Vous êtes sur la page 1sur 31

Direito e neoliberalismo

Nicolao Dino de Castro e Costa Neto

Sumário
1. Introdução. 2. A passagem do Estado li-
beral ao estado de bem-estar. 2.1. Uma idéia
inicial. 2.2. O Estado liberal. 2.3. O Estado soci-
al. 2.4. O substrato filosófico e ideológico do
Estado social. 2.4.1. O pensamento de Rousseau.
2.5. O Direito no Estado-providência. 2.6. A cri-
se do Welfare State e seus reflexos na realiza-
ção dos direitos fundamentais. 3. A ideologia
neoliberal e a globalização econômica: o im-
pacto no campo da realização dos direitos fun-
damentais. 3.1. A onda neoliberal. 3.2. O proje-
to neoliberal e o “empecilho” da democracia.
3.3. O desprezo pelo estado: a verdadeira face
do neoliberalismo. 3.4. O Direito no projeto
neoliberal. 3.5. Resíduos do neoliberalismo: os
impactos nos direitos fundamentais e nas rela-
ções sociais. 3.6. Ampliando os espaços de re-
sistência. a) A ética da alteridade e a reconstru-
ção de um novo contrato social. b) O ensino e a
práxis do Direito. c) Direitos humanos – con-
cretização da Declaração Universal de 1948. 4.
Conclusão.

1. Introdução

O presente trabalho parte de uma pre-
missa que vem sendo insistentemente deba-
tida por cientistas sociais, historiadores e
filósofos contemporâneos: o século XX foi
um período de contrastes, em que se alter-
Nicolao Dino de Castro e Costa Neto é Pre-
naram momentos de positiva vitalidade
sidente da Associação Nacional dos Procura-
dores da República, Mestre em Direito pela Fa- econômica e política e instantes de dra-
culdade de Direito da Universidade Federal de mas morais, políticos e culturais, com re-
Pernambuco e Professor Assistente da Univer- flexos profundos nos valores vigentes na
sidade Federal do Maranhão. sociedade.
Brasília a. 40 n. 160 out./dez. 2003 191

Uma avaliação do “breve século XX” sonhada, contra os azares da doença, da
deve obedecer a uma tríplice perspectiva: um desgraça e mesmo da terrível velhice dos
primeiro período, denominado a era da ca- pobres?”.
tástrofe – marcada pelas duas grandes guer- De fato, contrapondo-se ao laissez faire
ras –, em que “uma crise econômica mundi- liberal – conquista maior do século XIX, que
al de profundidade sem precedentes pôs de preconizava um Estado mínimo –, inaugu-
joelhos até mesmo as economias capitalis- rou-se no século XX um modelo de Estado
tas mais fortes e pareceu reverter a criação mais intervencionista. Deste, além das liber-
de uma economia mundial única, feito bas- dades e garantias individuais já conquista-
tante notável do capitalismo liberal do sé- das, passou-se a exigir a afirmação de direi-
culo XIX”. Um segundo momento – aclama- tos sociais, com a função primacial de redi-
do como a era de ouro –, a partir do fim da mensionar as condições materiais e cultu-
Segunda Guerra Mundial, no qual, não obs- rais de vida dos indivíduos, compatibilizan-
tante o longo período da guerra fria1, o mun- do segurança jurídica com segurança soci-
do ocidental (mais precisamente os países al.
capitalistas desenvolvidos), partindo da Coincide, pois, a “era de ouro” com a era
posição hegemônica dos Estados Unidos, do Estado-providência, na qual aspirações
experimentou um período de crescimento de bem-estar foram positivadas em regras
econômico efusivo, com grandes avanços jurídicas, passando a constituir mais do que
tecnológicos, progresso industrial e acessi- meras expectativas sociais, mas exigências
bilidade a bens de consumo revolucionado- “judicializáveis”.
res de hábitos sociais. E, finalmente, uma No entanto, as “décadas de crise” remar-
terceira fase, iniciada por volta do ano de caram o colapso do próprio sistema capita-
1973, enfocada como as “décadas de crise” lista, encontrando-se na ordem do dia. Nela
(HOBSBAWM, 1999, p. 16-17). ainda estamos imersos e mesmo aqueles que
As “décadas de crise” caracterizam-se não são capazes de decodificá-la sentem
por profundas e radicais transformações no suas conseqüências, seja em razão das alte-
cenário político e econômico mundial, pela rações na economia de mercado, seja em
perda dos poderes econômicos dos Estados decorrência das modificações processadas
nacionais, pela derrocada do “socialismo no cotidiano das relações intersubjetivas,
real”, (com a queda do muro de Berlim e de com a descompassada aceleração da com-
todos os sonhos socialistas cultivados por petição global de todos contra todos2.
detrás dele), bem como pelos profundos des- Afirmar que tal período de desmorona-
nivelamentos sociais, com extremos de ri- mento não tem seus efeitos restritos ao uni-
queza e miséria jamais imaginados por eco- verso econômico seria tautológico, porquan-
nomistas da “era de ouro”. to não se poderia conceber que os fortes im-
Na chamada “era de ouro”, não obstan- pactos na economia não repercutissem nou-
te a tendência à utilização de novas tecno- tras searas, abstendo-se de influenciar pro-
logias que dispensavam cada vez mais a fundas alterações nas relações sociais e no
mão-de-obra, o impacto do desemprego em campo do Direito.
massa não pôde ser percebido com tanta Analisando os problemas deste final de
nitidez, porquanto a economia cresceu de século no plano político-constitucional, Jor-
modo a assegurar ou até mesmo ampliar o ge MIRANDA (1996, p. 98) registra a “cha-
número de empregos. E, como salientou mada crise do Estado-providência, deriva-
HOBSBAWM (p. 262), “se os tempos se tor- da não tanto de causas ideológicas (o reflu-
nassem difíceis para eles, não haveria um xo das idéias socialistas ou socializantes
Estado previdenciário universal e generoso perante idéias neoliberais) quanto de cau-
pronto a oferecer-lhes proteção, antes nem sas financeiras (os insuportáveis custos de

192 Revista de Informação Legislativa

serviços cada vez mais extensos para popu- Daí ser possível, sob o ângulo da Filoso-
lações activas cada vez menos vastas), de fia, analisar criticamente os novos rumos
causas administrativas (o peso de uma bu- delineados para as relações sociais no mun-
rocracia, não raro acompanhada de corrup- do globalizado, examinando as mutações
ção) e de causas comerciais (a quebra da que se pretende implementar no campo do
competitividade, numa economia globali- Direito e seus reflexos na atividade estatal
zante, com países sem o mesmo grau de pro- de distribuição de justiça.
tecção social)”. Para o desenvolvimento do trabalho, cabe
A crise econômica mundial está direta- estabelecer, de forma arbitrária, um marco
mente relacionada com a crise do Estado- zero: as conquistas sociais que caracteriza-
providência. Some-se a isso a derrocada ram o Welfare State. A partir daí é que se pro-
do socialismo real, para conceber-se, en- põe a análise das implicações da famigerada
tão, a abertura da trilha conducente à tão investida neoliberal na redefinição do fenô-
festejada”crise do paradigma”. Tal crise é meno jurídico no final do milênio, com sensí-
marcada pela desregulação global da vida veis reflexos no início deste novo século.
econômica, social e política. A demarcação desse ponto de partida
Nesse terreno germinou o fenômeno neo- não dispensa certamente o exame dos fun-
liberal que, aproveitando-se da indigitada damentos do liberalismo clássico, já que o
crise global, propôs o absoluto esgotamento desenvolvimento do Estado-providência
dos “velhos paradigmas”, fragilizando con- possui um significado de ruptura com um
ceitos de soberania do Estado-nação e suge- modelo não mais satisfatório.
rindo a existência de uma nova ordem social. Em seguida, dirigimos nossa pretensão
Como, então, assimilar ou enfrentar pro- para um diagnóstico do Welfare State e o sig-
fundas alterações propostas (rectius, impos- nificado do Direito em tal contexto. As ra-
tas)? Como, por exemplo, aplicar critérios zões do colapso do Estado social constitu-
de justiça distributiva num novo cenário em objeto de preocupação deste estudo, in-
cada vez mais adverso à prevalência dos clusive como forma de demonstrar a “for-
direitos sociais? ça” que projetou o ideário neoliberal para o
Nossa pretensão, neste ensaio, consiste plano da realidade.
em proceder basicamente a uma análise crí- Tal força – apresentada por seus artífi-
tica desses aspectos, questionando verda- ces como a salvação do capitalismo – tem
des estabelecidas. Para tanto, imprescindí- sido responsável por profundas modifica-
vel se faz um olhar filosófico, ainda que bre- ções no terreno da democracia e da própria
ve, da realidade posta. Em face de seu cará- aplicação do Direito, em face das propostas
ter universal, o traço crítico-axiológico cons- de desregulação dos espaços públicos, com
titui elemento inarredável do conhecimento a diminuição da presença do Estado nos
filosófico (REALE, 1994, p. 48-49). A crítica diversos setores da atividade social.
filosófica possibilita a análise dos pressu- Tudo isso vem sendo cuidadosamente
postos do objeto do conhecimento, conso- engendrado com vistas a assegurar a liber-
ante critérios valorativos. Criticar, pois, nas dade de mercado e sua autoregulamenta-
palavras de REALE (p. 49), “é descer à raiz ção. O Estado minimiza-se e com ele ames-
condicionante do problema, para atingir o quinham-se os direitos sociais duramente
plano ou estrato do qual emana a explica- conquistados pelas sociedades modernas.
ção possível”. Como será adiante demonstrado, perce-
Tudo isso é evidentemente exercitável be-se um caráter “neofeudal” nessas novas
mediante uma escala de valores. Ao filoso- propostas de regulação que são apresenta-
far, valora-se. É da essência da Filosofia a das como algo perfeito e acabado, não ha-
valoração. vendo mais nada a fazer, senão aderir...

Brasília a. 40 n. 160 out./dez. 2003 193

de poder nas mãos do rei e de seus adeptos. em reito Natural. desenvolvimento da Escola Clássica do Di- mica do Estado-providência residiria. permitindo enxergar a certeza de que outros. vale partir da constatação de que o ar os espaços de debate. mas tão-só de ampli. soluções democráticas te conquista sócio-política do final do sécu- para as questões suscitadas.2.1. cia à onda neoliberal. cínio. 2. Afinal. conforme será visto a seguir. posiciona. tempo de limitar ao exaurido modelo do Estado liberal bur. não traduzindo com a necessá- apesar do manto ideológico que o encobre. a dinâ. curial é diagnosti. tada com a exaltação dos valores de igual- cindir de uma avaliação sobre as origens e dade e liberdade. na- car. Contudo. êxito da Revolução Russa de 1917. racterizava-se pela excessiva concentração Se no abalo do Estado de bem-estar pode. ras e no acirramento do confronto entre o vamento dos índices de miséria e desempre. Considerando-se esse quadro. das no período entre as duas grandes guer- notadamente no campo social. lo XVIII. O Estado liberal uma resposta pronta e definitiva à proble. buscando. depois. Não há. nas drásticas alterações processa- são deixados pelas políticas neoliberais. As regras jurídicas eram esparsas e rarefei- cio-política e das profundas e radicais alte. capitalismo e o socialismo. pressupunha Os questionamentos acerca do crepús. porém. acarretando a minimiza- os fundamentos do welfare state. de um Estado de Direito. Para tas. essa leitura seria sobremodo “nem tudo são flores” no neoliberalismo. crise global detectada na sociedade contem. a pretensão de apresentar 2. Estado-providência ou tralizadora. A ampli- em razão das mutações decorrentes do fe. tural que o alvorecer da antítese desse mo- do providenciário. não podem pres. aqui. com a ruptura das concepções ab- solutistas do poder até então reinantes e a 2. tas. Uma idéia inicial A afirmação de um Estado constitucio- nal. contras- nômeno da globalização. A passagem do Estado liberal ao correlata promoção intransigente dos ide- Estado de bem-estar ais de liberdade e igualdade – marcos da Revolução Francesa de 1789. De fato. tude dos espaços públicos era. ambiente propício ao recimento do welfare state. porém. o Estado absoluto ca- derrocada do socialismo real. se encontrar a origem da desintegração só. Há. revelam “furos” em suas propos. que firmou a base sobre a qual 194 Revista de Informação Legislativa . berano. O sentimento prevalecente naquele mo- porânea encontra-se fortemente conectada mento histórico justificava em certa medida com o esgotamento do Welfare State e com a esse pensar. assim. Era tempo de florescimento da Estado do bem-estar surgiu como oposição liberdade e da igualdade. mentos díspares sobre a evolução e amadu. ainda que de relance. pairando acima delas a vontade do so- rações no plano jurídico. para. reforçado pelo go p.ex. Desdobrando a primeira linha de racio- mática que se desvela. ria profundidade a idéia-força do Estado- Daí a última parte do trabalho dedicada ao providência. estabelecimento de estratégias de resistên. com o agra. Formava-se.. superficial. o Estado. as raízes do Esta. os insucessos residuais que síntese. a ção das funções do Estado3. representasse uma postura absolutista e cen- O Estado social. por meio Estado liberal representou a mais importan- de um olhar crítico. tempo de incentivar o individua- guês do século XIX. tia na limitação do poder político. com Pierre Rosanvallon. A palavra de ordem consis- Direito Positivo que se sucedeu a partir daí. abordar o delo primasse pela negação de tudo quanto seu apogeu e o seu declínio. pois. a negação de todo e qualquer exercício de culo do Estado-providência e da crise do poder absoluto. Para uns. lismo4.

as declarações de ca a divisão do mundo em duas forças anta- direitos. pitalista. em xeque o pensamento liberal. reconhecimento de novos direitos e. ção das declarações de direitos – a etapa p. e o bloco socialista. nesse passo. 2º da Declaração de 1948). lização ocidental. fundas reflexões críticas acerca da efetivi- tico em energias vivas dos homens vivos.”. os efeitos ses direitos. um primeiro passo fundamentais. samento liberal. como sabido. sável sua proteção por normas jurídicas. na qual Após a efêmera coalizão entre o capita- tais valores universais eram totalmente des. impôs ao capitalismo liberal a Direitos do Homem e do Cidadão. o que é gados pelo pensamento liberal. es. em dois campos ideológicos que (1992). tragédia que representou a segunda grande tre a previsão de um “estado de natureza” – guerra. 80). verificam-se os diante de exigências sociais cada vez mais traços característicos da universalidade e da crescentes. pondo Revolução Francesa – realçara. nessa linha. porquanto o saldo da Segun- na transposição do vazio entre a teorização da Guerra trouxe novas demandas sociais. necessidade de ampliar o rol dos direitos representa. a afirmação de da América. com passaram a defrontar-se. porém sidade de conter o estigma do comunismo. fraternidade do cidadão puramente polí. Apesar dessa efervescência teórica. A amplitude dos direitos consagrados via. Revolução Francesa não chegaram a realizar. destinado à satisfação de fins presentes. 2003 195 . Vale dizer. ha. passa a constituir a base de Essa contraposição de forças e a neces- um novo Estado. de fato. na primeira fase da evolução das “afir. Todavia. na Carta Universal pode ser justificada pela mações de direitos”. sendo indispen. da Segunda Guerra foram decisivos para o sultado da consagração dos valores alber. de uma nova postura do Estado frente aos DO. nas no plano formal. a ácida crítica culminante e sempre inacabada – é marca. Paulo BONAVIDES (1980. p. do de desigualdade de fato – econômicas. surgem como teorias filosóficas. nomeadamente a dos os povos e por todas as nações (cf.foi edificado o pensamento jurídico da civi. Faltou transformar a liberdade. no uma feição prospectiva. capitaneado pelos Estados Unidos Numa segunda etapa. Segundo aquele autor. de 1789. É nesse ambiente intermédio entre as se. de 1948. igualda. agora mais fortalecido com a derrota impos- acima e além dele próprio. mais importante. Nela. na análise de Norberto BOBBIO gônicas. encobrindo um mun- mens.. dos “direitos naturais” e a sua efetividade6. 1999. como ideal comum a ser alcançado por to- reitos fundamentais. 160 out. lismo e o comunismo. A Declaração dos ta a Hitler. “legislador”. duas grandes guerras que despontam pro- de. o nazifacismo7. podendo ser considerada o re. não mais absoluto. sendo recepcionada pelo do hegemonicamente pela URSS. para o desenvolvimento como registra Ernst BLOCH (apud AZEVE. destinada a derrotar pidos de eficácia. os princípios nela dade cunhada pelo liberalismo existia ape- insculpidos são dirigidos a todos os ho. um enorme vácuo en. com a reafirmação de di. da pela Declaração Universal dos Direitos em relação à excessiva retração do Estado do Homem. com suas radicais transformações segundo o qual todos os homens nascem sociais e econômicas. Se a Primeira Guerra já havia alertado A Declaração dos Direitos do Homem e para a ineficiência de direitos fundamen- do Cidadão de 1789 – ponto marcante da tais previstos apenas formalmente. Brasília a.. a igual- positivação. como um ideal a ser longo período da “guerra fria”: o bloco ca- construído 5. tornou-se nítida e inequívo- Nessa etapa inicial. “os anseios primaveris da mesmos8. representa- direitos do homem. 40 n./dez. dade do plexo de direitos emergente do pen- A terceira fase da formação e consolida. de Alfred VIERKANDT. igualdade e a liberdade. de qualquer Estado. art. formulada em 1921. 31) registra. livres e iguais – e a realidade fática.

Pode-se afirmar. nos moldes prevalecentes no mundo estavam convencidos de que só o interven- ocidental. O autor de O fim do laissez-faire (1926). p. dei- al. Não se pode deixar de mencionar. preconizado pelo modelo liberal. o papel do economista KEYNES (1999. cionismo econômico podia impedir um re- 196 Revista de Informação Legislativa . Com isso. cial intervencionista. A liberdade política pouco significava sem vel ameaça” aos princípios abrigados pelo a presença efetiva de meios destinados ao liberalismo clássico9. letárias da sociedade. dos pela postura negativista do Estado. Ao mesmo rais) era incapaz de assegurar a vida digna tempo. liberal. os “governos capitalistas cial. e as desi- viético consubstanciado no “socialismo gualdades sociais cada vez mais incisivas. pois.3. triunfo da Revolução Russa de 1917. lo socialista que se fortaleceu no pós-guer- lou o mundo no período que medeou as ra. pregava. o “velho liberalismo. tão-somente a liberdade de da. considerava ser possível tuando que a “experiência histórica mos. Estado no domínio econômico. desenvolvimento econômico. De fato. vão-se ção Russa de 1917 e com o fortalecimento tornando mais evidentes. robustecimento do pensamento socialista. acen. emprego. políticas e pessoais – e uma liberda. a crise econômica minar o leste europeu. 211). real” não se apresentaria como uma “terrí. em síntese. com o trabalho de Friedrich von te para a sobrevivência do capitalismo e Hayek a defender enfaticamente a liberda- para o alvorecer do Estado de bem-estar so. temia que a deterioração das o remodelamento do liberalismo e para re. p. com o na estreiteza de sua formulação habitual. de juros. como as- do pensamento socialista que passou a do. registra HOBSBAWM outra face. própria sorte diante da ‘neutra indiferença do Estado”. enquanto florescia o na superação do profundo abalo econômi. condições materiais de existência social conhecimento de novos direitos de caráter conduzisse a uma escalada rumo ao mode- social: a) a grave crise econômica que asso. O Estado comunista então reinante aprofundou os vazios deixa- revelava-se inabalável à depressão mundi. fator relevan. em 1929. notadamente após o se. não pôde resolver o problema essencial de vivo agora na experiência bem sucedida do ordem econômica das vastas camadas pro- sistema soviético. mais delineamentos de um modelo de Estado so- evidentes com o êxito dos ideais da Revolu. severado anteriormente. denunciando a arbitrária repartição da ren- afinal de contas. que dois elemen. ambiente propício nimo’ (que hoje quer-se ressuscitar como se ao consumo – requisitos essenciais para o fora a mais acabada das aquisições cultu. o restabelecimento de níveis satisfatórios de trou que a concepção liberal do ‘Estado mí. por Nesse quadro. Certamente. por meio de No mesmo sentido o comentário de Plau. assim. 2. dominado pela estrutura tos concorreram de forma entrelaçada para capitalista. a intervenção do morrer de fome”. O Estado social As deficiências do modelo liberal torna. e b) as sombras do VIDES (1980. Conforme destacado por Paulo BONA- duas grandes guerras. e por isso entrou irre- gundo grande confronto bélico. marcada pelo colapso da Bolsa de Nova xando transparente a contradição existente Iorque.sociais. buscava KEYNES instituir maior à maioria das pessoas (. de de oprimir os fracos. 82).. pensamento teórico basilar do modelo neo- co no período “entreguerras”. providenciário. os vam-se. seu exercício pleno. p. 176-177) que. dado relevante para a história. A partir da segunda guerra mundial. não fosse esse entre o valor da igualdade jurídico-formal. naquele momento histórico.) abandonadas à eqüidade social10. mediavelmente em crise”. uma política fiscal e da regulação das taxas to Faraco de AZEVEDO (1999. O Ocidente. criando. o regime so. “restando a estes.. de de mercado.

Nada disso o velho caminhar histórico do absolutismo ao mo- laissez faire poderia oferecer. o “Discurso sobre a necessidades individuais. delo de Estado de bem-estar social. ralismo econômico e democracia social.4. combate o volucionária da qual Robespierre nada mais desemprego. à área da iniciativa individual. uma espécie de conjunção entre libe. passando da diavelmente a uma perspectiva filosófica11. Nascido em Genebra. o Estado a sedimentação dos ideais materializados passou a ser intervencionista. do Estado social lo estatal que se desenhava eram o estabele. a filosofia não poderia deixar dade social mediante prestações positivas. fi. Outrora mínimo. pelo Welfare State. própria. coagido pela pres. à consecução dos ideais igualitários que lítico e econômico. dominação. con. de contribuir. da pre. p. redirecionando-se à tare. poderia desprezar. dá ao tra. A natureza do presente trabalho não A realização desses novos desígnios exi. Jean-Jacques Rousseau foi apon- vidência. Questionando todos os fenômenos de fa de integrar a igualdade jurídica à igual. em gran- O capitalismo do período pós-guerra de parte. 2. A linha de abordagem até aqui desen- cimento de uma política de pleno emprego e volvida levou em consideração apenas as- de efetivação de direitos sociais. enfrenta crises desigualdade”. Tem-se aí o desenho do Welfare teórica subjacente à escalada histórica rumo State: “Quando o Estado. mas sim na ampliação permearam o Estado-providência. balhador e ao burocrata a casa própria. que ROUSSEAU constrói o Brasília a. Surge. intervém na econo. no ano de 1712. 160 out. O pensamento de Rousseau político. assim. lebre Contrato social. classes na mais estreita dependência de seu soas radicalizadas a ponto de preferirem o poderio econômico. pectos sociais e econômicos conducentes ao vidência e a educação. tado por KANT como o “Newton da moral” mia como distribuidor. 2003 197 . trola as profissões. neutro. como antes tinham preferido suma. os direitos do trabalho. Estabeleceu-se. compra a produção.torno às catástrofes econômicas do entre. passan- pois. O substrato filosófico e ideológico As preocupações dominantes do mode. para o delineamento das vertentes to não consistia evidentemente na negação propiciadoras da superação de obstáculos dos avanços decorrentes do liberalismo po. Reestruturou-se o Estado. ao Estado de bem-estar social. confere. concede o crédito. 1980. rumo à cristalização Daí a necessidade de abordar aquela que das transformações sociais intensamente talvez seja a mais importante construção exigidas. culo XVIII. no Estado constitucional Considerado o maior pensador do sé- ou fora deste. estende sua influência a quase todos Hitler”. HEINE como a “cabeça re- pula a moeda. abstenção à ação. político e social. regula os preços. foi do que a mão executora”. o que nos conduz irreme- rio. protege os enfermos. provê nos importante escrito. providenciá. por evidente. em comunismo. coloca na sociedade todas as guerras e evitar os perigos políticos de pes. o exame gia profundas modificações na postura do das matrizes ideológicas que viabilizaram Estado. como a pre./dez. dita o salário. daquelas conquistas. um modelo reconhe. modificou-se radicalmente e com ele o com. os domínios que dantes pertenciam. econômicas. cedor da importância da classe trabalhado- ra e das aspirações social-democratas. Mas é noutro não me- institui comissões de abastecimento. 208).4. (BONAVIDES. são das massas. Rousseau imortalizou-se como autor do cé- nancia as exportações.1. nesse instante o Estado pode com justiça portamento do Estado frente às demandas receber a denominação de Estado social” sociais. e pelo poeta H. pelas reivindicações que a impaciência do quarto estado faz ao poder 2. do pelo liberalismo clássico. da educação. mani. com a visão crítica que lhe é Convém assinalar que tal comportamen. 40 n.

Por esta. liberdade singular. consistiria numa Não obstante esses contraditórios pon- ressocialização calcada no interesse co. uma construção doutrinária mais firme. composta por aque- dade nascem com a idéia da propriedade13. tico e. como já foi acentuado. a renúncia aos observa Cabral de MONCADA (1995. para conceber-se social sofre com interpretações díspares e uma nova proposta de inserção do indiví- 198 Revista de Informação Legislativa . afigura-se incontestável a A volonté générale – marco da sua passa. conservadoras e reacionárias”. identificando-se a vontade geral alcança a prevalência da vontade geral14. para volucionária suscitada pelo filósofo gene. de geral. de um todo de que faz parte. por seu turno. A desigualdade e a hostili. (MONCADA. troca a sem dúvida.mito do bom selvagem. Socializado e condi. sendo tomado por incontíveis meira. O indivíduo abre mão de sua do-o a um pensar coletivo e socializante. em vez de uma liberdade negativa. É por meio deste que se Ora. o pen- mem. abdicando do indivi- nada por ROUSSEAU – traduzir-se-ia na dualismo tão festejado pelo liberalismo clás- negação dos interesses privados e egoísti. tade geral. o pectiva otimista da realidade social propug. modo distinto destes. enriquecendo. p. Sob o prisma ideológico. les que associam a doutrina de Rousseau No Contrato social. bem como à sua ab. 235) e estando o exer- levando ao esvaziamento do indivíduo e da cício da liberdade vinculado à prevalência sua individualidade. de integração e colaboração dentro Para tanto. em seu estado natural. superáveis. 188): a pri- embrutece. e a terceira. Como tade geral pressupunha. p. política. excessiva individualidade preconizada É nesse ponto que a teoria do contrato pelo pensamento liberal. de exclusão e oposição contra o Estado. 234). na precisa síntese cionado às injunções culturais. sico. para inserir-se num todo. com a “vontade soberana do Estado” A vontade geral é encarnada no Estado. da proposta de um novo pacto sua liberdade natural por uma liberdade social. que ensão do homem presente e suas opressões”12. a três correntes básicas. em que deve prevalecer a igualdade. a proposta re. po- tisfação do interesse comum. mas de mem nasce livre e por toda a parte se encon. no mundo primitivo tudo em sua doutrina. no qual uma inédita e revolucioná. percebem a admirá- tra agrilhoado. vel linha de unidade a que se prestam. integração política. em prol da consecu. percebe-se a negação à idéia da sorção pelo corpo social. integra-se num todo. interesses individuais. de onde se parte para o A expressão “estado natural” constitui Estado totalitário das modernas variantes uma “categoria teórica que facilita a compre. que vê na vontade geral “a idéia de vícios. tanto quanto os primeiros. mas sim contradições in- pertencia a todos. para vincular-se à vontade de todos ou cos do homem. com base na vonta. não percebe coerência nem unidade lógica Em ROUSSEAU. da maioria. mesmo Estado”. Qual. p. as- dade condicionada à felicidade geral. 1995. daquela. tável pelo Estado. sitiva. tos de vista acerca do pensamento do filóso- mum. fo genebrino. redimindo-o e reconduzin. por meio deste processo “o indivíduo ção dos interesses da coletividade. pois. imprescindível seria o alinha. Trata-se. o homem de Paulo BONAVIDES (1980. pitais do pensador”. a outra. segundo o qual o ho. é bom e despido samento rousseauniano pode ser reduzido de instintos violentos. importância da construção teórica da von- gem de uma visão pessimista para uma pers. A von. indivíduo aliena-se. exerci. Esta. com a formação de um corpo moral. então. sem deixar restos. conflitantes. “à evolução do moderno pensamento polí- 9) principia com a advertência de que o ho. ria visão de liberdade se apresenta: a liber. ROUSSEAU (1999. à sa. sume robustecida uma liberdade nova. p. e que é esse mento a uma “consciência pública”. os brino? A reconstrução – responde-se – de princípios políticos versados nas obras ca- um novo modelo social.

Estados de poder concentrado”. A partir dos contornos acima definidos. previdência e de Estado em que as liberdades políticas assistência social. pois não basta.. promovendo e realizando direitos. além de uma visão individualista. feição mais democrática e social. 2003 199 . luiu de seu modelo liberal-burguês para uma zação da liberdade política15. Com a proclamação de novos direitos ve de “conteúdo e base ao novo Estado soci. as desigualdades existentes16. ou seja. modelo do Estado Social. o conceito jusprivatístico de uma li. pela dissolução dos te o acesso à democracia social. na qual VIDES. p. Vislumbra-se nesse encadeamento de pode-se afirmar que o direito no Estado de idéias. na medida do A vontade geral constitui a essência da possível.duo no meio social. no com a possibilidade de coexistência harmô. cer de uma democracia representativa. porcionalidade os direitos e deveres entre dades exercitadas pelo “homem civil”. para muito além do li. caracterizada pelo conjunto das liber. eliminando. principalmente a partir ROUSSEAU. Substitui-se. não uma proposta totalitária de Es. pelo consentimento geral.] no particular. nária das democracias ocidentais”. democracia social. servação da liberdade”. novos direitos não encontrariam terre- Tudo isso está. 1980. Daí a conclusão Como destaca Norberto BOBBIO (1992. não bastavam apenas os cha- Não havendo liberdade sem Estado. segurança e proprie- Enfatizando a proposta democrática. uma concepção ção pública. preocupando-se nitidamente com a sociais. A vontade geral ser. “a luta pela afirmação dos direitos do 201-202). um Estado forte. homem no interior de cada Estado foi acom- la precursoramente o fim da metafísica in. a concepção de Direito sofreu sensível rousseauniano revela a gênese dos ideais variação.). mas sobretu. bem-estar ou Estado-providência tem a fun- tado. assumiu o Estado uma inédita missão. dos no âmbito do Estado liberal. p. não mais se caracterizando ape- embalados pelo Estado social. de liberdade. os indivíduos. ais. presentativos. o Direito no filosofia de Rousseau libera o caminho para Estado social assumiu uma postura presta- a realização de profundas transformações cional.. fundamentais. senão des” contra o Estado. e mados “direitos de liberdade”. o Estado evo- do um Estado no qual seja possível a reali. Nada disso seria possível sem o alvore- berdade contra o Estado pelo conceito jus. 160 out. isso. sem dúvida. nhecer um conteúdo positivo aos direitos como bem destaca MONCADA (1995. mas sim um reencontro do indivíduo ção primacial de realizar a justiça social. denominados direitos soci- al por que há de reger-se a evolução doutri. na raiz do no propício a um regular desenvolvimento. valores de liberdade. para muito no geral.5. pois. é social e não individual” (BONA. O Direito no Estado-providência seus direitos é interdependente dos demais membros da coletividade. veram-se. com bases populares representadas realização efetiva do homem-cidadão17. panhada pela instauração dos regimes re- dividualista da burguesia e cria tecnicamen. De fato. sentido de distribuir com equilíbrio e pro- nica./dez. p. meio ambiente sadio etc. 41). des- publicístico de uma liberdade política só concentrando-se o exercício do poder. 245). Sem possível dentro do Estado. com a pre. saúde pública. em prol Brasília a. porquanto o nas como veículo instituidor de “liberda- “homem não existe [. 189). p. constituem o combustível indispensável à ao mesmo tempo em que se procurou reco- promoção do bem comum. 40 n. segundo a qual Rosseau “assina. Desenvol- ROUSSEAU propõe. a dade deveriam preponderar. os direitos sociais (educa- beralismo individualista. o pensamento so. Para tanto. para Já foi dito que. no qual o exercício de 2. já assegura- inexistindo Estado sem “adesão geral”. Nesse pas- Sob essa perspectiva. da segunda grande guerra. esposada por Paulo BONAVIDES (1980.

em arremate. A eficácia dos novos direitos fundamen- nais”. O colapso do Welfare State tem merecido gualdades tornou inevitável a tarefa come. E não poderia ser de três explicações possíveis. tida ao Estado. a crescente exigência de derrocada? prestações tendentes à superação de desi. visto que exigiam a realização de pres. reflexos na realização dos direitos de mediante o Estado. Vale dizer. solidação de direitos políticos. e o des. impunha-se. não é apenas a Essa compatibilização dos direitos fun. do Estado social. plementação de políticas públicas condu- tais que. um Estado de Direito cuja pre- fazia suficiente a liberdade contra o Estado ocupação básica era a realização de justiça ou em relação ao Estado. das liberdades fundamentais. forme Pierre ROSANVALLON (p. Há uma “crise de repre- vou em conta as sensíveis transformações sentações do futuro”. econômi. como visto. pois. “nin- pontar de novas exigências sociais. A igualdade passou a não va19. no exercício das liberda. apresenta ROSANVALLON papel intervencionista. revelando seu forte Nesse passo. na busca das igualizações pre. de igual sorte. um perfil ativo do Estado. a liberda. contrabalancean. sociais. maior pres- a ampliação dos espaços para o real gozo tação de serviços públicos. agora. guém fala dos progressos sociais do futuro. a par disso. resultado de uma es- econômicas. importante reflexão sobre os possíveis fato- do interesses que eventualmente pudessem res conducentes à chamada “crise do Esta- entrar em rota de colisão. na prática. mais ser considerada como um valor impres- Pode-se asseverar. de argutos analistas diversas avaliações. tações positivas do Estado. tais direitos fundamentais foram denominados “direitos prestacio. terá contribuído para sua Por outro lado. com vistas a assegurar condições de meira fase da evolução dos direitos do ho. de centes demandas sociais. culturais) cujo leque se amplia. para o atendimento das novas e cres- giu. consistente na moderada Colhe-se em Pierre ROSANVALLON (1997) mitigação de liberdades. social. Não mais se neou-se. dade.do bem-estar dos indivíduos. no dizer de BOBBIO. centes à promoção dos direitos a prestações expressa o “amadurecimento de novas exi. Por isso. uma ação concreta e incisiva do zação de novos valores de cidadania18. diagnosticado como hipertrofia liberdade. extensão do Estado ou o peso das despesas damentais. existência com padrões mínimos de digni- mem. gências” constitui marca indelével do Esta. 33). A crise do Welfare State e seus des no Estado. Essa postura representa. acarretou eviden- moldo a alcançar a igualdade material e a temente o aumento de gastos públicos. portanto. em prol da reali. caracterizou. Segundo o autor. 2. revelando um firme propósito de papel intervencionista do Estado na ativi- eliminação de desigualdades materiais. exige-se do Estado a im- Esse novo estágio dos direitos fundamen. desejo de diferença. o Es. sociais que está em causa. Tal adequada harmonização com os direitos de fenômeno. Estado. em face da heterogeneidade dos justificativa residiria no surgimento da dú- direitos fundamentais (políticos. p. expressa. Con- após a Segunda Guerra Mundial. com dade econômica e.6. do social”. Uma primeira outro modo. vida quanto à idéia da igualdade como fi- cos. no dizer de BOBBIO (1992. mas. Deli. tais. tais sociais de caráter prestacional requer. Todavia. as relações entre este e a sociedade. Superando a segunda etapa de con. sociais materiais. nalidade social. 28). que a cindível numa sociedade motivada pelo positivação do Direito no Estado social le. o incremento dos serviços esta- A concretização dos direitos sociais exi. tado providenciário. um do social. sobretudo. tendidas. que marcou a pri. verificadas primordialmente pécie de avaria no imaginário social. 200 Revista de Informação Legislativa .

denominado “regime fordista”22. Fulcrada na combinação de eficácia Não sendo este o objeto do presente tra- econômica. dimensão político-cultural caracterizada tui a ação isolada dos indivíduos por um com. globalizante. 2003 201 . Segundo o autor. é oportuno registrar que a decadência mento da política keynesiana provocado pela do Estado-providência implicou a descone- crise econômica e sua impotência para redu. rada nas duas últimas décadas no fenôme- pias concretas”. comprometendo. concebidos para lavras de ROSANVALLON (p. alimentando-se dela e ca e sobretudo os mecanismos de expressão reproduzindo-a de modo alargado. 40 n. vinculando a democracia – confinada. soal e solidária) e a cidadania (atomizante e o incremento dessas interfaces coincide com estatizante).” da solidariedade automática estão cada vez Nesse ponto. a equa. ca23. porém. “a cidadania o aumento da retração social. relaciona o definhamento do Es. impõe-se apenas ressaltar que. bem como a efetividade dos direi- social. siana. a fim de que progresso social e eficácia tos fundamentais. solidariedade vigente. consistente na crise de soli- tariam os custos do encargo desses serviços dariedade. 42) o questiona.ninguém formula os objetivos de uma nova tado-providência com a transformação ope- etapa. Destaca. balho. providenciário. da de- do-providência necessário à redistribuição mocracia. xão daquela com as aspirações sociais bási- zir o desemprego. Distante das relações sociais re- em nível mais descentralizado”. “a interface estatal tornou-se muito opa. a su) – a interesses corporativos de cunho seu turno. justiça social e liberdade. o pensamento de Boaven- mais isolados das formas de sociabilidade tura Sousa Santos coincide com a opinião intermediárias [daí resultando] um custo cada de Pierre ROSANVALLON (p. Tal crise possui. 37). maram a solidariedade social numa presta- zação de solidariedade criada pelo Estado ção abstracta de serviços burocráticos bene- social./dez. de facto. o próprio sentido da cidadania. noutro pas- mica econômica. No que toca à representação democráti- Pierre ROSANVALLON (p. realizando verdadeiro emba- cia estaria na modificação da equação keyne. A crise é primacialmente social como estruturante interno da dinâ. dar resposta à crescente atomização da vida dade. a crise em tela resulta do sendo ameaçadas” 20. ainda na ótica de Boa- buição e de organização de solidariedade. ninguém se arrisca a descrever uto. na atuali. ao estrito espaço político (stricto sen- Boaventura de Sousa SANTOS (1996). a rede de solidariedade que esse Estado Finalmente. Contudo. agora. KEYNES considera o Esta. quando vez mais elevado dos serviços sociais do Es. Para o cientista perspectiva de manter conquistas que estão social lusitano. não se colapso econômico entre as duas grandes deve perder de vista que tal crise não atinge guerras mundiais. por um confronto entre a subjetividade (pes- portamento prestacional positivo. ventura de Sousa SANTOS (p. tornando-a opaca e abstrata. Nas pa. da sociedade. ais. social e o seu Estado-providência transfor- ciais distanciam-se cada vez mais da organi. 249). substi. na condição de agente central de redistri. inde- ção de John Maynard KEYNES foi decisiva pendentemente dos reais fatores que propul- para a sobrevivência do capitalismo após o sionaram o colapso do Welfare State. social mas. uma terceira explicação providenciário promove acha-se cada vez plausível para a crise do Estado-providên. 160 out. Enxergando o elemento somente o Estado. mas o que prevalece “é a no da cidadania social 21. Brasília a. no seio do Estado-providência. econômica caminhem juntos. mais abstrata. uma atuando como uma grande interface. As relações so. O Estado-providên. 33). ralhamento daquelas. volentemente repressivos. cia. este assinala o abalo intelectual do Estado tado-providência em relação ao que represen. so. próprio esgotamento do regime de acumu- Outra explicação consistiria na crise de lação consolidado no período pós-guerra. gerando fissura profunda cas.

pensamento neoliberal. enquanto os pilares do “indiferentismo” e. Karl Popper. não produziram. ou seja. ológico-político das mudanças efetivadas mocratização da sociedade a que se refe. nas relações entre Estado e sociedade. Segunda Grande Guerra. nasceu como reação teórica à ascensão do antes. impacto no campo da realização entre outros fatores. Enquanto doutrina. O neoliberalismo constitui o suporte ide- gem da democratização do Estado à de. p. 3. mitigando as desigualdades sócio-eco. porém. capaz de conduzir a uma “moder- zação do Estado. profunda instabili- sadas no cenário mundial. Perry ANDERSON nômicas. mocracia não é aferido em face do núme. embaladas pelo dade do modelo econômico. pitalismo associado às políticas providen- ção econômica. a multicitada crise do mo sintonizavam seu discurso. a partir de 1973. modelo de Estado de bem-estar logo após a as nas quais ela é exercida. dos direitos fundamentais cracia política (aqui entendida como o ato de votar) para a democracia social. do Estado não conduz diretamente ao au. Pode-se inferir daí que a retração (1995) registra que os “avisos neoliberais”. O desenvolvimento da de. Milton mento de liberdade. a partir da quantidade de instânci. Verificou-se no mundo capitalista uma sen- cais transformações no cenário do Direito e sível desaceleração das taxas de crescimen- da justiça. A ideologia neoliberal e a ampliação do processo de democratização globalização econômica: o em determinada sociedade pode decorrer. inflação. Seu texto-mãe é Acontece. creditado a Friedrich HAYEK (1990?). A crise de solidariedade que marcou quer limitações impostas à economia de o declínio do Estado-providência revela-se mercado. A redução do Estado – traço ciárias florescia. ídos na Europa. en- da cidadania. A onda neoliberal vel nos diversos espaços sociais (família. os teóricos do neoliberalis- Por outro lado. De fato. exercitá. na época. de- do de bem estar social implicou o enfraque. Lionel Robbins. num período em que o ca- das distorções do fenômeno da globaliza. o fenômeno do Estado-providência estavam sendo constru- conformismo das massas. tre outros. atingindo seu apogeu na fundamental da crise antes descrita – guar. do Estado social. do neoliberalismo. to econômico aliada à elevação das taxas de cos seguintes. Sobreveio. da migração da demo. mo que então preponderavam nos alicerces ções positivas. promover a igualdade mate. mas. que o colapso do Esta. Convém melhor explicitar esse ponto. Trata-se da passa.). o im- Tudo isso constitui reflexo inescondível pacto desejável. manifestan- Estado social compromete sensivelmente a do firme oposição àquilo que consideravam efetividade dos direitos fundamentais. Realizando um balanço rial. o neoliberalismo ro de pessoas com direito a voto. mediante presta. são questionadas de forma veemente quais- tiva24. menos Estado significa reduzir A doutrina neoliberal era de todo incom- a sua atividade prestacional.1. nominado O Caminho da servidão. por parte do Estado. na servidão”. contudo. chamada “era de ouro”25. com ele. 55-56). Norberto BOBBIO resposta à crise econômica que começou a (1997. da íntima relação com as alterações proces. A esse tema dedicaremos os tópi. provocando radi. também pela apatia política. em uma letal ameaça à liberdade econômica e razão da crescente desregulação e minimi. empresa etc. ser desenhada a partir dos anos setenta. com propriedade. Os reflexos sociais seriam inevitá- 202 Revista de Informação Legislativa . escola. tampouco à plenitude Friedman. em re. dos quais eram articulistas Hayek. no qual cimento da própria democracia representa. A 3. sua patível com o keynesianismo e o solidaris- potencial capacidade de. acirrando o Curiosamente. política.

do estado mí- que. com Khol. em 1979. da economia de mercado.2. 114). tor- Inglaterra. o sopro neoliberal força. to neoliberal assenta-se na despolitização beral. pro. impostas pela democracia” (PRZEWOR- nutenção dos benefícios sociais. como da. A hegemonia neolibe. o pro. A redescoberta do liberalismo – para espraiando-se por quase todos os países do usar a expressão do filósofo italiano – pro- norte da Europa ocidental. a sociedade assistiu ricos os índices de pobreza e miséria avan. com surpreendente (1989) e no Brasil. do Estado aos mínimos termos consiste em pois do “balão de ensaio” chileno. 1997. Se. Na América La. no Peru (1990). terreno propício à im. impôs-se no México (1988). Aqui. como teoria econômica. em razão dos do” 27. com o Governo Thatcher. como se diz hoje. com político nos negócios econômicos. ante o alto custo da ma. reduzido ao mínimo necessá- (1995. Em cia das decisões de mercado conduz inelu- plena crise capitalista. 40 n. Apesar disso. da Europa Oriental. mar. no redirecionamento da de- cado pela derrocada do modelo comunista mocracia. de um lado. com o surgimento de uma “nova ordem tação social nos países capitalistas ricos.veis. A era de ouro anunciava seu crepús. e como conseqü. passivamente ao gradativo triunfo neolibe- çavam em proporções alarmantes. O objetivo básico da política neoliberal é ses e em diversos outros Estados tornavam. foi o colapso do “socialismo real”. “libertar a acumulação de todas as cadeias se mais sensíveis. das relações sociais e na limitação ou. então. pois uma eficiente forma de diminuição de bens públicos”. como teoria polí- trar que a experiência neoliberal pioneira se tica. redistribuição entre as duas vertentes do pensamento libe- de renda em favor dos ricos. tina. sistência às exigências do capital privado. com a apre. “empecilho” da democracia fundos reflexos da crise. acirrava-se o debate tavelmente a um minimalismo estatal. 160 out. sem dúvi. Ronald Reagan. p. é fautor do estado que governe o menos deu no Chile. A necessidade de assegurar a prevalên- plementação do pensamento neoliberal. Governo Fernando Collor. a prevalência da força Brasília a. Enquanto nos chamados países perifé. vale regis. retirar dele o domínio da arena em que se grama neoliberal se instalava. nas palavras de Perry ANDERSON nimo (isto é. miséria. repressão sindical. Em síntese ligeira. Austrália e consiste em “menos Estado e mais merca- Canadá. 63). fautor Num breve resgaste histórico. SKI28 apud ARRUDA JÚNIOR. Surgia. mundial”. dessarte. nos diversos quadrantes. p. 19). enfim. no campo político o proje- as idéias preconizadas pela doutrina neoli. foi sentido com maior nitidez a partir do culo. maneira dura: desregulação. a inquie. A se. Quase uma década de. desemprego Não há dúvida quanto à íntima relação massivo. na desenvolvem as relações econômicas. O projeto neoliberal e o ência dessa “malha” que absorvia os pro. de entre keynesianos e neoliberais. beralismo é. durante a ditadura Pinochet. Como anota BOBBIO (1997. “sólidos” sistemas de seguridade social ali existentes. possível ou. querem alguns. na Alemanha. 2003 203 . nando excepcional a intervenção do poder guir. o neoliberalis- A história registra que paulatinamente mo prega a desregulação e o não-interven- ganharam corpo. p. o “li- ral se impunha. Fator de grande impulso. cuja expressão de ordem basilar tais como os Estados Unidos. Desemprego em massa. 3. na Venezuela vieram à tona. ciliáveis entre si26. avançou nos Estados Unidos. clama. era menos perceptível. na Argen- fundas desigualdades sócio-econômicas tina (1989). modo a desarticular qualquer forma de re- sentação de modelos absolutamente incon. privatização ral. “começou seus programas de rio)”. no campo econômico./dez. as economias nes. cionismo estatal. ral.

como condição para o comprometimen. Não há como dissociar o fortaleci- na forma reivindicada. a conquista de cracia. a “conexão do princípio Mas como observa argutamente Norber- da igualdade com o ideal de participação. uma espécie de “mer- nacional. a qual é posta em implacável fogo governabilidade ou da ingovernabilidade cruzado: da direita (neoliberal) e da esquer. que a “participação na do corresponde o interesse do político eleito formação da vontade estatal deve ser aper. político. por que a democracia se to hegemônico do neoliberalismo. mocracia interna das organizações e das dade. Segundo o autor. pois. senão descartado. já que foram os regimes democráti- direitos sociais está intimamente conectada cos que propiciaram a formulação de novas com a maior possibilidade de participação exigências. para além disso. ou a ser eleito de concedê-los. te poder social. com apoio do cidadão eleitor de obter favores do Esta- em García PELAYO. de dedo em riste. intensidade almejada pelo Estado. lan- postos pelos adeptos do novo liberalismo? ça-se. cada vez mais a considerar. qual seja a ingovernabilida. com sua sub. uma democracia econômica e uma demo- pósito de rechaçar a social-democracia – cracia empresarial. observa a autora. García PELAYO. to BOBBIO (1997. assim. responsável pela produção do Estado de Esse é precisamente o núcleo da crise de bem-estar. Assim. essa relação não no contexto da idéia da autodeterminação. constitui quintessência da trole operário. cado político”. assim. ao interesse crático”. Estado assistencial atingiu seu ponto extre- do. a falácia da máxima e irrestrita liber. imputa à democracia a cindir da consideração de um outro aspecto pecha de entrave a ser. Há. 35). com características específicas de Há no projeto neoliberal um nítido pro. ainda. governante. p. por sua vez. leva inclusive a assumir a necessidade de ou melhor. no qual. uma incontível fera pública ativa. O proje- Mas. democracia de massa. O sistema gerou expectativas da (comunismo. hegemonia ideológica do neoliberalismo o Dessa maneira. mas. sistêmica 30. mento deste do desenvolvimento da demo- No Estado-providência. as quais. um outro importante aspecto de dos Estados assistenciais. a exemplo do mer- 204 Revista de Informação Legislativa . Instalou-se. do liberalismo. 123). ma sua inclinação à adoção da democracia rania nacional. p. com força total e implacável e.de mercado contra as peias do Estado e. através de métodos como o con- Além disso. A democracia nos moldes praticados no cipação são asseguradas pelo próprio Esta. prepondera a noção de que enfraquecimento do Estado. tando-se desse momento de debilidade. pela gama de exigências sociais im- Cunill GRAU (1998. empresas. levaram à dos indivíduos. consoante o modelo que que não mais podem ser respondidas com a predominou na antiga União Soviética)29. reafir- seqüente fragilização do conceito de sobe. social. feiçoada por uma participação no produto Instala-se. cracia política. numa revelação de seu for. de certa Na análise da cientista política Nuria forma. A resposta a essa pergunta não pode pres. aprovei- apresenta como um empeço aos ideais pro. afinal. formação de novos direitos sociais. o Estado social pressupõe sempre a demo- missão a interesses transnacionais e a con. das camadas sociais para a elite ampliar a própria esfera do exercício demo. de ções sociais e com uma participação na de- outro. se estabelece apenas de “baixo para cima”. mo ao não estabelecer limites ao mercado to da ordem política com a idéia de uma es. com apoio em postas ao Estado. A democracia foi o veículo con- pressionados por demandas sociais e sem ducente ao delineamento do Estado assis- lastro financeiro suficiente para atendê-las tencial. através de um sistema de presta. a co-gestão e a autogestão”. responsável. enfaticamente apontado pela nova versão pelo menos redimensionado. As oportunidades de parti.

o mercado32. renegando o espaço da cidadania. que./dez. fosse apresentado um ção política. da democracia a um aspecto puramente pro- te neoliberal. é pulares. antes de mais nada. tampou. na necessidade não apenas de estabelecer do forte (no sentido providencial). eliminar os cami. cisões para a sociedade não quer nem Esta. nismos sociais. definitivamente. esvazia-se. reveladora de sua e melhor. eixo central decisório para o espaço da pro- ta. das por demandas de cunho social. atende às expectativas da cliente. mocracia como ‘método ou procedimento’ po em que desarticula e despolitiza as rela. por considerá-la incompatí- mental romper com o modelo democrático vel com sua proposta básica de deslocar o vigente no Welfare state. Convém da participação social e a concepção da de- mascarar. prevalece aquele que mais. imu. Mas de popular” (expressada por meio do sufrá- eliminá-la. sem a potencialidade de criar e/ou fortale- car”. controles ao governo. e instaurar Esta. ta reformulação do modelo de democracia Na ótica do novo liberalismo. gia neoliberal de reduzir a democracia a um zada e de uma cidadania entorpecida. por extensão. Prioritária. se. a ‘administração’ da participa- junto com aquelas. que. tornando a democracia vazia de significa- rar? Eis aí uma das facetas mais perversas do social. É. dução. o neoliberalismo exalta a liber. a democracia prestar-se-ia apenas a restauração dos fundamentos não políti. ao parte de sociedades mais desenvolvidas. Desativando as demandas po- não constitui prioridade. ao mesmo tem. força de manipulação. a ‘funcionalização tecnificação’ discurso explicitamente totalitário. portanto. firme o propósito da ideolo- ne aos influxos de uma sociedade neutrali. sobretudo. convertem-se nas expressões concretas da ções sociais. Para tanto. a preservação da democracia cedimental. parece fundamentar o soluto33. na visão do “novo liberalismo”. Ademais. deslocamento das decisões em direção a ela. valorização particular da instância social dade como princípio moral intangível e ab. Com tal coloração. desestruturar as organizações cer uma autonomia decisória nas instânci- para propiciar a “espontaneidade” de uma as políticas. mas. é funda. pois. o novo papel reserva. Importa “desmassifi. Quer sativar as demandas populares”. cada sistema de regras do jogo alheio aos antago- vez mais tíbia e indiferente. contrário]. lar demandas populares. readequação da democracia. 2003 205 . então. Importa resguardar as do a legitimar a administração do Estado. então. 40-41). p. do fenômeno neoliberal. feitamente à idéia de Estado ínfimo. sim. causa. a democracia revelar- Daí a necessidade de conter a democra. la. do à democracia dentro desse cenário? Se Essa concepção minimalista atende per- esta – a democracia – não mais deve articu. uma “asfixia” da liberdade econômica.cado econômico. res que devem inspirar a dinâmica social. o que dela espe. se-ia impotente para transformar a “vonta- cia. haveria insuperáveis algo que fundamenta a ampliação do espa- resistências às propostas neoliberais. vez que. outra instância social. pois isso represen. na verten. simplesmente. 160 out. gio) em poder substantivo. representativa. mediante a oferta de maiores e melhores Pretende o neoliberalismo uma comple- “vantagens” 31 . apenas mercado aberto e robustecido. 40 n. ou seja. “o dis- interminável contradição com a “liberdade” curso a favor da redução do papel das insti- que o neoliberalismo pretende assegurar no tuições públicas estatais não se torna em mercado. o método destina- cos da sociedade. também. O deslocamento do centro das de. Essa requalificação pressupõe a redução Isso significa. a definir o procedimento. de de- co sociedade politicamente articulada. dissociado dos fins e valo- Qual será. Como observa dos totalitários poderia representar uma Nuria Cunill GRAU (1998. A nhos para a “saturação” do Estado e para a nova realidade desenhada exige. a ins- Brasília a. decisões de mercado. por ço político a favor da sociedade [mas.

em certo to neoliberal: deplorar tudo o que possa ad- sentido. Y qué decir del estado torturador: qui- “Estado fraco”. ao mesmo tempo. o al que controla el comercio verdadeira face do neoliberalismo ambulante – ‘competencia desleal’. gestão. perdulário. mas apenas alarga o campo da auto- sulsa. numa cínica e deturpada exaltação do e mais sociedade civil. capaz de permitir a mobilida. mo preocuparse por los derechos huma- tado mínimo. contaminado tar e. cuyas asociaciones dicen que- diante da viva expressão política do neoli.3. 1995. Adverte. sob o man- O minimalismo estatal é. Trata-se. do capital. ou. disfrutar de la propiedad que compran con tado forte. nos – como no sea el de los empresarios a de do mercado. na qual o Estado não regula nem li- colectivo y reproducir esta ideologia in. Óscar CORRE. aos controles dade civil”) (cf. pois. 5). Isso se evidencia com maior 206 Revista de Informação Legislativa . én há oído a un campeón del neoliberalis- A vertente neoliberal propugna um Es. ao propor menos Esta. Fica-se. e. abrindo o espaço ao cisiva: surgimento das milícias privadas. e. O Direito no projeto neoliberal conseguirián niveles mínimos de repro. gulatória do Estado e criar alternativas de al cual no han propuesto achicar el estado auto-regulação social que prescindam do comandado por los jerarcas del capital – o intervencionismo estatal. sociedade civil reflete de forma significati- Ni del que compra armamento inútil. nesse sentido. ineficiente. O desprezo pelo Estado: a res de tierra. rar e a fazer respeitar a “espontaneidade” Há. De ese dida redefinição de perfil do Estado e da estado no dicen que debe haber ‘menos’. briante cortina de fumaça destinada a ocul. uma faceta mais perversa na das regras de mercado. p. uma ine. como va no Direito. 4-5) que. “Lo que pasa es que el estado. do “privado” (“menos Estado. invertidas en empresas. fico. porque sin ese esta. no 3. el fruto de ‘la propiedad privada’?” (p. blico”. rança dos cidadãos. principalmente. notadamente em sua expres- no sea para la represión de los propios são positiva. Não há dúvida de que toda essa preten- ducción ampliada de su capital.4. mais socie- ral refere-se. ao desmantelo da edu- o fato de se haver conseguido introduzir no cação pública. por exemplo. às empresas pri. Promove-se. o que é pior. E o mais chocante – continua ele – é duzido. no segundo. o vota en la ONU a favor BORON. Ni del que prohíbe comer- beralismo – o “neoconservadorismo” (cf. es. vir do Estado como algo inútil. que le O Estado mínimo preconizado pelo novo dicen a esa forma de desempleo encubier- liberalismo não significa necessariamente to.tância político-governamental. 78). p. ciudadanos. del hambre de lons niños irakies. precisamente. de corrupção emanada de uma grande ma- versários. uma falácia. p. uma lógica de fragmentação do do no podrían estupidizar el imaginario poder. 1995. nes- por sus empleados –. O al estado casado con el narcotrá. entreter possíveis ad. no primeiro caso. à crescente privatização dos imaginário jurídico e social “la idea que el serviços de saúde e à descrença galopante neoliberalismo está contra del estado y a na capacidade do Estado de prover a segu- favor de la ciudádanía. pois. de desqualificar o “pú- AS (1996. sin cuyas ganancias. no sentido de ser apto a assegu. rer que crezcan. o projeto neolibe. mita. objetivo de desprestigiar a capacidade re- el estado del que los liberais no dicen nada. 78). um Es. del cual Tudo isso possui o nítido e insofismável la izquierda es enemiga. em síntese. se sentido. ciar con Cuba. um engodo. ainda. lha de funcionários “ociosos e ímprobos”. É esse discurso repulsivo que tem con- vadas. no en el bienestar de nadie. Ni tam- poco del estado que reprime a los invaso- 3.” Daí sua crítica in. proposição do “Estado mínimo”. BORÓN. chegando a níveis transnacionais.

1999. e arbitragem). apta a superar a permanente tensão entre no projeto neoliberal. a preocupação desse Direito “reflexivo” do liberal. sem coerção ou intervenção contro. ao centrismo: engrenagem essa em condições passo que no Estado-providência as tensões de forjar uma racionalidade jurídica nova e estabelecem-se entre classes. “autodeterminação do mercado”.nitidez a partir da perspectiva de que os canismos de proteção de indivíduos ou clas- modelos de tensão social e política no Esta. em síntese.g./dez. va adequada a esse cenário de fragmenta- Com efeito. promovido pelo projeto neoliberal é apre- Brasília a. nha-se em promover relações sociais menos desiguais. é “desenvolver uma engrenagem normati- tado neoliberal são diferenciados. no Estado liberal. nhado em “autonomizar” as relações de põe nem sanciona. debilmente sancionadora e pro- rança jurídica”. síduos lastimáveis no campo da realização ação e de auto-regulação34. enquanto pro. os conflitos instalam. o projeto neoliberal apresenta re- incentiva a formação de espaços de negoci. bem como liberal é. os confli. 3.5. à efetividade de planos econômicos impos- ção de conflitos. ponha-se a serviço da re. ideologia neoliberal –. numa “sociedade de ma uma estrutura jurídica fragmentada e indivíduos” que. o Direito empenha-se denciário ou social” (FARIA. dania” e inserida no “espaço da produção”. Já as políticas neoliberais nas relações sociais sugerem um Direito “reflexivo”. policêntrica. social e. o Direito empe. atuando positivamente (a redun. fruto de conquistas sociais. assume uma feição de instrumento dutibilidade de salários. em regular basicamente as exigências de li. p. O projeto neoliberal. prevalecendo no ideário nômeno. preponderante no Estado de bem-estar ções modernas. negociação cidadãos. passam entre as organizações responsáveis pelo re. tensões. légios odiosos e sérios entraves à desejável A tarefa posta ao Direito no projeto neo. incentivadora da formação de dades e o despotismo do Estado contra os espaços de auto-regulação (v. ção do poder e. houve um vital en- alização desse propósito. destarte. calcada no valor “segu. No Estado-providência. dos direitos fundamentais. âmbito do Estado liberal e do Estado provi- No Estado liberal. videncial. cente aos padrões legais desenvolvidos no terorganizacional. centrado na Despreocupado em prover e mais empe- valoração das subjetividades. de poli- tos são marcadamente interindividuais. ses. aposentadoria in- estimulador de interações e negociações tegral e estabilidade no emprego. impactos nos direitos fundamentais e brio substantivo. Resíduos do neoliberalismo: os dância é proposital) em prol de um equilí. Apenas para exemplificar. tos aos países “emergentes” como o único e mentais capazes de viabilizar a redução das verdadeiro caminho da redenção econômica. o Direito fraquecimento dos direitos fundamentais perde o caráter redistributivista e finalísti. Para muito além da criação de me. mas tão-só propicia e mercado. A seu turno. o Direito. impulsionado pela globalização do direitos anteriormente assegurados como mercado e pelo enfraquecimento do Estado. cujo va. Assim. 40 n. 160 out. propiciar a auto-resolu. as racionalidades formal e material subja- se entre corporações. sociais positivados em inúmeras Constitui- co. tais como irre- nação. procla- berdade e igualdade. no discurso neoliberal à condição de privi- direcionamento da sociedade. sendo de natureza in. tantas vezes proclamado no meio neoliberal uma proposta de prevalência das acadêmico. O desmantelamento dos direitos sociais ladora. da crise dos paradigmas. do social – tarefa a que tanto se dedicou a dução normativa. 2003 207 . criando normas procedi. que não im. 194). Trata-se do fe- É intuitivo que. forças de mercado e descentralização do Como resultado da dilapidação do Esta- exercício do poder. no Welfare state e no pretenso Es. busca conter as arbitrarie. distante do “espaço da cida- lor básico é a “eqüidade”. por conseqüência.

cionado a implementação da política do Mas não é só no campo dos direitos soci. verificado na segunda metade do direito a ter direitos. sob o signo de uma concepção exces- nuição da capacidade prestacional do Es. o Gover. principalmente. “flexibilizan. pois. comprometido com o ideário contrário à tendência de acumulação de di- neoliberal e empenhado na inserção do país reitos e de ampliação dos espaços de reivin- no mercado globalizado. de um retorno O neoliberalismo. com o acirramento ais que se projeta a crise desencadeada pelo do indiferentismo social. em que a competitividade constitui nantes. p. tenha-se dedica. além de colocarem em xeque a já tão fator preponderante. BBES. assim. segundo Thomas HO- os exemplos mais evidentes”. como visto. sivamente individualista de coexistência tado e a omissão das forças sociais domi. do” direitos sociais. Wolfang SARLET (1999. ramento de desníveis sociais constitui refle. social. de “infância do Di- neoliberal é a dramática elevação dos índi. em O grande resíduo resultante da onda linguagem metafórica. vamente se foram incorporando ao patrimô- lização” de direitos previdenciários e tra. notadamente quando se trata do direitos. turais no bojo das relações sociais. 137). caracterizou estes dois últimos séculos no cas na Constituição Federal. Ocidente”. apenas para citar to. despreza ao período anterior ao da proclamação de o direito. sopro neoliberal. comprometem inequivocamente os direitos Será plausível falar num retorno a um à vida. dicação e de exercício da cidadania. “salve-se quem puder”. ces de exclusão social e o agigantamento do Por outra face. o esfacela- xo inocultável do desapreço à promoção dos mento do Estado. numa sociedade vazia discutível efetividade dos direitos sociais.sentado com a ambígua e escamoteadora saladoramente em escala mundial. nio jurídico dos sujeitos. a hegemonia do pensa- fosso entre ricos – que se tornam mais ricos mento neoliberal provoca mudanças estru- – e pobres. Como bem revela Ingo O novo pensamento liberal afirma-se. Não é à toa. o “mo. considerados tan- balhistas. intimidade. to sob o prisma individual quanto coletivo. assumindo em seu lugar um pro- 208 Revista de Informação Legislativa . que se vem impondo avas. no qual o ho- no sentido de liberdade e igualdade real). no Brasil. p. quecido. tra todos. sob essa ótica. 226-227). movimenta-se em sentido no passado. século XVIII. O insulamento social é decorrência dire- Na feliz síntese de Agostinho Ramalho ta das práticas neoliberais. Trata-se. debilitando-se direitos sociais e se em estado natural de guerra de todos con- agudizando-se as desigualdades sócio-eco. mem assume cada vez mais a postura de assim como os direitos à integridade física. lidariedade é valor a ser desprezado e es- delo neoliberal. à economia social de mercado têm propor- na no pensamento neoliberal. de valores e de sentido36. nesse sentido. à liberdade e à igualdade (ao menos modelo de Estado hobbesiano. um estado em que a tendência é a nômicas. Esse acir. que. A desregulação preconizada. reito”35. tende a denominação de “flexibilização”. vale lembrar que. agora elevados (ou melhor. elevam-se os níveis de violência apropriação individual daquilo que é ne- rural e urbana. nalmente assegurados. em seu Leviatã. cujo tra.providência e o estímulo direitos fundamentais sociais que predomi. redu. que do tanto à realização de mudanças drásti. ção. “lobo” de seus semelhantes? A esse respei- propriedade. alteran- zidos) à categoria de miseráveis. um esvaziamento dos direitos que gradati- ço marcante é. “a dimi. e. denominado pelo autor. do até mesmo padrões de comportamento. a “deslega. pois nelas a so- MARQUES NETO (1999. com manifesto prejuízo a cessário para sua sobrevivência e conserva- outros direitos fundamentais constitucio. os homens encontram- De fato.

Como destaca Perry ANDERSON (1995. que não há alternativas para os seus çamento das diversas sociedades em todo o princípios. como queria. ao à cruzada neoliberal? A resposta a essa in. tar o acirramento das desigualdades sócio- gregadora e excludente. têm de adaptar-se às denominou de “ideologia do cansaço”. vadíssimo percentual decorreria do desin. to econômico nos países da América Latina Enfim. ram. 23)./dez. te ressaltou Óscar CORREAS (1996. Alinhem-se. p. em incontrastável econômicas. muito longe de se constituir uma unani- vítimas desta (a perambulação de crianças midade. a mendicância em ele. responsável pelo entrela. sociedades marcadamente mais desi- Com efeito. entre os esse manto ideológico de inércia e romper quais se destacam a passividade (docilida- as amarras que impedem o questionamento de). a elevação das taxas de desem- paradoxo com os festejados caminhos da prego e os baixíssimos níveis de crescimen- globalização. “Economicamente. pode. criando “ideologia da fadiga”. cas discriminatórias em relação a minorias conquistou fervorosos adeptos. tensões cada vez mais distanciadas de sen.6. sem dúvida. duzida pela sensação de que “nada há que Assim. seja confessan- mundo. é possível resistir talismo avançado. tornando-se reféns do capital transnacional berais – traz a reboque o agravamento de volátil?38. as mantêm em casa. a) A ética de alteridade e a reconstrução mente naquela seara em que prometia solu. não conseguindo ne- 3. tra.)37. a exacerbação do fenômeno da que implementaram medidas neoliberais. desmistificando a meta neoliberal atinge em cheio os indivíduos. 40 n. Socialmente. não obstante o caráter hegemônico nas ruas seria atribuível aos pais que não que assume. para que melhor começo de re- A fragmentação que ressalta do ideário sistência do que. senão esperar ser tragado pela onda as de resistência. o neoliberalismo conseguiu dagação pressupõe o desnudamento da muitos dos seus objetivos. até mesmo sociais e transferências de responsabilida. É o que Óscar CORREAS (1996) do ou negando. 2003 209 . suas normas”. entre tantos. 3). pois. o neoliberalis- mo fracassou. um dos maléficos reflexos do guais. confluem para uma con- Brasília a. embora não tão desestatizadas novo liberalismo é a produção de um senti. cial. exclusão – saldo direto das políticas neoli. a despolitização e a desarticulação so- do discurso neoliberal. consoan- timentos de solidariedade. os primacial da derrubada da inflação. dadores provavelmente jamais sonha- solida em face do fenômeno da globaliza. De fato. tivas capazes de desestruturar os pilares de É absolutamente necessário denunciar sustentação do neoliberalismo. apon- quais passam a ter uma convivência desa. te.fundo sentimento de insegurança pessoal. entre suas principais vítimas. contrário. todavia. que todos. Mas está lon- de pela “crise” social instalada às próprias ge. o neoliberalismo alcançou ça” que cresce e devora a tudo e a todos. tais como práti. êxito num grau com o qual seus fun- Essa impressão mais se dissemina e se con. de um novo contrato social ções para os “males” causados pelo Estado As bases do pensamento liberal remode- de bem-estar social. disseminando a simples idéia de ção da economia. apresentando-se alterna- neoliberal. teresse pelo trabalho etc. Nesse passo. 160 out. O neoliberalismo. p. alguns se principiar pelo elenco dos insucessos de caminhos possíveis: tal política no cenário econômico. exata. como já visto. Ampliando os espaços de resistência nhuma revitalização básica do capi- À vista desse quadro. lado. Política e ideologicamen- mento de absoluta impotência diante da “for. curial é a definição de estratégi- fazer”.

a par de uma redução da demanda coordenados). p. que te. “deixar exclusión de mediadores económicos aflorar mais nitidamente o movimento da de la cooperación necesaria para pro. cidez da conflitualidade social. incluso den. ao ideal neoliberal das relações de merca. solidariedade deve assumir na sociedade pondo esse pensar. Vale dizer. a sociedade pós-moderna revela-se respon. p. sem regras e/ou se al otro significa entonces renunciar a de. ensível e. 113). 127).” ponto de partida de todo projeto social de De outra parte. pois. solidariedades curtas” (p. Isso tudo. Densificando-se. tal como sugerido é “permitir que se enxertem na sua expres- por Agostinho Ramalho MARQUES NETO são formas de socialização transversais e (1999. la elevar a visibilidade social. p. ao mesmo tempo. um reencaixe da solidariedade serem reprimidas ou satisfeitas). a reinserção da LONA (1996. que valoriza o ante o autor. tornando o social mais compre- ducir y reproducir la vida)”. uma dimensão voluntária. o todo é la explotación del hombre por el hombre y superior às partes). assinalando a exis. nasce da idéia de que o del hombre sobre la natureza. faz-se necessário. 229). tornando-o fundamental e alternati- mente outra ‘forma de vida’ que re. existência de variadas formas de sociabilida- tarias anteriores. asignar-se fines comunes (esto es. 94). tornando-a mais densa no que toca à estas por las organizaciones comuni. sino que disuelve de. p. 86) com seus interesses (a serem regulados e propõe. Conso- sentido ético de alteridade. aumentar a visibilidade social outro e suas diferenças. vo ao modelo de sociedade de consumo. a valorizar o elemento solida- mo la posibilidad de producir libre. 117). na sociedade e a produção de uma maior O individualismo distorcido que marca visibilidade social. 96). riedade. Assim. que despreza o homem. como salienta Pietro BARCE. não apenas uma solidariedade instituci- llevaría fatalmente a la negación o a la asi. a sociedade passa. diata. sem a intermediação do Estado. mas também uma solidariedade ime- pasividad de dejar sitio al otro. ou seja. é mais que um tência de um “novo contrato social”. propiciando a É preciso. sociedade”. gundo o autor. esclarece que “aproximar. com suas necessidades (a do Estado. de Aristóteles a Hegel. como meios de oposição de resistências à do. para siempre la historia de la violencia y de do a qual. p. processos pré-estabelecidos. dessar- sarrollar la propia voluntad de poder. tro BARCELLONA (p. Essa renúncia à sede de poder. Cria-se. a Pietro BARCELLONA (1996. referindo-se a alternati- libertação é o indivíduo singular com suas vas de combate à crise do Estado-providên- paixões (a serem dirigidas ou domadas). Pode-se aproveitar aqui o pensamento sável pelo estabelecimento de relações de de ROSANVALLON (1997). p. cia.cepção individualista da sociedade. onal – marca indelével do Estado-providên- milación del otro: significa ejercitarse en la cia –. É uma postura com ine- que o “contratualismo moderno nasce da quívoco significado ético de desarme unilate- derrubada de uma concepção holística ou ral. se- toda forma de sociabilidad y por últi. pro. 210 Revista de Informação Legislativa . contrapor à racionalida. potencialmente capaz de “interrumpir orgânica da sociedade (a concepção segun. especificamen- indiferença recíproca que bem se amoldam te no que concerne aos dois últimos vetores. presente la confirmación recíproca de A par disso. solidariedade na sociedade consistiria basi- “no sólo libera ao individuo de los camente na aproximação da sociedade de si vínculos y de las dependencias impu. 117). formação de elos de solidariedade mais re- de neoliberal. para Pie- to BOBBIO (1997. escalada neoliberal. afirma exercício estético. Norber. na análi- la individualidad y de la opción de se de Pierre ROSANVALLON (1997. Pierre ROSANVALLON (1997. mesma. somente factível mediante a translu- tro de – y junto a – nosotros”. um ais.

da práxis jurídica. por assim dizer. ao revés. favorece a definição de uma im- mento neoliberal. pelo Direito. sociada a uma dimensão crítica e engajada É fora de qualquer dúvida que a forma- a um ideal transformador. sociais que o rodeiam40. portante opção política: instrumentalizar ou Para tanto. faz parte. tica. Considerando ser o Judiciário o deposi- OR (1980. 128). dade. realidade circunjacente. curial é o estabele- reito positivado é que ele se liberta de cimento de uma postura existencial trans- parâmetros imutáveis ou longamente formadora de seus agentes. certa insegurança vio. o berto BOBBIO (1997. 41): tário final de conflitos não resolvidos nou- “A principal característica do di. seja compatível com a tradição tante para melhor adequação do di- teórica e prática do socialismo”. 119). expectativas sociais. p. um segundo plano. 2003 211 . embora./dez. tese. Vale dizer. a mutabilidade do fe. institucionaliza a mudança e a adap- ção de um novo contrato social? Tal inda. pode desaguar ção de uma consciência crítica acerca da no questionamento da legitimidade dos ca. nesse particular. desde o “berço acadêmico”. de resis- dedicam à tarefa de estabelecer as “regras tência incisiva à onda desagregadora que do jogo”. portanto. das condicionamentos ideológicos dos que se propostas neoliberais ou. É a partir dessa op- arcabouço normativo do Direito não é dado. estas representam. deve-se vai desvendando áreas novas de libertação” enfatizar. 40 n. signifique uma condição impor- e. uma mas construído. papel a ser desempenhado pelo Poder Judi- Merece registro. não há dúvida de que o Direito de. Brasília a. O caráter alienante do ensino jurídico. sendo garantia de sua A par da fibratura crítica dos atores jurí- “eterna reconstituição. contexto social. as. Além disso. Imprescindível. 1982. subserviente e indiferente às tensões sempenha relevante função social que. tação mediante procedimentos com- gação conduz à proposta instigante de Nor. estando. o que liberais. Não estaria aí o embrião da reconstru. b) O ensino e a práxis do Direito como é a de nossos dias”. ciário. pois. Essa potencialidade transformadora do empenhado basicamente numa análise des. da qual o Direito minhos tracejados pelos fautores do pensa. lançados então para trato social diverso. 160 out. gera. ção que se pode estabelecer. p. produza nas Universidades o perfil de ator merece ser reformulado. portador de uma informação burocrá- Ora. direito positivado é um direito que em contraposição ao neocontratualismo dos pode ser mudado por decisão. sem dúvida. de atalho à concepção individualista com respeito a verdades e princípios da sociedade. definir como será preenchido o “espa- nente compatibilização do Direito com as ço da positivação” do Direito. não mais sendo duradouros. vazio de sentido e de finali- berais39. tolerável uma postura acrítica de “fiéis ser- mente invariáveis e. que dicos. Direito deve ser melhor direcionada a partir critiva de métodos e procedimentos desti. a ob. em sín- nômeno da positivação favorece a perma. sujeito aos estratégia de legitimação. jurídico adequado à consolidação do ideal com uma nova visão e um pensar críticos. segundo a qual. seria instituída uma espécie de des. por outro lado. p. do seu avanço. que inclua em suas clá. vos” da lei. por outro usulas um princípio de justiça distributiva lado. do meio acadêmico. é bastante considerar que o não o neoliberalismo. reito à realidade em rápida mutação. o neoliberal: um profissional alienado de seu espaço de resistência às concepções neoli. de modo a ampliar. servação de Tércio Sampaio FERRAZ JÚNI. plexos e altamente móveis. a fim de que não se re- nados à consecução de uma justiça formal. reconhecidos. o delineamento do (LYRA FILHO. inserindo “um projeto de con. de premissas material. certamente. tras instâncias (sociais). Assim.

105).. pois.. p. consiste em interpretar e aplicar a norma a Pode-se afirmar. senso de Washignton”). Direitos Humanos. porém. Não se está cogitando – é bom prevenir – inúmeras digressões no campo da interpre- de um atuar alheio e distante da normativi. 34). 1151). tante referir. a ju. que. gunda metade do século XX” (BOBBIO. ca Segunda Grande Guerra. 1989. onal em torno da efetividade dos direitos onal por meio de “redentoras” propostas de humanos e da ampliação de seu rol basi- reforma constitucional. nem por ser novo. Mas dico-positivo42. conectando-a dos próprios valores fundamentais na se- com preceitos de justiça social. der do Estado. Conquanto não seja deletério fenômeno da exclusão – marca re- este o objeto do presente trabalho. movidos determinados valores essenciais à cionais” (CANOTILHO. inclusive su. c) Direitos humanos – concretização da dade” e comprometido socialmente com a Declaração Universal de 1948 realização da ordem legal justa41. E uma boa diretriz para tal empreitada 1992. centes deve-se contrapor ao padrão neoli- ço do neoliberalismo. é facilmente per- ca não pode alhear-se a essa fonte legitima. Isso comprometeria. Isso recon. a le. nesse mister. E esse é sem dúvida o gran- do próprio direito no interior das relações de desafio. é que o ticas da globalização cunhada sob o signo Governo brasileiro tem-se empenhado na do neoliberalismo e a expectativa internaci- missão de desfigurar esse perfil constituci. Fixada essa premissa. então. Estado de bem-estar social. Os direitos humanos constituem a últi- Inegável. um sólido obstáculo ao ordenamento jurídico. Pode residir aí o antídoto ao a uma atuação estritamente legalista e bu. gistrada das práticas neoliberais. que possui uma trimônio cultural comum a toda a humani- Constituição concebida em um modelo de dade. que. dependente dos direitos humanos e. Isso comprometeria a atuação do Judici. Consti- aos mecanismos de completabilidade do tuem. alavancando os gunta é instigante e certamente reconduz a Estados em direção à realização daqueles. se revela me- duz o Judiciário a um papel efetivo de Po.] escolher. na busca de adequar lar44. beral de globalização (imposto pelo “Con- mento do referencial constitucional? A per. a encruzilhada entre o velho e o sociais” (FARIA. enunciada após a trági- risprudência pode alcançar. por exemplo. tação e da própria integração das lacunas dade. mais detidamente. é a tarefa cometi. lores da cidadania e da democracia. ou. direitos humanos decorre do reconhecimen- se uma interpretação não contrária ao texto to da necessidade de serem protegidos e pro- e programa da norma ou normas constitu. por A razão dessa assertiva correlaciona-se meio da interpretação e dos métodos da com o fato de a Declaração Universal dos auto-integração e da heterointegração. ceptível o descompasso entre as caracterís- dora. de todo o leque de valores essenciais subja- ário como “espaço de resistência” ao avan. a consciência histórica que a humanidade tem finalidade social da norma. em face do esfacela. indivisível e inter- piração neoliberal. a práxis jurídi. de igual sorte. que a nota de fun- partir da Constituição. consecução de uma existência digna – pa- No Brasil. ainda resiste em neutralizar o avanço da mento judicial que propicie a “reintrodução onda neoliberal. ideológicas existentes no ordenamento jurí- gitimidade institucional do Judiciário. é impor. damentalidade presente na concepção dos “entre as várias possibilidades [. ma fronteira na cruzada em defesa dos va- da à hermenêutica. representar “a prindo lacunas do ordenamento jurídico. novo. infenso ao “mito da neutrali. desmonte do arcabouço constitucional que rocrática pode-se contrapor um comporta. ainda que de relance. p. O grande problema. o Estado ao “mercado globalizado” de ins. buscando sempre. O caráter universal. a nosso ver. p. lhor e mais justo43. 212 Revista de Informação Legislativa . 1983.

. com a conseqüente limita- dida em que o pós-estruturalismo se ção do poder político. impõe a adoção de versalidade dos direitos humanos.. a Declaração Uni. 168-169) denominou “irrenunciável di- “Se.. laissez passer”) exigiram... ta. conforme ensina Foucault. à dossa não pode ser indiferente às luz dos ideais liberais prevalecentes.. limitando sig.... sociedade atual. Natural e indispensável o remodelamen- ralismo que ele justificadamente en. reanimado pela derrocada dos ao esvaziamento ético do novo liberalismo.. estruturalistas convictos ou pós-mo. Direito foi inventado como uma for. Por outra face. Ros- internas e interestatais. plenitude dos direitos fundamentais. É de se intuir. propõe J..... Conclusão texto da Revolução Francesa... 160 out. como reação ao exercício absoluto do .. numa reafirmação de que muito ainda há ma de legitimação do poder estatal na de ser percorrido para alcançar-se um espa- Idade Clássica. debate na histórica luta pela afirmação e sim o seu permanente desafio de implemen. 1999../dez..... Poder... destarte.. 4. tornar-se fundamentalis.. acima de tudo. 40 n.. num gesto de ruptura com Isso pressupõe o reconhecimento daqui- a já apontada “ideologia da fadiga”. o tação e atualização representam um impor.A. Assim lo que PÉREZ LUÑO45 (apud SARLET. do individualis- são reconhecidos internacionalmen.. mo e do iluminismo.. a sociedade ainda se Universal dos Direitos Humanos.. vez mais crescentes). portanto. para os pós. O Estado constitucional desenvolveu-se. to. opressões de culturas extra-ociden. dernos exigentes. indivíduo contra esse mesmo poder? Talvez sim. ou Estado de Direi- constituído. bem as. postura mais intervencionista do Estado... mundo capitalista. dos direitos sociais. dos quais foram figu- te e se tornam passíveis de cobranças ras destacadas Locke. 2003 213 .. rais que exaltavam o exercício da liberdade minhos inestimáveis. desaguou na estruturação do nificativamente o arbítrio do poder Estado constitucional... O amadurecimento das concepções filo- ca como a nossa. propõe emancipatório. p.Tal contraste pode significar o despertar da do..... as continuação ou superação do racionalis. ou do integrismo eficientista do mercado levando.. em que tais direitos sóficas do contratualismo. ao desenvolvimento globalizado” [grifos nossos]. to desse novo Estado por meio do Direito. Mas não numa épo. que a Declaração Enquanto.... decorrentes do modelo liberal (“laissez faire. por sua vez. como foi visto. impropriamente denominado de “Es- Até mesmo. Na mesma me. aceitando como inelutáveis as cruelda. porém. Nem pode a pós-modernidade... os quais reforçam a nota da uni. e em nome da recupe- A pavimentação desse trajeto leva em conta ração econômica dos Estados (“abalados” os aspectos positivos do fenômeno da glo.. talvez não. a radical transformação tais... como da sociedade no período entre guerras.. o fluxo da vertente neolibe- letargia em que se encontra mergulhada a ral. e sufocados pelas demandas sociais cada balização.. 164): p.. noutro passo.. “socialismos reais”... tado absoluto”. dentro do con. o multicultu... assim... uma des aberrantes de qualquer comunidade. em sua fase napoleônica. nefastas desigualdades sócio-econômicas mo humanista. Montesquieu. deixariam os direitos ço de cidadania menos opaco e mais pleno humanos de ser uma afirmação do de sentido. reprimin.. em seu reduzido círculo tante núcleo de resistência e de contraponto decisório. sob a inspiração das correntes libe- versal dos Direitos Humanos abre ca.... seau e Kant.. Lindgren ALVES (1999.. políticas neoliberais que se disseminam Brasília a. o mensão utópica” dos direitos humanos.

cional utilização da terra. 1999. sem perdão do 214 Revista de Informação Legislativa . presença importante de sua discussão na tos sociais. a não consolidação de uma política A impressão final que fica é a de que o agrária satisfatória para assegurar uma ra. responsável pela “desconformidade meno da globalização da economia. de que o direito social. constitui um significativo espaço de resis- tese de todos os impactos decorrentes do tência à escalada neoliberal. a insistência na preservação e vez mais aguda. por acaso que. E to que nos é servido. economistas”. o caráter ideológico do neoliberalis- O neoliberalismo. Em dado momento da narrativa. 283). sentimento de “vazio de futuro” (Santos. num cenário neolibe- A forte conseqüência dessas posturas ral. na expres- éticos fundamentais. Daí a afirmação do-se.como inexorável exigência da economia glo. 1996) que nos é legado pelo neoliberalismo. o enfraquecimen- balizada. p. suge. plantão” que modelam a ilusão da realida- rém. reformas legislativas em curso em nosso país locamento de seu conceito para o âmbito do não desmente a assertiva. mecanismo de obscurecimento social. “esse liberalismo é neo. enfim. A exclusão é a sín. efetiva. não é mercado. a des. em social e em desigualdades materiais. Com efeito. cada Todavia. são de Plauto Faraco de AZEVEDO (1999. tentado que o neoliberalismo nutre profun- ais. Po. assumindo a feição de garan. to da concepção de democracia representa- A expressão neoliberalismo encerra uma tiva. mo. assinalando a novo liberalismo: o enxugamento dos direi. com ele. Por que e para quê? saúde. a flexibilização dos direitos soci. seria possível sem o concurso de poderoso em. o insuficiente serviço de educação Para preenchimento. mas que. a perda de certeza e seguran. a interpenetração de apresenta como uma única opção possível interesses privados e interesses públicos. noção de algo que se renova. com o des. resistência. induzindo ao erro de avaliação e tra- regulamentação das instâncias decisórias tamento desta”. é novo. p. reduzin. quado no tocante ao emprego de verbas pú. com o de conveniente. dos quais resultam rele. embalado pelo fenô. a e contra a qual não adianta resistir. O cotidiano das a erosão da soberania do Estado. bem como de “juristas de re-se um retorno a um modelo antigo. capaz co e econômico. para a definição desse fenômeno políti. 231). em breve síntese. retorna ao passado. neoliberalismo representa. blicas. mensão totalitária do neoliberalismo. o redimensionamento da democracia e do desapreço pelo Direito. verificou-se enorme em- tidor do livre mercado e da competitivida. a ausência de controle estatal ade. 103). Essa obnubilação coletiva con- malho MARQUES NETO (1999. a noção de espaço público. p. ao falar-se de liberalismo. beral globalizante. que se ça do direito positivo. único fenômeno: o da exclusão social. notadamente nos países de realização de direitos fundamentais sociais “economias emergentes”. palatável (se isso é possível) o indigesto pra- ralismo clássico não mais subsiste nele”. farto em desagregação esse algo nada mais é que o “abandono. prega a entre sua imagem mental e sua realidade transnacionalização dos mercados. toricamente consagrados. favor da eficiência econômica. empolgado pelo apelo neoli- O Estado. a dilapidação do Estado social. a privatização dos serviços de agenda contemporânea. penho na eliminação de direitos sociais his- de. como lembrado por Agostinho Ra. foi sus- tônomos. ta com a produção científica de “notáveis gundo ele. encarregando-se de tornar que se diz implicitamente que algo do libe. carece de condições de efetividade (FA- neoliberais pode ser sentida por meio de um RIA. idéias de continuidade e de de desviar a atenção de possíveis focos de ruptura. Conflu. do pública. Isso também desvela a di- dos conflitos. Se. de princípios Todo esse quadro caracteriza. vantes conseqüências políticas e jurídicas”. proliferação de espaços sócio-jurídicos au. ao O êxito da empreitada neoliberal não mesmo tempo. passa a ser um Estado mínimo.

representativo ou de Di. 5 235). p. assente na idéia de Plauto Faraco de AZEVEDO (1999. São esses componentes utó. Crise foi a de que a produção agora dispensava 8 Como observa Eric HOBSBAWM (1999. de grandes corporações.] cinge-se à exal- rídica cedem espaço a princípios de conteú. visivelmente seres humanos mais rapidamente do 142). dos espaços de decisão conectados com os mas um valor. [. p. 31). 29): “A liberdade e a igualdade dos homens não são um dado de fato. a guerra significa não ape- var seu antagonista. ança temporária e bizarra entre o capitalismo libe- derá da rota a ser traçada. espaços de produção. do direito somente vel. jamento econômico. a dignidade da pessoa não é um bem de creticidade. passagem da teoria à prática. 404): “A tragédia histórica das Décadas de dimentos para sua reforma”. as- Brasília a. para enfrentá-lo. noturno’ das piadas políticas. Eric HOBSBA. tornou-se tão obso- 3 Jorge MIRANDA (1996. e que ainda é tempo de reconhecer que. prisões e Forças Armadas para manter afasta- que entravam no mercado de trabalho sem qualifi. Essa aliança episódica foi assim referida por to para reanimar velhas certezas ou para Eric HOBSBAWM (1999. O limiar de um novo Governo e de uma 1992. 4 Conforme anota Paulo BONAVIDES (1980. O tipo gos para eles.exagero. futuro legislador”. na medida em que cruzadas em prol da concretização dos di. capitalismo e denunciadora de seus excessos. Os di- reitos são doravante protegidos (ou seja. foi sal- Segundo HOBBES. fornecendo-lhe o incentivo – o nas a batalha. 86-87) comenta: leto quanto o ‘guarda-noturno’ que inspirou a me- “O Estado constitucional.] Uma das ironias deste estranho século é que o resultado mais Notas duradouro da Revolução de Outubro. 1999. de Estado que se limitava a prover regras básicas mas o mecanismo automático pelo qual essa ex. o “século XX multiplicou as ocasiões em que que a economia de mercado gerava novos empre. uma neobarbárie. ral e o comunismo: basicamente a vitória sobre a Alemanha de Hitler foi. do o perigo interno e externo. mas perde em universalidade. são au- consumo a ser livremente transacionado no tênticos direitos positivos). são implanta. são) como externamente (pela redução ao mínimo ses individuais se submetem aos interesses das suas funções perante a sociedade)”. táfora”. em que se dirigem a um homem racional fora do É preciso. ao estabelecer a popularidade do plane- Como assinala. 40 n. se tornava essencial aos governos governar. invocando o pensamento de VIERKANDT. como só poderia ter sido. em seu lugar. “liberalismo. os horizontes propiciados pelas das em relação à sua eficácia. na medida consumidores. na qual os interes. mas apenas mente a expressão de um pensamento individual. Tudo depen. para o comércio e a sociedade civil e oferecer polí- pansão gerava empregos para homens e mulheres cia./dez. uma vitória do Exército Vermelho. ao contrário do que sugere o neoliberalis. p. Enquanto teorias filosóficas. em que não há visibi. não são um ser. mas um ideal a perseguir. não são uma existência. o ‘Estado-guarda- cações especiais estava visivelmente desabando”. 6 “O segundo momento da história da Declara- picos que poderão abrir caminho à consta. mas são extremamente limita- exemplo. 7 nova Legislatura é sempre um bom momen. em nome dela.... âmbito do Estado que os reconhece” (BOBBIO. pois. em que os concei. com a do econômico (MARQUES FILHO. 160 out. extraviados e. p. cujo objeti- 1 vo era a derrubada global do capitalismo. pensado para o direito realizado. no tos e categorias fundamentais da lógica ju. 29-30). mas valem somente no mercado. são universais em relação ao conteúdo. 83-84) liberdade e. p. Nessa passagem. o valor da liberdade [. preconizada ausência e desprezo da coação estatal. mais uma vez. empenhado em limitar observa: “Toda esta corrente doutrinária crítica do o poder político tanto internamente (pela sua divi. houve uma ali- alimentar novas esperanças. A economia mundial se expandia. por espaço e do tempo. tação do indivíduo e de sua personalidade. as primeiras afirma- lidade de sociedade. 17): “A democracia só se salvou porque.. ampliar ao máximo. portanto. p. mas de mercado. a afirmação dos direitos do homem ganha em con- mo. p. em que os valores da democracia são Anota BOBBIO (1992. p. são (na melhor das hipóteses) propostas para um reitos humanos. 2003 215 . oferecendo-lhe alguns proce- WM (p. 9 reito surge como Estado liberal. na tação de que nada é acabado ou irrealizá.. mas o período de tempo em que a medo – para reformar-se após a Segunda Guerra vontade de lutar é suficientemente conhecida. mas um dever ser.. 2 Mundial e. ção dos Direitos do Homem consiste. em ções dos direitos do homem são pura e simples- que não se enxergam cidadãos.

os ingleses se mantinha ainda individualista e libe- mica caminharão logicamente juntos. 13 de 1917. obedecer ao outro. somente através dos julgada suficiente a influência da política bancária outros. tura básica de qualquer sociedade. abundante literatura a assinalar-lhe as contradi. sem dúvida. José Luis. é ro lugar”. Individualista ain- contestável modo de interrogar a realidade [. Mas ele deve igualmente pelo bem comum. p. que talvez nunca tenha existido. pensou em dizer ‘este é meu’ e en- que convir que ela abalou o mundo. 15 emprego’”(p. Quem quisesse determinar exata. Partindo da liber- instâncias imediatas e nem sequer penúltimas. p. supostamente inevitáveis na estru- homem e conhecer a fundo um estado que não exis. 243-244). não fora o triunfo da Revolução Russa que se insinuaram em nossa natureza humana”. (GARCIA VENTURINI apud CERLETTI. a filosofia “é um específico e in. La sistema a dianteira sobre os outros elementos e por filosofia: para qué sirve? La nacion. sagrada pla socialização do investimento será o único para todos. Progresso social e eficácia econô. como são todos os componentes. mas do qual.. Conforme observam Giovanni REALE e Da- priedade: “Em resumo. 391). houvesse gritado aos dignidade humana. Buenos Aires. porém. dominantemente protetora-repressiva para um di- mento de ROUSSEAU. 112) a observa- o nosso presente. segundo o autor: “É a essas daquilo que há de artificial na natureza atual do desigualdades. p. criando uma controu ingênuos que nele acreditaram foi o verda- força concreta oposta ao capitalismo. para impedir que emerjam e se gular o nível adequado ao pleno emprego da pro. 14 ROSANVALLON (1997. É nesse sentido que deve ser Cabral de MONCADA (1995. 9 anular nela todos os vestígios do seu liberalismo”. segundo a qual “. nários. tor. 216 Revista de Informação Legislativa . 765). com pro. mas sim todos à lei. entendida a equação keynesiana. ROUSSEAU se torna totalitária. o homem só pode pensar em si intervir para estimular o investimento. lada pela passagem de um direito com função pre- sofo de que se acredita. de sua to- fiscal e da determinação da taxa de juros para re. vo” instituição social essencial. Conquanto considere o “mercado competiti- 12 Por meio da expressão “estado natural”. mas dade do homem e dos seus direitos naturais origi- que é inerente à mais indeclinável vocação de extre. 10 Analisando a “equação keynesiana”.]. não teriam tido a relevância rência na determinação dos aspectos corrompidos que tiveram. em permanente e pe. p. pado ao gênero humano aquele que. ‘não é uma pe. atomística e mero equilíbrio de egoísmos. ‘Pensamos também’. vontade geral acabam por tomar na construção do 1999. dade – objeto primário da justiça – apresenta di- ginário do artificial e desviador. constituindo um ponto de refe- prevê a sua destruição. o dogma da soberania do povo e o mito da mo”. o estado natural tem um reito cada vez sempre mais promocional”. afirmem os interesses privados. arrancando a do esperanças de vida mais consentâneas com a cerca ou tapando o fosso. e com toda a razão. Quantos crimes. são de todos e a terra não é de ninguém!” (REALE.. porque fruto e expressão da vontade meio de se assegurar aproximadamente o pleno geral”. o da no seu ponto de partida e nos seus pressupos- modo mais radical e omnicompreensivo. ral. diz ele. ano. p. É a partir daí que porém. 3. p. a passa- mente as precauções a tomar para fazer anotações gem do estado liberal para o estado social é assina- válidas sobre o assunto deveria ser muito mais filó. sendo que indivíduos nas- no Discurso sobre a desigualdade.sim como a obra de Marx e Engels. depois de ter cerca- valor sobre a conhecida obra de John Reed. suscitando deiro fundador da sociedade civil.. aguçan. que os princípi- te mais. GARCIA VENTURINI. estimulando a utopia do socialismo.’ Na economia do pensa. Assim. estareis perdidos se esquecerdes que os frutos rigoso confronto”. visto não ser pensando nos outros. WLS (1997. Suplemento Cultural. 17 necessário ter noções justas para poder avaliar bem Pertence a BOBBIO (1997. rio ANTISERI (1990. aponta John RA- tam Giovanni REALE e Dario ANTISERI (1990. que o estuda e valor normativo. Pierre ANTISERI. p. 8) que a estrutura básica da socie- 761) que “é importante distinguir o essencial e ori. tal coletivização. cidos em condições diferentes têm expectativas de quena empresa distinguir os elementos originários vida diversas. 1990. o mais tos racionais. que com LOCKE e não contraditória. ção sempre precisa. ela é totalitária e anti- fundamental e totalizador. homicídios. 770-771): “Estamos diante do é levado a intervir por intermédio da política de uma socialização radical do homem. Com a vontade geral pensão para consumir. ou seja. tem-se do um terreno. não como instrumentos. 40) observa. que não se detém em liberal no seu ponto de chegada. Como podemos ler versas posições sociais. com 11 Com efeito. analisando o mito da vontade geral. p. Independentemente de qualquer juízo de “O primeiro homem que. ‘que a am. assim a relação entre o crescimento e o desenvolvimento se posiciona: “Por este motivo. 16 jul. ao mesmo tempo que dava seus semelhantes: “Não deis ouvido a este impos- origem a um mundo bipolar. conflitos. os da justiça social devem ser aplicados em primei- vavelmente nunca existirá. Ninguém deve possível. 1972.. 101). Keynes conclui que o Esta. p. do Estado-providência poderá ser pensada como já se tem dito que a democracia. que pro. misérias e horrores teria pou- ções. mas como fins em da taxa de juros para fixá-lo no seu melhor valor si.

p. A debilidade da democracia representativa deres públicos”. Por esta razão. aumentassem”. 399) documen- gualdades. o Banco Mundial)” (SANTOS./dez. p. as sociedades reais. em “A expressão ‘democracia representativa’ sig- última análise. os di. a esse pro. 10). dução. a democracia organizacional. 27 a relação salários directos-salários indirectos. na qual são global e simultaneamente lação social. até então essas relações. Estado de bem-estar. 44). mas por pessoas eleitas cerne à conquista e manutenção de sua liberdade. 248). durante as direitos entre si incompatíveis. precedentes – sua idade de ouro –. 2003 217 . que temos diante de nós. 61). cas. além çado estava entrando numa longa fase de auge sem dos direitos de liberdade. e de direitos sociais no campo das relações de traba. re. “As condições para este trabalho não eram de firo-me ao fato de que – desde quando passaram a todo favoráveis. 40 n. também os direitos soci. verdadeiro motor do crescimento econô- capital perante a relação produtividade-salários e mico numa economia capitalista. registra: “Quando digo que os direitos do mos mais adiante. que geria eficazmente JÚNIOR. sianos afirmavam que altos salários. 23 reitos fundamentais a prestações objetivam. Desafiando o con- dado ao valor igualdade: “A demanda de igualda. numa dupla crise de natureza to nas empresas privadas. senso oficial da época. par. da seguridade social. Como esta regulação estava centrada no ção na esfera de liberdade pessoal dos indivíduos. 25 homem constituem uma categoria heterogênea. les que dela fazem parte. tem uma repercussão um realizados os direitos de liberdade e os direitos so. 26 ela se exprime como vontade de redução das desi. A igualdade tem imprescindível em si -. pois disso precisavam as como objetivo a abolição radical das diferenças de sociedades ocidentais. na crise de rentabilidade do os lucros. mas tam. nifica genericamente que as deliberações coletivas. p. são tomadas não diretamente por aque- tindo da premissa de que o indivíduo. tou esse confronto da seguinte forma: “Era uma tricos: produção de igualdade geradora de identi. e na Segundo Rodolfo ROMERO (apud ARRUDA crise da regulação nacional. Eric HOBSBAWM (1999. (as empresas multinacionais. 29). o Fundo Monetário mentar as condições fáticas que possibilitem o efe. no apresentavam argumentos econômicos. Os dois procedimentos não são simé. 1997. que bombear mais demanda na economia era a lho. autonomia (liberdade perante o Estado). 19 Norberto BOBBIO (1992. além da não-interven. no que con. p. a tarefa de mia e as instituições que se desenvolveram com ela colocar à disposição os meios materiais e imple. Estado nacional. 1996. Hayek e seus companheiros argu- ciais. da qual nos ocupare- pósito. dade inteira. 1995. 33). promovido pelo mais justas na medida em que menos livres”. ou seja. não pareciam proteção não pode ser concedida sem que seja res. pleno empre- tidade” (ROSANVALLON. Os dois lados dade em um caso. A polêmica contra a regu- livre e justa. 24 depende em muito de uma postura ativa dos po. 18 Assinala. bem entendido) deste período. para esta finalidade” (BOBBIO. 160 out. tivo exercício das liberdades fundamentais. p. assim permitindo que econômico-política. Internacional. no entanto. guerra de ideologias incompatíveis. a garantia não apenas da liberdade. go e o Estado de Bem-estar haviam criado a de- 21 Por cidadania social entenda-se a conquista manda de consumo que alimentara a expansão. Os neoliberais afirmavam que a economia e a 22 “A crise do regime fordista e das instituições política da Era de Ouro impediam o controle da sociais e políticas em que ele se traduziu assentou. sem fixação de um objetivo gerador de iden. Ingo Wolfgang SAR. direitos cuja décadas de 50 e 60. Esta mensagem permane- estatuto civil ou político. mentavam que o novo igualitarismo (muito relati- são mais livres na medida em que menos justas e vo. tem aberto espaço à formação de um novo modelo. muito verossímeis os avisos neoliberais dos perigos tringida ou suspensa a proteção de outros. a política econômica do ne- Brasília a. as deliberações que dizem respeito à coletivi- bém da liberdade por intermédio do Estado. redução da desigualdade. p. a sua crise foi também a crise do assegurada pelos direitos de defesa (ou função Estado nacional perante a globalização da econo- defensiva dos direitos fundamentais). pouco maior. perante a internacionaliza- LET (1999. destruía a liberdade dos ci- 20 O paradoxo crucial das modernas socieda. 1997. p. nesse sentido. eles argumentavam que a de civil ou política traduz-se pela determinação de desigualdade era um valor positivo – na realidade uma forma idêntica para todos. dadãos e a vitalidade da concorrência. A demanda de igualdade ceu na teoria por mais ou menos 20 anos” (AN- econômica ou social se apresenta de um outro modo: DERSON. da qual de- des democráticas residiria exatamente no enfoque pendia a prosperidade de todos. Os keyne- outro. da saúde. 1997. apresentando o ais – a categoria em seu conjunto passou a conter crescimento mais rápido da história. da educação. melhor maneira de lidar com depressões econômi- por parte das classes trabalhadoras. isto é. Pode-se que representavam qualquer regulação do merca- fantasiar sobre uma sociedade ao mesmo tempo do por parte do Estado. p. inflação e o corte de custos tanto no governo quan- em primeira linha. 143-144): “Vinculados à concepção ção dos mercados e a transnacionalização da pro- de que ao Estado incumbe. uma vez que o capitalismo avan- ser considerados como direitos do homem.

presta-se a ser confutada pelas partes mento da democracia” (apud GRAU. la usaba para referirse a todas las manifestaciones de la ram ambos. da política e da cultura. operam outros siste- institucionais. des. com rápidos padrões e cuja capacidade de responder às solicitações dos de acumulação”. p. exclusivamente para hablar del comercio y la circulación ção de governabilidade tem sido associada à inca. favorecendo a transnacionalização da econo. osa palabra – ‘libertad’. 33 vam uma figura. e como para fazê-lo.’ Esta limitação do mo. suponho) uma solução de nização dos despossuídos’. que el cachorro contemporáneo lo usa (1999. o discurso remete à imagem da 29 Tal situação curiosa ensejou o seguinte co. impedir o governo de servir aos interesses especi- dos os países democráticos – é condenada como ais. para desorganizar os mocracia. 1989. nalmente. p. peter – de que o líder político pode ser comparado te. reivindica- mentário de Norberto BOBBIO (1997.” 34 pacidade de um governo ou de uma estrutura de A propósito do direito reflexivo. ROMERO. a própria autonomia dos sistemas. mente. Mientras. em geral. por. sem protecionismo e. interesses e necessidade. p. cujos votos dependem da der. em face de uma de tematizar sua própria identidade. vida humana. poder se mede por votos. apenas li- uma: ou estas categorias – capitalismo. O principal objeto deste serviços. em nome do aumento de Sua função é viabilizar a autonomia regulada des- sua capacidade de direção. anota José poder formular e de tomar decisões no momento Eduardo FARIA (1999. nesse sentido. direito é. Adam. filtragem. la libertad de propriedad en primer plano.oliberalismo tem como estratégia: privatização. sas que incluem o próprio sistema reflexivo. fi- compromisso que. Se de dois indivíduos que de longe obser. em termos conceituais. o que significa que podemos limitar socialista pelos velhos e novos liberais? Das duas os poderes dos interesses organizados. 39-40). 1998. é lícito pensar que tenham visto um centau. ses sistemas. etc. dessa perspectiva. tal se pode definir uma situação em que a mesma for. p. outro que é um cavalo. 7). na restrição e no próprio questiona- promisso. Se parece en que ambos usan la misma prestigi- cavalo. dos sistemas. citada por LECHNER: ‘podemos estado que se veio realizando praticamente em to. São Paulo: Companhia das Letras. 118-119). p. para ver. um diz que ela é um homem e o Como observa Óscar CORREAS (1996.” racionalidade interna mediante os adequados pro- 31 Anota BOBBIO (1997. assim. opostas. desenvolvida e divulgada por Schum- regulamentação. O neolibera. de perceber crescente sobrecarga de expectativas. ‘derrocada da política’. 30 Conforme observa José Eduardo FARIA claro. de problemas como. recíproca autolimitação das possibilidades de ação zar essas clivagens e dirimir esses conflitos de ma. solucionar esses problemas. 119): “Uma se uma autoridade mínima não submetida à parti- situação paradoxal. tendo em vista seus respectivos valo- neira eficaz e coerente – mesmo expandindo seus res. de clivagens políticas. que pretende traduzir-se também em sua mais ser usadas sem criar confusão. antes de conjeturar que “El neoliberalismo se parece y se diferencia del viejo libe- ambos não sabem distinguir um homem de um ralismo. neutrali. a um empresário cujo rendimento é o poder. Pero se diferencian en que aquél ro (e então seria possível sustentar que se equivoca. p. como todas as soluções de com. socialis. “Para garantir a neutralização das organiza- 28 PRZEWORSKI. Neste contexto. coordenação. 195-196): “É esse. pois os centauros não existem)”. mitando os poderes do governo. – retomada. grupos sociais –. Como então cipação política ativa e às demandas sociais. ções sociais – e. em seu meio ambiente. ou a dupla descentralização: ‘é preciso ‘descentralizar’ o po- crítica é apenas aparentemente contraditória. como expressa claramente a afirmação de Friedrich ma de estado – e atente-se que se trata de forma de Von HAYEK. ajus. – tornaram-se tão gastas que não podem governo. selecionar e dar uma resposta a essas institucionalizar mecanismos aptos a viabilizar uma demandas. 123): “Não deixa cedimentos tanto de formação do consenso quanto entretanto de ser iluminante a idéia de Max Weber de tomada de decisão coletiva”. relações es- sociais e de demandas econômicas. de conflitos mas em relações de interdependência. justa- oportuno. ampliada del capital. transforma-se. 218 Revista de Informação Legislativa . 32 tinoamericana de Trabajadores. a fim de que possam maximizar sua seleção e desempenho. flexibilidade. “a no. de co- um sistema político se tornaria ‘ingovernável’ quan. quase grotesca. de tivas. sob a forma de programas econômicos. dívida externa. e de entendida aqui com a capacidade de um sistema implementá-los de modo efetivo. suas estruturas burocráticas e seus ins. dispor”. sua capacidade de satisfazer interesses de eleitores mia. trumentos de intervenção. cujo a adjudicação de recursos da sociedade e do po. o caso do ‘direito reflexivo – reflexividade políticas públicas e planos administrativos. der a fim de que o poder individual – a proprie- que de fato o estado de bem-estar foi (e será talvez dade privada – não seja neutralizado pela orga- ainda por muito tempo. filtrar. apenas privando-o do poder de usar a coerção capitalista pelos marxistas velhos e novos. San Antonio de los Altos: CLAT: Central La. Rodolfo. seu próprio papel. eleitores depende dos recursos públicos de que pode lismo. locar-se a si mesmo no papel de outros sistemas do não conseguisse mais confirmar essas expecta. como finalidade essencial. 1992. Capitalismo e social-de.

direito positivo e enfatizando somente as questões gações e estabelecer as sanções aplicáveis nos casos da validez da norma. pelo contrário. as lacunas 39 Pertence a Tércio Sampaio FERRAZ JÚNIOR reais são de iure conditio (do direito já estabelecido)”. meras implicações de suas funções em sociedades do: ao manchesterismo de ontem corresponde o fortemente marcadas pelo crescente descompasso tatcherismo de hoje. ficar e esclarecer o significado político das profis- tranhas semelhanças entre o fim dos Oitocentos e o sões jurídicas. destacando as palavras de Ralph estarão recebendo uma formação capaz de identi- DAHRENDORF: “Na Europa. BIO (1994. recomendam calorosamente umas políticas ele é. antis. 35 Segundo esclarece Agostinho MARQUES velha tradição normativista-formalista da dogmá- NETO (1999. de ma incontida. foram chama- tempo. p. mais além da ais”. vários fatores que concorrem para a produção do mo. as lutas populares e resultam não apenas da von- destruição ambiental. tade das classes dominantes. da globalização pós-moderna. 141). “A interpretação ou hermenêutica é também um 40 Daí o questionamento de José Eduardo FA. mas da comparação entre ordenamento jurí- que geram pobreza e exclusão social e. mas de uma solução satisfató- saneadas com o remédio neoliberal tenham mais ria. o proletariado precisava ser fica adesão à ordem legal injusta. ou seja. p.147). modo: as lacunas ideológicas são lacunas de iure cupações?” condendo (de direito a ser estabelecido). p. epidemias./dez. ricana e Francesa “não tinham voz para atribuir di. ao se reportar à formação dos lorizada pela filosofia da linguagem e pela filosofia atores jurídicos: “Estarão sendo eles formados na da história. p. mas apenas para prescrever obri. da lares: “. em escala planetária: superpolulação. na dicção de BOB- lar. não da consideração do ordenamento jurídico como nal]. zo pela via jurídica como solução para certos pro- breza. mas a falta de uma norma justa. Ocorre que as normas podem ser um entista. Os indívíduos vivem contra. tica jurídica. nete de Assessoria Jurídica às Organizações Popu- 37 “Enquanto para a sociedade de classes. Uma vez que essas lacunas derivam Mundial] e ao FMI [Fundo Monetário Internacio. reva- RIA (1989. vícios. já p. sem voz. mas do somatório de ploração do trabalho infantil. O despre- responsabilizado e estigmatizado pela própria po. possibilitando-lhes assim um dis- fim dos novecentos. enfatiza: “Não deixa de ser uma curiosa mos. em outras palavras. isto é.. Existem deter- mais visivelmente negativo nas esferas nacionais. minadas leis que favorecem. as ordens jurídicas até as Revoluções Ame. que não fala. não já a falta de uma pobres que nunca e a ‘dívida social’ cresça de for. ao debru- autor. da integração das lacunas e da 36 Registra Plauto Faraco de AZEVEDO (1999. como então. eliminação das antinomias? Ou. 40 n. ao mesmo dico como ele é e como deveria ser. 2003 219 . 160 out. valorizando apenas os aspectos lógico-formais do reitos subjetivos. é associado ideologicamente ao que há de de para a conquista de ganhos reais. a expressão “infância” pro. p. As ‘instituições financeiras internaci. entre a igualdade jurídico-formal e as desigualda- postos uns aos outros. mas que onais’. Podemos também enunciar a diferença deste inegável cota de hipocrisia que permeia estas preo. para a sociedade efici. 140). O desprezo à legalidade reflete uma tenta- 1999.” (ALVES. em des sócio-econômicas?” 41 que prevalecem os mais fortes – ou melhor. definição do ensino É oportuno destacar a advertência de José jurídico predominante no País. porém realista. p. neste particu. Trata-se. ções hipotéticas de dever-ser e cuja preocupação Então. 96-97). fanatismo. que eventualmente se encontrassem no ordenamento mento do flagelo da pobreza na América Latina. No direito a hermenêutica sempre foi Brasília a. as pessoas tanciamento crítico e uma clara consciência das inú- vivem um período de individualismo descomedi. central é a subsunção dos fatos à prescrição legal. 102). aqueles Calha bem o destaque feito por José Eduardo que eram tidos como tais.” cado das regras. Longe de produzir sentimentos de solidarie. que se expressa por meio de proposi- vém de infans. norma. p. criticado sempre que não corresponda aos desejos tência (daí o Welfare State). . ex. sob diversos aspectos. blemas implica o desperdício de uma oportunida- dade. Agora. 225). 43 (1980) a ácida. tiva de se alienar”. 116). violência urbana e criminalidade. terroris. encomendam numerosas pesquisas sobre o das de “ideológicas” para distingui-las daquelas tema e manifestam sua consternação pelo agrava. segundo o Reinaldo de Lima LOPES (1989. em feroz competição. “a falta não já de uma solução. ‘descobrem-se es.. populares.Entende-se por lacuna. O direito deve ser mantido com um mínimo de condições de subsis. da determinação do signifi- de transgressão. do predomínio da “arte de saber fazer sem çar-se sobre a função política do Poder Judiciário: saber por que”. uma norma que se desejaria que existisse. tráfico de drogas. tra de sucesso o fato de que as economias que são qualquer que seja ela. jurídico como ele é. 38 42 Atilio BORÓN (1995. e que se podem chamar de “re- Como se entende essa contradição. quaisquer que fossem as FARIA (1989. ou. direito. 107) a texto produzido pelo Gabi- qualidades que os haviam levado ao êxito”. a utilização de normas vigentes não signi- “antiga modernidade”. o pobre é eficiente instrumento de defesa do povo. eufemismo para se referir ao BM [Banco não existe. tema filosófico fundamental de nosso tempo.

Plauto Faraco de.). manos e o direito internacional. A como. In: MARQUES FILHO. São Paulo: Companhia das AZEVEDO. Rio de Janeiro: Campus. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.: s. e não se pode negar que tal titucional. zada. Direito. gras do jogo. São Paulo: RT. ed. 5. 1999. ANDERSON. melhoria dos níveis educacionais da po. Santos. HOBSBAWM. justiça social e Letras. 2. Postmodernidad y comuni- do Poder Judiciário. 1995. Traducción e Justiça: a função social do Judiciário... 1999. cial. Estado”. P. Brasília: Univer. al Trolta. Cabral de. Teoria do ordenamento jurídico. 1997. N. FARIA. Óscar. 1996. sentido. A era dos direitos. GENTILI. a premente necessidade de se promover a defe. p. Lindgren.). Tradu- ção de Maria Celeste C. 1980. 1999. R. Madrid: Editori. 1980. J. São Paulo: Malheiros. ed. de A. Brasília: ENAP. p. judiciário e a formação do magistrado. 123-144. 1989. Derechos humanos y cons. In: (Org. Tradução de Norma Guimarães Azeredo. E. Os direitos hu. (Org. 1914 – 1991. 1996. Rio de FERRAZ JÚNIOR. Rio de Janeiro: Instituto Libera. 2. etc. J. as adequadas. Manual de direito constitucional. ARRUDA JUNIOR. A. Ática. In: ______ (Org. Paulo. 238. In: FARIA. tais CERLETTI. Curitiba: EDIBEJ. p. 1999. derarmos esta função é perceber o isolamento (Org. O mais importante ao consi- lúvio neoliberal. E. É voz corrente em todo o mundo. In: SADER.. José Joaquim Gomes. A. Friedrich August Von. V. ______.). O futuro da democracia: uma defesa das re. José Antonio Esté- vez Araujo. 2. Agostinho Ramalho. Direito e século HAYEK. 1999. Filosofia do direito e do sidade de Brasília. E.). 1999. A função política BARCELLONA. NEXÕES: trata-se de uma criança. TERNACIONAL DE PSICANÁLISE E SUAS CO- 1992. São Paulo: Ática. 1989. nário juridico. E.). Tradução de Carolina Andrade. 1998. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Estado. O caminho da servi- XXI: conflito e ordem na onda neoliberal pós-mo- dão. p. A ciência do di- Janeiro: Paz e Terra. (Org. J. 3-15. José Reinaldo de Lima. Norberto. 4. Nuria Cunill. ed. Coimbra: Coimbra. 225- ______. MONCADA. n. Atílio. Rio de Ja- neiro: Luam.ed. [S. estabelecimento de condições sanitári. ARAUJO. A declaração dos direitos humanos na pós-modernidade. P. ALVES. Pós-neoliberalismo: rio. 220 Revista de Informação Legislativa . neoliberalismo. ed. Tércio Sampaio. Rio de Janeiro: Forense. Alejandro A. In: BOUCAULT.). al. Ordem legal x mudança social: a crise do var. 44 1995. Derechos humanos y constituciona. 1999. et titucionalismo em la actualidad. lismo ante el tercer milenio. A sociedade civil depois do di- vão prevalecendo. 5. 1983. 1997. Edmundo L. GRAU.]. São Paulo: Héctor Claudio Silveira Gorski. derna: ensaios de sociologia do direito. as políticas sociais e o Estado democrático. Era dos extremos: o breve século XX. Ao fazer isto ele é portador de pontos de vista que BORÓN.. Rio de Janeiro: Reno. Direito e Neoliberalismo: elementos para uma l. por exem- plo.um tema-chave. Rio de Janeiro: Paz e Terra. p. 3. Direito dad: el regreso de la vinculación social. ed. [1990?]. MIRANDA. 1994. José Eduardo. Juan-Ramón Capella. LOPES. Direito Cons- sa do meio ambiente. MARQUES NETO. São Paulo: Atlas. 1996. ______. CORREAS. Walter O. reito. Eric. de (Org. 1995. Pietro. leitura interdisciplinar. 139-166. Tradução de ralismo: o direito na infância: In: CONGRESSO IN- Carlos Nelson Coutinho. recuperação da saúde pública Brasília: Universidade de Brasília. Direito e Justiça: a função social do Judiciá- SADER. KOHAN. Perry. Coimbra: Almedina. 95-110. O direito na economia globali- C. Pós-neoliberalismo: as políticas sociais e o social e político do Judiciário na atual crise do Estado democrático. Do Estado liberal ao Estado so- os limites e o sentido das leis e dos atos do Estado. In: ______. Jorge. filosofia no ensino médio: caminhos para pensar seu pulação. Rio de Janeiro: Revan. GENTILI. ed. Coimbra: Coimbra. A. L. Balanço do Neoliberalismo. 6. CANOTILHO. 1996. Repensando o público através da sociedade: novas formas de gestão pública e repre- Bibliografia sentação social. El neoliberalismo en el imagi- 45 PÉREZ LUÑO. meta remete à solução de inúmeros outros impas- ses umbilicalmente vinculados a essa questão. E. Neolibe- BOBBIO. As decisões dos tribunais fixam BONAVIDES. Tradução de Marco Aurélio Nogueira.

1999. Ingo Wolfgang. Dario. Os direitos fundamen- tais sociais na constituição de 1988. 2. O contrato social.RAWLS. São Paulo: Martins Fontes. v. Miguel. Subjectividade. John. Brasília: UnB. ed. Uma teoria da justiça. Introdução à filosofia. 1990. 40 n. Tradução de Joel Pimentel de Ulhôa. Direito público em tempos de crise: estudos em home- dência. São Paulo: ROUSSEAU. REALE. História da fi. 2./dez. REALE. In: ______. São Paulo: cidadania e emancipação. Pela mão de Paulus. 1997. In: ______. 129-173. 1996. 160 out. Giovanni. 1994. do Advogado. ed. ed. São Pau- lo: Saraiva. Pierre. A crise do Estado-provi. p. 3. 3. SANTOS. 2. Martins Fontes. Brasília a. São Paulo: Cortez. Alice: o social e o político na pós-modernidade. SARLET. 1999. losofia: do humanismo a Kant. Porto Alegre: Livraria nia: UFG. 1997. O ROSANVALLON. 2003 221 . Goiâ. Boaventura de Sousa. Jean-Jacques. ANTISERI. nagem a Ruy Ruben Ruschel. ed.