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LUCIANA FERNANDES ROCHA

LUTO MATERNO PELO FILHO SUICIDA

Pontifícia Universidade Católica


São Paulo
2007
LUCIANA FERNANDES ROCHA

LUTO MATERNO PELO FILHO SUICIDA

Trabalho de Conclusão de Curso


como exigência para a graduação
no curso de Psicologia, sob
orientação da Profª Drª Flávia
Arantes Hime

Pontifícia Universidade Católica


São Paulo
2007

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AGRADECIMENTOS

A Deus em primeiro lugar, pela saúde, pela vida plena, pela força no
enfrentamento deste trabalho, pela minha família e pela descoberta
da Psicologia como profissão que me realiza.

À minha orientadora Flávia Hime, minha especial admiração pelo


exemplo de dedicação, pelo respeito na relação com o outro e pelo
profissionalismo. Agradeço a ajuda valiosa neste trabalho.

À toda minha família, principalmente à minha tia Regina, que me


acolheu em um dos momentos de maior dificuldade desta trajetória,
meu agradecimento pela prontidão em me ajudar. Agradeço a ajuda
especial, a amizade e a alegria que sua presença traz.

Ao meu marido Álvaro, luz da minha vida, que com seu amor,
paciência e compreensão sempre esteve comigo nesta trajetória e
quero que esteja em todas as outras que ainda estão por vir.

À minha mãe Teresa, ao meu pai Vicente (in memorian), a Ricardo,


meu pai de coração e aos meus avós, pelo carinho, pelo permanente
cuidado e preocupação, pelos valores ensinados, pelo empenho em
minha formação pessoal e profissional.

À minha querida irmã Alice e ao meu cunhado Paulo pelo


compartilhar do convívio em família, pelo interesse em saber do
andamento do estudo e pelo incentivo para que chegasse à
finalização.

À minha sogra Eunice, ao meu sogro Valdemir, à minha cunhada


Andréia e à minha sobrinha Isabelle, por todo amor, por me
aproximar de Deus e pelo incentivo quanto à realização deste
trabalho.

Às amigas da faculdade e turma do “BOC” pelos inesquecíveis dias


de convivência, pela cumplicidade, incentivo e apoio nos momentos
de dificuldade. Às minhas queridas supervisoras Felícia Knobloch,

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Isabel Kahn e Luciana Braga e a todos os professores que nos
incentivaram e acreditaram em nossas potencialidades.

Às participantes deste estudo, manifesto a minha gratidão especial e


infindável respeito. Agradeço por terem concordado em participar
deste trabalho, mesmo sabendo que tocaríamos em dolorosas
recordações de uma perda tão significativa.

A todas as pessoas que colaboraram direta ou indiretamente para


que esta trajetória se completasse.

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Luciana Fernandes Rocha: LUTO MATERNO PELO FILHO SUICIDA, 2007
Orientadora: Profª Drª Flávia Arantes Hime
Palavras-chave: Luto materno; suicídio; processo de elaboração.

RESUMO

O luto pela perda de uma pessoa amada é a experiência mais universal e, ao


mesmo tempo, mais desorganizadora e assustadora que vive o ser humano.
Em razão disto, existe uma grande dificuldade de se tratar deste tema,
principalmente quando envolve a relação mãe-filho(a) e quando a causa da
morte do filho foi o suicídio. A morte por suicídio freqüentemente instiga a
desaprovação social por resultar de causas obscuras ou fortemente
estigmatizadas. Perdas desta natureza tendem a ser socialmente não
autorizadas, levando igualmente a lutos não autorizados. O sofrimento trazido
pelo suicídio de um filho é de tal ordem que acredito na validade de pensarmos
nos preconceitos e na ambivalência de sentimentos que o cercam a fim de
compreendê-lo melhor e tentar levantar propostas que possam atenuá-lo. O
objetivo desse trabalho foi identificar e analisar as manifestações de luto em
mães que perderam um filho por suicídio, com foco nos recursos com que
enfrentaram essa perda, bem como no sentido que atribuíram a essa
experiência. O estudo foi conduzido a partir da avaliação de entrevistas semi-
dirigidas com três mães enlutadas pelo suicídio do filho. As entrevistas foram
analisadas qualitativamente, utilizando-se o referencial da Psicanálise para
interpretação dos dados. A análise das entrevistas indicou a falta de suporte
social devido principalmente à dificuldade de encontrar interlocutores para
compartilhar a dor do luto. Além disso, foi possível perceber que existem outros
fatores complicadores desse tipo de luto (culpa, estigma, circunstância da
perda, raiva, entre outros), assim como fatores que podem facilitar a
recuperação da mãe enlutada (religião, rede social, tratamento psiquiátrico e
psicológico, etc.).

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO...........................................................................................................p.7

CAPÍTULO I - SUICÍDIO............................................................................................p.13

SUICÍDIO: UMA VISÃO SÓCIO-HISTÓRICA-CULTURAL..................................p.14


SUICÍDIO, MITOLOGIA E RELIGIÕES.................................................................p.20
SUICÍDIO E FILOSOFIA........................................................................................p.23
SUICÍDIO, PSICANÁLISE E PSIQUIATRIA..........................................................p.24
SUICÍDIO NO BRASIL...........................................................................................p.26
REPRESENTAÇÃO SOCIAL DAS MENSAGENS SUICIDAS.............................p.28
A VISÃO DO SUICÍDIO NA ATUALIDADE............................................................p.29
EPIDEMIOLOGIA DO SUICÍDIO NA ATUALIDADE.............................................p.31

CAPÍTULO II - LUTO.................................................................................................p.32

FASES DO LUTO...................................................................................................p.33
SINTOMATOLOGIA...............................................................................................p.37
LUTO NORMAL E LUTO COMPLICADO..............................................................p.38

CAPÍTULO III – LUTO MATERNO.............................................................................p.41

VINCULAÇÃO MÃE – FILHO.................................................................................p.41


A PERDA DE UM FILHO........................................................................................p.43

CAPÍTULO IV– LUTO POR SUICÍDIO......................................................................p.46

CAPÍTULO V – METODOLOGIA...............................................................................p.50

PARTICIPANTES...................................................................................................p.52
INSTRUMENTOS...................................................................................................p.52
PROCEDIMENTO..................................................................................................p.53
PROCEDIMENTO PARA ANÁLISE DOS RESULTADOS...................................p.54

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CAPÍTULO VI – RESULTADOS................................................................................p.55

CAPÍTULO VII – CONSIDERAÇÕES FINAIS...........................................................p.82

REFERÊNCIAS..........................................................................................................p.87

ANEXO 1 – TERMO DE CONSENTIMENTO ESCLARECIDO E INFORMADO

ANEXO 2 – ENTREVISTAS

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INTRODUÇÃO

Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento,


Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade.
Alberto Caeiro

Do nascimento até o fim da vida, enfrentamos situações de vínculos e


separações, de perdas e lutos, que podem ou não estar relacionadas à morte
de um ente querido. No entanto, não há dúvida de que o luto pela morte é uma
das experiências mais dolorosas que qualquer pessoa irá viver.

O luto pela perda de uma pessoa amada é, segundo Franco (2007), a


experiência mais universal e, ao mesmo tempo, mais desorganizadora e
assustadora que vive o ser humano. Ele acontece quando a nossa vida se
encontra de tal forma ligada a outras vidas que, perdendo-se alguma delas, a
nossa é abalada nas suas mais profundas raízes. De acordo com Geraldo
(2007) com a morte da nossa mãe, de um filho, da mulher, do marido,
perdemos, de algum modo, o nosso sol e as nossas flores.

É indescritível o sofrimento que advém da perda de alguém que nos é querido.


Talvez não exista palavra que consiga expressar esse sentimento. E se não há
palavra que expresse tal sentimento, é preciso de tempo e trabalho de
elaboração interna para que o pensamento possa exprimir realidade tão dura.

Apesar de vivermos perdas sucessivas durante toda a nossa vida, a morte não
é vista como decorrência natural do viver, principalmente numa sociedade
como a nossa em que a vitalidade e a longevidade são cada vez mais
cobiçadas. A civilização ocidental tem dificuldade para aceitar a morte, e o
medo diante dela tornou-se parte dos principais conflitos psíquicos. No entanto,
a morte é uma das etapas da vida do ser humano, por isso, é de suma
importância que ela seja estudada e entendida como parte do processo da vida
pois, como afirma Morin (1970), só é possível conhecer o homem estudando
sua morte.

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Philippe Ariès (2003), um dos pioneiros a tratar sobre o tema da morte, afirma
que a morte é hoje tratada com distanciamento, como se não viesse a nos
atingir em momento algum. O autor enfatiza que a morte tornou-se um tabu e a
partir do século XX substituiu o sexo como principal interdito. O interdito da
morte, segundo Ariès, ocorreu após um período de vários séculos, em que era
um espetáculo público do qual ninguém pensaria em esquivar-se. Este interdito
atual nasceu numa cultura urbanizada na qual dominam a busca da felicidade
ligada ao lucro, e um crescimento econômico rápido. O recalque da dor, a
interdição de sua manifestação pública e a obrigação de sofrer só e escondido
agravam o traumatismo devido à perda de um ente querido.

Uma dor demasiado visível não inspira pena, mas repugnância;


é um sinal de perturbação mental ou de má educação, é
mórbida. Dentro do círculo familiar ainda se hesita em
desabafar, com medo de impressionar as crianças. Só se tem o
direito de chorar quando ninguém vê nem escuta: o luto
solitário e envergonhado é o único recurso (Ariès, 2003, p.87).

Por isso, o autor descreve que as manifestações aparentes de luto são


condenadas e desaparecem na nossa sociedade. Gorer (apud Ariès, 2003)
relata que o processo do luto é entendido hoje como uma fraqueza, uma auto-
indulgência, um mau hábito repreensível, e não como uma necessidade
psicológica. Segundo Ariès (2003): “O luto não é mais um tempo necessário e
cujo respeito a sociedade impõe; tornou-se um estado mórbido que deve ser
tratado, abreviado, apagado”. (p. 95).

No entanto, Bromberg (2000) afirma que ninguém absorve de uma só vez a


realidade de um evento tão importante como um luto e por isso ele não pode
ser abreviado, muito menos apagado como exige a sociedade. A autora
compara o luto a uma ferida que precisa de atenção e tempo para ser curada.
Sua elaboração exige o reconhecimento e aceitação da realidade, bem como a
capacidade para lidar com as emoções e problemas que advêm da perda.

Assim, de acordo com Parkes (1998) o trabalho de luto é o processo de


aprendizagem pelo qual cada mudança é progressivamente compreendida e é

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estabelecido um novo conjunto de concepções sobre o mundo. Segundo o
autor, a dor do luto é:

(...) tanto parte da vida quanto a alegria de viver; é talvez, o


preço que pagamos pelo amor, o preço do compromisso.
Ignorar este fato ou fingir que não é bem assim é cegar-se
emocionalmente, de maneira a ficar despreparado para as
perdas que irão inevitalvelmente ocorrer em nossas vidas.
(Parkes,1998, p.22).

Em razão disto, existe uma grande dificuldade de se tratar o luto quando este
envolve a relação mãe-filho(a), uma vez que o amor materno “é o amor que
cuida, que nutre, que fertiliza. É o único amor que todos conhecemos. Se não o
conhecêssemos de alguma maneira, simplesmente nem vivos estaríamos”
(Galiás, 2004). O luto de um filho, segundo a autora é:

(...) como se fosse inconcebível, inaceitável, impossível de


elaboração. Aliás, se perdemos pai ou mãe essa dor tem
nome, nos tornamos ‘órfãos’, é a dor da orfandade. Se
perdemos o cônjuge, temos a dor da viuvez. Se perdemos um
filho, não tem nem nome, é indescritível, inominada, é a dor da
mater dolorosa. (p.2).

Rubem Alves (2007) afirma que “há dores que fazem sentido, como as dores
do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido
nenhum”, como a dor pela morte de um ente querido. Galiás (2004) concorda,
dizendo que:

Se quando o filho nasce, há o “trabalho de parto”, quando


morre há o “trabalho do luto”. Talvez por isso pareça parto, no
sentido de um apartamento entre mãe e filho, o maior de todos
em nossa existência, com a introdução da barreira da morte
entre ambos (...) Não há como se medir intensidade de dor,
menos ainda da dor psíquica. Mas, se houvesse, penso que a
dor da perda de um filho seria das mais (senão a mais)
intensas. É devastadora. (p.4).

O presente trabalho trata desta questão: o luto da mãe. Especificamente, o luto


materno pela perda do filho que tirou a própria vida, que se suicidou. O suicídio
é um problema de saúde pública que preocupa diversos segmentos da

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sociedade. Os serviços de emergência vêm registrando aumento considerável
das taxas de mortalidade por suicídio, bem como uma maior incidência de
casos de pessoas com comportamento suicida (Organização Mundial da
Saúde, 2000).

A família que perdeu um membro por suicídio vive as conseqüências de um


evento drástico. Segundo Freitas (2000), o suicídio desencadeia o luto mais
difícil de ser enfrentado. Parkes (1998), por outro lado, comenta que grande
parte dos suicídios pôde ser antecipada pela família, de maneira que não
deveríamos esperar que todos fossem igualmente traumáticos.
Kovács (1992) comenta que o suicídio é antes de tudo um homicídio de si
mesmo, em que a mesma pessoa é o assassino e o assassinado. Galiás
(2004) concorda dizendo que:

Se alguém matasse nosso filho, seguramente se possível como


mãe o mataríamos, não fora a ponderação egóica. No suicídio
do filho, há um que matou seu filho e que se quer enforcar com
as próprias mãos (...) e há outro que foi vítima, que não pode
sozinho se defender do ataque (...). É extremamente difícil
juntar ambos num só, no mesmo filho, amado e odiado, que se
quer tanto proteger, pegar no colo, quanto bater, socar, pôr de
castigo. (p.3).

De acordo com Parkes (1998), a morte por suicídio freqüentemente instiga a


desaprovação social ou não atrai a atenção das pessoas, por resultar de
causas obscuras ou fortemente estigmatizadas. Perdas desta natureza tendem
a ser socialmente não autorizadas, levando igualmente a lutos não autorizados,
ou seja, a situações em que o luto não pode ser publicamente reconhecido,
pranteado ou beneficiário de suporte social. Ainda em Galiás (2004):

É realmente um "tema tabu"(o suicídio). Podem falar, comentar,


conversar sobre, porém nunca com a própria família, não fica
bem. Por outro lado, a família mesmo também evita, é
constrangedor, é como se introduzisse na conversação uma
espécie de bomba que detona todo e qualquer outro assunto, o
que gera culpa. Com isso o tema realmente é evitado,
cuidadosamente engavetado, não pode circular, mesmo em
momentos em que um familiar gostaria de ter espaço para se

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expressar quanto à perda, quanto ao suicídio, quanto a tantas
e diversas emoções que afloram. (p.3).

Entretanto, no luto também há esperança de transformação, de recomeço. De


acordo com Freitas (2000), “A perda revela a dependência, mas também a
liberdade...O enlutado não deve ser visto apenas com compaixão, mas como
alguém que pode conseguir acesso a um significado mais duradouro da
existência” (p.10). Parkes (1998) corrobora com esta idéia:

Assim como os ossos quebrados podem se tornar mais fortes


do que os não quebrados, a experiência de enlutamento pode
fortalecer e trazer maturidade àqueles que até então estiveram
protegidos de desgraças. (p.22).

Essa possibilidade de recomeço é muitas vezes criticada e mesmo censurada


pela sociedade que condena a mãe que consegue sair do luto. Galiás (2004)
relata que “(...) desta posição não é esperado que se saia nunca mais, é como
se perdêssemos o direito à plenitude. E com facilidade qualquer outro estado
que não o da tristeza profunda é visto com desconfiança, será mania, será fuga
ou será alguma defesa? Será qualquer coisa, menos natural”. (p.1).

Portanto, meu objetivo neste trabalho é compreender o processo de elaboração


do luto de mães diante do suicídio de um filho. Pretendo fazer uma análise de
como e com que recursos enfrentaram essa perda, bem como o sentido que
atribuíram a essa experiência. Parto do princípio que a morte de um filho por
suicídio não é experienciada como um luto comum.

Escolhi esse tema como (mais uma) forma de elaboração pessoal e pelo
profundo respeito pelo sofrimento materno durante o luto de um filho; além do
desejo de compreendê-lo melhor para levantar propostas que possam servir
para atenuar um luto tão doloroso quanto censurado. Proponho que o poder
pensar, poder falar sobre algo tão traumático seja uma forma de legitimar a dor,
de reconhecer a ambivalência de sentimentos suscitados e principalmente
autorizar a recuperação de uma mãe cujo filho tenha se suicidado. Por isso, a
relevância desse trabalho em analisar um tema difícil e ao mesmo tempo, tão
importante.

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Para a elaboração do trabalho serão utilizados autores como P. Áries, S.
Freud, D. Winnicott, Colin Parkes, Maria Helena Pereira Franco, Kübler-Ross,
Maria Júlia Kovács, Kalina e Kovadloff , entre outros, para que sejam
estudados temas como morte, suicídio, luto, amor materno e relação mãe-
filho(a).

No primeiro capítulo serão apresentadas as elaborações teóricas com um


breve histórico e as concepções sobre o suicídio em diferentes culturas e
religiões.

No segundo capítulo pretendo fazer uma reflexão sobre o luto normal, o luto
complicado, a sintomatologia e fases do luto.

O terceiro capítulo será reservado exclusivamente para discutir o luto materno,


a perda de um filho e relação de vinculação mãe-filho.

No quarto capítulo discorrerei sobre o processo de luto em caso de suicídio.

No quinto capítulo apresentarei a metodologia do trabalho; no sexto capítulo,


os resultados obtidos; no sétimo, a análise dos resultados; e o oitavo capítulo
será reservado para as considerações finais.

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CAP. I - SUICÍDIO
Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos
do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte,
peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de
nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio
abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio. (Guimarães Rosa, A
terceira margem do rio )

O suicídio é...

"... um ato de heroísmo...” (SÊNECA).

"... um ato próprio da natureza humana e, em cada época, precisa ser


repensado...” (GOETHE).

"... a destruição arbitrária e premeditada que o homem faz da sua


natureza animal” (KANT).

"... uma violação ao dever de ser útil ao próprio homem e aos outros”
(ROUSSEAU).

"... admitir a morte no tempo certo e com liberdade” (NIETZSCHE).

"... a positivação máxima da vontade humana” (SCHOPENHAUER).

"... todo o caso de morte que resulta direta ou indiretamente de um ato


positivo ou negativo praticado pela própria vítima, ato que a vítima
sabia dever produzir este resultado” (DURKHEIM).

“... o único problema filosófico verdadeiramente sério” (CAMUS).

“... um homicídio onde o indivíduo que mata é a própria vítima”


(MENNINGER).

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A prática do suicídio sempre existiu, porém apresentou, e ainda apresenta,
diversas formas de ser encarado, dependendo da cultura e da época. As
definições teóricas se alternam, se complementam e se contradizem. Não há
uma única explicação, pois o caminho do suicídio é o da ambigüidade. Mesmo
afirmativas que parecem inquestionáveis, como a de que o suicídio é resultado
de angústia e sofrimento, não valem para todos os casos, e se tornam
impertinentes quando se analisa, por exemplo, os casos de suicídio em países
orientais.

O suicídio poderá representar a luta pela honra, a libertação para aqueles que
são escravos ou que estão presos e também o aprisionamento da alma
daqueles que não seguiram as leis Divinas. O que determinará estas
concepções será a forma como este ato será visto pela sociedade.

Quase todas (senão todas) as pessoas já tiveram ou terão idéias suicidas em


algum momento de suas vidas. Ou seja, ele é mais comum e mais freqüente do
que se possa imaginar (Botega, 2004).

As religiões e as diversas teorias nos trazem inúmeras tentativas de explicar o


fenômeno do ato suicida. No entanto, mesmo atualmente ele é coberto por
diversos mitos e tabus o que torna difícil a tarefa de estudá-lo.

SUICÍDIO: UMA VISÃO SÓCIO-HISTÓRICA-CULTURAL

De acordo com Kalina e Kovadloff (1983).

Suicidar-se corresponde em latim a se occidere. A expressão


provém do verbo transitivo occido-cidi-cisum, que significa,
primeiramente, cortar, esmigalhar, dividir em muitas partes, e,
conseqüentemente, ferir mortalmente, matar. (p.34).

Segundo Silva (1992), é difícil precisar quando o primeiro suicídio ocorreu. A


Enciclopédia Delta de História Geral registra que, em um ritual no ano 2.500
a.C., na cidade de Ur, doze pessoas tomaram uma bebida envenenada e se
deitaram para esperar a morte.

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É possível observar, na história da humanidade, que o suicídio sempre
acompanhou o ser humano, estando presente em todas as civilizações, porém
o modo de encará-lo é que difere de cultura para cultura.

As culturas mais antigas tinham formas bem diversas de encarar o suicídio e


algumas possuíam rituais para aqueles membros que se suicidavam e para
lidar com o corpo dos que se matavam. Algumas culturas politeístas
apresentam registros da interpretação comunitária do suicídio de seus
membros. Pode-se citar como exemplo os vikings, que acreditavam no Valhalla
– “palácio daqueles que morreram com violência” – como sendo o paraíso.
Apenas os mortos violentamente poderiam entrar no Valhalla e participar do
banquete presidido pelo deus supremo Odin. Era uma honra muito grande
morrer em batalhas ou, em segundo lugar, cometer suicídio, o que dava a
certeza de se alcançar o paraíso (Silva, 1992).

Ainda de acordo com a autora, também os esquimós acreditavam na morte


violenta como pré-requisito para usufruir o paraíso e o suicídio se incluía neste
tipo de morte. A morte digna para um esquimó é aquela em que ele,
percebendo o seu fim, vai para longe do seu grupo para morrer, a fim de
possibilitar mais alimentos para os jovens e permitir a seu povo não precisar
cuidar de um ancião, sendo este ato normal e desejável para a cultura
esquimó.

Segundo Boismont (apud Kalina e Kovadloff, 1983), os godos acreditavam que


aqueles que morriam de morte natural estavam destinados a passar a
eternidade entre animais peçonhentos. Isso era um incentivo ao suicídio para
os idosos não terem que suportar a velhice.

Entre os astecas, oferecer-se como oferenda aos deuses em rituais de morte


era muito bem visto pela comunidade, assim como a morte em batalhas. Em
outras sociedades primitivas como em Uganda, uma mãe deveria se matar,
caso um de seus filhos tivesse morrido (Silva, 1992).

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De acordo com Cassorla (1984), o suicídio é um ato agressivo. “A percepção
da agressividade do suicida por parte da sociedade fez com que ela também
reagisse agressivamente, através dos tempos, castigando o suicida” (p. 34).
Segundo o autor, na Antigüidade, em Tebas e Chipre, o suicida era privado das
honras fúnebres.

Na Antiga Grécia, para Kalina e Kovadloff (1983) e Cassorla (1984), um


indivíduo não podia se matar sem prévio consenso da comunidade porque o
suicídio constituía um atentado contra a estrutura comunitária. O suicídio era
condenado politicamente ou juridicamente. Eram recusadas as honras de
sepultura regular ao suicidado clandestino e a mão do cadáver era amputada e
enterrada à parte para privar o morto de uma vingança posterior. Os
magistrados mantinham um estoque de veneno para quem desejasse morrer.
Para receber o veneno era necessário que o sujeito defendesse sua causa
perante o Senado para obter a permissão oficial. Neste sentido, o Estado tinha
poder para vetar ou autorizar um suicídio bem como induzi-lo. Por exemplo, em
399 a.C., Sócrates foi obrigado a se envenenar.

No Egito, se o dono dos escravos ou o faraó morria, era enterrado com seus
bens e seus servos, os quais deixavam-se morrer junto ao cadáver do seu
amo. Também no Egito, desde o tempo de Cleópatra, o suicídio gozava de tal
favor que se fundou a Academia de Sinapotumenos que, em grego, significa
"matar juntos" (Silva, 1992).

Em Roma, os enforcados eram privados de sepultura. As tentativas de suicídio,


principalmente as sangrentas, podiam ir para a justiça e se esta ocorresse no
exército era punida com a morte (Cassorla, 1984, Palhares, 2004).

No Japão Antigo, para evitar a desonra da captura ou a vergonha de sair vivo


de um duelo quando derrotado, o samurai praticava um ritual chamado
seppuku, que significa: suicídio ventral. No geral, segundo seu código de
conduta, quando um samurai perdia sua honra de alguma forma, ele se via na
obrigação de cometer o suicídio (S/A, 2004).

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Ainda no Japão, de acordo com Silva (1992), existem diferentes
representações sociais do suicídio. As diferenças ficaram tão objetivadas que
se criaram diferentes palavras para designar os suicídios como, por exemplo:

"funshi" = suicídio por intenção agressiva,


"jibaku" = suicídio por auto-explosão ao destruir o inimigo,
"junshi" = suicídio do escravo por ocasião da morte do seu senhor,
"seppuku e harakiri” = suicídio por incisão no abdome,
"shinju" = suicídio por paixão amorosa.

Nesta cultura se atribui muita dignidade ao gesto suicida, estando a


representação social da morte amparada na crença de que o espírito do morto
terá mais força para atuar na sociedade do que a pessoa permanecendo viva
em dada situação, cuja saída honrosa era o suicídio (Silva, 1992).

Cassorla (1984), diz que os índios Tinklit quando se sentiam ofendidos e não
tinham possibilidade de se vingar, se suicidavam e, assim, os parentes e
amigos deveriam vingá-lo. Entre os chuvaches, na Rússia, as pessoas
enforcavam-se na porta do inimigo, pois acreditavam que sua alma perseguiria
o ofensor.

A sociedade foi reprimindo o suicídio até a Revolução Francesa, a qual aboliu


as medidas repressivas contra a prática do suicídio o que, para Kalina e
Kovadloff (1983), significou que a conduta suicida deixou de comprometer a
estabilidade do Estado. O suicídio assumiu, assim, um caráter que oscila entre
o quase clandestino, ou francamente clandestino, e o patológico. É um gesto
solitário, dissimulado, uma transgressão. Eles escreveram:

Entre a pessoa e a comunidade começou a se abrir, em


meados do século XVIII, uma distância que duzentos anos
mais tarde terminará constituindo as múltiplas formas de
incomunicação contemporânea. Por isso, mais que um ato de
indulgência estatal frente ao indivíduo, deve-se ver nesta
liberalização progressiva das normas punitivas com respeito ao
suicídio uma expressão de irrelevância social que começa a
pesar sobre a pessoa. Ou seja, não se contempla o suicídio

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com tolerância porque se o compreende, mas porque já não se
lhe atribui maior transcendência coletiva. (p. 54).

Manhães (1990) faz referência às mulheres indianas que, em certas seitas,


num tipo de suicídio obrigatório, são obrigadas a se matar atirando-se nas
covas dos maridos mortos, num “suicídio obrigatório”. A autora cita ainda os
famosos Kamikazes (deuses do vento), pilotos japoneses que se atiravam
contra o alvo para eliminar o inimigo. Eles faziam parte de grupos de pilotos
organizados para realizar ataques suicidas contra navios americanos e
britânicos no oceano Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
O que movia esses homens para a morte certa era um fervor genuinamente
religioso, baseado em valores tradicionais do Japão. Culturalmente, o suicídio
em determinadas circunstâncias era visto por eles como demonstração de
honra. Uma atmosfera sagrada envolvia os aviadores: na véspera de suas
missões eles participavam de rituais religiosos e embarcavam para a morte
com espadas de samurai, símbolo máximo da bravura nipônica.

Segundo Botega (1996) uma elevação temporária no número de suicídios pode


ser eventualmente observada em determinados grupos, ou após o suicídio de
alguma personalidade importante. Isto dá ao comportamento suicida um poder
de “contágio” psicológico, revelando a força dos mecanismos de identificação
que modulam o comportamento humano.

No século XIX, Émile Durkheim publicou o clássico livro O Suicídio. De acordo


com Kovács (2002), Durkheim acreditava que na relação indivíduo/sociedade
aconteciam sérias dificuldades, onde o indivíduo se encontrava à mercê de
forças maiores que ele próprio. Desta forma, o suicídio não era considerado um
fato absolutamente pessoal, e somente poderia ser explicado no contexto
social a que pertencia. Para ele, cada sociedade tem uma inclinação coletiva
ao suicídio que tende a permanecer constante enquanto a estrutura da
sociedade não mudava.

Nenhum suicídio podia ser considerado realizado por livre arbítrio, pois o
fenômeno do suicídio estaria obedecendo a leis sociológicas. Através das

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pesquisas realizadas, Durkheim concluiu que a taxa de suicídio variava em
razão inversa à integração do grupo social de que o indivíduo fazia parte.

Para explicar as taxas de suicídio Durkheim (apud Kovács, 2002) apresentou a


sua tese de que o suicídio poderia ser compreendido em três categorias
sociais: o suicídio egoísta, o altruísta, o anômico (fatalista):

- O suicídio egoísta ocorreria entre aqueles indivíduos que perderam o sentido


de integração com seu grupo social, não se encontrando mais sob a influência
da sociedade, da família e da religião.

- O suicídio altruísta, no qual o indivíduo sacrifica sua vida pelo bem do grupo.

- O suicídio anômico decorre da noção de anomia criada por Durkheim. Trata-


se de um espaço intermediário onde o indivíduo permanece sem
regulamentação por parte da sociedade durante certo tempo. Na anomia, o
indivíduo encontra-se desprovido de proteção e as tendências suicidas da
sociedade encontram-se sem mecanismos de controle e preservação. O autor
desmistifica também a idéia de que o desemprego ou a miséria econômica
conduz ao suicídio. Qualquer ruptura de equilíbrio, ainda mesmo que dela
resulte um bem estar maior e uma vitalidade geral, incita à morte voluntária.
Todas as vezes que se produzem no corpo social graves modificações, sejam
elas devidas a um súbito movimento de crescimento ou a um cataclismo
inesperado, o homem mata-se mais facilmente.

Os diversos tipos de suicídio podem compor formas combinadas, onde se


teriam diferentes causas agindo simultaneamente.

Para Durkheim, segundo Kovács (2002), os aspectos individuais não são


significativos para explicar o fenômeno do suicídio. A idéia durkheimiana é que
é justamente a operação da sociedade como um todo (da cultura) que causa
diretamente a taxa de suicídio: esta só poderia se dar em termos do sistema
social amplo comparado a outros sistemas sociais.

20
SUICÍDIO, MITOLOGIA E RELIGIÕES

Alguns suicídios famosos na mitologia e nas religiões são citados por Manhães
(1990), como é o caso do famoso suicídio na Mitologia tebana de Jocasta mãe
de Édipo. A autora lembra ainda de Crisipo que atentou contra a vida,
envergonhado de ter sido seduzido homossexualmente por Creonte. Da Bíblia,
Manhães (1990) menciona, no Antigo Testamento, o suicídio de Saul:

Ele era perseguido por vozes demoníacas que aplacavam


quando Davi tocava sua harpa. Acossado pelos inimigos, pediu
a seu escudeiro que o matasse. O jovem não teve coragem e
Saul se atira contra sua própria espada, eliminando sua vida
para não cair nas mãos dos incircuncisos. (p. 25).

Estudos realizados sobre religiosidade e suicídio sugerem que pessoas


religiosamente orientadas têm baixo índice de suicídio (Feijó, 1998). Neste
sentido, Durkheim afirma que o efeito preventivo da religião se deve à coesão
social que ela determina e não ao seu conteúdo ou prevenção ao suicídio
(Feijó,1998).

RELIGIÃO CATÓLICA

As religiões cristãs não perdoam os indivíduos que cometem o suicídio.


Segundo Manhães (1990) e Cassorla (1984), a estes são negados os últimos
sacramentos, a encomendação da alma e até a missa de sétimo dia. Já
aqueles que tentavam o suicídio eram excomungados.

O Novo Testamento qualifica o enforcamento de Judas Iscariotes como um ato


suicida, ocasionado pela culpa de ter traído Jesus (Manhães, 1990). Segundo
Cassorla (1984), antigamente a Igreja Católica, de alguma maneira, estimulava
o suicídio, já que o martírio facilitava a entrada no reino dos céus. No século IV,
Sto Agostinho sustenta que o auto-extermínio é uma perversão. Depois disso,
o suicida passou a ser considerado um discípulo de Judas, um traidor da
humanidade, até mesmo como um ato de “vitória do diabo”, uma vez que o
indivíduo duvida da misericórdia divina e perde a convicção de que será salvo.

21
Santo Tomás de Aquino baseou a proibição do suicídio em três justificativas: o
suicídio é contrário à inclinação natural do indivíduo de amar a si mesmo; é um
atentado à comunidade à qual pertence; a vida é um bem dado ao homem por
Deus e quem a tira viola o direito divino de determinar a duração de nossa
existência na Terra.

De acordo com Silva (1992), na Idade Média cristã o suicídio é condenado


teologicamente. A Europa cristã acaba com as diferenças entre o suicídio legal
e ilegal: matar-se era atentar contra a propriedade do outro e o outro era Deus,
o único que criou o homem e quem, portanto, deveria matá-lo. A vida do
indivíduo deixa de ser um patrimônio da comunidade para ser um dom divino e
matar-se equivale a um sacrilégio. O suicidado não tem direito aos rituais
religiosos, seus herdeiros não recebem os bens materiais e seu cadáver é
castigado publicamente, podendo ser exposto nu ou queimado. Os suicidados
são igualados aos ladrões e assassinos e o Estado e a Igreja fazem tudo para
combater os suicídios.

A partir da Revolução Francesa, segundo Cassorla (1984), fica proibido


qualquer tipo de condenação e a Igreja torna-se mais tolerante. Atualmente o
cristianismo é contra o suicídio com base no quinto mandamento (“Não
matarás”), mas existe uma tendência maior em compreender o suicida, e não
condená-lo.

RELIGIÃO JUDAICA

De acordo com o Zweiman (2007), o suicídio é condenado pelo judaísmo e


comparado ao ato de renegar à fé. O dom da vida é uma dádiva divina, não
cabendo, pois, aos seres humanos a decisão de interrompê-la ou encurtá-la.
Quando se fere o corpo ou alma, comete-se uma ofensa contra a obra e a
propriedade divinas. Os atos de luto e sepultamento são feitos neste caso com
muitas restrições.

22
Ainda segundo o autor, o Rabino deve ser ouvido antes de serem aplicadas as
restrições, como a que determina seu sepultamento a uma distância mínima de
cinco metros dos demais túmulos e a não observância de luto.

Segundo Cassorla (1984), apenas são perdoados os judeus que se suicidam


em caso de tortura, manutenção de honra, renúncia forçada da religião,
preservação da castidade, etc.

DOUTRINA ESPÍRITA

Kardec (apud Gregório, 2007), em O Livro dos Espíritos, discute o tema


apontando as causas e as conseqüências do suicídio, considerado um ato
sinistro. Diz que o desgosto pela vida é efeito da ociosidade, da falta de fé e
geralmente da sociedade. O autor diz ainda que os espíritos advertem que
quando se comete o suicídio o indivíduo responderá como um criminoso.
Acrescenta ainda que aquele que tira a própria vida para fugir à vergonha de
uma ação má, prova que tem mais em conta a estima dos homens que a de
Deus, porque vai entrar na vida espiritual carregado de suas iniqüidades,
tendo-se privado dos meios de repará-las durante a vida.

Kardec analisa o suicídio juntamente com a loucura, e diz que “a calma e a


resignação, hauridas na maneira de encarar a vida terrestre, e na fé no futuro,
dão ao Espírito uma serenidade que é o melhor preservativo contra a loucura e
o suicídio" (apud Gregório, 2007). O autor também afirma que os suicidas em
estado de embriaguez e loucura estariam inconscientes de seu ato, e por isso
não teriam as mesmas conseqüências dos suicidas conscientes.

ISLAMISMO

Para Montani (2007), no manual de moral elementar do islamismo, há uma lista


de pecados graves. Os dois mais graves, que Deus não perdoa, são: associar
outras divindades a Alá e o suicídio.

23
Os islamitas condenam e proíbem o suicídio. Eles condenam os indivíduos
que praticam este ato “a uma vida de ‘suicídio eterno’, sempre ressuscitando e
compulsivamente se matando” (Manhães, 1990).

SUICÍDIO E FILOSOFIA

Segundo Pagenotto (2007), Platão descreveu que o suicídio é um erro por


liberarmos nossa alma do corpo em que Deus nos colocou. Platão afirmou em
seu trabalho (Leis) que o suicídio é uma desgraça e que quem o comete deve
ser enterrado em sepultura clandestina.

A autora relata que embora o Renascimento seja um contraponto da Idade


Média, a maioria dos intelectuais tinha a mesma posição da igreja de condenar
o suicídio. O filósofo Michel de Montaigne, no entanto, defendia o suicídio e
enumerou vários argumentos a favor da prática em seus Ensaios.

Pagenotto (2007) também comenta que John Locke, filósofo liberal do século
XVII adotou os argumentos de Santo Tomás de Aquino dizendo que “Deus nos
legou a liberdade pessoal, mas isto não inclui a liberdade de nos matarmos”.

David Hume (1711-1776) em seu ensaio Do Suicídio, ataca praticamente todas


as bases da crença cristã tradicional. Contra todas as doutrinas religiosas, que
sempre condenaram o suicídio, Hume alega que o suicídio não é imoral nem
irreligioso. Argumenta que toda pessoa deveria ter o direito de decidir se
deveria continuar a viver ou não.

Ainda em Pagenotto (2007), um ferrenho opositor ao suicídio nesse período foi


Immanuel Kant (1724-1804), para quem “nossa razão é fonte de nossa
obrigação moral e seria quase uma contradição supor que essa mesma
vontade possa destruir a si mesmo”.

O suicídio foi, segundo a autora, o tema mais abordado pelos existencialistas


na segunda metade do século XX. Albert Camus demonstrou em seu livro Mito

24
de Sísifo que o suicídio nos tenta com a promessa de uma liberdade ilusória do
absurdo de nossa existência. Para Jean-Paul Sartre o ato é uma oportunidade
de afirmar a compreensão de essência individual em um mundo sem Deus.
Assim, para os existencialistas, o suicídio não era uma escolha moldada por
considerações morais, mas por preocupações pelo indivíduo como a única
fonte de significado num mundo sem sentido.

SUICÍDIO, PSICANÁLISE E PSIQUIATRIA

A partir de estudos psicanalíticos, Alves (1991) conclui que o ato suicida tem
várias funções que vão depender de cada indivíduo e situação. De maneira
geral, o suicida estaria tentando fugir de uma situação de imenso sofrimento
somado a uma desesperança e uma tristeza incomensurável. E nesse caso, a
morte seria vista como uma solução, não porque a deseja, mas porque não
enxerga outra saída para a dor psíquica que enfrenta.

Alves (1991), diferencia a “morte vinda de fora” da “morte que cresce por
dentro” e que cada uma delas produz um sentimento diferente para quem as
acompanha. Na primeira, a morte seria vista como um acontecimento de dor,
pois a vida seria abruptamente interrompida. Na segunda não; o ato suicida
seria a vontade do indivíduo manifesta.

De acordo com o autor, esta atitude estaria ligada ao homem transfigurar o


terrível em beleza. Essa seria a única razão para se admirar histórias como a
de Édipo ou Romeu e Julieta, por exemplo.

Para Cassorla (1984), Romeu e Julieta da obra de Shakespeare, assim como


tantos Romeus e Julietas da vida real, se matam para vingar-se de seu
ambiente, “mas, talvez com mais intencionalidade, matam-se para continuarem
juntos, para poderem amar-se num mundo fantasiado, de paz, certamente
numa vida pós-morte” (p. 33).

Assim sendo, Cassorla (1984) coloca que:

25
Muitos suicidas não desejam certamente a morte, mas sim uma
nova vida, em que a pessoa se sinta querida, seja importante.
O final fantasiado, se fosse possível, é que aquela pessoa de
quem se imagina que veio o maltrato, se sinta culpada e com
remorso; então, o suicida como que ressuscitaria, todos se
desculpariam e a vida continuaria, num final feliz. (p. 33).

Para Cassorla (1984), isso não vai ocorrer; no entanto, poderia ser real nas
ameaças e tentativas de suicídio em que o indivíduo sobrevive. Porém, ele
afirma que as reações do ambiente são bem mais complexas e que raramente
a tentativa de suicídio modifica alguma coisa em relação ao ambiente. Pelo
contrário, o ambiente, não raramente, “reage também agressivamente ao ato
agressivo de seu membro” (p. 33-34).

Segundo Alves (1991), o suicida é um artista trágico que por lhe faltarem
recursos para contar a sua história, a única maneira que encontra é
manifestando-a em seu próprio corpo. E o silêncio que resta, seria o pedido
imposto a todos de escutar o final dessa história que é aquele mesmo: um
corpo sem vida.

Segundo Silva (1992), a principal contribuição de Freud para a suicidologia é


datada de 1920 - o texto "Além do princípio do prazer" - onde procura explicar o
conflito humano como sendo, essencialmente, o conflito de Eros x Thanatos.
Eros é a pulsão que conduz a vida e Thanatos é a pulsão que conduz a morte,
sendo necessário haver equilíbrio entre as duas pulsões para que o suicídio
não ocorra com o predomínio da pulsão de morte.

Para a Psicanálise, de acordo com Silva (1992), o indivíduo vivencia o instinto


de vida versus o instinto de morte e, se o ambiente lhe é desfavorável, a
agressão pode se voltar contra o ego. Assim, para Menninger (apud Silva,
1992), o que Durkheim classifica como suicídio egoísta ou suicídio altruísta, um
psicanalista pode analisar como sendo resultado do conflito instinto de morte
versus instinto de vida, ou verificar os desejos de matar, morrer e ser morto.

A polêmica com relação ao suicídio também é discutida por Feijó (1998), se

26
este é motivado ou não por doença mental. A literatura psiquiátrica atual tende
a classificar o suicídio como patológico.

Para Shneidman (apud Feijó, 1998) os suicidas estão sofrendo de dor


psicológica e a visão psiquiátrica para tanto é limitante. O sofrimento é
opcional, dependo da personalidade. Para se livrar deste sofrimento um dos
caminhos pode ser o suicídio e então não seria considerado um ato doentio.

Durkheim (apud Feijó, 1998), admitia a vigência do suicídio nas doenças


mentais, mas “se tal fato fosse verdadeiro a doença mental deveria revelar sua
presença mediante manifestações características, mesmo quando as
condições sociais tendem a neutralizá-las. Inversamente, os fatores sociais
seriam impedidos de se manifestar, quando as condições individuais atuam no
sentido contrário” (Feijó, 1998).

Para Botega (1996), na maioria dos casos de suicídio podemos inferir a


influência de transtornos mentais como a depressão (50% dos casos), o
alcoolismo (10 a 25% dos casos), drogadição e esquizofrenia. No entanto, não
se pode afirmar que todo ato suicida carregue componente psicopatológico.

Para Friedrich (apud Feijó, 1998), o suicídio acontece quando a pessoa se


sente incapaz de dominar uma situação insuportável, acredita que não
conseguirá sair dela e desespera-se pela perda do controle sobre o ambiente e
da maneira de agir. Seria assim que o suicida percebe suas experiências
internas e externas.

SUICÍDIO NO BRASIL

No Brasil, na época da escravidão, o índice de suicídio entre negros era alto


em relação aos brancos. Goulart (1972) escrevendo sobre a escravidão no
Brasil relata:

O suicídio foi o mais trágico recurso de que se valeu o negro


escravo para fugir aos rigores do regime que o oprimia –
excesso de trabalho, maus tratos, humilhações, e, em muitos

27
casos, para eliminar juntamente com a própria vida, o banzo,
isto é, aquela irreprimível saudade da pátria distante, para
sempre fisicamente perdida, à qual só tornaria a voltar graças
ao processo de ressurreição, como acreditava. (p. 123).

Segundo o autor, o negro via no suicídio, além de uma forma de abreviar os


sofrimentos físicos e morais, certa modalidade de vingança contra o detestado
senhor. Para os proprietários de terras o suicídio representava ruína, uma vez
que se perdia a mão de obra escrava e com isso havia perda de capital.
Mesmo após a abolição da escravatura, o índice de suicídio entre negros era
maior, pois a industrialização não conseguiu absorver toda esta nova mão-de-
obra.

Como foi visto, o suicídio também pode ser considerado como questão de
honra. “Do ponto de vista ético, ao defrontar-se com situações morais tão
penosas e humilhantes, a pessoa prefere se evadir da vida” (Manhães, 1990, p.
26).

Manhães (1990), considera que o suicídio do presidente Getúlio Vargas tenha


sido por questões morais. “Em um momento crítico do país, (…) ele, ao invés
de usar o afastamento simples, optou pela grande renúncia – a morte” (p. 26).

Já para Cassorla (1984), o suicídio do presidente Getúlio Vargas teve o intuito


de vingança frente aos seus inimigos, que se sentiriam culpados e
responsáveis, como também, principalmente, o objetivo de “permanência de
Vargas influenciando os sobreviventes, como em uma vida pós-morte: ‘saio da
vida para entrar na História’, escreve em sua carta-testamento. Em sua
fantasia, continua vivo, talvez ainda mais vivo que antes de seu suicídio“ (p.
33).

Neste sentido, o suicídio de Vargas parece se encaixar na afirmação de


Stengel (apud Feijó, 1998) que diz que o suicídio deriva do instinto de
autopreservação no sentido da imortalidade. (...) de renascimento espiritual, de
se manter vivo ou recomeçar, mais do que terminar.

28
De acordo com Cassorla (1991) “não existe uma causa para o suicídio. Trata-
se de um evento que ocorre como culminância de uma série de fatores que vão
se acumulando na biografia do indivíduo, em que entram em jogo desde fatores
constitucionais até fatores ambientais, culturais, biológicos, psicológicos etc”
(p.20).

REPRESENTAÇÃO SOCIAL DAS MENSAGENS SUICIDAS

Uma coisa é certa. O grande suicida, o que realmente quer pôr


fim à sua vida, sempre o faz, no silêncio ou no alarde, como o
grande humorista Péricles que se matou no último dia do ano,
(...) Péricles, como muitos, precisou morrer para comunicar sua
solidão. (...) É nítido, nas mensagens de Adeus, como, com a
morte do indivíduo sua intimidade se revela aparente, nua, em
comunicação (Manhães, 1991 e Dias, 1991).

De acordo com Silva (1992), as representações sociais não excluem as


emoções sempre presentes em todo ato humano e que se apresentam
intensamente tanto na hora em que se escreve um bilhete quanto na hora do
gesto suicida. O suicidado é, segundo a autora, ao mesmo tempo, a fonte que
emite um sinal em código e o emissor da comunicação. A sociedade é
receptora da comunicação e a fonte que realimenta o processo. O significado é
polêmico porque pode haver divergência entre o significado que o suicidado
quis dar ao seu ato e o significado atribuído pelos outros.

Ainda para Silva (1992), o suicídio é uma representação ancorada em


diferentes representações de morte e, também, representações de vida:
descanso, transformação, ausência de sofrimentos, vida paralela, etc,
demonstrando que é um fenômeno psicossocial - intra e interpsíquico. É
intrapsíquico uma vez que o sujeito vive um conflito emocional consigo mesmo.
É interpsíquico porque neste conflito as emoções e os pensamentos são
elaborados nas relações sociais. A representação social, segundo Jodelet
(apud Silva, 1992), ponto de intersecção do psicológico e do social, explica a
atividade do suicidado em criar simbolicamente sua própria destruição a partir
das suas ancoragens e do processo de objetivação que vive.

29
Portanto, falar de suicídio é falar de comunicação, cognição e atividade, onde
os sentimentos desempenham papel decisivo. "... o indivíduo ao morrer, passa
a viver. Ele aí, então, expressa muito de seu estado emocional e de sua
interioridade que não foi possível comunicar em vida" (Silva, 1992). Segundo a
autora, o processo de comunicação do suicídio é um questionamento de todas
as representações sociais existenciais que se tem.

A VISÃO DO SUICÍDIO NA ATUALIDADE

Para Kalina e Kovadloff (1983) o homem do nosso tempo, na busca de seus


próprios interesses econômicos e em nome da civilização e do progresso,
acaba por contribuir para uma prática diária de auto-destruição. Citam como
exemplo, o perigo de uma guerra atômica juntamente com uma contaminação
ambiental como sendo fatores que comprometeriam toda a humanidade em
geral.

Os autores aplicam o termo “existência tóxica” para designar a maneira de


viver atual. “A existência, quando é tóxica, implica um projeto de morte, ou seja,
viver suicidando-se” (p. 30).

Uma existência tóxica é uma vida contaminada. Uma forma de


viver que, para sustentar-se, necessita nutrir-se daquilo mesmo
que a destrói. E precisamente por isso, porque não pode
renunciar ao que a danifica, a existência – ao ser tóxica – é
suicida (p. 41).

O suicídio seria a expressão radical de uma crise de despersonificação, de um


“debilitamento profundo da auto-estima”. E, a “despersonificação urbana
contemporânea” seria o fator principal que contribuiria para uma proliferação de
patologias suicidas. (Kalina e Kovadloff, 1983)

Os autores vêem o suicídio como um comportamento coletivo. Acreditam que o


modo de viver contemporâneo poderia ser interpretado como um “auto-
extermínio progressivo da humanidade” (p. 17).

30
Portanto, de acordo com Kalina e Kovadloff (1983), a reação suicida
propriamente dita, seria resultado de uma indução e não somente de uma
determinação individual; há a “macrossociedade” e as microexpressões desta,
ou seja, a família. O indivíduo suicida já é possuidor de um potencial, mas as
“microexpressões” da sociedade ensinariam de forma manifesta ou subliminar
os modelos que cada pessoa adota. Ou seja, a conduta suicida, considerada
como um gesto autônomo, seria decorrente de uma colaboração de muitos
outros fatores pertencentes ao meio social em que se vive, até mesmo da
família.

Em relação à família, as teorias de aprendizado social acreditam que os


suicidas imitam comportamentos de familiares e amigos. Também a teoria
sistêmica postula o suicídio como um sintoma de uma disfunção familiar (Feijó,
1998).

Segundo Botega (2004), os familiares de uma vítima de suicídio também se


encontram em um grupo de maior risco para o suicídio, por causa de
mecanismos psicológicos de identificação e predisposições genéticas para
determinadas doenças mentais, como por exemplo, transtornos de humor.

Sobre a visão atual do suicídio, Galiás (2004) ainda comenta:

Tendemos a olhar para o suicídio como algo uno, ou seja, como se


todos fossem mais ou menos iguais. É como se colocássemos os
diferentes tipos de suicídio todos no mesmo saco, com um só rótulo. E
dessa forma o suicida é de imediato associado a características como
fraqueza, loucura, covardia, depressão, estupidez, coitadice ou
agressividade, etc. Evidentemente todas essas podem estar presentes
e mais outras tantas condições. Porém não temos discriminação entre
diferentes tipos de suicídio, quanto entra a impulsividade, quanto entra
até mesmo a reflexão, a decisão. Verdadeiramente, estamos longe de
ter algo que se aproxime de uma "classificação" de diferentes
suicídios. Não temos uma discriminação dos suicídios e sim uma
discriminação do suicida (p.2).

Para Kurtz (2007), mesmo um cego em termos de teoria social deve atentar
para os paralelos com os terroristas do 11 de setembro de 2001 e com os
terroristas suicidas da Intifada palestina. Segundo o autor, muitos ideólogos

31
ocidentais pretenderam atribuir esses atos incondicionalmente, com visível
apologia, ao "âmbito cultural alheio" do Islã. Ambos os fenômenos pertencem
ao contexto da globalização capitalista; são o resultado "pós-moderno" último
do próprio iluminismo burguês. A diferença das condições para o autor tem a
ver mais com a distinta força do capital do que com a diversidade das culturas.

EPIDEMIOLOGIA DO SUICÍDIO NA ATUALIDADE

O suicídio, segundo Botega (1996) encontra-se entre as 10 principais causas


de morte no mundo, e entre as três primeiras quando se considera a faixa entre
15 e 34 anos de idade. O autor ainda alerta para o fato de que é estimado que
os coeficientes reais de mortalidade por suicídio no país sejam até quatro
vezes maiores que os registros oficiais. As causas desse panorama seriam: a
subnotificação do suicídio decorrente da dificuldade de estabelecer se a morte
foi intencional ou acidental, do estigma sobre o suicídio e dos diferentes
critérios para defini-lo, além da falta de qualidade das estatísticas.

Tais índices nos alertam para a necessidade de intervenções psicossociais


mais efetivas no intuito de prevenir o suicídio e ajudar familiares a enfrentar a
dor da perda de um membro que tenha se suicidado.

32
CAPÍTULO II - LUTO

Freud (1974) definiu o luto como uma reação à perda de um ente querido ou de
algo significativo, investido de libido. A tarefa que o luto tenta resolver, segundo
o autor, se dá da seguinte maneira: o exame da realidade mostrou que o objeto
amado já não existe e exige que a libido abandone suas ligações com ele. A
inibição e a falta de interesse são explicadas pelo trabalho que o luto exige,
mas que quando “normal” supera a perda do objeto perdido e reinveste a libido
em outro objeto.

Contra esta demanda surge uma oposição natural, mas que pode se tornar tão
intensa a ponto do afastamento da realidade e conservação do objeto perdido
acarretar em luto patológico. Freud aponta como características do luto
patológico a auto-recriminação, a culpa pela perda, a depressão obsessiva e o
conflito devido à ambivalência da relação com o morto.

Tanto o luto como a melancolia são, segundo Freud (1974) reações à perda do
objeto amado. No entanto, na melancolia, o objeto perdido é mais emocional e
inconsciente que real, porque o indivíduo se identifica com o objeto perdido. O
ego, no melancólico, é descrito como indigno de estima, incapaz de produzir e
moralmente condenável pelo doente, que possui sentimentos de culpa e
espera o castigo e a repulsa. A perda do objeto amado constitui uma condição
favorável para surgir a ambivalência nas relações afetivas, que são
exteriorizadas por meio da culpa, por ter desejado ou ser culpado pela perda
do objeto amado.

O luto é um processo natural e esperado após a vivência de uma perda, seja


ela simbólica ou relativa a uma morte (Bromberg, 1996). É a expressão dos
vínculos que as pessoas estabelecem umas com as outras e que, em última
análise, tem suas raízes na infância (Parkes,1998). Por isso, para se
compreender a origem da dor e sofrimento pela perda de alguém, é importante
entender como as pessoas se vinculam umas às outras.

33
Segundo Bowlby (2001) os vínculos são construídos a partir da familiaridade e
proximidade com as figuras parentais no início da vida. Eles surgem da
necessidade que se tem de se sentir seguro e protegido e acaba por ser um
movimento inato que permite manter os progenitores e descendentes unidos.
Para o autor, este sistema de vinculação contribui para a formação de atitudes
do sujeito nas relações amorosas. Quanto mais forte for o laço estabelecido
entre duas pessoas, maior será o impacto proveniente da ameaça ou ruptura
real desse laço.

Bromberg (2000) explica que existe uma diferença entre luto, enlutamento e
pesar: o luto é o conjunto de reações a uma perda significativa; enlutamento é
o processo de adaptação a essa perda e pesar é o significado interno dado à
experiência do luto.

O enlutamento é definido por Parkes (1998) como um processo que envolve


uma sucessão de quadros clínicos que se mesclam e se substituem, como o
entorpecimento, a saudade ou procura, a desorganização ou desespero e a
recuperação. De acordo com o autor, apesar de cada uma dessas fases ter
suas características, há diferenças consideráveis referentes à forma e à
duração de cada fase, de uma pessoa para outra. A perda de uma pessoa
significativa com a qual possuía-se um vínculo e as fases do enlutamento
também foram descritas por vários outros autores (Bowlby, 1985b; Kübler-
Ross, 1994; Bromberg, 2000, Kovács, 2002):

FASES DO LUTO

Entorpecimento

O entorpecimento é uma experiência tão freqüente depois de uma perda por


morte que pode ser considerada, segundo Parkes (1998) a primeira fase do
luto. Ocorre choque, anestesia, descrença. A pessoa enlutada se sente
desamparada, imobilizada, perdida, como se não soubesse bem o que
aconteceu, nem o que fazer. Pode durar de poucas horas a alguns dias e
episódios de extremo sofrimento e desespero são freqüentes nesse período.

34
Os sintomas somáticos mais freqüentes são, de acordo com o autor: respiração
suspirante, rigidez no pescoço e sensação de vazio no estômago.

Anseio, protesto, procura

O traço mais característico do luto não é a depressão profunda, mas episódios


agudos de dor e ansiedade que começam algumas horas ou dias após a perda
e atingem um ápice de intensidade no intervalo de 5 a 14 dias (Parkes, 1998).
Esta dor advém da necessidade de procurar o objeto perdido. O autor define a
procura como uma atividade na qual a pessoa se movimenta em direção aos
possíveis locais onde a pessoa que morreu costumava estar e comenta que
adultos enlutados têm consciência de que não há sentido em procurar por uma
pessoa que morreu, mas que isso não os impede de ter um forte impulso em
direção à busca.

Além disso, nesta fase o enlutado costuma ficar inquieto, tenso e em estado de
vigília constante. No entanto, sua procura de “alguma coisa para fazer” é, para
Parkes (1998), “fadada ao fracasso porque as coisas que pode fazer não são,
na verdade, aquelas que gostaria (...) o que ela (pessoa enlutada) quer fazer é
encontrar a pessoa perdida” (p.70). Também é comum que nesta fase:

(...) o enlutado sinta muita raiva, às vezes dirigida contra si


mesmo, na forma de acusações com sentimentos de culpa por
pequenas omissões de cuidado que possam ter acontecido com o
morto; às vezes é dirigida contra outras pessoas, principalmente
àquelas que oferecem consolo e ajuda; a raiva também pode ser
dirigida contra o morto, pelo abandono que provocou. (Bromberg,
2000, p.38).

Desespero

Ainda em Bromberg (2000), com a passagem do primeiro ano de luto, costuma-


se instalar a fase de desespero, na qual o enlutado deixa de procurar pela
pessoa perdida e reconhece que a perda é irreversível. O processo de
superação dessa fase é lento e doloroso e essa fase costuma ser considerada
mais difícil que as anteriores. O enlutado sente desmotivação pela vida, apatia,

35
depressão, afasta-se de pessoas e de atividades que costumava praticar e tem
dificuldade de se concentrar em tarefas rotineiras.

Recuperação e restituição

Embora as dores do luto e a busca para encontrar o morto sejam poderosas,


conforme o tempo passa, a dor da saudade e a ansiedade diminuem e o
enlutado começa a voltar seus pensamentos a outras demandas da vida, como
se alimentar, dormir, cuidar da casa, dos filhos, etc. Parkes (1998) descreve
esta fase da seguinte maneira:

À medida que o tempo passa, se tudo correr bem, a


intensidade da saudade diminui e a dor e o prazer da
lembrança são sentidos como uma mistura ‘agridoce’ de
emoções, uma forma de nostalgia. Nesse momento, os dois
componentes parecem ser experimentados simultaneamente.
(p. 84).

A recuperação acontece conforme a pessoa enlutada consegue aceitar a


realidade da perda, trabalhar a dor da perda e ajustar a um ambiente em que
o falecido está ausente. O enlutado recupera gradativamente a iniciativa, a
independência, as atividades que gostava de praticar. De acordo com
Freitas (2000):

A perda revela a dependência, mas também a liberdade.


Revela, principalmente, que não se pode ter uma, sem ter a
outra. O enlutado não deve ser visto apenas com compaixão,
mas como alguém que pode conseguir acesso a um significado
mais duradouro da existência. (p.10).

A transformação do investimento afetivo que se destinava ao morto requer


criatividade em sua elaboração, já que a relação com a pessoa que morreu não
vai ser esquecida, e sim ressignificada (Bromberg, 2000). A autora ainda
descreve que mesmo com o processo de recuperação em andamento, é
comum a recorrência de sintomas das fases anteriores, principalmente em
datas como as de aniversário de nascimento, morte, casamento.
Ajustar-se a um novo ambiente tem diferentes significados para diferentes
pessoas, dependendo da relação que se tinha com a pessoa falecida e os

36
vários papéis que ela desempenhava. Kovács (2002) traz que quanto maior o
investimento afetivo no vínculo, maior a energia necessária para o
desligamento quando a perda acontece. A reorganização da vida torna-se
ainda mais difícil quando existia antes uma dependência física ou psíquica com
o morto.

O processo de elaboração do luto é normalmente longo e trabalhoso, de


transição psicossocial, no qual um conjunto de concepções sobre o mundo não
faz mais sentido e, portanto, deve ser atualizado para se adequar à nova
realidade (Parkes, 1998). De acordo com o autor, não é possível definir um
tempo preciso de duração do processo. Devemos respeitar o ritmo de cada
enlutado e os recursos de cada um para refazer o contexto pessoal, familiar e
social sem a pessoa morta.

É possível, no entanto, estabelecer alguns fatores que contribuem para a


compreensão do luto e de seu tempo de elaboração. O processo de
enfrentamento da morte está relacionado a fatores pessoais, familiares, além
da influência histórica e sócio-cultural. Bowlby (1985a) indica cinco variáveis
como determinantes da elaboração do luto:

1. A identidade e o papel da pessoa perdida;


2. A idade e o sexo da pessoa enlutada;
3. As causas e circunstâncias da perda (repentina ou morte por doença
prolongada, morte violenta, suicídio);
4. As circunstâncias sociais e psicológicas que afetam a pessoa enlutada
na época da perda e depois dela;
5. A personalidade do enlutado, com especial referência a sua
capacidade de estabelecer relações amorosas e de reagir a situações
estressantes. (p.195)

Tinoco (2007) acrescenta outras variáveis determinantes no modo de


enfrentamento do luto:

- O contexto religioso e espiritual do enlutado;

37
- A educação para a morte recebida;
- Os acesso às informações sobre o ocorrido;
- O apoio recebido e a possibilidade de expressão dos sentimentos.

SINTOMATOLOGIA

O processo de luto pode acarretar prejuízos para a saúde física e mental do


enlutado. Entre os sintomas decorrentes de um processo de enlutamento
apontados por Parkes (1998) estão:

-Ordem afetiva: depressão, ansiedade, culpa, raiva, hostilidade, falta de prazer,


solidão;
- Manifestações comportamentais: agitação, fadiga, choro;
-Atitudes em relação a si, ao falecido e ao ambiente: baixa auto-estima,
desamparo, auto-reprovação, desconfiança, isolamento;
- Atitudes em relação ao falecido: anseio, idealização, ambivalência;
-Deterioração cognitiva: lentidão do pensamento e dificuldade de concentração;
-Mudanças fisiológicas e queixas somáticas: perda de apetite (às vezes comer
em excesso; mudança de peso), distúrbio de sono (insônia, dormir em excesso,
distúrbio no ritmo), perda de energia (fadiga);
-Queixas somáticas: dores de cabeça, na nuca, nas costas, câimbras, náuseas,
vomito, nó na garganta, boca seca ou com gosto amargo, prisão de ventre,
azia, indigestão, flatulência, visão embaçada, dor ao urinar, respiração curta,
necessidade de suspirar, sensação de estomago vazio, falta de força muscular,
palpitações, tremores, queda de cabelo;
- Mudanças na ingestão: aumento do uso de psicotrópicos, bebidas alcoólicas,
fumo;
-Suscetibilidade a doenças: infecções, relacionadas a estresse, falta de
cuidados com a saúde;

38
LUTO NORMAL E LUTO COMPLICADO

Depois de Freud (1974), inúmeros autores descreveram o luto “normal” e o luto


denominado “patológico”. Existe uma linha tênue e imprecisa que os separa.
De acordo com Freitas (2000), o luto chamado normal pode ser observado
quando o impacto da perda pode ser diminuído em um breve espaço de tempo,
por meio da formação de novos vínculos substitutivos, de investimentos
produtivos em novas atividades e da aceitação do suporte social. O luto
denominado complicado é, segundo a autora, observado quando o vínculo
permanece intenso com uma pessoa que, não estando mais viva, não permitirá
à pessoa enlutada a vitalização necessária para a sua manutenção saudável,
abrindo campo para reações, como: a negação, a ambivalência, a distorção, a
permanência no passado, que levam ao desequilíbrio pessoal e à doença.

Para Bowlby (apud Kovács, 2002) a exacerbação dos processos presentes no


luto normal, com duração prolongada e características de obsessividade,
configura um processo patológico. No luto normal há a aceitação do mundo
externo, ligada à perda definitiva do outro, e a conseqüente modificação do
mundo interno e representacional, com a reorganização dos vínculos que
permaneceram.

Bromberg (2000) também traz que o luto normal tem curso e superação
previsíveis, enquanto o luto patológico foge do já descrito no que se refere à
sintomatologia e ao processo. Segundo a autora, o luto patológico implica uma
experiência de crise, “para o qual os recursos disponíveis são inadequados e
insuficientes” (p.19).

Parkes (1998) classificou três tipos de luto patológico:

- Luto crônico: prolongamento indefinido do luto e depressão como principal


sintoma. Predomínio de ansiedade, tensão, inquietação e insônia. Respostas
emocionais à perda são prolongadas e intensas, em alguns casos com a
predominância da raiva, auto-acusação e ausência de pesar. O enlutado não

39
consegue planejar sua vida, que permanece desorganizada. Versão distorcida
e extensa das fases de procura e desespero.

- Luto inibido: sintomas do luto normal estão ausentes (semelhante ao luto


adiado, variando apenas o grau de defesa psíquica).

- Luto adiado: reações imediatas à morte podem não ser apresentadas


podendo ser provocadas mais tarde por eventos que não teriam força para
tanto. No processo de adiamento a pessoa pode apresentar comportamento
normal ou sintomas de luto distorcido, como superatividade, sintomas de
doença do morto, isolamento.

Wash (1998) aponta os seguintes fatores como contribuintes de um luto


complicado:
1. Morte repentina ou prolongada;
2. Perda ambígua;
3. Morte violenta, especialmente suicídio;
4. Padrões familiares indiferenciados ou desunidos, falta de tolerância a
diferentes respostas ou de coesão para o apoio mútuo;
5. Falta de flexibilidade do sistema;
6. Comunicação bloqueada e segredos, mitos e tabus em torno da morte;
7. Falta de recursos familiares, sociais e econômicos;
8. Importância do papel do membro perdido para o funcionamento com
substituições precipitadas ou incapacidade de reinvestimento;
9. Relações conflituosas ou rompidas na época da morte;
10. Perda prematura;
11. Perdas múltiplas ou outros estressores familiares coincidentes com a
perda;
12. Legado familiar multigeracional de perdas não resolvidas,
particularmente replicações de aniversários transgeracionais;
13. Sistema de crenças da família evocando culpa ou vergonha em torno
da morte;
14. Contexto sócio-político e histórico da morte, estimulando a negação,
o estigma ou temores catastróficos (p.51).

40
O autor ressalta que o risco está intimamente ligado ao momento no ciclo de
vida multigeracional da família em que essa perda ocorre. E ainda nos chama
atenção para o fato de que a coincidência de uma perda com outros
acontecimentos que tragam uma renovação, alegria (um novo casamento,
nascimento de filho) podem criar tarefas e exigências incompatíveis, muitas
vezes um sentimento de ambivalência.

41
CAP. III – LUTO MATERNO

Qual vai dizendo: Ó filho, a quem eu tinha


Só para refrigério e doce amparo
Desta cansada já velhice minha,
Que em choro acabará penoso e amaro
Porque me deixas, mísera e mesquinha?
Porque de mi te vás, ó filho caro,
A fazer o funéreo enterramento...?
(Camões, Os Lusíadas – Canto IV, estrofe 90)

Gostaria de propor uma reflexão, a partir da literatura pesquisada, sobre as


especificidades do luto materno antes de discutir a elaboração desse luto no
caso de um filho suicida, tema central deste trabalho. Também gostaria de
refletir sobre o processo de vinculação mãe-filho, pois penso que entender
como uma mãe se vincula ao filho é fundamental para entender como se dá o
processo de elaboração desse luto. Pretendo assim, criar as condições que
poderão embasar minha discussão e responder ao objetivo deste trabalho.

Vinculação mãe-filho

Segundo Gallo (2003), o desejo de ser mãe e, conseqüentemente, ter um filho,


apontaria para aquilo que a Psicanálise chamou de satisfação narcísica. Ou
seja, a criança ocuparia um lugar para o desejo materno como um ser investido
libidinalmente de expectativas futuras. Freud (1976) afirma:

No ponto mais sensível do sistema narcisista, a imortalidade do


ego, tão oprimida pela realidade, a segurança é alcançada por
meio do refúgio na criança. O amor dos pais, (...), nada mais é
senão o narcisismo dos pais renascido, o qual transformado
em amor objetal, inequivocadamente revela sua natureza
anterior (p.108).

Brazelton (apud Gallo, 2003) levantou motivações que mobilizam as mulheres


a desejarem um filho. Essas motivações estão relacionadas direta ou
indiretamente com a satisfação narcísica da mãe, que são: identificação com a
própria mãe; desejo de ser completa e onipotente, no qual a mãe vê a criança
como extensão de si mesma; desejo de fundir-se e ser um com outro indivíduo;

42
desejo de imortalidade; realização de ideais e de oportunidades perdidas;
desejo de renovar antigos relacionamentos; oportunidade de substituir e
separar-se da própria mãe.

Com o nascimento, a mãe, segundo Winnicott (2001, p.28), “por meio de certo
tipo de identificação, vai ao encontro do estado original de não diferenciação da
criança”. A identificação da mãe com seu bebê é importante para que se
envolva com ele, fornecendo-lhe apoio, cuidado, amor, significando e
satisfazendo assim as necessidades do filho. Segundo o autor, neste momento
inicial, não podemos pensar em um bebê como um ser separado. Tem-se uma
unidade mãe-bebê.

Normalmente a possibilidade de identificação e de investimento amoroso é


antecedida pela gravidez, pela idealização de um filho, pela escolha de um
nome, pela construção de uma história para o filho junto à história de vida da
mãe (Gallo, 2003).

Winnicott chama de mãe suficientemente boa àquela que consegue suprir


essas necessidades de seu filho. Nas palavras do autor:

Só na presença dessa mãe suficientemente boa pode a criança


iniciar um processo de desenvolvimento pessoal e real. Se a
maternagem não for boa o suficiente, a criança torna-se um
acumulado de reações à violação; o self verdadeiro da criança
não consegue formar-se, ou permanece oculto por trás de um
falso self que a um só tempo quer evitar e compactuar com as
bofetadas do mundo (Winnicott, 2001, p.24).

Segundo Winnicott (2001), o cuidado materno (função materna) é composto


pelo holding (segurar), relacionado à capacidade da mãe de identificar-se com
seu bebê; handling (manipular), que facilita a formação de uma parceria
psicossomática na criança; e a apresentação de objetos, que torna real o
impulso criativo da criança. Neste início há um alto grau de adaptação às
necessidades do bebê, e a mãe está quase que exclusivamente voltada a ele.

43
O bebê, partindo de uma não organização, vai-se organizando sob condições
altamente especializadas e, aos poucos, separando-se da matriz que propicia
tais condições (mãe). Simultaneamente a mãe vai se voltando a seus
interesses anteriores, não atendendo prontamente às necessidades do bebê, à
medida que vai podendo criar recursos para lidar com frustrações.

Winnicott ressaltou que quando ocorre tudo bem, o relacionamento se


estabelece rapidamente, porém quando existem dificuldades é provável que
ambos venham a sofrê-las por muito tempo ou até mesmo para sempre.

A perda de um filho

Na sociedade atual, a perda de um filho é algo tido como “chocante”.


Certamente não foi sempre assim; ao longo do tempo, a percepção e o
entendimento do sentido da infância e da morte de um filho sofreram mudanças
importantes. Ao longo da história muitas foram as mudanças na forma de ver e
tratar a morte de um filho. Para Rangel (2004), todas essas modificações foram
cercadas de interesses sócio-econômicos:

Numa época em que as guerras e as doenças dizimaram parte


considerável dos homens jovens, e que a agricultura e a
indústria florescente necessitavam de mão-de-obra, as
crianças, na qualidade de futuros operários ou agricultores,
transformaram-se em um investimento lucrativo para seus pais,
para a sociedade como um todo e para o Estado (p. 32).

De acordo com Ariès (1981), no século XVII e XVIII a indiferença materna era
explicada pelo alto índice de mortalidade infantil. É possível perceber através
deste trecho que a idéia da infância era ligada à submissão e servidão, ou até
mesmo, a certa “insignificância” pois:

A infância era um período de transição, logo ultrapassado, e


cuja lembrança também era logo perdida”. (...) Era apenas uma
fase sem importância, que não fazia sentido fixar na
lembrança; não se considerava que essa coisinha
desaparecida tão cedo fosse digna de lembrança: havia tantas
crianças (..) se faziam tantas crianças para conservar algumas
(Ariès, 1981, p. 18-21).

44
Foi somente a partir do século XVIII que se começou a enfatizar a importância
da presença da mãe para a educação da criança. O conceito de infância e o
respeito por ela foram sendo construídos com o declínio da mortalidade infantil.
A realidade atual de nossa sociedade é bem diferente: a morte de um filho é
um dos acontecimentos mais difíceis de se aceitar. O investimento feito pelos
pais nos filhos também é de outra ordem e, sem dúvida, morrem menos
crianças.

De acordo com Casellato (2004), a perda de um filho implica num tipo especial
de luto, pois solicita adaptações tanto de aspectos individuais dos pais no
enfrentamento desta situação, como em adaptações na relação com o cônjuge,
no sistema familiar e na sociedade.

Segundo Bromberg (1994), na vida adulta a morte de um filho é um confronto


com a própria morte, pois vai embora o produto de uma vida. Mize apud Freitas
(2000) descreve o triste pensamento de uma mãe enlutada:

Uma das coisas mais difíceis é aceitar a morte de um filho.


Você cogita: Por que não eu? Por que ele? É um rude
lembrete: a morte não segue horário previsível, ela escolhe seu
próprio tempo e lugar (p.56).

Quando perdemos um filho, perdemos também todas as suas funções


explícitas e implícitas dentro do funcionamento familiar, por exemplo:
companheiro da mãe, o "bode expiatório", o apaziguador, etc. (Casellato,
2004).

De acordo com a autora, após a perda de um filho não é incomum ocorrer


separação dos pais. A raiva recíproca e as insinuações culposas podem minar
relações que não estejam bem fundamentadas e trabalhadas. A comunicação
pode complicar-se na tentativa de evitar o sofrimento do outro. Há casos em
que um dos cônjuges culpa o outro por acreditar que ele não está sofrendo
tanto pela morte do filho.

45
Ainda em Casellato (2004), é comum os pais atribuírem qualidades
santificadas ao filho morto, como "favorito", "melhor" ou "especial", o que pode
intensificar as experiências de luto familiar. Podem acontecer as comparações
entre os filhos vivos e o filho idealizado que morreu. Os pais também
costumam viver sentimentos ambivalentes em relação aos filhos que
"sobreviveram" pois sentem medo de investir afetivamente nestes, ou por outro
lado, passam a superproteger, com medo de perdê-los.

O luto por um filho é marcado por muita raiva, culpa e revolta, bem como pela
sensação de injustiça ou de auto-reprovação pela inabilidade de impedir sua
morte (Bromberg, 2000). As reações ligadas à perda de um filho dependem de
alguns fatores como: a relação prévia entre pais e filho, a idade do filho, as
circunstâncias da perda, entre outros. Segundo a autora, a perda de um(a)
filho(a) jovem provoca grande dificuldade entre os sobreviventes em aceitar a
morte prematura.

De acordo com Galiás (2004), no luto materno a mãe pensa e sente o filho
vinte e quatro horas ao dia, obsessivamente. A mãe é tomada pelo filho,
“exatamente como uma puérpera, quando o filho acabou de nascer.
Exatamente como os apaixonados, sem tirar nem pôr” (p.6).

46
CAP. IV - LUTO POR SUICÍDIO

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.


Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.
(Augusto do Anjos, O Morcego)

A morte por suicídio instiga a desaprovação social. Perdas desta natureza


tendem a ser socialmente não autorizadas, levando igualmente a lutos não
autorizados (Parkes, 1998).

A família do suicida é vítima de muitos preconceitos, seja por tê-los ela mesma,
seja por sofrer as conseqüências da discriminação social. Para a compreensão
do aspecto familiar, foram extraídos trechos da palestra “Suicídio – o Tema
Temido”, de Iraci Galiás (2004), psiquiatra, mãe de um suicida. Neste texto
foram encontrados pontos importantes, referentes à culpa, preconceito, raiva,
impotência, etc :

A família que perdeu alguém por suicídio é especial. Ela passa


a ter "antecedentes psiquiátricos". O filho de um suicida
também é visto como um órfão especial, diferente de todos os
outros órfãos. Se criança, é cercada pelo medo dos adultos de
que, ao crescer, tudo com ele será extremamente mais
complicado do que se fosse outro tipo de orfandade. Correrá o
risco de identificar-se com o suicida e repetir o ato trágico?
Qualquer sintoma emocional que a criança órfã por suicídio de
um dos pais tenha é imediatamente associado a essa causa. E
nenhuma outra costuma ser investigada, ainda que possa ser
apriorística. Se, por exemplo, a criança tem algum problema na
escola com a aprendizagem ou qualquer outro, é "obviamente"
debitada na conta do suicídio parental (p.4).

Galiás (2004) também comenta o sentimento de culpa e os infinitos "se" que


passam na cabeça de uma mãe:

Vão desde “se eu tivesse escolhido outro pai para ele" até "se
eu estivesse lá naquele exato momento". No fim das contas "se
eu não o tivesse concebido" ele não existiria e, portanto não se
mataria (...) Se a mãe deu seu filho "à luz" como pode ela
aceitar que não tenha poder sobre sua volta "às trevas?"(...)

47
São tão intensos e insuportáveis os sentimentos de culpa de
uma mãe que, com facilidade, tendemos a encontrar bodes
expiatórios. A questão de que e/ou quem levou o suicida a
cometer o ato trágico é uma constante em seus pensamentos.
Além de nos culparmos, sobra para todo lado (...) Ou seja, para
tentar separar no filho vítima e homicida e transferir ou deslocar
este para qualquer outro objeto, até para nós mesmos, desde
que não seja o filho morto ao mesmo tempo vítima e culpado
(...) Há essa particularidade no bode expiatório, ele não se
presta propriamente ou somente a levar embora ou expiar a
nossa culpa. Sua maior função é levar embora a culpa do
suicida, é expiar levando embora o homicida nele contido (p.8).

Calligaris (2007) também descreveu a culpa e a vergonha suscitadas pelo


suicídio:

Mas, em regra, quando se suicida um próximo de quem


gostamos e que gostava de nós, não atribuímos vergonha e
culpa a terceiros: esses sentimentos surgem em nós, ao
descobrir que nossa presença e nosso amor não bastaram
para que o outro quisesse viver. Em alguns casos, essa ferida
nunca cicatriza. Quando o suicida é nosso pai ou nossa mãe, o
sentimento de não termos sido a razão suficiente para ele ou
ela viverem fica conosco para sempre, como um fundo
melancólico, como a sensação de uma insuficiência essencial
ou de uma impossibilidade de sermos amados. Quando o
suicida é um filho ou uma filha, a perda (irreparável, pois o luto
pelos nossos descendentes é contra a ordem das gerações) é
acompanhada pelo sentimento de um fracasso, como se não
tivéssemos conseguido transmitir o básico: a vontade de viver.
Deve ser por isso que os monoteísmos consideram o suicídio
como um pecado contra o criador: o suicida demonstraria o
malogro de Deus.

Outra parcela de culpa, dificílima de ser tolerada deve-se ao alívio sentido e


negado. Segundo Galiás (2004), se o filho já vinha dando sinais de
dificuldades; o trabalho intenso, as preocupações constantes, o estresse
contínuo, o permanente alerta em que vive uma mãe cessam com a morte do
filho. O temido tem o desfecho e isso traz alívio. E por isso o alívio tem que ser
negado e não pode ser elaborado, deixando em seu lugar a culpa. Ainda em
Galiás (2004):

Quando ocorre uma morte por câncer após anos de sofrimento


para todos, existe a dor inevitável diante da perda, mas é

48
possível entrar em contato com o alívio. É inclusive possível se
perceber que para o próprio paciente pode ter sido "melhor",
fala-se que finalmente ele "descansou", como que se percebe
que a morte ali era a única forma de um grande sofrimento
para o doente e para toda a família chegar a um fim. Não
temos esse tipo de compreensão no caso do suicídio. Vemos
às vezes pessoas que passam vários anos de sua vida
tentando se matar, como se fosse assim um "suicida crônico".
O alívio advindo natural é vivenciado como culposo, precisando
às vezes ser até negado (p.10).

Como já foi exposto, há uma forte relação entre os processos de luto e o


suicídio. De acordo com Bromberg (2000), o luto por suicídio provoca
sentimentos conflitantes em pais e irmãos, na tentativa de identificar um
sentido para essa perda.

No suicídio há uma grande dificuldade na elaboração da perda que pode gerar


sentimentos agressivos em relação à pessoa perdida (Cassorla, 1984). Estes
sentimentos geram culpa e são em parte reprimidos, o que pode levar a atos
inconscientes de autodestruição. O autor também explica que o enlutado pode
sentir raiva do suicida por seu abandono, gerando sentimentos ambivalentes
de amor e ódio.

Segundo Freitas (2000) a raiva no processo de luto provém de duas fontes: da


frustração por não ter conseguido evitar a morte e das experiências regressivas
que ocorreram após a perda. A autora cita Bowlby para explicar que as
experiências regressivas estão relacionadas ao vínculo da mãe com seu bebê,
quando este experimenta pânico, ansiedade e raiva na ausência daquela.
Estas condutas fazem parte da herança genética, simbolizando a mensagem:
“Não me abandone”.

O suicídio de um filho é uma situação que está longe de satisfazer o narcisismo


dos pais. É fonte de desilusão. O suicídio, segundo a percepção dos pais, vem
revelar defeitos ocultos deles mesmos. Segundo Kovács (2002), o suicídio é
uma das mortes mais difíceis de elaborar, pela forte culpa que desperta. Ativa a
sensação de abandono e impotência em quem fica. O enlutado, além de lidar

49
com sua própria culpa, é freqüentemente alvo de suspeita da sociedade como
sendo o responsável pela morte do outro.

A ferida narcísica no caso do suicídio de um filho é a ferida na idéia narcísica


de imortalidade que temos, que vem em conseqüência da ativação da angústia
de castração, da impossibilidade de continuidade da existência projetada no
filho.

50
CAP. V - METODOLOGIA

O objetivo desse trabalho foi identificar e analisar as manifestações de luto em


mães que perderam um filho por suicídio, com foco nos recursos com que
enfrentaram essa perda, bem como o sentido que atribuíram a essa
experiência.

Encontrei nos procedimentos da pesquisa qualitativa uma forma de trabalho


que responde ao desejo de abrir um espaço para a expressão dos diversos
significados que poderão emergir através dos dados de entrevistas não
dirigidas com mães enlutadas. O estudo descritivo qualitativo tem como foco de
atenção a construção de significados por parte dos sujeitos, suas vidas e como
as percebem (Ludke e André, 1986). Segundo Gallo (2003), o importante nesse
tipo de pesquisa é analisar a qualidade e profundidade dos significados dos
relatos de cada participante.

O referencial teórico que embasou minha pesquisa foi o psicanalítico, em cujo


método, de acordo com Minerbo (2003), é essencial que haja uma escuta
peculiar, ou seja, o pesquisador deve ater-se aos elementos marginais e
secundários do discurso do sujeito. Essa escuta, para Mezan (1993), não pode
ser ingênua, mas sim informada pela teoria. O autor a descreve da seguinte
forma:

Na situação analítica, a teoria funciona como a estrela polar


para o navegante: fornece coordenadas para o percurso,
permite alguma idéia do rumo a tomar, mas não é o alvo que
se quer atingir (p.58).

Baseando-se na Teoria dos Campos de Fabio Herrmann, Minerbo (2003)


afirma que qualquer conversa se dá num determinado campo, ou seja, num
conjunto de pressupostos inconscientes que sustenta e determina uma relação
consciente entre dois interlocutores. O método psicanalítico consistiria em
desconfiar desses sentidos pré-determinados e apostar na existência de outro
campo em que tais queixas também teriam sentido (um sentido diferente

51
daquilo que é explícito). Desta forma, a interpretação psicanalítica promoveria
uma ruptura do campo, ou seja, um abalo nessas significações pré-existentes.

Para Lowenkron (2000) a pesquisa em psicanálise pode acontecer se a


experiência estiver alicerçada nos conceitos fundamentais desta: o
inconsciente dinâmico, a resistência e a transferência. O autor afirma que “se
trata antes de qualidade e não de quantidade: desde que se cuide para que
tenha verdadeiramente o sabor freudiano da psicanálise” (p.5).

As situações, ações e interações complexas foram analisadas em seus


contextos, a partir do ponto de vista do sujeito, para se obter uma compreensão
do fenômeno e dos processos envolvidos (Moon, 1990). Dessa maneira, foi
possível uma melhor reflexão sobre os comportamentos humanos,
considerando seus significados e intenções (Guba e Lincoln, 1994).

Nessa perspectiva é importante considerar o pesquisador como parte do


processo de coleta e análise dos dados: deve estar envolvido e ao mesmo
tempo manter certo distanciamento, que lhe permita posteriormente pensar
sobre o que ouviu. É co-participante da realidade observada, tendo
responsabilidade pelo material produzido.

Desta forma, analisei o discurso das mães enlutadas da forma mais complexa
e profunda possível, a fim de alcançar os elementos secundários, os
significados que estão além da observação, em nível inconsciente.

Portanto, apesar de não se tratar de uma população clínica, este trabalho se


caracteriza como uma pesquisa clínica por consistir num processo de
conhecimento dos significados que o indivíduo atribui a suas crenças e valores,
visando construir os fatos psicológicos dos quais ele é fonte em uma estrutura
inteligível.

52
A) PARTICIPANTES

O estudo foi conduzido a partir da avaliação do discurso de três mães com


idade e estado civil variáveis, nível socioeconômico médio (baixo e alto),
enlutadas pelo suicídio de um filho. Foram selecionadas apenas mães que
perderam o filho há pelo menos dois anos, pois a duração e a intensidade da
elaboração do luto nas mortes traumáticas, como o suicídio, podem ser mais
dolorosas e prolongadas que um ano (Bromberg, 2000).

B) INSTRUMENTOS

Entrevistas
Foi realizada uma entrevista semi-dirigida com cada participante. Alguns temas
para serem abordados na entrevista foram desenvolvidos a partir da literatura
pesquisada, mas serviram apenas como guia e não como roteiro diretivo.

-Nome
-Idade
-Estado civil
-Profissão
-Número de filhos
-Apresentação do filho que se suicidou: Nome, idade, há quanto tempo morreu,
posição entre os outros filhos.
-Como era a relação com o filho nos vários momentos de sua vida?
-Como estava a relação familiar na época em que ele morreu?
-Ele deu indícios de que estava pensando no suicídio?
-Como morreu? Como foi imediatamente quando aconteceu?
-Como se sentiu a respeito disso?
-Reações físicas, alterações emocionais?
-Como foram os rituais (enterro, velório, missa)?
-Possui alguma religião?
-Recebeu apoio familiar e de amigos?
-Com quem pôde contar nos diversos momentos?
-Como foi o primeiro ano após a perda?

53
-Procurou ajuda psicoterápica?
-Como é a vida hoje? Existem momentos em que lembra mais do filho?
-Como é a relação hoje com o filho que morreu?
-Como é a relação familiar e social?
-Como está se sentindo hoje? Tem alguma atividade de lazer?

C) PROCEDIMENTO

Contato com as participantes


As participantes foram indicadas por pessoas conhecidas, que confirmaram,
com antecedência, o interesse dessas mães em participar da pesquisa.
Telefonei a elas, me apresentei e expliquei detalhadamente os objetivos e
etapas do trabalho. Marcamos uma data para a execução do projeto.

Local, número e duração das entrevistas


As entrevistas foram realizadas em diferentes lugares (casa da participante,
ambulatório de hospital e consultório onde uma das participantes trabalha) e
tiveram duração variável, de trinta minutos a duas horas.

As entrevistas foram gravadas com a permissão das participantes e transcritas


na íntegra (ANEXO 2). Antes de encerrar as entrevistas, procurei dar
continência aos sentimentos e idéias presentes, pois a atividade poderia
mobilizar conteúdos afetivos. O cuidado com a exposição das participantes foi
constante. Houve atenção e cuidado com a carga emocional mobilizada nos
encontros. Coloquei-me à disposição para outros contatos que poderiam ser
necessários para a elaboração das vivências relatadas, de forma a garantir a
beneficiência.

Seqüência
Foi apresentado às mães o tema da pesquisa, o motivo pelo qual foi
encaminhada, com o objetivo de delimitar o “setting”. Apresentei-lhes, em
seguida, o termo de consentimento informado e esclarecido (ANEXO 1) para
ser lido e assinado caso concordassem em participar da pesquisa.

54
D) PROCEDIMENTO PARA ANÁLISE DOS RESULTADOS

Entrevistas semidirigidas
As entrevistas foram analisadas qualitativamente, utilizando-se o referencial da
Psicanálise para interpretação dos dados. Analisei o processo de elaboração
de luto de cada mãe a partir da interpretação do conjunto do material coletado
e da revisão da literatura realizada. Num primeiro momento tive a intenção de
ler e tomar contato com todo o material coletado de cada participante da
pesquisa a fim de delimitar categorias de análise, que nortearam a
investigação, direcionando meu olhar para aspectos que mais chamaram
minha atenção. Estas categorias ou temas foram qualitativamente analisados,
no sentido de compreender conteúdos latentes e processos inconscientes do
processo de luto pelo suicídio de um filho. Como afirma Bardin (1979, p.105) "o
tema é uma unidade de significação que se liberta naturalmente de um texto"
ou "um feixe de reações (que) pode ser graficamente apresentado através de
uma palavra, uma frase, um resumo" (Minayo, 1998, p.208).

Nesta pesquisa destacam-se também as questões éticas, pois as informações


obtidas envolvem um elevado grau de intimidade. Consideramos as normas
previstas pelo Conselho Nacional de Saúde (Resolução 196/96):

- Garantiremos sigilo profissional pelo comprometimento de não revelar a


identidade dos participantes, bem como a utilização dos registros obtidos
apenas no âmbito acadêmico.

55
CAP. VI - RESULTADOS

Para discutir os resultados encontrados nas entrevistas e responder ao objetivo


desta pesquisa, inicialmente farei um resumo de cada relato com alguns
trechos das entrevistas e posteriormente partirei para uma discussão geral
traçando semelhanças e diferenças entre eles. Todos os nomes são fictícios
para preservar a identidade das participantes. A entrevistas podem ser lidas na
íntegra nos ANEXOS.

RESUMO DAS ENTREVISTAS

MARIA

Maria tem 51 anos e é casada há 15 anos com seu segundo marido. Ela é
enfermeira obstetra, mas atualmente está afastada do trabalho por orientação
médica.
Maria escolheu iniciar sua história de vida a partir de seu primeiro casamento,
aos 15 anos. Ela contou que teve quatro filhos (Sofia, Simone, Rodrigo e
Eduardo) e um aborto provocado por falta de condições financeiras. Separou-
se do marido e lutou para trabalhar, cuidar dos filhos, estudar e ingressar na
faculdade de enfermagem.
Conheceu seu segundo marido, com quem teve uma filha chamada Miriam.
Rodrigo e Eduardo, filhos do primeiro casamento, começaram a se envolver
com drogas aos 13 anos. Maria contou que tentou “tirar os filhos das drogas”,
mas não conseguiu (“O Rodrigo e o Eduardo logo na criancice deles foram
para as drogas ... Eu tentei tirar ele (Rodrigo) das drogas de todos as maneiras
... tentei, tentei, levei até para internar, mas ele não quis e ficou assim essa
luta, né? E aí ele foi para as drogas, ele se afundou nas drogas ... e o Eduardo
foi junto”).
Seu filho Rodrigo acabou sendo assassinado por traficantes há 10 anos,
quando tinha 20 anos, sem saber que sua namorada estava grávida. Segundo
Maria, Eduardo entrou em choque por não se conformar com a morte do irmão
e acabou se tornando morador de rua.

56
Depois que Rafaela nasceu (filha de Rodrigo), a mãe da criança, que também
estava envolvida com drogas, acabou sendo assassinada.
Maria recebeu do juiz a tutela da neta, que hoje está com 9 anos (“A Rafaela tá
grande, tá bonita... e assim, a história de vida dela... eu conto tudo para ela,
não escondo nada. Ela me chama de mãe, meu esposo de pai...Ela é muito
apegada com a gente”).
Em 2005, Miriam, sua filha mais nova, se suicidou com veneno de rato,
grávida, aos 21 anos. Maria não sabe o motivo que fez a filha querer se matar.
Ela busca respostas, mas a ausência delas lhe proporciona tristeza e
desamparo (“E não sei o que perturbou muito ela...não sei se pode ter sido
esse namorado...E depois, no atestado de óbito dela estava escrito que ela
estava com abdome gravídico, tava grávida, né? E aí a causa-morte dela não
sei se foi dela ter decidido a vida dela ... agora eu me pergunto ... não sei se foi
a gravidez, não sei se foi a questão amorosa, não sei se foi a vida dela que
tava toda embaralhada, bagunçada, não sei se ela tinha depressão, né. Não
sei...”).
O discurso de Maria demonstra que apesar de ter aceitado a realidade de
tantas perdas, ainda não se ajustou completamente à vida sem os filhos.
Sente-se exposta aos olhares sociais, que revelam sua própria tristeza,
frustração e decepção diante dessas perdas.
Após receber a notícia da morte da filha, Maria continuou trabalhando como
enfermeira no hospital, mas depois de um ano procurou uma psiquiatra que
diagnosticou que Maria estava com depressão e achou melhor afastá-la
temporariamente de seu trabalho (“Eu trabalhei por quase um ano depois, né.
Mas, daí eu não agüentei porque eu me emocionava muito, trabalhava com
gente, via morte, via as pessoas morrer, e aquilo me machucava muito ... e eu
estou afastada até hoje. Mas agora que eu estou querendo pedir pra ela -
psiquiatra - pra mim voltar, né?”).
Gradativamente Maria está se organizando e encontrando forças para retomar
sua vida.

57
ELISA

Elisa tem 72 anos e começou a contar sua história de vida a partir do presente
e foi fazendo uma emocionante retrospectiva comparando sua juventude com a
juventude de hoje (“Hoje vocês já estudam cedo, já começam a vida com as
suas ocupações...no meu tempo não. No meu tempo realmente a moça era
educada pra casar. Veja, eu me casei com 17 anos, então eu não acabei nem o
colegial”).
Elisa contou que está “na idade das coisas mais agradáveis” (“Então, talvez um
pouco egoisticamente, mas eu acho que eu tenho direito, afinal, eu já estou
com os filhos casados, já estou com os netos moços”) Também contou que faz
exercícios físicos e aulas de pintura com um grupo que considera muito
agradável.
Casou-se duas vezes, com seu primeiro marido aos 17 anos, com quem teve
três filhos: Carlos, Marina e Rebeca. Ficou viúva e casou-se novamente.
Contou que com seu segundo marido ficou casada durante 14 anos e hoje,
após uma separação que durou 3 anos, estão juntos novamente.
Elisa diz que sua “história no tempo foi um pouco invertida”. Primeiro ela teve
que fazer o que era esperado na época: casar, ter filhos e esperar que eles
crescessem e não precisassem tanto dela, para então estudar, entrar na
faculdade (“Porque realmente eu fiquei fascinada, com os estudos, porque
estudar mais velha é muito gostoso, pega com um outro jeito. E tive contato
com juventude, que é da minha natureza, eu gosto, gostava de ver como a vida
da mulher estava muito diferente da que eu tive”).
Elisa contou sobre sua luta para conseguir estudar e trabalhar. Apesar de
gostar muito de atividades intelectuais, isso nunca foi muito incentivado pelos
pais nem pelo marido (“Eu sempre li muito, desde menina. E era tão engraçado
aquele tempo, porque, por exemplo, se eu estivesse lendo, tinha que ser meio
escondido, porque mamãe falava: Elisa, venha bordar! Vai andar de bicicleta,
fazer exercício!”).
O estudo tardio de Elisa possibilitou um contato com outras gerações, já que
suas colegas de faculdade tinham a idade de suas filhas. Afirma que esse
contato era fascinante: além do estudo fazer parte de sua vida, o que tanto
sonhara, Elisa podia acompanhar as mudanças, entre as gerações, que

58
aconteciam na vida da mulher. O estudo passou a ser tão importante em sua
vida que era recomendação médica continuar os estudos (“Eu consegui
sublimar minha vida através de estudo, através de faculdade, tanto que meu
médico dizia para eu não parar de estudar”).
Mesmo com muito preconceito e resistência de seus pais e seu marido, ela
seguiu seu sonho. Seus filhos, no entanto, sempre a apoiaram.
Elisa contou que tinha que vencer uma estrutura férrea que havia naquela
época porque era uma estrutura que veio de sua mãe, continuou com seu
marido (“porque mamãe era uma mulher maravilhosa, rica, uma personalidade,
mas carregava todas aquelas coisas... Então eu fui criada com uma coisa que
hoje a gente não faz com os filhos... Eu tinha um dever a cumprir. Havia esse
dever que se resumia ao casamento e aos filhos. Isso era tão forte que a gente
se esquecia mesmo da gente, do que a gente gostava, do que a gente queria”).
Quando entrou na faculdade: “Eu fui contar pra mamãe ‘mamãe olha que
bárbaro!’... Mamãe ficou assim: ‘mas minha filha, você pensou bem? Você está
descuidando da educação de seus filhos!’. Essa foi a frase dela! No íntimo ela
achava bárbaro, mas ela tinha medo da liberdade da mulher, como ela era
muito forte... quer dizer, ela mandava na casa, no papai, na gente, nos netos,
em tudo, mas ela tinha medo da mulher fora de casa, era uma coisa da
geração dela”.
Elisa também salientou que “o lado da mulher na vida é mais rico do que do
homem, mas também é mais difícil (...) Os homens têm razão em ter medo que
a gente estude, porque é como abrir a cortina de um teatro, e você vê o
mundo…”.
Elisa passou por muitos momentos marcantes durante sua vida. É uma mulher
que sempre lutou para conseguir o que queria, e foi feliz nas suas conquistas.
Por isso, sua vida é marcada por acontecimentos importantes, como sua luta
para estudar, trabalhar e ter autonomia. Mas o que mais marcou sua vida foi a
morte do filho Carlos, que se suicidou há cinco anos. Ela contou sobre a dor
dessa perda e como fez para superá-la (“Isso cortou a minha vida. E corta pra
sempre”).
Seu primeiro casamento foi marcado por muita dificuldade, segundo Elisa “ele
era um homem extremamente gentil e extremamente violento”. Por isso ela
tentava manter a harmonia familiar a todo custo, mesmo violentando a si

59
própria. Elisa contou que sofreu um desgaste emocional tão grande, que fez
com que ela passasse algum tempo em cadeiras de rodas. Dessa sua
experiência, Elisa dá um conselho: “sempre que você tiver que tomar uma
posição na sua vida deve impor os seus limites com calma. Quando você for
levada a ceder no que você é, no que você deseja, no que você acha certo,
nunca admita ser violentada na sua índole, nos seus sentimentos. Saiba impor
os seus limites!”
Elisa é uma senhora inteligente, culta e de muita vitalidade. Possui muitos
recursos e busca respostas diante dos obstáculos que lhe são apresentados.
Vivenciou o momento mais difícil de sua vida (o suicídio do filho) com
serenidade e embora a tristeza profunda, sente-se fortalecida por ter
conseguido um sentido mais amplo e duradouro de existência.

INÊS

A terceira entrevista foi mais curta que as anteriores e durou cerca de quarenta
minutos, pois a entrevistada (Inês, 64 anos, psiquiatra) tinha um compromisso.
Inês contou que a primeira perda que sofreu na vida foi aos 10 meses de idade
quando seu pai morreu (“Não é fácil para ninguém. Eu também perdi meu pai
muito cedo, com 10 meses...Embora perder os pais seja mais natural que
perder os filhos, não do jeito que foi para mim...”). Também contou que sua
mãe, que ainda estava na fase de “apaixonamento”, desenvolveu um luto
patológico, que segundo Inês, não foi nunca completamente elaborado.
Inês teve cinco filhos: dois do primeiro casamento (uma menina e um menino)
e três filhos do segundo casamento. Contou que seu segundo filho do primeiro
casamento se suicidou com um tiro há nove anos. Ele se chamava Fernando,
tinha 34 anos e morava em Florianópolis com a mulher e o filho de 3 anos.
Sobre a elaboração desse luto Inês comenta: “É como uma ferida na pele que
para cicatrizar não se pode ficar cutucando toda hora, mas também não se
pode deixar de mexer, olhar, cuidar. As pessoas têm diferentes forças para
reagir aos traumas...”.

60
ANÁLISE DAS ENTREVISTAS

Para fazer a análise das entrevistas e organizar minha discussão resumi as


principais reações e sentimentos das mães entrevistadas diante do suicídio do
filho. Posteriormente delimitei categorias de análise, que nortearam a
investigação, direcionando meu olhar para aspectos que mais chamaram
minha atenção. Essas categorias foram divididas em dois grupos maiores:
complicadores e facilitadores do processo de luto.

Como já foi exposto, nem todas as pessoas enlutadas apresentam as


manifestações da sucessão dos quadros clínicos “entorpecimento-procura-
desespero-recuperação” descrita por Parkes (1998). Além disso, essas fases
variam quanto à forma, duração e intensidade, de uma pessoa para outra. No
entanto, foi possível identificar nas entrevistas alguns trechos referentes ao
período subseqüente à morte do filho que remetiam às fases do processo de
enlutamento descritas pelo autor.

REAÇÕES E SENTIMENTOS DIANTE DO SUICÍDIO DO FILHO

Negação e Choque

A princípio Elisa negou a morte do filho e não quis acreditar nas evidências dos
exames e na palavra do médico. Esta negação da morte pode ser entendida,
segundo Bromberg (2000), como uma forma de defesa contra um evento de
difícil aceitação. Ela descreveu o que sentiu quando o médico veio dar a ela a
notícia da morte cerebral do filho:

“Quando nós chegamos lá no hospital, ele estava na emergência. Aquilo é um


horror! É uma época de atordoamento... Veio um médico e explicou o que tinha
acontecido... tem um nível de batimento, eu não sei exatamente o que é, nem
estava em condições de entender, só sei eu nosso nível normal de vida é 14.
Ele estava com 3, o que significa morte cerebral (...) E eu falei para o médico :

61
‘mas eu quero que o senhor saiba que eu não confio no senhor, eu não
acredito em nenhum desses exames!’ Porque era inacreditável, de um dia pro
outro, em horas, acreditar numa coisa dessas (...) E quando os médicos me
deixaram entrar e eu vi que ele estava corado, respirando forte, o corpo ali,
quente...Não dava para acreditar! É tão forte a ligação...foi uma experiência
muito triste (...) E eu falava: Carlos, luta, abra os alhos!” (Elisa).

Maria e Elisa descreveram o estado de anestesia inicial que, segundo Parkes


(1998), possibilita que o enlutado tome as primeiras providências depois da
morte. Ambas descreveram a força que precisaram ter para suportar os
primeiros dias depois do suicídio do(a) filho(a):

“E aí que eu agüentei... É do meu feitio agüentar. Eu fico firme e depois eu


desabo. Fiquei firme, teve a missa e no dia seguinte da missa eu fui pra São
Roque” (Elisa).

“Eu não sei da onde que eu tirei tanta força pra ajudar os dois (filhos) no IML.
Eu cheguei a ver eles nus, mortos, inertes e eu consegui vesti-los, né? (...) Aí
quando foi enterrar ela, eu tive que dar uma força para ele (marido) agüentar.
Eu falava ‘calma, já foi mesmo, fazer o quê’. Eu tive que dar uma força de tão
mal que ele tava... ele gritava... Precisou a gente dar um socorro para ele, pela
reação que ele teve” (Maria).

Inês não contou na entrevista como foi essa primeira fase posterior ao suicídio
do filho.

Procura

Maria e Elisa descreveram comportamentos de procura pelo(a) filho(a) morto(a)


à medida que foram se dando conta da irreversibilidade da perda.

Elisa descreveu um sonho relacionado ao seu processo de elaboração do luto


e à procura do filho morto:

62
“Eu sonhei, sabe pontão de praia? Porque eu vivi na praia, com meu pai, minha
mãe e com Carlos, ele fazia surf. E eu sonhei que tinha uma competição de
surf e que o Carlos tinha ido. É uma espécie de barquinho que levava as
pranchas. E todos foram. E aí todo mundo começou a ficar preocupado porque
o Carlos não voltava. E o sonho era lindo, colorido, azul, praia, mar, geralmente
eu sonho colorido o mar. E eu comecei a ficar preocupada, porque realmente
ele estava demorando um pouco. Daí eu desci uma escadinha e tinha uma
prancha meio quebrada, parecia um barquinho, mas tava quebrada. E peguei o
barco e fui atrás, procurar. Quando eu já estava bem longe, no alto mar, eu vi
que ele já estava voltando, daí eu voltei rápido, subi e fiquei lá esperando...já
tava tranqüila, porque ele tava voltando. E quando ele chegou, subiu correndo
a escada e ria, e falava: ‘Mãe, você é louca mesmo! Como você se mete nesse
barco quebrado no fundo do mar!’. Sabe, eu sonho muito alegre com ele
porque foi tão brutal a perda que eu tive” (Elisa).

Maria também descreveu uma necessidade de procurar pela filha e pela causa
de sua morte nos depoimentos de amigas da faculdade e coordenador do
curso que Miriam fazia:

“E aí eu fui fazer um levantamento nas notas dela na faculdade, que tava fraco
(...) As meninas falaram que não era o perfil dela ter feito o suicídio, e que ela
era uma menina muito alegre(...) aí eu fui lá falar com o coordenador do curso
dela, porque eu não me conformava...não me conformava” (Maria).

Desespero

A fase do desespero em que o enlutado já reconhece a imutabilidade da perda


e se sente desinteressado por pessoas e por atividades também foi descrita
por Elisa e Maria:

“Eu fui pra São Roque, eu tenho uma casa lá, no mato, e eu fiquei uns 6 meses
lá, sozinha. Eu não tinha condição de falar com as pessoas. Eu literalmente
acabei. Nem atendia telefone, só minhas filhas e meus netos... porque você

63
tem uma caída física e emocional. Fiquei muito frágil, tão fraca que eu não
conseguia andar no jardim. Cai tudo!” (Elisa).

Maria contou que seu desespero foi tão grande depois do assassinato do filho
e do suicídio da filha que ela chegou a pensar em se matar, mas sua fé em
Deus e sua religião a impediram:

“Aí pronto, parece que o mundo caiu na minha cabeça, eu fiquei desesperada...
(...) eu passei muito, muito tempo...que assim, eu quase tirei minha vida
também...” (Maria).

De acordo com Parkes (1998) o suicídio pode ser considerado pelo enlutado
como um meio de reunir-se com o morto ou como uma maneira de pôr fim à
infelicidade no presente. Freitas (2000) descreve o comportamento suicida do
enlutado como uma forma de identificação com a pessoa que se matou.

Recuperação

Apesar da tristeza profunda, mediante os recursos individuais e o apoio que


cada uma delas possui em seu ambiente, gradativamente Maria, Elisa e Inês
se recuperam da perda do filho. Maria descreveu muito bem como esse
processo de recuperação é lento e não é linear:

“Às vezes vem o ânimo, mas depois eu desanimo... como se fosse uma onda
no mar: vem... volta... vem... e volta...” (Maria).

Elisa também contou que ficou completamente sem força, mas depois que
passou pelo trauma:

“Eu tive uma ajuda fantástica, tanto que consegui ser forte novamente e fui
devagarzinho me recuperando. Agora eu mudei, eu sei que mudei” (Elisa).

64
Sobre a recuperação e elaboração do luto, Inês comentou:

“Não tem como ficar do jeito que você estava, andando no ritmo que você
andava, não é? Até para não cair você precisa dar uma corridinha, porque
mexe com a dinâmica... Com uma porrada o ego mergulha no self e ele pode
ficar preso, que é o luto patológico, que é o TEPT (transtorno de estresse pós-
traumático), como ele pode sair de lá, depois de ter sofrido muito, mas
fortificado. Igual ele não fica...” (Inês).

Reações físicas

Elisa contou que sofreu um enfarte, mudanças fisiológicas e queixas somáticas


depois da morte de seu filho:

“Eu tive um enfarte justamente por causa de todos estes desgastes, minha
pressão começou a subir... Mas a gente se recupera, até o meu coração eu
recuperei, não tem nem marcas!” (Elisa).

“Eu emagreci uma barbaridade... fiquei completamente sem força” (Elisa).

“Eu tenho uma manifestação nervosa, você sabe o que é psoríase? É uma
manifestação emocional que a pele fica... dá pra você ver aqui? Isso aqui fica
cheio de casquinha, eu comecei a coçar, e começou a subir, começou a
aparecer nas pernas, nas costas...” (Elisa).

O sonho

Tanto Maria como Elisa relataram sonhos de enlutamento com o(a) filho(a)
morto(a). Segundo Parkes (1998), é comum sonhar com o falecido. Eles são
importantes no diagnóstico do enlutado ao longo do processo do luto, pois
podem indicar sentimentos de culpa, ansiedade, auto-acusação, etc. O autor
comenta que o sonho pode ser feliz ou triste, mas haverá sempre um triste

65
despertar. “Infelizmente, o luto e o resgate da pessoa amada não pode ser
resolvido, nem mesmo em sonhos” (p.86).

O sonho de Elisa (descrito acima em “Procura”) e o sonho de Maria expressam


o momento do processo de elaboração do luto que estão vivenciando, bem
como os sentimentos relacionados à perda:

“Ele falou que tinha comprado o caixãozinho branco para ela que eu queria...
porque eu tinha sonhado com uma criança e no sonho eu vi um caixãozinho
branco...” (Maria).

Este sonho parece remeter a seu desejo de recuperar a pureza, a inocência da


infância da filha, que como ela mesma diz, acabou se desvirtuando e tomando
o rumo errado, pois Maria desconfia que a filha havia se tornado uma garota de
programa antes de se matar.

Rituais de luto

Os rituais de luto são oportunidades para expressar emoções ligadas a perda e


são importantes eventos sociais que ajudam o enlutado a aceitar a perda e
elaborar o luto. Nos discursos de Maria e Elisa apareceram referências aos
rituais que sucederam a morte do(a) filho(a):

“Mas assim... que nem eu te falei, quando eu me lembro que ela está lá
debaixo do chão se desfazendo, me dá uma angústia, me angustia muito. Eu tô
pensando como é que vai fazer para a exumação, como é que vai ser minha
reação... Do Rodrigo eu guardei uma vértebra, guardei um dente e guardei uma
mecha de cabelo. Dela também eu vou ver se eu guardo algum ossinho dela lá
em casa”. (Maria)

“Fiquei firme no velório, teve a missa e no dia seguinte eu fui para São Roque”
(Elisa).

66
Reação de aniversário

No relato de Elisa apareceu o que Parkes (1998) chama de reação de


aniversário, ou seja, a recorrência dos sintomas das primeiras fases do luto em
datas importantes como o aniversário da pessoa que morreu ou aniversário de
sua morte, festas, etc:

“Sempre lembro... aniversário é difícil... Natal também é uma coisa difícil! Não
tem mais festa, com troca de presente. É forçar demais! É o tal limite. Eu agora
faço uma reunião simples de família. Pra que me violentar tanto?” (Elisa).

COMPLICADORES DO PROCESSO DE LUTO

Neste grupo foram reunidos os fatores que dificultaram a elaboração do luto


das mães entrevistadas.

Contra-Natura

Um dos fatores complicadores do processo de luto materno é que ele contraria


a natureza, a ordem natural de que os pais “devem” morrer antes que os filhos.
E, como afirma Parkes (1998), há muita diferença entre a morte da pessoa
idosa, como um se apagar, e o corte trágico e repentino do jovem, em seu
desabrochar. Inês e Maria descrevem da seguinte maneira o luto materno:

“Está suposto que os filhos enterrem os pais e não que os pais enterrem os
filhos. Então, aí eu acho que vai um movimento contra a natura, que já... além
do luto pela perda, tem um elemento altamente estressante que é o contra-
natura... algo trágico... não é natural... Acontece, mas não é esperado” (Inês).

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“Aí eu falei assim: Ai Meu Deus, não foi isso que o senhor me prometeu (...) O
médico me deu a notícia que tinham perdido ela mesmo, né? Ele chorou
também...ficou muito chateado... perder uma jovem, né? (...) Foi uma carga
muito pesada perder dois filhos ” (Maria).

Circunstância da perda

As circunstâncias em que a perda ocorre são importantes para a determinação


da reação do pesar (Kovács, 1996). Se a perda de um filho já é um
acontecimento extremamente difícil de ser elaborado, perdê-lo por
suicídio,como aconteceu com Maria, Elisa e Inês, aumenta ainda mais a
probabilidade do luto materno se complicar:

“Agora mais especificamente o luto materno por suicídio, você junta o luto, o
não natural, mais um tema tabu, que é o suicídio em si. Então, você me
pergunta sobre essa elaboração... é um processo muito trabalhoso, ainda mais
por suicídio do filho. Eu não estou querendo classificar intensidades ou graus
de trabalho que dão lutos maternos...” (Inês).

O estigma

Maria apresentou em seu discurso sentimentos de invasão e desqualificação


provenientes de olhares externos por conta do suicídio de seu filho:

“Eu havia atendido um paciente de 60 e poucos anos que havia se suicidado


com veneno de rato, com chumbinho. E aí eu ia no domingo para o plantão
pensando comigo ‘Meu Deus, o que que leva uma pessoa a se suicidar, né?
Como que pode?’ Me questionando, pensando... Porque a gente nem pode
estar julgando... Porque a primeira coisa que vem é ficar julgando, por falta de
conhecimento, né? ‘Ah, mas fulano não teve caráter, fulano é isso...’ Só
julgamento, né? (...) Porque tem muita gente que fala ‘Morreu de suicídio,

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nossa não tem salvação’. Aquilo para uma mãe é a pior coisa, porque a mãe já
está sofrendo pela separação e ainda vêm falar que o espírito não tem
salvação (...) Então, eu faço o possível para não estar chorando para não sair
com o rosto vermelho por aí. Parece que as pessoas ficam comentando:
Nossa; tava chorando! O que que será que aconteceu com ela?” (Maria).

A culpa

Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta,


tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-
rio-rio, o rio — pondo perpétuo. (Guimarães Rosa, A terceira
margem do rio).

A culpa apareceu no discurso de Maria, Elisa e Inês relacionada a causas


diversas:

“E não sei, às vezes a gente fica pensando que pode ter sido uma imprudência
minha, uma falha, da minha parte, talvez se eu tivesse ficado mais em cima,
poderia ter evitado...mas...não sei...” (Maria).

“Foi muito difícil... sentia culpa por não ter percebido que não estava tudo tão
bem como parecia... quase desisti de tudo... mas, agora não...sinto muita
saudades...” (Elisa).

“Eu lembrei de um casal amigos de meus pais que tinha um filho único que foi
fazer faculdade na Inglaterra. Então eu e meu marido nos tornamos muito
amigos desse casal e eles acabaram adotando minha família e a gente adotou
eles. Era um senhor e uma senhora muito idosos...Eu aprendi muito com essa
senhora, e ela me mimava muito, talvez como forma de compensar o filho que
não estava perto para ela mimar...Ela era um encanto, muito delicada,
generosa. E ela sabia que eu gostava muito de fruta-do-conde e ela comprava
na feira na estação certa, porque naquela época não é como agora que tem
fruta o ano inteiro, e me dava só porque sabia que eu gostava...eu estava

69
grávida, tinha criança pequena...e íamos bastante na casa dela...Ela sempre
guardava a fruta do conde para mim. Eu sabia que ela também gostava muito
de fruta do conde, e o filho que dela que estava na Inglaterra amava. Só que eu
vinha e ela dava para mim e eu via que ela não comia. Ela falava “leva para
você”, e eu dizia “mas a senhora gosta” e ela sempre insistia para eu levar. Até
que um dia eu falei “Não! A senhora vai me explicar por que não come; a
senhora gosta!” E ela me explicou que ao saber que na Inglaterra não tinha
fruta-do-conde e por isso seu filho não podia comer a fruta que tanto gostava,
“então eu não como” (risos). Então tem isso, né? Se ela comesse a fruta se
sentiria culpada, porque como é que ela se permitiria comer algo que gostava
muito, e que só dava uma vez por ano, se o filho estava privado? No luto
materno o filho também está privado de tanta coisa, no imaginário, e você vai
comer alguma coisa que seu filho gostava? É impossível não lembrar, não se
sentir culpada. Se você lembra de algo que um filho vivo gosta de comer, é só
mandar para casa dele. O meu neto uma vez me perguntou:”Vovó, será que
no céu tem purê de batata para o papai? Porque se não tiver e ele ver a gente
comendo, ele não vai ficar com vontade?” (Inês).

“Se a culpa no suicídio do filho é inevitável, a falsa culpa também é, porque até
de ficar bem você se sente culpada” (Inês).

Parkes (1998) comenta que a tentativa de encontrar alguém para culpar assim
como a tentativa de encontrar uma causa que pudesse evitar a morte de um
ente querido faz com que o enlutado retome o controle da situação. O
pensamento de que a morte da pessoa amada foi acidental é inaceitável, pois
revela a impotência diante da perda. Assim, segundo o autor, é mais fácil
creditar a culpa a alguém (mesmo que seja a si próprio) que acreditar na
impotência diante dos fatos.

70
Experiência com luto anterior

Antecedentes históricos da mãe enlutada representam um importante papel na


evolução do seu luto, no momento em que esta perde um filho. Segundo
Freitas (2000), pessoas que tiveram reações complicadas de pesar no passado
têm alta probabilidade de ter uma reação complicada no presente. Perdas do
passado e separações têm um impacto nas perdas do presente, nas
separações das figuras de apêgo e na capacidade para enfrentar perdas
futuras. De acordo com a autora, pessoas com história de problemas
depressivos têm alto risco para desenvolver reações de luto patológico.

O suicídio da filha é vivenciado intensamente por Maria, e é o cerne de suas


emoções, visto que além de ter sido uma perda inesperada e brutal, somou-se
ao luto por tantas outras perdas (aborto, separação do primeiro marido, o
assassinato do filho e da nora, a perda de Eduardo para as drogas).

“Foi uma carga muito pesada perder dois filhos... eu me lembro que quando o
Rodrigo morreu eu fui deixar de me emocionar, chorar, depois de uns 3
anos...e depois veio o suicídio...” (Maria).

Durante a entrevista Maria abriu uma carta escrita por ela na época em que
Rodrigo foi assassinado. O conteúdo da carta revela sua tristeza e luto pela
morte do filho:

“Domingo de Páscoa. Dia 30/03/97, numa madrugada de um domingo, mais ou


menos 2:40 horas da manhã, meu Rodrigo acabava de morrer, com 3 tiros, um
dos tiros no peito, num beco frio. Me deparei com meu filho morto. Foi grande
ali a minha aflição. Parece que o mundo desabou sobre minha cabeça. Que
hora dura! Após 8 meses nasceu uma linda menina, que pesou mais ou menos
3,5 kg, que é a Rafaela. Ele nem chegou a conhecer a Rafaela...” (Carta escrita
por Maria).

71
Elisa também descreveu perdas anteriores importantes, como a de sua mãe e
de seu primeiro marido, que podem ter dificultado ainda mais a elaboração do
luto pelo suicídio do filho:

“Quando a mamãe morreu (...) eu tive um estresse emocional que foi tratado
com análise, não tomava remédio nenhum! Tá vendo aqui uma deformação
óssea aqui na minha mão? Isso eu tive aos 40 anos, nos pés, na coluna, até no
maxilar!” (Elisa).

“Conspiração do silêncio”

Segundo Freitas (2000), quando uma mãe perde um filho por suicídio, há uma
tendência tanto da mãe quanto dos demais familiares em se manterem calados
sobre as circunstâncias da morte. A “conspiração do silêncio” dificulta a
elaboração do luto, porque a comunicação e expressão dos sentimentos são
“engavetadas”.

Inês e Maria relataram que em muitos momentos não encontram interlocutores


com quem possam compartilhar sua dor:

“Não é educado abrir espaço para o tema do suicídio...e isso de fato atrapalha
muito, porque há momentos em que a pessoa enlutada com um tema tão difícil
quer um interlocutor...e se já é difícil falar, para o interlocutor ouvir sem dar um
jeito de engavetar...Isso dificulta a elaboração...É como uma ferida na pele que
para cicatrizar não se pode ficar cutucando toda hora, mas também não se
pode deixar de mexer, olhar, cuidar” (Inês).

“Eu queria no início falar muito sobre ela, mas ele (marido) não queria tocar no
assunto; eu queria e ele não. Desde então pouco se toca, pouco se fala, mas
tem dias que eu percebo que ele está amargurado. Não sei porque, mas ele
não gosta... Eu penso que como era uma filha única que ele tinha, ele ficou
bastante magoado... Mas minha relação com ele é essa. Ele não gosta de tocar
no assunto e eu também respeito...pouco se fala...” (Maria).

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Segundo Freitas (2000), evitar lembranças sobre a pessoa falecida pode
representar uma solução a curto prazo se, ao longo desse processo de luto, o
enlutado consegue relembrar aos poucos da pessoa que morreu. A autora
ainda explica que a persistência em evitar esta lembrança pode indicar um
complicador do luto.

FACILITADORES DO PROCESSO DE LUTO

Aceitação da perda

Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só
executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do
rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não
saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para
estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia.
(Guimarães Rosa, A terceira margem do rio).

A aceitação da realidade da perda foi descrita pelas entrevistadas como parte


de um processo de gradativa recuperação:

“E eu aceito a separação do meu filho, mas não o fato de ter perdido ele. E de
tal maneira eu trabalhei isso, li muito... Eu cheguei a um ponto em que eu não
tenho a presença, mas eu tenho ele vivo. E é tão forte que nesse sonho que eu
contei, às vezes eu até dou risada, eu precisava conservar alguma coisa, nem
que fosse essa ligação. No dia que eu passei o primeiro e-mail, eu imaginei o
Carlos rindo de mim!” (Elisa).

“Quando nascemos num tempo novo, precisamos morrer para certas


realidades... Esses ritos de passagem é que são maravilhosos. Através deles
está a aceitação de uma morte para entrar numa nova vida. Mas é a minha
morte. É uma coisa que eu pensei sempre que fosse assim, e aí vai a maneira

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de ser de cada um. Eu acredito que muitas pessoas renasçam por uma lógica,
por uma aceitação” (Elisa).

Durante a entrevista Maria descreveu com detalhes o dia do suicídio da filha e


disse que sentia necessidade de ligar para as pessoas para contar o que havia
acontecido. Segundo Parkes (1998), essa é uma reação comum do processo
de elaboração do luto em pessoas que passam por situações traumáticas, para
que assim, possa dar sentido ao que aconteceu.

“Assim, logo no início muitas pessoas me ligavam e eu também queria ligar


para todo mundo para falar para todo mundo... Era uma maneira de eu me ... e
no trabalho, meus colegas me ajudavam” (Maria).

“Escrevi tudo: a hora que eu recebi a notícia, a hora que eu cheguei no


hospital... eu escrevi e guardei, e é difícil eu pegar, só agora que eu tô
conseguindo pegar, porque eu estou mais calma (...) Era assim para ter
registrado os fatos...” (Maria).

Aparentemente o registro dos fatos, seja pela escrita ou pela fala legitimam seu
sofrimento e são maneiras que Maria encontrou de processar o que lhe havia
acontecido.

Religião

Embora a religião apareça na literatura como um possível complicador do luto


pelo suicídio, os relatos de Elisa e Maria mostraram que a religião foi de
extrema importância para que elas conseguissem se recuperar pela morte do
filho:

“(...) porque eu sou religiosa, então tinha horas de desespero que eu me


agarrava em Nossa Senhora e ela realmente me acolhia” (Elisa).

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“Eu me apoio muito na força de Deus e tenho tido muito conforto, muito apoio...
Aconteceu porque foi chegada a hora, porque Deus quis. Para tudo tem um
tempo na nossa vida. E isso traz um grande conforto e...essa foi a vontade de
Deus. Então se é a vontade de Deus, a vontade de Deus é boa. Então isso traz
um conforto” (Maria).

Atividades

Elisa contou que procura fazer apenas atividades prazerosas já que agora com
os filhos casados e os netos crescidos se dá o direito de fazer apenas o que
lhe agrada. Ela realiza atividades físicas diariamente:

“ (...) porque ocupar me faz bem! Se eu não me ocupo, o Sol escurece” (Elisa).
“Então o meu dia: de manhã eu procuro mais atividades físicas, porque depois
de uma certa idade a gente guarda todas as heranças de família, aquelas que
não são muito boas: diabetes, sabe? E andando, saindo, a sua cabeça fica
aberta...” (Elisa).

Além disso, faz aulas de pintura e informática:

“...E uma coisa que eu me ocupo muito, que me distrai muito é a pintura. Hoje à
tarde eu tenho aula...eu estou sempre ocupada com isso. Primeiro porque você
tem um contato com pessoas, o que é muito bom. É um grupo de senhoras,
algumas mais moças, outras com mais idade, mas por sorte é um grupo muito
agradável, então a prosa é muito gostosa ... De manhã eu sempre falo ‘hoje eu
vou fazer isso’ e faço. ...Sabe, agora eu estou aprendendo a usar a internet,
estou lutando, tem horas que dá vontade de jogar o computador no chão. Mas
estou fazendo aulas de computação, e sou aquelas alunas chatas, pois tudo eu
quero saber! Hoje eu tenho aula e vou saber o que é o tal do msn. Um dia eu
mandei um e-mail com um texto bonito para minha filha, e ela me respondeu
falando que gostou muito e que estava feliz das minhas novas aprendizagens!
Aí eu mandei um e-mail para ela falando que eu tinha gostado bastante e que
qualquer dúvida que ela tivesse, era só me perguntar (risos)!” (Elisa).

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Maria também falou sobre as atividades que gosta de praticar no dia-a-dia:

“Eu vou para a igreja, venho; às vezes eu vou na chácara ou viajo para o
interior. Hoje mesmo eu vou num salão de costura, e vão várias mulheres. Uma
faz crochê, uma faz tricô, a gente faz um serviço voluntário...eu gosto de ir”
(Maria).

Família e rede social

Como foi exposto, o luto é um processo social e é com o suporte da sociedade


que as pessoas podem elaborá-lo melhor.

Elisa relatou que se sente amparada por sua família e ressalta o quanto esse
apoio é fundamental. Após a morte do filho, passou a dar mais valor à relação
com a família e adora a companhia dos netos. Ela diz que sua família é o que a
impulsiona e alegra. A ligação com todos os seus familiares é muito forte e ela
tem a preocupação de manter essa união, reunindo as filhas e os netos sempre
que pode.

Maria sofreu uma ferida narcísica gerada pela perda dos filhos. Ainda assim,
sua função materna e seu senso de continuidade na vida parecem ter sido
resgatados, em parte, com o cuidado da neta.

Tratamento

Os espaços profissionais de psicoterapia e psiquiatria foram muito importantes


para que Elisa, Maria e Inês expressassem e compreendessem suas ambíguas
e intensas emoções, refletissem sobre suas necessidades, dores e tristezas:

“Eu comecei um tratamento com uma grande psiquiatra, e ela é uma cabeça
fantástica. Tanto que estou lendo um trabalho dela, ela esta escrevendo um

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trabalho, uma beleza! Tinha que ser uma pessoa assim pra me ajudar. Ela é
altamente qualificada e é uma pessoa maravilhosa... Esse texto dela é uma
beleza, posso até passar uma cópia pra você depois (...) Eu procurei minha
saída dentro de mim” (Elisa).

“As psicólogas que me ajudaram bastante, a terapia em grupo, a médica


psiquiátrica e os medicamentos, né? Assim, eu tive vários apoios... e me
ajudou bastante” (Maria).

“Tem um trabalho sobre estresse pós-traumático que descreve um quadro que


chamam de crescimento pós-traumático, o CEPT. Tem o TEPT, que é o
transtorno do estresse-pós-traumático e o CEPT, que é quando as pessoas
crescem depois do trauma. Então a finalidade da ajuda psicoterápica ou
qualquer outra forma de ajuda é transformar um TEPT num CEPT, porque o
trauma gera um desequilíbrio” (Inês).

Casamento

A literatura descreve que muitas separações de casais acontecem depois da


morte de um filho devido a dificuldades na comunicação, acusações mútuas ou
tentativas de evitar o sofrimento do cônjuge. No caso de Elisa, no entanto,
aconteceu justamente o oposto: após uma separação de três anos, está junto
com seu marido novamente. Elisa contou que se sentiu muito amparada pelo
marido depois da morte de seu filho, o que a fez querer reatar o casamento:

“Mas, depois do suicídio, meu ex-marido, que nesses três anos não se
conformava com a separação, foi muito, muito dedicado e ele sofreu tanto com
a perda do Carlos que isso também me pegou muito; então nós voltamos e foi
bom... ele é uma pessoa inteligentíssima, muito companheiro, nós
conversamos muito, viajamos no fim de semana...” (Elisa).

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Também no caso de Maria, as diferenças existentes na forma com que ela e
seu marido lidaram com o suicídio da filha não prejudicaram, segundo ela, o
relacionamento. Maria relata que logo após a perda da filha ela tentou
conversar algumas vezes com o marido, que não quis tocar no assunto. Ela
conta que respeita a forma com que o marido reagiu à perda:

“Com meu marido graça a Deus sempre esteve tudo bem. Eu queria no início
falar muito sobre ela, mas ele não queria tocar no assunto (...) Ele não gosta de
tocar no assunto e eu também respeito... pouco se fala...” (Maria).

Experiência com luto anterior

Inês foi a única das três mães entrevistadas que relatou uma experiência
anterior que a ajudou a elaborar o luto pela perda do filho que se suicidou:

“Minha mãe passou por um luto patológico, porque ela perdeu o marido na fase
de apaixonamento e não conseguiu se recuperar direito nunca. Eu tinha só 10
meses, mas cresci com esse pavor de ficar presa num luto de alguma
situação...Como tudo pode ter a sua serventia, para mim isso teve também,
sabe? Eu sou “luto-patológico-fóbica” (risos). Então eu já pensava muito sobre
esse tema da morte não natural, da morte precoce acontecer perto de
mim...rolou dessa forma na minha vida...”(Inês).

Tempo

O tempo foi descrito de maneira muito bonita nas entrevistas como sendo um
fator fundamental para a recuperação depois da morte de um filho:

“O tempo é como se fosse uma pintura que vai desbotando. Aquela mágoa,
aquela tristeza, aquela angústia vão diminuindo, como se fosse uma pintura
desbotando....assim acontece com a gente...” (Maria).

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“Eu acho que o lado psicológico, só com o tempo...o tempo cura muita coisa. É
claro que você vai lembrar, ter saudades, mas não com tanta dor...” (Maria).

“Por isso que o tempo pra mim é um eterno presente agora, o tempo mudou
pra mim” (Elisa).

“É natural, acontece. Como a chuva, como o trovão, como as marés ou a


tempestade. Há que perceber, há que se viver, sentir, se recolher, se molhar,
nadar, boiar, mergulhar, cavar, contemplar, é complexo, trabalhoso, por um
lado tão "antinatura" e por outro tão natural” (Inês).

Novos tempos, novos significados

Na maior parte das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir,
repensar, com imagens e idéias de hoje, as experiências do passado. A
memória não é sonho, é trabalho. (…) A lembrança é uma imagem
construída pelos materiais que estão agora, à nossa disposição, no conjunto
de representações que povoam nossa consciência atual. (Ecléa Bosi,
Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos).

Foram selecionados alguns trechos das entrevistas com Maria, Elisa e Inês que
mostram como novos significados foram dados à experiência vivida pela morte
do(a) filho(a):

“Não que você é forte, mas parece que você pega uma solidez, uma firmeza. O
que tiver que acontecer, vai acontecer...eu nunca achava que ia perder um filho
e perdi dois...E eu acho que a morte é sofrida porque é um segredo de Deus.
Do outro lado prá lá é segredo de Deus, não pertence mais a nós...a morte é
um desconhecido do homem...tem coisas para nós que não interessa a
resposta...” (Maria).

“Outro dia convidaram ela para dançar em um teatro e ela dançou uma música
lindíssima, clássica moderna, ela estava sofisticada com o cabelo comprido,

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maquiada, e vendo ela dançando no palco, eu passei por uma experiência
incrível. Eu via a minha neta dançar, eu via a minha filha e me via! Foi tão forte
isto que eu falei para minha filha ‘só isto já justifica toda a minha vida!’ E eu
disse, vendo minha neta dançar foi uma coisa tão forte porque ela virava e eu
me via, ela parece comigo, e via minha filha. E eu falei: Isso é o que é a vida!”
(Elisa).

“A saudade é a dor da ausência da presença...porque ele não está ausente,


pelo contrário, acho que ele está mais presente (...) eu acho que o segredo da
vida é procurar ter uma paz interior para poder ver melhor o que está na sua
frente...” (Elisa).

“A vida é a gente se satisfazer também, com a leitura de um livro, com um


filme, com um sorvete, com um pôr-do-sol, um banho de mar, e estar em
condições de saborear tudo isso” (Elisa).

“A vida tem várias primaveras, vários verões, vários outonos e vários invernos!”
(Elisa).

“Você já pensou que existe ex-marido, ex-namorado, mas não tem ex-filho, ex-
mãe. Eu não deixei de ter um filho porque ele morreu. Eu tive 5 filhos, e não é
que antes eu tinha 5 e agora eu tenho 4; eu tenho quatro vivos e um morto. Ele
continua ocupando um espaço na sua vida, falam dele...carne moída, purê de
batata, arroz, feijão e salada de tomate, todos em casa lembram dele...não só
eu. A empregada quando faz essa comida comenta: hoje é a comida do
Fernando” (Inês).

“Tem um filho que morre, mas tem uma outra forma de vida, a imagem dele
fica...” (Inês).

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Próximos tempos…

Após a morte de seu filho, Elisa comentou que quase desistiu da vida e passou
um tempo completamente sem força; mas que agora a sua expectativa de vida
foi toda transferida para a família, em particular aos netos. Embora ela se
interesse em manter a vida ocupada, a família é realmente o que a preenche:

“Houve um tempo em que eu fiquei sem expectativas, completamente! Mas


agora eu gosto muito de viajar (...) A gente muda, muda muito. Eu diria que eu
coloco hoje muito, as minhas expectativas em meus netos, no progresso deles
e tudo. A vida que eu levo, as coisas que eu faço, estou sempre procurando ver
filmes bons, estou sempre procurando sair e me ocupar com coisas que
ocupem a minha cabeça porque eu tenho uma cabeça que pensa muito e não
pode ficar desocupada. A minha expectativa de vida foi transferida para minha
família... é a minha vida hoje, porque eu preciso encher a minha vida. Hoje eu
estou bem, estou bem vestida e bem cuidada. Minha família é o que me
impulsiona, é o que me alegra, eu sinto que eu substitui aquilo que você espera
para si mesmo; eu espero para a minha família” (Elisa).

Quanto ao futura, Elisa comenta:

“Eu preciso pensar que tenho que continuar, que ainda tem muita coisa para
fazer! Nunca acaba... e eu acho que envelhecer é uma coisa tão natural da
vida, não pesa o envelhecer” (Elisa).

Maria também já consegue pensar em alguns projetos de vida para o futuro:


“Sou enfermeira obstetra, mas atualmente eu estou afastada, mas pretendo
voltar logo. Eu vou conversar com a médica hoje e pedir para ela diminuir um
pouquinho a medicação para eu poder começar a tocar minha vida...tentar,
né?” (Maria).

“Eu tinha vontade de fazer mestrado, eu gosto muito de dar aula de


enfermagem, eu gosto muito de estudo...mas depois disso tudo, às vezes eu
tenho vontade de me isolar, ficar sozinha, né. Mas, eu não deixo isso

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acontecer...porque depois eu penso: caramba, a gente não é uma ilha para
viver isolada, né? E também depois eu penso: Será que vale a pena fazer um
mestrado, ficar queimando meus neurônios depois de tudo isso?” (Maria).

A busca de um sentido

Elisa contou que leu um livro que a ajudou a elaborar a morte de seu filho:

“Eu acredito que muitas pessoas renasçam por uma lógica, por uma aceitação,
e tem um livro que você deveria ler que chama Em busca de Sentido (...) Esse
livro me ajudou muito, porque ele lida com a essência do amor”. (Pega o livro e
lê alguns trechos):

Enquanto avançamos aos tropeços, quilômetros a fio - Você sabe, ele esteve
num campo de concentração - vadeando pela neve (...) nenhum de nós
pronuncia uma palavra mais, mas sabemos neste momento que cada um só
pensa em sua mulher. Vez por outra olho para o céu onde vão empalidecendo
as estrelas (...) converso com minha esposa. Ouço-a responder, vejo-a
sorrindo, vejo seu olhar como que a exigir e a animar ao mesmo tempo e, tanto
faz se é real ou não a sua presença, seu olhar agora brilha com mais
intensidade que o sol que está nascendo (...) Continuo falando com ela, e ela
continua falando comigo. De repente me dou conta: nem sei se minha esposa
ainda vive! Naquele momento fico sabendo que o amor pouco tem a ver com a
existência física de uma pessoa. Ele está ligado a tal ponto à essência
espiritual da pessoa amada, a seu “ser assim” que a sua “presença” e seu
“estar-aqui-comigo” podem ser reais sem sua existência física em si e
independentemente de seu estar com vida (...) As circunstâncias externas não
conseguiam mais interferir no meu amor, nas minhas lembranças e na
contemplação amorosa da imagem espiritual da pessoa amada. Se naquela
ocasião tivesse sabido: minha esposa está morta - acho que este
conhecimento não teria perturbado meu enlevo interior naquela contemplação
amorosa - Não é maravilhoso isso?”

82
CAP. VII – CONSIDERAÇÕES FINAIS

Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.
(João Cabral de Melo Neto: Morte e Vida Severina. Diálogo de carpina e retirante)

O campo do suicídio é extremamente vasto e a natureza do pesar por alguém


que se suicidou é tão complexa e seus efeitos nas suas diferentes
manifestações, tão variados, que é raro, senão impossível, que algum autor
possa compreendê-los a todos (Freitas, 2000).

Desta forma, não tive neste trabalho a pretensão de esgotar o tema, muito
menos fazer generalizações sobre um assunto tão delicado e tão importante.
Entretanto, o sofrimento trazido pelo suicídio de um filho é de tal ordem que
acredito na validade de pensarmos nos preconceitos e na ambivalência de
sentimentos que o cercam a fim de compreendê-lo melhor e tentar levantar
propostas que possam atenuá-lo.

83
O objetivo deste estudo foi identificar e analisar as manifestações de luto nas
mães entrevistadas, que perderam o filho por suicídio, com foco nos recursos
com que enfrentaram essa perda e no sentido que atribuíram a essa
experiência.

Foi possível perceber pelo discurso de Elisa, Maria e Inês, participantes da


pesquisa, que alguns fatores complicaram e outros facilitaram a elaboração de
seus processos de luto. Selecionei alguns desses fatores, discutidos no
capítulo anterior, que mais me chamaram a atenção por se diferenciarem ou
serem mais intensos que em outros tipos de luto.

O primeiro deles refere-se ao preconceito e estigmatização que sofre uma mãe


cujo filho tenha se suicidado. Os relatos confirmaram a "mancha no curriculum
vitae" (Galiás, 2004) que marca a mãe de um suicida e dificulta qualquer
comunicação. A mãe enlutada não recebe o suporte social adequado devido,
principalmente, à dificuldade de encontrar interlocutores para compartilhar sua
dor, pois os outros costumam ficar pouco à vontade ou evitam a questão do
suicídio.

O silêncio das pessoas reforça ainda mais o isolamento intenso e os


sentimentos de vergonha e culpa. As oportunidades para falar e recordar dos
aspectos da personalidade e da vida do filho podem ser negadas, como no
caso de Maria, que não pode conversar com o marido sobre a filha que se
suicidou.

Segundo Parkes (1998), o choque e a incredulidade seguintes a uma morte


deste tipo são muito intensos e um aspecto comum são as imagens recorrentes
da morte, mesmo que esta não tenha sido testemunhada. Há, portanto, uma
necessidade natural de se rever e falar sobre as imagens traumáticas e
dolorosas da morte e sobre os sentimentos gerados por ela. Partilhar a
experiência da perda é crucial para a adaptação bem sucedida e a
comunicação é vital durante o percurso de recuperação.

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Outro fator relevante foi o de não ter aparecido nos discursos das participantes
nenhuma referência à raiva ligada ao filho que se suicidou. Como foi exposto,
no luto por suicídio há uma grande dificuldade na elaboração da perda que
pode gerar sentimentos agressivos em relação ao morto. Além disso,

Se alguém matasse nosso filho, seguramente se possível como


mãe o mataríamos, não fora a ponderação egóica. A vingança
seria quase natural. Há muita raiva do assassino. No suicídio
do filho, há um que matou seu filho e que se quer enforcar com
as próprias mãos, que se quer trucidar (...) com as garras, com
a força dos próprios músculos, com os dentes, com seu próprio
corpo, com sua própria agressividade, é visceral. No suicídio
do filho, há outro que foi vítima, que não pôde sozinho se
defender do ataque, que sucumbiu, que você não pôde
proteger, que estava sozinho, indefeso, desamparado,
provavelmente apavorado, sem conseguir pedir ajuda de forma
a ser ouvido, atendido, protegido, acolhido, enlaçado, contido,
pego no colo e embalado até que passasse o susto e o medo.
Esse se quer amparar (...) Se o filho se assusta, se fere, o
tomar ao colo é o natural, o acalantar, o embalar, o ninar até
que o susto e a dor passem. Mesmo depois de crescidos a
mãe assim age se ela consegue. Mesmo se ela não consegue,
não desiste de tentar (...) É extremamente difícil juntar ambos,
assassino e assassinado, algoz e vitima num só, no mesmo
filho, amado e odiado, que se quer tanto proteger, pegar no
colo, quanto bater, socar, pôr de castigo (Galiás, 2004, p.3).

Acredito que esses sentimentos não foram descritos pelas mães entrevistadas
devido a necessidade de reprimi-los, devido a grande culpa que a raiva por um
filho que se matou desperta. Como descreve Galiás (2004) é muito difícil para a
mãe de um suicida juntar sentimentos tão ambíguos como o amor e o ódio pelo
filho que se suicidou.

Se o sentimento de raiva não apareceu nas entrevistas, a culpa, por outro lado,
teve grande destaque. A vivência de culpa, tal como citada pela literatura, pode
ser pensada, a partir dos sentimentos experienciados por Maria, Elisa e Inês,
como uma tentativa de encontrar uma causa que pudesse evitar a morte do
filho e se sentir menos impotente diante da situação traumática.

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Se em alguns casos a culpa pode dificultar o processo de elaboração do luto,
em outros, ela pode ajudar a mãe enlutada a se defender de uma
desestruturação maior logo após a morte do filho. Mas pode também complicar
o processo de luto quando é muito intensa e se estende por muito tempo, não
dando lugar a outros sentimentos mais adaptativos, como os descritos por Elisa
(“Sentia culpa por não ter percebido que não estava tudo tão bem como
parecia... Mas, agora não...sinto muita saudades...”).

Alguns fatores foram de extrema importância para que as mães entrevistadas


pudessem elaborar o luto do filho morto, como a religião que pôde constituir
uma fonte de força e apoio para que Maria e Elisa conseguissem se recuperar
do suicídio do filho.

Os espaços profissionais de psicoterapia e psiquiatria foram muito importantes


para que as participantes expressassem e compreendessem seus sentimentos,
assim como o amparo familiar (descrito por Elisa) e as atividades físicas,
artísticas, manuais também contribuíram para a recuperação.

A partir das entrevistas percebi que Maria, Inês e Elisa não trouxeram apenas
sua dor, seu luto, sua angústia. Elas trouxeram a sua vida, a sua existência.
Falamos sobre culpa, mas também sobre casamento; falamos sobre o estigma
e também sobre o papel da mulher na sociedade, falamos sobre morte, e
principalmente sobre vida.

Maria falou sobre o tempo em uma linda metáfora (“O tempo é como se fosse
uma pintura que vai desbotando. Aquela mágoa, aquela tristeza, aquela
angústia vão diminuindo, como se fosse uma pintura desbotando... assim
acontece com a gente...”) o que me fez pensar que as experiências vividas não
podem ser concretamente modificadas, mas talvez seja possível criar uma
nova moldura, re-enquadrando e transformando a percepção do viver e
conseqüentemente adquirir outros comportamentos e atitudes perante a vida.
Trata-se, sem dúvida, de um processo longo e trabalhoso, em que a mais difícil
tarefa é a do perdão: o perdão ao filho, o perdão de si mesma (Freitas, 2000).

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Conhecer a história e experiência de Maria, Inês e Elisa, e elaborar uma
discussão sobre seus relatos mais íntimos foi enriquecedor, um enorme
exercício de ética e de escuta. Por isso, gostaria de agradecer a contribuição
das participantes, destacando que pretendi realizar nesse trabalho uma
compreensão que primasse pela singularidade da vivência de cada uma.
Espero que a participação nesse trabalho tenha as aproximado, de alguma
maneira, de suas experiências subjetivas e que o poder pensar e falar tenha
ajudado a ressignificar alguns momentos de suas difíceis histórias de vida.

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91
ANEXO 1 – TERMO DE CONSENTIMENTO ESCLARECIDO E INFORMADO

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO


FACULDADE DE PSICOLOGIA

Eu, ___________________________________________________________,
RG nº:____________________, estou ciente de que minha participação na pesquisa
Luto Materno pelo filho suicida, desenvolvida pela aluna Luciana Fernandes Rocha do
5º ano da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
como atividade acadêmica do Trabalho de Conclusão de Curso, não incorrerá em
violação de direitos humanos, e que minha participação, seja através de entrevista,
respondendo questionário ou participando de observação direta, pode ser usada em
meios acadêmicos e científicos . Autorizo a gravação em áudio de entrevista que
venha a dar e sua posterior transcrição pela pesquisadora responsável, para fins de
ensino e pesquisa. Autorizo a publicação deste material em meios acadêmicos -
científicos e estou ciente de que serão removidos ou modificados dados de
identificação pessoal, de modo a garantir minha privacidade.

São Paulo, _____de_____________ de 2007.

__________________________________________
Assinatura do participante da pesquisa

__________________________________________
Aluna-pesquisadora: Luciana Fernandes Rocha

__________________________________________
Orientadora: Flavia Arantes Hime

92
ANEXO 2 - ENTREVISTAS

ENTREVISTA COM MARIA


Casada, 51 anos

Qual é a profissão da senhora?

Sou enfermeira obstetra, mas atualmente eu estou afastada, mas pretendo


voltar logo. Eu vou conversar com a médica hoje e pedir para ela diminuir um
pouquinho a medicação para eu poder começar a tocar minha vida...tentar, né?
Eu estou tomando ....um é antidepressivo e o outro é ....

Gostaria que a senhora me contasse um pouco de sua história de vida,


sua trajetória...

Desde a infância?

O que a senhora quiser me contar...

Bom...eu vou começar pelo meu segundo casamento, tá? Não, do meu
primeiro casamento. Eu casei muito jovem tinha 15 anos e com 16 anos eu tive
minha primeira filha. No meu primeiro casamento eu tive 4 filhos e um aborto.
Um aborto que eu mesma provoquei porque eu tava desesperada, já tinha 4
filhos e o casamento não ia bem. Aí, quando foi... os tempos se passaram, aí
eu me separei do meu marido, fiquei um tempo com as crianças, aí nesse
meio de tempo eu consegui trabalhar aqui na Unifesp como atendente de
enfermagem. Daí eu fui lutando, estudei, nessa época eu não tinha o ginásio
completo, aí terminei o colegial, primeiro eu fui fazer faculdade de enfermagem,
depois fiz pós-graduação e criando as crianças...e nesse meio de tempo eu
conheci esse meu segundo esposo, né? Eu falei para ele que eu tinha quatro
crianças e ele assumiu e nós vínhamos assim... tendo uma vida normal ...daí
nasceu essa minha filha, a Miriam, que foi a única filha que meu segundo
esposo teve comigo. Aí as crianças foram crescendo, e a gente trabalhando,
estudando...Do primeiro casamento eu tive a Sofia, a Simone, o Rodrigo e o

93
Eduardo. O Rodrigo e o Eduardo logo na criancice deles ...tipo com 13 anos
foram para as drogas. Aí o Rodrigo ficou...eu tentei tirar ele das drogas de
todos as maneiras..tentei, tentei, levei até para internar, não quis e ficou assim
essa luta, né? E aí ele foi para as drogas, ele se afundou nas drogas, não quis
sair das drogas, e o Eduardo foi junto. E aí lá nas drogas ele arranjou uma
moça que era muito drogada, pior que ele. E lá, essa moça teve uma gravidez
dele e ele nem sabia, passaram-se uns tempos e num domingo de páscoa, eu
tava na minha casa e vieram falar que o Eduardo estava em estado de choque
porque haviam matado o Rodrigo ... e ele nem sabia que a moça que ele vivia
junto tava grávida ... e aí passaram-se uns tempos, eu sofri muito...Passei uns
três anos sofrendo, mas não procurei profissional nenhum para me ajudar. O
Eduardo ficou um tempo afastado das drogas, mas depois ele voltou, voltou até
hoje...hoje ele é morador de rua, mora debaixo do pontilhão...tá com quase 30
anos de idade e depois mataram a companheira do Rodrigo, que também era
drogada, mas antes de matar ela, ela teve uma filha, né? Porque antes
mataram ele e ela ficou...e essa gravidez, eu tava sempre acompanhando,
levando lá alguma coisa, porque eu queria ver a filha do meu filho nascer. Aí a
menina nasceu, passaram-se 6 meses e eu fiquei naquele luta, trazia a menina
para casa, ela buscava, eu trazia, ela buscava...meu marido dizia que era filha
dela, deixa...mas eu ficava preocupada porque ela não tinha condições
psicológicas nem físicas para cuidar da criança...dar mama também, né? Aí fui
assumindo a menina da maneira que eu podia, até que um dia mataram ela
também. Eu soube da notícia que haviam matado ela, e aí eu fui com a mãe
dela no juiz e ela me deu a tutela da Rafaela. A Rafaela hoje tá com 9 anos...tá
grande, tá bonita... e assim, a história de vida dela... eu conto tudo para ela,
não escondo nada. Ela me chama de mãe, meu esposo de pai...Ela é muito
apegada com a gente. Meu esposo não é avô paterno dela
assim...geneticamente, era avô de consideração, e ficou pai adotivo. E ela nos
ama muito...E então voltando na Miriam, a Miriam cresceu, ficou mocinha e aí
eu fui trabalhar em 2 empregos para pagar uma faculdade para ela porque ela
queria...eu gostaria que ela seguisse o meu ramo porque hoje em dia é um
ramo para você escolher várias especialidades, vários caminhos, né? Não é só
ficar enfiado dentro do hospital. Tem gente que pensa que enfermeira só mexe
com sangue, não é isso, tem várias opções. Mas, ela falou “Mãe, meu perfil

94
não é ser enfermeira, meu perfil é ser veterinária. Mas é caro, né? É particular.
E eu falei “tá bom, eu trabalho em dois empregos. E aí eu saí, deixei meu
apartamento para as duas, porque as duas estavam estudando. Bioquímica
essas coisas...

Quem que morava com a Miriam?

A Miriam e a Simone. A Simone casada com dois filhos e a Miriam solteira. E aí


tudo bem, ficaram no apartamento, ela não quis vir comigo para a casa da
minha sogra...porque eu mudei para lá, e também era muito pequeno né? Era
só quarto, cozinha e banheiro..era eu, para minha sogra,e meu esposo. Agora
não, agora eu fiz uma casa...Mas e aí tudo bem, ela ficou estudando seis
meses...depois de 6 meses...e assim, a Miriam tinha...a vida particular muito
oculta. Eu tenho minhas dúvidas do que ela fazia particularmente. Eu tenho
muita dúvida...eu acho que ela poderia ter sido uma garota de programa. Mas
nada concreto, nada assim que eu vi, né? Eu acho que aquilo tudo veio
perturbando ela...porque assim...eu criei a Miriam dentro da igreja. Ela foi uma
menina que teve os princípios cristãos, né? Inclusive ela começou a estudar
órgão, ela ia muito bem, já estava tocando alguns...Eu acho que ela tinha nos
princípios dela alguma coisa e depois ela desvirtuou, não sei... eu sempre falei
para o meu esposo: “coloca um detetive para a gente tá vendo por onde que
ela anda”, porque ela era muito de andar à noite, chegava de madrugada e
nunca falava onde que trabalhava. Aí ela fez aniversário no dia 8 de junho que
antecipava a morte dela. Ela foi na minha casa, eu comprei um presente e eu
percebi que ela estava triste, muito triste... Eu falei: “Você não gostou do
presente que eu te dei?” E ela falou: “ah, gostei, gostei”, mas sabe aquela coisa
que você percebe na pessoa? Aí tudo bem, foram embora as duas, voltaram
...e quando foi um belo de um domingo...anteriormente, no domingo anterior,
eu havia atendido um paciente de 60 e poucos anos que havia se suicidado
com veneno de rato, com chumbinho. E aí eu ia no domingo para o plantão
pensando comigo “Meu Deus, o que que leva uma pessoa a se suicidar, né?
Como que pode?” Me questionando, pensando...porque a gente nem pode
estar julgando...porque a primeira coisa que vem é ficar julgando, por falta de
conhecimento, né? “Ah, mas fulano não teve caráter, fulano é isso...” Só

95
julgamento, né? Eu vinha pensando o que que leva ... e aí quando foi mais
tarde, eu fui almoçar tarde, eu tava com bastante tarefa, bastante coisa para
resolver, problemas. Aí eu fui almoçar...fui eu a doutora D. e a doutora I. e aí a
gente tava até conversando de política, falando de governo, de hospital ...e aí
desceu o menino e falou “Olha tem um telefonema para você” e passaram a
linha lá para mim. Aí eu tive que dar uma força para ele agüentar. Eu falava
“calma, já foi mesmo, fazer o que” eu tive que dar uma força de tão mal que ele
tava...ele gritava...precisou a gente dar um socorro para ele, pela reação que
ele teve, mas não era assim, ela já estava morrendo. Antes a pequena falou
que ela já havia passado em algum lugar, só que a pequena não me falou, a
Rafaela, ela passou num petshop e perguntou para o moço se eles vendiam
venenos de rato, que é aquele chumbinho e aí o rapaz falou que não, que era
proibido por lei...eu não sei onde que ela conseguiu. E minha filha Simone
havia dito que ela assistiu uma despedida de solteiro de uns colegas dela
porque uns iam viajar para fora do Brasil, iam deixar o curso e estudar fora do
Brasil e ela voltou muito perturbada desse encontro, porque lá ela viu um ex-
namorado dela, chorou...tudo isso eu não sabia ... tudo isso eu não estava nem
sabendo que estava acontecendo...que nem eu te falei...ela ficou muito
perturbada. Aí, continuando...eu tava de plantão... se meu esposo tivesse
falado eu deixava tudo o que eu estava fazendo, porque era um pouco
longe...aí ele veio me buscar de carro com meu genro, o marido da Simone e
ao invés dele me avisar parar ir embora logo, ficaram lá esperando. E quando
eu cheguei no hospital, ela já estava entubada...já estava assim...o abdome
dela...eu pedi para a enfermeira chefe para entrar...o abdome dela já estava
muito rígido, a urina dela só tinha um pouquinho, tava muito oligúrica, aí eu
falei “Ai, meu Deus”, aí pronto, parece que o mundo caiu na minha cabeça, eu
fiquei desesperada...e assim, o que eu achei muito incrível foi dela ter tomado
esse chumbinho ao meio dia, quando meu marido chegou no apartamento, ela
estava preta, preta; ela era branquinha, tava preta, preta, e aí meu marido
disse que caiu de joelhos do lado dela e foi escorregando e pôs a mão no
coração dela e falou assim : “Ai Meu deus, não foi isso que o senhor me
prometeu”, e aí ele disse que o coração dela respondeu, deu uma batida forte -
puf - na mão dele, aí pegaram ela, levaram para o hospital...meu genro que
nunca saia do apartamento, desceu com as crianças e nesse meio de tempo

96
que deu para ela fazer tudo isso. Aí quando minha filha entrou no quarto disse
que tava terminando de tocar um CD da Shakira, que é um cd muito triste. E
ela já tinha vomitado muito...ela colocou um balde, deixou o quarto dela todo
arrumadinho, que sempre era uma bagunça o quarto dela, deixou tudo
arrumadinho, tudo dobradinho, os cds...tá lá até hoje, um monte de cds...ela
deixou tudo arrumadinho no quarto dela...e não sei...ela planejou tudo isso, né?
Ela queria morrer...e aí... levaram ela para o hospital, chegou lá tentaram
socorrer de todas as maneiras, mas já era tarde. Entubaram, tudo...ela passou
a madrugada e quando foi a madrugada ela começou a ter arritmia e aí foi a
hora...o médico me deu a notícia que tinham perdido ela mesmo, né? Ele
chorou também...ficou muito chateado..perder uma jovem, né?

Quantos anos ela tinha?

Vinte e um anos. E aí eu fui fazer um levantamento nas notas dela na


faculdade, que tava fraco, né? Mas era uma coisa que podia ter
recuperado...ela chegou ao primeiro semestre, mas não chegou a concluir...era
o que ela queria fazer...comprou livro, ela foi para Sorocaba e fez um curso de
primeiros socorros de animais de grande porte, ela tava assim, investindo, né?
E não sei o que perturbou muito, muito ela...não sei se pode ter sido esse
namorado...E depois no atestado de óbito dela estava escrito que ela estava
com abdome gravídico, tava grávida, né, e aí a causa-morte dela não sei se foi
dela ter decidido a vida dela...agora eu me pergunto...não sei se foi a gravidez,
não sei se foi a questão amorosa, não sei se foi a vida dela que tava toda
embaralhada, bagunçada, não sei se ela tinha depressão, né, não sei...e aí eu
passei muito tempo, nossa! Agora é que eu estou conseguindo conversar, né?
Mas eu passei muito, muito tempo sem conseguir...que assim, eu quase tirei
minha vida também... só não tirei porque graças a Deus eu sou uma pessoa
religiosa eu me apoio muito na força de Deus.

Qual é a religião da senhora?

Congregação cristã do Brasil. E eu me apoio muito na força de Deus e tenho


tido muito conforto, muito apoio... e depois eu comecei a tratar com a doutora

97
D. e aí eu fui numa terapia em grupo também, que ajudou bastante também, a
gente vê os problemas das pessoas...e a gente vai tentando, mas é uma coisa
que nunca mais apaga...até hoje eu me lembro dela como se fosse eu falando
com ela...a fisionomia, a roupa que ela gostava de usar, e ela morreu com uma
roupinha que eu dei para ela. Quando eu tava já recuperando do
Rodrigo...porque o Rodrigo foi assassinado, a Miriam foi suicídio.

Faz quanto tempo que o Rodrigo morreu?

Foi em 97. Vai fazer 10 anos...

Quantos anos ele tinha?

Ele tava com 20 anos e a Miriam foi em 2005, ela tinha 21 anos. Foi uma carga
muito pesada perder dois filhos...eu me lembro que quando o Rodrigo morreu
eu fui deixar de me emocionar, chorar, depois de uns 3 anos...e depois veio o
suicídio...

A Miriam já tinha tentado alguma vez o suicídio?

Não, só se foi assim que eu não vi, mas não me lembro...

Como era a Miriam? Quais eram as coisas que ela gostava de fazer? A
senhora poderia me contar um pouco sobre ela?

Ela gostava muito de viajar, de aventuras, acampar... ela gostava muito de


desafio. Inclusive ela mergulhava em alto mar...Ela gostava muito de
desafios...Ela deixou umas coisas escritas muito bonitas, mas eu deixei o diário
dela com o rapaz e ele acabou sumindo com esse diário. E eu preciso ver se
eu consigo recuperar...

Que rapaz?

98
O rapaz policial, escrivão. Eles pediram porque como não foi uma morte
natural, eles pedem para a gente abrir...tem que abrir um inquérito, né? E no
meio do inquérito eu pedi uma investigação porque eles falaram que talvez
possa ser um suicídio induzido por outra pessoa, né? Eles querem
saber...então eles fizeram um monte de perguntas...

A Miriam namorava?

Então, ela namorava e gostava muito desse rapaz e depois ela se separou dele
e tava namorando outro... e nessa festa ela viu o ex-namorado dela, segundo a
minha filha. Então, e ela conseguiu deixar um bilhete que falava assim: ‘me
perdoa por ser fraca, me perdoa por não ter conseguido, me perdoa por ser
assim. Eu amo todos vocês’. Ela falou 3 vezes pedindo perdão, né? E eu acho
que...tenho certeza de que ela estava decidida a morrer, mesmo.

E como vocês se relacionavam? Como era a relação da Miriam com a


senhora, com seu marido e com os irmãos dela?

Então, a relação dela com a Simone era muito boa, tanto é que a Simone falou:
“Olha, mãe, eu não perdi uma irmã, perdi uma filha”. A Miriam admirava muito a
Simone, ela falava que a Simone era uma heroína. Não sei se ela achava que
as atitudes dela eram fracas em relação à Simone. Eu percebi assim...ela tinha
uma personalidade forte, um gênio forte...teve uma vez que não sei o que que
foi que ela fez, que eu peguei ela assim, bati com a cabeça dela na parede do
banheiro, tava nervosa, aí ela pegou e me enfrentou...ela queria me socar...aí
ela saiu de casa, foi para casa de uma amiga, aí eu falei assim: “deixa ela,
quando ela quiser ela volta” e aí meu marido ficou desesperado, pediu para ela
voltar e ela voltou. Mas quando ela queria fazer alguma coisa, ela fazia,
ninguém segurava. Eu percebia que ela tinha um gênio muito forte, tanto é que
eu nem me impunha tanto nas coisas dela depois que eu fiquei muito nervosa,
quis socar, aí eu falei “Deixa ela, né, ela resolve do jeito que ela quer. E não
sei, às vezes a gente fica pensando que pode ter sido uma imprudência minha,
uma falha da minha parte, talvez se eu tivesse ficado mais em cima, poderia ter
evitado...mas...não sei...

99
E com seu marido, como ela se relacionava?

Ele pegava muito no pé dela também, assim..como pai, né. Uma vez ele não
queria que ela saísse de carro porque ela não tinha habilitação ainda, depois
que ela tirou habilitação. Daí ela pegou a chave escondido do meu marido,
desceu pegou o carro, deu umas voltas e deu umas batidinhas no carro.
Depois ela chegou, escondeu a chave e foi deitar...meu marido procurou essa
chave, procurou, procurou...perguntou quem tinha pegado a chave do carro e
ela não falou. Depois que ela falou, ele ficou muito bravo com ela. Uma vez
também, ela passou um monte de tinta no cabelo, tinham várias tintas no
cabelo, depois ela achou que não estava bom, descoloriu, porque ela era muito
vaidosa. Aí o cabelo dela começou a cair e ela foi na cabeleireira e passou a
máquina zero. Ai, mas quando meu marido viu aquilo, eu achei que ele ia
enfartar. Eu falei: “Mas calma, cabelo nasce outro” mas assim, não sei se era
porque era filha única dele e quando teve que enterrar ela...ele enfrentou o
velório, tudo...ele falou que tinha comprado o caixãozinho branco para ela que
eu queria...porque eu tinha sonhado com uma criança e no sonho eu vi um
caixãozinho branco...ele teve assim, uma reação normal, tudo, aí quando foi
enterrar ela, eu tive que dar uma força para ele agüentar. Eu falava “calma, já
foi mesmo, fazer o que” eu tive que dar uma força de tão mal que ele tava...ele
gritava...precisou a gente dar um socorro para ele, pela reação que ele teve. E
assim, às vezes ela tinha uns pensamentos meios bizarros...ela falava assim:
‘Ó, quando eu casar eu quero me casar vestida de vermelho’ (risos). Eu nunca
vi noiva vestida de vermelho...noiva veste branco, né? Para mim, aquilo era
normal, né? O quarto dela está lá até hoje...As coisas do jeito que ela deixou
ainda estão lá.

Maria, com quem a senhora pôde contar depois da morte da sua filha?

Assim, logo no início muitas pessoas me ligavam e eu também queria ligar para
todo mundo para falar para todo mundo...era uma maneira de eu me...e no
trabalho, meus colegas me ajudavam. Eu trabalhei por quase um ano depois,
né. Mas, daí eu não agüentei porque eu me emocionava muito, trabalhava com

100
gente, via morte, via as pessoas morrer, e aquilo me machucava muito. Daí eu
tinha uma amiga que me indicou a Dra. D. e ela me perguntou se eu não queria
passar com ela. Eu vim e a Dra. D. me afastou porque ela achou que eu estava
com depressão... “trauma pós transtorno de depressão grave” e eu estou
afastada até hoje. Mas agora que eu estou querendo pedir pra ela pra mim
voltar, né? Mas assim...que nem eu te falei, quando eu me lembro que ela está
lá debaixo do chão se desfazendo, me dá uma angústia, me angustia muito. Eu
tô pensando como é que vai fazer para a exumação, como é que vai ser minha
reação... Do Rodrigo eu guardei uma vértebra, guardei um dente e guardei uma
mecha de cabelo. Dela também eu vou ver se eu guardo algum ossinho dela lá
em casa.
(Mostrou algumas fotos de Miriam)
Essa aqui era quando ela era criança...essa aqui depois que ela ficou
moça...ela ficou muito bonita depois de moça...ela era criança de tudo, não se
cuidava direito...mas ela era uma moça muito amável. As meninas da medicina
veterinária foram no velório dela e falaram que não era o perfil dela ter feito o
suicídio, e que ela era uma menina muito alegre. Mas acho que no fundo, no
fundo ela não estava alegre, né? Aí eu fui lá falar com o coordenador do curso
dela, porque eu não me conformava...não me conformava. Eu tinha que buscar
alguma resposta, o porquê. Aí, eu fui lá e ele falou assim: ‘Olha, a sua filha...’
não sei se ela conversou com ele, eu não sei...ele falou ‘A sua filha estava
muito embananada, muito, muito...’. Assim, embaralhada, né.

E por que ele achava isso? Ele explicou?

Não, ele falou que não ia falar. Então aquilo que eu te falei no início: a vida dela
particular tava muito oculta. Tava assim uma coisa que nem eu sabia, nem a
irmã dela sabia e a gente tinha alguma suspeita de um caminho
assim...tortuoso que ela tomou na vida dela, como profissão, e isso daí eu
imagino que deve ter levado ela muito perturbada. Ela saia e voltava tarde da
noite. Nunca falava onde era o emprego dela. Não dava o endereço, não dava
o telefone, não falava nada. Eu até falava para meu marido: ‘Põe um detetive
atrás dela’...só que ele vacilou...

101
Quer ver, a carta que eu escrevi quando Rodrigo morreu, eu tenho até hoje
(pega uma carta na bolsa e começa a ler):
Domingo de Páscoa. Dia 30/03/97, numa madrugada de um domingo, mais ou
menos 2:40 horas da manhã, meu Rodrigo acabava de morrer, com 3 tiros, um
dos tiros no peito, num beco frio. Me deparei com meu filho morto. Foi grande
ali a minha aflição. Parece que o mundo desabou sobre minha cabeça. Que
hora dura! Após 8 meses nasceu uma linda menina, que pesou mais ou menos
3,5 kg, que é a Rafaela. Ele nem chegou a conhecer a Rafaela...

A senhora também escreveu alguma coisa quando a Miriam morreu?

Escrevi num papel bem comprido, está em casa, mas agora eu não sei onde é
que eu coloquei. Escrevi tudo: a hora que eu recebi a notícia, a hora que eu
cheguei no hospital...eu escrevi e guardei, e é difícil eu pegar, só agora que eu
tô conseguindo pegar, porque eu estou mais calma...

A senhora achava que acalmava escrever?

Não...era assim para ter registrado os fatos...o que me ajudou mais foi a parte
espiritual, né? Foi uma base, um apoio...porque tem muita gente que fala
‘Morreu de suicídio, nossa não tem salvação’. Aquilo para uma mãe é a pior
coisa, porque a mãe já está sofrendo pela separação e ainda vêm falar que o
espírito não tem salvação...E na doutrina não, é diferente. Deus sabe o que faz.
Aconteceu porque foi chegada a hora, porque Deus quis. Para tudo tem um
tempo na nossa vida. E isso traz um grande conforto e...essa foi a vontade de
Deus. Então se é a vontade de Deus, a vontade de Deus é boa. Então isso traz
um conforto...e também o outro lado material foram as psicólogas que me
ajudaram bastante, a terapia em grupo, a médica psiquiátrica e os
medicamentos, né? Assim, eu tive vários apoios...e me ajudou bastante.

E como ficou o relacionamento com seu marido depois da morte da


Miriam?

102
Com meu marido graça a Deus sempre esteve tudo bem. Eu queria no início
falar muito sobre ela, mas ele não queria tocar no assunto; eu queria e ele não.
Desde então pouco se toca, pouco se fala, mas tem dias que eu percebo que
ele está amargurado. Não sei porque, mas ele não gosta. Mas de vez em
quando a gente vai até o cemitério. Eu penso que como era uma filha única
que ele tinha, ele ficou bastante magoado. Assim...meus filhos ele sempre criou
tudo junto, ele sempre me ajudou, tudo, mas a gente tem que reconhecer que
tem uma coisa biológica, né? Filho biológico é uma coisa, filho adotivo...não
sei....eu acho que não é a mesma coisa, né? Tem gente que pega um amor e
cria como se fosse um filho biológico, né? Mas minha relação com ele é essa.
Ele não gosta de tocar no assunto e eu também respeito...pouco se fala...

E Maria, que sentido a senhora dá hoje a tudo o que aconteceu? Como a


senhora vivencia hoje a morte de Miriam?

Hoje para mim é um vazio, porque ninguém substitui o outro, né? As pessoas
falam: “Veio a Rafaela, Deus sabe porque, né?’ Mas é uma utopia, porque
ninguém substitui o outro. Nossa vida de cada um é exclusiva, é única. Você
tem dez filhos, cada filho é de um jeito, nunca é igual...

Como foi a relação de Miriam com a senhora nos diversos momentos da


vida dela: quando ela era bebê, criança, adolescente...?

Sempre foi bem, né? Foi bem vinda, bem recebida na família. Ela era a única
de pai diferente, mas foi bem. Eu sempre trabalhei muito, sempre trabalhei fora,
mas meus outros filhos cuidavam dela, as maiorzinhas e meu marido também,
porque ele sempre teve problema de saúde e logo foi afastado. Assim, foi
normal....depois que eu tive a Rafaela... eu percebia que ela tinha um pouco de
ciúme da Rafaela, mas também não era nada exagerado não, era coisa pouca.
Ela levava a Rafaela para passear, no Mcdonald’s tomar lanche, porque teve
uma época que a Miriam trabalhava lá. Ela não era de arrumas as coisas, mas
às vezes dava a louca nela e ela arrumava toda a casa pra mim...que nem eu
te falei, né? Eu sempre tentei deixar ela à vontade, não ficar pegando muito no
pé, né? Porque na minha juventude a minha tia era muito...ela me sufocava,

103
né? No sentido de roupa, no sentido de usar o que eu queria. Na minha época
de juventude usava muito mini-saia; mini-saia é coisa antiga, né? E ela não
deixava nem calça comprida....hoje em dia eu não uso pela minha doutrina,
porque nós não usamos, né? Só saias longas...Então, eu falava: ‘deixa ela
como jovem, usar o que ela tem vontade’, às vezes só que ela exagerava,
usava uma saia muito curta e eu falava para ela: ‘Nossa Miriam, se as pessoas
te verem assim na rua vão falar ‘ó lá filha de crente’! Mas, era dela. Antes de
morrer que ela pintou o cabelo de preto, porque antes ela era morena do
cabelo loirinho. Eu via meu relacionamento com ela como normal, né?

E hoje quais são as atividades que a senhora gosta de fazer?

Eu vou te falar: lazer, lazer eu não tenho. Mas minha rotina: eu vou para a
igreja, venho, às vezes eu vou na chácara ou viajo para o interior. Hoje mesmo
eu vou num salão de costura, e vão várias mulheres. Uma faz crochê, uma faz
tricô, a gente faz um serviço voluntário...eu gosto de ir. Sábado passado eu fui
na chácara da Simone. Minha vida é normal...eu tinha vontade de fazer
mestrado, eu gosto muito de dar aula de enfermagem, eu gosto muito de
estudo...mas depois disso tudo, às vezes eu tenho vontade de me isolar, ficar
sozinha, né. Mas, eu não deixo isso acontecer...porque depois eu penso
‘Caramba, a gente não é uma ilha para viver isolada, né? E também depois eu
penso: ‘Será que vale a pena fazer um mestrado, ficar queimando meus
neurônios depois de tudo isso?’ Às vezes vem o ânimo, mas depois eu
desânimo...como se fosse uma onda no mar...vem...volta...vem...e volta...eu
acho que o lado psicológico, só com o tempo...o tempo cura muita coisa. É
claro que você vai lembrar, ter saudades, mas não com tanta dor...Hoje em dia
eu uso uma saia que eu usei no velório do Rodrigo. Eu não sei da onde que eu
tirei tanta força pra ajudar os dois para o IML. Eu cheguei a ver eles nus,
mortos, inertes e eu consegui vesti-los, né? Hoje em dia eu consigo usar a
saia, mas antes eu não podia nem ver. Hoje em dia eu uso a saia, lembro de
um momento tão duro na minha vida, mas...o tempo, né? O tempo é como se
fosse uma pintura que vai desbotando. Aquela mágoa, aquela tristeza, aquela
angústia vão diminuindo, como se fosse uma pintura desbotando....assim
acontece com a gente...

104
Eu levei um cd dela de relaxamento que tem uns barulhos de golfinhos...e eu
não gosto muito de ouvir...porque mexe, né? É como se fosse uma ferida, ela
cicatriza por fora, mas por dentro ela tá aberta, então se você toca na pele vai
doer. E assim é nosso sentimento...ele tá lá calminho, mas se você toca dói.
Então, eu faço o possível para não estar chorando para não sair com o rosto
vermelho por aí. Parece que as pessoas ficam comentando: ‘Nossa, tava
chorando. O que que será que aconteceu com ela?’
Então, Luciana, a gente acha que não está preparada para as coisas, mas tá.
O que tiver que acontecer, vai acontecer...claro que a gente não quer...Mas, a
gente tem que falar: ‘Seja o que Deus quiser’, porque quando a gente fala:
‘nossa, eu não ia agüentar perder um filho’, aí que acontece...
Então eu já perdi aquele medo...eu sei que a qualquer hora eu posso receber a
notícia que mataram o Eduardo, porque os policiais matam os mendigos...mas
eu não posso ficar com medo, porque senão eu vou enlouquecer...Chega um
momento da sua vida que parece que você fica sólida, entendeu? Não que
você é forte, mas parece que você pega uma solidez, uma firmeza. O que tiver
que acontecer, vai acontecer...eu nunca achava que ia perder um filho e perdi
dois...E eu acho que a morte é sofrida porque é um segredo de Deus. Do outro
lado prá lá é segredo de Deus, não pertence mais a nós...a morte é um
desconhecido do homem...tem coisas para nós que não interessa a resposta...

A senhora gostaria de deixar alguma mensagem para alguém que possa


passar pelo que senhora passou?

O que eu poderia dizer é que na nossa vida tudo passa, é como uma onda:
passa. Parece impossível, mas o tempo vai fazer que essa dor passe...e muita
fé em Deus e confiança nos profissionais da área de saúde, os psicólogos,
psiquiatras também. Tem muita gente que acha que psiquiatra só trata de
louco, não é, eles também tratam de gente que precisa de um suporte
medicamentoso. Então eu diria que tudo passa, nada é por acaso, muita fé em
Deus que é um fundamento principal. E nunca blasfemar contra o que Deus
fez...é isso o que eu gostaria de falar para as mães...

Muito obrigada, Maria!

105
Posso falar mais uma coisa?

Claro que pode!

E como mãe, sempre pensar que os nossos filhos, antes de ser nosso, já era
de Deus e que chegou o tempo Dele levar...

106
ENTREVISTA COM ELISA
Casada, 72 anos.

Pra começar, gostaria de perdir para a senhora me contar um pouco de


sua história de vida e de seu dia-a-dia...

“Luciana, eu tenho 72 anos. Então, eu estou numa idade que é bastante idade,
mas graças a Deus estou firme ainda, e se tem uma coisa que eu procuro
é...nessa idade em que a gente já carrega uma série de coisas do passado,
que vêm com a gente...eu acho que estou na idade das coisas mais
agradáveis. Eu acho que alegra a vida, traz saúde, traz uma série de coisas
que fazem com que eu tenha uma qualidade de vida melhor. Então, talvez um
pouco egoisticamente, mas eu acho que eu tenho direito, afinal, eu já estou
com os filhos casados, já estou com os netos moços, e eu curto isso! Então o
meu dia...de manhã eu procuro mais atividades físicas, porque depois de uma
certa idade a gente guarda todas as heranças de família, aquelas que não são
muito boas: diabetes, sabe? E andando, saindo, a sua cabeça fica aberta...e
uma coisa que eu me ocupo muito, que me distrai muito é a pintura. Hoje à
tarde eu tenho aula...(mostrou vários objetos de louças pintados por ela). São
peças variadas...eu estou sempre ocupada com isso. Primeiro porque você tem
um contato com pessoas, o que é muito bom. É um grupo de senhoras,
algumas mais moças, outras com mais idade, mas por sorte é um grupo muito
agradável, então a prosa é muito gostosa... Eu acho que as responsabilidades
mudaram...Hoje vocês já estudam cedo, já começam a vida com as suas
ocupações...no meu tempo não. No meu tempo realmente a moça era educada
pra casar. Veja, eu me casei com 17 anos, então eu não acabei nem o colegial.
E nove meses depois nasceu Carlos, meu primeiro filho e logo depois nasceu a
Marina e depois a Rebeca. Então, você ficava muito ocupada e achava que
tudo bem. Ficava satisfeita com aquilo porque era o que a gente tinha naquele
momento. Acho que nenhuma das minhas colegas de classe fez faculdade;
elas chegavam no máximo no magistério. Eu morei em Santos, e no meu
colégio tinha uma moça que fez Direito. Eu achei o máximo aquilo! Era

107
completamente incomum...Agora, eu sempre tive uma inclinação, porque eu
sempre li muito, desde menina. E era tão engraçado aquele tempo, porque, por
exemplo, se eu estivesse lendo, tinha que ser meio escondido, porque minha
mãe falava: ‘Elisa, venha bordar! Vai andar de bicicleta, fazer exercício!’ A
ocupação intelectual não era muito alimentada pelos pais. Já a minha irmã que
era 5 anos mais moça que eu – nós somos só duas irmãs – ela já pegou uma
nova época, porque foi muito acelerada a diferença. Então, ela é formada em
Direito. Mas trabalhar foi difícil também, porque meus pais ficavam
preocupados. Era outro mundo!”

Era como se você aprendesse a ter uma família, a cuidar do seu marido,
dos filhos, da casa...

“Isso...e foi o que eu fiz durante muito tempo. No princípio, você fica muito
ocupada com criança e com filhos... E aquele tempo também não tinha outra
ocupação pra você...você podia aprender pintura, coisas assim, absolutamente
florais. Mas eu mudei pra Brasília, quando estava com 25 anos, e aí eu já tinha
os 3 filhos: meu filho já estava com 7 anos...e em Brasília eu acho que foi uma
verdadeira faculdade de vida, porque em Brasília você vivia em grupos mais ou
menos formados por pessoas da sua região, o grupo dos paulistas, o grupo
dos... era uma coisa natural, as pessoas se procuravam porque se conheciam.
Quando eu cheguei em Brasilia, não conhecia ninguém, mas logo tinha um
amigo do meu sogro...Então, lá eu tive uma convivência maravilhosa,
principalmente na idade que eu tava, que os filhos já estão começando a ir pro
colégio, já tinha um tempo livre; então o que eu fiz naquela época: fui estudar
francês, inglês, esse tipo de coisa. Mas, o convívio que eu tive em Brasília
mexeu muito com a minha cabeça, porque as minhas amigas tinham 70 anos,
ou era um casal de ministros do Supremo, um Deputado. Havia uma
diversificação muito grande de costumes. Em São Paulo geralmente você
freqüenta um grupo da sua idade, não é? E lá não...eu passei a verificar os
costumes, os hábitos de pessoas de todos os estados do Brasil, de pessoas de
vivências diferentes...Dois grandes amigos meus eram o Dr. Paulo e Dr. Mauro.
Os dois deviam beirar os 70 anos, e as senhoras também; mas eles eram de
São Paulo conheciam meus pais...Então havia de tudo! Eu acho que Brasília

108
mostrou como a gente vivia fechada em São Paulo, naquele núcleo. Quando
eu voltei de Brasília eu tinha 30 anos, e os meus filhos estavam
maiorzinhos....Eu estou dentro do assunto que você quer?”

-Claro, não se preocupe.

“Eu voltei com 30 anos, e foi quando eu fiz minha primeira viagem para a
Europa. E coincidiu com a idade que meus filhos já não dependiam tanto de
mim como mãe, fisicamente. Então, comecei a ter um tempo pra mim. E
quando eu cheguei lá, baixou um ‘Meu Deus, eu não sei nada! Eu tenho uma
formação minha porque eu sempre procurei ler, me interessei, mas eu não...
Foi então que eu entrei no Indac, que era um cursinho... eu tive uma amiga de
Brasília que veio comigo, e ela foi casada com o P., que foi um dos exilados da
revolução da Redentora, e ela falou pra gente entrar no Indac. E além de tudo,
eu tinha que vencer uma estrutura férrea que havia naquela época, porque era
uma estrutura que veio da minha mãe, continuou com meu marido, porque
mamãe era uma mulher maravilhosa, rica, uma personalidade, mas carregava
todas aquelas coisas...então eu fui criada com uma coisa que hoje a gente não
faz com os filhos...eu tinha um dever a cumprir. Havia esse dever que se
resumia ao casamento e aos filhos. Isso era tão forte que a gente se esquecia
mesmo da gente, do que a gente gostava, do que a gente queria. E eu tinha 32
anos...é uma coisa que te deixa...dá uma insatisfação, principalmente
coincidindo com uma viagem linda que nós fizemos pra Europa, abriu meu
mundo e eu comecei a estudar. Fui pro Indac, fiz o Madureza, que a gente
chamava, porque em 1 ano você fazia os três colegiais. E quando eu saí do
Indac eu meio em surdina fiz vestibular pra faculdade e entrei. Além de tudo,
havia uma tremenda resistência do meu marido, porque naquele tempo mulher
que estudava era um perigo! Mulher que estudasse eles achavam que perdia a
autoridade, ia ficar fora de casa. E eu lembro que um amigo nosso chegou, eu
tive vontade de torcer o pescoço dele porque ele falou: ‘Geraldo, cuidado,
porque mulher que estuda desquita!’. Eu já estava lutando, com os três filhos
ajudando, mas era assim uma campanha absurda deles, porque eles sabiam
que eu gostava. E a minha filha, Marina fez vestibular junto comigo... ela
gostou do tipo de curso...era Letras, tradutor e intérprete. Nós entramos juntas!

109
Então nós combinamos um dia, na hora do jantar, que a gente ia falar com
ele...Imagina! Olha que dependência que a gente vivia...A gente conseguia as
coisas de outro jeito, mas era suado. E aí meu marido falou: ‘Quanto tempo
vocês ficaram combinando pra falar isso?’ E eu fiz a faculdade junto com ela...a
gente fazia algumas classes juntas, e como eu estudava inglês e francês e ela
alemão e francês, algumas aulas separadas. Mas eu era muito moça nesse
tempo...e me achava uma senhora, mas eu tinha 38 anos...Meu filho mais
velho me ajudou terrivelmente, me levou até para Goiás no lugar que a gente
fazia provas do vestibular, porque eu não tinha feito física e entrei na faculdade
sem acabar...Bom, acabei fazendo. Então eu diria que a minha história no
tempo é um pouco invertida, porque eu casei cedo, vim estudar depois, os
filhos vieram muito cedo, depois eu fui fazer faculdade. A luta era em casa,
porque eu estava quebrando um tabu. Pra você imaginar eu me lembro que
meu filho já tava na FEI, fazendo engenharia, Marina, que era a do meio,
entrou comigo na faculdade, e a Rebeca tava no ginásio. E eu fui contar pra
mamãe ‘mamãe olha que bárbaro’...Mamãe ficou assim: ‘mas minha filha, você
pensou bem? Você está descuidando da educação dos seus filhos!’. Essa foi a
frase dela; no íntimo ela achava bárbaro, mas ela tinha medo da liberdade da
mulher. Ela era muito forte...quer dizer, ela mandava na casa, no papai, na
gente, nos netos, em tudo, mas ela tinha medo da mulher fora de casa, era
uma coisa da geração dela. E em casa era a mesma coisa, eu nem tocava no
assunto faculdade...Domingo eu acordava cedinho pra fazer os trabalhos mais
complicados, mas aí eu não parei mais. Fiz faculdade, depois eu tava fazendo
Aliança Francesa e fiz a faculdade de francês, e os meus filhos casaram
cedo...Quer dizer, eles não casaram cedo, casaram na hora certa... eu é que
casei cedo. Imagina que com 40 e poucos anos eu já tinha neto! Porque a
Marina casou e já tinha se formado na faculdade, que era o que eu
queria...Sabe, quando minha neta começou a namorar ela tinha 17 anos, eu
entrei em parafuso, com medo que ela casasse cedo! Eu falava: ‘Carolina, você
não sabe o que é ir pra casa de uma amiga e rir, rir de bobagem! Eu não tive
isso, Carolina! Eu passei de menina pra mãe!’. E os meus filhos se formaram,
todos se casaram numa idade que eu não sei se vocês acham cedo hoje, que
era 24, 25 anos. Já formados...se dá certo ou não é uma coisa, ainda mais hoje
em dia que está tudo diferente. Mas, eles tiveram a mocidade, tiveram os 18

110
anos...com 18 anos eu estava com um bebê no colo. E aí eu estudei, me formei
nas duas faculdades, e aí veio uma coisa que...(risos)...os homens têm razão
de ter medo que a gente estude, porque é como abrir a cortina de um teatro, e
você vê um mundo...continuo nessa linha ou você quer perguntar alguma
coisa?”

Não, pode continuar assim.

“É, estou contando de 10 em 10 anos... aí eu era muito amiga da mulher do


governador M., nós éramos muito amigas em Brasília, depois em São Roque
nós éramos vizinhas. Por isso que eu digo que a minha vida é um pouco
diferente...eu, que nunca tinha trabalhado, sempre tinha ficado em casa, fiz
faculdade, estudei...o M. foi eleito, eu tinha trabalhado na Campanha, e a L. me
convidou para ser chefe de gabinete dela, que é um cargo da mais alta
responsabilidade; se eu não tivesse estudado não teria podido aceitar, né? Mas
havia um tal empenho da gente no trabalho que foram 4 anos muito lindos que
eu trabalhei. E era um cargo de confiança, então eu teria que entrar e sair com
eles. Foi uma coisa maravilhosa o trabalho social deles, as pessoas humanas
que eles são, respeitam a sociedade pública. Então, foi uma outra faculdade
que eu tive na vida, porque ali eu tava com 48 anos, foi quando a Rebeca,
minha filha caçula, casou. Ela casou e a L. já tinha me convidado pra ser chefe
de gabinete. Depois disso vieram aqueles anos de muito trabalho e de muita
dificuldade com meu marido, porque ele também não queria que eu
trabalhasse. Mas a faculdade me fez muito bem, porque eu gosto de gente
jovem, eu sou aberta... eu sei que hoje há muitos excessos, mas sei que há um
outro lado maravilhoso...toda vez que há uma mudança de costumes muito
forte, porque foi muito acelerado nesses últimos anos... Você veja, eu contei da
minha vida, e a minha irmã, que é 5 anos mais moça do que eu já teve um
outro tipo de vida, estudou, se formou, e foi tão acelerada a diferença , a
mudança nos hábitos de vocês que a minha filha Marina, que é três anos mais
velha que a Rebeca já havia uma diferença entre elas. Foi absolutamente
acelerado! Como eu entrei na faculdade, eu conheci umas meninas bárbaras,
que ficaram muito amigas minhas, então freqüentavam a minha casa e ficaram
amigas das minhas filhas, porque a idade delas era parecida. Eu acompanhei

111
muito dessa mudança, no tempo, da mulher. Sabe, aquelas coisas que eu tinha
de pedir para meus filhos deixarem os armários bem arrumados... ‘Rebeca,
você já arrumou não sei o quê?’... mas como que elas iam ficar arrumando
armário com coisas tão maravilhosas pra aprender na faculdade? E a Rebeca
falava ‘Ah, antes tinha bolo de chocolate todo dia na minha casa, agora, bem
de vez em quando...’. Mudou! Porque realmente eu fiquei fascinada, com os
estudos, porque estudar mais velha é muito gostoso, pega com um outro jeito.
E tive contato com juventude, que é da minha natureza, eu gosto, gostava de
ver como a vida da mulher estava muito diferente da que eu tive”.

Até porque a senhora quebrou uma coisa que a geração impunha: a


mulher tinha que ficar em casa...

“Você sabe que de uma certa maneira eu conservei tudo porque veja, quando
eu me casei eu nem tinha carta pra guiar, porque se tem uma coisa que eu
gosto é carro! O meu pai não tinha filho homem, então eu era companheira do
papai, andava de bicicleta, ia pra praia, jogava, tinha uma vida solta em Santos.
De repente eu caio em São Paulo, numa família clã, fechada, onde se eu
queria ir na Rua Augusta meu sogro mandava eu ir de chofer, pra mim aquilo
foi terrível. Então eu, com 18 anos, queria tirar carta. E aí? Nenhuma das
minhas cunhadas guiavam. Eram sete. Nem meu sogro guiava! Eu sou
daquelas que consegue o que quer! Às vezes não tão abertamente...uma vez
eu apostei uma coisa idiota com meu marido, eu já tava casada e já tinha dois
filhos. Eu falei ‘Olha, Geraldo, está passando tal filme’, uma bobagem qualquer,
e ele falou que não. Eu falei ‘Quer apostar?’E ele ‘Quero’. Então, eu falei que
se eu ganhasse eu ia começar a aprender a guiar. E ele concordou. No dia
seguinte a auto-escola já tava parada lá em casa. Mas pra você ter idéia, eu ia
com a pajem da minha filha na aula na auto-escola, porque como é que ia
sozinha com um homem? Que perigo! (risos) Eu ia, e fiz meu curso inteiro com
ela e tirei minha carta. E tudo o que eu consegui foi assim, difícil. Aí meus filhos
casaram, eu nem tinha 50 anos, já estavam todos casados, já tinha netos, aí eu
fui trabalhar com a L. e eu fiquei viúva. Eu continuei minha vida, trabalhei ainda
um pouco, mas me casei novamente. Eu fiquei 14 anos casada no meu
segundo casamento, e nessa época os netos eram menores, pra falar a

112
verdade eu curto mesmo neto e neta nessa idade que você está. Porque eu
sempre gostei muito de ler, você vê que aqui tem coisas que a Aline (neta)
estudava. Se as meninas têm qualquer dúvida sobre francês, umas coisas
assim, ou história, elas vêm aqui, a gente conversa, às vezes tem alguma
prova. Não tem nada melhor do que pegar minhas netas e ir pro shopping,
entende? Não tem nada melhor...tanto que eu viajei com elas há uns três anos,
nós fomos pro norte, e no ano seguinte nós fomos pra Argentina, esse ano que
passou eu fui com a minha filha que é a mais engraçada de todas, que é a
Rebeca, e minhas três netas adolescentes, nós fomos para a Europa! Pode
imaginar? E eu levantava uma hora antes delas, porque os banheiros eram
invadidos, e eu ficava zonza!! E eu dizia ‘agora vovó vai tomar banhinho, seu
cafezinho, se arrumar’ porque quando elas levantavam era um tufão! E foi uma
delícia. Adoro a companhia delas, adoro conversar com elas, só que como
você sabe, eu perdi um filho de 42 anos... E isso é uma coisa...você é adulta, e
eu vou falar de alma aberta pra você, porque não adianta eu....isso faz 5 anos.
Isso cortou a minha vida. E corta pra sempre. Foi uma brutalidade, pra
começar. Meu filho nunca tinha ido para o hospital. E você não sabe, você está
tão entregue aos filhos, que não sabe o quanto você ama eles. Olha, domingo
eu tava em Santos, eu fui criada em Santos, e eu tive um sonho que eu vou
contar pra você porque eu acho que ilustra bem. Eu sonhei, sabe pontão de
praia? Porque eu vivi na praia, com meu pai, minha mãe e com Carlos, ele
fazia surf. E eu sonhei que tinha uma competição de surf e que o Carlos tinha
ido. É uma espécie de barquinho que levava as pranchas. E todos foram. E aí
todo mundo começou a ficar preocupado porque o Carlos não voltava. E o
sonho era lindo, colorido, azul, praia, mar, geralmente eu sonho colorido o mar.
E eu comecei a ficar preocupada, porque realmente ele estava demorando um
pouco. Daí eu desci e tinha uma prancha meio quebrada, parecia um
barquinho, mas tava quebrada uma escadinha. E peguei o barco e fui atrás,
procurar. Quando eu já estava bem longe, no alto mar, eu vi que ele já estava
voltando, daí eu voltei rápido, subi e fiquei lá esperando...já tava tranqüila,
porque ele tava voltando. E quando ele chegou, subiu correndo a escada e ria,
e falava: ‘Mãe, você é louca mesmo! Como você se mete nesse barco
quebrado no fundo do mar!’. Sabe, eu sonho muito alegre com ele porque foi
tão brutal a perda que eu tive que... eu não me conformei, não é que eu não

113
me conformei, mas.... Ele tinha almoçado comigo na véspera, nós tínhamos
dado risada, brincado, o dia seguinte...E teve coisas terríveis...ele teve morte
cerebral, você sabia? Ele misturou algumas drogas ... (silêncio)... E eu me
lembro quando minha empregada me chamou, e ela teve uma presença de
espírito...ligaram do hospital e ela falou que...eu vou falar isso pra você porque
a maternidade é uma coisa muito séria. A gente só descobre quando cai nesse
sofrimento. Fazia pouco tempo que eu tinha tido um infarte; a diabetes às
vezes mexe com umas veinhas...eu tenho um coração perfeito, forte, mas .... E
ela disse: ‘Olha, eu não posso falar com a minha patroa porque ela tem
problema de coração, o que foi?’. Aí ela foi lá bater na porta e ela falou: ‘Dona
Elisa, parece que teve um problema e Carlos foi internado, mas está tudo
bem...’ e a minha filha já vinha me buscar. Quando nós chegamos lá no
hospital, ele tava na emergência. Aquilo é um horror! É uma época de
atordoamento...Veio um médico e explicou o que tinha acontecido...e tem um
nível de batimento, eu não sei exatamente o que é, nem estava em condições
de entender, só sei que nosso nível normal de vida é 14. Ele tava com 3, o que
significa morte cerebral. E o médico foi falando, ele foi devagarzinho, mas
falou: ‘A senhora tem que começar a pensar na doação de órgãos...’. então
você imagina o que é isto. Dois dias antes eu tinha feito um almoço
maravilhoso aqui e ele adorava comer, e se matou de comer! E ele quis comer,
nós rimos, brincamos, foi um almoço de despedida porque ele entrou no
elevador, me jogou um beijo, e nunca mais eu vi ele vivo”.

E a senhora tem essa cena na cabeça até hoje...

“Você tem tudo na cabeça, de um filho. Você não sabe como presta atenção
num filho. E isso foram as coisas que eu aprendi. E quando os médicos me
deixaram entrar...e eu vi que ele tava corado, respirando forte, o corpo ali,
quente. Não dava pra acreditar! É tão forte a ligação...foi uma experiência
muito triste... Quando eu entrei, o enfermeiro falou pra eu conversar com ele,
chamar, e eu falando: ‘Carlos, luta, abre os olhos!’. E quando eu saí, ele não ia
nem sair do pronto-socorro, o enfermeiro falou: ‘A senhora não quer voltar, por
favor? Ele teve uma melhora, depois que a senhora falou.’ Só que subiu de 3
pra 4, uma coisinha de nada, e o enfermeiro falou: ‘Eu já vi muita coisa

114
estranha acontecer nesse hospital...’. Mas realmente depois tornou a cair. Mas
com isso ele foi removido pra outro hospital porque já havia uma mínima
esperança de vida, subindo de 3 pra 4. Ele ficou mais um dia no outro
hospital....

O Carlos era casado? Tinha filhos?

O Carlos era desquitado, mas tinha 3 filhos, então tive eu que tomar as
decisões que são horríveis. E eu falei pro médico: ‘Se meu filho pudesse salvar
uma criança, salvar uma vida, se ele tem possibilidade disso, é o que ele iria
querer. Mas eu quero que o senhor saiba que eu não confio no senhor, eu não
acredito em nenhum desses exames!’. Porque era inacreditável, de um dia pro
outro, em horas, acreditar numa coisa dessas. E aí que eu agüentei, é do meu
feitio agüentar, eu fico firme e depois eu desabo. Fiquei firme no velório, teve a
missa e no dia seguinte da missa eu fui pra São Roque, eu tenho uma casa lá,
no mato, e eu fiquei uns 6 meses lá, sozinha. Eu não tinha condição de falar
com as pessoas. Eu literalmente acabei. Nem atendia telefone, só minhas
filhas e meus netos ...porque você tem uma caída física e emocional. Fiquei
muito frágil, tão fraca que eu não conseguia andar no jardim. Cai tudo!

A senhora procurou ajuda de algum profissional?

“Eu comecei um tratamento com uma grande psiquiatra, e ela é uma cabeça
fantástica. Tanto que estou lendo um trabalho dela, ela esta escrevendo um
trabalho, uma beleza! Tinha que ser uma pessoa assim pra me ajudar. Ela é
altamente qualificada e é uma pessoa maravilhosa...Esse texto dela é uma
beleza, posso até passar uma cópia pra você depois”.

A senhora procurou ajuda depois de quanto tempo?

“Um mês, em São Roque mesmo. Ela tinha chácara lá. E eu ia com meu
caseiro e voltava. Foi minha filha que arrumou. Então, eu estava lendo o
trabalho dela e de repente comecei a encontrar o que tinha acontecido comigo.
Por isso que o tempo pra mim é um eterno presente agora, o tempo mudou pra

115
mim. Entendi que meu inconsciente e consciente estabeleceram portas de
comunicação, possibilitando transformações até então inviáveis. Ao modificar o
passado, o rito faz a criatura entrar na reversibilidade do tempo e recriar
simbolicamente o mundo. Isso acontecia comigo, então quando eu comecei a
ler, eu dizia pra ela... e nesse momento ou você morre de vez, o que acontece
com muitas, ou você renasce, e aqui fala ‘Quando nascemos num tempo novo,
precisamos morrer para certas realidades’. Esses ritos de passagem é que são
maravilhosos. Através deles está a aceitação de uma morte para entrar numa
nova vida. Mas é a minha morte. É uma coisa que eu pensei sempre que fosse
assim, e aí vai a maneira de ser de cada um. Eu acredito que muitas pessoas
renasçam por uma lógica, por uma aceitação, e tem um livro que você deveria
ler que chama “Em busca de um Sentido”...

Ah! Eu li esse livro! É muito bom mesmo!

“Esse livro me ajudou muito, porque ele lida com a essência do amor. (Pega o
livro e lê alguns trechos) :

Enquanto avançamos aos tropeços, quilômetros a fio (Você sabe, ele ele
esteve num campo de concentração) vadeando pela neve (...) nenhum de nós
pronuncia uma palavra mais, mas sabemos neste momento que cada um só
pensa em sua mulher. Vez por outra olho para o céu onde vão empalidecendo
as estrelas (...) converso com minha esposa. Ouço-a responder, vejo-a
sorrindo, vejo seu olhar como que a exigir e a animar ao mesmo tempo e- tanto
faz se é real ou não a sua presença- seu olhar agora brilha com mais
intensidade que o sol que está nascendo (...) Continuo falando com ela, e ela
continua falando comigo. De repente me dou conta: nem sei se minha esposa
ainda vive! Naquele momento fico sabendo que o amor pouco tem a ver com a
existência física de uma pessoa. Ele está ligado a tal ponto à essência
espiritual da pessoa amada, a seu “ser assim” que a sua “presença” e seu
“estar-aqui-comigo” podem ser reais sem sua existência física em si e
independentemente de seu estar com vida (...) As circunstâncias externas não
conseguiam mais interferir no meu amor, nas minhas lembranças e na
contemplação amorosa da imagem espiritual da pessoa amada. Se naquela

116
ocasião tivesse sabido: minha esposa está morta - acho que este
conhecimento não teria perturbado meu enlevo interior naquela contemplação
amorosa .

Não é maravilhoso isso?”

É lindo!

E de repente você não pode procurar o consolo só na religião, porque eu sou


religiosa, então tinha horas de desespero que eu me agarrava em Nossa
Senhora e ela realmente me acolhia. Mas você tem que ter também um espírito
de luta, que eu sempre tive na minha vida. De manhã eu sempre falo ‘Hoje eu
vou fazer isso’ e faço. Agora eu estou lutando com o computador. E eu aceito a
separação do meu filho, mas não o fato de ter perdido ele. E de tal maneira eu
trabalhei isso, li muito, eu cheguei a um ponto em que eu não tenho a
presença, mas eu tenho ele vivo. E é tão forte que nesse sonho que eu contei,
às vezes eu até dou risada, eu precisava conservar alguma coisa, nem que
fosse essa ligação. No dia que eu passei o primeiro e-mail, eu imaginei o
Carlos rindo de mim! Tem uma ligação do amor que nesse livro o psiquiatra
explica que é uma coisa física. Não é através da religião, é através de uma
coisa nossa que nós desconhecemos. Eu procurei minha saída dentro de mim;
não sou de fantasia, de ler mão, essas coisas”.

Dá até pra perceber isso pelo sonho que a senhora contou...A senhora
estava num barquinho quebrado e...

“Encontrei Carlos e ele caçoou da minha loucura... era uma relação nossa, nós
nos entendíamos muito bem! Brigávamos pra burro e nos entendíamos muito
bem. Minha psiquiatra ainda falou ‘Meu Deus, Elisa como você amava esse
filho!” Nunca passa pela sua cabeça perder um filho ... Eu emagreci uma
barbaridade... fiquei completamente sem força; mas depois que eu passei por
esse trauma , eu tive uma ajuda fantástica, tanto que consegui ser forte
novamente e fui devagarzinho me recuperando. Agora eu mudei... eu sei que

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mudei. Hoje, eu corto muita coisa que acho supérfluo! Tem uma porção de
coisas que você tolera a vida inteira e que não gosta, né? Agora, eu não tolero
mais! Imagina que se eu tenho um casamento e não estiver com vontade de ir,
eu não vou mesmo! Que besteira meu Deus do céu, entendeu? Tem tanta
coisa boa! Eu adoro mexer no computador, adoro pintar, meu grupo de pintura
é ótimo, elas são pessoas inteligentes; é uma verdadeira terapia o que eu faço
na pintura! O computador também é muito gostoso, eu estou me
comunicando... E eu conservo muito hoje minha família, porque eu acho que eu
sou o elo que... Então meus netos ligam, mandam e-mail...é só e-mail de neto,
neto, neto”...(risos)

Como era a relação de Carlos com a senhora e com a família?

“No momento em que ele faltou, apesar dele ser desquitado...o Carlos reunia
os filhos todas as semanas e, ele era boêmio, ele sempre foi boêmio...e
distraído! Em Brasília eu entrei no quarto, e o Carlos estava assim: com o lápis
no ar, de pijama, eram 8:30, estava na hora do colégio e eu falei, “Filho, você
ainda está desse jeito?” Ele falou: “Mamãe desculpa, puxou a coberta e deitou!
Ele achou que era hora de dormir, e era hora de tomar banho e ir para o
colégio”. Eu e ele juntos também era terrível, porque eu sou muito distraída.
Teve uma vez que eu fui no cinema e falei pra moça, ‘Por favor eu quero uma
entrada pra Senhora do Destino’, ela falou: ‘Será que a senhora não prefere A
Dona da História?’ (risos) eu troco o nome dos filmes”.

Senhora do Destino era uma novela!

“E hoje o Carlos não tem essa possibilidade de ficar com os 3 filhos, né?
Então, vira e mexe eles vem aqui... eu tenho essa preocupação de ajudar . A
minha filha Rebeca também faz muito...assumiu o papel de tia mesmo, de
verdade, para ajudar o Carlos. Porque a gente sabe que ele queria essa união

118
dos filhos...Eu tenho uma manifestação nervosa, você sabe o que é psoríase?
É uma manifestação emocional que a pele fica... dá pra você ver aqui?...Isso
aqui, fica cheio de casquinha, eu comecei a coçar, e começou a subir,
começou a aparecer nas pernas, nas costas e a pressão começou a mexer.
Então, eu fui pra Lapinha, que é uma clínica naturalista, tratar uma semana e
acabei ficando 21 dias. Lá você esquece do mundo, faz tudo que tinha pra
fazer sem forçar, é uma beleza de desintoxicação da cabeça e do corpo! Meu
médico falou que eu sempre vou ter um motivo de desgaste emocional, que vai
exigir do meu corpo. Então, eu preciso cuidar muito do corpo para compensar
... por isso que eu ando, faço exercícios, no fim de semana eu viajo bastante...e
estou sempre em contato com a família... Realmente são só coisas agradáveis
que faço hoje em dia. É lógico que se alguém precisar de mim pra uma
doença...mas eu acho que todos me poupam um pouco, porque tudo está bem
agora, mas pra me abalar é fácil porque...

Eu sou feminista no sentido... eu acho que a mulher não deve procurar ser
igual o homem, porque a mulher é muito melhor que o homem (risos). O
homem pode ter grandes vantagens, mas a mulher é o caminho da vida, ela
tem inteligência, tem sensibilidade, tem delicadeza de sentimento maior. Lógico
que os homens têm suas qualidades mais fortes e que é preciso que
tenham...Nós não vamos ser mais fortes que eles em certas coisas. O
equilíbrio é o que eu acho que hoje abriu uma porta para as mulheres que era
negada...Havia 2 tipos de mulher, a puta e a pura, só não existia o meio termo.
Hoje a mulher tomou conta do seu lugar, da sua liberdade, estuda, trabalha.
Mas, a grande realização da mulher é o filho; eu acho que depois que o filho
cresce, que ele não precisa mais de você, aí você vai se realizar. Tem uma
frase da Cora Coralina, você conhece a Cora Coralina? “

Conheço...

“Ela diz que a mulher de 50 anos está na sua plenitude, porque... veja o que
ela colocou...ela está livre da menstruação (risos), normalmente tem filhos e
genros, já deverá ter netos...Ela está absolutamente completa, de maneira que
ela dispensa até o homem. Aí, ela escolhe: ou ela vai ser uma vovozinha,

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fazendo tricô dentro de casa, ou ela vai curtir uma vida absolutamente livre com
uma bagagem de experiência total. É lindo isso...eu diria que foi justamente na
época que eu fui trabalhar com 49 anos. O que foi inesperado foi o baque da
perda do Carlos”.

A senhora contou que se casou de novo depois de ficar viuva ...

“O meu segundo marido e eu ficamos casados 14 anos. Depois, sabe quando


há um desgaste de relacionamento? A família dele é meio complicada e eu
senti que não estava sendo bom pra ninguém, nem pra ele nem pra mim.
Então, cheguei e falei: ‘... olha, eu acho melhor eu vir pra cá, ficar no meu
apartamento e você no seu’...Eu considero isso como um presente de Deus!
Parece que Deus que fez isso, porque, nós ficamos separados 3 anos, e
nesses 3 anos o Carlos também estava separado, então nós convivemos muito
nessa época. Coisas que não fazíamos antes quando eu estava casada: ele
vinha pra cá, almoçava comigo, jantava comigo, ia para São Roque comigo,
vinha aqui bater papo, trazia os filhos e eu ajudava com os pequenos. Nós
gostávamos muito de música, ele comprava discos para mim... e era muito
engraçado porque nós dois estávamos separados e ele caçoava e fazia umas
críticas do meu ex-marido e eu chorava de rir e também caçoava da ex-mulher
dele. Mas, depois do suicídio meu ex-marido, que nesses 3 anos não se
conformava com a separação, foi muito, muito dedicado e ele sofreu tanto com
a perda do Carlos que isso também me pegou muito; então nós voltamos e foi
bom...ele é uma pessoa inteligentíssima, muito companheiro, nós conversamos
muito, viajamos no fim de semana”.

Quais são suas expectativas para o futuro?

“Houve um tempo em que eu fiquei sem expectativas, completamente! Mas


agora.. eu gosto muito de viajar, mas a gente muda, muda muito. Eu diria que
eu coloco hoje muito, as minhas expectativas em meus netos, no progresso

120
deles e tudo. A vida que eu levo, as coisas que eu faço, estou sempre
procurando ver filmes bons, estou sempre procurando sair e me ocupar com
coisas que ocupem a minha cabeça porque eu tenho uma cabeça que pensa
muito e não pode ficar desocupada. Eu tenho uma vida cheia porque me
ocupar me faz bem. Se eu não me ocupo o Sol escurece...A minha expectativa
de vida foi transferida para minha família... é a minha vida hoje, porque eu
preciso encher a minha vida. Hoje eu estou bem, estou bem vestida e bem
cuidada. Minha família é o que me impulsiona, é o que me alegra, eu sinto que
eu substitui aquilo que você espera para si mesmo; eu espero para a minha
família. Eu vivo por eles, e isso é uma coisa muito boa...”

Como foi o primeiro ano depois do suicídio?

“Foi muito difícil... sentia culpa por não ter percebido que não estava tudo tão
bem como parecia...fiquei em São Roque...quase desisti de tudo... mas, agora
não...sinto muita saudades... A saudade é a dor da ausência da
presença...porque ele não está ausente, pelo contrário, acho que ele está mais
presente...”

Ele já tinha tentado alguma vez?

“Nunca...”

A senhora já tinha passado por algum tipo de estresse emocional?

“Eu fiquei em cadeira de rodas uma vez com quarenta e poucos anos devido
ao estresse que eu tive. E não era nada, não tomei nenhum remédio, era só
emocional ... O que eu acho que na minha vida faltou é que sempre que você
tem que tomar uma posição na sua vida deve impor os seus limites com calma.
Quando você for levada a ceder no que você é, no que você deseja, no que

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você acha certo; nunca admita ser violentada na sua índole, nos seus
sentimentos. Saiba impor os seus limites! Não deixar que as pessoas, o marido
ou seja lá quem for avance no seu limite. E se você fizer isto sempre, irá
conseguir fazer isto com calma, sem se violentar ou violentar a sua natureza.
Eu acho que isto é básico em qualquer momento, seja no trabalho, no contato
com as pessoas, no casamento, até com os filhos. O respeito enfim é o mais
importante, pois no momento em que você cede irá se desgastar e
dependendo da violência que você sofre, violência não estou dizendo física,
estou dizendo violência contra sua natureza; o que você se força a fazer chega
num ponto em que ou você irá explodir ou irá ficar doente; porque isto é
também uma coisa que aconteceu comigo, com 45 anos. Apesar de eu ter
conseguido tanta coisa, para viver uma vida com uma homem de qualidades
maravilhosas mas que foi um homem muito autoritário, eu casei muito criança
sem saber impor os meus limites... eu passei da autoridade da mãe para a
autoridade do meu marido, isto não existe mais hoje, vocês casam em outras
situações, mas sempre existe. Eu acho que quando a pessoa se respeita ela
leva a vida com mais segurança, com paz, e isto até transparece para que a
outra pessoa não abuse de você. Por que senão, de alguma maneira se você
se violentar, de alguma maneira isto vai te prejudicar, ou fisicamente. Então,
quando você é muito violentada; e isso que eu acho que é o grande presente
que vocês tem hoje da vida, pois hoje vocês têm um direito de estudar, de
querer, de escolher; antigamente você era levada, pois os pais decidiam o que
era melhor para você, depois o marido. No momento em que você mantém
tranqüilamente aquilo que você é, aquilo que você deseja enfim, mantendo os
seus limites e vendo o do outro, é lógico, tem que haver uma troca nisto, aí
você vence qualquer coisa. Só na maneira de você falar o retorno já vem
equilibrado. Tem uma fala: ‘Meu Deus me ajude a lutar pelas coisas que devo
lutar, Meu Deus me ajude a não lutar pelas coisas que não devo lutar; e
principalmente saber distinguir uma da outra’. Isto é uma coisa sábia pois às
vezes você luta em vão ou cede em vão, e é preciso saber quando ceder mas
sempre dentro da sua dignidade”.

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A senhora falou da situação do estresse com 40 anos, a senhora ficou em
cadeira de rodas?

“Foi. Aí foi um problema que eu toquei de leve, eu tive um casamento muito


difícil...”

Se a senhora se sentir incomodada em falar sobre isso...

“Não, não meu bem! É que eu não sei se isso interessa para você! O meu
primeiro casamento foi muito difícil, meu marido era um homem de uma
inteligência brilhante, mas ele tinha traços neuróticos, eu não sei definir
exatamente. Tinha uma ótima postura, tanto que ele ocupou grandes cargos,
era brilhante! Mas como ele não tinha uma resistência nervosa, o que foi
piorando com a idade porque ele era um alcoólatra também, isso trouxe uma
vida pesada em casa, e foi aí que eu me desgastei muito. Por isso que eu falei
dos limites, houve um momento em que eu tinha uns 28 anos, que eu fui por
uma linha errada. Eu pensei ‘se eu conseguir ter um lar normal e tranqüilo,
como o que eu cresci, os meus filhos irão crescer com a cabeça boa! Se eles
crescerem dentro de um lar perturbado, pela minha vida com meu marido, eles
irão ficar todos perturbados!’. Mas ao fazer isto, eu renunciei às coisas que eu
gostava, eu virei aquela ‘panos-quentes’ que qualquer coisa eu ajeitava,
ninguém consegue viver assim, com o tempo seu organismo não agüenta!
Você tem as suas necessidades, seus desejos, suas vontades. Eu consegui
sublimar minha vida através de estudo, através de faculdade, tanto que meu
médico dizia para eu não parar de estudar, porque era uma fuga. E realmente,
quando a mamãe morreu, com 44 anos eu tive um estresse emocional que foi
tratado com análise, não tomava remédio nenhum! Tá vendo aqui uma
deformação óssea? Aqui na minha mão? Isso eu tive aos 40 anos, nos pés, na
coluna, até no maxilar! Fiz análise muito tempo, mas ainda brincava que eu era
como um vazinho que foi regado. Por isso eu acho importante saber dizer “não,
eu não gosto disso”, “não, agora eu não vou porque não estou com vontade!”.
É ruim ser criada só com a noção de dever, como eu fui; tanto que minha
analista fala que naquela época eu fiz uma coisa terrível, eu atentei contra
minha vida! A vida é a gente se satisfazer também, com a leitura de um livro,

123
com um filme, com um sorvete, com um pôr-do-sol, um banho de mar, e está
em condições saborear tudo isso. Mas a gente se recupera, até o meu coração
eu recuperei, não tem nem marcas! Eu tive um enfarte, justamente por causa
de todos estes desgastes, minha pressão começou a subir... Por isso é que eu
digo, não é só cuidar, a vida é um todo e você está dentro desse todo. E eu
falei em violência, não se deixe violentar, porque foi o diagnóstico médico que
eu obtive a primeira vez que eu fui ver o que estava acontecendo. O médico
falou ‘ainda bem que a senhora está com a cara ótima, está rindo e tudo mais,
mas a senhora está péssima! Está com estresse, dores... e a senhora não vai
tomar nenhum remédio, a senhora vai pra um analista!’ E realmente eu sarei,
mas isso porque eu tive consciência disso que vocês tem hoje, me ver, me
respeitar também. Eu não sei, houve um tempo em que eu pensava ‘nossa, eu
vivi tanto tempo’, estava sempre lutando, mas eu tinha a impressão que eu
tinha passado muito por cima das coisas; porque o meu primeiro marido tinha
um problema psicológico então ele era um homem extremamente gentil e
extremamente violento. Hoje eu acho que a personalidade dele mexeu muito
com Carlos... E como eu era muito criança no início, e naquela época as coisas
eram muito diferentes, eu achei que a minha função maior seria manter um
laço, um lar mais adequado para criar filhos saudáveis. Mas talvez eu tenha
desistido demais de mim e isso foi um erro...para mim e para meus filhos... No
momento em que você sacrifica você mesmo além do que deve por
determinadas coisas você está atentando sobre a coisa mais preciosa que
existe que é a vida! E você não pode destruir a vida que existe em você”.

Tem alguma situação que a senhora lembre mais de Carlos?

“Sempre lembro...aniversário é difícil...Natal também é uma coisa difícil! Não


tem mais festa, com troca de presente. É forçar demais! É o tal limite. Eu agora
faço uma reunião simples de família. Pra que me violentar tanto? Eu acho que
esta é uma hora em que você precisa procurar saber os seus limites, também
no que você deve se esforçar. No momento em que a gente está bem, que é o
que acontece hoje comigo, é bom pra minha família, por isso que eu cuido de
mim porque eu acho que é bom para as netas, bom pra todos.

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Tá certo... muito bom!

“Ajudou?”

Nossa, bastante, foi ótimo!

“Eu preciso pensar que tenho que continuar, que ainda tem muita coisa para
fazer! Nunca acaba... e eu acho que envelhecer é uma coisa tão natural da
vida, não pesa o envelhecer. Outro dia na aula tinha uma moça que ia fazer
pesca submarina e eu falei ‘isto é uma limitação chata da idade da gente’ e
pensei que delícia que deve ser! Estas são as limitações da idade, mas tem
muita compensação também! Teve um livro que eu li quando eu tive esse
estresse quando tinha 40 e poucos anos, que chama “Passagens”, ele já está
ultrapassado, outro dia eu o peguei e não achei mais graça! Mas na época foi
ótimo! Inclusive dizia ‘o ardil dos 30’, hoje a mulher de 40 anos, parece ter 30, e
ele dizia uma coisa que eu nunca mais esqueci: que esta história de que a vida
tem verão, outono, inverno... não é assim; a vida tem várias primaveras, vários
verões, vários outonos e vários invernos! Se você me perguntasse hoje: ‘Elisa,
você gostaria de voltar a ser menina?’ Eu diria não. Não que lá não tivesse
coisas boas... Mas eu acho que o segredo da vida é procurar ter uma paz
interior para poder ver melhor o que está na sua frente...

Como a senhora se sente hoje?

Eu acho que...Eu tenho uma neta, que é magrinha, cabelos compridos, que
parece muito comigo e com a minha filha. Outro dia convidaram ela para
dançar em um teatro e ela dançou uma música lindíssima, clássica moderna,
ela estava sofisticada com o cabelo comprido, maquiada, e vendo ela
dançando no palco, eu passei por uma experiência incrível. Eu via a minha
neta dançar, eu via a minha filha e me via! Foi tão forte isto que eu falei para
minha filha ‘só isto já justifica toda a minha vida!’ E eu disse, vendo minha neta
dançar foi uma coisa tão forte porque ela virava e eu me via, ela parece
comigo, e via minha filha. E eu falei ‘isso é o que é a vida!’

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Que lindo, Dona Elisa! Muito obrigada pela entrevista... gostei muito de a
conhecer a senhora...

O que é isso, eu te adorei! Vou mandar um texto que recebi de minha analista
para você por e-mail, sabe, agora eu estou aprendendo a usar a internet, estou
lutando, tem horas que dá vontade de jogar o computador no chão. Mas estou
fazendo aulas de computação, e sou aquelas alunas chatas, pois tudo eu quero
saber! Hoje eu tenho aula e vou saber o que é o tal do msn. Um dia eu mandei
um e-mail com um texto bonito para minha filha, e ela me respondeu falando
que gostou muito e que estava feliz das minhas novas aprendizagens! Aí eu
mandei um e-mail para ela falando que eu tinha gostado bastante e que
qualquer dúvida que ela tivesse, era só me perguntar! (risos).

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ENTREVISTA COM INÊS
Casada, 64 anos, psiquiatra.

Gostaria de pedir para que a senhora me contasse um pouco de sua


história e do processo de elaboração do luto pelo suicídio de Fernando.

O luto materno, diferentemente de outros lutos, contraria a natureza. Está


suposto que os filhos enterrem os pais e não que os pais enterrem os filhos.
Então, aí eu acho que vai um movimento contra a natura, que já...além do luto
pela perda, tem um elemento altamente estressante que é o contra-
natura...algo trágico...não é natural...acontece, mas não é esperado.

Agora mais especificamente o luto materno por suicídio, você junta o luto, o
não natural, mais um tema tabu, que é o suicídio em si. Então, você me
pergunta sobre essa elaboração...é um processo muito trabalhoso, ainda mais
por suicídio do filho. Eu não estou querendo classificar intensidades ou graus
de trabalho que dão lutos maternos... Por um lado é claro, as pessoas têm
sensibilidade adequada para com o outro, afinal não é a qualquer momento
que a dona ou o dono de um luto quer falar sobre ele; há momentos em que
você está precisando da energia para fazer outra coisa. Mas, não se trata
desse cuidado com o enlutado para não invadir ou forçá-lo a falar quando não
quer, mas eu ressalto essa espécie de proibição...não é educado abrir espaço
para o tema do suicídio...e isso de fato atrapalha muito, porque há momentos
em que a pessoa enlutada com um tema tão difícil quer um interlocutor...e se já
é difícil falar, para o interlocutor ouvir sem dar um jeito de engavetar...Isso
dificulta a elaboração...É como uma ferida na pele que para cicatrizar não se
pode ficar cutucando toda hora, mas também não se pode deixar de mexer,
olhar, cuidar. A elaboração desse luto é uma transcendência desse fato, é uma
coisa que pode acontecer a qualquer um. É natural, acontece. Como a chuva,
como o trovão, como as marés ou a tempestade. Há que perceber, há que se
viver, sentir, se recolher, se molhar, nadar, boiar, mergulhar, cavar, contemplar,
é complexo, trabalhoso, por um lado tão "antinatura" e por outro tão natural.

A gente não é mais pintada que o outro, a gente não é especial porque isso
acontece, né? Não é fácil para ninguém. Eu também perdi meu pai muito cedo,

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com 10 meses...Embora perder os pais seja mais natural que perder os filhos,
não do jeito que foi para mim, que perdi meu pai muito cedo. Veja, eu não
quero tentar te interpretar, mas querendo responder sua pergunta, de que jeito
que é essa elaboração, e eu acho que é isso que você está fazendo: você está
usando seus recursos, a sua criatividade, aplicando num trabalho. Cada um vai
usar os recurso que tem, os meios que tem...Uma pessoa pode recorrer à
pintura, religião, rituais de ajuda, grupos para participar, partilhar, compartilhar
vivências de fortes lutos...É como um colo: poder falar, compartilhar.
As pessoas têm diferentes forças para reagir aos traumas...Minha mãe passou
por um luto patológico, porque ela perdeu o marido na fase de apaixonamento
e não conseguiu se recuperar direito nunca. Eu tinha só dez meses, mas cresci
com esse pavor de ficar presa num luto de alguma situação...Como tudo pode
ter a sua serventia, para mim isso teve também, sabe? Eu sou “luto-patológico-
fóbica” (risos). Então eu já pensava muito sobre esse tema da morte não
natural, da morte precoce acontecer perto de mim...rolou dessa forma na minha
vida...
Tem um trabalho sobre stress-pós-traumático que descreve um quadro que
chamam de crescimento-pós-traumático, o CEPT. Tem o TEPT, que é o
transtorno do estresse-pós-traumático e o CEPT, que é quando as pessoas
crescem depois do trauma. Então a finalidade da ajuda psicoterápica ou
qualquer outra forma de ajuda é transformar um TEPT num CEPT, porque o
trauma gera um desequilíbrio. Não tem como ficar do jeito que você estava,
andando no ritmo que você andava, não é? Até para não cair você precisa dar
uma corridinha, porque mexe com a dinâmica...Com uma porrada o ego
mergulha no self e ele pode ficar preso, que é o luto patológico, que é o TEPT,
como ele pode sair de lá, depois de ter sofrido muito, mas fortificado...igual ele
não fica...
Se a culpa no suicídio do filho é inevitável, a falsa culpa também é, porque até
de ficar bem você se sente culpada. Eu lembrei de um casal amigos de meus
pais que tinha um filho único que foi fazer faculdade na Inglaterra. Então eu e
meu marido nos tornamos muito amigos desse casal e eles acabaram
adotando minha família e a gente adotou eles. Era um senhor e uma senhora
muito idosos...Eu aprendi muito com essa senhora, e ela me mimava muito,
talvez como forma de compensar o filho que não estava perto para ela

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mimar...Ela era um encanto, muito delicada, generosa. E ela sabia que eu
gostava muito de fruta do conde e ela comprava na feira na estação certa,
porque naquela época não é como agora que tem fruta o ano inteiro, e me
dava só porque sabia que eu gostava...eu estava grávida, tinha criança
pequena...e íamos bastante na casa dela...Ela sempre guardava a fruta do
conde para mim. Eu sabia que ela também gostava muito de fruta do conde, e
o filho que dela que estava na Inglaterra amava. Só que eu vinha e ela dava
para mim e eu via que ela não comia. Ela falava “leva para você”, e eu dizia
“mas a senhora gosta” e ela sempre insistia para eu levar. Até que um dia eu
falei “Não! A senhora vai me explicar por que não come; a senhora gosta!” E
ela me explicou que ao saber que na Inglaterra não tinha fruta do conde e por
isso seu filho não podia comer a fruta que tanto gostava, “então eu não como”
(risos). Então tem isso, né? Se ela comesse a fruta se sentiria culpada, porque
como é que ela se permitiria comer algo que gostava muito, e que só dava uma
vez por ano, se o filho estava privado? No luto materno o filho também está
privado de tanta coisa, no imaginário, e você vai comer alguma coisa que seu
filho gostava? É impossível não lembrar, não se sentir culpada. Se você lembra
de algo que um filho vivo gosta de comer, é só mandar para casa dele. O meu
neto uma vez me perguntou: “Vovó, será que no céu tem purê de batata para o
papai? Porque se não tiver e ele ver a gente comendo, ele não vai ficar com
vontade?”
Você já pensou que existe ex-marido, ex-namorado, mas não tem ex-filho, ex-
mãe. Eu não deixei de ter um filho porque ele morreu. Eu tive 5 filhos, e não é
que antes eu tinha 5 e agora eu tenho 4; eu tenho quatro vivos e um morto. Ele
continua ocupando um espaço na sua vida, falam dele...carne moída, purê de
batata, arroz, feijão e salada de tomate, todos em casa lembram dele...não só
eu. A empregada quando faz essa comida comenta: “hoje é a comida do
Fernando”. Como ele morava em Floripa e lá ele não fazia esse tipo de comida
de casa de mãe, quando ele dizia: “Mãe, vou chegar, faz aquela?” Tem um
filho que morre, mas tem uma outra forma de vida, a imagem dele fica...como a
do seu pai...que apesar de ter morrido, continua presente...

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