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A MENTALIDADE REVOLUCIONÁRIA

Segundo Olavo de Carvalho, a mente revolucionária tem 3 características


essenciais:

A inversão da percepção do tempo


As pessoas normais consideram que o passado é algo
imutável e que o futuro é algo de contingente ― “o passado
está enterrado e o futuro a Deus pertence”, diz o senso-
comum.
A mente revolucionária não raciocina desta forma: para ela,
o futuro utópico é um objetivo que será inexoravelmente
atingido ― o futuro utópico é uma certeza; não pode ser
mudado.
Por outro lado, a mente revolucionária considera que o
passado pode ser mudado (e ferozmente denunciado!)
através da reinterpretação da História por via do
desconstrucionismo ideológico (Nietzsche → Gramsci →
Heidegger → Sartre → Foucault → Derrida → Habermas).
Em suma: o futuro é uma certeza e o passado uma
contingência ― isto é, o reviralho total.

A inversão da moral

Em função da crença num futuro utópico dado como certo


e determinado, em direção ao qual a sociedade caminha
sem qualquer possibilidade de desvio, a mente
revolucionária acredita que esse futuro utópico inexorável é
isento de “mal” ― esse futuro será perfeito, isento de erros
humanos. Por isso, em função desse futuro utópico certo e
dado como adquirido, todos os meios utilizados para atingir
a inexorabilidade desse futuro estão, à partida, justificados.
Trata-se de uma moral teleológica: os fins justificam todos
os meios possíveis.

A inversão do sujeito/objeto

A culpa dos atos de horror causados pela mente


revolucionária é sempre das vítimas, porque estas não
compreenderam as noções revolucionárias que levariam ao
inexorável futuro perfeito e destituído de qualquer “mal”.
As vítimas da mente revolucionária não foram assassinadas:
antes suicidaram-se, e a ação da mente revolucionária é a
que obedece sem remissão a uma verdade dialética
imbuída de uma certeza científica que clama pela
necessidade desse futuro sem “mal” ― portanto, a ação da
mente revolucionária é impessoal, isenta de culpa ou de
quaisquer responsabilidades morais ou legais nos atos
criminosos que comete.
Segundo a mente revolucionária, as pessoas assassinadas
por Che Guevara ou por Hitler foram elas próprias as
culpadas da sua morte (suicidaram-se), por se terem
recusado a compreender a inexorabilidade do futuro sem
“mal” de que os revolucionários seriam simples executores
providenciais.

Ele explica bem sua tese em uma palestra em Bucareste,


Romênia, proferida em junho de 2011, no instituto
"Investigare a Crimelor Comunismului". O vídeo é editado,
suprimindo a tradução para o público romeno.

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A TRADIÇÃO REVOLUCIONÁRIA - 1
Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 14 de julho de 2011  

O dado mais importante da história mundial desde há mais


de dois séculos é também, por força de sua onipresença
mesma, o mais freqüentemente negligenciado – quando
não totalmente ignorado – pelo comentário político usual.
Esse dado é o seguinte: o movimento revolucionário é a
única tradição de pensamento político-estratégico que tem
uma existência contínua e um senso de unidade orgânica
desde pelo menos o século XVIII. Todas as correntes
adversárias são efusões parciais, locais, temporárias e
inconexas.
A marcha avassaladora do pensamento revolucionário é
como uma enchente que não se defrontasse pelo caminho
senão com velhos pedaços de muro erguidos a esmo, um
aqui, outro ali, em toda a extensão de uma planície aberta.
A unidade da tradição revolucionária não consiste, é claro,
de uma coerência em bloco, de um acordo universal em
torno de princípios explícitos, tal como se tentou criar na
URSS sob o nome de “marxismo-leninismo”. Ao contrário,
existem no seio dela antagonismos profundos, talvez
insanáveis, que com freqüência se exteriorizam em lutas
sangrentas. O que caracteriza a sua unidade é que toda a
multidão das suas correntes e facções compõe um
patrimônio comum do qual os intelectuais revolucionários
estão conscientes e que alimenta, de geração em geração,
os debates dos partidos e organizações revolucionárias.

Nenhum intelectual revolucionário que se preze pode se


dar o luxo de ignorar as variedades internas do movimento,
nem as mais remotas e insignificantes, nem as que lhe
pareçam extravagantes, estéreis, desprezíveis ou
abomináveis. Até mesmo entre as facções mais hostis do
movimento revolucionário, como o fascismo e o
comunismo, o diálogo foi intenso, não só no campo das
idéias, mas no da estratégia e da tática. Josef Stálin
enxergava o corpo inteiro do nazifascismo como uma peça
bem integrada dos seus planos de dominação mundial,
manobrando-o para seus próprios fins mediante a
alternância maquiavélica de apoio estratégico e combate
mortal (v. Viktor Suvorov, Iceberg. Who Started the Second
World War?, Bristol, UK, Pluk Publishing, 2009).

Nada de semelhante observou-se jamais na “direita”. Entre


as suas facções e divisões reina a mais incompreensiva
hostilidade, quando não aquele desprezo olímpico que
torna a ignorância mútua uma espécie de dever. Só para dar
um exemplo mais flagrante, até hoje não foi possível
nenhum diálogo entre a direita americana e a européia, que
se movem em esferas epistemológicas e semânticas
incomunicáveis. Um fator complicante é acrescentado pelo
fato de que muitos movimentos soi disant reacionários ou
conservadores só o eram no seu discurso de auto-
justificação ideológica: na prática, erguendo utopia contra
utopia, acabavam se integrando no próprio movimento
revolucionário que alegavam combater. De nada adiantou,
nisso, a advertência antecipada de Joseph de Maistre: “Não
precisamos de uma contra-revolução, mas do contrário de
uma revolução". Os movimentos contra-revolucionários,
nos quais tantos reacionários e conservadores apostaram
suas belas esperanças, nunca passaram da ala direita do
processo revolucionário, fortalecendo-o na medida mesma
em que imaginavam debilitá-la.
Até hoje, todas as reações que se oferecem ao movimento
revolucionário são apenas pontuais, reagindo às suas
manifestações particulares e esgotando-se em combates
periféricos que deixam incólume o coração do monstro. É
como se cada conservador, reacionário, liberal, cristão
tradicionalista ou judeu ortodoxo só se desse conta da
malignidade do processo revolucionário quando este fere os
valores que são caros à sua pessoa ou comunidade, sem
reparar na infinidade de outros pontos de ataque em torno
de bolsões de resistência dispersos, onde franco-atiradores
oferecem uma obstinada e vã resistência parcial a um cerco
geral e multilateral.

Para complicar um pouco mais as coisas, o movimento


revolucionário é uma entidade protéica, infinitamente
adaptável às mais variadas circunstâncias, de tal modo que
lhe é sempre possível absorver em seu proveito,
reinserindo-as dialeticamente na sua estratégia geral, todas
as bandeiras de luta parciais e isoladas, levantadas aqui e
ali por adversários que só o enxergam por partes e
fragmentos. Isso faz dos governos revolucionários os
dominadores absolutos da “desinformação estratégica”,
onde há pelo menos um século vêm realizando as proezas
mais espetaculares, reduzindo seus adversários à condição
de “idiotas úteis” a serviço de planos que transcendem
infinitamente seus horizontes de consciência. Na medida
em que essas derrotas e humilhações do campo reacionário
se sucedem e se acumulam, formando um patrimônio
negativo considerável, mais forte é a tendência de negar os
fatos deprimentes mediante um discurso de auto-lisonja
triunfal perfeitamente ilusório, recobrindo a ação
revolucionária com novas e novas camadas de
invisibilidade protetora.
Os políticos e os serviços de inteligência dos EUA
continuam se gabando de que “venceram a Guerra Fria”,
quando tudo o que conseguiram foi aumentar
consideravelmente o poder mundial da KGB – inclusive
dentro do território americano –, servindo de instrumentos
para a realização de planos traçados já desde os anos 40
por Lavrenti Beria para ampliar o raio de ação do
movimento revolucionário por meio de um simulacro de
auto-desmantelamento do Estado comunista.

Note-se que Beria não foi nem mesmo pioneiro no uso


desse artifício. Em 1921, Lênin conseguiu persuadir os
governos, os serviços secretos e os investidores ocidentais
de que o comunismo recém-implantado na Rússia estava
em vias de extinção e ia ser em breve substituído por um
sistema capitalista democrático. Com isso, não só obteve os
capitais de que necessitava para consolidar o regime
comunista, mas também se livrou de milhares de opositores
exilados, que, persuadidos a voltar à Rússia para lutar
contra o regime alegadamente moribundo, foram
aprisionados e assassinados tão logo desembarcaram em
território russo (v. Edward Jay Epstein, Deception. The
Invisible War between the KGB and the CIA, New York,
Simon & Schuster, 1989, pp. 22-30).
Esse vexame colossal parece não ter ensinado nada aos
serviços de “inteligência” Ocidentais, que vêm caindo no
engodo de novo e de novo, com a solicitude mecânica de
cães de Pavlov, sem jamais admitir que foram enganados.

Na II Guerra, novamente foram feitos de otários,


despejando ajuda bilionária nos cofres de Stalin porque
acreditaram que a URSS era a vítima desprevenida de um
ataque alemão, quando o fato era que o governo soviético,
além de instigar e apoiar em segredo os nazistas para que
desencadeassem uma guerra mundial, já havia começado
ele próprio a guerra antes de Hitler, atacando os países
neutros que separavam a URSS da Alemanha e assim
preparando a invasão da Europa, que deveria seguir-se aos
primeiros e aparentes sucessos do Exército alemão no
Ocidente. O dinheiro americano praticamente criou o
parque industrial soviético, que até hoje é enaltecido na
Rússia como realização pessoal de Stalin.
O mais admirável em tudo isso foi que o plano concebido
por Stalin para usar os alemães como “navio quebra-gelo da
Revolução” não eram nem mesmo secretos. Foram
alardeados mil vezes em documentos oficiais e no Pravda,
sem que os líderes e os serviços de inteligência das
democracias ocidentais conseguissem ver neles nada mais
que efusões verbais de patriotismo inócuo. Quando
terminou a guerra, a URSS saíra definitivamente do seu
isolamento e se tornara a potência mundial que dominava,
com a força de seus exércitos de ocupação e governos
locais títeres, metade da Europa, precisamente como Stálin
vinha anunciando desde os anos 30.

A TRADIÇÃO REVOLUCIONÁRIA - 2
Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 15 de julho de 2011  

Os efeitos da hegemonia revolucionária são visíveis por


toda parte. Não faltam exemplos mais perto de nós. O
“Plano Colômbia”, de Bill Clinton, fornecendo ajuda ao
governo colombiano para o combate ao narcotráfico sob a
condição de que “não tocasse nas organizações políticas”,
serviu apenas para, desmantelando os antigos cartéis, dar às
FARC o monopólio do comércio de drogas na América
Latina, fazendo daquela incipiente organização guerrilheira
uma potência de dimensões continentais e o sustentáculo
financeiro do Foro de São Paulo, que, hoje, domina doze
países latino-americanos e vai rapidamente estendendo seus
tentáculos por todos os outros. Ao mesmo tempo, o plano
serviu de pretexto para que as mesmas FARC
desencadeassem uma violenta campanha de publicidade
contra a “agressão americana” personificada no mesmo
plano. Dialeticamente, não há contradição nenhuma em
beneficiar-se da ajuda recebida e usá-la como instrumento
de propaganda contra o desastrado benfeitor. Muitos
críticos do movimento revolucionário dizem horrores do
“pensamento duplo” que o inspira, mas raramente
entendem que, por trás de uma aparente contradição
lógica, se esconde uma ação de mão dupla inteiramente
racional do ponto de vista prático.

Por mais chocante que pareça, esse exemplo é


rigorosamente nada em comparação com as grandes
operações de desinformação estratégica com que o velho
governo soviético conseguia - e o atual governo russo ainda
consegue - fazer seus adversários trabalharem para ele,
realizando integralmente o ideal de Sun-tzu, segundo o
qual a mais brilhante das vitórias se obtém sem combate,
moldando à distância as decisões do governo inimigo por
meio de um bem calculado fluxo de informações entre
verdadeiras e falsas.
Outro caso notável foi a facilidade com que a
desinformação soviética, apelando à confiança dos
americanos na invulnerabilidade das suas instituições
democráticas e agitando na sua frente o fantasma da
“perseguição macartista” (em cuja realidade a mídia e o
establishment continuam acreditando até hoje), logrou
bloquear investigações decisivas sobre a penetração
comunista nas altas esferas do governo de Washington, só
para que, quarenta anos depois, a abertura dos arquivos de
Moscou viesse a confirmar, tarde demais, as piores
suspeitas do senador Joe McCarthy, com a única diferença
de que os infiltrados não eram dezenas, como ele supunha,
mas sim milhares.

Duas décadas atrás, a diplomacia chinesa, repetindo o


truque que Lênin já aplicara aos investidores europeus em
1921 conseguiu convencer políticos e empresários
americanos de que a abertura para a economia de mercado
traria automaticamente a liberalização do regime. Mesmo
após o massacre da Praça da Paz Celestial os sábios de
Washington continuaram afirmando anestesicamente que
“a China estava no bom caminho”. Com toda a evidência, o
instrumento de desinformação utilizado no caso foi uma
das crenças mais queridas dos liberais e conservadores: o
nexo de implicação recíproca entre liberdade econômica e
liberdade política.

O sucesso dos mais espetaculares ardis de desinformação


estratégica postos em prática pelos governos
revolucionários seria, no entanto, impossível sem a
hegemonia cultural e psicológica de que o movimento
revolucionário desfruta em escala mundial. Hegemonia
cultural significa ser o controlador dos pressupostos
embutidos no pensamento do adversário, de tal modo que o
trabalho dos agentes envolvidos numa operação concreta
de desinformação estratégica se reduz ao mínimo. Quando
o agente de desinformação trabalha num ambiente já
antecipadamente preparado pela hegemonia cultural, ele
pode controlar facilmente as reações do adversário sem
precisar abusar dos expedientes usuais da espionagem que
tornariam a sua ação mais visível, mais material. Por isso o
velho Willi Münzenberg chamava essas operações de
“criação de coelhos”: basta juntar um discreto casal de
bichinhos e contar com a propagação automática dos
efeitos esperados. Uma ação clássica do tipo “medidas
ativas” pode ser investigada e denunciada pelos meios
usuais dos serviços de inteligência, mas uma operação
fundada em prévia hegemonia cultural pode tornar-se tão
evanescente que qualquer tentativa de denunciá-la acabe
assumindo as aparências da mais louca “teoria da
conspiração”. Por isso é que Antonio Gramsci qualificava a
influência do partido revolucionário, quando escorada na
hegemonia cultural, de “um poder onipresente e invisível”.
Tanto mais invisível quanto mais onipresente.
Enquanto o movimento revolucionário se move com a
destreza alucinante de uma dialética capaz de absorver e
aproveitar todas as contradições, as elites ocidentais,
nominalmente liberais ou conservadoras, se apegam a uma
lógica linear de tipo positivista que, quando não encontra
um elo material de causa e efeito escancaradamente visível,
acredita que nada está acontecendo.

Os filósofos escolásticos ensinavam que, para agir, é


preciso antes existir. A existência, por sua vez, pressupõe
unidade e continuidade. Um ser dividido em pedaços,
desprovido de vida unitária, não é de maneira alguma um
ser: é uma ilusão fantasmal que se agita no ar por instantes,
deixando livre o espaço histórico para a ação do ser
genuíno.
Não há nenhum exagero em dizer que o movimento
revolucionário mundial é a única força política que conta
para alguma coisa na história do mundo. Enquanto seus
adversários não o perceberem como unidade, nada poderão
contra ele. Lutando contra uma de suas alas, acabarão
servindo a alguma outra, como tem acontecido
invariavelmente. No fim das contas, toda a política mundial
corre o risco de acabar se reduzindo a um leque de
conflitos internos do movimento revolucionário. Se e
quando isso acontecer, não será excesso de pessimismo
anunciar o início de mil anos de trevas.

A TRADIÇÃO REVOLUCIONÁRIA - 3
Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 18 de julho de 2011  

A monstruosa superioridade do movimento revolucionário


ante seus adversários de todos os matizes não se limita, é
claro, ao campo da desinformação estratégica. Nada se
compara à sua capacidade de mobilização de massas em
qualquer país do mundo, quando não em todos eles, e em
tempo quase instantâneo. Dois exemplos clássicos:
(1) A guerrilha de Chiapas, que, derrotada mil vezes no
terreno militar, acabava obtendo tudo o que queria no
campo político, graças aos protestos que se seguiam
imediatamente, em dezenas de países, a cada vitória do
governo mexicano.
(2) As manifestações populares que se seguiram em prazo
recorde ao atentado mortífero de dezembro de 2003 na
Espanha, voltadas, não contra os terroristas, mas contra... o
governo espanhol.

Nesses episódios, como em centenas de outros, salta aos


olhos a articulação do movimento revolucionário,
unificando terrorismo, desinformação e protestos de massa.
A invulnerabilidade política da guerrilha de Chiapas serviu
de modelo para o estudo The Advent of Netwar, de John
Arquilla e David F. Ronfeldt, publicado pela Rand
Corporation, que pode ser descarregado do site http://
www.rand.org/publications/MR/MR789/, que pioneiramente
descreveu a nova estrutura “em redes”, infinitamente mais
eficaz, que havia substituído a velha hierarquia monolítica
dos partidos revolucionários. A mobilização instantânea
dessa rede colocava o governo mexicano numa luta inglória
contra um inimigo evanescente, “onipresente e invisível”,
que nenhuma força armada poderia jamais controlar. (V. o
meu artigo “Em plena guerra assimétrica”, DC, 24 de julho
de 2006, http://www.olavodecarvalho.org/semana/
060724dc.html).
O caso espanhol ilustra ainda mais claramente a força da
hegemonia cultural como preparação do terreno para
grandes operações que articulam desinformação e protestos
de massa. Ante a brutalidade dos atentados, um governo
conservador intoxicado e enfraquecido por temores
“politicamente corretos”, plantados na mente da classe
dominante com décadas de antecedência, sentiu-se inibido
de ferir suscetibilidades islâmicas e preferiu, num primeiro
momento, atribuir o crime ao ETA, a guerrilha basca. Em
menos de vinte e quatro horas a massa organizadíssima,
claramente preparada de antemão, estava nas ruas
protestando contra a ineficiência do governo em localizar
os verdadeiros culpados. Foi o fim do gabinete conservador
(v. meu artigo “Exemplo didático”, Jornal da Tarde, 25 de
março de 2004, http://www.olavodecarvalho.org/semana/
040325jt.htm).
Por favor, pensem um pouco e respondam: existe no
mundo alguma articulação direitista, conservadora ou
reacionária habilitada a brincar assim de gato e rato com os
governos revolucionários como estes fazem com todos os
demais governos?

Vejam só o caso da Rússia: com o seu contingente


duplicado, a KGB conta, hoje em dia, com milhares de
pseudópodos espalhados pelo mundo, operando legalmente
sob o disfarce de bancos, indústrias, firmas de consultoria, o
diabo; tem ademais a seu serviço a máfia russa, que desde o
começo dos anos 90 possui o domínio sobre todas as
grandes redes criminosas do mundo, da Sibéria à Venezuela
e à Colômbia (v. Claire Sterling, Thieves' World: The Threat
of the New Global Network of Organized Crime, New
York, Simon & Schuster, 1994, bem como Helène Blanc e
Renata Lesnik, L’Empire de Toutes les Mafias, Paris, Presses
de la Cité, 1998), mais o terrorismo islâmico que é criatura
sua (v. Ion Mihai Pacepa, “The Arafat I Knew” em http://
www.weizmann.ac.il/home/comartin/israel/pacepa-
wsj.html) e todos os movimentos revolucionários militantes
do mundo, agora unidos a ela por laços cada vez mais
complexos e difíceis de rastrear. 

Que poder, no mundo, jamais se organizou para enfrentar


uma coisa dessas? Por favor, não caiam no ridículo de
mencionar a CIA, organização incomparavelmente menor,
cuja inermidade ante essa máquina infernal já se
comprovou centenas de vezes.
Para piorar ainda mais as coisas, resta o fato de que a elite
econômica ocidental, que uma opinião pública boboca
pode ainda imaginar empenhada em defender a
democracia e a liberdade, há muitas décadas já se deixou
seduzir pela proposta de “governo mundial”, que traz as
marcas inconfundíveis do ideal revolucionário: um projeto
de sociedade hipotética a ser realizado mediante a
concentração do poder. Concentração aliás muito mais
densa que aquela prevista em qualquer dos projetos
revolucionários anteriores, já que baseada no total controle
da psicologia das massas por uma elite de “engenheiros
comportamentais” iluminados (v. Pascal Bernardin,
Machiavel Pédagogue – Ou le Ministère de la Réforme
Psychologique, Éd. Notre-Dame des Grâces, 1995). A
convergência desse projeto com a utopia socialista é tão
acentuada que, nos países ocidentais, a KGB não precisa
gastar um tostão para promover a demolição “politicamente
correta” da moral e das instituições: o serviço é feito
inteiramente sob os auspícios da elite globalista bilionária,
em cuja vanguarda se destacam George Soros e a família
Rockefeller.

O segredo da hegemonia revolucionária é simples:


continuidade e intensidade do debate interno. Em qualquer
conflito, cruento ou incruento, o contendor que dura mais
é, por definição, o vencedor. O clássico simbolismo chinês
já representava o poder ativo, soberano, por uma linha
contínua, a passividade por uma linha quebrada. A
fragilidade das resistências que se opõem ao avanço
revolucionário advém do fato de que mesmo as entidades
mais antigas, mais aptas, portanto, a sustentar objetivos de
longo prazo, como a Igreja Católica, a Casa Real Britânica,
a comunidade judaica, a Maçonaria ou mesmo o governo
americano, têm suas finalidades próprias, distintas e
limitadas, só ocasionalmente e pontualmente entrando em
disputa direta com o movimento revolucionário na luta pelo
poder mundial que é, para ele, o objetivo constante e o
foco unificador de todos os seus esforços. A visão que essas
entidades têm do processo revolucionário é acidental e
quebradiça. É nos intervalos dessa linha descontínua que o
movimento revolucionário se insinua, utilizando para seus
próprios fins as energias daqueles que teriam tudo para ser
seus mais eficientes e temíveis adversários.

A TRADIÇÃO REVOLUCIONÁRIA - 4
Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 25 de julho de 2011  

Para encerrar estas breves explicações, só faltam duas


coisas: dar um exemplo concreto, entre milhares de outros
possíveis, da continuidade histórica da ação revolucionária,
e esclarecer – como me pedem alguns leitores – o conceito
de “movimento revolucionário mundial”.
O exemplo trará por si mesmo um começo de
esclarecimento.
Escrevendo em 12 de junho de 1883 a Eduard Bernstein,
Friedrich Engels dizia que era preciso induzir os inimigos da
revolução a “fazer-se uns aos outros em pedaços, moer-se
uns aos outros até virarem pó, assim pavimentando o
caminho para nós”.
Decorridos quarenta e tantos anos, a proposta ressurge na
boca de Lênin, mas agora já não como mera idéia e sim
como estratégia pronta para aplicação imediata. Tendo a
experiência da guerra imperialista entre as potências
européias como condição preparatória do levante
revolucionário, mas vendo que os resultados obtidos tinham
sido apenas parciais, com a instauração do socialismo num
só país, ele se pergunta em 1916 o que é necessário para
que a revolução volte a eclodir, mas desta vez em escala
mundial. E a resposta que ele dá é inequívoca: precisamos
de “uma segunda guerra imperialista”.
Hoje sabe-se, com certeza histórica suficiente, que a
sugestão não caiu no vazio, mas foi levada à prática, com
destreza quase mágica, pela política externa de Stálin.
Estimulando em segredo as ambições imperialistas de Hitler
ao mesmo tempo que promovia nas democracias ocidentais
uma violenta campanha antinazista, Stálin conseguiu
induzir as grandes potências a “fazer-se umas às outras em
pedaços”, pavimentando o caminho para a ocupação de
meia Europa pelas tropas soviéticas, o que era o seu plano
desde o começo.
Entre a carta de Engels e a eclosão da II Guerra Mundial
passaram-se seis décadas. Nesse ínterim, o que era apenas
uma possibilidade teórica transformou-se num plano de
ação e numa estratégia de efeitos avassaladores. Essa
transformação só foi possível porque, ao longo de quatro
gerações, os revolucionários comunistas não cessaram de
meditar e remeditar os mesmos textos, sempre com o
propósito de transmutar a teoria em prática e de enriquecer
a teoria com os resultados da prática.

Essa continuidade, porém, vai muito além da evolução


interna do movimento comunista stricto sensu. Thomas
Münzer, Maquiavel ou o marquês de Sade nunca foram
comunistas nem membros de um partido que não existia no
seu tempo. Eram revolucionários no sentido mais genérico
do termo. Mas quem pode negar a força que o movimento
comunista adquiriu ao absorver suas doutrinas,
transmutando-as em ferramentas estratégico-táticas pelos
bons préstimos de Ernst Bloch, Antonio Gramsci e Jean-Paul
Sartre?
Nem sempre o material absorvido vem da mesma facção
revolucionária. A linha nacionalista-romântica do início do
século XIX, que deu origem ao fascismo e que muitos
revolucionários internacionalistas e materialistas chegaram
a condenar como reacionária, acabou se integrando muito
bem na cultura comunista através da interpretação que lhe
deu o filósofo marxista húngaro Georg Lukacs. Sem isso,
florescimentos posteriores como a “teologia da libertação”
não teriam sido possíveis.

Do mesmo modo, as lições de Lênin se transformaram num


modelo para a criação do movimento fascista italiano.
Às vezes a substância a ser transmutada vem de fonte
estranha. O Dr. Freud, um conservador que desprezava o
socialismo, estava bem consciente do potencial explosivo
das suas teorias, mas não poderia imaginar a facilidade com
que, através de Wilhelm Reich, essa força anárquica viria a
ser integrada e enquadrada no arsenal do movimento
comunista.
A unidade histórica da revolução não é a unidade formal e
burocrática de uma “organização”, de um “partido”, mas a
unidade viva e móvel de uma “tradição” que, ao longo dos
tempos, vai tudo absorvendo e transmutando em
instrumento de poder, aumentando incessantemente a força
de giro de um “movimento” que, não podendo levar a parte
alguma, tem o seu próprio incremento ilimitado como
única finalidade e justificação da vida humana.
Onde quer que se veja uma idéia, uma doutrina, um
símbolo ser transfigurado em meio de ação política com
vistas à concentração do poder para a “transformação do
mundo”, ali está presente a unidade do movimento
revolucionário mundial, para além de todas as divergências
partidárias e ideológicas.
Ao longo do tempo, essa unidade, de início nebulosa e
meramente potencial, vai se tornando mais clara aos
próprios revolucionários. A confraternização de gayzistas,
feministas, comunistas, radicais islâmicos, neonazistas,
socialdemocratas e tutti quanti, que hoje reúne facções
antes hostis num front mundial contra as democracias
ocidentais e o cristianismo, é o resultado de um longo
processo de incorporação no qual o movimento
revolucionário realiza sua unidade à medida que a percebe,
e a percebe à medida que a realiza.