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Contraponto

CONTEXTO SOCIAL: O
MUNDO DO TRABALHO, A
,
FAMILIA E OS "ETERNOS"
ADOLESCENTES
Maria Ester de Freitas

Este artigo é o resultado de uma organizacional tem recebido de outras e as mulheres que todo dia vão para o
palestra proferida num simpósio sobre disciplinas que o aporte que ele tem trabalho não deixam em casa uma par-
a adolescência, I atendendo a um con- fornecido. te de si para tornarem-se apenas pro-
vite que eu recebi com muita surpre- fissionais~les continuam sendo pais,
sa. Surpresa pelo fato de não ter uma mães, filhos, maridos e esposas e, por-
formação específica nas áreas que nor- Heje, há um certo mal- tanto, afetam o que ocorre no mundo
malmente se ocupam da questão da do lar, no seio da família, e são por
estar manifestado ele afetados. A esfera' do trabalho re-
adolescência. No entanto, foi uma sur-
presa que, progressivamente, se trans- pelas incertezas clama cada vez mais uma exclusivi-
formou num prazer na medida em que dade, o que, certamente, não se dá sem
vividas nas sociedades causar um grande impacto na vida fa-
esse convite traduz uma abertura aca-
dêmica que ao meu ver é cada vez do Ocidente e que se miliar e, especialmente, na forma de
mais pertinente. Ou seja, diante de convivência com os filhos.
traduz, às vezes, pelas O meu interesse pelo tema Adoles-
uma realidade cada vez mais comple-
xa e multifacetada, é o esforço inter e angústias identitárias cência surgiu de uma maneira que, eu
multidisciplinar que pode nos condu- diria, foi quase tangencial a uma ques-
e pelas tentativas de tão maior do que aquela com a qual eu
zir a uma compreensão melhor do
mundo em que vivemos. reconstrução, tive que me defrontar durante a elabo-
A minha formação tem sido dire- ração da minha tese de doutorado.' Eu
perplexidade ante as tentava responder a uma pergunta que
cionada para o estudo das organiza-
ções e da administração privada e pú- bifurcações e busca de era basicamente a seguinte: por que as
blica. Esses estudos sempre se bene- empresas estão assumindo cada vez
orientação. mais o papel de ator central nas socie-
ficiaram da contribuição de várias ou-
tras disciplinas sociais e humanas, dades modernas? A investigação que
entre elas a Economia, a Sociologia, eu empreendi me levou à necessidade
a Psicologia, a Antropologia e, mais Não podemos esquecer, todavia, de conhecer vários autores fora da mi-
recentemente, a Psicanálise. Dessa que o mundo do trabalho implica re- nha área específica e à constatação de
forma, é mais visível o aporte que o lações múltiplas com as di versas ins- uma crise de identidade na sociedade
corpo teórico administrativo e tituições da sociedade, pois os homens moderna que encerra vários aspectos,

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CONTEXTO SOCIAL: O MUNDO DO TRABALHO, A FAMíLIA E OS "ETERNOS" ADOLESCENTES

que eu gostaria de apresentar de uma tificação dos indi víduos nas socieda- especialmente nas esferas tecno-
forma mais ou menos breve. des contemporâneas, a ARIP - econômica, política e cultural, sen-
Especialmente nos últimos cin- Association pour la Recherche et do que a primeira estaria contami-
qüenta anos, as sociedades modernas, l'lntervention Psychologiques -, em nando as demais;
particularmente as ocidentais, têm Paris, promoveu um colóquio em • fragilização das bases identitárias
passado por um processo de mudan- 19893 reunindo cientistas de várias es- e suas variantes: perda da ancora-
ças extremamente acelerado e que pecialidades: filósofos, sociólogos, gem do universo simbólico susten-
comporta, entre outras características, psicólogos, psicanalistas, psicosso- tado pela história, tradição,
a elevação do nível mundial de ensi- ciólogos, entre outros. Esse grupo de- genealogia familiar, ou seja, um
no e pesquisa, a "hegemonia" do ca- senvolveu uma perspectiva conjunta e núcleo estável e coeso; perda das
pitalismo como o melhor sistema eco- apresentou algumas teses sobre as cau- mediações entre o psicoafetivo e o
nômico, a tecnologia como uma for- sas dessa crise ou, no mínimo, desse social; perda da relação de apoio
ma de vida e a entrada maciça da mu- mal-estar nas socíedades de hoje. sobre os dois pais, considerando a
lher no mercado de trabalho. Cada regressão do casamento e a
uma dessas variáveis exerce influên- ambivalência nas relações de lon-
cia sobre as demais e gera uma cadeia A sociedade hoje, tal go prazo.
de implicações cada vez mais comple- Jean Maisonneuve situa sua tese no
xa quanto mais rápida é a sua interfe- qual está, não tem âmbito das condutas e comportamen-
rência no mundo social. Os impactos tos, nos quais especialmente os ritos
mais respostas para
dessas e de outras mudanças têm se e rituais (particularmente os de pas-
feito sentir em todos os aspectos da sua auto- sagem) têm deixado de cumprir as
vida e em todos os agentes do cenário suas funções, existindo uma diluição
representação, o seu
social. Os universos da família, da re- das fronteiras entre as idades e etapas
ligião, do trabalho, da escola, da mo- autoquerer e, da vida. Essa confusão gera uma enor-
raI, da ética e também da pátria têm socialmente falando, me dificuldade de identificação, alte-
passado por grandes modificações, que ra as fontes de referências e de segu-
são em grande medida conseqüências não tem mais como rança dos indivíduos e grupos sociais.
e causas daquelas variáveis. Jean-Claude Rouchy acentua a fra-
saber onde está o
A sociedade como um todo e as or- gilidade das fontes de identificação e
ganizações têm sido sacudidas por es- sentido vivido como dos grupos de filiação. Tanto os gru-
sas transformações, mas especialmen- pos primários (responsáveis pela cons-
imortal pelos homens
te os indivíduos e as famílias sentem tituição da auto-estima e da responsa-
o seu peso de maneira mais forte, ain- e mulheres bilidade) quanto os secundários (a
da que de forma não muito palpável. convivência com o outro, o diverso, a
contemporâneos.
Não se trata apenas de reflexos e ajus- alteridade) estão sendo esvaziados de
tes às novas exigências que são a eles suas funções e a passagem do
colocadas, mas da necessidade de intrapsíquico para o psicossocial está
compreender e acomodar uma nova Apresento, a seguir, alguns dos pon- enfraquecida.
forma de vida, calcada em novos va- tos que mais me chamaram a atenção: André Nicolai nega que exista uma
lores, significações e referências que Jacqueline Palmade agrupa quatro crise, mas assume a existência de um
não estão ainda claras para ninguém. correntes: mal-estar, que é manifestado pelas in-
Antes de entrarmos no universo es- perda de fundamentos, transcen- certezas vividas hoje nas sociedades do
pecífico da família, que vai conter al- dência, sublimação como perda de Ocidente. O mal-estar se traduz, às ve-
guns aspectos da discussão sobre a sentido; esfacelamento da religião, zes, pelas angústias identitárias e pelas
adolescência, eu gostaria de pontuar da moral, da ética, do sagrado; cri- as tentativas de reconstrução, perple-
alguns argumentos a respeito dessa se do saber e sua legitimação; va- xidade ante as bifurcações e busca de
crise de identidade, ou melhor, crise lores sublimes invadidos por valo- orientação. Surgem três manifestações
no processo de identificação dos indi- res de mercado; de mal-estar: o narcisismo das peque-
víduos, tendo como pano de fundo este enfraquecimento dos vínculos so- nas diferenças (tribos, segundo a deno-
século, mais precisamente a sua segun- ciais e surgimento de um novo in- minação de Michel Maffesoli), o novo
da metade. di vidualismo, gerador da perda das individualismo (idealização do suces-
Com a proposta de desenvolver referências indispensáveis à cons- so pecuniário) e os intermináveis ado-
uma abordagem pluralista sobre a tituição do vínculo social; lescentes, de Tony Anatrella, que deta-
questão da crise no processo de iden- • c1ivagem das identificações sociais, lharemos adiante.

© 1998, RAE Ught / EAESP / FGV, São Paulo, Brasil. 3


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Castoriadis é, de todos os autores cios, a redução do tamanho da famflia e mais rescindir de um segundo salário
que participaram desse colóquio, a redefinição do conceito de família nu- para compor o orçamento familiar, isto
aquele que carrega mais fortemente clear são alguns dos sinais mais visí- dito apenas para nos atermos às razões
nas tintas e diz claramente que não veis das mudanças ocorridas nesse econômicas. Certamente existem ou-
apenas existe uma crise de identida- contexto. Houve, ainda, uma grande tras exigências tão importantes quan-
de, como essa crise atinge um elemen- mobilidade geográfica que transferiu to as econômicas, mas que não iremos
to central do processo de hominização para o anonimato das grandes cidades detalhar.
social. O processo de identificação um enorme contingente populacional, O ambiente mais competitivo ele-
passa por vínculos que não existem que se afastou progressivamente de va o nível de exigências sobre todos
mais na sociedade ou estão caducos. seus laços familiares e de vizinhança. os segmentos profissionais, que dis-
Não é apenas uma crise de valores, putam arduamente o seu lugar e a pos-
mas uma crise das significações ima- sibilidade de mantê-lo. Progredir no
ginárias sociais, ou seja, da sociedade trabalho significa, hoje mais que em
A entrada da mulher
no seu conjunto. Toda sociedade cria qualquer época, fazer-se necessário e
o seu próprio mundo elaborando jus- no mercado de fazer-se necessário significa estar apto
tamente as significações que lhe são a promoções e aproveitar as oportuni-
trabalho provocou
específicas. A sociedade hoje, tal qual dades que surgem. O clima de ameaça
está, não tem mais respostas para sua uma série de de desemprego, a exigência cada vez
auto-representação, o seu autoquerer mais forte de uma dedicação exclusi-
alterações no quadro
e, socialmente falando, não tem mais va, a sobrecarga de trabalho para os
como saber onde está o sentido vivi- familiar, que vai desde sobreviventes das reestruturações e o
do como imortal pelos homens e mu- ritmo cada vez mais acelerado exigi-
a opção de não casar
lheres contemporâneos. No mundo do do para se aprender as novas qualifi-
cassino, da aparência, do vale pelo que até a opção de não ter cações são responsáveis por uma ele-
se tem, a auto-representação de si e do vação do nível de estresse no mundo
filhos.
social se empobrece e perde sentido. atual do trabalho. Quem quiser sobre-
É aqui, no meio desses questiona- viver está condenado a vencer e a
mentos, que eu gostaria de incluir um apresentar resultados de produtivida-
outro aspecto do cenário: o mundo do A entrada da mulher no mercado de de recorde a cada dia.
trabalho. A supervalorização do prima- trabalho provocou uma série de altera- Ainda que exista hoje uma melhor
do econômico e do sucesso profissio- ções no quadro familiar, que vai desde distribuição das tarefas domiciliares, a
nal coloca a esfera do trabalho como a opção de não casar até a opção de não mulher é ainda a grande responsável
aquela que pode dar a referência glo- ter filhos. Os movimentos dos anos 60, pelo funcionamento da casa e pelo
bal do indivíduo. Esse universo sofreu que tinham a mulher como um de seus acompanhamento da educação dos fi-
mudanças drásticas nos últimos anos, eixos temáticos, trouxeram à tona a dis- lhos. Mães casadas e descasadas, que
com o desaparecimento, o surgimento cussão sobre um tratamento social mais criam seus filhos sozinhas, se vêem ante
e a desvalorização de algumas profis- igualitário, puseram em xeque o refe- a quase compulsoriedade de abrir mão
sões, uma elevação enorme do nível de rente masculino e também reivindica- de parte do tempo da licença-materni-
cobranças do meio profissional e uma ram o direito de decidir sobre o seu dade com receio de serem consideradas
ameaça crescente de perda do empre- corpo, retirando da igreja e dos padres desatualizadas no seu retomo ao traba-
go. Essa ameaça é oriunda, em boa a grande influência sobre questões so- lho e de perderem o seu lugar tão difi-
medida, das reestruturações nas orga- bre a sexualidade e a não-manutenção cilmente conquistado. Existe uma chan-
nizações, estimuladas por uma maior de casamentos indesejados. Houve uma tagem implícita, silenciosa, que leva a
competitividade e pelas incorporações ruptura com o modelo pregado pelas mulher a retornar, espontaneamente,
tecnológicas feitas, que, em vários se- avós, que dizia: "ruim com ele, pior mais cedo ao trabalho após o parto.
tores, mais dispensa que precisa do tra- sem ele". Os pais, quando estão presentes,
balho humano. Esse contexto vai afe- Esse novo estilo de vida, orienta- também estão correndo na selva, tra-
tar diretamente o uni verso familiar, que do em grande medida, mesmo que não balhando de doze a quatorze horas por
também foi alterado radicalmente nes- exclusivamente, pela própria necessi- dia (uma jornada de oito horas é hoje
tes últimos anos. dade econômica de manter a família considerada por algumas empresas
A questão de estabilidade da farní- depois de uma separação ou divórcio, como um part-time job) ou ligados na
lia é hoje um dado incontestável. A coloca uma nova exigência: a de cui- rede da empresa, com o computador
queda dos índices de casamento, o au- dar da carreira. Mesmo uma grande na sala de jantar ou no quarto. O mun-
mento vertiginoso do número de divór- maioria dos casais de hoje não pode do do trabalho, hoje, coloca outras exi-

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CONTEXTO SOCIAL O MUNDO DO TRABAlHO, A FAMíLIA E OS "ETERNOS" ADOlESCENTES

gências além daquelas oriundas da não têm estrutura para assumir a tarefa Os pais da geração dos anos 60 (hoje
presença física; a disponibilidade tam- própria dos laços primários. As crian- um alvo fácil das reengenharias) de-
bém deve ser exercida no lar, o que ças de hoje são estimuladas muito cedo monstram uma grande incapacidade de
significa que, mesmo em casa, muitos a sentirem-se independentes, a apren- assumir autoridade e de interiorizar o
pais estão ausentes. Estressados, co- derem a se virar. Esse sentimento de poder do pai. Diz-se hoje que vivemos
brados, confusos, divididos, angustia- independência é falso, pois uma crian- em uma sociedade sem pais. Essa difi-
dos, acabam por desenvolver um com- ça ou adolescente que é alérgico à frus- culdade frente à autoridade conduz a
portamento escapista na ponta mais tração não desenvolve o psiquismo ne- uma prática cada vez mais em uso, que
frágil. Esse escapismo pode ser tradu- cessário nem à sua autonomia nem à é a de considerar a família uma demo-
zido em concessões unilaterais aos sua real independência. cracia. Ora, a família não é uma entida-
desejos dos filhos, em omissões e jo- de política e nem tudo é negociável;
gos de faz-de-conta. Dizer sim é mui- existe nela uma desigualdade natural em
to mais fácil, mais cômodo, mais prá- relação a idades, experiências, maturi-
Para muitos adultos a
tico, mais econômico. dades, responsabilidades e história. Ver
Sem muita saída para conciliar a necessidade de a autoridade como algo noci vo ou a ser
vida nesses dois universos, que recla- evitado apenas ajuda a aumentar a con-
permanecer [evem e
mam cada vez mais atenção, especial- fusão e a indiferenciação entre os mem-
mente as mães (o problema é novo companheiro de seus bros da família e seus papéis. São os
para elas) levam seus filhos do berço próprios pais que desqualificam o pa-
filhos, não assumindo
para a creche, o que gera um enorme pel da autoridade e dele abdicam; são
sentimento de culpa e impotência. E é o seu papel e a sua eles que não estão convencidos da sua
no sentimento de culpa que uma boa autoridade e o demonstram; eles estão
autoridade, é uma
parte do relacionamento entre pais e presos nas armadilhas que eles pró-
filhos vai se apoiar daí para frente. forma de evitar seus prios criaram sem querer, tornando-se
Sabemos que a socialização primá- reféns dos filhos carentes. Seria neces-
próprios conflitos
ria é aquela que ajuda a criança a co- sário assegurar que o amor não está em
nhecer limites, mas também a de cons- psíquicos, inclusive com risco, que as decisões que são tomadas
tituição do laço afetivo, é importante não são contra os filhos, mas para eles.
o superego parental.
na construção da auto-imagem e auto- Se uma proibição não é clara e não é
estima. A criança se forma em parte compreendida, ela é sentida como in-
devido ao que lhe é dado, mas tam- justa. O casal deve concordar com rela-
bém em parte graças ao que lhe é re- Sufocados pelo sentimento de cul- ção a alguns pontos e a criança deve
cusado, pois se ela não aprende a li- pa e impotentes para resolver a ques- saber que a ordem não é de um dos pais,
dar com o não ela se tornará mais frá- tão do tempo dedicado aos filhos, os mas de dois. No caso monoparental a
gil, não aprenderá a lidar com a frus- pais tentam compensar a ausência as- decisão deve ser consistente," o que im-
tração e o convívio externo. Supomos sumindo um comportamento permissi- plica reduzir ao máximo as mensagens
que, quando uma criança é privada vo, não tendo coragem de dizer não, contraditórias em relação aos problemas
dessa vivência, ela terá maiores difi- não impondo limites e proibições, além do mesmo tipo, pois, se para cada nuança
culdades de superar as etapas que de não afirmar ou assumir a sua autori- a criança tem respostas diferentes e con-
constituirão a sua personalidade. dade. Entulhados com brinquedos e traditórias, ela não conseguirá organizar
A socialização secundári a, que tranqueiras de todos os tipos, presos à um quadro referencial na sua cabeça e
hoje ocorre cada vez mais cedo, regu- televisão e cuidando sozinhos de si, os não desenvolverá a sua capacidade de re-
la a relação social, mas sem o apoio filhos dominam o território e invertem solver esse tipo de problema.
afetivo. O convívio institucional nas a chantagem familiar tradicional. Apoia- Em todas as épocas é comum a ten-
mais tenras idades, através de creches das num argumento extremamente tativa de corrigir erros da geração an-
e escolinhas, não pode substituir aqui- falacioso, as crianças de hoje desafiam terior. No que diz respeito à geração
lo que é próprio do universo familiar. os pais simplesmente lhes dizendo que dos anos 60, ocorre muito mais que um
À medida que cresce, a criança de hoje "não pediram para nascer", como se equívoco bem-intencionado. O medo
vai assumindo uma agenda de compro- alguém nascido neste mundo tivesse de repetir os erros de uma educação
missos semelhante à desempenhada feito o pedido. Os pais caem no ardil e tida como repressiva leva muitos pais
por adultos, com atividades que cum- podem passar o resto de seus dias pe- a adotarem uma atitude omissa, cujo
prem mais a função educativa equili- dindo desculpas por terem cometido o resultado comumente é o inverso do
brada. As escolas, por mais bem pre- sacrilégio de não ter um consentimen- que pretendem. Crianças e adolescen-
paradas que estejam (e elas não estão), to assinado por "bebês-majestades". tes precisam de limites, parâmetros,

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proibições e referências; precisam da comunicação com os filhos acabam seus filhos precisando de ajuda e não
aprendizagem do risco, ou seja, saber adotando comportamentos (vestir-se, admitem que eles próprios também
assumir as conseqüências da opção divertir-se) e atitudes (inclusive a lin- estão carentes dela. Muito provavel-
feita diante da "lei". Muitos pais não guagem) que são próprios dos filhos, mente não se pode fazer muita coisa
percebem que, ao tentar não reprodu- dando origem a uma sociedade por um adolescente transgressor, ego-
zir o erro de seus pais na educação que "adolescentrique", na qual as diferen- ísta, manipulador sem fazer algo pe-
dão aos seus filhos, estão apenas ten- ças entre as gerações passam a ser ne- los seus pais.
tando "consertar" uma situação-fan- gadas, reduzidas ou pseudo-elimina- Por fim, estimulados desde a mais
tasma antiga, que é exclusiva deles e das. Os modelos irmãos-irmãs, amigo- tenra idade a fazer contatos e a viver
de seus cadáveres. A relação com os cúmplice, ou seja, horizontais, levam em grupos instáveis, móveis e transi-
seus filhos não é a relação que eles ti- à constituição e manutenção de per- tórios, os adolescentes acabam desen-
veram com seus pais. Muitos pais não sonalidades sem genealogia, sem in- volvendo contatos numa rede de es-
punem porque verdadeiramente são corporar as diferenças de gerações, e tranhos íntimos que vai se constituir
impotentes para assumir o poder da não proporcionam identificações num grupo-tribo de referência. O
sua autoridade, outros porque têm estruturantes, mas apenas identifica- narcisismo próprio da adolescência, ao
medo de perder o amor dos filhos ou ções laterais e transitórias. invés de ser promotor de diferencia-
arranhar a sua imagem no pedestal em Quando a diferença das gerações é ção e individuação do sujeito, pode
que pensam estar colocados. negada, é negada também a noção de levá-lo ao conformismo, ao desapare-
Segundo Tony Anatrella" a adoles- passado, de tempo e de história, ou seja, cimento de si nas relações grupais.
cência é a idade privilegiada do século o próprio sucesso de aprendizagem e Aqui o narcisismo atinge um parado-
XX, especialmente depois dos anos 50. educação perde o sentido. As referên- xo bem singular: ser igual a todo mun-
O peso numérico dessa faixa etária na cias vão se situar no hoje, no imediato, do, encontrar-se nos outros para dis-
distribuição das idades de um país dá no agora, e mata-se a própria memó- solver a incapacidade de ser um si-
uma idéia de seu futuro promissor (ou ria. No modelo horizontal a função mesmo. Freud, há muito tempo, já nos
dava, até pouco tempo atrás, quanao o educativa é exercida muito mais como falou dos perigos do narcisismo das
desemprego ainda não atingia essa fai- uma forma de sedução, de persuasão ou pequenas diferenças ...
xa de idade). Mil pesquisas são feitas e de convencimento, pois ela tem dificul-
divulgadas para saber-se a opinião dos dade de expressar a lei. A figura do pai
jovens, como se comportam, o que con- oscila em um meio caminho entre o tio NOTAS:
sideram como desejável e o que é futu- e o irmão mais velho. A mãe-amiga-
cúmplice escuta e faz confidências, 1. Palestra proferida no simpósio "As vi-
ro para eles. Existe nas sociedades atu-
cissitudes da adolescência", promovido
ais uma supervalorização do jovem e como se o(a) filho(a) fosse um adulto
pelo Departamento de Psiquiatria da Uni-
da imagem jovem. Envelhecer é uma com toda a sua maturidade psíquica e
versidade Federal de São Paulo, em 23
doença a ser evitada a todo preço. pudesse suportar o peso e a intensida- de agosto de 1997.
O tempo da infância foi reduzido, de das experiências próprias da vida
adulta. Confiança passa a ser uma ques- 2. Tese apresentada à EAESPfFGV sob
pois, com a melhoria das condições de
o título Cultura organizacional: sedução
vida, saúde e nutrição, a puberdade tão de tudo dizer ao outro, independen-
& carisma, defendida em abril de 1997.
ocorre mais cedo, a eclosão de com- temente se o outro pode ou não absor-
portamentos sexuais também ocorre ver o que é dito. Cada vez mais a ma- 3. Ver o n úme ro 5 da Revista
mais cedo e a adolescência se prolon- turidade psíquica não é sincronizada Connexions, intitulado Malaise dans
I'identification, Paris, Erês, 1990/1.
ga nos seus limites inferior e superior, entre o desenvolvimento corporal, a
indo dos 12 aos 30 anos. O tipo de po- maturação afetiva, as modificações da 4. Ver Dr. Delaroch, Patrick. Parents:
sicionamento dos pais, que fogem da personalidade, o acesso ao pensamen- osez dire non! Paris: Albin Michel, 1996.
autoridade, se modifica e assume um to formal, a inserção profissional e a 5. Ver Anatrella, Tony. Interminables
caráter mais informal, mais horizon- consciência de responsabilidades. adolescences: les 12/30 ans. Paris: Cerfl
tal, mais próprio da confraria, dos Para muitos adultos a necessidade Cuias, 1988.
companheiros, dos cúmplices. de permanecer jovem e companheiro
Alicerçado no complexo de culpa, de seus filhos, não assumindo o seu
a perda do vínculo vertical traz con- papel e a sua autoridade, é uma forma
seqüências profundas na maneira de de evitar seus próprios conflitos psí-
viver essa adolescência e no processo quicos, inclusive com o superego Maria Ester de Freitas
de individuação desses adolescentes. parental. Adultos infantilizados pare- Professora do Departamento de
Os pais, por seu lado, buscando pare- cem ser um caso mais grave que o de Administração Geral e Recursos
cer modernos e melhorar os canais de adolescentes infantilizados; eles vêem Humanos da EAESP/FOY.

6 RAE Ught • v. 5 • n. 2