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Análise Revista de Administração da PUCRS

Porto Alegre, v. 23, n. 1, p. 19-30, jan./abr. 2012

Reflexões teóricas sobre confiabilidade e validade em


pesquisas qualitativas: em direção à reflexividade analítica
Theoretical reflections on reliability and validity in qualitative research:
towards analytical reflexivity
Danielle Regina Ullricha
Josiane Silva de Oliveirab
Kenny Bassoc
Monize Sâmara Visentinid

Resumo: A orientação em direção à prática e à ação social nas pesquisas qualitativas


possibilita discutir os procedimentos metodológicos empregados nestes estudos para
além da problemática de sua dimensão operacional. Nesse sentido, os critérios utilizados
para a operacionalização desses estudos implicam o reconhecimento das articulações das
dimensões ontológicas, epistemológicas e metódicas destas pesquisas, onde podemos situar
estes debates no campo da reflexividade analítica. Dentre esses critérios, este ensaio teórico
objetiva discutir a confiabilidade e a validade nas pesquisas qualitativas, aprofundando a
compreensão deste contexto, a fim de superar os debates critericistas e operacionais. A
problematização dos critérios de confiabilidade em pesquisas qualitativas se refere ao
estabelecimento de mecanismo sistemáticos e confiáveis das formas de apreensão da
dinâmica social. Já para a verificação da validade são apresentados diferentes enfoques,
como a validade transacional, a transformacional, a aparente, a instrumental e a teórica.
A discussão apresentada propõe uma avaliação da confiabilidade além dos procedimentos
metodológicos empregados, partindo em direção à reflexividade analítica. Cumpre-se com a
premissa básica de tratar o critério da confiabilidade em termos ontológicos, epistemológicos
e metódicos e sintetizam-se alguns dos critérios tradicionais e novos que podem ser adotados
no sentido de ampliar a confiabilidade e validade na pesquisa qualitativa.
Palavras-chave: Pesquisa qualitativa. Confiabilidade. Validade. Reflexividade.

Abstract: The orientation toward the practice and social action in qualitative research allows
discussing the methodological procedures employed in these studies beyond the issue of
its operational dimension. In this sense, the criteria used for the operationalization of these
studies imply the recognition of the dimensions of the joints ontological, epistemological
and methods of this research, where we can situate these debates in the field of analytical
reflexivity. Among these criteria, this theoretical paper aims to discuss the reliability and
validity in qualitative research, to develop understanding of this context in order to overcome
the critical and operational debates. The reliability criterion in qualitative research refers to
the establishment of a mechanism of systematic and reliable ways of understanding social
dynamics. For the validity verification in qualitative studies are presented different approaches,
such as transactional, transformational, apparent, instrumental and theoretical validity. The
discussion presented proposes a reliability evaluation beyond the methodological procedures
employed, beginning toward analytical reflexivity. We treat the reliability criterion in terms of
ontological, epistemological and methodical and we summed up some traditional and new
criteria that can be adopted in order to increase the reliability and validity in qualitative research.
Keywords: Qualitative research. Reliability. Validity. Reflexivity.

a Doutoranda em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mestre em Desenvolvimento Regional
pela Fundação Universidade Regional de Blumenau. E-mail: <danielle_ullrich@yahoo.com.br>.
b Doutoranda em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mestre em Administração pela

Universidade Estadual de Maringá. E-mail: < oliveira.josianesilva@gmail.com>


c Doutor em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul(UFRGS). Professor e pesquisador da Escola de

Administração da Faculdade Meridional (IMED). E-mail: <bassokenny@gmail.com>.


d Doutoranda em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mestre em Administração pela

Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). E-mail: <monize.s.visentini@gmail.com>.

Os conteúdos deste periódico de acesso aberto estão licenciados sob os termos da Licença
Creative Commons Atribuição-UsoNãoComercial-ObrasDerivadasProibidas 3.0 Unported.
20 ULLRICH, D. R. et al.

1 Introdução litativa, que supere os debates critericistas e


operacionais. A intenção é ir além dos debates
Durante muito tempo severas críticas têm metodológicos e avançar no contexto da
sido aplicadas à pesquisa qualitativa no que reflexividade analítica, adequando-se ao cenário
concerne aos critérios clássicos de cientificidade. no qual a pesquisa qualitativa é desenvolvida.
Groulx (2008) afirma que a pesquisa qualitativa, Além dos debates que envolvem con-
no contexto da pesquisa social, pode produzir fiablidade, a análise da validade de pesquisas
um conhecimento, cuja validade científica, por qualitativas também possui uma longa trilha na
vezes, é reconhecida como frágil e incerta. Ainda literatura acadêmica, mas o entendimento sobre
para o referido autor, a orientação em direção à esse critério de cientificidade em estudos de
prática e à ação social pode introduzir um viés, cunho qualitativo ainda carece de compreensões
ou perverter as regras científicas da pesquisa mais direcionadas. De acordo com Cho e Trent
e transformar a pesquisa qualitativa em um (2006), a validade tal como é entendida e
discurso ideológico. Contudo, muitos estudiosos utilizada em pesquisas quantitativas não pode
vêm desenvolvendo proposições acerca de tais ser extrapolada às qualitativas. Maxwell (1992,
critérios. Segundo Flick (2009), primeiramente p. 284) salienta que a “validade não é propriedade
sugeriu-se que os critérios clássicos de pesquisa particular de um método, mas ela pertence
social empírica, ligados à pesquisa quantitativa, aos dados, somas ou conclusões alcançadas
fossem adotados na elaboração e execução da pela utilização de um método, em um contexto
pesquisa qualitativa, sendo eles: confiabilidade, particular para um propósito particular”. E um
validade e objetividade. alto grau de confiabilidade e validade oferece
Dentre estes critérios, este estudo teve por não só a confiança nos dados recolhidos, mas,
objetivo discutir a confiabilidade e a validade mais importante, a confiança na aplicação e
nas pesquisas qualitativas. Será a pesquisa utilização dos resultados (RIEGE, 2003).
qualitativa confiável? Quais critérios e Destarte, este ensaio teórico está estruturado
procedimentos são utilizados para validação de em três partes além desta introdução. Na
pesquisas qualitativas? Tais questionamentos segunda seção apresentam-se as orientações
são embasados pelas discussões realizadas filosóficas (bases para as definições dos critérios
por autores como Denzin e Lincoln (2005), Flick de confiabilidade e validade em pesquisas
(2009), Kirk e Miller (1986), dentre outros que qualitativas). O terceiro momento destas
apoiaram este ensaio teórico. Para Flick (2009) discussões remete ao entendimento do conceito
parece claro que a confiabilidade dos dados, de confiabilidade em si, destacando os critérios
calcada em procedimentos tradicionais, como adotados e apresentando propostas para uma
estabilidade de dados e resultados em coletas ampliação dos critérios de confiabilidade em
repetidas, é inútil para avaliar dados qualitativos. pesquisa qualitativa, a partir da reflexividade
Por exemplo, a repetição idêntica de uma analítica. A quarta seção é dedicada aos
narrativa em diversas entrevistas indica mais debates sobre os critérios e procedimentos de
uma versão “construída” do que confiabilidade validação de pesquisas qualitativas. Por fim, as
do que foi contado. Deste modo, as sugestões considerações finais retratam o posicionamento
para reformular o conceito de confiabilidade dos autores sobre esta temática.
vão em direção a uma concepção mais
procedimental. Elas visam tornar a produção 2 Orientação filosófica – bases
dos dados mais transparente, de forma que seja para definições dos critérios
possível verificar o que ainda é uma declaração de confiabilidade e validade
do entrevistado e o que já é uma interpretação em pesquisas qualitativas
do pesquisador. Assim, a confiabilidade do
processo de pesquisa como um todo pode ser A pesquisa qualitativa é comumente
desenvolvida por sua documentação reflexiva. relacionada aos estudos desenvolvidos a partir
Contudo, tal discussão não pode ser travada de abordagens sociológicas ou antropológicas.
aleatoriamente, pois carece de uma base O foco destes estudos recai no entendimento
ontológica e epistemológica que possa embasar e análise dos padrões ou das contradições dos
esta contenda. Busca-se uma compreensão processos sociais. Nesse sentido, para Denzin e
mais profunda do processo de pesquisa qua- Lincoln (2005) estas proposições se relacionam

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as habilidades dos pesquisadores em observar do ponto de vista individual e/ou social: as


o mundo social, e estabelecer suas proposições pesquisas qualitativas consideram, a partir do
a partir de como os sujeitos conceituam sua detalhamento das entrevistas e das observações,
realidade, bem como as imagens do mundo o reconhecimento da perspectiva do ponto de
a partir de diferentes estilos de pesquisa, vista do outro, ou a perspectiva construída
epistemologias e formas de representações. pelos atores sociais; (4) exame das limitações/
Sendo assim, a palavra “qualitativa” nas restrições do cotidiano: as pesquisas qualitativas
pesquisas científicas se refere à ênfase nos permitem discorrer sobre as ações sociais imersas
processos e significados, onde o exame rigoroso em contextos específicos, bem como a relação do
ou de mensuração em termos de quantificação, êmico com o ético; e (5) garantia das descrições
valoração ou seqüência não respondem aos ricas: as descrições detalhadas do mundo social
questionamentos propostos nestes estudos. A são de grande valor, pois permitem apreender os
diferenciação entre as proposições das pesquisas pequenos detalhes do cotidiano onde as relações
qualitativas e quantitativas são apresentadas sociais são pautadas.
por Vidich e Lyman (2005) a partir de cinco Sendo assim, pode-se considerar que as
formas (1) usos do positivismo: na pesquisa pesquisas qualitativas consideram suas cons-
qualitativa a abordagem positivista se refere truções a partir de sua dinâmica sociohistórica.
à adoção de procedimentos de observações Denzin e Lincoln (2005) propõem que três
e análises estatísticas, instrumentalizando e interconexões de atividades caracterizam as
quantificando os procedimentos de pesquisas pesquisas qualitativas em diferentes planos de
por meio da construção de hipóteses para futuras análises, sendo elas: teórico, analítico e metódico,
testagens, bem como a utilização de softwares relacionados à ontologia, epistemologia e
de quantificação, como no caso das análises metodologia. Essas articulações modulam as
de conteúdos de entrevistas; (2) aceitação da pesquisas qualitativas, onde o contexto de
sensibilidade pós-moderna: pesquisas alinha- abordagens de estudos do pesquisador é o
das com abordagens da teoria crítica, cons- lócus das idéias e das estruturas de análises
trucionismo, pós-estruturalismo e pós-moder- (articulação teoria e ontologia), que especificam
nismo são desenvolvidas nas pesquisas as configurações ou jogos das questões de
qualitativas. Nesse caso, os estudos consideram pesquisa (epistemologia), estabelecendo as
métodos alternativos de trabalho como a verossi- formas específicas de exame dos problemas
milhança, emocionalidade, relações pessoais, a serem discutidos (metódica, metodológica
ética, práxis, textos multivozes, diálogos com e analítica). A operacionalização destas arti-
as subjetividades, onde os critérios de razão e culações nas pesquisas qualitativas é sinteti-
verdade científica são questionados; (3) captura zada no Quadro 1.

Quadro 1 – Processo de pesquisa qualitativa

Fase Descrição Atividades


1 Pesquisadores como História e tradições de pesquisas; concepções do Esta fase indica a complexidade e profundidade das
sujeitos multiculturais eu e do outro; ética e políticas de pesquisas. pesquisas qualitativas, pois primeiramente caracteriza
conflitos e diversidade do pesquisador e o estudo.
2 Paradigmas e Positivismo, pós-positivismo construtivismo, Configurações básicas das crenças que orientam as
perspectivas teóricas feminismo, modelos étnicos, modelos marxistas, ações das pesquisas.
estudos culturais.
3 Estratégias de Desenho do estudo, estudo de caso, etnografia O design de pesquisa situa os pesquisadores
pesquisas e observações participantes, fenomenologia, empiricamente no mundo social, bem como as
etnometodologia, grounded theory, método especificidades de conexões com locais, pessoas,
biográfico, método histórico, pesquisa-ação e instituições, onde as informações serão apropriadas para
pesquisa participante, pesquisa clínica. responder as questões de pesquisas.
4 Métodos de coleta e Entrevistas, observações, artefatos, documentos, Formas de capturar, ler e organizar os dados coletados.
de análise de dados métodos visuais, métodos experienciais, data
management, análises computacionais e análises
textuais.
5 A arte de Critérios para adequação de julgamentos, As interpretações são construídas e, como tal, envolvem
apresentação e interpretações, escrita como interpretação, re-criações de interpretações, do situacional relacional e
interpretação análises políticas, tradições avaliativas, pesquisas textual na experiência de pesquisa.
aplicadas.
Fonte: Denzin e Lincoln (2005).

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Esse processo de sensibilização e contex- Não obstante, a flexibilidade é uma das


tualização das pesquisas qualitativas encaminha principais proposições da pesquisa qualitativa,
às formas diferenciadas quanto aos critérios onde também se deve considerar questões
de confiabilidade e de validação das pesqui- relacionadas à coerência e consistência do
sas. estudo para a construção dos critérios de
confiabilidade. As articulações epistemológicas
3 Confiabilidade em pesquisas do estudo, conforme apresentado no Quadro 1,
qualitativas – discussões teóricas com base em Denzin e Lincoln (2005), asseguram
essa condição. Como discorrem Roulston
Muito embora as discussões acerca dos (2010) e Holloway e Todres (2003), mais do
processos de validação tenham recebido que qualidade, a confiabilidade das pesquisas
bastante atenção em relação às pesquisas qualitativas remete a capacidade de teorização
qualitativas, os critérios de confiabilidade têm por meio da temática proposta. Portanto, não
sido negligenciados ou pouco debatidos, bem se deve considerar a metodologia como uma
como as delicadas ligações entre estes dois “metodolatria”, mas como capacidade de
conceitos de análises. A confiabilidade assim flexibilidade frente à contextualização dos
como a validade somente tem significação se estudos, qual seja as articulações de tempos
referenciadas a sua base teórica (KIRK; MILLER, e espaços. As questões metodológicas são
1986). apresentadas por Goulart e Carvalho (2005)
Nesse sentido, o pesquisador atua como como a “musculação intelectual”, que prepara
um bricoleur, pois o desenvolvimento do tra- o pesquisador para as práticas de pesquisa, e
balho de campo não é constituído de par- embasa a confiabilidade do estudo.
tes seqüenciais, como nas pesquisas quan- Ressalta-se ainda que há um embate
titativas, mas concomitantes (DENZIN; por parte dos pesquisadores, com relação a
LINCOLN, 2005). Goulart e Carvalho (2005) continuação do uso do termo confiabilidade nas
assinalam que, nas pesquisas de orientação pesquisas qualitativas. Em seu estudo Holloway
qualitativa, os pressupostos ontológicos e Todres (2003), apresentam o posicionamento
consideram a realidade subjetiva e múltipla, de Seale (1999 apud HOLLOWAY; TODRES, 2003)
e epistemologicamente o pesquisador inte- que afirma que os termos validade e confiança já
rage com objetos e sujeitos de pesquisa. O não são adequados para os problemas que estão
processo indutivo de contextualização dos ligados a qualidade da pesquisa qualitativa,
estudos centra o pesquisador nas atividades a enquanto Morse et al. (2002 apud HOLLOWAY;
serem desenvolvidas. Portanto, a consciência TODRES, 2003) contesta fortemente isso.
das implicações metodológicas e as deci- Isto porque, segundo Gómez (2000),
sões tomadas no percurso do trabalho ainda há vestígios do positivismo, que geram
pautam questões relacionadas à validade e certo temor, em parte justificável, de se cair
confiabilidade dessa dinâmica. “O essencial é novamente nas interpretações subjetivas. E
que todo o processo de pesquisa necessita ser isso fica claro, quando se define a confiabilidade
conscientemente executado e precisamente nas pesquisas quantitativa e qualitativa. Se a
documentado” (GOULART; CARVALHO, 2005, confiabilidade nas pesquisas quantitativas se
p. 135). relaciona a sua replicação e generalização, nas
Deste modo, sendo o pesquisador o próprio pesquisas qualitativas, devido ao seu processo
instrumento da coleta de dados, remete- de contextualização e de flexibilização, se
se à questão da confiabilidade na pesquisa relaciona a consistência das articulações
qualitativa. Mechanic (1989 apud GROULX, teóricas, metodológicas e empíricas propostas
2008), em uma postura crítica, alerta que se pelo estudo.
trata de uma situação difícil. Para ele, o que um Como se ponderou nesta discussão, deve-
pesquisador julga importante em um número se considerar a definição do posicionamento
quase infinito de observações possíveis, bem epistemológico do pesquisador e suas
como a maneira como ele avalia cada observação proposições de investigação, bem como as
em relação às outras, dentro de um quadro de triangulações. Flick (2006) corrobora com
referência mais amplo, determina a construção Denzin (2009) ao categorizar as triangulações
obtida. em quatro tipos: (a) tempo, espaço e sujeitos;

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(b) triangulação investigativa (diferentes sincrônica raramente envolve observações


observadores analisam os resultados da idênticas, mas as particularidades de interesse
pesquisa), (c) triangulação teórica, onde são do observador.
articuladas diferentes proposições teóricas, Vieira (2007) assinala a confiabilidade
e (d) triangulação metodológica, realizada em pesquisas qualitativas por meio das
por meio de diferentes estratégias de coleta e articulações entre construtos teóricos, o método
de análise de dados. Além das triangulações e os resultados. Lapièrre (2008) argumenta a
serem essenciais para os processos de validação confiabilidade no tocante aos fundamentos
do estudo, também garantem mecanismos de um contexto de análise, onde a reprodução
essenciais para a confiabilidade da pesquisa. das considerações construídas nas pesquisas
A triangulação faz parte das cinco es- pode ser articulada em relação a situações
tratégias para aumentar a credibilidade, e analiticamente semelhantes. Nesse sentido, não
consequentemente a confiabilidade da pesquisa se deve observar as condições de estabilidade,
qualitativa, desenvolvidas por Lincoln e Guba pois essa percepção acarretaria num sentido
(1985 apud FLICK, 2009), a saber: a) envolvimento evolutivo e de duração do tempo nos estudos,
prolongado e uma observação persistente no bem como a univocidade dos fenômenos sociais.
campo ajudam a aumentar a probabilidade de Mas, as sistemáticas de observações dos objetos
resultados críveis, bem como a triangulação de estudo se relacionam a exploração das
de diferentes métodos, pesquisadores e dados; diversas faces e aprofundamentos das análises
b) “sessões de discussão”, como reuniões re- dos fenômenos sociais.
gulares com outras pessoas que não estejam Os critérios de confiabilidade são apre-
envolvidas na pesquisa para expor os pontos sentados por Lapièrre (2008) nas pesquisas
cegos da pesquisa e discutir hipóteses de qualitativas por meio das ferramentas con-
trabalho e resultados; c) análise de casos ne- ceituais empregadas para a compreensão
gativos no sentido de indução analítica; espaço-temporal da dinâmica social, a saber:
d) adequação dos termos de referência de a) Descrição em profundidade das situações
interpretação e sua avaliação; e) “verificações delimitadas e densamente texturadas,
por membros”, no sentido da validação comu- onde as categorias e processos analíticos
nicativa de dados e interpretações com membros são descritos de maneira a acompanhar o
do campo em estudo. desenvolvimento do estudo;
Com base nessas proposições, a próxima b) As implicações a longo tempo no campo,
seção deste ensaio discute tipos e critérios de permitindo a captura das dinâmicas
confiabilidade em pesquisas qualitativas. sociais de forma longitudinal e transver-
sal;
3.1 Tipos e critérios de confiabilidade em c) Sistemáticas das análises, como a sa-
pesquisas qualitativas turação teórica, no intuito de centralizar
Para Kirk e Miller (1986) a confiabilidade as categorias de análises, bem como as
depende essencialmente das descrições categorias de articulações teóricas;
explícitas dos procedimentos de observação, d) Triangulação dos dados para o enten-
sendo distinguidas nos seguintes tipos: dimento das concordâncias e contradições
a) confiabilidade quixotesca: se refere às na contextualização das observações
circunstâncias em que um único método empíricas e articulações teóricas;
de observação contínua se mantém inva- e) Facilitadores de reprodução e avaliações
riavelmente; b) confiabilidade diacrônica: se das análises, como o uso de materiais
refere a estabilidade temporal das observações. audiovisuais, e especificação do conjunto
Nas ciências sociais, este conceito se ma- de estratégias de coleta e de análises dos
nifesta nos paradigmas experimentais, onde dados.
convencionalmente se demonstra as simi- A problematização dos critérios de con-
laridades das medidas em diferentes tempos fiabilidade em pesquisas qualitativas se refere ao
(isomorfismo); c) confiabilidade sincrônica: se estabelecimento de mecanismo sistemáticos e
refere às similaridades das observações em confiáveis das formas de apreensão da dinâmica
semelhantes períodos de tempos. Ao contrário social. Steinke (2004 apud FLICK, 2009), a partir
da confiabilidade quixotesca, a confiabilidade de uma abordagem mais abrangente, sugeriu

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critérios específicos para a pesquisa qualitativa, Sendo assim, a reflexividade nas pesquisas
tais como: qualitativas está relacionada ao entendimento
a) Transparência intersubjetiva do processo da estrutura social, onde pensar e produzir esse
que leva aos resultados; critério de confiabilidade implica em fazer uma
b) Procedimentos indicados e adequados; negação do mainstream funcionalista. Romper
c) Construção e testagem da teoria com essa geopolítica do conhecimento e da
ancoradas empiricamente; estrutura social não é uma tarefa fácil. Aqueles
d) Limitação, isto é, definição da amplitude que se propõem a realizar esse questionamento,
e dos limites dos resultados; bem como da perfectibilidade das pesquisas
e) Subjetividade refletida; coerência da teoria qualitativas incorre no risco de ser circunscrito
e relevância da pergunta de pesquisa e a um corpo político dos estudos engajados com
desenvolvimento da teoria. a realidade social em um espaço reduzido de
Os critérios de confiabilidade, para Newton debates para essas formas alternativas de se
et al. (2011), são considerados a partir de sua pensar e entender a realidade social.
possibilidade de conhecer a realidade social A operacionalização da reflexividade nas
de forma que produza sempre aproximações pesquisas qualitativas se remete a articulações
mais precisas destas. Entretanto, para os de diferentes perspectivas teóricas, quando
referidos autores, esse processo não é tão existem razões para fazê-lo. Alvesson (2003)
simples assim. A definição dos critérios de assinala duas vantagens de operar as pesquisas
confiabilidade das pesquisas qualitativas qualitativas por meio da reflexividade, sendo
implica no avanço no terreno movediço das elas: a) evitar a ingenuidade associada à crença de
construções epistemológicas. As abordagens que “dados” simplesmente revelam a realidade, e
de estudos construcionistas avançam nesse b) criatividade na sequência de uma apreciação
sentido, pois discutem questões sobre como o do potencial de complexidade do material
homem conhece e age no mundo. empírico. A reflexividade opera com uma estrutura
Nessas considerações, os critérios de cien- que estimula a interação entre a produção e o
tificidade não se limitam as questões me- desafios de interpretações. Ela inclui a abertura
todológicas, mas, também, as articulações dos fenômenos através da exploração mais do
epistemológicas e ontológicas das ciências. que um conjunto de significados, e reconhece a
Outros critérios de confiabilidade das pes- ambiguidade nos fenômenos e na(s) linha(s) de
quisas podem ser relacionados a essa dis- instrução, e isso significa reduzir a brecha entre
cussão, no intuito de ampliar o escopo dessas as preocupações epistemológicas e de método.
argumentações. A partir das discussões O caráter reflexivo das pesquisas qualitativas
apresentadas neste ensaio teórico apresenta-se se configura como critério de confiabilidade, pois
outra categoria de análise para estas discussões, possibilita articular as proposições de estudos à
sendo ela: a reflexividade. realidade social onde o mesmo é conduzido. Sob
Retomando as discussões de Holloway e Todres estas proposições, corroboram as discussões de
(2003), considerar a reflexividade como critério Vieira (2007), onde confiabilidade se relaciona às
de confiabilidade em pesquisas qualitativas articulações entre construtos teóricos, o método
significa romper com a “metodolatria” para e os resultados, bem como de Lapièrre (2008)
buscar a metodologia como processo de reflexão na capacidade analítica dos contextos sociais.
da pesquisa. Esse processo se caracteriza Com base nessas articulações, apresenta-se
para Roulston (2010) na desnaturalização da uma síntese dos critérios de confiabilidade em
realidade social e proposições de diferentes pesquisas qualitativas, expostos no Quadro 2.
possibilidades de articulações na pesquisa. Para Os critérios expostos, relativos à con-
Alvesson e Willmott (1992) mais genericamente, fiabilidade na pesquisa qualitativa, abrem
um questionamento crítico das crenças e valores caminhos para novas discussões no que
podem não só facilitar o pensamento mais concerne aos questionamentos propostos para
racional, o reconhecimento e a clarificação das este ensaio. Contudo, percebe-se a existência
necessidades negligenciadas, como também as de avanços neste contexto, e uma ampliação
ideias de justiça, e assim por diante. E, ao fazê- dos tradicionais critérios, muito relacionados
lo, pode afastar o indivíduo da tradição que se à pesquisa quantitativa, para novos critérios
formou a sua própria subjetividade. que possam dar conta dos cenários no qual a

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pesquisa qualitativa é desenvolvida, imbricada 4 Validade em pesquisas qualitativas –


num contexto sóciohistórico, permeada por discussões teóricas
significados e fenômenos sociais.
Nesse sentido, não se pretende estabelecer As definições de validade, tradicionalmente
uma receita prescritiva de critérios a serem ligadas à pesquisa quantitativa, remetem a
seguidos e confirmados nas pesquisas capacidade de um instrumento em realizar
qualitativas. Tão pouco, todos estes se fazem medições que reflitam variações e escores reais
presente continuamente em um estudo. Mas, do que se pretende medir, não indicando erros
a partir das articulações destas discussões aleatórios ou sistemáticos (MALHOTRA, 2006).
delimitar tanto um campo de estudos analíticos Hair et al. (2005) complementam essa definição,
desta temática, como configurar elementos afirmando que a validade está associada a
orientadores para a realização dos estudos. precisão de um estudo. No mesmo sentido,
A próxima seção deste ensaio se propõe a Golafshami (2003) discute que a validade,
realizar uma articulação teórica entre aspectos como apresentada nos estudos quantitativos, é
da construção da confiabilidade em pesquisas condizente com a exatidão, ou seja, o grau em
qualitativas em relação aos processos de que o instrumento de medida realmente está
validação das mesmas. medindo o que se propõe.
Winter (2000) salienta que a validade
em pesquisas quantitativas é relacionada
com terminologias e conceitos provenientes
Quadro 2 – Critérios de confiabilidade do positivismo: leis universais, evidências,
em pesquisas qualitativas objetividade, verdade, atualidade, dedução,
razão, fato, dados matemáticos. Outro aspecto
Descrição e operacionalização do revelado pela amplitude de conexões que a
Critério
critério nas pesquisas qualitativas
validade possui, nas pesquisas quantitativas,
Descrição Descrição em profundidade das situações é a sua importância neste tipo de estudo, uma
detalhada delimitadas. Descrição do recorte espaço
temporal de realização do estudo, bem vez que trabalhos científicos merecedores de
como evidenciar as categorias de análises respeito e publicação em periódicos devem,
em discussão. obrigatoriamente, evidenciar ou calcular o grau
Tempo de Permanência a longo tempo no campo de validade dos seus resultados.
permanência no permitindo a captura das dinâmicas
Para evidenciar a validade nos estudos
campo sociais de forma longitudinal e transversal.
quantitativos, Malhotra (2006) apresenta três
Saturação Busca dos autores no sentido de
teórica centralizar as articulações teóricas. principais classificações: validade de conteúdo,
que se refere à avaliação subjetiva dos itens
Triangulação dos Utilização de diferentes estratégias de
dados coleta e de análise de dados. e indicadores de uma escala ou instrumento,
Reprodução e Divulgação e avaliação das análises entre
verificando, qualitativamente, se o conteúdo
avaliação das os pares. de tais é congruente à mensuração do que se
análises propõem; validade de critério, na qual se verifica
Transparência Descrição detalhada de todos os o funcionamento das medidas em relação a
procedimentos utilizados na pesquisa outras variáveis denominadas critérios; e a
empírica e na construção teórica.
validade de construto, que avalia o construto
Limitação da Exposição das limitações da pesquisa. ou fenômeno que a escala ou instrumento está
pesquisa
medindo. Para tanto, a validade de construto
Coerência Coerência entre os dados empíricos e a
teoria que está sendo construída.
subdivide-se em validade convergente (extensão
pela qual os indicadores relacionam-se entre si
Exploração dos Exploração dos significados e dos
significados fenômenos relacionados ao campo onde dentro de um mesmo construto), discriminante
o estudo é conduzido. (extensão pela qual a escala difere-se de outras
Reflexividade Articulação das proposições de estudos escalas) e nomológica (extensão pela qual a
à realidade social onde o mesmo é escala se relaciona com as definições teóricas
conduzido. Reconhecer as diversas
do construto). Esta classificação da validade
possibilidades teóricos-empíricas de
análise, e situar sociohistoricamente as na pesquisa quantitativa é utilizada por vários
escolhas realizadas pelo pesquisador. autores de metodologia da pesquisa, como Hair
Fonte: da pesquisa. et al. (2005) e Aaker, Kumar e Day (2004).

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Entretanto, tal definição não pode ser interpretações feitas pelo pesquisador. Além
utilizada para caracterizar a validade na disso, a triangulação também compõe o conjunto
pesquisa qualitativa, pois conforme Cho e Trent de técnicas que podem ser classificadas nesse
(2006) a tipologia de estados e propósitos são enfoque.
distintos entre esses dois tipos de pesquisa. Por sua vez, a validade transformacional,
O reconhecimento de que a realidade das um enfoque mais radical, é definida como “um
relações humanas é construída socialmente, processo progressivo, emancipatório que ocorre
dentro de contextos históricos, fez com que através da mudança social que é para ser
parte das pesquisas sociais e humanas não alcançada através do empreendimento próprio
mais se direcionasse rumo à mensuração, mas do pesquisador” (CHO; TRENT, 2006, p. 321-322).
à compreensão, o que tem ampliado a utilização Neste enfoque, há um profundo, auto-reflexivo
de metodologias de pesquisa qualitativa e enfático entendimento do pesquisador
(GUBA; LINCOLN, 1994). Segundo Creswell e enquanto trabalha com o pesquisado, para que
Miller (2000), pode-se afirmar que o pesquisador se alcancem mudanças nas condições sociais
qualitativo traz para seus estudos uma lente vigentes. Neste caso, a validade é determi-
diferente daquela tradicional oferecida pelos nada pelas ações resultantes do empreendi-
estudos quantitativos. mento de pesquisa, e que são capazes de
Para Cho e Trent (2006) as definições de incorrer em transformações sociais. O ganho
validade nas pesquisas quantitativas e qua- em verificação de validade de um estudo qua-
litativas são distintas. Whittemore, Chase e litativo sobre o enfoque transformacional é
Mandle (2001) ressaltam que isso ocorre porque inegável. Porém, a dificuldade de verificação
os princípios epistemológicos e ontológicos torna este tipo de validade mais abstrato para
são diferentes entre essas duas perspectivas avaliação de trabalhos científicos, uma vez
de pesquisa, o que torna inapropriado o uso de que para verificar a validade transformacional
medidas de validade de uma perspectiva em de um trabalho é necessário identificar quais
outra. De acordo com Maxwell (1992), embora as conseqüências na alteração da realidade
as diferenças sejam explícitas, isto não implica vigente na qual a pesquisa se insere (CHO;
em afirmar que todos os enfoques de validade TRENT, 2006).
sejam incompatíveis entre as perspectivas Complementarmente, outros tipos de va-
qualitativas e quantitativas de pesquisa, mas lidade para estudos qualitativos são apre-
sim que uma simples tradução é inapropriada e sentados por Kirk e Miller (1986 apud LESSARD-
inadequada. HÉBERT; GOYETTE; BOUTIN, 2005): a validade
Nesse âmbito, Cho e Trent (2006) apresentam aparente, a validade instrumental e a validade
dois enfoques que abrangem as principais teórica. A validade aparente, segundo os
técnicas para verificação da validade em estudos autores, baseia-se na evidência dos dados da
qualitativos, denominados enfoque transacional observação, mas é insuficiente se considerada
e enfoque transformacional. isoladamente, pois, na prática, a validade dos
A validade transacional conforme Cho e dados ou das medidas raramente é identificável.
Trent (2006, p. 321) pode ser definida como Já a validade instrumental manifesta-se quando
um procedimento consegue demonstrar que
um processo interativo entre o pesquisador, o as observações recolhidas pelo pesquisador
pesquisado, e os dados coletados que auxilia são semelhantes às reais, comprovando-se
ao alcance de um relativamente alto nível isso através de um procedimento alternativo.
de certeza e consenso, por meio de fatos Por fim, a validade teórica existe quando um
revisitados, sentimentos, experiências, e procedimento indica claramente que o quadro
valores ou crenças coletados e interpretados. teórico adotado corresponde efetivamente às
observações coletadas. Esta é segundo, Kirk
Sob este enfoque de análise de validade, e Miller (1986 apud LESSARD-HÉBERT;
encontram-se técnicas por meio das quais os GOYETTE; BOUTIN, 2005), o tipo mais completo
erros ou falhas de entendimento no processo de validade na pesquisa qualitativa, pois
interpretativo podem ser corrigidos através de seu exame incide sobre os outros dois tipos
um retorno ao respondente, que por sua vez de validade, bem como sobre o modo como é
garante que a sua realidade corresponda às construída a ligação inferencial entre os fatos

Análise, Porto Alegre, v. 23, n. 1, p. 19-30, jan./abr. 2012


Reflexões teóricas sobre confiabilidade e validade ... 27

alvo de observação e os conceitos ou modelos Quadro 3 – Critérios específicos de validade


teóricos a eles ligados. em pesquisas qualitativas
A validade teórica, apresentada por Kirk e Critério Pergunta
Miller tem relação direta com o que Hammersley Credibilidade Os resultados da pesquisa refletem a
(1992, p. 50-52 apud FLICK, 2004) classifica como experiência dos participantes ou o contexto?
“realismo sutil”, que parte de três premissas Autenticidade A representação exibe preocupação com as
básicas: diferenças de vozes entre os participantes?
1. A validade do conhecimento não pode Crítica O processo de pesquisa evidencia enfoques
críticos?
ser avaliada com certeza. Julgam-se
os pressupostos tomando por base sua Integridade A pesquisa reflete recursivamente e
repetitivamente sobre a validade do estudo?
credibilidade e plausibilidade.
Clareza A pesquisa tem decisões metodológicas,
2. A existência de fenômenos independe das interpretativas e vieses do pesquisador
afirmações do pesquisador a seu respeito. explícitos?
Os pressupostos sobre eles podem ser Vivacidade As descrições densas são fiéis e retratadas
apenas mais ou menos aproximados com astúcia e clareza?
daquilo que sejam esses fenômenos. Criatividade O estudo tem uma maneira criativa de
organizar, apresentar e analisar os dados?
3. A realidade torna-se acessível através
Profundidade Os resultados abordam de forma integral e
das (diferentes) perspectivas sobre os saturada as questões do trabalho?
fenômenos. A pesquisa visa à apresenta- Congruência O processo de pesquisa e os achados são
ção da realidade, e não à reprodução des- congruentes? Os assuntos se ajustam entre
ta. si? Os resultados se ajustam ao contexto?
Kvale (1995) considera que a validade na Sensitividade A investigação foi sensível a cultura, aos
contextos sociais e a natureza humana?
pesquisa qualitativa deve existir em todas as
etapas do estudo, a saber: na problematização Fonte: Whittemore, Chase e Mandle (2001).

do tema, através do inter-relacionamento da


base teórica utilizada com o enfoque dado;
na estruturação da pesquisa, por envolver a 4.1 Procedimentos para alcançar a validade
apropriação do desenho de pesquisa, os métodos nos estudos qualitativos
utilizados e os objetivos do estudo; na coleta Vários procedimentos são descritos na
de dados, pela atenção aos dados informados; literatura como formas de se problematizar
na interpretação dos dados, pelo modo como questões relacionadas à validade de uma
as questões são colocadas no texto e a lógica pesquisa qualitativa. Desta forma, Whittemore,
das interpretações realizadas; e finalmente, Chase e Mandle (2001) apresentam diversas
na verificação do estudo, pela relação com o técnicas para que um estudo qualitativo possa
conhecimento produzido pela pesquisa. demonstrar validade, conforme Quadro 4.
Ao lado dos enfoques de aplicação da As técnicas são divididas em quatro tipos:
validade e de suas classificações nos estudos considerações de design, geração de dados,
qualitativos, complementarmente, destacam-se análise e apresentação. Todas as técnicas são
alguns critérios específicos, listados no Quadro relevantes para demonstrar a validade de um
3, que tendem a guiar a busca pela validade nas estudo e, dentre as mais utilizadas, para cada
pesquisas qualitativas. um dos tipos, estão triangulação, demonstração
Esses critérios, entretanto, na opinião de de saturação dos dados, checagem com os
Kushner (2005 apud FLICK, 2009), devem ser experts e o fornecimento de descrições deta-
cuidadosamente aplicados, visto que, muitas lhadas.
vezes, são voltados em demasia a questões Semelhante e complementar é a classificação
de pesquisa social aplicada e não o suficiente dos critérios de validade na pesquisa qualitativa
às particularidades da pesquisa qualitativa. apresentada por Paiva Jr., Leão e Mello (2007),
Como sugestão, Flick (2009) indica que estas a saber: triangulação; construção do corpus
sejam questões que orientem a elaboração da pesquisa; descrição rica e detalhada;
de um trabalho qualitativo, considerando as surpresa; e feedback dos informantes (validação
particularidades de cada um, bem como as comunicativa). De acordo com Creswell e Miller
características necessárias para a obtenção de (2000), os pesquisadores qualitativos utilizam
validade na pesquisa. de forma rotineira, triangulações, descrições

Análise, Porto Alegre, v. 23, n. 1, p. 19-30, jan./abr. 2012


28 ULLRICH, D. R. et al.

densas, revisões por pares, e auditorias externas. possa voltar ao passo anterior sempre que
A triangulação, segundo os autores, segue a for necessário, para que checagens e ajustes
recomendação de Denzin (2009), sendo realizada possam ser feitos, com vistas a garantir uma
através de múltiplas e diferentes fontes, maior validade ao estudo. Em termos práticos
pesquisadores, métodos e teorias. alguns parâmetros permeiam a grande maioria
Lessard-Hébert, Goyette e Boutin (2005) das proposições para análise da validade em
também definem meios de reforçar a validade estudos qualitativos, como: análise da coerência
em uma investigação qualitativa, como a inte- metodológica, que é verificada através da
ração entre o investigador e o grupo-indivíduos; congruência entre o problema de pesquisa e
a duração prolongada da estadia no meio; a o método utilizado, sendo que o método deve,
triangulação das técnicas e das inferências consequentemente, se ajustar aos dados e aos
ou conclusões entre vários investigadores e/ procedimentos analíticos; análise de adequação
ou investigador e indivíduos observados; e a das unidades de análise, que é verificada
documentação dos procedimentos. através da adequação e pertinência dos sujeitos
selecionados para representar ou que possam ter
maior conhecimento sobre o tópico de pesquisa;
Quadro 4 – Técnicas utilizadas para verificar a validade
em estudos qualitativos junção entre coleta e análise de dados, onde a
interação entre a coleta e a análise dos dados
Tipo de técnica Técnica é uma forma de evidenciar a preocupação com
Considerações de design Desenvolver um design de os ajustes na coleta para que o objetivo seja
pesquisa autoconsciente alcançado com maior eficácia; pensamento
Decisões de amostragem teórico, que considera a possibilidade de suscitar
Triangulação novas ideias a partir do conjunto de dados pré-
Dar voz aos pesquisados existente, durante o processo de coleta, análise
Expressa assuntos de um grupo
oprimido
e escrita do relatório; desenvolvimento teórico,
Geração dos dados Articular coletas de dados que envolve habilidades micro (dados) e macro
Demonstrar observação (conceitual) de entendimento (MORSE et al.,
persistente 2002).
Demonstrar engajamento
prolongado
Fornecer transcrição literal
5 Considerações finais
Demonstrar saturação
Análise Articular decisões de análise
Ao tratar da confiabilidade e da validade em
Checagem com membros pesquisas qualitativas adentra-se em um cenário
Checagem com experts ainda conflituoso e nebuloso. Esforços têm sido
Apresentar tabelas de redução despendidos, no sentido de construir conceitos
dos dados e critérios que sejam adequados ao contexto
Explorar explicações rivais no qual a pesquisa qualitativa é desenvolvida.
Apresentar junção com a Neste sentido, vislumbra-se sobrepor a posição
literatura
Anotações
positivista-funcionalista, predominante nas
Reflexão sobre os dados pesquisas sociais qualitativas, para novas
Apresentação Fornecer uma trilha para a abordagens que permitam uma melhor
checagem dos dados compreensão do cenário em estudo.
Prover evidências que suportem A discussão apresentada neste ensaio
as interpretações
teórico permitiu aprofundar tal entendimento,
Reconhecer a perspectiva do
pesquisador no sentido em que propôs uma avaliação
Fornecer descrições detalhadas da confiabilidade além dos procedimentos
Fonte: Whittemore, Chase e Mandle (2001). metodológicos empregados, partindo em
direção à reflexividade analítica. Neste sentido,
cumpriu-se com a premissa básica de tratar o
Em síntese, a maioria dos autores propõe critério da confiabilidade em termos ontológicos,
que a pesquisa qualitativa demanda, por epistemológicos e metódicos, aprofundando
ser interativa ao invés de linear, que para os o debate e permitindo situá-lo no campo da
procedimentos de validação o pesquisador reflexividade.

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Reflexões teóricas sobre confiabilidade e validade ... 29

A reflexividade está atrelada ao entendi- Referências


mento da estrutura social e ao desenvolvimento
de pesquisas que permitam compreender AAKER, D. A.; KUMAR, V.; DAY, G. S. Pesquisa de
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melhor este contexto. Sem uma compreensão
teórico-empírica do espaço social de estudos ALVESSON, M. Beyond Neopositivists, Romantics,
and Localists: A Reflexive Approach to Interviews in
das pesquisas qualitativas, a realização Organizational Research. Academy of Management
de observações, entrevistas, ou mesmo a Review, v. 28, n. 1, p. 13-33, Jan. 2003.
delimitação do “objeto” em estudo se torna ALVESSON, M.; WILLMOTT, H. On the idea of
ingênua, por não desvelar as relações de po- emancipation in management and organization studies.
der, as dinâmicas relacionais ou demais es- Academy of Management Review, v. 17, n. 3, p. 432-464,
truturas que subjazem e sustentam a realidade July 1992.
social. A abordagem reflexiva pode ser CHO, J.; TRENT, A. Validity in qualitative research
considerada como critério de confiabilidade, revisited. Qualitative Research, v. 6, n. 3, p. 319-340, Aug.
2006.
pois situa as pesquisas e suas atividades
por articulações que remetem a construções CRESWELL, J. W.; MILLER, D. L. Determining validity
in qualitative inquiry. Theory into Practice, v. 39, n. 3,
históricas sociais. p. 124-131, 2000.
Assim sendo, a reflexividade permite
DENZIN, N. K. The research act: a theoretical introduction
a exploração das ambigüidades e descon- to sociological methods. TRANSACTION PUB: USA, 2009.
tinuidades da realidade social, e como tal di-
DENZIN, N. K.; LINCOLN, Y. S. Introduction: entering
minui as possibilidades de inconsistências the field of qualitative research. In: ______. Handbook of
das relações entre epistemologia e método, ao Qualitative Research. London: Sage, 2005.
possibilitar que essas duas categorias sejam FLICK, U. Uma Introdução à Pesquisa Qualitativa. Porto
trabalhadas em conjunto. Essas articulações Alegre: Bookman, 2004.
irão conferir rigor a um trabalho científico de ______. An introduction to qualitative research. London:
cunho qualitativo possibilitando garantir a Sage, 2006.
validação destes estudos. ______. Qualidade na Pesquisa Qualitativa. Porto Alegre:
No entanto, ressalta-se que embora alguns Artmed, 2009.
dos principais procedimentos para verificação GOLAFSHANI, N. Understanding reliability and validity
de validade em estudos de natureza qualitativa in qualitative research. The Qualitative Report, v. 8, n. 4,
tenham sido citados neste trabalho, a discussão p. 597-607, Dec. 2003.
sobre as formas, estratégias e técnicas pelas GOULART, S.; CARVALHO, C. A. O pesquisador e o
quais os autores podem verificar e transmitir a design da pesquisa qualitativa em Administração. In:
VIERIA, M. M. F.; ZOUAIN, D. M. Pesquisa qualitativa
validade dos seus dados qualitativos aos leitores
em Administração: teoria e prática. Rio de Janeiro: FGV,
é um debate recorrente e que ainda necessita de 2005.
discussões adicionais.
GÓMEZ, G. O. La investigación en comunicación desde la
Destaca-se a relevância do tema, uma vez perspectiva cualitativa. La Plata: Universidad Nacional
que os debates teóricos acerca das distinções de de La Plata/IMDEC, 2000.
validade entre estudos de natureza quantitativa GROULX, L. Contribuição da pesquisa qualitativa
e qualitativa, bem como as características da à pesquisa social. In: POUPART, J. et al. A pesquisa
validade aplicada a estudos qualitativos e qualitativa: enfoques epistemológicos e metodológicos.
Petrópolis: Vozes, 2008.
seus procedimentos, são fundamentais para
a sustentação da credibilidade da pesquisa GUBA, E. G.; LINCOLN, Y. S. Competing paradigms in
qualitative research. In: DENZIN, N. K.; LINCOLN, Y. S.
qualitativa na academia.
Handbook of qualitative research. Thousand Oaks, CA:
A partir da discussão teórica realizada neste Sage Publications, 1994.
ensaio, pode-se sintetizar alguns dos critérios
HAIR, J. F., et al. Fundamentos de Métodos de Pesquisa
tradicionais e novos que podem ser adotados no em Administração. Porto Alegre: Bookman, 2005.
sentido de ampliar a confiabilidade e validade HOLLOWAY, I.; TODRES, L. The Status of Method:
na pesquisa qualitativa. Contudo, sugere-se que Flexibility, Consistency and Coherence. Qualitative
novas leituras, discussões e posicionamentos Research, v. 3, n. 3, p. 345-357, Dec. 2003.
sejam desvelados neste campo, visando con- KVALE, S. The Social Construction of Validity. Qualitative
tribuir para a teoria da pesquisa qualitativa, e Inquiry, v. 1, n. 1, p. 19-40, Mar. 1995.
em especial, para os critérios de confiabilidade KIRK, J.; MILLER, M. L. Reliability and validity in
e de validade. qualitative research. London: Sage, 1986.

Análise, Porto Alegre, v. 23, n. 1, p. 19-30, jan./abr. 2012


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CEP 99010-160, Passo Fundo, RS
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research: a literature review with ‘hands-on’ applications E-mail: bassokenny@gmail.com

Análise, Porto Alegre, v. 23, n. 1, p. 19-30, jan./abr. 2012