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Todo aquele instante parecia estar sendo processado lentamente em sua mente.

As gotas da
chuva deslizavam vagarosamente por seus úmidos cabelos dourados, e as mãos se cravavam em
punhos fechados, os dedos firmes contra a palma, enquanto a lâmina da espada do inimigo parecia
transmitir um brilho único que limpava sua mente de qualquer motivação de coragem.
Conforme ele se aproximava com sua morte pronta nas mãos, Dezoito pensava que aquele seu
destino cruel era realmente merecido. Mas ela tomou consciência de suas ações tarde demais, já não
havia mais uma escapatória.
Ela deu um breve olhar no assassino de seu irmão e fitou a rigidez em sua postura, a fúria gelada
condensando seus olhos azuis. Seus cabelos estavam erguidos no alto de sua cabeça, em mechas
douradas contornadas por aquela aura reluzente e poderosa que era seu ki. Dezoito lembrava-se
vagamente dos outros guerreiros que compartilhavam dessa mesma aparência, mas sabia que aquela
não era a aparência real dele. Não... Aquela era a transformação, aquela mesma metamorfose saiyajin
que tanto zombara. Agora não parecia tão estúpida, pois ele se aproximava com a vingança preparada
em suas mãos.
Dezoito viu seu fim se aproximar, conforme o aço afiado era estendido para beijar sua pele. E
ela quase se debruçou para acabar com aquilo de uma vez. Seu coração palpitava de uma maneira
tão agoniante que ela quase desejava que a ponta da espada se cravasse nele.
- Termine logo com isso – se ouviu murmurar, sem sequer planejar de forma racional. Mas tão
logo percebeu que apenas queria um alívio daquela confusão mental, e aquele meio era o único que
enxergava. E o mais próximo de acontecer.
Dezoito fechou os olhos e abaixou a cabeça, expondo a pele nua de seu pescoço para que o ato
fosse mais preciso. Não havia percebido o quanto queria aquilo até realmente sentir a possibilidade
de que se tornaria real. Nunca, em nenhum momento, sentiu esse sentimento suicida, mas agora que
chegava perto do fim e revisava todas as suas atitudes errôneas, percebia que era o justo a ser feito.
Não, era ainda pouco. Aquele momento deveria ser público, para que a vingança e a justiça fossem
servidas mais saborosamente ao povo arruinado daquele planeta.
Lágrimas se misturaram à chuva que molhava seu rosto e ela percebeu que já não era mais a
mesma – por mais que ainda não tivesse certeza de quem realmente era. Não se lembrava de algum
dia ter chorado, aquilo era tão absurdo para sua personalidade explosiva que ela quase riu de si
mesma. Dezessete havia dito várias vezes para que não demonstrasse fraquezas, para que fosse
impiedosa e fria como ele, mas não era como se realmente precisasse. Ela era mortal. Jamais
demonstrara seus sentimentos tão abertamente. Na verdade, jamais sequer teve algum sentimento
para demonstrar. Pelo menos, não até que aquele garoto imbecil despertasse sua humanidade tão
bem-guardada. Se não fosse por isso, talvez ainda tivesse força de vontade o suficiente para continuar
lutando, para continuar matando e destruindo como sempre fizera. Mas agora, com sua humanidade
realçada, ela sentia a consciência estúpida esmagar todos os seus possíveis planos.
O bom-senso retornara a sua mente, assim como o arrependimento amargo de tudo que já
causara.
- Vamos – ela cobrou novamente, os olhos se apertando em frustração. Quanto tempo ainda
levaria? Ele estava prolongando aquele momento apenas para ter mais prazer? Bem, ela não duvidaria
disso. – Vamos, garoto, acabe comigo de uma vez.
O guerreiro vingativo decidiu ouvir suas palavras e ergueu a espada no alto de sua cabeça.
Dezoito sentiu a adrenalina vibrar em suas veias, o medo e expectativa cortando seu cérebro em dois
lados, mas apenas se reduziu a prender a respiração e esperar a morte.
A espada desceu. O aço bateu contra o chão e uma fissura profunda se entreabriu no asfalto.
Dezoito abriu os olhos, seu cérebro ainda processando tudo devagar. Ela ainda estava viva?
- Vá. – a voz do guerreiro ordenou de repente e ela vacilou em sua posição, sem entender. Ele
não a mataria? – Você pode partir. Pode encontrar seu lugar e viver neste planeta, desde que não
machuque ninguém mais.
Não era como se ela ainda conseguisse fazer isso. Desde que havia despertado sua humanidade,
as coisas não eram as mesmas. A programação de destruição em seu sistema se perdeu no
esquecimento e sensações e emoções estranhas começaram a toma-la. No começo ela tentou ignorar,
mas a cada vez que seu irmão exigia para que matasse e destruísse, mais ela percebia que seu
verdadeiro eu estava se transformando. Ela passou a ter compaixão e misericórdia. Por mais que ainda
não fosse uma pessoa bondosa e agradável, ela não conseguia mais agir friamente. Não conseguia
agir como um androide.
E seu irmão percebera. Ao que parecia, a mudança não havia acontecido com Dezessete
também, e ele se enfureceu ao ver a frieza letal de sua irmã começar a se esvanecer.
Ele a teria matado se não fosse por Gohan naquele tempo. E se não fosse por Trunks agora. A
relação deles havia atingido um ponto em que o convívio tornara-se forçoso e perigoso. Dezoito
quase ficou aliviada quando Trunks derrotou seu irmão, mas tão logo tomou conta de que também
seria o seu fim.
Oh, bem. Ledo engano... Mas como poderia imaginar?
Dezoito ergueu-se com dificuldade, as pernas fraquejando com a firmeza que tentava lhes
impor. Trunks não moveu um único músculo para ajudá-la, apenas seus olhos a acompanhavam, e de
modo relutante. Dezoito sabia que se não se apressasse em fugir, era só questão de segundos para
que ele mudasse de ideia e decidisse matá-la. Mas não conseguia forçar-se a agir mais rápido, estava
quase moribunda com tantos machucados causados.
Ela segurou o braço ferido e trincou os dentes com a dor, mas conseguiu se colocar a flutuar.
Sua energia ainda estava fraca, devido a luta mortal que tivera com seu irmão, antes da aparição de
Trunks, mas ela ainda podia fugir. Ainda podia partir em uma considerável velocidade.
No entanto, não partiu.
Ela olhou para Trunks, sua vista tremulante tentando se focar na figura reluzente dele. Não
parecia ser o mesmo que o de alguns dias atrás. Além de estar mais poderoso do que nunca, sua
altura e sua estatura física haviam aumentado de modo que não dava sequer para entender.
- Por que? – ela perguntou, franzindo o cenho. Queria entender a razão de tudo aquilo. Ainda
mais, por que não se sentia confiante em ir embora. Até considerava que fosse algum tipo de jogo,
que ele a caçaria assim que partisse para que tudo se tornasse mais divertido. Ou, ao menos, era isso
que seu irmão Dezessete faria. – Por que me deixar viver?
Ele desviou o olhar e suspirou. Sua mão se firmou no punho da espada e Dezoito acompanhou
seu movimento com os olhos, mas, a despeito do que esperava, ele não a ergueu contra ela. Apenas
a empunhou e abaixou o olhar, como se seus pensamentos flutuassem para um lugar distante onde
suas ações poderiam fazer sentido.
- Por que todos merecem uma segunda chance. – ele respondeu por fim, mas sua voz soou
baixa, sem intensidade, como se ele próprio não confiasse nelas.
- Mas não deu uma a meu irmão – ela murmurou, sem se dar conta de que aquela não era a
melhor coisa para se dizer no momento. Era quase como se estivesse reunindo argumentos para fazê-
lo mudar de ideia.
- Por que ele não é como você – ele respondeu simplesmente e guardou a espada na bainha
nas costas. – Embora eu ainda não saiba o quanto vocês são diferentes um do outro.
- Eu realmente não sou como ele – ela apertou os lábios, franzindo as sobrancelhas. – Mas como
você poderia saber?
Ele finalmente a olhou, embora não fosse um olhar amigável. Ainda havia uma amargura
vingativa na borda de seus olhos azuis, perfurando-a com uma força gelada e ameaçadora.
- Eu não sei. É apenas a dedução de um amigo. Eu recomendaria que você fosse agradecê-lo
por ainda continuar viva, mas ele está morto.
E então, sem dizer mais nada, ele voou. Tão rápido quanto um raio e tão forte quanto um
furacão. Dezoito quase fora lançada para longe com a potência que ele usou para partir em
velocidade, mas conseguiu reunir forças para se manter onde estava. Então, o assistiu ir embora. Um
ponto dourado e brilhante se perdendo na distância dos céus acinzentados, enquanto ela permanecia
ali, no ar, com o sangue manchando suas roupas e a confusão adornando cada vez mais sua mente.

Dezoito já não aguentava mais voar. Seu ritmo era tão patético que ela poderia ser comparada
a uma mosca com a asa quebrada. Na verdade, ela não estava mesmo tão diferente disso. Ainda
segurava o braço ferido e ensanguentado com a mão, sentindo toda a sua energia se enfraquecer. Ela
sabia que era só questão de tempo para que voltasse ao normal, já que possuía energia ilimitada, no
entanto, aquele tempo parecia ser infinito. Ela quase se sentia mundana de tanto esforço que estava
fazendo para se manter no ar.
Ela abaixou o olhar e avistou a cidade abaixo de si. Sabia que era uma má ideia, sabia que
desencadearia grandes consequências, mas sua mente e seu corpo exigiam um descanso. Não era
como se ela fosse matar alguém ou destruir alguma coisa.
Bem, quando ela enfim pousou, percebeu que era exatamente o que os humanos pensavam.
No início, eles apenas a observaram pasmos, sem saber o que fazer. Mas quando ela deu um
passo para mais próximo de um banco, foi que o caos se transformou. Pessoas gritando e correndo,
carros avançando em velocidade máxima pelas avenidas e tombando contra outros carros... Foi um
verdadeiro inferno. Dezoito começava a se irritar com todo aquele alarde, mas não era como se
pudesse fazer alguma coisa.
Ela reuniu novamente a pouca energia que tinha e partiu para fora dali. Não conseguiu ir muito
longe, mas voou o suficiente para chegar próximo às montanhas que cercavam aquela cidade. Ela se
jogou no chão assim que avistou uma clareira, sem se importar com nada, nem mesmo com o impacto
causado da altura que se jogou. Precisava descansar para recuperar suas forças, nada mais importava.
Ela estendeu o braço bom pela grama macia e fechou os olhos. Sua respiração começava a
diminuir o ritmo lentamente, mas embora sentisse a dormência de seus sentidos começar a tomar
parte, ela não conseguiu se livrar da dor. Todo o seu corpo ainda doía com os ferimentos ainda
abertos.
Dezoito percebeu então, que não era provável que seu corpo se recuperasse por conta própria.
Sua energia sim, talvez, mas... seus ferimentos não. Ela não era um androide por completo. Sequer
deveria ser chamada assim, o termo correto era cyborg ou humano cibernético. E mesmo que sua
parte humana fosse pequena, seria o suficiente para prejudica-la na recuperação...
- Não importa. – suspirou e deixou seu corpo relaxar, mesmo perante a dor. – Vou morrer de
qualquer jeito.
E então, seus sentidos se perderam e ela navegou para uma inconsciência negreira. Sem sonhos,
sem nada.

Seus olhos tremularam antes de se abrirem. Dezoito levou algum tempo admirando a visão fosca
do céu. Seu raciocínio ainda era lento para perceber de imediato que não sentia mais nenhuma dor.
Embora sentisse um gosto amargo na boca e um nó na garganta.
- Você está bem?
Ela saltou quando ouviu a voz. Não era alguém que esperava. Na verdade, jamais imaginara que
ouviria aquela voz novamente, quanto mais tão cedo. Ela fitou Trunks agachado ao lado de seu corpo
e tentou entender o que acontecia, mas a única conclusão que vinha a sua mente era que ele mudara
de ideia e vinha matá-la novamente. No entanto, ele não parecia mais tão ameaçador. Claro, ainda
permanecia austero e sério, mas sua postura não exalava mais animosidade. Nem mesmo a fúria
desumana de seu clamor por vingança.
- O que faz aqui? – indagou com surpresa e ergueu-se de prontidão. Vagamente teve noção de
que se movimentara fácil demais para as condições em que estava antes, mas decidiu ceder mais ao
mistério do guerreiro a sua frente do que o de suas condições físicas. – Veio me matar?
Ele franziu o cenho e também se ergueu.
- Não. Vim te ajudar.
Dezoito tentou captar a mentira em seu tom, mas, surpreendentemente, não conseguiu. Ele
parecia dizer a verdade. Mas... não fazia o menor sentido.
- Espere um pouco... – ela deu a ele um longo olhar curioso, mas depois sorriu um curto sorriso
de satisfação. – Já entendi.
- O que? – ele perguntou, impaciente.
- Você veio até aqui por causa do que aconteceu naquela cidade. – ela apontou para a cidade
abaixo das montanhas que outrora visitara. Helicópteros sobrevoavam os céus e várias fumaças
negras se extinguiam no alto em lugares estratégicos da cidade. – Pensou que eu estava destruindo
a tudo e a todos.
Ele deu de ombros, sem se importar.
- Foi um dos motivos, sim. Mas é pouco provável que você tenha feito algo do modo como
estava fraca.
Ela trincou os dentes.
- Eu não estava fraca, apenas desgastada. – ela estendeu os braços diante dele, satisfeita com o
quão fácil foi mover o braço antes-ferido. – Como vê, já me recuperei totalmente com algum tempo
de descanso.
Ele balançou a cabeça em negação.
- Não foi o descanso que fez com que se recuperasse, Dezoito.
Ela piscou surpresa e, mais uma vez, tentou captar a mentira em seu tom. Mas, novamente, não
encontrou nada.
- Como é?
Ele suspirou.
- Tudo que você precisa saber é que eu te curei. Agora você pode ir embora e encontrar seu
lugar.
Ela abriu a boca para responder uma de suas habituáveis más respostas, mas encontrou-se
perdida com aquelas palavras. Como encontraria seu lugar se todos no planeta a odiavam? Como ela
viveria nesse mundo se nem mesmo seu irmão estaria ali para lhe fazer companhia? Não era um
destino agradável.
- Embora para onde? – ela bufou.
- Eu não sei. Descubra um lugar onde alguém seja imbecil o suficiente para te aceitar.
Dezoito não se deixou intimidar pelo tom duro. Ela sabia ser mais arrogante do que aquilo, ele
era apenas um garoto querendo se aparecer.
- Não preciso que ninguém me aceite. Na verdade – ela voltou a se jogar no chão da clareira, de
modo mais desleixado dessa vez. Cruzou os braços atrás da cabeça e sorriu. – Acho que vou ficar por
aqui mesmo.
Trunks ficou tenso, mas tratou de se recompor rapidamente.
- As pessoas não viverão tranquilas na cidade com você aqui. Elas te viram vir para as montanhas.
- Bem, nosso trato foi para que eu não machucasse ninguém. Mas ainda posso aterrorizar, não
preciso mover nenhum músculo para isso.
Ele suspirou.
- Que seja, faça como quiser. – deu-lhe as costas, com descaso. Seria um problema tê-la tão
perto das pessoas, mas não se encontrava disposto a discutir com aquela androide infeliz. Não tão
cedo. – Mas saiba que estou de olho em você. A qualquer deslize seu, Dezoito, eu não hesitarei.
Ela se esforçou para não demonstrar o temor que sentiu. Embora tentasse parecer confiante e
corajosa, ainda temia a força do garoto. Ainda mais depois de testemunhar o modo brutal ao qual ele
matou seu irmão.
Ele pode me matar com a mesma facilidade.

Os dias foram se passando com uma lentidão assombrosa, mas Dezoito não estava reclamando.
Não era como se fizesse alguma diferença, seus dias eram todos iguais. Ela apenas ficava lá, deitada
na grama daquela clareira, observando o céu e navegando em seus pensamentos conflituosos. Ainda
era duro para ela saber que um dia fora humana, e não ter uma memória sequer de algum momento
como tal. Igual a seu irmão... Tinha que admitir, apesar das quase-mortes, começava a sentir falta dele.
Afinal, ele era o único como ela.
Metade máquina, metade humana. Mas a que metade deveria sobrepor?
Dezoito suspirou e voltou a pensar em sua rotina. Trunks passou a vir vigiá-la algumas vezes. No
começo, ele apenas ficava em uma das montanhas, olhando-a de longe, mas conforme o tempo
passou, ele se sentiu mais à vontade para trocar algumas palavras com ela. Por mais que não fossem
tão simpáticas. E, aos poucos, sua postura ameaçadora começou a se perder. Mas Dezoito não fazia
ideia de como isso acontecera, na maioria das vezes ela não era bem que um poço de gentilezas.
Aquele garoto deveria ter algum problema. Ou um fraco por pessoas mal humoradas.
De qualquer modo, era estranho. Mas se acostumou, era até que agradável ter alguém com
quem conversar.
Ela olhou para os céus, só esperando o momento em que ele viria. Sabia que ele estaria ali em
breve, pois costumava vir quando ela “supostamente” era acusada de ter feito algo à cidade ali perto
pela mídia. Não que fosse necessário, na maioria das vezes eles surtavam apenas por vê-la voando
no céu ou por saber que estava tão perto, mas Trunks vinha de qualquer jeito. E ele com certeza viria
hoje, pois ela decidira procurar algo para comer – embora não fosse uma necessidade, gostava de
experimentar algumas coisas de vez em quando – pelos pés de frutas que ficavam na praça do centro
da cidade. Claro que o caos se desencadeou, mas ela já estava tão acostumada, que comeu as frutas
inabalavelmente e, quando terminou, retornou de forma tranquila para “seu lar” na clareira.
Cansada do calor do sol, Dezoito caminhou para debaixo de uma árvore e sentou-se lá, com as
costas contra o casco. Mas ainda observava o céu. Era só questão de tempo para que o garoto
chegasse, embora não entendesse por que estava com os pensamentos tão focados nisso.
E ele chegou. Assim que ela pôde avistar um ponto dourado, ao longe, no meio das nuvens, não
demorou muito tempo para que ele pousasse ali. Ela deu um curto sorriso de escárnio quando notou
sua carranca.
- Não diga – ergueu um dedo para interrompê-lo, antes mesmo que ele pensasse em dizer algo.
– Veio checar se estou me comportando.
Trunks deixou a transformação partir e voltou ao seu estado normal. Conforme seus cabelos
espetados caiam de volta em lisas mechas lavanda sobre seu rosto, ele estreitou os olhos para a
mulher a sua frente.
- Bem, você deve admitir que tenho bons motivos para isso. – ele respondeu e nem se deu ao
trabalho de apontar para a cidade ali perto, tomada pelo caos. As pessoas até começavam a pegar
suas naves e a partir para longe. E aquela era uma cidade rica por suas culturas e histórias de
antepassados, os moradores amavam-na mais do que tudo, fugir para longe era a última opção.
- Eu não fiz nada – ela deu de ombros, com descaso, e cruzou os braços atrás da cabeça. – Eles
apenas me viram e deu nisso.
Trunks suspirou e passou a mão pelos cabelos. Já esperava por isso.
- Está bem. Isso é tudo? Você não fez mais nada?
Ela arqueou uma sobrancelha. Era uma pergunta estúpida. Não era como se ela fosse contar se
tivesse feito algo. Teria zombado dele, se não tivesse notado seu modo inquieto.
- Você parece com pressa, garoto.
Ele balançou a cabeça.
- Só tenho uns assuntos a resolver com alguém.
Ela deixou um sorriso malicioso cruzar seu rosto.
- Hmm, então o guerreiro salvador vai se encontrar com uma namoradinha? – zombou.
Ele corou, mas fez careta.
- Claro que não, pare de dizer bobagens!
- Ok, não precisa estressar, garoto – ela ergueu as mãos em rendição, mas ainda tinha um sorriso
travesso. – Não tinha intenção de constrange-lo.
Ele trincou os dentes e voltou a estreitar os olhos.
- Por que você ainda insiste em me chamar de garoto como se eu fosse uma criança?
Ela balançou a mão com descaso.
- Você é uma criança para mim.
- Só por que lutamos quando eu era menor não significa que serei uma criança pelo resto da
vida. – ele rebateu.
- Claro que não, garoto – ela concordou com indiferença e recostou-se mais ao casco da árvore.
– Mas então, se está com pressa e já viu que sou inocente, o que ainda faz aqui?
Trunks a observou por algum tempo em silêncio. Ele não entendia muito bem por que ainda
estava li, mesmo. Talvez por que a achasse muito solitária e tivesse pena... Mas não deveria se sentir
assim pela pessoa responsável pela morte de quase todos que conhecera. É, não deveria. Mas a cada
dia que passava, mais seu instinto vingativo se perdia. Ele começava a se acostumar a ela. Tanto que
vinha “vigiá-la” mesmo tendo certeza de que não fizera nada.
- Sabe... – ele começou. Não sabia bem o que dizer. Ela certamente havia mudado, não matava
mais, e poderia até ser uma força a contar no futuro, mas tudo o que ele pensava agora era o quanto
ela era solitária. E o quanto suas visitas deviam importar para ela, mesmo que não fosse capaz de
admitir. Ela precisava se entrosar. Precisava encontrar seu lugar. – Você não precisa ficar reclusa aqui.
- Eu já dei um passeio hoje e você viu no que deu – ela rolou os olhos, sem se importar.
- Não estou falando de passeios. Você deveria encontrar um lugar... em que pudesse viver.
Ela piscou com surpresa, finalmente lhe dando atenção.
- Não seja idiota. Qualquer outro lugar que eu vá terá o mesmo resultado. Ou pior, os humanos
poderiam mandar aqueles seus exércitos imbecis para tentar me deter. E eu posso não ser como meu
irmão, mas não ficarei de braços cruzados enquanto estou sendo atacada.
- Ficar de braços cruzados enquanto é atacada por um exército não te causaria dano algum. –
ele lembrou.
- Tem razão – concordou. – Mas me irritaria.
Eles ficaram em silêncio por um tempo, e quando Dezoito resolveu espiá-lo para saber por que,
encontrou um profundo olhar azul cravado sobre si. Ela se sentiu levemente incomodada, mas foi
inegável o formigamento que deslizou por sua pele com tal situação.
- Perdeu algo na minha cara? – resmungou. Mas, surpreendentemente, ele deixou um riso fraco
escapar de seus lábios, como se fosse algum tipo de piada interna. Dezoito não tinha ideia do que se
passava na cabeça do garoto. – O que foi, seu imbecil?
Trunks arqueou uma sobrancelha para sua curiosidade e ficou tentado a não dizer apenas para
irritá-la mais, mas não conseguia mais guardar sua observação para si mesmo:
- Você me lembra alguém.
Aquilo a pegou de surpresa, mas ela apenas se reduziu a um comentário desinteressado.
- Não deve ser alguém agradável.
Trunks deu um sorriso triste e afastou o olhar. Dezoito ficou tentada a perguntar quem era, mas
não se atreveu.
- É... – ele suspirou, ainda com um ar tristonho. – Mas não era de todo ruim... só... solitário e
orgulhoso.
Dezoito foi atingida fortemente por aquelas palavras. Não eram dirigidas a ela, mas ainda assim.
Se não fosse por seu orgulho... já teria se rendido a muito tempo à sua humanidade, e impedido toda
aquela chacina que espalhara pelo planeta... Se não fosse tão orgulhosa em continuar sendo uma
androide, talvez agora não estivesse tão solitária...
- Se identifica? – Trunks murmurou depois de um longo tempo de silêncio.
Dezoito franziu o cenho, incomodada.
- Por que ainda está aqui?
- Por que quer que eu vá? Não acha incômodo ficar sem ninguém para conversar? – ele
perguntou, incrédulo. Estava lhe fazendo um favor estando ali.
- Não. É melhor para pensar. Vá embora – ela disse friamente, com algo estranho em seu olhar.
Trunks pensou em ouvi-la, realmente. Ele até chegou a lhe dar as costas e reunir o ki para voar
de volta pra casa, mas o olhar de Dezoito... havia algo ali que o perturbou, que não o deixou partir.
Suspirou. Por que se importava?
- Não tem que ficar assim, Dezoito – insistiu. – Eu te poupei para viver, não para ficar aprisionada.
Ela juntou os pulsos e os ergueu até a vista de Trunks, seu olhar ainda gelado e misterioso.
- Vê algum tipo de corrente? Não estou aprisionada. Estou a onde quero e por que quero.
- Sabe que não foi isso que eu quis dizer.
E essa foi a gota d’água para Dezoito. Ela ergueu-se de prontidão sobre os pés, seus olhos azuis
furiosos e seus dentes trincados com força. Trunks quase recuou com a animosidade repentina, mas
não se deixou levar. Não era como se precisasse, afinal, era muito mais forte que ela.
- O que você quer, afinal?! – ela cobrou, seu tom soando estridente sem nem mesmo perceber.
– Acha que só por que me poupou vai virar meu amiguinho agora e que eu me juntarei a você para
bancar a heroína e salvar o mundo? – era a única coisa que fazia sentido em sua presença tão contínua
ali e suas insistências para que se entrosasse. O que mais podia ser? – Pois pode esquecer! Posso não
ser como meu irmão, mas não vou bancar a ridícula salvando uma população que me detesta!
- Não estou pedindo para que me ajude a proteger as pessoas. – ele murmurou simplesmente.
Por mais que a ideia fosse tentadora, ter alguém para compartilhar o fardo de proteger o mundo, não
era aquele seu propósito. Na verdade, nem ele próprio entendia por que se importava... por que
continuava ali mesmo depois de tudo que ela já fizera. Devia haver algo de muito errado com ele.
- Então diga o que quer e vá. Acha que é fácil para mim ficar conversando com o assassino de
meu irmão? – e era, mas ela não admitiria isso. – Você e seu amiguinho tentaram me matar mais de
uma vez e você matou Dezessete!
- E você matou meu pai. – ele rebateu friamente e Dezoito sentiu sua respiração escapar toda
para fora de seus pulmões, como se tivesse levado um soco no estômago. – E muitos outros. – Trunks
tentou encontrar aquele mesmo instinto vingativo para dar a ela uma lição, mas não conseguia mais.
Por mais que a odiasse pelo que havia feito, ele não se sentia mais no dever de obter vingança. – E
ainda sim estou aqui falando com você.
Dezoito engoliu todas as suas palavras, observando-o sem entender. Como ele podia ignorar
esse fato e ficar ali, conversando com ela como se nada estivesse errado? Ela sentiu uma sensação
estranha na boca do estômago e se afastou um passo, nervosa com a revelação. Ela matara seu pai?
Mas quem seria? Ela matara mais pais do que podia realmente contar... Embora, o pai de Trunks não
devesse ser alguém comum. Trunks se transformava em super saiyajin... seu sangue era de saiyajin...
E havia apenas um saiyajin que algum dia matara... Ela apertou os lábios, lembrando-se. Príncipe
Vegeta. Arrogante e pretencioso. Ela sequer poupara suas forças com ele, havia sido prazeroso
substituir aquele sorriso imbecil por um sorriso vermelho de sangue. Por mais que agora ela se
arrependesse das coisas que fizera no passado, sentia apenas uma parte ínfima de culpa pela morte
do príncipe imbecil. Quase não se arrependia.
E isso fez com que se sentisse mal por Trunks.
- Deveria me odiar em vez de tentar me salvar. – ela murmurou por fim, derrotada. Quase
desejava isso. Era o certo. Ele era a última pessoa que deveria acreditar que ela merecia uma chance,
e ainda sim estava ali, insistindo para que tentasse ter uma vida. Como alguém podia ser tão bom?
Não... havia uma razão por trás disso. Tinha que haver!
- Eu já odiei – ele admitiu, sem emoção. Ainda não entendia por que não sentia mais aquele
clamor por vingança, aquela fúria insana apenas por vê-la... mas não podia negar mais: já não a odiava.
– Não tem ideia do quanto eu quis te matar e fazer pagar por tudo que fez... Mas você salvou minha
vida, se recusou a matar... Eu não queria enxergar isso, mas você provou ser alguém que valia a pena
salvar, Dezoito.
Ela piscou apenas por um segundo e o dia em que se conheceram faiscou em sua mente
novamente. Trunks era não-mais que uma criança quando tiveram sua primeira luta e ele conseguiu
desencadear todos os conflitos em seus pensamentos. Conflitos esses que perduravam até hoje... que
despertaram sua humanidade...

Dezoito pousou na cabine no topo da roda gigante e o observou, com um singelo sorriso no
rosto. Ele apertava os punhos fortemente, olhando-a com o olhar cerrado e os dentes trincados. Estava
furioso. Tão furioso que seu ki aumentava até que consideravelmente para uma criança. Mas era
estúpido por desafiá-la, não era forte o suficiente.
Ele avançou e disparou sequências de golpes, mas Dezoito bloqueou todos sem um mínimo de
esforço, e até lhe retribuiu alguns que ele não teve a mesma pericia em bloquear. Dezoito continuou a
evitar seus golpes, da mesma forma consecutiva ao qual eram dados. E tão facilmente, que o jovem
garoto se enfurecia cada vez mais, sentindo-se humilhado. Havia algo de familiar nele, mas Dezoito
não conseguia identificar o que. Ela forçou mais a atenção em suas feições, a sombra de um rosto
similar perambulando em suas memórias.
O garoto saltou para lhe atingir com um poderoso soco, mas mesmo com sua observação
minuciosa, Dezoito fora capaz de desviar a tempo e devolver o golpe. Ela sorriu com prepotência. Mas
não durou muito tempo, pois ele aproveitou-se de sua pequena comemoração e atingiu-lhe
inesperadamente no estômago. Até sentiu o ar escapar de seus pulmões com a força ao qual foi
atingida.
Dezoito o olhou e sua expressão se distorceu em fúria.
Trunks não tentou ataca-la novamente, estava ocupado admirando seu golpe com orgulho. E isso
só a enfureceu mais. Ela não queria machucar crianças, sequer lutou a sério com ele, mas aquele golpe
realmente fez com que perdesse a razão. Sua visão se manchou em vermelho e seu instinto sádico da
programação de destruição realçou. Na maioria das vezes ela conseguia ignorar a programação e o
que era obrigada a fazer, mas havia algo na confiança imbecil daquele garoto que a fez despertar
novamente aquele instinto de androide. Como aquele tal príncipe Vegeta despertara.
O garoto percebera a fúria gelada em seus claros olhos azuis tarde demais. Ela rosnou e o atingiu
um soco. Um soco diferente desta vez, pois usou sua real força. O garoto caiu para trás e gemeu, imóvel
de dor. Ela esticou a mão e o capturou pelo colarinho antes que caísse, sorrindo exatamente como seu
irmão sorria ao matar e destruir. Parecia um sorriso errado para suas feições, mas não conseguia ignorar
sua programação assassina quando suas emoções raivosas predominavam. Simplesmente não
conseguia... ser ela mesma.
Ela o ergueu, assistindo suas feições apertadas com satisfação. Ele tentava se mexer para se
defender do que quer que viesse, mas sem sucesso.
- Dro...ga – ele gemeu engasgado, ainda com os olhos apertados. Dezoito rosnou com
repugnância e ergueu a mão para uma energia que poderia finalizá-lo de uma vez. Ela pensou ter
ouvido um grito ao longe, mas estava com o olhar tão fixado em sua vítima que sequer deu atenção.
Ele entreabriu um olho e deixou seu olhar se prender ao dela. – Mate-me... sua... mal...dita... assassina!
Dezoito hesitou, com a mão ainda erguida no alto com o ki acumulado. A razão começava a
retornar a sua mente, mas apenas para confundi-la mais. Assassina?, pensou ela, repetindo o tom
amargo do garoto em seus pensamentos. Ela franziu a expressão em confusão e foi para retesar a mão
que pairava com o ki, quando sentiu ser atingida por um chute nas costelas. O golpe não a feriu muito,
mas foi o suficiente para que largasse o garoto de cabelos lavanda. O aperto que mantinha sobre sua
camisa se soltou e o tecido deslizou por seus dedos até estar completamente livre. Isso não a teria
impedido de mata-lo em outra ocasião, mas ela já não tinha mais a mesma determinação. Sentia-se
perdida.
O que devia fazer?

Dezoito apertou os olhos fortemente para se livrar da memória. Mesmo depois de todo aquele
tempo, ainda era perturbador. Ela lembrava-se de sempre ter se questionado se as coisas que fazia
junto a seu irmão eram certas, mas não era mais do que um mero pensamento bobo, fácil de ser
ignorado. No entanto... quando Trunks a chamara de assassina, era como se um dispositivo
despertasse em sua mente. Ou melhor, sua humanidade. Mas ainda era confuso. Quem ela devia ser?
O que foi criada para ser ou o que um dia foi?
Que caminho deveria seguir?
- Não há salvação para mim – ela enfim murmurou, dando-se conta. Enquanto houvesse essa
divisão em si mesma, o lado androide e o lado humano, ela não seria confiável, não seria
completamente boa. Sua humanidade podia ter despertado, podia evitar que fizesse várias das coisas
que costumava fazer, mas seu orgulho era o obstáculo. Ela não queria ser humana, não queria ser
uma fraca sentimental... Embora fosse o que parecia estar se tornando, simplesmente... não se sentia
confiante em deixar a mudança acontecer. – Eu ainda posso me virar contra você. – ela preveniu
Trunks. – Deveria ter me matado.
- Eu ainda posso fazer isso – ele se aproximou, mas não havia ameaça em seu tom. Era até como
se ele soasse... cauteloso. – Se houver necessidade, não pense que hesitarei. Mas você não precisa
voltar a ser assim, sabe disso.
Não é questão de precisar, garoto, e sim de que lado meu irá vencer. Ela pensou amargamente,
mas em vez disso, disse:
- A única coisa que sei é que preferia que você tivesse me matado ao invés de ter poupado.
- Por que? – ele indagou, com descrença. Ele quase sentiu pena do quanto ela soava miserável,
mas se sentiu mais agoniado e irritado. Por que ela não podia simplesmente ouvi-lo e parar de dizer
absurdos?
Dezoito o olhou, frustrada.
- Por que tudo que me resta agora é: o ódio das pessoas, incerteza em quase todos os meus
pensamentos e solidão! – ela gritou, a fúria fazendo perder a racionalidade. Jamais admitiria aquilo
em sã consciência. Mas ele tinha conseguido irritá-la com toda aquela curiosidade imbecil, com toda
aquela insistência irritante. Ela queria soca-lo. Queria muito soca-lo. – Eu não sei quem eu fui, não sei
quem eu sou. Não sei o que devo e o que não devo fazer... Tudo está em ebulição em minha mente
e você só surge para fazer tudo piorar!
- Como eu posso fazer tudo piorar? – ele piscou, incrédulo.
Ela avançou alguns passos em sua direção, entre rosnados. A vontade de soca-lo havia
aumentado.
- Por que você foi a razão de toda essa confusão acontecer, para começar! – ela cuspiu. Por mais
que ele não tivesse consciência na época, tão pouco ela, era incontestável que se não fosse por ele,
ela não estaria tão dividida entre dois lados opostos. Não estaria tão confusa. Ele era a razão de tudo.
Por ele que se dispôs a ajudar Gohan a escapar de Dezessete aquela vez, por ele que se recusara a
matar aquela garotinha, por ele que havia enfurecido e desafiado seu irmão... por ele que havia
mudado. A culpa era toda dele. Sua humanidade não teria despertado se ele não a fizesse enxergar a
razão com toda aquela explosão de emoções, de raiva, que tocou no fundo de sua mente e abriu as
portas para sua consciência humana.
A fúria dele foi capaz de lavar a dela.
- Como assim? – ele se atreveu a perguntar, mas teve a delicadeza de soar mais manso dessa
vez. Ela já estava louca o suficiente.
Ela tentou se impedir, tentou recolocar a barreira entre seus sentimentos e a razão, mas a
frustração e fúria fez com que ambos se misturassem e não conseguiu.
- Você... – começou, sentindo um bolo na garganta. – Eu já não tinha muita certeza se o que
fazia era certo, no começo. Meu irmão cedia à programação do Dr. Gero sem se importar, então eu
pensei que talvez fosse o que eu devia fazer. Eu o segui em tudo. Eu matei, destruí, arruinei tudo e
todos... mas algo me dizia que aquilo não era o certo. Eu apenas fiz tudo isso, pois... pensei que era o
que eu devia fazer. Mas eu tinha acabado de renascer para uma nova vida, eu não conhecia nem a
mim mesma... como eu podia saber o que devia fazer? Tudo que eu tinha era meu irmão, eu tinha
que segui-lo, obedecê-lo... – ela fechou os olhos, pensando no quanto havia sido estúpida. Por mais
que ainda não tivesse certeza do que deveria fazer, jamais deveria ter ouvido seu irmão. Ele não era
seu irmão. Talvez um dia tenha sido, mas não mais. Era uma máquina com sentimentos vazios, que
não se importava com nada. – Mas então você me chamou de assassina.
- O que tem de mais nisso? – Trunks não entendeu, mas respeitou seu desabafo. Dezoito não
era o tipo de pessoa que costumava se abrir tão facilmente.
Ela quase estendeu o punho contra o queixo dele dessa vez, mas suspirou e se afastou. Sua
mente e seus sentimentos estavam borbulhando em uma confusão e perdição infinita. Era agoniante.
- Eu não sei – ela admitiu. – Eu entendo que não parece ser grande coisa, mas, de alguma forma,
parecia ser exatamente o que eu precisava ouvir para despertar minha humanidade.
- Eu não entendo... – ele começou. – Foi a primeira vez que você foi chamada de assassina? Por
que essa palavra te atingiu tanto?
Dezoito negou levemente.
- Não foi a palavra, garoto – ela levou uma mecha de seu cabelo para trás da orelha
distraidamente, mas seu olhar era distante... perdido. – Foi o modo como você disse. Eu estava prestes
a te matar, mas você usou as últimas forças que tinha para me chamar daquilo. E aquela palavra veio
carregada de emoções fortes, de emoções... que tocaram o que restava da minha consciência humana.
– ela balançou a cabeça. Por que se dava ao trabalho de tentar explicar o que nem mesmo ela
entendia? E por que para ele? – Eu até hoje não tenho certeza se teria te matado aquele dia. Eu hesitei,
mas... Não sei se seria capaz ou não.
- Não seria. – ele afirmou com firmeza e Dezoito ergueu seu olhar para fita-lo em confusão.
Como ele podia ter tanta certeza? – Naquele mesmo dia, você ajudou Gohan a se esconder comigo
nos braços. Você nos salvou. Se não fosse por você, Dezessete teria nos achado.
Ela pensou naquele momento mais uma vez. Talvez ele tivesse razão... Mas ainda era incerto.

Gohan saltou sorrateiramente para trás de uma parede com o garoto nos braços. Mas embora
tenha sido um movimento bem-sucedido, não era como se tivesse adiantado. Pois Dezessete teve a
ideia de explodir toda a extensão daquela parte da cidade cheia de escombros, inclusive a parede ao
qual se escondia. Dezoito foi capaz de ver que eles estavam escondidos ali, mas como seu irmão não
dera uma atenção reforçada ao lugar, deduziu que foi a única. Quando a poeira da explosão abaixou,
ela percebeu que um pedaço da parede ao qual Gohan estava ainda se mantinha, suficiente para
escondê-los. Dezessete pareceu não vê-los, mas Dezoito esperou por sua reação para ter certeza.
Dezessete começou a andar para procurá-los, em silêncio, e Dezoito o imitou. Como ele estava
próximo a parede ao qual eles estavam escondidos, ela se adiantou e fingiu ela mesma checar o lugar.
Dezessete a olhou, mas ela permaneceu com seu olhar inexpressivo, como se não tivesse encontrado
nada. Embora Gohan e o garoto estivessem ao seu lado.
Gohan lhe deu um olhar assombrado, mas ela não gastou mais que um olhar nele, para não trazer
desconfiança a Dezessete.
Ambos esperavam que Dezessete desistisse e fosse embora, mas ele estendeu a mão no ar e
lançou ao céu um ki tão poderoso, que até mesmo Dezoito se cegou com seu brilho branco. Ela
protegeu os olhos com o braço até que pudesse enxergar novamente. E quando conseguiu abrir os
olhos e avistou seu irmão, não teve certeza do que dizer. Gohan e o outro garoto não tinham sido
encontrados, sequer havia rastro deles, mas Dezessete estava com uma estranha expressão no rosto.
- Acho que podemos ir agora – Dezoito comentou, cautelosamente. – Não há mais nenhuma
diversão aqui.
- Temos que dar um basta nesses dois de uma vez por todas – murmurou ele, com uma
determinação estranha.
- Com certeza eles já morreram – ela tentou convencê-lo. Ele ainda parecia incerto. – Mas –
acrescentou. – Se eles estiverem vivos a gente se encontra. É só questão de tempo para que eles tentem
bancar os heróis de novo.
- Você tem razão – ele enfim concordou e então ambos decolaram no céu. Mas Dezoito ainda
pensava no que o garoto havia dito. Assassina. Ela havia assassinado muitos... mas por que ele se
importava? Será que era tão errado quanto sentia ser? Será que não é isso que deveria fazer? Então
por que seu irmão insiste em fazer isso como se fosse certo?
Assassina. A voz ecoou feito uma maldição em seus pensamentos e a culpa a acertou como se
tivesse sido renovada, muito mais forte do que jamais fora alguma vez. Não sei o que fazer, pensou
ela, agonizada. Não sei o que fazer...

Dezoito balançou a cabeça para espantar a memória.


- Espere – hesitou ela, se dando conta de algo. – Você não estava consciente, como poderia
saber disso?
Trunks ficou em silêncio por um tempo, seus olhos vagando para longe. Era quase como se ele
não quisesse responder.
- Gohan me contou.
Dezoito lembrava-se de Gohan, até mesmo com um pouco de gratidão. Desde aquele dia em
que ela o ajudara, ele passou a enxergar algo de bom nela. Ou pelo menos, era o que havia lhe dito
antes de morrer. Ele até mesmo a salvara de Dezessete, que pela primeira vez tentara matá-la. Só era
uma pena que aquela salvação tenha custado sua morte.
“Estamos quites agora”. Jamais esqueceria suas palavras.
- Então essa é a razão por você ter me poupado? – ela perguntou. – Me lembro de ter dito que
um amigo fez com que você pensasse que havia chance para mim... Era ele, não era?
- Sim – ele respondeu baixo, o olhar ainda distante. – Eu respeitei o que ele acreditava e resolvi
te dar uma chance. Mas não era como se eu também acreditasse...

O jovem garoto de cabelos lavanda empurrou seu poder no limite, tentando romper as barreiras
que o impediam de se transformar. Seu ki aumentava, pequenas baforadas de poder se estendiam ao
redor de seu corpo, mas seus punhos trincados com força e a tensão de seus músculos não pareciam
ser uma boa combinação para conseguir o que queria.
- Trunks, você tem que se concentrar mais – Gohan exigiu com firmeza e Trunks lhe deu apenas
um olhar, antes de continuar o que fazia.
Eu sei, queria lhe dizer, mas não podia interromper sua tentativa de concentração. Era bem pobre,
é verdade, mas ele ainda se esforçava. Ele deu outro olhar à Gohan e trincou os dentes com mais força.
Ele estava impassível, como sempre, mas a atenção de Trunks se focou em seu ombro, no braço que
lhe faltava. Malditos androides! Urrou em seus pensamentos. Mas a culpa também era dele. Se não
tivesse acompanhado Gohan, não teria sido um estorvo para ele.
Se ao menos conseguisse se transformar!
Seu ki aumentou de uma só vez, conforme a fúria e as exigências de Gohan o tomavam. Mas a
voz dele era apenas um murmuro vago em sua mente, pois seus pensamentos se estendiam mais nos
androides, nos dois malditos androides que arrancaram o braço de seu amigo e mestre. Ele percebeu
de relance que a aura que o contornava agora era dourada e se esforçou mais, mas conforme ficava
mais perto da transformação, mais sua fúria diminuía. Estou conseguindo, comemorou, sentindo seus
cabelos se erguerem firmes em espetos no alto. Estou me transformando. Só falta mais um pouco.
Ele gritou com mais força e tentou empurrar seu poder de uma vez, mas já não conseguia manter
mais aquele ritmo. Sua energia estava se gastando e diminuindo rapidamente e suas emoções não
estavam mais colaborando. Ele tentou forçar seu ki a aumentar novamente, gritando mais forte, mas
não conseguiu impedir... sua energia se cessou e a aura dourada se dissipou. Ele caiu sobre os joelhos,
respirando asperamente. Cansado e frustrado.
Gohan o olhava sem dizer uma única palavra, parecendo tranquilo. Trunks jogou-se no chão,
sentado, e o olhou para que ele visse a frustração em seu olhar e, pelo menos, partilhasse um pouco
dela.
- Por que eu não consigo me transformar em super saiyajin? – resmungou sua frustração em voz
alta, mas Gohan permaneceu tranquilo.
- Está faltando pouco, Trunks – murmurou ele. – Eu tive muito trabalho para me transformar, não
pense que será tão fácil – ele ficou sério de repente e Trunks o fitou com mais atenção. – Para se
transformar tem que ter muita raiva. Eu só consegui me transformar quando vi matarem o Senhor
Piccolo, Kuririn e todos os outros amigos... a raiva foi tanta que eu não consegui me controlar. – Gohan
espantou o olhar distante e lhe sorriu firmemente. – Você tem sangue de saiyajin por parte do seu pai.
Eu tenho certeza de que um dia desses você vai conseguir. Não tenha pressa, você vai ser bem mais
forte do que eu.
Trunks ficou em silêncio por um instante, absorvendo as palavras de seu mestre e tentando
acreditar nelas. Será mesmo que um dia conseguiria ser tão poderoso quanto Gohan e seu pai? Ele não
tinha tanta certeza, apesar de não ter conhecido seu pai...
- Gohan... – hesitou. – Eu sei que você conheceu meu pai... será que poderia me dizer como ele
era? Eu não me lembro muito bem, já que ele morreu quando eu era apenas um bebê. E minha mãe
não me conta muito sobre ele...
Gohan sorriu, mas o sorriso não alcançou seus olhos. Era um sorriso firme e sério, não divertido e
descontraído como o seu usual.
- Sabe, Trunks, é meio difícil de explicar. Ele era um cara muito forte e também muito orgulhoso.
- É, isso eu sei – ele murmurou em resposta, decepcionado. Nunca ninguém dizia mais do que
isso, era até como se ninguém conhecesse seu pai realmente. – Foi mais ou menos isso que minha mãe
me disse. – ele deixou seu olhar se desviar, ainda pensando em seu pai e em como gostaria que ele
não tivesse morrido. – Gohan... você viu quando o mataram?
Gohan hesitou e o sorriso deixou seu rosto.
- Sim. Eu vi.
- Qual deles? – ele perguntou firmemente, certo de que não precisava ser especifico para que
Gohan entendesse sua pergunta.
Gohan suspirou.
- Foi a androide 18.
- Maldita – Trunks sibilou e fechou a mão em punho, pensando em como ela fora cruel ao lutar
com ele. Teria sido assim com seu pai também?
- Não foque sua vingança em só um deles, Trunks – Gohan alertou, mas depois suspirou, com ar
pensativo. – Além do mais...
Trunks ergueu o olhar quando Gohan não continuou, curioso.
- O que?
Ele suspirou novamente.
- Estive pensando... Talvez ela seja diferente do irmão.
- Como assim?
- Talvez ela ainda tenha salvação.
Trunks se pôs de pé em um pulo, rosnando furioso.
- Mas o que você está dizendo, Gohan! Aquela maldita matou milhares de pessoas igual ao seu
irmão! Ela é exatamente como ele! Ela matou meu pai! Eles não são nada diferentes um do outro!
Gohan não se abalou com o ataque de fúria do jovem, apenas deu um encolher de ombros e
continuou com o olhar sério.
- Ela nos salvou, Trunks.
- O que? – ele soltou, indignado. – Do que está falando, Gohan?
- Dezessete estava determinado a nos matar, teria revistado todo aquele lugar a nossa procura.
Mas Dezoito o impediu.
- Isso não prova nada.
- Ainda não terminei, Trunks – Gohan lhe censurou com o olhar e Trunks, resignado, calou-se. –
Eu estava escondido com você, atrás de um pedaço de concreto que estava próximo de Dezessete. Ele
teria nos encontrado, mas Dezoito se adiantou para olhar o lugar ao invés dele. Ela nos viu, Trunks. Eu
olhei para ela e ela olhou para mim. Mas partiu. Fingiu que não tinha visto nada e enganou ao irmão.
Ele explodiu tudo de qualquer jeito, mas eu pude ouvir quando ele quis continuar nos procurando e
ela o convenceu a partir. Desde então, estive pensando nas razões por trás disso, por qual motivo
secreto ela teria nos salvado... e cheguei a mesma conclusão que meu pai teria chegado em meu lugar:
ela pode mudar. Só precisa de uma chance.
Trunks nada disse. Apenas olhou furioso para seu mestre e partiu voando de volta para casa.

Trunks ainda se arrependia daquele dia. Foi a última vez que vira seu mestre. Se não o tivesse
abandonado, talvez ele ainda estivesse vivo... Ao invés de ter lutado sozinho e morrido pensando que
seu amigo e discípulo o odiava. Ele era apenas uma criança, sim, mas deixara o ódio cegá-lo. Ao menos
cumprira o desejo de Gohan e dera uma chance à Dezoito... Agora entendia por que Gohan queria isso,
era o que seu pai faria. Trunks conhecera Goku no passado, e ele teria dado a mesma chance sem
sequer hesitar. Ele deu chance à pessoas piores, tal como Freeza.
Trunks suspirou. Goku deu uma oportunidade de mudar à pessoas que sequer demonstraram um
mínimo da hesitação de Dezoito. Ele não estava errado ao fazer isso. Afinal, se Goku não tivesse dado
uma chance a seu pai... talvez ele não estivesse ali agora. Por mais que no início não concordasse, ele
tinha que seguir os passos de Goku, fazer o que o verdadeiro salvador da Terra faria em seu lugar.
E Dezoito... merecia.
- Não te julgo por não acreditar em mim – ela suspirou, cansada. – Nem mesmo eu acredito.
Então eu tenho que fazê-la acreditar. Ele pensou para si mesmo, finalmente se dando conta. Ele
tinha que ajuda-la. Não era a pessoa ingênua e puramente bondosa que Son Goku era, mas tinha que
fazer o seu melhor por quem merecia. Tinha que perdoá-la pelo que fizera e demonstrar verdadeiro
apoio, só assim ela conseguiria encontrar o caminho certo... em si mesma. Não importa mais vingança,
não importa mais o passado... quando se dá uma chance a alguém, tudo que ela fizera tem que ser
deixado para trás. Ele se dera conta disso tarde demais.
Mas não tarde o suficiente.
- Dezoito, você tem que confiar em si mesma. Você sabe o que é certo e o que é errado agora...
Como pode ainda ter dúvidas de qual caminho quer seguir?
- Você não entende... – ela balançou a cabeça, sem se importar. – É apenas um garoto.
Ele se enfureceu com o comentário, farto disso. E sem se dar conta, a havia capturado pelo ante
braço, seu aperto se firmando na pele macia de forma brusca, mas frustrada.
- Quer parar de me chamar de garoto e ver a verdade? – ele a sacudiu.
- Me solta, garoto! – ela gritou, furiosa. – Que diabos de verdade você pensa que estou fugindo?
Eu apenas estou sendo realista! Você pensa que entende o que está acontecendo comigo, mas não
entende! Quem eu sou e quem eu fui são coisas completamente diferentes, eu não posso escolher!
- É claro que pode! – ele tentou se acalmar, mas ainda a segurava furiosamente. – Será que não
percebe? Você já mudou. Você já escolheu, Dezoito! Quem você foi não é o lado humano, mas o lado
androide. O lado androide que está no passado agora! Mesmo que você escolha seguir o caminho em
que Dr. Gero te colocou, você não conseguirá mais. Você é tão humana quanto eu agora. – ele levou a
mão dela para seu peito esquerdo, querendo que ela sentisse a profundidade em suas palavras e a
sinceridade em seu tom. Ele acreditava nela, ela tinha que acreditar também. – Sente isso? Seu coração
é como o meu. Ele sente, ele sofre, ele é humano.
Ela tentou puxar sua mão de volta, agoniada com o calor irradiando sob sua palma, mas ele era
mais forte e a segurou firme.
- Eu não sou completamente humana.
- Mas é o suficiente – ele insistiu.
Dezoito se puxou para longe novamente e dessa vez ele a soltou, confiante de que tinha
conseguido fazê-la começar a enxergar a verdade que se recusava a ver. Não havia divisão. Havia
apenas um lado a escolher, ela apenas não acreditava.
- Você não entende – ela tornou a dizer. – Eu sou uma bomba relógio. – riu ironicamente. –
Literalmente.
- Não há problema – ele tornou a insistir, disposto a não desistir. – Minha mãe é cientista, ela
pode retirar essa bomba de você facilmente.
- Acha que me entregarei nas mãos de uma humana que muito provavelmente me odeia? – ela
debochou. – Além disso, não é dessa bomba que falo. Foi apenas um termo... bem irônico, é verdade,
mas apenas um termo. Entenda, garoto, se eu escolher me tornar uma androide de novo e ignorar
novamente essa humanidade que despertou... eu voltarei a destruir tudo. E não haverá uma segunda
chance dessa vez, você terá que me destruir. Mas a questão é: quantas pessoas terão que morrer para
provar a você que finalmente me perdi?
- Se essa é a questão mais importante para você, é uma prova de que você se importa – ele
sorriu dessa vez. – Está vendo? Sua maior preocupação não é se perder, mas sim quantas vidas irá
tirar. Percebe isso, Dezoito? Você já escolheu seu lado, só está com medo.
Ela o olhou por algum tempo, tentando não demonstrar a consciência que começava a toma-la.
- Chega disso! – balançou a cabeça e se afastou, perdida. Completamente perdida. Como ela
havia já escolhido um lado se ainda se sentia dividida? Como? – Vá embora, garoto.
- Por que? Por que estou te fazendo ver a verdade finalmente? – ele provocou e se aproximou.
- Não há verdade! – ela gritou, frustrada. – Eu ainda posso voltar a matar, eu ainda posso...
- Não, não pode.
- Cale a boca! – berrou, furiosa. – Você não sabe o que está se passando dentro de mim, seu
imbecil! Eu sinto que estou inclinada ao meu lado androide. Eu gosto de matar. Eu gosto de tirar vidas.
- Mentira.
- Então por que você acha que não me arrependo de ter matado o seu pai?
Trunks hesitou, pego se surpresa. Ele tentou tornar a dizer que era mentira, mas havia algo em
seu tom que mostrava sinceridade. Ele sentiu seu coração bater mais forte, a lembrança de seus dias
com seu pai no passado vindo a sua mente, e as palavras de Gohan tornando a dizer quem era seu
assassino. Por que? Por que ela não se arrependia? Ela parecia arrependida de quase tudo que fizera,
mas por que da morte de seu pai não?
- Ah – ela sorriu malignamente, percebendo sua perturbação. – Consegui tocar o ponto certo.
Então ainda sente pela morte de seu pai? Aquele arrogante que se julgava um “Grande Príncipe”? Ou
melhor: Super Vegeta!
Trunks cerrou os punhos e trincou os dentes. Ele começava a sentir a pele formigar para liberar
seu poder, mas se controlava. Era claro que ela estava provocando-o – sem a menor noção do perigo.
Mas estava conseguindo.
- Não fale do meu pai.
- Por que? – ela sorriu. – Está com medo de ceder ao instinto vingativo? Mas o que há a temer?
Aposto que era isso que o fracassado do seu pai queria. – ela se aproximou, seu olhar era cruel. –
Você devia ter visto o olhar no rosto dele quando percebeu que sua tão aclamada transformação
“super” não adiantou de nada. Ainda mais contra uma mulher! – riu. – Aposto que ele se sentiu
terrivelmente patético quando se afogou em uma poça de seu próprio san...
Dezoito apenas piscou e sentiu suas costas pressionadas contra o casco da árvore que outrora
se recostara, com mãos firmes rodeando seu pescoço. Ela abriu os olhos e viu Trunks, uma fúria insana
brilhando dentro de seus olhos e todo o seu corpo reluzindo como uma chama flamejante e dourada.
Ela teve que admitir para si mesma que aquela sua forma era aterrorizante, mas se sentia satisfeita.
Havia conseguido, ao mesmo tempo, provar seu ponto e um futuro-alivio para toda aquela confusão
que atormentava sua mente incessantemente.
- Finalmente... reuniu coragem, garoto? – ela se esforçou para dizer, começando a se sufocar
com o aperto de Trunks esmagando sua traqueia. Ele apertou mais. – Já era... tempo. Acabe logo com
isso.
Ela fechou os olhos e, mais uma vez, depois de todo aquele tempo passado, esperou pelo seu
fim. E quase contemplou a inconsciência que começava a tomar seus sentidos.
Mas então, estava livre. Novamente.
Dezoito não entendeu de imediato o que aconteceu, apenas caiu sobre seus joelhos e tossiu. A
pele de seu pescoço doía, mas também formigava.
- Não vou matá-la.
Trunks estava em pé diante de si, reluzente e poderoso. Seu olhar era mortal, mas determinado.
Ela devia imaginar. Ele era honesto demais para quebrar o acordo sem ela ter machucado ninguém.
Dezoito até considerou ir até a cidade e machucar alguém apenas para conseguir o que queria, mas
sabia que seria difícil. Não conseguiria matar tão facilmente enquanto sua humanidade permanecesse
ali, pronta para extinguir qualquer desejo assassino de sua mente.
- Então é mais imbecil e covarde do que eu pensava – suspirou, cansada, mas se permitiu tentar
uma última vez: – O que será que o fracassado do seu pai pensaria disso? Ele era um homem tão
cheio de orgulho...
- Já disse para não falar do meu pai. – ele disse friamente, mas seu tom era baixo.
- Por que não, garoto? Não quer saber como aquele imbecil era? Ou não quer que eu provoque
sua fúria e você não consiga mais se conter? Você é como ele, tenho certeza. Não resistirá ao desejo
de me matar.
- Eu não sou como meu pai – ele negou. – Ele era um grande guerreiro e eu o admirei, mas não
sou como ele. Não vou matá-la, Dezoito.
- Então não passa de um garoto covarde.
Trunks a puxou abruptamente pelo colarinho, seu olhar letal e ameaçador. Mas havia algo mais...
algo que nenhum dos dois conseguia saber o que era.
- Eu já disse que não sou mais um garoto – ele sussurrou lentamente, para que aquilo entrasse
de uma vez na cabeça dela. Mas não era como se precisasse dizer, ela podia notar. A transformação
inesperada dele fez com que sua jaqueta se rasgasse e agora Dezoito podia ver todos os músculos
fartos que se espalhavam por toda a extensão de seus braços. Sua aura dourada ainda vibrava ao
redor de seu corpo e agora a tocava, roçando em sua pele como uma carícia quente e acolhedora.
Dezoito até deixou de ver aquela forma como uma ameaça, era até como se a seduzisse agora. – Não
sou mais um garoto. – ele repetiu, mas agora seu tom era ainda mais baixo e inconsistente. Ele sentia
uma inquietação em seu estômago, e o formigamento por tê-la tão perto fez com a que fúria recente
se dissipasse para dar espaço a algo... novo. Mas o que, ele não sabia dizer. – Assim como você não é
mais quem pensa que é.
- Como você pode ter tanta certeza? – ela murmurou com dificuldade, começava a se sentir
desconcertada com aquela proximidade. Embora não tivesse ousado se afastar.
- Não sei – ele admitiu e deixou seu rosto se aproximar do dela sem ao menos perceber,
enquanto seu olhar se desviava para seus lábios. – Não sei...
E então, não havia mais distância. Seus lábios se tocaram e era como se uma fome tivesse
despertado. Uma fome diferente, que exigia que aquele momento se prolongasse. Dezoito não
esperava que isso fosse acontecer, mas se perdeu completamente. Ela sempre pensou que a morte
seria o único alivio para a confusão em seus pensamentos, mas aquele simples encostar de lábios fez
com que todos os conflitos, todas as ideias, pensamentos, ideologias... se dissipassem. Não restava
mais nada em sua cabeça agora. Era como se um recurso secreto tivesse desligado tudo, para ceder
espaço àquele desejo insaciável.
Trunks soltou seu colarinho e sua mão deslizou ao seu pescoço vagarosamente, como se
apreciasse a sensação quente de tocá-la. Dezoito sentiu um rastro flamejante no caminho percorrido
por seu toque e se deixou levar ainda mais no momento.
Aquele era o alívio que precisava. Aquilo era a chave para fazê-la finalmente perceber que lado
escolhera. Por mais que ainda não entendesse, por mais que ainda não soubesse o que se
desencadearia, quais consequências trariam... Ela soube. Não era o lado androide, nem o humano...
era o lado em que aquele desejo passou a habitar. Um lado que não existia, um lado novo.
Como um mecanismo restrito, recém liberado.