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CADERNO DE TEXTO

I Conferência Nacional
a

de Saúde Ambiental

Coordenação:
GT Saúde e Ambiente
da ABRASCO

2009

1
Coordenação: Diretoria da ABRASCO – Gestão 2006-2009
GT Saúde e Ambiente da ABRASCO (Grupo de Tra-
Presidente
balho Saúde e Ambiente da Associação Brasileira de José da Rocha Carvalheiro – USP
Pós-Graduação em Saúde Coletiva)
Vice-Presidente
Anamaria Testa Tambellini
Armando Martinho Bardou Raggio – Fepecs
Ary Carvalho de Miranda (Coordenador)
Luiz Augusto Facchini – UFPeL
Carlos Corvalan Madel Therezinha Luz – Uerj
Elisabeth Conceição de Oliveira Santos Maurício Lima Barreto – UFBA
Fernando Ferreira Carneiro Paulo Ernani Gadelha Vieira – Fiocruz
Guilherme Franco Netto
Conselho 2006-2009
Herling Gregorio Aguilar Alonzo
Gastão Wagner de Souza Campos – DMPS/FCM/Unicamp
Hermano Albuquerque de Castro Antônio Ivo de Carvalho – ENSP/Fiocruz
Leiliane Coelho Andre Amorim Chester Luiz Galvão Cesar – FSP/USP
Lia Giraldo da Silva Augusto Heloisa Pacheco Ferreira – IESC/UFRJ
Marla Kuhn Eduardo Freese – CpqAM/Fiocruz
Nelson Gouveia Secretário Executivo
Raquel Maria Rigotto Álvaro Hideyoshi Matida
Vera Lúcia Guimarães Blank
Secretária Executiva Adjunta
Volney de Magalhães Câmara
Margareth Pessanha de Souza
Willian Waissman
Gerente Geral
Hebe Conceição da Silva Patoléa
Editores:
Ary Carvalho de Miranda Equipe
Herling Gregorio Aguilar Alonzo Andréa de Cássia de Souza, Elaine Leal de Souza,
Hermano Albuquerque de Castro Aline Macário Barzellai Rodrigues, Jorge Luiz Lucas,
Márcio Gomes de Alencar, Cátia Pinheiro de Souza,
Lia Giraldo da Silva Augusto
Sidney Nascimento Cabral, Juana Portugal

Capa, Projeto Gráfico e Editoração Eletrônica: Abrasco Livros


Tatiana Lassance Proença Inez Damasceno Pinheiro, Fidel Pinheiro,
Rafael Barauna, Mônica da Silva

Copidesque:
Ana Lucia Normando

Apoio:
Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promo-
ção da Saúde da Fundação Oswaldo Cruz
Valcler Rangel Fernandes – Vice Presidente

Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca


Antônio Ivo de Carvalho – Diretor

2
SUMÁRIO

Apresentação .......................................................................................................................................... 5

Por um Movimento Nacional Ecossanitário ........................................................................................... 7

Notas sobre a Governança da Saúde Ambiental no Brasil .................................................................... 16

Conceito de Ambiente e suas Implicações para a Saúde ...................................................................... 20

Saúde no Campo .................................................................................................................................... 25

Saúde Ambiental nas Cidades ............................................................................................................... 30

Terra Urbanizada para Todos – reflexões sobre trechos do texto de apresentação da página web da
Secretaria Nacional de Programas Urbanos ......................................................................................... 35

Urbanização Brasileira e Saúde Ambiental ............................................................................................ 39

Regularização em Áreas de Proteção Ambiental no Meio Urbano ...................................................... 45

Urbanização de Risco: expressão territorial de uma ordem urbanística excludente e predatória ....... 55

Preservação Ambiental ou Moradia? Um Falso Conflito ...................................................................... 57

Transporte e Saúde Ambiental ............................................................................................................... 59

O Papel da Habitação na Construção da Saúde Ambiental ................................................................... 63

Saúde, Ambiente e Sustentabilidade dos Povos da Floresta: a situação das populações extrativistas da
Amazônia ................................................................................................................................................. 68

Efeitos Nocivos da Poluição Derivada das Queimadas à Saúde Humana na Amazônia Brasileira ..... 74

Desenvolvimento e Sustentabilidade Socioambiental no Campo, na Cidade e na Floresta .................. 78

Desenvolvimento, Conflitos Socioambientais, Justiça e Sustentabilidade: desafios para a transição ....... 84

Movimentos Sociais e Saúde Ambiental – em construção .................................................................. 92

O Subsistema Nacional de Vigilância em Saúde Ambiental (SINVSA) e seus Desafios ......................... 97

Inter-relações entre a Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador e a Atenção Básica de Saúde


no SUS .............................................................................................................................................. 105

As Relações Produção/Consumo, Saúde e Ambiente na Atenção Primária à Saúde do SUS ............. 109

Programa de Educação Ambiental e Mobilização Social em Saneamento – PEAMSS ........................ 116

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4
APRESENTAÇÃO

Em 15 de maio do corrente ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva publicou o Decreto
para convocação, pelos Ministérios da Saúde, do Meio Ambiente e das Cidades, da 1ª Conferên-
cia Nacional de Saúde Ambiental (1ª CNSA), cuja etapa nacional será realizada em Brasília, de 15
a 18 de dezembro de 2009, precedida de conferências municipais e estaduais. A Conferência
traz como lema “Saúde e Ambiente: vamos cuidar da gente!” e o tema “A saúde ambiental
na cidade, no campo e na floresta: construindo cidadania, qualidade de vida e territórios
sustentáveis”. O objetivo geral da Conferência é definir diretrizes para uma política de saúde
ambiental no país. E os objetivos específicos são: I – definir diretrizes para a política pública
integrada no campo da saúde ambiental a partir da atuação transversal e intersetorial dos vários
atores envolvidos com o tema; II – promover e ampliar a consciência sanitária, política e ambiental
da população a respeito dos determinantes socioambientais num conceito ampliado de saúde; III
– promover o debate social sobre as relações de saúde, ambiente e desenvolvimento, no sentido
de ampliar a participação da sociedade civil na construção de propostas e conhecimentos que
garantam qualidade de vida e saúde das populações em seus territórios; IV – identificar na socie-
dade civil as experiências positivas que estão sendo feitas territorialmente e em contexto
participativo, os problemas referentes ao binômio saúde-ambiente e as demandas da sociedade
para o poder público; V – promover o exercício da cidadania e a garantia do direito à saúde junto
ao poder público, com o intuito de que o aparelho do Estado adote instrumentos e mecanismos
institucionais sustentáveis (sistemas integrados) relacionados à saúde ambiental; VI – sensibilizar
as populações para que constituam instâncias colegiadas que tratem de temas relacionados à
saúde ambiental, de forma a disseminar informações, debater e decidir sobre políticas de saúde,
ambiente e desenvolvimento; e VII – indicar prioridades para a atuação do Estado no desenvolvi-
mento de programas e ações intra e intersetoriais, considerados como eixo central para a cons-
trução da Política Nacional de Saúde Ambiental.
Como elementos estruturantes do tema da Conferência foram definidos três eixos com a
finalidade de orientar o processo de discussão:
1) Desenvolvimento e sustentabilidade socioambiental no campo, na
cidade e na floresta;
2) Trabalho, ambiente e saúde: desafios dos processos de produção
e consumo nos territórios;
3) Democracia, saúde, ambiente e educação: políticas para construção
de territórios sustentáveis.
No primeiro eixo, pretende-se obter um mapeamento dos grupos populacionais e dos
ambientes vulneráveis levando em consideração as suas situações de risco particulares. No se-
gundo eixo, a identificação dos processos que geram ou contribuem para tais vulnerabilidades
socioambientais nos diferentes territórios e das iniciativas do Estado e da sociedade no seu

5
enfrentamento. No âmbito do terceiro eixo, a busca de estratégias, sendo este um desafio, para
a superação dessas vulnerabilidades.
Como ferramenta de auxílio na condução dos debates em diversas etapas da Conferência,
o Grupo de Trabalho Saúde e Ambiente da Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde
Coletiva (GTSA/ABRASCO) apresenta este Caderno de Textos, resultado da colaboração de mo-
vimentos sociais, ONGs, instituições de pesquisa, universidades, órgãos do governo e membros
das subcomissões da Comissão Organizadora Nacional da 1ª CNSA. Foram incluídas contribui-
ções na forma de textos curtos, prioritariamente recentes, alguns escritos de modo especial para
esta Conferência, buscando uma visão abrangente da saúde ambiental no país. O leitor terá em
suas mãos conteúdos teóricos, levantamento de situações-problema, seja do passado com reper-
cussões atuais, presentes e futuras, além de questionamentos, discussões, propostas e relatos de
experiências locais de vanguarda, inovadoras e bem-sucedidas em saúde ambiental no Brasil.

Coordenadores

6
Por um Movimento Nacional Ecossanitário

Por um Movimento Nacional Ecossanitário

Guilherme Franco Netto1


Aramis Cardoso Beltrami1
Clesivania Rodrigues1
Daniela Buosi Rholfs1
Luiz Belino Ferreira Sales1
Herling Gregorio Aguilar Alonzo2

1
Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Traba-
lhador, Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde.
2
Departamento de Medicina Preventiva e Social/FCM/Unicamp.

1. INTRODUÇÃO Indaga-se: Como superar o atual estágio


reducionista da ciência clássica e a desarticulação de
Novos enunciados emergem concomitante- políticas públicas entre saúde e ambiente, e alcançar
mente a partir e a serviço dos campos da saúde pú- um estágio superior que possibilite a construção de
blica, do meio ambiente e do saneamento básico: um espaço político aglutinador de múltiplas agendas
vulnerabilidade socioambiental, sustentabilidade com o propósito de orientar a ação transformadora
socioambiental, justiça ambiental, injustiça ambiental, da realidade?
princípio da precaução, território (revisitado), saú- Exploremos o assunto. A complexidade dos
de ambiental (Porto, 2007). Quais as suas origens, o impactos ambientais, enquanto integrantes da deter-
que representam, onde se aplicam? O conjunto dos minação socioambiental da saúde, é inconteste
textos constituintes deste caderno se ocupa em res- (OMS, 2009; Brasil, 2008) e exige novos esquemas
ponder a essas questões. de produção de conhecimento, novos olhares e per-
Há uma crise ambiental global que atormenta os cepções, atores sociais distintos e novo arranjo
intelectuais e profissionais práticos dos campos acima institucional para sua compreensão, enfrentamento
relacionados. As repercussões econômica, social, e superação (Freitas, 2006).
ambiental, cultural, ética, individual e subjetiva desta crise No mundo contemporâneo, os contextos vul-
inquietam saberes, ciências e ordens instituídas. Existe neráveis associados à complexa matriz de riscos
certo grau de desconforto, ou melhor, de quase agonia ambientais novos e antigos são agravados por um
a respeito de como interpretar e como operar sobre quadro social e institucional desigual e inadequado,
essa complexa malha processual que perpassa desde como é o caso do Brasil (Porto, 2007). A presença
os fenômenos em nível micro, suas mediações inter- de riscos ambientais à saúde em contextos vulnerá-
mediárias, até os fenômenos globais (Rigoto, 2008). veis está diretamente relacionada à maior probabili-

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Netto, G. F. et al.

dade de doença e morte das populações afetadas e à e correção, promovam mudanças processuais que
degradação de sistemas de suporte à vida nos transformem relações de poder, padrões culturais,
ecossistemas atingidos. De acordo com a OMS políticas públicas e práticas institucionais, contribu-
(2007), pelo menos 24% de todas as doenças e 23% indo com a reversão de modelos de desenvolvimen-
das mortes prematuras em escala global ocorrem to insustentáveis (Porto, 2007). Essa compreensão
em razão de fatores de risco ambiental que são ampliada possibilita revelar a interação entre as dinâ-
modificáveis. Estes números, em nosso país, estão micas globais e locais por meio de modelos de de-
estimados em torno de 18%. senvolvimento em que historicamente relacionam-
Além da repercussão material dos processos se tempo, territórios e pessoas, rompendo, desta
de desenvolvimento e tecnológicos no meio ambi- forma, com abordagens “neutras”, funcionais e
ente e na vida social, a vulnerabilidade é também for- sem historicidade.
temente mediada pelo grau de compreensão e cons- Ainda de acordo com Porto (2007):
ciência das sociedades sobre os problemas por elas
vividos. De fato, para que os problemas ambientais A análise de vulnerabilidades funciona
se afirmem socialmente, em primeiro lugar necessi- como um elemento estratégico para que
tam ser construídos e difundidos nos mundos sim- os riscos (à saúde, grifo nosso) sejam
bólicos e reais dos vários atores sociais, até que se- contextualizados em estratégias mais
jam coletivamente reconhecidos (Rigoto, 2008). Para amplas de prevenção e promoção da saú-
o seu adequado enfrentamento, são necessários de e possam ser discutidas de forma mais
referenciais conceituais e metodológicos que apre- coletiva e efetiva. Uma cartografia das
endam seus níveis de complexidade e sejam vulnerabilidades implica não só o mapea-
contextualizados às realidades em que seus ciclos de mento de grupos populacionais e territó-
geração-exposição-efeitos se realizam, envolvendo rios vulneráveis em situações de risco par-
dimensões tecnológicas, econômicas, sociais, políti- ticulares, mas também análises que es-
cas, culturais, ecológicas, éticas e de saúde, nos de- clareçam processos que geram ou con-
nominados sistemas teóricos complexos. Para sua tribuem para tais vulnerabilidades e que
adequada compreensão, os riscos à saúde e as iluminem a criação de estratégias para a
vulnerabilidades socioambientais demandam uma ci- sua superação...
ência mais abrangente e sensível, fornecendo senti-
do ético à produção de conhecimentos voltados à Determinado primariamente pela ordem eco-
sustentabilidade, promoção da saúde e à justiça nômica mundial da presente era da globalização
ambiental, superando os limites reducionistas da ci- (Woodward, 2001), esses impactos são mediados
ência clássica ou normal (Porto, 2007). por pressões e situações ambientais (Who, 2000)
Em contextos nos quais a vulnerabilidade se relacionadas a três dimensões distintas de vulnera-
apresenta, é necessário compreender as dinâmicas bilidade (Smith, 2005) que, a seguir, serão aplicadas
sociais, econômicas, culturais e institucionais que in- à realidade brasileira.
fluenciam a produção de riscos, inibem a regulação
e/ou antecipação, bem como a aplicação de medidas
preventivas. Nesta direção, impõe-se a aplicação de
abordagens sistêmicas, integradas e contextuali-zadas
que, além de induzir ações de prevenção, mitigação

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Por um Movimento Nacional Ecossanitário

2. VULNERABILIDADE SOCIOAMBIENTAL RELACIO- a) Cidade


NADA AO SANEAMENTO BÁSICO E INFRAESTRUTURA A cidade é uma “prática social”; práxis urbana,
INADEQUADOS onde o inevitável embate entre os diferentes grupos
sociais e seus interesses coexistem. É nesse ambien-
A primeira dimensão de vulnerabilidade aqui te de conflito que se produz uma sociedade de con-
tratada, forte marca da história social e cultural do tradições espaciais, sociais e econômicas, que tem
Brasil, relaciona-se ao saneamento ambiental inade- sua materialização no conjunto de objetos reais re-
quado decorrente da limitação de políticas públicas presentados na cidade (Léfebvre, 2001).
e mecanismos financeiros voltados ao atendimento Em 1960, o Brasil tinha 60 milhões de habi-
das necessidades de infraestrutura nos meios urba- tantes, sendo que 28 milhões (46%) viviam nas ci-
nos e rurais, incluindo os aspectos de cobertura e dades. Como resultado do intenso crescimento ur-
qualidade de saneamento, transporte e habitação. Em bano-industrial, observado nas décadas de 1960 a
nosso país, como naqueles em desenvolvimento, a 1990, a população urbana atingiu cerca de 115 mi-
magnitude desta dimensão ambiental e seus impac- lhões em 1990, isto é, enquanto a população total
tos na saúde são ainda relevantes, e sua superação é cresceu 2,5 vezes, o contingente urbano apresen-
um pré-requisito para que os direitos fundamentais tou um incremento de mais de 400% (Gonçalves,
de cidadania sejam atendidos. Estudo recente (Netto, 1995). De acordo com o IBGE, o Brasil soma hoje
2009) no prelo, demonstra que, de acordo com os 191.246.414 habitantes, dos quais 81%, ou seja,
dados oficiais, metade da população brasileira está, 154.879.428 habitantes estão concentrados em áre-
ainda hoje, submetida ao impacto do saneamento as urbanas (IBGE, 2009).
básico inadequado e de doenças a ele relacionadas, O crescimento acelerado das cidades brasilei-
expressando-se fortemente nos estados do Norte e ras tem resultado em uma configuração metropoli-
Nordeste. Entretanto, mostra-se presente também tana heterogênea, pois ao mesmo tempo que possi-
em diversos estados das demais regiões, denuncian- bilita o desenvolvimento de espaços urbanos ade-
do que o saneamento básico inadequado é ainda um quados, também se caracteriza pela dominante po-
problema de escala nacional que necessita ser en- breza urbana, onde a exclusão social e o desordena-
frentado prioritariamente. Estudo realizado na re- mento territorial têm ocasionado significativa mudan-
gião metropolitana de Salvador (Gense, 2008) evi- ça na sua estrutura interna, formação de anéis peri-
denciou o impacto positivo das intervenções no sa- féricos e expansão da bacia metropolitana. Essa con-
neamento básico sobre a redução da magnitude e figuração adquire feições caóticas diante da trama
dos riscos da diarreia infantil. tecida pela gestão urbana (Silva, 2001), materializa-
da nos assentamentos subnormais em situação
3. VULNERABILIDADE SOCIOAMBIENTAL RELACIO- fundiária não regularizada, em que o acesso à
NADA AO DESENVOLVIMENTO infraestrutura urbana é muito restrito e as instala-
ções sanitárias são precárias, assim como as condi-
A segunda dimensão de vulnerabilidade está re- ções da habitabilidade (Jacobi, 2000).
lacionada aos modelos prevalentes de crescimento eco- Utilizando dados oficiais (IBGE), a população
nômico, caracterizados em nosso país pela industriali- ocupante de assentamentos subnormais, apenas en-
zação acelerada, ocupação desordenada do solo e in- tre os anos de 1991 a 2000, cresceu 45% – aproxi-
tensa urbanização. Essa dimensão será abordada levan- madamente três vezes mais que a média de cresci-
do em consideração a cidade, o campo e a floresta. mento do País no período –, configurando o grande

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Netto, G. F. et al.

desafio para as políticas de planejamento e gestão no final do século passado, com a introdução massiva
urbana do Brasil. dos organismos geneticamente modificados. Esse
Somado a esse cenário, a elevada pressão processo de adoção de tecnologias trouxe sua es-
exercida pela expansão da tecnologia e seu consumo treita dependência aos derivados de petróleo utili-
em larga escala nas cidades é acompanhada por um zados como matérias-primas para fabricação de adu-
forte componente de poluição e contaminação bos e biocidas. No tempo que se processou uma in-
ambiental, resultando em crescente impacto aos tensa supressão das vegetações nativas, com
ecossistemas e numa vasta gama de exposição hu- consequente perda de biodiversidade, e a introdução
mana e agravos à saúde, sejam dos trabalhadores de espécies exóticas, observou-se também um pro-
diretamente vinculados aos processos produtivos cesso contínuo de exposição humana aos agrotóxicos.
correspondentes, bem como ao conjunto de gru- Concomitante ao modelo agrário acima des-
pos sociais direta ou indiretamente afetados, especi- crito, um conjunto de práticas alternativas coexiste
almente os grupos mais vulneráveis (Medeiros, 2009; no campo brasileiro. A agricultura orgânica de me-
Santos, 2008). nor escala tem demonstrado a possibilidade de mo-
delos sustentáveis entre a produção de alimentos,
b) Campo preservação ambiental e atenção à qualidade de
A hegemonia na expansão da fronteira agrícola vida humana, sendo que 50% a 70% da produção
na lógica do agronegócio, sedimentado historicamen- total dos alimentos orgânicos é exportada para
te na organização da produção agropecuária basea- diversos países.
da em monoculturas de larga escala e realizado em A agricultura familiar, constituída por peque-
extensas propriedades, tem impactado diretamente nos e médios produtores, representa a imensa mai-
nos diversos ecossistemas e comprometido a oria de produtores rurais no Brasil, que detém 20%
sustentabilidade dos processos produtivos. Esses das terras e responde por 30% da produção nacio-
processos de produção apresentam algumas carac- nal, chegando a ser responsável por 60% da produ-
terísticas comuns que determinam o funcionamento ção total de produtos básicos da dieta do brasileiro,
da vida econômica, social e cultural das populações como feijão, arroz, milho, hortaliças, mandioca e
dos seus territórios de influência: concentração da pequenos animais.
propriedade sobre a terra produtiva; extensiva utili- A organização sindical desses trabalhadores
zação de tecnologia substitutiva da mão de obra hu- vem estruturando projetos alternativos de desenvol-
mana; acelerado esgotamento da capacidade de su- vimento rural sustentável propondo novos tipos de
porte e renovação natural do solo; baixo nível de relações entre o campo e a cidade na perspectiva de
vínculo de trabalhadoras e trabalhadores e suas fa- um projeto de desenvolvimento que inclua a equidade
mílias à terra; precárias relações e condições de tra- de oportunidades, justiça social, preservação
balho; extensiva utilização de agrotóxicos e ambiental, soberania e segurança alimentar, e tam-
micronutrientes; e, sob a lógica da produtividade bém crescimento econômico (Contag, 2009).
máxima, a ampliação vertiginosa do uso de material Importantes movimentos de trabalhadores
biológico geneticamente modificado ou transgênicos. sem terra representam outra vertente econômica,
A chamada Revolução Verde iniciada na déca- social e política do campo, caracterizando-se pela
da de 60, na qual sementes, fertilizantes, agrotóxicos construção de um modelo de agricultura que priorize
e outros insumos compunham o pacote tecnológico a produção de alimentos e a distribuição de renda,
destinado à grande parte de agricultores, culminou, associado à construção de um projeto popular para

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Por um Movimento Nacional Ecossanitário

o Brasil baseado na justiça social, na valorização do totalizando aproximadamente 734 mil cidadãos
trabalho e na dignidade humana (MST, 2009). (IBGE, 2000), distribuídos em 614 territórios indí-
genas. Além dos povos indígenas, seringueiros, co-
c) Floresta letores de castanhas, trabalhadores agroextrativistas,
O processo histórico de uso e ocupação da açaizeiros, cupuaçueiros, quebradeiras de coco
terra no Brasil, a partir do litoral, favoreceu a quase babaçu, balateiros, piaçabeiros, integrantes de pro-
destruição das florestas litorâneas e a degradação jetos agroflorestais, ribeirinhos, extratores de óleos
significativa dos ecossistemas de manguezais. A con- e plantas medicinais estão distribuídos em oito esta-
tinuidade desse processo avançou em direção ao in- dos da Região Amazônica, compreendendo uma po-
terior do país, resultando na alteração de outros pulação estimada em dois milhões de pessoas, os quais
ecossistemas e na consequente diminuição do patri- somados à população indígena perfazem uma popula-
mônio natural, o que culminou no atual quadro de ção de cerca de três milhões de pessoas que vivem
intervenção nos diferentes biomas brasileiros. em função da economia das florestas (Brasil, 2009).
O Brasil possui a maior diversidade biológica A urbanização acelerada na Amazônia, associ-
mundial, associado a uma multiculturalidade que ada às deficiências das políticas públicas e dos inves-
incrementa essa biodiversidade. Em um conceito timentos relativos à ocupação do solo urbano, abas-
amplo de floresta, nos diferentes biomas brasileiros, tecimento de água, saneamento básico, geren-
existem tensões importantes entre a disputa de di- ciamento de resíduos sólidos e geração de empre-
versos interesses econômicos caracterizadas pela go, colocou milhões de pessoas em habitações insa-
forma de apropriação do patrimônio natural. lubres tanto nas áreas metropolitanas como nas ci-
Neste contexto, ressalta-se a importância da dades e vilas do interior. Ressalta-se que, na Amazô-
Floresta Amazônica como a maior floresta tropical nia, a salubridade, refletida na mortalidade infantil e
do planeta enquanto acervo de biodiversidade e base na esperança de vida, em geral, é maior nas áreas
de prestação de serviços ambientais para a estabili- rurais ou nas áreas mais remotas, onde há maior aces-
zação do clima global. O complexo ecológico so aos alimentos e à água e menor nível de contami-
transnacional é caracterizado principalmente pela nação, embora os serviços de saúde sejam menos
contiguidade da floresta, que, junto com o amplo sis- acessíveis. Em grande parte da macrorregião amazô-
tema fluvial amazônico, unifica vários subsistemas nica do Arco do Povoamento Adensado, como tam-
ecológicos distribuídos pelo Brasil e países vizinhos: bém em alguns pontos específicos da Amazônia Cen-
Guiana Francesa, Suriname, Guiana, Venezuela, Co- tral e da Amazônia Ocidental, observa-se amplo leque
lômbia, Equador, Peru e Bolívia. de danos ambientais, tais como perda de biodiversidade,
A Amazônia tem sido foco da atenção nacional assoreamento de rios e igarapés, poluição das águas,
e mundial no que diz respeito à natureza e à socieda- sedimentos e biota por mercúrio, alteração do ciclo
de. Alerta-se para os riscos de uma utilização preda- das chuvas, empobrecimento dos solos, poluição por
tória da base natural da região, que pode ameaçar pesticidas, poluição atmosférica por fumaça, esgota-
tudo o que se poderá obter, no presente e no futu- mento de estoques pesqueiros e extinção comercial
ro, de uma utilização mais qualificada de seus atribu- de espécies madeireiras valiosas.
tos naturais, culturais e locacionais, comprometen- Movimentos populares se articulam com o
do a intergeracionalidade do patrimônio genético e objetivo de lutar pela conservação da floresta, de-
cultural. Na condição de multiculturalidade, hoje, o mais biomas e ecossistemas nacionais associados à
Brasil conta com mais de 220 povos indígenas, melhoria da qualidade de vida das populações que

11
Netto, G. F. et al.

nela habitam, sob o paradigma da conservação da cado impactos e vulnerabilidades nos ecossistemas,
biodiversidade e do combate à pobreza. recursos hídricos, segurança alimentar, assentamentos
humanos e na saúde. Este processo é mediado pelo
4. VULNERABILIDADES RELACIONADAS À CRISE grau de desenvolvimento socioeconômico, governança,
AMBIENTAL GLOBAL incluindo padrões de produção e consumo, tecnologia,
educação, saúde, iniquidades, entre outros.
A terceira dimensão dos impactos socioam- Estima-se que os efeitos da mudança do clima
bientais relaciona-se às emergentes ameaças decor- na saúde afetarão a maioria das populações do planeta,
rentes dos fenômenos ambientais de escala global, pondo sob risco as vidas e o bem-estar de bilhões de
expressados principalmente pelo aquecimento glo- pessoas (Costello, 2009; Who, 2003). Estudos preli-
bal gerado pela mudança do clima (UNITED NA- minares apontam a necessidade de avanço no conheci-
TIONS Intergovernamental Panel on Climate Change, mento sobre os efeitos da mudança do clima na saúde
2008). De acordo com o modelo explicativo adota- no Brasil (Brasil, Ministério da Saúde, 2008) para atuar
do pelo IPCC, a excessiva concentração de gases de em seus componentes de mitigação e adaptação (Bra-
efeito estufa na atmosfera, gerada, sobretudo, dos sil, 2008). A vulnerabilidade socioambiental a esta di-
processos produtivos e de consumo a partir da in- mensão é crescente, necessitando ser mais bem co-
dustrialização, tem causado fenômenos como a ele- nhecida em nosso país.
vação da temperatura na terra, aumento do nível do A figura a seguir mostra um esquema simplifi-
mar, aumento das precipitações e intensificação dos cado das inter-relações entre as três dimensões an-
eventos extremos. Estes, por sua vez, têm intensifi- teriormente descritas.

Figura 1 – Inter-relação entre os três grupos de mudanças ambientais e seus potenciais


impactos que podem afetar grupos populacionais vulneráveis.

Fonte: Netto GF, Freitas. CM, Andahur JP, Pedroso MM, Rohlfs DB (2009).

12
Por um Movimento Nacional Ecossanitário

5. 1ª CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE princípios (...), destacando-se, a título deste traba-


AMBIENTAL, POLÍTICAS E SISTEMAS PÚBLICOS, lho, os incisos II – racionalização do uso do solo, do
MOVIMENTO ECOSSANITÁRIO E REDES subsolo, da água e do ar; V – controle e zoneamento
ECOSSANITÁRIAS das atividades potencial ou efetivamente poluidoras;
e, principalmente, o inciso X – educação ambiental a
Os contextos das vulnerabilidades acima des- todos os níveis de ensino, inclusive a educação da
critos têm sido objeto de preocupação no fortaleci- comunidade, objetivando capacitá-la para participa-
mento e na ampliação de políticas públicas voltadas ção ativa na defesa do meio ambiente. Lei n° 8080,
para a construção da cidadania, qualidade de vida e de 19 de setembro de 1990, que dispõe sobre as
territórios sustentáveis. De acordo com a Consti- condições para a promoção, proteção e recupera-
tuição Federal de 1.988, no Título III, Capítulo II, da ção da saúde, a organização e o funcionamento dos
União, Artigo 21, das competências da União, XIX serviços correspondentes e dá outras providências,
– instituir sistema nacional de gerenciamento de re- Artigo 3°: A saúde tem como fatores determinantes
cursos hídricos e definir critérios de outorga de di- e condicionantes, entre outros, a alimentação, a
reitos de seu uso; e XX – instituir diretrizes para o moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o
desenvolvimento urbano, inclusive habitação, sanea- trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer
mento básico e transportes urbanos. No Título VIII, e o acesso aos bens e serviços essenciais; os níveis
Capítulo II, da Seguridade Social, Seção II, da Saúde, de saúde da população expressam a organização so-
Artigo 200: Ao sistema único de saúde compete, cial e econômica do País. Lei n° 11.445, de 5 de ja-
além de outras atribuições, nos termos da lei: (...) IV neiro de 2007, que estabelece diretrizes nacionais
– participar da formulação da política e da execução para o saneamento básico (...) Capítulo I, incisos III
das ações de saneamento básico; (...) VIII – colabo- – abastecimento de água, esgotamento sanitário, lim-
rar na proteção do meio ambiente, nele compreen- peza urbana e manejo dos resíduos sólidos realiza-
dido o do trabalho. No Capítulo VI, do Meio Ambi- dos de formas adequadas à saúde pública e à prote-
ente, Artigo 225: Todos têm direito ao meio ambi- ção do meio ambiente; e VI – articulação com as
ente ecologicamente equilibrado, bem de uso co- políticas de desenvolvimento urbano e regional, de
mum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, habitação, de combate à pobreza e de sua
impondo-se ao poder público e à coletividade o de- erradicação, de proteção ambiental, de promoção
ver de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e da saúde e outras de relevante interesse social volta-
futuras gerações. das para a melhoria da qualidade de vida, para as
Esses artigos da Constituição são refletidos num quais o saneamento básico seja fator determinante.
conjunto de leis que evidenciam o caráter comple- Entretanto, a despeito do arcabouço legal que
mentar dessas responsabilidades, dentre as quais se aponta a necessidade de cooperação, sinergia e
destacam: Lei n° 6.938, de 31 de agosto de 1981, complementaridade dessas políticas, a fragmentação
da Política Nacional de Meio Ambiente, Art. 2°: A das ações do Estado, como reflexo de interesses es-
Política Nacional do Meio Ambiente tem por objeti- pecíficos que disputam hegemonia em seu interior e
vo a preservação, melhoria e recuperação da quali- de limitações de sua capacidade política, técnica e
dade ambiental propícia à vida, visando assegurar, no organizacional, em que pesem algumas iniciativas lo-
País, condições ao desenvolvimento socioeconômico, calizadas exitosas, não possibilita a estruturação “es-
aos interesses da segurança nacional e à proteção da pontânea” de planos e programas que orientem o
dignidade da vida humana, atendidos os seguintes enfrentamento sistêmico e intersetorial das priori-

13
Netto, G. F. et al.

dades relacionadas à vulnerabilidade socioambiental dos movimentos sociais, academia, poderes públi-
em nosso país. cos, parlamentares, empresariado. A 1ª CNSA po-
A necessidade histórica de enfrentamento e derá se constituir no ponto de partida de um amplo
superação dessas vulnerabilidades impôs que o de- movimento nacional ecossanitário, capaz de influen-
bate político público sobre a necessidade de cons- ciar decisivamente nas ações trans-setoriais e
trução de uma política nacional de saúde ambiental intersetoriais do Estado, para que se enfrentem os
fosse submetido à apreciação nas seguintes confe- problemas centrais de vulnerabilidade socioambiental
rências: 13ª Conferência Nacional de Saúde, 3ª Con- em nosso país.
ferência Nacional das Cidades e 3ª Conferência Na- Este movimento poderá ser calcado numa
cional de Meio Ambiente. A aprovação desta tese ampla base social constituída por redes ecossanitárias
apontou para a realização da 1ª Conferência Nacio- compostas de instituições e indivíduos originários dos
nal de Saúde Ambiental (1ª CNSA). diversos segmentos envolvidos nessa agenda, na pers-
Assim, nessa conjuntura específica, a 1ª CNSA pectiva da estruturação de territórios sustentáveis,
é uma oportunidade extraordinária para que a socie- intimamente vinculados ao fortalecimento da demo-
dade brasileira, representada pelos segmentos soci- cracia brasileira.
ais que se farão representar no processo das etapas
municipais, estaduais e nacional da conferência, cons-
trua coletivamente o seu entendimento e sua consci- Referências Bibliográficas
ência sobre as vulnerabilidades socioambientais das
diversas dimensões territoriais locais, regionais, es- BRASIL. 2008. Plano Amazônia Sustentável. Brasília: MMA.
taduais e nacional, e a identificação de diretrizes que
BRASIL. 2008. Plano Nacional Sobre Mudança do Clima.
subsidiem políticas públicas voltadas à sustentabili-
Brasília: MMA.
dade socioambiental na perspectiva da saúde am-
biental. É também uma ocasião apropriada para que BRASIL. Ministério da Saúde. 2008. Mudanças climáticas e
ambientais e seus efeitos na saúde: cenários e incertezas para
iniciativas e experiências bem-sucedidas possam
o Brasil. Brasília: Organização Pan-Americana de Saúde.
ser demonstradas.
A construção da política nacional de saúde COSTELLO A, M. A. Managing the health effects of climate
ambiental deve ser compreendida como um espaço change. <www.thelancet.com> v. 373,may 16, 2009, pp.

transversal de fortalecimento das múltiplas interfaces 1693–1733.

entre as políticas e sistemas setoriais que atuam na FREITAS CM, P. M. Saúde, Ambiente e Sustentabilidade. Rio
superação das vulnerabilidades aqui identificadas. Tra- de Janeiro: Fiocruz, 2006.
ta-se, portanto, não de criar um sistema específico,
GENSE B, S. A. Impact of a city-wide sanitation intervention
o que careceria de fundamentação legal e de in a large urban centre on social, environmental and
legitimação política, mas, sim, de aportar conheci- behavioural determinants of childhood diarrhoea: analysis
mento, metodologias, instrumentos e ferramentas of two cohort studies. International Journal of Epidemiology,
que auxiliem a sinergia de ações dos setores direta- 2008 37(4) , 831-840, 2008.
mente mais envolvidos: meio ambiente, cidades, saú- IBGE. Censo Demográfico 2000, IBGE, Rio de Janeiro, 2002.
de, educação, trabalho e desenvolvimento agrário.
MEDEIROS AP, G. N. Traffic-related air pollution and perinatal
O pleno desenvolvimento dessa complexa
mortality: a case-control study. Environmental Health
agenda exigirá a estruturação de uma plataforma
Perspectives, v. 117 , pp. 127-132, 2009.
política que envolva os atores sociais estratégicos,

14
Por um Movimento Nacional Ecossanitário

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Comissão Nacional Sobre os WOODWARD D, D. R. Globalization and health: a


Determinantes Sociais da Saúde. As causas sociais das framework for action. Bulletin of the World Health Organization,
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towards an estimate of the environmental burden of disease.
Genebra: OMS, 2007.

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integrarmos o local ao global na promoção da saúde e da justiça
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London - Sterling VA: Earthscan, 2008.

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Change. Climate Change 2007 - Synthesis Report. Valencia:
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responses. Summary. Geneve: WHO, 2003.

WHO. Decision Making in Environmental Health. Cornwall:


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environments. Kobe: WHO, 2005.

15
Netto, G. F. & Alonzo, H. G. A.

Notas sobre a Governança da Saúde Ambiental no Brasil

Guilherme Franco Netto1


Herling Gregorio Aguilar Alonzo2

1
Médico, Mestre em Saúde Pública, Doutor em Epidemiologia, Pós-
Doutorando em Medicina Social, Departamento de Medicina Preventi-
va e Social, Faculdade de Ciências Médicas, Unicamp. Diretor do
Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalha-
dor, Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde.
2
Departamento de Medicina Preventiva e Social/FCM/Unicamp.

Desde as suas origens até finais dos anos 70 mineral e da industrialização, além da poluição at-
do século passado, os conceitos da saúde ambiental mosférica dos grandes centros urbanos e, sazonal-
no Brasil prevaleciam vinculados ao saneamento bá- mente, em grandes regiões do País em decorrência
sico, dirigidos essencialmente ao desenvolvimento das queimadas. Com base no ponto de vista da pro-
de ciência e tecnologia, formação de recursos hu- dução de conhecimento para o enfrentamento des-
manos e ao fortalecimento institucional, voltados para sas situações, emergem núcleos acadêmicos que es-
o aporte de serviços de água, esgotamento sanitá- tabelecem um novo olhar teórico sobre a saúde
rio, manejo de resíduos sólidos urbanos e de drena- ambiental, incorporando conceitos sobre sistemas
gem. Esse movimento histórico mostrou-se essen- complexos, avaliação de risco à saúde relacionado à
cial para contribuir com a infraestrutura das peque- exposição química e impactos ambientais etc. No
nas e médias cidades brasileiras, e, ainda, atualizar-se âmbito do Ministério da Saúde, estruturam-se os
para cooperar com os serviços básicos da moderna primeiros programas e serviços direcionados para
urbanização – fenômeno que, em larga escala, se pro- essa nova condição; estávamos em meados da déca-
cessou no país a partir do modelo de desenvolvi- da de 80 do século passado.
mento industrial e dos serviços urbanos. Sob o marco da Conferência das Nações Uni-
Sobreveio a estruturação dos grandes pólos das para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, a
industriais, incluindo a expansão da indústria petro- “Cimeira da Terra”, realizada em 1992 no Rio de Ja-
leira e petroquímica e a expansão das fronteiras agrí- neiro, a saúde ambiental brasileira estabeleceu a ori-
colas, que trouxeram novas questões à saúde públi- gem e as bases de sua plataforma técnica e política
ca brasileira: preocupações com a contaminação dos contemporânea. Esse processo se “forjou”, vale di-
mananciais aquíferos, exposição humana a agrotóxicos zer, sob a influência de dois fenômenos que, embora
e outros produtos químicos derivados da extração de origens distintas, a ela contribuíram simultânea-

16
Notas sobre a Governança da Saúde Ambiental no Brasil

mente: a diretriz da Organização Pan-Americana de tral o fortalecimento da CGVAM, essa rede envol-
Saúde (Opas) – por meio do então Centro Pan-Ame- veu a Opas, exercendo fundamental influência para
ricano de Ecologia Humana e Saúde (ECO) –, sediada que a saúde ambiental estivesse no centro da agenda
no México, voltada para o desenvolvimento de es- dos dirigentes do SUS; o Grupo Temático de Saúde
quemas de apoio aos Países Membros para a forma- e Ambiente da Associação Brasileira de Pós-Gradu-
ção de recursos humanos, de ciência e tecnologia, e ação em Saúde Coletiva (GTSA-Abrasco), reunindo
de criação de serviços públicos e de centros cola- grande parte da “elite” dos intelectuais dedicados à
boradores e de referência em saúde ambiental, saúde ambiental; a Fundação Oswaldo Cruz
objetivando o enfrentamento dos novos riscos à saú- (Fiocruz), guardando enorme capacidade de produ-
de relacionados à poluição ambiental e derivados da ção de ciência e tecnologia e formação de pessoal
industrialização e urbanização da América Latina; e, em saúde ambiental; e a Comissão Intersetorial de
a institucionalização do Sistema Único de Saúde (SUS) Saneamento e Meio Ambiente do Conselho Nacio-
no Brasil, mecanismo que abriu condições para a nal de Saúde (Cisama), que, integrante do Conselho
organização de serviços de saúde no agir sobre o Nacional de Saúde, reúne o conjunto das instituições
meio ambiente, na condição de elemento integrante de governo e da sociedade interessados em políti-
da determinação social da saúde e vinculado à pro- cas públicas de interface com a saúde ambiental.
moção da saúde. Nesse contexto, o decisivo Essa coordenação de agendas renovou a pla-
envolvimento político do País na Conferência Pan- taforma política da saúde ambiental estabelecida em
Americana de Saúde, Meio Ambiente e Desenvolvi- torno da Rio 92, e, mais importante, materializou-a
mento (Copasad), realizada pela OPAS em Washing- em diversos aspectos. Demonstrando vontade polí-
ton no ano de 1995, resultou na introdução do con- tica, competência técnica-científica e capacidade
ceito de desenvolvimento sustentável na saúde pú- institucional, a rede arquitetou um projeto que, no
blica brasileira, contribuindo para que novos arran- tempo de atualizar-se na agenda internacional – a sa-
jos institucionais fossem estabelecidos, a fim de que ber, a inserção do campo da saúde brasileira na com-
a saúde fizesse frente aos desafios apresentados pela plexa agenda da sustentabilidade ambiental global e
crise ambiental global. regional – comprometeu-se por construir a sua di-
O Ministério da Saúde, por meio do Centro mensão operacional no tecido do Estado e da socie-
Nacional de Epidemiologia, vinculado então à Funda- dade brasileira, desde o nivel nacional ao local, inclu-
ção Nacional de Saúde, contando com recursos fi- indo a singularidade dos seus sujeitos.
nanceiros de empréstimo do Banco Mundial, conce- A estruturação da vigilância em saúde ambiental
beu, em 1997, o Projeto Vigisus, voltado ao fortale- no âmbito das esferas federal, estadual e municipal
cimento da vigilância em saúde no SUS. A concep- do SUS vem possibilitando a expansão de ações so-
ção do projeto criou condições institucionais para bre os determinantes ambientais da saúde. A ten-
formalizar a Coordenação Geral de Vigilância Ambien- dência à universalização da vigilância da qualidade da
tal em Saúde (CGVAM) como espaço para articular água para consumo humano, o desenvolvimento de
a saúde ambiental no país. protocolos de acompanhamento de populações ex-
A partir do início da década de 2000, esse ca- postas à mais de 2.000 áreas contaminadas, a identi-
minho permitiu condições para a coordenação es- ficação de populações vulneráveis às áreas suscetí-
tratégica de agendas de distintos núcleos institucionais veis à poluição atmosférica, a estruturação da capa-
comprometidos com a estruturação de um projeto cidade de preparação e resposta do setor saúde aos
orgânico da saúde ambiental. Tendo como eixo cen- desastres são manifestações concretas de ações da

17
Netto, G. F. & Alonzo, H. G. A.

saúde ambiental. Soma-se a estas um conjunto emer- descentralizada do SUS possibilitam para que estes es-
gente de iniciativas direcionadas à participação do quemas intersetoriais de planejamento e ação sobre os
setor saúde nos mecanismos de licenciamento determinantes ambientais da saúde sejam reproduzi-
ambiental e avaliação de impacto na saúde relaciona- dos e adaptados nas esferas estaduais e municipais.
dos a políticas e projetos de desenvolvimento, pro- No tempo que, no ano de 2009, a saúde am-
gramas de desenvolvimento de espaços, municípios biental brasileira adquire reconhecimento institucional
e cidades saudáveis, e coordenação de políticas e diferenciado na estrututura do Ministério da Saúde,
ações que possibilitem a participação do setor saú- como Departamento de Vigilância em Saúde
de na agenda nacional voltada à mudança do clima. O Ambiental e de Saúde do Trabalhador no âmbito da
desenvolvimento de recursos humanos, por meio Secretaria de Vigilância em Saúde, e fazendo-se re-
de programas de pós-graduação e cursos de curta presentar em todos os estados e capitais do País, há
duração, e uma firme política de produção, análise e ainda importantes desafios na sua construção, com
disseminação de informação são elementos estrutu- destaque para o estabelecimento de uma agenda
rantes da saúde ambiental no SUS. política intersetorial voltada para a sustentabilidade
A ação sobre os determinantes ambientais da socioambiental que, progressivamente, adquira com-
saúde implica também a estruturação de uma agen- petência para se antecipar, prevenir e agir sobre o
da estratégica intersetorial e transversal com os se- conjunto de aspectos de saúde e ambiente, princi-
tores que são responsáveis por políticas e progra- palmente, o déficit de saneamento básico, a deterio-
mas correspondentes. Neste sentido, o Ministério ração e poluição ambiental decorrente da industriali-
da Saúde vem qualificando progressivamente sua zação, o agronegócio, o turismo predatório e aque-
participação num conjunto de fóruns colegiados, tais les da crise ambiental global. A saúde ambiental deve
como o Conselho Nacional de Meio Ambiente articular, sobretudo, o sistema nacional de saúde, o
(Conama), responsável pela regulação da política na- sistema nacional de meio ambiente, o estatuto da ci-
cional de meio ambiente; o Conselho Nacional de dade (responsável pelo saneamento básico e a
Recursos Hídricos (CNRH), responsável pela políti- infraestrutura urbana) e suas políticas, identificando
ca nacional de recursos hídricos; o Conselho Nacio- programas e planos que possam ser desenvolvidos
nal das cidades (Concidades), responsável pela conjuntamente. Também, deve considerar as políti-
implementação e monitoramento da política nacio- cas de outros setores e a atuação com os movimen-
nal de saneamento, habitação e transportes; o Con- tos sociais do campo, da floresta e da cidade. Ainda,
selho Nacional de Defesa Civil (Condec), responsá- a saúde ambiental deve se integrar ao projeto
vel por acompanhar a execução da política nacional civilizatório ampliado de garantia intergeracional dos
de defesa civil; o Conselho Nacional de Proteção direitos dos cidadãos a uma vida sustentável, desafio
Nuclear (Copron), responsável por acompanhar o maior que se apresenta à sociedade contemporânea.
Sistema Nacional de Proteção Nuclear; o Conselho Decorrem daí outras agendas. Em certo grau,
Nacional da Agenda 21, responsável pelo acompa- a sociedade brasileira tem estabelecido mecanismos
nhamento da implantação da Agenda 21 no país. Ou- de participação na construção de políticas públicas,
tras iniciativas relevantes têm possibilitado o desen- aprimorando seu papel na gestão e controle do mo-
volvimento de ações intersetoriais, aqui exemplifica- derno estado democrático brasileiro, fundado a par-
das no “Programa de planejamento e prevenção de tir da Constituição Federal promulgada em 1988.
resposta rápida de acidentes tecnológicos e por pro- Associados ao fortalecimento das políticas setoriais,
dutos perigosos” (P2R2). As diretrizes e a gestão estabeleceram-se conselhos, e, na condição de me-

18
Notas sobre a Governança da Saúde Ambiental no Brasil

canismos superiores de consultas da sociedade, as


conferências públicas. Estes são mecanismos que
envolvem a participação direta de significativas par-
celas dos setores representantes da sociedade bra-
sileira na formulação e acompamhamento de políti-
cas públicas. As últimas conferências nacionais de
saúde, de meio ambiente e das cidades deliberaram
sobre a necessidade de realizar uma conferência de
Saúde Ambiental no país. O presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, por meio de Decreto publicado em 15
de maio de 2009, convoca a 1ª Conferência Nacional
de Saúde Ambiental (CNSA) para dezembro de 2009,
em Brasília, precedida de conferências municipais e
estaduais com o objetivo de definir diretrizes para
uma política de saúde ambiental no país.
Sem dúvida, a 1ª CNSA abre possibilidades para
que a sociedade brasileira realize um debate nacional
sobre a saúde ambiental no Brasil, tornando-a mais
participativa, multisetorial, pujante e politicamente
comprometida com a transformação das vulnerabili-
dades socioambientais em territórios sustentáveis.

19
Augusto, L. G. da S. & Moises, M.

Conceito de Ambiente e suas Implicações para a Saúde

Lia Giraldo da Silva Augusto1


Márcia Moises2

1
Médica. Pesquisadora Titular do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães
da Fiocruz – Recife, Pernambuco.
2
Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca,
Fundação Oswaldo Cruz.

A saúde para Canguilhem (1962) é uma quali- frentar nossas dificuldades e nossos compromissos”
dade fundamental do ser humano. Este vive em um (Breilh, 2006).
contexto em que, simultaneamente, é um ser bioló- Quanto às dimensões da saúde: a biológica
gico, social, pleno de emoções e de conhecimento. corresponde às condições da reprodução da pró-
Reconhecer isso é fazer interagir campos disciplina- pria espécie com qualidade; a social diz respeito à
res cujas tradições científicas modernas e seus obje- capacidade de transformação coletiva em seus as-
tos de estudo situam-se muito distantes. A saúde pectos naturais, sociais e simbólicos; a psicológica é
possui diferentes dimensões, que são interdepen- aquela da subjetividade, da afetividade e da percep-
dentes e interagem de modo permanente em cons- ção sobre o bem-estar; a “racional” repousa sobre a
tante tensão. capacidade reflexiva do ser humano, que diz respei-
Falar de saúde como o conjunto dos poderes to à conduta e a consciência tendo em vista compre-
que nos permite viver sob a imposição do meio – ender e mudar a condição da existência humana; e a
como mencionado por Canguilhem (1962) – impli- ambiental que adquire novos significados na amplia-
ca que as intervenções em saúde necessitam se ori- ção do conceito de saúde, permitindo ao ser huma-
entar, não apenas a fim de impedir a doença, mas no uma melhor adaptação ao meio em que está inse-
também prover meios para que os indivíduos e gru- rido. Em síntese, como nos apresenta Tambellini e
pos possam, ao adoecer, recuperar-se. Dessa for- Câmara (1998), a saúde como um bem em si, como
ma, adotando essa visão, as intervenções em saúde um valor humano desejado, é um ideal a ser alcança-
poderiam se orientar para ampliar ao máximo a mar- do sempre.
gem de segurança e as possibilidades dos indivíduos Como uma condição fundamental ao desen-
para lidarem com as infidelidades do meio. “Pode- volvimento individual e coletivo do ser humano, a
mos falar de saúde quando temos os meios para en- saúde é interdependente das complexas relações da

20
Conceito de Ambiente e suas Implicações para a Saúde

práxis do viver em sociedade, que comporta dimen- No campo do setor saúde, o ambiente é usu-
sões bio-psico-eco-social historicamente determina- almente entendido como algo externo ao sujeito,
das e mediadas pela linguagem, pela cultura, pela reforçando a visão fatalista dos problemas que são
política, pela técnica, pelos processos econômicos e emanados de um contexto socioambiental sobre o
da produção (Tambellini, 2003). qual não temos acesso e que ideologicamente é re-
Para uma abordagem do processo saúde – forçado para a manutenção do status quo. Quer em
doença – cuidado, além da compreensão da sua de- relação à exploração ilimitada da natureza, quer da
terminação social, é necessário internalizar o con- exploração humana, na produção de riquezas e na
ceito de ambiente e compreender que este é tam- acumulação do capital. É preciso, pois, “desnatura-
bém socialmente determinado (Tambellini, 2003), lizar” o conceito de ambiente (retirar o caráter me-
consistindo em processos hipercomplexos. ramente determinístico da biologia) e compreender
Para Garcia (1986), tradicionalmente na saú- a questão ambiental como uma questão social
de, o ambiente é visto como uma dimensão externa (Tambellini, 2003).
ao homem. Uma visão antropocêntrica que o colo- Assim como a saúde, o ambiente é um campo
ca em uma relação desmedida de expropriação da de problematização do conhecimento, que não se
natureza, ao não considerar-se parte dela (Augusto resolve mais dentro dos paradigmas tradicionais das
et al., 2005). ciências, adquirindo novos significados e com dimen-
Morin (1987) genialmente aponta que o ser sões ampliadas.
humano é 100% natureza e 100% cultura. Esta for- As doenças mediadas pela presença de vetores;
mulação é de suma importância para a compreensão pela deficiência ou falta de saneamento; pela ocupa-
da relação da saúde com o contexto e as circunstân- ção do solo sem a infraestrutura adequada; pela ex-
cias da vida humana. posição a radiações ionizantes; pela exposição hu-
Milton Santos, em sua geografia crítica, nos con- mana a substâncias químicas utilizadas nos alimen-
duz a reconhecer o ambiente como um espaço de tos, na agricultura, no controle de vetores pela saú-
desenvolvimento humano e, portanto, o lugar das rela- de pública; decorrentes da poluição industrial; dos
ções humanas e da construção social (Santos, 2002). desastres naturais e das tecnologias são testemunhas
Ambiente, quando tratado como algo exter- (indicadores) de uma crise civilizatória em que está
no, reportando-se a Lieber (1998), é “tudo aquilo inserida também a crise ambiental.
que importa, mas sobre o qual não se tem contro- Na atualidade, a perda de qualidade e o esgota-
le”. O processo saúde-doença como observado é mento de elementos da natureza que são essenciais à
uma dinâmica de relações de interdependência en- vida, como a água, o solo, o ar e a biodiversidade, tor-
tre os elementos do sistema, que cria toda uma es- nam os problemas de saúde muito mais incertos do
trutura, definindo o que é interno (ordenado e so- ponto de vista de seus desdobramentos sociais, políti-
bre o qual se tem controle) e o que é externo (não cos, econômicos, culturais, psicológicos e ecológicos.
ordenado e sem controle) ao sistema (Lieber, 1998). O crescimento rápido e pouco planejado dos
Para superar a visão fatalista do ambiente é centros urbanos, aliado aos avanços tecnológicos e
preciso internalizá-lo ao sistema operativo, constru- às mudanças estruturais globais resultou em novas
indo-se relações de interdependência entre os formas de produção e ocupação territorial, consoli-
determinantes sociais e ambientais da saúde, para que dando mudanças nos hábitos da população e criando
se possam estabelecer mudanças em favor da quali- novos padrões de consumo (Augusto et al., 2003).
dade de vida.

21
Augusto, L. G. da S. & Moises, M.

Câmara e Tambellini (2003) registram que, no A questão ambiental problematiza as próprias


Brasil, o tema da Saúde Ambiental vem incorporan- bases da modernidade e aponta para construção de
do o saneamento, a água para consumo humano, a futuros possíveis, fundados nos limites das leis da
poluição química, a pobreza, a equidade, o estresse natureza, nos potenciais ecológicos, na produção de
e a violência como situações de risco para a saúde. sentidos sociais e na criatividade humana (Contan-
Também ressaltaram a necessidade urgente de um driopoulos, 2006; Starfield, 2007; Augusto et al.,
desenvolvimento sustentável para o seu enfrenta- 2005).
mento, que passa pela preservação dos ambientes O modelo de desenvolvimento sob o qual
salubres para as gerações futuras. O ambiente é um estamos vivendo condiciona as relações sociais e
conceito inseparável da saúde e define um campo econômicas e acentua os riscos para a saúde e o
próprio para a Saúde Pública. ambiente. A maior implicação desses fatos é o pro-
A degradação ambiental manifesta-se como cesso de intensa degradação ambiental vivenciado por
sintoma de uma crise de civilização, marcada pelo nós, o qual tem consequências diretas sobre as con-
predomínio do desenvolvimento da razão tecnológica dições de saúde das populações e a qualidade da vida.
(Beck, 1992; Foucault, 1999). Ideia reforçada por Vivemos, hoje, um momento em que as influ-
Leff (2006), que faz referência à problemática ências do meio ambiente na saúde vêm merecendo
ambiental como sendo a poluição e degradação do preocupação crescente. O Brasil, apesar da sua ex-
meio, a crise de recursos naturais, energéticos e de traordinária biodiversidade e do enorme potencial
alimentos que surgiram nas últimas décadas do sé- instalado para desenvolver ações integradas na
culo XX, que é, na verdade, uma crise da civilização. temática do ambiente, não tem ainda atribuído, do
E aponta como resultante da pressão exercida pelo ponto de vista programático, a prioridade que o tema
efeito da acumulação de capital em grandes conglo- merece, ou, quando atua, muitas vezes o faz em pro-
merados econômicos. cessos contraditórios, opondo políticas públicas
Augusto et al. (2005) corroboram com a aná- entre si.
lise de que a crise ambiental, hoje verificada, foi Ampliar o conceito de ambiente e compreen-
provocada pelas seguidas revoluções científico- der que este é socialmente determinado é uma ne-
tecnológicas e pela nova ordem econômica mundial. cessidade para a abordagem complexa do processo
Incluindo, nessa análise, a questão da transferência saúde – doença – cuidado, (Câmara e Tambellini,
de riscos dos países e zonas mais desenvolvidas para 2003). Assim, o ambiente deixa de ser apenas uma
outras de menor desenvolvimento, com fragilidades dimensão externa ao homem, passando para uma
sociais e políticas, as quais apresentam diferentes condição de interdependência e interdefinibilidade das
modos de exploração da natureza e profundas desi- demais dimensões da vida do ser humano (Câmara e
gualdades no acesso aos bens dela decorrentes. Tambellini, 2003).
Enfatizando ainda que os danos produzidos por esse Dentre as características dos sistemas
processo exijem um novo campo de conhecimento socioecológicos ou ecossistêmicos que determinam
no âmbito da saúde, o qual vem sendo denominado o processo saúde-doença estão: a) a organização hi-
de Saúde Ambiental e que, por sua complexidade, erárquica dos componentes sociais - culturais, psí-
requer a interdisciplinaridade e a intersetorialidade quicos, biológicos, físico e químicos (Samaja, 2002);
como elementos essenciais de sua abordagem. b) o ser humano como um animal sociopolítico do-
tado de capacidade reflexiva e de afetividade (neste
sentido, só o humano é capaz de reconciliar-se com

22
Conceito de Ambiente e suas Implicações para a Saúde

a natureza e intervir nos processos de degradação A discussão em torno do desenvolvimento e do


ambiental em favor da própria natureza) (Câmara e ambiente vem constituindo uma nova forma de pensar
Tambellini, 2003; Camguilhem, 1992; Morin, 2001); e um repensar nos fundamentos da ética, da cultura, da
c) a relação de interdependência entre as lógicas da ciência e da economia. Diversas agendas vêm sendo
natureza e da sociedade (Câmara e Tambellini, 2003; construídas, nacional e internacionalmente, de forma
Morin, 1987); e d) a multidisciplinaridade; a interdisci- conflitante, mas que abrem espaços para a edificação
plinaridade e a transdiciplinaridade para dar conta da de processos sustentáveis de desenvolvimento.
alta complexidade e das incertezas neles contidas Todo esse movimento tem como consequência
(Câmara e Tambellini, 2003). uma cultura em que o homem sinta prazer em pre-
Para intervir no processo saúde-doença-cui- servar e promover mudanças que, com o passar do
dado, na perspectiva de transformação dos contex- tempo, se interiorizarão no seu espírito de tal forma
tos socioambientais e das condições nocivas à saú- que suas ações se tornarão harmônicas, integradas
de, em favor de sua promoção, proteção e recupe- à natureza.
ração, é necessário mobilizar saberes e práticas de O homem passaria a ver, de forma holística e
forma integrada (Garcia, 1994; Augusto et al., 2005; sistêmica, toda problemática ecológica. Reencontrar-
Beck, 1986; Contandriopoulos, 2006). se-ia com a natureza e se veria um ser da natureza.
Esses saberes, mobilizados em toda sua A construção de uma visão de mundo mais in-
globalidade, devem ser dirigidos à transformação das tegrada, mais humana vem contribuindo com práti-
condições nocivas socioambientais, tendo em vista a cas intersetoriais, interdisciplinares e participativas
promoção, proteção e recuperação da saúde, con- (ecossistêmica) no campo da saúde coletiva.
siderando os contextos socioculturais locais (Garcia, A tríade saúde, território/ambiente e desenvol-
1994; Augusto et al., 2005; Beck, 1986; Contan- vimento formam uma conexão que deve ser contem-
driopoulos, 2006). plada pela saúde pública ao introduzir o conceito de
O ambiente, como uma visão das relações território/ambiente socialmente construído, no qual se
complexas e sinérgicas gerada pela articulação dos considera todo o conjunto de componentes materiais,
processos de ordem física, biológica, econômica, paisagens e seres vivos em profunda inter-relação.
política e cultural, é um outro modo de compreen- A Constituição Federal do Brasil de 1988, art.
der o território (Leff, 1998). O ambiente, assim per- 225, assegura, para todos os seus habitantes, o di-
cebido, deixa de ser apenas uma dimensão externa reito a um ambiente saudável (Brasil, Constituição
ao homem, passando para uma condição de Federal do Brasil, 1988).
interdependência das demais dimensões da vida do Nossa tarefa, agora, é transformar este pre-
ser humano (Câmara e Tambellini, 2003). ceito e direito constitucional em práticas efetivas das
A partir da década de 70, quando a crise políticas públicas, especialmente de saúde, de ambi-
ambiental já era explícita, a palavra “desenvolvimento” ente, de urbanismo, de trabalho, de educação entre
passou a ganhar outras conotações. Sustentabilidade outras, em ações integradas de promoção e prote-
passou a significar proteção e compromisso em evitar ção da vida.
a ruína das condições ambientais no presente e no futu-
ro (Porto, 1998). A sustentabilidade do desenvolvimen-
to é o reconhecimento da necessidade de mudança no
modelo de desenvolvimento atual das sociedades, com
proteção dos ambientes e da saúde das populações.

23
Augusto, L. G. da S. & Moises, M.

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24
Saúde no Campo

Saúde no Campo

Tarcísio Márcio Magalhães Pinheiro1


Jandira Maciel da Silva2
Fernando Ferreira Carneiro3
Horácio Pereira de Faria1
Eliane Novato Silva4
1
Departamento de Medicina Preventiva e Social/Fac. Medicina /UFMG.
2
Assessoria de Vigilância em Saúde do Trabalhador/SESMG.
3
Disc. Epidemiologia e Saúde, Ambiente, Trabalho, Fac. Ceilândia /UnB.
4
Coordenadora do GESTRU – Grupo de Estudos Sobre Saúde e Trabalho
Rural /Dep. de Bioquímica e Imunologia – ICB/ UFMG.

1. INTRODUÇÃO ção, proteção e recuperação” (Brasil,1966). Falar


em saúde no campo tanto do ponto de vista humano
Os objetivos principais deste texto são: a) tra- quanto ambiental significa falar de determinantes, ris-
çar um cenário do meio rural e sua relação com a cos, agravos, atenção, promoção e vida numa pers-
saúde b) apontar questões para um debate na 1ª pectiva justa. Saúde deve ser vista como um proces-
Conferência Nacional de Saúde Ambiental a ser rea- so histórico de luta coletiva e individual, que expres-
lizada em dezembro de 2009. Embora este texto sa uma conquista social dos povos de um determi-
enfoque mais especificamente a questão do campo nado território.
(rural), é necessário, inicialmente, frisar que parti-
mos do entendimento de que a dimensão rural é 2. CONTEXTUALIZAÇÃO E PROBLEMATIZAÇÃO
interdependente da questão urbana como se ambas
fossem as duas faces de uma mesma moeda, ou, em Vivemos um momento particular e simbólico
outras palavras, tanto a questão rural como a urbana em que, pela primeira vez, a população urbana glo-
estão submetidas a uma mesma lógica de produção bal suplantou numericamente a população rural.
e de reprodução social, ainda que com característi- Como veremos a seguir, o Brasil não é exceção nes-
cas desiguais e heterogêneas. Partiremos também te movimento geral. Poderíamos de antemão levan-
do conceito ampliado de direito à saúde, expresso tar algumas questões:
na Constituição Federal de 1988: “A saúde é um di-
reito de todos e dever do Estado, garantido medi- Seria esta uma tendência inexorável e

ante políticas sociais e econômicas que visem à re- irreversível na trajetória da humanidade?

dução do risco de doença e outros agravos e ao aces- Isto significaria que a opção pelo modo
so igualitário às ações e serviços para sua promo- de viver urbano é qualitativamente su-

25
Pinheiro, T. M. M. et al.

perior e mais viável que o rural? Urbano agrotóxicos), diminuição do emprego da força de
é sinal de avanço, de modernidade? trabalho, expansão da fronteira agrícola, ênfase na
monocultura, desmatamentos, queimadas, danos
Por que e como está ocorrendo esta
ambientais intensos e descontrolados (Silva et al.,
migração do rural para o urbano?
2005; Pignati et al., 2007).
Quais seriam os impactos desta mudan- Segundo Delgado (2001), a “modernização
ça demográfica? conservadora” da agricultura brasileira significou a
intensificação dos investimentos de capital no cam-
Como está hoje a vida, o ambiente e o
po, mas manteve, ou até concentrou ainda mais, a
trabalho no campo?
propriedade da terra no Brasil. Essa modernização
Se existem, quais seriam as particulari- também levou à precarização das relações de traba-
dades da saúde no campo? lho, bem como a elevação dos riscos socioambientais
vinculados às atividades desse setor (Miranda et al.,
Quais seriam os eixos principais e as pri-
2007; Soares e Porto, 2007). Além do impacto na
oridades das políticas públicas para o
saúde humana, autores como Breilh (2004) também
meio rural?
analisam como as práticas predatórias desse mode-
As respostas não são fáceis nem estão pronta- lo têm atingido gravemente os ecossistemas, colo-
mente dadas. Demógrafos, sociólogos, historiado- cando em risco a vida no planeta.
res, economistas, antropólogos, tecnólogos, profis- De acordo com o último censo demográfico
sionais da saúde, trabalhadores, sindicatos, gover- do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
nos, empresários e tantos outros têm estabelecido (IBGE), em 2000, a população brasileira atingiu
diversas discussões e consensos/dissensos acerca 169.590.693 habitantes, dos quais 31.835.143 resi-
dessas questões. Conflitos e polêmicas à parte, ain- diam na área rural. Ainda segundo o IBGE, o percentual
da é cedo para obtermos respostas precisas, mas de população rural vem progressivamente diminuin-
um fato é inquestionável: um contingente importan- do ao longo das últimas décadas (Quadro 1). Em 1950,
te da população mundial opta e/ou depende do es- a população rural representava 63,84% do total e,
paço rural para viver, trabalhar e suprir as demandas em 2000, esse percentual foi reduzido a 18,77.
vitais para a própria humanidade. Embora se possam questionar alguns aspec-
O fenômeno da urbanização acelerada, asso- tos metodológicos para o cálculo dessas estatísti-
ciado ao aumento populacional, já vinha se expres- cas, não se pode ignorar esse fenômeno de mudança
sando no cenário brasileiro desde o início da segun- demográfica acelerada e seus possíveis impactos na
da metade do século passado, notadamente a partir vida e na saúde das pessoas, bem como ao meio
dos anos 60-70. Naquele momento, o Brasil passou ambiente e aos seus ecossistemas (Veiga, 2002).
a viver o chamado “milagre econômico”, que, no
campo, significou um avanço das relações capitalis-
tas, com intenso processo de modificação das rela-
ções e do processo de trabalho, associado à forte
componente repressivo aos direitos dos cidadãos e
aos movimentos sociais. Passou a ocorrer, então, um
processo de intensa mecanização, utilização de
agroquímicos (dentre os quais se incluem os

26
Saúde no Campo

Quadro 1 – Distribuição da população segundo área rural ou urbana, Brasil, 1950-2000.

Fonte: IBGE (2009).

Por sua vez, os dados acima apresentados, mo do país em termos de saúde, ambiente, traba-
quando aprofundados, desagregados e detalhados, lho e vida?
evidenciam uma distribuição com enorme desigual- As diferenças são significativas, e não aleatórias,
dade regional e também social. Apenas a título de e precisam ser consideradas para a implementação das
exemplo do potencial de análise, a população rural políticas públicas em geral e de saúde em especial.
do Estado do Rio de Janeiro representava 3,96%
do total da população daquele estado em 2000, ao 3. COMPARANDO OS CENÁRIOS RURAL E URBANO
passo que, no outro extremo, o segmento rural re- NO BRASIL
presentava 40,49% da população do Maranhão
(IBGE, 2000). O que faz com que o Maranhão seja A realidade social não se traduz ou se explica ape-
tão diferente do Rio de Janeiro? Quais as espe- nas em números e estatísticas. Todavia, mesmo que com
cificidades da ocupação e dos contextos sociopolítico limites, alguns indicadores sociais, de saúde, de sanea-
e econômico desses dois territórios para explicar mento, de trabalho e renda, de educação, entre outros
esta realidade díspar e complexa? O que isto signifi- podem ser úteis para refletirmos sobre este cenário. O
ca para as populações desses dois estados ou mes- quadro 2 compara alguns desses indicadores.

Quadro 2 – Comparação entre alguns indicadores das realidades rural e urbana no Brasil

Fontes: IBGE (2009), Dieese (2008).

27
Pinheiro, T. M. M. et al.

Outros indicadores, como taxa de analfabetis- Talvez as duas grandes exceções sejam: a) embora a
mo, número de anos de estudo, taxas e notificação presença de conflitos no campo seja expressiva (Qua-
de acidentes e doenças profissionais, prevalência de dro 3), a violência urbana ganhou dimensão e gravi-
intoxicações e óbitos por agrotóxicos (onde o Brasil dade sem precedentes, vindo a se constituir numa
aparece como o segundo maior consumidor mundi- verdadeira estatística de guerra; b) as doenças de-
al), prevalência de doenças infecto-parasitárias, aces- correntes da poluição atmosférica causadas pelos
so aos serviços públicos de saúde, expressam a mes- poluentes dos combustíveis, que afetam principal-
ma tendência de distribuição desigual urbano/rural. mente o meio urbano.

Quadro 3 – Alguns dados referentes à violência no campo

Fontes: IBGE (2009), Dieese (2008).

4. A TÍTULO DE DISCUSSÃO E SUGESTÕES Toda esta discussão sugere que, no Brasil, exis-
te um quadro de franco desfavorecimento da popula-
De modo geral, os estudos sobre as condi- ção rural em relação à urbana no que se refere às condi-
ções de saúde da população do campo associam o ções de vida, trabalho e saúde. Não se compartilha aqui
estado nutricional com a posse da terra, processos da visão de que o “rural” seja uma esfera atrasada, arcai-
de trabalho e saúde (incluindo o uso de agrotóxicos), ca, passiva e superada, mas, sim, de que é necessário o
morbimortalidade referida e relação com os servi- estabelecimento de políticas públicas justas e inadiáveis
ços de saúde. Os resultados apontam para um mai- que resgatem essa imensa dívida social, cultural,
or déficit nutricional à medida que diminui a posse ambiental e sanitária com as populações do campo.
da terra, além de evidenciarem um perfil de saúde Os maiores avanços das políticas oficiais de saú-
mais precário da população rural se comparada à de para o campo ocorreram nos períodos históricos
urbana. No campo, ainda existem importantes limi- em que os trabalhadores rurais estavam mais organiza-
tações de acesso e qualidade dos serviços de saúde, dos: na década de 1960, com o Funrural; na década de
bem como uma situação deficiente de saneamento 1980, com o Piass; e, no ano de 2003, com o Grupo da
ambiental. O processo de “modernização conserva- Terra. Com a criação desse grupo, pela primeira vez, o
dora” da agricultura no Brasil ainda tem agravado mais “público-alvo” da política de saúde para o campo co-
esse quadro, uma vez que criou novos riscos meçou a participar diretamente do processo de sua
socioambientais para a saúde dessa população. construção (Carneiro, 2007).

28
Saúde no Campo

Essas populações sempre enfrentaram a CARNEIRO et al. A saúde das populações do campo: das
descontinuidade das ações, modelos que não se con- políticas oficiais às contribuições do Movimento dos Traba-
lhadores Rurais Sem Terra (MST). Cadernos de Saúde Coleti-
solidaram e uma fragmentação de iniciativas, o que
va, Rio de Janeiro, 15(2): 209-230, 2007.
também contribuiu para seus altos níveis de exclu-
são e discriminação pelos serviços de saúde. Como DELGADO, G.C. Expansão e modernização do setor
lições para se pensar em novas políticas, deve se agropecuário no pós-guerra: um estudo da reflexão agrária.

ressaltar o fracasso das propostas de caráter desin- Estudos Avançados, 15(43): 157-172, 2001.

tegrado, centralizado, curativo, urbano, não univer- DIEESE. Departamento Intersindical de Estatística e Estudos
sais, em detrimento de ações como as de saneamen- Socioeconômicos. Estatísticas do Meio Rural. Brasília: MDA/
to, de estímulo à participação social e de ampla utili- DIEESE, 2008.

zação de agentes de saúde (Pinto, 1984; Scorel, 1998; IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo
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LIMA, N. T. Saúde e democracia: história e perspectiva do SUS.
buindo para a estruturação do Grupo da Terra no âm- Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2005.
bito do Ministério da Saúde. Esse grupo elaborou a
MIRANDA et al. Neoliberalismo, uso de agrotóxicos e a cri-
proposta inicial da Política Integral de Saúde para as
se da soberania alimentar no Brasil. Ciência e Saúde Coletiva,
Populações do Campo e da Floresta. Embora aprova-
Rio de Janeiro,12(1): 7-14, 2007.
da no âmbito do Ministério da Saúde e do Conselho
Nacional de Saúde, a Política de Saúde para o Campo PIGNATI, V.; MACHADO, J. M.H.; CABRAL, J. F. Acidente
rural ampliado: o caso das “chuvas” de agrotóxicos sobre a
ainda não foi pactuada nas três esferas do SUS. Apesar
cidade de Lucas do Rio Verde-MT. Ciência e Saúde Coletiva,
dos avanços da criação do SUS, os incentivos para a
Rio de Janeiro, 12(1): 105-114, 2007.
atuação na saúde do campo ainda são tímidos, existin-
do uma distância entre o que é preconizado na lei e o PINTO, V.G. Saúde para poucos ou para muitos: o dilema da
zona rural e das pequenas localidades. Brasília: IPEA, 1984
que chega à base do sistema de saúde.
(Série Estudos para o Planejamento, 26)
É necessária a aprovação, no âmbito do SUS,
de uma Política Integral de Saúde para as populações SCOREL, S. Reviravolta na Saúde: origem e articulação do mo-
do Campo e da Floresta. Acreditamos que a discus- vimento sanitário. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1998.

são dos questionamentos suscitados ao longo deste SILVA et al. Agrotóxico e Trabalho: uma combinação perigo-
texto contribuirá para a construção de um projeto sa para a saúde do trabalhador. Ciência e Saúde Coletiva, Rio
nacional embasado na sustentabilidade socioambiental de Janeiro, 10(4): 891-903, 2004.
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SOARES, W. L & PORTO, M.F. Atividade agrícola e
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BRE AMBIENTE E SAÚDE. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2004.
(Mimeo)

29
Amorim, L. et al.

Saúde Ambiental nas Cidades

Leiliane Amorim1
Marla Kuhn2
Vera Blank3
Nelson Gouveia4

1
Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas/FaFar/UFMG/
Belo Horizonte.
2
Coordenadoria Geral de Vigilância em Saúde/SMS/PMPA/Porto Alegre.
3
Departamento de Saúde Pública/CCS//UFSC/Florianópolis.
4
Departamento de Medicina Preventiva/FM/USP.

1. INTRODUÇÃO ou seja, a população que vive nas áreas urbanas re-


presentará 60% da população mundial.
Atualmente, metade dos habitantes do plane- O impacto à saúde decorrente dos processos
ta está vivendo em cidades, e o mundo está se tor- produtivos, principalmente nas cidades, se apresenta
nando cada vez mais urbano. Essa urbanização sem de forma variada e complexa. Os processos produti-
precedentes implica em sérias agressões ao meio vos e os padrões de consumo, compreendidos como
ambiente, que, por sua vez, influenciam a saúde, a nucleadores da organização social, são ainda gerado-
qualidade de vida e o comportamento humano no res de pressão sobre o ambiente e podem ser consi-
que se refere aos problemas sociais como a violên- derados como frutos ou como produtores de desi-
cia e acidentes de trânsito. O conhecimento desse gualdades e de iniquidades, tanto relacionadas ao aces-
processo dinâmico é importante para melhor enten- so aos serviços de saúde como à distribuição de ris-
dimento dos determinantes da saúde da população cos. Os problemas ambientais na cidade, decorren-
que vive nas cidades. tes da urbanização predatória sobre o ecossistema,
Este marco histórico é consequência da rápida revelam também a fragilidade das políticas de saúde
urbanização das últimas décadas, em contraste ao cres- que contemplam a relação com o ambiente.
cimento da população rural, que foi marcadamente De maneira a contribuir para melhor entendi-
devagar durante a segunda metade do século XX. Es- mento acerca das relações entre saúde e meio ambi-
tima-se que, entre 2007 e 2050, a população mundial ente nas cidades, no mundo contemporâneo, este
terá um aumento de 2,5 bilhões, passando de 6,7 para artigo procura destacar alguns temas relevantes em
9,2 bilhões. Neste período, é projetado um cresci- saúde ambiental relacionados aos determinantes so-
mento da população urbana de 3,1 bilhões, passando ciais e ambientais que afetam a saúde das populações
de 3,3 bilhões em 2007 para 6,4 bilhões em 2050, nos centros urbanos. Procura também discutir a

30
Saúde Ambiental nas Cidades

gestão da saúde ambiental nesse contexto e o papel diminuição na mortalidade infantil por doenças dire-
das políticas públicas voltadas para as ações de saú- tamente relacionadas a esse serviço, como a diarreia,
de que contemplem a relação com o ambiente numa ainda persiste um grande diferencial entre as regiões
lógica produtiva. brasileiras, principalmente em relação à cobertura
de saneamento básico. E mesmo dentro das regiões
2. ALGUNS TEMAS RELEVANTES PARA A SAÚDE com melhores índices de cobertura de saneamento
AMBIENTAL URBANA ainda existem grandes diferenciais intrarregionais e
intraurbanos, diferenciais estes que se refletem tam-
O processo de urbanização que estamos vi- bém nas condições de saúde das populações viven-
vendo, que ocorre na maioria das vezes de forma do nessas áreas.
não planejada, não controlada e, principalmente Outro importante problema ambiental urba-
subfinanciada, impõe dificuldades financeiras e admi- no contemporâneo diz respeito à coleta, disposição
nistrativas para as cidades proverem infraestrutura final e o tratamento adequado dos resíduos sólidos
e serviços essenciais, como água, saneamento, cole- produzidos nas cidades. No Brasil, são produzidos,
ta e destinação adequada de lixo, serviços de saúde, todos os anos, cerca de 83 milhões de toneladas de
além de empregos e moradia, e garantir segurança e lixo, dos quais apenas 40,5% têm destinação ade-
controle do meio ambiente para toda a população quada (36% para aterros sanitários, 3% para
como, por exemplo, uma boa qualidade da água e compostagem, 1% reciclado por separação manual
do ar. e 0,4% para incineração). Como agravante, há que
Desse modo, parcela enorme da população, se destacar que uma parcela considerável do lixo
em geral aqueles mais pobres que residem na peri- produzido não é nem sequer coletado, sendo dis-
feria dos grandes centros, vive em condições inade- postos de maneira irregular em ruas, rios, córregos
quadas de moradia, sem acesso aos serviços básicos, e terrenos vazios. Isto pode levar a problemas como
e ainda expostos a diversos contaminantes ambientais o assoreamento de rios, o entupimento de bueiros,
típicos do desenvolvimento, como a poluição por pro- com consequente aumento de enchentes nas épo-
dutos químicos e a poluição atmosférica. São os que cas de chuva, além da destruição de áreas verdes,
enfrentam o “pior dos dois mundos”: os problemas mau cheiro, proliferação de moscas, baratas e ra-
ambientais associados ao desenvolvimento econômi- tos, todos com graves consequências diretas ou in-
co e os ainda não resolvidos problemas sanitários tí- diretas para a saúde.
picos do subdesenvolvimento. Outra implicação de nosso modelo de desen-
Como exemplo, no que se refere à disponibi- volvimento é a poluição atmosférica cada vez mais
lidade de água potável e saneamento básico, servi- presente no cotidiano das populações urbanas brasi-
ços que apresentam nítida relação com a saúde, ape- leiras. Já é bastante sabido que a poluição atmosféri-
sar da grande expansão na oferta nas últimas déca- ca, principalmente aquela proveniente dos veículos
das, observa-se que esse crescimento tem sido in- automotores que circulam pelas ruas, é prejudicial à
suficiente para suprir as sempre crescentes “neces- saúde humana, podendo causar uma série de doen-
sidades básicas da população”, em função da urbani- ças respiratórias e do coração, afetando toda a po-
zação acelerada e consequente aquisição de novos pulação indiscriminadamente e, particularmente, as
hábitos de consumo. A despeito do aumento crianças e os idosos, que são os mais vulneráveis aos
percentual da população servida por saneamento seus efeitos.
adequado entre as regiões brasileiras e a consequente

31
Amorim, L. et al.

No contexto da saúde ambiental, a moradia 3. GESTÃO DA SAÚDE AMBIENTAL E SEUS INSTRU-


constitui um espaço de construção e consolidação MENTOS
do desenvolvimento da saúde. A família tem, na mo-
radia, seu principal espaço de sociabilidade, trans- Podemos pensar a Gestão da Saúde Ambiental
formando-a em um espaço essencial, veículo da cons- nas cidades levando em conta dois planos de
trução e desenvolvimento da Saúde da Família. To- territorialidade: o primeiro opera sobre as normas
davia, o crescimento urbano nem sempre vem acom- e regramento do uso de recursos disponíveis, e o
panhado de investimentos adequados em infraes- segundo diz respeito à ciência e técnica das políticas
trutura habitacional que garanta a qualidade ambiental territoriais, processos interativos de políticas em rede
neste espaço construído e no seu entorno. As fave- atuando sobre essas interações.
las, os cortiços e outros tipos de habitação precária A construção de ações em saúde ambiental
proliferam nas grandes cidades brasileiras, implican- requer que o contexto seja devidamente valorizado.
do em contingentes enormes da população vivendo Então, a dimensão territorial passa a ser uma estra-
em condições, às vezes, subumanas. O resultado é tégia interessante para a saúde ambiental, partindo
um aumento do número de pessoas expostas a inú- de um sistema complexo e necessitando, portanto,
meros fatores de risco à saúde, relacionados à quali- do estabelecimento de um diálogo entre saberes (téc-
dade das habitações, como condições térmicas pre- nico/local), envolvendo as diferentes áreas do conhe-
cárias, umidade, presença de mofo, má ventilação, cimento historicamente construído e os saberes dos
grande adensamento de indivíduos por cômodo, lugares e dos territórios da nossa cidade.
infestações por insetos e roedores, além de fatores Consideramos que um trabalho local pode
associados a não disponibilidade de serviços básicos conduzir a uma gestão territorial integrada do ambi-
essenciais, como água, esgoto e coleta de lixo. ente, se as ações forem ao encontro das necessida-
Por fim, há que se destacar que a espécie hu- des da população e de acordo com os saberes locais
mana, em geral, e aqueles que vivem nas cidades em que emanam da vida cotidiana. Os processos histó-
particular estão sujeitos a uma série de riscos decor- ricos podem não ser percebidos nos lugares, e é
rente da exposição ambiental aos agentes químicos. justamente por isso que, ao se trabalhar com as re-
São inúmeros os agentes potencialmente tóxicos aos lações espaciais, devemos sempre articular as dimen-
quais a população está exposta cotidianamente atra- sões local/global.
vés do ar que respira, da água que é bebida e do A proliferação de múltiplos riscos ambientais
alimento que é ingerido, representando as principais de natureza física, química ou biológica é decorrente
fontes de exposição. A avaliação da exposição aos da introdução de novos processos produtivos, po-
agentes químicos constitui um importante aspecto luindo o solo, a água, o ar e os alimentos. Tais riscos
para saúde pública, tendo em vista a possibilidade de se difundem para além do entorno dos empreendi-
prevenir, ou minimizar, a incidência de mortes ou mentos, seja pelas vias e dutos que transportam pro-
doenças decorrentes da interação de substâncias dutos perigosos, seja pela contaminação por energia
químicas com o organismo humano. eletromagnética em toda a extensão das linhas de
transmissão elétrica, por exemplo, seja pelo descar-
te inadequado de resíduos perigosos. Eles são cau-
sas de acidentes e numerosas doenças ocupacionais
e ambientais de graves implicações para a saúde hu-

32
Saúde Ambiental nas Cidades

mana e acometem, de forma particular, os grupos construção de ações de saúde ambiental de interes-
sociais mais vulneráveis. se para a saúde coletiva requer que o contexto seja
Em relação aos instrumentos do direito am- devidamente valorizado. Para tanto, não só as bases
biental existentes, um dos mais relevantes, e que o de dados oriundos de levantamentos quantitativos
setor saúde deve se apropriar e criar capacidade téc- são necessárias, como também devem ser integra-
nica para participar de forma mais incisiva, é o proce- das técnicas de análise do espaço cotidiano que in-
dimento para licenciamento ambiental, cujos instru- cluam dados qualitativos.
mentos possibilitam avaliar se um determinado em- A saúde ambiental tem o desafio de criar, no
preendimento é sustentável ou não do ponto de vista meio das frestas existentes entre a vida cotidiana das
ambiental. Logo, por meio do envolvimento nos pessoas e a procura aos serviços de saúde, práticas
licenciamentos ambientais de grandes empreendimen- voltadas para os determinantes e condicionantes da
tos nas cidades, a Vigilância em Saúde Ambiental pode saúde. Essas práticas procuram construir alternativas
introduzir critérios, além dos estabelecidos pelo ór- na promoção da saúde e prevenção das doenças, avan-
gão municipal de meio ambiente, referentes aos çando na produção-plural de “espaços saudáveis”, para
determinantes e condicionantes da saúde humana. assegurar a defesa do ambiente e da saúde.
Nesses critérios deve estar incorporado o O Ministério da Saúde, a partir do ano 2000,
Princípio da Precaução, que determina que não se passou a considerar que: “A vigilância ambiental em
produzam intervenções no ambiente sem antes ha- saúde se configura como um conjunto de ações que
ver estudos sobre as consequências à saúde humana proporciona o conhecimento e a detecção de qual-
e ao meio ambiente. Dentro da concepção de que quer mudança nos fatores determinantes e
políticas públicas não direcionam para a identificação condicionantes do meio ambiente que interferem na
e posterior afastamento dos riscos de determinada saúde humana, com a finalidade de recomendar e
atividade, a pergunta que surge nessa análise: “O adotar as medidas de prevenção e controle dos fa-
empreendimento ‘X’ pode causar um dano?”; deve tores de riscos e das doenças ou agravos relaciona-
ser substituída pela indagação mais pertinente: “Pre- dos à variável ambiental”. Na década de 80, no Bra-
cisamos do empreendimento ‘X’ na cidade?” sil, foram promovidas iniciativas para se instituir, no
âmbito do setor saúde, ações de Vigilância do Meio
4. SAÚDE AMBIENTAL NAS POLÍTICAS PÚBLICA Ambiente, de acordo com a Constituição de 1988 e
a Lei Orgânica de Saúde de 1990. Mas é a partir do
O reconhecimento da importância dos con- ano 2000 que o Ministério da Saúde formulou a de-
textos socioambientais e culturais, em que os pro- nominada Vigilância Ambiental; hoje Vigilância em
blemas da vida cotidiana da cidade são conforma- Saúde Ambiental.
dos, é fundamental para, efetivamente, provocar Assim, propor e recomendar políticas públi-
mudanças na busca de espaços saudáveis, transfor- cas de saúde sem um conhecimento da cidade é de-
mando os impactos negativos ao ambiente, e, assim, sastroso. Por isso, acreditamos ser o olhar geográfi-
melhorar a qualidade de vida da população. Confor- co uma significativa contribuição para o (re)conhe-
me Tambellini & Câmara, os fatores de risco para cimento da complexidade socioespacial urbana. Na
uma determinada doença podem ter pesos diferen- maioria das vezes, o planejamento da política pública
tes, mas, para que o evento ocorra, há necessidade de saúde, no caso de Vigilância em Saúde Ambiental,
de uma interação entre eles. Isoladamente, nenhum não teoriza sobre as bases de um urbanismo que
fator de risco promove o fenômeno. Portanto, a tem dificuldade de pensar, como nos apresentam al-

33
Amorim, L. et al.

guns autores, o “fluxo como modo de morar”; sua COHEN, S. et al. Habitação saudável e ambientes favoráveis
apresentação da “cidade território” e da “cidade na- à saúde como estratégia de promoção da saúde. Ciência &
Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 12 (1):191-198, 2007.
tureza” não apreende a extensão territorial das cida-
des como um mal. CONSELHO NACIONAL DE SAÚDE. < www.recea.org.br >.
Accessed 22/04/2009.
5. PERSPECTIVAS E CONCLUSÃO GOUVEIA, N. Saúde e meio ambiente nas cidades: os desafi-
os da saúde ambiental. Saúde e Sociedade, São Paulo, 8 (1):49-
Consideramos que os problemas decorrentes 61, 1999.
desta urbanização, particularmente os socioambien-
HARPHAM, T.; LUSTY, T.; VAUGHAN, P. In the shadown of
tais, evidenciam a necessidade de romper com as
the city: community health and the urban poor. 1 ed. Oxford:
perspectivas unidisciplinares ou parciais da cidade e Oxford University Press; 1998.
dos impactos e riscos ambientais nela presentes. Não
MANCINI, SD. et al. Recycling potential of urban solid waste
podemos deixar de considerar que, efetivamente,
destined for sanitary landfills: the case of Indaiatuba, SP, Brazil.
um trabalho local pode conduzir ações de Saúde
Waste Manag Res. 2007; 25(6):517-523.
Ambiental e promoção à saúde integrada ao ambien-
te, se for ao encontro das necessidades da popula- TAMBELLINI, A.T. & CÂMARA, V. A. Temática Saúde e Am-
biente no Processo de Desenvolvimento do Campo da Saú-
ção, e, para isso, as comunidades envolvidas devem
de Coletiva: Aspectos Históricos, Conceituais e Meto-
ser agentes dessa ação. Para promover saúde e re-
dológicos. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 3 (2):47-
cuperação socioespacial de áreas vulneráveis, acre- 59, 1998.
ditamos que isso se dá por meio do resgate da par-
WHO. World Urbanization Prospects:The 2007 Revision.
ticipação social, da busca de identidades locais e do
New York: United Nations Department of Economic Social
conhecimento do cotidiano dos moradores do lu-
Affairs/Population Division, 2008.
gar, possibilitando, assim, a valorização ambiental e
consequente Saúde Ambiental. WRI. The urban environment. World resourses. Aguide to
the global invironmental. New York: Oxford University
É neste contexto que se encontra a saúde
Press, 1996.
ambiental, com os desafios de promover uma me-
lhor qualidade de vida e saúde nas cidades e a opor-
tunidade de enfrentar o quadro da exclusão social
sob a perspectiva da equidade.

Referências Bibliográficas

AMORIM,L.C.A. Os biomarcadores e sua aplicação na avali-


ação da exposição aos agentes químicos. Revista Brasileira de
Epidemiologia, 6 (2):158-170, 2003.

BRASIL. Instrução Normativa n. 1 In: SVS/CGVAM/MS. Ed:


Ministério da Saúde, 2005.

CAIAFFA, W.T. et al. Urban health: “the city is a strange lady,


smiling today, devouring you tomorrow”. Ciência & Saúde
Coletiva, 13(6):1785-1796, 2008.

34
Terra Urbanizada para Todos – reflexões sobre trechos do texto de apresentação da página web...

Terra Urbanizada para Todos – reflexões sobre trechos do texto de


apresentação da página web da Secretaria Nacional de Programas Urbanos

Ana Margarida Koatz1

1
Arquiteta e Urbanista, Assistente Técnica do Departamento de Plane-
jamento Urbano da Secretaria Nacional de Programas Urbanos.

O modelo de urbanização brasileiro pro- de atratividade. O que se pode desejar é que na bus-
duziu nas últimas décadas cidades carac- ca da cidade, esta seja efetivamente uma cidade para
terizadas pela fragmentação do espaço e todos, sendo no direito à cidade que se encontra o
pela exclusão social e territorial. O principal ponto de convergência entre o desenvolvi-
desordenamento do crescimento periféri- mento urbano e a saúde ambiental.
co associado à profunda desigualdade en- No bojo do direito à cidade e à terra urba-
tre áreas pobres, desprovidas de toda a nizada, encontra-se não só o reconhecimento do di-
urbanidade, e áreas ricas, nas quais os reito à moradia, mas, principalmente, à moradia
equipamentos urbanos e infraestruturas se digna, bem construída, em local ambientalmente se-
concentram, aprofunda essas caracterís- guro e dotado de saneamento ambiental (água, es-
ticas, reforçando a injustiça social de nos- goto, drenagem e recolhimento de resíduos sólidos),
sas cidades e inviabilizando a cidade para com pavimentação e iluminação públicas, bem como
todos. (Secretaria Nacional de Programas suprida dos serviços e equipamentos sociais bási-
Urbanos em http://www.cidades.gov.br) cos: creches, escolas, posto de saúde, áreas de es-
porte e lazer.
A urbanização é uma realidade irreversível e Uma moradia bem construída é aquela que é
tendência universal, cujas consequências não preci- edificada com materiais adequados, que busca um
sam ser necessariamente negativas. A cidade tradici- local de implantação geologicamente seguro e eco-
onalmente cristaliza as vantagens da aglomeração e logicamente correto, longe de áreas de preservação
da economia de escala, facilitando o acesso a bens e de mananciais ou ecossistemas. É também aquela cuja
serviços, inexistentes ou dispersos, no meio rural e implantação consegue garantir condições mínimas de
ao mercado de trabalho, exercendo grande poder salubridade, deixando áreas de iluminação e ventila-

35
Koatz, A. M.

ção necessárias à garantia das condições de salubri- e não mais meramente uma política pública (mais uma!)
dade de um espaço de moradia. de vida efêmera. E, além de planejar, há que implantar
Num assentamento precário, a escassez da esta política, sendo a participação popular fator pre-
terra bem localizada a torna cara, e, em geral, se ponderante em sua elaboração e gestão. Pois a melhoria
sucumbe à tentação de uma ocupação predatória, da saúde pública e da qualidade de vida repousam em
que leva, ao extremo, o aproveitamento da terra dis- todas e em cada uma das causas citadas.
ponível na tentativa de fazer render ao máximo o
tempo, trabalho e dinheiro ali investidos, sem to- Grande parcela das cidades brasileiras
mar consciência da importância dos vazios e abertu- abriga algum tipo de assentamento pre-
ras necessários à circulação de ar e luz, elementos cário, normalmente distante, sem aces-
fundamentais da saúde. so, desprovido de infraestruturas e equi-
Há que acreditar que a possibilidade de ofere- pamentos mínimos. Na totalidade das
cer condições de moradia dignas não é uma posição grandes cidades essa é a realidade de mi-
ingênua e inviável. Há que fomentar políticas de aces- lhares de brasileiros, entre eles os excluí-
so à terra urbanizada e bem localizada. Há que su- dos dos sistemas financeiros formais da
prir a demanda reprimida por habitação, pelo mer- habitação e do acesso à terra regulariza-
cado e pelo governo (nos três níveis), devendo este da e urbanizada, brasileiros que acabam
priorizar a habitação social e, concomitantemente, ocupando as chamadas áreas de risco,
oferecer assistência técnica profissional e capacitação como encostas e locais inundáveis.
profissional à mão de obra da autoconstrução, valo-
rizando o saber popular empírico, mas alertando-o O número total de famílias e domicílios insta-
com relação à tentação da densificação excessiva, da lados em favelas, loteamentos e conjuntos
ocupação até o limite do lote de terra disponível, habitacionais irregulares, loteamentos clandestinos,
cujas consequências são diretas no nível de insalubri- cortiços, casas de fundo, ocupações de áreas públi-
dade da habitação. E, finalmente, há que, até mes- cas sob pontes, viadutos, marquises e nas beiras de
mo, pagar o preço de conseguir a remoção das áre- rios é estimado, mas é possível afirmar que o fenô-
as de risco, com a participação das próprias popula- meno está presente na maior parte das cidades que
ções envolvidas. compõem a rede urbana brasileira.
Não permitir a ocupação irregular é função do
poder público, embora muitas prefeituras não te- A pesquisa IBGE 2000 nos municípios re-
nham os meios e o pessoal para a fiscalização, e nem vela a presença de assentamentos irregu-
sequer o próprio mapeamento de suas áreas de ris- lares em quase 100% das cidades com
co. Porém, onde for possível, as prefeituras devem mais de 500.000 habitantes e também,
investir em urbanização, infraestrutura e serviços de ainda que em menor escala, nas cidades
saúde básica e educação, que sirvam de alternativa médias e pequenas.
viável à população de mais baixa renda. Os dividen- Excluídos do marco regulatório e dos sis-
dos são imediatos, inclusive com a redução dos ní- temas financeiros formais, os assentamen-
veis de violência urbana. tos irregulares se multiplicaram em terre-
Há custos envolvidos, há necessidade de mu- nos frágeis ou não passíveis de urbaniza-
dança de mentalidade (coisa difícil!) e premência de ção, como encostas íngremes e áreas
materializar estes conceitos numa política de estado, inundáveis. São as chamadas “ocupações

36
Terra Urbanizada para Todos – reflexões sobre trechos do texto de apresentação da página web...

em áreas de risco” - frequentes cenários efetivas de habitação social que assegurem à popula-
de tragédias em períodos chuvosos. ção o direito à moradia, conforme está previsto na
Constituição e no Estatuto da Cidade.
Trata-se talvez do aspecto mais visível de uma
relação inadequada entre urbanização e saúde Por outro lado, às ocupações irregulares
ambiental, que se traduz em enchentes e soma-se, em muitas cidades, o problema
deslizamentos a cada estação de chuvas, numa tra- da subutilização do espaço e dos equipa-
gédia anunciada, pois em geral só se desenvolvem mentos, expressa na grande quantidade
ações pontuais de prevenção de risco e se trabalha de imóveis vazios, inclusive residenciais.
mais efetivamente a partir da tragédia instalada. São imóveis ociosos ou subutilizados, ins-
Segundo declara o diretor de Planejamento talados em trechos urbanizados inteiros –
Urbano do Ministério das Cidades, Celso Carvalho, geralmente, áreas centrais e dotadas de
em entrevista à revista do IPEA, infraestrutura, uma massa enorme de imó-
veis reforçando a exclusão e a criação de
“O ideal seria evitar que as famílias se ins- guetos, tanto de pobres que não dispõem
talassem em áreas de risco ou inadequa- de meios para se deslocar, quanto de ri-
das para moradia. Nas localidades com cos que temem os espaços públicos –, re-
declividade forte, é natural a ocorrência alidade que contribui para a violência e
de desabamentos de encosta em época para a impossibilidade de surgimento
de chuva. Quando as pessoas cortam a da cidadania.
vegetação e fazem ruas para instalar a
área onde pretendem morar, a probabili- Fica claro que o ordenamento e o planejamen-
dade de acidentes aumenta. O risco é ain- to territorial urbano têm de ser retomados com se-
da maior quando se trata de ocupação ir- riedade, de modo a evitar que a situação de caos se
regular ou favela, porque as construções instale definitivamente, com efeitos nocivos sobre a
são mais frágeis e não há coleta de lixo qualidade de vida nas cidades e consequentes preju-
nem esgoto, fatores que agravam a situa- ízos para a saúde ambiental.
ção. (...)A ocupação não regulada do solo
é predominante nas cidades brasileiras. O Estatuto das Cidades, que regulamen-
(...)A falta de controle está institucionali- ta os artigos da Constituição Federal re-
zada no país, e uma ação mais severa da ferentes à Política Urbana, constitui um
prefeitura pode agravar o problema soci- dos maiores avanços da legislação urba-
al: Se a prefeitura olhar a legalidade, ex- nística brasileira.
pulsa os pobres, o pobre não cabe no
mercado formal.” O Estatuto, Lei Federal 10.257/2001, fruto
de 13 anos de luta da sociedade pela reforma urba-
Segundo Raquel Rolnik, arquiteta e urbanista, na, é o instrumento legal que fornece instrumentos
relatora especial da Organização das Nações Unidas para combater a ocupação desordenada, direcionar
para assuntos de moradia e ex-secretária nacional de e priorizar a ocupação das áreas infraestruturadas,
Programas Urbanos, a solução passa através de pla- conter a especulação imobiliária e direcionar o apro-
nejamento do uso e ocupação do solo, com políticas veitamento das melhorias feitas pelo investimento

37
Koatz, A. M.

público em prol de todos, e não apenas de uma mi-


noria, com transferência de recursos da União e
ações de mobilização e capacitação.

Ele apoia os municípios na execução da


Política Nacional de Desenvolvimento Ur-
bano, com base em princípios que esti-
mulam processos participativos de gestão
territorial e ampliam o acesso à terra
urbanizada e regularizada, principalmen-
te beneficiando grupos sociais tradicional-
mente excluídos.

Dentre seus vários objetivos estão: promo-


ver o reconhecimento de maneira integrada dos di-
reitos sociais e constitucionais de moradia e preser-
vação ambiental, qualidade de vida humana e preser-
vação de recursos naturais, além da busca pela re-
moção dos obstáculos da legislação federal fundiária,
cartorária, urbanística e ambiental, de modo que as
ações planejadas não se percam no cipoal da buro-
cracia instalada, e que a função social da cidade e da
propriedade sejam asseguradas sobre o direito ab-
soluto de propriedade e de construção, democrati-
zando o acesso à cidade e à sua gestão participativa.
A efetiva implementação do Estatuto da Cida-
de, dos Planos Diretores e dos Conselhos Locais
das Cidades se refletirá numa cidade mais justa, or-
denada, sustentável e acessível para todos, com re-
flexos imediatos na qualidade de vida e melhoria da
saúde ambiental.

38
Urbanização Brasileira e Saúde Ambiental

Urbanização Brasileira e Saúde Ambiental

Nathan Belcavello de Oliveira1

1
Geógrafo da Secretaria Nacional de Programas Urbanos do Ministério
das Cidades, mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Geogra-
fia da Universidade de Brasília.

1. IMPACTOS SOCIOAMBIENTAIS DA URBANIZAÇÃO A expulsão da população das áreas rurais se


NO BRASIL deveu, principalmente, à modernização da agricultu-
ra, que trouxe impactos socioambientais diretos e
Os cientistas e a mídia preocupam-se quase indiretos tanto nas áreas urbanas como nas rurais. O
que exclusivamente com a preservação de ambien- resultado foi a concentração crescente da popula-
tes selvagens, enquanto as cidades vão “explodindo ção em grandes cidades.
sua bomba de esgoto e lixo”. Em termos mundiais, a questão sanitária das
Nos últimos trinta anos, mais de 40 milhões de cidades dos países subdesenvolvidos ou em desen-
pessoas trocaram as áreas rurais pelas urbanas. O país volvimento sempre esteve à margem das principais
deixou de ser predominantemente rural e, a cada cen- discussões ambientais internacionais. Mas a poluição
so, demonstra maior grau de urbanização. Sua indus- do ar e das águas, esgoto a céu aberto, favelização,
trialização, iniciada, de forma mais intensa, na década ocupação de encostas e de áreas de risco em geral
de 1950, promoveu reformulações de caráter são problemas correntes em dezenas de cidades
socioambiental com a política do desenvolvimentismo brasileiras. A demanda por saúde, educação, trans-
empregado pelo governo brasileiro, e as implicações porte, entre outros, onera o sistema de arrecada-
socioambientais se agravam de maneira sistemática, ção, que está comprometido com o “crescimento
proporcionando o início dos debates a respeito dessa econômico a qualquer custo” e com os superávits
questão. Vale destacar a emergência do movimento orçamentários. Também o histórico de ocupação do
ambientalista internacional naquele período, que ini- espaço urbano foi se efetivando de forma desigual e
ciou a conscientização da não inexorabilidade dos re- segregadora. O modelo de planejamento urbano
cursos naturais existentes no planeta e a promoção adotado (tecnocrático e clientelista) privilegiava a
do conceito de desenvolvimento sustentável. classe com melhor status econômico com infraestru-

39
Oliveira, N. B. de

tura e as melhores parcelas do solo urbano, em de- rece tão importante tratá-los; é impor-
trimento das demais classes, que, de forma tante ampliar a rede de coleta de lixo,
desordenada e informal na maior parte das vezes, mas são secundários os aterros sanitários
ocupavam as “sobras” das cidades, normalmente e as usinas de beneficiamento. No entan-
periferias e áreas de preservação ambiental e/ou de to, as ações sanitárias devem se pautar
riscos socioambientais. O próprio ritmo de cresci- por critérios que, simultaneamente, redu-
mento demográfico acelerado das cidades brasilei- zem os impactos do ambiente degradado
ras não permite que a urbanização o acompanhe. “A sobre as famílias e recuperem esse ambi-
política habitacional que, em grande medida, serviu ente degradado. (Hogan & Vieira, 1995)
para subsidiar as habitações para a classe média tam-
bém contribui para agravar a ‘favelização’ e a Os problemas ambientais, mais relacionados
marginalização urbanas” (Hogan & Vieira, 1995). ao crescimento demográfico de áreas urbanas, ten-
Decorrente desses fatores, um ponto a des- dem a intensificar-se relativamente nas regiões peri-
tacar é a qualidade de vida da população. Ela está féricas, particularmente no Nordeste que, no perío-
intimamente relacionada a esses acontecimentos, ou do recente e nas próximas décadas, seria marcado
seja, as transformações que o ambiente sofre com por maior crescimento urbano, possuindo maior rit-
sua degradação repercutem de maneira desigual, de mo em relação a outras regiões, como Sudeste e
acordo com a classe social, implicando muitas vezes Sul. Os desníveis regionais de renda refletirão em
no agravamento dos problemas socioambientais nas graves desníveis quanto à infraestrutura urbana.
classes menos favorecidas, uma vez que a sociedade Todavia, a dimensão socioambiental relaciona-
se encontra materializada de maneira desigual no es- da à crise finaceiro-administrativa pode e é sentida
paço, privilegiando com áreas menos poluídas, mes- na Região Sudeste, mais especificamente no Estado
mo que intensamente artificializadas pelo homem, de São Paulo, por meio da reorganização do modelo
por meio do fornecimento de todo um equipamen- urbano-industrial, muitas vezes efetuado de forma
to urbano pelo Estado, à porcentagem de status eco- errônea por administrações públicas. Assim, tratar-
nômico mais elevado na sociedade. se-á com mais atenção estes dois casos.
Por exemplo, a poluição lançada ao ar modi-
ficará os fenômenos climáticos, que, por sua vez, 2. URBANIZAÇÃO, HABITAÇÃO E MEIO AMBIENTE
ocasiona efeitos e danos na sociedade, principalmen- NO NORDESTE
te na classe trabalhadora que tem de habitar próxi-
mo às áreas emissoras de poluentes atmosféricos, Embora o Nordeste seja a região do Brasil com
pois ali trabalham, o que repercutirá no desenvol- menor grau de urbanização, pode-se verificar o vi-
vimento humano. gor desse processo. E isso não tem dado ao Nor-
deste os meios necessários para geração de condi-
No Brasil, a intervenção sanitária tem vi- ções urbanísticas para os que vivem nas cidades, ou
sado exclusivamente moldar o ambiente seja, o processo de urbanização nordestino, assim
urbano às necessidades e confortos da vida como o da grande maioria das regiões brasileiras,
humana. Assim, consideram-se secundá- trata-se, na verdade, do inchaço demográfico das
rios os impactos ambientais da própria in- áreas urbanas.
tervenção. Em outras palavras, é preciso Há que se destacar como grave o problema
dotar as cidades de esgotos, mas não pa- socioambiental derivado da rápida urbanização des-

40
Urbanização Brasileira e Saúde Ambiental

sa região. As prefeituras e os governos estaduais não São Paulo ainda não haviam iniciado a elaboração do
arrecadam o suficiente para expandir a infraestrutura plano diretor, nem o zoneamento de território. Al-
no ritmo do crescimento urbano. A crise fiscal, so- guns municípios possuem lei-orgânica, que ainda não
bretudo das últimas duas décadas do século XX, faz nenhuma referência à problemática ambiental.
agravou a situação. Os níveis de renda e de emprego Existe um receio de que as legislações ambientais
no setor formal da economia se encontravam muito restritivas das atividades econômicas venham a ser
abaixo dos percebidos no restante do Brasil. prejudiciais à industrialização dos municípios. A mai-
Nas áreas rurais nordestinas, as endemias crô- or preocupação dos industriais é se as prefeituras
nicas têm relação direta com as alterações do meio darão aos distritos industriais infraestrutura, e os
ambiente e com a estrutura residencial de que indi- vereadores temem que seus municípios percam o
víduos dispõem. Grande parte dessas endemias é controle da demanda por políticas sociais. Já os che-
levada para as regiões urbanas via migração, uma vez fes políticos locais dizem que a industrialização irá
que a população não consegue meios para sua manu- melhorar a arrecadação e o número de empregos.
tenção nas áreas rurais devido à seca, à alta concen- Tal conflito, acima descrito, pode ser exemplificado
tração fundiária, entre outros fatores que a expulsa. no caso de Vargem Grande Paulista, na área metro-
politana de São Paulo.
Nesse cenário, a degradação do ambien- No ano de 1990, em Vargem Grande Paulista,
te urbano tem uma relação praticamente existia aproximadamente uma dezena de indústrias
unívoca com as condições coletivas de exis- espalhadas. Ficavam em áreas residenciais, de co-
tência. O rápido crescimento demográfico mércio e serviços. A ideia era criar uma zona indus-
se soma aos fatores econômicos que fa- trial, com indústrias não poluentes, que serviria para
vorecem a deterioração do ambiente ur- disciplinar o assentamento industrial.
bano, deterioração que irá afetar, primor- Houve várias manifestações contrárias de di-
dialmente, a própria população adicional versos segmentos da sociedade, que resultou em
(Hogan & Vieira, 1995). vários conflitos ambientais, dentre eles os capitanea-
dos pelo Movimento SOS Vargem Grande, que ar-
3. A DIMENSÃO SOCIOAMBIENTAL DA CRISE EM gumentava que a instalação da zona industrial traria
SÃO PAULO destruição de mata primária, deslocaria produções
agrícolas que compõem o Cinturão Verde de São
São Paulo concentra 50% da capacidade in- Paulo, além de afetar um afluente da Represa de
dustrial do país, possui cerca de 60 mil indústrias Ituparanga com dejetos industriais.
(em 1995), dentre as quais se destaca um grupo de Os vereadores passaram a defender a impor-
1900 organizações responsáveis por 90% das for- tância de um plano diretor antes do assentamento das
mas mais graves e perigosas de poluição industrial. indústrias. E, junto com os produtores hortigranjeiros,
O parque industrial de São Paulo produz cer- defendiam a ideia de que reduzir o uso do território
ca de 53.250 toneladas de resíduos sólidos industri- acabaria com os recursos agrícolas.
ais/dia. Calcula-se que 95% dos objetos são lança- Além do supracitado, até os próprios indus-
dos em cursos d’água sem nenhum tratamento. A triais reclamaram da falta de infraestrutura para se
região metropolitana apresenta, ora o terceiro, ora instalarem no município. O que acarretou o
o segundo pior meio ambiente urbano industrial do impeachment do prefeito de Vargem Grande Paulista.
planeta. Até a década de 1990, alguns municípios de

41
Oliveira, N. B. de

4. O CONCEITO DE SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL Antes de a questão ambiental aparecer


E A AMBIENTALIZAÇÃO DO PLANEJAMENTO URBANO com a força e a centralidade que tem hoje,
esses problemas já estavam nas agendas
A discussão sobre sustentabilidade se estabe- dos planejadores urbanos e autoridades
lece no debate público após a divulgação do Relató- municipais. A transformação destes pro-
rio Brundtland (Relatório Our Commom Future de- blemas de gestão urbana em sinais de sa-
senvolvido pela Comissão Mundial sobre Meio Am- turação ecossistêmica é um marco do
biente e Desenvolvimento, sob a presidência da no- ambientalismo contemporâneo. Porém,
rueguesa Gro Harlem Brundtland), em 1987. Forta- sua identificação como problema e a in-
lece-se como um novo paradigma de desenvolvimen- tervenção do poder público se deram há
to urbano, após a realização da Conferência das Na- muito tempo (Hogan & Vieira, 1995).
ções Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimen-
to no Rio de Janeiro em 1992. O novo conceito de De acordo com Acselrad (2001), a aplicação
desenvolvimento trazido por esse relatório, cunha- da noção de sustentabilidade ao debate sobre as ci-
do sob a expressão desenvolvimento sustentável, dades realizou um duplo movimento: a “ambienta-
busca agregar crescimento econômico e preserva- lização” das políticas urbanas e a introdução das ques-
ção ambiental com o objetivo de atender “às neces- tões urbanas no debate ambiental. A incorporação
sidades do presente sem comprometer a possibili- da temática do meio ambiente por atores sociais da
dade de as gerações futuras atenderem às suas pró- cidade levou a uma redefinição das questões urbanas
prias necessidades” (Cmmad, 1988). com base na leitura ambiental.
No Brasil, segundo Steinberger (2001), a área A introdução de uma visão ecologista, com a
de meio ambiente urbano ganhou impulso a partir naturalização das questões sociais, lançou a ideia do
do Fórum Global das Organizações Não Governa- território como o espaço geográfico cuja composi-
mentais, realizado paralelamente à Rio-92, o qual deu ção em termos de recursos naturais e ecossistêmicos
origem ao Tratado sobre a questão urbana, “Por Ci- tem de ser respeitada e protegida por seu valor in-
dades, Vilas e Povoados Justos, Democráticos e Sus- trínseco e como fonte de riqueza e identidade cole-
tentáveis”. O Tratado incorporava a plataforma de- tiva. Essa construção discursiva começa a se desta-
fendida pelo Movimento e pelo Fórum Nacional de car no debate urbano e oculta a discussão sobre a
Reforma Urbana: a função social da propriedade, o realidade da dinâmica de ocupação e apropriação
direito à cidade e a gestão democrática da cidade. deste território e, portanto, de constituição dos pro-
Com o fortalecimento da retórica ambiental e a di- blemas ambientais (Brand & Prada, 2003).
vulgação do Relatório Brundtland, é inserida uma nova A crise socioambiental das cidades é fruto de
interpretação/representação da problemática urba- um modelo de ocupação do espaço injusto e desigual,
na no debate. Os problemas urbanos, outrora predatório tanto para o meio ambiente quanto para as
construídos como questão social, entendidos como populações urbanas, conforme já mencionado.
consequências do processo de desenvolvimento ur- Nesse sentido, enquanto as agências multila-
bano-industrial e do crescimento acelerado das ci- terais difundiam modelos de gestão urbana,
dades, passam por uma releitura em termos ecoló- construídos a partir da formação de consensos e
gicos, ecossistêmicos e socioambientais (Klug, 2005). pactos urbanos entre os “atores relevantes” das ci-
dades, no Brasil, depois de mais de 11 anos de de-
bates e negociações, em 2001, foi aprovada a Lei

42
Urbanização Brasileira e Saúde Ambiental

Federal nº. 10.257 – Estatuto da Cidade – que apre- da metodologia de Planos Diretores Participativos
senta uma perspectiva de intervenção sobre o terri- com ênfase na sustentabilidade ambiental2. Esta tem
tório, cujo principal instrumento é o Plano Diretor. por objetivo contribuir com os municípios na for-
As inovações trazidas pelo Estatuto, que vão apare- mulação e implantação da política de desenvolvimento
cer refletidas nos Planos Diretores elaborados pelos urbano integrada à política ambiental para solução
municípios, se concentram em três campos: instru- dos passivos ambientais e promoção da sustentabili-
mentos que buscam combater os processos espe- dade ambiental.
culativos que prevalecem na dinâmica de ocupação Esta atividade conta com três fases principais.
do solo urbano, concepção de gestão democrática Na primeira delas, já ocorreu uma assessoria técnica
da cidade e ampliação das possibilidades de regulari- para apoio às prefeituras de sete3 municípios na ela-
zação fundiária. boração de seus Planos Diretores Participativos, com
posterior análise crítica dos processos abrangendo
5. A AÇÃO DA SECRETARIA NACIONAL DE PROGRA- indicadores desenvolvidos especificamente para o
MAS URBANOS DO MINISTÉRIO DAS CIDADES, OS monitoramento e avaliação dentro da temática da
PLANOS DIRETORES PARTICIPATIVOS E A SUSTEN- sustentabilidade ambiental. Posteriormente, está em
TABILIDADE AMBIENTAL processo de contratação uma Pesquisa Qualitativa
sobre Planos Diretores Participativos com ênfase na
Desde 2003, o Ministério das Cidades vem sustentabilidade ambiental. Esta pesquisa levantará,
implementando uma política de apoio técnico, finan- nas leis de Plano Diretor, bem como no restante da
ceiro e de capacitação aos municípios para elabora- legislação municipal correlata, em materiais técnicos
ção dos Planos Diretores Participativos – pautado e em entrevistas com agentes públicos e sociedade
na inclusão socioespacial, integrando assentamentos civil atuantes nos processos de elaboração e imple-
precários à cidade, resgatando o planejamento urba- mentação dos Planos Diretores de 164 municípios
no como instrumento de inclusão e de acesso à cida- distribuídos em todos os biomas brasileiros, infor-
de formal –, conduzida pela Secretaria Nacional de mações sobre: meio ambiente; recursos hídricos;
Programas Urbanos (SNPU). saneamento básico; planejamento e gestão territoriais;
Conciliando os interesses e metas do denomi- e desenvolvimento ambientalmente sustentável. Ao
nado Programa de Reforma Programática da final, pretende-se realizar Seminário Nacional para o
Sustentabilidade Ambiental, operacionalizado por debate crítico dos resultados obtidos, culminando
meio do Projeto TAL Ambiental (Projeto de Assis- na publicação de material de orientação aos municí-
tência Técnica para a Agenda da Sustentabilidade pios acerca da elaboração e implementação de Pla-
Ambiental), o Ministério do Meio Ambiente e a nos Diretores com ênfase na sustentabilidade
SNPU, propuseram o desenvolvimento e aplicação ambiental.

2
Para mais informações sobre o Projeto Tal Ambiental e a metodologia de Planos Diretores Participativos com ênfase na
sustentabilidade ambiental, favor consultar Oliveira, Klug e Bittencourt, 2008, e a página do projeto na internet (<http://
www.mma.gov.br/index.php?ido=conteudo.monta &idEstrutura=104>).
3
Dentre os sete municípios, três já haviam elaborado o Plano Diretor, sendo, então, objetos somente da análise crítica.
4
Para distribuição da quantidade de municípios por bioma brasileiro foram utilizadas informações da Pesquisa Plano Diretor Participativo
Confea/MCidades, realizada de outubro de 2006 a março de 2007, ponderando com dados relacionados à extensão territorial dos
biomas brasileiros e quantidade de municípios com obrigatoriedade de elaborar o Plano Diretor, segundo o Estatuto da Cidade.

43
Oliveira, N. B. de

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS KLUG, L. B. A Vitória do Futuro: a construção do discurso da


sustentabilidade urbana na cidade de Vitória – ES. Dissertação
de Mestrado em Planejamento Urbano e Regional, 2005. Ins-
Como se pode apreender neste breve arrazoa-
tituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional. Uni-
do, a urbanização brasileira e suas implicações
versidade Federal do Rio de Janeiro.
socioambientais assumem as mais variadas formas e se
faz como um conjunto de processos, atores e ações STEINBERGER, M. A (re)construção de mitos: sobre a

múltiplas, configurando-se num complexo sistema. (in)sustentabilidade do (no) espaço urbano. Revista Brasi-
leira de Estudos Urbanos e Regionais, ano 3, n. 4, p. 09-32,
É difícil uma análise social sem se considerar
mai. 2001.
sua relação dialética com o ambiente em que está
inserido, como se percebe. Todavia, este texto não
esgotou o tema tratado, nem tinha a intenção de
fazê-lo, servindo somente como base para o deba-
te mais aprofundado.
Abre-se um leque de opções para a sociedade
brasileira em que as múltiplas escolhas acarretaram
em múltiplas consequências, que podem trazer be-
nefícios e/ou malefícios para nosso futuro. Cabe a
cada um a tomada das decisões mais acertadas por
menores que sejam, pois elas influenciarão no futuro
da nação.

Referências Bibliográficas

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ACSELRAD, Henri (Org.). A duração das cidades:
sustentabilidade e risco nas políticas urbanas. Rio de Janeiro:
DP&A, 2001.
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ambiental en las cuatro ciudades principales de Colombia. Me-
dellín: Todográficas, 2003.

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HOGAN, D. & VIEIRA, P. F. (Org.). Dilemas socioambientais e


desenvolvimento sustentável. 2 ed. Campinas: Unicamp, 1995.

44
Regularização em Áreas de Proteção Ambiental no Meio Urbano

Regularização em Áreas de Proteção Ambiental no Meio Urbano*

Laura Machado de Mello Bueno1

1
Professora titular da Pontifícia Universidade Católica de Campinas no
Mestrado em Urbanismo e na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo.

Este texto apresenta, em primeiro lugar, os nível nacional, e as áreas de proteção de mananciais,
instrumentos de proteção do meio ambiente, ca- delimitadas por lei estadual ou municipal.
racterizando especialmente os aspectos ambientais A legislação brasileira (Lei Federal 9.985/2000)
relacionados às áreas urbanas. São destacados os con- consolidou os diversos instrumentos com diferen-
flitos entre a preservação e conservação ambientais e tes objetivos ligados à preservação e conservação
a justiça social, especialmente o acesso à moradia e de bens naturais. Ela define dois tipos de unidades
aos serviços urbanos. Ao final. são apresentadas algu- de conservação:
mas diretrizes para integração entre as ações de re-
gularização urbana e fundiária e a necessária recupe-
Unidades de proteção integral (reservas
ração da qualidade ambiental das cidades brasileiras.
biológicas, estações ecológicas, parques
nacionais, monumentos naturais e refú-
1. INSTRUMENTOS LEGAIS DE PROTEÇÃO AMBIENTAL
gios da vida silvestre), onde se proíbe a
existência de populações humanas. Es-
São instrumentos legais de proteção ambiental
sas áreas destinam-se exclusivamente à
as unidades de conservação, as áreas de preserva-
proteção da biota e pesquisa científica;
ção permanente definidas pelo Código Florestal em

* Esse texto (10/2003) baseia-se em palestra apresentada na Sessão Temática sobre regularização em áreas de proteção
ambiental no Seminário Nacional de Regularização Fundiária Sustentável, promovido pelo Ministério das Cidades, em Brasília,
em 28 e 29 de julho de 2003.

45
Bueno, L. M. de M.

Unidades de uso sustentável (áreas de bordas de tabuleiros ou chapadas, campos e flores-


proteção ambiental (APA), áreas de rele- tas em altitudes superiores a 1.800 metros). Modifi-
vante interesse ecológico, floresta naci- cação desta lei em 1978 definiu que ela passava a
onal, reserva extrativista, reserva de vigorar em áreas metropolitanas definidas por lei. E
fauna, reserva de desenvolvimento sus- outra modificação, em 1986, redefiniu a largura das
tentável e reserva particular do patri- faixas de proteção permanente dos cursos d’água22.
mônio natural). Nessas unidades, sob for- O Código Florestal também prevê a possibilidade
ma de contrato ou concessão, nas áreas de supressão destas faixas por ações de interesse
públicas, pode ser permitida a presença público ou social, por meio de prévia autorização.
de populações tradicionais e a explora- As áreas de proteção dos mananciais têm sido
ção de recursos. Para isso, a legislação definidas para proteger, mediante controle do uso e
exige uma lei específica regulamentando ocupação do solo, terrenos privados dentro de ba-
as atividades a partir de um Plano de cias hidrográficas de interesse regional para recarga
Manejo. Destaque-se que as APAs têm de fontes de água para abastecimento público. Essa
sido criadas com delimitações territoriais forma de proteção desenvolveu-se com o abandono
abrangentes, englobando em seu terri- da aquisição das áreas de mananciais, forma de pro-
tório atividades econômicas pré-existen- teção mais praticada no início da organização dos
tes e mesmo sedes de municípios. serviços de saneamento no Brasil (Bueno, 1994). No
início do século XX, a proteção se concretizava atra-
vés da aquisição das terras pelo órgão responsável
A mesma lei definiu o conceito de Zona de pelo abastecimento e fechamento para uso urbano
Amortecimento em torno das unidades de conser- ou mesmo agrícola. Nos anos 30, esse modelo foi
vação, onde devem ser estabelecidas regulamenta- sendo abandonado. A expansão urbana, ocorrida a
ções específicas para minimizar o chamado efeito partir dos anos 60, começou a comprometer o fu-
de borda, de atividades limítrofes à área protegida. turo do abastecimento em diferentes locais, optan-
O Código Florestal (Lei Federal 4.771/1965 do-se pela definição de medidas restritivas ao uso e
com últimas modificações na MP 2.166-67/2001) ocupação do solo dos terrenos privados, por meio
considera de preservação permanente as florestas e de leis estaduais (Estado de São Paulo para a região
demais formas de vegetação natural em locais deter- metropolitana, por exemplo) ou municipais, ao in-
minados (faixas ao longo de cursos d’água, topos de vés da aquisição das terras. A legislação federal que
morros, montes, montanhas e serras, encostas com criou a unidade de conservação APA, de 1981, cita
declividade superior a 45 graus ou 100%, restingas claramente a proteção de mananciais como objetivo
fixadoras de dunas ou estabilizadoras de mangues, desta unidade de conservação.

2
As faixas são: rios com menos de 10 metros de largura – faixa de 5 para 30 metros; de metade da largura para os rios entre 10
e 200 metros, para 50 metros de faixa para rios entre 10 e 50 metros de largura, de 100 metros de faixa para rios que tenham
de 50 a 100 metros de largura e de 150 metros de faixa para rios que tenham de 100 a 200 metros; e para os rios com largura
superior a 200 metros, faixa igual à sua largura.

46
Regularização em Áreas de Proteção Ambiental no Meio Urbano

2. TRÊS CASOS Voltando o olhar ao ambiente urbano, gostarí-


amos de relatar três casos, um em Fortaleza, Ceará,
Apresentam-se, a seguir, alguns casos de con- outro em Jundiaí, Estado de São Paulo e o último em
flito entre a legislação ambiental e as ocupações hu- Campinas, também no Estado de São Paulo. A partir
manas que podem fazer aflorar diretrizes para apri- de sua apresentação, procuraremos apresentar al-
moramento da gestão urbana ambiental e para a re- guns princípios para a regularização que articule jus-
gularização urbana e fundiária. tiça social e qualidade ambiental, ou seja, a regulari-
Destacaremos esse conflito nas áreas urbanas, zação entendida como ação de recuperação urbana
mas não podemos deixar de registrar o que vem e ambiental.
acontecendo nas áreas rurais, notadamente nas uni- Em pesquisa (Labhab, 1999) sobre avaliação
dades de conservação de grande dimensão, como de obras de urbanização de favelas, estudou-se o
parques nacionais e estaduais. No caso das unidades Castelo Encantado, assentamento cadastrado como
de conservação de proteção integral ou de uso sus- favela no município de Fortaleza, que recebeu inves-
tentável, é possível colecionar casos de conflitos que timentos do governo estadual. Foi removida uma área
a lei não resolveu, ou até acirrou, de comunidades de risco – uma duna ocupada em frente à Praia de
tradicionais (como caiçaras, caipiras, índios acultu- Iracema, e o restante da área foi urbanizado, com
rados ou quilombolas) que não tiveram seus direitos introdução de saneamento ambiental, abertura de vias
de vida digna reconhecidos, tornando-se para os etc. Quando nos debruçamos sobre o caso, por meio
ambientalistas mais radicais assentamentos ilegais ini- de diferentes instrumentos de pesquisa, desvenda-
migos da biota. Essas comunidades vêm sendo re- ram-se outros aspectos. Constatamos que no local
movidas ou ameaçadas pela ação conservacionista. moravam pessoas há mais de 30 anos, bem como
São tratadas como inimigos mais importantes até que seus descendentes. Alguns dos moradores tinham
a política agrícola, com seu modelo de expansão da como principal atividade econômica a pesca. De fato,
fronteira. A essas populações são negados assistên- a favela está localizada em frente ao último local de
cia e investimentos que, segundo os argumentos atracagem da pesca artesanal em Fortaleza e o últi-
conservacionistas, iriam descaracterizar a preserva- mo mercado de peixe da cidade localizado à beira
ção dos bens naturais. Na prática, nega-se o valor da mar. Na verdade, então, o que havia ocorrido era
posse centenária das terras pela ausência de forma- que a última aldeia de pescadores da área urbana de
lização. Comunidades inteiras e seus descendentes Fortaleza3 havia se adensado em condições urbanas
vêm sendo expulsas das unidades de conservação, e habitacionais frágeis, precarizando os direitos de
transferindo-se para novas favelas nas bordas destas posse dos descendentes, incluídos, agora, no grupo
áreas. Em outros casos, são abandonadas à própria moradores da favela. Esse processo possibilitou que
sorte, sem assistência de saúde, educação, alimen- alguns moradores fossem removidos por estarem
tos, com grande deterioração dos locais, à espera em local de risco e interesse ambiental (duna). De
de sentenças judiciais. fato, o local foi se congestionando com a construção

3
Conforme o relatório da pesquisa (Labhab, 1999: 9), “...trata-se de antiga vila de pescadores com poucas famílias, onde todos
se conheciam. A ocupação se expande por influência do porto do Mucuripe em meados da década de 50, com a migração de
pescadores de outras áreas do estado e do nordeste do país...e um loteamento clandestino ...foram vendidos terrenos na parte
superior da duna”.

47
Bueno, L. M. de M.

de novos barracos sem saneamento básico e nenhu- empreendimentos são vendidos com sucesso, ape-
ma organização espacial. Hoje, para ir do Castelo sar de serem ilegais, sem condição de registro em
Encantado à praia é preciso atravessar uma linha fer- Cartório de Registro de Imóveis.
roviária e uma avenida. Na praia, outro conflito aflora. Em Campinas, há 100 km de São Paulo, en-
Em 1999, época da pesquisa, estava em construção contra-se outra situação de conflito entre a qualida-
perto do mar (terras da marinha) um apart hotel, de urbana e ambiental, relatada em trabalho do La-
junto ao mercado de peixes. Os empreendedores e boratório da Habitat de 2000. O município de Cam-
investidores estavam mobilizando a opinião pública pinas tem um milhão de habitantes, sendo a sede da
para remover o local de atracagem e o mercado de Região Metropolitana de Campinas, recentemente
peixe, devido ao incômodo e mau cheiro provoca- criada pelo governo estadual. Loteamentos popula-
do pela atividade de pesca e comercialização. res implantados no fim dos anos 50 deixaram como
Estudo elaborado por Pradella, em 2002, do- áreas públicas faixas à beira do córrego Taubaté, que
cumentou alguns empreendimentos imobiliários clan- deságua no Rio Capivari. Alguns dos loteamentos
destinos em área rural e de proteção ambiental do existentes, portanto, foram comercializados antes da
município de Jundiaí, a 50 km de São Paulo. São en- aprovação do Código Florestal e da Lei Lehmann. A
contrados justamente na zona de amortecimento da montante deste ponto do Rio Capivari, o município
Serra do Japi. A Serra está protegida por instrumen- de Campinas retira água para abastecimento. A jusante
tos de preservação com diferentes perímetros: re- Campinas lança o esgoto doméstico de cerca de sua
serva biológica por lei municipal, tombamento por população. Após a área urbana de Campinas, outros
resolução estadual e APA por lei estadual. O municípios usam a bacia do Rio Capivari para abaste-
zoneamento municipal define essa área como rural, cimento, retirando principal. Estima-se uma popula-
e o Plano Diretor a classifica como Macrozona de ção de 100.000 habitantes na bacia do córrego
Proteção e Macrozona de Preservação Ambiental, Taubaté, mas há água de seus afluentes e para despe-
enquanto a lei estadual da APA como Zona de Prote- jo dos esgotos, inclusive, no rio, há ainda muitas
ção da Vida Silvestre. O que causa espanto nestes glebas e loteamentos vazios, além de alguma ativida-
loteamentos é o padrão socioeconômico dos mora- de agrícola remanescente. Desde os anos 70, favelas
dores, identificado a partir do padrão arquitetônico. vêm ocupando as margens do córrego e outras áre-
São residências de alto padrão, geralmente com mais as públicas. Em 1996, um loteamento privado irre-
de 300 metros quadrados de área construída e pis- gular e ainda desocupado foi invadido por organiza-
cinas em muitas das unidades. Alguns loteamentos ção de movimentos sem-teto, constituindo bairros
são fechados ao público. Outro trecho do municí- precários, com cerca de 3.000 moradias, denomi-
pio, a bacia do Rio Jundiaí-Mirim, é protegido por lei nados Parque Oziel e Monte Cristo. A ocupação (de-
municipal de mananciais. No zoneamento municipal, nominação regional de invasão de terras particula-
a bacia é classificada como área rural em quase toda res) está situada nas nascentes, próxima à Rodovia
sua extensão, com exceção de alguns bairros rurais Anhanguera, em um dos principais acessos de Cam-
históricos. Mas há casos de venda de chácaras de pinas, entroncamento com a estrada de Indaiatuba e
recreio e condomínios horizontais para residência, a estrada Santos Dumont, que dá acesso ao Aero-
por meio da negociação de fração ideal de proprie- porto Viracopos e a Sorocaba. Adiciona-se à com-
dades agrícolas. Fazendas e sítios se tornam pouco plexidade da situação socioeconômica e fundiária um
competitivos em lucratividade agropecuária frente à aspecto geotécnico que agrava as condições de ris-
atividade imobiliária para classe média e alta. Os co de vida e perdas materiais. A área apresenta pre-

48
Regularização em Áreas de Proteção Ambiental no Meio Urbano

ponderância de solos de arenito, muito suscetíveis à mas de transporte e outros serviços), lançamento
erosão. Mesmo se este córrego estivesse em área de esgotos nos cursos d’água pelos próprios siste-
com biota totalmente preservada, ele mudaria seu mas de afastamento de esgotos domésticos, coleta
curso todo ano, após as chuvas de verão, pois suas de lixo parcial e com disposição final inadequada,
margens e de seus afluentes e nascentes erodem e inacessibilidade à moradia digna, com a formação de
solapam por serem de areia. Assim, trata-se de assentamentos precários e irregulares.
impasse – sem obras de estabilização das margens Quanto às ilegalidades, nos assentamentos
do córrego, drenagem e pavimentação, as famílias precários de interesse social, têm-se conflitos em
moradoras (legal ou ilegalmente) têm sofrido per- relação à:
das de vidas e materiais. Mesmo se as pessoas que
moram em faixa non-aedificandi ou nas faixas da área posse do terreno (casos de invasão
de preservação permanente forem removidas, o e grilagem);
processo erosivo continuará.
parcelamento e edificação em terre-
nos de uso ou edificação proibidos –
3. POLÍTICA AMBIENTAL URBANA
área de uso comum do povo, beira
de córrego, alta declividade;
Quando discutimos a política ambiental em área
urbana devemos lembrar que: parcelamento e ocupação do solo dife-
rentes da legislação vigente – dimen-
Toda cidade, mas especialmente as gran- são dos lotes, vias, índices e, por fim;
des estruturas ambientais urbanas apre-
própria edificação: uso misto em zona
sentam intensas relações com regiões mais
estritamente residencial, materiais,
amplas (poderíamos comparar com o con-
dimensão, ventilação, iluminação.
ceito de ecossistema), sejam elas os eixos
de ocupação humana (as regiões econô- A experiência mostra que nem tudo o que é
micas), sejam as áreas de suporte à pro- irregular é precário. Muitas das situações de segu-
dução de energia, alimentos, disposição de rança, salubridade e conforto, que as exigências le-
resíduos e outras demandas urbanas. Ao gais têm por objetivo garantir, são alcançáveis por
mesmo tempo, a qualidade do ambiente meio da execução de obras de infraestrutura urba-
urbano – em seus aspectos funcionais, na, especialmente drenagem, redes de água, redes
sanitários e estético-culturais – está dire- de esgoto e viabilização da coleta de lixo. Verificam-
tamente relacionada à qualidade da vida se muitas situações, especialmente em relação às
humana (Bueno, 2001). moradias e estrutura do parcelamento, que são ade-
quadas e têm sido aproveitadas e mantidas no pro-
Nossas cidades são resultado de nossa estru- cesso de urbanização. Os impactos ambientais e sa-
tura social, caracterizada por diferentes condições nitários decorrentes de grande número destes as-
de vida e de acesso a serviços e equipamentos urba- sentamentos são resultado, sobretudo, da ausência
nos. Historicamente, nosso ambiente construído de infraestrutura urbana.
apresenta uma urbanização incompleta – bairros sem Tendo como referência os casos apresentados,
pavimentação com erosão (causando assoreamentos deve-se ter em conta que a regularização urbana
dos cursos d’água e dificuldades de acesso aos siste- ambiental precisa ser entendida com uma ação com

49
Bueno, L. M. de M.

dois objetivos integrados, de promover a recupera- aumento da permeabilidade e da retenção de água


ção da qualidade ambiental e, ao mesmo tempo, das de chuvas intensas; e aumento das áreas verdes (ilhas
condições de vida. O entendimento de justiça social de calor). As áreas verdes são ambientalmente im-
torna obrigatória a diferenciação entre a violação da portantes não só nos interstícios urbanos, configu-
lei por opção e a violação por necessidade, quando rados por jardins, quintais, áreas livres e de lazer,
então se configura a situação de interesse social. Se- mas também na configuração de um cinturão ver-
4
gundo Alfonsin , justiça social na visão contemporâ- de entre áreas urbanas, composto de áreas rurais
nea engloba duas dimensões de direito que podem e de lazer, de maior permeabilidade e por unida-
ser vinculadas às condições de vida urbana e de qua- des de conservação.
lidade da moradia – igualdade e diferença. O direito Hoje em dia, observa-se uma atualização dos
à igualdade significa que todo cidadão tem direito à paradigmas do urbanismo e da engenharia urbana em
cidade, à moradia digna e ambientalmente saudável. função da situação ambiental mundial. Em escala
O direito à diferença significa que deve haver res- mundial, desenvolvem-se pesquisas visando quebrar
peito à produção cultural e social do habitat, com a o monopólio do uso de combustíveis fósseis, vol-
flexibilização dos padrões e regime urbanístico. tando-se para soluções que diminuam o lançamento
Assim, na escala intraurbana, a complementa- de poluentes e o aquecimento global. Nas cidades
ção da urbanização dos assentamentos precários, brasileiras, vive-se um impasse em relação à opção
sua integração ao sistema urbano e sua regulariza- (macroeconômica) pelo automóvel e a decorrente
ção devem ser entendidas como um instrumento degradação ambiental (congestionamentos e polui-
de recuperação ambiental, mediante o qual se pro- ção do ar) e a falta de recursos financeiros para a
move a justiça social. Isso somente se configura melhoria da oferta de serviços públicos acessíveis e
quando há vinculação entre o interesse social (ca- de qualidade. Notadamente, a respeito da produção
racterísticas socioeconômicas e culturais das po- de resíduos, está consagrada (no meio científico) a
pulações beneficiadas) e o interesse público (garantir necessidade de modificação dos processos industri-
um ambiente saudável). ais e do comportamento social em direção à redu-
Conclui-se que os casos de irregularidade ur- ção, reutilização e reciclagem. Esses conceitos têm
banística, fundiária e dano ambiental, causados por sido utilizados não só para o tratamento dos resídu-
assentamentos que não foram promovidos pela ne- os sólidos, mas também para a própria água (Cunha,
cessidade, mas pela presunção de impunidade, de- 2003). Propõe-se o uso racional, tendo sido desen-
vem ser tratados de forma diversa quanto à aplica- volvidos equipamentos que utilizam menor quanti-
ção de penalidades e quanto à inversão de recursos dade da água e incentivos à sua adoção, a reutilização
financeiros do poder público em ações de recupera- da água, notadamente na atividade industrial. Verifi-
ção urbana ambiental. ca-se também a pressão da sociedade para a cons-
A qualidade do ambiente na área urbana está trução de Estação de Tratamento de Efluentes (ETEs)
vinculada à recuperação da qualidade da água, do ar em nossas cidades.
e do solo; ao controle e diminuição de lançamentos Na área de drenagem urbana, formulam-se
de resíduos (esgotos, lixo, poluição difusa na rede dispositivos para promover a contenção das águas
de drenagem); controle das inundações por meio do pluviais na cidade existente em estruturas construídas

4
Alfonsin desenvolve o paralelo sobre cidade e moradia a partir da proposição de Boaventura Sousa Santos.

50
Regularização em Áreas de Proteção Ambiental no Meio Urbano

e adoção de padrões com maior permeabilidade nos vem-se as dificuldades administrativas decorrentes
lotes e pontos estratégicos do sistema de drenagem, do texto da MP 2166-67 de 2001, que modifica e
como forma apropriada de controlar os picos de acresce artigos ao Código Florestal: “artigo. 4º. A
cheia causados por chuvas intensas. Essa postura supressão de vegetação em área de preservação
começa a se contrapor à visão convencional de trans- permanente somente poderá ser autorizada em caso
ferir o pico de cheia para jusante de aumentar a va- de utilidade pública ou de interesse social, devida-
zão dos canais de drenagem, sobretudo através da mente caracterizados e motivados em procedimen-
retificação e canalização dos cursos d’água. O urba- to administrativo próprio, quando inexistir alternati-
nismo contemporâneo volta-se à valorização da pre- va técnica ou locacional ao empreendimento propos-
sença da água no meio urbano, ao invés de aceitar to. (...) Parágrafo 2º. A supressão de vegetação em
(ou até induzir) as soluções de engenharia urbana de área de preservação permanente situada em área
enterramento de córregos e nascentes. urbana dependerá de autorização do órgão ambiental
A aplicação em área urbana de instrumentos competente, desde que o município possua conse-
legais relacionados aos fundos de vale (áreas non- lho de meio ambiente com caráter deliberativo e
aedificandi da Lei Lehmann em projetos de plano diretor, mediante anuência prévia do órgão
parcelamento e as faixas ao longo de cursos d’água ambiental estadual competente fundamentada em
em áreas metropolitanas do Código Florestal) pro- parecer técnico.”
duziu um grande número de situações em que essas Para a complementação da urbanização de
áreas, doadas ao poder público municipal como áre- nossas cidades com garantia de qualidade de vida e
as verdes e de lazer, constituíram-se em terrenos segurança sanitária, essas áreas próximas aos
baldios paulatinamente invadidos por pessoas pobres córregos e rios precisam receber estruturas de es-
como vimos em caso já apresentado. Consideradas tabilização geotécnica e de drenagem, para controle
até os anos setenta como situação temporária, as de enchentes, de erosão, de poluição difusa e inibi-
favelas foram transformando seus barracos em ca- ção de acidentes; equipamentos para afastamento
sas de alvenaria e passaram a receber obras de urba- (EEE) e tratamento dos esgotos (ETE); remoção
nização. Muitas dessas áreas apresentam trechos jus- periódica de resíduos sólidos; pontes para veículos
tamente dentro dessas faixas junto aos córregos. As e pedestres. Essas mesmas áreas, quando se conse-
obras para resolver as perdas de vida e materiais gue impedir o lançamento de esgotos domésticos,
com enchentes (estabilização de margens, canaliza- tornam-se valorizadas para área de lazer, esportes e
ção e aterramento de margens) têm sido incluídas verdes de acesso público. Essas demandas eminen-
nas ações de urbanização, concretizando conflitos temente relacionadas ao ambiente urbano têm cau-
entre a ação e o texto legal. sado conflitos com interpretações de que nas cida-
Portanto, essa complexa situação do ambien- des deve-se promover a reintrodução de matas
te urbano contemporâneo, em especial em cidades ciliares semelhantes ao habitat natural anterior à ocu-
como as nossas que ainda apresentam os problemas pação humana.
de risco sanitário pela ausência da universalização do Considera-se como adequada a discussão pro-
saneamento ambiental, requer um grande número movida pela Associação de Órgãos Municipais de Meio
de ações estruturais inovadoras, além de conscienti- Ambiente (Anamma, 2002) sobre a conveniência de
zação e educação ambiental. rever a forma de aplicação do Código Florestal na
Para a execução dessas obras de complementa- cidade existente e a iniciativa do Conselho Nacional
ção e readequação da infraestrutura urbana, obser- de Meio Ambiente (Conama) – MMA, 2002 –, de ela-

51
Bueno, L. M. de M.

borar uma resolução que regulamente as ações de 4. A PROTEÇÃO DOS MANANCIAIS E O USO URBANO
interesse social e ambiental em áreas urbanizadas.
Demonstrando a relação da cidade com es- A existência de água em condições sanitárias
truturas regionais mais amplas, surgem recentemente adequadas à utilização para abastecimento humano
indicadores da complexidade da questão do habitat está relacionada à manutenção das condições do ci-
humano e sua relação com a fauna. Desde os anos clo hidrológico e impedimento de qualquer conta-
50, portanto antes do Código Florestal, ocorreu no minação: a precipitação deve alcançar a cobertura
Estado de São Paulo a ampliação extensiva das ativi- vegetal, chegando à superfície sem provocar ero-
dades agrícolas sem a preservação de matas ciliares são, penetrar no solo e, através de lenta percolação,
e reservas de habitat natural. A preocupação mais chegar aos lençóis freáticos e profundos, que irão
recente com a questão da preservação ambiental alimentar os cursos d’água e suas nascentes. Para isso,
promoveu a criação ou valorização de parques ur- é necessário manter permeabilidade do solo sem
banos com áreas de lazer, esportes e verdes de aces- deixá-lo exposto, evitar concentração de escoamen-
so público em diversas cidades envoltas de intensa tos, evitar erosão e impedir lançamentos de poluen-
atividade agrícola, e até mesmo da transformação tes. Essas condições são atingidas de forma mais efi-
destas áreas em empreendimentos imobiliários, com caz (alta eficiência e baixo custo) por meio da manu-
menor quantidade de áreas florestadas. A diminui- tenção da vegetação natural e manutenção de áreas
ção das reservas naturais acabou por praticamente agrícolas, desde que com controle da poluição difusa
erradicar algumas espécies, como os predadores da por agrotóxicos e dejetos produzidos por animais.
capivara, a qual, por sua vez, teve sua caça proibida. Portanto, pode-se afirmar que o uso urbano (assim
Verifica-se um fenômeno não previsto: a prolifera- como o agroindustrial) não é desejável em áreas de
ção de capivaras, expulsas das matas ciliares retira- mananciais. A proteção mais eficaz, conforme já se
das pela agricultura, e sua migração para esses par- afirmou anteriormente, seria a constituição de áreas
ques urbanos. Em paralelo ao discurso idílico da con- de preservação sem acesso ao uso humano nas baci-
vivência do homem com os animais, constata-se a as hidrográficas de interesse para abastecimento
ocorrência da infestação de carrapatos em alguns público de água.
locais. Um deles, cujo principal hospedeiro é a Quando encontramos um assentamento pre-
capivara, é o carrapato-estrela, transmissor da fe- cário em área de manancial, já ocorreu o desequilíbrio
bre maculosa ao homem, doença que, este ano, no do ciclo hidrológico e a contaminação da água. Por
Estado de São Paulo, causou letalidade em 50% dos isso, ao se analisar a possibilidade de regularização
casos. A doença é provocada pela bactéria Rickettsia de assentamentos humanos de interesse social em
rickettssii, transmitida ao homem pelo carrapato– áreas de mananciais, é necessário observar quais se-
estrela. Essa bactéria é encontrada na corrente san- riam os padrões aceitáveis (não desejáveis) para a
guínea de animais silvestres e domésticos. A Prefei- continuidade do uso daquela fonte de água e manu-
tura de Campinas está solicitando ao Ibama a re- tenção do assentamento. Trata-se de analisar os cus-
moção das capivaras de áreas verdes e parques da tos e a viabilidade social e econômica de uma remo-
cidade, em função do risco à saúde pública. Segun- ção, e o tempo para sua execução, comparando-se
do a Folha de São Paulo de 23/8/2003, “A circula- com o resultado para a qualidade e quantidade de
ção e permanência nos gramados e vegetação da água, se as obras de recuperação forem executadas
lagoa está proibida”. em prazo menor. Isso somente será verificado com
o estudo da sub-bacia hidrográfica onde o assenta-

52
Regularização em Áreas de Proteção Ambiental no Meio Urbano

mento está inserido e da viabilidade de melhoria da rada e fiscalizada, visando continuamente auferir os
qualidade e aumento da quantidade da água por meio resultados do processo de recuperação.
de obras de recuperação ambiental e adequação ur- Assim é fundamental relacionar obras de urbani-
bana em toda a unidade hidrográfica. A recuperação zação à compensação ambiental e recuperação das
da qualidade e quantidade será resultado do aumen- condições de produção e de qualidade do manancial.
to da permeabilidade do local e, sobretudo, da cons-
trução de estruturas de contenção e infiltração, ações 5. PROPOSTAS PARA A REGULARIZAÇÃO URBANA E A
para controle da erosão e do impedimento de lança- RECUPERAÇÃO AMBIENTAL DE INTERESSE SOCIAL
mentos de poluentes (por fonte pontual ou difusa)
no sistema de drenagem. Como contribuição, apresentam-se, a seguir, al-
Trata-se não só de controlar o escoamento gumas ações que vêm sendo implementadas para o
superficial e diminuir a velocidade e a quantidade de equacionamento de tão complexo problema urbano,
água, mas, principalmente, de controlar a qualidade. que, em nosso entendimento, terão maior eficácia se
A poluição difusa é nossa maior vilã, inclusive pelas aplicadas de maneira ampla, constituindo-se, então,
dificuldades de controle dos contaminantes – poeira uma verdadeira política nacional de recuperação ur-
de desgaste de pneus, lixo lançado na via pública, bana e ambiental em áreas urbanas consolidadas:
como “bituca” de cigarro, uso de agrotóxicos em
paisagismo, lançamento de dejetos químicos na dre- Acompanhamento pelo Ministério Públi-
nagem. Isso significa que deverá haver um cuidado co das ações do Executivo Municipal,
muito maior no aspecto do comportamento da po- definindo-se em Termos de Aditamento
pulação moradora da área da sub-bacia. de Conduta por sub-bacia hidrográfica
as responsabilidades dos diferentes ato-
A política e o discurso setorial – água é res e agentes da irregularidade – ex-pro-
uma coisa, habitação é outra, fiscaliza- prietários, poder público com poder de
ção não é assunto de plano, a legislação polícia sobre o uso do solo na área e a
ambiental não pode permitir a regulari- associação de moradores beneficiada;
zação de invasões – não dão conta de
Deve-se exigir obras de adequação ur-
encontrar saídas. (...) A gestão urbana
bana e recuperação ambiental para a re-
ambiental, causada no favor, no privilé-
gularização fundiária (para que não se
gio e na arbitrariedade, tem como ins-
corra o perigo de formalizar titulação
trumento a regulamentação detalhista,
sem viabilizar recursos para obras);
restritiva e abstrata em relação à situa-
ção real de nossas cidades, mas com uma Exigência de delimitação das áreas em
regulamentação sem fiscalização, lançan- regularização como ZEIS/AEIS, como
do os mais pobres na ilegalidade, os mais forma do poder público municipal
favorecidos nos caminhos da burla e da (legislativo e executivo) formalizar inte-
corrupção, pela aplicação arbitrária das resse e compromisso pela regularização
leis (Bueno, 1998). e de Plano de Gestão da ZEIS/AEIS, apro-
vado pelo Executivo (execução de obras,
A partir desse entendimento, afirma-se que a registro e manutenção urbana) para
ação regularização/recuperação deverá ser monito- formalização das titulações;

53
Bueno, L. M. de M.

Em assentamentos precários não contí- BUENO, L. Projeto e Favelas: metodologia para projetos de
nuos à mancha urbana existente, exigên- urbanização. Tese de Doutorado, São Paulo: FAUUSP, 2000.

cia de parecer do órgão público respon- - “Gestão Ambiental Urbana: o que e como fazer?” Palestra
sável por saneamento ambiental e trans- na Faculdade de Saúde Pública da USDP, São Paulo, setem-
porte público sobre adequação e viabili- bro de 2001.
dade de atendimento;
- “O saneamento na urbanização de São Paulo”, Dissertação

Apresentação de projeto urbanístico em de Mestrado, São Paulo: FAUUSP, 1994.

meio digital, de forma a aprimorar e mo- - Proteção de mananciais: porque regulamentação e ges-
dernizar a gestão municipal; tão não andam juntas? In: Cadernos Técnicos AUT n. 4, De-
partamento de Tecnologia da Arquitetura da FAUUSP, São
Apresentação de cadastro das famílias e Paulo, 1998.
das edificações a regularizar, com envio
CONSELHO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE. Proposta
dos cadastros aos setores responsáveis
de resolução – dispõe sobre parâmetros, critérios e explicitações
por fiscalização de políticas sociais (in-
técnicas para áreas de Preservação Permanente em área urbana
teresse social) e uso, ocupação do solo
consolidada – proc no. 02000.001362/2002-13, <www.
e tributação; mma.gov.br>.

Em áreas de proteção dos mananciais, CUNHA, M. Reuso da água. IN: SEMINÁRIO ÁGUA NO
exigência de monitoramento do impac- MEIO URBANO, PUCCampinas. Anais, no prelo... Campi-
to das obras de adequação urbana e re- nas, 2002.

cuperação ambiental em relação à L’HABITAT - Laboratório do Habitat da FAU PUCCampinas,


permeabilidade e controle da poluição “Plano de Ação para Recuperação socioambiental de Bacia
difusa; Hidrográfica Urbana: Estudo do caso do córrego Taubaté –
Campinas, SP”, CD-ROM dos Anais do Seminário Internaci-
Aprimoramento e aprovação de resolu-
onal Gestão da Terra Urbana e Habitação Social, Campinas,
ção do Conama, com explicitação de dezembro de 2000.
critérios para tratamento das áreas de
LABHAB/FAUUSP - Laboratório de Habitação e Assenta-
preservação permanente em área urba-
mentos Humanos do Departamento de Projetos da FAUUSP,
na para fins de interesse social, definin-
“Segundo relatório da pesquisa Parâmetros para urbaniza-
do-se procedimentos para regularização ção de favelas”, FAUUSP, xerox, 1999a.
de assentamentos precários.
LABHAB/FAUUSP - Laboratório de Habitação e Assenta-
mentos Humanos do Departamento de Projetos da FAUUSP,
“Relatório final da pesquisa Parâmetros para urbanização de
favelas”, 1999b.
Referências Bibliográficas
PRADELLA, Décio, “Estudo das condições da interface en-
ALFONSIN, B. Palestra. In: SEMINÁRIO DE REGULARIZA-
tre as áreas urbanas de Cabreúva e Jundiaí e a Serra do Japi”,
ÇÃO FUNDIÁRIA, organizado pelo Instituto de Registro Imo-
trabalho final apresentado no Curso de Especialização De-
biliário do Brasil e o Ministério Público do Estado de São
senho e Gestão do território Municipal, PUCCampinas, 2003.
Paulo, São Paulo, julho de 2003.

ANAMMA, Associação Nacional de Municípios e Meio Am-


biente “Ata do 4o Encontro Regional/sudeste da ANAMMA”,
São Carlos, ESP, 31/7/2002.

54
Urbanização de Risco: expressão territorial de uma ordem urbanística excludente e predatória

Urbanização de Risco: expressão territorial de uma ordem


urbanística excludente e predatória*

Ana Margarida Koatz1

1
Arquiteta e Urbanista, Assistente Técnica do Departamento de Pla-
nejamento Urbano da Secretaria Nacional de Programas Urbanos.

A imensa e rápida urbanização pela qual passou a A urbanização vertiginosa, coincidindo com o fim
sociedade brasileira foi certamente uma das principais de um período de acelerada expansão da economia
questões sociais experimentadas no país no século XX. brasileira, introduziu, no território das cidades, um novo
Enquanto em 1960, a população urbana representava e dramático significado: mais do que evocar progresso
44,7% da população total – contra 55,3% de popula- ou desenvolvimento, elas passam a retratar – e repro-
ção rural –, dez anos depois, essa relação se invertera, duzir – de forma paradigmática as injustiças e desigual-
com números quase idênticos: 55,9% de população dades da sociedade.
urbana e 44,1% de população rural. No ano 2000, Estas se apresentam no território sob várias
81,2% da população brasileira vivia em cidades. Essa morfologias, todas elas bastante conhecidas: nas imen-
transformação, já imensa em números relativos, torna- sas diferenças entre as áreas centrais e as periféricas
se ainda mais assombrosa se pensarmos nos números das regiões metropolitanas; na ocupação precária do
absolutos, que revelam também o crescimento mangue em contraposição à alta qualidade dos bairros
populacional do país como um todo: nos 36 anos entre da orla nas cidades de estuário; na eterna linha divisória
1960 e 1996, a população urbana aumentou de 31 entre o morro e o asfalto; e em muitas outras variantes
milhões para 137 milhões, ou seja, as cidades recebe- dessa cisão, presentes em cidades de diferentes tama-
ram 106 milhões de novos moradores no período. nhos, diferentes perfis econômicos e regiões diversas.2

*
Texto selecionado da introdução do Guia do Estatuto da Cidade, pág. 24.
2
“Segundo os dados levantados pelo IBGE foram encontradas favelas em 27,6% dos municípios brasileiros. (...) Em 56,6% dos
municípios com população entre 50 mil e 100 mil habitantes existem favelas, o mesmo acontecendo em 79,9% daqueles com
população entre 100 mil e 500 mil habitantes e na totalidade dos municípios com população superior a 500 mil habitantes”. François
E. J. Bremaeker, O Papel do Município na Política Habitacional Rio de Janeiro, Série Estudos Especiais, nº 32, IBAM, junho de 2001, p.7.

55
Koatz, A. M.

O quadro de contraposição entre uma mino- preservação ambiental, o que caracteriza nossa ur-
ria qualificada e uma maioria com condições urbanís- banização selvagem e de alto risco.
ticas precárias é muito mais que a expressão da de- Esses processos geram efeitos nefastos para
sigualdade de renda e das desigualdades sociais: ela é as cidades como um todo. Ao concentrar todas as
agente de reprodução dessa desigualdade. Em uma oportunidades de emprego em um fragmento da ci-
cidade dividida entre a porção legal, rica e com dade, e estender a ocupação a periferias precárias e
infraestrutura e a ilegal, pobre e precária, a popula- cada vez mais distantes, essa urbanização de risco
ção que está em situação desfavorável acaba tendo vai acabar gerando a necessidade de transportar
muito pouco acesso às oportunidades de trabalho, multidões, o que, nas grandes cidades, tem gerado
cultura ou lazer. o caos nos sistemas de circulação. E quando a ocu-
Simetricamente, as oportunidades de cresci- pação das áreas frágeis ou estratégicas, sob o ponto
mento circulam nos meios daqueles que já vivem de vista ambiental, provoca enchentes ou erosão, é
melhor, pois a sobreposição das diversas dimen- evidente que quem vai sofrer mais é o habitante des-
sões da exclusão incidindo sobre a mesma popula- ses locais, mas as enchentes, a contaminação dos
ção faz com que a permeabilidade entre as duas mananciais e os processos erosivos mais dramáticos
partes seja cada vez menor. Esse mecanismo é um atingem a cidade como um todo. Além disso, a pe-
dos fatores que acabam por estender a cidade in- quena parte melhor infraestruturada e qualificada do
definidamente: ela nunca pode crescer para den- tecido urbano passa a ser objeto de disputa imobili-
tro, aproveitando locais que podem ser adensados, ária, o que acaba também gerando uma deteriora-
é impossível para a maior parte das pessoas o pa- ção dessas partes da cidade.
gamento, de uma vez só, pelo acesso a toda a Esse modelo de crescimento e expansão ur-
infraestrutura que já está instalada. bana, que atravessa as cidades de Norte a Sul do
Em geral, a população de baixa renda só tem país, tem sido identificado, no senso comum, como
a possibilidade de ocupar terras periféricas – mui- “falta de planejamento”. Segundo essa acepção, as
to mais baratas porque comumente não têm qual- cidades não são planejadas e, por essa razão, são
quer infraestrutura – e construir aos poucos suas “desequilibradas” e “caóticas”.
casas. Ou ocupar áreas ambientalmente frágeis, que Entretanto, trata-se não da ausência de plane-
teoricamente só poderiam ser urbanizadas sob con- jamento, mas, sim, de uma interação bastante per-
dições muito mais rigorosas e adotando soluções versa entre processos socioeconômicos, opções de
geralmente dispendiosas, exatamente o inverso do planejamento e de políticas urbanas e práticas políti-
que acaba acontecendo. cas, que construíram um modelo excludente em que
Tal comportamento não é exclusivo dos agen- muitos perdem e pouquíssimos ganham.
tes do mercado informal: a própria ação do poder
público muitas vezes tem reforçado a tendência de
expulsão dos pobres das áreas mais bem localiza-
das, à medida que procura os terrenos mais baratos
e periféricos para a construção de grandes e
desoladores conjuntos habitacionais. Desta forma,
vai se configurando uma expansão horizontal ilimita-
da, avançando vorazmente sobre áreas frágeis ou de

56
Preservação Ambiental ou Moradia? Um Falso Conflito

Preservação Ambiental ou Moradia? Um Falso Conflito

Edesio Fernandes1

1
Jurista e Urbanista, Professor e Pesquisador Universidade de Londres.

Uma das principais características da urbani- Se um número crescente de brasileiros tem


zação intensa no Brasil ao longo das últimas décadas tido que recorrer a processos informais de acesso
tem sido a ocupação crescente de áreas de preser- ao solo urbano e à moradia em razão da omissão e/
vação permanente, áreas de mananciais, áreas non- ou da ação do poder público e de grupos imobiliári-
aedificandi e outras áreas que contêm valores os, um princípio básico do direito, que não mais pode
ambientais. Em alguns casos, são ocupações recen- ser ignorado, é o de que o tempo criou direitos para
tes, como as decorrentes da expansão das favelas os ocupantes de tais áreas - públicas ou privadas -
cariocas, que têm, gradualmente, comprometido o consolidadas. Esse direito foi reconhecido pela Cons-
que sobra da Mata Atlântica local. Em muitos casos, tituição Federal de 1988, pelo Estatuto da Cidade
trata-se de situações urbanas já completamente con- de 2001, e, no que toca às ocupações de terras pú-
solidadas ao longo de décadas ocupação, como é o blicas, pela Medida Provisória nº 2.220/2001. Os
caso da enorme população que mora nas margens programas de regularização de assentamentos infor-
da Represa Billings, na região metropolitana de São mais, que têm sido promovidos por diversos muni-
Paulo. Esforços consistentes devem ser feitos no cípios, visam materializar esse direito, integrando
sentido de impedir novas ocupações de áreas essas áreas informais e suas comunidades na estru-
ambientais, não sendo possível aceitar a atual atitude tura formal da cidade e na sociedade urbana como
de “tolerância 100%” percebida na ação de muitos um todo.
governos locais. Contudo, o tratamento das ocupa- Entretanto, a questão dos assentamentos in-
ções urbanas consolidadas, envolvendo milhões de formais em áreas ambientais continua dividindo opi-
pessoas, exige que outra atitude seja tomada pelos niões e grupos. Trata-se, na verdade, de mais uma
governos e pela sociedade. expressão de um velho conflito entre os defensores
da chamada “agenda verde” do meio ambiente e os

57
Fernandes, E.

defensores da chamada “agenda marrom” das cida- to de moradia continua prevalecendo, devendo ser
des, conflito esse que tem se traduzido também no exercido em outro lugar adequado. São muitos os
crescimento paralelo, e com frequência potencial- exemplos, no Brasil, de programas locais que têm
mente antagônico, de dois ramos do Direito Público tentado construir esses cenários possíveis, em que
brasileiro, quais sejam, o Direito Ambiental e o Di- preservação e moradia são associadas; talvez o me-
reito Urbanístico. Infelizmente, tais grupos estão lhor modelo seja o dos “Bairros Ecológicos” de São
sendo, cada vez mais, insensíveis um para com as Bernardo do Campo, para as ocupações consolida-
demandas do outro, o que, dentre outros proble- das na margem da Represa Billings, onde uma ampla
mas, tem gerado decisões judiciais conflitantes, que articulação coordenada pelo Ministério Publico local
vão da determinação de remoção de milhares de fa- levou à assinatura de Termos de Ajustamento de
mílias sem uma maior preocupação com suas neces- Conduta envolvendo diversos atores – moradores,
sidades de moradia, a recentes decisões judiciais to- loteadores, prefeitura etc. Dado o grau de participa-
madas em prol dos moradores, sem uma maior pre- ção comunitária, novas ocupações têm sido impedi-
ocupação com valores ambientais. De modo geral, das; remoções foram promovidas em certas áreas,
pode-se dizer que os urbanistas têm feito um esfor- bem como reflorestamento e plantio, implantação de
ço maior de inserção de uma preocupação ambiental calçadas ecológicas e outras medidas mitigadoras e
em suas propostas do que os ambientalistas no que compensatórias. A própria comunidade local pagou
toca ao reconhecimento das necessidades sociais de pela instalação de uma estação de tratamento de es-
moradia, sobretudo dos grupos mais pobres. gotos, e, como resultado, a água da represa é hoje
Alguns dispositivos legais do Código Florestal melhor que a água nas origens da represa, poluída por
em vigor, por exemplo, ignoram totalmente as reali- agrotóxicos ou despejos industriais.
dades urbanas do país. Mas, haveria mesmo um con- Não há razão de penalizar a população ocupan-
flito entre preservação ambiental e moradia? Trata- te de áreas de preservação ambiental: é crucial que
se de uma falsa questão: os dois são valores e direi- governos e a população reconheçam que a promo-
tos sociais constitucionalmente protegidos, tendo a ção da regularização dos assentamentos informais é
mesma raiz conceitual, qual seja o princípio da fun- um direito coletivo, condição de enfrentamento do
ção socioambiental da propriedade. O desafio, en- enorme passivo socioambiental criado ao longo de
tão, é compatibilizar esses dois valores e direitos, o décadas no país. Para tanto, é preciso que se adote
que somente pode ser feito por meio da construção um conceito antropocêntrico de natureza, bem como
não de cenários ideais, certamente não de cenários que se tomem todas as medidas necessárias para a
inadmissíveis, mas de cenários possíveis. total reversão do atual modelo de crescimento urba-
A grande novidade da ordem jurídica brasilei- no – segregador e poluidor –, de tal forma que as
ra, mas que ainda não foi totalmente compreendida, cidades brasileiras possam se tornar cidades ecológi-
é que nos lugares em que os valores constitucionais cas e sustentáveis do ponto de vista socioambiental.
forem incompatíveis e um tiver que prevalecer so-
bre o outro, medidas concretas têm de ser tomadas
para mitigar ou compensar o valor afetado. É esse o
espírito da mencionada MP nº 2.220/20001: se o
direito de moradia dos ocupantes de assentamentos
informais em terras públicas não puder ser exercido
no mesmo local, devido a razões ambientais, o direi-

58
Transporte e Saúde Ambiental

Transporte e Saúde Ambiental

Ernesto Galindo1
Natalia Macedo2

1
Ministério das Cidades/Analista de Infraestrutura de Transporte.
2
Ministério das Cidades/Analista Rodoviário Urbano.

1. INTRODUÇÃO sos e preservar padrões de vida. Porém, nem sem-


pre se cumpre essa intenção. Com isso, são gerados
O transporte pode ser definido como o des- consumo excessivo de recursos e diversos outros
locamento intencional de pessoas (passageiros) e efeitos negativos, prejudiciais ao meio ambiente.
bens (cargas) de um local para outro. Ele cumpre o Adota-se o conceito de meio ambiente como
papel de conectar e integrar atividades que se de- o conjunto de condições, leis, influências e interações
senvolvem em diferentes lugares. Por esse motivo, de ordem física, química e biológica, que permite,
ele é considerado uma demanda derivada das ou- abriga e rege a vida em todas as suas formas3. Nesse
tras atividades. sentido, tradicionalmente seus elementos constitu-
São necessárias algumas condições para intes são divididos segundo os meios: físico, biótico
viabilizar esse deslocamento e alcançar as finalidades (ou biológico) e antrópico (ou socioeconômico).
primordiais do transporte (a acessibilidade e a mo- Torna-se necessário, portanto, definir finalida-
bilidade). Na busca por elas, entretanto, podem ser des em relação à minimização dos efeitos e de seus
geradas externalidades negativas. Elas impactam pas- impactos indesejáveis do setor. Essas finalidades po-
sageiros e cargas, a infraestrutura de transporte ou dem ser relacionadas, por exemplo, à redução do tem-
mesmo outros setores da sociedade. po de viagem e de congestionamentos, ao aumento
O consumo de recursos com o transporte é da segurança, à diminuição da poluição ambiental, à
realizado com o intuito de se poupar outros recur- indução, à ocupação e ao uso racional do solo.

3
Brasil. Lei n. 6.938 de 31 de agosto de 1981. Dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de
formulação e aplicação. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, 02/09/81.

59
Galindo, E. & Macedo, N.

Este texto aborda essa relação do transporte efeito no meio antrópico – definem o recorte da
com o meio ambiente observando os possíveis efei- análise deste ponto em diante.
tos do setor e seus consequentes impactos para a A poluição atmosférica, ao influenciar o clima
saúde humana. Restringe-se o foco ao serviço ou terrestre, impacta na produção agrícola, na saúde,
produção do transporte (sem avaliar a cadeia pro- no conforto, na infraestrutura das cidades e na sua
dutiva que antecede o ato de transportar). Limita-se habitabilidade. O consumo de combustíveis é um dos
também à análise de alguns impactos mais amplos e maiores causadores dessa poluição, e os principais
graves à saúde. fatores que o influenciam são a velocidade e a lota-
ção do veículo.
2. INFLUÊNCIA DA PRODUÇÃO DO TRANSPORTE NO De ordem tecnológica, o que faz variar o con-
MEIO AMBIENTE sumo de combustível e a consequente quantidade
de emissão de poluentes é o tipo de combustível
Impacto Ambiental são alterações de proprie- utilizado (gasolina, álcool, gás natural veicular, diesel
dades físicas, químicas ou biológicas do meio ambi- ou biodiesel), o tipo do motor (com ignição por
ente, causadas por matéria ou energia de atividades faísca – ciclo Otto –, ou combustão espontânea –
humanas, que direta ou indiretamente, afetam a saú- ciclo diesel) e a sua potência.
de, a segurança e bem-estar da população, as ativi- Os acidentes, por sua vez, são eventos fortuitos
dades socioeconômicas, a biota, as condições esté- que provocam danos a pessoas ou materiais. Ocor-
ticas e sanitárias do meio ambiente e a qualidade dos rem na forma de atropelamentos, choques entre es-
recursos naturais4. truturas e veículos, ou colisão destes. Podem ser gera-
A partir do entendimento de impacto ambien- dos por conduta inapropriada do motorista, deficiên-
tal, o transporte motorizado pode gerar efeitos: cia na manutenção do veículo, falhas na infraestrutura
viária ou falta de fiscalização/regulamentação.
No meio físico: poluição atmosférica,
sonora, visual, dos solos, das águas, vi-
brações, depleção dos recursos natu- 3. EFEITOS E IMPACTOS AMBIENTAIS DO TRANSPOR-
rais e perda de espaços verdes. TE NA SAÚDE

No meio antrópico ou socioeconô-


Externalidades negativas do transporte, que
mico: congestionamentos, acidentes,
geram efeitos ambientais e consequentes impactos
desapropriações, modificações no uso e
na saúde e na qualidade de vida de usuários e de não
no valor do solo, barreiras na mobilidade.
usuários, têm como exemplo os acidentes e a polui-
Há outros impactos relacionados ao transpor- ção atmosférica. Neste último, os gases que geram
te, mas antecedem o ato de transportar, não sendo essa poluição podem ser classificados em Gases de
o foco deste texto. Além disso, a amplitude da po- Efeito Local (GEL) e Gases de Efeito Estufa (GEE).
luição atmosférica – na condição de efeito no meio Os GEEs são gases naturais ou provindos de
físico – e a gravidade dos acidentes – na condição de atividades antrópicas que absorvem a radiação in-

4
CONAMA - Conselho Nacional do Meio Ambiente – IBAMA. Resolução nº 01, de 23 de janeiro de 1986. Definições,
responsabilidades, critérios básicos e diretrizes gerais para uso e implementação da Avaliação de Impacto Ambiental.
Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, 17 fev. 1986.

60
Transporte e Saúde Ambiental

fravermelha e a reemitem, gerando aquecimento com vítima e com fatalidade tiveram um custo mé-
atmosférico. Dentre os seis GEEs citados pelo Pro- dio, respectivamente, 5 vezes e 25 vezes maior.
tocolo de Quioto, a atividade de transporte tem res-
ponsabilidade no aumento de três deles: dióxido de 4. MEDIDAS MITIGADORAS
carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O).
Os GELs são poluentes cujos efeitos são, em Para que haja um sistema de transporte
geral, relacionados a problemas no sistema respira- ambientalmente sustentável, deve-se priorizar o
tório. São considerados GELs5: material particulado transporte não motorizado em detrimento do mo-
(MP); compostos orgânicos voláteis, à exceção do torizado e o coletivo em lugar do individual. As me-
metano, ou NMVOC (HC); monóxido de carbono didas mitigadoras, para diminuir os efeitos negati-
(CO); óxidos de nitrogênio (NOx); e óxidos de en- vos, devem aproveitar a vantagem de cada modo de
xofre (SOx). transporte e desenvolver a integração modal.
Os GELs podem causar também chuva ácida Para reduzir a poluição, é necessário reduzir o
e irritações nos olhos (NOx a depender do contato consumo energético e utilizar fontes menos
com outros elementos), problemas cardiorrespirató- poluentes. Para que essa medida seja sustentável, é
rios (MP) e até mesmo câncer (HCs). Dentre os necessário também utilizar fontes renováveis. Por sua
GELs, são considerados como precursores de vez, para reduzir os acidentes, é necessária uma
GEEs6: o NMVOC, o NOx e o CO. Eles contribuem política de segurança por meio de moderação de
com o aquecimento e devem ser considerados nos tráfego e compatibilização entre os diversos modos
inventários de GEEs. de transporte.
A partir de dados de acidentes da Polícia Ro- Há quatro diretrizes que devem permear a
doviária Federal (DPRF), de julho de 2004 a junho preocupação do setor de transporte com a polui-
de 2005, foram observadas 110.599 ocorrências, ção. A necessidade racional de gasto; o consumo
envolvendo 468.371 pessoas (84,4% ilesas; 14,2% consciente; a matriz energética menos poluente e
feridas; e 1,4% mortas). De 187.825 veículos, renovável; e a eficiência energética. Cada uma delas
47,3% eram automóveis; 7,3% motos; 1,8% bici- retrata uma forma de se mitigar os efeitos negativos
cletas; 7,0% utilitários; 25,5% caminhões; 4,3% do setor.
ônibus; e 6,8% outros. A necessidade racional de gasto refere-se à
Em uma pesquisa sobre os custos dos aciden- tomada de decisão que evita ou diminui a necessida-
tes7 nas rodovias federais, foi estimado um prejuízo de do deslocamento. O consumo consciente está
de cerca de 6,5 bilhões de reais (preços de dezem- vinculado à forma como se dirige um veículo, como
bro de 2005). Nos acidentes sem vítimas, o custo se organizam os roteiros de um serviço de trans-
médio foi de R$16.840,00/acidente. Os acidentes porte e como eles são operados e controlados. Dis-

5
Oliveira Júnior, J. A.; Ribeiro, S. K.; Santos, M. P. S. O Marco Regulatório do Protocolo de Quioto e o Transporte Público por
Ônibus. In: XIX Congresso de Pesquisa e Ensino em Transportes, Recife, 2005.
6
Brasil. Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Efeito Estufa e a Convenção sobre Mudança do Clima.
BNDES, Brasília, 1999.
7
IPEA; DENATRAN e ANTP. Impactos sociais e econômicos dos acidentes de trânsito nas rodovias brasileiras
http://www.ipea.gov.br/sites/000/2/destaque/impactos_acidentetransito%20(Livro%2001).pdf , Brasília, 2006.

61
Galindo, E. & Macedo, N.

tingue-se da tecnologia em si, por tratar de sua for- Os programas do Ministério das Cidades, re-
ma de uso. lacionados a transporte e mobilidade, também pos-
A matriz energética mais limpa e renovável suem potencial de redução de emissões e de aciden-
relaciona-se ao uso de fontes energéticas de baixa tes (transporte coletivo, transporte não motoriza-
emissão de carbono e outros poluentes, e que pos- do, moderação de tráfego). Além de capacitações,
sua rápida taxa de renovação. Por fim, a eficiência campanhas e elaboração de material de apoio e di-
energética retrata a tecnologia utilizada para se des- vulgação sobre o assunto.
locar de acordo com o rendimento da fonte por O consumo de recursos energéticos deve tam-
unidade transportada no espaço. bém ser analisado do ponto de vista da escolha pú-
A mitigação dos acidentes acontece por meio blica e da constante atenção à escassez de recursos.
de medidas que garantam a segurança das pessoas Ao se permitir a implementação de um investimen-
no sistema. Podem ser sistema eletrônico de por- to, pode-se prejudicar ou mesmo inviabilizar outro.
tas, que não permite a movimentação do veículo se Seja por não deixar recursos suficientes, seja por
as mesmas estiverem abertas; sistema eletrônico de ocupar espaço e tempo para potencial produção de
controle de velocidade (tacógrafo), ações de sinali- outros bens.
zação e fiscalização mais rigorosas etc.

5. PAPEL DO GOVERNO NA MITIGAÇÃO

Observadas as formas de mitigação dos efei-


tos negativos do transporte à saúde, podem ser per-
cebidas algumas possibilidades de ação do governo.
Para conseguir a redução de acidentes e de poluição,
qualquer atividade que influencie as variáveis que pro-
vocam esses dois fenômenos pode ser usada pelo
governo como potencial mitigador.
Sobre a poluição pode ser citado o Programa
de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automo-
tores (Proconve). Com o objetivo de reduzir a po-
luição atmosférica, o programa foi criado na resolu-
ção CONAMA nº18, de 1986. Ele tem como meta a
redução da emissão de poluentes de veículos
automotores, fixando limites máximos de emissão.
A redução é esperada, pois são estabelecidos
limites (que se tornam mais rígidos com o passar do
tempo) de emissões de poluentes, o que ocasiona
uma indução ao desenvolvimento tecnológico dos
fabricantes e o estabelecimento de diretrizes gerais
para programas de inspeção e manutenção de veícu-
los em uso.

62
O Papel da Habitação na Construção da Saúde Ambiental

O Papel da Habitação na Construção da Saúde Ambiental

Adriana Dantas1

1
Ministério das Cidades – Secretaria Nacional de Habitação.

1. INTRODUÇÃO torno, como ambiente, agente da saúde


de seus moradores. (Cohen et al., 2007)
“Saúde Ambiental é a área da Saúde Pública que
afeta o conhecimento científico e a formulação de O conceito de habitação saudável, então, apli-
políticas públicas relacionadas à interação entre a saú- ca-se desde o ato da elaboração do seu desenho,
de humana e os fatores do meio ambiente natural e microlocalização e construção, estendendo-se até seu
antrópico que a determinam, condicionam e influen- uso e manutenção. Está relacionado ao território
ciam, com vistas a melhorar a qualidade de vida do geográfico e social onde a habitação se assenta, os
ser humano, sob o ponto de vista da sustentabilidade” materiais usados para sua construção, a segurança e
(CGVAM, 2007). qualidade dos elementos combinados, o processo
Diante desse conceito, o tema habitação se construtivo, a composição espacial, a qualidade dos
mostra importante na construção da saúde humana e acabamentos, o contexto global do entorno (comu-
ambiental, seja através da construção em si, seja atra- nicações, energia, vizinhança) e a educação em saú-
vés da relação desta com o meio no qual está inserida. de e ambiental de seus moradores sobre estilos e
condições de vida saudável.
A concepção integradora da habitação in-
clui os usos que fazem da mesma os habi- Outras iniciativas de Habitação Saudável
tantes incluindo os estilos de vida e condu- ocorrem no campo da Habitação e do
tas de risco, portanto é uma concepção Urbanismo, preconizando, também, a ela-
sociológica. Sendo que no conceito habita- boração de projetos que discutam o con-
ção saudável, deve estar incluso o seu en- ceito ampliado de habitação, incluindo as

63
Dantas, A.

dimensões sanitária, sociocultural e psíqui- para o seu bom funcionamento não existe ou é pre-
ca com adequação, integração e funcio- cária. Do total de domicílios urbanos duráveis do
nalidade dos espaços físicos intra e país, 26,4% têm pelo menos uma carência ou
peridomiciliares; utilização de tecnologia al- inadequação de infraestrutura (água, esgoto, coleta
ternativa; prevenção de acidentes e desas- de lixo e energia elétrica) (IBGE, 2007), sendo
tres; criação de áreas de convívio para re- 60,3% nas faixas de renda de até três salários míni-
alização de atividades culturais, esporte e mos (Ministério das Cidades, 2004). Quase metade
de lazer e observância do contexto físico- da população brasileira (83 milhões de pessoas) não
geográfico, socioambiental, cultural, climá- é atendida por sistemas de esgotos; 45 milhões de
tico. Estas iniciativas, em sua grande mai- cidadãos carecem de serviços de água potável, en-
oria, vinham acompanhadas de trabalho de quanto o serviço de coleta de lixo não atende a 16
educação ambiental. (Cohen et al., 2007) milhões de brasileiros.
Essa situação ainda é mais grave nos denomi-
A Secretaria Nacional de Habitação, junto com nados assentamentos precários. Além da falta de
as outras secretarias do Ministério das Cidades, tem infraestrutura básica, é regra o adensamento exces-
importante papel na difusão e aplicação do conceito sivo (mais de três pessoas por cômodo) e a presen-
de saúde ambiental por meio do desenho de sua ça de unidades em condições inadequadas de mora-
política habitacional e de seus programas de produ- dia, muitas vezes depreciadas. Esses assentamentos
ção habitacional, melhoria habitacional e urbaniza- são marcados pela inadequação de suas habitações e
ção de assentamentos precários. pela irregularidade no acesso à terra, comprome-
tendo a qualidade de vida da população e provocan-
2. O CONTEXTO DO PROBLEMA HABITACIONAL do a degradação ambiental e territorial de parte subs-
tantiva das cidades (Ministério das Cidades, 2004).
O padrão atual de urbanizacao imprimiu às ci-
dades ao menos duas fortes características: “apre- O estágio atual do crescimento metropo-
sentam componentes de ‘insustentabilidade‘ associ- litano tem como característica marcante
ados aos processos de expansão da área urbana e de a importância assumida pela dimensão
transformação e modernização dos espaços ambiental dos problemas urbanos, espe-
intraurbanos; e proporcionam baixa qualidade de vida cialmente os associados ao parcelamento,
urbana a parcelas significativas da população” uso de ocupação do solo, com relevante
(Grostein, 2001). papel desempenhado pelos assentamen-
No setor habitacional, tal urbanização desen- tos habitacionais para população de baixa
freada se reflete na carência de padrão construti- renda. (Grostein, 2001)
vo, situação fundiária, acesso aos serviços e equi-
pamentos urbanos, entre outros, muitas vezes fru- Erosões do solo, enchentes, desabamentos,
to da escassa articulação dos programas habita- desmatamentos e poluição dos mananciais de abas-
cionais com a política de desenvolvimento urbano, tecimento e do ar, que afetam o conjunto urbano e,
como a política fundiária, a de infraestrutura urbana em especial, as áreas ocupadas pela população de
e saneamento ambiental. baixa renda, sao as causas mais comuns da evolução
O conceito de moradia é muitas vezes reduzi- desse processo. Durante grande período de tempo,
do ao conceito de casa. A infraestrutura necessária o Estado pouco fez para minizar essa situação.

64
O Papel da Habitação na Construção da Saúde Ambiental

A ilegalidade como fator estrutural na di- suas dimensões onde estão inseridos os indivídu-
nâmica de expansão urbana das metrópo- os e suas famílias.
les brasileiras; o lote urbano precário, a casa Nesse sentido, a habitação com suas diversas
na favela e o aluguel de um quarto em cor- extensões em que o indivíduo também habita deve
tiços como as alternativas predominantes ser pensada como determinante da saúde e consoli-
para resolver o problema de moradia dos dação do desenvolvimento social.
pobres nas metrópoles; a ausência de uma Assim, a Política Nacional da Habitação foi pen-
política habitacional metropolitana; a in- sada de forma a combater essa problemática através
suficiente produção pública de moradias so- de seus componentes principais: integração urbana de
ciais em face da demanda; e o descaso ab- assentamentos precários, a urbanização, regularização
soluto da sociedade e do poder público com fundiária e inserção de assentamentos precários, a
os problemas socioambientais decorrentes. provisão da habitação e a integração da política de
(Grostein, 2001) habitação à política de desenvolvimento urbano.
Dentre seus princípios, encontram-se alguns
Todos esses fatores já foram constantes em que indiretamente servem de base para construção
face ao problema. da saúde ambiental do setor habitação:
Ciente dessa realidade e percebendo que a
moradia digna como direito e vetor de
sustentabilidade do aglomerado urbano depende de
inclusão social, garantindo padrão míni-
variáveis, tais como a forma de ocupar o território;
mo de habitabilidade, infraestrutura, sa-
a disponibilidade de insumos para seu funcionamen-
neamento ambiental, mobilidade, trans-
to (disponibilidade de água); o destino e tratamento
porte coletivo, equipamentos, serviços
de resíduos; o grau de mobilidade da população no
urbanos e sociais;
espaço urbano; a oferta e o atendimento às necessi-
dades da população por moradia, equipamentos so- função social da propriedade urbana
ciais e serviços; e a qualidade dos espaços públicos, buscando implementar instrumentos de
o Ministério das Cidades organizou o combate ao reforma urbana, a fim de possibilitar
problema por meio de suas diferentes secretarias. melhor ordenamento e maior controle
do uso do solo, de forma a combater a
3. SECRETARIA NACIONAL DE HABITACAO X retenção especulativa e garantir acesso
SAÚDE AMBIENTAL à terra urbanizada;

questão habitacional como uma políti-


Era necessário que os programas habita-
ca de Estado, uma vez que o poder pú-
cionais incentivassem a construção de habitat sau-
blico é agente indispensável na
dável, contribuindo gradativamente na melhoria da
regulação urbana e do mercado imobi-
qualidade de vida. Para ser efetivo, é preciso que
liário, na provisão da moradia e na re-
sejam elaboradas políticas públicas saudáveis, com
gularização de assentamentos precári-
ação intersetorial, interdisciplinar e com uma nova
os, devendo ser, ainda, uma política pac-
institucionalidade social, materializada por meio de
tuada com a sociedade e que extrapole
propostas que visem à territorialização, à vincu-
um só governo;
lação, à responsabilização e à resolutividade com
um olhar integral sobre o ambiente em todas as

65
Dantas, A.

articulação das ações de habitação à mente, faz com que mais famílias tenham acesso a
política urbana de modo integrado com condições melhores de habitabilidade.
as demais políticas sociais e ambientais. Diferentes programas foram, então, pensados
com a finalidade de combater o problema habitacional
Esses princípios servem como base para ações e, como consequência, promover um ambiente sau-
que buscam diretamente alcançar qualidade e pro- dável. Nos manuais desses programas esse objetivo
dutividade da produção habitacional, bem como da fica bem evidente quando analisadas suas diretrizes.
urbanização dos assentamentos precários. Como exemplo, os manuais para apresenta-
Para tanto, a Política Nacional de Habitação ção de propostas dos programas Habitação de Inte-
busca garantir que a provisão habitacional, especial- resse Social (HIS) e Urbanização Regularização e
mente para as faixas de menor renda, ocorra em áreas Integração de Assentamentos Precários (UAP), am-
urbanizadas, localizadas no interior das porções con- bos financiados pelo Fundo Nacional de Habitação
solidadas da cidade; que haja promoção e apoio de Interesse Social (FNHIS), dispõem em suas dire-
às intervenções urbanas articuladas territorialmente, trizes sobre:
especialmente programas habitacionais, de infraestru-
tura urbana e saneamento ambiental, de mobilidade (...)
e de transporte, integrando programas e ações das b) atendimento às normas de preserva-
diferentes políticas visando garantir o acesso à mo- ção ambiental, eliminando ou mitigando
radia adequada e o direito à cidade; atuação integra- os impactos ambientais negativos na área
da com as demais políticas públicas ambientais e so- objeto de intervenção e seu respectivo
ciais para garantir a adequação urbanística e socioam- entorno;
biental das intervenções no enfrentamento da pre- (...)
cariedade urbana e da segregação espacial que ca- e) nos projetos que envolvam a constru-
racterizam esses assentamentos (Ministério das ção de unidades habitacionais serão ob-
Cidades, 2004). servados os seguintes aspectos:
Para alcançar os inúmeros pontos enumerados e.1) segurança, salubridade e qualidade
da Política Nacional de Habitação, destacam-se den- da edificação
tre os instrumentos o Sistema Nacional de Habita-
ção de Interesse Social (SNHIS) e o Plano Nacional Ainda, para que as propostas sejam seleciona-
de Habitação (PLANHAB). das, os projetos devem atender certos critérios,
O PLANHAB estabelece, assim, estratégias para dentre os quais se encontram:
o enfrentamento das necessidades habitacionais tam-
bém definindo diretrizes para priorizar o atendimen- (...)
to à população de baixa renda. Garantindo, dessa for- c) atender à população em áreas sujeitas
ma, melhor qualidade de saúde ambiental não só para a situações de risco de vida, tais como:
essas famílias, mas para a cidade como um todo. erosões, deslizamentos, enchentes, des-
O Plano também pretende formular mecanis- moronamentos, cabeceiras de aeroportos;
mos de fomento à produção e de apoio à cadeia pro- áreas de servidão de redes de energia elé-
dutiva da construção com o intuito de reduzir o cus- trica, polidutos, linhas férreas e rodovias;
to da moradia sem a perda da qualidade. Isso possi- d) atender à população em áreas situa-
bilita uma ampliação da produção e, consequente- das em locais insalubres, tais como: lixões,

66
O Papel da Habitação na Construção da Saúde Ambiental

cortiços, palafitas, alagados, mangues, 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS


ausência de água potável e esgotamento
sanitário; Promover saúde ambiental é de fato uma tarefa
e) atender à população em áreas situa- que abrange diversos campos do conhecimento. O
das em locais impróprios para moradia, setor habitacional é um importante elemento na pro-
assim consideradas as ocupações em cor- dução de um ambiente saudável, sozinho, porém, não
pos hídricos (rios, córregos, lagoas, nas- é capaz de alcançar resultados substantivos.
centes e canais), florestas nacionais, re- A Secretaria Nacional de Habitação vem se
servas extrativistas, reservas de fauna, munindo de instrumentos capazes de construir uma
áreas de proteção permanente (APP), áre- habitação mais saudável, dentro de uma cidade
as de preservação ambiental (APA), entre mais saudável.
outras;
(...) Referências Bibliográficas

No caso dos Projetos Prioritários de Investi- COHEN, et al. Habitação saudável e ambientes favoráveis à
mentos (PPI), Intervenções em Favelas, as propos- saúde como estratégia de promoção da saúde. Ciência &
Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 12(1):191-198, 2007.
tas apresentadas devem observar, entre outros:
COORDENAÇÃO DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE, LÍDERES:
(...) Curso Internacional sobre Saúde, Desastres e Desenvolvi-
2. atendimento à população residente em áreas mento, in: http://www.disaster-info.net/lideres/portugues/

sujeitas a fatores de risco, insalubridade ou de- brasil_07/apresentacoes/CCGVAM.pdf. Brasília: Ministério


da Saúde, 2007.
gradação ambiental;
(...) GROSTEIN, M. D. Metrópole e Expansão Urbana: a persistên-
4. promoção do ordenamento territorial das cia de processos “insustentáveis”. v. 15, n1, p.13-19. São Pau-

cidades, por intermédio da regular ocupação e lo: Perspectiva, 2001.

uso do solo urbano; IBGE, Brasil em Síntese, in: http://www.ibge.gov.br/


(...) brasil_em_sintese/default.htm. Acessado em 23/04/2009.
7. articulação com as políticas públicas de saú-
Ministério das Cidades, Política Nacional de Habitação,
de, saneamento, educação, cultura e despor- Brasília: 2004.
to, assistência social, justiça, trabalho e empre-
Ministério das Cidades, Plano Nacional de Habitação: ver-
go, mobilidade urbana, entre outras; com seus
são para debates, Brasília: 2009.
conselhos setoriais; com associações; e demais
instâncias de caráter participativo;
8. apoio e incentivo à elaboração de diretrizes,
normas e procedimentos para prevenção e
erradicação de riscos em áreas urbanas vulne-
ráveis, contemplando também a capacitação
de equipes municipais, a mobilização das co-
munidades envolvidas e a articulação dos pro-
gramas dos três níveis de governo;
(...)

67
Silva, F. C. da & Silveira, F. L. A. da

Saúde, Ambiente e Sustentabilidade dos Povos da Floresta: a situação das


populações extrativistas da Amazônia

Fátima Cristina da Silva1


Flávio Leonel Abreu da Silveira2

1
Centro Nacional dos Seringueiros – CNS.
2
Laboratório de Antropologia Arthur Napoleão Figueiredo,
Universidade Federal do Pará – UFPA.

1. INTRODUÇÃO mente por parte dos seringueiros, objetivando a


conservação de elementos constituintes de sua iden-
As transformações que vêm ocorrendo na tidade, enquanto grupo social que viveu explorado
Amazônia são vertiginosas. O ano de 2005, por secularmente pelos patrões da borracha nativa na
exemplo, foi um marco para as paisagens regionais, Amazônia brasileira (Almeida, 2004). Tal processo
apresentando uma das secas mais rigorosas em um se inicia em Xapuri-Acre na década de 80 ganhando
século. Nota-se que as políticas voltadas à Amazônia projeção a partir do I Encontro Nacional dos Serin-
Brasileira precisam ampliar imediatamente os instru- gueiros, realizado em Brasília em 1985, com a parti-
mentos capazes de garantir o desenvolvimento de cipação de extrativistas de toda a região amazônica.
suas comunidades, com maiores incentivos à saúde O projeto ganha forma baseado na experiên-
e à educação, bem como às economias não devasta- cia concreta vivida pelos seringueiros da região, os
doras dos ecossistemas. A partir de formas adequa- quais se contrapõem ao modelo de desenvolvimen-
das à proteção da biodiversidade e da própria flo- to definido pelo Governo Federal para a região a
resta, e também de seus rios, diante das mudanças partir dos anos 70. O modelo em questão, idealiza-
climáticas e do desmatamento que acentua os pro- do assimetricamente, concebia a implantação de
blemas para quem vive na região. Sendo assim, é mega-projetos de desenvolvimento e de coloniza-
necessário apontar para outro caminho, em outras ção sob a forma de loteamentos, de grandes proje-
palavras, é preciso mudar o padrão de uso da terra. tos agroflorestais, de mineração, madeireiros e
Nesses termos, a proposta da criação de Uni- agropecuários, bem como a construção de hidrelé-
dades de Conservação de Uso Sustentável nasce tricas para a ocupação da Amazônia.
originalmente da luta de inúmeras pessoas pela per- A implantação de um aparato tecnológico
manência no seu lugar de pertencimento, especial- expansionista, marcado por formas de poder e de

68
Saúde, Ambiente e Sustentabilidade dos Povos da Floresta: a situação das...

terror, desencadeou conflitos violentos ocasionando A partir desse contexto a discussão sobre o
mortes, além da grande concentração fundiária as- processo saúde/doença nessas áreas precisa ser en-
sociada à devastação da bioetnodiversidade (Rocha, tendida sob um marco mais amplo, ou seja, a des-
2000), representando o avanço do desmatamento e truição dos ecossistemas tem relação direta com a
da extinção da fauna e da flora, bem como das práti- perda de elementos culturais entre as populações
cas sociais ligadas às formas brandas de manejo dos extrativistas, o que está associado, também, aos pro-
ambientes, porque foi seguida da expulsão das po- blemas/agravos de saúde experienciados pelas pes-
pulações tradicionais de seus lugares de pertença, soas nos lugares em que vivem. Nas Resex Flores-
destruindo, assim, expressões culturais e formas tais, as pessoas, quando adoecem ou sofrem de pi-
civilizacionais próprias daqueles que comumente são cadas de insetos, seguem dentro de uma rede de
denominados de povos das florestas. descansar e atravessam os varadouros para chegar
Hoje, um discurso dessa ordem vem sendo num barco e partir rio adentro na esperança de se-
duramente questionado e, num processo ainda len- rem atendidas. Nas Resex Marinhas, as situações
to, se transformando em propostas concretas que vividas também não são muito diferentes. Alguns
envolvem a comercialização, a industrialização e o pescadores adoecem em alto-mar jogando suas re-
aproveitamento de produtos nativos em pesquisas e des, sem saber se voltam ou não para casa. Além
definições de políticas governamentais para os pro- disso, nas Resex Marinhas, soma-se a falta de respei-
dutos regionais, por exemplo. Além disso, no Acre, to pelo modo de vida das pessoas que dependem da
também faz parte do projeto de Reserva Extrativista lua e da maré, uma vez, quando vão catar mariscos,
uma experiência de dez anos com educação e saúde as mães que precisam levar as crianças não podem
adequadas à realidade dos seringueiros, que são os usufruir de um espaço para deixar seus filhos brin-
monitores das escolas e os agentes de saúde. cando e aprendendo, enquanto buscam auxiliar no
A ideia de transformar o extrativismo tradici- sustento da família.
onal em uma experiência moderna de manejo, res- A produção técnico-científica em saúde na
peitando os limites socioculturais das populações Amazônia é numerosa no que se refere a determina-
tradicionais, permite que a região ganhe espaço po- das doenças tropicais (malária, dengue, hanseníase,
lítico-social e econômico à medida que rompe com Doença de Chagas, entre outras). Porém, se faz ne-
os sistemas de dominação existentes desde outrora. cessário ampliar os estudos sobre as dinâmicas
Um destes modelos de exploração é o tradicional socioambientais características da região e, para tan-
sistema de aviamento (Carneiro da Cunha e Almeida, to, é preciso agir conjuntamente com os moradores
2002), que predominou na região por praticamente das comunidades, de forma que se tornem os futu-
um século e que, em alguns locais, ainda se repro- ros multiplicadores de saúde, a fim de realizarem o
duz. Como resposta a esse tipo de violência, sur- repasse de informações relevantes ao alcance de re-
gem formas de associativismo, dentre elas o sultados, ou seja, a melhoria da saúde dos grupos
cooperativismo. Paulatinamente, tais práticas vêm sociais que vivem na Amazônia brasileira.
dando respostas positivas às demandas dos grupos A crescente valorização das populações tradi-
sociais envolvidos, permitindo solucionar os proble- cionais junto às Unidades de Conservação credencia
mas da comercialização dos produtos gerados pelo esses modelos de sustentabilidade a partir da cons-
trabalho na floresta, melhorando a qualidade de vida trução de políticas voltadas aos povos e às comuni-
das famílias. dades tradicionais. Nota-se que tal questão se evi-
dencia com base em diferentes aspectos relativos à

69
Silva, F. C. da & Silveira, F. L. A. da

permanência dos grupos humanos em suas paisagens Sendo assim, é preciso refletir sobre os pro-
de pertença, seja a partir do ponto de vista cessos educativos e de prevenção dirigidos aos cha-
socioeconômico, seja pelo viés ambiental, permitin- mados povos da floresta, especialmente em relação
do, assim, que sejam percebidos como elementos aos seus propósitos, a fim de possibilitar às(aos)
importantes, uma vez que auxiliam no trabalho de multiplicadoras(es) uma reflexão crítica sobre suas
promover a sustentabilidade nas regiões em que são, ações de educação e prevenção, por meio da vivência
de fato, implementadas essas políticas públicas. do processo pedagógico e da problematização, se-
guidos do estudo de diferentes estratégias para re-
2. A BAGAGEM DAS MULHERES DA FLORESTA solver as dificuldades de acesso ao SUS, para, então,
elaborar diretrizes para o trabalho de prevenção e
A experiência ligada ao programa A Bagagem promoção de saúde.
das Mulheres da Floresta vem ocorrendo desde De acordo com o Manual do Multiplicador –
2004, quando a equipe do CNS percorreu grande Prevenção às DST/Aids – Programa Nacional DST/
parte das UC’s da Amazônia Legal, no início, financi- Aids – Ministério da Saúde (1996): ”O multiplicador
ada pelo Programa Nacional de DST-Aids, e, atual- para atuação na prevenção das DST, Aids e uso
mente, financiado pelo Fundo Nacional de Saúde indevido de drogas é, por definição, um profissional
(FNS) por meio da Secretária de Gestão Estratégica de saúde, educação ou outra área que catalisa ações
e Participativa, ambos do Ministério da Saúde. de formação de monitores para o desenvolvimento
Durante esses anos, várias comunidades foram de atividades de prevenção em suas áreas de atua-
visitadas e participaram de oficinas de educação em ção. Mais do que um agente promotor de saúde é,
saúde. A metodologia do programa possibilitou co- na verdade, um agente social de mudança. Esta fun-
letar uma série de informações acerca das represen- ção social deriva especialmente da natureza de suas
tações e visões de mundo das populações atribuições, das características da clientela e dos ti-
extrativistas, especialmente sobre as relações de pos de problemas a serem abordados. Ele está im-
gênero, sexualidade e doenças sexualmente plicado em ações de cunho social muito mais
transmissíveis. Assuntos dessa ordem, ainda que abrangentes do que o campo específico da preven-
polêmicos, foram trabalhados ao longo das oficinas ção. Na verdade, através de sua tarefa específica,
com muita intensidade, permitindo, por vezes, ir além está promovendo ou contribuindo com a mobilização
das expectativas, proporcionando vários diálogos, mais ampla da sociedade na reflexão e na busca de
durante as noites, à luz de lamparina, mesmo após o soluções para questões inerentes à sua estrutura so-
término da oficina, o que ajudou ainda mais a definir cial e política. Ao mesmo tempo, com seu trabalho,
novas(os) multiplicadoras(es) que colaborariam com está beneficiando diretamente parcelas consideráveis
o programa, transformando aquele momento numa de cidadãos, vítimas de processos de exclusão e pelos
ação continuada. quais, até há algum tempo, pouco se fazia na área
A presença ativa de mulheres e homens profissional e tampouco em nível político”.
multiplicadores de educação em saúde junto às ofici- ”A cada ano, 8 em 11 milhões de mortes
nas nos diferentes estados percorridos demonstra a infantis ocorrem devido à proliferação das do-
importância da participação das lideranças locais nos enças diarreicas e de malária...” Notícias rotinei-
processos de discussão e aprendizagem acerca de ras como esta poderiam ser evitadas por meio
temas como gênero, sexualidade, doença e preser- de melhoria na área de nutrição e ações efetivas
vação das florestas. de prevenção.

70
Saúde, Ambiente e Sustentabilidade dos Povos da Floresta: a situação das...

Visando ampliar o entendimento sobre o pa- A construção da Política Nacional de Saúde das
pel das florestas em assegurar a saúde de popula- Populações do Campo e da Floresta (PNSPCF) sig-
ções urbanas, do campo e da floresta, faz-se neces- nifica um compromisso pela saúde dessas pessoas,
sário refletir e debater sobre o papel da floresta e que compreendem povos e comunidades que têm
sua biodiversidade em importante contribuição para seus modos de vida e reprodução social relaciona-
a saúde, haja vista ser este tema de grande debate dos predominantemente com o campo, a floresta,
mundial, com reflexos na acessibilidade aos serviços os ambientes aquáticos, enfim, os povos e comuni-
de saúde ainda muito precários para os povos e co- dades tradicionais.
munidades tradicionais das florestas. Com base nisso, o Ministério da Saúde, em
Porém, é preciso fazer o resgate das Leis e articulação com outros ministérios e instituições
Políticas Públicas em uso ou em construção, como é governamentais, junto a pesquisadores, organizações
o caso da Política de Saúde para as Populações do não governamentais e movimentos sociais, reunidos
Campo e da Floresta que, ao longo de dois anos, no Grupo da Terra, desencadeou o processo de cons-
vem sendo construída pelo Grupo da Terra. trução da Política Nacional de Saúde das Populações
Esta política pública tem como propósito a do Campo e da Floresta. Esse processo, coordena-
promoção da igualdade e equidade para a elevação do pela Secretaria de Gestão Estratégica e
do nível de desenvolvimento humano da população Participativa (SGEP), teve como um de seus momen-
do campo por meio de ações intersetoriais, de ge- tos culminantes a realização do I Encontro Nacional
ração de emprego e renda, de saneamento ambien- de Saúde das Populações do Campo e da Floresta,
tal, de saúde, de habitação, de educação, de cultu- nos dias 1 e 2 de dezembro de 2006, em Brasília-
ra e lazer, de acesso à terra e de transporte digno, DF. A partir deste momento, utilizaremos algumas
e seu objetivo geral é garantir a integralidade da Saú- das falas dos participantes para elucidar questões a
de para a população do campo e da floresta, consi- que nos propomos discutir neste artigo.
derando suas especificidades e visando à melhoria O encontro reafirmou a necessidade de ade-
da qualidade de vida. quação do SUS às peculiaridades do universo dos
A Lei N.º 8.080/90 de 19 de setembro de trabalhadores e trabalhadoras do campo, dos po-
1990 dispõe sobre as condições para a promoção, vos e comunidades tradicionais. Essa adequação pres-
proteção e recuperação da saúde, a organização e o supõe a concretização dos princípios gerais do SUS,
funcionamento dos serviços correspondentes e dá a participação popular e o controle social, com vis-
outras providências. tas ao acesso dessas populações às ações integrais
De acordo com a Lei, “a saúde tem como fa- de saúde.
tores determinantes e condicionantes, entre outros, O Secretário de Gestão Estratégica e
a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o Participativa do Ministério da Saúde, Antonio Alves
meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o de Souza, destacou a importância do atual momento
transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços político para a ampliação do exercício da cidadania e
essenciais; os níveis de saúde da população expres- da democracia para a melhoria da qualidade de vida
sam a organização social e econômica do País”. das populações do campo e da floresta. Ressaltou
que, pela primeira vez na história, o Estado brasilei-
3. POLÍTICA PÚBLICA DE SAÚDE PARA POPULAÇÃO ro se compromete com a formulação e implementa-
DO CAMPO E DA FLORESTA ção de uma política de saúde voltada especificamen-
te para essas populações.

71
Silva, F. C. da & Silveira, F. L. A. da

O Presidente do Conselho Nacional dos Se- A Coordenadora do Grupo da Terra na SGEP-


ringueiros, Manoel da Silva Cunha, alertou para as MS, Jacinta de Fátima Senna da Silva, declarou que o
condições precárias de saúde das populações que encontro se constituiu em fonte de grande aprendi-
representa. Em suas palavras: “Infelizmente, até hoje zado, devido ao diálogo entre governo e a socieda-
sentimos a ausência do Estado. Muitas famílias que de civil organizada. Isso adquire importância especi-
vivem nas calhas dos rios, nos lagos, nos igarapés al no processo de construção de políticas.
ainda morrem de picadas de insetos, por malária, Lembrou que já foram aprovadas a Política
enquanto que as unidades de saúde ficam nos peque- Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos e a
nos centros distantes até 48 horas desses pontos de Política Nacional de Práticas Integrativas e Comple-
atendimento. Na floresta, a saúde é vista como car- mentares. Destacou que o governo precisa fazer um
ro-chefe de todas as outras coisas: sem saúde não esforço muito grande para aprovar e implementar a
há conservação, por isso, não pode haver produ- PNSPCF, dada a correlação de forças da sociedade.
ção; sem saúde não há respeito às normas ambientais. Em função disso, faz-se necessária a participa-
Com essa política aprovada, e a gente fazendo ção consciente e determinada da sociedade e dos
nossa parte no controle social, a saúde na floresta vai movimentos sociais do campo e da floresta pelo di-
ser vista com um outro olhar, com cuidado, com cari- reito à saúde. Indispensável também é o fortaleci-
nho. A gente, com saúde, cuida melhor do ambiente.” mento do diálogo entre as três esferas de gestão,
Por fim, lembrou que o sucesso da implementa- quais sejam: a sociedade civil organizada, o governo
ção da Política Nacional de Saúde para a População estadual e o federal.
do Campo e da Floresta depende do diálogo entre Após esse encontro, ocorreram várias reuni-
gestores e profissionais com essas populações, que ões do Grupo da Terra para a finalização da política,
acumularam um vasto conhecimento a partir de suas e outras para negociação e articulação buscando a
lutas e vivências, e que, portanto, necessitam que sua aprovação. Até o momento, não foi possível a
seus pontos de vista sejam contemplados nas ações aprovação da política. A soma de esforços é grande,
de saúde. mas as decisões políticas vão além disso quando en-
A Multiplicadora da Bagagem das Mulheres da volve governança, gestão compartilhada e
Floresta da Secretaria da Mulher do CNS, Maria Nice descentralização de recursos, aspectos necessários
Machado Aires, reivindicou, além da efetivação das para a implementação de políticas, onde o controle
reservas extrativistas, algo fundamental para a so- social viria a ser priorizado e respeitado. A I Confe-
brevivência das quebradeiras de coco, das seringuei- rência Nacional de Saúde e Ambiente (CNSA) pode
ras, das parteiras, rezadeiras, das castanheiras, das ser um importante marco para pressionar a aprova-
pescadoras e das marisqueiras, ou seja, a extensão ção dessa política no âmbito nacional.
dos direitos trabalhistas para essas mulheres. Segun- Então, a reflexão essencial para a pergunta: A
do ela, sem o atendimento dessas reivindicações, biodiversidade é uma solução ou um problema? A
além de tornar difícil a promoção do desenvolvimen- sustentabilidade da floresta amazônica depende ape-
to sustentável, há dificuldades na promoção de saú- nas da floresta em pé? E reforçando o que
de dessas mulheres. Ainda, advertiu: “Nós não que- Confalonieri (2005) afirma em seu artigo, “... a Ama-
remos o meio ambiente, queremos o ambiente in- zônia tem sido uma grande preocupação desde o
teiro, que é onde vivemos, trabalhamos e de onde início do desenvolvimento da moderna saúde públi-
tiramos nosso sustento.” ca no Brasil”. Nota-se que desde 1913 tem-se ten-

72
Saúde, Ambiente e Sustentabilidade dos Povos da Floresta: a situação das...

tado direcionar diversos planos de intervenção sani- ção da sustentabilidade socioambiental e da saúde
tária para a região, mas muito pouco se conseguiu. dos povos da floresta.
As Reservas Extrativistas, como demonstra-
do, representam uma tentativa de reconhecimento Referências Bibliográficas
dos direitos das populações, que, há mais de um
século, vêm incansavelmente prestando serviços CONFALONIERI, U. E. C. et al. Saúde na Amazônia: um
ambientais ao planeta, bem como a luta contínua por modelo conceitual para a análise de paisagens e doenças.
Revista Estudos Avançados, 19(53): 221-236, 2005.
seus direitos de exercerem suas cidadanias dignas
com plenitude, usufruindo de moradia, alimentação, CERTEAU, M D. A Invenção do Cotidiano. Artes de fazer. v. 1.
segurança, saúde, educação e previdência. Rio de Janeiro: Vozes, 1994.
Neste sentido, a criação de Unidades de Con-
ROCHA, A. L. C. Nas trilhas de uma bioetnodiversidade, a
servação de Uso Sustentável para a Amazônia não se questão do olhar do outro e seus desdobramentos na construção
inicia e nem se esgota com a simples edição de um dialógica das ciências ambientais. Porto Alegre: Instituto
decreto pelo Poder Executivo. Trata-se de um pro- Anthropos, 2000. 11 pags. http://www.thropos.org.br/
cedimento complexo formado por vários atos inter-
CUNHA, M. C. & ALMEIDA, M. B. (Orgs.) Enciclopédia da
ligados entre si, apresentando-se em uma cadeia su- Floresta. O Alto Juruá: práticas e conhecimentos das popula-
cessiva que tem seu elo final na exploração dos re- ções. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
cursos naturais de forma socialmente justa, econo-
Manual do Multiplicador - Prevenção às DST/Aids - Progra-
micamente viável e ecologicamente sustentável.
ma Nacional DST/Aids -Ministério da Saúde, 1996.
Quanto à implementação das políticas públi-
cas, parte mais difícil, é preciso levar a essas popula- Ministério do Meio Ambiente. A Reserva Extrativista que
Conquistamos. Manual do Brabo. Brasília – 2002, 96 p.
ções um modelo diferenciado quando da introdução
de programas de tais políticas, principalmente no que Ministério da Saúde - Relatório Síntese do I Encontro Nacio-
tange à educação e à saúde, pelo fato da complexida- nal de Saúde das Populações do Campo e da Floresta –

de de se fazer chegar sua aplicabilidade em regiões Brasília – 2006.

da Amazônia distantes e de difícil acesso. SANTOS, S.C. Barragens e Questões Socio-Ambientais no


A saúde dos povos da floresta está com seus Brasil. Conferência. In: III REUNIÃO REGIONAL DE ANTRO-
esforços ameaçados pela burocracia e pela falta de PÓLOGOS DO NORTE-NORDESTE, 1996, Belém. Anais
integração entre programas públicos e, portanto, da III Reunião Regional de Antropólogos do Norte-Nordeste.
Belém-PA: UFPA, 1996. v.1, p. 17-28.
exige ações conjuntas de governos, organizações
sociais, empresas e comunidades.
Para tanto, deveríamos seguir o conselho do
antropólogo Silvio Coelho dos Santos (1996): “O
respeito ambiental aos saberes das populações indí-
genas e dos habitantes tradicionais, é um bom con-
selho para se começar a falar da Amazônia em ter-
mos de desenvolvimento sustentado”.
Esperamos que a I Conferência Nacional de
Saúde e Ambiente (CNSA), seja uma luz para esse
debate, apontando novos caminhos para a constru-

73
Castro, H., Eignotti, E. & Hacon, S.

Efeitos Nocivos da Poluição Derivada das Queimadas à Saúde


Humana na Amazônia Brasileira

Hermano Castro1
Eliane Eignotti2
Sandra Hacon1

1
Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca,
Fundação Oswaldo Cruz.
2
Universidade Estadual de Mato Grosso.

A população da região do arco do desmata- o sul do Pará, norte de Mato Grosso, Rondônia, sul do
mento da Amazônia brasileira sofre todos os anos com Amazonas, até o sudeste do Acre (Figura 1). Concen-
a poluição atmosférica derivada das queimadas durante tra cerca de 524 municípios que, juntos, possuem uma
o período de seca. Não é novidade que nessa época do população com mais de 10 milhões de habitantes.
ano a saúde, principalmente de crianças e idosos, sofra Os estados que registraram o maior número de
com a má qualidade do ar. Vários estudos apontam os queimadas em 2004 foram: Mato Grosso (38%), Pará
efeitos da poluição atmosférica sobre a saúde humana (27%), Maranhão (10%) e Tocantins (7%). Nessa área,
nessa região. durante a estação seca, tipicamente compreendida en-
A queima de biomassa ocorre em maior exten- tre os meses de junho a outubro, grande quantidade de
são e intensidade na Amazônia Legal, situada ao norte focos de queimadas é detectada por satélites do Cen-
do país. Segundo o inventário brasileiro de emissões tro de Previsão do Tempo de Estudos Climáticos do
de carbono, 74% das emissões ocorrem por meio de Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/INPE).
queimadas na Amazônia, em contraste com 23% de As queimadas dessa região decorrem do modelo de
emissões do setor energético. ocupação e uso do solo, com o desmatamento de gran-
A região da Amazônia Legal está passando por des áreas e, consequentemente, a queima da vegeta-
um processo acelerado de ocupação que, nas últimas ção, levando à liberação de gases e de material
três décadas, levou ao desmatamento de cerca de 10% particulado. Diferente do que acontece nos centros
de sua área. Essa região concentra mais de 85% das urbanos, onde a poluição do ar se caracteriza por um
queimadas que ocorrem no Brasil durante o período processo de exposição crônica, na região da Amazônia
de estiagem. A maior parte do desmatamento concen- Legal, se observa uma exposição aguda por um perío-
tra-se ao longo de um “arco”, que abrange desde o do relativamente curto de 3 a 5 meses.
sudeste do Maranhão, incluindo o norte do Tocantins,

74
Efeitos Nocivos da Poluição Derivada das Queimadas à Saúde Humana...

Figura 1 – Arco do desmatamento na Amazônia Legal.

Fonte: http://www.amazonia.org.br/arquivos/152088

As queimadas na Amazônia ocorrem essenci- da de 90 e de até 400 ìg/m3 nesta década. Por outro
almente numa área definida como “arco do lado, durante as chuvas, os níveis de poluição atmos-
desmatamento”. Os níveis de poluição durante o férica (PM2,5) não excedem 15 ìg/m3 de média diária,
período de seca, quando os focos de queimadas são e a composição do material particulado passa a ser
mais frequentes, variam de ano para ano, havendo exclusivamente biogênica, ou seja, formada por par-
registros de níveis elevados de poluição nas duas úl- tículas emitidas pela própria floresta que incluem,
timas décadas. Ainda que os níveis de poluentes va- grãos de pólen, fungos entre outros elementos
riem de um município para outro nessa região, sem (Pauliquevis et al., 2007).
dúvida, esses costumam apresentar picos mais ele- Essas partículas são muito leves e, em razão
vados que as áreas de regiões metropolitanas do do calor e da direção dos ventos, são deslocadas
Brasil. Além disso, os efeitos da poluição atmosféri- para longas distâncias. A exposição humana às quei-
ca na Amazônia se relacionam fortemente com perí- madas não necessariamente ocorre no local onde o
odos de seca e chuva intensa na região. foco da queima está presente, normalmente afasta-
A legislação vigente do Conselho Nacional de do da área urbana. As altas temperaturas envolvidas
Meio Ambiente não faz distinção quanto ao tamanho na fase de chamas da combustão e a ocorrência de
da partícula ou considerações a respeito das carac- circulações de ar, associadas às nuvens que favore-
terísticas da exposição por queima de biomassa na cem o movimento convectivo ascendente da massa
Amazônia (Conama,1990). Praticamente, durante de ar, são responsáveis pela elevação dos poluentes
toda a estação seca, nos municípios localizados na gerados na queima de biomassa até a troposfera,
área do arco do desmatamento, os níveis de onde estes podem ser transportados para regiões
particulados finos (PM2,5) permanecem acima do li- distantes das fontes emissoras. Este transporte de
mite estabelecido como níveis médios diários acei- fumaça resulta em uma distribuição espacial dos
táveis pela Organização Mundial de Saúde de 25ìg/ poluentes sobre uma extensa área que irá influenciar
3
m , sem distinção entre exposição aguda ou crônica, a exposição humana através dos produtos de quei-
havendo registros de até 600ìg/m3 no final da déca- ma de biomassa, da quantidade de poluentes emiti-

75
Castro, H., Eignotti, E. & Hacon, S.

dos, da distância da população em relação à intensi- ambientais e para a saúde pública não se justificam
dade da queimada, das condições climáticas da re- pela queimada antropogênica, principalmente para a
gião, da frequência da queima. Essas são algumas das indução da produção agropecuária no Brasil. É ne-
razões que justificam a necessidade do monitora- cessária uma política que reduza substancialmente
mento nos locais com maior aglomerado humano as queimadas na região amazônica visando à saúde e
(Freitas et al., 2005). ao bem-estar das populações da Amazônia Legal.
As populações mais sensíveis, como idosos,
crianças e grávidas sofrem os efeitos da poluição, e Referências Bibliográficas
os residentes na área do arco do desmatamento têm
sido expostos desde o nascimento aos níveis eleva- BRASIL. Ministério da Ciência e Tecnologia. Inventário Nacio-
dos de poluição atmosférica durante cerca de 3 a 4 nal de emissões de gases de efeito estufa. 2005.

meses a cada ano. Estudos mostram redução da ca- CARMO K. et al. Associação entre material particulado de
pacidade pulmonar de crianças e adolescentes quan- queimadas e doenças respiratórias na região sul da Amazô-
do expostos ao material particulado fino, principal- nia Brasileira. Pan American Journal of Public Health.
mente entre escolares não asmáticos (Viana et al., Accepted to publish, 2009.

2008). Verifica-se também um incremento percentual CONAMA. Conselho Nacional de Meio Ambiente. Diário
médio nas internações hospitalares e nas consultas Oficial da União. Resolução n 003, 28 de jun. 1990.
em unidades básicas de saúde por doenças respira-
FARIAS M. C. Prevalência da asma e associação de fatores
tórias de crianças e idosos (Carmo et al., 2009). Em
socioeconômicos no município de Alta Floresta, Amazônia brasi-
alguns casos, quando ocorre poluição de PM2,5 , que leira, 2009. Dissertação de mestrado. Instituto de Saúde
chegam frequentemente a 90 ìg/m3, as internações Coletiva. Universidade Federal de Mato Grosso.
podem aumentar em até 63% acima do que ocorre-
FREITAS, SR. et al. Monitoring the Transport of Biomass
ria na ausência deste poluente.
Burning Emissions in South America. Environ Fluid Mech, 5:
As internações hospitalares de idosos por 135–167, 2005.
asma em toda a Amazônia brasileira apresentam dis-
IGNOTTI, E. et al. Impacts of particulate matter (PM2.5) emitted
tribuição espacial semelhante a do arco do
from biomass burning in the Amazon regarding hospital
desmatamento, ou seja, existe uma relação de au-
admissions by respiratory diseases: building up environmental
mento das internações nesta região geográfica da indicators and a new methodological approach. Revista Saúde
Amazônia, com predomínio durante o período de Pública. Aceito para publicação. 2009.
seca (Rodrigues et al., 2009). Para se ter uma ideia,
PAULIQUEVIS, T. et al. O papel das partículas de aerossol no
estudos realizados nessa região mostraram uma
funcionamento do ecossistema amazônico. Ciência e Cultura,
prevalência de asma acima da média dos municípios
59(3): 48-50, 2007.
brasileiros entre os escolares, com 21% de crianças
PRODES - Programa de Desmatamento da Amazônia –
asmáticas em Alta Floresta (Farias, 2009) e 26% em
Monitoramento da Floresta amazônica por satélite, INPE/
Tangará da Serra (Rosa et al., 2008). Estes
IBAMA; 200.
percentuais são também mais elevados que os veri-
ficados em Cuiabá, Manaus e Belém em estudos pré- RODRIGUES, P.C. et al. Distribuição espacial da asma em
idosos na Amazônia brasileira. J Bras Pneumol, supl. 1R:
vios (Farias, 2009).
R11, 2009.
Fica claro que os prejuízos decorrentes das
queimadas precisam e devem ser dimensionados
quanto ao custo social e ambiental. Os danos

76
Efeitos Nocivos da Poluição Derivada das Queimadas à Saúde Humana...

ROSA, A.M. et al. Prevalência de asma em escolares e ado-


lescentes em um município na região da Amazônia brasileira.
J Bras Pneumol, 35(1): 7-13, 2009.

VIANA, L. S. et al. Effect of air pollution on lung function in


schoolchildren in Alta Floresta, Mato Grosso, Brazil. 2008.
International Forum EcoHealth 2008. Conference Program
International EcoHealth Forum. December 1st – 5th. Merida,
Mexico, p. 86.

77
Rigotto, R. M. & Teixeira, A. C. de A.

Desenvolvimento e Sustentabilidade Socioambiental


no Campo, na Cidade e na Floresta

Raquel Maria Rigotto1


Ana Cláudia de Araújo Teixeira1

1
Núcleo Tramas – Trabalho, Meio Ambiente e Saúde para a Sustentabi-
lidade. Departamento de Saúde Comunitária da Faculdade de Medicina
da Universidade Federal do Ceará.

Desenvolvimento e Sustentabilidade Socioam- mas se acirra e aprofunda agora – e à crise social,


biental: talvez a primeira questão que ocorra a algu- sublinhando o questionamento: esta forma de orga-
mas pessoas é “e o que nós, da saúde, temos a ver nizar a vida no planeta é sustentável?
com isto?!”. É que a gente se acostumou tanto a re- Expandir ilimitadamente a produção e o con-
duzir a discussão da saúde à doença... É a força da- sumo é a ideia-força do desenvolvimento. Estamos
quele modelo que a Reforma Sanitária quer superar aqui para produzir e consumir. Nossa tarefa, na con-
– centrado no indivíduo doente, a ser tratado com dição de humanos, é explorar os “recursos” da natu-
tecnologias caras e sofisticadas, de preferência in- reza e acumular a partir da exploração do trabalho
ternado num hospital... humano. Conceber o ar, a terra, a água e toda a
Mas saúde é bem mais que ausência de doen- biodiversidade inerente à fauna e à flora como “re-
ça! É qualidade de vida, é direito! Como construí- cursos naturais” a serem explorados de maneira
mos na 8ª Conferência Nacional de Saúde, ela resul- indiscriminada, fundamentalmente para gerar lucros
ta de educação, moradia, trabalho, terra, alimenta- e riquezas que se concentram nas mãos de alguns
ção, liberdade... Ela é expressão da articulação de empreendedores. Reduzir toda a dignidade do tra-
um conjunto de políticas públicas, de relações soci- balho humano à condição de mercadoria que pro-
ais e políticas intra e internacionais, do modo de pro- duz mercadorias para gerar lucro. Bem-vindas a ci-
dução e consumo, da natureza. Ou seja, a saúde re- ência e a tecnologia que ajudam nessa missão. As
gistra e indica à medida que o modelo de desenvol- demais questões são secundárias. Você concorda?
vimento vigente é capaz de viabilizar a vida, com Na sociedade ocidental, esta ideia surge com
qualidade e com equidade. força no século XIV e se amplia enormemente com
A atual crise financeira articula-se à crise am- a ascensão da burguesia, instituindo novos valores,
biental – que se escancara já há algumas décadas, normas e atitudes que, hoje, têm a força de uma

78
Desenvolvimento e Sustentabilidade Socioambiental no Campo, na Cidade e na Floresta

crença religiosa em nossa sociedade. Um dos mui- cabe ao Brasil e a outros países da América Latina,
tos problemas apontados pelos críticos a este ideário por exemplo, é bem clara hoje: disponibilizar nossa
é que o acesso às riquezas do planeta é desigual: ter- reserva de natureza (terra, água, energia,
ra, água, minerais, são exemplos já bem conhecidos biodiversidade) e a força de trabalho a ser “incluída”
por todos. Então, só alguns têm “explorado estes para produzir grandes quantidades de bens de baixo
recursos”. E também apontam os críticos que, se valor no mercado internacional – as commodities
alguns exploram o trabalho humano e acumulam a como a soja, o etanol, a celulose, o ferro-aço, o ca-
partir dele, outros humanos (em muito maior nú- marão, flores etc. A partir delas, os países centrais
mero!) são explorados. Ou seja, a ideologia do de- seguem na cadeia produtiva executando as etapas que
senvolvimento não trata de um processo que traga agregam mais valor, degradam e contaminam menos
benefícios a todos e todas. Pelo contrário, ele bene- o ambiente e demandam um trabalho mais saudável
ficia a alguns e prejudica a muitos. e digno. Ou seja, garantem o seu padrão de desen-
Mas nem sempre isto é facilmente visível. Há volvimento, enquanto inviabilizam o nosso...
uma intensa produção simbólica, veiculada pela mídia De fato, nos países do hemisfério norte, a so-
e também pelas instituições de ensino e outros pro- ciedade pressiona por uma Reforma Ecológica e gera
cessos formadores de valores, de que o desenvolvi- forças (legais, políticas, culturais, econômicas) que
mento “é tudo de bom”, “é melhorar, é progredir”. acabam por empurrar, especialmente para o hemis-
Nas entrelinhas dos projetos do FMI, do BID, dos fério sul, esses processos produtivos mais degra-
grandes blocos econômicos está a promessa de que dantes do ambiente e mais consumidores do
países como o Brasil “ainda vão chegar lá”: é só se- patrimônio natural. Ao mesmo tempo que tendem a
guir a receita do bolo da industrialização, do centra- ser expulsos de lá para cá, eles estarão sendo atraí-
mento na dimensão econômica da vida social, e va- dos por políticas governamentais de desenvolvimen-
mos ser um país desenvolvido como os da Europa to que incluem isenções fiscais, facilidades de
ou América do Norte. infraestrutura e financiamento, oferta de terra de
É uma promessa irrealizável: precisamos des- preço baixo, água abundante, mão de obra barata
construir esta ilusão. Os argumentos são muitos e etc: é tudo o que eles precisam para se manterem
variados, mencionamos apenas dois. O primeiro é competitivos no mercado mundial. E ainda serão bem
bem físico: a Terra não tem como alimentar a gene- acolhidos por diversos setores da sociedade, como
ralização de processos de produção e consumo aqueles que estão sendo capturados simbolicamen-
como os dos Estados Unidos para todo o mundo: te pela ideia fictícia da inclusão social via emprego
não tem a água necessária, os combustíveis e outras formal. Ou mesmo pelos grupos mais vulneráveis
fontes de energia necessárias; não aguenta receber que, sacados de suas comunidades e modos tradici-
os resíduos, efluentes e emissões gerados sem de- onais de vida, expropriados da terra e do acesso aos
gradar-se fortemente, a ponto de inviabilizar a pró- recursos naturais, terminam como migrantes nas
pria vida humana. Não seria isto o que estão nos periferias dos centros urbanos, sofridos o bastante
gritando as mudanças do clima e/ou as perspectivas para aceitar, e até desejar, este emprego, por mais
de escassez de água? precário que seja.
O segundo argumento é político-econômico: Movidos pela necessidade intrínseca de expan-
o “desenvolvimento” dos países centrais é o outro são permanente do capital, os processos de produ-
lado da moeda do “subdesenvolvimento” em outros ção e consumo tendem a promover profundas trans-
países. Nas relações Norte-Sul do planeta, a fatia que formações nos territórios em que se inserem, pro-

79
Rigotto, R. M. & Teixeira, A. C. de A.

duzindo conflitos socioambientais, além da utilização das políticas públicas – “quando tem o fiscal, não tem
de matérias e energias às vezes não renováveis; a a diária ou o aparelho ou o laboratório...”. A
degradação do ambiente, como o desmatamento e desinformação e a falta de transparência também
a desertificação; a contaminação da água, do solo, protegem esse modelo de desenvolvimento. O SUS,
do ar, da biota e dos alimentos por substâncias quí- por exemplo, quando não dá conta de diagnosticar,
micas, como os agrotóxicos, ou riscos tecnológicos notificar e vigiar os agravos à saúde, decorrentes dos
de natureza física; a mudança de padrões culturais, processos produtivos ou das alterações ambientais,
valores, hábitos, além da alteração de paisagens de está ajudando a ocultar as contradições impostas.
importante significado cultural para as populações E, claro, nossas práticas como cidadãos con-
tradicionais, entre outros. sumidores também pesam nesse processo. Ao pa-
Excluídas dos processos de decisão, as comuni- gar pelos produtos, bens e serviços desse modelo,
dades são colocadas diante da “alternativa infernal”: estamos de alguma forma validando-o. Nosso dese-
escolher entre a falta de opções de trabalho e ge- jo mais profundo, e até inconsciente, tem sido cap-
ração de renda, e o emprego nesses novos empre- turado para o consumismo por sofisticadas técnicas
endimentos. Os governos locais tornam-se reféns de comunicação de massa, cujo preço também já
da chantagem de localização e comprometem re- está embutido no que compramos. É por este dese-
cursos públicos em incentivos, isenções e facilida- jo que muitas vezes nos mantemos atados a um em-
des de infraestrutura, além do compromisso tácito prego que não nos traz felicidade nem saúde, supor-
de não molestar os investidores com exigências le- tando, às vezes, até humilhações: seria o desejo de
gais e fiscalizações. consumo o substituto pós-moderno do grilhão ata-
A legitimação simbólica dos empreendimentos do à perna dos escravos?
pela geração de emprego e renda e a falta de informa- Um dos pilares para a operação do consumis-
ções claras, fidedignas, e democraticamente debati- mo no imaginário coletivo é a ideia de que às merca-
das – inclusive nos processos de licenciamento dorias se associam não apenas valores de uso, mas
ambiental – ocultam seus impactos sociais e ambientais também simbólicos: aquilo que consumo expressa o
e dificultam a mobilização e organização dos grupos que sou, cada um vale o que tem... E aqui já está a
sociais atingidos (Como a saúde vem sendo abordada fronteira com os valores éticos, com as metanarrati-
nesses processos? Em que medida as audiências pú- vas, com as possibilidades de significação de nossa
blicas significam participação efetiva da população atin- existência, com o individualismo. É onde este siste-
gida no processo de tomada de decisão?). Muitas ve- ma se enraíza em nosso ser e passa a se reproduzir
zes, o que resta para o lugar, ao fim de alguns anos de de forma quase despercebida. É o momento em que
exploração por esses empreendimentos “fugazes”, é a ecologia profunda vem nos convidar para um mer-
a degradação do socioambiente, a mutilação e a doen- gulho interior e uma tomada de consciência: qual o
ça dos trabalhadores – a “herança maldita” –, refor- verdadeiro significado de nossa existência humana?
çando a injustiça ambiental. Qual o sentido de nossa passagem por este maravi-
Instalados em países como os irmãos da Amé- lhoso planeta Terra?
rica Latina, esses empreendimentos vão ser prote- Toda a hegemonia desse modelo de desenvol-
gidos pelo discurso e prática de flexibilizar as exi- vimento tem contribuído para o agravamento das
gências ambientais ou a legislação trabalhista; pela injustiças e acirrado os conflitos socioambientais na
minimização do Estado, produzida pelo neoliberalis- cidade, no campo, nas florestas, na zona costeira,
mo, que repercute na fragilidade das instituições e impactando sobremaneira a cultura e o modo de vida

80
Desenvolvimento e Sustentabilidade Socioambiental no Campo, na Cidade e na Floresta

das comunidades. Nesse cenário, há que se desta- doença de chagas, dengue, febre ama-
car o lançamento, em janeiro de 2007, pela Presi- rela, assim como afecções gastrointes-
dência da República, do Programa de Aceleração do tinais e dermatológicas associadas à de-
Crescimento (PAC). De acordo com a Casa Civil, “o gradação da qualidade da água.
PAC é um conjunto de medidas que visam: incenti-
4. A proliferação de múltiplos riscos
var o investimento privado; aumentar o investimen-
ambientais de natureza física, química ou
to público em infraestrutura; e remover obstáculos
biológica, decorrentes da introdução de
(burocráticos, administrativos, normativos, jurídicos
novos processos produtivos, poluindo o
e legislativos) ao crescimento”. Este programa é que
solo, a água, o ar e os alimentos. Tais ris-
tem investido 503,9 bilhões de reais em: rodovias,
cos se difundem para além do entorno
ferrovias, portos, termelétricas e hidrelétricas, usi-
dos empreendimentos, seja pelas vias e
nas nucleares, produção de agrocombustíveis, ex-
dutos que transportam produtos peri-
pansão de refinarias, siderúrgicas e beneficiadoras do
gosos; seja pela contaminação por ener-
minério de alumínio, expansão do turismo de grande
gia eletromagnética em toda a extensão
escala em áreas naturais etc. No momento de lança-
das linhas de transmissão elétrica, por
mento do PAC, o Conselho Nacional de Saúde dis-
exemplo; seja pelo descarte inadequado
cutiu o tema e elaborou Moção que aponta algumas
de resíduos perigosos. Eles são causa de
consequências destas transformações para a saúde:
acidentes e numerosas doenças
ocupacionais e ambientais de graves im-
”1. Comprometimento da segurança
plicações para a saúde humana, inclusive
alimentar de comunidades ribeirinhas,
a elevação da incidência de cânceres, e
indígenas e de agricultores familiares,
acometem de forma iníqua particularmen-
por modificar as formas de acesso à
te os grupos sociais mais vulneráveis.
água, à terra e a alimentos – a pesca
artesanal, o extrativismo; o que pode 5. Desestabilização de práticas sociais e
implicar em subnutrição, desnutrição, laços de sociabilidade em decorrência
elevação da mortalidade infantil, au- de deslocamentos compulsórios de po-
mento da vulnerabilidade a doenças pulação e introdução de novos padrões
infecto-contagiosas. e hábitos culturais, os quais interferem
diretamente em dimensões como do-
2. Perda de biodiversidade não só por
enças sexualmente transmissíveis e Aids,
seu valor estético e ético intrínseco, mas
consumo de álcool e drogas ilícitas, do-
também por sua importância para o sus-
enças mentais e sofrimento psíquico,
tento econômico das comunidades; para
gravidez indesejada e precoce, padrões
o preparo, por exemplo, de medicamen-
alimentares e de moradia etc.”
tos que beneficiam toda a humanidade.

3. Alteração no padrão de distribuição


de doenças infecto-contagiosas, influin-
do na expansão, emergência ou reemer-
gência de patologias como a malária,

81
Rigotto, R. M. & Teixeira, A. C. de A.

AGRONEGÓCIO: UM EXEMPLO DESTA LÓGICA

A reestruturação da produção no campo, no contexto do capitalismo avançado, vem sendo


denominada modernização agrícola. Trata-se de um processo complexo em que se articulam
grandes proprietários de terra, o capital financeiro e a indústria de insumos – máquinas,
equipamentos, sementes, fertilizantes e agrotóxicos. Estes agentes econômicos conformam
novos arranjos territoriais produtivos, conectados internacionalmente e com pouca relação
com os lugares, onde possam beneficiar-se de uma série de vantagens competitivas e de
contextos de fragilidade das políticas de Estado no campo do trabalho, do ambiente e da
saúde, que lhes poupem custos, e ainda contextos de fragilidade das organizações e movi-
mentos sociais de defesa da vida e da cidadania em suas várias dimensões. Estes novos arran-
jos territoriais produtivos têm entre suas características:

Concentração de terras, muitas vezes com processos violentos de expulsão de comunidades


tradicionais. Comprometimento da segurança alimentar, por modificar as formas de acesso à
água, à terra e a alimentos.

Mudanças nas práticas sociais e laços de vida comunitária pelos deslocamentos compulsórios
de população e introdução de novos hábitos culturais. Mudanças na dinâmica das cidades
vizinhas, formação de favelas rurais.

Uso intensivo de novas tecnologias de comunicação, mecanização e insumos – como fertili-


zantes e agrotóxicos, para viabilizar a produção, ampliando a escala e a velocidade de interfe-
rência na Natureza.

Proletarização das relações de trabalho, transformando pequenos proprietários rurais – que


muitas vezes perderam suas terras –, em empregados dos novos empreendimentos.

Relações e condições de trabalho precarizadas: baixa remuneração, descumprimento da le-


gislação trabalhista, intensificação do trabalho, exposição a situações de risco à saúde.

Estabelecimento de “parcerias” com pequenos produtores locais, submetendo-os ao pacote


tecnológico e padrões de qualidade do investidor.

Redução da biodiversidade e dos serviços ambientais. Profunda alteração da paisagem.

Degradação do solo pela monocultura e risco de desertificação.

Elevado consumo de água, contaminação de águas superficiais e subterrâneas por fertilizan-


tes e agrotóxicos.

Contaminação do ar por agrotóxicos, incluindo as pulverizações aéreas que continuam acontecendo.

Exposição das comunidades do entorno das fazendas à contaminação pelos agrotóxicos uti-
lizados de forma intensiva.

82
Desenvolvimento e Sustentabilidade Socioambiental no Campo, na Cidade e na Floresta

Acumulam-se as evidências de que não é possí- pulsiona a construir novas maneiras de ser e de exis-
vel tornar este modelo de desenvolvimento sustentá- tir em nossa relação com a natureza e em nossas
vel. Esta foi uma ideia conciliadora, surgida no final relações interpessoais que primem pela ética, pela
dos anos 1970, que tentou compatibilizar os mesmos solidariedade entre as nações e pela emancipação dos
valores e práticas do desenvolvimento com a incor- povos. E, nessa perspectiva, nos desafia a construir
poração de algumas questões sociais e ambientais. possibilidades e caminhos rumo à sustentabilidade
Houve avanços sim, mas as crises não puderam ser socioambiental que tenham como premissa o res-
evitadas, e estão aí. Por isso, para promover saúde peito à vida e à diversidade sociocultural e regional
hoje, é preciso ajudar a construir alternativas a esse das populações.
ideário e a esse modelo de desenvolvimento.
É exatamente este o debate que abrigamos na Referências Bibliográficas

expressão Sustentabilidade Socioambiental, cujo con-


ACSELRAD, H.; MELLO, C.C.A.; BEZERRA, G.N. O Que è
teúdo está em construção. Uma de suas premissas
Justiça Ambiental? Rio de Janeiro: Garamond, 2009.
fundantes é a Justiça, que se baseia no envolvimento
de todas as pessoas, independentemente de sua raça, ANTUNES, R. Os sentidos do Trabalho – ensaio sobre a afirma-
ção e a negação do trabalho. 2.ed. São Paulo: Boitempo, 2000.
cor, origem, classe ou renda nos processos de toma-
da de decisão sobre políticas de desenvolvimento, leis BAUMAN, Z. Vida de Consumo. Buenos Aires: Fundo de Cul-
e regulações ambientais. Para isto, é necessária a ado- tura Económica, 2007.
ção de mecanismos que garantam que nenhum grupo
CÂMARA, V. M. et al. Saúde ambiental e saúde do trabalha-
social suporte uma parcela desproporcional das car- dor – epidemiologia das relações entre produção, o ambien-
gas desses processos de desenvolvimento. te e a saúde. In: ROUQUAYROL, M. Z.; ALMEIDA FILHO, N.
Dialeticamente, num esforço de resistência e Epidemiologia & Saúde. 6 ed. Rio de Janeiro: Medsi/Guanabara
de criação de alternativas, diversas entidades, movi- Koogan, p. 469–497, 2003.

mentos, instituições, grupos, pessoas – seja na cida- PORTO, MF; MARTINEZ-ALIER, J. Ecologia política, econo-
de, no campo, nas florestas ou no litoral - vêm de- mia ecológica e saúde coletiva: interfaces para a sustentabili-
fendendo seus territórios, lutando pela preservação dade do desenvolvimento e para a promoção da saúde. Cader-
do seu modo de vida frente aos interesses de mer- nos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23, supl. 4:503-512, 2007.
cado dos grandes empreendedores, produzindo e OPAS. Ecossistemas e Saúde Humana: alguns resultados da
difundindo valores e culturas baseados em um modo Avaliação Ecossistêmica do Milênio. Brasília: OPAS, 2005
de produção e usufruto sustentável do patrimônio
REBRIP. Rede Brasileira pela Integração dos Povos. Agrocom-
natural, nas potencialidades locais, no atendimento das
bustíveis e a agricultura familiar e camponesa: subsídios ao
necessidades sociais, no resgate da dignidade e da debate. Rio de Janeiro: REBRIP/FASE, p.141, 2008.
poesia do trabalho humano etc. São formas coopera-
RIGOTTO, RM. Desenvolvimento, Ambiente e Saúde – impli-
tivas de produção, associações populares, alternati-
cações da (des)localização industrial. Rio de Janeiro: Editora
vas ao desenvolvimento que vão se articulando em
Fiocruz, 2008.
redes locais e internacionais, como as de turismo co-
munitário ou de economia solidária urbana, “produ- SANTOS, B. (Org). Produzir para viver – os caminhos da produ-
ção não-capitalista. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
zindo para viver, em caminhos não capitalistas”.
O caráter planetário, global e sistêmico da atual SENNETT, R. A corrosão do caráter – conseqüências pessoais
crise econômica, social e ambiental, decorrente do do trabalho no novo capitalismo. 5ª ed. Rio de janeiro/São Pau-
modo de produção e consumo capitalista, nos im- lo: Record, 2001.

83
Porto, M. F.

Desenvolvimento, Conflitos Socioambientais, Justiça e


Sustentabilidade: desafios para a transição

Marcelo Firpo Porto1

1
Pesquisador do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia
Humana, Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação
Oswaldo Cruz.

1. INTRODUÇÃO: DESENVOLVIMENTO, “CRESCIMEN- to econômico tem sido amplamente utilizado como


TISMO” E CRISE sinônimo ou condição necessária de desenvolvimen-
to, inclusive o humano. Neste paradigma “cresci-
O atual modelo de desenvolvimento adotado mentista” de desenvolvimento, uma questão estra-
pelo Brasil e por boa parte do planeta segue um pa- tégica a responder é: quais são os setores da econo-
drão apregoado por inúmeros economistas, incluin- mia (ou de produção e consumo) que permitem
do alguns vinculados a posições ideológicas de es- combinações ótimas de recursos e oportunidades
querda. As principais diferenças destes com os eco- de negócio, além das eventuais vantagens de econo-
nomistas neoclássicos, dentre outras, encontram-se mias de escala para torná-los competitivos e permi-
voltadas ao grau de nacionalização ou abertura da tirem um crescimento sustentável dentro de ciclos
economia; ao controle do capital privado, especial- relativamente longos? Nesse sentido, investir em
mente o internacional e o financeiro; ao papel do grandes cadeias produtivas voltadas à produção de
Estado em termos de funções e tamanho; e, last but alimentos, aço, automóveis, máquinas, bens de con-
not least, à maior ou menor relevância das políticas sumo diversos, assim como nas infraestruturas de
distributivas e sociais. energia e transporte acopladas a tais cadeias, é visto
Apesar dessas diferenças, podemos falar de como inevitável e indispensável ao “bom” crescimen-
um padrão do modelo baseado na crença de que o to econômico.
crescimento econômico tradicional, refletido na cor- Podemos dizer, de forma simplificada, que, até
respondência entre maior investimento-produção- algum tempo atrás, os grandes questionamentos
consumo, permitiria, simultaneamente, maior número desse padrão de crescimento, portanto de “desen-
de empregos e maior qualidade de vida para uma volvimento”, eram principalmente de natureza soci-
parcela cada vez maior da população. O crescimen- al e distributiva: o problema não estaria na natureza

84
Desenvolvimento, Conflitos Socioambientais, Justiça e Sustentabilidade: desafios para a transição

em si dos recursos e tecnologias adotadas, tampouco ticulturalidade em consonância com exercício de


no modelo de ciência que o sustentaria, já que todos novos direitos e cidadanias, seja em termos de pro-
esses fatores expressariam a quase infinita capacida- dução de conflitos, vulnerabilidades, crises ou tragé-
de de criação humana e dominação das forças da dias. Mesmo numa abordagem “marxista ecológica”,
natureza. Para a visão crítica clássica, o conflito capi- a centralidade dos conflitos atuais deixa de ser ob-
tal versus trabalho, relativo aos processos de produ- servada exclusivamente a partir das classes sociais,
ção e acumulação, era central e motor da história. mas “ao redor da relação social entre homem e natu-
Inevitavelmente, crises cíclicas ocorreriam, e sua reza, o meio ambiente construído, as condições gerais
superação, na vertente marxista, envolveria a capa- de produção, o tema da qualidade e quantidade da
cidade de mobilização e organização dos trabalha- provisão de bens públicos” (Altvater, 2007). Nesta vi-
dores em processos revolucionários que permitiri- são, ONGs e novos movimentos sociais, bem como
am a construção de estados socialistas. Ou então, na novas práticas científicas e institucionais, teriam um
vertente moderada da social-democracia, tais pro- papel fundamental para alavancar novos rumos para
cessos seriam de natureza mais gradual e reformis- o desenvolvimento e a democracia a partir dos con-
ta, por meio de políticas redistributivas e da cres- flitos e crises existentes.
cente oferta de bens e serviços públicos, os quais A apropriação dos recursos naturais e espa-
formariam a base do chamado Estado de Bem-estar ços públicos para fins específicos que geram exclu-
Social (“Welfare State”) na Europa Ocidental pós Se- são e expropriação produzem reações por parte de
gunda Guerra Mundial. movimentos sociais, grupos e populações que se
As últimas quatro décadas têm propiciado uma sentem atingidos em seus direitos fundamentais, en-
mudança significativa da crítica ao modelo de desen- volvendo questões como saúde, trabalho, cultura e
volvimento “crescimentista”. Mesmo com o fim da preservação ambiental. Portanto, os conflitos
Guerra Fria, após a derrocada da União Soviética, socioambientais são simultaneamente questões de
cada vez mais utilizamos a expressão crise: do mo- justiça (Porto, 2007), e um dos desafios atuais é o
delo de produção e consumo, da economia, da ciên- de conectar os vários casos e experiências de trans-
cia, crise ecológica ou mesmo civilizatória. Trata-se formação por meio de trabalhos em redes sociais
de um tema extremamente complexo, e cabe, aqui, solidárias em torno de novas formas de direitos,
destacar apenas alguns breves e simplificados tópi- territorialidades e cidadanias.
cos de interesse para a saúde ambiental que podem
nos ajudar, dentro dos limites deste artigo, a com- 2. CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS, ECOLOGIA POLÍ-
preender a crise do atual modelo de desenvolvimen- TICA E METABOLISMO SOCIAL
to, bem como as possibilidades para sua transição
nas próximas décadas. O item anterior indica que, cada vez mais, os
A visão crítica clássica que enfatizava a centrali- conflitos sociais podem ser vistos como conflitos
dade dos conflitos sociais de natureza distributiva, socioambientais nas sociedades modernas. Sua emer-
assim como as alternativas políticas de transforma- gência e intensificação decorrem de uma visão
ção na construção de Estados Socialistas, vem sen- economicista restrita de desenvolvimento pautada
do superada por visões pós-críticas. Estas incorpo- por critérios produtivistas e consumistas, bem como
ram a questão ecológica e os novos desafios da de- por um regime energético não renovável baseado
mocracia nas sociedades contemporâneas vistas em em combustíveis fósseis. Em decorrência desrespei-
sua crescente complexidade, seja em termos de mul- ta-se a vida humana e dos ecossistemas, assim como

85
Porto, M. F.

a cultura e os valores dos povos nos territórios onde fornece uma importante base teórica para entender-
os investimentos, as cadeias produtivas e o comér- mos os conflitos socioambientais como conflitos
cio se realizam a serviço de grandes corporações e distributivos que incluem os próprios recursos na-
do mercado globalizado. A globalização e os riscos turais, territórios e bens imateriais. Os conflitos se-
ecológicos globais implicam uma inevitável e cres- riam produtos das desigualdades, imposições e con-
cente conexão entre o local, o regional e o global. tradições decorrentes dos processos econômicos e
Uma importante contribuição atual para en- sociais de desenvolvimento que formam ‘centros’ e
tendermos a crise ambiental vinculada ao modelo de ‘periferias’ mundiais e regionais. Tais conflitos, po-
desenvolvimento vem sendo dada pela Economia rém, tendem a se radicalizar em situações de injusti-
Ecológica – campo transdisciplinar oficialmente cri- ça presentes em sociedades marcadas por fortes
ado no final dos anos 80 e caracterizado pelo desigualdades sociais, discriminações étnicas e
pluralismo metodológico no desenvolvimento de uma assimetrias de informação e poder. Nesses casos,
economia da sustentabilidade. Seu principal precur- o tema da saúde humana e ambiental se intensifica
sor, o economista Nicholas Georgescu-Roegen, ao pela vulnerabilização de populações e territórios
integrar os processos econômicos e os processos afetados, e a gravidade dos problemas de saúde
de organização da natureza em seus fluxos de ener- pública se apresenta como importante bandeira de
gia e materiais na produção da vida, mostrou com luta para as populações atingidas e movimentos
clareza a insustentabilidade da economia moderna. sociais diversos.
Um aspecto central reside no seu regime de energia
fóssil e nos fluxos intensos de materiais e energia in- 3. A (IN)JUSTIÇA AMBIENTAL, SAÚDE E O CASO
compatíveis com o metabolismo ecológico e social BRASILEIRO
do planeta. O resultado é a aceleração de entropias
globais, ou seja, processos de desorganização dos O conceito de justiça ambiental está relacio-
ecossistemas e da própria vida. nado originalmente à luta contra a discriminação ra-
Sendo nosso planeta um sistema limitado, a cial e étnica presente nos movimentos pelos direitos
sustentabilidade implicaria num retorno, com mais civis da sociedade norte-americana nos anos 70 e
eficiência, a um regime de energia à base de radiação 80. Inicialmente, o foco foi a luta contra o chamado
solar, incluindo os biocombustíveis, energia eólica e racismo ambiental, mas, depois, o movimento se
outras modalidades renováveis, além da crescente ampliou articulando-se com a defesa pelos direitos
reciclabilidade e desmaterialização da economia. Por- humanos universais e incorporando outras formas
tanto o enfrentamento da crise ambiental passaria de discriminação além da racial, como classe social,
não somente pela redução da produção dos gases etnia e gênero. (Bullard, 1994; Porto 2007). Portan-
de efeito estufa, mas pela transição a um novo regi- to, a justiça ambiental deve ser vista menos do pon-
me energético, de produção, comércio e consumo. to de vista da judicialização dos conflitos e relações
O espanhol Martinez Alier (2007) ilumina nos- sociais e mais do ponto de vista ético, político, da
so entendimento ao analisar os conflitos socioambien- democracia e dos direitos humanos.
tais contemporâneos a partir das contradições exis- Na América Latina (AL), somente nos anos 90
tentes do comércio desigual e injusto entre países é que, aos poucos, a relação entre meio ambiente,
do atual capitalismo globalizado. Ao articular a Eco- saúde, direitos humanos e justiça passou a fazer par-
logia Política com a Economia Ecológica, tendo por te da agenda de alguns países com a adoção do con-
base a análise do metabolismo social, Martinez Alier ceito de justiça ambiental. Na AL, via de regra, as

86
Desenvolvimento, Conflitos Socioambientais, Justiça e Sustentabilidade: desafios para a transição

situações de injustiça ambiental emergem mais in- realizando campanhas em torno de casos concretos
tensamente em função, além da elevada desigualda- de injustiça ambiental, bem como elaborando pro-
de social e discriminação étnica, de sua inserção na postas de políticas e demandas endereçadas ao po-
economia internacional a partir da exploração inten- der público. Dentre as atividades econômicas gera-
siva e simultânea de recursos naturais e força de tra- doras de conflitos e temas que têm mobilizado a
balho, ou seja, pelo seu papel histórico na exporta- RBJA, destacam-se a exploração e produção de pe-
2
ção de commodities rurais e metálicas. O Brasil, ape- tróleo; a expansão da mineração e da siderurgia; a
sar de seu relativo desenvolvimento econômico, in- construção de barragens e usinas hidrelétricas; os
dustrial e institucional, em comparação aos outros setores econômicos que produzem e utilizam subs-
países latino-americanos, é também marcado por tâncias químicas extremamente perigosas, como o
forte concentração de renda e poder e, portanto, amianto e os POPs (Poluentes Orgânicos Persisten-
de inúmeras situações de injustiça ambiental. tes); a expansão de monoculturas intensivas, como a
Uma interessante característica da emergên- soja e a monocultura de eucaliptos; e, last but not
cia dos movimentos por justiça ambiental em países least, os direitos dos povos do campo e da floresta,
da América Latina é, em contraposição aos movi- como indígenas, quilombolas, agricultores familiares
mentos inicialmente localistas e separados por etnias e pescadores, cujas injustiças ambientais também
específicas (‘People of Color’) dos EUA, a visão mais podem ser caracterizadas como formas de racismo
global, que busca entender criticamente os proble- ambiental (Herculano e Pacheco, 2006).
mas locais em sua lógica com o modelo de desen- O Quadro 1, em anexo, ilustra de forma sin-
volvimento capitalista na região. Outra vertente que tética os principais casos de injustiça ambiental que
vem contribuindo para uma visão crítica na região vêm movimentando a Rede nos últimos anos. A aná-
foi a influência da medicina social latino-americana, lise se baseou em mais de três mil documentos, que
que incorpora a visão dos determinantes sociais dos circularam na Rede desde 2002 até 2008, e da
processos saúde-doença na análise dos problemas tipologia que vem sendo empregada na construção
de saúde pública (Nunes, 1994). do banco temático da RBJA, um projeto de coope-
No contexto brasileiro, os conflitos socioam- ração e pesquisa entre a Fiocruz e a Fase (ONG que
bientais podem ser revelados, em boa parte, pela sedia a secretaria executiva da RBJA) coordenado pelo
própria dinâmica da Rede Brasileira de Justiça autor deste artigo3.
Ambiental (RBJA), criada em 2001. A Rede tem per-
mitido articular diferentes movimentos sociais, po-
pulações atingidas, pesquisadores solidários e
ambientalistas, criando agendas nacionais e regionais,

2
Mercadorias padronizadas comercializadas em larga escala no mercado internacional. São exemplos os produtos agrícolas e
pecuários, como a soja e a carne, os diversos minerais e a sua transformação em mais produtos industrializados, caso das
cadeias do aço e do alumínio. Estas possuem indústrias altamente poluentes e intensivas em energia que produzem matérias
primas exportadas, via de regra, para os países centrais que as transformam em produtos acabados com maior valor agregado
em setores como o automobilístico, aeroespacial, de informática e equipamentos de precisão.
3
Ver http://www.justicaambiental.org.br/_justicaambiental/pagina.php?id=1010.

87
Porto, M. F.

4. À GUISA DE CONCLUSÃO: ALGUNS DESAFIOS PARA que vêm sendo transferidos para países como o Brasil,
A TRANSIÇÃO DO MODELO como as pesadas indústrias siderúrgicas e os
agrotóxicos largamente utilizados na produção rural.
Em razão da brevidade deste artigo, é impos- No Brasil, as intoxicações por agrotóxicos em
sível aprofundar os dados de caráter geral apresen- trabalhadores e população em geral podem ser con-
tados no Quadro 1, mas gostaria de ressaltar alguns sideradas, em termos econômicos, como externa-
elementos que demarcam nosso modelo de desen- lidades negativas. Os custos com tratamentos médi-
volvimento e apontam necessidades de mudança. cos e previdenciários recaem sob os ombros da so-
Podemos observar que os primeiros três ti- ciedade como um todo através dos sistemas públi-
pos de conflitos estão fortemente relacionados à in- cos de saúde e previdência social. Ao mesmo tem-
serção brasileira – e em boa parte latino-americana po, a concentração fundiária nas enormes proprie-
– no mercado globalizado por meio das cadeias de dades rurais das monoculturas dificulta a Reforma
produção de commodities rurais e metálicas, bem Agrária e gera enormes impactos em ecossistemas,
como às infraestruturas que dão suporte a elas (como como a Amazônia e o cerrado, além de agravar a
estradas, usinas hidrelétricas e transposição de baci- crise urbana. Portanto, uma transição agroecológica
as hidrográficas como a do Rio São Francisco). As eficiente em termos de proteção ambiental, segu-
monoculturas de exportação e a expansão do par- rança alimentar e fixação com qualidade de vida de
que siderúrgico são exemplares em termos de con- famílias agricultoras é vital para a mudança do modelo.
flitos socioambientais e geração de riscos para a saú- E isso também implica bases argumentativas e mobili-
de pública. Ambas envolvem desde casos de traba- zações políticas que enfrentem as grandes monocul-
lho semiescravo, que lembram os primórdios do turas, a produção e o comércio de agrotóxicos.
capitalismo do século XIX, até riscos tecnológicos

Quadro 1 – Tipos de conflitos socioambientais no Brasil e exemplos de impactos

88
Desenvolvimento, Conflitos Socioambientais, Justiça e Sustentabilidade: desafios para a transição

No Brasil, como em quase toda a América em favelas no Brasil, frequentemente sem condições
Latina, a migração campo-cidade e a enorme con- básicas de moradia e saneamento, com serviços de
centração urbana têm favorecido o crescimento de saúde e transporte precários, além dos graves pro-
áreas de moradia precárias e insalubres nas cidades, blemas de violência envolvendo o comércio de dro-
o que pode ser considerado um dos maiores pro- gas e o confronto com forças policiais que dificultam
blemas de saúde pública. Estima-se que cerca de 30% o exercício da cidadania e a organização política des-
da população brasileira (mais de 50 milhões) vivem tas comunidades. Tais condições aumentam a vulnera-

89
Porto, M. F.

bilidade destas populações a problemas de saúde nos numa ciência positivista e “neutra”,
como mortalidade infantil, diarreia, tuberculose e com sua pretensa objetividade adquiri-
mortes de jovens por armas de fogo, dentre outros. da por “certezas quantitativas”, e mais
O desenvolvimento de uma ecologia urbana articula- na aceitação e explicitação dos limites,
da aos problemas de saneamento, violência, trans- incertezas e ignorâncias do conhecimen-
porte público, espaços recreativos, lixo, poluição at- to científico. Além disso, que sejam ca-
mosférica e hídrica, bem como a articulação de tais pazes de pensar os problemas de for-
temas com os movimentos por justiça ambiental, são ma sistêmica e complexa; de produzir
importantes desafios para a realidade brasileira e lati- sínteses que sintam e captem as dimen-
no-americana. Cidades saudáveis não surgirão sem sões éticas e morais relevantes da condi-
práticas democráticas e emancipatórias de promo- ção humana que fazem parte do proble-
ção da saúde, e, para isso, um desafio estratégico é o ma; de dialogar com outras formas de
pensar de novas alternativas de planejamento urbano conhecimento, inclusive os tradicionais.
integrado a territórios mais amplos que possibilitem
A formação e trabalho em redes sociais
formas mais sustentáveis na relação com o campo e
solidárias que permitam o diálogo e a ação
os ecossistemas mais amplos ao redor.
política em situações de conflito e injus-
Para concluir, apontamos outros desafios de
tiça através da interação das várias popu-
caráter mais geral e civilizatório que deverão ser
lações (em particular as mais vulneráveis),
enfrentados nas próximas décadas:
culturas e formas de conhecimento.
A distribuição justa e pacífica (não béli-
A manutenção e aprofundamento da de-
ca) tanto dos benefícios do desenvolvi-
mocracia, ou mesmo os riscos de sua
mento econômico como também dos
ruptura, diante dos itens anteriores e dos
recursos naturais cada vez mais escas-
conflitos em diversas sociedades decor-
sos diante do seu crescente esgotamen-
rentes da crescente interação de dife-
to e consequentes disputas pelo seu
rentes grupos sociais, culturas e seus
controle;
valores morais e espirituais promovida,
A redução e mitigação dos chamados por vezes violentamente, pela globaliza-
riscos ecológicos globais, como a cama- ção em curso.
da de ozônio, as mudanças climáticas e
a poluição química transfronteiriça;

A transição dos sistemas de produção e


Referências Bibliográficas
consumo que estimulam o consumismo
individualista desenfreado e se baseiam ACSELRAD H, HS.; PÁDUA, J.A. Justiça Ambiental e Cidada-
num regime insustentável de energia, nia. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2004, p. 312.
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A construção de novas práticas científi- BULLARD, R. Dumping in Dixie: Race, Class and Environmental
cas e institucionais que se baseiem me- Quality. Westview Press, 1994.

90
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FREITAS, C. M.; PORTO, M. F. S. Saúde, ambiente e


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conceito. Saúde e Sociedade 3 (2): 5-21, 2004.

PORTO, MF. Uma Ecologia Política dos Riscos. Rio de Janeiro:


Editora Fiocruz.

91
Batista, S. M. L.

Movimentos Sociais e Saúde Ambiental – em construção

Simone Maria Leite Batista1

1
Movimento Popular de Saúde Nacional (Mops Nacional/Sergipe).

De acordo com Minayo et al. (1999), no Bra- mento dos problemas ambientais causados pelo cres-
sil, a preocupação com os problemas ambientais, as cimento industrial, ocorre uma ampliação das insti-
características socioeconômicas do desenvolvimen- tuições com a criação, por exemplo, de órgãos
to e a interface de ambos com a saúde coletiva pode ambientais nos estados do Rio de Janeiro (Feema) e
ser situada desde o início do século através do tra- São Paulo (Cetesb), mas sem vínculo direto com o
balho pioneiro de Oswaldo Cruz e dos sanitaristas sistema de saúde. É importante lembrar que, em
que o seguiram. Embora mais voltados para a pro- 1972, era realizada a Conferência de Estocolmo,
blemática na Fundação Oswaldo Cruz, os autores primeira grande reunião mundial sobre a relação en-
identificam três paradigmas básicos presentes nos tre ambiente e desenvolvimento. Freitas et al. (1999)
estudos sobre a interface entre problemas ambientais e Porto (1998), procurando contextualizar a interface
e saúde, sendo estes: o biomédico, com origens na entre a questão ambiental e a saúde no país, conside-
parasitologia clássica; o da relação saneamento-am- ram que somente a partir da década 1980 é que
biente, com origens no saneamento clássico; o da começaram a surgir condições jurídicas e institucionais
medicina social, que tem suas origens nos anos 70, para ações de controle do meio ambiente mais con-
sendo referência para a saúde coletiva. sistentes e efetivas. Como exemplo, cita a Lei 6.938,
Para Tambellini & Câmara (1998), do ponto de 1981, que estabeleceu a Política Nacional de Meio
de vista institucional, as preocupações com os pro- Ambiente e criou o Sistema Nacional de Meio Ambi-
blemas ambientais tradicionalmente relacionadas à ente e o Conselho Nacional de Meio Ambiente. Na
saúde foram, ao longo do século 20, uma preocupa- Constituição Federal promulgada em 1988, novos
ção quase que exclusiva das instituições voltadas ao avanços ocorreram, enunciando-se no artigo 228 do
saneamento básico (água, esgoto, lixo etc.). Para os capítulo VI (Do Meio Ambiente) que “todos têm di-
autores, somente na década de 1970, com o agrava- reito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado,

92
Movimentos Sociais e Saúde Ambiental – em construção

bem de uso comum do povo e essencial à sadia qua- lância ambiental no âmbito do Ministério da Saúde,
lidade de vida, impondo-se ao Poder Público o de- sendo publicado, em maio de 2000, o decreto 3.450,
ver de defendê-lo e à coletividade de preservá-lo o qual estabeleceu a gestão do sistema nacional de
para os presentes e futuras gerações.” vigilância ambiental no Cenepi.
Nesse período, entre os anos 70 e 80, acon- A Reforma Sanitária Brasileira possibilitou a
tece também o desenvolvimento do movimento da construção de um Sistema Único de Saúde, que faz
saúde coletiva, que se situava no âmbito dos movi- o Brasil ser considerado um dos únicos países lati-
mentos pela democratização das formações sociais no-americanos que preservou a saúde – ainda que
latino-americanas. Partindo da compreensão que a não na totalidade dos serviços – da onda neoliberal
saúde da população resulta da forma como se orga- de privatização, garantida em nossa constituição
niza a sociedade em suas dimensões política, econô- como um direito de todos e dever do Estado. En-
mica e cultural, esse movimento propunha mudan- tretanto, o SUS ainda não rompeu com a medicaliza-
ças em direção tanto à democratização da socieda- ção de nossa sociedade. As pressões relacionadas à
de como das práticas de saúde, implicando isso a assistência médica ainda dominam o orçamento e a
sua própria reorganização (Paim & Almeida Filho, pauta política da maior parte dos municípios brasi-
1998; Paim, 2001). leiros, em detrimento das questões de promoção
Embora os anos 70 e 80 tenham sido impor- da saúde (principalmente nas ações que atuam antes
tantes na incorporação da temática ambiental, so- do acontecimento dos agravos à saúde). Este artigo
mente nos anos 90, com a Conferência do Rio em busca realizar uma reflexão crítica sobre as possibi-
1992 e a publicação da Agenda 21, com um capítulo lidades de transformação deste modelo a partir do
dedicado à saúde, é que começou a se assistir a uma desenvolvimento da integração de estratégias
incorporação mais ampla e efetiva da temática intersetoriais e de participação social na construção
ambiental na saúde coletiva (Freitas et al., 1999; Por- de espaços saudáveis. De acordo com a Organiza-
to, 1998). Marco desse processo na saúde coletiva ção Pan-Americana da Saúde (1991), “A atenção pri-
foi a organização pela Escola Nacional de Saúde Pú- mária ambiental é uma estratégia de ação ambiental,
blica dos dois volumes sobre saúde, ambiente e de- basicamente preventiva e participativa em nível lo-
senvolvimento (Leal et al., 1992a e 1992b). Nesse cal, que reconhece o direito do ser humano de viver
mesmo ano, a OPAS decidiu organizar, em outubro em um ambiente saudável e adequado, e a ser infor-
de 1995, uma conferência pan-americana sobre saú- mado sobre os riscos do ambiente em relação à saú-
de, ambiente e desenvolvimento. Em 1994, inicia- de, bem-estar e sobrevivência, ao mesmo tempo que
ram-se as ações do governo brasileiro de prepara- define suas responsabilidades e deveres em relação
ção para essa conferência, e, em 1995, foram reali- à proteção, conservação e recuperação do ambien-
zadas quatro oficinas de trabalho (Brasília, Recife, Rio te e da saúde”.
de Janeiro e Belém), envolvendo membros de um Implementar as ações de APSA nesta estraté-
grupo de trabalho de diversos ministérios e OPAS, gia é, portanto, um grande desafio que choca com
coordenado pelo Ministério da Saúde. Das oficinas, os mecanismos de mercado que contribuem para a
participaram demais órgãos públicos afins com a medicalização de nossa sociedade, para o reforço
temática, instituições acadêmicas, entidades da soci- da atenção terciária e para as ações que tentam
edade civil e organizações não governamentais. No inviabilizar a participação da sociedade nos proces-
final dos anos 90, por meio do projeto Vigisus, ini- sos de gestão. Um primeiro passo contra esta ten-
cia-se a estruturação e a institucionalização da vigi- dência foi a criação do Grupo de Trabalho de APA e

93
Batista, S. M. L.

Agenda 21 no SUS (GT APRIMA) no âmbito da Co- alcançar uma vida mais saudável. Existem muitos
missão Permanente de Saúde Ambiental do Ministé- contextos, principalmente o das populações mais iso-
rio da Saúde (COPESA). Esta comissão tem como ladas, que vivem no campo e que necessariamente
função assessorar o MS na construção da política exigem esta estratégia, o que implicará no desenvol-
nacional de saúde ambiental. Já o GT APRIMA vem vimento de uma vigilância participativa de suas con-
propiciando relatos de experiências e discussões dições ambientais que tenham repercussão na saú-
sobre a temática da construção de ambientes saudá- de. Estas iniciativas (APSA, Agenda 21 Local e etc.)
veis, com objetivo de estabelecer com alguns agen- devem ser incorporadas como um componente de
tes de processo de transformação e mudança a am- todos os subsistemas do Sistema Nacional de Vigi-
pliação do grau de comprometimento das institui- lância Ambiental em Saúde (SINVAS). A Vigilância da
ções e organizações para um desenvolvimento sus- qualidade da água, do ar, solos, desastres, substânci-
tentável, humano e solidário a partir do olhar da saú- as químicas e etc. devem buscar parcerias que pos-
de. Este grupo já inaugurou um canal de diálogo com sam ir além do âmbito estritamente governamental.
a sociedade civil organizada por meio da participa- Um dos importantes desafios trazidos pelo
ção em suas reuniões de integrantes do Conselho Governo Lula no Brasil nos coloca a possibilidade de
Nacional de Saúde, Conselho Nacional de Secretári- construir a organicidade das políticas públicas, ou seja,
os Municipais de Saúde, Movimento dos Trabalhado- a sociedade civil organizada participando das deci-
res Rurais Sem Terra, Movimento Popular de Saúde sões e dos processos de implementação das ações
e setores de governo como a Agenda 21, Ministério de governo.
da Educação, Fundação Nacional de Saúde, áreas téc- Para este diálogo e construção com a socieda-
nicas do Ministério da Saúde (Secretaria de Vigilância de, novas ferramentas adaptadas a esta tarefa terão
em Saúde/Coordenação de Vigilância Ambiental em de se desenvolver. Metodologias simplificadas,
Saúde, Secretaria de Gestão Participativa e outras), tecnologias adaptadas, utilização de práticas peda-
organismos internacionais como a OPAS no sentido gógicas problematizadoras e participativas, que va-
de desenvolver mecanismos para implantar a APA e lorizem a criticidade e a criatividade terão de ser
a Agenda 21 no SUS. Este trabalho, porém, ainda construídas para contribuir na abordagem dos pro-
encontra-se em estágio embrionário. Entretanto, blemas de saúde ambiental, visando à construção de
como estas iniciativas constituem movimentos de uma sociedade mais justa e sustentável.
diferentes setores (saúde, ambiente etc.,) não há uma O encontro das iniciativas que adotam a parti-
reflexão sobre como estas estratégias possam ser cipação social e a intersetorialidade rumo a um de-
integradas no nível local, foco principal de todas elas. senvolvimento verdadeiramente sustentável foram
Isto acontece principalmente quando estes proces- discutidas durante o VII Congresso da ABRASCO, a
sos criam movimentos coorporativos. Um municí- continuidade da articulação alcançada entre os movi-
pio passaria por dificuldades em escolher uma des- mentos sociais no campo da saúde & ambiente no III
tas iniciativas para implementar suas ações, especial- Fórum Social Mundial, e a realização das Conferênci-
mente no caso de querer utilizá-las criando comis- as das Cidades, Ambiente e da Saúde serão grandes
sões específicas. Nosso desafio é avaliar como estes oportunidades para consolidação de novas políticas
princípios possam ser aplicados em nível local de públicas, mais comprometidas com a construção de
forma integrada e coerente. Até mesmo os sistemas um Projeto Popular para o Brasil. Assim, para os
de vigilância devem conter componentes que possi- movimentos sociais, é importante fortalecer as inici-
bilitem a vigilância cidadã de seu ambiente para se ativas sociais por meio de processos de indução e

94
Movimentos Sociais e Saúde Ambiental – em construção

de respeito às instâncias organizativas da sociedade, dos com a justiça social e ambiental, a fim de que
coibindo as práticas de cooptação das organizações possamos garantir uma efetiva participação de seus
que representam os interesses comuns dos diver- representantes no debate e como delegados nas
sos grupos sociais. A constituição de redes locais, Conferências, e que, de fato, as questões centrais
nacionais e internacionais é um caminho privilegiado que afligem as comunidades vulnerabilizadas em seu
de empoderamento, e deve ser fomentada a inclu- modo de vida, cultura, qualidade de vida e saúde se-
são das questões de gênero, étnica, geracional e de jam debatidas de forma aprofundada e crítica.
justiça ambiental nas políticas públicas. Os conselhos Enfatizamos a importância da sociedade civil partici-
de saúde devem participar ativamente na discussão par de todas as suas etapas.
sobre medidas de prevenção e compensatórias nos
projetos de fortalecimento do SUS e do próprio
controle social, bem como a participação efetiva nos
processos de licenciamento e de audiências públi-
Referências Bibliográficas
cas; cobrar educação permanente dos conselheiros
em todos os níveis; lutar por aprimorar os instru-
CANESQUI, AM. Ciências sociais e saúde no Brasil: três dé-
mentos de participação; de informação e humaniza- cadas de ensino e pesquisa. Ciência e Saúde Coletiva 3(1):
ção dos serviços de saúde; exigir Termos de Ajusta- 131-168, 1998.
mento de Conduta mediados pelos Ministérios Pú-
COPASAD – Conferência Pan-Americana de Saúde e Ambi-
blicos Federal, Estaduais e do Trabalho; acionar os
ente no Contexto do Desenvolvimento Sustentável. Ciência e
Tribunais de Conta dos Estados e da União para ava-
Saúde Coletiva3(2): 33-46, 1998.
liar a efetividade das ações de proteção da saúde e
FREITAS, CM.; SOARES, M.; PORTO, MFS. Subsídios para
do meio ambiente.
um programa na Fiocruz sobre saúde e ambiente no proces-
Neste ano, acontece a 1ª Conferência Nacio-
so de desenvolvimento, pp. 1-11. I Seminário Saúde e Ambi-
nal de Saúde Ambiental (1ª CNSA 2009), com o lema
ente no Processo de Desenvolvimento, 2 a 5 de junho de
Saúde e Ambiente: vamos cuidar da gente!, e o tema: 1998: o engajamento da Fiocruz. Fiocruz, Rio de Janeiro,
A Saúde Ambiental na cidade, no campo e na flores- 1999 (Série Fiocruz – Eventos Científicos)
ta: Construindo cidadania, qualidade de vida e terri-
LEAL, MC. et al (Orgs.). Saúde, ambiente e desenvolvimento –
tórios sustentáveis, no período de 15 a 18 de de-
processos e conseqüências sobre as condições de vida. Editora
zembro. Trata-se de um momento histórico dos mais Hucitec-Abrasco, São Paulo-Rio de Janeiro, 307pp. Leff E
importantes ao se considerar que as transformações 2000. Pensamento sociológico, racionalidade ambiental e
ambientais, decorrentes do modelo de desenvolvi- transformações do conhecimento, pp. 109- 157, 1992b.
mento adotado em nossa sociedade capitalista, se
LEAL, MC. et al (Orgs.). Saúde, ambiente e desenvolvimento –
agravam e se intensificam no contexto atual de im- uma análise interdisciplinar. Editora Hucitec-Abrasco, São
plantação dos projetos previstos no âmbito do Paulo- Rio de Janeiro, 295pp, 1992a.
PAC nos diversos territórios do nosso Brasil, o que
MINAYO, M.C.S. et al. O programa institucional sobre saúde
tem trazido significativas implicações para o modo
e ambiente no processo de desenvolvimento da Fundação
de vida e para a saúde das comunidades. Para a cons-
Oswaldo Cruz. Anais da Academia Brasileira de Ciências 71(2):
trução da 1a CNSA, consideramos ser de fundamen- 279-288, 1999.
tal importância o envolvimento dos movimentos
MINAYO, M.C.S. Pós-graduação em saúde coletiva: um proje-
socioambientais, ONGs, lideranças comunitárias, ins-
to em construção. Ciência e Saúde Coletiva 2(1/2): 53-71. 1999.
tituições, grupos de pesquisa e outros comprometi-

95
Batista, S. M. L.

PAIM, JS. Modelos assistenciais: reformulando o pensamento


e incorporando a proteção e a promoção da saúde. ANVISA
– Seminários Temáticos Permanentes. Brasília: 28 de março
de 2001.

PAIM, JS.; ALMEIDA FILHO, N. Saúde coletiva: uma “nova


saúde pública” ou campo aberto a novos paradigmas? Revis-
ta de Saúde Pública, 1998.

PORTO, MFS. Saúde, ambiente e desenvolvimento: reflexões


sobre a experiência da SAMAJA, J. A reprodução social e a
saúde. Casa da Qualidade Editora, Salvador, 2000.

VIEIRA, PF. A problemática ambiental e as ciências sociais no


Brasil (1980-1990), pp. 103-147. In: DJ, Hogan; PF, Vieira
(Orgs.). Dilemas socioambientais e desenvolvimento susten-
tável. Campinas: Editora da Unicamp, 1995.

96
O Subsistema Nacional de Vigilância em Saúde Ambiental (SINVSA) e seus Desafios

O Subsistema Nacional de Vigilância em Saúde Ambiental (SINVSA)


e seus Desafios.
Herling Gregorio Aguilar Alonzo1
Adriana Rodrigues Cabral2
Priscila Campos Bueno2
Patrícia Louvandini2
Eliane Lima e Silva2
Cleide Moura dos Santos2
Cibele Medeiros Brito Leite2
1
Departamento de Medicina Preventiva e Social/ FCM/Unicamp. Daniela Buosi2
2
Técnicos e gestores da Coordenação Geral de Vigilância Ambiental Guilherme Franco Netto2
em Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde.

I. INTRODUÇÃO Em 2001, as competências da Coordenação


Geral de Vigilância Ambiental em Saúde (Cgvam) fo-
No final da década de 90, a partir da concep- ram instruídas por meio da IN Funasa nº 01/2001.
ção e implementação do Projeto Vigisus I, a Funda- Em 2003, com a reforma administrativa promovida
ção Nacional de Saúde (Funasa), por meio do Cen- pelo governo federal, a área de Saúde Ambiental foi
tro Nacional de Epidemiologia (Cenepi), incluiu a incorporada ao Ministério da Saúde para atuar, de
estruturação da área de Vigilância Ambiental. Em forma integrada, com as vigilâncias sanitária e epide-
2000, foi estabelecida como uma competência do miológica no âmbito da Secretaria de Vigilância em
Cenepi a gestão do Sistema Nacional de Vigilância Saúde (SVS).
Epidemiológica e Ambiental em Saúde. A atualização das competências se deu pela IN
Nos anos de 1999 e 2000, as atividades da SVS Nº 01/2005. Nessa regulamentação, são
vigilância ambiental em saúde (VAS) foram centradas estabelecidas como áreas de atuação do Subsistema
na capacitação de recursos humanos, no financiamen- Nacional de Vigilância em Saúde Ambiental (Sinvsa):
to da construção e reforma dos Centros de Contro- água para consumo humano; ar; solo; contaminantes
le de Zoonose e na estruturação do Sistema de In- ambientais e substâncias químicas; desastres natu-
formação de Controle da Qualidade da Água (Sisagua). rais; acidentes com produtos perigosos; fatores físi-
Como consequência, também nos estados, mu- cos; e ambiente de trabalho. Além disso, inclui os
nicípios e no Distrito Federal foram priorizadas as ati- procedimentos de vigilância epidemiológica das do-
vidades de vigilância da qualidade da água para consu- enças e agravos decorrentes da exposição humana a
mo humano e a vigilância dos fatores biológicos; pos- agrotóxicos, benzeno, chumbo, amianto e mercú-
teriormente, foram incorporadas ações aos fatores rio. Também, define os gestores do Sinvsa nas três
não biológicos, em particular as substâncias químicas. esferas e a forma de financiamento.

97
Alonzo, H. G. A. et al.

Vale destacar que, desde o segundo semestre com técnicos capacitados, exceto no Distrito Fede-
de 2007, as áreas de Saúde Ambiental e de Saúde do ral. Dentre as principais ações desenvolvidas, cabe
Trabalhador passaram a ter gestão única na Secreta- destacar o monitoramento da vigilância, inspeção nas
ria de Vigilância em Saúde. diversas formas de abastecimento de água para con-
sumo humano, o monitoramento de investigações
II. COMPONENTES DO SINVSA: SITUAÇÃO ATUAL DA nas situações de surto e alimentação do sistema de
IMPLEMENTAÇÃO E DESAFIOS informação – Sisagua.
O Vigiagua direcionou esforços principalmen-
A Vigilância em Saúde Ambiental vem se de- te ao desenvolvimento de instrumentos para a
senvolvendo de forma progressiva e com caracte- implementação integral das ações de vigilância nos
rísticas particulares nas três esferas do SUS – fede- estados e municípios. Foram elaborados manuais;
ral, estadual e municipal – existindo, para tanto, uma modelo de atuação que contempla o marco
estrutura técnico-operacional. Além disso, algumas conceitual, campo e forma de atuação e gestão; sis-
UFs já dispõem inclusive de normalização instituin- tema de informação; aquisição de equipamentos para
do essa área de atuação. Os estados se encontram monitoramento da qualidade da água em campo; e
em um estágio de estruturação mais avançado que as elaboração de normas técnicas; entre outros.
capitais, desenvolvendo principalmente ações da Vigi- Considerando os avanços alcançados, o setor
lância da Qualidade da Água para Consumo Humano saúde apresenta ainda desafios na implementação do
(Vigiagua) e Vigilância em Saúde de Populações Ex- Vigiagua no país, tais como:
postas a Solo Contaminado (Vigisolo), além de ativi-
dades iniciais da Vigilância em Saúde Ambiental relaci- Definição de rotinas de validação, con-
onadas à Qualidade do Ar (Vigiar). Tal fato deve-se, sistência e análises de dados do Sisagua
dentre outros, às prioridades do governo federal – para possibilitar a análise de situação de
Programa do Plano Plurianual 2004-2008 – pelas quais saúde para as três esferas de governo.
foram assegurados recursos para o Vigiagua e o Siste-
Estabelecimento de estudos de corre-
ma Único de Saúde (SUS), às pactuações nas três es-
lação entre os indicadores epidemioló-
feras de gestão da PAP/VS e do Projeto Vigisus II.
gicos e ambientais e a construção de
mapas de riscos em saúde.
1. VIGILÂNCIA DA QUALIDADE DA ÁGUA PARA CON-
SUMO HUMANO – VIGIAGUA Implementação efetiva do Decreto Pre-
sidencial n.º 5.440/2005 que dispõe
O Vigiagua está estruturado no âmbito do Mi- sobre o direito do consumidor às infor-
nistério da Saúde há cerca de 10 anos. Esse Progra- mações sobre a qualidade da água a ele
ma tem por objetivo implementar o desenvolvimen- fornecida.
to de ações com vistas a garantir à população o aces-
Concretização e conclusão da Revisão
so à água com qualidade compatível ao padrão de
da Portaria MS n.º 518/2004.
potabilidade estabelecido na legislação vigente (Por-
taria MS nº 518/2004) para a promoção da saúde. Maior integração com os responsáveis
O Vigiagua encontra-se implementado e em pela rede de laboratórios de saúde pú-
operacionalização em todas as Secretarias Estaduais blica, vigilância epidemiológica e demais
de Saúde e Secretarias Municipais Saúde das capitais, áreas internas do Ministério da Saúde,

98
O Subsistema Nacional de Vigilância em Saúde Ambiental (SINVSA) e seus Desafios

para o desenvolvimento do monitora- xos: i) educação e comunicação de risco em saúde


mento da qualidade da água para consu- e ii) sistema de informação.
mo humano. Atualmente, todas as SES e a maioria das capi-
tais desenvolvem ações do Vigisolo, particularmen-
Implementação da metodologia do Pla-
te, a identificação de populações expostas a áreas
no de Segurança da Água nos municí-
contaminadas por contaminantes químicos, ativida-
pios brasileiros.
des de capacitação e atividades inicias de articulação
Aprimoramento das estratégias de inte- intra e intersetorial e acompanhamento da saúde da
gração de ações entre os setores afetos população exposta. Até 2008, mais de 500 municí-
à qualidade da água no Brasil, tais como: pios tinham identificado e registrado pelo menos uma
órgãos ambientais, prestadores de ser- área com população potencialmente exposta a
viços de abastecimento, ministérios pú- contaminantes químicos, totalizando 2.182 em todo
blicos, setor acadêmico etc. o país.
Em função dos avanços alcançados na estrutu-
2. VIGILÂNCIA EM SAÚDE DE POPULAÇÕES EXPOS- ração do Vigisolo no cenário nacional, podem ser
TAS A ÁREAS CONTAMINADAS – VIGISOLO destacados os seguintes desafios:

O Vigisolo começou ser estruturado em 2004 Publicação de norma contendo o mo-


e tem por objetivo desenvolver ações de Vigilância delo de atenção integral à saúde de po-
em Saúde de Populações Expostas a Áreas Contami- pulações expostas a áreas contaminadas
nadas por Contaminantes Químicos, visando reco- por contaminantes químicos pelas ins-
mendar e instituir medidas de promoção da saúde, tâncias decisórias do setor saúde.
prevenção dos fatores de risco e atenção integral à
Difundir e incorporar a abordagem das
saúde das populações expostas, conforme preconi-
populações expostas a contaminantes
zado no SUS.
químicos das áreas contaminadas na ro-
A partir de experiências pilotos e atividades
tina da atenção integral à saúde.
desenvolvidas em parceria com estados, municípi-
os, academia, controle social e outros setores, o Aperfeiçoar estratégias de articulação
Vigisolo desenvolveu um modelo de atenção inte- intrassetorial para o desenvolvimento de
gral que inclui promoção, proteção da saúde, pre- ações conjuntas entre vigilância
venção de agravos, diagnóstico, tratamento, reabi- ambiental, epidemiológica e trabalhador,
litação, manutenção e vigilância à saúde de acordo agentes comunitários, atenção básica e
com as especificidades dos territórios. Além dis- especializada, laboratórios de saúde pú-
so, foram elaborados os documentos, manuais, di- blica, entre outras.
retrizes e a proposta de uma portaria ministerial
Desenvolvimento de protocolos como
para sua operacionalização nos SUS. O modelo é
instrumentos de organização local e re-
composto de cinco etapas e dois eixos transver-
gional visando à atenção integral à saúde
sais. As etapas são as seguintes: 1) identificação das
de populações expostas a áreas conta-
populações expostas; 2) priorização; 3) avaliação,
minadas por contaminantes químicos.
análise de situação e/ou diagnóstico de saúde; 4)
protocolos; e 5) implementação e rotina; e os ei-

99
Alonzo, H. G. A. et al.

Estruturação da Vigilância em Saúde considerados prioritários: amianto, benzeno,


Ambiental de populações expostas a áreas agrotóxicos, mercúrio e chumbo.
contaminadas por contaminantes químicos O Vigiquim, além de desenvolver a proposta
nos municípios, considerando especialmen- de modelo de atuação para os contaminantes
te o princípio da equidade do SUS. prioritários avançou no desenvolvimento de instru-
mentos e implementação da vigilância epidemiológica
Implantar estratégia de educação perma-
das populações expostas a agrotóxicos por meio de
nente e sensibilização de gestores e téc-
notificação dos casos de intoxicação ao Sistema de
nicos da vigilância em saúde ambiental.
Informação de Agravos de Notificação (Sinan), além
Inclusão do controle social e novas es- de instituir o Grupo de Trabalho permanente respon-
tratégias para participação dos movi- sável pela elaboração e implementação do Plano Inte-
mentos sociais, além da comunidade nas grado de Ação de Vigilância em Saúde de Populações
discussões e definições de estratégias de Expostas a Agrotóxicos, concluído em março de 2009.
atuação voltadas para vigilância em saú- Na perspectiva da estruturação da vigilância
de de populações expostas a áreas con- em saúde ambiental para mercúrio, benzeno, amian-
taminadas por contaminantes químicos. to e chumbo, houve participação nas agendas em
andamento nos diferentes fóruns, grupos de traba-
Articulação e atuação integrada com
lho, agenda de segurança química, convenções naci-
outras instituições, especialmente ór-
onais e internacionais. Além disso, no aprimoramen-
gãos de meio ambiente.
to da proposta do componente do Sistema de Infor-
Desenvolvimento de atividades em con- mação para o Monitoramento de Populações Expos-
sonância com a proposta do Ministério do tas a Agentes Químicos (Simpeaq).
Meio Ambiente na consolidação do Diag- Um desafio do Vigiquim é o aproveitamento e
nóstico Nacional de Áreas Contaminadas. incorporação das experiências para conhecer o per-
fil de exposição a substâncias químicas, representa-
Implantar e aprimorar o componente do
tivos para diferentes grupos da população e
sistema de informação para possibilitar
especificidades regionais no Brasil.
a análise de situação de saúde, a comu-
Outro a ser destacado é a estruturação da vi-
nicação e divulgação de informações so-
gilância em saúde, incluindo o componente do siste-
bre populações expostas a áreas conta-
ma de informação de populações expostas a mercú-
minadas a contaminantes químicos.
rio, chumbo, benzeno, amianto no SUS. No caso
dos agrotóxicos, o Plano de Agrotóxicos vem possi-
3. A VIGILÂNCIA EM SAÚDE AMBIENTAL RELACIO- bilitar o cuidado integral da saúde das populações
NADA ÀS SUBSTÂNCIAS QUÍMICAS – VIGIQUIM nos diversos processos produtivos em que são utili-
zados os agrotóxicos, levando-se em consideração
Na Vigilância em Saúde Ambiental Relacionada os determinantes sociais da saúde, além de contri-
às Substâncias Químicas, as ações contempladas têm buir para o desenvolvimento de um modelo agrícola
por objetivo o conhecimento, a detecção e o con- ecológico e sustentável no país.
trole dos fatores ambientais de risco à saúde, das
doenças ou de outros agravos à saúde da população
exposta aos contaminantes químicos, inicialmente os

100
O Subsistema Nacional de Vigilância em Saúde Ambiental (SINVSA) e seus Desafios

4. VIGILÂNCIA EM SAÚDE AMBIENTAL RELACIONA- Validação do biomonitoramento da qua-


DA À QUALIDADE DO AR – VIGIAR lidade do ar como forma alternativa, por
meio de espécies vegetais para identifica-
O Vigiar começou sua estruturação em 2001 ção de áreas potencialmente poluídas.
com o objetivo de promover a saúde da população
Construção da metodologia para iden-
exposta aos fatores ambientais relacionados aos
tificação de população exposta à polui-
poluentes atmosféricos. Para tanto, adotou a estra-
ção atmosférica, bem como o aperfei-
tégia de identificação das populações expostas a par-
çoamento da metodologia para mapea-
tir do mapeamento das Áreas de Atenção Ambiental
mento das áreas de atenção ambiental
Atmosférica de interesse para a Saúde em âmbito
atmosférica de interesse para a saúde e
nacional, utilizando como ferramenta a construção
finalização do componente do sistema
de mapas de risco com informações complementa-
de informação do Vigiar.
res e intercambiáveis baseadas em dados de saúde,
de meio ambiente, demográficos, cartográficos e Adaptação da metodologia de comuni-
meteorológicos. Além disso, utiliza estudos epide- cação e avaliação de risco para a área de
miológicos como instrumento de acompanhamento poluição atmosférica.
capaz de proporcionar um panorama da evolução
Definição de metodologia e instrumen-
da situação de saúde em uma dada localidade.
tos para avaliar os danos na saúde hu-
Segundo o Inventario de 2007, o Vigiar en-
mana decorrentes da utilização da ma-
contra-se em processo de desenvolvimento e
triz energética do país.
operacionalização em 24 SES e 55% das capitais.
Atualmente, a maioria das Secretarias tem técnicos
5. A VIGILÂNCIA EM SAÚDE AMBIENTAL RELACIO-
capacitados para desenvolver atividades do Vigiar.
NADA AOS DESASTRES – VIGIDESASTRES
Vale registrar a atividade de acompanhamento da
possível associação entre doenças respiratórias e
O Vigidesastres iniciou suas atividades em 2003
poluentes atmosféricos em andamento nas Secreta-
com o objetivo de desenvolver um conjunto de
rias de Saúde do Acre, Bahia, Mato Grosso, Rio de
ações a serem adotadas continuamente pelas auto-
Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Tocantins,
ridades de saúde pública para reduzir a exposição
por meio da implantação de pilotos de Unidades
da população e dos profissionais de saúde aos ris-
Sentinelas para o Vigiar.
cos de desastres, bem como a redução das doen-
É importante salientar que, no transcorrer das
ças e agravos decorrentes deles. A partir de 2007,
atividades realizadas e em realização, se percebe di-
além da Unidade de Respostas Rápidas (URR) in-
ficuldade de continuidade das ações nos estados e
corporou a Vigilância em Saúde Ambiental relacio-
municípios, seja pelo número de técnicos disponí-
nada aos Fatores Físicos (Vigifis) e aos acidentes
veis para realização das atividades ou pela
com Produtos Perigosos (Vigiapp).
inexperiência no assunto, ou pela ausência ou
Esse três modelos propõem uma concepção
indisponibilidade de forma sistematizada de dados
de Vigilância em Saúde baseada na gestão do risco,
ambientais em escala estadual e municipal. Além dis-
que integra o processo de planejamento, organiza-
so, são apontados outros desafios como:
ção, implementação e controle dirigido à sua redu-
ção, ao gerenciamento do desastre e à recuperação

101
Alonzo, H. G. A. et al.

dos seus efeitos, contemplando-o em todo o seu ci- origem natural, acidentes produtos pe-
clo com ações voltadas para prevenção, preparação rigosos e fatores físicos) e implementa-
e resposta. ção nas três esferas do SUS.
A atuação de saúde em desastres está se
Identificar ameaças e vulnerabilidades
estruturando tanto nas áreas técnicas do Ministério
por meio do mapeamento de riscos
da Saúde como nas Secretarias Estaduais e Munici-
para caracterizar as populações sob ris-
pais de Saúde, além da articulação fortalecida junto
co de exposição ou expostas.
aos demais setores como a Secretaria Nacional de
Defesa Civil (Sedec) do Ministério da Integração Promover a harmonização dos proce-
Nacional, Ministérios das Cidades e do Meio Ambi- dimentos para notificação de acidentes
ente. Em 2007, foram implantados projetos piloto e desastres, visando ao registro dessas
do Vigidesastres em oito estados, sendo eles: Acre, ocorrências para subsidiar a atenção in-
Distrito Federal, Espírito Santo, Mato Grosso, Paraíba, tegral à saúde.
Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, e,
Aprimorar o desenvolvimento de polí-
em 2008, foram adicionados os estados do Mato
ticas públicas, pesquisa científica e re-
Grosso do Sul, Minas Gerais, Alagoas e Rio Grande
gulamentação legal relativas à exposição
do Norte. Esse processo de estruturação e operacio-
humana às radiações eletromagnéticas
nalização, no primeiro momento, está voltado para a
ionizantes e não ionizantes, além de for-
elaboração de mapas de risco onde são identificados
talecer o modelo de atuação do Vigifis
as principais ameaças, as vulnerabilidades e os recur-
baseado no conceito de mapa de expo-
sos disponíveis para subsidiar a elaboração de um
sição, que registra a intensidade da ex-
plano de preparação e fortalecer a capacidade de
posição sobreposta à dinâmica popula-
resposta no âmbito da saúde.
cional e estruturas urbanas.
Dentre os desafios que se apresentam ao
Vigidesastres, destacam-se: Fortalecer e aprimorar a atuação do
SUS em emergências de saúde pública
Aperfeiçoar estratégias de articulação para desastres.
intrassetorial para o desenvolvimento de
ações conjuntas no âmbito do SUS, en- 6. OUTRAS ATIVIDADES ESTRUTURANTES DA VIGI-
volvendo a vigilância ambiental, sanitária, LÂNCIA E PROMOÇÃO DA SAÚDE DA CGVAM
epidemiológica e saúde do trabalhador,
agentes comunitários, atenção básica e A CGVAM, em parceria com áreas da saúde,
especializada, laboratórios de saúde pú- vem trabalhando na concepção e construção de uma
blica, entre outras, para a promoção de rede de laboratórios de vigilância em saúde ambiental
atenção integral à saúde. e avaliação de empreendimentos de relevância para
o governo federal. Além disso, tem participação em
Normatizar, harmonizar e definir o mo-
grupos de trabalho, câmaras técnicas, redes, pro-
delo de atuação, elaboração de proto-
gramas, projetos, fóruns regionais, nacionais e inter-
colos de atuação, desenvolvimento do
nacionais que tratam do tema saúde e ambiente. Tam-
sistema de informação para os compo-
bém implementa cooperação técnicas em saúde
nentes do Vigidesastres (desastres de
ambiental com países das Américas.

102
O Subsistema Nacional de Vigilância em Saúde Ambiental (SINVSA) e seus Desafios

A CGVAM também financia projetos e pesqui- e efetivados para garantir a representati-


sas visando ao aprimoramento e fortalecimento de vidade da população.
suas ações, tendo como parceiros universidades, ins-
No campo da formulação teórico-
tituições e órgãos de fomento e referência em pes-
conceitual, há necessidade de aproximar
quisa no Brasil, assim como o apoio da Coordena-
os grupos acadêmicos, de pesquisa, com
ção Geral do Desenvolvimento da Epidemiologia em
os profissionais da saúde ambiental, no
Serviços e o Departamento de Ciência e Tecnologia,
sentido de problematizar e reconstruir a
responsáveis pela gestão das pesquisas no âmbito da
interface entre saúde e ambiente.
SVS e MS respectivamente.
Desta forma alguns dos desafios acima apon- Do ponto de vista legal e normativo,
tados se aplicam a diversos componentes do Sinvsa, apresenta-se a necessidade de explorar
bem como os seguintes: a temática de saúde e ambiente na pers-
pectiva da criação de novos instrumen-
Atender às demandas laboratoriais da
tos, além da harmonização e efetivação
VSA, principalmente aquelas de maior
do arcabouço jurídico-normativo que
complexidade geradas pelo Vigisolo,
perpassa a saúde ambiental, como apri-
Vigiagua, Vigiar e Vigiquim.
morar e atualizar os processos de aten-
Implementar programa de educação ção, vigilância, gestão, educação e siste-
permanente e comunicação de risco em matização de informação em saúde, para
saúde ambiental para atender às neces- assegurar a execução de projetos, pro-
sidades dos profissionais de saúde e às gramas e ações concretas e oportunas
demandas da população. que possibilitem a materialização de uma
política nacional de saúde ambiental que
Desenvolver e implantar modelo de atu-
se traduza em promoção da qualidade
ação para inserção da saúde nos proces-
de vida e da defesa do ambiente.
sos de licenciamento ambiental de em-
preendimentos nas três esferas do SUS;

Internalização e implementação de polí-


ticas e consequentes compromissos de
fóruns e convenções internacionais.
Referências Bibliográficas
Há necessidade de rearranjos organi-
BRASIL (1). Ministério da Saúde. Fundação Nacional de Saú-
zacionais para se estimular parcerias
de. Instrução Normativa nº1, de 25 de setembro de 2001.
inovadoras e fomentar a criação de am-
Brasília, 2001.
bientes saudáveis que apóiem o bem-
estar humano. BRASIL (2). Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em
Saúde. Instrução Normativa nº1, de 7 de março de 2005.
No tocante ao controle social, além do Brasília, 2005.
destaque dos conselhos, novos meca-
BRASIL (3). Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em
nismos de participação da sociedade
Saúde. Relatório de Gestão - Vigilância em Saúde Ambiental
devem ser identificados, desenvolvidos - 2007. Documento de circulação restrita. Brasília, 2008.

103
Alonzo, H. G. A. et al.

BRASIL (4). Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em


Saúde. IV Inventário Nacional da Vigilância em Saúde
Ambiental - 2007. Brasília, 2006.

BRASIL (5). Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em


Saúde. Documentos do VIGIAGUA, VIGISOLO, VIGIAR,
VIGIDESASTRES, VIGIGUIM. Ministério da Saúde. [acesso
em Abril 2009]. Disponíveis em: www.saúde.gov.br/svs

BRASIL (6) Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Saú-


de. Subsídios para construção da Política Nacional de Saúde
Ambiental / Ministério da Saúde, Conselho Nacional de Saú-
de. Brasília. Editora do Ministério da Saúde, 2007.

104
Interrelações entre a Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador e a Atenção Básica de Saúde no SUS

Inter-relações entre a Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador


e a Atenção Básica de Saúde no SUS

Lia Giraldo da Silva Augusto1

1
Médica. Pesquisadora Titular do Centro de Pesquisas Aggeu
Magalhães da Fiocruz – Recife, Pernambuco.

O Brasil adotou uma estratégia de atenção bási- território deveria ter um sentido mais amplo que
ca à saúde, mediante a expansão dos Programas de aquele que lhe é dado pelo atual desenho do PSF.
Agentes Comunitários e de Saúde da Família (PSF), para Embora o PSF tenha servido para que o SUS
cumprir os dispositivos constitucionais do direito de cumpra o princípio da universalidade, devemos re-
todos aos serviços de saúde, traduzido pelo princípio conhecer que pouco se avançou para cumprir a
da universalidade no Sistema Único de Saúde. integralidade da atenção. No entanto, por sua
O PSF é estruturado com base na territorializa- capilaridade social, o PSF tem grande potencial para
ção, onde o território considerado é o espaço adstri- cumprir também com o princípio da integralidade
to a uma Unidade Básica de Saúde (UBS). São utiliza- das ações, especialmente daquelas relacionadas à
dos indicadores sociais e demográficos para implan- promoção, proteção e cuidados da saúde e à pre-
tação do número de equipes para atendimento, in- venção das situações de risco presentes no ambien-
corporando, dessa forma, o princípio da equidade, te onde vivem e trabalham as pessoas.
uma vez que as áreas mais carentes e mais populo- A missão do PSF é muito ampla e, certamen-
sas recebem maior número de equipes por UBS. te, a pressão de atendimento e assistência sobre suas
No PSF, de modo geral, o território tem um equipes de trabalho é muito grande, seja pelas de-
significado restrito à organização das atividades mandas reais da população, seja pela forma
prescritas à sua equipe, segundo critérios de co- verticalizada como se estrutura. Isto leva as equipes
bertura estabelecidos no nível central para uma a priorizarem o atendimento estrito ao que o Minis-
dada “microárea”. tério da Saúde espera como produtos do PSF.
O conceito de território utilizado é apenas um Há claramente um paradoxo entre a missão e a
operador administrativo. Nesse sentido, pensamos estrutura utilizada para sua execução. A prescrição
que para a atenção básica em saúde o conceito de normatizada para as ações do PSF para todo o territó-

105
Augusto, L. G. da S.

rio nacional não diferencia a diversidade dos contex- teresses do narcotráfico. Territórios de poder de
tos socioambientais em que vivem as comunidades. um dado vereador, deputado, senador, são exem-
Há uma burocratização do programa e um plos de nosso cotidiano. Os velhos currais eleitorais
esvaziamento das potencialidades locais frente às de certos parlamentares ou governantes têm a fun-
demandas centrais. A esperada horizontalidade me- ção clientelista de manutenção de poderes privados.
diante a articulação das redes sociais locais não ocor- Esse conceito está presente na história de ocupa-
re, e o que se constata na maioria das avaliações re- ção, de colonização, de invasão, de escravidão.
alizadas sobre a resolutividade do PSF é sua baixa O Sistema Único de Saúde guarda, em seus
efetividade, até mesmo para aquelas ações prescri- princípios e diretrizes, conceitos avançados de cida-
tas pelo Ministério da Saúde. dania, que vão em direção à emancipação, autono-
O objetivo deste texto não é fazer uma avalia- mia e liberdade. Por essa razão, é fundamental ope-
ção do PSF e apontar suas dificuldades de concep- rar com conceitos adequados a um modo de plane-
ção e operacionalização. Pretendemos, neste texto, jar, gestar e atuar no âmbito público e democrático.
mostrar como um outro conceito de território po- O conceito de território desenvolvido por
deria ajudar a superar as dificuldades apontadas tan- Milton Santos nos parece mais apropriado. Então,
to na concepção como na operacionalização das perguntamos: como as ações de Atenção Básica (ou
ações de Atenção Primária à Saúde. Primária) de Saúde, com base no conceito de terri-
O território é um espaço dinâmico, determi- tório socialmente dinamizado pelas forças sociais,
nado pelas relações sociais e pelas lógicas da socieda- podem atuar sobre aqueles condicionantes que
de e da natureza, que são interdependentes e precarizam a saúde, garantindo assim medidas de
inseparáveis. O território, assim como todo o ser promoção proteção e cuidado da saúde?
humano, é 100% cultura e 100% natureza. A nature- Não se trata aqui de dar receita, um roteiro
za transformada pela cultura e pela sociedade em pro- ou outra norma de procedimentos. É necessário
cessos históricos conforma os espaços de desenvol- empoderar os profissionais de saúde e a população
vimento humano que denominamos território. de seus direitos e deveres, e aqui estamos falando
Essa concepção é um legado de muitos de cidadania.
geógrafos e pensadores. Milton Santos, grande Esse é um compromisso primeiro das políti-
geógrafo brasileiro, é a maior expressão intelectual cas sociais em que se inscreve o SUS e toda a sua
dessa compreensão. Na saúde, tivemos outros pen- estrutura. É preciso auscultar as comunidades, com-
sadores que também pensaram o território para além preender suas demandas, reconhecer tecnicamente
de um espaço meramente físico. Podemos lembrar os problemas de saúde das pessoas em seu contex-
com orgulho de Josué de Castro em sua “Geografia to de vida.
da fome”. Chamamos a esse contexto de ambiente de
Pretendemos aqui apresentar um conceito de vida. O ambiente também é outro conceito que pre-
território mais amplo, que transcende o aspecto fí- cisa ser ampliado, pois, assim como o território, ele
sico do espaço utilizado apenas para definir frontei- é uma resultante de interações. A velha forma de
ras político-administrativas, ou de exercício de po- dividir o ambiente em compartimentos como água,
deres ou de dominação. Esse conceito antigo de ter- solo, ar, flora, fauna tornando-os estanques é a mes-
ritório, ainda em uso pelo Estado, na verdade, tem ma base de um pensar fragmentado, o mesmo que
uma origem privatista. Hoje, vemos, por exemplo, se faz com o corpo humano (em cabeça, tronco e
o uso desse conceito de território para atender in- membros), sem tratar das relações que garantem a

106
Interrelações entre a Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador e a Atenção Básica de Saúde no SUS

sua integralidade, como se pudesse cada comparti- mobilizados para esse enfrentamento. Não existe
mento ou parte funcionar independentemente um do nenhum saber ou especialidade autossuficiente para
outro. Esse esquema reduzido empobrece o pensa- tratar de temas de saúde pública. Também não pode
mento que tem orientado as ações de saúde na prá- ser papel de um único setor ou só da esfera gover-
tica tanto dos serviços de saúde como de outros namental atender aos problemas de saúde apresen-
setores, apesar dos avanços proporcionados pela tados pelas coletividades humanas. Os requisitos da
Constituição e pelo conhecimento científico. Deve- interdisciplinaridade e da intersetorialidade são, sem
ríamos perguntar a quem interessa essa fragmenta- dúvida, uma premissa guia do planejador, do gestor
ção? No mínimo, ousamos dizer que interessa a e dos profissionais de saúde.
manutenção do status quo, de onde originam todas Certamente, estes requisitos não podem ser
as desigualdades sociais e degradação ambiental. seguidos apenas pelos profissionais de saúde. Todas
O ambiente não é uma simples externalidade as esferas governamentais e a sociedade devem es-
ou aquilo que está de fora. O ambiente não é uma tar abertas para esse modo operante de exercer a
dimensão “dada” que transcende a nossa vontade, missão pública de proteção da vida. Trata-se, por-
ao contrário, é fruto da vontade humana. O ambien- tanto, de um compromisso ético. Para isso, precisa-
te não é uma fatalidade ou uma dimensão que está mos de uma reforma profunda nas consciências que
fora de nosso alcance, ou que não nos pertence, ou acreditam que um mundo melhor é possível.
que nada tem a ver com a saúde. Para ilustrar essas proposições, citamos como
O ambiente tem um caráter mais global e con- exemplo um problema de saúde pública provocado
tínuo em termos de materiais, fluxo de energias e de pela circulação do vírus da dengue em áreas onde
afetividades para manutenção da vida, tanto biológi- está presente o mosquito Aedes aegypti, onde vive o
ca como social e cultural, e que se expressam nos ser humano suscetível a esse vírus. A doença dengue
territórios de forma a produzir elementos de bem- é um resultado da interação entre todos esses ele-
estar ou de desequilíbrios que geram nocividades para mentos, cada um com sua complexidade, mas que
o ecossistema em que vivem todos os seres vivos, são interdependentes.
incluindo o ser humano. Então, nunca será possível eliminar o mosqui-
Uma segunda importante atitude dos profissi- to, especialmente pelo uso de venenos? Por quê? O
onais de saúde é fazer o reconhecimento dos con- Aedes aegypti é um ser vivo com grande robustez
textos socioambientais em que vive e trabalha a po- biológica, bem adaptado ao território e ao modo de
pulação, identificando neles os problemas geradores vida humano, que conformam um ambiente propício
de nocividades tanto para a saúde humana como para para a sua proliferação. A superpopulação do mosqui-
o ambiente. Precisamos, portanto, de um operador to vetor na presença de pessoas infectadas pelo vírus
ecossistêmico para tratar os problemas de saúde em produz um ambiente em que o processo de trans-
sua dimensão coletiva. missão na população ocorre, promovendo daí a dis-
É preciso estabelecer processos de compre- seminação do vírus, e desencadeando a doença e a
ensão coletivos no cotidiano do trabalho das equi- epidemia. Como vemos, o ambiente aparece não só
pes de saúde pública, especialmente no nível local como um mediador, ou algo externo, mas como uma
onde acontecem as ações voltadas à promoção da condição central ao processo de determinação da in-
saúde e de prevenção de riscos. fecção humana e dos surtos epidêmicos.
Outro requisito das ações no território é o Eleger o vetor (um ser vivo) como “o único
reconhecimento de que há muitos saberes a serem elo vulnerável”, como é dito e redito nas normas

107
Augusto, L. G. da S.

oficiais para o controle da doença, tem levado as


autoridades públicas a escolherem um único meio
de controlar a doença. Isto é, o alvo é o vetor. Essa
decisão com base em uma premissa reducionista leva
a uma segunda decisão: usar um “meio eficaz de eli-
minar o vetor”. Ora, o mercado dos inseticidas to-
mou conta não só dos métodos produtivos desses
venenos na agricultura, mas também na saúde públi-
ca. Foi criado um mito revestido de “cientificidade”.
A despeito dos milhares de toneladas de inseticidas
e larvicidas aplicados no combate ao vetor, na práti-
ca, o que vemos é a rápida expansão de sua infestação
para quase todo o território nacional e a recorrência
de dramáticos surtos de dengue em diversas cida-
des brasileiras. Substituir um veneno por outro mais
potente não nos parece o melhor caminho, especi-
almente diante da incerteza de seus impactos para a
saúde humana, para o meio ambiente e ainda sobre
sua eficácia. Tudo isso sem contar que, na
operacionalização de controle da dengue, a Atenção
Primária em Saúde, na prática, se resume à prescri-
ção de sintomáticos.
Como este, poderíamos elencar um grande
conjunto de problemas de saúde que se beneficiaria
de ações integradas. Nessa perspectiva, a
internalização do ambiente onde vivem e trabalham
as pessoas das comunidades sob um planejamento
territorial intersetorial é um avanço que se requer
para o Sistema Único de Saúde.

Referências Bibliográficas

AUGUSTO, LGS.; CARNEIRO, RM.; FLORÊNCIO, L. Pesquisa


(ação) em saúde ambiental. Recife: Ed. Universitária, UFPE, 2005.

AUGUSTO, LGS.; BELTRÃO, AB. Atenção Primária à Saúde.


Território, Ambiente e Integralidade em Saúde. Recife: Ed. Uni-
versitária, UFPE, 2008.

AUGUSTO, LGS.; CARNEIRO, RM.; MARTINS, PH. Aborda-


gem ecossistêmica em saúde. Ensaios para o Controle da Den-
gue. Recife: Ed. Universitária UFPE, 1ed. 2001, 2ed. 2005.

108
As Relações Produção/Consumo, Saúde e Ambiente na Atenção Primária à Saúde do SUS

As Relações Produção/Consumo, Saúde e Ambiente na


Atenção Primária à Saúde do SUS

Elizabeth Costa Dias1


Jacira Cancio2
1
Médica Sanitarista e do Trabalho. Professora aposentada do Departamento Raquel Maria Rigotto3
de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da Universidade Lia Giraldo da Silva Augusto4
Federal de Minas Gerais. Maria da Graça Luderitz Hoefel5
2
Engenheira Sanitarista. Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (SESAB).
Superintendência de Vigilância e Proteção da Saúde (SUVISA) Salvador. Bahia.
3
Médica. Pesquisadora Titular do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães da
Fiocruz – Recife, Pernambuco.
4
Médica. Professora do Departamento de Saúde Comunitária. Centro de
Ciências da Saúde da Universidade Federal do Ceará.
5
Médica Sanitarista e do Trabalho. Assessora da Área Técnica de Saúde do
Trabalhador (Cosat), da Diretoria de Saúde Ambiental e Saúde do Trabalha-
dor da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde.

1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS macia dos humanos sobre os outros seres do plane-


ta reforça esse comportamento, apesar dos milhões
As inter-relações Produção/Trabalho, Ambien- de seres humanos despojados dessa condição. Para
te e Saúde, determinadas pelo modo de produção e a produção acontecer, o trabalho humano é, e sem-
consumo hegemônico na sociedade, são a principal pre será, indispensável. Mesmo em situações de ex-
referência para se entender as condições de vida, o trema automação, os trabalhadores estão presentes
perfil de adoecimento e morte das pessoas, a na cadeia produtiva. O círculo virtuoso e perverso
vulnerabilidade diferenciada de certos grupos soci- da economia se sustenta pela exploração da nature-
ais e a degradação ambiental, bem como para cons- za e do trabalhador, e dele decorrem a degradação
truir intervenções capazes de garantir vida e saúde ambiental e as cargas biológicas, sociais, psíquicas,
para o ambiente e a população. econômicas, políticas e culturais que afetam a saúde
A produção de bens e riquezas necessita de dos trabalhadores e de suas famílias.
matérias-primas, trabalho e tecnologia. Ao longo da As críticas ao modelo de desenvolvimento
história humana, particularmente a partir do século puramente econômico e seus impactos sobre as
XVI, a natureza tem sido vista como uma fonte ines- condições de vida, a saúde e doença e sobre o ambi-
gotável de recursos para os empreendimentos hu- ente têm aproximado os campos da Saúde do Traba-
manos, abastecendo o processo produtivo de lhador (ST) e da Saúde Ambiental (SA). Os territóri-
insumos, matérias-primas e energia, e permitindo a os abrigam diferentes processos produtivos que não
acumulação de capital. O avanço científico-tecnoló- mais se restringem ao interior das fábricas e deter-
gico mobilizado para a produção, guiado pelo mito minam a distribuição de forma diferenciada da expo-
da inesgotabilidade dos recursos da natureza, induz sição dos indivíduos e coletivos aos agentes, cargas
à exploração sem limites. A ética instituída da supre- e riscos de dano para a saúde e o perfil de

109
Dias, E. C. et al.

adoecimento (Rigotto, 2003; Freitas & Porto, 2006; amento e de Saúde Ambiental (Ecologia Humana,
Tambellini & Câmara, 1998). Ecotoxicologia, Emergências, Desastres e Acidentes
Nesse sentido, cresce, na sociedade brasilei- de Trânsito). Apesar da fragmentação das ações, cha-
ra, o reconhecimento de que os problemas de Saú- mam a atenção o espectro ampliado de responsabi-
de do Trabalhador e de Saúde Ambiental são deter- lidades e a vinculação à Atenção Primária à Saúde.
minados pelo modelo de desenvolvimento adotado Em agosto de 2007, no processo de reorga-
no país, exigindo, para sua solução ou minimização, nização do Ministério da Saúde, a Coordenação-Ge-
políticas públicas intersetoriais definidas a partir da ral de Vigilância Ambiental em Saúde (CGVAM) e a
interlocução entre os setores econômicos e aqueles Área Técnica de Saúde do Trabalhador (Cosat) fo-
responsáveis pela proteção, cuidado e reparação dos ram reunidas na Diretoria de Saúde Ambiental e Saú-
danos causados. Essa compreensão da questão re- de do Trabalhador, na Secretaria de Vigilância em
força a responsabilidade do Sistema Único de Saúde Saúde (SVS). Esse processo, orientado pelo pa-
(SUS) de prover ações de promoção e assistência à radigma que correlaciona produção/trabalho, ambi-
saúde e de vigilância sobre seus condicionantes e ente e saúde e pela pressão de setores ligados aos
determinantes, dirigidas a proteger a saúde e a qua- movimentos da Saúde Ambiental e da Saúde do Tra-
lidade de vida das populações e a preservação e pro- balhador, começa a desenhar possibilidades de ação
teção do ambiente físico e social. Desse modo, as integrada nesses campos e tem sido seguido por
ações de Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador estados e municípios no país.
devem estar articuladas nos serviços de saúde, uma O campo da Saúde do Trabalhador é definido,
vez que os riscos gerados direta e indiretamente no artigo 6º da Lei Orgânica da Saúde (Lei no. 8080,
pelos processos produtivos afetam o meio ambien- de 19 de setembro de 1990) como “conjunto de
te e a saúde das populações e dos trabalhadores de atividades que se destina, através de ações de vigi-
modo particular. lância epidemiológica e sanitária, à promoção e pro-
No Brasil, o reconhecimento da contribuição teção dos trabalhadores, assim como visa à recupe-
das relações Produção/Trabalho-Ambiente e Saúde ração e reabilitação da saúde dos trabalhadores sub-
na determinação do processo saúde-doença da po- metidos aos riscos e agravos advindos das condi-
pulação pode ser identificado no sistema público de ções de trabalho”, que são atribuições do SUS. De
saúde desde sua criação, traduzido em práticas de acordo com o princípio da universalidade, trabalha-
controle de vetores de doenças e de saneamento dores são todos os homens e mulheres que exer-
básico. Também, os trabalhadores têm sido atendi- cem atividades para seu próprio sustento e ou de
dos pela rede de serviços de saúde, apesar de esse seus dependentes, qualquer que seja a forma de in-
atendimento não contemplar nem a centralidade dos serção no mercado de trabalho, nos setores formal
processos produtivos nem a perspectiva do direito e informal da economia (BRASIL - MINISTÉRIO DA
à saúde e universalidade de acesso à atenção. Duran- SAÚDE, 2004).
te anos, no país, apenas os trabalhadores registrados O processo sociopolítico e técnico de cons-
no regime da Consolidação das Leis do Trabalho trução de ações de Saúde do Trabalhador na rede de
(CLT) e seus dependentes contaram com assistên- serviços de saúde está em curso desde os anos 80.
cia à saúde provida pela Previdência Social. Porém, apesar dos avanços conseguidos, expressos
No organograma do Ministério da Saúde, po- no arcabouço jurídico e institucional, e em especial
dem ser identificados, desde 1974, setores com atri- com a implementação da Rede Nacional de Atenção
buições nas áreas de Saúde do Trabalhador, de Sane- Integral à Saúde do Trabalhador (Renast), apoiada

110
As Relações Produção/Consumo, Saúde e Ambiente na Atenção Primária à Saúde do SUS

pelos Centros de Referência em Saúde do Trabalha- nização da atenção no SUS. Após muita discussão, o
dor (Cerest) a partir de 2002, pode-se dizer que o termo ABS foi adotado pelo Ministério da Saúde nos
SUS ainda não incorporou, de forma efetiva, em suas documentos oficiais e designa a política estabelecida
concepções, paradigmas e ações, o lugar que o “tra- para essa área. Entretanto, o termo Atenção Primá-
balho” ocupa na vida dos indivíduos e suas relações ria à Saúde (APS) tem sido crescentemente utilizado
com o espaço socioambiental (Dias, E.C. & Hoefel, por técnicos, pelo Conselho Nacional de Secretári-
M.G., 2005; Lacaz, F. A., 2007). os Estaduais (Conass) e em documentos oficiais do
A Vigilância em Saúde incorpora atividades SUS nos três níveis de gestão. Neste texto, opta-
direcionadas às doenças transmissíveis e não trans- mos por utilizar, preferencialmente, a designação
missíveis e aos seus fatores de risco, vigilância ambien- Atenção Primária à Saúde (BRASIL - CONSELHO
tal e vigilância da situação de saúde. E, em alguns es- NACIONAL DE SECRETÁRIOS DE SAÚDE, 2004).
tados e municípios, também inclui a Vigilância Sanitá- A diversidade das situações e arranjos institu-
ria e de Saúde do Trabalhador. Ela articula conheci- cionais que caracterizam a Atenção Primária à Saúde
mentos e técnicas da epidemiologia, do planejamen- (APS) nos mais de 5.500 municípios brasileiros é o
to e das ciências sociais para implementar ações des- primeiro desafio a ser enfrentado ao se pensar a in-
tinadas a controlar determinantes da saúde da popu- serção de ações de Saúde Ambiental e de Saúde do
lação que vive em um dado território, na perspecti- Trabalhador nesse nível de atenção. E essa dificulda-
va da integralidade do cuidado, na abordagem indivi- de somente poderá ser superada pelo estreito con-
dual e coletiva dos problemas de saúde (BRASIL - tato com a realidade local e pelo diálogo com o mo-
MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2005). vimento social. Ou seja, não existem fórmulas pron-
Conceitualmente, a vigilância em saúde tas, mas é possível estabelecer diretrizes básicas a
ambiental compreende o conjunto de ações e servi- serem retrabalhadas no nível local que se corporifi-
ços prestados por órgãos e entidades públicas e pri- quem em práticas transformadoras.
vadas, visando ao conhecimento e à detecção ou As principais referências para pensar as ações
prevenção dos determinantes e condicionantes do de Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador na Aten-
meio ambiente que interferem na saúde humana, com ção Primária à Saúde são as normas e prescrições exis-
a finalidade de recomendar e adotar medidas de pro- tentes, dentre elas, a Norma Operacional em Saúde
moção da saúde ambiental, prevenção e controle dos do Trabalhador (NOST) de 1998; as Instruções
fatores de riscos relacionados às doenças e outros Normativas de Vigilância em Saúde do Trabalhador
agravos à saúde, em especial: água para consumo (VIST) e de Vigilância em Saúde Ambiental (SINVSA),
humano; ar; solo; contaminantes ambientais e subs- ambas de 2005 (BRASIL - MINISTÉRIO DA SAÚDE,
tâncias químicas; desastres naturais; acidentes com 2005). Apesar de o papel da APS não estar explícito
produtos perigosos; fatores físicos; e ambiente de nas competências municipais relativas ao SINVSA, ele
trabalho (BRASIL - MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2007). pode ser extraído do atual modelo de gestão. A Por-
taria GM/MS nº. 325, de 21 de fevereiro de 2008,
2. POSSIBILIDADES PARA A SAÚDE AMBIENTAL E A SAÚ- que estabeleceu prioridades, objetivos e metas do
DE DO TRABALHADOR NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE Pacto pela Vida para 2008, incluiu ações de Saúde do
Trabalhador. Esses instrumentos oferecem subsídios
No Brasil, os termos Atenção Primária à Saú- para a discussão e elaboração de diretrizes mais con-
de (APS) e Atenção Básica de Saúde (ABS) têm sido dizentes com as necessidades atuais. O Quadro 1 sin-
empregados para designar o primeiro nível de orga- tetiza essas prescrições e pode facilitar as discussões.

111
Dias, E. C. et al.

Quadro 1 – Ações de Saúde Ambiental e de Saúde do Trabalhador na APS


segundo normas vigentes em 2009

Sobre as ações de Saúde Ambiental na APS é des de saúde, ocorrendo no cotidiano da vida, nos
interessante resgatar a estratégia da Atenção Primá- ambientes dos processos produtivos e na dinâmica
ria Ambiental (APA), proposta chancelada pela OPAS da vida das cidades e do campo e estão no escopo
em 1990, como ação preventiva e participativa em das atribuições da APS (Netto et al., 2006).
nível local, orientada pelo reconhecimento do direi- Discussão recente, no âmbito da Saúde do Tra-
to dos seres humanos de viver em um ambiente sau- balhador, refere-se à alternativa de se considerar as
dável e de ser informado sobre os riscos para sua prioridades já definidas para a Atenção Básica de Saú-
saúde e bem-estar, bem como de suas responsabili- de, para atenção à hipertensão, diabetes, às gestan-
dades e deveres em relação à proteção, conserva- tes e crianças, à prevenção do câncer de colo uterino,
ção e recuperação do ambiente e da saúde. A APA e entre outras, para inserir a questão do trabalho e
outras estratégias de ação no nível local, dentre elas das relações de produção na linha de cuidado. Po-
a Agenda 21 Local, os Municípios Saudáveis, o De- rém, é importante lembrar que esta alternativa des-
senvolvimento Local Integrado e Sustentável, basei- taca os aspectos assistenciais em detrimento das
am-se na compreensão de que a construção da saú- ações de vigilância e do enfoque de território.
de se realiza além dos espaços e práticas das unida-

112
As Relações Produção/Consumo, Saúde e Ambiente na Atenção Primária à Saúde do SUS

Também, existe a possibilidade de que a Renast e condições de trabalho adequadas e com menos
e em particular os Cerest ofereçam suporte técnico adoecimento?
para ações de Saúde do Trabalhador e de Saúde O ambiente deve ser entendido como terri-
Ambiental na APS. Entretanto, para que isso ocorra, tório vivo, dinâmico, constituído por processos po-
é necessário revisar o papel desses Centros de Re- líticos, históricos, econômicos, sociais e culturais,
ferência, integrando-os, de fato, na rede de atenção no qual se materializa a vida humana por meio de
do SUS (Dias et al., 2008). políticas públicas formuladas utilizando o conheci-
Superar o descompasso na organização das mento disponível, com a participação e o controle
ações assistenciais e de vigilância e garantir a integra- social. Porém, é necessário rever o conceito
lidade na APS é, na atualidade, um dos maiores desa- operacional de território utilizado na APS, de modo
fios para o avanço do modelo de atenção proposto a contemplar questões como a contiguidade da pro-
pelo Pacto pela Vida e em Defesa do SUS. Nesse dução e das exposições aos fatores de risco para a
sentido, a Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) e saúde e a mobilidade das pessoas que ali circulam
o Departamento da Atenção Básica (DAB) do Minis- para trabalhar ou por outros motivos. Se é mais fácil
tério da Saúde têm buscado construir políticas e es- pensar a organização das ações de saúde ambiental e
tratégias de integração baseadas na reorganização do saúde do trabalhador na APS considerando as ativi-
processo de trabalho das equipes, atribuindo-lhe dades produtivas domiciliares, ou de “fundo de quin-
corresponsabilidade pelas ações de atenção e de vi- tal”, a tarefa se torna complexa quando se trata de
gilância no território, com planejamento e progra- propor o cuidado de trabalhadores que residem e
mação de caráter participativo, no qual trabalhado- trabalham em locais distintos, as vezes distantes,
res de saúde e representantes locais elegem priori- como no caso dos trabalhadores migrantes recruta-
dades e constroem propostas de enfrentamento dos dos para o corte da cana, para colher laranja ou café.
problemas, apoiados por processos de educação Qual seria o limite das ações de ST e SA na APS nes-
permanente, suporte técnico e monitoramento con- ses casos? Como organizar o cuidado de pessoas
tínuo das ações. que vivem em um território e trabalham em outro?
Entre as questões que necessitam ser valori- Como romper com o viés assistencial? O que fazer
zadas e incluídas na agenda dos técnicos, gestores e com as situações de risco geradas em um território
do controle social do SUS, destaca-se a sobrecarga cujos impactos se fazem sentir em inúmeros outros?
das equipes da APS e o significado de novas atribui- Como efetivar a vigilância? Como lidar com os inte-
ções. Considera-se que os Agentes Comunitários de resses econômicos e políticos poderosos da grande
Saúde (ACS) e os profissionais das equipes da APS já empresa que polui e degrada a saúde da população e
executam atividades no campo da Saúde Ambiental o ambiente e simultaneamente com a fragilidade do
e de Saúde do Trabalhador. Assim, o desafio seria a despreparo técnico das equipes, a falta de suporte
requalificação dessas ações, incorporando a perspec- laboratorial e de referência dos níveis mais comple-
tiva das relações Produção/Trabalho-Ambiente e Saú- xos do sistema e de suporte social? Como utilizar
de. Para isto, é essencial sensibilizá-los e prepará-los melhor os instrumentos já existentes, por exemplo,
para reconhecer os processos produtivos que ocor- a informação sobre a ocupação, preenchida pelo ACS
rem no seu território e suas repercussões sobre o na Ficha A da APS, para as ações de vigilância
viver e o adoecer das pessoas. Porém, essa epidemiológica?
capacitação deve abrir espaço para o encaminhamen- Outra dificuldade compartilhada com o con-
to de suas próprias demandas por contratos justos junto do SUS é o gargalo no acesso aos níveis mais

113
Dias, E. C. et al.

complexos do sistema a exames e clínicas especiali- BRASIL – MINISTÉRIO DA SAÚDE 2005.Secretaria de Vigi-
zados. Se não resolvido, ele acarreta o descrédito e lância em Saúde. Instrução Normativa MS/SVS n.º 1, de 7 de
março de 2005. Regulamenta a Portaria GM/MS n.º 1.172/
invalida o esforço despendido na ponta para acolher
2004/GM, no que se refere às competências da União, Esta-
e cuidar das pessoas.
dos, Municípios e Distrito Federal na área de Vigilância em
Como superar as dificuldades, frequentemen-
Saúde Ambiental. Diário Oficial [da] República Federativa
te relatadas pelas equipes, decorrentes das prescri- do Brasil. Poder Executivo, Brasília, DF, 8 mar. 2005.
ções centralizadas e vinculadas a metas a serem cum- Republicada em: 22 mar. 2005.
pridas e ao financiamento, pelos níveis federal e es-
BRASIL – MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2005. Instrução
tadual, que desconsideram a realidade local? Como
Normativa da Vigilância em Saúde do Trabalhador.
trabalhar em equipe se o cafezinho dos ACS é espe- Brasília, DF.
cialmente e qualitativamente separado dos médicos
BRASIL – MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2006. Secretaria de Po-
e enfermeiros?
líticas de Saúde. Departamento de Atenção Básica. Secreta-
São questões para discussão na 1ª. Conferên-
ria de Vigilância em Saúde. Cadernos de Atenção Básica n.
cia Nacional de Saúde Ambiental (1ª. CNSA).
21. Programa Saúde da Família. Saúde do Trabalhador.
Brasília: Ministério da Saúde.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
BRASIL – MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2007. Subsídios para
construção da Política Nacional de Saúde Ambiental. Mi-
O encontro dos campos disciplinares da Saú-
nistério da Saúde, Conselho Nacional de Saúde. Brasília:
de do Trabalhador e da Saúde Ambiental nos territó- Ministério da Saúde, 2007. 56 p. il. – (Série B. Textos Bási-
rios em que se concretizam as relações sociedade- cos de Saúde)
natureza sinaliza possibilidades de novas práticas de
DIAS, E.C.; HOEFEL, M.G. 2005. O desafio de implementar
saúde no SUS, em especial na Atenção Primária à
as ações de saúde do trabalhador no SUS: a estratégia da
Saúde, ordenadora do atual modelo de cuidado. Ci- RENAST. Ciência & Saúde Coletiva 10(4):817-828.
dadãos e profissionais de saúde são convidados a criar
DIAS EC. et al. Implementação das ações de Saúde do Traba-
práticas diferenciadas de Saúde Pública, e a realiza-
lhador no SUS, no Estado de Minas Gerais, no período 2002-
ção da 1ª. Conferência Nacional de Saúde Ambiental,
2007: diagnóstico de situação e recomendações para o aperfei-
em 2009, é oportunidade para o encontro, discus- çoamento do processo. Belo Horizonte, 2008. Relatório téc-
são e a criação de alternativas na busca de mais saú- nico-científico (Mimeo.)
de e vida para o planeta.
FREITAS, C. M.; PORTO, M. F. S. Saúde, ambiente e
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114
As Relações Produção/Consumo, Saúde e Ambiente na Atenção Primária à Saúde do SUS

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Revista Ciência & Saúde Coletiva, 3 (2):47-59, 1998.

115
Fontana, J. & Sinoti, M.

Programa de Educação Ambiental e Mobilização


Social em Saneamento – PEAMSS

Jane Fontana1
Marta Sinoti2

1
Ministério das Cidades.
2
Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental/Ministério
das Cidades.

1. APRESENTAÇÃO (GTI-EAMSS) foi instituído para esse fim pela Portaria


nº 218, de 9 de maio de 2006, do Ministério das Ci-
Sensível à necessidade de conjugar esforços dades, com representantes dos seguintes órgãos:
para o desenvolvimento da Política de Saneamento
Ministério do Meio Ambiente – Depar-
Ambiental do País e de criar condições para a parti-
tamento de Educação Ambiental e Se-
cipação e o controle social dos investimentos em
cretaria de Recursos Hídricos e Ambi-
saneamento, a Secretaria Nacional de Saneamento
ente Urbano;
Ambiental (SNSA) do Ministério das Cidades bus-
cou estabelecer parcerias com os diversos órgãos Ministério da Educação – Coordenação
do Governo Federal que atuam no Saneamento e na Geral de Educação Ambiental;
Educação Ambiental com o intuito de promover
Ministério da Integração Nacional – Se-
mudanças de valores e paradigmas em prol do for-
cretaria de Infraestrutura Hídrica;
talecimento da cidadania e do reconhecimento da
importância do saneamento para a melhoria da saú- Ministério da Saúde – Fundação Nacio-
de pública e da qualidade de vida. nal de Saúde e Fundação Oswaldo Cruz
Nesse sentido, detectou-se a necessidade de - Escola Nacional de Saúde Pública Ser-
se criar um Grupo de Trabalho Interinstitucional in- gio Arouca – Departamento de Sanea-
cumbido de coordenar e desenvolver um processo mento e Saúde Ambiental;
de construção coletiva voltado para a formulação de
Ministério das Cidades – Secretaria Na-
um Programa com essa finalidade.
cional de Saneamento Ambiental; e
O Grupo de Trabalho Interinstitucional de Edu-
cação Ambiental e Mobilização Social em Saneamento Caixa Econômica Federal.

116
Programa de Educação Ambiental e Mobilização Social em Saneamento – PEAMSS

Fruto do esforço coletivo desse grupo de tra- saúde, desenvolvimento urbano, meio am-
balho, o Programa de Educação Ambiental e biente, recursos hídricos, dentre outras,
Mobilização Social em Saneamento (PEAMSS) tem promovendo a intersetorialidade;
o desafio estratégico de provocar um processo de
Promover a articulação das estratégias
mudança na lógica dos serviços e investimentos em
e iniciativas de Educação Ambiental com
saneamento, de forma que a sociedade seja
os programas, projetos e ações de sa-
coparticipante de todo o processo desde a concep-
neamento, assegurando recursos e con-
ção e o planejamento até a gestão e o monitoramento
dições para sua viabilização;
das ações.
Sintonizado com a nova Política Federal de Apoiar e estimular processos de educa-
3
Saneamento Básico e com o Programa Nacional de ção ambiental voltados para sensibili-
Educação Ambiental (ProNEA), o PEAMSS apresen- zação, mobilização e formação dos ato-
ta, por meio deste documento, os princípios, as di- res sociais envolvidos, com vistas ao
retrizes, os fundamentos e as linhas de ação que de- empoderamento da sociedade na polí-
vem orientar as intervenções de Educação Ambiental tica pública de saneamento;
e Mobilização Social em Saneamento.
Promover a incorporação da educação
ambiental na implementação das ações
2. OBJETIVOS
de saneamento, visando contribuir per-
2.1 OBJETIVO GERAL manentemente para o exercício do con-
trole social4;
Fomentar a importância e apoiar o de-
Estimular a criação de grupos de discus-
senvolvimento de iniciativas de educa-
são acerca das realidades locais para o de-
ção ambiental e mobilização social em
senvolvimento de mecanismos de articu-
saneamento, de forma que se consoli-
lação social, fortalecendo as práticas co-
dem como ações continuadas e transfor-
munitárias sustentáveis de promoção da
madoras e que contribuam para o con-
participação popular nos processos
trole social, a universalização do acesso
decisórios, na implantação, gestão e
aos serviços de saneamento e a cons-
monitoramento das ações de saneamento;
trução de sociedades sustentáveis.
Sistematizar e disponibilizar informa-
2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS ções sobre experiências na área de edu-
cação ambiental em saneamento;
Articular a Política de Saneamento com as
demais políticas públicas, como educação,

3
A Lei no. 11.445, de 5 de janeiro de 2007, estabelece diretrizes para a Política Federal de Saneamento Básico, definindo-o
como os serviços públicos de abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos,
drenagem e manejo de águas pluviais.
4
Aqui entendido como a participação da sociedade na proposição, no acompanhamento e na avaliação das ações de gestão das
políticas públicas, atuando de forma participativa e comprometida com a coletividade e intervindo ativamente na transforma-
ção da realidade.

117
Fontana, J. & Sinoti, M.

Apoiar a inovação em projetos de edu- Poder Público Federal, Estadual e Municipal


cação ambiental em saneamento;
Conselhos, Fóruns e Colegiados de Educa-
Promover e apoiar a produção e a dis- ção, Saúde, Meio Ambiente e Saneamento
seminação de materiais educativos so-
Sindicatos, movimentos e redes sociais
bre educação ambiental e mobilização
social em saneamento; Setor privado

Incentivar o uso de tecnologias sociais Entidades Profissionais, Acadêmicas e de


sustentáveis que reflitam as diferentes Pesquisa que atuam em saneamento
realidades culturais, econômicas e
Professores e estudantes dos diversos
socioambientais;
níveis e modalidades de ensino
Desenvolver e estimular processos de
Organizações Não Governamentais
formação destinados às pessoas envol-
vidas em ações de educação ambiental Comitês de Bacia Hidrográfica
e mobilização social em saneamento.
Associação de moradores e lideranças
de comunidades rurais e urbanas
3. A QUEM SE DESTINA
Comunidades indígenas e populações
As ações de saneamento apresentam uma gran- tradicionais
de abrangência e mobilizam instituições e pessoas Grupos em condições de vulnerabilida-
das mais diversas áreas, tais como saúde, meio am- de social e ambiental
biente, educação, organização social, promoção da
cidadania, infraestrutura, entre outras. Essa diversi- Técnicos, Especialistas e Gestores dos

dade de atores envolvidos, direta ou indiretamente, diversos níveis de governo e dos órgãos

faz com que as orientações deste Programa devam prestadores de serviço de saneamento

ser as mais amplas possíveis, destacando a impor- público e privado

tância de sua compreensão para a efetividade das Pessoas e entidades dos diversos seg-
ações de saneamento em benefício do bem-estar e mentos da Sociedade Civil Organizada
da qualidade de vida da população.
Agentes Comunitários de Saúde
O PEAMSS propõe que as diversas possibili-
dades de ações de Educação Ambiental em Sanea- Educadores Ambientais
mento sejam baseadas no estabelecimento de par-
cerias e na interação entre os diferentes atores soci- 4. MARCO LEGAL
ais envolvidos, observando o contexto socioeco-
nômico, as características culturais de cada região, O marco legal do PEAMSS, em razão de seu
assim como as especificidades locais e os papéis de perfil interdisciplinar e caráter de articulação de di-
cada um. ferentes políticas, é representado por seis eixos prin-
Eis alguns exemplos de atores que podem in- cipais e um transversal. O primeiro eixo, a Política
tegrar e interagir em ações de educação ambiental, Ambiental holística, foi instituído pela Lei nº 6.938,
conforme as diretrizes do PEAMSS: de 31 de agosto de 1981 (PNMA). O segundo de-

118
Programa de Educação Ambiental e Mobilização Social em Saneamento – PEAMSS

corre da Lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999, que Continuidade e Permanência – as


instituiu a Política Nacional de Educação Ambiental ações de Mobilização Social e Educação
(PNEA); outro é representado pela Lei nº 11.445, Ambiental devem ser continuadas, bus-
de 05 de janeiro de 2007, que instituiu a Política Fe- cando o impacto permanente na quali-
deral de Saneamento Básico (PFSB), e, além desses, dade e efetividade no acesso e no direi-
temos a Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei to aos serviços de saneamento;
nº 9.433, de 08 de janeiro de 1997), o Estatuto das
Emancipação e Democracia – a ação
Cidades (Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001) e
educativa deve promover a reflexão crí-
as políticas públicas para a Saúde. Eles são ligados
tica, fortalecer a autonomia, garantir a
transversalmente pela participação da comunidade,
liberdade de expressão e empoderar os
devidamente informada e mobilizada para desempe-
envolvidos para a participação nas deci-
nhar seu papel no controle social de forma consci-
sões políticas;
ente e engajada.
Tolerância e Respeito – a ação educativa
5. PRINCÍPIOS deve promover o reconhecimento da
pluralidade e da diversidade, seja no meio
O PEAMSS foi construído com base na Política natural ou social (econômico e cultural).
Federal de Saneamento Básico e na Política Nacional
de Educação Ambiental, tendo como princípios: 6. DIRETRIZES

O PEAMSS tem caráter orientador e articula-


Transversalidade e Intersetorialidade
dor das ações de saneamento, devendo ser reco-
– as iniciativas de educação ambiental e
nhecido e observado como prioritário e de caráter
mobilização social perpassam toda ação
permanente. Destina-se a otimizar os recursos pú-
de saneamento, promovendo a interlo-
blicos investidos em saneamento e a assegurar que
cução entre os segmentos interessados,
essas ações atendam aos anseios comunitários e res-
o diálogo entre os vários ramos (níveis)
peitem os limites naturais e os patrimônios históri-
do conhecimento e a articulação dos di-
co-culturais. Para isso, incentiva a participação da
ferentes programas e ações dos gover-
sociedade desde o planejamento (no sentido de dar
nos federal, estaduais e municipais. Além
ouvidos a seus anseios), a escolha de alternativas
disso, promovem a articulação da polí-
tecnológicas, a implantação, o monitoramento e a
tica de saneamento com o desenvolvi-
avaliação dessas ações como forma de garantir êxito
mento urbano, a saúde, o meio ambien-
para a ação pública. Tem como diretrizes:
te, os recursos hídricos e a educação;

Transparência e Diálogo – é essencial que


Incentivo e valorização do desenvol-
a sociedade tenha acesso às informações so-
vimento e da utilização de tecnolo-
bre os serviços de saneamento e que partici-
gias sociais sustentáveis em sanea-
pe da definição de prioridades e rumos na
mento – compreende a participação da
gestão e aplicação dos recursos. A participa-
comunidade no processo de planeja-
ção da sociedade é um elemento fundamen-
mento, discussão de alternativas tecno-
tal na consolidação das políticas públicas;

119
Fontana, J. & Sinoti, M.

lógicas, desenvolvimento e implementa- mas e ações, bem como a sua gover-


ção dessas alternativas, visando à trans- nança com a participação e o controle
formação de situações sociais vivencia- social; a dimensão econômica compre-
das pela população beneficiada. As tecno- ende a viabilidade dos investimentos e
logias sociais devem contribuir para a manutenção dos serviços com acesso a
sustentabilidade ambiental. Soluções tra- todos; a dimensão ambiental / ecológica
dicionais e “domésticas”, que protegem compreende o respeito à capacidade de
o meio natural, economizam investimen- suporte dos ecossistemas pelo uso ra-
tos, locam mão de obra e socializam cional, planejado, dos recursos naturais.
benefícios, devem ser incentivadas. Busca, também, a minimização e miti-
gação de impactos ambientais.
Incentivo à gestão comunitária, es-
cala local e direito à cidade – com- Respeito ao regionalismo e cultura
preende tanto a participação no plane- local em saneamento – Compreende
jamento das ações como o controle so- a valorização do conhecimento e das
cial na execução e acompanhamento das potencialidades regionais e locais no to-
ações em saneamento em nível local. cante à diversidade cultural, étnica e ra-
Insere a questão do direito ao saneamen- cial e às tecnologias e técnicas alternati-
to como um direito público à cidade por vas utilizadas em saneamento.
parte de cada cidadão que integra a po-
Incentivo à participação, mobiliza-
lítica de desenvolvimento urbano.
ção social e educomunicação – com-
Promoção da compreensão das di- preende os processos de incentivo à
mensões da sustentabilidade em participação efetiva das comunidades lo-
saneamento – compreende as dimen- cais e regionais, fortalecidas e organiza-
sões política, econômica, ambiental, so- das por processos educativos transfor-
cial e cultural das ações de saneamento. madores, mobilizando-as para o planeja-
Coaduna o desenvolvimento social com mento, a execução e a avaliação de ações,
a proteção dos patrimônios naturais e projetos e programas, buscando soluções
culturais. A dimensão social nos aspec- mais próximas da realidade e dos meios
tos da geração de emprego e renda, do de que estas disponham, consolidando e
acesso aos bens e serviços produzidos expandindo parcerias, incentivando e
socialmente (educação, transporte, saú- contribuindo para o desenvolvimento da
de, habitação, saneamento ambiental, capacidade comunitária em resolver seus
lazer, culturais e materiais) e da partici- próprios problemas, fazendo uso de pe-
pação cidadã; a dimensão cultural com- ças e materiais de informação e comuni-
preende a proteção dos patrimônios cação produzidos coletivamente, de
imateriais (hábitos e costumes e mani- acordo com o contexto e realidade lo-
festações artísticas) e materiais (monu- cais, e de forma educadora.
mentos históricos, artísticos e naturais);
a dimensão política compreende a conti-
nuidade dos investimentos, dos progra-

120
Programa de Educação Ambiental e Mobilização Social em Saneamento – PEAMSS

7. LINHAS DE AÇÃO E ESTRATÉGIAS METODOLÓ- mática que leve a uma nova prática voltada para a
GICAS PARA IMPLEMENTAÇÃO DO PROGRAMA sustentabilidade das ações educativas em saneamento.
Diante da diversidade de representantes do
O Programa Nacional de Educação Ambiental poder público e dos atores sociais que atuam com
e Mobilização Social em Saneamento se estrutura em educação ambiental e mobilização social em saneamen-
cinco linhas de ação. Cada uma delas sugere um con- to, é fundamental delinear um desenho institucional
junto de estratégias, nas quais estão compreendidos que proporcione uma dinâmica de interlocução fluída
os eixos estruturantes do Programa. que oriente, de forma eficiente, o processo de articu-
São possibilidades de atuação que têm como lação entre as diferentes esferas de atuação responsá-
objetivo orientar a participação popular no controle veis pela implementação do PEAMSS.
social dos processos de educação ambiental em sa- A 1ª esfera de atuação é formada pelas insti-
neamento. No entanto, cabe ressaltar que não se tuições que compõem o Grupo de Trabalho Interins-
trata de uma forma única e pré-concebida de se tra- titucional de Educação Ambiental e Mobilização So-
balhar a temática, mas sim um conjunto de alternati- cial em Saneamento, a saber: Ministério das Cida-
vas pensadas a partir dos princípios e diretrizes des, Ministério do Meio Ambiente, Ministério da
norteadores do programa, que visam potencializar a Educação, Ministério da Saúde, por meio da Funasa
atuação dos atores sociais envolvidos e que devem e Fiocruz, Ministério da Integração Nacional e Caixa
ser permanentemente revisitadas com o intuito de Econômica Federal, agente financeiro responsável pela
agregar as experiências adquiridas. São elas: sistemática de repasse e monitoramento dos recur-
sos públicos investidos em saneamento.
Além da proposição e condução do processo
1. Gestão e Planejamento de EA em
de construção coletiva do PEAMSS, destaca-se, den-
Saneamento
tre as atribuições desse arranjo institucional, a insti-
2. Formação continuada de Educadores tucionalização das diretrizes e princípios propostos
Ambientais Populares no âmbito formal pelo programa nos manuais e normativos vigentes,
e não formal mantendo-os atualizados e em sintonia com as polí-
ticas públicas setoriais que orientam o processo de
3. Informação e Educomunicação so-
aplicação de recursos públicos em saneamento.
cioambiental em Saneamento
Cabe a esta esfera promover a articulação en-
4. Apoio institucional e financeiro às tre os diferentes entes federados e a sociedade civil
ações de educação ambiental e mobili- organizada na implementação das políticas públicas
zação social em saneamento relacionadas ao fortalecimento das ações de educa-
ção ambiental e mobilização social em saneamento,
5. Linha de Ação: Monitoramento e Ava-
com o intuito de promover a qualificação dos em-
liação do PEAMSS
preendimentos feitos e a consequente melhoria na
qualidade de vida da população.
8. DESENHO INSTITUCIONAL
A 2ª esfera é representada pelas instâncias re-
gionais de atuação, que podem acontecer por meio
O arranjo institucional do PEAMSS busca o ali-
de Núcleos Regionais compostos de instituições que
nhamento das práticas desenvolvidas pelos diversos
atuam em saneamento, saúde, meio ambiente e edu-
atores sociais envolvidos na construção de uma siste-
cação em parceria com a sociedade civil organizada,

121
Fontana, J. & Sinoti, M.

ou outro arranjo institucional de caráter semelhante são de agregar os parceiros necessários para o de-
que tenha como atribuição contribuir regionalmente senvolvimento das ações propostas, sejam elas rela-
para a implementação e contextualização das políti- cionadas às obras ou aos trabalhos socioambientais
cas, programas e ações desenvolvidas pelo Gover- desenvolvidos em função delas.
no Federal, dando o suporte necessário para a susten- A 4ª esfera é composta da sociedade em ge-
tabilidade das iniciativas propostas. ral, aqui representada pelas comunidades envolvidas
A 3ª esfera é composta de tomadores de re- direta ou indiretamente com os empreendimentos
cursos públicos em saneamento, sejam eles estadu- em saneamento ambiental. Mais do que beneficiários
ais ou municipais, que têm como atribuição aplicar o do processo, o seu envolvimento e participação
montante de forma qualificada em parceria com a engajada destacam-se como elementos fundamentais
sociedade civil organizada, observando os princípi- para se assegurar a efetividade e sustentabilidade das
os e diretrizes constantes nos manuais e normativos ações propostas.
federais. São atores sociais estratégicos para a Nesse contexto, a implementação do programa
implementação do programa, uma vez que têm au- se dará por meio das cinco linhas de ação que perpas-
tonomia para aplicar os recursos acessados e a mis- sam e permeiam transversalmente esses quatro níveis.

122
Programa de Educação Ambiental e Mobilização Social em Saneamento – PEAMSS

123
Fontana, J. & Sinoti, M.

Formato: 21 X 29,7cm
Tipologia: Humanst 521 BT
Papel: Couche Fosco 70g /m2(miolo) & (capa)

124