Vous êtes sur la page 1sur 130

ISSN 1516-8085

bib
Revista Brasileira de Informação Bibliográfica
em Ciências Sociais
BIB – Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais (ISSN 1516-8085) é uma publicação semestral da Associação
Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) destinada a estimular o intercâmbio e a cooperação entre as ins-
tituições de ensino e pesquisa em Ciências Sociais no país. A BIB é editada sob orientação de um editor, uma comissão editorial e um
conselho editorial composto de profissionais vinculados a várias instituições brasileiras.

Diretoria (Gestão 2005-2006)


Presidente: Gabriel Cohn (USP); Secretário Executivo: Marcelo Ridenti (Unicamp); Secretário Adjunto: Gildo Marçal Bezerra
Brandão (USP); Diretores: Raymundo Heraldo Maués (UFPA); José Eisenberg (Iuperj); Maria Eunice de Souza Maciel (UFRGS).

Conselho Fiscal: Brasilmar Ferreira Nunes (UnB); Iracema Brandão Guimarães (UFBA); Carmen Silvia Rial (UFSC).

Coordenação: Marcelo Siqueira Ridenti (Unicamp).

Editor: João Trajano Sento-Sé (Uerj).

Comissão Editorial: César Guimarães (Iuperj); Emerson Alessandro Giumbelli (UFRJ); José Sérgio Leite Lopes (MN/UFRJ); Maria
Celi Scalon (Iuperj).

Conselho Editorial: Gustavo Lins Ribeiro (UnB); Jane Felipe Beltrão (UFPA); João Emanuel Evangelista de Oliveira (UFRN); Jorge
Zaverucha (UFPE); Lívio Sansone (UFBA); Lúcia Bógus (PUC/SP); Helena Bomeny (CPDOC-FGV/RJ); Magda Almeida Neves
(PUC/MG); Paulo Roberto Neves Costa (UFPR); Roberto Grün (UFSCar).

Edição
Assistente Editorial: Mírian da Silveira Pavanelli
Preparação/revisão de textos/copidesque: Ana Lúcia Novais
Versão/tradução de resumos: Jorge Thierry Calasans e Juris Megnis Jr.
Editoração eletrônica: Hilel Hugo Mazzoni

Produção gráfica: Edusc


____________________________________________________________________________________
Apropriate articles are abstracted/indexed in:
Hispanic American Periodicals Index; DataÍndice
____________________________________________________________________________________

BIB: revista brasileira de informação bibliográfica em ciências sociais / Associação Nacional


de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais. -- n. 41 (1996)- .-- São Paulo : ANPOCS, 1996-

Semestral
Resumos em português, inglês e francês
Título até o n. 40, 1995: BIB: Boletim informativo e bibliográfico de ciências sociais.

ISSN 1516-8085

1. Ciências Humanas 2. Ciências Sociais 3. Sociologia 4. Ciência Política 5. Antropologia


I. Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais

CDD 300

Associação Nacional de Pós-Graduação e


Pesquisa em Ciências Sociais – ANPOCS
Av. Prof. Luciano Gualberto, 315 – 1o andar
Universidade de São Paulo – USP
05508-900 – São Paulo – SP
Telefax.: (11) 3091-4664 / 3091-5043
e-mail: anpocs@anpocs.org.br

Editora da Universidade do Sagrado Coração


Rua Irmã Arminda, 10-50
17011-160 – Jardim Brasil – Bauru-SP Programa de apoio a Publicações Científicas
Tel.: (14) 2107 7111 – Fax: (14) 2107 7219
e-mail: edusc@edusc.com.br MCT
ISSN 1516-8085

bib
Revista Brasileira de Informação Bibliográfica
em Ciências Sociais

Sumário

Neo-esoterismo no Brasil: Dinâmica de um Campo de Estudos 5


Elisete Schwade

Perspectivas Teóricas sobre o Processo de Formulação 25


de Políticas Públicas
Ana Cláudia N. Capella

“A cigarra e a formiga”: Qualificação e Competência – 53


Um Balanço Crítico
Ana M. F. Teixeira

Modelos Espaciais na Teoria de Coalizões Internacionais: 71


Perspectivas e Críticas
Amâncio Jorge Oliveira, Janina Onuki e Manoel Galdino Pereira Neto

A Sociologia de Norbert Elias 91


Tatiana Savoia Landini

Programas de Pós-Graduação e Centros de Pesquisa 109


Filiados à Anpocs

Fontes de Pesquisa 113

Trabalhos Publicados: 1975-2006 119

BIB, São Paulo, nº 61, 1º semestre de 2006, pp. 3-138


Colaboraram nesta edição

Elisete Schwade, doutora em antropologia social pela Universidade de São Paulo (USP), é
professora do Departamento de Antropologia e Programa de Pós-Graduação em Antropologia
Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Suas linhas de pesquisa
são: práticas culturais urbanas, religiosidade e gênero. E-mail: schwade@digizap.com.br.

Ana Cláudia N. Capella, doutora em ciências sociais pela Universidade Federal de São Carlos
(UFSCar), é professora do Departamento de Administração Pública da Universidade Estadual
Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp/Araraquara) , onde desenvolve pesquisas na área de
ciência política e administração pública. E-mail: acapella@terra.com.br.

Ana M. F. Teixeira, doutora em ciências da educação pela Universidade Paris 8, é professora


adjunta do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Feira de Santana. Linhas
de pesquisa: trabalho e educação; juventude e sociedade. E-mail: a.f.Teixeira@terra.com.br.

Amâncio Jorge de Oliveira, doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP), é
professor do Departamento de Ciência Política e pesquisador do Centro de Estudos das
Negociações Internacionais (Caeni-DCP/USP), na mesma instituição. E-mail: amancioj@usp.br.

Janina Onuki, doutora em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP), é profes-
sora de Relação Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e
pesquisadora do Centro de Estudos das Negociações Internacionais (Caeni-DCP/USP).
E-mail: janonuki@caeni.com.br.

Manoel Galdino Pereira Neto é mestrando do Departamento de Ciência Política da


Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do Centro de Estudos das Negociações
Internacionais (Caeni-DCP/USP). E-mail: manoel.galdino@caeni.com.br.

Tatiana Savoia Landini, doutora em sociologia pela Universidade de São Paulo. Defendeu
tese intitulada Horror, honra e direitos: a violência sexual contra crianças e adolescentes no século
XX, cujo objetivo principal era analisar a violência sexual sob a ótica da sociologia de Norbert
Elias. E-mail: tatalan@uol.com.br.
Neo-esoterismo no Brasil: Dinâmica de um Campo de Estudos*

Elisete Schwade

Tendo como marcas emblemáticas duen- tuando-se nos anos de 1990. É certo que algu-
des, bruxas, incensos, a chamada Nova Era mas de suas características remetem a décadas
constitui-se em um fenômeno; uma onda de anteriores, em especial a um conjunto de con-
práticas que vem caracterizando mudanças de teúdos veiculados no contexto da “contra-cul-
comportamento, especialmente em segmen- tura”, o que é assinalado por vários autores.2
tos médios urbanos, o que chama a atenção No entanto, as diferentes leituras enfatizam a
de cientistas sociais desde as últimas décadas dinâmica do fenômeno e sua complexidade,
do século XX. visto que ele está relacionado ao universo da
Pretendo, neste artigo, situar perspecti- religiosidade, do consumo, do lazer, das novas
vas diversas de análise a respeito desse fenô- apropriações/construções acerca do corpo,
meno (que se convencionou chamar esoteris- entre outros.
mo, nova era, fenômeno neo-esotérico, entre
outras denominações), no Brasil, em particu-
lar. O balanço dos estudos realizados permi- No Campo Religioso e
te produzir um mapeamento das discussões em Outros Campos
levadas a efeito sobre o tema, considerando
os aspectos que emergem como demarcado- As mudanças de comportamento, forte-
res de sua especificidade e que caracterizam mente associadas às novas buscas de cami-
suas práticas, experiências e discursos. São nhos espirituais, foram identificadas em um
traçados de uma literatura que se encontra primeiro momento no que diz respeito à re-
ainda em construção, desde que debruçada lação com o sagrado.
sobre um fenômeno que tem na dinamicida- Os autores familiarizados com estudos
de e multiplicidade de direções uma de suas das religiões no Brasil tendem a delinear cer-
principais marcas. tos aspectos acerca do universo neo-esotérico
Situar o fenômeno neo-esotérico1 implica no cenário brasileiro em confronto com
considerar as múltiplas possibilidades em outras vertentes religiosas mais consolidadas,
que as ações e as representações correlatas como o catolicismo, os cultos afro-brasilei-
emergem como manifestações presentes em ros, o protestantismo e o espiritismo karde-
comportamentos que, no Brasil, se tornaram cista.3 Suas análises permitem perceber que o
visíveis no decorrer da década de 1980, acen- neo-esoterismo envolve a introdução de for-

* O presente texto retoma e amplia a revisão bibliográfica efetuada para a minha tese de doutorado
(Schwade, 2001).

BIB, São Paulo, nº 61, 1º semestre de 2006, pp. 5-24 5


mas inovadoras de exercício religioso, bem vamente.5 No caso dos papers, cabe destacar
como a incorporação de representações pree- um interesse significativo na então virada do
xistentes que influenciam o modo como milênio que, embora agora compreenda ou-
essas novidades se apresentam. Tendo, por- tra dinâmica, ainda se mantém.6
tanto, como objeto de análise o campo reli- Entre os trabalhos publicados destacam-
gioso, trata-se de trabalhos fundamentais se estudos como o de Vilhena (1990), sobre a
para se perceber tons e cores que o fenôme- adesão à astrologia em camadas médias do
no neo-esotérico assume no Brasil, na intera- Rio de Janeiro; Russo (1993), sobre terapias
ção e comunicação com vertentes religiosas corporais e a trajetória dos chamados “tera-
preexistentes.4 peutas corporais”; os trabalhos de Amaral
Vários são os autores que se destacam (1994, 1998 e 1999), sobre o “trânsito reli-
por essa abordagem, entre eles Carlos Rodri- gioso” no contexto do movimento “Nova
gues Brandão (1994), Luiz Eduardo Soares Era”; o trabalho de Martins (1999), sobre as
(1994), José Jorge de Carvalho (1991, 1994 e representações do corpo no contexto das tera-
2000) e Pierre Sanchis, (1995 e 1998). In- pias alternativas em Recife; Tavares (1999 e
citados a refletir sobre as características con- 1999a), acerca da difusão do tarô e do “holis-
temporâneas do campo religioso no Brasil, mo terapêutico”, no Rio de Janeiro; Magnani
todos eles destacam uma certa “efervescên- (1995, 1996, 1999 e 1999a, 2000), que dis-
cia”, na qual o neo-esoterismo teria partici- cutem as práticas neo-esotéricas como pro-
pação ativa. Outro aspecto mencionado é dutoras de estilos de vida particulares na
o caráter difuso desse tipo de religiosidade, o metrópole; D’Andrea (1996), que estuda a
que se coaduna com a caracterização de sua projeciologia no Rio de Janeiro; Fortis (1997),
clientela como pouco afeita a fidelidades ins- que focaliza a experiência iniciática na
titucionais. Eubiose; Siqueira e Bandeira, (1997, 1998,
Apesar de esses estudos terem se tornado 1998a), que versam sobre “Grupos Místico-
análises referenciais, é um segundo conjunto Esotéricos” em Brasília; Maluf (1996), que
de leituras sobre o fenômeno que permite trata da emergência de uma cultura terapêu-
perceber sua abrangência e ampliação na tica “neo-espiritual ou neo-religiosa”; Stoll
atualidade e que me interessa mais especifi- (1999), que trata das relações entre expressões
camente. Refiro-me a trabalhos que se de- contemporâneas do Espiritismo no Brasil e a
bruçam sobre recortes empíricos e temáticos presença de interlocuções com correntes e
mais delimitados com relação a esse univer- conteúdos da “Nova Era” ou “neo-esotéricos”;
so, representativos do interesse que tem sus- Reis (2000), que enfoca “novas formas de reli-
citado o fenômeno do neo-esoterismo ou giosidade” e educação em Brasília.
movimento “Nova Era”, como alguns o de- Em relação aos papers, diferentes pers-
nominam. Tais trabalhos configuram uma pectivas de enfoque enriquecem a discussão.
outra vertente de análise, presente em livros, Eis alguns exemplos: o estudo das pré-escolas
artigos publicados em periódicos, teses e dis- vinculadas a grupos que se relacionam com o
sertações de mestrado e também papers apre- neo-esoterismo em Brasília (Reis, 1998); a
sentados em congressos, dos quais se desta- investigação da presença de práticas como o
caram, no final do século XX, os eventos tarô em um terreiro de umbanda, em São
“Jornadas sobre Alternativas Religiosas na Paulo (Souza e Souza, 1998); análise dos con-
América Latina”, realizados em 1998 e 1999, teúdos veiculados pela revista Planeta acerca
em São Paulo e no Rio de Janeiro, respecti- do corpo (Albuquerque, 1998 e 1999); análi-

6
se do conceito de natureza tal como apro- giosidade e suas manifestações plurais, entre-
priado por grupos ecológicos e místico-eso- laçadas com práticas e conteúdos dissemina-
téricos da região de Alto Paraíso em Goiás dos pelo neo-esoterismo, estão contempladas
(Lima, 1998), entre outros.7 Deve-se consi- de diferentes formas nos estudos citados.
derar ainda trabalhos dedicados à análise de Amaral (1994, 1998, 1999), direcionando seu
religiões orientais, tema presente em diferen- enfoque sobre o trânsito religioso, seus con-
tes congressos e eventos. Práticas específicas, teúdos e práticas, argumentam um “sincretis-
como as que caracterizam as praticantes de mo em movimento” sustentando que,
wicca, chamadas bruxas modernas, também
têm merecido a atenção de pesquisadores […] mais do que um substantivo que possa
(Osório, 2004). definir identidades religiosas bem demarca-
Em síntese, enquanto as primeiras inter- das, Nova Era é um adjetivo para práticas
pretações mencionadas detiveram-se sobre a espirituais e religiosas diferenciadas e em com-
dinâmica do campo religioso, aí identificando binações variadas, independente das defini-
a emergência de uma “religiosidade difusa”, a ções e inserções religiosas de seus praticantes
valorização da espiritualidade associada a prá- (1999, p. 48).
ticas de “cultivo da interioridade” e a constru-
ção de uma “nova visão ecológica”, o segundo Já o estudo efetuado por Stoll (1999), em
conjunto de trabalhos concentra-se na investi- reflexão sobre duas lideranças religiosas espíri-
gação de idéias e práticas de determinados seg- tas que, por meio de sua história pessoal e car-
mentos do universo neo-esotérico. Dada a di- reira religiosa, personificam modos diversos
versidade de questões propostas e perspectivas de “ser espírita” no Brasil (os médiuns Chico
adotadas, poder-se-ia perguntar o que possibi- Xavier e Luiz Gaspareto), refere-se à aproxi-
lita agrupá-los e considerá-los como cons- mação do médium espírita Luiz Gasparetto
titutivos de um campo de estudos, ainda que com algumas das expressões do universo
em construção. O conjunto desses trabalhos neo-esotérico, o que significou a produção de
não permite, porém, a constituição de um uma nova “síntese”, “um arranjo particular
quadro empírico ou interpretativo único. No de idéias e práticas que tem origens em fontes
entanto, observa-se que, apesar de comporta- diversas – religiosas e não-religiosas – reinter-
rem nuanças e recortes singulares, existem cer- pretadas, porém, a partir da tradição religiosa
tas regularidades nesses estudos, seja no modo de origem” (p. 236).
de recortar o campo empírico quanto à de Ainda em relação ao sincretismo, traba-
construção dos objetos, seja no plano da inter- lhos apresentados na forma de papers men-
pretação, se considerarmos a preocupação cionam, por exemplo, a incorporação de ele-
com o delineamento das representações cole- mentos e práticas esotéricas (realizações de
tivas presentes no universo que compõem es- palestras, cursos e meditações envolvendo es-
sas práticas. tudos de técnicas terapêuticas como Reiki,
Os estudos contemplam algumas ques- cromoterapia etc.) em terreiros de Umbanda
tões em torno das quais se desenvolvem di- em São Paulo (Souza e Souza, 1998), trazendo
ferentes argumentos. elementos importantes para pensar desdobra-
Uma primeira questão localiza-se em mentos singulares do entrelaçamento de práti-
recortes circunscritos do exercício da religiosi- cas e conteúdos do neo-esoterismo com uni-
dade, assinalando de modo especial novas for- versos religiosos já estabelecidos no Brasil. Um
mas de expressões do sincretismo religioso. A reli- outro estudo é o de Castro Martins (1999)

7
sobre a dinâmica do doutrina do “Vale do Ama- e das concepções de saúde/doença. Destaca-
nhecer”, assinalando uma espécie de sincretis- se, sob esta ótica, o trabalho de Tornquist
mo entre elementos do cristianismo, do espiri- (2002), sobre a humanização do parto, e de
tualismo e da umbanda, organizados em uma Rachel Menezes (2004, 2005), sobre a huma-
referência efetuada na construção do espaço nização da morte. Essas pesquisas indicam,
sagrado sede da comunidade, a elementos egíp- ainda, usos recentes do ideário associado ao
cios, africanos, incas, maias etc. O sincretismo neo-esoterismo, num cruzamento cada vez
é ainda alvo de reflexão sobre a construção de mais complexo de múltiplas referências, ao
trajetórias espirituais no contexto da sociedade qual retornarei adiante.
carioca (Carneiro, 1998), com o propósito de Uma terceira questão é a referência a es-
pensar a busca da religiosidade, como projeto sas práticas como produtoras de estilos de vida.
na modernidade, e também expressão da É sobre indicadores da configuração de es-
“reflexividade” e da “destradicionalização” em tilos de vida que se evidenciam especificida-
contexto urbano. des de práticas e conteúdos, o que pode ser
Um segundo eixo de questões contempla percebido nos estudos de artes divinatórias,
a construção de discursos alternativos sobre o como a astrologia (Vilhena, 1991), o tarô
corpo e a saúde. Do corpo como veículo de (Tavares, 1999), e na abordagem das “tera-
liberação e prazer (Martins, 1999) à ênfase no pias alternativas” (Maluf, 1996). Nas organi-
corpo nas técnicas psicoterapêuticas (Russo, zações das práticas neo-esotéricas e sua
1993) e novas concepções nas relações doen- implementação espacial, Magnani (1999)
ça/cura no contexto da “neo-espiritualidade” defende o delineamento de comportamentos
e “neo-religiosidade” (Maluf, 1996). A ênfase no interior da metrópole. A referência ao
no corpo vai ser mencionada ainda em traba- estilo de vida verifica-se também no campo
lhos voltados para a discussão da espirituali- da “experimentação religiosa”, envolvendo a
dade terapêutica (Tavares, 1999a) e na idéia emergência de grupos “mísitico-esotéricos”,
de uma “cultura corporal alternativa”, que em Brasília/DF (Siqueira e Bandeira, 1998).
ganha sentido diante da noção de “corpo civi- É ainda o estilo de vida dos pais que, de acor-
lizado”, conforme argumenta Albuquerque do com Reis (1998), demarca a opção por
(1998 e 1999). São diferentes abordagens que “escolas alternativas” para os filhos, questão
remetem, de um lado, à emergência de con- identificada em estudo envolvendo escolas
cepções sobre o corpo e sua utilização como vinculadas a grupos místico-esotéricos, em
mecanismo de autopercepção, autoconheci- Brasília/DF. A referência ao estilo de vida
mento individual; de outro, a processos his- está presente também no privilégio do seg-
tóricos por meio dos quais são elaboradas mento de adeptos ao neo-esoterismo por
diferentes ênfases no corpo, cuja reflexão opções selecionadas de lazer (viagens, partici-
aponta alternativas para o estabelecimento da pação em eventos, literatura, filmes, entre
condição de um corpo saudável, prazeiroso. outros), citados com freqüência em diversos
A referência ao corpo e à saúde vem sen- estudos como demarcadores de comporta-
do mencionada em outra perspectiva, mais re- mentos delineados por meio do contato e da
cente, que aponta para desdobramentos signi- interação com o neo-esoterismo, dando visi-
ficativos do fenômeno neo-esotérico: a ênfase bilidade a um fenômeno cujas expressões
no que se convencionou chamar de humani- têm especial ressonância em segmentos
zação, em se tratando dos cuidados do corpo médios urbanos.

8
No Meio Urbano: Contextualizando algumas interpretações acadêmicas, como
Pontos de Partida concepções de bem-estar emergentes, como
alternativa à conturbada vida moderna.
Nas grandes cidades brasileiras, observa- Ao lado desses signos, que têm uma rela-
se a presença de signos relacionados ao neo- ção mais direta com o consumo, menciona-se
esoterismo por meio da implementação pro- também a insatisfação generalizada em rela-
gressiva de uma rede de produtos e serviços ção aos sistemas de sentido estabelecidos,8
fundamentada na perspectiva de uma reorien- atingindo mais significativamente os segmen-
tação de diversos aspectos da vida cotidiana, tos médios urbanos. Na dimensão religiosa,
com a finalidade de orientar e promover o no que concerne à religião como instituição
“bem-estar”. A valorização de alimentações doutrinária reguladora e normativa;9 na orga-
específicas, denominadas naturalista, vegeta- nização familiar, questionando os padrões de
riana, macrobiótica, cujo consumo se relacio- organização familiar vigentes;10 nas relações
na com a concepção de que proporciona “vida afetivas, revelando uma preocupação com a
mais saudável”, apresenta-se nos inúmeros intimidade e propondo a aproximação, a coo-
restaurantes especializados e também em lojas peração e o companheirismo como substitu-
que comercializam produtos associados a no- tos da competição e do distanciamento;11 nos
vos hábitos alimentares. A utilização de te- sistemas de intervenção terapêutica, dirigida
rapias consideradas “alternativas” – terapias aos tratamentos convencionais, questionando
corporais, diversos tipos de massagens, ho- seu caráter fragmentado e racionalizante, em
meopatia, acupuntura etc. – associa-se à ins- defesa das “terapias alternativas”.
talação de clínicas que concentram profissio- Assim, identifica-se no meio urbano a
nais especializados nessas áreas e também a presença de inúmeros produtos, serviços e
abertura de farmácias homeopáticas. As artes cursos, cujos conteúdos e práticas remetem ao
divinatórias despertam interesse progressivo, universo neo-esotérico. Incorporados ao estilo
tanto na forma de uso como na importância de vida de certos segmentos sociais, esses pro-
atribuída ao aprendizado (curso de tarô, astro- dutos, serviços e representações expressam-se
logia etc.). Lojas de produtos esotéricos dis- por meio da busca de novos padrões no con-
ponibilizam velas, incensos, que vão ser utili- vívio familiar, nas relações afetivas, no cuida-
zadas nas residências com fins diversos do com a alimentação, com o nascimento e
(decorativos, com o intuito de purificar am- com a morte, na expectativa de cobrir todas as
bientes, na realização de meditações, nos ri- dimensões da existência, tendo como eixo
tuais etc.). Aulas de yoga, entendidas como uma perspectiva transformadora voltada para
um exercício alternativo que permite simulta- o “cuidado de si”. Nesse universo, transitam
neamente cuidar do corpo e do espírito, in- não só adeptos, como também aqueles que
corporadas nas práticas das academias de gi- esporadicamente se utilizam das artes divina-
nástica asseguram seu espaço ao lado das tórias, das terapias alternativas e/ou adquirem
últimas novidades em aparelhos e tecnologias produtos, como incenso, amuletos, imagens
para manter a forma física. de duendes, de anjos, cds etc.
A forma como tais signos se apresen- Esse modo urbano de prática do neo-
tam, vinculados a diferentes estabelecimen- esoterismo contrasta com a organização de
tos e diluídos em um amplo mercado de “comunidades rurais alternativas”, as quais
consumo, faz com que em muitas ocasiões também veiculam práticas e idéias do uni-
sejam referenciados, na mídia e também em verso neo-esotérico.12 Nessas comunidades,

9
o questionamento da sociedade capitalista na mídia. Trata-se de uma apropriação parti-
manifesta-se de forma mais radicalizada. cular, que leva em conta o aprendizado do sis-
Grupos com inspirações diversas organizam tema astrológico e seu simbolismo,14 de forma
seu cotidiano numa convivência comuni- que a crença e a linguagem astrológicas pas-
tária, em contato com a “natureza”, tendo sam a fazer parte da interpretação do cotidia-
como preocupação o “desenvolvimento in- no de seus adeptos. Segundo o autor, a as-
tegral” do ser humano, o que envolve os pla- trologia configura para seus adeptos “um
nos físico, mental e espiritual. mundo”como sistema de interpretação, asso-
Apesar da diversidade e dos múltiplos ciado a outros sistemas simbólicos, como a
direcionamentos, as práticas do neo-esote- psicanálise, a religião e diversas expressões do
rismo apresentam alguns denominadores esoterismo. Desse diálogo, emerge, porém,
comuns. Primeiramente, o fato de algumas sua singularidade, o que lhe atribui um lugar
delas – como astrologia, tarô e terapias cor- específico no conjunto mais amplo de práticas
porais – não constituírem práticas isoladas, e representações que vêm alimentando visões
uma vez que estabelecem diálogo com dife- de mundo e estilos de vida de certos segmen-
rentes fontes culturais. Outro aspecto é que tos das camadas médias urbanas.
tais práticas terapêuticas, associadas a tradi- O uso do tarô, por sua vez, foi analisado
ções culturais diversas (chinesa, japonesa, por Tavares (1999). Neste caso, a especifici-
budista, hinduísta etc.), são freqüentemente dade de sua apropriação pelas camadas
tonalizadas pela vivência religiosa. Impor- médias urbanas constrói-se em tensão com
tante também é a relação das práticas neo- outros usos da cartomancia, cuja prática
esotéricas com a dinâmica urbana, o que se popular se volta a finalidades de ordem prá-
evidencia na estrutura arquitetônica dos tica, ao passo que os “tarólogos” pretendem
“espaços” e no modo de constituição de suas fazer uso das cartas como instrumento que
redes e circuitos. induz ao “autoconhecimento”. O jogo, a rela-
Tomadas em conjunto, essas práticas não ção com o consulente e a interpretação das
caracterizam um “movimento” (“Nova Era”, cartas têm, portanto, sentido e motivação
“New Age”, “Esotérico”), mas um fenômeno – diversos daqueles que presidem a atividade da
neo-esotérico – que se define pelo modo de sua cartomante nos meios populares.
constituição, dinâmica particular e vínculos As restrições dos tarólogos às leituras efe-
que estabelece com outras expressões culturais tuadas pelas cartomantes, segundo Tavares,
de segmentos médios urbanos. De suas carac- dizem respeito à sua qualificação, isto é, con-
terísticas, tais como aparecem em diversos estu- sideram a leitura desorganizada, composta de
dos efetuados, trato nos tópicos seguintes. frases feitas, voltada para “adivinhar” o passa-
do e prever o futuro do consulente (Idem,
pp. 115-116). Em contrapartida, propõem o
A ênfase diferenciadora das práticas uso do jogo de tarô como fator de aprendiza-
do, iniciação e instrumento de autoconheci-
No estudo do chamado “mundo da astro- mento, estabelecendo-se um outro padrão de
logia”, Vilhena (1990) reflete sobre as apro- relacionamento entre consultor e consulente.
priações do sistema astrológico por um seg- Atribui-se, portanto, à forma, ao uso e ao
mento das camadas médias urbanas do Rio de modo de manipulação de certos tipos de co-
Janeiro.13 Salienta, assim, que não está falando nhecimento um papel preponderante para se
dos usos da astrologia amplamente difundidos diferenciar práticas divinatórias populares da

10
prática do tarô e/ou do uso da astrologia. sidade de transformação do indivíduo em vá-
Distinguindo-se da prática divinitória difun- rias dimensões de sua vida. Quando se fala
dida nos jornais15 e pelas cartomantes tradi- em terapias alternativas, tem-se em mente
cionais, entendidas como vinculadas à deter- uma representação que redimensiona a no-
minação e à previsão, praticantes do jogo do ção de cura. No plano individual, a expecta-
tarô e adeptos da astrologia enfatizam esses tiva de transformação implica intervenção
sistemas simbólicos como busca de significa- numa situação de crise, de mal-estar,16 com
dos para eventos de sua vida cotidiana, porém vistas à recuperação do equilíbrio – físico-
considerando a sua participação efetiva nesta orgânico, psíquico/mental e espiritual. Além
atribuição de sentido. Esse mesmo tipo de dis- disso, toda crise é pensada como “oportuni-
tinção pode ser observado no contraponto dade”, como possibilidade de se desenvolver
entre o “terapeuta alternativo” e a “benzedei- potencialidades, o que sugere ao sujeito
ra/curandeira” popular (Tavares, 1999a). “tomar posse de si” por meio do endosso do
O que se destaca é uma nova atribuição de prefixo “auto”: autocura, autoconhecimento,
sentido a práticas “tradicionais” por meio do auto-ajuda.
diálogo com outras formas de conhecimento, Esse conceito contempla também o senti-
crenças e sistemas simbólicos, resultando nu- do de transformação do ambiente: uma pers-
ma elaboração que as diferencia de uma cono- pectiva holística, em que a constatação de
tação pragmática, característica da utilização mal-estar, de crises e insatisfações se associa ao
mais convencional da cartomancia e extensiva questionamento de padrões e valores vigentes
a outros sistemas divinatórios. Trata-se de sis- nas relações entre os seres humanos e com a
temas simbólicos que não se fecham em si natureza. Perspectiva que pode assumir um
mesmos, mas, ao contrário, buscam referência viés religioso quando associada à espiritualida-
em outras fontes culturais com as quais os de e à terapia. Embora não seja uma associa-
adeptos dessas práticas dialogam e interagem – ção inovadora,17 no universo neo-esotérico
sistemas religiosos, áreas do conhecimento assume tonalidades específicas: aponta para a
científico, o conhecimento tradicional das ar- necessidade de se resgatar o lugar do ser hu-
tes divinatórias –, referências que são ressigni- mano na criação divina, como possibilidade
ficadas, atribuindo sentido a essas práticas. de compensar a destruição ambiental (uma
Um dos principais resultados, almejado visão ecológica) e a violência (valorizando as
por meio dessa atribuição de sentido, é a pos- relações humanas). Trata-se de uma tentativa
sibilidade de utilização dos diferentes sistemas de salvar o mundo, perspectiva que atribui à
simbólicos e seus entrecruzamentos para o transformação uma conotação espiritual.
“conhecimento de si”. Objetivo que também É essa dimensão ampliada que remete à
é mencionado em outras práticas do campo transformação em escalas planetária, social e
neo-esotérico, como as que dão ênfase a uma de valores que estão presentes na interven-
conotação terapêutica. ção terapêutica do meio neo-esotérico.
Os estudos sobre o tema revelam certa
dificuldade em delimitar as fronteiras do
Conotação terapêutica campo das chamadas “terapias alternativas”.
A começar pela abrangência das práticas
No universo neo-esotérico, a noção de envolvidas, como tarô, astrologia, reiki, acu-
terapia vem sendo apontada como portadora puntura, florais etc., cujos especialistas se
de um sentido próprio, pois remete à neces- autodenominam “terapeutas”. As classifica-

11
ções propostas pelos autores variam nesse […] afirmação de um outro tipo de consa-
sentido. Tavares (1999), por exemplo, iden- gração, paralela, marginal, que não depende
tifica um segmento específico – a categoria tanto de estudo, diplomas, teoria, mas sim
“terapeuta não-médico” –, que divulga uma de “vivências”, “exercícios”, em suma, de tra-
“espiritualidade terapêutica”, cuja prática se balho corporal (Idem, p. 193).
diferencia tanto de outras práticas da cha-
mada “nebulosa místico-esotérica” como das Essas práticas, assim como o perfil des-
práticas médicas oficiais e/ou de cura com ses especialistas, constroem-se, portanto,
fundamento religioso (Idem, pp.110-112). segundo a mesma lógica observada no caso
O estudo de Jane Russo (1993), por sua das práticas divinatórias, isto é, por meio de
vez, chama essas mesmas práticas de “terapias interfaces, diálogos e conflitos com outros
corporais”. Segundo a autora, elas consti- sistemas simbólicos de cura e de crença.
tuem o entrecruzamento entre dois campos Na análise das articulações criadas pelas
distintos – “complexo alternativo”18 e campo práticas neo-esotéricas de cunho terapêutico
da “psi”. Ou seja, Russo enfatiza a singulari- com um amplo espectro de “fontes” ou “tra-
dade das terapias corporais em relação à dições”, reside a principal contribuição dos
intervenção psicológica convencional pelo estudos voltados às “terapias alternativas”.
fato de utilizarem o “corpo como instrumen- A contribuição de Sonia Maluf (1996,
to básico de mudança e de autoconstrução’’, 1999) a esse debate está no fato de ela quali-
em oposição à palavra. Sublinha a autora, ficar as chamadas “terapias alternativas” como
porém, que as próprias terapias corporais do constitutivas de “uma cultura terapêutica
“complexo alternativo” são produtoras de neo-religiosa ou neo-espiritual”, que conside-
certo modo de vida que define os chamados ra resultante do cruzamento entre novas e
“terapeutas corporais, de tal forma que “prá- velhas formas de religiosidade, práticas tera-
pêuticas e experiências ecléticas vivenciadas
ticas e personagens se confundem [e] […] o
por camadas médias urbanas. Na tentativa de
ideário que sustenta a sua prática dá sentido
apreender os significados específicos dessa re-
à sua trajetória” (Idem, p. 191).
lação, Maluf (1999) enfatiza a necessidade de
Debruçando-se especificamente sobre a
deslocar-se a perspectiva unilateral, que tem
forma como se cruzam os percursos dos tera-
caracterizado o olhar para as instituições reli-
peutas com a construção das terapias corpo-
giosas e suas doutrinas, por um lado, e as téc-
rais, Russo salienta que a oposição entre as
nicas de cura, por outro, tendo em vista que
técnicas propostas em relação às intervenções
é a experiência da articulação entre esses dife-
fundamentadas na psicologia convencional –
rentes campos que caracteriza o neo-esoteris-
o corpo contra a palavra – adquire significa-
mo. Nesse sentido, afirma: “é o sujeito porta-
dos que extrapolam o campo terapêutico.
dor de uma experiência ímpar que pode
Entre as questões desenvolvidas pela autora,
reunir experiências e doutrinas religiosas e
interessa-me ressaltar a idéia de que terapias
espirituais tão díspares e lhes dar um sentido”
corporais, como técnicas, se produzem “nas
(Idem, p. 71). Isso implica pensar como essas
margens” das instâncias legitimadas pela
diferentes referências são assimiladas e articu-
palavra, instrumento da racionalidade e da
ladas nos “itinerários terapêuticos”.
lógica escolar por excelência. As terapias cor-
Na construção desse argumento, a auto-
porais singularizam-se, portanto, pela nega-
ra destaca a importância de alguns elementos
ção da “consagração pela palavra” e pela
do universo simbólico das camadas médias,

12
entre os quais a cultura psi,19 a difusão da possibilidade que tais práticas abrem no sen-
homeopatia e outros campos em que tais seg- tido de uma mudança do imaginário do
mentos sociais atuam como organizações co- corpo na sociedade ocidental. Uma vez que se
letivas voltadas à ecologia e/ou alinhadas à veiculam, por meio das práticas terapêuticas
contra-cultura. Sublinha ainda a existência de alternativas, novas concepções acerca do
certas continuidades, como a espiritualidade e corpo, estas vêm se confrontar, de um lado,
a ênfase terapêutica de certos sistemas religio- com a noção de “corpo perfeito” e, de outro,
sos. Mas, ressalta a autora, inexiste uma ver- com a imagem do “corpo culposo”.
tente exclusiva de sustentação desse sistema – Para além das terapias que incidem sobre
a “cultura terapêutica neo-espiritual ou neo- o corpo, mudando a imagem que dele pos-
religiosa” tem como princípio o cruzamento suímos, interpretações recentes de conteúdos
entre diferentes fontes, sistemas religiosos, veiculados pelo neo-esoterismo têm ressonân-
terapias convencionais oficiais e não-oficiais. cia em novas alternativas propostas para o
É na ressalva do aspecto da presença de nascer e o morrer, limites da consciência do
diferentes fontes como possibilidades e dos humano, cunhados como humanização,
cruzamentos possíveis entre elas na efetivação como apontam os estudos de Carmem
de experiências que reside uma das contribui- Suzana Tornquist (2002) e Rachel Aisengart
ções mais significativas dos diversos estudos Menezes (2204), que tratam, respectivamen-
que fazem alusão às terapias alternativas. te, da humanização do parto e da humaniza-
Nesse contexto, o uso de artes divinatórias ção da morte. Ambos os trabalhos sublinham
(como a astrologia e o tarô) ou a participação a presença da noção do alternativo e o retorno
em sessões do Santo Daime são encarados à natureza como norteadores de práticas que
como recursos que podem ser acionados em se institucionalizam em hospitais, envolven-
processos e itinerários de busca espiritual e do, portanto, não somente a geração conside-
“conhecimento de si”, entendidos como por- rada alternativa, mas especialmente equipes
tadores de uma conotação terapêutica em de profissionais (médicos, psicoterapêutas, en-
função do caráter que lhes é atribuído na fermeiros entre outros) que integralizam suas
experiência dos sujeitos. Esses trabalhos, por- atividades propondo tais alternativas.
tanto, sugerem que o cruzamento de diferen- Tais imagens se difundem e são reinter-
tes referências implica uma atribuição de sen- pretadas no processo de circulação, o que
tido a essas práticas que não está dada a reflete uma outra característica do fenômeno
priori, mas que se organiza pela circulação de neo-esotérico, qual seja, a tendência à imple-
pessoas, informações e da assimilação de dife- mentação progressiva de redes e circuitos atra-
rentes saberes na interpretação das experiên- vés dos quais circulam especialistas/terapeutas,
cias cotidianas. adeptos com diferentes graus de envolvimen-
O deslocamento do eixo de referência to e informações sobre as práticas das diversas
das instituições e dos sistemas simbólicos para especialidades.
o campo da experiência dos sujeitos abre tam-
bém outras possibilidades interpretativas. Por
exemplo, a discussão sobre a formulação, no Redes, circuitos, espaços
seio das camadas médias urbanas, de novas
representações sobre corpo e saúde. O traba- Para além da doutrina e do templo, asso-
lho de Martins (1999) é sugestivo nesse sen- ciados à disseminação do neo-esoterismo,
tido. O argumento do autor gira em torno da assinala-se a emergência progressiva de “espa-

13
ços” cujas ações têm uma conotação que os dos pelos seus fins específicos. Mas, há sin-
singulariza em relação a outros núcleos em gularidades que podem ser percebidas na
que se desenvolvem práticas semelhantes. forma de implementação e organização das
Além das práticas mencionadas – de cura e atividades, bem como no modo de circula-
divinatórias –, esses “espaços” patrocinam ção de pessoas.
atividades educativas (cursos, palestras, edi- A pesquisa de Magnani (1999) em São
ção de livros), rituais (da lua cheia, de ano Paulo caracteriza esses espaços como “pontos
novo etc.) e de lazer (projeção de filmes, via- de referência estáveis no circuito neo-esotéri-
gens etc.), como assinala Magnani (1999) co”, uma vez que “constituem lugares de
em estudo realizado em São Paulo. Esses encontro e sociabilidade para pessoas cujos
espaços apresentam, portanto, regularidades gostos, formação, preocupações espirituais
na forma de organização e nas atividades que e estilos de vida se assemelham” (p. 34). O
desenvolvem, o que é extensivo também a estudo concentra-se na relação das práticas
outras atividades, como a organização de neo-esotéricas com a dinâmica da sociabili-
congressos e “feiras místicas”, que congregam dade na metrópole e demonstra que existem
espaços holísticos, constituindo redes que ar- articulações entre essas práticas, levando em
ticulam diversas regiões do país, bem como consideração a distribuição espacial associada
redes de relações internacionais. à movimentação dos adeptos. Para caracteri-
Assim, as práticas que conciliam, por zar o movimento entre espaços neo-esotéri-
exemplo, espiritualidade e terapia não se cos da cidade Magnani utiliza-se da categoria
limitam mais aos “consultórios”, lugar onde circuito, que consiste em identificar conjun-
se estabelecem relações entre especialista e tos de estabelecimentos que têm em comum
consulente. Progressivamente, têm-se imple- determinada prática ou serviço no meio ur-
mentado “espaços” que, a exemplo de algu- bano, mas que não são contíguos, e sim re-
mas clínicas, promovem diversas atividades: conhecidos pelos usuários habituais (Idem,
consultas de tarô e/ou astrologia, massagens, p. 68). Esta categoria permite, portanto, ob-
cursos, palestras, encontros coletivos, “vivên- servar o conjunto de práticas, grupos e espa-
cias” e workshops. Nessa ambientação, as prá- ços com suas diferentes orientações e propó-
ticas se cruzam, estabelecem intercâmbios de sitos, dotados de sentido, “sem no entanto
conteúdos que lhes dão sustentação. Fato dissolvê-los no interior de um mesmo caldei-
que pode ser observado também em “feiras rão” (Idem, p. 41).
místicas”, congressos etc.20 Se, por um lado, a distribuição geográ-
Na trama da cidade, tais práticas vêm fica dos espaços confere visibilidade ao fenô-
adquirindo visibilidade, desde que associa- meno, por outro, é a circulação de adeptos e
das a uma rede de serviços e de consumo. agentes entre e através deles que concretiza
Além de clínicas, consultórios e suas técnicas as redes e os circuitos. Em outros termos, é
alternativas, de restaurantes, cujo propósito a circulação que dá vida aos circuitos e redes,
é oferecer alternativas alimentares, nos últi- fazendo com que as práticas adquiram
mos anos têm proliferado os espaços holísti- “carne e osso” (Carneiro, 1998). Nessa pers-
co-alternativos, onde se atende à demanda pectiva torna-se proeminente a análise de
por produtos e práticas e se discute os con- trajetos, trajetórias, itinerários e processos
teúdos que as alimentam. Alguns desses que promovem a adesão a essas práticas, a
espaços têm-se tornado pontos de referência formação de terapeutas e a delimitação de
no circuito dos adeptos, uma vez reconheci- especialidades. A circulação permite perce-

14
ber também que existem diferentes graus de teúdo de mitos, de saberes vistos como tradi-
envolvimento e níveis de adesão.21 cionais, associados ou não a diversas doutri-
nas e experiências religiosas.
Essa forma de expressão, que não con-
Caracterização do Fenômeno verge para a institucionalização nos moldes
de uma doutrina, de uma religião, de um
Os estudos apresentados sugerem a exis- partido político ou de uma disciplina, susci-
tência de um campo intermediário entre o ta um esforço de construção de estratégias
exercício esporádico de uma prática neo-eso- de análise que desloquem referenciais esta-
térica orientada pelos apelos do mercado de belecidos – por exemplo, os institucionais,
consumo, de um lado, e o engajamento num como a religião –, privilegiando o processo
ideal de sociedade que se pretende realizar nas de construção, fluxos e movimentos.
comunidades rurais alternativas, de outro. Nos estudos sobre o tema há duas con-
Ainda que não possua contornos e fronteiras cepções principais: primeiro, de que o uni-
claramente definidas, esse campo intermediá- verso neo-esotérico se torna visível para além
rio apresenta certas especificidades que se das referências religiosas institucionais, exi-
delineiam no confronto com outras práticas e gindo a elaboração de estratégias de análise
representações, como exemplificam estudos que permitam a apreensão das ressonâncias
sobre a astrologia e o tarô. Também contri- na dinâmica cultural e na mudança social;
buem para isso o modo de organização dos segundo, estes trabalhos questionam a idéia
espaços e de suas atividades; o fluxo dos ato- de que as ações e as representações que defi-
res sociais e o modo como eles, com base nas nem o universo neo-esotérico simplesmente
suas experiências, atribuem sentido às práti- espelham a fragmentação do mundo moder-
cas ditas “alternativas”; e o delineamento de no e a tendência à proliferação de bens de
campos semânticos, como é o caso das “tera- consumo simbólicos, cuja escolha seria indi-
pias corporais”, que definem o seu nicho no vidual e a finalidade, a satisfação de necessi-
interior do campo mais amplo das alternati- dades imediatas.
vas terapêuticas. Entre as diferentes estratégias evidencia-
As ações e as representações concernen- das nos estudos citados destacam-se a ênfase
tes ao universo neo-esotérico consolidam-se nas experiências dos sujeitos e a referência
progressivamente no meio urbano mediante aos “espaços”, ampliando, assim, as perspec-
referências objetivas – espaços holístico/al- tivas de apreensão do processo de difusão de
ternativos instalados nas cidades e organiza- conhecimentos e práticas do universo neo-
ção de feiras e/ou congressos, nos quais se esotérico. Evidencia-se também a emergên-
promovem atividades especializadas, envol- cia de comportamentos coletivos, que sur-
vendo práticas de cura, cursos, organização gem da troca/comunhão de experiências em
de rituais, vivências, workshops etc. Essas ati- atividades desenvolvidas nesses “espaços”.
vidades dinamizam campos semânticos atua- Argumenta-se freqüentemente que a de-
lizados e/ou ressignificados e mobilizam a manda pelas intervenções terapêuticas alter-
circulação de “especialistas”. Em todas essas nativas e outras práticas estariam associadas à
dimensões, operacionalizam-se cruzamentos insatisfação de certos segmentos sociais (espe-
de conhecimento de origens diversificadas, cialmente as camadas médias urbanas) em
promovendo-se diálogos com algumas áreas relação a instituições consolidadas, como o
do conhecimento científico, o recurso a con- sistema biomédico, a família e a religião. De-

15
manda que, no entanto, não se traduz em pro- As vivências, palestras, cursos e celebrações
postas de transformação social, uma vez que as multiplicam-se ao longo do circuito, estabe-
transformações almejadas se circunscrevem na lecendo relações de proximidade e de trocas
busca e promoção do bem-estar individual.22 próprias de comunidade. Não, porém, aque-
Por seu caráter fragmentário, tais práticas las das comunidades biológicas, instituciona-
não se organizam na forma de um “movi- lizadas, permanentes, mas de um tipo que se
mento” estruturado. Mas, alguns estudos dissolve ao término da atividade, podendo
apontam para certas possibilidades organiza- ser reeditada no próximo evento, em algum
tivas, como é o caso dos “espaços” neo-esoté- outro ponto do circuito- com os mesmos ou
ricos, cujas formas de sociabilidade permitem outros participantes, não importa, pois todos
momentos de partilha e o reconhecimento de conhecem o código ou ao menos o jargão
básico (Idem, p. 134).
que há uma coletividade constituída pelos
adeptos, à medida que estes se reconhecem
como tal pelo endosso de determinadas lin- Também Maluf (1996) sustenta que nas
guagens e no modo de partilha de suas expe- expressões da cultura terapêutica neo-religio-
riências de busca espiritual. sa no Brasil há uma concepção de indivíduo
Referindo-se à formação de uma “sensibi- que não é mera continuidade do “individua-
lidade neo-esotérica”, a noção de comunidade lismo” ocidental, pois muitos adeptos per-
é utilizada por Magnani (1999) para questio- tencentes à classe média urbana ao se identi-
nar a forma pela qual convencionalmente se ficarem com certos movimentos culturais e
tem retratado esse universo, qual seja, a idéia políticos – como a contra-cultura, o feminis-
de indivíduos trilhando solitariamente seus mo, o movimento ecológico, entre outros –
caminhos espirituais.23 Considerando os pro- passam a ter uma visão crítica da sociedade,
cessos de comunicação entre essas práticas e ainda que não organizados em torno de um
a consolidação dos “espaços”, em torno dos movimento.
quais se definem circuitos e trajetos, Magnani O modo de difusão predominante do
assinala a presença na metrópole de um “tipo” fenômeno neo-esotérico contempla ordena-
de comunidade que se define por ser “efême- mentos processados em meio à circulação de
ra, de fim de semana” (p. 108). Trata-se, por- pessoas e de informações com a assimilação
tanto, de uma comunidade singular, que pro- de diferentes saberes apreendidos no cotidia-
picia uma sociabilidade alimentada por troca no. Assim, na atribuição de sentido às práticas
de pontos de vista, leituras, experiências de e aos conteúdos veiculados, em estreita de-
viagens… “no contexto do “pedaço” de cada pendência dos diferentes processos de difu-
um – aquele contexto onde os laços de lealda- são, ganha destaque o movimento dos atores
de são mais fortes – mas principalmente nos que desenvolvem participação ativa nos signi-
“circuitos”, ao longo dos quais se recortam ficados conferidos. A abertura constante para
os “trajetos” personalizados” (Idem, ibidem). novas práticas constitui-se parte de uma lógi-
Assim, utilizando-se da categoria “circuito” ca de organização que pode ser observada
para caracterizar uma forma específica de arti- buscando, não possíveis sínteses, mas o pro-
culação entre os adeptos, Magnani afirma que cesso e a dinâmica de elaboração do sentido.
os espaços e as atividades neo-esotéricas cons- Localizando na especificidade de sua
tituem uma forma particular de prática cultu- manifestação os mecanismos da sua dinâmi-
ral e comportamento, permitindo a formação ca, o universo neo-esotérico, seus conheci-
de pequenos grupos e redes: mentos e ações correlatas, pode ser situado

16
como um projeto em construção, cujas possi- ordenada no decorrer de sua evidência empí-
bilidades de abrangência vêm se ampliando e rica. É o que se observa nas diferentes e sem-
diluindo, sem perder de vista lógicas internas pre inovadoras dimensões sugeridas pelas lei-
próprias de uma difusão não localizada, mas turas e interpretações do fenômeno.

Notas

1. No decorrer deste trabalho, refiro-me a este conjunto pelo termo neo-esotérico, seguindo
as distinções apontadas por Magnani (1999), na expectativa de reconhecer singularidades
e simultaneamente considerar uma ampla gama de propósitos tomados como caracterís-
ticas do conjunto de práticas em questão.
2. Sobre as relações com a “história” da constituição dessas práticas, ver, entre outros, Heelas
(1996), Carozzi (1999). Magnani (2000).
3. Para exemplos de diferentes direções desse debate, ver Carvalho (1991 e 1994); Brandão
(1994), Sanchiz, (1995 e 1998), Soares (1994). Esses estudos apontam entrelaçamentos
singulares, em que o exercício religioso, relacionado a “escolhas” e “sínteses individuais”,
merece destaque.
4. O que não significa que sejam adaptadas de maneira simplista. Nesse sentido, é impor-
tante a observação de Carvalho de que “não se pode passar dos búzios para a astrologia
sem que os transformemos em outros búzios, próprios deste meta-circuito e não mais
característico da tradição afro-brasileira” (1994, p. 95).
5. Alguns desses artigos estão publicados na coletânea organizada por Carozzi (1999), que
contém também dois artigos sobre práticas esotéricas na Argentina.
6. As diferentes versões que assumem as práticas relacionadas ao neo-esoterismo continuam
em evidência na programação de seminários, congressos e encontros acadêmicos. Como
exemplo, a “XIII Jornadas sobre Alternativas Religiosas na América Latina”, realizada em
Porto Alegre, em setembro de 2005. Ver o site: www.pucrs.br/eventos/xiiijornadas/.
7. Nesses congressos, além de trabalhos especificamente dedicados ao fenômeno, são fre-
qüentes as menções ao neo-esoterismo em textos sobre a religião e a religiosidade, com
referências ao pluralismo religioso e a novas formas de sincretismo.
8. Questão discutida por Soares (1994), que se refere ao “alternativo” e ao “experimentalis-
mo cultural” contextualizados em um grau crescente de insatisfação em face de institui-
ções como a religião e a família.
9. No plano da vivência religiosa e espiritual, as alternativas evidenciam a valorização da
escolha em detrimento da afiliação em função de vínculos familiares; escolha que se carac-
terizará também em oposição à conversão, fazendo emergir a possibilidade de novos
arranjos de conteúdos e práticas religiosas, distanciando-se da fidelidade a uma doutrina,
a uma instituição, a uma Igreja.
10. Refiro-me às considerações acerca da família nas camadas médias urbanas. Ver, entre
outros autores, Salem (1989) Figueira (1985).
11. Sobre novos parâmetros nas relações afetivas, remeto o leitor à discussão de Giddens
(1992).
12. Uma das experiências citadas com freqüência é Esalem, na Califórnia, que também se
constitui em espaço de formação e disseminação (ver Heelas, 1996; Amaral, 1998;

17
Carozzi, 1999). No Brasil, essas comunidades possuem características particulares, con-
forme sublinhado por Magnani (2000, pp. 22ss.).
13. O autor entende a a astrologia como uma “fronteira simbólica” que influencia a formu-
lação de estilos de vida e visões de mundo de um segmento dessas camadas, ou seja, uma
maneira de “pensar a familiaridade e a prática da astrologia como um critério útil para
produzir tais fronteiras” (p. 82).
14. A noção de simbolismo foi formulada por Vilhena com base na recorrência em que apa-
recia nas entrevistas realizadas pelo autor: “assume um papel estratégico, contribuindo
para sua autodefinição [dos praticantes da astrologia]” (p. 135).
15. Embora a mídia em algumas ocasiões também se preocupe em divulgar os “simbolismos”,
como sublinha Maluf (1996) em relação à forma em que se apresenta a coluna
“Horóscopo” da Folha de São Paulo.
16. Como sublinha Maluf (1996), nas “narrativas terapêuticas” prefere-se falar em “mal-estar”
e não em “doença” para se referir à crise que desencadeia a busca de processos terapêuti-
cos singulares.
17. Especificamente no caso brasileiro, relações entre espiritualidade e cura estão presentes
nas diferentes versões dos cultos de origem africana, em segmentos do espiritismo e, mais
recentemente, no movimento neo-pentecostal e carismático católico.
18. Como “complexo alternativo”, Russo entende “uma filosofia difusa […] criando uma espé-
cie de amálgama a partir do qual as práticas se revelam passíveis de um uso concomitante,
tornam-se intercambiáveis ou combinam-se de diversas maneiras” (1993, p. 113).
19. Trata-se da referência à disseminação de uma linguagem psicanalítica que teria extrapola-
do o espaço da clínica e a relação do terapeuta com seu cliente, constituindo-se em uma
linguagem partilhada por segmentos médios urbanos. “Cultura psi” remete às análises de
Figueira (1985, apud Maluf, 1996).
20. O contexto da “feira esotérica” como espaço que amplia essa relação foi sublinhado por
Guerreiro (1998). Em relação aos Congressos,ver descrição de Amaral (1998), Schwade
(2001); Para espaços holísticos, ver Magnani (1999) e Schwade (2001).
21. Como exemplo, Vilhena (1990) destaca, em relação aos adeptos da astrologia, pratican-
tes com vínculos diferenciados. Magnani (1999) classifica-os em diferentes grupos – eru-
dito, participativo, ocasional.
22. Nesse caso remete-se ao universo simbólico no qual as camadas médias urbanas estão inse-
ridas, que teria no “individualismo” uma de suas principais marcas. A referência concen-
tra-se, entre outros autores, em Dumont (1995), Giddens (1992) e Simmel (1983). A con-
textualização sociológica contempla ainda outras questões: a ausência de instituições, de
doutrina ou de filosofias exclusivas de referência (seja religiosa seja política); a fragmenta-
ção do cotidiano e as inúmeras referências disponíveis, associadas a uma condição presen-
te especialmente nas grandes cidades, algumas vezes assinalada como “pós-moderna”.
23. Referência que o autor remete às afirmações de Russo (1993).

18
Bibliografia

ALBUQUERQUE, Leila Marach Basto. (1998), “Revista Planeta: imagens do corpo, imagens
da alma”. Trabalho apresentado nas VIII Jornadas sobre Alternativas Religiosas na
América Latina, São Paulo, USP, 22-25 set.
_________. (1999), “Orientalização e novas gestões do corpo”. Trabalho apresentado no
Encontro Anual da Anpocs, Caxambu (MG), out.
AMARAL, Leila. (1998), Carnaval da alma: comunidade, essência e sincretismo na Nova Era.
Tese de doutorado, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Museu
Nacional, Rio de Janeiro.
_________. (1999), “Sincretismo em movimento: o estilo Nova Era de lidar com o sagrado”,
in Maria Julia Carozzi, A Nova Era no Mercosul, Petrópolis, Vozes.
AMARAL, Leila et al. (1994), Nova Era: um desafio para os cristãos. São Paulo, Paulinas.
BARROSO, Maria Macedo. (1998), “‘Deus é diferente mas não desigual de mim’: a produ-
ção da imanência nas práticas de meditação da Siddha Yoga”. Trabalho apresenta-
do nas VIII Jornadas sobre Alternativas Religiosas na América Latina, São Paulo,
USP, 22-25 set.
BELLAH, Robert N. (1986), “A nova consciência religiosa e a crise da modernidade”. Religião
e Sociedade, 13 (2): 18-37, Rio de Janeiro, Iser.
BIZERRIL, José. (1998), “‘Dois sentados sobre a terra’: corpo e espírito na experiência do
Tao”. Trabalho apresentado nas VIII Jornadas sobre Alternativas Religiosas na
América Latina. São Paulo, USP, 22-25 set.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. (1994), “A crise das instituições tradicionais produtoras de sen-
tido”, in A. Moreira e R. Zicman (orgs.), Misticismo e novas religiões, Petrópolis, Vozes.
CAMURÇA, Marcelo A. (1998), “Sombras na catedral: a influência New Age na Igreja
Católica e o holismo da teologia de Leonardo Boff e Frei Betto”. Numen – Revista
de Estudos e Pesquisa da Religião, 1 (1): 85-125, Juiz de Fora, Editora da
Universidade Federal de Juiz de Fora, jul-dez.
CARDOSO, Alexandre. (1998), “Pés na terra e cabeça nas nuvens: contornos do misticismo
contemporâneo”. Trabalho apresentado nas VIII Jornadas sobre Alternativas
Religiosas na América Latina, São Paulo, USP, 22-25 set.
CARNEIRO, Sandra. (1998), “Trajetórias espirituais enquanto projeto da modernidade”.
Trabalho apresentado nas VIII Jornadas sobre Alternativas Religiosas na América
Latina, São Paulo, USP, 22-25 set.
CAROZZI, Maria Julia. (1999), “Introdução”, in _________, A Nova Era no Mercosul,
Petrópolis, Vozes.
CARVALHO, José Jorge. (1991), “Características do fenômeno religioso na sociedade con-
temporânea”. Série Antropologia, 114: 1-46, Brasília, Universidade de Brasília.

19
_________. (1994), “O encontro de velhas e novas religiões: esboço de uma teoria dos esti-
los de espiritualidade”, in A. Moreira e R. Zicman (orgs.), Misticismo e novas reli-
giões, Petrópolis, Vozes.
_________. (2000), “A religião como sistema simbólico: uma atualização teórica”. Série
Antropologia, 285: 1-16, Brasília, Universidade de Brasília.
CASTRO MARTINS, Maria Cristina. (1999), “O amanhecer de uma nova era: uma análise
do espaço sagrado e simbólico do Vale do Amanhecer”. Trabalho apresentado nas
XIX Jornadas sobre Alternativas Religiosas na América Latina, Rio de Janeiro, set.
D’ANDREA, Anthony. (1996), O self perfeito e a nova era: individualismo e reflexividade em
religiosidades pós-tradicionais. Dissertação de mestrado, Rio de Janeiro, Iuperj.
DUMONT, Louis. (1993), O individualismo: uma perspectiva antropológica da antropologia
moderna. Rio de Janeiro, Rocco.
FIGUEIRA, Sérvulo (org.). (1985), Uma nova família? O moderno e o arcaico na família de
classe média brasileira. Rio de Janeiro, Zahar.
FONSECA, Alexandre Brasil. (1998), “Nova Era evangélica, confissão positiva e o cresci-
mento dos sem religião”. Trabalho apresentado nas VIII Jornadas sobre
Alternativas Religiosas na América Latina. São Paulo, USP, 22-25 set.
_________. (1999), “O jardim mágico brasileiro”. Trabalho apresentado no Encontro Anual
da Anpocs, Caxambu (MG).
FORTIS, Antônio Carlos. (1997), O buscador e o tempo: um estudo antropológico do pensamento eso-
térico e da experiência iniciática da Eubiose. Dissertação de Mestrado, São Paulo, USP.
GIDDENS, Anthony. (1992), As transformações da intimidade. São Paulo, Editora da Unesp.
GUERREIRO, Silas. (1998), “Encontro de magia, mito e ciência na consulta aos oráculos: o
espaço da feira mística”. Trabalho apresentado nas VIII Jornadas sobre Alternativas
Religiosas na América Latina, São Paulo, USP, 22-25 set.
HEELAS, Paul. (1996), The New Age movement: the celebration of the self and the sacralization
of Modernity. Oxford, Blackwell Publishers.
LIMA, Ricardo Barbosa. (1998), “Nova consciência religiosa e ambientalismo: uma leitura
em torno das representações da categoria natureza entre grupos místico-esotéri-
cos e ambientalistas em Alto Paraíso de Goiás (GO)”. Trabalho apresentado nas
VIII Jornadas sobre Alternativas Religiosas na América Latina, São Paulo, USP,
22-25 set.
MAGNANI, José Guilherme. (1995). “Esotéricos na cidade: os novos espaços de encontro,
vivência e culto”. São Paulo em Perspectiva, 9 (2): 66-72.
_________. (1996), “Quando o campo é a cidade: fazendo antropologia na metrópole”, in
José G. Cantor Magnani e Lilian de Lucca Torres, Na metrópole, São Paulo, Edusp.
_________. (1999), Mystica urbe. São Paulo, Studio Nobel.

20
_________. (1999a), “O xamanismo urbano e a religiosidade contemporânea”. Religião &
Sociedade, 20 (2): 113-140, Rio de Janeiro, Iser.
_________. (2000), O Brasil da Nova Era. Rio de Janeiro, Jorge Zahar.
MALUF, Sônia Weidner. (1996), Les enfants du Verseau au pays des terreiros. Tese de doutora-
do, École des Hautes Études em Sciences Sociales, Paris.
_________. (1999), “Antropologia, narrativa e a busca de sentido”. Horizontes Antropológicos,
Porto Alegre, pp.69-81.
MARTINS, Paulo Henrique. (1999), “As terapias alternativas e a libertação dos corpos”, in
Maria Julia Carrozi (org.), A Nova Era no Mercosul, Petrópolis, Vozes.
_________. (1999a), “Onde está a alegria”. Trabalho apresentado nas XIX Jornadas sobre
Alternativas Religiosas na América Latina, Rio de Janeiro.
MEDEIROS, Bartolomeu Tito Figueirôa. (1997), “Estratégias de militância na conspiração
aquariana”. Revista Anthropológicas, 2 (2): 135-169, PPGAS/UFPE, Recife.
MENEZES, Rachel Aisengart. (2004), “Dilemas de uma antropologia médica na casa da morte”.
Trabalho apresentado na 24a Reunião da Associação Brasileira de Antropologia,
Olinda-PE.
_________. (2005), “O momento da morte: interpretação familiar e religiosidade”. Trabalho
apresentado no XXIX Encontro Anual da Anpocs, Caxambu (MG).
OSÓRIO, Andréa. (2004), “Bruxas modernas: um estudo sobre identidade feminina entre os
praticantes wicca”. Campus – Revista de Antropologia Social, 5 (2): 157-171,
PPGAS/UFPR, Curitiba.
PÉREZ, Lea. (1999), “Fim de século, efervescência religiosa e novas reconfigurações societá-
rias”. Trabalho apresentado nas XIX Jornadas sobre Alternativas Religiosas na
América Latina, Rio de Janeiro, set.
PEREIRA, Magda V. dos Santos. (1998), “O universo místico-religioso da obra de Paulo
Coelho na ótica de seu leitor”. Trabalho apresentado nas VIII Jornadas sobre
Alternativas Religiosas na América Latina, São Paulo, USP, 22-25 set.
REIS, Adriana. (1998), “Alternativas religiosas de educação infantil em Brasília”. Trabalho
apresentado nas VIII Jornadas sobre Alternativas Religiosas na América Latina, São
Paulo, USP, 22-25 set.
_________. (2000), “Nova religiosidade e educação em Brasília: uma nova ética em curso, in
Maria Francisca Pinheiro et al. (orgs.), Política, ciência e cultura em Max Weber,
Brasília, Editora da UnB.
RUSSO, Jane. (1993), O corpo contra a palavra. Rio de Janeiro, Editora da UFRJ.
SALEM, Tânia. (1989), “O casal igualitário: princípios e impasses”. Revista Brasileira de
Ciências Sociais, 9 (3): 24-37.

21
SANCHIS, Pierre. (1995), “Sendeiros, atalhos e encruzilhadas: o campo religioso contempo-
râneo”. Trabalho apresentado no IXX Encontro da Anpocs, Caxambu (MG).
_________. (1988), “O campo religioso contemporâneo no Brasil”, in A. Oros e Carlos A.
Steil (orgs.), Globalização e religião, Petrópolis, Vozes.
SCHWADE, Elisete. (2001), Deusas urbanas: experiências encontros e espaços e neo-esotéricas no
Nordeste. Tese de doutorado. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social
da Universidade de São Paulo (mimeo.).
SIMMEL, Georg. (1983), “Sociabilidade: um exemplo de sociologia pura e formal”, in
Evaristo Moraes Filho (org.), Simmel, São Paulo, Ática.
SIQUEIRA, Deis. (1998), “A construção metodológica do sujeito-objeto de investigação”.
Trabalho apresentado nas VIII Jornadas sobre Alternativas Religiosas na América
Latina, São Paulo, USP, 22-25 set.
_________. (1999), “Psicologização das religiões: religiosidade e estilo de vida”. Trabalho
apresentado nas IX Jornadas sobre Alternativas Religiosas na América Latina, Rio
de Janeiro, set.
SIQUEIRA, Deis & BANDEIRA, Lourdes et al. (1997), “O misticismo no Planalto Central:
Alto Paraíso, o “chakra cardíaco do planeta”, in _________, Tristes cerrados: socie-
dade e biodiversidade, Brasília/DF, Paralelo 15.
_________. (1998), “O profano e o sagrado na construção da ‘Terra Prometida’”, in Brasilmar
Ferreira Nunes (org.), Brasília: a construção do cotidiano, Brasília/DF, Paralelo 15.
_________. (1998a), “Perfil dos adeptos e caracterização dos grupos místico-esotéricos no
Distrito Federal”. Trabalho apresentado nas VIII Jornadas sobre Alternativas
Religiosas na América Latina, São Paulo, USP, 22-25 set.
SOARES, Luiz Eduardo. (1994), “Religioso por natureza: cultura alternativa e misticismo
ecológico no Brasil”, in _________, O rigor da indisciplina, Rio de Janeiro,
Relume Dumará.
SOUZA, André Ricardo & SOUZA, Patrícia. (1998), “A umbanda esotérica em São Paulo”.
Trabalho apresentado nas VIII Jornadas sobre Alternativas Religiosas na América
Latina, São Paulo, USP, 22-25 set.
STOLL, Sandra Jaqueline. (1999), Entre dois mundos: espiritismo na França e no Brasil. Tese de
doutorado, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, USP, São Paulo.
TAVARES, Fátima Regina G. (1999), “Holismo terapêutico no Rio de Janeiro”, in Maria
Julia Carrozzi (org.), A Nova Era no Mercosul, Petrópolis, Vozes.
_________. (1999a), “Tornando-se tarólogo: percepção “racional” versus percepção “intuiti-
va” entre os iniciantes do tarot no Rio de Janeiro”. Numen – Revista de Estudos e
Pesquisa da Religião, 2 (1): 97-123, Juiz de Fora, Editora da Universidade Federal
de Juiz de Fora.

22
_________. (1999b), “Feiras esotéricas e redes alternativas: algumas notas comparativas entre
circuitos carioca e parisiense”. Trabalho apresentado nas XIX Jornadas sobre
Alternativas Religiosas na América Latina, Rio de Janeiro.
TORNQUIST, Carmen Suzana. (2002), “Armadilhas da Nova Era: natureza e maternidade
no ideário da humanização do parto”. Revista de Estudos Feministas, 10 (2): 389-
397, Florianópolis, jul./dez.
VELHO, Otávio. (1998), “Ensaio herético sobre a atualidade da gnose”. Horizontes
Antropológicos, ano 4 (8): 34-52, PPGAS/UFRGS, Porto Alegre.
VILHENA Luiz Rodolfo. (1990), O mundo da astrologia. Rio de Janeiro, Zahar.

• Artigo recebido em Jan/2006


• Aprovado em Jun/2006

Resumo

Neo-esoterismo no Brasil: Dinâmica de um Campo de Estudos

Este artigo faz um mapeamento das análises efetuadas acerca do fenômeno neo-esotérico, duran-
te a última década, no Brasil em particular. Situa contornos das principais referências analíticas,
apontando a disseminação do neo-esoterismo para além da sua relação com a religiosidade e
espiritualidade. Por meio da caracterização de tal fenômeno como um universo em construção,
destaca, como evidências na literatura, a abertura constante para novas possibilidades, a impor-
tância de sua conotação terapêutica e o modo urbano que assumem as suas práticas.

Palavras-chave: Neo-esoterismo; Mudanças de comportamento; Sociabilidade urbana.

Abstract

Neo-esoterism in Brazil: Dynamics of a Field of Study

This article traces the social and cultural analyses of the neo-esoteric phenomenon, particu-
larly as it has developed in Brazil within the last decade. The article outlines the main analy-
tical references, and highlights the spread of this phenomenon beyond the religious and spi-
ritual scope. As the world we live in continues to be ever more socially dynamic, this paper
stresses the constant openness for new possibilities of a neo-esoteric perspective, the impor-
tance of its therapeutic connotations, and the urban ways in which practices are adopted.

Keywords: Neo-esoteric; Behavior transformation; Urban sociability.

23
Résumé

Néo-ésotérisme au Brésil : Dynamique d’un Champ d’Études

Cet article fait le point sur les études qui ont été développées, particulièrement au Brésil, à
propos du phénomène néo-ésotérique au cours de la dernière décennie. Les principales réfé-
rences analytiques sont identifiées et révèlent la dissémination du néo-ésotérisme au-delà de
sa relation avec la religiosité et la spiritualité. Tout en considérant ce phénomène comme un
univers en construction, l’auteur signale, par des évidences littéraires, son ouverture vers d’au-
tres possibilités, l’importance de sa connotation thérapeutique et le mode de vie urbain assu-
mé par ses nouvelles pratiques.

Mots-clés: Néo-ésotérisme; Changements comportementaux; Sociabilité urbaine.

24
Perspectivas Teóricas sobre o Processo de
Formulação de Políticas Públicas*

Ana Cláudia N. Capella

Introdução Modelo de Multiple Streams

Este trabalho tem como objetivo apresen- Em Agendas, alternatives, and public poli-
tar e discutir modelos teóricos que auxiliem cies, Kingdon procura responder à seguinte
na compreensão do processo de formulação questão: por que alguns problemas se tornam
de políticas públicas. A análise privilegiará o importantes para um governo? Como uma
processo de formação da agenda de políticas idéia se insere no conjunto de preocupações
governamentais (agenda-setting), procurando dos formuladores de políticas, transforman-
investigar de que forma uma questão específi- do-se em uma política pública? Kingdon con-
ca se torna importante num determinado mo- sidera as políticas públicas como um conjunto
mento, chamando a atenção do governo e formado por quatro processos: o estabalecimento
passando a integrar sua agenda. de uma agenda de políticas públicas; a consi-
deração das alternativas para a formulação de
Dois modelos, em especial, desenvolvi-
políticas públicas, a partir das quais as escolhas
dos na área de políticas públicas, destacam-
serão realizadas; a escolha dominante entre o
se por sua capacidade em explicar como as
conjunto de alternativas disponíveis e, final-
agendas governamentais são formuladas
mente, a implementação da decisão. Em seu
e alteradas: o modelo de Múltiplos Fluxos
modelo de multiple streams, o autor preocupa-
(Multiple Streams Model) desenvolvido por se especificamente com os dois primeiros pro-
John Kingdon (2003) e o modelo de Equi- cessos, chamados estágios pré-decisórios: a
líbrio Pontuado (Punctuated Equilibrium formação da agenda (agenda-setting) e as alter-
Model), de Frank Baumgartner e Brian Jones nativas para a formulação das políticas (policy
(1993). formulation). A seguir, procuraremos apresen-
Esses modelos representam importantes tar e analisar o modelo de Kingdon, destacan-
ferramentas na análise de processos de formu- do suas bases teóricas, benefícios potenciais
lação de políticas e de mudança na agenda para a compreensão dos processos de forma-
governamental, reservando grande destaque à ção da agenda governamental, bem como as
dinâmica das idéias no processo político. principais críticas direcionadas ao modelo.

* Este trabalho foi apresentado no GT “Políticas Públicas” no 29º Encontro Anual da Anpocs, Caxambu,
em outubro de 2005. Agradeço aos comentários e sugestões dos participantes do encontro e dos pare-
ceristas anônimos do BIB.

BIB, São Paulo, nº 61, 1º semestre de 2006, pp. 25-52 25


Dinâmica do modelo: os três fluxos Em momentos críticos esses fluxos conver-
gem, e é precisamente neste momento que
Inicialmente formulado para analisar as são produzidas mudanças na agenda. Assim,
políticas públicas nas áreas de saúde e trans- para o modelo de Kingdon, a mudança da
portes do governo federal norte-americano, o agenda é o resultado da convergência entre
modelo de Kingdon tornou-se referência para três fluxos: problemas (problems); soluções ou
os estudos voltados à análise da formulação de alternativas (policies); e política. (politics).
políticas governamentais (Zahariadis, 1999). No primeiro fluxo, o modelo busca
Baseado em um corpo extenso de dados empí- analisar de que forma as questões são reco-
ricos, obtidos em sua maior parte por meio de nhecidas como problemas e por que deter-
entrevistas com altos funcionários públicos, o minados problemas passam a ocupar a agen-
modelo preocupa-se com os estágios pré-deci- da governamental. Considerando que as
sórios da formulação de políticas. A agenda pessoas não podem prestar atenção a todos
governamental, para Kingdon, é definida co- os problemas durante todo tempo, Kingdon
mo o conjunto de assuntos sobre os quais o parte do pressuposto de que esses indivíduos
governo e pessoas ligadas a ele concentram concentrarão sua atenção em alguns deles
sua atenção num determinado momento.1 ignorando outros.
Uma questão passa a fazer parte da agen- Para entender o processo de seleção,
da governamental quando desperta a atenção Kingdon estabelece uma importante dife-
e o interesse dos formuladores de políticas. renciação entre problemas e questões (condi-
No entanto, em virtude da complexidade e tions). Uma questão, para o autor, é uma
do volume de questões que se apresentam a situação social percebida, mas que não des-
esses formuladores, apenas algumas delas são perta necessariamente uma ação em contra-
realmente consideradas num determinado partida. Esse tipo de questão configura-se
momento. Estas compõem a agenda decisio- como problema apenas quando os formula-
nal: um subconjunto da agenda governamen- dores de políticas acreditam que devem fazer
tal que contempla questões prontas para uma algo a respeito. Dado o grande volume de
decisão ativa dos formuladores de políticas, decisões e a incapacidade de lidar com todas
ou seja, prestes a se tornarem políticas (poli- as questões ao mesmo tempo, a atenção dos
cies).2 Essa diferenciação faz-se necessária, formuladores de políticas depende da forma
segundo o autor, porque ambas as agendas como eles as percebem e as interpretam e,
são afetadas por processos diferentes. Existem mais importante, da forma como elas são
ainda agendas especializadas – como aquelas definidas como problemas.
específicas da área de saúde, transportes e As questões transformam-se em proble-
educação –, que refletem a natureza setorial mas ao chamar a atenção dos participantes
da formulação de políticas públicas. de um processo decisório, despertando a
Para compreender como algumas ques- necessidade de ação por meio de três meca-
tões passam a ser efetivamente consideradas nismos básicos: indicadores; eventos, crises e
pelos formuladores de políticas, Kingdon símbolos; e feedback das ações governamen-
(2003) caracteriza o governo federal norte- tais. Quando indicadores – custos de um
americano como uma “anarquia organizada”3, programa, taxas de mortalidade infantil,
na qual três fluxos decisórios (streams) se- variações na folha de pagamento de servido-
guem seu curso de forma relativamente inde- res, evolução do déficit público, por exemplo
pendente, permeando toda a organização. – são reunidos e apontam para a existência

26
de uma questão, esta pode ser percebida problemas, para posteriormente alcançar a agen-
como problemática pelos formuladores de da governamental.
políticas. Indicadores, no entanto, não deter- Do ponto de vista da estratégia política, a
minam per si a existência concreta de um definição do problema é fundamental. A
problema, antes são interpretações que auxi- forma como um problema é definido, articu-
liam a demonstrar a existência de uma ques- lado, concentrando a atenção dos formulado-
tão. Assim, contribuem para a transformação res de política pode determinar o sucesso de
de questões em problemas, principalmente uma questão no processo altamente competi-
quando revelam dados quantitativos, capazes tivo de agenda-setting.
de demonstrar a existência de uma situação No segundo fluxo – policy stream – temos
que precisa de atenção. O segundo grupo de um conjunto de alternativas e soluções (policy
mecanismos compreende eventos (focusing alternatives) disponíveis para os problemas, ou
events), crises e símbolos. Muitas vezes, um “what to do ideas”5. Kingdon (2003) conside-
problema não chama a atenção apenas por ra que as idéias geradas nesse fluxo não estão
meio de indicadores, mas por causa de even- necessariamente relacionadas à percepção de
tos de grande magnitude, como crises, desas- problemas específicos. Como afirma o autor:
tres ou símbolos que concentram a atenção “As pessoas não necessariamente resolvem
num determinado assunto. Esses eventos, no problemas. […] Em vez disso, elas geralmen-
entanto, raramente são capazes de elevar um te criam soluções e, então, procuram proble-
assunto à agenda, e geralmente atuam no mas para os quais possam apresentar suas
sentido de reforçar a percepção preexistente soluções” (Idem, p. 32).6 Assim, as questões
de um problema. Finalmente, o terceiro presentes na agenda governamental (que atrai
grupo consiste no feedback sobre programas a atenção das pessoas dentro e fora do gover-
em desenvolvimento no governo. O monito- no) não são geradas aos pares, com problemas
ramento dos gastos, o acompanhamento das e soluções.
atividades de implementação, o cumprimen- A geração de alternativas e soluções é
to (ou não) de metas, possíveis reclamações explicada pelo modelo de multiple streams em
de servidores ou dos cidadãos e o surgimen- analogia ao processo biológico de seleção
to de conseqüências não-antecipadas são natural. Da mesma forma como moléculas
mecanismos que podem trazer os problemas flutuam no que os biólogos chamam de
para o centro das atenções dos formuladores “caldo primitivo”, o autor entende que as
de políticas. idéias a respeito de soluções são geradas em
Mesmo que indicadores, eventos, símbolos comunidades (policy communities) e flutuam
ou feedbacks sinalizem questões específicas, esses em um “caldo primitivo de políticas” (policy
elementos não transformam as questões auto- primeval soup). Neste “caldo”, algumas idéias
maticamente em problemas. Essencial para o sobrevivem intactas, outras confrontam-se e
entendimento do modelo é compreender que combinam-se em novas propostas, outras
problemas são construções sociais, envolvendo ainda são descartadas. Nesse processo compe-
interpretação: “Problemas não são meramente as titivo de seleção, as idéias que se mostram viá-
questões ou os eventos externos: há também um veis do ponto de vista técnico e as que têm
elemento interpretativo que envolve percepção” custos toleráveis geralmente sobrevivem,
(Kingdon, 2003, pp. 109-110, trad. nossa).4 assim como aquelas que representam valores
Portanto, as questões podem se destacar entre os compartilhados contam com a aceitação do
formuladores de políticas, transformando-se em público em geral e com a receptividade dos

27
formuladores de políticas. Como resultado (policy stream) produz uma lista restrita de pro-
final, partindo de um grande número de postas, reunindo algumas idéias que sobrevive-
idéias possíveis, um pequeno conjunto de ram ao processo de seleção. Tais idéias não
propostas é levado ao topo do “caldo primiti- representam, necessariamente, uma visão con-
vo de políticas”, alternativas que emergem sensual de uma comunidade política a respeito
para a efetiva consideração dos participantes de uma proposta, mas sim o reconhecimento,
do processo decisório. pela comunidade, de que algumas propostas
As comunidades geradoras de alternativas são relevantes dentro do enorme conjunto de
(policy communities) são compostas por espe- propostas potencialmente possíveis.
cialistas – pesquisadores, assessores parlamen- Kingdon assegura às idéias um papel
tares, acadêmicos, funcionários públicos, ana- importante em seu modelo, argumentando
listas pertencentes a grupos de interesses, entre que elas são freqüentemente mais importan-
outros – que compartilham uma preocupação tes na escolha de uma alternativa do que a
em relação a uma área (policy area). No pro- influência de grupos de pressão, por exemplo,
cesso de seleção descrito acima, quando uma e chama a atenção dos cientistas políticos
proposta é percebida como viável, ela é rapi- para essa dimensão do processo decisório:
damente difundida, ampliando a consciência
dos atores sobre uma determinada idéia. Isso Cientistas políticos estão acostumados a
não significa que todos os especialistas de uma conceitos como poder, influência, pressão e
comunidade compartilhem das mesmas cren- estratégia. No entanto, se tentarmos com-
ças: algumas comunidades são extremamente preender as políticas públicas somente em
fragmentadas, abrigando pontos de vista bas- termos desses conceitos, deixamos de enten-
tante diversificados. A difusão das idéias tam- der muita coisa. As idéias, longe de serem
pouco se dá de forma automática, uma vez meras desculpas ou racionalizações, são par-
que comunidades bem estruturadas apresen- te integrais do processo decisório dentro e
tam tendência a resistirem às novas idéias. A em torno do governo (idem, p. 125).7
difusão é descrita pelo autor como um pro-
cesso no qual indivíduos que defendem uma Abordagens que, como o modelo de
idéia procuram levá-la a diferentes fóruns, na multiple streams, destacam a centralidade das
tentativa de sensibilizar não apenas as comu- idéias, das interpretações e da argumentação
nidades de políticas (policy communities), mas no processo de formulação das políticas
também o público em geral, vinculando a constituem um desafio à análise tradicional
audiência às propostas e construindo progres- sobre a formulação de políticas públicas, au-
sivamente sua aceitação. Dessa forma, as xiliando na compreensão da dimensão sim-
idéias são difundidas, basicamente, por meio bólica desse processo.8
da persuasão. A importância desse processo Finalmente, o terceiro fluxo é composto
de difusão – chamada de soften up pelo autor pela dimensão da política “propriamente
– vem da constatação de que, sem essa sensi- dita” (politics stream). Independentemente do
bilização, as propostas não serão seriamente reconhecimento de um problema ou das al-
consideradas quando apresentadas. ternativas disponíveis, o fluxo político segue
Com o processo de difusão ocorre uma sua própria dinâmica e regras. Diferentemen-
espécie de efeito multiplicador (bandwagon), te do fluxo de alternativas (policy stream), em
em que as idéias se espalham e ganham cada que o consenso é construído com base na per-
vez mais adeptos. Assim, o fluxo de políticas suasão e difusão das idéias, no fluxo político

28
(politics stream) as coalizões são construídas a tal (turnover); mudanças de gestão; mudan-
partir de um processo de barganha e negocia- ças na composição do Congresso; mudanças
ção política. na chefia de órgãos e de empresas públicas.
Nesse fluxo, três elementos exercem in- Esses acontecimentos podem exercer grande
fluência sobre a agenda governamental. O pri- influência sobre a agenda governamental ao
meiro é chamado por Kingdon de “clima” ou desencadearem mudanças que potencializam
“humor” nacional (national moodino) e é ca- a introdução de novos itens na agenda, ao
racterizado por uma situação na qual diversas mesmo tempo em que podem também blo-
pessoas compartilham as mesmas questões quear a entrada ou restringir a permanência
durante um determinado período de tempo. de outras questões. O início de um novo go-
O “humor nacional” possibilita algo seme- verno é, segundo Kingdon, o momento mais
lhante ao “solo fértil” para algumas idéias “ger- propício para mudanças na agenda.
minarem”, ajudando a explicar por que algu- Outro tipo de mudança dentro do go-
mas questões chegam à agenda enquanto verno, com efeitos importantes sobre a agen-
outras são descartadas. A percepção, pelos par- da, é a mudança de competência sobre uma
ticipantes do processo decisório, de um hu- determinada questão. Cada setor dentro do
mor favorável cria incentivos para a promoção governo, sejam agências administrativas,
de algumas questões e, em contrapartida, po- sejam comitês parlamentares, reivindica au-
de também desestimular outras idéias. toridade para atuar no seu campo de ativida-
O segundo elemento do fluxo político é de. Muitas vezes uma questão envolve áreas
composto pelas forças políticas organizadas, distintas, gerando disputas sobre sua compe-
exercidas principalmente pelos grupos de tência. Essas disputas podem levar a uma
pressão. O apoio ou a oposição dessas forças a situação de imobilidade governamental, mas
uma determinada questão sinaliza consenso também à inclusão de questões na agenda.
ou conflito numa arena política, permitindo Parlamentares, por exemplo, podem disputar
aos formuladores de políticas avaliarem se o os créditos por um projeto com impacto
ambiente é propício ou não a uma proposta. popular e, nessa disputa, o assunto pode se
Quando grupos de interesses e outras forças tornar proeminente e ganhar espaço na agen-
organizadas estão em consenso em relação a da. Por outro lado, algumas questões podem
uma proposta, o ambiente é altamente propí- ser sistematicamente ignoradas devido à sua
cio para uma mudança nessa direção. Mas localização na estrutura administrativa. Pes-
quando existe conflito em um grupo, os de- quisando a área de saúde dentro do governo
fensores de uma proposta analisam o equilí- norte-americano, Kingdon percebeu que
brio das forças em jogo, procurando detectar muitas questões faziam parte de agendas
setores favoráveis ou contrários à emergência especializadas sem, no entanto, integrarem a
de uma questão na agenda. A percepção de agenda de decisão mais ampla do setor. Isto
que uma proposta não conta com apoio de acontecia porque o conjunto de especialistas
alguns setores não implica necessariamente no preocupados com essas questões estava redu-
abandono de sua defesa, mas indica que have- zido a uma área específica dentro da estrutu-
rá custos durante o processo. ra do Poder Executivo, restringindo a difusão
Finalmente, o terceiro fator a afetar a desses assuntos para outras comunidades.
agenda são as mudanças dentro do próprio Grupos de pressão, a opinião pública, as
governo: mudança de pessoas em posições pressões do Legislativo e das agências admi-
estratégicas dentro da estrutura governamen- nistrativas, os movimentos sociais, o processo

29
eleitoral, entre outros fatores, determinam o governo, políticos buscam alternativas nas po-
clima político para a mudança da agenda go- licy communities. Portanto, embora a mudan-
vernamental, podendo tanto favorecer uma ça na agenda seja resultado da convergência
mudança, como restringi-la. Entre os elemen- dos três fluxos, a oportunidade para que esta
tos considerados no fluxo político, Kingdon mudança se processe é gerada pelo fluxo de
destaca as mudanças no clima nacional (natio- problemas e pelo fluxo político e dos eventos
nal mood) e as mudanças dentro do governo que transcorrem no interior desse processo.
(turnover) como os maiores propulsores de Por outro lado, a rede de soluções, embora
transformações na agenda governamental. não exerça influência sobre a formação da
Em determinadas circunstâncias, estes agenda governamental, é fundamental para
três fluxos – problemas, soluções e dinâmica que uma questão já presente nessa agenda
política – são reunidos, gerando uma oportu- tenha acesso à agenda decisional.
nidade de mudança na agenda. Neste momen- Mudanças na agenda acontecem, portan-
to, um problema é reconhecido, uma solução to, quando os três fluxos são unidos, processo
está disponível e as condições políticas tornam denominado por Kingdon (2003, p. 172)
o momento propício para a mudança, permi- como coupling. O coupling, ou a junção dos
tindo a convergência entre os três fluxos e pos- fluxos, por sua vez, ocorre em momentos em
sibilitando que questões ascendam à agenda. que as policy windows se encontram abertas.
As circunstâncias que possibilitam a con- Vimos que essas janelas se abrem, sobretudo, a
vergência dos fluxos – denominadas por partir dos fluxos de problemas e políticas. No
Kingdon (2003, p. 165) como policy windows seu interior, alguns eventos acontecem de for-
– são influenciadas, sobretudo, pelo fluxo de ma periódica e previsível, como em situações
problemas (problems stream) e pelo fluxo polí- de mudanças no governo (transição adminis-
tico (politics stream). De acordo com o autor, trativa, mudanças no Congresso, mudanças na
uma oportunidade para a mudança surge presidência de estatais) e em algumas fases do
quando um novo problema consegue atrair a ciclo orçamentário (momentos de inclusão de
atenção do governo (por meio de indicado- propostas, por exemplo). Outros eventos – ou
res, eventos ou feedback), ou quando mudan- janelas – desenvolvem-se de maneira imprevi-
ças são introduzidas na dinâmica política sível. Assim, a oportunidade de mudança na
(principalmente mudanças no clima nacional agenda pode se dar tanto de forma programa-
e mudanças dentro do governo). O fluxo de da como de maneira não-previsível.
soluções (policy stream) não exerce influência Uma característica da oportunidade de
direta sobre a agenda: as propostas, as alter- mudança – abertura das janelas – no modelo
nativas e as soluções elaboradas nas comuni- de Kingdon é seu caráter transitório. Pro-
dades (policy communities) chegam à agenda vocadas por eventos programados ou não, as
apenas quando problemas percebidos, ou oportunidades de acesso de uma questão à
demandas políticas, criam oportunidades agenda não perduram por longos períodos de
para essas idéias. tempo. Da mesma forma que as “janelas” se
Assim, ao tomarem consciência de um abrem, elas também se fecham. A oportuni-
problema, os formuladores de políticas acio- dade de mudança na agenda cessa quando
nam a policy stream em busca de alternativas um dos fluxos desarticula-se com relação aos
que apontem soluções para o problema per- demais. Tomando o fluxo político, por exem-
cebido. Da mesma forma, ao encampar de- plo, da mesma forma como mudanças de
terminadas questões em suas propostas de governo (turnover) criam oportunidades para

30
o acesso de uma questão à agenda, novas ciadores e mantêm conexões políticas; são
mudanças, como processos de reorganização persistentes na defesa de suas idéias, levando
ministerial e institucional, podem “fechar a suas concepções de problemas e propostas a
janela” para uma idéia. De forma semelhante, diferentes fóruns. Conseguem, além disso,
quando há uma percepção de que um pro- “amarrar” os três fluxos, sempre atentos à
blema foi resolvido, a atenção dos formula- abertura de janelas: “O empreendedor de
dores de políticas se volta para outros assun- políticas que está pronto não perde oportu-
tos. No fluxo de soluções, quando as nidades”, afirma Kingdon (2003, p. 182).10
alternativas não surtem efeitos, levando os Quando as janelas abrem, os empreendedo-
formuladores de políticas a julgar inúteis seus res entram em ação. Caso contrário, esses
esforços, também há grandes possibilidades atores deverão aguardar pela próxima opor-
de a janela se fechar. tunidade e, então, promover a conexão entre
Afirmamos que a junção dos fluxos – cou- problemas, soluções e clima político.
pling – ocorre em momentos em que as jane- Assim, os policy entrepreneurs desempe-
las (policy windows) se encontram abertas. Há nham um papel fundamental, unindo solu-
ainda um outro componente fundamental, ções a problemas; propostas a momentos polí-
sem o qual esses momentos não promovem ticos; eventos políticos a problemas. Sem um
mudanças na agenda: a atuação dos policy empreendedor, a ligação entre os fluxos pode
entrepreneurs. Kingdon destaca a importância não acontecer: idéias que não são defendidas;
de indivíduos (empreendedores de políticas) problemas que não encontram soluções;
que, tal como empreendedores de negócios, momentos políticos favoráveis à mudança que
são perdidos por falta de propostas.
[…] estão dispostos a investir seus recursos A Figura 1 apresenta um esquema do
– tempo, energia, reputação, dinheiro – para modelo de multiple streams, no qual os três
promover uma posição em troca da anteci- fluxos são reunidos pelos empreendedores
pação de ganhos futuros na forma de bene- de políticas em momentos em que as opor-
fícios materiais, orientados a suas metas ou tunidades de mudança se apresentam.
solidários (Idem, p. 179).9

Esses indivíduos, dispostos a investir Atores no processo de definição da


numa idéia, podem estar no governo (no agenda e formulação de políticas públicas
Poder Executivo, ocupando altos postos ou
em funções burocráticas; no Congresso, co- Por que algumas questões são bem-suce-
mo parlamentares ou assessores), ou fora didas no processo até a agenda governamen-
dele (em grupos de interesse, na comunida- tal? Até agora vimos que o modelo de multiple
de acadêmica, na mídia). O empreendedor é streams responde a esta questão analisando a
o indivíduo especialista em uma determina- confluência entre o fluxo de problemas (pro-
da questão, geralmente com habilidade em blems stream) e o fluxo de políticas (political
representar idéias de outros indivíduos e stream). E por que algumas soluções recebem
grupos; ou ainda que desfruta de uma posi- maior atenção do que outras? Kingdon expli-
ção de autoridade dentro do processo deci- ca a geração de alternativas com base na dinâ-
sório, característica que faz com que o pro- mica do fluxo de soluções e alternativas (poli-
cesso de formulação de políticas seja cy stream), por meio do processo de difusão e
receptivo a suas idéias. Eles são hábeis nego- “amaciamento” (soften up) das idéias junto às

31
Figura 1
O Modelo de Kingdon

PROBLEM STREAM POLICY STREAM POLITICAL STREAM


(Fluxo de problemas) (Fluxo de soluções) (Fluxo político)

Indicadores; Viabiliade técnica; “Humor nacional”;


Crises; Aceitação pela Forças políticas
Eventos focalizadores; comunidade; organizadas;
Feedback de ações. Custos toleráveis. Mudanças no governo.

OPORTUNIDADE DE MUDANÇA
(Windows)

Convergência dos fluxos


(coupling) pelos empreendedores
(policy entrepreneurs)

AGENDA - SETTING

Acesso de uma
questão à agenda

comunidades de políticas (policy communities) que no modelo: “Nenhum outro ator no sis-
e ao público em geral. Mas há ainda um ter- tema político tem a capacidade do presidente
ceiro fator que contribui decisivamente para a em estabelecer agendas numa dada área de
chegada de uma questão na agenda e para a políticas para aqueles que lidam com elas”
construção de alternativas: os atores envolvi- (Idem, 2003, p. 23).11 Por manejar recursos
dos nesse processo. institucionais (principalmente o poder de ve-
Central ao modelo de Kingdon é a idéia to e o poder de nomear pessoas para cargos-
de que alguns atores são influentes na defini- chave do processo decisório), recursos organi-
ção da agenda governamental, ao passo que zacionais e recursos de comando da atenção
outros exercem maior influência na definição pública, o presidente é considerado por King-
das alternativas (decision agenda). O primeiro don o ator mais forte na definição da agenda.
grupo de participantes é composto por atores No entanto, embora ele possa influenciar e
visíveis, que recebem considerável atenção da mesmo determinar as questões presentes na
imprensa e do público; no segundo grupo agenda, não lhe é reservado o controle sobre
estão os participantes invisíveis, que formam as as alternativas a serem consideradas, que se
comunidades nas quais as idéias são geradas e concentram nas mãos de especialistas. Por-
postas em circulação (policy communities). tanto, embora fundamental ao modelo, este
Com relação à definição da agenda, a ator não tem condições de determinar o
influência presidencial recebe especial desta- resultado final de uma política.

32
Também influenciam a agenda os indi- por exemplo. Dessa forma, o papel do Con-
víduos nomeados pelo presidente nos altos gresso é central para o processo de formação
escalões da burocracia governamental, como da agenda, seja porque os parlamentares bus-
ministros e secretários-executivos de minis- cam satisfazer seus eleitores, seja porque bus-
térios. Além de inserirem novas idéias na cam prestígio e diferenciação entre os demais
agenda, esses atores podem ajudar a focalizar congressistas, seja ainda porque defendem
uma questão já existente. A alta administra- questões relacionadas a seus posicionamen-
ção, de uma forma geral, é central ao pro- tos político-partidários.
cesso de agenda-setting, embora, de forma Outro grupo de atores influente é com-
semelhante à atuação presidencial, tenha posto pelos participantes do processo eleitoral,
menor controle sobre o processo de seleção principalmente partidos políticos e campaig-
de alternativas e de implementação. ners. Partidos podem elevar uma questão à
Além dos atores que fazem parte da agenda governamental por meio de seus pro-
administração, atores do Poder Legislativo gramas de governo; no entanto, em suas aná-
também exercem influência sobre a agenda lises, Kingdon observa que nem sempre a pla-
governamental. É o caso de senadores e de- taforma eleitoral direciona as ações de um
putados, uns dos poucos atores que, segundo partido quando assume o poder: “A platafor-
Kingdon, além de exercerem grande in- ma é um dos muitos fóruns nos quais defen-
fluência sobre a agenda, também contribuem sores da mudança nas políticas buscam con-
para a geração de alternativas. Isso é possível quistar audiência” (Idem, p. 64).12 Outra
porque os parlamentares dispõem de recur- forma importante pela qual os partidos
sos, como autoridade legal para a produção podem fazer questões ascender à agenda
de leis essenciais à grande maioria das mu- governamental está relacionada à influência
danças. Além disso, eles estão também fre- de sua liderança no Congresso. Além dos par-
quentemente expostos aos outros participan- tidos, os campaigners também podem influen-
tes e à cobertura midiática por meio de seus ciar a agenda. A coalizão construída durante a
discursos nas tribunas, de suas participações campanha é um elemento importante na defi-
em grupos e comissões internas e da divulga- nição da agenda de um novo governo:
ção de textos e notas em que justificam sua
atuação. Outro recurso disponível aos atores Como forma de atrair grupos e indivíduos
do Poder Legislativo é o acesso a informações durante uma campanha, candidatos à presi-
de caráter mais generalista, ao contrário de dência prometem ações em muitas frentes
burocratas, acadêmicos, consultores e outros políticas. Uma vez eleitos, é possível que es-
atores que lidam basicamente com informa- sas promessas possam afetar diretamente as
ções especializadas, técnicas e freqüentemen- agendas da nova administração, porque pre-
te detalhadas. sidentes e seus aliados mais próximos acredi-
Outra explicação para a grande influên- tam em suas metas políticas estabelecidas e
cia desses atores reside em sua estabilidade. querem vê-las promovidas. Mas há também
Embora a mudança nos quadros do Legis- pelo menos uma troca implícita envolvida –
lativo seja constante, Kingdon afirma que a o apoio ao candidato em troca da ação sobre
alternância desses indivíduos é comparativa- a promessa. Políticos podem se sentir força-
mente menor do que entre aqueles que fa- dos a cumprir com sua parte da barganha, e
zem parte dos altos escalões da burocracia aqueles que lhe dão suporte desejam que
governamental, como ministros de Estado, mantenham suas promessas (Idem, p. 62).13

33
As promessas feitas à coalizão de apoio, se desapontadores. Os meios de comunicação
da mesma forma que os programas de gover- de massa foram apontados como importantes
no, podem influenciar a agenda governa- em apenas 26% das entrevistas, bem menos
mental, porém não asseguram que mudanças do que os grupos de interesse (84%) ou pes-
sejam promovidas. Para que as promessas se quisadores (66%) (Idem, p. 58).15
tornem ações concretas, cabe ao partido, ao
assumir o poder, elevar as questões oriundas Uma das explicações apresentadas por
desses fóruns à agenda. Kingdon para tais resultados é que a mídia
Além dos indivíduos participantes do transmite ao público as questões apenas depois
processo eleitoral, os grupos de interesse de a agenda ser formada. Segundo ele, a mídia
são considerados pelo modelo atores im- enfatiza um assunto por um período limitado
portantes na formação da agenda governa- de tempo, selecionando o que parece ser inte-
mental. Tais grupos podem se constituir de ressante para publicação e, passado algum
diversas formas: como grupos centrados em tempo, descarta esta questão e desloca o foco de
indústrias e negócios, categorias profissio- atenção para outras, consideradas mais impor-
nais, grupos de interesse público e lobistas tantes. O processo pré-decisional na formação
(Idem, p. 47). Alguns desses grupos afetam da agenda não apresenta questões interessantes
a agenda governamental de forma positiva, para a mídia, o que acontece geralmente apenas
influenciando mudanças nas ações gover- após o final do processo de formulação das polí-
namentais; outros atuam de forma negati- ticas. Dessa forma, a mídia pode destacar al-
va, restringindo as ações: “Na verdade, mu- guns pontos de uma agenda já estabelecida, não
itas das atividades dos grupos de interesse tendo efeito direto sobre sua formulação: “A
nesses processos consistem não apenas em mídia informa o que acontece no governo, em
ações positivas, mas em obstrução negati- vez de ter um impacto independente sobre as
va”. (Idem, p. 49).14 Apesar dessas possibili- agendas governamentais” (Idem, p. 59).16 Ainda
dades, o modelo considera ser difícil rela- que com menor impacto sobre a formulação da
cionar a emergência de uma questão na agenda governamental do que inicialmente es-
agenda exclusivamente pela ação – positiva perado pelo autor, o modelo assegura aos meios
ou negativa – dos grupos de interesse. As de comunicação um papel importante, princi-
questões freqüentemente emergem por palmente na circulação das idéias dentro das
meio de um complexo conjunto de fatores, policy communities. A focalização de uma ques-
envolvendo, também, a participação de ou- tão pela mídia impressa e televisiva pode auxi-
tros atores. liar na canalização da atenção de diversos atores
Finalmente, o último ator visível anali- em relação a ela. O mesmo é válido para publi-
sado no modelo é a mídia. Embora reco- cações especializadas (jornais destinados a servi-
nheça que grande parte dos estudos sobre dores, revistas acadêmicas, entre outros) que
agenda-setting considere a mídia um instru- circulam entre os participantes das policy com-
mento poderoso na formulação da agenda, munities. Kingdon nota ainda que a importân-
Kingdon afirma não ter confirmado essa cia da mídia, como agente focalizador, varia de
expectativa em suas análises: acordo com o tipo de participante no processo
de formulação da agenda. Para os atores que
Apesar das boas razões para acreditar que a têm poder de decisão dentro da estrutura go-
mídia teria um impacto substancial na agenda vernamental, a influência da mídia é menor,
governamental, nossos indicadores revelaram- quando comparados aos atores que precisam

34
ganhar a atenção dos formuladores ou que têm um modelo centralizador de agenda-setting. A
menor acesso a estes. Além disso, se a análise de formulação da agenda parte da cúpula orga-
Kingdon não encontra elementos para afirmar nizacional, perpassando os diversos níveis hi-
que a mídia afeta diretamente a agenda gover- erárquicos, nos quais os servidores – princi-
namental, ainda assim há estudos que corrobo- palmente os de linha –, concentra-se mais na
ram a hipótese de a mídia influenciar a opinião proposição de soluções e alternativas e na
pública. Sendo assim, a mídia exerce um efeito, administração de políticas já existentes do
mesmo que indireto, sobre os participantes do que na sua formulação. Um secretário execu-
processo decisório. Uma opinião pública ne- tivo, nomeado para um ministério, por exem-
gativa, por exemplo, pode fazer com que os ato- plo, ocupa uma posição de grande influência
res do Poder Legislativo deixem de defender na formulação da agenda, mas consulta os
uma determinada questão. Mesmo que não funcionários de carreira com relação às alter-
desempenhe um papel preponderante no pro- nativas disponíveis para uma política e solici-
cesso de agenda-setting, a mídia tem enorme ta seu apoio para elaborar as propostas de
importância ao amplificar questões relaciona- ação, uma vez que os burocratas de carreira
das à agenda já estabelecida, por vezes aceleran- são especialistas nos meandros técnicos e ad-
do seu desenvolvimento ou ampliando seu ministrativos daquele ministério. Muitos fun-
impacto. Dessa forma, como aferido em suas cionários públicos, por outro lado, desenvol-
entrevistas, a mídia não cria questões, mas pode vem suas próprias propostas e esperam por
auxiliar a destacá-las: “A mídia pode ajudar a uma oportunidade para apresentá-las.
dar forma a uma questão e estruturá-la, mas Acadêmicos, pesquisadores e consulto-
não pode criar uma questão” (Idem, p. 60).17 res formam o segundo grupo de atores invi-
Estes atores – o presidente, indivíduos síveis, e sua atuação é mais freqüente na
por ele nomeados para altos postos na buro- elaboração de alternativas. Uma vez que
cracia governamental, atores do Poder Le- uma questão ascende à agenda governa-
gislativo, grupos de interesse, participantes do mental, os formuladores de políticas vol-
processo eleitoral, mídia e opinião pública – tam-se para comunidades que podem ser
são chamados de atores visíveis, por recebe- relevantes na proposição de soluções para
rem atenção da imprensa e do público e exer- os problemas. Assim, idéias geradas na
cerem influência, em maior ou menor grau, comunidade acadêmica são disseminadas
sobre a agenda governamental. Outro grupo entre os atores influentes no processo de
– os participantes invisíveis – tem influência agenda-setting. Esse grupo é chamado a
predominante sobre a geração das alternativas opinar em comissões especiais no Con-
e soluções. Esse grupo é composto por servi- gresso e em grupos de altos funcionários do
dores públicos, analistas de grupos de interes- Poder Executivo; consultorias também
se, assessores parlamentares, acadêmicos, pes- difundem idéias entre os formuladores de
quisadores e consultores. políticas governamentais.
Os servidores públicos exercem maior Assessores parlamentares e assessores da
influência sobre a geração de alternativas e presidência, da mesma forma, atuam em
sobre o processo de implementação de políti- maior grau na geração das alternativas.
cas do que com relação ao processo de for- Também os analistas de grupos de interesse
mulação da agenda governamental. A pesqui- desenvolvem estudos, gerando soluções
sa de Kingdon atribui esse fato, em parte, à muitas vezes à espera de oportunidades polí-
forte hierarquia organizacional que favorece ticas para serem apresentadas.

35
Em suma, os atores “visíveis” têm uma ticas como um processo de estágios seqüen-
atuação mais influente na definição da agen- ciais e ordenados, no qual um problema é
da, participando intensamente dos fluxos de inicialmente percebido, soluções são desen-
problemas e de política, os quais, como volvidas sob medida para aquele problema,
vimos, são responsáveis pela criação das sendo então implementadas. O modelo fo-
oportunidades de acesso à agenda governa- caliza a dinâmica das idéias: o desenvolvi-
mental. Os participantes “invisíveis”, por mento de políticas é visto como uma dispu-
outro lado, são determinantes na escolha de ta sobre definições de problemas e geração
alternativas, atuando principalmente sobre a de alternativas. Rompendo com esquemas
agenda de decisão. interpretativos deterministas, o modelo as-
sume uma lógica contingencial. A mudança
na agenda depende da combinação entre
Análise crítica do modelo problemas, soluções e condições políticas. A
existência de um problema não determina a
Algumas das mais significativas alterações adoção de uma solução específica e não cria
introduzidas no modelo de Multiple Streams por si só um ambiente político favorável
foram desenvolvidas por Zahariadis (1995; para a mudança. Tomando esta perspectiva,
1999). Em sua análise sobre o processo de pri- uma das maiores vantagens do modelo é
vatização na Inglaterra e na França (Zahari- permitir lidar com condições de ambigüida-
adis, 1995), o autor propõe três adaptações ao de e incerteza, fatores que seriam tratados
modelo original. Enquanto Kingdon instru- como anomalias pelas abordagens raciona-
mentaliza o modelo para a análise dos proces- listas de formulação de políticas:
sos pré-decisionais, Zahariadis amplia o alcan-
ce do modelo até a fase de implementação. Em O modelo de Múltiplos Fluxos descreve uma
segundo lugar, o autor aplica o modelo para o situação que as teorias da escolha tradicionais
estudo comparativo de políticas públicas, estu- e normativas condenam como patológica e
dando e relacionando políticas semelhantes geralmente tratam como aberração […].
em países distintos. E, finalmente, a terceira Complexidade, fluidez e falta de clareza são
alteração consiste na mudança da unidade de caracterizações apropriadas da formulação de
análise. O modelo de multiple streams toma políticas no nível nacional (Zahariadis,
como unidade de análise toda a extensão do 1999, p. 98).18
governo federal e analisa diversas questões que
circulam por entre a estrutura de governo. Essas mesmas características são bastan-
Zahariadis focaliza uma única questão – a pri- te criticadas por diversos autores. Uma das
vatização – e sua movimentação no processo críticas mais freqüentes com relação ao mo-
decisório. Uma última alteração, de caráter delo proposto por Kingdon dirige-se à sua
metodológico, promovida pelo autor consistiu estrutura. Alguns autores afirmam que o
na combinação das três variáveis do fluxo polí- modelo é muito fluido em sua estrutura e
tico – humor nacional, grupos de interesse e operacionalização (Sabatier, 1997), e que
mudanças no governo (turnover) – em uma emprega um nível de abstração muito eleva-
única variável, a qual nomeou “ideologia”. do (Mucciaroni, 1992). A estrutura fluida do
Essas considerações não alteram a lógi- modelo, que não estabelece relações mecâni-
ca fundamental do modelo de Kingdon, que cas entre problemas e alternativas, deriva das
não compreende o desenvolvimento de polí- características da idéia de garbage can, que se

36
propõe a trabalhar numa lógica bastante padrão na dinâmica interna de cada um dos
diferente do determinismo presente nas fluxos, não sendo estes totalmente aleatórios.
abordagens de sistemas fechados.19 Kingdon No fluxo de problemas, por exemplo, nem
responde às críticas afirmando haver uma todos os problemas são igualmente passíveis
estrutura no modelo de garbage can, sendo de chamar a atenção dos formuladores de
esta, no entanto, bastante diferente das teori- políticas. Para que um problema seja entendi-
zações convencionais: do como tal, vimos que o modelo aponta al-
guns pré-requisitos, como indicadores, even-
Uma razão pela qual alguns leitores julgam tos focalizadores e feedback, caso contrário
difícil avaliar a estrutura nos modelos lata de esses problemas não passarão de questões. Da
lixo é que, nestes modelos, a estrutura não é mesma forma, no fluxo de alternativas (policy
familiar. As classes no marxismo, por exem- stream), nem todas as propostas são igualmen-
plo, ou a hierarquia burocrática, ou a ordem te possíveis. Propostas viáveis do ponto de vis-
constitucional, são estruturas muito mais ta técnico, congruentes com os valores com-
familiares. Mas isso não significa que o tipo partilhados pela comunidade, pelo público
de modelo desenvolvido neste livro não mais geral e pelos políticos, por exemplo, têm
tenha estrutura; é apenas um tipo de estru- maiores chances de sobreviver. Finalmente, no
tura não familiar e não ortodoxa (Kingdon, fluxo político, nem todos os eventos são igual-
2003, p. 223).20 mente prováveis. Algumas mudanças no “hu-
mor nacional” são mais prováveis do que ou-
A ausência de estrutura seria responsável, tras num determinado contexto, da mesma
de acordo com Mucciaroni (1992, pp. 473- forma que determinadas mudanças nas forças
474), por um tipo de explicação que caminha políticas organizadas e dentro do governo são
por entre uma sucessão de eventos fortuitos e melhores aceitas e mais prováveis do que ou-
aleatórios, além de tornar o modelo inviável tras. Podemos pensar nessas condições como
para a previsão de mudanças na agenda: “A variáveis intermediárias, agindo dentro de ca-
questão aqui é que, para desenvolver explica- da fluxo.
ções significativas e prever mudanças na agen- Quando observamos o mecanismo pelo
da, precisamos ir além da formulação abstrata qual os fluxos são reunidos (coupling), tam-
presente no modelo da lata de lixo” (Idem, pp. bém podemos perceber que o modelo não é
464-465).21 Enquanto Mucciaroni recomenda exclusivamente aleatório. Algumas possibili-
a criação de variáveis intermediárias para com- dades de junção dos fluxos são mais prováveis
plementar as variáveis apresentadas por do que outras. Dependendo do momento em
Kingdon – problemas, soluções e política – que uma questão chega a um determinado
“muito abrangentes e amplas”, segundo ele, e fluxo, temos maiores ou menores chances de
assim habilitar o modelo a prever mudanças convergência. Uma oportunidade pode surgir
na agenda, Sabatier propõe o desenvolvimen- enquanto uma solução não está disponível na
policy stream e, neste caso, a janela (policy win-
to de um modelo explícito de ação indivi-
dow) se fecha sem a junção dos três fluxos.
dual22: “Os fatores causais não são determina-
Ou, por outro lado, uma solução pode estar
dos em parte porque não há um modelo claro
disponível na policy stream sem encontrar
do indivíduo” (1997, p. 7).23
condições políticas favoráveis. Novamente, as
Quanto à estrutura, embora o modelo
possibilidades de mudanças são limitadas.
reserve espaço para eventos acidentais, essa
Dessa forma, “nem tudo pode interagir com
característica não reflete sua essência. Há certo
tudo”, segundo Kingdon (2003, p. 207).24

37
Respondendo às críticas sobre a estrutu- desenvolvidas; a dinâmica política segue seu
ra de seu modelo, Kingdon afirma: “Na próprio curso, independentemente das solu-
minha visão, o modelo […] é estruturado, ções produzidas pelos especialistas. Apenas
mas há também espaço para uma aleatorieda- em momentos críticos, os policy entrepreneurs
de residual, como acontece no mundo real” conectam problemas a soluções, e estes ao
(Idem, p. 222).25 Esta “aleatoriedade residual” contexto político, unindo, portanto, os flu-
garante que o modelo assuma o processo de xos (coupling).
formulação de políticas como sendo imprevi- Embora os fluxos sejam independentes,
sível (mesmo que não completamente). eles parecem se conectar mesmo antes desses
Assim, o modelo procura fornecer ferramen- momentos críticos. Entre os critérios de so-
tas para a compreensão e o entendimento brevivência das idéias nas comunidades (policy
desse processo, mais do que se concentrar na communities), por exemplo, figura a anteci-
previsão de eventos futuros. Compreender pação, pelos especialistas, de aceitação polí-
por que algumas questões chegam à agenda tica, o que revela algum grau de conexão
enquanto outras são negligenciadas é mais entre o fluxo político (politics stream) e o de
importante para o modelo de multiple streams soluções e alternativas (policy stream). Mu-
do que prever mudanças na agenda. Assim danças de pessoas-chave no governo e mudan-
como entender por que algumas alternativas ças do “humor nacional” (political stream)
recebem mais atenção do que outras também podem estar relacionadas a preocupações com
é mais importante do que prever quais serão um problema específico.
as alternativas disponíveis ou quais delas serão Mucciaroni (1992, pp. 473-474) susten-
finalmente adotadas. Zahariadis (1999), no ta que a manutenção da idéia de indepen-
entanto, assinala que o modelo também pode dência dos fluxos deve ser abandonada em
prever mudanças na agenda, levando em con- benefício de uma visão de interdependência
sideração os eventos que se desenrolam no dos fluxos, o que, segundo ele, contribuiria
interior de cada fluxo e da participação dos para reduzir o caráter aleatório do modelo e
atores no processo de agenda-setting: torná-lo mais estratégico e intencional. Dessa
forma, sugere que o modelo procure mostrar
O modelo teórico prevê, por exemplo, que a como os eventos em um fluxo influenciam os
ideologia dos partidos políticos será um acontecimentos nos demais fluxos, investi-
fator importante na elevação de questões gando convergências durante o processo e
para o topo da agenda do governo […]. E não apenas no estágio final da formação da
prevê que burocratas tenderão a escolher agenda. Por outro lado, Zahariadis afirma
soluções em vez de manipular a agenda que a vantagem da independência dos fluxos
governamental (Idem, p. 87).26 é fundamental para preservar a lógica do
modelo de garbage can e assim manter uma
Outro ponto controverso reside na perspectiva diferenciada com relação aos
interdependência dos fluxos. O modelo ba- modelos racionalistas: “A vantagem da inde-
seia-se em três fluxos independentes, que pendência é que ela possibilita aos pesquisa-
perpassam todo o sistema decisório. É cen- dores revelar a racionalidade, mais do que
tral ao modelo a independência dos fluxos, o assumi-la, isto é, não se supõe que soluções
que significa que cada um segue sua dinâmi- sejam sempre desenvolvidas em resposta a
ca própria em relação aos demais. Soluções problemas claramente definidos” (Zahariadis,
não dependem de problemas para serem 1999, p. 82).27

38
Em suas reflexões mais recentes28, Embora Kingdon não se aprofunde na
Kingdon rediscute a idéia de independência reflexão sobre as instituições, um outro
dos fluxos inicialmente proposta. Mantém modelo de agenda-setting, também desenvol-
fiel ao modelo de garbage can, mas aceita a vido no campo das políticas públicas, pode
hipótese da existência de conexões entre os lançar luzes sobre essa questão. O modelo do
fluxos em momentos diferentes daqueles em equilíbrio pontuado (Punctuated Equilibrium
que as janelas (policy windows) se abrem e se Model), de Baumgartner e Jones (1993), que
opera a união dos fluxos (coupling), tal como consideraremos a seguir, traz proposições
sugerido por Zahariadis (1999). importantes sobre a relação entre a formula-
ção da agenda e a dinâmica institucional,
Penso que uma correção […] é razoável. complementando as idéias de Kingdon.
Existem ligações entre os fluxos em outros
momentos que não apenas na abertura de
janelas ou nas convergências finais. […] As Baumgartner e Jones e o Modelo de
convergências são empreendidas sempre, Punctuated Equilibrium
não somente perto do momento final. Mas
a independência dos fluxos é ainda evidente Com esse modelo, os autores procura-
no mundo real e ainda é útil para a constru- ram criar um mecanismo que permitisse a
ção de teorias (Kingdon, 2003, p. 229).29 análise tanto de períodos de estabilidade,
como aqueles em que ocorrem mudanças
Além dessa ponderação, Kingdon tam- rápidas no processo de formulação de políti-
bém, recentemente, passou a reconhecer a cas públicas:31
importância das instituições no processo de
formulação de políticas, embora não propo- A teoria do equilíbrio pontuado procura expli-
nha alterações substantivas ao modelo a esse car uma observação simples: os processos polí-
respeito. Essa questão já havia sido levantada ticos são muitas vezes guiados por uma lógica
por Mucciaroni (1992), que chamou a aten- de estabilidade e incrementalismo, mas às
ção para a necessidade de incorporar a di- vezes produzem também mudanças em gran-
mensão institucional no modelo de agenda- de escala (Baumgartner e Jones, 1999, p. 97).32
setting proposto por Kingdon:
Nesse modelo, longos períodos de estabi-
Mesmo supondo que exista um processo lidade, em que as mudanças se processam de
que lembre o modelo da lata do lixo, ainda forma lenta, incremental e linear, são inter-
precisaremos investigar especificamente rompidos por momentos de rápida mudança
quais os tipos de estruturas institucionais (punctuations). Essa idéia é aplicada às agen-
que facilitam ou limitam os diversos proble- das que mudam de forma rápida devido ao
mas e soluções em seu caminho até a agen- que os autores chamam de feedback positivo:
da […] deve haver uma capacidade institu- algumas questões se tornam importantes, a-
cional pré-existente que sirva como base traindo outras que se difundem como um
para os esforços dos reformadores quando as efeito cascata (bandwagon), tal como descreve
variáveis situacionais (problemas, soluções e Kingdon no processo de difusão das idéias
condições políticas) forem favoráveis a suas dentro das policy communities. Quando isso
idéias (Idem, p. 467).30 acontece, algumas idéias tornam-se populares
e se disseminam, tomando o lugar antes ocu-

39
pado por antigas proposta e abrindo espaço cesso decisório compartilham as idéias sobre
para novos movimentos políticos. uma determinada questão:

Tal difusão de políticas pode ser descrita Todo interesse, todo grupo, todo empreende-
como uma curva de crescimento, ou uma dor de políticas tem um interesse básico em
curva em forma de S. No início, a adoção da estabelecer um monopólio – monopólio
política é lenta e depois muito rápida e nova- sobre o entendimento político relativo à polí-
mente lenta à medida que o ponto de satura- tica de interesse, e um arranjo institucional
ção é atingido. Durante a primeira fase, que reforce tal entendimento (Idem, p. 6).34
enquanto as idéias são testadas e descartadas,
a adoção pode ser bastante lenta. Em segui- Duas características fundamentais defi-
da, enquanto as idéias se difundem rapida- nem e constituem os monopólios, tal como
mente, inicia-se para alguns programas uma mencionado pelos autores no trecho supra-
fase de reação positiva . Por fim, restabelece- citado: estrutura institucional definida, pela
se a reação negativa no ponto de saturação qual o acesso ao processo decisório é permi-
(Baumgartner e Jones, 1993, p. 17).33 tido (ou restringido); e uma idéia fortemen-
te associada com a instituição e com os valo-
Desenvolvido originalmente para a aná- res políticos da comunidade. Assim, a chave
lise do processo político norte-americano, para a compreensão dos períodos de estabi-
esse modelo procura explicar de que forma lidade e mudança, segundo Baumgartner e
se alternam momentos de rápida mudança e Jones, reside na forma como uma questão é
estabilidade, tomando como base dois eixos: definida, considerando que essa definição se
estruturas institucionais e processo de agen- desenvolve dentro de um contexto institu-
da-setting. cional que pode favorecer determinadas
Considerando que os indivíduos ope- visões políticas em detrimento de outras.
ram com racionalidade limitada, para lidar Para instrumentalizar a análise, os autores
com a multiplicidade de questões políticas, criaram o conceito de policy image: “A forma
os governos delegam autoridade para agentes como uma política é compreendida e discuti-
governamentais, em subsistemas políticos. da é sua imagem” (Idem, p. 25).35 As policy
Esses subsistemas processam as questões de images são idéias que sustentam os arranjos
forma paralela, enquanto os líderes governa- institucionais, permitindo que o entendimen-
mentais (macrossistema) ocupam-se de ques- to acerca da política seja comunicado de forma
tões proeminentes de forma serial. Assim, simples e direta entre os membros de uma
comunidade, e contribuindo para a dissemina-
segundo Baumgartner e Jones (1993), algu-
ção das questões, processo fundamental para a
mas questões permanecem nos subsistemas,
mudança rápida e o acesso de uma questão ao
formados por comunidades de especialistas
macrossistema. “A criação e a manutenção de
(à semelhança das policy communities), ao
um monopólio de políticas está intimamente
passo que outras acabam por integrar o
ligadas com a criação e a manutenção de uma
macrossistema, promovendo mudanças na
imagem de apoio” (Idem, p. 26).36 Isso signifi-
agenda. Quando um subsistema é dominado
ca que quando uma imagem é amplamente
por um único interesse, os autores o caracte-
aceita, o monopólio se mantém. Por outro
rizam como monopólio de políticas (policy
lado, quando há divergências em relação ao
monopoly), no qual os participantes do pro-
entendimento de uma política, defensores de

40
uma idéia focalizam determinadas imagens ao Assim, a imagem de uma política intervém
passo que seus oponentes podem se concentrar fortemente na transformação de questões
num conjunto diferente de imagens, o que em problemas.
pode levar ao colapso do monopólio. A disputa para a criação de consenso em
As policy images são desenvolvidas com torno de uma política – ou da policy image –
base em dois componentes: informações é considerada pelos autores um elemento
empíricas e apelos emotivos (tone). O tone é crucial na luta política. Os formuladores
considerado pelos autores um fator crítico no empenham-se na construção de imagens cal-
desenvolvimento das questões, uma vez que culando os ganhos advindos da consolidação
mudanças rápidas no campo dos “apelos de um determinado entendimento. No en-
emotivos” da imagem podem influenciar a tanto, eles não têm controle sobre os impac-
mobilização em torno de uma idéia. A ima- tos dessas imagens no sistema político, nem
gem criada em torno da potência norte-ame- sobre as possíveis soluções que podem ser
ricana é um exemplo desse tipo de situação: apresentadas para os problemas.
enquanto predominava uma imagem associa- Os diversos estudos de caso desenvolvi-
da a progresso econômico e científico, existia dos por Baumgartner e Jones (1993, pp. 150-
um policy monopoly; no entanto, a partir do 171) corroboram a idéia de Kingdon (2003)
momento em que ameaças de segurança e de que soluções e problemas percorrem cami-
degradação ambiental a transformaram, hou- nhos diferentes. Os autores mostram também
ve, pois, um esgotamento do monopólio. que a focalização de um problema não garan-
Novas imagens podem atrair novos partici- te que uma solução específica seja seleciona-
pantes (ou afastá-los), bem como criar opor- da: a conexão entre soluções e problemas pre-
tunidades para promover determinadas ques- cisa ser assegurada por um policy entrepreneur
tões (ou desencorajar outras). para que, dessa forma, mudanças sejam pro-
Da mesma forma que Kingdon (2003), duzidas na agenda. Nesse processo, os autores
Baumgartner e Jones entendem que ques- chamam a atenção novamente para a impor-
tões políticas e sociais não se transformam, tância da argumentação e da criação de um
necessária e automaticamente, em proble- novo entendimento sobre uma questão:
mas. Para que um problema chame a aten-
ção do governo, é preciso que uma imagem, A formulação de políticas é fortemente in-
ou um consenso em torno de uma política, fluenciada não apenas pela mudança nas
efetue a ligação entre o problema e uma pos- definições de quais questões sociais são su-
sível solução (1993, p. 27). A criação de jeitas a uma resposta do governo […] mas
uma imagem é considerada um componen- também, e ao mesmo tempo, pela mudança
te estratégico na mobilização da atenção do nas definições de quais seriam as soluções
macrossistema em torno de uma questão. mais efetivas para um dado problema públi-
Quando há consenso de que questões inde- co (Baumgartner e Jones, 1993, p. 29).37
sejadas são causadas por elementos como
catástrofes naturais, por exemplo, não se A policy image é central, portanto, não
espera a atuação governamental; no entanto, só para a definição de problemas mas tam-
se as mesmas questões são atribuídas à negli- bém para a seleção de soluções no modelo
gência governamental, cria-se uma demanda proposto pelos autores, devendo, assim, ser
pela intervenção estatal, e a questão passa a considerada no contexto institucional em
ter grandes chances de emergir na agenda. que é desenvolvida. A autoridade para deci-

41
dir sobre as questões pertence às instituições, aos investimentos –, resultando em equilí-
o que os autores chamam de policy venue: “As brio e mudança incremental.
arenas políticas são locais institucionais em Em alguns “momentos críticos”, o equilí-
que as decisões oficiais sobre uma determi- brio pode ser pontuado por períodos de rápida
nada questão são tomadas” (Idem, p. 32).38 mudança. Esses momentos têm início quando
Algumas questões estão associadas à compe- a atenção a uma questão rompe os limites do
tência de uma única instituição, ao passo que subsistema e chega ao macrossistema político
outras podem estar submetidas a várias com- (ou à agenda governamental, no modelo de
petências ao mesmo tempo. Além disso, os Kingdon). Mudanças na percepção das ques-
autores mostram que, no sistema de governo tões (que as transformam em problemas), em
norte-americano, as mudanças na definição eventos que focalizem atenção (focusing events),
das competências para lidar com uma ques- ou na opinião pública, por exemplo, podem
tão são bastante freqüentes e envolvem tam- levar uma questão de um subsistema para o
bém os níveis federativos. Dadas essas carac- macrossistema. Ao contrário dos subsistemas,
terísticas, ao mesmo tempo em que os os macrossistemas políticos caracterizam-se por
formuladores de políticas procuram assegu- intensas e rápidas mudanças, diversos entendi-
rar um entendimento comum sobre as ques- mentos sobre uma mesma política (diferentes
tões com as quais estão lidando, procuram policy images) e feedback positivo: “A macropo-
também influenciar as instituições que têm lítica é a política da pontuação – a política
autoridade sobre essas questões. Enquanto de mudanças em larga escala, das imagens
uma instituição pode ser refratária aos argu- que competem, da manipulação política e da
mentos desenvolvidos para dar suporte a reação positiva” (Baumgartner e Jones, 1999,
uma política, outra pode aceitar a imagem. A p. 102).39 Quando uma questão ascende ao
busca de arenas favoráveis para a difusão de macrossistema, o subsistema, por sua vez, tor-
problemas e soluções (venue shopping) e a na-se propenso à mudança, já que a atenção
criação de policy images estão, portanto, for- dos líderes governamentais e do público pode
temente vinculadas. levar à introdução de novas idéias e de novos
Assim, nos subsistemas, prevalecem atores naquele subsistema. Além disso, os “mo-
mudanças lentas, graduais e incrementais, mentos críticos” podem estabelecer novas poli-
configurando uma situação de equilíbrio, cy images e reorganizações institucionais (novas
reforçada pela constituição de um monopó- policy venues) que reestruturam o subsistema.
lio de políticas, uma imagem compartilhada Essas novas idéias e instituições tendem a per-
e feedback negativo (questões que não se manecer no tempo (policy legacy), criando um
difundem para além dos limites deste sub- novo estado de equilíbrio no subsistema que,
sistema). As decisões, em muitos subsiste- após um período, tende a voltar à estabilidade.
mas, são dominadas por um número peque- Temos, assim, no modelo de equilíbrio
no de participantes que compartilham um pontuado, uma explicação tanto para a estabi-
entendimento comum sobre uma questão e lidade como para a mudança no sistema polí-
criam monopólios, limitando o acesso de tico, que enfatiza, ao mesmo tempo, o proces-
novos atores e restringindo o surgimento de so de agenda-setting e a dinâmica institucional
novas idéias. Subsistemas são caracterizados na qual as idéias são geradas e difundidas.
pela estabilidade, e propostas de mudanças
são desencorajadas pelo feedback negativo –
pouco ganho dos atores políticos em relação

42
Similaridades e Diferenças entre os duas características são então ligadas à solu-
Modelos ção, num processo aparentemente menos
fluido do que o imaginado por Kingdon.
Tanto o modelo de multiple streams Com relação à participação dos atores
como o de punctuated equilibrium compar- no processo de agenda-setting, os modelos
tilham muitas características com relação ao reservam grande influência ao papel desem-
processo de agenda-setting. Ambos enten- penhado pelo presidente, uma vez que este
dem que a definição de uma questão, ex- ator tem à sua disposição recursos institu-
pressa numa imagem ou símbolo, é central cionais, organizacionais e de atenção públi-
ao estudo da formação da agenda. Com o ca. O modelo de multiple streams, como vi-
conceito de policy image, Baumgartner e mos, considera o presidente o ator de maior
Jones (1993) enfatizam a definição da ques- influência sobre a formação da agenda;
tão como a força que impulsiona a mobili- Baumgartner e Jones, embora mais preocu-
zação de atores previamente indiferentes, pados em mostrar a forma pela qual arenas
ocasionando mudança da agenda. A mani- institucionais se relacionam a imagens, sen-
pulação das imagens, com efeitos diretos so- do a estrutura do Poder Executivo apenas
bre a mobilização de indivíduos e grupos, uma, entre as diversas arenas existentes, tam-
liga o equilíbrio dos subsistemas às mudan- bém afirmam o presidente como o ator de
ças repentinas no macrossistema. Kingdon maior preponderância sobre o processo de
(2003), por outro lado, enfatiza as estraté- agenda-setting: “Nenhum outro ator pode
gias dos policy entrepreneurs na tentativa de focalizar a atenção de forma mais clara, ou
chamar a atenção de indivíduos influentes mudar as motivações de um grande número
no governo e nas comunidades em geral. de atores, como o presidente” (Baumgartner
Kingdon (2003) denomina “eventos fo- e Jones, 1993, p. 241).40
calizadores” (focusing events) as imagens rela- Mudanças no governo são vistas por
cionadas a uma política. Fazem parte desses Kingdon (2003) como fatores que influen-
eventos crises, desastres, símbolos e a expe- ciam, no fluxo político, a mudança na agenda
riência pessoal dos formuladores de políti- governamental. A eleição de novos membros
cas. Baumgartner e Jones (1993) destacam para o Congresso e para os cargos eletivos do
os componentes empíricos e valorativos Poder Executivo, bem como a nomeação de
(tone) desses eventos. O processo de argu- altos funcionários e assessores nessas duas
mentação, a criação de histórias causais e a
esferas criam condições para que algumas
utilização de números e estatísticas são cita-
questões cheguem à agenda, restringindo, em
dos como formas de representar problemas
conseqüência, a entrada de outras. A visão de
e, mais tarde, ligá-los a soluções.
ciclos políticos como elemento crítico no
Tal elo também é analisado pelos dois
processo de agenda-setting não é compartilha-
modelos, que consideram não haver necessa-
da por Baumgartner e Jones (1993). Embora
riamente um vínculo entre esses dois
os estudos conduzidos por esses autores
momentos. Vimos que, para Kingdon, a
apontem, em alguma medida, para a idéia de
abertura de uma “janela” cria possibilidades
ciclos políticos, o modelo rejeita essa idéia,
de junção dos fluxos de problemas, soluções
devido ao “legado institucional” do processo
e políticas. O punctuated equilibrium model
de agenda-setting:
relaciona a definição de um problema à sua
imagem e a seu contexto institucional. Essas

43
Na medida em que os subsistemas são cria- resse desempenham papel importante na
dos, novas instituições também o são, e estas definição de questões, especialmente quando
estruturarão a futura formulação de políticas elas afetam a opinião pública; determinam os
e a influência de grupos externos. Essas mu- termos do debate e as policy venues (Idem, p.
danças institucionais guardam pouca seme- 190). Analisando as políticas de pesticidas e
lhança com aquelas existentes há uma ou tabaco, por exemplo, os autores concluíram
duas gerações, porque cada uma delas envol- que grupos de interesse mobilizados forma-
ve a definição de questões políticas […]. Um ram uma coalizão de defesa (advocacy coali-
modelo de equilíbrio pontuado do sistema tion) em torno dessa questão, atraindo novos
político difere drasticamente do tipo de dinâ- atores e pressionando por mudanças na
mica de equilíbrio implícito em qualquer dis- agenda: “A mobilização de grupos de interes-
cussão de ciclos (Idem, pp. 244-245).41 se desempenha um papel importante na
determinação da imagem, nas arenas e nos
Além das mudanças no governo, a questão resultados” (Idem, p. 184).42
da autoridade ou da competência sobre uma A mídia é outro ator que recebe ênfases
política é outro fator influente no fluxo políti- diferentes nos dois modelos analisados.
co, segundo o modelo de multiple streams. Enquanto para Kingdon os meios de comu-
Uma mudança na delimitação da competência nicação geralmente retratam questões que já
sobre uma política pode levar a uma situação estão presentes na agenda governamental,
de imobilidade governamental, mas Kingdon não tendo grande influência em sua estrutu-
(2003) avalia que essas alterações levam à ração, Baumgartner e Jones enfatizam a ca-
inclusão de questões na agenda principalmente pacidade da mídia em direcionar a atenção
quando tratam de uma questão com grande para diferentes aspectos de uma mesma ques-
apelo popular. Nesse caso, a competição sobre tão ao longo do tempo, e também em mudar
as competências retoma outras forças já em a atenção dos indivíduos de uma questão
ação. Vimos que a questão da competência para outra. E mudanças na atenção também
também é crítica no modelo de Baumgartner e podem contribuir para conectar as diferentes
Jones (1993), embora, diferentemente de policy venues:
Kingdon, os autores enfatizem o aspecto insti-
tucional (policy venues) na mudança da ima- Muitas vezes, as arenas são fortemente arti-
gem de uma questão. culadas, e mudanças na atenção em uma
Alguns atores desempenham papéis delas são rapidamente seguidas por mudan-
muito diferentes nos modelos em análise. Os ças nas demais. A mídia ajuda a unir todas
grupos de interesse, por exemplo, são consi- as outras arenas, porque é um meio de
derados por Kingdon (2003) um dos atores comunicação privilegiado, a forma pela qual
mais importantes fora da estrutura governa- atores desarticulados conferem a atuação
mental. No entanto, sua atuação se dá mais dos demais e consideram a opinião pública.
no sentido de bloquear questões do que de Essas características ajudam a explicar por
levá-las à agenda. Mesmo que atuem de que os empreendedores de políticas têm
forma positiva, Kingdon afirma ser difícil incentivos para influenciar o que é apresen-
relacionar a emergência de uma questão na tado na mídia (Idem, p. 107).43
agenda exclusivamente à ação dos grupos de
interesse. Baumgartner e Jones (1993), por As principais características de ambos os
outro lado, acreditam que os grupos de inte- modelos de agenda-setting que fundamen-

44
tam nosso estudo estão sintetizadas no qua- fundamentais para a compreensão da dinâ-
dro (abaixo) (na página seguinte). mica da ação estatal. Focalizar a formação da
agenda de um governo, compreender como
questões se tornam relevantes num determi-
Considerações Finais nado momento, mobilizando esforços e
recursos, são também questões importantes,
Os modelos analisados neste estudo porém ainda pouco exploradas pela produ-
apresentam, como vimos, muitas similarida- ção acadêmica em ciências sociais no Brasil.
des, complementando-se em alguns pontos
como, por exemplo, na análise da dinâmica
institucional destacada por Baumgartner e
Jones (1993) e ausente no modelo de
Kingdon (2003). Ambos tratam do processo
decisório numa perspectiva que podemos
chamar de “pós-positivista” (Faria, 2003),
enfatizando idéias, tratadas de forma inde-
pendente (sem relação de causa e efeito),
que movem soluções e problemas. É impor-
tante também o fato de que esses dois mode-
los abordam tanto a ação individual – na
figura dos policy entrepreneurs – como a
estrutura (sistema político e subsistemas de
comunidades), permitindo vislumbrar res-
trições e oportunidades de mudança.
As diferenças residem nas ênfases que os
modelos depositam em determinadas caracte-
rísticas do processo, o que pode estar relacio-
nado à metodologia aplicada pelos autores na
condução de seus estudos. Enquanto Kingdon
buscou coletar dados principalmente por meio
de entrevistas com a elite governamental, e
também mediante estudos de caso em perío-
dos de quatro anos, Baumgartner e Jones codi-
ficaram centenas de artigos publicados pela
mídia e por audiências no Congresso relacio-
nadas às políticas em estudo num período de
quarenta a cem anos.
Esperamos que esses modelos possam
estimular novos estudos sobre a formulação
de políticas públicas e o processo de agenda-
setting. Discutir como os problemas são con-
ceituados no processo de formulação de polí-
ticas e as maneiras pelas quais as alternativas
são apresentadas e selecionadas são questões

45
Quadro 1
Agenda-setting – Os Modelos de Kingdon e Baumgartner/Jones

KINGDON BAUMGARTNER E JONES


MULTIPLE STREAMS MODEL PUNCTUATED EQUILIBRIUM MODEL

Não há vínculo causal entre problemas e


Não há vínculo causal entre problemas e soluções.
soluções.
Questões não se transformam em proble-
Questões não se transformam em proble- mas automaticamente: problemas são cons-
mas automaticamente: problemas são cons- truídos (policy images) e difundidos.
truções que envolvem interpretação sobre a
PROBLEMAS dinâmica social. Definição de problemas é essencial para
mobilizar a atenção em torno de uma ques-
Definição de problemas é fundamental para tão.
atrair a atenção dos formuladores de políticas.
Problemas são representados por meio de
Problemas são representados por meio de componentes empíricos e valorativos (tone):
indicadores, eventos, crises e símbolos que números, estatísticas, argumentação, histó-
relacionam questões a problemas. rias causais.

Não são desenvolvidas necessariamente


para resolver um problema. Não são desenvolvidas necessariamente
Geradas nas comunidades (policy communi- para resolver um problema.
ties), difundem-se e espalham-se Geradas nos subsistemas, difundem-se e
(bandwagon) no processo de amaciamento
SOLUÇÕES (soften up). espalham-se rapidamente (bandwagon).
Soluções que têm imagens fortemente vin-
Soluções tecnicamente viáveis, que repre- culadas a uma instituição e representam
sentam valores compartilhados, contam valores políticos (policy images) têm maio-
com consentimento público, e a receptivida- res chances de chegar ao macrossistema.
de dos formuladores de políticas têm maio-
res chances de chegar à agenda.
O contexto político cria o “solo fértil” para O contexto político e institucional exerce
problemas e soluções. influência sobre a definição de problemas e
“Clima nacional”, forças políticas organiza- soluções.
DINÂMICA
POLÍTICO-
das e mudanças no governo são fatores Imagens sustentam arranjos institucionais
que afetam a agenda. (policy venues), incentivando ou restringin-
INSTITUCIONAL do a mudança na agenda.
Idéias, e não apenas poder, influência, pres-
são e estratégia são fundamentais no jogo Disputa em torno da policy image é funda-
político. mental na luta política.
O presidente exerce influência decisiva
sobre a agenda. Alta burocracia e O presidente exerce influência decisiva
Legislativo também afetam a agenda. sobre a agenda.
ATORES Grupos de interesse atuam mais no sentido Grupos de interesse desempenham papel
de bloquear questões do que de levá-las à importante na definição das questões.
agenda. A mídia direciona a atenção dos indivíduos,
A mídia retrata questões já presentes na sendo fundamental à formação da agenda.
agenda, não influenciando sua formação.
Momentos críticos, em que uma questão
Oportunidades de mudança (windows) pos- chega ao macrossistema, favorecem rápidas
MUDANÇA sibilitam ao empreendedor (policy entrepre- mudanças (punctuations) em subsistemas
neur) efetuar a convergência de problemas, anteriormente estáveis. Policy
NA AGENDA
soluções e dinâmica política (coupling), entrepreneurs, imagens compartilhadas
mudando a agenda. (policy image) e a questão institucional são
fundamentais nesse processo.

46
Notas

1. Na definição original de Kingdon, “The agenda, as I conceive of it, is the list of subjects
or problems to which governmental officials, and people outside of government closely
associated with those officials, are paying some serious attention at any given time”
(2003, p. 3).
2. No original, “We should also distinguish between the governmental agenda, the list of
subjects that are getting attention, and the decision agenda, the list of subjects within
governmental agenda that are up for an active decision” (Kingdon, 2003, p. 4).
3. O processo de agenda-setting de Kingdon tem suas raízes no “modelo da lata do lixo” (gar-
bage can model). Este modelo foi desenvolvido para a análise de organizações que se con-
figuram como “anarquias organizadas”, operando em condições de grande incerteza e
ambigüidade (como universidades e governos nacionais), nas quais estão presentes três
características principais: participação fluida, preferências problemáticas e tecnologia
pouco clara. Sobre o modelo de garbage can e a idéia de “anarquias organizadas”, ver
James March, P. Olsen Johan e M. D. Cohen (1972).
4. No original: “Problems are not simply the conditions or external events themselves: there
is also a perceptual, interpretative element”. Todas as traduções que se seguem são de
nossa autoria.
5. O fluxo de políticas governamentais é onde são desenvolvidas diversas alternativas, ou so-
luções. Empregaremos esses termos como sinônimos, seguindo a utilização de Kingdon.
6. No original: “people do not necessarily solve problems. […] Instead, what they often do
is generate solutions, and then look for problems to which to hook their solutions”.
7. No original: “Political scientists are accustomed to such concepts as power, influence,
pressure and strategy. If we try to understand public policy solely in terms of these con-
cepts, however, we miss a great deal. The content of the ideas themselves, far from being
mere smokescreens or rationalizations, are integral parts of decision making in and
around government”.
8. Essas abordagens, que incluem os modelos de agenda-setting que utilizamos neste estudo,
procuram mostrar que o processo de formulação de políticas está mais próximo do campo
das idéias, da argumentação e da discussão do que de técnicas formais de solução de pro-
blemas. Uma reflexão aprofundada sobre esse tema é desenvolvida por Majone (1989). Faria
(2003) denomina tais abordagens como perspectivas “pós-positivistas”, destacando o fato de
a produção acadêmica brasileira não incorporar, ainda, essa orientação em suas análises.
9. No original: “are willing to invest their resources – time, energy, reputation, money – to
promote a position in return for anticipated future gain in the form of material, purpo-
sive or solidary benefits”.
10. No original: “the policy entrepreneur who is ready rides whatever comes along”.
11. No original: “No other single actor in the political system has quite the capability of the
president to set agendas in given policy areas for all who deal with those policies”.
12. No original: “Rather, the platform is one of many forums in which advocates for policy
change attempt to gain a hearing”.
13. No original: “As a part of attracting groups and individuals during a campaign, presi-
dential candidates promise action on many policy fronts. Once in office, it is possible that

47
these promises rather directly affect the agendas of new administrations, partly because
presidents and their close aides believe in their stated policy goals and want to see them
advanced. But there is also at least an implicit exchange involved – support for the can-
didate in return for action on the promise. Politicians may feel constrained to deliver on
their part of the bargain, and supporters attempt to hold them to their promises”.
14. No original: “Actually, much of interest group activity in these processes consists not of
positive promotion, but rather of negative blocking”.
15. No original: “Despite good reasons for believing that media should have a substantial
impact on the governmental agenda, our standard indicators turn out to be disappoin-
ting. Mass media were discussed as being important in only 26 percent of the interviews,
far fewer than interest groups (84 percent) or researchers (66 percent)”.
16. No original: “The media report what is going on in government, by large, rather than
having an independent impact on governmental agendas”.
17. No original: “Media can help shape an issue and help structure it, but they can’t create
an issue”.
18. No original: “It [multiple streams] describes a situation that traditional normative theo-
ries of choice condemn as pathological and usually treat as an aberration [...].
Complexity, fluidity, and fuzziness are particularly appropriate characterizations of poli-
cy-making at the national level”.
19. O modelo de garbage can é também criticado por muitos autores, tendo sido apontado
como uma “teoria do caos” (Lane, 1993) ou como uma abordagem “fatalista” (Hood,
1998).
20. No original: “One reason that some readers find it difficult to appreciate the structure in
something like the garbage can model is that its structure is not familiar. A Marxist-style
class structure, for instance, or a bureaucratic hierarchy, or a constitutional order is all
more familiar. But that doesn’t mean that the sort of model developed in this book has
no structure; it’s just an unfamiliar an unorthodox sort of structure”.
21. No original: “The point here is that to develop meaningful explanations and predict
agenda change, one needs to go beyond the abstract formulation of garbage can model”.
22. Sobre essa questão específica do modelo de ação individual, Kingdon afirma que o mul-
tiple streams não tem como objetivo principal explicar de que forma os indivíduos tomam
suas decisões finais, mas apenas entender por que se preocupam com algumas questões e
não com outras (Kingdon, 2003, p. 196).
23. No original: “The causal drivers are underspecified, in part because there are no clear
models of the individual”.
24. No original: “Everything cannot interact with everything else”.
25. No original: “In my view, the model [...] is structured, but there also is room for residual
randomness, as is true of the real world”.
26. No original: “The lens predicts, for example, that the ideology of political parties will be
an important factor in raising issues to the top of the government’s agenda [...]. And it
predicts that bureaucrats will be more likely to shape alternative solutions than to mani-
pulate the government’s agenda”.
27. No original: “The advantage of independence is that it enables researchers to uncover rat-
her than assume rationality; that is, one does not assume that solutions are always deve-
loped in response to clearly defined problems”.

48
28. A segunda edição de Agendas, alternatives, and public policies, lançada em 2003, e que uti-
lizamos neste estudo, traz um capítulo adicional, no qual Kingdon apresenta suas refle-
xões posteriores à primeira edição, de 1984.
29. No original: “I think that one amendment [...] is reasonable: There are some links bet-
ween these streams at times other than the open windows and the final couplings. [...]
Couplings are attempted often, and not just close to the time of final enactment. But the
independence of the streams is still noticeable in the real world, and postulating that
independence in building theories still has its uses”.
30. No original: “Even if we assume the existence of a process that resembles garbage can
model, we still need to trace out specifically what kinds of institutional structures facili-
tate or constrain various problems and solutions from reaching the agenda [...] there had
to be a pre-existing institutional capacity that underpinned the efforts of reformers when
the situational variables (problems, solutions, and political conditions) were favorable for
pushing their ideas forward”.
31. O termo “equilíbrio pontuado” é tomado emprestado, pelos autores, da teoria da evolu-
ção. No modelo de Darwin, a diferenciação entre as espécies é compreendida como um
processo lento, com evoluções graduais. No início dos anos 1970, dois paleontólogos,
Stephen Gould e Niles Eldredge, sugeriram uma nova abordagem – punctuated equili-
brium theory – na qual introduzem a idéia de que mudanças poderiam acontecer de forma
rápida em determinados períodos geológicos, com extinções de espécies em pequenas
populações e substituição destas espécies por outras.
32. No original: “Punctuated-equilibrium theory seeks to explain a simple observation: poli-
tical processes are often driven by a logic of stability and incrementalism, but occasional-
ly they also produce large-scale departures from the past”.
33. No original: “Such policy diffusion can be described by a logistic growth curve, or an S-
shaped curve. Policy adoption is slow at first, then very rapid, then slow again as the satu-
ration point is reached. During the first phase, adoption may be very slow as ideas are
tried out and discarded. Then a positive feedback phase takes place for some programs,
as they rapidly diffuse. Finally, negative feedback is reestablished as the saturation point
is reached”.
34. No original: “Every interest, every group, every policy entrepreneur has a primary inte-
rest in establishing a monopoly – a monopoly on political understandings concerning the
policy of interest, and an institutional arrangement that reinforces that understanding”.
35. No original: “How a policy is understood and discussed is its policy image”.
36. No original: “The creation and maintenance of a policy monopoly is intimately linked
with the creation and maintenance of a supporting policy image”.
37. No original: “Policymaking is strongly influenced not only by changing definitions of
what social conditions are subject to a government response […] but also and at the same
time by changing definitions of what would be most effective solution to a given public
problem”.
38. No original: “Policy venues are the institutional locations where authoritative decisions
are made concerning to a given issue”.
39. No original: “Macropolitics is the politics of punctuation – the politics of large-scale
change, competing policy images, political manipulation, and positive feedback”.

49
40. No original: “No other single actor can focus attention as clearly, or change the motiva-
tions of such great number of those actors, as the president”.
41. No original: “As subsystems are created, new institutions are created that structure futu-
re policymaking and the influence of outside groups. These institutional changes need
bear no resemblance to those that existed a generation or two previously because each
involves a fresh definition of political issues [...]. A punctuated equilibrium model of the
political system differs dramatically from the type of dynamic equilibrium model impli-
cit in any discussion of cycles”.
42. No original: “Mobilization of interest groups appears to play an important role in deter-
mining policy images, venues and outcomes”.
43. No original: “Venues are often tightly linked, and shifts in attention in one are likely
quickly followed by shifts in others. The media help link all the other venues together,
for they are the privileged means of communication, the way by which disjointed actors
keep tabs on each other and on what they consider the ´public mood´. These features
help to explain why policy entrepreneurs have such incentives to influence what is pre-
sented in the media”.

Bibliografia

BAUMGARTNER, Frank R & JONES, Bryan D. (1993), Agendas and instability, in


American politics. Chicago, University of Chicago Press.
_________. (1999). “Punctuated equilibrium theory: explaining stability and change in
American policymaking”, in Paul A. Sabatier (ed.), Theories of the policy process,
Oxford, Westview Press.
CAPELLA, Ana C. N. (2004), O processo de agenda-setting na reforma da administração públi-
ca (1995-2002). Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação
em Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos. São Carlos, UFSCar.
FARIA, Carlos A. P. (2003), “Idéias, conhecimento e políticas públicas: um inventário sucin-
to das principais vertentes analíticas recentes”. Revista Brasileira de Ciências Sociais,
18 (51): 21-29, fev.
HOOD, Christopher. (1998), The art of State: culture, rhetoric and public management.
Oxford, Oxford University Press.
KINGDON, John. (2003 [1984]), Agendas, alternatives, and public policies. 3 ed. Nova York,
Harper Collins.
LANE, Jan-Erick. (1993), Public sector: concepts, models and approaches. Londres, Sage.
MAJONE, Giandomenico. (1989), Evidence, argument & persuasion in the policy process. New
Haven/Londres, Yale University Press.

50
MARCH, James G.; OLSEN, Johan P. & COHEN, M. D. (1972), “A garbage can model of
organizational choice”. Administrative Science Quartely, 17: 1-25.
MUCCIARONI, Gary. (1992), “The garbage can model and the study of policy making: a
critique”. Polity, 24 (3): 459-482.
SABATIER, Paul A. (1997), “The status and development of policy theory: a reply to hill”.
Policy Currents, 7 (4): 1-10, dez.
_________ (ed.). (1999), Theories of the policy process. Oxford, Westview Press.
ZAHARIADIS, Nikolaos. (1995), Markets, states, and public policies: privatization in Britain
and France. Ann Arbor, University of Michigan Press.
_________. (1999), “Ambiguity, time and multiple streams”, in Paul A. Sabatier (ed.),
Theories of the policy process, Oxford, Westview Press.

• Artigo recebido em Mai/2006


• Aprovado em Jun/2006

Resumo

Perspectivas Teóricas sobre o Processo de Formulação de Políticas Públicas

Este artigo pretende contribuir para os estudos sobre o processo de formulação de políticas
públicas, destacando o importante momento de construção da agenda governamental (agen-
da-setting). Para tanto, apresentamos dois modelos teóricos que apresentam a dinâmica das
idéias e da representação simbólica na formulação de políticas públicas. Sustentamos que
ambos os modelos apresentam similaridades e podem ser considerados complementares, cons-
tituindo-se em importantes ferramentas para a análise do processo de formulação de políticas
públicas.

Palavras-chave: Políticas públicas; Agenda governamental; Processo decisório; Processo político.

Abstract

Theoretical Perspectives on the Process of Public Policies Formulation

This article seeks to contribute towards studies on the process of formulating public policies,
highlighting the important current stage of government agenda-setting situation. We there-

51
fore present two theoretical models which emphasize the dynamics of ideas and symbolic
representation when formulating public policies. We argue that both models present simila-
rities and might be considered complementary, being also important tools in analyzing the
policy formulation process.

Keywords: Policy formulation; Governmental agenda; Decision making; Political process.

Résumé

Perspectives Théoriques sur le Processus de Formulation des Politiques Publiques

Cet article propose une contribution aux études sur le processus de formulation des politiques
publiques. Il met en avant le moment important de construction de l’agenda gouvernemen-
tal (agenda-setting). Deux modèles sont, ainsi, proposés. Ils présentent la dynamique des idées
et de la représentation symbolique dans la formulation des politiques publiques. L’auteur
défend que les deux modèles présentent des similitudes et peuvent être considérés complé-
mentaires, constituant d’importants outils pour l’analyse du processus de formulation de poli-
tiques publiques.

Mots-clés: Politiques publiques; Agenda gouvernemental; Processus décisionnel; Processus


politique.

52
“A Cigarra e a Formiga”: qualificação e competência – Um balanço crítico

Ana M. F. Teixeira

Ao longo das últimas décadas, o debate nados a temáticas e questões vinculadas às


sobre os nexos entre trabalho e educação articulações entre trabalho, educação, qualifi-
vem ganhando maior visibilidade nos dis- cação, competência e, mais recentemente, em-
cursos dos diferentes setores da sociedade. pregabilidade. O debate nacional e interna-
Certamente as explicações apontadas pa- cional mostra-se fértil, envolvendo não apenas
ra esse interesse nada têm de novidade, entre- diferentes campos das ciências sociais como
tanto, observando a conjuntura histórica também pesquisadores de outras áreas, como
atual, razões particulares emprestam novas engenheiros de produção, médicos do traba-
cores aos significados anteriormente atribuí- lho, psiquiatras, educadores, advogados etc. A
dos a esta relação. relevância do tema acaba por inseri-lo na cena
A retórica dominante encarrega-se de principal quando o interesse se dirige ao tra-
apontar, mais uma vez, o déficit educacional balho humano. Exatamente por isso o debate
como elemento de estrangulamento do cres- está presente no rol de preocupações e com-
cimento econômico. Todavia, o destaque promissos dos principais envolvidos – traba-
atribuído à capacidade e à qualidade do tra- lhadores, empresários e governos.
balho, como fatores centrais ao atendimen- Entretanto, o fato de tratar-se de um
to dos parâmetros de produtividade e com- debate fértil não é sinônimo de consensos
petitividade, ganhou o status de argumento incontestes em torno de noções como quali-
superior para, inclusive, justificar a elimina- ficação, competência e empregabilidade. Ao
ção de postos de trabalho. contrário, trata-se de terreno carregado de
Neste estudo são identificados apenas polêmicas não raras vezes submetidas às aná-
alguns dos elementos que podem apontar lises mais generalizantes. É importante, por-
para a complexidade do debate e a necessida- tanto, observar que, em verdade, esses ter-
de, urgente, de desmistificar afirmações apa- mos, largamente utilizados por diferentes
rentemente carregadas de obviedade que, ao instituições, em discursos e tribunas de va-
valorizarem o papel social da educação, aca- riados matizes e em literatura múltipla, aca-
bam por submetê-la a enfoques que vão do bam por aparecer indistintamente como
reducionismo ao discurso apologético, ambos conceitos originais, novos, recentemente for-
camufladores de contradições mais amplas. jados sem que se faça referência ao caráter
É inegável que as sociedades vêm passan- polissêmico dessas expressões. Esquece-se que
do por um conjunto de transformações vin- esses conceitos advêm de visões e matrizes
culadas às mutações técnico-organizacionais epistemológicas diversas, induzindo à idéia
no mundo do trabalho, estimulando com de que são unívocos, politicamente neutros e
muito vigor a retomada dos debates relacio- consensuais.

BIB, São Paulo, nº 61, 1º semestre de 2006, pp. 53-69 53


Decorre desse panorama a necessidade, tringir a análise a algumas áreas deve-se à exis-
fundamental, de distinguir as especificidades tência de uma considerável diversidade de
das distintas abordagens, dentro de uma concepções baseadas em diferentes enfoques e
perspectiva histórico-crítica, como estratégia modelos teóricos e à impossibilidade de tratar
para evidenciar que tais conceitos se referem aqui da questão em suas mais variadas visões,
a sentidos e intenções diferentes, explicitados abarcando uma extensa gama de abordagens
tanto no plano teórico como no político. e pesquisas que tratam do tema. Assim, tem-
Partindo desse viés, o campo da definição de se como referência alguns estudos mais
sentidos acaba se revelando como campo de expressivos, sem pretender com isso esgotar a
clara disputa histórica, o que torna ainda bibliografia existente.
mais urgente decifrá-los a fim de que possa-
mos considerar possibilidades e limites, esta-
belecer diferenças e exclusividades entre dis- A Matriz Econômica: Capital Humano e
tintos projetos sociais. Qualificação Formal
Por outro lado, não é possível desprezar
o fato de que as discussões em torno de con- As concepções sobre qualificação têm
ceitos como qualificação, competência e uma longa trajetória no campo teórico, tribu-
empregabilidade estão intimamente relacio- tária da contribuição de diferentes áreas das
nadas ao que se convencionou chamar de ciências humanas, o que deu origem a uma
perfil do “novo” trabalhador. farta literatura nacional e internacional. O
De fato são visíveis as intensas transfor- que chama atenção é que, em geral, essas dife-
mações que atingem o mundo do trabalho, rentes concepções encontram-se relacionadas
repercutindo no processo de globalização e a uma matriz de desenvolvimento socioeco-
reestruturação produtiva que marcam a crise nômico hegemônica em certas conjunturas.
do padrão fordista. Trata-se da irrupção de Assim, uma primeira noção de qualifica-
um novo momento do capitalismo marcado ção aparece referida à teoria do capital huma-
pela hegemonia do capital financeiro, da fle- no. Nos anos de 1950 e 1960, essa concepção
xibilização do trabalhador e do trabalho, da aparece vinculada a uma idéia de desenvolvi-
precarização do trabalho e do emprego, mento socioeconômico que se sustentava na
acompanhados pela expansão do mercado de necessidade de planejar e racionalizar os in-
trabalho informal e pelos índices crescentes vestimentos do Estado no que se refere à edu-
de desemprego. Assim, não parece surpreen- cação escolar, visando a assegurar um maior
dente o discurso insistente de alguns setores ajustamento entre as necessidades dos siste-
sociais sobre a “necessidade de um trabalha- mas ocupacionais e o sistema educacional.
dor de novo tipo”, afinal o cenário descrito Baseado em Schultz (1973a) e Harbinson
demonstra exigir criatividade redobrada para (1961 apud Manfredi 1999), a teoria do capi-
sobreviver. tal humano apresenta-se sob duas perspecti-
Portanto, tomando as contribuições ela- vas articuladas. Num primeiro aspecto,
boradas no âmbito da sociologia do trabalho, defende que a melhor capacitação do traba-
da economia da educação e da economia lhador opera como fator de aumento de pro-
política, pretende-se discutir a construção dutividade. A qualidade da mão-de-obra
social dos significados que têm sido atribuí- obtida pela formação escolar, profissional e
dos aos conceitos de qualificação, competên- pelo progresso do conhecimento potenciali-
cia e empregabilidade. A necessidade de res- zaria a capacidade de trabalho e produção –

54
de recursos humanos –, requisitos fundamen- nico-organizacionais dos setores mais estrutu-
tais ao processo de modernização. Entenda-se rados do capital, dentro da lógica da qualifica-
modernização como sinônimo de adesão ao ção como preparação de mão-de-obra especia-
modelo industrial capitalista como referência lizada ou semi-especializada para atender ao
de consumo, de estilo de vida e integração no mercado formal. Nessa lógica, a equação em-
padrão de desenvolvimento adotado nos paí- prego-escolaridade parece encerrar o sentido
ses capitalistas centrais. da noção de qualificação.
Numa segunda perspectiva, destacam- Seguindo na mesma direção, nos anos de
se as estratégias individuais no que diz res- 1960 e 1970 a noção de qualificação formal é
peito a meios e fins relacionados à constitui- adotada como parâmetro para a definição de
ção do “capital pessoal” de cada trabalhador. políticas macrossociais, sendo considerada
Mediante um cálculo, com base no princí- índice de desenvolvimento socioeconômico
pio custo-benefício, seria possível avaliar se agregado às taxas médias de escolarização da
o investimento e o esforço empregados na população e à ampliação do tempo médio de
formação seriam compensados em termos permanência na escola. Lembremos que,
de uma melhor remuneração no futuro.1 nesse período, esses índices alcançam um
Harbinson refere-se à formação de capi- crescimento expressivo nos países capitalistas
tal humano como: centrais e são adotados, progressivamente, pe-
las agências de desenvolvimento como refe-
[…] processo de formação e incremento de rência internacional de avaliação e replanifi-
número de pessoas que possuem as habilida- cação das políticas educacionais dos países
des, a educação e a experiência indispensá- subdesenvolvidos.
veis para o desenvolvimento político e eco- A noção de qualificação formal aparece
nômico de um país. A criação de capital fortemente informada pela capacidade de
humano se assimila, desse modo, a uma atuação dos Estados em equacionar as vincula-
inversão em benefício do homem e de seu ções entre estruturação de sistemas educacio-
desenvolvimento como um recurso criador e nais nos diferentes níveis (garantindo expansão
produtivo […]. Tais inversões possuem ele- qualitativa e quantitativa) e demandas do siste-
mentos qualitativos e quantitativos, isto é, a ma ocupacional. Resulta daí uma lógica em
formação de capital humano implica não que o planejamento da educação se volta dire-
apenas gastos de educação e adestramento tamente a atender as demandas de determi-
em sentido estrito, mas também o cultivo de nados setores profissionais. Neste aspecto, a
atitudes favoráveis à atividade produtiva relação custo-benefício dos investimentos em
(1961 apud Manfredi, 1999, p. 18). educação é medida pelos diferenciais vincula-
dos à combinação entre anos de estudo, aqui-
No Brasil tais idéias inspiraram vários au- sição de diploma e média salarial como indica-
tores vinculados aos governos militares. Pre- dor de desenvolvimento socioeconômico.
dominou, nesse período, o pensamento de Esse tipo de concepção, em que a noção
que por meio de políticas educacionais im- de qualificação se encontra atrelada à lógica
postas de forma tecnocrática seria possível do capital humano, também se relaciona com
promover o desenvolvimento econômico. as atuais redefinições do padrão de gestão do
Esse tipo de raciocínio embasou a implemen- trabalho. A urgência da competitividade, ago-
tação de sistemas de formação profissional ra em dimensão internacional, obriga as em-
profundamente atrelados às necessidades téc- presas a desenvolverem estratégias visando à

55
qualidade total. Para tanto, torna-se funda- cução indica o interesse do capital em mono-
mental conquistar o comprometimento dos polizar o saber e o conhecimento produzido
trabalhadores, sobretudo quando se trata da no e pelo trabalho. Afinal, por mais parcela-
operação de equipamentos sofisticados e ca- do e rotinizado que seja o trabalho ele envol-
ros. A contribuição da mão-de-obra qualifica- ve alguma dose de organização conceitual.
da, até então depreciada no sistema taylorista- Aliado a isso, o controle, a vigilância e a dis-
fordista, passa a ser valorizada. ciplina garantem o respeito às regras no am-
Entretanto, o discurso sobre a necessida- biente da produção.
de de mão-de-obra mais qualificada, recorren- Assim, fragmentação e desqualificação
te em épocas de crise, colide nos limites con- associam-se: o artesão é substituído pelo ope-
cretos da produção, nos interesses particulares rador de máquinas e, à proporção em que
das empresas e na lógica excludente e seletiva qualificações especiais ainda são requeridas,
do mercado (Frigotto, 1995). O que acontece estas se fracionam ainda mais quando são
no Brasil, nos últimos quarenta anos, é a com- distribuídas para um número restrito de ope-
provação desse desencontro: os recursos aloca- rários. O objetivo é elevar ao máximo as pos-
dos na educação foram muito inferiores aos sibilidades de fácil substituição de uma força
anunciados nos discursos e nos planos empre- de trabalho barata.
sariais e governamentais. A perspectiva crítica É nesse cenário que as relações de força
aponta, também, a estratégia utilitarista ado- entre trabalho e capital se explicitam e do em-
tada pelas empresas no que diz respeito à for- bate nasce a possibilidade de alteração do bi-
mação profissional. A valorização do capital
nômio qualificação/desqualificação.
humano expressa a apropriação de qualidades
Uma outra vertente na sociologia do tra-
sociopsicológicas do trabalhador, buscando o
balho de base marxiana enfoca a dimensão
consenso e o espírito de lealdade à empresa,
positiva do trabalho, salientando tanto seu ca-
diante da possibilidade remota de participação
ráter de atividade social e coletiva, fonte de
autônoma e livre no processo produtivo.
humanização, como o potencial de resistência,
No âmbito da sociologia do trabalho, as
transgressão e negociação dos trabalhadores.
questões da organização da produção e do
Sob esse olhar o trabalho configura-se
trabalho embasam outros fundamentos ana-
líticos para a discussão dos significados da como ação transformadora especificamente
qualificação. humana, capaz de tornar o natural em social.
Neste processo em que sujeito e objeto se
encontram, dialeticamente, os trabalhadores
Produção e Organização do Trabalho: constituem relações, comunicam-se e estabe-
Referências para a Qualificação lecem a possibilidade de criação para além da
simples repetição de movimentos prescritos.
No campo marxista da sociologia do tra- Uma vez que o trabalho se configura como
balho, a discussão sobre qualificação/desqua- prática social concreta, os trabalhadores, co-
lificação está diretamente associada ao con- mo sujeitos, constroem-se e qualificam-se, po-
ceito de alienação do trabalho. A separação dendo se apropriar criticamente do conteúdo
entre trabalho manual e trabalho intelectual e do contexto de realização de seu trabalho,
como base fundante da organização do traba- apesar do controle do capital em seu conteú-
lho capitalista subordina o trabalho ao capital do alienante.
como requisito indispensável à consumação Nas duas vertentes a dinâmica social
da mais-valia. A cisão entre concepção e exe- caracterizaria o cotidiano do espaço do traba-

56
lho em seus conflitos, disputas e negociações, e não a um conjunto de atributos intrínsecos
possibilitando o rompimento com a lógica da ao trabalhador.
desqualificação presente na organização do Ora, se a questão passa a ser considerada
trabalho capitalista. É importante enfatizar a partir do posto/função definido pela inser-
que essas duas dimensões do trabalho não de- ção no mercado formal de trabalho, a qualifi-
vem ser tomadas de modo excludente, posto cação é tomada de forma privatizada/indivi-
que uma parcela significativa da análise socio- dualizada: torna-se um bem “adquirido” de
lógica de inspiração marxista parte dessa dua- forma privada que se constitui em um con-
lidade para evidenciar as contradições ineren- junto de conhecimentos técnicos, científicos,
tes à relação capital versus trabalho. habilidades e experiências acumuladas ao
A discussão sobre a concepção de qualifi- longo de uma trajetória escolar e profissional,
cação sob os paradigmas da análise marxista consideradas de forma individualizada, sem
do trabalho implica pelo menos três pressu- qualquer vinculação com o contexto sociocul-
postos centrais que rompem com uma leitura tural. A formação para o trabalho passa a ser
dicotomizada em que qualificação e desquali- reconhecida, tal como assinala Kuenzer
ficação aparecem numa relação de oposição, (1985), como treinamento básico e conheci-
apontando para o movimento de qualifica- mento escolar necessário para desempenhar a
ção/desqualificação/requalificação inerente ao função. O treinamento e o conhecimento po-
trabalho. São eles: a noção de qualificação co- dem, por sua vez, ter sido adquiridos por meio
mo processo social, histórico e cultural; a no- de instrução formal ou treinamento anterior
ção de determinação e de sua superação como em trabalhos mais simples ou, ainda, pela
resultado da intervenção dos sujeitos envol- combinação dos dois mecanismos. Assim, o
vidos no processo; e a noção de qualificação que interessa são trabalhadores prontos a de-
como movimento dialético em que se combi- sempenhar exclusivamente as tarefas específi-
nam elementos desqualificantes e qualifican- cas e operacionais.
tes que ultrapassam as tarefas prescritas. Formar para o trabalho significa então
Além da preocupação dos críticos do ca- privilegiar as dimensões técnico-operacionais
pitalismo, a noção de qualificação do traba- que garantirão trabalhadores aptos a desen-
lho e dos trabalhadores também tem sido, volver tarefas específicas. Ensinar e aprender
desde há muito, objeto e interesse dos gesto- tarefas se processa num contexto comporta-
res do capital, tal como se pode observar na mental rígido que obedece a uma seqüência
natureza da abordagem proposta no âmbito lógica e instrumental no intuito de reprodu-
do modelo taylorista-fordista de organização zir as etapas a serem executadas no processo
da produção e do trabalho e no debate em produtivo numa visível desvalorização de um
torno da noção de competência, como vere- embasamento mais abrangente da própria
mos a seguir. função.
Sob a ótica do modelo taylorista-fordista, Assim, o que se observa no interior das
a concepção de qualificação tem como refe- empresas ou no mercado de trabalho formal
rência o modelo trabalho/aprendizagem é a definição de uma estrutura hierárquica de
(job/skills), determinada a partir da posição a postos de trabalho que se organiza a partir
ser ocupada no processo produtivo e anteci- dos níveis hierárquicos de escolaridade e da
padamente estabelecida pelas normas organi- certificação escolar oficial, legitimando,dessa
zacionais da empresa. Qualificação refere-se forma, a “velha” equação: os que chefiam,
direta e exclusivamente ao posto de trabalho decidem e ocupam posição elevada na hierar-

57
quia são os mais “competentes” e aqueles que dade. Enquanto no plano da retórica ocorre
transitam na esfera da execução, da prática, uma valorização da educação formal associa-
são os “incompetentes”. Nenhuma novidade: da a uma supervalorização do conhecimento
os níveis hierárquicos de qualificação associa- científico (o que, de fato, é exigido para os car-
dos aos níveis hierárquicos de escolarização gos elevados da hierarquia), acarretando uma
explicam, justificam e legitimam a divisão desvalorização do conhecimento prático, no
entre trabalho manual e trabalho intelectual. cotidiano, no plano real, é exatamente esse
Uma relação mecânica entre teoria/prática e conhecimento prático, construído com base
competência. A qualificação, então, passa a na experiência, na prática de trabalho, que se
ser representada como questão de mérito que valoriza.
se evidencia numa trajetória (escolar/profis- Por mais de trinta anos a concepção de
sional) de responsabilidade estritamente indi- qualificação sustentou-se apoiada na engrena-
vidual e numa noção de competência limita- gem do modelo taylorista-fordista de organi-
da à ocupação/função atribuída a cada zação da produção e do trabalho. Somente
trabalhador (Idem). entre os anos de 1970 e 1980 essa referência
Em tal moldura de representação social passa a ser contestada diante da emergência
temos terreno fértil em que se articulam dois de outras formas de organização do trabalho
discursos apologéticos e acríticos: a panacéia e da difusão de sistemas de produção pauta-
da força da educação escolar e a neutralidade dos na integração e na flexibilidade.
da educação, da ciência e da tecnologia. De
um lado, a educação escolar aparece como
passaporte capaz de garantir o acesso às hie- Qualificação versus Competência
rarquias superiores/qualificadas, dissimulan-
do todos os outros mecanismos sociais e As transformações técnicas e organiza-
organizacionais que regulam o acesso e a per- cionais associadas aos padrões de competiti-
manência no mercado formal de trabalho; de vidade, pautados no processo de globalização
outro, a despolitização da produção e a dis- da economia, intensificado ao longo das últi-
tribuição da riqueza, da cultura, dos direitos, mas décadas do século passado, vão, simulta-
das possibilidades. neamente, produzir reflexos sobre as noções
Explicita-se mais uma evidência dos de qualificação dominantes, bem como a di-
nexos entre educação e trabalho: a lógica da fusão da noção de competência como parâ-
organização do sistema escolar em níveis aos metro para a formação profissional.
quais corresponde a hierarquia das qualifica- Em lugar da produção em massa padro-
ções acaba funcionando menos como meca- nizada emerge a produção diferenciada, em
nismo de acesso ao sistema de status profis- que a combinação entre custo, qualidade e
sional e muito mais como mecanismo de agilidade na introdução de inovações técni-
legitimação dos níveis hierárquicos de espe- cas e organizacionais é um fator central aos
cialização que se definem a partir do univer- parâmetros de competitividade do cenário
so do trabalho. O grau de escolaridade formal econômico mundial (Antunes, 1995, 1999;
é, ao mesmo tempo, ingrediente importante Forrester, 1997; Ianni, 1992, 1995; Harvey,
do processo, mas tem valorização variável a 1992).
depender do setor econômico. Nesse contexto, a qualidade do produto
Não parece surpreendente a ambigüida- aparece como diferencial efetivo, a qualifica-
de entre a realidade e o discurso sobre a reali- ção profissional ressurge como fator impor-

58
tante de competitividade entre economias, rompa com o paradigma anterior no que se
instituições e indivíduos. Ocorre, segundo refere à especialização e ao comportamento
Frigotto (1995), uma reedição da teoria do ca- requerido. Em lugar da fragmentação e do
pital humano, levando alguns países a inves- silêncio se vislumbraria a comunicação e a
tirem significativamente na qualificação, interatividade. O savoir-faire dos trabalha-
requalificação, reconversão de sua força de tra- dores e a subjetividade do sujeito ganham
balho e a editarem mirabolantes planos e pro- destaque.
gramas destinados a capacitar os indivíduos No novo modelo produtivo, fortemente
para lidar com os renovados parâmetros tec- inspirado no modelo empresarial japonês, a
nológicos e/ou para que se tornem capazes de organização do trabalho estaria baseada no
desenvolver, por conta própria, estratégias de espírito cooperativo de equipe e na ausência
sobrevivência. de demarcação de tarefas definidas a partir do
Uma vez que a internacionalização da e- posto de trabalho, implicando um funciona-
conomia e a difusão de “novas” modalidades mento fundado na polivalência e na rotação
de trabalho não garantiram a ampliação dos de tarefas. Assim, as qualificações exigidas es-
postos de trabalho nem a mobilidade dos tra- tariam baseadas em alguns atributos indivi-
balhadores no mercado formal, nota-se uma duais, tais como capacidade de raciocínio,
oscilação entre desemprego e emprego precá- iniciativa, dinamismo, criatividade, responsa-
rio. Portanto, essa nova lógica reduz o núme- bilidade, interatividade etc.
ro daqueles que teriam disponíveis as condi- Observa-se, desde então, que mesmo em
ções ideais para negociar seu conhecimento de setores com fraca tradição em inovações tec-
forma autônoma e para delinear uma carreira. nológicas e organizacionais ocorre a elevação
Em contrapartida, as qualificações exigi- do patamar de qualificação dos trabalhadores
das pelo modelo de organização renovado, em virtude do inter-relacionamento direto
flexível e integrado deslocam-se das ativida- (ou indireto) entre cadeias produtivas que
des ditas concretas em direção às atividades acabam por irradiar reconfigurações para o
simbólicas e que exigem grau elevado de abs- mercado interno.
tração. Essa reconfiguração acaba por originar Os setores modernos da economia,
uma quase instantânea “desqualificação” de conectados mais dinamicamente às inova-
parte considerável da força de trabalho que ções, tendem a manter um núcleo de
não encontra possibilidade de reinserção em trabalhadores qualificados (que gozam do es-
outros segmentos da economia. Resultado: tatuto de formalidade), aos quais são assegu-
estabelece-se um consenso quanto à necessi- radas oportunidades e condições de qualifica-
dade de um “surto” de ações direcionadas à ção continuada, proteção e assistência social.
reconversão e à qualificação profissional co- Aprofundam-se os dispositivos de seletividade
mo se todos os problemas relacionados ao que deixam à margem trabalhadores menos
mercado de trabalho como desemprego, ter- privilegiados na divisão social do trabalho, na
ceirização, precarização das contratações medida em que a orientação das empresas e
pudessem ser assim solucionados. É uma do mercado de trabalho tende a beneficiar
questão polêmica sobre a qual não nos dete- determinados setores/trabalhadores tidos co-
remos aqui. mo estratégicos (Desaulniers, 1998).
De fato, grande parte dos estudiosos do Para Deluiz (1994), o que ocorre é um
tema aponta para a emergência de um novo processo de exclusão do conhecimento num
modelo de qualificação profissional que cenário em que a capacidade do sujeito em

59
mobilizar sua experiência profissional e socio- O aumento do trabalho abstrato, segun-
cultural para agregar conhecimento à organi- do Coriat (1979), não é diretamente propor-
zação ocupa lugar central no mundo do tra- cional à complexificação do trabalho, o que
balho. O aumento da qualificação profissional daria origem a dois grupos distintos de traba-
passa a atuar mais como parâmetro de seleção lhadores no que se refere à qualificação pro-
para o emprego do que como elemento de fissional. Um grupo vinculado ao desenvolvi-
maior qualificação do posto de trabalho. mento de tarefas mais complexas, abstratas,
Segundo Stroobants (1993), a certifica- sem que isso implique necessariamente um
ção (o diploma) vai deixando de ser elemento enriquecimento no conteúdo do trabalho ou
de excelência no mundo do trabalho, passan- uma maior autonomia para sua realização,
do à condição de suplemento à medida que estando subordinado ao que Coriat chama de
cresce o número de diplomados. As empresas “tempo informático de essência taylorista”.
e as organizações em geral passam a demandar Outro grupo, composto por trabalhadores
qualificações que adicionem valor ao diploma mais qualificados, vinculados a funções que
e que possam ser aplicadas nas situações de exigem maior abstração e complexidade dos
trabalho. Exige-se que o indivíduo esteja apto conteúdos, para o qual se estabelecem estraté-
a mobilizar suas qualificações para gerar gias de incentivo, motivação e treinamento.
conhecimento dentro da empresa e exatamen- Num padrão produtivo que valoriza os
te essa capacidade vai se constituindo no indi- atributos individuais, reforçando a tese da re-
cador de sua competência e eficiência. qualificação dos trabalhadores, emerge o mo-
Uma vez que a valorização da polivalên- delo das competências que se mostraria mais
cia e da flexibilização funcional favorece uma apropriado. Segundo Hirata (1996), a origem
dissociação entre posto de trabalho e tarefa, a do termo competência encontra-se em estu-
descrição dos cargos aparece mais calcada nas dos econômicos sobre desemprego e trabalha-
qualificações tácitas do que nos conhecimen- dores regulares, sendo assimilado, posterior-
tos advindos da qualificação profissional e mente, pelas empresas de acordo com suas
rompe-se a relação entre qualificação profis- políticas de recrutamento, seleção e treina-
sional e salário (Ropé e Tanguy, 1997). mento e, principalmente, de organização do
Ainda para Stroobants (1997), a valori- processo de trabalho.
zação do conhecimento tácito dos trabalha- Ainda conforme as análises de Hirata
dores indicaria a busca de capacidades huma- (1997), competência e empregabilidade são
nas complementares à máquina, apesar dos termos que, em casos específicos como o fran-
avanços tecnológicos já assegurados. cês, podem ser usados como sinônimos, já que
A sofisticação da base tecnológica tam- se direcionam ao indivíduo. Contudo, numa
bém é identificada por Coriat (1979) como abordagem mais crítica a empregabilidade
propulsor de uma alteração da qualificação. A estaria estreitamente vinculada à responsabili-
automação articula tarefas e rotinas permitin- zação do indivíduo pela situação de desem-
do a redução do trabalho direto (repetitivo prego, posto que este teria efetuado escolhas
com manuseio direto de ferramentas) e a in- equivocadas/inadequadas no terreno de sua
tensificação do trabalho indireto (maior res- capacitação, competindo somente a ele os pre-
ponsabilidade com a qualidade e a gestão do juízos de sua exclusão do mundo do trabalho
processo de trabalho). Essa alteração explicaria e, por extensão, da vida social.
a exigência por trabalhadores com maior qua- Ao mesmo tempo em que a qualificação
lificação profissional e envolvimento pessoal. se refere ao posto de trabalho e às tarefas, a

60
competência se refere à multifuncionalidade fissionais. À medida que se rompe o sistema de
e à subjetividade. A remuneração diz respeito classificação salarial por qualificação profissio-
não ao cargo, mas ao desempenho do indiví- nal com a aparente superação do padrão esco-
duo. A lógica da competência permite rom- lar e a individualização salarial, questiona-se a
per com a noção de posto de trabalho e com afirmação de uma identidade coletiva nos mol-
a remuneração correspondente, estabelecen- des do paradigma anterior. Isso não significa
do um agudo componente de individualiza- eliminar a possibilidade de novas articulações
ção direcionado às gratificações, ao alcance de identitárias que se apropriem dos componen-
metas ou à resolução de problemas que inte- tes privilegiados pelo modelo em curso, tais
ressem aos objetivos da organização. como a comunicação e a integração funcional.
É importante assinalar que o caráter po-
lissêmico do termo competência acaba por fa-
Competência e Empregabilidade: vorecer uma homogeneização das situações,
aprofundando o debate mesmo quando o termo refere-se a realidades
distintas. Assim é que Isambert-Jamati (1997)
É importante observar que a difusão do considera que a noção de competência se cons-
modelo das competências não provoca seus trói de forma desvinculada da formação pro-
desdobramentos exclusivamente no campo fissional, remetendo ao sujeito e à sua capa-
da produção, mas se ramifica socialmente. cidade de cumprir tarefas, deixando, assim, de
Para ficarmos no campo da educação, pode- ser atributo exclusivo daqueles que ocupam
ríamos assinalar alguns elementos que vêm se posição de direção.
tornando mais evidentes: a exigência por um Conforme Desaulniers (1998), compe-
padrão educacional que valorize o aprendiza- tência pode ser definida como a capacidade
do autônomo e a mobilização do conheci- para resolver um problema em certa situação,
mento individual, em consonância com a só podendo ser mensurada, basicamente, a
dinâmica da competitividade; a evidência de partir dos resultados alcançados.
que os estudos sobre cognição são insuficien- Segundo Stroobants (1997), ação, veloci-
tes para permitir que o indivíduo se desloque dade, movimento e realização são os elemen-
autonomamente entre campos de conheci- tos que sustentam a noção de competência.
mento; a tendência à desvalorização da certi- Esse tipo de abordagem implica a articulação
ficação escolar diante da valorização dos de, pelo menos, duas dimensões complemen-
conhecimentos tácitos (Dugué, 1998; Ropé tares: a valorização da experiência profissional
e Tanguy, 1997; Stroobants, 1997). resultante da vivência pessoal no trabalho e a
A valorização do saber do trabalhador e valorização das atitudes comportamentais em
de sua ação no local de trabalho é considerada contraposição aos saberes obtidos na escola. A
por alguns estudiosos um ganho. Entretanto, avaliação da competência, então, se explicita
é oportuno destacar que a avaliação da atua- em situações específicas, estando a progressão
ção do trabalhador passa a se apoiar nas situa- do indivíduo vinculada não ao cargo/posto,
ções específicas e pontuais, tomando como mas sim à avaliação e à recompensa de sua per-
referência elementos dificilmente codificados formance individual.
e hierarquizados: motivação, iniciativa, dispo- Por outro lado, Tanguy (1997) salienta
nibilidade etc. que na medida em que se trata de uma lógica
Dubar (1996) chama atenção para a ques- baseada nas capacidades dos indivíduos em
tão das identidades coletivas/identidades pro- mobilizar seus conhecimentos no ato do tra-

61
balho, incluindo, necessariamente, disposições Nessa dinâmica, enquanto os trabalha-
particulares, fica evidenciado o caráter desigual dores lutam para permanecer competitivos
dessa concepção. Trata-se da impossibilidade mediante o investimento individual e contí-
de objetivação de critérios e de estratégias de nuo em qualificação, as empresas tendem a
julgamento por um sistema de regras aplicá- definir suas contratações a partir de perfis
veis a todos para avaliar: autonomia, iniciativa, profissionais cada vez mais abstratos, desvin-
criatividade e comunicação sem resvalar na culados de uma qualificação profissional es-
subjetividade. Evidencia-se, portanto, na pers- pecífica. Estabelece-se assim uma “tensão”:
pectiva analítica de Tanguy (1997) um aspec- de um lado, o setor produtivo demanda pro-
to importante que se refere ao caráter desigual fissionais habilitados a atuar em conformi-
embutido na “lógica das competências”. Pro- dade com o novo padrão de organização da
cura-se definir um comportamento homogê- produção; de outro, em seus sistemas de
neo para o que é subjetivo em cada situação de recrutamento e seleção, privilegia saberes re-
lacionados à história de vida dos indivíduos
trabalho, desconsiderando as diferenças nas
e à sua capacidade de transferi-los para a
trajetórias formativas dos indivíduos. Procura-
empresa. Em contrapartida, o interesse das
se, independentemente do método utilizado,
empresas em multiplicar as ações voltadas a
tornar socialmente admissível as diferenças
incrementar a participação não viabiliza a
salariais à medida que estas aparecem como transferência de saberes concretos aos traba-
resultado de “propriedades e de ações indivi- lhadores de modo a possibilitar a reconsti-
duais”, uma vez que a avaliação é apresentada tuição do conhecimento profissional.
como resultado de uma auto-avaliação. Numa outra perspectiva, Dubar (1996)
Observando outros aspectos, Dugué considera que um novo padrão de identida-
(1998) ressalta que em lugar dos conteúdos de, reconhecimento e valorização do traba-
das atividades e do conhecimento formal lho é constituído a partir do modelo das
requerido para sua execução, a questão da competências, tanto no que se refere à iden-
mobilidade no emprego aparece como ele- tidade funcional e salarial, como no que se
mento mais diretamente relacionado às prá- refere à qualificação profissional numa dire-
ticas da competência. Seriam, segundo suas ção profundamente personalizada.
análises, as exigências por mobilidade fun- Entretanto, quando mobilidade, flexibi-
cional que levariam à valorização de saberes lidade, inovação e adaptabilidade são toma-
não-profissionais, como criatividade, socia- dos como capacidades individuais, a lógica
bilidade etc., deslocando o foco da qualifica- das competências desconsidera que não con-
ção profissional para o que chama de “com- tamos com a sistematização e a difusão de
portamentos úteis à empresa”. A valorização modelos pedagógicos que permitam ao tra-
da ação do trabalhador representaria o “avan- balhador desenvolver essa versatilidade no
ço” trazido pelo modelo da competência. trânsito entre áreas de conhecimento correla-
Entretanto, atuações específicas e limitadas tas, potencializando sua capacidade de mobi-
no ambiente de trabalho não podem ser con- lizar diferentes saberes em diferentes situa-
sideradas contextos favoráveis à sedimenta- ções de trabalho. Além disso, despreza-se o
ção de saberes, particularmente quando se fato de que o trânsito entre diferentes cam-
referem a trabalhadores menos qualificados, pos de conhecimento não está exclusivamen-
te definido pelo empenho individual, mas
que encontram mais dificuldades em manter
também por um investimento organizado
comportamentos considerados competentes.
em qualificação e reconversão profissional.

62
É exatamente em função da complexi- ciado pelo Estado e pelo setor privado. Os
dade desse cenário, em que o econômico e o saberes práticos são desenvolvidos no espaço
social aparecem num confronto potencializa- da empresa, ao passo que os saberes teóricos
do pela profunda escassez de postos de traba- ficam a cargo das escolas. Ao mesmo tempo
lho, que as experiências e as estratégias de em que essa dinâmica acaba por assegurar ao
alguns países europeus merecem nosso olhar, empresariado uma forte influência sobre o
ainda que breve, sem desconsiderar suas sistema de formação profissional, garante ao
especificidades histórico-culturais. trabalhador uma formação de qualidade, pos-
to que o modelo se baseia na qualificação do
trabalhador e não da empresa, o que lhe ga-
Qualificação e Mercado de Trabalho: rante certa mobilidade.
Experiências Européias No caso do Japão, não é o sistema edu-
cacional a base da qualificação e sim a em-
De um modo ou de outro, o setor pro- presa. Entretanto, em lugar de desvalorizar o
dutivo tem, reiteradamente, demandado um sistema escolar, o modelo japonês organiza-se
modelo de educação que atenda à nova confi- a partir de uma hierarquização fundada no
guração do mundo do trabalho. Nessa busca desempenho escolar, elemento definidor da
por um modelo que possa ser considerado contratação por uma grande empresa, como a
“adequado”, as experiências alemã, francesa e Toyota, a Nyssan, entre outras. A profissiona-
japonesa têm sido apontadas como bem-suce- lização e a qualificação do trabalhador ocor-
didas em que pese suas especificidades. rem no âmbito da empresa, a partir dos inte-
O modelo educacional alemão e o mo- resses e das estratégias da organização, sem
delo de qualificação japonês têm sido consi- que seja oferecida qualquer certificação capaz
derados referenciais exitosos quando se trata de atestar seus conhecimentos. Assim, a pers-
da conformação de um modelo de educação pectiva de êxito na vida profissional associada
em sintonia com as exigências do mercado de à inserção em empresas que possibilitem o
trabalho. Ainda que essas experiências este- desenvolvimento profissional contínuo apa-
jam fortemente calcadas em bases sociocultu- rece com forte determinação do sucesso na
rais específicas que se articulam a um projeto carreira escolar. Por outro lado, o Estado ja-
de sociabilidade negociada, envolvendo o se- ponês tem influência restrita na formação
tor privado, a sociedade e o Estado, a capaci- profissional, limitando-se a uma ingerência
dade desses países em formar trabalhadores pontual relacionada à integração de jovens e
que atendam ao setor produtivo associado ao idosos desempregados no mercado de traba-
favorável desempenho econômico funciona lho e ao apoio às pequenas empresas.
como atrativos (Georg, 1994). Ainda que os dois modelos respondam
Segundo as análises de Georg (1994), positivamente às demandas da produção, os
Market (1994) e Lojkine (1995),2 o ponto índices crescentes de desemprego têm fun-
determinante para a classificação profissional cionado como fatores de questionamento
e a remuneração dos trabalhadores alemães sobre a capacidade de o modelo alemão
está no reconhecimento da competência (cer- atender as demandas por mão-de-obra flexí-
tificação) que decorre da credibilidade dos vel e as possibilidades de o sistema japonês
certificados e dos diplomas emitidos pelo sis- manter a cultura do emprego permanente,
tema educacional alemão. Esse sistema estru- embora este atinja unicamente um terço da
tura-se de forma dual: organiza-se e é finan- população economicamente ativa.

63
Mesmo que os questionamentos exis- ção obrigatória, pelo incentivo à permanência
tam e até se intensifiquem em determinadas em tempo integral dos estudantes no ensino
conjunturas, não se deve desconsiderar o complementar, além de significativos subsí-
fato de que os dois modelos contemplam dios para a educação superior (controlada pelo
aspectos que atendem às exigências do setor privado). O incentivo à educação conti-
padrão produtivo, tais como equipes de tra- nuada em todos os níveis de certificação tam-
balho, mobilidade, flexibilidade funcional, bém é objeto dos investimentos governamen-
qualificação na empresa etc. tais (Souza, 1996). No modelo inglês não é
As especificidades dos dois modelos res- apenas a formação profissional formal ou a
tringem as possibilidades de transposição, experiência profissional que viabilizam o aces-
mas não se pode desconsiderar sua ressonân- so à certificação. Além disso, a capacidade de
cia. No campo produtivo, por exemplo, pode o indivíduo comprovar sua competência na
ocorrer uma reconfiguração da cultura orga- ação do trabalho é reconhecida, valorizando
nizacional mesmo que não exista um com- espaços formativos alternativos que estimu-
promisso com o projeto social e educacional lem o aprendizado autônomo.
da sociedade, sem que isso signifique descon- Na França, nota-se que as adequações
siderar totalmente os ganhos em qualificação no sistema educacional, inclusive no ensino
(requalificação, aperfeiçoamento) mesmo que superior, já vêm sendo feitas desde meados
se apresentem limitados. Em contrapartida, dos anos de 1970, visando a ajustamentos
pode-se observar, com reservas, a existência em relação ao sistema produtivo. Nesse caso
de certa convergência entre empresários e tra- a educação formal tem um papel importan-
balhadores no que se refere à demanda por te. É o desempenho escolar ao longo dos dez
uma educação/formação mais teórica em que anos do ensino obrigatório que definirá as
pese os diferentes significados disso para esses possibilidades de ingresso no ensino supe-
atores sociais. Contudo, de um modo ou de rior. No decorrer do período escolar, o estu-
outro, essa “convergência” acaba se refletindo dante é submetido a várias avaliações que
na multiplicação de programas, projetos e permitem, simultaneamente, assegurar certo
campanhas que visem à qualificação/requali- grau de uniformidade e qualidade do ensino
ficação profissional e a alterações no sistema e avaliar os conhecimentos do aluno. A lógi-
educacional. ca do modelo francês acaba por favorecer
As exigências do modelo econômico uma visão geral de que o ensino profissional
contemporâneo têm levado vários países a re- está associado ao fracasso escolar, uma vez
formularem seu sistema educacional, como é que acaba por aparecer como o “refugio” para
o caso da França e da Inglaterra. De modo aqueles estudantes que não obtiveram desem-
geral, as reformulações visam a aproximar o penho escolar satisfatório (Rapkiewicz,
sistema escolar do sistema produtivo, ampli- 1995). Tentando alterar esse tipo de percep-
ar o nível de escolaridade da população e ção sobre o ensino profissional, o governo
multiplicar a oferta de educação continuada francês tem desenvolvido diferentes ações que
(Rapkiewicz, 1995). visam a revalorizar a profissionalização, seja
No caso inglês, em que a educação des- como alternativa para inserção de jovens no
fruta do estatuto de recurso estratégico para mercado de trabalho, como forma de elevar
competitividade e desenvolvimento econômi- a qualificação em geral, seja ainda como
co, parte significativa do sistema é financiada uma via para requalificação de empregados e
pelo Estado que se responsabiliza pela educa- desempregados (Tanguy, 1991).

64
Em que pesem as especificidades desses podem mais ser analisadas como trajetórias
dois países, o conjunto das reformas empre- lineares. De fato, o modelo da competência
endidas reitera o papel importante de uma só- subverte a lógica da qualificação estritamente
lida educação geral, seja como requisito central profissional como elemento definidor de pos-
à capacidade dos indivíduos em enfrentar a fle- tos de trabalho e salários. A dimensão indivi-
xibilidade e a mobilidade no mundo do traba- dual avança sobre o coletivo e a eficiência e
lho, seja como pré-requisito à educação conti- produtividade do indivíduo se define a partir
nuada e à capacidade de aperfeiçoar processos de sua identificação com os objetivos das orga-
de aprendizagem autônoma. nizações. De um lado, a noção de qualificação
Particularmente, no que se refere à edu- enquanto parâmetro para definição de cargo e
cação continuada, a França, por meio de sua remuneração em que o trabalho/trabalhador
legislação trabalhista, garante ao trabalhador a ocupa o centro das negociações; de outro lado,
possibilidade de formação profissional sem o território da competência onde os objetivos
interrupção dos vínculos empregatícios medi- e metas da empresa são protagonistas e defini-
ante uma licença específica. Paralelamente, o dores das capacidades individuais.
Estado francês também se faz presente em É importante também assinalar que ao
programas de requalificação profissional de lado do que pode parecer uma desvaloriza-
jovens e desempregados por meio de uma arti- ção da qualificação profissional formal
culação com o setor privado, mediante subsí- como passaporte para o mundo do trabalho,
dios e isenções tributárias (Dubar, 1990).
o papel do sistema educacional na qualidade
de formador de mão-de-obra emerge recon-
figurado como instância responsável por es-
Comentários Finais
timular e desenvolver qualificações tácitas e
as características comportamentais adequa-
A pluralidade das questões relativas às
transformações no mundo do trabalho apon- das ao novo modelo de produção.
ta para a continuidade do debate e o apro- Mas, como seguimos acreditando na ca-
fundamento de seus impactos concretos pacidade das supostas minorias subverterem e
sobre os que vivem do trabalho. Não se trata se apropriarem da lógica dominante, é possí-
de diletantismo acadêmico a preocupação vel pensar que o aumento da qualificação
em torno das questões relativas à qualificação média dos trabalhadores crie terreno fértil a
e à competência numa contemporaneidade uma reflexão crítica ao padrão de sociabilida-
em que o léxico exibe sua força. de de nossos dias e ao modelo econômico,
O que se mostra no mínimo curioso, ao possibilitando novas alternativas, já que toda a
nos aproximarmos desse campo de investi- valorização atribuída ao conhecimento pelo
gação, é que a exigência por trabalhadores setor produtivo preserva a subordinação de
tacitamente mais qualificados como fator uma estrutura verticalizada. Portanto, falar em
determinante para sua inserção e permanên- qualificação, competência, empregabilidade,
cia no mercado de trabalho ocorre justa- autonomia, flexibilidade e criatividade com-
mente num momento em que o compro- porta significados profundamente diversos
misso capital/trabalho, centrado no vínculo para os sujeitos envolvidos, muito distante
formal do emprego, se dilui. de parecerem sinônimos ou de expressarem
Por essa ótica, torna-se possível assinalar uma comunhão de interesses incompatível à
que a qualificação e a carreira profissional não lógica do confronto capital/trabalho.

65
Notas

1. Em 1973 Keneth Arrow, prêmio Nobel de Economia, tal como T. Schultz, contestou a
existência de ligações positivas entre educação e salários. Em sua Teoria do Filtro demons-
trou que a educação atuaria, principalmente, como um processo de seleção dos indiví-
duos, reforçando a estratificação social. Sob outros aspectos, essa posição aparece também
nos trabalhos de Bourdieu e de Passeron (1966 e 1970).
2. Particularmente Lojkine atribui o sucesso destes modelos (alemão e japonês) a uma cul-
tura patronal que privilegia a “cooperação entre novos saberes tecnológicos e antigos sabe-
res da experiência” (1995, p. 294).

Bibliografia

ANTUNES, R. (1995), Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do


mundo do trabalho. São Paulo, Cortez/Unicamp.
_________. (1999), Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho.
São Paulo, Boitempo.
BOURDIEU, P. & PASSERON, J. C. (1966). Les héritiers. Paris, Minuit.
_________. (1970), La réproduction. Paris, Minuit.
CORIAT, Benjamin. (1979), L’atelier et le robot. Paris, Christian Bourgois.
DELUIZ, Neise. (1994), “Formação do trabalhador em contexto de mudança tecnológica”.
Boletim Técnico do Senac, 20 (1), jan./abr., Rio de Janeiro.
DESAULNIERS, Julieta Beatriz Ramos. (1998), Formação & trabalho & competência: questões
atuais. Porto Alegre, EDIPUCRS.
DUBAR, C. (1990). La formation professionnelle continue. Paris, La Découverte (col. Repères).
_________.(1996), “La sociologie du travail face à la qualification et à la competence”.
Sociologie du Travail, 2: 179-191.
DUGUÉ, Elisabeth. (1998), “A gestão das competências: os saberes desvalorizados, o poder
ocultado”, in J. B. R. Desaulniers (org.), Formação & trabalho & competência: ques-
tões atuais, Porto Alegre, EDIPUCRS.
ENGUITA, Mariano F. (1991), “Tecnologia e sociedade: a ideologia da racionalidade técni-
ca, a organização do trabalho e a educação”, in M. F. Enguita, Trabalho, educação
e prática social, Porto Alegre, Artes Médicas.
FORRESTER, V. (1997), O horror econômico. São Paulo, Editora da Unesp.
FRIGOTTO, G. (1995), Educação e crise do capitalismo real. São Paulo, Cortez.

66
GEORG, Walter. (1994), Formação profissional: teses a partir das experiências alemã e japone-
sa. São Paulo, Ildesfes.
HARBINSON, Frederick H. (1947), “Mão-de-obra e desenvolvimento econômico: proble-
mas e estratégia”, in L. Pereira (org.), Desenvolvimento, trabalho e educação. 2. ed.
Rio de Janeiro, Zahar.
HARVEY, D. (1992), A condição pós-moderna. São Paulo, Loyola.
HIRATA, Helena. (1996), “Da polarização das qualificações ao modelo da competência”, in
C. J. Ferretti et al., Novas tecnologias, trabalho e educação: um debate multidiscipli-
nar, Petrópolis, Vozes.
_________.(1997), “Os mundos do trabalho: convergência e diversidade num contexto de
mudança dos paradigmas produtivos”, in A. Casali et al., Educação e empregabili-
dade:novos caminhos da aprendizagem, São Paulo, Educ.
IANNI, O. (1992), A sociedade global. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira.
_________. (1995), “Globalização: novo paradigma das ciências sociais”, in Sergio Adorno (org.), A
sociologia entre a modernidade e a contemporaneidade, Porto Alegre, Editora da UFRGS.
ISAMBERT-JAMATI, Viviane. (1997), “O apelo à noção de competência na revista:
‘L’orientation scolaire et professionelle’ da sua criação aos dias de hoje”, in
Françoise Ropé e Lucie Tanguy, Saberes e competências: o uso de tais noções na esco-
la e na empresa, Campinas, Papirus.
KUENZER, A. (1985), Pedagogia da fábrica. São Paulo, Cortez.
LOJKINE, Jean. (1995), A revolução informacional. São Paulo, Cortez.
LOPE, Andreu & MARTIN ARTILES, A. (1998), “Las relaciones entre formacion y empleo:
¿que formacion, para que empleo?”, in J. B. R. Desaulniers (org.), Formação & tra-
balho & competência: questões atuais, Porto Alegre, EDIPUCRS.
MANFREDI, S. M. (1999), “As metamorfoses da qualificação: três décadas de um conceito”.
Trabalho apresentado no Encontro Anual da Anpocs, Caxambu.
MARKET, Werner (org.). (1994), Teorias de educação do iluminismo, conceitos de trabalho e do
sujeito. Rio de Janeiro, Biblioteca Tempo Brasileiro.
RAPKIEWICZ, Clevi Elena. (1995), Sistema de educação geral e de formação profissional com-
parados: o caso da França. Rio de Janeiro, Senai-DN/Ciet.
ROPÉ, Françoise & TANGUY, Lucie. (1997), Saberes e competências: o uso de tais noções na
escola e na empresa. Campinas, Papirus.
SCHULTZ, T. (1973a), O capital humano. Rio de Janeiro, Zahar.
_________. (1973b), O valor econômico da educação. Rio de Janeiro, Zahar.
SOUZA, D. B. de. (1996), Aspectos gerais do sistema inglês de qualificações profissionais nacio-
nais. Rio de Janeiro, Senai-DN.

67
STROOBANTS, Marcelle. (1993), Savoir-faire et competences au travail: une sociologie de la
fabrication des aptitudes. Bruxelles, Institut de Sociologie, Université de Bruxelles.
_________.(1997), “A visibilidade das competências”, in F. Ropé e L. Tanguy (orgs.), Saberes
e competências: o uso de tais noções na escola e na empresa, Campinas, Papirus.
TANGUY, L. (1991), L’enseignement professionnel em France: des ouvriers aux technicen. Paris,
PUF.
_________.(1997), “Competências e integração social na empresa”, in. F. Ropé e L. Tanguy
(orgs.), Saberes e competências: o uso de tais noções na escola e na empresa, Campinas,
Papirus.

• Artigo recebido em Out/2005


• Aprovado em Jun/2006

Resumo

“A cigarra e a formiga”: Qualificação e Competência – Um Balanço Crítico

O objetivo central deste texto é apresentar uma revisão crítica da literatura que trata dos con-
ceitos de qualificação e competência a partir do debate nacional e internacional, buscando evi-
denciar os diferentes referenciais em torno dos quais se têm constituído os distintos conteú-
dos para esses conceitos. A autora apresenta, dessa forma, a polissemia que perpassa o debate,
salientando a impossibilidade de considerar os conceitos em questão sinônimos e politica-
mente neutros.

Palavras-chave: Qualificação; Competência; Empregabilidade; Sociologia do trabalho.

Abstract

“The Cicada and the Ant”: Qualification and Competence – A Critical Balance

The aim of the text is to present a critical review on the literature which deals with the con-
cepts of qualification and competence. Starting from the Brazilian and French discussions, this
article emphasizes different approaches in which distinct contents have been constituted in rela-
tion to such concepts. Thus, this essay evidences the polysemy which emerges from the discus-
sions, highlighting the impossibility of regarding the concepts as politically neutral synonyms.

Keywords: Qualification; Competence; Employability; Work sociology.

68
Résumé

“La cigale et la fourmi” : Qualification et Compétence – Un Bilan Critique

L’objectif principal du texte est de présenter une révision critique de la littérature brésilienne
et française qui traite des concepts de qualification et de compétence, mettant en évidence les
références à partir desquelles les différentes acceptions de ces deux concepts ont été construi-
tes. En démontrant la polysémie qui traverse les débats, l’article met en avant l’impossibilité
de considérer les concepts en question comme des synonymes politiquement neutres.

Mots-clés: Qualification; Compétence ; Employabilité ; Sociologie du travail.

69
Modelos Espaciais na Teoria de Coalizações Internacionais:
Perspectivas e Críticas

Amâncio Jorge Oliveira


Janina Onuki
Manoel Galdino Pereira Neto

Introdução res a cada estágio da interação e suas infor-


mações e crenças. Ainda segundo essa auto-
Em praticamente todos os campos das ra, esses modelos geralmente são apresenta-
relações internacionais o processo de forma- dos em linguagem matemática ou lógica, de
ção de coalizões interestatais tem adquirido modo que as deduções possam ser facilmen-
relevância crescente. Em que pese a hetero- te reproduzíveis.
geneidade quanto à natureza e aos objetivos, Sprinz e Wolinsky-Nahamias (2004)
os esquemas de ação coletiva internacional mostraram que a proporção de trabalhos uti-
ganharam centralidade no âmbito da segu- lizando métodos quantitativos e/ou formais,
rança internacional, do comércio e dos es- publicados na revistas especializadas com
forços de constituição de regimes interna- maior fator de impacto na área internacio-
cionais sobre novos temas da agenda, tais nal, cresceram de 26%, na década de 1970,
como regimes de meio ambiente e direitos para 43%, no final da década de 1990. A
humanos, a ponto de ser válido afirmar que ausência de surveys dessa natureza no Brasil
a ação individual dos países está mais para não permite comparações adequadas. Uma
exceção do que regra em matéria de dinâmi- avaliação do perfil da produção nacional
ca internacional. indica a quase inexistência de trabalhos no
Cada qual ao seu modo, as distintas ma- Brasil intensivos em formalização.
trizes analíticas das relações internacionais Aqui, os esforços analíticos sobre esse
procuram teorizar sobre as bases da forma- tema substantivo concentram-se no campo
ção das coalizões entre os Estados nacionais. do construtivismo, da teoria crítica ou no
Nos grandes centros estrangeiros, particular- marco do institucionalismo normativo. Há
mente nos Estados Unidos, os modelos ex- trabalhos também no campo realista e neo-
plicativos formais, no campo da escolha ra- realista da teoria de alianças internacionais,
cional, têm conquistado espaço nesse esforço cuja ênfase recai sobre o papel das assimetri-
de teorização. as de poder como elemento-chave explica-
Segundo Milner (2004), a formalização tivo da ação coletiva, a exemplo da Teoria da
significa uma transformação explícita do pro- Estabilidade Hegemônica. Raramente,1 con-
blema de tomada de decisão dos atores em tudo, e em forte contraste com o que ocorre
um esquema analítico matemático-dedutivo. no campo da ciência política brasileira (a
Modelos formais utilizam como fundamento exemplo de estudos sobre coalizões partidá-
da análise a função utilidade dos atores, os rias no Legislativo), esquemas analíticos de-
payoffs do jogo, as opções disponíveis aos ato- rivados da escolha racional mais formaliza-

BIB, São Paulo, nº 61, 1º semestre de 2006, pp. 71-89 71


dos são mobilizados pela literatura brasileira pertinente agrupá-los em i) estudos sobre o
como instrumentos explicativos do fenôme- processo de formação de coalizões (theory of
no de formação de coalizões internacionais. coalition formation), empenhados em com-
Em face desse diagnóstico, este artigo preender como e quais os tipos de coalizões
objetiva apresentar um breve balanço sobre a são formadas e ii) estudos sobre o comporta-
evolução da utilização, pela literatura interna- mento das coalizões, destinados a analisá-las
cional, de modelos oriundos da escolha racio- sob a ótica da atuação dos atores participantes
nal na teoria de coalizões. A seção inicial apre- e, como decorrência, da estabilidade coalicio-
senta, em sua primeira parte, os aportes da nal4 ao longo do tempo em função dos riscos
literatura da ação coletiva e seus desdobra- de deserção dos atores; do tipo de estratégias
mentos recentes para, em seguida, analisar os desenvolvidas (demandantes, de veto, mistas
principais pressupostos e a aplicabilidade dos etc); do padrão de atuação (conservadora ver-
modelos espaciais formais aos estudos de coa- sus revolucionária), da eficácia de suas ações e
lizões internacionais, atribuindo ênfase espe- da distribuição dos recursos (payoffs).
cial ao segundo tema. Tradicionalmente utili- The theory of political coalitions, escrito
zados na ciência política, em particular no por William Riker em 1962, foi o trabalho de
campo dos estudos sobre a relação entre o referência sobre o campo de estudos da for-
Executivo e Legislativo, os modelos espaciais mação de coalizões. Riker desenvolve, neste
passaram a ser adotados também no campo trabalho, o princípio do tamanho das coali-
das relações internacionais. A segunda parte zões (size principle), para o qual “em jogos de
apresenta críticas e abordagens alternativas à soma-zero de n-pessoas – em que concessões
teoria da escolha racional. laterais são permitidas, os atores são racionais
e as informações, perfeitas – apenas coalizões
vencedoras mínimas são passíveis de ocor-
A Escolha Racional na Teoria de rer”. Invertendo-se a formulação, quando a
Coalizões Internacionais saída de um único membro da coalizão
inviabiliza a capacidade de vitória desta, tem-
se a minimum winning coalition, cuja ratio-
Teoria da ação coletiva: nale deriva do fato de que os participantes
aportes à teoria de coalizões tendem a evitar maior dispersão na divisão
dos benefícios derivados do processo de bar-
A recorrência da constituição de coali- ganha (Riker, 2003).
zões e a centralidade dessas nos mais relevan- O trabalho de Riker acabou por abrir
tes processos políticos concorreram para a uma fértil agenda de pesquisa sobre forma-
emergência de uma “teoria das coalizões”. ção de coalizões no campo da escolha racio-
Originalmente, a teoria das coalizões foi fun- nal, sob a influência da economia, a exem-
damentada e aplicada aos estudos sobre for- plo dos inúmeros estudos que o tomam
mação de governos em sistemas parlamenta- como ponto de partida, seja no domínio da
res para, em seguida, voltar-se aos estudos ciência política seja no campo das relações
dos outros processos, inclusive no âmbito internacionais.
das relações e das negociações internacio- Outro trabalho seminal para os estudos
nais.2 Embora em seu curso evolutivo os es- nesse campo, também no âmbito da escolha
tudos sobre coalizões tenham variado substan- racional e com influência da economia, foi o
cialmente em termos de níveis de análises,3 é de Mancur Olson, A lógica da ação coletiva,

72
publicado em 1965, poucos anos depois do les em que a entrada de novo membro é equi-
de Riker. Não há, nesta obra de Olson, uma valente à incorporação de um novo competi-
preocupação de compreender o fenômeno dor (isto é, uma nova firma em mercados
da ação coletiva num campo específico, competitivos). Já os benefícios inclusivos são
doméstico ou internacional, mas sim o de aqueles em que a entrada de um novo mem-
aportar para uma teoria geral sobre a forma- bro representa o ingresso de um novo contri-
ção de grupos políticos e a ação coletiva. buinte sem afetar a distribuição dos benefí-
Olson rechaça a idéia de autores oriunda cios (isto é, o ingresso de um novo morador
da filosofia política, a exemplo de Arthur para o rateio dos custos condonomiais). Há
Bentley, de que existiria uma “tendência natu- clara proximidade desses conceitos com a
ral”, instinto de formar agrupamentos. Ao idéia de soma-zero e soma positiva utilizados
contrário, a rationale da ação coletiva funda-se na teoria do jogos. Em outros termos, quan-
num cálculo utilitário de custo/benefício, típi- to maior for o grupo, mais sub-ótimo será o
co dos agentes racionais do mercado, no qual provimento de benefícios da ação coletiva.
a propensão dos agentes em cooperar para Daí porque Olson preocupa-se fundamen-
uma ação coletiva pressupõe a percepção de talmente com uma teorização sobre os gru-
que haverá um benefício líquido marginal de- pos grandes, em detrimento de uma reflexão
rivado da ação. Nesse contexto, duas dimen- mais sistemática sobre os pequenos grupos,
sões são chaves nas formulações olsonianas cujos dilemas de ação coletiva são menores.
sobre ação coletiva e formação de coalizões: o Estabelece-se, na perspectiva de Olson,
tamanho do grupo e a distinção entre benefí- um ciclo negativo como resultado da am-
cios coletivos5 e benefícios privados ou seleti- pliação do grupo. Quanto maior o grupo,
vos. Um benefício coletivo, para ser conside- menor será a possibilidade de controle dos
rado com tal, deve preencher dois requisitos: investimentos dos membros, o que facilita o
de não-excludibilidade (impossibilidade de efeito carona. Como conseqüência, menor
exclusão), isto é, nenhum potencial beneficiá- será a eficácia de partição dos benefícios e a
rio pode ser excluído; e “partilhabilidade”, que disposição dos membros em seguir investin-
assevera que a utilização de um benefício não do na ação coletiva. Esse ciclo leva Olson a
diminui a disponibilidade desses benefícios concluir que a ação coletiva em grandes gru-
para os outros. pos depende do provimento de benefícios
No que tange ao tamanho do grupo, seletivos (ou privados)6 aos membros dos
Olson defende haver uma relação inversa- grupos, sem os quais não haverá motivação
mente proporcional entre a propensão em para a cooperação coletivista.
cooperar via grupo e o tamanho do mesmo. O esquema analítico de Olson referen-
Ou seja, quanto maior o grupo, menor será ciou a discussão sobre ação coletiva e forma-
a disposição de atores em arcar com custos ção de coalizões internacionais em uma
da ação coletiva, na medida em que quanto gama de trabalhos substantivos. A presunção
maior for o grupo, menor será a relevância de que os Estados fazem cálculo de custo e
das contribuições individuais, assim como benefício, assumida nesses trabalhos, deriva
menor será o controle e a parcela dos bene- da concepção do Estado como ator unitário
fícios gerados pela ação coletiva. e racional, com preferências estabelecidas.
Há aqui uma outra distinção importan- Outros autores aprimoraram o modelo
te a ser feita entre benefícios inclusivos ou de Olson ao incorporar o tema do poder, da
exclusivos. Os benefícios exclusivos são aque- liderança e da hegemonia em seus esquemas

73
analíticos. Russell Hardin, por exemplo, a- mero (quantidade de jogadores de veto no sis-
vança na teorização de Olson ao introduzir a tema); a congruência, entendida como o
idéia de que essa superação pode ser con- grau das similaridades de posições entre es-
quistada pela ação de um “empreendedor ses jogadores de veto; e, por fim, a coesão,
político” (political entrepreneurs), disposto a similaridade das posições políticas que cons-
arcar de forma desproporcional com os cus- tituem cada um dos pontos de veto.
tos da ação coletiva em troca de interesses As três figuras a seguir, extraídas de
próprios, como projeção e liderança (Har- Tsebelis (1995) e com representações de
din, 1982). Qualificação, diga-se, que muito “curvas de indiferenças” em contextos insti-
se aproxima da Teoria da Estabilidade He- tucionais distintos, dão conta das formula-
gemônica (THE) forjada no campo da eco- ções deste autor. Na Figura 1 evidencia-se
nomia política internacional. um arranjo institucional composto por três
pontos de veto no qual, tendo em vista a
posição do status quo (SQ), torna-se impossí-
Modelos espaciais nos estudos sobre vel a mudança política. A Figura 2 mostra
coalizões internacionais que o deslocamento do ponto ideal do joga-
dor A, da posição A1 para a posição A2, não
Os modelos espaciais (spatial models), viabiliza a formação de um win-set 7 do status
constituídos no âmbito da teoria dos jogos, quo capaz de promover a mudança política.
também de cunho racionalista, foram os res- A mudança ocorrerá caso o jogador A seja
ponsáveis pelo mais substantivo salto de qua- substituído pelo jogador D. A Figura 3 mos-
lidade nos estudos sobre coalizões em nível tra, por seu turno, que o deslocamento de
de formalização dos estudos e introdução de posição do jogador B (de B1 para B2) pro-
análises dinâmicas, ou de processos tomando move uma redução do win-set, corroborando
por base interesses substantivos dos atores. com a tese de que a divergência de posições
Nesse campo, o trabalho de George amplia a estabilidade política.
Tsebelis, publicado em 1995, é a principal Embora tenha sido desenhado especifi-
referência. A exemplo de Riker, Tsebelis, camente para a problema da formação de
mesmo focando a atenção em processos deci- coalizões no jogo político doméstico, a aná-
sórios domésticos, acabou por referenciar as
Figura 1
discussões sobre coalizões internacionais. A
Win-set do status quo com três atores
tese central do autor é de que quanto maior
em duas dimensões
for o número de veto players de um sistema
político, maior será a estabilidade desse siste-
A
ma. Ou seja, tanto mais difícil será empreen-
der mudanças de política. Um veto player é,
segundo Tsebelis, “um ator individual ou
coletivo cuja concordância é necessária para
SO
que se tome uma decisão política” (1997).
Utilizando-se de modelos espaciais, o
autor procura demonstrar, neste trabalho, B C

que a estabilidade de políticas de um sistema


político depende de três características rela-
cionadas ao conceito de veto players: o nú-
Issue 1

74
Figura 2 O Estado nacional ou país é tomado,
Mudança do status quo com três veto players nos modelos espaciais, como um ator unitá-
rio ou a unidade de análise central. Como
A1 A2 decorrência, os países ou Estados teriam pre-
ferências8 e prioridades sobre temas interna-
cionais. O que equivale a dizer que os
SO Estados têm um “ponto ideal” (equivalente à
preferência ou “interesse nacional”), “função
WBCD
utilidade” e “curvas de indiferença”; elemen-
B C tos que permitem análises espaciais em fenô-
WBC menos internacionais (Mesquita, 2000).
Interesse nacional é tomado como “pre-
Issue 1
ferências reveladas”, em analogia ao voto. A
analogia ao voto individual, utilizado como
O status quo não pode ser modificado mesmo que unidade de análise pelo individualismo meto-
A1 mova para A2. Se A2 for substituído por D, dológico da ciência política, tem correspon-
então o status quo pode ser substituído por qual- dência direta nas relações internacionais,
quer ponto na área WBCD. desde que os Estados sejam concebidos como
unidades de análise. Para serem adotadas no
Figura 3 campo da escolha racional, é necessário que
Mudança de status quo como função da as preferências dos Estados obedeçam a dois
distância entre legisladores individuais princípios básicos, quais sejam, o da transiti-
vidade e o da possibilidade de comparação.
Issue 2 As preferências devem, assim, fazer parte de
WAB1
uma relação hierarquizada, na qual fique
clara a ordem das opções, além de possuírem
WAB2 um mesmo parâmetro (Shepsle e Bonchek,
P2
1997). Parte-se ainda do pressuposto de que
esse interesse é dinâmico, podendo variar ao
P1 PA P2 PB1 PB2

A B1 B2
longo do tempo e com o resultado do proces-
so de barganha. Esse elemento dinâmico é
captado pelo modelo espacial na medida em
que, ao longo do tempo e após interações
coaliacionais, o “ponto ideal” pode deslocar-
Issue 1 se no espaço euclidiano.
WAB2 < WAB1 se B2 estiver entre B2 e A. O pressuposto da unitariedade e da racio-
nalidade do Estado, fundamental à teoria
espacial, é, porém, fortemente questionado
lise espacial de Tsebelis trouxe uma série de
por outras abordagens de análise de política
contribuições para a compreensão do fenô- externa, tais como análise político-burocráti-
meno. Os mesmos elementos e pressupostos ca, análise cognitiva e todas as demais aborda-
do modelo espacial de Tsebelis são trans- gens que estressam o papel de atores domésti-
plantados para modelar a interação no plano cos no processo de formulação de política
internacional. externa.

75
Mesmo no campo da teoria espacial de entre os pontos ideais dos atores e o status
relações internacionais, há questionamentos quo (SQ), bem como do grau de flexibilida-
sobre a aplicabilidade de representações espa- de ou rigidez posicional desses atores.
ciais em análise de política externa e, conse- No campo das relações internacionais, e
qüentemente, no processo de formação de mais especificamente em negociações inter-
coalizões. Simon Hug (1999), por exemplo, nacionais, o subproduto dos modelos espa-
considera a representação espacial pertinente ciais da teoria dos jogos foi o modelo dos
apenas para modelos unidimensionais. A “jogos de dois níveis”. A composição do win-
racionalidade, como lembra este autor, só set intergovernamental internacional depen-
pode ser garantida pela transitividade das de, em última análise, da formação do win-
preferências. Condição impossível de se con- set doméstico, forjado na interação entre o
seguir nos esquemas bidimensionais ou Executivo e o Legislativo e dotado de poder
quando os grupos de decisão (as unidades de ratificador dos acordos internacionais. Con-
análise) não estão em número ímpar. Nesses tudo, os “jogos de dois níveis” não foram
casos, quando as unidades de análise estão muito além em termos de formalização dos
em número par, a transitividade das prefe- estudos, tendo ficado mais restrita a sua uti-
rências não está garantida, comprometendo lização como metáfora do que como es-
a aplicabilidade do modelo. quema explicativo formal.
Outra formulação emprestada de Para além desses jogos, um conjunto de
Tsebelis diz respeito ao tema do grau de con- outros trabalhos no campo internacional
vergência de posicionamento dos atores à valeram-se, de forma profícua, dos instru-
perspectiva de formação de coalizões. O mentos de modelos espaciais e das teorias dos
nível de convergência é tomado como fun- jogos. Cabe mencionar os estudos sobre con-
ção direta do grau de proximidade entre os flitos internacionais e formações de alianças
“pontos ideais” dos atores potenciais da coa- no campo da segurança internacional e defe-
lizão. Quanto mais próximo, tanto maior sa (Morrow, 1986; Sandler, 1999); análises
será a possibilidade de estabelecimento de sobre manejo de crises internacionais (Mor-
uma sobreposição de interesses (win-set). É gan, 1984; Mesquita, 2000); estudos de eco-
função direta também do perfil dos atores. nomia política na formação de preferências
Um ator pode ser inflexível, não aceitar de políticas comerciais (Milner e Yoffie,
“curvas de indiferença” que se afastem muito 1989); análises comparadas sobre a inter-rela-
do seu ponto ideal ou ser muito refratário a ção entre regimes políticos e instituições do-
aceitar mudanças de posicionamento de seu mésticas e estratégias dos países no campo do
ponto ideal. Ou pode, no sentido contrário, comércio e das negociações internacionais
ser flexível nos dois contextos. (Mo, 1995; Mansfield, Milner e Rosendorff,
Martin e Vanberg (2003) demonstra- 2000; Mesquita, 2000; Mansfield e Bronson,
ram, por meio de análise espacial, que a área 1997); estudos sobre instituições políticas e
de sobreposição de interesses, isto é, o win-
processos de integração regional (Meunier,
set do status quo (W[SQ]), é maior quando
2000); estudos estratégicos e relacionamento
os atores X e Y são mais flexíveis (soft), do
bilateral (Liu, 2000), entre tantos outros.
que quando são inflexíveis (tough). Em sín-
tese, a perspectiva de formação de coalizões
é função do número de jogadores de veto na
formação da aliança; da disposição espacial

76
Estimação dos pontos ideais de atores Derivados desses pressupostos, temos
três conseqüências: i) políticas ou temas que
Três aspectos são fundamentais para podem ser representados por pontos em um
que os modelos espaciais sejam aplicáveis ao subconjunto do espaço euclidiano;10 ii) os
campo das relações internacionais como um atores votam em uma proposta se ela está
todo, e ao tema da formação de coalizões em mais próxima do seu ponto ideal do que o
particular: a existência de um espaço políti- status quo; e iii) a identidade do status quo é
co bem definido, a informação sobre prefe- a última proposta aprovada naquele espaço
rências dos atores definidas dentro desse político (Clinton e Meirowitz, 2001). O
espaço político e uma agenda especificando Gráfico 1 ilustra a idéia de que políticas po-
as seqüências de políticas a serem votadas. dem ser representadas por pontos num espa-
Assim, quando da aplicação do modelo ço euclidiano.
espacial, é necessário pressupor que as prefe- Recentemente a literatura metodológica
rências dos atores são bem comportadas, no sobre aplicações da teoria espacial tem volta-
sentido de que há um ponto mais preferido do sua atenção sobre os “problemas de iden-
por cada ator e que a utilidade é decrescente tificação”, ou seja, da correta obtenção dos
em distância euclidiana com relação a esse “pontos ideais” dos atores, bem como da sua
ponto ideal. Ademais, é necessário também função utilidade.
supor que se conhece a forma funcional9 da Parte dos estudos legislativos tem utili-
função de utilidade do ator e também o seu zado os ratings ideológicos atribuídos por
ponto ideal. O Gráfico 1 ilustra a função grupos de interesse para o legislador no sen-
utilidade no modelo espacial considerando tido de medir o ponto ideal dos legislado-
uma única dimensão política. res.11 Mas não só em estudos domésticos os

Gráfico 1
Função utilidade do modelo espacial com única dimensão política

Utilidade
Utilidade

máxima

X3 X2 Gastos Domésticos
X*i (R$ bilhões)
Obs.: U é utilidade de cada ponto x. Cada ponto x é o gasto colocado em R$ bilhões.
Assim, se X*i = R$ 40, X3 = R$ 35 e X2 = R$ 45, então ambos, X3 e X2, geram a mesma “utilidade” para
o indivíduo i (a distância do ponto ideal éa mesma) Assim, quanto mais distantte o gasto X de X*, menor
será a utilidade daquele gasto.

77
ratings têm sido utilizados para medir o da dos atores nas votações é animadora. Isso
ponto ideal dos legisladores. Ao estudar a re- porque o posicionamento revelado de um
lação entre o doméstico e o externo, alguns Estado numa votação relativa a um determi-
autores têm também utilizado os ratings nado tema ou relativa à escolha entre aderir
como indicadores do ponto ideal dos legisla- ou não aderir a um regime internacional
dores. Baldwin e Magee (2000), por exem- pode ser encarado do mesmo modo que a
plo, ao analisarem a atuação do congresso votação de um congressista ou juiz da supre-
dos Estados Unidos no Nafta e OMC/Gatt ma corte norte-americana. Torna-se crucial
utilizam esta metodologia para estimar o apenas, nesse caso, que a amostra de prefe-
ponto ideal dos legisladores. rências reveladas seja a maior possível para
Em geral os ratings são construídos a que a preferência desse ator possa ser esti-
partir do histórico de votação dos legislado- mada com mais precisão. Com efeito, quan-
res tendo em vista algum interesse específico to maior o tamanho da amostra, mais efi-
do grupo de interesse. Contudo, alguns es- ciente é o estimador (Burden et. al., 2000).
tudos têm mostrado que os ratings tendem a Nesse sentido, o ponto importante a ser
sobreestimar o grau de extremismo no con- levado em consideração é que a estimação
gresso (Brunell et. al. 1999; Krehbiel, 1994; seja consistente com a teorização de voto
Snyder, 1992). espacial, ou seja, que o modelo analítico a
De toda forma, alguns autores estimam, ser utilizado na análise empírica seja o espa-
eles mesmos, as preferências dos legisladores a cial (Clinton e Meirowitz, 2001, especial-
partir de uma seqüência de votos binários de mente pp. 2-3 e 11-12). Esses resultados, de
sim e não. Esses estudos baseiam-se no histó- não importar a arena, são consistentes com
rico de votação dos congressistas, os chama- o paradigma da escolha racional ou estraté-
dos roll call votes (Londregan, 2000; Heckam gica (Lake e Powell, 1999), em que é impor-
e Snyder, 1997; Clinton e Meirowitz, 2001). tante o aspecto interativo entre os atores e
Outros estudos replicam estratégias similares não a arena.12
para outros atores, como a suprema corte dos
Estados Unidos (Martin e Quinn, 2002).
Dada, porém, a diversidade de metodolo- Abordagens Alternativas na Teoria de
gia para estimação de pontos ideais de atores, Coalizões
vários estudos têm procurado avaliar a eficácia
e os problemas dessas metodologias (Martin e As distintas abordagens teóricas no cam-
Quinn, 2005; Clinton e Meirowitz, 2001). po da ciência política e das relações interna-
Burden et. al. (2000) comparam essas estimati- cionais, cada um a seu modo, apontaram
vas baseadas em votos inclusive com outras críticas e limitações da introjeção da análise
metodologias, como as baseadas em notícias de econômica no estudo sobre coalizões inter-
jornais, surveys com os senadores e junção des- nacionais.
ses aspectos com outros (como os ratings). Do campo realista, a principal crítica13
Concluem, entretanto, que essas metodologias dirigida aos esquemas analíticos da teoria
não evitam os problemas da metodologia basea- dos jogos na formação de coalizões residiu
da em roll call nem oferecem mais vantagens. na ausência da variável “poder” em tais es-
A existência de inúmeros estudos apli- quemas. Ao tratar os atores como unidades
cados que utilizam a metodologia de estimar equivalentes, teria abstraído o problema cen-
o ponto ideal a partir da preferência revela- tral de toda interação interestatal, que é a

78
questão da assimetria de poder14 e, como idéia de que, no processo de formação de coa-
conseqüência, dos mecanismos de coerção lizões, os atores levam em consideração as
acionados pelos atores hegemônicos nos pro- nountilitarian strategies preferences (perspecti-
cessos de negociações multilaterais. Do lado vas cognitivas, construtivistas), relacionadas a
cognitivista, foram abundantes as críticas preferências políticas e afinidades ideológicas.
quanto à ausência de fatores extra-racionais Segundo ele, o custo de formação de coalizões
determinantes das escolhas dos agentes. ideologicamente coesas é menor, e o retorno
Especificamente sobre o trabalho de Ri- (payoff) aos participantes é maior.
ker, evidenciou-se o problema da aplicabili- Theodore Caplow (1956; 1959) amplia
dade entre a área de estudo. A aplicabilidade os esforços de aprimoramento do “princípio
do “princípio do tamanho” na formação de do tamanho” da teoria de formação de coali-
coalizões no campo das relações e das nego- zões. Sua contribuição específica reside na
ciações internacionais – teoria das alianças incorporação do peso relativo às avaliações
ou das coalizões internacionais – não foi, de de preditibilidade das iniciativas coalicionais.
fato, direta e revelou comportar limitações Caplow argumenta que, além da preocupa-
severas. De acordo com Russett (1968), com ção sobre equilíbrio de poder das intercoali-
um número maior de atores, como de hábi- zões, os atores preocupam-se com o jogo de
to no âmbito internacional, tornava-se difí- forças intracoalizões e desenvolvem estraté-
cil achar um resultado sobre a conformação gias no sentido de controlar os demais mem-
da coalizão mínima. Ou seja, o princípio bros da aliança. Esta é a razão, por exemplo,
perdia em capacidade preditiva. Mas esta para o fato de um ator intermediário preferir
não seria, segundo Russett, a limitação prin- aliar-se a um parceiro mais fraco do que ao
cipal do modelo de Riker, mas sim o fato de ator hegemônico do sistema. Com efeito, a
que este não levava em consideração as dife- conseqüência de uma aliança formada por
renças de poder intracoalizão. Não há consi- um ator intermediário e uma potência seria,
derações sobre como o peso político e eco- nesse contexto, a perda de graus de liberdade
nômico dos países poderia ser medido e e a subordinação do ator médio. Portanto,
ponderado no sentido de se antever a for- diferentemente do que postula Riker, as pre-
mação de coalizões vencedoras mínimas no ferências de parcerias são informadas pela
âmbito internacional. assimetria de poder relativo dos membros.
Trabalhos subseqüentes aos de Riker bus- Avanços também foram feitos no sentido
caram forjar formulações mais abrangentes à de conferir centralidade analítica à questão da
teoria da formação de coalizões, para além da distribuição dos payoffs e o papel dos sidepay-
centralidade de número de atores, e trouxe- ments nesse processo de formação de coali-
ram contribuições, ainda que limitadas e indi- zões. Russet (1968) aponta ainda outras limi-
retas, ao entendimento sobre as bases da for- tações ao modelo do tamanho mínimo. A
mação de alianças internacionais. Foi o caso de saber, o problema da insuficiência de infor-
Willian Gansom (1964; 1962; 1961a; 1961b) mações, que impinge dificuldades adicionais
em seus estudos experimentais sobre a forma- aos atores em calcular com precisão qual seria
ção de coalizões em convenções partidárias o tamanho mínimo. Como conseqüência,
nos Estados Unidos. Gamson parte do mes- tendem a alargar a base de apoio e a margem
mo suposto de Riker ao admitir que os atores de segurança de vitória.
tendem a evitar membros supérfluos às suas Em síntese, a motivação dos países em
coalizões. Avança, contudo, ao introduzir a optar por atuar no jogo das negociações mul-

79
tilaterais por meio de coalizões internacionais unidimensionalidade de seus esquemas ana-
comporta explicações de diferentes matrizes líticos, como pela ausência de uma avaliação
teóricas. Passa por um amplo espectro que vai dinâmica dos processos políticos. Especifi-
desde uma abordagem organizacional, relacio- camente no âmbito dos estudos sobre coali-
nada à diminuição de custos transacionais zões, esses modelos possibilitam análises mais
principalmente para países de menor desen- acuradas sobre as perspectivas de construção
volvimento relativo, passando pela análise de convergências entre os atores, levando-se
cognitiva (Friend, Laing e Morrison, 1977; em conta o estado da arte de determinada
Mushin e Rosenthal, 1976), pelo neo-institu- política, ou do status quo.
cionalismo, focado no papel dos grupos de O pressuposto inerente a esse modelo, o
interesse e instituições, e pelos neo-realistas da racionalidade do Estado como ator inter-
(Dupont, 1994; Michener et al., 1975), rela- nacional, não precisa nem deve ser feito em
cionados à dimensão do equilíbrio de poder, antagonismo à análise do papel dos grupos
até vertentes construtivistas, baseada em de interesse na formação das preferências
idéias e identidade nos processos políticos. nacionais ou a abordagens político-burocrá-
O trabalho mais recente de Narlikar, à ticas. Ao contrário, o modelo é fértil justa-
título de exemplo, leva em consideração a mente por incorporar a dimensão doméstica
questão do aprendizado, sinônimo de “socia- no processo decisório de política externa.
bilização”, em que o histórico de outras ex- De fato, os ganhos são tanto no campo de
periências de constituição de coalizões inter- uma melhor parametrização das interações
interestatais como em desvendar os proces-
nacionais são tomadas como variável-chave
sos decisórios estatais, em consonância com
(Narlikar e Tussie, 2004a).
as gerações mais recentes da análise de polí-
tica externa.
A extensividade do uso dos modelos es-
Considerações Finais
paciais formais no campo dos estudos inter-
nacionais revela que esses modelos são férteis
Os modelos espaciais são ferramentas
não apenas para análises neo-institucionalis-
analíticas com grande aplicabilidade aos
tas de temas domésticos, tal qual estudos
estudos de relações internacionais, em que
sobre a relação entre Executivo e Legislativo
pesem suas limitações, necessidades de ajus- nos processos de tomada de decisão. Indica,
tes metodológicos e críticas apresentadas ao contrário, que a interação entre metodolo-
neste balanço. Têm como mérito aprimorar gias advindas de distintas áreas das ciências
o modelo do jogo de dois níveis, notada- sociais é altamente profícua, ainda que ajustes
mente menos formal e limitado tanto pela pontuais precisem ser feitos.

Notas

1. Vale mencionar nessa linha alguns trabalhos desenvolvidos com base na teoria dos jogos
de dois níveis.
2. Duncan Black publicou, em 1958, um dos primeiros trabalhos (Theory of commitees and
elections) na área de relações internacionais, mais precisamente sobre negociações de tra-
tados internacionais, a utilizar modelos espaciais em sua análise.

80
3. Destacam-se os seguintes níveis analíticos: 1. preocupação quanto à motivação dos atores
em priorizar arranjos cooperativos; 2. fatores de estabilidade e durabilidade, em função
de características intracoalizões; 3. eficácia e impactos da ação coletiva; 4. tipologia das
coalizões e estratégias preferenciais; 5. estudos de caso; 6. papel de lideranças no proces-
so de constituição de coalizões; e 7. tamanho da coalizão e estratégias possíveis.
4. Ver, Carlo Carraro e Carmen Marchiori (2002).
5. Benefício que, ao ser provido, não pode ser negado a nenhum consumidor potencial”
(Olson, 1999).
6. Para uma visão crítica sobre a idéia de que o problema da ação coletiva pode ser supera-
do com a oferta de benefícios seletivos, ver Frolich, Oppenheimer e Young (1971). Para
um exemplo da utilização de benefícios seletivos em questões substantivas, ver Philip
Burguess e James Robinson (1969).
7. Win-set é definido como “um conjunto de pontos no espaço político no qual todos os ato-
res preferem um determinado ponto, geralmente um determinado status quo” (Shesple e
Weingast, 1987, p. 90). A inovação política, tal como a formação de um acordo comer-
cial internacional, dependeria assim da existência de um win-set do status quo.
8. Está implícita, nessa concepção, a idéia do Estado nacional como ator unitário e racional,
detentor de uma “função utilidade” e “curva de indiferença” próprios. O cerne do deba-
te sobre as unidades últimas de decisão, do campo da análise de política externa, enfren-
ta precisamente essa discussão.
9. Por forma funcional referimos-nos a, por exemplo, estabelecer que as curvas de indife-
rença são circunferências com o centro no ponto ideal, ou elipses etc.
10. Menos formalmente, uma política qualquer, digamos educação, pode ser representada
como um ponto num gráfico cartesiano, indicando no eixo y a utilidade e no eixo x a
“quantidade” da política em questão.
11. Para estudos recentes que utilizam esta metodologia, ver, por exemplo, Maltzman (1999);
Dion e Huber, (1997), Krehbiel (1997, 1995). Para uma análise de alguns desses ratings,
ver Brunel et. al. (1999).
12. O exemplo mais famoso dessa visão é o trabalho de Putnam (1998), que enfoca a intera-
ção entre atores dos níveis doméstico e externo.
13. Embora em princípio pertinente, esta crítica não fica inteiramente sem resposta. Em larga
medida, a utilidade de cada um dos países embute preocupações com questões relativas
ao poder, ao equilíbrio de poder, aos ganhos relativos etc. O mesmo pode-se dizer com
relação a questões cognitivas, como por exemplo a diferença dos países no que tange a
propensão a assumir riscos em suas estratégias.
14. Mesmo fora do campo realista das relações internacionais, alguns trabalhos chamaram a
atenção para o problema da assimetria de poder no processo de formação de coalizões,
como foi o caso de Jerome Chertkoff (1971).

81
Bibliografia

ATKINSON, Andrew & THOMAS, Cherian. (2003), “India resists WTO effort on investi-
ment”. Bloomberg News Wednesday, 27, ago.
BALDWIN, Robert & MAGEE, Christopher. (2000), Congressional trade votes: from NAFTA
approval to fast-track defeat. Washington, DC, Institute for International Economics.
BINDER, Sarah A.; LAWRENCE, Eric D. & MALTZMAN, Forrest. (1999), “Uncovering
the hidden effect of party”. Journal of Politics, 61 (3): 815-831.
BLACK, Duncan. (1999), Theory of committees and elections. Boston, Kluwer Academic
Publishers.
BRUNEL Thomas L.; KOETZLE, William; DINARDO, John; GROFMAN, Bernard &
FELD, Scott L. (1999), “The R2 =.93: When do they differ? Comparing liberal and
conservative interest group ratings”. Legislative Studies Quarterly, 24 (1): 87-101, fev.
BURDEN, Barry C.; CALDEIRA, Gregory A. & GROSECLOSE, Gary. (2000),
“Measuring ideologies of U.S. Senators: the song remains the same”. Legislative
Studies Quarterly, 25 (2): 237-258.
BURGUESS, Philip M. Burgess & ROBINSON, James A. (1969), “Alliance and the theory
of collective action: a simulation of coalition process”. Midwest Journal of Political
Science, 13 (2): 194-218, maio.
CAPLOW, Theodore. (1956), “A theory of coalitions in the triad”. American Sociological
Review, 21 (4): 489-493.
CAPLOW, Theodore. (1959), “Further development of a theory of coalitions in the triad”.
American Journal of Sociology, 64 (5): 488-493.
CARRARO, Carlo & MARCHIORI, Carmen. (2002), Stable coalitions. Londres, Centre for
Economic Policy Research.
CHECKEL, Jeffrey T. (2001), “Why comply? Social learning and European identity change”.
International Organization, 55 (3): 553-588.
CHERTKOFF, Jerome. (1971), “Coalition formation as a funtion of differences in resour-
ces”. Journal of Conflict Resolution, 15 (3): 371-383, set.
CLINTON, Joshua D. & MEIROWITZ, Adam. (2001), “Agenda constrained legislator ideal
point and the spatial voting model”. Political Analysis, 9 (3): 242-260.
DION, Douglas & HUBER, John D. (1997), “Sense and sensibility: the role of rules”
American Journal of Political Science, 41 (3): 945-957.
DUPONT, Christophe. (1994), “Coalition theory: using power to build cooperation”, in
Willian Zartman (org.), International multilateral negotiation, São Francisco,
Jossey-Bass Publishers, parte II, cap. 7, pp. 148-177.

82
FRIEND, Kenneth E.; LAING, James D. & MORRISON, Richard J. (1977), “Bargaining
processes and coalition outcomes: an integration”. Journal of Conflict Resolution, 21
(2): 267-298.
FROHLICH, N.; OPPENHEIMER & YOUNG, O. R. (1971), Political leadership and col-
lective goods. New Jersey, Princeton University Press.
GANSOM, W. A. (1964), “Experimental studies of coalition formation”. Advances in
Experimental Social Psychology, 1 (1): 81-110.
_________. (1962), “Coalition formation at presidential nominating conventions”. American
Journal of Sociology, 68 (2): 157-171.
_________. (1961a), “An experimental test of a theory of coalition formation”. American
Sociological Review, 26 (4): 565-573.
_________. (1961b), “A theory of coalition formation”. American Sociological Review, 26 (3):
373-382.
GARTEN, Jeffrey E. (2003), “Cancún: going up the flames”. Newsweek, pp. 48-51, 29 set.
HAMILTON, Colleen & WHALLEY, John. (1989), Coalitions in the Uruguay round: the
extent, pros and cons of developing country. Working paper 2751, Cambridge,
National Bureau of Economic Research, out.
HARDIM, Russel. (1982), Collective action. Baltimore, Johns Hopkins University Press.
HECKMAN, James & SNYDER, James. (1997), “Linear probability models of the demand
for attributes with empirical application to stimating the preferences of legisla-
tors”. Rand Journal of Economics, 28: 142-189.
HERMANN, C.; KEGLEY, C. & ROSENAU, J. (eds.). (1987), New directions in the study
of foreign policy, Boston, Allen&Unwin.
HIGGOT, Richard & COOPER, Andrew. (1990), “Middle power leadership and coalition
building: Australia, the Cairns Group and the Uruguay round of trade negotia-
tions”. International Organization, 44 (4): 589-632.
HINCH, Melvin & MUNGER, Michael C. (1997), Analytical politics. Nova York,
Cambridge University Press.
HINCLEY, Barbara. (1979), “Twenty-one variables beyond the size of the winning coali-
tions”. Journal of Politics, 4 (1): 192-212.
HUG, Somon. (1999), “Nonunitary actors in spatial models: how far is far in foreign poli-
cy?”. Journal of Conflict Resolution, 43 (4): 479-500.
HURRELL, Andrew & NARLIKAR, Amrita. (2005), A new politics of confrontatios?
Developing countries at Cancun and Beyond, University of Oxford (mimeo.).
ENELOW, James M. & HINICH, Melvin J. (1984), The spatial theory of voting: an intro-
duction. Cambridge, Cambridge University Press.

83
JERVIS, Robert. (1978), “Cooperation under the security dilemma”. World Politics, 30 (2):
167-214.
KAHLER, Miles & ODDELL, John. (1989), “Developing country coalition-building and
international trade negotiations”, in John Whalley (ed.), Developing countries and
the global trading system, Ann Arbor, Michigan University Press.
KRAJEWSKI, Markus. (2000), “From green room to glass room: participation of develom-
ping countries and internal transparency in the WTO decision making process”.
A TradeWatch Paper, Germanwatch, jul.
KREHBIEL, Keith. (1994), “Deference, extremism, and interest group rating”. Legislative
Studies Quarterly, 19: 61-77.
_________. (1995), “Cosponsors and wafflers from A to Z”. American Journal of Political
Science, 39 (3): 906-923.
_________. (1997), “Restrictive rules reconsidered”. American Journal of Political Science, vol
41 (3): 919-944.
KRUEGER, Anne O. (2001), The developing countries and the next round of multilateral trade
negotiations, International Monetary Fund (mimeo.).
KUMAR, Rajiv. (1995), “Developing-country coalitions in international trade negotiations”,
in Diana Tussie e David Glover (eds.), The developing countries in world trade: poli-
cies and bargaining strategies, Boulder CO, Lynne Rienner.
LAKE, David A. & POWELL, R. (1999), “International relations: a strategic-choice
approach”, in _________, Strategic choice and international relations, Princeton,
Princeton University Press.
LANDMAN, Todd. (2003), Issues and methods in comparative politics: an introdution.
Londres/Nova York, Routledge.
LIMA, Maria Regina Soares. (2005), “A política externa brasileira e os desafios da cooperação
Sul-Sul”. Revista Brasileira de Política Internacional, 48 (1): 24-59.
LIU, Xinsheng. (2000), “Dimension manipulation and choice strategy in US-China rela-
tions: a spatial game-theoretical analysis”. Journal of Chinese Political Science.
LONDREGAN, John. (2000), “Stimating legislator’s preffered point”. Political Analysis, 8:
35-56.
MALTZMAN, Forrest. (1999), Competing principals: committees, parties, and the organization
of congress. Ann Arbor, University of Michigan Press.
MANSFIELD, Edward D.; MILNER, Helen & ROSENDORFF, Peter. (2000), “Free to
trade: democracies, autocracies, and international trade. American Political Science
Review, 94 (2): 305-321, jun.
MANSFIELD, Edward D. & BRONSON, Rachel. (1997), “Alliances, preferential trading arrange-
ments, and international trade”. American Political Science Review, 91 (1): 94-107, mar.

84
MARTIN, Andrew D., QUINN, Kevin M. (2002), “Dynamic Ideal Point Stimation via
Markov Chain Monte Carlo for the U.S. Supreme Court, 1953-1999”. Political
Analysis, 10 pp. 134-153.
_________. (2005), “Can ideal point stimates be used as explanatory variables?”. Disponível
em no site: http://adm.wustl.edu/supct.php. Acessado em 20 de abril de 2006.
MARTIN, Lanny W. & VANBERG, Georg. (2003), “Wasting time? The impact of ideology
and size on Delay in coalition formation”. British Journal of Political Science, 33:
323-344.
MARWELL, Gerald & OLIVER, Pamela. (1993), Critical mass in collective action: a micro-
social theory. Cambridge, Cambridge University Press.
MESQUITA, Bruce Bueno de. (2000), “Principles of international politics: people’s power,
preferences, and perceptions”. Congressional Quarterly Inc, pp. 267-289,
Washington, DC.
MEUNIER, Sophie. (2000), “What single voice? European institutions and EU-U.S. trade
negotiations”. International Organization, 54 (1): 103-135.
MICHENER, Andrew H.; FLEISHMAN, John; VASKE, Jerry J. & STATZA, Gerald R.
(1975), “Minimum resource and pivotal power theories: a competitive test in four-
person coalitional situations”. Journal of Conflict Resolution, 19 (1): 89-107.
MILNER, Helen & ROSENDORFF, Peter. (1997), “Democratic politics and international
trade negotiations: election and divided government as constraints on trade libe-
ralization”. Journal of Conflict Resolution, 41 (1): 117-146, fev.
_________. (2004), “Formal methods and international political economy”, in SPRINZ,
Detlef F. Sprinz e Yael Wolinsky-Nahamias (eds.), Models, numbers and cases: methods
for studying international relations, Ann Arbor, The University of Michigan Press.
MILNER, Helen & YOFFIE, David. (1989), “Between free trade and protectionism: strate-
gic trade policy and a theory of corporate trade demands”. International
Organization, 43 (2): 239-272.
MO, Jongryn. (1995), “Domestic institutions and international bargaining: the role of agent
veto in two-level games”. The American Political Science Review, 89(4): 914-924,
dez.
MORGAN, T. Clifton. (1984), “A spatial model of crisis bargaining”. International Studies
Quarterly, 28 (4): 407-426, dez.
MORROW, James D. (1986), “A spatial model of international conflict”. American Political
Science Review, 80 (4): 1131-1150, dez.
MUSHIN, Lee & ROSENTHAL, Howard. (1976), “A behavioral model of coalition forma-
tion: the french apparentements of 1951”. Journal of Conflict Resolution, 20 (4):
563-588.

85
NARLIKAR, Amrita. (2003), International trade and developing countries: bargaining coali-
tions in the GATT & WTO. Londres, Routledge.
NARLIKAR, Amrita & ODELL, John. (2003), The strict distributive strategy for a bargaining
coalition: the like minded group in the World Trade Organization, 1998-2001.
Trabalho apresentado na “Research Conference Developing Countries and the
Trade Negotiation Process”, UNCTAD.
NARLIKAR, Amrita & TUSSIE, Diana. (2004a), “The G20 at the Cancun ministerial: deve-
loping countries and their evolving coalitions in the WTO”. World Economy, 27
(7): 947-966.
__________. (2004b), Bargaining together in Cancun: developing countries and their evolving
coalitions. Working paper # 17, LATN, FLACSO, November. Disponível no site
www.flacso.org.ar. Acesso em 10/08/2004.
NEACK, Laura; HEY, Jeanne & HANEY, Patrick (eds.). (1995), International trade and deve-
loping countries: bargaining coalitions in the GATT & WTO. Londres, Routledge.
ODELL, John. (2000), Negotiating the world economy. Ithaca, Cornell University Press.
OLIVER, Pamela. (1980), “Selective incentives in an apex game”. Journal of Conflict
Resolution, 24 (1): 113-141, mar.
OLSON, Marcur. (1999), A lógica da ação coletiva: os benefícios públicos e uma teoria dos gru-
pos sociais. Tradução Fabio Fernandez. São Paulo, Edusp.
PUTNAM, Robert. (1998), “Diplomacy and domestic politics: the logic of two-level games”.
International Organization, 42 (3): 427-440, summer.
RIKER, William. (2003), Theory of political coalitions. Nova York, Textbook Publishers.
ROTHSTEIN, R. L. (1984), “Regime creation by a coalition of the weak: lessons from the
NIEO and the integrated program for commodities”. International Studies
Quarterly, 28: 307-328.
RUSSET, Bruce M. (1968), “Components of an operational theory of international alliance
formation”. Journal of Conflict Resolution, 12 (3): 285-301.
SANDLER, Todd. (1999), “Alliance formation, alliance expansion, and the core”. Journal of
Conflict Resolution, 43 (6): 727-747, dez.
SELL, Susan & ODELL, John. (2003), Reframing the issue: the coalition on intellectual pro-
perty and public health in the WTO, 2001. Trabalho apresentado na “Research
Conference, Developing Countries and the Trade Negotiation Process”, UNC-
TAD, Palais des Nations, Geneva, 6-7 nov.
SHEPSLE, Kenneth A. & BONCHEK, Mark. (1997), Analyzing politics: rationality, behavior,
and institutions. Nova York, Norton.
SHEPSLE, Kenneth A. & WEINGAST, Barry R. (1987), “The institutional foundation of
Committee Power”. American Political Science Review, 81: 85-104.

86
SNYDER, James S. (1992), “Artificial extremism in interest group ratings”. Legislative Studies
Quarterly, 7: 319-43.
SPRINZ, Detlef F. & WOLINSKY-NAHAMIAS, Yael (eds.). (2004), Models, numbers and
cases: methods for studying international relations. Ann Arbor, The University of
Michigan Press.
TSEBELIS, George. (1995),“Decision-making in political systems: veto player in presiden-
tialism, parlamentarism, multicameralism and multipartyism”. British Journal of
Political Science, 25: 289-325.
_________. (1997), “Processo decisório em sistemas políticos: veto players no presidencialis-
mo, parlamentarismo, multicameralismo e pluripartidarismo”. Revista Brasileira de
Ciências Sociais, 12 (34): 89-117, jun.
TUSSIE, Diana (ed.). (2003), Trade negotiations in Latin America: problems and prospects.
Basingstoke, Palgrave.
TUSSIE, Diana & GLOVER, David (eds.). (1995), Trade negotiations in Latin America: pro-
blems and prospects. Basingstoke, Palgrave.
UNITED STATES. (2004). “General accounting office. World Trade Organization: Cancun
Ministerial Fails to move global trade negotiations forward, next steps uncertain”.
Report to the Chairman, Committee on Finance, U.S. Senate, and to the Chairman,
Committee on Ways and Means, House of representatives, jan.
WADHVA, Charan D. (2004), Post-Cancun WTO perspectives: India’s negotiating position as a
developing country. Londres, Centre for Policy Research, maio.
WHALLEY, J. KAHLER, M. & ODELL, J. (2003), Developing countries and global trading
system. Ann Arbor, Michigan University Press (série: Studies in International Trade
Policy, 1).
WOLFE, Robert. (2004), “Informal ministerial meetings and the WTO: multilateralism with
large and small numbers, revisited”. Trabalho apresentado na reunião anual da
International Studies Association, Montreal, mar.

• Artigo recebido em Jun/2006


• Aprovado em Ago/2006

Resumo

Modelos Espaciais na Teoria de Coalizões Internacionais: Perspectivas e Críticas

Em praticamente todos os campos das relações internacionais, o processo de formação de coa-


lizões interestatais tem adquirido relevância crescente. Distintas matrizes analíticas procuram
teorizar sobre as bases da formação das coalizões entre os Estados nacionais. Nos grandes cen-

87
tros estrangeiros, particularmente nos Estados Unidos, os modelos explicativos formais, no
campo da escolha racional, têm conquistado espaço nesse esforço de teorização. No caso do
Brasil, os esforços analíticos sobre o tema concentram-se no campo do construtivismo, da teo-
ria crítica ou no marco do institucionalismo normativo. Este artigo tem como objetivo apre-
sentar um breve balanço sobre a evolução da utilização, pela literatura internacional, de mode-
los oriundos da escolha racional na teoria de coalizões. Inicialmente, apresentamos os aportes
da literatura da ação coletiva e seus desdobramentos recentes e, em seguida, analisamos os
principais pressupostos e aplicabilidade dos modelos espaciais formais aos estudos de coalizões
internacionais. A segunda parte dedica-se a apresentar críticas e abordagens alternativas à teo-
ria da escolha racional.

Palavras-chave: Modelos espaciais; Teoria formal; Escolha racional; Coalizões internacionais;


Ação coletiva.

Abstract

Spatial Models on the International Coalition Theory: Perspectives and Critiques

In virtually almost all the fields of international relations the formation process of interstate
coalitions has acquired an increasing relevance. Different analytical matrices seek to theorize
about the bases of the formation of the coalition between national States. In big foreign cen-
ters, particularly in the USA, the formal explanatory models on the rational choice field have
conquered space on this effort of theorization. In the Brazilian case, analytical efforts on this
substantive issue have been concentrated in the field of constructivism, of critical theory, or on
the landmark of normative institutionalism. This article aims to present a brief balance about
the evolution of the usage by the international literature of models derived from the rational
choice in the coalition theory. Initially, we present the guiding of the collective action literatu-
re and its recent unfoldings; after that we analyze the main presuppositions and applicability
of formal space models to studies on international coalitions. The second part dedicates at pre-
senting critiques and alternative approaches to the so-called rational choice theory.

Keywords: Spatial models; Formal theory; Rational choice; International coalitions;


Collective action.

Résumé

Modèles Spatiaux dans la Théorie des Coalitions Internationales: Perspectives et Critiques

Dans pratiquement tous les domaines des relations internationales, le processus de formation
de coalitions interétatiques a acquis une importance croissante. Des matrices analytiques dis-
tinctes tendent à théoriser des coalitions entre les États nationaux. Dans les grands centres
étrangers, particulièrement aux États-Unis, les modèles explicatifs formels, dans le domaine

88
du choix rationnel, sont de plus en plus théorisés. En ce qui concerne le Brésil, les efforts ana-
lytiques concernant ce thème se concentrent dans le domaine du constructivisme, de la théo-
rie critique ou de l’institutionnalisme normatif. Cet article a pour but de présenter un court
bilan sur l’évolution de l’utilisation des modèles provenant du choix rationnel des théories des
coalitions par la littérature internationale. Nous présentons, tout d’abord, les apports de la lit-
térature de l’action collective et ses conséquences. Nous analysons, ensuite, les présupposés
principaux et l’applicabilité des modèles spatiaux formels aux études des coalitions interna-
tionales. La deuxième partie est consacrée à la présentation des critiques et des approches
alternatives à la théorie du choix rationnel.

Mots-clés: Modèles spatiaux; Théorie formelle; Choix raisonnable; Coalitions internationa-


les; Action collective.

89
A Sociologia de Norbert Elias*
Tatiana Savoia Landini

Introdução livro escrito em alemão por um judeu e que,


sobretudo, falava sobre civilização.3 A im-
As obras de Norbert Elias tornaram-se portância do livro foi reconhecida apenas
mais acessíveis ao leitor de língua portuguesa em 1969, quando foi feita uma reimpressão
na década de 1990, quando foram publicados d’O processo em alemão, seguida da publica-
entre nós seus principais livros:1 O processo ci- ção, também em alemão, do A sociedade de
vilizador – vols. 1 e 2;2 A sociedade dos indiví- corte e do Introdução à sociologia.4
duos; Mozart: sociologia de um gênio; Os ale- Em Norbert Elias por ele mesmo (2001b),
mães; Os estabelecidos e os outsiders; A sociedade o autor conta um sonho recorrente, o de que
de corte; Norbert Elias por ele mesmo. A partir estava ao telefone e a voz, do outro lado do
de então, Elias tem se tornado um autor cada fio, pedia para que falasse mais alto, pois não
vez mais lido, comentado e citado. conseguia ouvi-lo. Apesar de Elias começar a
Não é raro encontrar obras sobre Elias gritar, a voz continuava a pedir para que fales-
que abordem não apenas sua produção teó- se mais alto, pois ainda não conseguia ouvi-lo.
rica mas também sua biografia. Um ponto Alguns autores já comentaram essa passagem
em especial incomoda muitos daqueles que do livro (por exemplo, Garrigou e Lacroix
reconhecem sua importância no campo das [2001]; Heinich, [2001]), encontrando razões
ciências humanas: considerando-se que seu para esse fantasma que assombrava Elias. Os
primeiro livro, O processo civilizador, foi pu- problemas enfrentados no início da carreira e
blicado em 1939, por que seu reconhecimen- o conseqüente desconhecimento a que foi
to como intelectual veio apenas cerca de três relegado por algumas décadas são razões plau-
a quatro décadas mais tarde? síveis para justificar o sonho. Não pretendo
Foram poucos que efetivamente leram a entrar nessa discussão; objetivo, ao contrário,
edição publicada em 1939. Como lembra contribuir para que Elias se faça ouvir.
Mennell (1998. p. 3), aquela realmente não A obra de Elias deixou uma herança
era uma boa hora para o lançamento de um riquíssima para as ciências humanas em geral,

* Este texto, devidamente adaptado, foi escrito como parte de minha tese de doutorado (Landini, 2006).
Devo agradecimentos especiais a duas pessoas. Maria Helena Oliva Augusto, minha orientadora de
mestrado e doutorado, pela amizade, carinho, confiança e incentivo para levar à frente a discussão da
sociologia de Norbert Elias. Stephen Mennell, meu orientador durante o estágio de doutorado na
University College Dublin, por me ensinar muito do que sei sobre Elias. Agradeço também ao Eric
Dunning e ao Cas Wouters, pela disposição com que compartilharam comigo seu vasto conhecimento.

BIB, São Paulo, nº 61, 1º semestre de 2006, pp. 91-108 91


e para a sociologia em particular. Seu reconhe- simples, as perguntas correspondentes a essa
cimento pode ser facilmente percebido nas situação – como se deu essa mudança? em
citações de suas obras, abundantes nos traba- que consiste? quais são suas forças motrizes?
lhos de pesquisadores brasileiros e estrangeiros, – não comportam uma resposta rudimentar.
com especial destaque para The civilizing pro- São essas perguntas que O processo civilizador
cess (2000). Dessa obra, são extraídos exemplos procura responder.
a respeito do comportamento humano, dos O livro está dividido em quatro partes.
costumes do dia-a-dia, exemplos esses que nos Na primeira, Elias examina os diferentes sig-
fazem rir e corar de vergonha ao mesmo tem- nificados da palavra civilização, na Alemanha
po, nos causam nojo, aversão e identificação. e na França, ou seja, os significados atribuídos
Contudo, talvez Elias ainda não esteja se fa- por cada uma dessas culturas, sua definição
zendo ouvir com propriedade. êmica. Precursor do conceito de civilização, o
Considero que um ponto em especial conceito de civilidade, utilizado primeiramen-
merece uma análise mais detida: seu olhar te na França do século XVI, mas também na
para a sociedade. Em específico, levanto Inglaterra, na Itália e na Alemanha, demarca-
uma questão que não me parece clara o sufi- va o comportamento da corte, explicitando as
ciente para aqueles que têm contato parcial barreiras sociais entre esse grupo e o restante
com seus trabalhos: quais são os princípios da sociedade. Na Europa do século XIX, o
básicos de sua sociologia? Ou, de forma conceito de civilização possuía dois significa-
mais enfática: o que é fazer uma pesquisa dos: em primeiro lugar, era o conceito utiliza-
seguindo a tradição eliasiana? Quais são seus do pela corte para opor-se ao barbarismo e,
princípios fundantes? em segundo, transmitia a idéia de um proces-
so com um objetivo,5 envolvendo o refina-
mento do comportamento social e a pacifica-
Princípios da Teoria Eliasiana ção interna do país. Nas palavras de Elias, o
conceito de civilização
Considerando que The civilizing process
(2000) é reconhecido como a obra magna de […] expressa a autoconsciência do Ocidente.
Elias, iniciarei este texto com uma leitura Poderíamos inclusive afirmar: a consciência
desse livro, objetivando menos resumir seus nacional. Ele resume tudo em que a socieda-
dados e conclusões do que realçar seu olhar de ocidental dos últimos dois ou três séculos
sobre a sociedade. Logo no início da obra (p. se julga superior a sociedades mais antigas ou
IX), Elias propõe o seguinte problema, a a sociedades contemporâneas “mais primiti-
princípio bastante simples: se uma pessoa vas”. Com esse termo, a sociedade ocidental
que vive em nossa época fosse transportada procura descrever em que constitui seu cará-
até tempos passados em sua própria socieda- ter especial e tudo aquilo de que se orgulha:
de, certamente veria um modo de vida muito o nível de sua tecnologia, a natureza de suas
diferente do seu, alguns costumes provavel- maneiras (costumes), o desenvolvimento de
mente lhe causariam asco, enquanto outros seu conhecimento científico ou visão de
lhe causariam curiosidade e até atração; con- mundo, e muito mais (Elias, 2000, p. 5).
cluiria, então, que essa sociedade do passado
não era “civilizada” no mesmo sentido e no Ao buscar a definição êmica, o autor
mesmo grau que a sociedade ocidental mo- questiona a crença no progresso e na “civili-
derna. Apesar de o problema ser bastante zação” européia; ou seja, em vez de aceitar

92
essa convicção e incorporá-la em sua obra, 1997, p. 12). Os livros de boas maneiras não
percorre o caminho oposto, problematizan- são, portanto, objetos de estudo em si, mas,
do a própria definição. Dito de outra forma, por meio deles, o autor busca obter infor-
busca entender o conceito de civilização – mações sobre a estrutura mental e emocio-
assim como o de civilidade e cortesia – rela- nal da época.
cionando-o ao desenvolvimento da socieda- A partir da análise dos diversos tópicos
de na qual é utilizado. É importante enfati- levantados, ele mostra que as mudanças nos
zar a questão da relação entre o conceito e o costumes não ocorrem aleatoriamente, mas
desenvolvimento da sociedade: seu objetivo seguem uma direção: um aumento no senti-
não se esgota em traçar as mudanças do con- mento de vergonha e repugnância, em con-
ceito; antes, procura entender as sociedades comitância com uma maior tendência a es-
que lhe deram forma, o que será feito nas conder, nos bastidores da vida social, aquilo
partes seguintes da obra. que as causa. O que o autor aponta, a partir
A segunda parte do livro busca mostrar de exemplos corriqueiros ou cotidianos, é a
transformações nos costumes, abarcando mu- relação existente entre a dinâmica psicológi-
danças nas maneiras associadas à mesa, à ca (o sentimento de vergonha e repugnância)
forma de comer, atitudes em relação às fun- e a dinâmica social (explicitada nas noções de
ções corporais, comportamento no quarto de refinamento e civilização), ou, de forma a
dormir etc. Partindo de fontes de dados di- enfatizar um dos conceitos mais importantes
versas, tais como literatura, pintura, docu- desenvolvidos por ele, a relação entre a dinâ-
mentos históricos, mas, principalmente, mica social e a estrutura da personalidade. Em
livros de boas maneiras, Elias novamente ini- suas próprias palavras:
cia a reflexão a partir da definição, ou seja, da
forma como pessoas de diversas épocas en- Em conjunto com a crescente divisão do
tendiam um determinado comportamento, comportamento entre o que é e o que não é
para dali chegar ao comportamento propria- permitido no espaço público, a estrutura psí-
mente dito. A fim de compreender o que quica das pessoas também se transforma. As
veio a ser considerado “civilizado”, volta aos proibições presentes nas sanções sociais são
conceitos anteriores, courtoisie e civilité (civi- reproduzidas nos indivíduos como auto-con-
lidade). A questão que se propõe a responder trole. A pressão por restringir os impulsos e a
é como e por que a sociedade ocidental passou vergonha sociogenética que a acompanha –
de um padrão para o outro, do padrão de ambas são incorporadas como habitus tão
civilidade para o de civilização (Idem, p. 51). completamente que não podemos resistir a
Erasmus de Rotterdam é o autor esco- elas mesmo quando estamos sozinhos, na
lhido para explicitar a sociogênese do con- esfera íntima (Elias, 2000, p. 160).
ceito de civilidade. Em seu livro Sobre civili-
dade nas crianças (De civilitate murum O termo habitus, normalmente associa-
pueilium), dedicado ao filho de um nobre, do a Bourdieu, é também utilizado por ele
Erasmus discute as boas maneiras, retraba- referindo-se tanto ao habitus individual como
lhando o conceito de civilidade. O interesse ao social – o último constituindo o terreno
de Elias é estabelecer que os preceitos conti- no qual crescem as características pessoais e
dos no trabalho de Erasmus são incorpora- significando basicamente “segunda natureza”
ções da estrutura mental e emocional da ou “saber social incorporado”. O conceito de
classe alta secular da Idade Média6 (Fletcher, segunda natureza, para Elias, não é de forma

93
alguma essencialista. Muito pelo contrário, é mais importante, nessa longa análise, com-
utilizado pelo autor para superar os proble- preendendo um período anterior à Idade
mas da noção de “caráter nacional” como Média até os séculos XVI e XVII, mostra o
algo fixo e estático. O habitus muda com o processo de formação do Estado moderno.
tempo exatamente porque “as fortunas e as No primeiro período, chamado de “primeira
experiências de uma nação (ou de seus agru- época feudal”, predominaram forças centrí-
pamentos constituintes) continuam mudan- fugas, ou seja, a tendência era a desintegração
do e acumulando-se” (Dunning e Mennell, dos reinos, formando pequenos territórios
1997, p. 9). comandados por um poder central enfraque-
O que está em jogo quando falamos na cido. Na “segunda época feudal”, predomi-
motivação da mudança (ou seja, por que há naram forças centrípetas, quer dizer, a ten-
mudança) é que, em relação aos costumes, dência foi a aglomeração e a formação de
a transformação ocorre a partir da dinâmi- unidades mais extensas, dominadas por um
ca das classes sociais. A fim de distanciar-se poder central cada vez mais forte.
das outras classes sociais, a classe superior cria O mais interessante, entretanto, é a rela-
novos padrões de comportamentos, padrões ção entre a formação do Estado e as mudan-
esses que, com o passar do tempo, são adota- ças na estrutura da personalidade, quer dizer,
dos pelas outras classes. Em outras palavras, a relação entre essa terceira parte do livro e a
fica muito parecido com o que veio a ser cha- segunda, que trata dos costumes. O ponto de
mado por Bourdieu (Ortiz, 1994) de distin- ligação pode ser encontrado no penúltimo
ção. Entretanto, Elias toca em um ponto rele- capítulo da segunda parte (“Sobre mudanças
vante, que o diferencia do autor francês: com na agressividade”) – é aqui que Elias nos mos-
o passar do tempo, os novos padrões de com- tra a conexão entre a estrutura social e a eco-
portamento deixam de ser conscientes para nomia dos afetos. Em uma sociedade com o
tornarem-se uma segunda natureza – é a essa poder central fraco, não há nada que force as
segunda natureza que se refere quando fala pessoas a se conterem. Por outro lado, se o
em mudanças na estrutura da personalidade. poder central cresce e as pessoas são forçadas a
À noção de mudanças na estrutura da viver em paz umas com as outras, a economia
personalidade adicionamos um outro ponto dos afetos também muda paulatinamente,
relevante a respeito da direção do processo passando a existir uma identificação maior
da civilização: o auto-controle passa a ter entre elas, além de ataques físicos passarem a
um papel cada vez mais importante, em ser restritos àqueles que representam a autori-
detrimento da necessidade de um controle dade central ou, em casos excepcionais, àque-
externo. Nas palavras do próprio autor, ao les que lutam contra inimigos, internos ou
longo do processo da civilização, ocorre uma externos, em épocas de guerra ou revolução
mudança na balança entre controle externo (Elias, 2000, p. 169). Em outras palavras,
e auto-controle, em favor do último.
Passamos agora à terceira parte do livro – […] reivindicando o monopólio da violên-
“Feudalização e a formação do Estado”. Não cia, o Estado monárquico impõe a repressão
é possível deixar de lembrar a definição de da violência privada e difusa, principalmen-
Weber do Estado moderno, aquele que tem te por meio das regras de manutenção da
o monopólio da violência legítima. A esse vida de corte, um modelo de autocoerção,
conceito, Elias adiciona a questão do mono- de domínio das emoções, de ocultação do
pólio da arrecadação dos impostos. Ainda corpo e das funções orgânicas (inculcando o

94
senso de pudor) que reestrutura a personali- […] mudança de equilíbrio entre coerções
dade. Ele estimula o espírito de estratégia e externas e internas, e de mudança dos
de dissimulação para obter os favores do modos de controle. Em particular, analisa
príncipe num dispositivo de poder em que a controles que se tornam “ainda mais” e
concorrência entre indivíduos é eufemizada, “mais automáticos” e “mais completos”,
desmilitarizada e fixada sobre os recursos da assim como de um movimento no sentido
astúcia e da previsão. Daí um desenvolvi- “de uma atenuação dos contrastes e de um
mento do cálculo racional e da introspecção aumento das variedades”. […] Por “ainda
para autodominar-se e adivinhar as inten- mais” e “mais automático”, Elias entende
ções dos outros (Burguière, 2001, p. 105). mudanças “psicológicas”: as oscilações das
disposições individuais tornam-se menos
Por fim, a quarta e última parte – excessivas, e os controles das expressões
“Sinopse: por uma teoria do processo civili- emocionais, mais confiáveis ou previsíveis.
zador” – é um apanhado geral dos principais “Mais completo” faz referência a uma dimi-
conceitos trabalhados pelo autor ao longo da nuição das diferenças entre as “esferas” varia-
obra e de suas principais conclusões. Não se das da vida, quer se trate do contraste entre
trata de um simples resumo teórico, mas, de o que é permitido em público e em particu-
certa forma, é o resultado de seu empreendi- lar, entre a maneira de comportar-se com
mento na pesquisa do processo civilizador. determinadas pessoas e com outras, ou entre
Para Elias, os conceitos sociológicos não o comportamento “normal” e o que é tole-
devem, de forma alguma, ser meramente rado em acontecimentos excepcionais como
teóricos, mas constituem o resultado da pes- carnavais, que são considerados momentos
quisa empírica. Ou seja, para ir a campo, ele de exceção às regras. Finalmente, a “redução
não parte de conceitos pré-formulados, mas dos antagonismos, o aumento das varieda-
de algumas concepções mais gerais – como as des” fazem referência aos antagonismos
que explicitarei adiante – para, no processo sociais – a redução das desigualdades entre
de pesquisa e análise de seu material, chegar grupos sociais mas, contudo, uma maior
a conclusões tais quais as que estão expressas escolha nos modelos de comportamento
na “Sinopse” do livro. autorizados (Mennell, 1998, pp. 245-246).
Entretanto, mais importante do que
sumariar as discussões teóricas realizadas por Além dos três critérios supracitados, as
Elias na “Sinopse” é buscar pontuar as dire- direções dos processos civilizadores incluem:
ções tomadas pelo processo civilizador, aumento da pressão pelo desenvolvimento
sendo as três principais: mudança na balan- da previsibilidade; psicologização e raciona-
ça entre coerção externa e auto-coerção em lização; avanço no limiar de vergonha e
favor da última; desenvolvimento de um repugnância; contração de comportamentos
padrão social de comportamento e senti- e contrastes emocionais e uma expansão das
mento que engendre a emergência de um alternativas; e mudanças de uma perspectiva
autocontrole mais estável e diferenciado; e mais envolvida para uma mais distanciada”.
aumento no escopo da identificação mútua Fornecido o roteiro da obra, resta-nos
entre as pessoas (Fletcher, 1997, p. 82). O agora buscar extrair quais são os princípios
autocontrole a que Elias se refere não é mera básicos da sociologia de Elias, ou seja, res-
questão quantitativa, mas supõe a análise da ponder à pergunta: o que é fazer uma pes-
quisa seguindo a tradição eliasiana? Utilizar

95
um autor como base teórica não significa víduo como o que realmente existe, além da
citá-lo ou sequer utilizar seus achados como sociedade, o verdadeiramente “real” (sendo
fonte de dados – até porque se, como afir- vista a sociedade como uma abstração, como
mei anteriormente, a sociologia de Elias é algo que não existe efetivamente) e outros
basicamente empírica, utilizar seus exemplos enfoques teóricos que apresentam a socieda-
seria um erro grave já que toda a sua discus- de como um “sistema”, um “fato social sui
são está baseada no processo da civilização generis”, uma realidade de tipo peculiar, para
européia. O importante, a meu ver, é com- além dos indivíduos (Idem, p. 473).
preender o que caracteriza a sociologia de
Elias, sua metodologia de trabalho. O conceito de figuração, em contrapo-
Johan Goudsblom (1977 apud Mennell, sição, busca expressar a imagem do ser hu-
1998, p. 252), aluno e discípulo de Norbert mano como personalidade aberta, aquele
Elias, resume os princípios de sua sociologia que possui algum grau de autonomia em
em quatro pontos: sociologia diz respeito a face das outras pessoas (nunca uma autono-
pessoas no plural (figurações); as figurações mia completa), mas que, na realidade, é fun-
formadas pelas pessoas estão continuamente damentalmente orientado para as outras
em fluxo; os desenvolvimentos de longo pessoas e dependente delas – o que liga os
prazo são em grande medida não planejados seres humanos é justamente a rede de inter-
e não previsíveis; o desenvolvimento do saber dependências. A figuração – conceito que,
dá-se dentro das figurações, e é um dos na visão de Elias expressa o que é chamado
aspectos importantes do desenvolvimento. de “sociedade” – seria, portanto, uma estru-
Vejamos cada um dos pontos.7 tura de pessoas mutuamente orientadas e
O termo configuração ou figuração8 foi dependentes (Idem, pp. 481-482).
cunhado por Elias como contraponto à no- A atenção que Elias dispensa à análise
ção de homo clausus, expressão que, em seu das inter-relações entre os indivíduos – ao
entender, traduzia bem o estágio das ciências contrário de autores que têm como foco o
sociais no final do século XIX e início do XX. indivíduo – decorre de sua definição de
A noção de homo clausus, que tanto incomo- sociologia. Uma definição simples de socio-
dava Elias, pode ser entendida como a duali- logia diz que é a ciência que trata dos pro-
dade entre sujeito e objeto, entre indivíduo e blemas da sociedade. Mas o que é a socieda-
sociedade e significa o entendimento do indi- de? Para o autor, a sociedade é formada por
víduo como um ser atomizado e completa- todos nós, sendo cada um de nós um ser
mente livre e autônomo em relação ao social. entre os outros; não se deve reificar o con-
Sua crítica recai principalmente sobre Par- ceito de sociedade – assim como não se deve
sons, mas não deixa de fazer comentários a reificar o conceito de família, escola etc. A
outros sociólogos, por exemplo Weber, cujo sociedade não pode ser considerada uma
trabalho teórico, mas não o empírico, teria “coisa”, mas um grupo formado por seres
como ponto de partida o indivíduo indepen- humanos interdependentes.
dente e auto-suficiente (Elias, 2000, p. 469). A questão da interdependência é, por-
Sua visão a respeito da sociologia da primeira tanto, central na definição de figuração,
metade do século XX pode ser resumida: objeto da sociologia.

Aparentemente, temos escolha apenas entre Quanto mais intimamente integrados forem
abordagens teóricas que apresentam o indi- os componentes de uma unidade compósita

96
ou, por outras palavras, quanto mais alto for As ligações sociais a que Elias se refere
o grau da sua interdependência funcional, dizem respeito não apenas às relações inter-
menos possível será explicar as propriedades pessoais, mas também às ligações emocionais,
dos últimos apenas em função das proprie- consideradas agentes unificadores de toda a
dades da primeira. Torna-se necessário não sociedade. Em unidades sociais pequenas, a
só explorar uma unidade compósita em ter- ligação emocional ocorre entre os indivíduos;
mos das suas partes componentes, como quando consideramos unidades sociais maio-
também explorar o modo como esses com- res, precisamos levar em conta novas formas
ponentes individuais se ligam uns aos de ligação emocional: as pessoas unem-se a
outros, de modo a formarem uma unidade. símbolos de unidades maiores, ligam-se emo-
O estudo da configuração das partes unitá- cionalmente umas às outras por meio de sím-
rias ou, por outras palavras, a estrutura da bolos (Idem, pp. 150-151).
unidade campósita, torna-se um estudo de Elias, muitas vezes, utiliza imagens a fim
direito próprio. Essa é a razão pela qual a de deixar mais claro um conceito; no caso do
sociologia não se pode reduzir à psicologia, termo figuração, faz menção à dança, inde-
à biologia ou à física: o seu campo de estudo pendentemente do estilo, se tango, rock ou
– as configurações de seres humanos inter- outro (Elias, 2000, pp. 482-483). A dança,
dependentes – não se pode explicar se estu- segundo ele, não pode ser pensada sem uma
darmos os seres humanos isoladamente. Em pluralidade de indivíduos dependentes e
muitos casos é aconselhável um procedi- orientados reciprocamente uns aos outros.
mento contrário – só podemos compreen- Além disso, não é entendida como uma cons-
der muitos aspectos do comportamento ou trução mental e, portanto, como uma mera
das ações das pessoas individuais se come- abstração ou algo que existe para além do
çarmos pelo estudo do tipo da sua interde- indivíduo – ainda que possa ser entendida
pendência, da estrutura das suas sociedades, como relativamente independente daqueles
em resumo, das configurações que formam
que estão tomando parte de uma determina-
uns com os outros (Elias, 1970, pp. 78-79).9
da peça, jamais é entendida como indepen-
dente dos indivíduos como tais. Ao utilizar a
dança para melhor definir o termo figuração,
O conceito de figuração tem como
Elias tem como objetivo principal eliminar a
objetivo, exatamente, “afrouxar o constran-
antítese ainda presente no uso dos conceitos
gimento de falarmos e pensarmos como se o
de indivíduo e sociedade. Um segundo objeti-
‘indivíduo’ e a ‘sociedade’ fossem antagôni-
vo é discutir a mudança – e a partir daqui
cos e diferentes” (Idem, p. 141). Pode ser
aproveito para fazer a ponte com o segundo
aplicado a grupos de tamanhos e graus de
princípio levantado acima, a respeito de as
interdependência diversos. Um grupo jo-
figurações estarem sempre em fluxo.
gando pôquer, os alunos de uma sala de au-
Assim como mudam as figurações for-
la, uma vila de pescadores ou uma metrópo-
madas na dança – ora se tornam mais rápi-
le são todos exemplos de configurações. No das, ora mais lentas –, as figurações maiores,
caso das configurações mais complexas, elas às quais chamamos sociedades, também
não são percebidas diretamente, pois as mudam, ora de forma mais repentina e efê-
cadeias de interdependências são maiores e mera, ora de forma mais gradual e possivel-
mais diferenciadas. Compreendê-las implica mente mais duradoura.
abordá-las indiretamente e proceder a uma Tão importante quanto a crítica à sepa-
análise dos elos de interdependência. ração conceitual entre indivíduo e sociedade

97
é a crítica à redução processual, ou seja, à objetivo de trabalhar a evidência histórica
tendência de reduzir conceitualmente pro- no sentido de construir teorias processuais
cessos a estados. Novamente, imagens alusi- do desenvolvimento social de longo prazo.
vas são citadas. A frase O rio está correndo Ponto importante contido nessa afirmação é
ilustra a discussão, exemplificando a redução de que existe uma mudança no significado
conceitual: estaria implícita a idéia de que o dos conceitos decorrente da própria trans-
rio existe em estado de descanso e que, em formação histórica – o que remete tanto ao
um determinado momento, começa a se uso de definições êmicas como à necessida-
mexer. Mas o que seria um rio parado que de de relacionar o conceito à época a que
não um lago ou uma represa? pertence, como foi visto n’O processo. Se
Na sociologia, a redução processual po- Elias fala em burguesia, por exemplo, é
de ser vista em distinções conceituais entre o consciente de que esse conceito muda com
“ator” e sua atividade, entre estruturas e pro- o passar dos séculos.
cessos, objetos e relações. Conceitos tais co- O terceiro ponto levantado, acerca dos
mo normas, valores, papéis, classe social etc. desenvolvimentos de longo prazo, é muito
muitas vezes parecem existir independente- importante para o autor e, nesse tópico, pos-
mente dos indivíduos, o que, para Elias, é sui posição central a discussão sobre o motor
inapropriado. A solução está em reconhecer desse desenvolvimento, quer dizer, se são ou
que as relações entre as pessoas são tão reais não processos planejados.
quanto o próprio indivíduo – da mesma for- Elias é contra a idéia de uma sociologia
ma que os indivíduos, os países também pas- focada principalmente no presente de
sam por mudanças contínuas, que levam de Estados-Nações entendidos como sistemas
um estágio a outro. Se a personalidade deve isolados. Isso seria uma conseqüência de, ao
ser entendida como a continuidade de trans- longo do processo de negação das teorias
formações que levam de um estágio a outro, evolucionárias e do conceito de progresso
analogamente poderíamos dizer, por exem- dos séculos XVIII e XIX, “o bebê ter sido
plo, que o Brasil contemporâneo também jogado fora junto com a água do banho”.
pode ser entendido como tendo emergido
das mudanças ocorridas ao longo de vários A preocupação sociológica vital em observar
séculos. Não existe uma substância chamada e explicar os processos de longo prazo foram
personalidade ou sequer uma substância cha- rejeitadas juntamente com elementos que
mada cultura brasileira ou sociedade brasilei- eram etnocêntricos, teleológicos e metafísi-
ra que persiste ao longo do tempo. cos e, portanto, corretamente descartados. O
que surgiu então foi uma história a-teórica
Para minimizar essas falhas, Elias afirma
na qual faltava qualquer idéia de estrutura e
que não devemos nos prender a conceitos e,
uma sociologia focada principalmente no
no caso de utilizá-los, reconhece a ne-
presente de Estados-Nações vistos como sis-
cessidade de uma conceituação mais dinâ-
temas isolados. […] Elias argumenta que
mica, o que poderia ser alcançado com o
essa “fuga da sociologia para o presente”
uso de palavras cuja noção processual esteja
ocorreu em parte juntamente com a domi-
implícita, tais quais socialização, individua-
nação de estáticos modelos americanos de
lização, “cientifização” ou “cortização”.10 Os
teoria e pesquisa, e parte em conjunto com o
conceitos devem ser utilizados a fim de gui-
aumento da participação de cientistas sociais
ar a investigação, ou seja, como sensibiliza-
em planejamentos do Estado (Dunning e
dores, o que é bastante condizente com o
Krieken, 1997, p. 353).

98
Seria incorreto tentar explicar eventos vador que tentasse entender o decurso do
sociais simplesmente em função das ações jogo a partir das intenções e jogadas indivi-
humanas intencionais: os processos são duais se perderia na confusão de jogadas.
engendrados pelo entrelaçar de ações inten- Mas, distanciando-se das posições tomadas
cionais e planos de muitas pessoas, mas pelos dois lados, perceberia uma ordem,
nenhuma delas realmente os planejou ou uma teia ordenada. Essa teia não deve ser
desejou individualmente (Elias, 1997b, p. encarada como ação exclusiva de nenhum
360). Nas palavras do próprio autor, dos lados, mas, antes, deve ser interpretada
como continuidade de um processo de
[…] a interpenetração de indivíduos interde- interpenetração que continuará no futuro
pendentes forma um nível de integração na (Idem, p. 91).
qual as formas de organização, estruturas e À medida que cresce o número de joga-
processos não podem ser deduzidos das carac- dores individuais, o jogo parece a cada um
terísticas biológicas e psicológicas que consti- mais opaco e incontrolável; o jogador torna-
tuem os indivíduos (Elias, 1970, p. 50). se também consciente de sua impossibilida-
de de compreender e controlar o jogo. A
Em Introdução à sociologia (1970), Elias tendência é para a deterioração do funciona-
utilizou modelos para argumentar que das mento do jogo, seguida de uma pressão para
relações entre indivíduos resulta um proces- sua reorganização. Uma das formas possíveis
so não-intencional, não planejado. Pensemos de reorganização é o “modelo de jogo em
em um jogo de xadrez. Ambos os jogadores, dois níveis: tipo democrático crescentemen-
A e B, planejam suas jogadas. Fazem-no, te simplificado” (Idem, p. 96). Nesse mode-
porém, prevendo a possível reação do outro lo de jogo, a força dos jogadores de nível
jogador e adaptando esse planejamento a mais baixo vai crescendo relativamente à
cada pedra efetivamente movida por seu par- força dos jogadores de nível mais alto. Ao
ceiro de jogo. A possibilidade de o jogo sair diminuírem as diferenças de poder entre os
mais ou menos como planejado por um dois níveis, torna-se maior a dependência –
deles repousa na desigualdade de poder e a consciência da dependência por parte
entre ambos os jogadores. À medida que dos participantes – do nível mais alto em
diminui a desigualdade de forças entre os relação ao mais baixo. O jogo torna-se cada
jogadores, resultará das jogadas de ambos vez mais complexo e o jogador individual
um processo de jogo que nenhum deles pla- fica muito mais constrangido e limitado em
nejou (Idem, p. 89). decorrência do número de jogos simultanea-
Imaginemos agora um jogo de vários mente interdependentes que tem de jogar.
jogadores, por exemplo, dois times de seis jo- Particularmente interessante é entender-
gadores, em que ambos os lados têm aproxi- mos a mudança de concepção que os jo-
madamente a mesma força e seguem regras gadores têm de seu jogo. Cada vez mais, a
previamente estabelecidas. O decurso do jo- tendência é a produção de conceitos impes-
go não pode ser controlado por nenhum soais que dominem a sua experiência de jogo.
jogador isoladamente; a confusão de jogadas Ou seja, os jogadores tendem a não mais
e contra-jogadas é grande. Qualquer um dos acreditar que o jogo toma forma a partir de
jogadores precisa necessariamente levar em jogadas individuais. Os conceitos impessoais
consideração tanto a resposta de seus colegas denotam uma certa autonomia do processo
de time como do time adversário. O obser- do jogo, considerado algo não imediatamen-

99
te controlável mesmo pelos próprios jogado- padrões de comportamento estivessem sur-
res. É mais fácil para eles conceber o jogo gindo por “razões de respeito” é uma dica im-
como uma entidade “super-humana” do que portante para entendermos a explicação dada
compreender que a incapacidade individual pelo autor a propósito da dinâmica dos pro-
de “controlar o jogo deriva da sua dependên- cessos civilizatórios.
cia mútua, das posições que ocupam como O que é bastante característico e impor-
jogadores e das tensões e conflitos inerentes a tante em sua explicação não é o fato de a
essa teia que se entrelaça” (Idem, p. 99). Elias classe mais alta ter conseguido impor pa-
retoma, assim, novamente a crítica à separa- drões de controle cada vez maiores em rela-
ção entre indivíduo e sociedade: há uma ção aos socialmente inferiores, mas o por quê
mudança na forma como os jogadores perce- foi capaz de fazê-lo. A ênfase de sua teoria é
bem o decorrer do jogo, de algo que resulta dada aos processos não-planejados, princi-
de ações individuais para a existência de um palmente o que chama de “democratização
decorrer independente dos jogadores, ou seja, funcional”: a mudança nos costumes deve-se
de uma visão mais voltada para o indivíduo, principalmente à correlação entre o aumen-
e a ação individual para uma visão mais vol- to no nível de interdependência entre as pes-
tada para a “sociedade” como algo indepen- soas, aumento no nível de consideração para
dente dos indivíduos que a formam. com os outros e ainda um aumento no nível
De forma menos abstrata, a questão de de identificação mútua entre as pessoas. Para
que o processo histórico é, em grande medi- fazer justiça à teoria eliasiana, é importante
da, não planejado, é também posta por Elias registrar que essas mudanças também estão
em relação a O processo civilizador. Como relacionadas a uma rede de outras mudan-
explicar o fato de que, na Europa medieval, as ças, como o balanço entre coação externa e
pessoas usavam as próprias mãos para pegar a auto-coação, a remoção de vários atos e ati-
comida do prato comum em vez de utilizar vidades para os bastidores da vida social, a
garfos, facas e colheres? Como pode ser expli- divisão cada vez maior entre esferas pública
cado o avanço no limiar do embaraço? As e privada. A isso adiciona-se um ponto mui-
explicações mais óbvias seriam pobreza mate- to importante em Elias, já comentado ante-
rial, razões higiênicas e “razões de respeito” riormente, a saber, a relação entre o desen-
(Mennell, 1998, pp. 45-60). A primeira é cla- volvimento da estrutura da personalidade e
ramente inaceitável, considerando que a a dinâmica social:
riqueza estava presente na qualidade dos
utensílios, mas não em sua quantidade – A estabilidade peculiar do aparato de auto-
mesmo as colheres sendo feitas de ouro, cris- controle psicológico que emerge como traço
tal e coral, ainda assim as mãos eram usadas decisivo, construído no habitus de todo ser
para pegar a comida. Em relação à segunda humano “civilizado”, mantém a relação mais
explicação, Elias mostra que a higiene avan- estreita possível com a monopolização da
çou depois que já havia uma restrição a esse força física e a crescente estabilidade dos
respeito em alguns grupos; quer dizer, as órgãos centrais da sociedade. Apenas com a
explicações higiênicas surgiram depois que as formação desse tipo relativamente estável de
pessoas já haviam desenvolvido um senti- instituições monopolizadoras é que as socie-
mento de repugnância em relação a escarrar, dades adquirem realmente essas característi-
assoar-se, colocar comida de volta no prato cas, em decorrência das quais os indivíduos
comum etc. Finalmente, o fato de que novos que as compõem sintonizam-se, desde a

100
infância, com um padrão altamente regula- para essas transformações deve ser procurada
do e diferenciado de autocontrole; apenas na dinâmica das figurações. Ou seja, as trans-
em combinação com tais monopólios é que formações são fruto das mudanças nas inter-
esse tipo de autolimitação requer um grau dependências sociais, no embate entre indi-
mais elevado de automatismo, é que se víduos e grupos (Dunning e Krieken, 1997).
torna, por assim dizer, “segunda natureza” As ações planejadas podem, inclusive,
(Elias, 2000, p. 369). ter conseqüências inesperadas e indesejadas.

Ainda que o ponto fulcral do autor Torna-se jogo óbvio que as conseqüências
sejam os processos cegos ou não-planejados, não planejadas de ações humanas planejadas
os processos planejados – também chama- surgem das suas repercussões no interior de
dos de ofensivas civilizatórias – não são uma teia tecida pelas ações de muitos indiví-
esquecidos: duos. Ao tornar explícita essa idéia, um con-
ceito de ação torna-se um conceito de função.
A forma contemporânea de planejamento Em vez de falarmos de pessoas que atuam
social institucionalizado e tecnicizado é – para desenvolver as sociedades, temos que
tanto nos países mais pobres e menos desen- falar de um modo mais impessoal, no proces-
volvidos como nos mais ricos e mais desen- so de desenvolvimento (Elias, 1970, p. 161).
volvidos – alinhada em direção a mais desen-
volvimento. Entretanto, essa forma mais Na visão de Elias, a mudança social é
consciente, ou até socialmente planejada de inevitável. O mais interessante, contudo, não
desenvolvimento futuro, que em algumas é a mera constatação da inevitabilidade da
sociedades abarca mais e mais setores e, em evolução social, mas sua visão a respeito dos
muitas, todos os setores da prática social, é diversos estágios sociais. À medida que a evo-
característico de uma fase específica do desen- lução se processa de uma figuração A para
volvimento não-planejado mais amplo das uma figuração D, passando por B e por C,
sociedades humanas (Elias, 1997b, p. 370). temos duas perspectivas possíveis de abordá-
las. Do ponto de vista da figuração A, a figu-
Em poucas palavras, ainda que existam ração B é apenas uma das diferentes possibi-
processos planejados e cegos, os primeiros lidades de mudanças – o mesmo ocorre com
são vistos como partes dos segundos; os pro- a figuração C em relação a B e com a figura-
cessos cegos engendram a possibilidade de ção D em relação a C. Entretanto, do ponto
processos planejados – esses processos ou de vista da figuração D, C é geralmente uma
ofensivas civilizatórias são definidos como condição necessária para sua formação, assim
campanhas mais ou menos organizadas com como B é uma relação necessária para a for-
o objetivo de mudar o comportamento de mação de C, e A o é para B. As relações
um grupo, geralmente no sentido de padrões sociogenéticas entre configurações anteriores
mais civilizados (Spierenburg, 2001). e posteriores são, dessa forma, mais adequa-
Para finalizar a discussão desse terceiro damente expressas se os conceitos de “causa”
ponto, é importante registrar que a seqüên- e “efeito” forem evitados.
cia de transformações engendradas por esses
processos – tanto planejados como não-pla- Em muitos, senão em todos os casos, as con-
nejados – pode ser estabelecida com base em figurações formadas por pessoas interdepen-
fontes de dados empíricos, e a explicação dentes são tão plásticas que a configuração

101
num estágio tardio do fluxo configuracional ra relevante e significativo não só para ele
é de fato apenas uma das muitas possíveis como para a época e a cultura em que se inse-
transformações de uma configuração ante- re. Mais do que isso, para Weber, “o objeto do
rior. Porém, à medida que uma determinada conhecimento social não se impõe à análise,
configuração se transforma noutra, dá-se o como já dado, mas é constituído nela própria,
estreitamento de uma grande dispersão de através dos procedimentos metódicos do pes-
possíveis transformações até surgir uma quisador” (Cohn, 1991, p. 22). Dessa forma,
única conseqüência. Retrospectivamente, é o pesquisador acaba por atribuir uma ordem
tão plausível examinarmos a cadeia de a aspectos selecionados, o que requer dele
potenciais conseqüências como descobrir a uma posição ativa; mas isso não significa
constelação particular de fatores responsá- imprimir “visões de mundo” aos resultados
veis pela emergência desta e não doutra con- da pesquisa. Ao político é permitido tomar
figuração, dentro das alternativas possíveis decisões impulsionado por interesses; ao cien-
(Idem, pp. 176-177). tista só é lícito reconstruir e analisar os fatos
seguindo as exigências do método científico.
Por fim, a quarta e última característica A possibilidade de objetividade repousa, por-
da sociologia eliasiana diz respeito ao desen- tanto, no método científico.
volvimento do conhecimento. O principal Dessa discussão de Weber, o que está mais
problema a ser enfrentado por uma teoria do próximo a Elias é a questão de que o objeto do
conhecimento é entender como os conceitos conhecimento social é constituído na própria
se transformam e se tornam mais adequados realidade; enfatiza, entretanto, que a questão
e apropriados à análise do processo social. A não é apenas metodológica, mas é preciso
crítica do autor tanto à sociologia como à compreender a relação do conhecimento e do
filosofia do conhecimento é de que são está- comportamento humanos, o próprio conheci-
ticas. Dessa forma, devem ser transformadas mento científico sendo uma possibilidade
em análises processuais por meio do estudo engendrada pelo estágio da sociedade. Assim
do desenvolvimento dos próprios conceitos. como não há o envolvimento total, o distan-
Da mesma forma que os processos culturais ciamento também não é completo. Afirma
estão relacionados ao processo da civilização, Elias que apenas os bebês e os adultos insanos
o conhecimento não é algo separado da têm a possibilidade de se envolverem tanto a
sociedade – uma mudança no primeiro é ponto de abandonar seus sentimentos presen-
também um dos aspectos de uma mudança tes ou, no outro extremo, só eles podem ficar
no segundo11 (Wilson, 1960-1962, p. 38). completamente alheios ao que se passa ao seu
A princípio bastante semelhantes aos redor (Elias, 1956, p. 226 apud Mennell,
conceitos de objetividade e neutralidade, 1992, p. 161).
desenvolvidos por Weber em Ciência e políti- Assim como o comportamento humano
ca, duas vocações (1993) e em “A ‘objetividade’ oscila entre os dois extremos – envolvimento
do conhecimento nas ciências sociais” (1991), e distanciamento completos –, também é
Elias utiliza os conceitos de envolvimento possível observar essa mesma oscilação nos
(involvement) e distanciamento (detachment). diferentes grupos humanos. As reações às
Para Weber, a realidade, sendo múltipla e forças da natureza – tempestade, fogo ou do-
multifacetada, só pode ser estudada a partir de ença, por exemplo – variam de indivíduo
um recorte feito pelo pesquisador. O cientista para indivíduo e de situação para situação.
define, portanto, um fragmento que conside- Contudo, nas sociedades contemporâneas,

102
científicas, os conceitos utilizados para falar, em detrimento de sociologia figuracional,
pensar e agir representam um alto grau de dis- pois entendia que, além deste estar sendo
tanciamento (Mennell, 1992, p. 161). O utilizado de uma forma estática, ou seja,
distanciamento é uma condição necessária exatamente o oposto do que tinha em men-
para o desenvolvimento da ciência, te, uma palavra, seja ela qual for, não é sufi-
ciente para resolver problemas teóricos. Já o
[…] se as pessoas têm possibilidade de termo processual, por ser de uso corrente,
observar a relação dos elementos em um dava menos margem à interpretação errônea
processo com um certo distanciamento, re- do que era considerado por ele um dos prin-
lativamente livres de fantasias emocionais e cípios fundantes de sua sociologia.
de uma forma realista, então elas podem for- De qualquer forma, ambas as denomi-
mar uma representação simbólica – uma
nações são adequadas já que ressaltam sua
perspectiva analítica e cognitiva, ou seja, seu
“teoria”, um “modelo” (Idem, p. 164).
modo de olhar para a sociedade e interpretá-
la. A figuração é uma forma de olhar para os
A relação entre os conceitos de envolvi-
dois pilares da sociologia, indivíduo e socie-
mento/distanciamento e sociogênese/psico-
dade, de forma articulada. Como bem mos-
gênese é forjada n’O processo civilizador: um tra Waizbort, “não há ‘indivíduo’, mas ape-
aumento nos padrões científicos de distancia- nas, e precisamente, ‘indivíduo’na sociedade;
mento requer um aumento similar, ao longo não há ‘sociedade’, mas apenas, e precisa-
de várias gerações, nos padrões de auto-con- mente, ‘sociedade’ no indivíduo” (1999, p.
trole, internalizados ao longo do crescimento 92). A noção de processo já está implícita: o
individual (Mennell, 1998, p. 163). Em processo de fazer-se do indivíduo na socieda-
outras palavras, a “cientificização” do conhe- de e da sociedade no indivíduo.
cimento humano faz parte do mesmo movi- Essa questão abre espaço para finalizar
mento em direção a um maior auto-controle este texto discutindo um ponto de extrema
e capacidade de previsibilidade. importância: a recusa de Elias à sociologia
normativa. Em sua visão, a sociologia não
trabalha com o “dever ser”, ao pesquisador
Conclusão não cabe dizer o que é melhor. Assim co-
mo não cabe desenvolver conceitos onde
A sociologia de Elias é conhecida tanto será encaixada a realidade estudada. Elias
por sociologia figuracional como por sociolo- é, antes de tudo, empírico. A compreensão
gia processual. O termo figuração, provavel- da dinâmica social e a própria teoria sur-
mente por não ser de uso corrente, foi ado- gem do trabalho de investigação e não de
tado por intelectuais que não concordavam “especulações teóricas e epistemológicas”
com a teoria de Elias, chamando o grupo (Heinich, 2001, p. 157). O cientista é, pa-
oponente de sociologia figuracional; o mes- ra Elias, um destruidor de mitos – obser-
mo rótulo foi posteriormente adotado tam- vando os fatos, luta por substituir mitos,
bém por seus seguidores, que assim se refe- idéias religiosas etc., por teorias testáveis,
riam a si mesmos. Não é por outro motivo verificáveis e susceptíveis de correção por
que o newsletter publicado pela Fundação meio da observação. Contudo, observa ele,
Norbert Elias chama-se Figurations. Entre-
tanto, com o tempo, Elias passou a mostrar […] a tarefa que a ciência tem de perseguir os
simpatia pelo termo sociologia processual mitos até a morte e de demonstrar que certas

103
crenças generalizadas não são baseadas nos fac- anti-eliasiano do que se apropriar de seus
tos nunca será totalmente realizada, pois que, exemplos para discutir uma outra realidade.
tanto dentro como fora dos grupos de cientis- Elias foi, muitas vezes, acusado de ser euro-
tas especializados, há sempre quem converta as cêntrico por falar sobre o processo da civili-
teorias científicas em sistemas de crenças. zação baseando-se apenas em dados sobre a
Extrapolam-se as teorias e usam-se de um mo- Europa. Contudo, em nenhum momento
do perfeitamente divorciado de uma investiga- ele afirma que suas análises e conclusões são
ção dos factos teoricamente orientada (Elias, válidas para outras regiões, mas nos incenti-
1970, pp. 55-56). va a estudar empiricamente nossos próprios
processos. Elias não nos convida a repetir
Na “Introdução” deste texto afirmei que seus achados, mas a pesquisar outras figura-
a importância de Elias no campo da sociolo- ções e processos. Apropriando-me da expres-
gia pode ser percebida nas citações de suas são utilizada por Goudsblom (2001), Elias
obras. De certa forma, não há nada mais nos convida a pensar com ele e a partir dele.

Notas

1. As datas de publicação a seguir dizem respeito às publicações brasileiras. Contudo, há


publicações anteriores em português e espanhol.
2. Neste texto, darei preferência à edição inglesa revista, publicada em um único volume
(Elias, 2000).
3. Para uma visão geral das resenhas publicadas à época, ver Goudsblom (1994).
4. A tradução literal do título em alemão é O que é sociologia?, a meu ver muito mais eluci-
dativo.Obra infelizmente ainda não publicada no Brasil, disponível em nossa língua ape-
nas a edição portuguesa (Elias, 1970).
5. Esse segundo significado constitui parte do conceito de ofensiva civilizatória, que deverá
se analisado com propriedade mais adiante.
6. Esse ponto nos dá uma pista sobre como Elias trabalha seu material empírico: os livros,
as pinturas etc., de diversas épocas históricas, são utilizados para entender os próprios
valores da época e da classe que representam. Por exemplo, utiliza poemas líricos para
entender as diferenças entre diversos países (Elias, 1980). Enquanto o “‘processo civiliza-
dor’ refere-se a mudanças na estrutura da personalidade, ‘processos culturais’ referem-se a
mudanças nos padrões simbólicos produzidos pelas pessoas”. Esses dois processos, afirma
o autor, são inseparáveis, assim como o desenvolvimento da economia, do conhecimen-
to etc. também devem ser relacionados ao processo civilizador.
7. Sua posição teórica é bem marcada na “Introdução” à edição de 1969 do The civilizing
process (2000) e no livro Introdução à sociologia (1970). Quando escreveu O Processo, Elias
estava mais preocupado em apresentar sua análise do que em criticar outras posições teó-
ricas e demarcar a sua própria. Passados trinta anos, e tendo sido muito mal compreen-
dido, veio a necessidade dessa demarcação. Se n’O Processo constrói empiricamente seus

104
conceitos, na “Introdução” à edição de 1969 e na Introdução à sociologia dá um status teó-
rico à sua produção intelectual. Na parte que se segue deste artigo, farei várias menções a
esses textos.
8. Há uma grande discussão nos grupos de sociólogos adeptos da sociologia de Norbert Elias
a respeito do uso do termo configuração ou figuração. Essa questão não advém de pro-
blemas de tradução do alemão para o inglês; o próprio autor, cuja obra foi escrita em sua
maior parte em inglês, utilizou ambos os termos. Em grande parte de sua obra, utiliza
“configuração”, palavra escolhida com o principal objetivo de fazer face ao termo parso-
niano “sistema”. Apenas mais tarde em sua carreira é que passou a questionar a palavra
em si, não seu significado. O ponto que incomodava Elias é que, no latim, o prefixo con
significa exatamente “com”, ou seja, se figuração (figuration) quer dizer padrão (em inglês,
pattern), con-figuração (configuration) significaria com padrão (with pattern). Entretanto,
como o objetivo do autor era entender o padrão em si, o prefixo con passou a ser visto
como redundante, e ele passou a preferir o uso de figuração (Landini e Passiani, 2001).
Pessoalmente, prefiro configuração, principalmente por ser esse um termo mais corrente
na língua portuguesa – o uso de vocabulário trivial era também uma das preocupações de
Elias. Entretanto, como a tendência internacional é utilizar o termo figuração, farei essa
opção neste texto, com exceção, é claro, das citações, que respeitarão o texto original.
9. Ao afirmar que o comportamento das pessoas pode ser entendido apenas se o estudo se
iniciar pelas configurações, Elias retoma, nesse seu livro de 1970, um ponto amplamen-
te discutido n’O processo civilizador, qual seja, o da relação entre dinâmica social e estru-
tura da personalidade.
10. Muitas vezes, na falta de uma palavra que transmita a noção de processo, o autor utiliza
neologismos, tal qual “cortização” (em inglês, língua em que escreveu grande parte de sua
obra, courtization).
11. Ao longo deste texto, fiz vários comentários a respeito da recusa de Elias em aceitar a sepa-
ração entre os conceitos de indivíduo e sociedade. Para ele, não é suficiente constatar que
essa separação prevalecia em sua época, mas faz também uma leitura processual dessa
questão, ou seja, usa sua sociologia do conhecimento para compreender a formação des-
ses conceitos e sua separação. Essa análise pode ser encontrada na “Introdução” à edição
de 1969 (Elias, 2000) e no A sociedade dos indivíduos (1994a).

Bibliografia

BURGUIÈRE, André. (2001), “Processo de civilização e processo nacional em Norbert Elias”,


in Alain Garrigou e Bernard Lacroix, Norbert Elias: a política e a história, São
Paulo, Perspectiva.
COHN, Gabriel. (1991), “Introdução”, in _________ (org.), Weber. São Paulo, Ática (col.
Grandes Cientistas Sociais, 13).
DUNNING, Eric & MENNELL, Stephen. (2003), Norbert Elias. Londres/New Delhi,
Thousand Oaks/Sage Publications, 4 vols.

105
DUNNING, Eric & MENNELL, Stephen. (1997), “Prefácio à edição inglesa”, in Norbert
Elias, Os alemães: a luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX, Rio
de Janeiro, Jorge Zahar.
DUNNING, Eric & KRIEKEN, Robert van. (1997), “‘Translators’ introduction to Norbert
Elias’s: ‘towards a theory of social processes’”. British Journal of Sociology, 48 (3):
353-354.
ELIAS, Norbert. (1970), Introdução à sociologia. Lisboa, Edições 70.
_________. (1980), Cultural and civilising processes. Trabalho apresentado em Amsterdam em
27/02/1980 (mimeo.).
_________. (1990), O processo civilizador. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, vol. 1.
_________. (1993), O processo civilizador. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, vol. 2
_________. (1994a), A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar.
_________. (1994b), Mozart: sociologia de um gênio. Rio de Janeiro, Jorge Zahar.
_________. (1997a), Os alemães: a luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX.
Rio de Janeiro, Jorge Zahar.
_________. (1997b), “Towards a theory of social processes: a translation”. British Journal of
Sociology, 48 (3): 355-383.
_________. (1998 [1956]), “Problems of involvement and detachment”. Bitish Journal of
Sociology, 7 (3).
_________. (2000), The civilizing process: sociogenetic and psychogenetic investigations.
Massachusetts, Blackwell.
_________. (2001a), A sociedade de corte: investigação sobre a sociologia da realeza e da aristo-
cracia de corte. Rio de Janeiro, Jorge Zahar.
_________. (2001b), Norbert Elias por ele mesmo. Rio de Janeiro, Jorge Zahar.
ELIAS, Norbert & Scotson, John L. (2000), Os estabelecidos e os outsiders: sociologia das rela-
ções de poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro, Jorge Zahar.
FLETCHER, Jonathan. (1997), Violence and civilization: an introduction to the work of
Norbert Elias. Cambridge, UK, Polity Press.
GARRIGOU, Alain & LACROIX, Bernard. (2001), “Introdução – Norbert Elias: o trabalho
de uma obra”, in Alain Garrigou e Bernard Lacroix, Norbert Elias: a política e a his-
tória, São Paulo, Perspectiva.
GOUDSBLOM, Johan. (1994), “The theory of the civilizing process and its discontents”.
Trabalho apresentado no Zesde Sociaal-Wetenschappelijke Studiedagen.
Amsterdam (mimeo.).
_________. (1998 [1977]), “Sociology in the balance”. Oxford, Basil Blachwell.

106
_________. (2001), “Pensar com Elias”, in Alain Garrigou e Bernard Lacroix, Norbert Elias:
a política e a história, São Paulo, Perspectiva.
GOUDSBLOM, Johan & MENNELL, Stephen (eds.). (1998), The Norbert Elias reader.
Oxford, UK and Malden, USA, Blachwell Publishers.
HEINICH, Nathalie. (2001), A sociologia de Norbert Elias. Bauru, SP, Edusc.
LANDINI, Tatiana Savoia. (2006), Horror, honra e direitos: violência sexual contra crianças e
adolescentes no século XX. Tese de doutorado, São Paulo, FFLCH/ USP.
LANDINI, Tatiana Savoia & PASSIANI, Enio. (2001), Entrevista com Stephen Mennell, Eric
Dunning e Johan Goudsblom (mimeo.).
MENNELL, Stephen. (1992), “Momentum and history”, in Joseph Melling e Jonathan Barry
(eds.), Culture in history: production, consumption and the values in historical pers-
pective. Exeter, UK, University of Exeter Press.
_________. (1998), Norbert Elias: an introduction. Dublin, University College Dublin Press.
ORTIZ, Renato (org). (1994), Pierre Bourdieu. São Paulo, Ática (col. Grandes Cientistas
Sociais, 39).
SPIERENBURG, Peter. (2001), “Violence and the civilizing process: does it work?”. Crime,
Histoire & Sociétés / Crime, History and Societies, 5 (2): 87-105.
WAIZBORT, Leopoldo. (1999), “Elias e Simmel”, in Leopoldo Waizbort (org), Dossiê
Norbert Elias, São Paulo, Edusp.
WEBER, Max. (1991), “A ‘objetividade’ do conhecimento nas ciências sociais”, in Gabriel
Cohn (org.), Weber, São Paulo, Ática (col. Grandes Cientistas Sociais, 13).
WEBER, Max. (1993), Ciência e política, duas vocações. São Paulo, Cultrix.
WILSON, Ian. (1960-1962), Sociological theory seminar. Notes on Elias/Cohen course (mimeo.).

• Artigo recebido em Jul/2006


• Aprovado em Ago/2006

Resumo

A Sociologia de Norbert Elias

O presente artigo objetiva discutir os princípios básicos da sociologia de Norbert Elias.


Quatro princípios foram levantados e analisados: sociologia diz respeito a pessoas no plural
(figurações); as figurações formadas pelas pessoas estão continuamente em fluxo; os desen-
volvimentos de longo prazo são em grande medida não planejados e não previsíveis; o de-
senvolvimento do saber dá-se dentro das figurações, e é um dos aspectos importantes do

107
desenvolvimento. O texto conclui discutindo a importância do trabalho empírico na socio-
logia de Elias, possibilita a construção teórica de seus conceitos.

Palavras-chaves: Teoria sociológica; Norbert Elias; Sociologia figuracional; Sociologia processual.

Abstract

The Sociology of Norbert Elias

The present article aims at discussing the basic principles of the sociology of Norbert Elias.
Four principles are raised and analyzed: the sociology is about people in plural (figurations);
figurations formed by people are continuously flowing; long term developments are mostly
unplanned and unpredictable; knowledge development takes place within figurations, and is
one of the important aspects of its development. The text is concluded discussing the impor-
tance of the empirical work in the sociology of Elias, making possible a theoretical approach
of his concepts.

Keywords: Sociological theory; Norbert Elias; Figurational sociology; Processual sociology.

Résumé

La Sociologie de Norbert Elias

Cet article propose une discussion sur les principes de base de la sociologie de Norbert Elias.
Quatre principes ont été identifiés et analysés : la sociologie se réfère à des personnes au pluriel
(figurations) ; les figurations formées par des personnes sont en flux continu ; les développe-
ments qui possèdent un long délai sont en grande mesure non planifiés et non prévisibles ; le
développement du savoir se fait à l’intérieur des figurations et constitue l’un des aspects impor-
tants du développement. Le texte se conclut par la discussion de l’importance du travail empi-
rique dans la sociologie de Elias et permet la construction théorique de ses concepts.

Mots-clés: Théorie sociologique; Norbert Elias; Sociologie figurative; Processus sociologique.

108
Programas de Pós-Graduação e
Centros de Pesquisa Filiados à Anpocs

Casa de Oswaldo Cruz Departamento de Fundação Casa de Rui Barbosa


Pesquisa - COC www.casaruibarbosa.gov.br
www.coc.fiocruz.br
Fundação Joaquim Nabuco Instituto de
Centro Brasileiro de Análise e Pesquisas Sociais - FJN
Planejamento - CEBRAP www.fundaj.gov.br
www.cebrap.org.br
Instituto de Estudos da Religião - ISER
Centro de Estudos Africanos - CEA - USP www.iser.org.br
www.fflch.usp.br/cea
Instituto de Relações Internacionais IRI-
Centro de Estudos da Religião - CER-USP PUC-RJ
www.fflch.usp.br/cer www.puc-rio.br/sobrepuc/depto/iri

Centro de Estudos de Cultura IUPERJ - Programa de Pós-Graduação em


Ciência Política
Contemporânea - CEDEC
www.iuperj.br/pos_graduacao
www.cedec.org.br
IUPERJ - Programa de Pós-Graduação em
Centro de Estudos Rurais e Urbanos
Sociologia
CERU-USP
www.iuperj.br/pos_graduacao
www.fflch.usp.br/prpesq/ceru/htm
Museu Paraense Emilio Goeldi - UFPA
Centro de Pesquisa e Docuementação www.museu-goeldi.br/informacaocientifica
História Contemporânea CPDOC - FGV-
RJ Núcleo de Altos Estudos Amazônicos -
www.cpdoc.fgv.br NAEA - UFPA
www.naea.ufpa.br
Centro Josué de Castro
www.josuedecastro.org.br Núcleo de Apoio à Pesquisa sobre
Democracia e Desenvolvimento -
Centro Recursos Humanos - CRH - UFBA NADD/USP
www.crh.ufba.br www.nadd.prp.usp.br
FGV - Programa de Pós-Graduação em Núcleo de Documentação e Informação
Administração Pública e Governo Histórica - NDHIR/UFPB
www.easp.fgvsp.br www.reitoria.ufpb.br/ndhir

109
Núcleo de Estudos de Gênero - PAGU - UFPA - Programa de Mestrado em
UNICAMP Antropologia
www.unicamp.br/pagu/consulta.htm www.ufpa.br/cfch
Núcleo de Estudos de Políticas Públicas - UFPB - Programa de Pós-Graduação em
NEPP - UNICAMP Sociologia
www.nepp.unicamp.br www.prpg.ufpb.br
Núcleo de Estudos de População - NEPO - UFPE - Pós-Graduação em Ciência Política
UNICAMP www.politica.ufpe.br
www.unicamp.br/nepo
UFPE - Programa de Pós-Graduação em
PUC-MG - Mestrado em Ciências Sociais - Antropologia
Gestão Cidades www.ufpe.br/antropologia
www.pucminas.br/cursos/mestrado
UFPE - Programa de Pós-Graduação em
PUC-SP - Programa de Pós-Graduação em Sociologia
Ciências Sociais www.ufpeppgs.hpg.ig.com.br
www.pucsp.br/pos
UFPR - Programa de Pós-Graduação em
UERJ - Programa de Pós-Graduação em
Antropologia Social
Ciências Sociais
www.humanas.ufpr.br/pos/antropol
www.2.uerj.br/~ppcis
UFPR - Programa de Pós-Graduação em
UFBA - Programa de Pós-Graduação em
Sociologia
Ciências Sociais
www.humanas.ufpr.br/pos/socio
www.ppgs.ufba.br
UFRGS - Programa de Pós-Graduação e
UFC - Programa de Pós-Graduação em
Sociologia Planejamento Urbano Regional
www.ufc.br/posgraduacao www.ufrgs.br/propur

UFF - Programa de Pós-Graduação em UFRGS - Programa de Pós-Graduação em


Antropologia Antropologia Social
www.uff.br/ppga/dissertacoes.htm www.ufrgs.br/ifch/ppgas

UFF - Programa de Mestrado em Ciência UFRGS - Programa de Pós-Graduação em


Política-UFF Ciência Política
www.uff.br/pgcp www.cienciapolitica.ufrgs.br

UFMG - Programa de Mestrado em UFRGS - Programa de Pós-Graduação em


Ciência Política Sociologia
www.fafich.ufmg.br/dcp/mestrado.htm www.ufrgs.br/ifch/posgrad/sociologia

UFMG - Programa de Mestrado em UFRJ - Programa de Pós-Graduação em


Sociologia e Antropologia Antropologia Social - Museu Nacional
www.fafich.ufmg.br/soa www.acd.ufrj.br/~museuhp/pesq.htm

110
UFRJ - Programa de Pós-Graduação em UNESP/UNICAMP/PUC-SP - Programa
Sociologia e Antropologia Social de Pós-Graduação em Relações
www.ifcs.ufrj.br/~ppgsa Internacionais
UFRRJ - Curso de Pós-Graduação em www.unesp.br/santiagodantassp ; www.uni-
Desenvolvimento Agrário camp.br/santiagodantassp;
www.alternex.com.br/~cpda www.pucsp.br/santiagodantassp

UFSC - Programa de Pós-Graduação em UNICAMP - Programa de Doutorado em


Antropologia Social Ciências Sociais
www.chf.ufsc.br/~antropos www.ifch.unicamp.br/pos
UFSC - Programa de Pós-Graduação em UNICAMP - Programa de Mestrado em
Sociologia Política Antropologia Social
www.reitoria.ufsc.br/prpg
www.ifch.unicamp.br/pos
UFSCar - Programa de Pós-Graduação em
UNICAMP - Programa de Mestrado em
Ciências Sociais
www.ufscar.br/~ppgcso Ciência Política
www.ifch.unicamp.br/pos
UNB - Programa de Mestrado em Ciência
Política UNICAMP - Programa de Pós-Graduação
www.unb.br/ipol em Sociologia
www.ifch.unicamp.br/pos
UNB - Programa de Mestrado em Relações
Internacionais UNICAMP - Programa de Política
www.unb.br/dpp.ppg.htm Científica Tecnológica
UNB - Programa de Pós-Graduação em www.ige.unicamp.br/dcpt
Antropologia Social
UNISINOS - Programa de Pós-Graduação
www.unb.br/ics/dan/manual_pos
em Ciências Sociais Aplicadas
UNB - Programa de Pós-Graduação em www.unisinos.br/ppg.ciencias_sociais
Sociologia
www.unb.br/ics/sol/posgraduacao USP - Programa de Pós-Graduação em
Antropologia
UNESP - Programa de Pós-Graduação em www.fflch.usp.br/da
Ciências Sociais
www.marilia.unesp.br/ensino/pos- USP - Programa de Pós-Graduação em
grad/ciencias_sociais Ciência Política
UNESP-Araraquara - Programa de Pós- www.fflch.usp.br/dcp
Graduação em Sociologia
USP - Programa de Pós-Graduação em
www.fclar.unesp.br/possoc
Sociologia
www.fflch.usp.br/ds

111
Fontes de Pesquisa

Arquivos e Centros de Documentação Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro


www.rio.rj.gov.br/arquivo/
Anarchy Archives Arquivo Histórico da Universidade Federal
dwardmac.pitzer.edu/anarchist_archives/
de Juiz de Fora
Archiv der socialen Demokratie www.clionet.ufjf.br/ahufjf/
www.fes.de/archive/index_gr.html
Arquivo Histórico do Museu Histórico Na-
Archives de France cional
www.archivesdefrance.culture.gouv.fr www.visualnet.com.br/mhn/
Arquivo Ana Lagôa Arquivo Histórico do Museu Imperial
www.arqanalagoa.ufscar.br
www.museuimperial.gov.br/arquivohistori-
Arquivo Central do Sistema de Arquivos da co.htm
unicamp
www.unicamp.br/suarq/siarq/ Arquivo Histórico Municipal de Salvador
www.pms.ba.gov.br/fgm
Arquivo de História da Ciência do MAST
www.mast.br/histciencia2.htm Arquivo Histórico Municipal de São Paulo
www.prodam.sp.gov.br/dph
Arquivo do Centro de Comunicação da
unicamp Arquivos do Komintern
www.unicamp.br/cco/areas/acervo/in-
e-mail: iisgmofl@glasnet.ru
dex.htm
Arquivo do Estado de São Paulo Arquivos Históricos/Centro de Lógica,
www.arquivoestado.sp.gov.br/ Epistemologia e História da Ciência da
unicamp
Arquivo Edgar Leuenroth www.cle.unicamp.br/arquivoshistoricos/
www.arquivo.ael.ifch.unicamp .br
Arquivo Multimeios/Instituto de Artes da
Archivo General de Indias
www.mcu.es/lab/archivos/AGI.html unicamp
www.iar.unicamp.br/multimeios/arquivo.htm
Archivo General de la Guerra Civil Espa-
ñola Arquivo Nacional
www.mcu.es/lab/archivos/SGV.html www.arquivonacional.gov.br

113
Arquivo Público da Cidade de Centro Brasileiro de Análise e Planejamen-
Belo Horizonte to (cebrap)
www.pbh.gov.br/cultura/arquivo www.cebrap.org.br
Arquivo Público do Distrito Federal Centro de Documentação Cultural Alexan-
www.arpdf.df.gov.br/ dre Eulalio da unicamp
www.unicamp.br/iel/cedae/cedae.html
Arquivo Público do Estado da Bahia
www.apeb.ba.gov.br/ Centro de Documentação e Informação em
Arte da Funarte (cedoc)
Arquivo Público do Estado do Espírito
www.funarte.gov.br/cdoc/
Santo (APEES)
www.ape.es.gov.br/web/index2.htm Centro de Documentação e Memória da
unesp
Arquivo Público do Estado do Pará
www.cedem.unesp.br/
www.arqpep.pa.gov.br/
Centro de Documentação e Referência Itaú
Arquivo Público do Estado do
Cultural (CDR)
Rio de Janeiro
www.itaucultural.org.br/quemso-
www.aperj.rj.gov.br/
mos/bd0.cfm?cd_pagina=120&cd_pagi-
Arquivo Público do Estado do Rio Grande na=120
do Sul
www.sarh.rs.gov.br/apers/ Centro de Documentação Maurício
Tragtenberg
Arquivo Público de Mato Grosso www.nobel.com.br/~cdmt/
www.apmt.mt.gov.br/
Centro de Documentação Memória Sindi-
Arquivo Público Estadual Jordão Emeren- cal da CUT
ciano (Estado de Pernambuco) www.cut.org.br/index.htm
www.fisepe.pe.gov.br/apeje/
Centro de Estudos Afro-Asiáticos – CEAA
Arquivo Público Estadual do Rio Grande www.candidomendes.br/ceaa
do Norte
www.ape.rn.gov.br/ Centro de Estudos da Metrópole
www.centrodametropole.org.br
Arquivo Público do Paraná
www.pr.gov.br/arquivopublico/ Centro de Estudos de Cultura Contempo-
rânea (cedec)
Arquivo Público Mineiro (APM) www.cedec.org.br
www.cultura.mg.gov.br/programas/cultu-
ra027.htm Centro de Memória da unicamp
www.unicamp.br/suarq/cmu/
Arquivo Público Municipal de Além Paraí-
ba – MG (Arquivo Público Municipal Ge- Centro de Pesquisa e Documentação de
raldo de Andrade Rodrigues) História Contemporânea do Brasil
www.arquivodealemparaiba.hpg.ig.com.br/ (CPDOC)
index.html www.cpdoc.fgv.br/comum/htm/

114
Consórcio de Informações Sociais – Associação Brasileira de Educação em
CIS/NADD Ciência da Informação (abecin).
www.nadd.prp.usp.br/piloto/index.aspx www.abecin.org/Home.htm

Fundação Arquivo e Memória de Santos Associação Brasileira de Normas Técnicas


www.web@santos.sp.gov.br (ABNT)
www.abnt.org.br/
Fundação Casa de Rui Barbosa
www.casaruibarbosa.gov.br/ Associação Brasiliense de Arquivologia
(ABARQ)
Fundação Joaquim Nabuco www.montess.com.br/dominio/abarq/fo-
www.fundaj.gov.br/ rum/default.asp

Fundação Osvaldo Cruz/Departamento de Associação de Amigos do Arquivo Público


Arquivo de Documentação do Estado de Santa Catarina
www.fiocruz.br/coc/dad1.html e-mail: associacaoamigos.sc@bol.com.br

Fundação Patrimônio Histórico da Energia Associação de Arquivistas de São Paulo


de São Paulo (ARQ-SP)
www.fphesp.org.br/ www.arqsp.org.br/

Associação dos Arquivistas do Estado do


Marxists.org Internet Archive
Rio Grande do Sul (AARS)
www.marxists.org/
www.arquivologia.ufsm.br/aars/
National Archives and Records Administra-
Associação dos Arquivistas Brasileiros
tion (NARA) (AAB)
www.nara.gov/ www.aab.org.br/
National Archives of Australia Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Gra-
www.naa.gov.au/ duação em Ciência da Informação e Biblio-
teconomia (ANCIB)
National Archives of Canada
www.alternex.com.br/~aldoibct/ancib.html
www.archives.ca/
Associação Nacional de Pós-Graduação e
Núcleo de Altos Estudos Amazônicos – Pesquisa em Ciências Sociais (anpocs)
NAEA www.anpocs.org.br
www.naea.ufpa.br
Conselho Nacional de Arquivo (conarq)
Núcleo de Estudos em Políticas Públicas da www.arquivonacional.gov.br/conarq/
Unicamp (nepp) index.htm
www.nepp.unicamp.br
Fórum Nacional de Dirigentes de Arquivos
Municipais
Associações e Conselhos e-mail: forumdam@uol.com.br
Arquivistas Associados (ARQAS) International Council on Archives
znap.to/arqas/ www.ica.org/

115
Bibliotecas Virtuais Instituto Superior de Estudos da Religião
www.iser.org.br
ABU: la Bibliothèque Universelle
abu.cnam.fr/ Instituto Universitário de Pesquisas do Rio
Bibliomania de Janeiro (iuperj)
www.bibliomania.com/ www.iuperj.br

Biblioteca Virtual Carlos Chagas Pontifícia Universidade Católica de Minas Ge-


www.prossiga.br/chagas/ rais (Graduação em Ciência da Informação)
www.inf.pucminas.br/ci/
Biblioteca Virtual de Ciências Sociais
www.prossiga.br/csociais/pacc/ Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
(Mestrado e Doutorado em Comunicação e
Biblioteca Virtual de Estudos Culturais
www.prossiga.br/estudosculturais/pacc/ Semiótica - área: Tecnologias da Informação)
www.pucsp.br/~cos-puc/
Biblioteca Virtual Prof. José Roberto do
Amaral Lapa Universidade do Rio de Janeiro
143.106.59.6/index.htm (Graduação em Arquivologia)
www.unirio.br/cch/index.htm
Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
www.bibvirt.futuro.usp.br/ Universidade Estadual de Londrina/Depto. de
Ciências da Informação/Depto. de História
Bibliotecas Virtuais Temáticas
www.prossiga.br/bvtematicas/ (Graduação em Arquivologia; Especializa-
ção em Gerência de Unidades e Serviços de
UNESBIB - Bibliographic records of Unes- Informação)
co documents, publications an Library col- www.uel.br/ceca/cinf/arquivologia.htm
lections
unesdoc.unesco.org/ulis/unesbib.html Universidade Federal de Santa Maria/Ar-
quivologia
The Library of Congress
(Graduação em Arquivologia)
www.loc.gov
http://catalog.loc.gov www.arquivologia.ufsm.br/

SiBi/USP Universidade Federal Fluminense/Depto.


www.usp.br/sibi de Documentação
(Graduação em Arquivologia, Especializa-
Faculdades e Institutos ção em Planejamento, Organização e Dire-
ção de Arquivos)
Instituto Brasileiro de Informação em
Ciência e Tecnologia (IBICT) www.uff.br/#
www.ibict.br/ Universidade Nacional de Brasília/Depto.
Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) de Ciência da Informação e Documentação
(Especialização em Organização de Arquivos) (Bacharelado em Arquivologia)
www.ieb.usp.br/ www.unb.br/deg/cursos.htm

116
Universidade Nacional de Brasília/Depto. Rede Eletrônica de História do Brasil
de Ciência da Informação e Documentação (ClioNet)
(Mestrado em Biblioteconomia e Docu- www.clionet.ufjf.br/
mentação - área: Planejamento de Processos
Documentários)
Museus
www.unb.br/dpp/stricto/stricto-13.htm#s
International Museum of Photography and
Universidade Nacional de Brasília/Depto. Film (George Eastman House)
de Ciência da Informação e Documentação www.eastman.org/
(Doutorado em Ciência da Informação -
área: Transferência da Informação) Memorial do Imigrante
www.unb.br/dpp/stricto/stricto-13.htm#s www.memorialdoimigrante.sp.gov.br/

Universidade de São Paulo/Depto. de Bi- Museu da Pessoa


blioteconomia e Documentação www2.uol.com.br/mpessoa/
(Mestrado e Doutorado em Ciências - área: Museum of Television & Radio, The
Ciências da Informação e Documentação www.mtr.org/
www.eca.usp.br/departam/cbd/cursos/pos-
grad/index.htm
Publicações Eletrônicas

Guias, Banco de Dados Archival Science


e Listas de Discussão www.wkap.nl/journals/archival_science

Comissão de Patrimônio Cultural (CPC) Arquivologia no Brasil


www.usp.br/cpc/cpcinfo.html www.cpdoc.fgv.br/comum/htm/

Guia da Internet no Brasil para Cientistas ASIS Thesaurus of Information Science,


Sociais, Historiadores e Arquivistas (do 2nd Edition (by Jessica Milstead)
CPDOC) www.asis.org/Publications/Thesaurus/tnho-
me.htm
www.cpdoc.fgv.br/comum/htm/
Boletim do Arquivo Edgard Leuenroth – o
infocafé
AEL via Internet
www.infocafe.cjb.net/
e-mail: andrew@unicamp.br
Lista de Arquivistas, Arquivos e Arquivologia Boletim Eletrônico da Associação Nacional
br.egroups.com de Pós-graduação e Pesquisa em Ciências
e-mail: owner@egroups.com Sociais (anpocs on-line)
www.anpocs.org.br/boletim/boletim.htm
Lista Eletrônica de História do Brasil
(HBrasil-L) Bulletin des Archives de France-Publications
www.clionet.ufjf.br/hbr-l/index.htm www.archivesdefrance.culture.gouv.fr/fr/pu-
e-mail: hbr-mod@ah.ufjf.br blications/

117
Bulletin of the American Society for Infor-
mation Science and Technology
www.asis.org/Bulletin/

Journal of the American Society for Infor-


mation Science and Technology
www.asis.org/Publications/JASIS/jasis.html

Informação e Sociedade - Estudos


www.informacaoesociedade.ufpb.br/

Revista Brasileira de História


www.fflch.usp.br/dh/anpuh/pu-
blic_html/revista.htm

Revista Ciência da Informação (Cionline)


www.ibict.br/cionline/300101/index.htm

Scientific Electronic Library Online (Scielo


Brazil)
www.scielo.br/

118
Trabalhos Publicados: 1975-2005

BIB 1 BIB 10
Eli Diniz Cerqueira e Renato Raul Bos- Lia F. G. Fukui, “Estudos e Pesquisas
chi, “Estado e Sociedade no Brasil: Uma Re- sobre Família do Brasil.”
visão Crítica”.
BIB 11
BIB 2 Luiz Antonio Cunha, “Educação e So-
Anthony Seeger e Eduardo Viveiros de ciedade no Brasil”; Licia do Prado Valladares
Castro, “Pontos de Vista sobre os Índios Bra- e Ademir Figueiredo, “Habitação no Brasil:
sileiros: Um Ensaio Bibliográfico”. Uma Introdução à Literatura Recente”.
BIB 3 BIB 12
Luiz Werneck Vianna, “Estudos sobre Maria Teresa Sadek de Souza, “Análise
Sindicalismo e Movimento Operário: Rese- sobre o Pensamento Social e Político Brasi-
nha de Algumas Tendências”. leiro”; José Guilherme C. Magnani, “Cultura
BIB 4 Popular: Controvérsias e Perspectivas”.
Lúcia Lippi Oliveira, “Revolução de BIB 13
1930: Uma Bibliografia Comentada”.
Gerson Moura e Maria Regina Soares de
BIB 5 Lima, “Relações Internacionais e Política Ex-
Bolivar Lamounier e Maria D’Alva Gil terna Brasileira: Uma Resenha Bibliográfica”.
Kinzo, “Partidos Políticos, Representação e
Processo Eleitoral no Brasil, 1945-1978”. BIB 14
Licia Valladares e Magda Prates Coelho,
BIB 6 “Pobreza Urbana e Mercado de Trabalho:
Alba Zaluar Guimarães, “Movimentos Uma Análise Bibliográfica”.
‘Messiânicos’ Brasileiros: Uma Leitura”.
BIB 15
BIB 7 José Cesar Gnacarini e Margarida Mou-
Roque de Barros Laraia, “Relações entre ra, “Estrutura Agrária Brasileira: Permanên-
Negros e Brancos no Brasil”. cia e Diversificação de um Debate”; Bila
BIB 8 Sorj, “O Processo de Trabalho na Indústria:
Amaury de Souza, “População e Política Tendências de Pesquisa”.
Populacional no Brasil: Uma Resenha de Es- BIB 16
tudos Recentes”. Aspásia Camargo, Lucia Hippolito e Va-
BIB 9 lentina da Rocha Lima, “Histórias de Vida
Maria Valéria Junho Pena, “A Mulher na na América Latina”; Neuma Aguiar, “Mu-
Força de Trabalho”; Pedro Jacobi, “Movi- lheres na Força de Trabalho na América La-
mentos Sociais Urbanos no Brasil”. tina: Um Ensaio Bibliográfico”.

119
BIB 17 tro, “Governo Local, Processo Político e
Julio Cesar Melatti, “A Antropologia no Equipamentos Sociais: Um Balanço Biblio-
Brasil”; Luiz Werneck Vianna, “Atualizando gráfico”.
uma Bibliografia: ‘Novo Sindicalismo’, Ci-
BIB 26
dadania e Fábrica”.
Maria Rosilene Alvim e Licia do Prado
BIB 18 Valladares, “Infância e Sociedade no Brasil:
Rubem Cesar Fernandes, “Religiões Po- Uma Análise da Literatura”.
pulares: Uma Visão Parcial da Literatura Re-
BIB 27
cente”; Mariza Corrêa, “Mulher e Família:
Teresa Pires do Rio Caldeira, “Antropolo-
Um Debate sobre a Literatura Recente”.
gia e Poder: Uma Resenha de Etnografias
BIB 19 Recentes”; Cláudia Fonseca, “A História So-
Edmundo Campos Coelho, “A Instituição cial no Estudo da Família: Uma Excursão
Militar no Brasil”. Interdisciplinar”.
BIB 20 BIB 28
Maria Alice Rezende de Carvalho, “Le- Maria Lúcia Teixeira Werneck Vianna, “A
tras, Sociedade & Política: Imagens do Rio Emergente Temática da Política Social na Bi-
de Janeiro”. bliografia Brasileira”; Anette Goldberg, “Femi-
nismo no Brasil Contemporâneo: O Percurso
BIB 21
Intelectual de um Ideário Político”; Maria
Sonia Nahas de Carvalho, “Um Ques-
Cecília Spina Forjaz, “Cientistas e Militares no
tionamento da Bibliografia Brasileira sobre Desenvolvimento do CNPq (1950-1985)”.
Políticas Urbanas” e Tania Salem, “Famílias
em Camadas Médias: Uma Perspectiva An- BIB 29
tropológica”. Emília Viotti da Costa, “Estrutura versus
Experiência, Novas Tendências da História do
BIB 22 Movimento Operário e das Classes Trabalha-
Inaiá Maria Moreira de Carvalho, “Ur- doras na América Latina: O Que se Perde e o
banização, Mercado de Trabalho e Pauperi- Que se Ganha”; Berta G. Ribeiro, “Perspectivas
zação no Nordeste Brasileiro: Uma Resenha Etnológicas para Arqueólogos: 1957-1988”.
de Estudos Recentes”.
BIB 30
BIB 23 José Sávio Leopoldi, “Elementos de Et-
Roque de Barros Laraia, “Os Estudos de noastronomia Indígena do Brasil: Um Ba-
Parentesco no Brasil”; Pedro Jacobi, “Movi- lanço”; Rafael de Menezes Bastos, “Musicolo-
mentos Sociais Urbanos no Brasil: Reflexão gia no Brasil Hoje”; Laís Abramo, “Novas
sobre a Literatura dos Anos 70 e 80”. Tecnologias, Difusão Setorial, Emprego e
Trabalho no Brasil: Um Balanço”.
BIB 24
Angela de Castro Gomes e Marieta de BIB 31
Moraes Ferreira, “Industrialização e Classe Helena Hirata, “Elisabeth Souza Lobo
Trabalhadora no Rio de Janeiro: Novas Pers- 1943-1991”; Elisabeth Souza Lobo, “O Tra-
pectivas de Análise”. balho como Linguagem: O Gênero no Tra-
balho”; Maria Helena Guimarães de Castro,
BIB 25 “Interesses, Organizações e Políticas So-
Giralda Seyferth, “Imigração e Coloni- ciais”; Antonio Sérgio Alfredo Guimarães,
zação Alemã no Brasil: Uma Revisão da Bi- “Classes, Interesses e Exploração: Comentá-
bliografia”; Maria Helena Guimarães de Cas- rios a um Debate Anglo-Americano”.

120
BIB 32 Ferreira, “O Rio de Janeiro Contemporâ-
Angela M. C. Araújo e Jorge R. B. Tapia, neo: Historiografia e Fontes – 1930-1975”.
“Corporativismo e Neocorporativismo: O
BIB 37
Exame de Duas Trajetórias”; José Ricardo Ra-
Fernando Limongi, “O Novo Institucio-
malho, “Controle, Conflito e Consentimen-
to na Teoria do Processo de Trabalho: Um nalismo e os Estudos Legislativos: A Litera-
Balanço do Debate”; Marcos Luiz Bretas, “O tura Norte-Americana Recente”; Nadya
Crime na Historiografia Brasileira: Uma Re- Araujo Castro e Marcia de Paula Leite, “A So-
visão na Pesquisa Recente”. ciologia do Trabalho Industrial no Brasil:
Desafios e Interpretações”; Maria Julia Ca-
BIB 33 rozzi, “Tendências no Estudo dos Novos
Paulo Freire Vieira, “A Problemática Movimentos Religiosos na América: Os Úl-
Ambiental e as Ciências Sociais no Brasil: timos 20 Anos”.
1980-1990”; Guita Grin Debert, “Família,
Classe Social e Etnicidade: Um Balanço da BIB 38
Bibliografia sobre a Experiência de Envelhe- Theodore Lowi, “O Estado e a Ciência
cimento”; Marco Antonio Gonçalves, “Os Política ou Como nos Convertemos Naqui-
Nomes Próprios nas Sociedades Indígenas lo que Estudamos”; Luis Fernandes, “Leitu-
das Terras Baixas da América do Sul”. ras do Leste: O Debate sobre a Natureza das
Sociedades e Estados de Tipo Soviético (Pri-
BIB 34 meira Parte – As Principais Interpretações
Olavo Brasil de Lima Junior, Rogério Au- Ocidentais”; Julia Silvia Guivant, “Encon-
gusto Schmitt e Jairo César Marconi Nicolau, tros e Desencontros da Sociologia Rural
“A Produção Brasileira Recente sobre Parti- com a Sustentabilidade Agrícola: Uma Revi-
dos, Eleições e Comportamento Político: são da Bibliografia”.
Balanço Bibliográfico”; Arabela Campos Oli-
ven, “O Desenvolvimento da Sociologia da BIB 39
Educação em Diferentes Contextos Históri- Marta T. S. Arretche, “Emergência e De-
cos”; Wilma Mangabeira, “O Uso de Com- senvolvimento do Welfare State: Teorias Ex-
putadores na Análise Qualitativa: Uma Nova plicativas”; Luis Fernandes, “Leituras do Les-
Tendência na Pesquisa Sociológica”. te II: O Debate sobre a Natureza das
Sociedades e Estados de Tipo Soviético (Se-
BIB 35 gunda Parte – As Principais Interpretações
Sérgio Adorno, “A Criminalidade Urba- Marxistas”; Ronald H. Chilcote, Teoria de
na Violenta no Brasil: Um Recorte Temáti- Classe”; Adélia Engrácia de Oliveira e Lour-
co”; Christian Azais e Paola Cappellin, “Para des Gonçalves Furtado, “As Ciências Huma-
uma Análise das Classes Sociais”; Guillermo nas no Museu Paraense Emílio Goeldi: 128
Palacios, “Campesinato e Historiografia no Anos em Busca do Conhecimento Antropo-
Brasil – Comentários sobre Algumas Obras lógico na Amazônia”.
Notáveis”; “Arquivo de Edgard Leuenroth”.
BIB 40
BIB 36 “Florestan Fernandes: Esboço de uma
Maria Ligia de Oliveira Barbosa, “A So- Trajetória”; Luiz Werneck Vianna, Maria Alice
ciologia das Profissões: Em Torno da Legiti- Rezende de Carvalho e Manuel Palacios Cunha
midade de um Objeto”; Maria da Glória Bo- Melo, “As Ciências Sociais no Brasil: A Forma-
nelli, “As Ciências Sociais no Sistema ção de um Sistema Nacional de Ensino e Pes-
Profissional Brasileiro”; Marieta de Moraes quisa”; Laís Abramo e Cecília Montero, “A So-

121
ciologia do Trabalho na América Latina: Para- Darcy Ribeiro”; Christina de Rezende Ru-
digmas Teóricos e Paradigmas Produtivos”. bim, “Um Pedaço de Nossa História: Histo-
riografia da Antropologia Brasileira”; Glau-
BIB 41
cia Villas Bôas, “A Recepção da Sociologia
Gustavo Sorá, “Os Livros do Brasil entre
Alemã no Brasil: Notas para uma Discus-
o Rio de Janeiro e Frankfurt”; Mario
são”; Carlos Pereira, “Em Busca de um Novo
Grynszpan, “A Teoria das Elites e sua Genea-
Perfil Institucional do Estado: Uma Revisão
logia Consagrada”; Jorge Ventura de Morais,
Crítica da Literatura Recente”; Flávia de
“Trabalhadores, Sindicatos e Democracia:
Campos Mello, “Teoria dos Jogos e Relações
Um Ensaio Bibliográfico sobre Democracia
Internacionais: Um Balanço dos Debates”.
Sindical”; Maria da Gloria Bonelli e Silvana
Donatoni, “Os Estudos sobre Profissões nas BIB 45
Ciências Sociais Brasileiras”. Eli Diniz, “Globalização, Ajuste e Refor-
ma do Estado: Um Balanço da Literatura Re-
BIB 42 cente”; Terry Mulhall e Jorge Ventura de Mo-
Alba Zaluar, Antonio Augusto Prates, rais, “Mapeando o Reino da Sociologia
Claudio Beato Filho e Ronaldo Noronha, “An- Histórica: Reflexões Acerca do Modelo Teóri-
tônio Luiz Paixão, Intelectual e Amigo”; José co-metodológico de Theda Skocpol”; Alfredo
Maurício Domingues, “Evolução, História e Wagner Berno de Almeida, “Quilombos: Re-
Subjetividade Coletiva”; Marcia de Paula Lei- pertório Bibliográfico de uma Questão Rede-
te e Roque Aparecido da Silva, “A Sociologia do finida (1995-1997)”; Lúcio Rennó, “Teoria da
Trabalho Frente à Reestruturação Produtiva: Cultura Política: Vícios e Virtudes”.
Uma Discussão Teórica”; Marco A. C. Cepik,
“Sociologia das Revoluções Modernas: Uma BIB 46
Revisão da Literatura Norte-Americana”; An- Julia S. Guivant, “A Trajetória das Aná-
gela Alonso, “De Positivismo e de Positivistas: lises de Risco: Da Periferia ao Centro da
Interpretações do Positivismo Brasileiro”. Teoria Social”; Carlos Aurélio Pimenta de
Faria, “Uma Genealogia das Teorias e Mo-
BIB 43 delos do Estado de Bem-Estar Social”; Aloí-
Sérgio Costa, “Categoria Analítica ou Pas- sio Ruscheinsky, “Nexo entre Atores Sociais:
se-Partout Político-Normativo: Notas Biblio- Movimentos Sociais e Partidos Políticos”;
gráficas sobre o Conceito de Sociedade Civil”; “Debates sobre Autonomia Universitária:
Luis Fernandes, “Leituras do Leste III: O De- Carlos Benedito Martins e Sérgio de Azevedo,
bate sobre a Natureza das Sociedades e Esta- “Autonomia Universitária: Notas sobre a
dos de Tipo Soviético (Parte Final – As Leitu- Reestruturação do Sistema Federal de Ensi-
ras Centradas na Prevalência do Capitalismo no Superior”; José Vicente Tavares dos San-
de Estado e/ou Burocrático e a Convergência tos, “A Construção da Universidade Autô-
Problemática no Conceito de Stalinismo”; noma”; Gilberto Velho, “Universidade,
Eduardo C. Marques, “Notas Críticas à Litera- Autonomia e Qualidade Acadêmica”; To-
tura sobre Estado, Políticas Estatais e Atores maz Aroldo da Mota Santos, “A ANDIFES e
Políticos”; Paulo J. Krischke, “Cultura Política a Autonomia”.
e Escolha Racional na América Latina: Inter-
BIB 47
faces nos Estudos da Democratização”.
Eduardo G. Noronha, “A Contribuição
BIB 44 das Abordagens Institucionais-Normativas
Luís Donisete Benzi Grupioni e Maria nos Estudos do Trabalho”; Cecília Loreto
Denise Fajardo Grupioni, “Depoimento de Mariz, “A Teologia da Batalha Espiritual:

122
Uma Revisão da Bibliografia”; Mauro Gui- BIB 51
lherme Pinheiro Koury, “A Imagem nas Ciên- Maria Hermínia Tavares de Almeida,
cias Sociais do Brasil: Um Balanço Crítico”; “Federalismo, Democracia e Governo no
Jawdat Abu-El-Haj, “O Debate em Torno Brasil”; Liszt Vieira, “Notas Sobre o Conceito
do Capital Social: Uma Revisão Crítica”. de Cidadania”; Santuza Cambraia Naves e
outros, “Levantamento e Comentário Crítico
BIB 48
de Estudos Acadêmicos Sobre Música
Priscila Faulhaber, “Entrevista com Ro-
Popular no Brasil”; Lúcio Rennó, “A Estrutura
berto Cardoso de Oliveira”; Fernanda Wan-
de Crenças de Massa e seu Impacto na
derley, “Pequenos Negócios, Industrialização
Decisão do Voto”; Priscila Faulhaber, “A
Local e Redes de Relações Econômicas: Fronteira na Antropologia Social: As
Uma Revisão Bibliográfica em Sociologia Diferentes Faces de um Problema”.
Econômica”; Celina Souza e Márcia Blumm,
“Autonomia Política Local: Uma Revisão da BIB 52
Literatura”; Fabíola Rohden, “Honra e Famí- Ângela Maria Carneiro de Araújo,
lia em Algumas Visões Clássicas da Forma- “Globalização e Trabalho”; Clara Araújo,
ção Nacional”; Clarice Ehlers Peixoto, “An- “Participação Política e Gênero: Algumas
tropologia e Filme Etnográfico: Um Tendências Analíticas Recentes”; Fabiano
Travelling no Cenário Literário da Antropo- Toni, “Novos Rumos e Possibilidades para os
logia Visual”. Estudos dos Movimentos Sociais”; Celso F.
Rocha de Barros, “A Transição para o Mercado
BIB 49 no Leste Europeu: Um Balanço do Debate
Licia Valladares e Roberto Kant de Lima, sobre a Mudança do Plano ao Mercado”; Luiz
“A Escola de Chicago: Entrevista com Isaac Henrique de Toledo, “Futebol e Teoria Social:
Joseph”; Marcos Chor Maio e Carlos Eduar- Aspectos da Produção Científica Brasileira
do Calaça, “Um Ponto Cego nas Teorias da (1982-2002)”.
Democracia: Os Meios de Comunicação”;
BIB 53
Luis Felipe Miguel, “Definição de Agenda,
Gláucio Ary Dillon Soares, “Homena-
Debate Público e Problemas Socais: Uma gem a Vilmar Faria”; José Carlos Durand,
Perspectiva Argumentativa da Dinâmica do “Publicidade: comércio, cultura e profissão
Conflito Social”; Mario Fuks e Karl Mons- (Parte I)”; Ângela Alonso e Valeriano Costa,
ma, “James C. Scott e a Resistência Cotidia- “Ciências Sociais e Meio Ambiente no Bra-
na no Campo: Uma Avaliação Crítica”. sil: um balanço bibliográfico”; Antônio Sér-
BIB 50 gio Araújo Fernandes, “Path dependency e os
Marcus André Melo, “Política Regulató- Estudos Históricos Comparados”; Leonardo
ria: uma Revisão da Literatura”; Roberto Mello e Silva, “Qualificação versus compe-
Kant Lima, Michel Misse e Ana Paula Men- tência: um comentário bibliográfico sobre
des de Miranda, “Violência, Criminalidade, um debate francês recente”; Carlos Benedito
Segurança Pública e Justiça Criminal no Martins, Gláucia Villas Boas, Maria Ligia de
Brasil: uma Bibliografia”; Alejandro Frigerio, Oliveira Barbosa e Yvonne Maggie, “Mestres
“Teorias Econômicas Aplicadas ao Estudo e doutores em Sociologia”.
da Religião: Em Direção a um Novo Para- BIB 54
digma?”; Angela Xavier de Brito, “Transfor- Maria Helena de Castro Santos, “Política
mações Institucionais e Características So- Comparada: Estado das Artes e Perspectivas
ciais dos Estudantes Brasileiros na França”. no Brasil”; José Carlos Durand, “Publicidade:

123
Comércio, Cultura e Profissão (Parte Il)”; nas Famílias Recompostas após Divórcio ou
Maria Lucia Maciel, “Ciência, Tecnologia e Separação”; Marcelo Medeiros, “As Teorias de
Inovação: A Relação entre Conhecimento e Estratificação da Sociedade e o Estudo dos
Desenvolvimento”; Leila da Costa Ferreira e Ricos”; Marcia Contins, “Objetivos e Estra-
Lúcia da Costa Ferreira, “Águas revoltas. Um tégias da Ação Afirmativa: Uma Bibliogra-
Balanço Provisório da Sociologia Ambiental fia”; Cloves L. P. Oliveira, “O que Acontece
no Brasil”; Paolo Ricci, “A medida das leis: quando um Cavalo de Cor Diferente Entra
do uso de noções genéricas à mensuração do na Corrida? O Painel das Estratégias Eleito-
imponderável”. rais dos Políticos Afro-americanos nas Elei-
BIB 55 ções Municipais nos Estados Unidos”.
Fernando Limongi, “Formas de Governo,
BIB 58
Leis Partidárias e Processo Decisório”; João
Argelina Cheibub Figueiredo, “O Execu-
Feres Jr., “A Consolidação do Estudo
Sociocientífico da América Latina: uma breve tivo nos Sistemas de Governo Democráti-
história cum estudo bibliográfico”; Jorge cos”; R. Parry Scott, “Família, Gênero e Po-
Zaverucha e Helder B. Teixeira, “A Literatura der no Brasil do Século XX”; Andrei Koerner,
sobre Relações Civis-Militares no Brasil “Direito e Regulação: uma Apresentação do
(1964-2002): uma síntese”; Delma Pessanha Debate Teórico no Réseau Européen Droit
Neves, “O Consumo de Bebidas Alcoólicas: et Société”; Sérgio Eduardo Ferraz, “Os Da-
Prescrições Sociais”; Ana Maria Kirschner, “A dos do Normativo: Apontamentos sobre a
Sociologia Brasileira e a Empresa”. Recepção das Teorias Contemporâneas de
BIB 56 Justiça no Brasil (1990-2003)”; Pablo Ala-
Walquiria Leão Rêgo, “Norberto Bob- barces, “Veinte años de Ciencias Sociales y
bio, um Clássico das Ciências Sociais”; Pe- Deporte en América Latina: un balance, una
dro Simões, Religião, “Espiritualidade e As- agenda”.
sistência Social”; Paulo César Nascimento,
BIB 59
“Dilemas do Nacionalismo”; Marcelo Ayres
Luiz Felipe Miguel, “Teoria democrática
Camurça, “Secularização e Reencantamen-
atual: esboço de mapeamento”; Alfredo
to: a Emergência dos Novos Movimentos
Alejandro Gugliano, “As democracias partici-
Religiosos”; José Celso Cardoso Jr., “Funda-
mentos Sociais das Economias Pós-indus- pativas através das lentes da pós-graduação:
triais: uma Resenha Crítica de Esping-An- uma revisão da produção acadêmica no Brasil
dersen”; Diana Nogueira de Oliveira Lima, 1988-2002”; Simone Bohn, “Política compa-
“Antropologia do Consumo: A Trajetória de rada: um mapeamento do debate entre pro-
um Campo em Expansão”. postas teóricas e metodologias de pesquisa
alternativas”; Luís Antônio Francisco de
BIB 57 Souza,“Criminologia, direito penal e justiça
Maria Arminda do Nascimento Arruda,
criminal no Brasil: uma revisão da pesquisa
“Homenagem a Octavio Ianni”; Giralda
recente”; Carlos Eduardo Sell, “Sociologia da
Seyferth, “A Imigração no Brasil: Comentá-
mística: uma revisão de literatura”.
rios sobre a Contribuição das Ciências So-
ciais”; Christine Jacquet e Lívia Alessandra
Fialho da Costa, “A Sociologia Francesa
diante das Relações Beaux-parents: Enteados

124
BIB 60
José Reginaldo Santos Gonçalves, Antropolo-
gia dos Objetos: Coleções, Museus e Patri-
mônios; Fabíola Rohden, A constituição dos
saberes sobre a sexualidade em diferentes pers-
pectivas de análise; Piero de Camargo Leirner,
Perspectivas Antropológicas da Guerra; Artur
Zimerman, Revisão Bibliográfica da Literatura
Quantitativa sobre os Determinantes de
Guerra Civil; Paulo Sérgio Peres, O Problema da
Instabilidade Eleitoral na Europa: uma Análise
do Debate Teórico, Empírico e Metodológico.

BIB 61
Elisete Schwade, “Neo-esoterismo no Brasil:
Dinâmica de um Campo de Estudos”; Ana
Cláudia N. Capella, “Perspectivas Teóricas sobre
o Processo de Formulação de Políticas Pú-
blicas”; Ana M. F. Teixeira, “’A cigarra e a for-
miga’: Qualificação e Competência – Um Ba-
lanço Crítico”; Amâncio Jorge Oliveira, Janina
Onuki e Manoel Galdino Pereira Neto, “Modelos
Espaciais na Teoria de Coalizões Internacionais:
Perspectivas e Críticas”; Tatiana Savoia Lan-
dini,“Sociologia de Norbert Elias”.

125
NORMAS PARA A APRESENTAÇÃO DE COLABORAÇÕES À BIB

Os artigos apresentados de- • A bibliografia entra no final /VÍRGULA/ título da coletânea,


vem ser entregues com original e do artigo, em ordem alfabé- em itálico/VÍRGULA/local da
cópia, com texto datilografado tica. publicação/VÍRGULA/nome da
ou digitado em espaço duplo, editora /PONTO. Exemplo:
com margens razoáveis e sem Critérios bibliográficos
emendas. Não devem ultrapas- ABRANCHES, Sérgio Henrique.
sar 30 laudas (de 20 linhas) ou 6 Livro: sobrenome do autor (em (1987), “Governo, empresa
mil palavras. caixa alta) /VÍRGULA/ seguido estatal e política siderúrgica:
O artigo deve ser acompa- do nome (em caixa alta e baixa) 1930-1975”, in O. B. Lima &
nhado de seu resumo e de pala- /PONTO/ data entre parênteses S. H. Abranches (orgs.), As
vras-chaves, bem como de dados /VÍRGULA/ título da obra em origens da crise, São Paulo,
sobre o autor (instituição, cargo, itálico /PONTO/ nome do tradu- Iuperj/Vértice.
áreas de interesse, últimas publi- tor /PONTO/ nº da edição, se
cações etc.). não for a primeira /VÍRGULA/ Teses acadêmicas: sobrenome
Os autores cujos textos fo- local da publicação /VÍRGULA/ do autor, seguido do nome e da
rem aprovados para publicação nome da editora /PONTO. data (como nos itens anteriores)
entregarão seu trabalho em dis- Exemplo: /VÍRGULA/ título da tese em itá-
quete, com cópia impressa em lico /PONTO/ grau acadêmico a
papel, no formato padrão IBM- SACHS, Ignacy. (1986), Ecode- que se refere /VÍRGULA/ institui-
PC, de preferência no programa senvolvimento, crescer sem ção em que foi apresentada
destruir. Tradução de Enei- /VÍRGULA/ tipo de reprodução
Word for Windows, com a se-
da Cidade Araújo. 2a edição, (mimeo ou datilo) /PONTO.
guinte organização:
São Paulo, Vértice. Exemplo:
• Quadros, mapas, tabelas etc.
Artigo: sobrenome do autor, se- SGUIZZARDI, Eunice Helena.
em arquivo separado, com
guido do nome e da data (como (1986), O estruturalismo de
indicações claras, ao longo
no item anterior) / “título do ar- Piaget: subsídios para a de-
do texto, dos locais em que
tigo entre aspas /PONTO/ nome terminação de um lugar co-
devem ser incluídos.
do periódico em itálico /VÍRGU- mum para a Ciência e a Ar-
• As menções a autores, no
LA/ volume do periódico /VÍR- quitetura. Tese de mestrado.
correr do texto, seguem a
GULA/ número da edição /DOIS Fundação Escola de Sociolo-
forma (Autor, data) ou (Au-
PONTOS/ numeração das pági- gia e Política de São Paulo,
tor, data, página), como nos
nas. Exemplo: datilo.
exemplos: (Jaguaribe, 1962)
ou (Jaguaribe, 1962, p. 35).
REIS, Elisa. (1982), “Elites agrá-
Se houver mais de um títu-
rias, state-building e autori- O envio espontâneo de qual-
lo do mesmo autor no mes- tarismo”. Dados, 25, 3: 275- quer colaboração implica au-
mo ano, eles são diferencia- 96. tomaticamente a cessão inte-
dos por uma letra após a gral dos direitos autorais à
data: (Adorno, 1975a), (A- Coletânea: sobrenome do au- ANPOCS. A revista não se
dorno, 1975b) etc. tor, seguido do nome e da data obriga a devolver os originais
• Colocar como notas de roda- (como nos itens anteriores) / das colaborações enviadas.
pé apenas informações com- ‘‘título do capítulo entre aspas’’
plementares e de natureza /VÍRGULA/ in (em itálico)/ ini-
substantiva, sem ultrapassar ciais do nome, seguidas do so-
3 linhas. brenome do(s) organizador(es)
Impressão e Acabamento

Gráfica Bandeirantes S/A