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Perspectivas, S ã o P a u l o

6:145-149, 1983.

RESENHAS
REVIEWS

Maria Tereza Micelli K E R B A U Y *

DINIZ, Eli — Voto e máquina política: patronagem e clientelismo no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro,
Paz e Terra, 1982. 228p.

A história político-partidária do Bra- conceito, revisando evolutivamente uma


sil, principalmente no que se refere aos bibliografia pouco conhecida e difundida
seus aspectos estaduais e municipais foi no Brasil, para chegar a construir o seu
pouquíssimas vezes alvo de estudos mais próprio conceito, tentando "preservar"
abrangentes e específicos. Se não fosse aqueles elementos que definem a "tipici-
por outras qualidades, só o fato da auto- dade das máquinas políticas enquanto
ra, Eli Diniz, ter-se preocupado com a modalidade específica de organização" p.
questão e ter levado a bom termo a sua ta- 26, nesse sentido o fundamental será a ex-
refa, este livro já mereceria uma honrosa plicitaçâo do princípio organizacional so-
menção. bre o qual as máquinas políticas baseiam
seu funcionamento.
O livro de Eli Diniz conseguiu um fa-
çanha invejável diz Carlos Estevam Mar- A partir daí são levantados os traços
tins ao prefaciá-lo pois " a partir de um fe- que permitem distinguir a máquina de ou-
nômeno particular e localizado — o "cha- tras organizações político-partidária, a re-
guismo" no M D B do Rio de Janeiro — lação entre máquina política e ideológica,
ela leva o leitor a refletir sobre questões a definição de política de massa e a ques-
que atravessam a vida nacional de uma tão da distribuição de favores e a relação
ponta a outra: do passado ao presente, do com o clientelismo. " O que a cidadania
campo à cidade, da economia à política". define como um direito é concedido como
(p.17) dádiva daqueles que se situam em posi-
ções de poder", (p.43).
Portanto, além da descrição e análise
da máquina política montada pelo "cha- Feitas estas considerações, no capítu-
guismo" no Rio de Janeiro, o texto se lo seguinte, a autora passa a tratar especi-
preocupa com a definição e reflexão de ficamente do objetivo do texto, ou seja, a
questões importantes, tais como o cliente- formação do M D B no Rio de Janeiro, a
lismo, o voto urbano e rural, as perspecti- trajetória de suas principais correntes, as
vas da mudança, aliada a algumas consi- peculiaridades que levaram à consolida-
derações teóricas a respeito de máquinas ção do chaguismo no Rio de Janeiro, in-
políticas. A autora analisa este último cluindo ainda uma biografia elucidativa

* Departamento de Antropologia, Política e Filosofia — Instituto de Letras, Ciências Sociais e Educação — UNESP —
14.800 — Araraquara — SP.

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D I N I Z , E . — Voto e máquina política: patronagem e clientelismo no Rio de Janeiro. R i o de Janeiro, Paz e
Terra, 1982. 228p. R E S E N H A S . Perspectivas, S ã o Paulo, 6.145-149, 1983.

de Chagas Freitas, "o líder cuja persona- parlamentar e partidária, resultando do


lidade totalmente destituída de carisma, confronto o reforço da corrente chaguis-
tem sua liderança consolidade pela preci- ta" (p.69).
são, firmeza e oportunidade de ação, po-
A união dos colégios eleitorais teve
rém não pela persuasão e pela argumenta-
ção" (p.61). "Assim cultivando uma lide- sua prova decisiva nas eleições de 1978, e
rança de estilo pessoal que exigiria como a autora realiza toda uma análise das dife-
atributos essenciais a lealdade e a confian-renças de votação entre os vários cargos
ça, Chagas Freitas aliaria à cautela no en- para a Câmara Federal e Assembléia Esta-
caminhamento das articulações políticas a dual e diferenças regionais nesta votação,
força de seu comando político sobre o nú- para concluir a respeito da importância
cleo de correligionários que progressiva- do componente municipalista dos votos
mente iria se aglutinando à sombra de sua chaguistas. " A importância das negocia-
proteção e apoio políticos" (p.63). ções e alianças com candidatos de base lo-
cal torna-se mais evidente, se considerar-
mos que a política no antigo estado do
Passando em revista a história Rio apresenta um forte componente mu-
político-partidária recente do Rio de Ja- nicipalista. A votação de cada município
neiro, procura caracterizar as origens do tende a se concentrar nos candidatos com
grupo chaguista, que remonta à participa- tradição de atuação política no próprio
ção de seu líder — Chagas Freitas — no local. Uma prática comum, em épocas de
PSP, perpassa sua participação no bipar- eleições, era a divisão de área de influên-
tidarismo, quando então tinha um signifi- cia entre as várias lideranças municipais
cado político relativamente restrito, para mediante um acordo tácito segundo o
começar a sua ascensão no ano de 1970, qual, para efeito de campanha eleitoral e
"quando adquire o controle da bancada propaganda, cada candidato respeitava as
do M D B na Assembléia estadual, con- bases dos demais" (p.73).
quistando cerca de 85% das cadeiras e
90% dos votos dados aos representantes Deve-se ressaltar, no entanto, que a
do partido, elegendo ainda mais de 50% corrente chaguista sempre manteve táticas
dos representantes para a Câmara Fede- distintas nas eleições federais e estaduais,
ral, onde anteriormente sua representação procurando sempre reforçar-se numerica-
era muito pouco expressiva" (p.68). Esta mente na assembléia estadual. " A força
ascensão coincide com a indicação de eleitoral do grupo chaguista experimenta-
Chagas Freitas para o governo do Estado ria um processo de expansão desigual,
da Guanabara e com o controle que o gru- comparando-se as eleições federais com as
po chaguista passa a exercer tanto no dire- eleições estaduais e municipais... quanto
tório regional, quanto nos diretórios zo- mais local o âmbito da votação, maior o
nais do M D B do Rio de Janeiro. seu apelo eleitoral" (p.89).

O crescimento do grupo está ligado O eleitorado do grupo chaguista é


também à fusão dos antigos estados da bem específico, sua base está concentrada
Guanabara e Rio de Janeiro (depois da nas zonas suburbanas (atente-se para o
eleição de 1974) que determinou todo um caráter clientelista deste grupo), além da
processo de realinhamento para acomo- penetração marcante no seio da popula-
dar todos os segmentos políticos do novo ção favelada.
estado, incluindo uma terceira facção re- Depois de analisar a evolução e cres-
presentada pelo amaralismo que tinha cimento do chaguismo no Rio de Janeiro,
raízes no antigo estado do Rio, e que ti- Eli Diniz caracteriza aspectos da máquina
nha como líder o senador Amaral Peixo- chaguista, estabelecendo algumas ques-
to. " O conflito se desdobraria nas esferas tões fundamentais para o entendimento
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da sobrevivência da mesma inclusive no A questão da representação parla-


momento político crucial importante que mentar também é analisada obedecendo
é fusão. os mesmos critérios utilizados para os ou-
Em função disto e obedecendo um tros elementos que compõem o painel da
critério temporal nítido, a análise divide a política chaguista, ou seja, a representa-
história do chaguismo em dois momentos: ção chaguista deve ser observada a partir
1) "o período que se estende de 1965 a da distinção entre os políticos egressos do
1975, quando sua área de ação estaria res- antigo estado da Guanabara e aqueles ori-
trita à cidade do Rio de Janeiro e seu po- ginários do antigo estado do Rio de Janei-
der de mobilização giraria em torno de ro, "de incorporação recente nos quadros
problemas típicos de uma grande metró- chaguistas", o que não permite avaliar
pole, p.89 e 2) " a partir de 1975 com a fu- convenientemente o grau de consistência
são dos antigos estados da Guanabara e destes novos políticos, oriundos de um co-
Rio de Janeiro, a máquina extravasaria légio eleitoral, "onde as principais corren-
seus limites originais, penetrando nos mu- tes emedebistas aglutinavam-se quer em
nicípios do Rio de Janeiro" (p.90). torno da liderança do senador Amaral
Peixoto, ex-dirigente do PSD, quer em
É em função desta permanência e torno dos grupos oriundos do extinto
crescimento do chaguismo, que algumas PTB, partidos que antes de 1964, tinham
questões pertinentes são colocadas pela muita influência na política fluminense"
autora. (P. 96).

"Que fatores explicariam essa malea- Quanto ao que a autora chama a elite
bilidade da máquina, essa possibilidade chaguista "formada por parlamentares
de adaptação às novas condições criadas cuja carreira política se fez no antigo esta-
com a fusão dos dois estados? Seriam do da Guanabara, observa-se uma tradi-
apenas fatores conjunturais, ligados ao ção de filiação chaguista, em alguns ca-
fechamento do regime político ou o êxito sos, sedimentada por várias legislaturas
político eleitoral da máquina teria compo- consecutivas" (p.97), existe ainda um tra-
nentes mais específicos e, portanto, bases dição familiar importante que remonta
menos movediças e mais permanentes? em alguns casos aos primórdios da políti-
Ainda que o chaguismo desapareça, en- ca carioca, levando a uma estabilidade
quanto tal, desapareceriam as condições muito grande do núcleo dirigente. " A bai-
para a emergência de um mesmo estilo de xa rotatividade dos membros integrantes
política e até de uma organização seme- desse núcleo dirigente, tanto ao nível da
lhante, embora sob novo rótulo?" (p.90) representação parlamentar, quanto ao
nível da organização partidária, seria um
Para responder a tais indagações, o importante fator na manutenção da esta-
texto procura tratar das especificidades da bilidade eleitoral do grupo chaguista"
máquina chaguista, enquanto organiza- (P-99).
ção, sua dinâmica interna de funciona- Os dados referentes à análise da re-
mento, suas metas, sua tática político- presentação parlamentar, principalmente
eleitoral, sua orientação e perfil ideológi- no que diz respeito à assembléia estadual,
cos. Os aspectos organizacionais da má- sugerem que " a máquina chaguista man-
quina redesdobram em 3 níveis distintos: tém fortes vínculos político-eleitorais com
1) organização partidária; 2) capacidade uma ampla faixa dos estratos populares
de representação nas bancadas do partido urbanos, cortando a cidade de norte a sul
no legislativo estadual, municipal e fede- inserindo-se inclusive nos bolsões de baixa
ral; 3) estabelecimento e consolidação de renda. "Através da penetração de certos
seus vínculos com o executivo estadual. ta da zona Sul" (p. 102). O perfil eleitoral
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do chaguismo não se esgota, porém, nas clientelas locais constituem importante as-
ligações com os extratos de mais baixa pecto da estrutura e funcionamento da
renda. Através da penetração de certos máquina montada e consolidada pelo gru-
deputados do grupo em bairros de classe po liderado pelo governador Chagas Frei-
média (como Tijuca, Grajaú e Andaraí), tas, no interior do extinto M D B fluminen-
de ligações com grupos profissionais es- se" (p. 118).
pecíficos como professores, bancários e O acesso ao núcleo de prestação de
funcionários públicos, tais segmentos ur- serviços tem garantido o seu atendimento
banos também vêm respondendo favora- na medida em que é acionado um esque-
velmente ao apelo eleitoral da corrente ma informal onde, em alguns casos, a fal-
chaguista" (p. 102). ta, em outros, a precariedade dos serviços
Deve-se destacar, segundo um enfo- estimulam o apelo clientelista. O cliente-
que constante da autora os laços cliente- lismo adquire, assim, legitimidade para
listas particularmente nítido no âmbito do todos os atores envolvidos na relação,
legislativo local. " A s relações entre repre- uma vez que o atendimento às necessida-
sentantes políticos e suas bases eleitorais des em termos de serviços públicos não é
inserem-se numa complexa rede clientelis- encarado como um direito e uma prerro-
ta, cujo controle está centralizado na ins- gativa da cidadania. A o contrário, trata-
tância executiva, cerne do processo deci- se de uma concessão a quem tem maior
sório. Nesse contexto de clientelismo e pa- poder de barganha e como tal é percebido
tronagem, o deputado estaria no ápice de pelos participantes do processo. O subsis-
um sólido sistema de relações pessoais, tema político formado pelo deputado e
com um grau significativo de integração, seus elementos de ligação representam o
baseada numa teia de obrigações mútuas" elo entre a comunidade local e o governo,
(p. 127). articulando mensagens e transmitindo-as
Por outro lado, a "prática de fortale- aos órgãos responsáveis" (p. 123). "Seu
cer o poder local do núcleo de represen- estilo de ação favorece a mobilização ver-
tantes políticos de cada área exige uma tical, processo em que a participação
clara divisão de zonas de influência" (p. política é induzida por relações pessoais
112), têm-se, portanto, uma estrutura de lealdade e não por sentimentos comuns
marcada por estas divisões, delimitando o de identidade social" (p. 166).
poder das diferentes lideranças políticas Uma proporção expressiva de depu-
nas várias circunscrições administrativas e tados chaguistas considera a política co-
eleitorais. "Sob esse aspecto, a organiza- munitária como o centro de sua atividade
ção chaguista pode ser concebida como parlamentar, deixando para segundo pla-
um agrupamento específico, integrado no a condição do parlamentar enquanto
por redes clientelistas pessoais" (p.l 13). ator relevante da arena política nacional.
A influência dos políticos locais cor- "De acordo com esta ótica, a chamada
responde as suas bases eleitorais. Nesse política de atendimento popular seria não
sentido exercem uma influência que extra- só legítima como necessária enquanto for-
pola sua competência formal legal na me- ma de contrabalançar as distorções do es-
dida em que interferem decisivamente na tilo tecnocrático do governo. E mais ain-
administração local, indicando nomes pa- da, a intervenção tópica, sob os auspícios
ra os cargos mais importantes, filtrando da liderança parlamentar, seria a única al-
demandas, definindo prioridades e esta- ternativa ao vezo estilista de um sistema
belecendo critérios para a alocação dos re- decisório impermeável às demandas po-
cursos e realização de melhorias, benefi- pulares" (p. 135).
ciando suas clientelas eleitorais. " A Neste sentido, "a manutenção de
política de bairro e a articulação com vínculos estreitos com associações de mo-
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radores e outros tipos de organizações de do de maneira unilateral a tendência à


bairro foi apontada como fundamental atomização e disponibilidade das massas
para o desempenho do parlamentar" (p. urbanas" (p. 207).
135); sobressaindo o papel das lideranças
Depois de fazer uma série de conside-
comunitárias principalmente dos dirigen-
rações a respeito do voto ideológico, voto
tes de associações de moradores, ao lado
partidário e voto clientelista, e de aplicar
das lideranças religiosas de blocos carna-
estas categorias na análise do chaguismo,
valescos, escolas de samba, jogo de bicho,
a autora conclui que "ao contrário do que
associações de favelas que representam
sugerem as premissas implícitas na litera-
importantes elos da teia de relações ligan-
tura sobre modernização e desenvolvi-
do vários segmentos da população local à
mento social, os processos de industriali-
estrutura político-partidária, a corrente
zação e urbanização, com a conseqüente
chaguista só não dispõe de deputados com
propagação de efeitos modernizantes, não
penetração nos meios sindicais e nas cate-
são incompatíveis com o desenvolvimento
gorias de trabalhadores com alto nível de
de práticas clientelistas. Como tivemos
organização.
oportunidade de ressaltar, altos índices de
No capítulo V existe uma tentativa de urbanização podem não só coexistir como
traçar o perfil ideológico e a prática políti- facilitar a expansão do clientilismo" (p.
ca da corrente parlamentar ligada ao 223).
chaguismo, "uma vez que o perfil dos
O texto de Eli Diniz é altamente polê-
parlamentares ligado à corrente chaguis-
mico, na medida em que questiona análi-
ta, tanto em termos de suas origens sociais
ses políticas consagradas e que muitas ve-
e carreira política quanto em termos das
zes não se basearam em procedimentos
relações que mantêm com suas bases elei-
profundos de pesquisa tal como realizou a
torais" (p. 167).
autora. A polêmica do texto ganhou
A pergunta que a autora faz é a se- ímpeto maior, pois o seu lançamento
guinte: o que unificaria esse núcleo, desti- coincidiu após longo período de recesso
tuído de afinidades programáticas e apa- com as eleições para o executivo estadual.
rentemente amorfo? A resposta dada está Os debates provocados foram muitos,
ligada à centralização da estrutura pois a interpretação dada pela maioria
político-partidária, "submetida à uma l i - dos leitores era a de que a vitória da má-
derança e a uma cadeia de comando, cu- quina chaguista estava garantida,
jos elos seriam reforçados por vínculos esquecendo-se estes leitores no entanto
verticais de lealdade" (p. 168), acentuan- que a autora não considera a máquina em
do a ausência de ideologia e de doutrina nenhum momento infalível e o fato de ter
como um de seus traços característicos. vencido um governador não pertencente
Finalmente no último capítulo a au- ao grupo chaguista, não significa que a
tora passa em revista a literatura política e máquina tenha sido desmontada, e que a
sociológica a respeito das interpretações conjuntura das eleições de 1982 determi-
do voto urbano, cujas análises ora condu- naram situações diferentes das previsíveis.
zem "a avaliações basicamente otimistas, Passado o impacto eleitoral, o livro
enfatizando a efervescência do meio urba- retomará o lugar que merece, ou seja, um
no e sua propensão a gerar formas mais estudo pioneiro e completo de um mo-
abertas de participação, ora assumem um mento da história político-partidária do
tom essencialmente pessimista, acentuan- Rio de Janeiro.

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