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Em seus estudos clínicos com as histéricas, Freud constatou que existia uma realidade muito

particular, e que esta realidade se expressava por meio dos sintomas que apareciam no corpo
de suas pacientes. Essa realidade, que ele denominou fantasias, instigou o rumo de suas
investigações. Assim, por meio da “associação livre” da fala das pacientes, foi descobrindo que
as fantasias eram construídas por experiências vividas na infância, e que diziam da verdade do
sujeito. A escuta dessas verdades que as pacientes relatavam sem saber levou Freud a postular
a existência do inconsciente.

Freud ([1915] 2006, p. 177-178), ao trabalhar a noção de inconsciente, apresenta também a


noção do aparelho psíquico. Afirma que:

[...] um ato psíquico passa por duas fases quanto a seu estado, entre as quais
se interpõe uma espécie de teste (censura). Na primeira fase, o ato psíquico é
inconsciente e pertence ao sistema Ics; se, no teste, for rejeitado pela censura,
não terá permissão para passar à segunda fase; diz-se então que foi
“reprimido”, devendo permanecer inconsciente. Se, porém, passar por esse
teste, entrará na segunda fase e, subsequentemente, pertencerá ao segundo
sistema, que chamaremos de sistema Cs.

Assim, o aparelho psíquico em Freud é constituído a partir de sistemas com características e


lógicas diferenciadas, mas ao mesmo tempo articuladas. O inconsciente em Freud é um
sistema com conteúdos recalcados, os quais são recusados pelo pré-consciente-consciente ao
sofrer a ação do recalque. As representações psíquicas não suportadas pelo Ego (consciente)
são recalcadas, passando então ao Id (inconsciente) e pelo crivo do superego (regulador
moral). Para o autor, a personalidade é resultante da dinâmica dessas três instâncias psíquicas.

A construção psíquica é um processo pelo qual o bebê humano precisa passar para que venha
a se constituir enquanto sujeito. Freud ([1905], 2006) explica que o infans, ao nascer, por sua
dependência, precisa do outro para lhe dar um lugar de existência e, para isso, é necessária a
linguagem.

A criança nasce como uma espécie de folha em branco, e para que nela se inscreva algo, é
preciso que outro igual, da mesma espécie, o faça por meio de significantes1 . Esses
significantes é que marcam o nascente. Ao retirar o seio, a mãe constrói a falta do objeto. O
infans vai assim se subjetivando à medida do que experiencia ao ser atravessado pelos
significantes da mãe. Tendo um corpo biologicamente normal, vai estar propenso à
subjetivação por meio das marcas deixadas pelo “Outro”2 . Essa falta inaugura o nascente pela
marca que a mãe imprime em seu corpo.

Para que se estruture um sujeito, a falta é necessária, pois o ato da provocação gera nesta
criança a pulsão como representante do biológico, a qual só pode ser aliviada por meio do

1
Parte-se do pressuposto de que a vida psíquica de um ser humano é inaugurada por um significante.
Este é fundado pelo mapeamento pulsional, que, ao ser empenhado no corpo do nascente, contorna a
falta e faz a função da apresentação do objeto. A mãe ao manusear, amamentar, suprir as necessidades
do infans é que vai deixar marcas.
2
Grande Outro – expressão usada por Lacan para denominar a pessoa que virá a significar
manifestações da criança, inscrevendo no seu corpo marcas que ficam na sua memória.
outro (objeto). É esse outro que pela repetição vai inscrever no filho o traço de memória.
Desta forma, a mãe amamenta seu filho aplacando sua fome (mal-estar) e ao retirar o seio
(satisfação) desperta no bebê uma tensão no sentido de desejar que esse outro (mãe) deseje
suprir o que sempre vai faltar. A marca que fica pelo objeto faltante é o que desenha no
inconsciente o objeto do desejo.3 A pulsão, assim, é a propulsora do desejo.
Constitutivamente, o significante causador da falta vai estar sempre num lugar de objeto
faltante no imaginário do bebê, enquanto o real do vazio lhe causa o desejo.

No início existe um Outro, a mãe, e o desejo desta de suprir o bebê das suas necessidades de
sobrevivência. É no suprir que o infans constrói a demanda. A demanda é um pedido recíproco
tanto do filho à mãe quanto da mãe ao filho. A demanda é apresentada assim como um
atrelamento, pois o nascente projeta todos os seus desejos na mãe e pretende que ela os
realize. Para Lacan (1999, p. 96) o desejo é:

[...] uma defasagem essencial em relação a tudo o que é, pura e simplesmente,


da ordem da direção imaginária da necessidade – necessidade que a demanda
introduz numa ordem outra, a ordem simbólica, com tudo o que ela pode
introduzir aqui de perturbações.

Para o autor, a demanda desperta o desejo de que o filho seja aquilo que supõe a mãe desejar.
Nessa unicidade regida pelo desejo ela permite que o filho, em um primeiro momento, esteja
atrelado a ela como um só corpo. Nesse laço libidinal entre mãe e bebê são inauguradas as
zonas erógenas do filho, definidas no manuseio das partes do seu corpo pela mãe. Por
intermédio do toque e da fala que a mãe dirige a esse que chora, respondendo ao filho, ela
supõe saber a razão do seu choro. Possuidora desse saber, a mãe investe no corpo carne,
mapeando uma zona erógena no corpo do filho e o amarrando a significantes. Ou seja, a mãe,
como Outro de linguagem, vai significando um corpo e, ao mesmo tempo, o nomeando, dando
um lugar a este pequeno ser no discurso.

A mãe amamenta o filho, suprindo sua fome e ao mesmo tempo instalando nele o prazer. Isso
significa pôr em movimento seus orifícios pulsionais, ou seja, provocar a erotização do corpo
numa antecipação de que aí se trata de um sujeito. Ela oportuniza ao bebê o início da
constituição psíquica. Essa constituição só é possível quando o infans passa a investir em outro
objeto que não só o seio materno, elegendo uma parte de seu corpo ou qualquer outra coisa
que lhe proporcione prazer. Esta fase é denominada por Freud ([1905], 2006), como
autoerótica.

3
“Aqui encontramos uma coisa que se pode chamar de necessidade, mas que desde logo chamo de
desejo, porque não existe estado originário nem estado de necessidade pura. Desde a origem, a
necessidade tem sua motivação no plano do desejo, isso é, de alguma coisa que se destina, no homem,
a ter uma certa relação com o significante. Aí está a travessia pela intenção desejante do que se coloca
para o sujeito como a cadeia significante – quer a cadeia significante já tenha imposto suas exigências na
subjetividade dele, quer, bem na origem, ele só a encontre sob a forma disto: de ela estar desde logo
constituída na mãe, de ela lhe impor, na mãe, sua exigência e sua barreira. [...] depara inicialmente com
a cadeia significante sob a forma do Outro, e ela desemboca nessa barreira sob a forma da mensagem”.
(LACAN, [1957-1958], 1999, p. 227).
No chuchar4 o dedo, o ato de exercer a sucção confirma que aboca foi mapeada pela mãe
como a primeira “zona erógena” (FREUD [1905], 2006, p. 172), a partir da qual passou a
alimentar o filho e por meio da qual a criança desencadeia o processo da sexualidade. O
chupar não só sacia sua fome, mas também lhe proporciona prazer. Ao sugar o seio ou
qualquer outro objeto que o nascente elege como fonte de satisfação, o ato vai lhe provocar o
desejo de repetição. Essa fase, que também se denomina “canibalesca”, é a primeira na
organização sexual infantil, e consiste em renunciar o “objeto alheio em troca de um objeto
situado no próprio corpo” (FREUD [1905], 2006, p. 187). Esse ato provoca o prazer pela
repetição, esvaziando a pulsão, e ao mesmo tempo oportuniza ao bebê o início da constituição
psíquica.

4
Chuchar: “(sugar com deleite), ao qual o pediatra húngaro Lindner (1879) dedicou um excelente
estudo”; expressão usada por Freud ([1901-1905], 2006, p. 169) para explicar o chupar que a criança
exerce na mais tenra idade.