mulino, 1974, p. 48.
2 5. Friedrich Meinecke, Dic deutsche Katastrophe. Wiesbadcn: Brockhaus, 1946, trad.
como The German Catastrophe. Cambridge, MA: Harvard Univcrsity Press, 1950.
"
22 A ANATOMIA DO FASCISMO

Outros observadores, desde o início, perceberam que a questão era


mais profunda que a ascensão fortuita ele meliantes, e mais precisa que a
decadência da antiga ordem moral. Os marxistas, as primeiras vítimas do
nazismo, estavam acostumados a pensar a história como o desdobramento
grandioso de processos profundos, por meio do entrechoque de sistemas
econômicos. Mesmo antes de Mussolini ter consolidado por completo seu
poder, os marxistas já tinham pronta sua definição para o fascismo, "o ins-
trumento da grande burguesia cm sua luta contra o proletariado, sempre
que os meios legais disponíveis ao Estado mostram-se insuficientes para
contê-lo". 26 No tempo de Stálin, essa definic,,ão enrijeceu-se numa fórmula
fL,rrea, que se transformou na ortodoxia comunista vigente por meio sécu-
lo: "O fascismo/._, a ditadura explícita e terrorista dos elementos mais rea-
27
cionários, mais chau,,inistas e mais imperialistas do capital financeiro".
Ao longo dos anos, muitas outras interpretações e definições ,,iriam
a ser propostas, mas, até hoje, mais de oitenta anos após a reunião de San
Sepolcro, nenhuma delas alcan\:ou accit,H,'ão universal cmno sendo uma
cxplicac,·ão totalmente satisfatória para um fcntJmeno c1uc, aparentemente,
surgiu do nada, tomou múltiplas e variadas formas, exaltou o hdio e avio-
Jt,ncia cm nome da superioridade nacional e, entretanto, conseguiu atrair
estadistas, empresários, profissionais, artistas e intelectuais de prestígio e
cultura. No capitulo 8, aphs termos alcan,,ado uma maior compreensão de
nosso tema, irei reexaminar essas muitas inkrprctaçõcs.
A)é,m disso, os moYimentos fascistas variaram ele forma tão evidente
ele um contexto nacional para outro que há quem chegue a duvidar ele que
o termofc1scismo de fato signifique algo além de um rótulo pejorativo. Esse
epíteto (._, usado de forma tão vaga que praticamente qualquer pessoa que
detenha ou alegue autoridade já foi tachada de fascista por alguém. Talvez,
8
como fazem os céticos, fosse melhor simplesmente descartar o termo.'

26. Rcsolu<;ào da Internacional Comunista, cm julho de 1924, citada cm David lk-


ctham, ccl., Marxists in Face of foscism: ll'ritinHs by iHarxists on h1scism From the fntcrwar PcrioJ.
Manchester: University of Manchester l'rcss, 198 3, p. 152- 3.
27. Roger Griffin, nl., foscism. Oxford: Oxford Univcrsity Press, 1995, p. 262.
28. O ~1aior l'L'tirn ( Gilbcrt Allanly._·e, "What Fascism is not: Thoughts on the dc-
tlation of a conccpt", Amcrican Historical Rericw, ,. 84, n. 2, p. 367-88, abr. 1979.
"'º
ROBERT O. PAXTON 23

É objetivo deste livro propor uma nova maneira de encarar o fascismo,


de modo a resgatar o conceito para usos significativos e explicar melhor seu
fascínio, sua complexa trajetória histhrica e seu horror fundamental.

As IMAGEJ\S DO FASCISMO

Todos têm certeza de que sabem o que o fascismo é. Na mais expli-


citamente visual de todas as formas políticas, o fascismo se apresenta a
nós por vívidas imagens primárias: um demagogo chauvinista discursan-
do bombasticamentc para uma multidão cm êxtase; fileiras disciplinadas
de jovens desfilando em paradas; militantes vestindo camisas coloridas e
espancando membros de alguma minoria clemonizada; invasões-surpresa
ao nascer cio sol e soldados ele impecável forma física marchando por uma
cidade capturada.
Se examinadas mais de perto, entretanto, algumas dessas imagens fa-
miliares podem induzir a erros irrefletidos. A imagem do ditador todo-po-
deroso personaliza o fascismo, criando a falsa impressão de que podemos
compreendê-lo cm sua totalidade examinando o líder, isoladamente. Essa
imagem, cujo poder perdura até hoje, representa o derradeiro triunfo dos
propagandistas cio fascismo. Ela oferece um álibi às nações que aprovaram
ou toleraram os líderes fascistas, desviando a atenção das pessoas, dos gru-
pos e das instituições que lhes prestaram auxílio. Necessitamos de um mo-
delo mais sutil do fascismo, que examine as interações entre o Líder e a
Nação, e entre o Partido e a sociedade civil.
As imagens das multidões cantando hinos alimenta a suposição de que
alguns povos europeus eram, por natureza, predispostos ao fascismo, e res-
ponderam a ele com entusiasmo devido a seu caráter nacional. O corolário
dessa imagem é uma crença condescendente de que o fascismo foi gerado
pelas mazelas ela história de determinadas nações, 29 crença essa que se con-

29. Algumas obras dos anos 1940, coloridas com propaganda do período da guerra,
viam o nazismo como um desenvolvimento lógico da cultura nacional alemã. Ver, entre
outros, W. M. McGon:m, From Luther to Hitler: The Hütory ofFascist-Nazi Political Philosophy,
Boston: Houghton Mifflin, 1941; e Rohan d 'Olicr Butler, The Roots of National Sociolism,
Nova York: E. P. Dutton, 1942. O principal exemplo francês t'.: Edmond-Joachim Vcrmeil,
24 A ANATOMIA DO FASCISMO

,crte num álibi para os paÍsl's espectadores: isso jamais aconteceria aqui.
Para aJL,m dessas imagens familiares, num exame mais cuidadoso, a reali-
dade fascista torna-se ainda mais complexa. Por exemplo, o regime que
inYentou a palavraJàscismo · a Itália de Mussolini · mostrou poucos sinais
de anti-semitismo até ter ocupado o poder por dezesseis anos. Na yenlade,
Mussolini conta\'a com o apoio de industriais e proprietários de terra ju-
deus, que, nos primeiros tempos, lhe forneceram ajuda financeira. rn Alguns
de seus amigos mais próximos eram judeus, como o militante do Partido
Fascista Aldo Finzi, e ele teve uma amante judia, a escritora Margherita
11
Sarfatti, autora de sua primeira biografia autorizada. Cerca de duzentos
12
judeus participaram da Marcha sobre Roma. Por outro lado, o governo
colaboracionista francês de Vichy ( 1940- 1944), encabeçado pelo Marechal
Pétain, era agressivamente anti-semita, embora, sob outros aspectos, pres-
te-se mais à classificação de autoritário i i que de fascista, como veremos

L'Allcmagnc: Essai d'cxplicotion. Paris: Callimanl, 1940. O l'Xcmplo contemporânl'O mais


deprimente t' Danid Jonah Goldhagen, llitlcr's Willing Excrntioncrs. Nova York: Knopf,
1996, deprimente por(llll' o autor deturpou um valioso estudo sobre o sadismo do baixo
escalão dos responsán>is pelo Holocausto e o transformou assim numa dcmonizac;ão pri-
mitiva de todo o pmo akmão, camuflando o fato de que muitos dessl's cúmplices eram
não-alemães, e tamb{m que havia alguns alemães de índole humanitária.
30. Akxander Stille, Bcncrnlence and Bctrayal: five ftalian Jewish Families Undcr Fascism.
Nova York: Pcnguin, 199 3, ofrrecl' exemplos interessantes dl' judeus ricos que atuavam
corno financiaclorl's cm Turim l' Ferrara, embora tambL·m houvesse judl'us nas fileiras da
resistência antifascista, notadarncnte no movimento Giustizia e Liberte\. Quando foram
decretadas as leis raciais italianas, l'm 19 38, um em cada três judeus italianos adultos era
membro do Partido Fascista (p. 22).
31. Philip V. Canistraro e Brian R. Sullivan, II Ducc's Othcr H~1man. Nova York: Mor-
ro\\', 199 3.
32. Susan Zuccotti, Thc !ta/ians and the Holocaust: Perserntion, Rcswe, Sunirnl. Nova
York: Basic Books, 1987, p. 24.
3 3. As ditaduras ;wtoritárias gon-rnam por meio de fon_'as conservadoras preexis-
tentes (as igrejas, os l'XL'rcitos, os interesses econcímicos organizados) e buscam desmo-
bilizar a opinião pública, ao passo que os fascistas governam por meio de um partido
único e tentam gerar l'ntusiasmo público. Discutiremos essa distins·ão mais detidamente
no capítulo 8, p. 358-362.
ROBERT O. PAXTON 25

no capítulo 8. Desse modo, é problemático considerar o anti-semitismo


exacerbado como a essência do fascismo. 14
Uma outra característica supmtamentc essencial do fascismo é seu âni-
mo anticapitalista e antiburguês. Os primeiros moYimentos fascistas os-
tentavam seu desprezo pelos valores burgueses e por aqueles que queriam
apenas "ganhar dinheiro, dinheiro, imundo dinheiro". 11 Atacavam o "capi-
talismo financeiro internacional" com quase a mesma yeemência com que
atacavam os socialistas. Chegaram a prometer expropriar os donos de lojas
de departamentos cm favor de artesãos patrióticos, e os grandes proprietá-
rios de terras em favor dos camponeses. 16
Quando os partidos fascistas chegaram ao poder, entretanto, eles nada
fizeram para cumprir essas amcac,as anticapitalistas. Puseram cm prática
com extrema e eficaz violência suas ameaças contra o socialismo. Brigas
de rua em que os fascistas disputavam território com jovens comunistas

34. Para alguns autores, o anti-semi1ismo ó o cerne da (1ucstão; cu o vejo como ins-
trumental. Hannah Arendt, Origins of!àtolitarianism, cd. rl'v. Nova York: Harcourt, Brace
anel World, 1966, cntcndl' c1uc as raízes do totalitarismo surgl'm ela frrml'ntac;ão de uma
mistura de anti-semitismo, imperialismo e uma sociedade ele massa atomizada. Ela não
acreditava que a Itália de Mussolini fosse totalitária (p. 257-9, 308).
35. Otto Wagcner, chefr do Estado Maior cios SA e chefe cio departamento de po-
lítica econômica do NSllc\P atl' 1933, citado cm Henry A. Turner, ui., llitlcr am néichstcr
Néihe. Frankfurt am Main: Ullstl'in, 1978, p. 374. Wagcncr quase sl' tornou ministro da
Economia em junho de 193 3. Ver capítulo 5, p. 24 3.
36. No Ponto 17 de seus 2 5 Pontos, divulgados em 24 dl' fevereiro ele 1920, os
nazistas prometiam a rcclistribuic,·ão elas terras (Jeremv Noakes anel Geoffrcv Pridham
Nazism 1919-184 5, v. I: Thc Risc to Powcr, 1919-19 34. E~eter: Uni vcrsity of E~ctcr Prcss:
1998, p. 15). Esse l' apl'nas um dos 2 5 Pontos "inaltl'ráveis" gue Hitler, mais tarde, alte-
rou de forma explícita quando, aphs 1928, passou a dedicar maior atens·ão ao recrutar
para seu moviml'nto camponl'scs cll'dicados aagricultura familiar. A ordem de 6 de mar-
ço de 1930, que "completava" o Ponto 17 e afirmava a inviolabilidade ela propriedade
agrícola privada (com excec,:ão de propric·dadc ele judeus) está cm llitlcr Rcdcn, Schrijtcn,
Anordnungen, Fehruar l 92C, his Januar 1933, editado pelo lnstitut für Zeitgcschichtc. Mu-
nique: K. G. Saur, 1995, v. III, parte 3, p. 115-20. Uma versão cm inilc'-s aparccl' cm
Norman Baynes, cd., The Speeches ofAdolfHitlcr. Oxford: Oxford Univcrsity l'ress, 1942,
V. I, P· 105. ·
26 A ANAfOMIA DO FASCISMO

consta\'am entre suas mais poderosas imagens de propaganda. n Ao tomar


o poder, proibiram as greYes, dissolveram os sindicatos independentes, re-
duziram o poder de compra dos salários dos trabalhadores e despejaram
dinheiro nas indústrias armamentistas, para a imensa satisfac;ão dos patrões.
Diante desses conflitos entre palavras e atos, no que se referia ao capi-
talismo, os estudiosos chegaram a conclusões opostas. Alguns, tomando
literalmente as palavras, consideram o fascismo uma forma radical de anti-
capitalismo. rn Outros, e não apenas os marxistas, adotam a posic;ão diame-
tralmente oposta, ele c1ue os fascistas Yieram em socorro do capitalismo cm
apuros, dando sustentac;ão, por meio de medidas emergenciais, ao sistema
vigente ele distribui<;ão ela propriedade e de hierarquia social.
Este li\To adota a posi~·ão de que o c1ue os fascistasJizeram C\ no míni-
mo, tão informativo c1uanto o que disseram. O que disseram não pode ser
ignorado, l· claro, pois nos ajuda a entender o fascínio exercido por eles.
Mesmo em sua forma mais radical, contudo, a retórica anticapitalista do
fascismo era seletiva. Ao mesmo tempo cm que denuncia\·am as financias
especulativas internacionais (juntamente com todas as outras formas ele
internacionalismo, cosmopolitismo ou de globalizac;ão), respeitaram as
proprieelades dos produtores nacionais, que deveriam ,·ir a se constituir na
· 1 e1e uma nac;ao
1)ase soc1a - re\·1gorac
· 1a. l') S
, uas e1enuncias
' · con t ra a l)urgues1a,
.

37. b L' Roscnhaft, !lcutiniJ thc hisc"ist ,.) Thc Gcrmun Communists ,mel Politirnl l 'iolcncc,
1919-1933. Camhridgl': Camhridgl' LlniHTsity l'rcss, 198 3. O hino nazista, "l-lorst Wes-
scl l.icd" (Can<iâo dc l lorst \NL'ssd), falaYa da memória de um jmL·m rufiio nazista morto
numa briga dcssc tipo, omitindo o fato de LJUL' o motinJ da briga foi uma rixa com sua
sl'nhoria. Ver l'ctcr Longnich, Dic hrounc !latai!lonc: (;c,chichtc der S:1. Muniquc: C. 1-1.
lkck, 1989, p. 138.
38. "Sc haYia urna coisa com a qual todos os fascistas l' nacional-socialistas nmcor-
dayam, era sua hostilidade ao c,lpitalisrno". Lugen Weber, lilfictics of Fascism. NoYa York:
Van '.\lostrand, 1964, p. 47. Weber notou,(,_, claro, c1ue o oportunismo limita,a o efrito
pr.itico dessa hostilidadl'. Ver tamh1,_·m Eugen Weber, "Re,olution' Countcr-Rc·yolution?
\Vhat Rc, oi ution ?", Joumal of Contcmporory l listory, "· 9, n. 2, p. 3-47, ahr. 1974, , reedi-
tado cm Waltn Lac1ucur, ed., foscism: A Rcadcr's Guie/e. Berkeley; Los Angeles: UniYcrsity
oi California Press, 1976, p. 4 35-6 7.
39. Sobre o fato de Mussolini, bem cedo, ter abandonado o termo proletaria-
do, substituindo-o por "fon;as produtiYas", para designar a camada social c1ue seria
ROBERT O. PAXTON 27

contudo, referiam-se a ser débil e incliYiclualista demais para fortalecer a


nação, e não a roubar a classe trabalhadora do valor agregado por seu tra-
balho. O que o fascismo criticava no capitalismo não era sua exploração,
mas seu materialismo, sua indifcrcnc;a para com a nac;ão e sua incapacidade
de incitar as almas. +o Em um nível mais profundo, eles rejeitavam a idéia ele
que as forc;as econômicas são o motor básico da história. Para os fascistas, o
capitalismo falho do período do entreguerras não necessitava ser reordena-
do cm seus fundamentos. Suas mazelas poderiam ser curadas pela simples
aplicação de vontade política para a criação de pleno emprego e produti-
vidade.41 Uma vez no poder, os regimes fascistas confiscaram propriedade
apenas ele seus opositores políticos, cios estrangeiros e dos judeus. Nenhum
deles alterou a hierarquia social, exceto para catapultar alguns aventureiros
a posições de destaque. No máximo, eles substituíram as forças de merca-
do pela administração econômica estatal, mas, cm meio às dificuldades da
Grande Depressão, a maior parte cios empresários, de início, apoiou essa
medida. Se o fascismo era "revolucionário", ele o era num sentido especial,
bem distante ela acepção que se costumava dar a essa palavra entre 1789 e
1917, de uma profunda subversão da ordem social e ela redistribuic;ão cio
poder social, político e econômico.
No entanto, o fascismo no poder ele fato instaurou algumas mudanças
profundas o suficiente para serem chamadas de "revolucionárias", se nos
dispusermos a dar a esse termo um outro significado. Em seu desenvolvi-
mento máximo, redesenhou as fronteiras entre o priYado e o público, redu-

a base da renovac;ão da naç'ão, ,er Sternhdl et ai., !lirth, p. 12, 106, 160, 167, 175,
179, 18 2, 219.
40. Os autores, que confundem essas duas formas muito diferentes de ser antibur-
guês, simplesmente fazem uma leitura desatenta. Um exemplo recente ó a afirmaçào
do grande historiador da Rnoluç·ào Francesa, Franc;ois Furct, cm repúdio a sua própria
juventude comunista, de que tanto o fascismo corno o comunismo surgem de urna auto-
aversão comum entre os burgueses jmTm. Ver The PassinH ofan Illusion: Thc ldea of Commu-
nism in the Twentieth Century. Chicago: UniYcrsity of Chicago Press, 1999, p. 4, 14.
41. T. W. Mason, "The Primacy of l'olitics l'olitics and Economics in National
Socialist Gerrnanv", cm Jane Ca1)lan, ed., Naú,m, Fmcism anel thc Hàrkin,7 Closs: Esmvs hv
,I ( / /

Tim Moson. Cambridge: Cambridge Uni,crsity l'rcss, 199 5, p. 51- 76. (Publicado pela
primeira n·z cm alemão cm Das Ar;qumcnt, "· 41, dez. 1966 ).
28 A ANATOMIA DO FASCISMO

zindo drasticamente aquilo que antes era intocavclmente privado. Transfor-


mou a prática da cidadania, do gozo dos direitos e deveres constitucionais
à participac;ão cm cerimônias ele massa de afirmac;ão e conformidade. Re-
formulou as rclac,'Ões entre o indivíduo e a coletividade, ele forma a que um
indivíduo não tivesse qualquer direito externo ao interesse comunitário.
Ampliou os poderes do executivo - do partido e do Estado - na busca pelo
controle total. Por fim, desencadeou emoc;õcs agressivas que, até então,
a Europa só havia testemunhado cm situac,'Õcs de guerra ou de revoluc;ão
social. Essas transformac,:ões muitas vezes causaram conflito entre os fas-
cistas e os conservadores radicados nas famílias, nas igrejas, na hierarquia
social e na propriedade. Veremos adiante,+" ao examinarmos mais a fundo a
complexa rclac,,ão de cumplicidade, acomoclac;ão e ocasional oposic,:ão que
ligava os capitalistas aos fascistas no poder, que o fascismo não t' apenas
uma forma mais truculenta de conservadorismo, apesar de ter preservado
o regime vigente de propriedade e de hierarquia social.
É difícil situar o fascismo no tão familiar mapa político de direita-es-
querda. Será c1ue mesmo os líderes dos primeiros tempos saberiam fazê-lo?
Quando Mussolini reuniu seus amigos na Piazza San Sepolcro, cm marc;o
de 1919, ainda não estava bem claro se pretendia competir com seus an-
tigos companheiros do Partido Socialista Italiano, à esc1uercla, ou atacá-los
frontalmente a partir da direita. Em que ponto do espectro político italiano
Sl' encaixaria aquilo que ele, às vezes, ainda chamava de "nacional-sindica-
lismo"?4' Na verdade, o fascismo sempre manteve essa ambigüidade.

42. A CjUl'stào da "reYolLH;ào fascista" f._, discutida l'm maiorl's detalhes no capítulo 5,
p. 237-247.
4 3. O momento l'lll CJUl' Mussolini abandonou o socialismo f._. uma questão muito
discutida. Seu principal bic'>gral'o italiano, Renzo de h'licc, acrl'dita qul' Mussolini ainda
Sl' considcra\"a socialista l'm 1919 (Jfussolini il rirnhuionario, p. 485,498,519). Milza,
cm Mussolini, cri' Cjlll' ck deixou de se· considerar socialista no início de 1918, c1uando
mudou o subtítulo de scu jornal II Papo/o d'fcolio de "diário socialista" para "diário para
guerrein>s e produtores", mas c1ue, mesmo l'm 1919, ainda não ha\"ia optado claramente
pela rnntra-rernluc;ão (p. 21 O, 228). Sternhdl d ai., Rirth, p. 212, acr,,dita que o fracasso
da Sl'lll,llla Vermelha (junho de 1914) nas cidades industriais do norte da Itália "pcís fim ao
socialismo de Mussolini". Emilio Gentilc diz c1ue a expulsão de Mussolini do PSI, em se-
ROBERT O. PAXTON 29

Sobre uma coisa, entretanto, os fascistas tinham clareza: não se situa-


vam no Centro. Tinham um desprezo absoluto pela suavidade, pela compla-
cência e pelas soluc;õcs ele compromisso <lo Centro (apesar ele os partidos
fascistas, na sua luta pelo poder, terem precisado se aliar às elites centristas
contra o inimigo comum representado pela esquerda). Seu desdém pelo
parlamentarismo liberal e pelo displicente individualismo burguês, assim
como o tom radical dos remédios preconizados por eles para a fraqueza e a
desunião nacionais, sempre se chocan com a facilidade com que estabele-
ciam alianças pragmáticas com os conservadores nacionais contra a esquer-
da internacional. O ápice da reac;ão fascista ao mapa político definido cm
relac;ão à esquerda e direita foi alegar que eles o haviam tornado obsoleto,
não sendo "nem de esquerda nem de direita", havendo transcendido essas
divisões arcaicas e unido a nac;ão.
Uma outra contradic,·ão entre a retórica e a prática fascista diz respeito
à modcrnizas:ão: a passagem cio rural ao urbano, do artesanato à indústria,
a divisão cio trabalho, as socieclaclcs seculares e a racionaliza,,:ão tecnológica.
Os fascistas muitas vezes vituperavarn contra as cidades sem rosto e contra
o secularismo materialista, exaltando uma utopia agrária livre cio desenrai-
zamento, dos conflitos e ela imoralidade da vida urbana. 44

tembro de 1914, deu início a uma longa l'l'<>IU<,"JO ideolhgica, mas c1ue Mussolini scmprl'
haYia sido um socialista "herege", mais nil'tzscheano cllll' marxista (Lc origini dcll'idcoloHia
Jàscista (1918-191>), 2.cd. Bolonha: II Mulino, 1996, p. 61-9-1). Bosworth, .Hussolini, p.
107, concorda no qu,' diz respeito ao momento da muclancr"a, mas suspeita c1ue Mussolini
era um oportunista, para quem o socialismo representava apenas um meio comcncional
<le ascensão para um arri\"ista provinciano. O centro da questão e'.· como interpretar a
continuidade de seu compromisso verbal com a "rc\"CJI uc;ão", assunto guc retornaremos
mais adiante.
44. Essa corrente era mais forte entre os nazistas (por exc'mplo, Walther Da1-rc'.·)
e entre os fascista., da Europa Central c1uc na Itália, embora Mussolini exaltasse a vida
camponesa e tentasse manter os italianos c'm suas terras natais. Paul Corner, cm "Fasci.,t
Agrarian Policy and tlw Italian [conomy in tlll' Intcrwar Ycars", em J. A Da\"is, ed., c;ro-
msci and ltoly's Passi1 e Rernlution. Londres: Croom I klm, 1979, p. 2 39- 74, desconfia c1ue
essa atitude \'isa\·a principalmente manter os desempregados longe das cidades, l' que não
prejudicava de forma alguma a política l'C<•nc>mica que fa\'orecia os grandes propril't.Írios
de terra. Alexandcr Nützcnadel, l.and11 irt,chojt, Staat, und 11utarkic: Awarpolitik imfàschis-
p

30 A ANATOMIA DO i:ASCISMO

E, no entanto, os líderes adoravam seus carros,4 1 aviões velozes+(, e di-


fundiam sua mensagem usando tl'cnicas de propaganda e de cenografia ful-
gurantemente modernas. Tendo chegado ao poder, eles aceleraram o ritmo
industrial a fim de rearmar o país. Por essa razão, /._, difícil postular que a
essência do fascismo se reduza a uma reação antimodernista+ 7 ou a uma
ditadura da modernização. +s

tischen ltalien, Bibliothck eles lkutschen Historischen lnstituts in Rom, Band 86. Tübin-
gen: Max NiemeyerVerlag, 1997, 45ff, acredita que, mesmo antes de chegar ao poder,
Mussolini queri,1 completar o RiHlffJimcnto com a intl'gra<,·ão dos camponeses.
45. O Ducc dirigia seu prhprio carro esportivo, um Alfa Romeo \Trmclho (Milza,
Mussolini, p. 227, 318), algumas vezes acompanhado de seu filhote de leão. Hitler adorava
c1uando seu motorista dirigia a toda velocidade numa potente Mercedes, que a empresa
vendeu a ele pela metade do prl\'O, a titulo de publicidade. Ver Bernard Bellon, Mercedes
in Pc,1cc andJliir. Nova York: Columbia Uni,-ersity Prcss, 1990, p. 2.32.
46. l litlcr deslumbrava o público fazendo entradas espetaculares nos comícios elei-
torais, chegando de aü10. Mussolini era piloto praticante. Durante uma visita oficial à
Alemanha, ele assustou Hitler, insistindo cm assumir os controles do Condor oficial cio
Fiihrer. Milza, .ltussolini, p. 794-95. A Itália fascista imestia pesadamente na avia<,·ão como
forma de conquistar prestigio, e bateu recordes mundiais de Yelocidadc e distância nos
anos 19 30. Ver Claudio C. Segre, !tolo Ralbo:A Fascist Ujc. lkrkcley: University of Califor-
nia l'ress, 1987, parte li, "The A,iator". Para o lider fascista britânico Mosley, outro pi-
loto, \'l'r Colin Cook, "A Fascist Memory: Os\\'ald Mosley and the M yth of the Airman",
l:uropcan Rciicn ofl-listory, v. 4, n. 2, p. 147-62. 1997.
47. Na literatura mais antiga, dois tipos de abordagem tendiam a colocar a revolta
contra a modernidade no cerne do nazismo: os estudos sobre a prepara<,·ão cultural,
corno George L Mosse, Thc Crisis of Gcrmcm Ideology: lntellectual Origins of the Third Reich.
Nm a York: Grossl't anel Dunlap, 1964, e Fritz Stern, The Politics of Cultural Despa ir. Berke-
ley e Los Angdcs: University of California Press, 1961; e os estudos sobre os ressenti-
mentos da classe mt'.·dia baixa, como Talcott Parsons, "Democracy anel social structurc
in prc-nazi Gl'rmany", cm Parsons, Essays in Sociological Thcory. Glencoc, IL: FnT Press,
1954, p. 104-23 (orig. puh. 1942), e lkinrich A. Winkler, lv!ittelstand, Demokrotie und
i\'ationolso/ic1lisnws. Colônia: Kiepenheuer & Witsch, 1972. A Itália não possui literatura
ec1ui,alcntc uma dik·1-cn<,·a importante.
48. A. James Gregor, !talian h1scism anel Dei clopmcntal Dictatorship. Princeton: Prince-
tem Uni,ersity Prcss, 1979; Rainer Zitelmann, llitler: Selhst1erstiindnis cincs Rcmllllioniirs,
nm a ul. ampl. Munic1ue: F A. Hahig, 1998. Zitclmann admite c1ue ele fala ele um Hitler
c1m· poderia ter l'xistido, caso tiH·sse vencido a guerra, e não ela "realidade econ<Ímica e
p

ROBERT O. PAXTON 31

A melhor solução nao é a de estahclcccr opostos binários, mas sim


de acompanhar a relação entre a modernidade e o fascismo ao longo de
sua complexa trajetória histórica. Essa relação apresentou variações ex-
pressivas cm seus diferentes estágios. Os primeiros movimentos fascistas
exploraram os protestos das vítimas da industrializac,'ão rápida e da globa-
lização os perdedores da modernização -- usando, sem dúvida alguma,
os estilos e as tócnicas de propaganda mais modernos. 49 Ao mesmo tempo,
um número surpreendente de intelectuais "modernistas" via como estética
e emocionalmente agradáveis a combinação fascista de uma aparência high-
tech com ataques à sociedade moderna, bem como o desprezo pelo gosto
burguês convencional. ' 0 Mais tarde, ao chegar ao poder, os regimes fascis-
tas optaram decididamente pelo caminho da concentração e da produti-
vidade industrial, pelas vias cxpressas' 1 e pelos armamentos. A pressa cm
se rearmar e em se lançar cm guerras expansionistas rapidamente fez que
fosse deixado de lado o sonho de um paraíso para os tão sofridos artesãos e
camponeses lluc haviam formado a base de massas do fascismo nos primei-
ros tempos do movimento. Sobraram apenas alguns albergues ela juventude
de telhados ele colmo, as Lcdcrhoscn que Hitler usava nos fins de semana e

social corrente" do regime, quando o Fiihrcr tinha c1uc "Jcyar cm consiclerac/10 os pontos
ele \Ísta de seus parceiros de alianc;a Cim,cnadores" (p. 47-8, 502). Artigos partindo
dessa mesma perspcctiYa foram reunidos em Michael Prinz e Rainer Zitclmann, ccls.,
National.m/ialismus und ,lfodcrni/icrung. 1hrmstadt: Wisscnschaftliche Buchge-sdlschaft,
1991.
49. A. F. K. Organski, "fascism anel Moclernization", em Stuart J. Woolf, ecl., \'ature
of Fascism. ]\;ova York: Ranclom House, 1968, p. 19-41, acredita c1ue o fascismo l' mais
provável no vulnerável ponto intermediário ela transi<,·ão a uma sociedade industrial,
quando as muitas, itimas ela industrializa<,·ão podem fazer causa comum com o que restou
da elite prt'.·-inclustrial.
50. Uma lista parcial incluiria Ezra Pouncl, T. S. Eliot, W. 13. Yeats, Wyndham Ln,. is
e Gertrude Stein, ciuc, empregaram tt'.-cnicas literárias experimentais para criticar aso-
ciedade moderna.
51. Mussolini tinha suas autostracle, Hitler suas Autohahnen, que serviam tanto para
criar empregos c1uanto para fins simbólicos. Ver James D. Shand, "Thc Reichsautobahn:
Symbol of thc Third Reich", )ournal of Contemporary J-listory, v. 19, n. 2, p. 189-200, abr.
1984.
p

32 A ANATOMIA DO fASCISMO

as fotografias de Mussolini, de peito nu, trabalhando na colheita de grãos,


12
como símbolos da nostalgia rural dos primeiros tempos.
Apenas acompanhando o itinerário fascista como um todo poderemos
chegar a uma conclusão sobre sua ambígua relação com a modernidade,
ciuc tanto perturba aqueles que buscam uma essência Única para o fascismo.
Algumas pessoas percorreram esse itinerário em suas próprias carreiras
indi,iduais. Albert Spccr filiou-se ao partido em janeiro de 1931, como
discípulo de Heinrich Tessenmv, do Instituto de Tecnologia Bcrlim-Char-
lottcnburg, que "não era moderno, embora, cm alguns sentidos, fosse mais
moderno que os demais", cm razão de sua crença numa arquitetura orgâni-
ca e simplcs. 1 ' Spccr, cm 1933, passou a projetar paisagens urbanas monu-
mentais para Hitler e acabou, entre 1942 e 1945, no comando do poderio
econômico alemão, como ministro dos armamentos. Mas o que esses re-
gimes buscavam era uma modernidade altcrnati,a: uma sociedade tecnica-
mente avançada, na qual as tensões e as cisões da modernidade houvessem
14
sido sufocadas pelos poderes fascistas de integração e de controle.
Muitos \iram no ato máximo da radicalização cios tempos de guerra - a
matança de judeus - a negac,·ão da racionalidade moderna e um retorno à
barbárie. 11 Mas t, plausível perceber esse ato como expressão enlouquecida

52. () estudo clássico desse processo, no caso da Alemanha, t: Da\'id Schocnbaum,


Hitlcr's Social Rcrnlution: Class and Status in Nazi Ccrmany, 1933-1939 (Nova York: Double-
dav, 1966). No caso da Itália, ver a abrangente análise de Tim Mason, "Italy and Moder-
ni;ation", History Workshop, v. 2 5, p. 127-4 7, primavera de 1988.
5 3. Albl'rt Speer, lnsidc the Third Rcich: Memoirs. NO\'a York: Macmillan, 1970, p. 11
(p. 4-17).
54. Jeffrcy I krf, Rcactionory Modcrnism: Iéchnology, Culture, and Politics in Weimar and
thc Third Rcich. Cambridge: Cambridge Univcrsity Prcss, 1984, vêm ambas reconciliadas
numa tradi</ío cultural aLlcmã c1uc us; a tecnologia para administrar as tensões da modcr-
nizac;ão. De acordo com 1-Il'nry A.Turner, Jr., "Fascism and Modernization", World Politics
,. 24, n. 4, p. 547-64, julho 1972, reeditado cm Turner, l'll., Rcappraisals oflüscism. Nova
York: Watts, 197 5, p. 117- '19, o nazismo instrumentalizou a modernidade ele forma a
criar uma utopia agrária antimoderna no leste nmc1uistado.
55. 1-lans Mommsen \'l' o nazismo como uma "modernizac,·ão simulada", a aplicação
de t<'.-cnicas modernas para a destrui,·ão irracional e para o desmantelamento deliberado
do Estado modl'rno. Vl'r Mommsen, "Nationalsozialismus ais Vorgctauschtc Moclerni-
p;·

ROBERT O. PAXTON 33

da modernidade alternativa fascista. A "limpeza fanica" nazista tomou como


base os impulsos purificadores da medicina e da saúde pública do século xx,
a ânsia dos eugenistas em erradicar os defeituosos e os impuros, ' 6 a cstl'.tica
do corpo perfeito e uma racionalidade científica que rejeita,a os critérios
morais. '
7
Já foi sugerido que os antiquados pogroms teriam levado duzentos
anos para completar o que a tecnologia a,ançada atingiu cm três anos de
Holocausto. ' 8
A complexa relação entre o fascismo e a modernidade não pode ser
resolvida de uma sh vez, nem com um simples sim ou não. Ela tem que ser

sierung", cm Mommscn, Der l\'atinnalsozi,ilismm und die Dcutschc Gcscllschaft: 11usgcwéihltc


Auj.íiitze, cd. Lutz Nicthammcr L' lkrnd Wcisbrod. Reinlwck hei I lamburg: RowohltTas-
chenbuch Verlag, 1991, 405ff; "Noch cinmal: Nationalsozialismus une! Modcrnisierung"
Gcschichtc um/ Gcscllschaft, \'. 21, n. 3, p. 391-402, jul.-sct. 1995 ; l' "Modcrnitat u~L;
Barbarei: Ammcrkungl'n aus zcithistorischcr Sicht," cm Max Miller e Hans-Georg Soe-
ffner, cds., Modcmitéit um/ Barharci: SozioloHischc ;(citdiagnosc am Ende dcs .ZO. Jahrhi;ndcrt,.
Frankfurtam Main: Suhrkamp, 1996, p. 137-55.
56. Os americanos, os britânicos e atl' mesmo os suecos foram importantes pio-
neiros da esterilização forc,·acla, seguidos ele perto pelos alcmãl's. Ver Daniel Kl'\'lcs, /n
the Namc of Eugcnics: Genctics and the lfscs of' Human l lcredity. Nova York: Knopf, 198 5. O
racismo biol()gico era muito mais fraco na Europa cat()lica do sul, embora Mussolini
tenha anunciado uma política de "higiene social e purifica<,:ão nacional lprofilassij" cm
sua principal cleclara,:ão política posterior ao estalwkcinwnto da ditadura, o "Discurso
do Dia da Ascensão", ele 16 ele maio ele 1927. Sobre as políticas de "purificação" m{dica
da Alemanha nazista e a prom()(;ão, na Itália fascista, ele lu razza e la stirpe (ra<;a e linha-
gem), compreendidas em termos culturais e históricos, nT o Ensaio Bibliográfico, p.
393-396.
57. Essa tese foi clcfrndida ele forma prmocativa pelo falecido Iktlev Pcukl'rt, "Thl'
Genesis of the 'Final Solution' from thc Spirit of Scil'nce", cm Thomas Chilcll'rs e Jane
Caplan, eds., ReernluatinH thc Third Rei eh (Nma York: I lolml's anel Meier, 199"\ ), p. 2 34-
52. Ver tamb(m Zygmunt Bauman, Modcrnity mlll the Holornust. !thaca, NY: Corncll Uni-
vcrsity Press, 1989, p. 149: "Considerada uma opLTa<,:ão complexa e proposital, o 1-lolo-
causto pode sl'r visto como o paradigma cio racionalismo burocrático moderno. Quasl'
tudo foi frito para atingir rl'sultaclos máximos com um mínimo de custos l' esforcios".
58. P. Sahini e Mary Silvcrs, "l kstroving tlw innoccnt with a ele ar consciencc: A
sociopsychology oi' thc 1-lolocaust", cm Joel E. Dimsdalc, l'<l., Sunirnrs, l'ictims, and Perpc-
trators: Esfüys in thc Nazi 1lolornust. Washington: l kmisphcrl' Puhlishing Corp., 1980, p.
329-30, citado em Bauman, .lfodcrnilJ and 1hc Holocaust, p. 89-90.
34 A ANATOMIA DO FASCISMO

desenvolvida no desenrolar da história da conquista e do exercício do poder


pelos fascistas. 19 O trabalho mais satisfatório sobre o assunto mostra como
os ressentimentos antimodernistas foram canalizados e neutralizados, pas-
so a passo, cm legislac,·ões específicas, por forças pragmáticas e intelectuais
mais poderosas trabalhando a serviço de uma modernidade alternativa. 60
Temos que estudar a totalidade cio itinerário fascista - de que forma exer-
('l'U sua pratica antes que possamos compreendê-lo com clareza.
Um outro problema elas imagens convencionais cio fascismo é que elas
enfocam os momentos mais dramáticos do seu itinerário - a Marcha sobre
Roma, o incêndio do Reichstag, a Kristallnacht - e omitem a textura sólida
da experiência cotidiana, e também a cumplicidade das pessoas comuns
no estabelecimento e no funcionamento dos regimes fascistas. Eles jamais
teriam crescido sem a ajuda elas pessoas comuns, mesmo das pessoas c(m-
,-cncionalmente boas. Jamais teriam chegado ao poder sem a aquiescência,
ou mesmo a concordância ativa das elites tradicionais - chefes de Estado,
líderes partidários, altos funcionários cio governo - muitos dos quais sen-
tiam uma aversão enfastiada pela crueza dos militantes fascistas. Os exces-
sos do fascismo no poder exigiam tambL'.m uma ampla cumplicidade entre
os membros do cstoblishment: magistrados, policiais, oficiais do exército,
homens de neg()cios. Para entender plenamente como funcionavam esses
regimes, temos que descer ao nível das pessoas comuns e examinar ases-
colhas corriqueiras feitas por eles cm sua rotina diária. Fazer essas escolhas
significava aceitar o que parecia ser um mal menor, ou desviar o olhar de
alguns excessos c1uc, a curto prazo, não pareciam tão nocivos, e que, isola-

59. Essa c1uestão L' an;ilisacla criticamcntl' por Carl Levy, "hom fascism to 'post-
F;iscists': Italian Roads to Modem it y", e Mark Roscman, "N ational Socialism anel Modcr-
nization", cm Richard lksscl, ed., Fascist ltaly ond Nozi Gcrman. Cambridge: Cambridge
LlninTsitv l'rcss, 1996, p. 165-96 e 197-229. Iktln K. Peukert entreteceu esses ternas
de forma ·prnlífic;i em sua excelente obra 1hc ílcimar Rcpuhlic: Thc Crisis of Classical ;l;foc/er-
nity (trad. do alemão por Richard Dncson). Nma York:! !ili and Wang, 1991.
60. Um brilhante exemplo t' Tim Mason, "Thc Origins of thc Law on tht' Organi-
za-tion of National Lahour of 20 January 19 34: An lnvcstigation into thc Rclationship
lkt\nTn 'Archaic' and 'Modern' Flemcnts in Rcccnt Gerrnany History", cm Caplan,
\"aúrni, h1scism ond thcllíirkin.<J Class, p. 77-103.
ROHERT O. PAXTON 35

damente, podiam ser vistos até me:smo como aceitáveis, mas Cjlll', cumula-
tivamentl', acabaram por se somar cm monstruosos resultados finais.
Por exemplo, consideremos as reações dos alemães comuns aos acon-
tecimentos da Kristallnacht ( Noite dos Vidros Quebrados). Na noite de 9
de novembro de 1938, incitados por um discurso incendiário do ministro
da Propaganda nazista, Joseph Goebbels, dirigido aos líderes partidários, e
reagindo ao assassinato de um diplomata alemão, cm Paris, por um jovem
judeu polcmt''.s enraivecido por seus pais imigrantes terem sido, pouco an-
tes, expulsos da Alemanha, militantes do partido Nazista promoveram um
grande quebra-quebra nas comunidades judaicas da Alemanha. Incendiaram
centenas de sil'Jagogas, destruíram mais de sete mil lojas ele propriedade de
judeus, deportaram cerca de 20 mil para campos ele concentração e mata-
ram no ato noventa e um. Uma multa ele um bilhão de marcos foi imposta
coletivamente aos judeus da Alemanha, e seus reembolsos de seguros foram
confiscados pelo Estado alemão, a título de compensação por danos inci-
dentais causados a propriedades ele não-judeus. Hoje está claro c1ue muitos
alemães comuns ficaram indignados com as brutaliclacles cometidas sob suas
61
janelas. No entanto, esse desagrado generalizado foi passageiro, não pro-
vocando efeitos de longo prazo. Por que não houve ações judiciais ou inquó-
ritos administrativos, por exemplo? Se pudermos entender por que razão o
sistema judicial, as autoridades religiosas e civis e a oposição ciúl não agi-
ram de modo a pôr freio a Hitler, cm nm-cmbro de 1938, começaremos a
entender os círculos mais amplos de aquiescência individual e institucional,
em meio aos quais uma minoria militante foi capaz ele se ver suficientemen-
te livre de restrições ele qualquer natureza, a ponto de tornar-se capaz de
praticar genocídio cm um país atL'. então sofisticado e civilizado.

61. A Kristallnocht foi a primeira e a última chacina colcti\J de judeus praticada


pelos nazistas nas ruas de cidades akmãs o último mass,ltTl' e o início do l lolocaw;to
(Bauman, Modernity and thc 1!olornlilt, p. 89). Sobre a rca\·,10 do público, n-r William S.
Allen, "Dic deutsche (}ffrntlichkcit und dic Reichskristallnacht Kontliktl' Z\\ ischrn
Wcrthcirarchie und Propaganda im Drittu1 Rcich", cm I ktlc·\· l'cukcrt e Jürgcn Rcu-
lcckc, cds., Dic Rcihcnfást gcschlns,·cn: Rcitrâgc /llr c;nchichte dcs :l!lto.c1s untcrm \'ation,ilm-
zialismus. Wuppl'rtal: Harnmer, 1981, p. 397-412, c os estudos sohn· a opini.io pública
citados no c.ipítulo 9.
p

36 A ANATOMIA DO FASCISMO

Essas são perguntas difíceis de responder, e nos ~e~am p~ra bc~ l_(m~~
das imagens simplistas de líderes solitários e de mult1docs gntando Vivas .
Rc,elam tambt'.,m algumas das dificuldades surgidas na busca por uma es-
sência unica, o famoso mm11no f'aseis
' • · t a" , que,, su
L " · p()Stamente
,
. •
, nos· 1)ermiti-
ria formular uma dcfinic,·ão clara e geral do fascismo.
As definic,·õcs são increntementc limitantes. Delineiam um quadro es-
tático de algo e_luc {_, mais bem percebido cm movimento, e mostram como
"estatuária congelada%' algo que é mais bem entendido se examinado como
um processo. C om mwta 1·ru1uL
L .· s·u c·uml)L'm à tcnta,·ão
, ··, nua, •
· , · intelectual
, . de
tomar como constitutivo O ciue não passam de declarações programat1cas,
e de identificar O fascismo mais com o c1uc ele disse do que com o que ele
f'cz. A procura pela del'inic,:ão perfeita, reduzindo o fascismo~ urna scnt_en;a
cada Ycz mais precisa, parece calar as perguntas sobre sua, ongem e tra1cto-
ria de desenn>h·imento, mais que abrir cspac,·o para elas. E um pouco como
obscrYar as figuras de cera do Musc·u Madamc Trussaud cm vez de pessoas
,·i,as, ou páss:ros emoldurados L'lll , idro cm , cz de pássaros vi,os e soltos
cm seu hábitat.
É claro ciuc O fascismo não de\'e ser discutido sem que, cm algum
ponto do (kbatc, se chegue a um conceito sobre o que ele vem a ~<;er. Es~e
]i,ro l)rdcndc clwuar a tal conceito ao final de sua jornada, e nao partJr
b . 1
de um já pronto. Proponho deixar de lado, por agora, o imperativo e e se
cheuar a uma definic,·ão, e examinar cm ac,:ão um conjunto central de mo-
Yim:'ntos e regimes ciuc, de modo geral, são considerados fascistas (com a
Itália e a Alemanha corno os elementos predominantes de nossa amostra).
Irei examinar sua trajct()ria hist()rica como uma st'.Tie ele processos que se
desenrolam ao longo do tempo, e não como expressões de uma essi'-ncia
fixa."' Partiremos ele uma estralt'.gia, e não ele urna definic,:ão.

62. /vLirtin Broszal, "A Controversy about thc historicization of National Socia-
.!Sll1 " , l' l' t L,1- j> 1](!\1-1·11 L'd RcHorkin,1 1hc l'mt: Hitler, thc llolocaust, anJ the Historians'
l ('111 )e , ·, l

Dch,nc. Boston: lkacon l'rL·ss, 1990, p. 127.


6 :\. 'li:ntar "historicizar" 0 fascismo L11 disparar alarmes. (Juan do Martin Broszat
dcfrndeu que O nazismo fosse trat.:ido como parte da histéiria, L' não abstratamente, como
· ll 't·. 1
1n1J.gcn1 L'In ) c111a Ilr.l < o tnd
1 ("l'l·1·(1(J\'LT
< ,,
für L'il1l' l listorisierung
.._
dcs Nationalsozidlis-
_ _ • ••

\ li cr'ur,\.)
111us,. k . '9 , 1 5 ,ll.
1 . '7'-85
J J(,
nnio
(
1985) , o historiador israelense Saul h1cdlan-
der ,ilntou Lilll', ,10 tra\·,ir continuidades L' perceber normalidades entre atos criminosos,
p p

ROBERT O. PAXTON

ESTRATÉGIAS

Os desacordos quanto a como interpretar o fascismo partem de estra-


tégias intelectuais profundamente diversas. Quais partes cio elefante de-
vemos examinar? Onde, na experi('ncia moderna européia e americana,
devemos procurar para encontrar as sementes do fascismo e ,é-las germi-
nar? Em que tipos de circunstâncias ele cresceu com mais Yigor? E quais as-
pectos ela experiência fascista, exatamente, expõem de maneira mais clara
a natureza desse complexo fenômeno: suas origens? seu crescimento? seu
comportamento aphs chegar ao poder?
Se perguntadas sobre o que ,em a ser o fascismo, a maioria elas pessoas
diria, sem hesitar: "é uma ideologia". 64 Os próprios líderes nunca deixaram
de afirmar guc eram profetas ele uma i<kia, ao contrário cios materialistas
liberais e socialistas. Hitler falava sem cessar ele Weltanschauunc9, ou ,isão de
mundo, uma palavra inadequada que ele conseguiu trazer à atcn~:ão de todo
o mundo. Mussolini jactava-se do p<Jdcr do credo fascista. 6 ' Segundo esse
enfoque, um fascista é aquele que abraça a ideologia fascista -- uma ideologia
sendo mais que simples idéias, mas todo um sistema de pensamento subor-
dinado a um projeto de transformação do mundo. 66 Já se tornou quase auto-
mático que li\Tos a esse respeito concentrem seu foco sobre os pensadores,
as atitudes e os padrões de pensamento que hoje chamamos de fascistas.
Aparentemente faria sentido c1uc "come\:ásscmos por examinar os pro--
gramas, as doutrinas e a propaganda de alguns dos principais mo,imcntos
fascistas, passando então às políticas e ao desempenho na prática cios dois
' .
umcos .
regimes f'asc1stas
. e1·1gnos e1e nota "67
. I') ar prcccc IAcnCia
. aos programas

corria-se o risco de banalizar o regime nazista. Ambos os artigos, L' outras discussões es-
clarecedoras, foram reeditados cm Bald\1 in, cd., Rrnorking thc l'ast ( HT nota anterior).
64. "O fascismo i- um g[·ncro de ideologia política ( ... )" (RogL-r Criffin, lhe i\'ot urc of
Fascism. Londres: Routlcdgc, 1991, p. 26). Por trás cio fascismo"rcsidc um coq)() cm'1TntL'
de pensamento" (Roger Fatwcll, lmcism: A I listorx Londres: l'enguin, 1996, p. X\11).

65. Por exemplo, Schnapp, l'rimcr, p. td.


66. Uma introdll(,-JO útil à nolu(;ào dos significado., de ideologia, ll'rmo criado du-
rante a Rcvolll(;ão Francesa, l' Andrew Vim ent, Modem Politirnl Jdcoloifies, 2. cd. Oxford:
Blackwcll, 1995.
67. Paync, 1/istory, p. 472.
38 A ANATOMIA DO rASCISMO

significa partir cio pressuposto implícito de CJUl' o fascismo era um "ismo",


como os demais grandes sistemas políticos do mundo moderno: conslTYa-
dorismo, liberalismo, socialismo. Geralrrwntc aceito sem questionamento,
esse pressuposto merece exame.
Os outros "ismos" foram criados numa c'.poca cm que a política era um
acordo entre ca\'alheiros, conduzido por longos e eruditos debates parla-
mentares entre homens cultos, c1uc apelaYam não apenas à razão ele seus
interlocutores, mas tamh<'.,m a seus sentimentos. Os "ismos" clássicos eram
f'undarnentaclos cm sistemas filosr)ficos coerentes, formulados no trabalho
ele pensadores sistl'máticos. É natural que, ao tentar explicá-los, parta-se
do exame de seus programas e da filosof'ia que os embasava.
O fascismo, ao contrário, era urna imTnc;ão noYa, criada a partir do
zero para a era da política de massas. Ele tenta,a apelar sobretudo às erno-
\·õcs, pelo uso de rituais, de cerimônias cuidadosamente encenadas e de
rctúrica intensamente carregada. Uma inspec,·ão mais minuciosa mostra
que o papel nele desempenhado pelos programas e doutrinas é fundamen-
talmente diferente desse mesmo papel no conslTYadorismo, no liberalismo
l' no socialismo. O fascismo não se baseia de forma explícita num sistema
f'ilosúfico complexo, e sim no sentimento popular sobre as rac,·as superio-
res, a injusti<;a ele suas condic,·ões atuais e seu direito a predominar sobre
os po\'os inferiores. Esse regime não recebeu embasamento intelectual de
um construtor de sistemas como Marx, ou ele alguma grande intcligc'ncia
crítica, como Mil!, Burke ou l<>cc1uevillc. <,s
De forma extremamente dessenwlhante aos "ismos" clássicos, a \'er-
dade cio fascismo não dependia da correc,:ão de nenhuma elas proposic,:õcs
apresentadas cm seu nome. Ele L, "n-rdadciro" na medida l'm que ajuda a
realizar o destino de uma rac,·a, ou povo, ou sangue eleito, engalfinhado

68 . .llcin Kam/'/("Minha l.uta"), de I litlcr, scrYiu ck tl'xto h.ísico para o nazismo. C()-
pias primorosamente cnca<krnaclas <T,1111 dadas ele presente a nTc'·m-casaclos e exibidas
c·m larl's nazistas. Trata-se dc· uma cokc;5o poderosa c· consistl'ntl', p<ffL'm bombástica e
auto-inclulgl'nte, de l'r,1gnll'ntos autobiográficos c' rdkxiics pessoais sobre ra<;a, hist()ria
c· natun·za humana. l',ir,1 os escritos cloutrinitrios ele Mussolini, \l'r capítulo 1, p. 40 c· a
noL1 a Sl'guir.
ROBERT O. PAXTON 39

numa luta darwiniana com outros povos, e não à luz de algum tipo de razão
abstrata e uni versai.

N Ós [fascistas J não pensamos <1ue a ideologia seja um problema a ser re-


solvido de forma a entronizar a verdade. Mas, nesse caso, será c1ue lutar por
uma ideologia significa lutar por uma mera aparência? Sem du\'ida, a não ser
que a consideremos segundo seu singular e eficaz Yalor histórico-psicolc>gico.
A verdade de uma ideologia reside cm seu poder de mobilizar nossa capaci-
dade para os ideais e para a ação. Sua \'erdade é absoluta na medida em que,
ao viver dentro de nós, ela seja suficiente para exaurir essas capacidades. 69

A verdade era tudo aquilo que permitisse ao novo homem ( e a rnl\'a


mulher) fascista dominar os demais, e tudo o que levasse o Pº"º eleito ao
triunfo.
O fascismo não repousava na verdade ele sua doutrina, mas na união
mística do líder com o destino histc>rico ele seu Pº"º, iclt':ia essa relacio-
nada às idéias românticas de florescimento histórico nacional e de gênio
individual artístico ou espiritual, embora, cm outros aspectos, negasse a
exaltação romântica da criatividade pessoal desimpedida. 70 O líder queria
levar seu povo a um campo mais clc,ado da política, campo esse que podia
ser experimentado de forma sensual: o calor de pertencer a uma rac,·a agora
plenamente consciente de sua identidade, destino histr>rico e poder; o en-
tusiasmo de participar de uma vasta empreitada coletiva; a gratificação de
deixar-se submergir numa onda de ~entimentos coletivos e ele sacrificar as
próprias preocupações mesquinhas cm fayor do interesse grupal; e a emo-
ção do domínio. Walter Benjamin, o crítico cultural e exilado alemão, foi
o primeiro a observar que o fato de o fascismo ter deliberadamente substi-
tuído o debate ponderado pela experiência sensorial imediata transformou

69. A. 13ertek, Aspetti iJcolo!]ici Jc/jémismo. Turim, 19 30, citado cm Emílio Gcntilc,
"Alcuni considcrazioni sull'idcologia ele! fascismo", Storia contemporânea, \'. 5, n. 1, p.
117, mar.1974. Agradeç·o a Cario Moos pela ajuda na traduc;'ão dessa difícil passagem.
70. lsaiah 13erlin associou explicitamente fascismo e romantismo em "Tlw csserKc 0 f
European Romanticism", cm I knry Hardy, cd., Thc Power of' !Jcas. Princcton: Princcton
University Prcss, 2000, p. 204.
40 A ANATOMIA DO rASCISMO

a política cm estt.',tica. E o ápice da experiência cstt',tica fascista, advertiu


Benjamin cm 19 36, seria a guerra. 71
Os líderes fascistas não faziam segredo ele nao terem um programa.
Mussolini exaltava essa ausência. "Os Fasci Ji Comhattimento", escreveu ele
nos "Postulados cio Programa Fascista" de maio de 1920, "não se sentem
presos a c1ualquer tipo particular ele forma doutrinária". 7 ·' Poucos meses an-
tes ele se tornar primeiro-ministro ela Itália, respondeu de forma truculenta
a um crítico c1uc exigia saber c1ual era seu programa: 'Os democratas cio 11
1HonJo querem saber qual (._, o nosso programa? Nosso programa é quebrar
os ossos dos democratas cio II Mondo. E c1uanto antes, melhor". 7 l "O punho
<'.- a síntese ele nossa teoria", 7+ afirmou um militante da ck'cacla de 1920.
Mussolini gostava de declarar que ele prhprio era a definição cio fascismo. A
vontade e a lieleran'r'ª de um Duce era o cllll' um povo moderno necessitava,
não uma doutrina. foi só cm 1932, após ter estado no poder por dez anos,
e c1uando c1uis "normalizar" seu regime, c1ue Mussolini formulou a doutrina
fascista, num artigo (parcialmente redigido pelo filhsofo Giovanni Gentilc)
para a Enciclopedio Italiana. 75 O poder vinha em primeiro lugar, a doutrina,
depois. Hannah Arcnclt observou que Mussolini "foi provavelmente o pri-
meiro líder a conscientemente rejeitar um programa formal, substituindo-
º unicamente por lidcran,·a inspirada e a'r·ão". 76
71. WaltLT lknjamin, 'The \York of'Art in thc Age of Mechanical Rcprocluction", pu-
\TZ cm /.citschnft.fiir Sozicdfórsch11ng, \', 5, 11. 1, 1936, reeditado em
hliL"c1clo pda priml'ira
Benjamin, !l/11minations. NoYa York: Schockcn, 1969. Ver especialmente p. 241-2, cm gue
Benjamin cita Marinetti sobrl' a beleza da n-ci·m-tcrminacla Guena da Etiópia: "( ... ) [a
guerra[ cnriclllLTe um campo florido L'Olll as orc1uíclcas de fogo das metralhadoras( ... )"
72. lklzdl, Jfcelitcrroncan Fascism, p. 14.
7 'l. Citado cm R J. B. Bosmirth, Thc ltalion Dictotorship: Prohlcms anel Pcrspcctfres in the
lntcrprctc1lion of.llussolini anel foscism. Londrl's: Arnold, 1998, p. 39.
74. Emílio GL·ntik, Storio dei purtitoJ1sci,ta 1919-1922: .llcH imento e míli/ia. Bari:
l.atcrza, 1989, p. 498.
75. "l.a dottrina dei L1scismo", Fnciclopcelio italiana ( 19'12), \'.XI\, p. 847-51. Uma
nTsão cm in"l,~s
b
tcn· am11la dind",ll'JO:
t-, , lknito Mussolini, Thc Doctrine of
. h1scism. Flo-
1-cn\"<1: Valkcchi, 19 35, L' l'Cli<Jll'.s 11osteriorl's. Uma \'LTSJo cm inglês rl'ccntl' (._, Jeffrcy T.
Sdrnapp, l'(l., Primcr, p. 46-61.
76. Arl'ndt, Orii/111,. n. 39, p. 325. Cf. Salvatore Lupo, IIJ1scismo: ra político in un
rci7in1c totalit,Írio. Roma: 1)onzdli, 2000: "() c1uc dctLTminou o composto fascista foram
ROBERT O. PAXTON 41

Hitler apresentou um programa (os 25 Pontos de FeYerciro de 1920)


e o proclamou imutável, embora passando por cima de muitos ele seus
dispositivos. Embora os aniversários cio programa fossem celebrados, ele
era menos um guia para a ação cio c1ue um sinal de que o debate havia sido
encerrado dentro do partido. Em sua primeira fala pública como chanceler,
Hitler ridicularizou aqueles que diziam: "mostrem-nos os detalhes de seu
programa. Sempre me recusei a aparecer diante deste Volk e fazer promes-
sas baratas". 77
A relação especial do fascismo com a doutrina teve diversas conse-
qüências. O que contava era o zelo incondicional cios fi<'.-is, mais que sua
concordância intelectual. 7s Os programas eram informais e fluidos. A re-
lação entre os intelectuais e um movimento que desprezava o pensamento
era ainda mais desconfortável que a sabidamente espinhosa relação entre o
comunismo e seus companheiros ele Yiagens intelectuais. Muitos cios inte-
lectuais associados aos primeiros tempos do fascismo afastaram-se ou pas-
saram para a oposição, aphs os mc)\'imentos fascistas, vendo-se hem-suce-
didos, terem feito as concessões necessárias para conquistar aliados e subir
ao poder, ou quando este revelou seu brutal antiintclectualismo. À medida
que formos prosseguindo, encontraremos alguns desses intelectuais rene-
gados.
A radical instrumentalização da verdade adotada pelos fascistas explica
por que razão eles nunca se deram ao trabalho ele escrever obras casuísticas
nas ocasiões cm que alteravam seu programa, o que acontecia com
freqüência e sem o menor escrúpulo. Stálin gastou muito tempo escrevendo
para provar que as políticas ditadas por ele, de algum modo, estavam cm
conformidade com os princípios de Marx e de Lênin. Hitler e Mussolini

mais os fatos concretos da política da é·p< ,ca cio que o magma incm·1-cntc das ideologias
passadas" (p. 18).
77. Max Domarus, Hitler Spccchcs ,111,I Proclamotions, 1932-/9,.J',. Londres: L. B.Tau-
rus, 1990, v. 1, p. 246 ( 10 de fevereiro de 19 33).
78. Leszck Kolakowski percebeu, com l'XL'mplar clareza, a forma como uma ideo-
logia fechada e totalizadora serve para calar perguntas críticas cm "Why an Ideology Is
Alwavs Ri['ht",
~ o
cm Kolakowski, Modcrnity· on fnellcss Trio. Chicago: Univcrsity of Chicago
~

Prcss, 1990.
42 A ANATOMIA DO FASCISMO

jamais se preocuparam com justifica<,:Ões teóricas dessa natureza. Das Blut


ou la razza determinaria quem tinha razão. Isso não significa, contudo, que
as raízes ideolc'igicas dos primórdios dos movimentos fascistas não sejam
importantcs.Tc.'mos que determinar exatamente cm que a história intelectual
e cultural de seus fundadores pôde contribuir para nossa compreensão do
fascismo, e cm que ela não pôde.
Os intelectuais dos primeiros tempos exerceram influências impor-
tantes e de diversos tipos. Em primeiro lugar, ajudaram a abrir espaço para
os movimentos fascistas, enfraquecendo o apego das elites aos valores do
Iluminismo, até· então amplamente aceitos e aplicados de forma concreta
no governo constitucional e na sociedade liberal. Os intelectuais tornaram
possível imaginar o fascismo. O que Roger Charticr tinha a dizer sobre a
preparac,'ão cultural como a "causa" da Revolução Francesa está extrema-
mente correto tambc'.m no caso do fascismo: "atribuir 'origens culturais'
à Revolução Francesa de modo algum determina as causas da Revolução,
mas assinala algumas das condi</Ôes que a tornaram possível porque conce-
79
bí vcl". Por fim, os intelectuais ajudaram a pôr em marcha uma transfor-
ma<,'ão emocional ele dimensões sísmicas, na qual a esquerda deixava de ser
o Único recurso para os ofendidos e para aqueles inebriados por sonhos ele
mudança.
As hases ideológicas do fascismo reassumem importância central em
seus estágios finais, como acompanhamento e guia para a radicalização cios
tempos ele guerra. Uma vez que, no campo ele batalha e nos territórios
inimigos ocupados, o núcleo central dos fascistas radicais havia se tornado
independente de seus aliados conservadores, seu ódio racial e seu desprezo
pelos valores liberais e humanistas se reafirmaram nas matanças ocorridas
na Líbia, na Etiópia, na Polônia e na União Soviética. 80

79. Rogl'r Charticr, Thc C11lt11rol Origins oj'thc Frcnch Rcrnlution, traduzido do francês
por lydia G. Cochranl'. Durham, NC: Duke Unin-rsity Press, 1991, p. 2.
80. Essa combin,Hs".io pode surpreender, mas a brutalidade das campanhas africanas
dl' Mussolini, ressaltada pelas pesc1uisas recentes, den- ser vista corno aspecto central de
seu regirnl'. Mussolini, da nwsn1a forma (]LI(' I litlcr, utilizou-se de campos de conccn-
trac,·ão e cll' limpl'za i·tnica l' usou gases l<>xicos, coisa que Hitler nunca ousou fazer. Ver
capítulo 6, p. 276-278, l' as notas 6 3 e 68.
ROBERT O. PAXTO;'\ 43

Embora o estudo da ideologia fascista auxilie na elucidação do prin-


cípio e do fim, ele é bem menos Útil quando se trata de entender as fases
médias cio ciclo fascista. Com vistas a se tornar um ator político importan-
te, conquistar o poder e exercê-lo, os líderes lan<,:aram-se à construc,·ão de
alianças e a soluc,·ões ele compromis~o político, pondo de lado, assim, partes
de seu programa e aceitando a defecção ou a marginalizac,'ão de alguns de
seus militantes de primeira hora. Examinarei mais de perto essas experiên-
cias nos capítulos 3 e 4.
Nenhuma estratc'.gia correta para o estudo do fascismo pode deixar de
lado a totalidade cio contexto no qual ele se formou e cresceu. Alguns en-
foques partem da crise para a qual ele era uma resposta, correndo o risco
de transformar essa crise numa causa. Uma crise do capitalismo, segundo
os marxistas, deu origem ao fascismo. Incapazes de assegurar a contínua
expansão dos mercados, o acesso cada vez mais amplo às matórias-primas
e a mão-de-obra sempre barata e obediente, por meio da operac,:ão normal
dos regimes constitucionais e do line-mercado, os capitalistas viram-se
obrigados, segundo os marxistas, a encontrar novas maneiras de alcançar
esses objetivos pela força.
Outros Vl'.Cm a crise fundadora como causada pela incapacidade do
Estado e ela sociedade liberal (na acepção de liberalismo como laisscz)ài-
re, corrente àquela época) de lidar com os desafios do mundo pós-1914.
Guerras e rcvoluc,·ões haYiam gerado problemas que o Parlamento e o mer-
cado - as principais soluções liberais ao que parece, não sabiam como
resolver: as distorções das economias de comando central dos tempos de
guerra e o desemprego cm massa decorrente da desmobilização; a infh<,:ão
fora de controle· o aaravamcnto das tensões sociais e uma corrida à rcvo-
' b
lução social; a extensão do direito de voto a massas de cidadãos incultos,
sem qualquer cxpcric',ncia de responsabilidade CÍYica; o acirramento das
paixões pela propaganda de guerra; e as distorções do comórcio l' das tro-
cas internacionais pn)Yocadas pelas díYidas de guerra e pela flutua\:ão das
moedas. O fascismo propôs novas soluções para esses desafios. Examinarei
essa questão crucial mais adiante, no capítulo 3.
Os fascistas odiavam os liberais tanto c1uanto odiavam os socialistas,
mas por razões diferentes. Para eles, a esquerda socialista e internaciona-
p

44 A ANATOMIA DO fASCISMO

lista era o inimigo, e os liberais eram os cúmplices do inimigo. Com seu


gm-crno não-intervencionista, sua crença no debate aberto, seu pouco c(m-
trolc sobre a opinião das massas e sua relutância a recorrer ao uso da força,
os liberais, aos olhos dos fascistas, eram guanliôes da nação culpmamente
incompetentes no combate à luta ele classes (kscncadeada pelos socialistas.
Os prúprios liberais de classe mL·clia, temerosos da ascensão da esquerda,
ignorando o segredo do apelo às massas e tendo que enfrentar as impalatá-
n'is escolhas a eles apresentadas pelo século xx, com freqüência estiveram
tão dispostos quanto os conservadores a cooperar com os fascistas.
Todas as estratégias para entender o fascismo tc'm haver com a grande
dinTsidade de casos nacionais. A principal questão, aqui, é_, se os fascismos
são mais díspares CJUC os demais "ismos".
Este livro toma a posição de que eles o são, porque rejeitam qualquer
valor universal c1uc não o êxito dos povos eleitos cm sua luta darwiniana
por primazia. Nos seus valores, a comunidade vem antes da humanidade, e
o respeito aos direitos humanos e aos procedimentos legais foi suplantado
pelo senic,·o ao destino do Volk ou da razza.s 1 Cada mcwimento nacional fas-
cista, portanto, dá expressão plena a seu prc'iprio particularismo cultural.
Diferentemente dos outros "ismos", não é um produto de exportação: cada
movimento guarda ciumentamente sua receita de renascimento nacional, e
os líderes fascistas parecem sentir pouco ou nenhum parentesco com seus
primos estrangeiros. Fazer funcionar uma "internacional" fascista mostrou
ser uma tarefa impossível. s,
Em vez ele levantarmos as mãos para o alto em desespero diante das
disparidades radicais cio fascismo, l'. melhor fazer essa circunstância negativa
trabalhar a nosso favor. Pois a variedade convida a comparação. São preci-
samente as diferenças que separavam Hitler de Mussolini, e ambos, por
exemplo, do messianismo religioso da Legião do Arcanjo Miguel, de Cor-
neliu Codreanu, na Romênia, que tornam interessante essa comparação.

81. "O comTito fascista da ,ida( ... ) afirma o Yalor do indivíduo apenas na medida
cm qul' Sl'US interc,ses coincidem com os do Estado". Mussolini, "Doctrinc", cm Schna-
pp, Primcr, p. 48.
82. Michal'I A. Lcdccn, l!ni1'Cfsal foscism. Nma York: Howard fcrtig, 1972.
p

ROBERT O. PAXTON 45

As comparaçôes, como nos lembrava Marc Bloch, são extremamente Úteis


para trazer à tona as diferenças. 83 É para isso que cu as uso. Não terei muito
interesse em encontrar semclharn;as a fim de determinar se um regime
específico se enquadra na definição de algum tipo de css<'.'·ncia fascista. Esse
tipo de taxonomia, de uso tão geral na literatura sobre o fascismo, não nos
leva muito longe. Buscarei, da forma mais precisa possível, as razôcs para
os diferentes resultados. Os movimentos que deliberadamente se denomi-
navam fascistas, ou usavam Mussolini como modelo, existiram em todos
os países ocidentais após a Primeira Grande Guerra e, em alguns casos,
também fora do mundo ocidental. Por que razão movimentos de inspiração
semelhante chegaram a resultados tão diferentes cm difrrcntcs sociedades?
As comparaçôes, usadas dessa maneira, serão uma das estratógias centrais
deste trabalho.

p ARA O'.\/DE VAMOS A PARTIR DAQUI?

Perante a grande variedade de fascismos e à dificuldade de definir o


"mínimo fascista", três tipos ele re.:ic,·ão tenderam a ocorrer. Como vimos
já de partida, alguns acadêmicos, exasperados com o desleixo com que o
termo costuman ser usado, negam que ele tenha c1ualc1ucr significado. Eles
chegaram, com toda a seriedade, a propor limitá-lo ao caso particular 8+ de
Mussolini. Se seguíssemos seu conselho, chamaríamos o regime de Hitler
de nazismo, o de Mussolini de fascismo, e cada um dos demais movimentos
assemelhados por seu próprio nome. Trataríamos cada um deles como um
fenômeno separado.

83. Marc Bloch, "Tmvards a comparativc history of curopcan society", l'm Bloch,
Land andlVork in Medieval Europe: Selected Papcrs, trad. J. E. Andcrson. Berkeley e 1.os Ange-
les: University ofCalifornia Pn-ss, 1967, p. 58 (orig. pub. 1928).
84. Ver nota 28. Vários académicos importantes, notadamente Stcrnhcll c Bracher,
acreditam que "uma teoria geral c1uc husqul' combinar fascismo e nazismo ( ... ) não (.,
possível" (Stcrnhcll, Birth, p. 5). Sl'u primipal argumento ( o dl' c1uc o racismo biológico
ede importância central no nacional-socialismo e fraco no fascismo. Estl' livro defende
que todos os fascismos se mobilizam contra alf/um inimigo, seja ele interno ou externo,
mas que é a cultura nacional que fornece a identidade desse inimigo.
p
46 A ANATOMIA DO FASCISMO

Este liHo rejeita um tal nominalismo. O termoF1scismo clc\'e ser resga-


tado cio uso malfeito c1m' n'm tendo, e não jogado fora cm razão desse uso.
Ele continua sendo indispcnsán,l. PnTisamos de um termo gern'.Tico para
o c1uc l' um t'cn<Ímcno geral, na ,,erdacle, a noYidade política mais impor-
tante do s<'.-culo XX: um movimento popular contra a esquerda e contra o
incliYidualisrno liberal. Ao contemplar o fascismo, \'ernos como o s<'.-culo xx
contrastou com o SL'culo XIX, e o c1ue o Sl'culo XXI tem c1ue evitar.
A grande cliYcrsidade ele fascismos c1uc já observamos não l'. razão para
abandonarmos o termo. Não cluYiclarnos ela utilidade de comunismo corno
termo gen<'Tico cm razão da profunda clifcrenc,·a verificada entre suas diver-
sas manit'estac,·ôes, como, por exemplo, na Rússia, na Itália e no Camboja.
Nem descartamos o termo liberalismo clcviclo à política liberal ter assumi-
do formas díspares na Inglaterra Vitoriana, com seu liHe-comércio e suas
leituras da Bíblia; na hanc;a ela Terceira República, com seu protecionismo
e seu anti-clericalismo; ou no agressivamente unido Rcich alemão de Bis-
mark. Na ,crcladc, o liheralismo seria um candidato à aholic;ão ainda melhor
c1uc ofáscismo, agora c1uc· os americanos vêem a extrema esquerda como
"liberal", cnc1uanto a Europa chama de "liberais" os defensores cio liHe-
mcrcaclo e cio laissez-f~1ire, tais como Margarct Thatcher Ronalcl Rcauan e
• L ' b
George W. Bush. N cm o tcrmo_F1scismo chega a confundir tanto.
Uma segunda n'ac,·ão foi a ele aceitar a variedade cio fascismo e compilar
uma lista encidopc',clica de suas muitas formas. s, As dcscric,·ôes enciclopL'-
dicas fornecem detalhes informativos e fascinantes, mas nos deixam com
algo semelhante a um bcstiario medieval, com uma xilogravura de cada
criatura, classificada por sua aparência externa, contra um fundo estilizado
ele ramos ou pedras.
Um terceiro cnfoc1ue trata essa variedade usando de uma cstratógia
c\'asi,a, construindo um "tipo ideal" que não corresponde a qualquer caso
exato, mas c1uc nos permite postular uma cspócie de "essência" composta.
A def'inic;ão concisa do fascismo como "tipo ideal" que, cm tempos recen-
tes, obtc,c a aprm ac;ão mais generalizada (._, ele autoria cio acaclêm ico bri-
tânico Roger Griffin: "O fascismo l'. um gênero ele ideologia política cujo

85. A análise mais imprcssionantcmcntc erudita(._, Paync, líistory.


p
ROBERT O. PAXTON 47

cerne mítico, em suas varias permutações, ó uma forma palingenética de


. 1·ismo popu ]1sta
ultranac1ona ' " . S6
Pretendo deixar ele lado, pelo menos por um momento, tanto o
bestiário quanto a essência. Ambo.~ nos condenam a uma visão estatica e
a uma perspectiva que convida a encarar o fascismo ele forma isolada. Em
vez disso, o examinemos em ação, <lcs<le seus primórdios até o cataclismo
flnal, no interior da complexa teia ele interac,·õcs com a sociedade por ele
formada. Os cidadãos comuns e os detentores <lo poder político, social,
cultural e econômico que ajudaram ou não opuseram resistência ao fascismo
fazem parte dessa história. Ao chegarmos ao final, seremos mais capazes ele
dar uma definição correta.
Necessitaremos de uma compreensão clara cios dois principais parcei-
ros de coalizão dos fascistas, os liberais e os conservadores. Uso aqui o
termo liberalismo em seu sentido original, tal como usado à época em que o
fascismo se insurgiu contra ele, e não na acepção americana atual <lo termo,
já mencionada anteriormente. Os liberais europeus de inícios cio século
xx se aferravam ao que fora progressista um século antes, quando a poeira
da Revolução Francesa ainda não havia baixado de todo. Ao contrário dos
conservadores, eles aceitavam as metas revolucionarias ele liberdade, igual-
dade e fraternidade, embora aplican<lo~as de modos mais adequados a uma
classe média educada. Os liberais classicos interpretavam a liberdade como
a liberdade individual pessoal, preferindo um governo constitucional limi-
tado e o laissez-jáire econômico a qualquer tipo de intervenç·ão estatal, quer
mercantilista, como cm princípios cio século XIX, quer socialista, como cm
épocas posteriores. Por igualdade, eles entendiam as oportunidades torna-
das acessíveis aos talentosos por meio ela educação; aceitavam a desigual-
dade de desempenho e, portanto, de poder e riqueza. A fraternidade, viam
como a condição normal <los homens livres (e tendiam a encarar os assun-
tos públicos como negócios de homens), não necessitando, portanto, de re-
forço artificial, uma vez que os interesses econômicos eram naturalmente
harmônicos e a verdade viria à tona num liHc-mercado de iclt'.ias. É nessa
acepção que, neste livro, uso o termo liberal, nunca na acepção americana

86. Griffith, Nature. p. 26.


48 A ANATOMIA DO fASCISMO

de extremo esquerJa. Os conservadores ciucriam ordem, tranqüilidade e as


hierarc1uias herdadas do ber,·o e da ric1ucza. Eles repudianm tanto o entu-
siasmo de massas do fascismo ciuanto o poder total a que estes aspiravam.
Queriam obediência e deferência, não perigosas manifestações populares,
e prl'tendiam limitar o Estado às furn,-ões de "guarda noturno", encarrega-
do da manuten,·ão da ordem, enquanto as elites tradicionais governavam
por meio da propriedade, das igrejas, dos exércitos e da influência social
herdada. s-;
De modo geral, os conservadores europeus, cm 1930, ainda rejeitavam
os princípios da Renllução Francesa, preferindo a autoridade à liberdade,
a hierarc1uia à igualdade e a deferência à fraternidade. Embora muitos deles
tenham visto os fascistas como Úteis, ou mesmo essenciais, em sua luta pela
sobreYivência contra os liberais dominantes e uma esquerda em ascensão,
alguns tinham aguda consciL'ncia de que seus aliados fascistas seguiam uma
agenda diferente e sentiam uma aversão desdenhosa por esses forasteiros
rudes. ss Quando o simples autoritarismo era o bastante, os conservadores
o prcfrriam. Alguns deles mantiveram sua postura antifascista até o fim. A
maioria dos conservadores, entretanto, estava convicta de que o comunis-
mo era pior. Se dispunham a trabalhar com os fascistas caso a esquerda mos-
trasse ter possibilidade de triunfar. Fizeram causa comum com os fascistas
no espírito de Tancredi, o recalcitrante jovem aristocrata, personagem do
grande romance ele Giuscppe di Lampedusa sobre a decadência de uma fa-

87. "O Estado fascista 1úo { um \'igia noturno( ... ) i_, uma entidade espiritual e mo-
ral cujo prnpúsito l' o de assL·gurar a organizac,·ão política, jurídica L' LTOn<Írnica da nas·ão

( ... ) Transcendendo a bn·\'l' cxisti'·ncia do indivíduo, o Estado representa a consciência


imancntl' da na(;ão". Mussolini, "Doct,-inc", em Schnapp, Primer, \'. 58.
88. Um exemplo muito bem articulado foi o Friedrich Pcrcyval Reck-Mallcczewcn,
Diory ofo .!lon in Dcspoir, tr.1d. do alemão por Paul Rubens. Londres: Macmillan, 1970
( orig. puh. 1947), L'm que l.1nwnta a transforma\·ão da Alemanha, a partir da época
de Bismarck, num "l'ormigucirn superdcscmolYido industrialnwntc" (p. 119). Rcck-
MallcczL'\\L'n rcsenou seu ata<jllL' mais cáustico a l litler, chamado-o de "cigano de
topete" (p. 18), "Genghis Khan dos legumes crus, Alcxandn· abstêmio, Napoleão sem
mulhn" (p. 27). Fie foi l'XL'CUtado pelos nazistas no início de 1945. Ver tamhl'lll o diário
do patrono das .irtes pacifista l larry Kcsslcr, Fhc Diorics of a Cosmopolitan. Londres:
Weidcnfrld and N irnlson, 1971.
ROBERT O. PAXTON 49

mília nobre da Sicília, O l.eopordo: "Se queremos ciuc as coisas permaneçam


- as c01sas
como sao, . tcrao
- que 1nuc1ar " . 8')
Os fascismos que conhecemos chegaram ao poder com o auxílio de
ex-liberais amedrontados, tecnocr.1tas oportunistas e ex-conscrvaclores, e
governaram conjuntamente com eles, num alinhamento mais ou menos
desconfortável. Acompanhar essas coalizões verticalmente, ao longo do
tempo, como movimentos que se transformaram cm regimes; e horizon-
talmente, no espaço, à medida que elas se adaptavam às peculiaridades dos
ambientes nacionais e às oportunidades ele momento, exige algo mais ela-
borado que a tradicional dicotomia moYimento/regimes. Proponho exa-
minar o fascismo cm um ciclo de cinco estágios: (1) a criação dos movi-
mentos; (2) seu enraizamento no sistema político; (3) a tomada do poder;
(4) o exercício do poder; (5) e, por fim, o longo período de tempo durante
o qual o regime faz a opção ou pela radicalizas:ão ou pela entropia. Embora
cada um desses estágios seja um pré-requisito do estágio seguinte, nada
exige que um movimento fascista venha a passar por todos eles, ou mesmo
que se mova numa Única direção. A maioria dos fascismos sofreu interrup-
ção, alguns recuaram e, às vezes, características de diversos estágios perma-
neceram inoperantes por longo tempo. Embora a maioria das sociedades
modernas tenha gerado movimentos fascistas durante o século xx, poucas
delas chegaram a ter regimes fascistas. Apenas na Alemanha nazista o regi-
me fascista aproximou-se dos horinmtes extremos da radicalização.
Separar os cinco estágios oferece uma sórie de vantagens, permitindo
uma comparação plausível entre movimentos e regimes de graus de desen-
volvimento equivalentes e ajudando-nos a ver que o fascismo, longe de ser
estático, era uma sucessão de processos e de escolhas: a busca de seguido-
res, a formas·ão de alianças, a disputa pelo poder e seu exercício. É por essa
razão que as ferramentas conceituais que iluminam um estágio podem não
funcionar tão bem para os demais. É chegada a hora de examinar cada um
desses estágios, um por um.

89. Giuseppc di Lampcdusa, Fhc fcoparJ, trad. do italiano por Archibald Colquhoun.
Nova York: Panthcon, 1950, p. 40.
p
p

2
A CRIAÇÃO DOS
MOVIMENTOS FASCISTAS

Se alguma cmsa começa quando adc1uire um nome, podemos datar


com precisão o início do fascismo. Ele começ:ou numa manhã de domingo,
cm 2 3 de março de 1919, na reunião realizada na Piazza de San Sepolcro,
cm Milão, já descrita no capítulo 1. Mas os Fasci ftalicmi J; Combattimcnto de
Mussolini não estavam sozinhos. Algo de mais amplo vinha acontecendo.
Totalmente independentes de Mmsolini, grupos semelhantes vinham-se
congregando cm outros lugares da Europa.
A Hungria era outro ambiente frrtil para esse tipo de crescimento es-
pontâneo não copiado de ninguL'm - que ainda não se chamava fascismo,
mas que com este guardava uma forte semclhanç·a. A Hungria havia sofrido
as perdas territoriais mais calamitosas entre todos os países que participa-
ram da Primeira Grande Guerra piores ainda que as perdas alemãs. Antes
da guerra, o país era parceiro gon:rnantc da poderosa Monarquia Dual
da Áustria-Hungria, ou seja, o lmpL'rio Habsburgo. A metade húngara do
império - o reino da Hungria - gnvernava sobre um mundo multilíngüe
de eslavos do sul, romenos, eslovacos e muitos outros, entre os quais os
húngaros desfrutavam de uma posição privilegiada. Durante os meses finais
da Primeira Guerra, o lmpório Habsburgo se dissolveu à medida que as
nacionalidades que o compunham rl'.ivindicavam independência. A Hungria
- um dos maiores beneficiários do impório multinacional tornou-se o
grande perdedor nessa dissoluc,·ão. Os aliados vitoriosos vieram a amputar
70% do território húngaro anterior à guerra e quase dois terços de sua po-
p

52 A ANATOMIA DO bASCISMO

pulac,·ão, por meio do puniti\'o Tratado de Trianon, assinado, sob protesto,


cm 4 de junho de 1920.
Durante os dias ca<Jticos qm· se seguiram ao armistício de novembro
de 1918, quando os pmos-súditos da metade húngara do lmpl-rio Austro-
1-1 únuaro
b romenos , eslavos do sul e eslovacos comecaram
) a Lgo, crnar
seus prclprios tcrritc'irios sob protl'<,·ão aliada, um nobre progressista e li-
\Te-pensaclor, o conde Michael Karolyi, tentou salvar o Estado húngaro
por meio ele reformas de grande efeito. Karolyi apostou na possibilidade ele
que o l'stalll'lccimento de uma democracia plena cm urna Hungria federa-
ti\'a, cujos po\'os-súditos desfrutariam de amplos poderes de autogoverno,
iria amenizar a hostilidade dos Aliados l' conseguir que eles acatassem as
fronteiras históricas da Hungria. Karolyi perdeu essa aposta. Os exc'Tcitos
franceses e slTvios ocuparam o ten;o meridional da Hungria, enc1uanto os
exl·rcitos romenos, com o apoio dos Aliados, ocuparam as vastas planícies
da Transilvânia. Essas ancxac,·ões pareciam ser de caratcr permanente. Inca-
paz de persuadir as autoridades francesas a pôr fim a elas, o conde Karolyi,
cm fins de man,:o de 1919, renunciou ao tênue poder que detinha.
Urna coalizão socialista-comunista assumiu então o poder cm Budapeste.
Encabeçada por um intelectual renllucionario judeu, Bda Kun, o novo go-
\Trno, por um bren· período, angariou o apoio ate mesmo de alguns oficiais
do exéTcito, prometendo que a Hungria teria melhores chances de sobrevi-
nT com a ajuda da Rússia bolchcvic1ue que com a dos Aliados. No entanto,
Lênin não estava cm condic;ões de socorrer a Hungria, e embora o governo
de Kun tenha conseguido reconquistar parte dos territórios ocupados pe-
los eslo\'acos, ele, simultaneamente, adotou medidas socialistas radicais. Kun
proclamou urna república so\'iÓtica cm Budapeste cm maio ele 1919, e a dita-
dura do proletariado cm 25 de junho.
Diante dessa combinac;ão sem precedentes de problemas de desmonte
territorial e de re\'olução social, as elites húngaras optaram por combater
mais os segundos que os primeiros. Elas instalaram um governo provisório na
cidade prm inciana de Szcged, no sudoeste da Hungria, então sob ocupação
francesa e sl-r\'ia, e nada fizeram quando os romenos, em inícios de agosto de
1919, avançaram para ocupar Budapeste, de onde Kun ja havia fugido. Seguiu-
se urna contra-rcnlluc,·ão sangrenta, com cerca de cinco a seis mil vítimas, dez
\'ezes maior que o número de pessoas mortas pelo regime sovictico.
p

ROHERT O. PAXTON 53

A contra-re\'olução húngara tnc duas faces. Sua liderança maxima era


ocupada pela elite tradicional, da qual fazia parte o último comandante
da marinha austro-húngara, o almirante Miklós Horthy, c1uc surgiu como
a figura dominante. Participavam tarnbóm aqueles que acreditavam que a
autoridade tradicional já não era suficiente para lidar com a situação ele
emergência pela c1ual passava a Hungria. Um grupo de jovens oficiais, lide-
rados pelo capitão Gyula Górnbós, fundou um rno\'imcnto com muitas elas
características do fascismo.
Os oficiais de Gómbós pretendiam mobilizar urna base ele massas para
um movimento militante de rcno\'ação nacional, diferente tanto do libe-
ralismo parlamentar (pois a democracia do conde Karolyi estava agora tão
desacreditada quanto o soviete ele Kun) quanto de uma ditadura obsoleta
que governasse ele cima para baixo. Seu Comitê Antibolchevique era viru-
lentamente anti-semita (não apenas Béla Kun, mas tamhórn trinta e dois ele
seus quarenta e cinco comissários eram judeus). 1 Os oficiais de Górnhó não
queriam restaurar a autoridade tradicional, mas substituí-la por algo mais
dinâmico, com raízes no nacionali~rno popular e nas paixões xenófobas, e
expresso cm símbolos e mitos tradicionais húngaros. 2 Por algum tempo, o
almirante Horthy e os conservadores conseguiram governar sem ter que
recorrer aos jo\'ens oficiais, embora Górnbós tenha servido corno primei-
ro-ministro sob Horthy entre 1932 e 1935 e estabelecido uma aliança com
Mussolini visando a se contrapor ao crescente poderio alemão.
Na metade austríaca da monarquia Habsburgo, os nacionalistas alemães
sentiam-se alarmados, já antes da Primeira Guerra, com os ganhos dos tche-
cos e de outras minorias no tocante a uma maior autonomia administrativa
e lingüística. Mesmo antes de 1914, eles já vinham desenvolvendo urna
cepa virulenta de nacionalismo de classe trabalhadora. Os trabalhadores de
língua alemã passaram a ver os de língua tcheca corno rivais nacionais, e não
como companheiros prolctarios. Na Boêmia dos Habsburgo, às vésperas da
Primeira Grande Guerra, a nação já suplantava a classe.

1. Joseph Rothschild, East Central Europc Retween thc Two ~lorhHVi:irs. Seattle; Londres:
Univcrsity ofWashington Press, 1974, p. 148.
2. Para leituras suplementares sobrl' esse e outros países discutidos nesse capítulo,
ver o Ensaio Ribliográfico.
p

54 A ANATOMIA DO J:ASCISMO

Os nacionalistas alemães do lmpt',rio I Iabsburgo, a partir de fins do


s<'.'culo x1x, baseavam-se no pangermanismo populista de Gcorg von Schii-
ncrer' do c1ual tratarei com maior detalhe logo
'-
a sc2"uir.'
'-~
Eles alcancaram )

o poder político de fato na capital, Viena, quando Karl Luegcr tornou-se


prefeito, cm 1897. Luegcr embasou solidamente seu longo mandato numa
mistura populista de anti-semitismo, combate à corrupc,:ão, defesa dos ark-
sãos e dos pcgucnos lojistas, cm sloEJans e canc,·ões chamativas e na eficiência
dos SlTvic,·os municipais.
Adolf Hitler, um jon·m sem rumo e pretenso estudante de arte, ori-
ginário de Linz, a 80 c1uilcímctros rio acima, embebeu-se da atmosfera da
Viena de Lueger. + E ele não foi o Único. O Partido dos Trabalhadores Ale-
mães, de orientac,·ão nacionalista, encabeç·ado por um advogado de Viena e
por um ferroviário, já havia conseguido, cm 191 1, tr[·s cadeiras na Dieta
Austríaca. Ressuscitado cm maio de 1919 como o Partido Nacional-So-
cialista dos Trabalhadores Alemães, ele conieç·ou a usar a Hakcnkrcuz, ou
suástica, como sc·u símbolo. 1
A Alemanha do p<>s-gucrra oferecia um solo particularmente f'LTtil
para movimentos anti-socialistas de base popular, c1ue tinham como meta
o renascimento nacional. Os alemães haviam sido abalados até a medula
pela derrota de 1918. O impacto emocional foi ainda mais severo porgue

3. Ver capítulo 2, p. 88.


4. Rrigittl' 1lamann, ffitlcr\ l"icnno: ,1 Dictator's :lpprcnticcship. Trad. do alemão por
Thomas Tlmrnton. Nma York: Oxford Unin-rsity l'rcss, 1999 (orig. puh. 1996), (._, a
abordagem mais clctalhacla. William A. Jenks, l'icnna ond thc foung l litlcr. Nma York: Co-
lumbia Llnin-rsity l'n·ss, 1960, l'\oca o amhil'nte.
5. A suástica, símbolo CJUl' toma como hase o sol, c1ue represcnta\·a, entre outras
coisas, a l'tll'rgic1 ou a l'tl'rniclacll', l'ra amplamente utilizada nas antigas culturas crist.is,
hindus, budistas, amcrínclicls e do Oriente Mi·dio. Trazida para a Europa l'm fins do sc'.-culo
x1x por espiritualistas l' m.'.-cliuns, como a cl'khrada Madame Rla,átsky, e por aphstolos
da religião n<>rdica, como o austríaco Cuido ,on List, ela foi usada pela primeira n·z cm
1899, para expressar o tMcionalismo alemão e o anti-semitismo da Ordem dos Nmos
Templiirios, de Jiirg Lrnz rnn lil'iwnfcls (1874-1954). O artista gráfico Stncn Hellcr
explora suas din-rsas utiliza<iC>l'S cm lhe S1rnstika: Symbol llcyond Redcmption 1 Nma York:
Allworth, 2001, e seus J,1\·os com o nazismo são tra\·aclos por Nicholas Goodrick-Clarke,
Thc Occu!t Roots o/ Naú,m: Sccrct :1ryon Cu!ts and Their lnflucncc on No/.i ldcolofly: Thc Arioso-
phists oj. 1ustria and c;crmany. No,a York: Nm·a York Unin-rsity l'rcss, 1996.
p }4

ROBERT O. PAXTON 55

os líderes alemães cantavam vitória até semanas antes. Uma calamidade tão
inacreditável era fácil de ser imputada a traidores. O vertiginoso colapso cio
destino alemão, gue despencou da valente Grande Potência de 1914, para
o derrotado perplexo e faminto de 1918, dcstroc,:ou o orgulho e a autocon-
fiança nacionais. Wilhelm Spannaus, mais tarde, descreveu o gue sentiu ao
voltar para sua cidade natal cm 19 2 1, após lecionar por anos numa escola
alemã na América do Sul:

Foi pouco depois ela insurreic,:ão Spartacus ocorrida na Renânia: pratica-


mente todos os vidros das janelas do trem em que voltei para a Alemanha es-
tavam quebrados, e a inflac,:ão atingia proporções fantásticas. Eu haYia deixa-
do a Alemanha no auge cio poderio e da gloria do Reich Guilhcrmino. Voltei
para encontrar a Pátria em ruína~, transformada cm república socialista. 6

Spannaus \'iria a se tornar o primeiro cidadão respeitável de sua cidade


a se filiar ao Partido Nazista e, como líder intelectual (ele era proprietário
da livraria local), ele levou consigo muitos outros cidadãos.
Veteranos guc não tinham para aonde ir, suas unidades se desfazendo,
sem conseguir encontrar trabalho e nem mesmo comida, eram presa fácil
para o extremismo, tanto de esquerda guanto de direita. Alguns se volta-
ram para a Rússia bolchevista cm busca de inspiração, como aconteceu, por
exemplo, na breve República Soviética de Munique, na primavera de 1919.
Outros agarraram-se ao nacionalismo já disseminado pelo movimento de
propaganda dos tempos de guerra, a Frente Patriota. Alguns desses vetera-
nos nacionalistas juntaram-se às unidades mercenárias ( os Frcikorps), cons-
tituídas sob o comando de oficiais do exército, para lutar contra aquilo que
eles viam como os inimigos internos da Alemanha. Em janeiro de 1919,
eles assassinaram os líderes socialistas Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht
na Berlim revolucionária. Na primavera seguinte, derrubaram os regimes
socialistas em Munigue e cm outra:- cidades da Alemanha. Outras unidades

6. William Shcriclan Allen, Thc Na/.i Sci?ure o/ Power: The Lxpericnce o/ o Single Town,
1922-1945. Ed. rc,. Nova York: Franklin Watts, 1984, p. 32. Spannaus já ha,ia se tornado
admirador do precursor cio nazismo, Houston Stewart Chambcrlain, quando morava no
exterior.
56 A ANATOMIA DO rASCISMO

de Frcikorps continuaram a lutar contra os exércitos soviético e polonês ao


longo das ainda não demarcadas terras do Báltico ate' bem depois do armis-
tício ele novembro de 1918. 7
O cabo Adolf Hitler, x ele volta ao serviço ativo no IV Comando dos
Grupos cio Exl·rcito, em Munique, após se recuperar da cegueira histérica
que o acometera ao saber ela derrota alemã, foi enviado pelo Serviço de
Inteligência do ExlTcito, cm setembro de 1919, para investigar um dos
muitos movimentos nacionalistas C)lll' vinham surgindo na desordem do
pós-guerra. O Partido dos Trabalhadores Alemães (Dcutschc Arbcitcrpartci
-- llAP) havia sido criado ao final da guerra por um chaveiro patriota, Anton

Drexlcr. Encontrando um punhado de artesãos e jornalistas que sonhavam


cm com1uistar trabalhadores para a causa nacionalista, mas que não faziam
idl·ia ele por onde começar, Hitler se juntou a eles, recebendo o cartão do
partido número 5 5 5. Ele logo se tornou um dos oradores mais hábeis do
movimento e membro de seu comitê diretor.
Fm inícios da dl·cada de 1920, Hitler foi colocado no comando da pro-
paganda do DAI'. Com o auxílio de oficiais cio exército simpatizantes, como
o capitão Ernst Róhm, e de alguns partidários ricos de Munique/ Hitler
ampliou cm muito a audiência do partido. Perante quase duas mil pessoas
reunidas numa grande cervejaria de Munique, o Hotbrauhaus, cm 24 de

7. Sobrl' os Frl'ikorps, n-r Rohl'rt G. L. Waitc, lémHuard ofNazism. Cambridgl', MA:


I larvard Unin'rsity Prcss, 1954.
8. Adolf I litlcr, cidadão austríaco, mudou-se para Munique cm maio de 191 3, a fim
de escapar do senic,·o militar. Quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu, ele se alistou
no l'Xt'ITito alemão como niluntário. Para Hitler, presenar sua essência alemã era sem-
pre mais importante que a lealdade a qualqmT Estado particular; ele só se tornou cida-
dão alemão em 1932 (lan Kershaw, Hitler 1889-1936:Huhris. NmaYork: Norton, 1998,
p. 362). HitilT encontrou sua priml'ira realiza(;ão pessoal como soldado. Ele enfrentou
fX'rigos corno mensageiro, foi promovido a cabo e condecorado por bravura com a Cruz
de Ferro, Seguncl,1 Classe e, mais tarde, Prirnl'ira Classe, a maior honraria c1ue pode ser
confrrida a um soldado (p. 9 2, 96, 2 16).
9. Foi o oficial de comando de Riihm, Freihcrr Rittcr von Epp, que, mais tarde, cm
fins ele 1920, forneceu metade do dinheiro, originário das verbas secretas do excTcito,
usado para comprar um jornal para o partido, o Volkischcr Beohachter, sendo a outra me-
tade colct,1da pelo jornalista e hon i·irnnt de Munique, Dietrich Eckhart. Kersha\\·, Hitler,
,. 1, p. 156.
ROBERT O. PAXTON 57

fevereiro de 1920, Hitler deu ao movimento um novo nome o National-


sozialistischc Arbciterpartei (NSllA I', ou o partido "nazi", abreviando) - e
apresentou um programa de vinte e cinco pontos que misturava nacionalis-
mo, anti-semitismo e ataques a lojas de departamentos e ao capital inter-
nacional. No 1" ele abril ciuc se seguiu, deixou o exército para se dedicar
em tempo integral ao NSDAP. Cada vez mais, ele era reconhecido como seu
líder, seu Führer. 111
À medida que se acalmava o tumulto do pós-guerra imediato, essas
seitas nacionalistas e ativistas passaram a enfrentar condições menos hospi-
taleiras na Europa. Os governos, gradualmente, estabeleceram um tênue
ponto ele apoio na legitimidade. As fronteiras foram demarcadas. O bol-
chevismo foi contido dentro de seu lugar de origem. Uma certa aparência
de normalidade ele tempos de pa:r foi retomada na maioria cios países ela
Europa. Mesmo assim, os fascistas italianos, os oficiais húngaros e os na-
cional-socialistas austríacos e alemães continuaram existindo. Movimentos
similares surgiram na França 11 e cm outros lugares. Eles, claramente, ex-
pressavam algo ele mais duradouro que um espasmo nacionalista momentâ-
neo acompanhando o paroxismo final da guerra.

Ü CONHXTO IMEl)JATO

O espaço político 12 para um ativismo nacionalista ele massas mobiliza-


do tanto contra o socialismo quanto contra o liberalismo era apenas visível
de forma vaga em 1914, tornando.se gigantesco durante a Primeira Guer-
ra Mundial. Não que aquele conflito tenha gerado o fascismo, o c1uc fez foi

1O. Hitler adotou o título "Fiihrcr", l' tambc',m a saudacão


,
"Hei/"' do líder 11an-<TtT-
b
mânico Georg ,on Schiincrcr, muito inflm,ntl' na Viena do pn'·-guerra. Kershaw, llitler,
1. 1,p. 34.
11. Ver capítulo 3, p. 121-124.
1 2. Juan J. Linz l'm "Political Spacl' and Fascism as a Latcconwr", l'll1 Stein LI. Lar-
scn, lkrnt Hagt,ct e Jan Pctter Mykkbust, lrho flcre thc hlscists: Social Root, of huropcan
Fascism. Bergen: UninTsitctsforlagl't, 1980, p. 153-89, l' "Sornl' Notes'foward a Compa-
ratilT Study of Fascism in Sociological Historical l'erspcctive", cm Walter Lac1ueur, ecL,
Fascism: ,1 Rcader's (;uide. Berkeley e Los ô..ngeks: Uni1crsity of California l'ress, 1976,
p. 3-121.
p
58 A ANATOMIA DO FASCISMO

abrir vastas oportunidades culturais, sociais e políticas para ele. Cultural-


mente, a guerra desacreditou as \'isões de futuro otimistas e progressistas,
lançando dúvida sobre os pressupostos liberais relativos à harmonia huma-
na natural. Em termos sociais, disseminou legiões de veteranos inquietos
(acompanhados de seus irmãos mais novos), 1 ' que buscavam maneiras de
expressar sua raiva e seu desapontamento sem levar cm conta leis ou regras
morais ultrapassadas. Politicamente, o conflito gerou tensões econômicas
e sociais que excediam cm muito a capaci<lad<:' das instituições existentes
quer liberais ou conservadoras - de solucioná-las.
A experiência da Primeira Grande Guerra foi a mais decisiva das pre-
condi<,:õcs imediatas do fascismo. A bem-sucedida campanha a favor do in-
gresso da Itália na guerra, em maio de 1915 ( o "maio radiante" da mitologia
fascista) foi a primeira ocasião em que foram reunidos os elementos funda-
dores do fascismo italiano. "O direito à sucessão política pertence a nós",
proclamou Mussolini na reunião inaugural dos Fasci di Combattimento, em
març·o de 191 9, "porque fomos nós que empurramos o país para a guerra
e o levamos à vitória". i+
A Grande Guerra foi tambc'.m, deve-se acrescentar, a raiz de muitas
outras coisas \ iolcntas e iradas no mundo do pós-guerra, do bolchevismo à
pintura expressionista. Na verdade, na opinião de alguns autores, a Primei-
ra Grande Guerra, cm si, basta para explicar tanto o fascismo quanto o bol-
1
chevismo. ' Quatro anos de matança cm escala industrial alteraram pouco
do legado europeu, nada sobrando de suas certezas quanto ao futuro.

1 3. Aqueles que tinTam sua adolescência marcada pela guerra, mas que não com-
bateram de fato, ou por serem jmTns demais ou por terem sido considerados fisicamen-
te inaptos, tendiam a se tornar fascistas particularmente fanaticos. Joseph Goeblwls, o
ministro da Propaganda de l litler, não participou da guerra dnido a uma deformidade
no pt'.·. R,1lf Gcorg Rcuth, c;oebhels. Trad. do alemão por Krishna Winston. Nova York:
llarrnurt Brace, 1990, p. 14, 24.
14. Charles F lklzell, cd., Mcditcrrancan Fascism. Nova York: 1-larpcr & Ro\\', 1970,
p. 10.
15. Por exemplo, Fran<i'Ois Fur-et, lhe Possing ofan Illusion:Thc !dea oj'Communism in
thc Tí, cnticth Ccntwy. Chicago: Unin-rsity of Chicago Prcss, 1999, p. 19, 16 3, 168. Linz
obscna, cm "Political Space", p. 158-9, que os países quc se mantiveram neutros na
Priml'ira Guerra Mundial apresentaram baixos índices de fascismo, assim como a maior
parte dos países vitoriosos. A Espanha, entretanto, havia sido dcrrotada cm 1898.
p
ROHERT O. l'AXTON 59

Antes de 1914, nenhum europeu nvo poderia ter imaginado tanta


brutalidade nac1ucla que era vista como a região mais ci\'ilizada cio globo. As
guerras haviam-se tornado raras, localizadas e curtas na Europa do século
XIX, e lutadas por exércitos profissionais que pouco cobravam da sociedade
civil. A Europa havia sido poupada de conflitos semelhantes à Guerra Civil
americana, ou à guerra da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai)
contra o Paraguai, que reduziu à metade a população paraguaia entre 1864
e 1870. Quando, cm agosto de 1914, um insignificante conflito nos Bálcãs
fugiu cio controle, transformando-se numa guerra total entre as Grandes
Potências européias, e quando essas potências conseguiram prolongar por
mais de quatro anos a matança de toda uma geração ele jovens, pareceu a
muitos europeus que sua própria ci\ilização, com suas promessas de paz e
ele progresso, ha\ ia fracassado.
A Grande Guerra, além disso, durou muito mais do que a maioria
das pessoas havia imaginado possh,cl cm países urbanizados e industriais.
A maior parte dos europeus dava como certo c1uc popula<;:Ões altamente
diferenciadas, comprimidas cm grandes cidades e dependentes ele trocas
maciças ele bens de consumo seriam simplesmente incapazes de suportar
anos de destruição maciça. Apenas as socieclaclc primitivas, pensavam eles,
conseguiam suportar guerras de longa duração. Contrariando todas as ex-
pectativas, os europeus descobriram, a partir de 1914, como mobilizar a
produtiYidacle industrial e a vontade humana para longos anos ele sacrifício.
Da mesma forma c1uc a guerra ele trincheiras se aproximou do limite da
resistência humana, os governos cios tempos ele guerra aproximaram-se dos
16
limites da arregimenta<s:ão da vida e do pensamento.
Todos os governos beligerante~ passaram pela experiC·ncia da manipula-
ção da opinião pública. A tentativa alemã de motivar toda a população civil
na Frente Patriótica foi um dos exemplos mais coercivos, mas todos os go-
vernos trabalharam no sentido ck moldar o conhecimento e as opiniões ele
seus cidadãos. Tamb<'.·m as economias e as sociedades ele todos os países cm

16. Elil' Hai<'.-Yy, J.' Lrc de, tyrannics. Paris: Gallimanl, 1938, traduzido para o ingli'·,
como 7he fra oflj·mnnics: fssop· on Sociu/i,,m and lléir. Trad. R.olwrt K. Wcbb. Ganlcn City,
NY: Anchor Boob, 1965, foi c1uem obsenou 1wla primeira, c·z <Jlll' foi duranll' a Primei-
ra Guerra Mundial cim· os lcstadm modernos descobriram seu potencial de controlar a
Yida e o pensamento.
------- ---------- --------------------

60 A ANATOMIA DO FASCISMO

guerra passaram por profundas transforma,Jies. Os poYos europeus haviam


sofrido sua primeira cxperic'ncia prolongada de seniço nacional uniYersal,
racionamento de alimentos, de energia e de roupas, e também de adminis-
trac,·ão econtJmica cm escala plena. Apesar desses esforc,·os sem precedentes,
entretanto, nenhum dos países beligerantes atingiu seus objctiYos. Em vez
de uma guerra curta com resultados claros, essa carnificina longa e intensiva
de mão-de-obra terminou em exaustão mútua e em desilusão.
A guerra colocou um desafio tão tremendo que mesmo os países mais
bem integrados e mais hem gowrnados mal conseguiram fazer face às ten-
sôcs por ela causadas. Os países mal integrados e mal governados foram
totalmente incapazes de enfrentá-las. A Grã-Bretanha e a França alocaram
material, conferiram deveres às pessoas, distribuíram o sacrifício e mani-
pularam as notícias de maneira apenas satisfathria o bastante para manter a
lealdade da maioria de seus cidadãos. Já o rect'-m-unificado Império Alemão
e a monarc1uia italiana não se saíram tão bem. O Império Habsburgo esface-
lou-se nas nacionalidades c1ue o compunham. A Rússia czarista mergulhou
no caos. Os países deslocados, onde um campesinato sem-terra ainda era
numeroso, e onde uma classe m{,dia privada de direitos ainda carecia das
liberdades básicas, polarizaram-se para a esquerda ( corno ocorreu na Rús-
sia). Aqueles que possuíam urna grande, embora ameaçada classe média,
incluindo os produtores rurais dedicados à agricultura familiar, polariza-
ram-se contra a esquerda cm busca de novas soluções. 17
Ao fim da guerra, os europeus Yiam-se diYididos entre um velho mundo
que não podia ser revivido e um nm·o mundo sobre o qual eles discordavam
acerbamente. À medida c1uc as economias de guerra eram desmontadas
de forma demasiadamente rápida, a inflac,·ão dos tempos da guerra fugiu
ao controle, zombando das virtudes burguesas de frugalidade e poupança.
Uma populac,·ão que havia aprendido a esperar soluc,·ões públicas para os
problemas econtnnicos via-se agora mergulhada na incerteza.

17. (;rl'gory M. l .ul'hlwrt, l.ihcralism, Fusci.,m, or Social /)cmocracy. Nm a York: Oxford


Llni,l'rsity l'rl'ss, 1991, ofl'rlTl' a mais fundamentada l'lltrl' as anidisl's comparativas de
algun., dc'.SSl's dikrl'nll's rl'sultados, (jUl', na opini.io dl' Lueblwrt, ckpl'ndem dl' os agri-
cultorl's familiares Sl' alian·m ,\ classl' 1111'.-dia (produzindo ou o liberalismo ou o fa.,cismo)
ou aos soci,1listas (produzindo a soci,1l-dl'mocr,1cia ).
F
ROBERT O. PAXTON 61

Agravando essas tensôcs soc1a1s e econômicas, a guerra, além disso,


aprofundou as cisôes políticas. Corno a guerra de trincheiras havia sido urna
experiência brutalizante, excedendo qualquer expectativa prévia, mesmo
a partilha mais eqüitativa das cargas bélicas havia dividido os civis cios sol-
dados, a frente de batalha da frente doméstica. Os que haviam sobrevivido
às trincheiras não perdoavam aqueles que para lá os haviam enviado. Ve-
teranos calejados na violência afirmavam seu merecido direito a governar
o país pelo qual eles haúam derramado seu sangue. is "Quando voltei da
guerra", escreveu Italo Balbo, "corno tantos outros, cu odiava a política e os
políticos que, em minha opinião, haviam traído as esperanças dos soldados,
submetido a Itália a urna paz vergonhosa e à humilhação sistemática dos ita-
lianos que mantinham o culto aos heróis. Lutar, batalhar para voltar à terra
de Giolítti, que transformou cm mercadoria todos os ideais? Não. Melhor
seria negar tudo, destruir tudo, para reconstruir tudo a partir das funda-
çõcs".19 Balbo, que cm 1919 era um veterano desmobilizado de vinte e três
anos, ele convicções anti-socialistas, embora mazzinianas, c1ue sh havia pas-
sado nas provas de Direito na quarta tentativa e que, por algum tempo, ha-
via trabalhado como editor de um jornal semanal publicado pelos soldados,
L'Alpino, tinha poucas perspectivas, até ser contratado, cm janeiro de 1921,
como secretário remunerado doJàscio de Ferrara.'º Ele estava a caminho de
se tornar um dos braços direitos e riYais potenciais ele Mussolini.
Enquanto a Europa curava seus ferimentos, os grandes princípios da
ordem mundial -- o liberalismo, o conservadorismo e o comunismo - dis-
putavam inl1uc'.ncia. Os liberais (aos quais se juntaram alguns socialistas de-
mocráticos) pretendiam orgarnzar o mundo cio phs-guerra com base no

18. Mussolini queria c1uc a Itália, depois da guerra, fosse gonTnada por uma trin-
ccrocra/ia, ou "trinchcirocracia", um gon-rno formado por \'l'llTanos da linha dl' frente.
li Popa/o J'ftalia, 15 dez. 1917, citado cm Emílio Gcntilc, Storia dei Partitc, /-mcista, /919-
1922: Mo1·imcnto e mili/iCI. Bari: latl'rza, 1989, p. 19. Vl'r, tambi'-m, Cl'ntilc, Thc Sacrali-
zation of Politics in Fascist !tu0. Cambridge, MA: Hanard Uni,crsity l'ress, 1996, p. 16- 7.
É claro que os 1cll'ranos enrainTidos se voltaram t,mto para a es(1ucrda c1uando para a
direita. Ver o Ensaio Bibliográfirn para uma bibliografia.
19. Giorgio Rochat, !talo Bolho. Turim: Lili 1, 1986, p. 2 3.
20. Claudio Scgn\, !talo Bolbo.· A Fmcist li/e. Bl'rkclcy; Los Angeles: Unin-rsity of
California Prcss, 1987, p. 28- j4, 41-7.
-
62 A ANATOMIA DO rASCISMO

princ1p10 da autoclctermina\·ão das naçôcs. As nacionalidades satisfeitas,


cada uma cm seu pr()prio Estado, coexistiriam cm tal harmonia, segundo
a doutrina liheral, que nenhuma f'on,'a externa seria necessária para asse-
gurar a paz. Os idealistas, embora mal concebidos os 14 Pontos de janeiro
ele 1918, propostos pelo Presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson,
foram a expressão mais concreta dessa doutrina.
Os conscn,adorcs pouco disseram cm 1918, mas, silenciosamente,
tentaram restaurar um mundo no c1ual as f'on;as armadas regulariam as rcla-
c,·ôcs entre os Estados. O primeiro-ministro francês, Georges ClernencC'au,
e seu chefe de gabinete, o general Ferdinand Foch, tentaram ( com algum
grau de desacordo mútuo com relac;ão a até c1ue ponto eles poderiam ir)
estalwlccer a supremacia militar francesa permanente sobre uma Alemanha
enfraquecida.
O terceiro contendente era o primeiro regime socialista a funcionar
no mundo, instaurado na Rússia pela Rcvoluc,·ão B0lchevic1ue de novembro
de 1917. Lênin exigia que os socialistas de outros países seguissem seu
lwm-suceclido exemplo, abandonando a democracia e criando, segundo o
modelo bolchevista, partidos ditatoriais conspirat()rios capazes de dissemi-
nar a n_'vol0<;ão nos Estados capitalistas mais avan,·ados. Por algum tempo,
ele foi seguido por alguns socialistas democráticos do Ocidente, que não
queriam perder o tão esperado trem revolucionário. Enquanto os liberais
pretendiam manter a paz satisfazendo as rcivindicac,·ôes nacionais, e os cem-
senadores queriam conscná-la por meios militares, o objcti,o de Lênin
era cstabelccvr urna sociedade comunista mundial c1ue transcenderia de
forma total os Estados nacionais. ' 1
N cnhum desses campos alcan,·ou total sucesso. Em fins de 1919, o
a
projeto ele Lênin ,,iu-sc confinado Rússia, apús liberais e conscnadorcs,
agindo cm conjunto, terem csrna!]'ado os breves regimes sovi<'.,ticos locais
~ 0 L

instalados cm Buda1wstc e cm Munique, e tambt'.,m algumas insurrcic,:ôcs


ocorridas na Alemanha e na Itália. Esse projeto, entretanto, sobre\'Ín·u na

2 1. Arno J. M,wcr l'nL1ti1ou l'SS,l disputa cm Thc Polilirn/ Origins of thc \cn /)iplo-
mo,y. I 9 I 7-1 lJ 18. l\c,, 1lan·n: Y,dl' l111inTsity Prcss, 19 59, e 7hc Polit ics an,l /)iplomocy o/
Pcoccmuk1nil: c·omoinmcnt on,I (ountcrrc1olution ut l'cm1illcs, /lJIS-/L)/l). NoYaYork: Knopf,
1%7.
p [)

ROBERT O. PAXTON 63

Rússia - o primeiro Estado socialista - e nos partidos comunistas de todo


o mundo. O projeto ele Wilson, em tese, teria sido colocado cm vigor pe-
los tratados de paz de 1919-1920. Na prática, contudo, ele foi parcial-
mente modificado numa direção conservadora pelos interesses nacionais
das Grandes Potências e pelos duros fatos da contestação das fronteiras
nacionais e étnicas. Em vez de um mundo ou de nacionaliclacles satisfeitas
ou de poderes dominantes, os tratados de paz criaram um mundo dividido
entre, de um lado, as potências vitoriosas e seus Estados clientes, artifi-
cialmente inchados de modo a incluir outras minorias nacionais (Polônia,
Tchecoslm·áquia, Iugoslávia e Rom2'nia) e, ele outro, os Estados derrotados
e vingativos ( os Estados perdedores, Alemanha, Áustria e Hungria, e a Itália
insatisfeita). Dilacerada entre um wilsonisrno distorcido e um leninisrno
frustrado, a Europa, após 1919, ferYilhava ele conflitos não-rcsoh idos, tan-
to territoriais quanto de classe.
Esse fracasso mútuo abriu espaço político para um quarto princípio
de ordem mundial. A nova fórmula dos fascistas, tal corno a dos conser-
vadores, prometia resolver os conflitos territoriais permitindo que os for-
tes triunfassem. Diferentemente cios conservadores, contudo, os fascistas
mediam a força cios Estados com base não apenas cm seu poderio militar,
mas também no fervor C' na unidade ele suas populaçôcs. Eles propunham
superar os conflitos ele classe integrando a classe trabalhadora anação, pela
persuasão se possível, e pela força se necessário, e também se livrando dos
"forasteiros" e dos "impuros". Os fa~cistas não tinham c1ualqucr intenção de
manter a paz. Eles esperavam que a~ ine\'itáveis guerras permitiriam que as
raças superiores prevalecessem sobre as demais, enquanto as raças divididas
e "mestiçadas", os povos irresolutos, tornar-se-iam seus servos.
Como veremos a seguir, o fascismo tornara-se concebível já antes de
1914. Mas ele ainda não era factível cm termos práticos, até que a Grande
Guerra jogou a Europa cm uma nm a era. A "'epoca " <1o f'asc1srno,
· para c1't ar
o título cm alemão da obra clássica do filhsofo-historiaclor Ernst Noite, de
1963, Ofàscismo em sua época 22 teve início cm 1918.

22. Ernst Noite, Der Faschismus in scincr Epochc. Munic1uc: Pi per Vcrlag, 196 3. Trad.
para o inglês como Thrce Faces offoscism. Tr1d. Lcila Vcnncwitz. NoYa York: Holt, Rinchart
anel Winston, 1966.
p

64 A ANATOMIA DO FASCISMO

RAÍZES INTFLLCTUAIS, CUITURAIS E EMOCIONAIS

A forma pela qual os europeus perceberam a pronc,:ão ela guerra em


meio à ruína de 1919, ohYiamentc, foi moldada por uma preparação men-
tal pr<'.,via. As prccondic,:ões mais profundas do fascismo residem na revolta
de fins do s(culo XIX contra a ff liberal na liberdade individual, na razão,
na harmonia humana natural e no progresso. Bem antes de 1914, valores
antiliberais haviam entrado na moela, tais como o nacionalismo, o racismo e
urna nm·a est<'.,tica do instinto e da violfncia, que então passaram a fornecer
o húmus intelectual e rnltural no qual o fascismo p()de germinar.
Um ponto de partida possível são as leituras dos primeiros fascistas.
Mussolini era um leitor s<'.·rio. O jmnn mestre-escola e organizador socia-
lista italiano não lia tanto Marx, mas principalmente Nietzsche, Gusta,-c Lc
Bon l' Georgcs Sorel. Hitler absorveu, mais por osrnose, o febril nacionalis-
mo pan-gcrmânico e o anti-semitismo de Georg von Schónercr, de Hous-
tcm Stuart Chambcrlain,'' do prefeito Lueger e elas ruas de Viena, alc,·ados
cm sua mente a puro êxtase pela música de Richard Wagner.
Friedrich Nietzsche ( 1844- 1900) foi tantas vezes acusado de ser o pro-
genitor do fascismo que seu caso merece particular cuidado. Criado para
ser pastor luterano, o jovem Nietzsche perdeu a fó e tornou-se professor
de filologia clássica c1uando ainda extraordinariamente jovem. Durante o
restante ele seus anos úteis ( ele sofreu um colapso mental permanente aos
cinqüenta anos, talvez causado por sífilis) investiu todo o seu brilho e toda a
sua ira no ataque à pequena-burguesia, com sua complacfncia e seu confor-
mismo pio, tíbio e moralista, cm nome de urna pura e rija independência
ele espírito. Em um mundo onde Deus estava morto, o Cristianismo era
fraco, e a Cifncia, falsa, apenas um "super-homem" espiritualmente livre
seria capaz ele descmbarac,:ar-sc das comTnc,·ões para lutar e viver segundo
seus próprios e autfnticos valores. De início, N ietzschc inspirou principal-

2 ). !'ara l'ssc hritànico ck nascimento, ap<'lstolo de umJ Akmanha menos matl'ria-


listJ l' racialnll'ntc mais pura, genro de Wagnn, ver Geoffrcy C. Fidd, faonHclist of Roce:
Thc Ccrmunicl ·ision of / lou.,ton Stc11urt Chomhcrlain. Nm a York: Columhia UninTsity Press,
1981.
p

ROBERT O. PAXTON 65

mente a juYcntudc rebelde, chocando seus pais. Ao mesmo tempo, seus


escritos continham uma hoa quantidade de matLTia-prima para as pessoas
inclinadas a se inquietar com a decacWncia da sociedade moderna, com
o heróico esforço de vontade necessário para rc\'crter essa decadôncia, e
com a influência perniciosa dos judeus. Nietzsche, ele mesmo, desprezava
o patriotismo e os anti-semitas que ele Yia a sua volta e imaginava seu su-
per-homem corno um "espírito livn', inimigo de grilhões, o não-adorador,
o morador das florestas".'+ Sua prosa incandescente exerceu urna pode-
rosa influência intelectual e estética cm todo o espectro político, sobre
nacionalistas ativistas como Mussolini e Maurice Barres e não-conformistas
como Stcfan George e André Gidc, sobre nazistas e não-nazistas, e sobre
várias gerações de iconoclastas franceses, de Sartre a Foucault. "Os textos
de Nietzsche fornecem uma wrdadcira mina de ouro ele possibilidades, as
mais variadas". 1 '
Gcorges Sorel (1847-1922) exerceu sobre Mussolini urna influfncia
mais direta e mais prática. Engenheiro francôs aposentado e teórico social
amador, Sorcl era fascinado por sua busca de causas capazes de despertar
"nas profundezas da alma um sentimento do sublime proporcional às ccm-
clições de uma luta gigantesca", de modo que "as nações européias, entor-
pecidas pelo humanitarismo, possam recuperar sua energia de antes".'<, A
princípio, ele encontrou os melhores exemplos no sindicalismo revolucio-
nário, que já encontramos corno o primeiro lar espiritual de Mussolini. O
sonho sindicalista ele "um grande sindicato", cuja greve geral ele escala gi-
gantesca arrasaria a sociedade capitalista em "uma grande noite", cntregan-

24. Fricdrich Nietzsche, Thus Spokc /orothustro.Trad. R. J. llollingdalc. Baltimore:


Penguin, 1961, p. 126.
25. Stcvl'n E. Aschheim, "Nietzsche, .'\nti-Scmitism, anel Mass Murdcr", em Asch
heim, Culturc and Catostrophe. Nova York: Nova York UniYersity Press, 1996, p. 71. Esse
lúcido relato dos Sllll'ssi\os Nictzsches, cksde o protonazista de 1945 atL· o Nietzsche de
espírito li\Te, ckfcndido por Walter Kaufrnann nos anos 1960, at<'.- o Nil'tzsche dcscons-
trutivista de hoje, L' dcscnvohido cm Aschhcim, 'lhe 1\'ictzsche f.cHocv in c;crman. Ikrkdcv
l'Los Angeles: Unin-rsity of California l'ress, 1992. , ·
26. Gl'orges Sorel, Rcflcclions on l'iolcncc. Cambridge: Cambridge UninTsity l'ress,
1999, p. 159.
66 A ANATOMIA DO FASCISMO

do o controle aos sindicatos, era o que Sorel chamava de um "mito" -- um


ideal estimulante, capaz dl' instigar as pessoas a um desl'mpl'nho alóm de
suas capacidades cotidianas. Mais tarde, ao final da guerra, Sord concluiu
c1ue fora Lc'nin c1uem melhor personificara esse ideal. Ainda mais tarde, ele,
por um breve período, impressionou-se com Mussolini (c1ue, por sua vez,
7
foi o mais bem-sucedido de seus clisdpulos).'
Tamht.''m importantes para o atac1m' fascista à democracia foram os teó-
ricos sociais que levantaram dúvidas pragmáticas c1uanto à viabilidade dessa
forma de (JO\Trno relativamente jovem. Mussolini freqüentemente se rcfe-
::,
ria à La p\1chohwc dcsfàulcs (A psicologia elas massas), 1895, ele Gustave Le
13on. Ll' Hon lan\·ou um olhar cínico sobre a maneira pela qual as paixões
surgiam e se fundiam cm uma massa ele pessoas que, então, podiam ser
facilmente manipuladas. 'K Mussolini, all'm disso, matriculou-se nos cursos
ele Vilfrcdo Pardo na Unin-rsiclade ele Lausanne, cm 1904, na é,poca cm
om'
1
ele vi\·ia no exílio jJara hwir
b
ao senico
)
militar italiano. Parcto ( 1848-
19 2 3), !'ilho ele um mazziniano exilado na Frans·a e de mãe francesa, era um
economista lilwral a tal ponto frustrado com a dissemina\·ão do protecio-
nismo, cm f'ins do sL,culo XIX, que construiu toda urna teoria política sobre
as maneiras pelas c1uais as regras superficiais da democracia eleitoral e par-
lanwntar eram im'vitavelmentc suln ertidas na prática pelo poder perma-
11l'ntl' das elites L' pelos "resíduos" irracionais cios sentimentos populares.
No topo da escala intelectual, o principal acontecimento teórico de
fins do sLTulo XIX foi a descoberta ela realidade e do poder cio subcons-
ciente no pensamento humano e do irracional nas as·ões humanas. Embora
lkru.~on e Freud não tin'sscm absolutamente nada a n-r com o fascismo,
b

17. !'.n·, Stcrnhcll mm M,1rio Sz11.wdcr t· M,1ia Ashcri, lhe llirth offosci,L ldcology.
l'rincl'lon: l'rincl'lon Llni,Trsitv Prcss, 1994, trata de forma aprofundada do uso que
/\1ussolini frz de Sorcl. Os conH:ntúios fayor,Ín·is lk Sorcl sobre o fascismo foram rl'du-
zidos, pcl.1 pt'Sl[lliSc1 Kadêmica 1TCL'nte, a n·t't-rênl'ias passageiras cm 1920-1921. Ver]. R.
Jcnnings, (;corw·s Sorcl: Thc Ch,m1ctcr on,I Dcl'clopmcnt o/ f-f1s Fhoul]hL. Londres: Macmillan,
1985; Jan1ucs J ull ianl e Shlomo Sarni, e els., c;corHn Sorcl cn son tcmps. Paris: Scuil, 1985;
Marco Ct-r1·,1soni, c;cor.'ic' Sorcl: l!no hio,qrofit1 intcllcttuolc. Milão: Llnicopli, 1997.
28. Suz.:inna Barro\\'s, Distortin,q ,llirrors:l'isions of'1hc Crmnl in rate i\'inctccnth Ccntury
Fmncc. ]\;L'\\ I l,nt·n: Y,1k llnin-rsit1 l'rcss, 1981.
p
ROBERT O. PAXTON 67

tendo, aliás, sofrido pcssoalmcnk suas conseqüências, seu trabalho ajudou


a minar a conYicc,:ão liberal ele que a política significava indivíduos livres es-
colhendo as melhores políticas pelo simples exercício ela razão. 79 Suas cks-
cobertas - principalmente as de Freud -- foram difundidas e popularizadas
ap6s 1918, por meio elas experiências diretas de guerra, tais como traumas
emocionais adquiridos no campo ck batalha, para os c1uais foi inventado o
t ermo " neurose el e guerra ,, .
No extremo inferior ela escala intelectual, uma multidão de escrito-
res populares retrabalharnm um repertório ele ternas já existentes - ra\·a,
nação, vontade, ªS'ão -, transf'ormanclo-os em formas mais rígidas e mais
agressivas, como o onipresente darwinismo social. m A ra~·a, atl- então um
termo bastante neutro, usado para designar um agrupamento animal ou
humano, recebeu, cm fins cio s(culo XIX, uma forma mais explicitamen-
te biológica e hereditária. Um primo ele Charles Darwin, hancis Galton,
sugeriu, cm 1880, que a ciência deu à humanidade o poder de aperfci\·oar
a raça, incentivando "os melhores" ;1 se reproduzirem, e cunhou para suas
. 1'.
1c . ,, . ir A nac;ao
e1as o termo " eu gema - - que antes, para naciona 1istas pro-
gressistas como Mazzini, era a base para o progresso e a fraterniclaclc entre
os ponis -- foi transformada cm um conceito mais excludente, figurando
em uma hierarquia que clava às "ras·as superiores" ( como os arianos, uma
invcnc;ão ela imagina\:ão antropológi,_,a cio Sl'culo XIX) lJ o direito de dominar
os povos "·m 1·cnores
. ". A nmtac le e a a~:ao
- tornaram-se virtu< 1cs cm si, inclc-

29. O relato clássico dessa mudanci'a (._, f I. Stuart Hughcs, Consciousncss ond Socictv: Thc
L ;

Reconstruct ion o/ Europcon Social ThouHht, 1890-19 3(). ]'\ma York: Ranclom f !ouse, 1961 .
30. A luta hiolhgica como chan· da histc'iria humana, de importância n·ntral na ,isão
de mundo de I litkr, era menos influente na Itália, cm hora alguns nacionalistas italianos
trnham chegado, por meio de I kgcl l' Nietzsche, a um ideal ~araklo dl' base cultural, a
compcti,:ão entre as Yontades nacionais. V, r Mikc I Ia,, kins, SoCJo! /)arn inism in [uropcon
andAmcricon ThouHht. Cambridgl': Cambridge Llnin-rsity l'rl'ss, 1997, p. 285-9.
31. l )anicl KL'\ ks, ln thc .\ame o/ fa1t1cnics: (,cnctics ond thc {J,·cs o// fumon l lercdity.
Nova York: Knopf, 198 5. O pn'iprio Calton nâo dckndia a idi·ia de impcdir quc os "in-
feriores" Sl' reproduzis,t·m.
32. Li'.·on l'oliakm, lhe, lryon .1~vth ·, t /lis101y o/ Rocist ond .\'orionoli,1 /dct11 in l:uropc.
Trad. do f'ranci·s por Fdmund I lcl\\ ard. Ncl\a York: Ba,ic Books, 1974. A ra//Ll l'Ultur,il
histórica da rl'lhrica nacionalista italiana n:io era mt·nos agrcssiyamt·ntc compt·titi,a.
p

68 A ANATOMIA DO FASCISMO

pendentemente de qualquer objetivo específico, sendo associadas à luta das


" rac,·as " pe 1a supremacia.
. \l
Mesmo aphs os horrores de 1914-1918 terem tornado mais difícil pen-
sar na guerra como a espt'.'.cie de empreitada estimulante admirada por Ru-
dvanl Kipling, porThcodore Roosevelt e pelos fundadores do Movimento
E~-;cotciro, alguns ainda a viam como a mais elevada de todas as atividades
humanas. Se a nac,·ão, ou o l'o/k, era o ápice das conquistas humanas, a vio-
lência exercida cm seu nome era enobrecedora. Além disso, alguns estetas
da Yiolência encontravam beleza no extremo da vontade e da resistência
masculinas exigido pela guerra de trincheiras. i+
() sL'eulo xx trouxe consigo novas formas de angústia, para as quais
0 fascismo não tardou a prom:'.ter 1-cmt'.'.dios. Procurar medos talvez seja
uma estratégia de pesquisa mais frutífera do qul' uma busca literal pelos
pensadores que "criaram" o fascismo. Um desses medos era o do colapso
da comunidade sob a influência corro:--iva do livre individualismo. Antes
mesmo da Rcvoluc,·ão Francesa, essa possibilidade já inquietava Rousseau. li

) 3. () pol'ta-esll'ta italiano G.1bril'lc l)' Annunzio huscan "exaltar e glorif'icar acima


de todas ,1 s coisas a Beleza e o p()(kr do macho, belicoso e dominador". Anthony Rhodes,
Fhe f'oct us Supcrmun:. 1 L1f of (;uhriclc [) ·. lnnwuio. Londres: Weiden.f'dd and Nicholson,
1959, p. 62- 3. Vn t.1111liL·m o rnan1ul'S de Mort'.·s, citado na p. 90. A esc1m·rcla, os anar-
ciuistas <ILI<' lkkndiam a propaganda do ato tamhl'm valoriza, am a a<;ão l'm si mesma. O
poeta an,irquisla Lrnn'nt 1:1i\hadl' rcspondl'U ao bombardeio da Câmara dos Deputados
da frarn;a, cm de,nnhro ck 189 'I: "() qt1l' imporiam esses vagos seres [os feridos!, se o
L;l'Sto i· belo?". Mais tarde ,Túlhadc perdeu um olho na explosão de uma bomba anan1uis-
~a num cafr parisil'nsc. James Joll, Thc.lnorchists. Boston: Little, Brm\'11, 1964, p. 169.
3+. Lrnsl Jüngcr, ln Stuhf.qrnittern. lkrlim: F. S. Mittlcr, 1929.Trad. para o inglês
como Siorm of Steel. Londres: Chatto and Windus, 1929, fez uma famosa l'x,1ltac;ão dos
efeitos l'Iwbreccdorl'S do comhall' ap<>S a Primeira Cul'rra Mundial. A literatura pro-
<rucrra era l)l'lll ml·nos <·omum c1m· seu oposto, co1no, por l'xemplo, a <'VOl'a<;ão dos
t-,
horron-s do comh,11<' nas trincl1l'iras, de Frich Maria Rcmarc1uc, cm NaJa de norn na
frente oci,/cncal ( 1927). (;angucs nazistas interrompiam projt\'llt'S do filme feito a partir
· do romatH·e dl' Rl·man1uc. Jüngl'r ( 1895-1998) tinha urna rda(io hostil com o nazismo,
mas nunca se opt>s scri,uncntc a l'k posi<,·.10 nada incomum l'ntrc os intelectuais dessa
i·pol\1.
3 5. l k acordo com Jacob Tilmon, The Ori.'lins o/ 1ótulitariun Dcmocrucy. Londres:
S<Tkcr and \\'arhurl;, l 9S2, a itkia de Rousseau, dl' que a sol1l'r,mia popular dl'\L' ser fun-
p

ROBERT O. PAXTON 69

Em meados do século XIX e a partir de então, o medo da desintegração


social era urna preocupação principalmente conservadora. Apbs a turbu-
lenta década ele 1840, o polemista vitoriano Thomas Carlyle perguntou-se
que força seria capaz de disciplinar "as massas empanturradas de cerveja
e de insensatez", à medida que um número cada vez maior de pessoas do
povo ganhava o direito de voto. lb O remédio proposto por Carlylc foi o
de uma ditadura militarizada do bem-estar social, administrada não pela
classe dominante de então, mas por urna nova elite composta por capitães
da indústria de índole altruísta e outros heróis naturais da ordem de Oli,er
Cromwell e Frederico, o Grande. Os nazistas, mais tarde, reivindicaram
Carlyle como seu predecessor. n
O medo do colapso da solidariedade comunitária intensificou-se na
Europa de fins cio século XIX, sob o impacto do crescimento urbano, dos
conflitos industriais e da imigraç:ão. O diagnóstico das mazelas da comu-
nidade foi um projeto de importância central na criação da no\'a disciplina
da sociologia. Émilc Durkhcim (1858-1917), o primeiro catedrático em
sociologia francês, diagnosticou que a sociedade moderna sofria de "ano-
mia" - o vagar a esmo de pessoas sem vínculos sociais - e refletiu sobre a
substituição da solidariedade "mecânica", os la<iOS formados no interior das
comunidades naturais das aldeias, das famílias e elas igrejas, pela solidarie-
dade "orgânica", os laços criados pela propaganda e pela mídia modernas,
que os fascistas ( e também os publicitários) mais tarde iriam aperfeiçoar.
O sociólogo alemão Fcrdinand Tiinnics lamentou a suplanta<;ão das socie-
dades tradicionais e naturais ( Gemeinsch~jten) pelas sociedades modernas,
mais diferenciadas e impessoais ( Gesellsch~jten) em seu li \'ro Gemeinschc!ft
und Gesellschaft ( 1887), e os nazistas tomaram emprestado dele o nome para

dada na '\ontadc gl'ral", e nã<>'na maioria da, ,ontadl's individuais, faz ckk um ancestral
do fascismo.
36. J. Sah, yn Schapiro, "Thomas Carlyk, Prophct of Fascism", Jounwl of .lloJern
History, v. 17, n. 2, p. 1O~, j un. 1945. Vl'r, de forma mais geral, Chris R. V.mdcn Bosschc,
Carlyle and the Scorchfór :luthori(v. Columbus: Ohio Statc UninTsity Prcss, 1992.
37. Thl'odotT Ikimcl, Car9·/c unJ der ,\otionol,·o/Ílilismus (\Vürzhurg, 19 i7), citado
cm Karl Dietrich Brachcr, Wollgang Sau('r L' Gcrhard Sdrnlz, Dic nationalrn/ici/1,1 ischc
Machtergreijímg. Colhnia L' Opladcn: Wl'stdn1tschcr Verlag, 1960, p. 264 l' nota 9.
p

70 A ANATOMIA DO f;ASCISMO

as "comunidades do porn" ( l'olkwemeinschc!ft) que queriam criar. Vilfrcdo


Parcto, Caetano Mosca L' Roberto Michcls, socic>logos de inícios do século
xx, contribuíram de forma mais direta para as idéias fascistas. 's
Uma outra angústia do século XIX era a dccad2'ncia: o pavor de as gran-
des na<,'(les histc'>ricas estarem fadadas, por culpa de seu pr<>prio comodismo
e comp 1acenc1a, a taxas l 1e nata 1·H 1ale
A • 1 cal1a \TZ 1nenores l'J e a uma e1·1m1-•
nui<,"<io de sua ,italidack. A mais conhecida dessas profecias de declínio,
cujo título todos conheciam, embora poucos tenham-se a,-cnturado por sua
prosa, era Der UnterflanH des :lbcndlandes ( O declínio do Ocidente), 1918, de
Os,Yald Spengler. Spenglcr, professor SL'Cumlário de histc'iria alemã, argu-
nH·nta,a c1ue as culturas, tal como os organismos, têm ciclos de vida, pas-
sando de uma idade heróica e criatiYa, a "Idade da Cultura", a uma corrupta
"Idade da Civilizac,'ão", c1uando as massas desenraizadas l' amontoadas em
L·idades perdem contato com o solo, pensam apenas cm dinheiro e tornam-
se incapazes de grandes atos. A Alemanha, portanto, não csta\'a sozinha cm
seu declínio. No segundo \'Cllume dessa obra, datado de 1922, ele sugeriu
que um "cesarismo" heróico talvez ainda fosse capaz de sah·ar a Alemanha.
A moclerniza<,·ão, como temia Spengler, vinha destruindo tracli<,·Õcs enraiza-
das, e o bolchnismo levaria essa destrui\·ão ainda mais longe. Ele pregava
uma ren>lU(,'ão espiritual, c1ue re, italizaria a na\·ão sem alterar sua estrutura
social. +o
Os inimigos eram um componente central das angústias que contribu-
íram para inflamar a imaginac.ão fascista. Os fascistas viam inimigos tanto
dentro quanto fora da nac.·ão. Os Estados estrangeiros eram inimigos já co-
nhecidos, embora o perigo representado por eles parecesse se intensificar
com o avan,·o do boldwvismo, com a exaccrba,·ão dos conflitos defrontei-

38. Ver c,1pitulo 1, p. -\7, lY. StL·plwn !'.Turner e Dirk K:1slcr, eds., Sociology Rcsponds
to 1-oscism. I ondres: Routkdge, 1YYI, nas p. 6 l' Y, há Ulll,l retll'xão sobre a ligacs"ão entre
a sociologi,1 L' o L1scis1110.
lY. Foi o n·n.,o de 18Y 1 <[Ue rcH'lou aos framTses c1ue sua popula\·ào não esta\'a se
n·produzindo, .,cndo essa ,1 primeira n·z <ilH' a <JUL'Sl.10 a.,sumiu importância Cl'ntral num
grandl' Lstado L'uropc·u. M,1is tarde, da \l'io a se· C<>llllTkr l'lll uma das pn-ocupa\·c'ics
mai., fund.:inwnt,lÍs dos L1scistas.
+O. 1I. Stuart I lughl'.,, Orndd Spcrwlcr: 1 Critiuil Lsumutc. \!ma York: Scrilml'r, 1Y52,
rt'l'ditado por Cn·c'tll\ood Pn·ss, 1Y7S.
p

ROBERT O. PAXTON 71

ras, e também com a frustração da~. rci\'indica\·Õcs nacionais que se segui-


a
ram Primeira Grande Guerra. Na paisagem mental fascista, os inimigos
internos aumentavam prolificamentc cm número e cm variedade, medida a
que o ideal de um Estado nacional homogêneo tornaYa mais suspeitas as
diferenças. As minorias étnicas, na Europa Ocidental, incharam a partir da
década de 1880, cm razão das crcsccnks levas de refugiados que fugiam
dos po9roms da Europa Oriental. 11 Os sub\'crsivos políticos e culturais so-
cialistas de vários matizes, artistas e intelectuais de vanguarda descobriam
novas maneiras de desafiar o conformismo comunitário. A cultura nacional
teria que ser defendida contra e lcs. Joseph Goebbc Is declarou, cm uma ce-
rimônia de queima de livros realizada cm Berlim, cm 1O de maio de 193 3,
que "a era do extremo intelectualismo judaico havia agora terminado, e que
o sucesso da rcn>lução germânica ha\'ia novamente aberto caminho para
41
o espírito alcmão". Apesar de Mussolini e seus amigos ele vanguarda se
preocuparem menos que os nazistas com o modernismo cultural, esqua-
drões fascistas italianos qucimayam li\Tos socialistas cm fogueiras.
A descoberta do papel desempenhado pelas bactcTias no contágio, pelo
biólogo francês Louis Pasteur, e dos mecanismos de lwrcditaricdadc, pelo
monge austríaco Grcgor Mcnclcl, na dc'Cada de 1880, tornou possível ima-
ginar noyas categorias de inimigos internos: os portadores de doenças, os
impuros, os que sofriam de docnç:as hereditárias, os insanos e os crimino-
sos. Na Europa, a urgc'.ncia cm puril'icar a comunidade por meios mt',dicos
foi muito mais forte no Norte protestante <jUl' no Sul católico. Essa agencia
influenciou tambt',m os Estados liberais. Os Estados Unidos e a Suc''cia li-
deraram a campanha ele cstcrilizaç·ão for~:ada de infratores contumazcs (no
caso americano, principalmente de afro-americanos), mas a Alemanha foi
muito além, com o programa de eutanásia médica mais macis:o de que se
tem notícia_+i

41. Michael R. Marrus, rhc lfmrnnted Euror>con Rcfiigccs in thc'fi1cntic1h Ccntwy. \Jma
York: Oxford Univcrsity l'rl'ss, 1Y85, explora o surgiml'nto, a partir dm anos 1880, da
consciência sobre a C[lll'stão dos rl'fugiado.,.
42. Gocbhcls-Rcclcn. v. I ( 1Y33-1 Y3Y), cd. Helmut f kihcr. Düsseldorf: Drostl' Vcrlag,
1971 , p. 108.
43. Michal'l Burlcigh, Dcoth and Dclircronc'C: f:uthunasia in (;ermany. e. /900-/9.J.,.
Cambridge: C1rnhridgc UninTsity l'rcss, 1YY 5.