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Psicoterapia de orientação analítica : fundamentos teóricos e


Clínicos [recurso eletrônico] / Organizadores, Cláudio Laks
Eizirik, Rogério Wolf de Aguiar, Sidnei S. Schestatsky. – 3.
ed. – Porto Alegre : Artmed, 2015.

Editado como livro impresso em 2015.


ISBN 978-85-8271-149-1

1. Psicoterapia. 2. Psiquiatria I. Eizirik, Cláudio Laks.


II. Aguiar, Rogério Wolf de. III. Schestatsky, Sidnei S.

CDU 615.851
Catalogação na publicação: Poliana Sanchez de Araujo – CRB 10/2094
T E R C E I R A E D I Ç Ã O

PSICOTERAPIA
DE ORIENTAÇÃO
ANALÍTICA
FUNDAMENTOS TEÓRICOS E CLÍNICOS

Versão impressa
desta obra: 2015

CLÁUDIO LAKS EIZIRIK


ROGÉRIO WOLF DE AGUIAR
SIDNEI S. SCHESTATSKY
ORGANIZADORES

2015
© Artmed Editora Ltda., 2015

Gerente editorial:
Letícia Bispo de Lima

Colaboraram nesta edição:


Coordenadora editorial:
Cláudia Bittencourt
Capa:
Tatiana Sperhacke
Imagem da capa:
9peaks/iStock/Thinkstock
Preparação do original:
Alessandra Bittencourt Flach
Leitura final:
Camila Wisnieski Heck
Projeto gráfico e editoração:
Bookabout – Roberto Carlos Moreira Vieira

Reservados todos os direitos de publicação à


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SÃO PAULO
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IMPRESSO NO BRASIL
PRINTED IN BRAZIL
AUTORES

Cláudio Laks Eizirik. Psiquiatra. Psicanalista. Doutor em Medicina pela Universidade Fe-
deral do Rio Grande do Sul (UFRGS). Membro efetivo e analista didata da Sociedade Psi-
canalítica de Porto Alegre (SPPA). Professor associado do Departamento de Psiquiatria e
Medicina Legal da UFRGS. Preceptor da Residência em Psiquiatria do Hospital de Clínicas
de Porto Alegre (HCPA). Coordenador do Comitê de Psicanálise e Saúde Mental da Asso-
ciação Psicanalítica Internacional (IPA). Ex-presidente da IPA e da Federação Psicanalítica
da América Latina (Fepal). Prêmio Sigourney 2011.
Rogério Wolf de Aguiar. Psiquiatra. Psiquiatra forense. Psicoterapeuta. Mestre em Psiquia-
tria pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Professor adjunto aposen-
tado do Departamento de Psiquiatra da Faculdade de Medicina (FAMED)/UFRGS. Super-
visor de Psicoterapia da Residência em Psiquiatria do Hospital de Clínicas de Porto Alegre
(HCPA) e dos cursos de Especialização em Psicoterapia do Centro de Estudos Luís Guedes
(CELG/UFRGS). Ex-coordenador do Programa de Estudos sobre Dor (Prodor) do Serviço
de Psiquiatria do HCPA.
Sidnei S. Schestatsky. Psiquiatra. Psicanalista. Especialista em Psiquiatria pela Universi-
dade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mestre em Saúde Pública pela Harvard Uni-
versity. Doutor em Psiquiatria pela UFRGS. Professor associado de Psiquiatria da UFRGS.
Preceptor da Residência em Psiquiatria no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA).
Professor do Instituto de Psicanálise da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA).

Alexandre Annes Henriques. Psiquiatra. Es- Ana Carolina Faedrich dos Santos. Psicó-
pecialista em Dor e Medicina Paliativa pela loga. Especialista em Psicoterapia de Orien­
UFRGS. Contratado do Serviço de Dor e Me- tação Psicanalítica pelo CELG/UFRGS. Mes-
dicina Paliativa do HCPA. Coordenador do tre em Psiquiatria pela UFRGS. Colabora-
Prodor/HCPA. Diretor científico da Socieda- dora do Programa de Assistência e Pesquisa
de Brasileira para o Estudo da Dor (SBED). em Transtornos Alimentares em Adultos do
Alice Becker Lewkowicz. Psiquiatra. Psi­ HCPA.
canalista. Formação em Psicanálise da Infân- Ana Margareth Siqueira Bassols. Psiquia-
cia e Adolescência. Professora colaboradora tra. Psicanalista. Especialista em Psiquiatria
do Programa de Residência de Psiquiatria da da Infância e Adolescência pela Associação
Infância e Adolescência do HCPA. Médica Brasileira/Associação Brasileira de
vi Autores

Psiquiatria (AMB/ABP). Mestre e Doutora da Pontifícia Universidade Católica do Rio


em Psiquiatria pela UFRGS. Membro asso- Grande do Sul (PUCRS).
ciado da SPPA. Professora adjunta do De- Caroline Garland. Psicóloga clínica. Psica-
partamento de Psiquiatria e Medicina Le- nalista. Fellow da British Psychoanalytical
gal da UFRGS. Coordenadora do Curso de Society.
Psicoterapia da Infância e Adolescência do
Cátia Olivier Mello. Psicóloga. Psicanalista.
CELG/UFRGS. Preceptora da Residência e
Especialista em Psicoterapia da Infância e
do Curso de Especialização em Psiquiatria
da Adolescência pelo Centro de Estudos,
da Infância e Adolescência do HCPA.
Atendimento e Pesquisa da Infância e Ado-
Anette Blaya Luz. Psiquiatra. Psicanalista. lescência (CEAPIA). Mestre em Psicologia
Membro efetivo e analista didata da SPPA. do Desenvolvimento pela UFRGS. Profes-
Presidente da SPPA. Ex-diretora Científica sora e supervisora do CEAPIA.
da SPPA. Ex-diretora Científica da Febrapsi.
Claudio Maria da Silva Osorio. Psiquiatra.
Antonio Carlos J. Pires. Psiquiatra. Pro- Mestre em Psiquiatria pela UFRGS. Profes-
fessor e supervisor convidado do Curso de sor adjunto aposentado da UFRGS. Cola-
Especialização em Psiquiatria da UFRGS, borador do Serviço de Genética da UFRGS.
área de Psicoterapia de Orientação Analíti-
David Simon Bergmann. Pediatra. Psiquia-
ca. Professor e supervisor do Curso de Es-
tra. Especialista em Psiquiatria pela ABP
pecialização em Psicoterapia de Orientação
e em Psiquiatria da Infância e Adolescên-
Analítica do CELG/UFRGS. Membro efetivo
cia pela UFRGS. Psiquiatra do Serviço de
e analista didata da SPPA. Professor e super-
Psiquiatria da Infância e Adolescência do
visor do Instituto de Psicanálise da SPPA.
HCPA. Professor convidado do CELG/
Antonio Carlos Scherer Marques da Rosa. UFRGS. Membro graduado da SPPA.
Psiquiatra. Professor e supervisor convida-
Diego Barreto Rebouças. Médico. Resi-
do dos cursos de Especialização e Extensão
dente em Psiquiatria no HCPA.
em Psicoterapia de Orientação Analítica do
CELG/UFRGS. Elias Mallet da Rocha Barros. Analista di-
data da Sociedade Brasileira de Psicanálise
Carlos Gari Faria. Psiquiatra. Psicanalista.
de São Paulo (SBPSP). Fellow da British
Analista didata da SPPA. Membro efetivo da
Psychoanalytical Association e do British
IPA.
Institute of Psychoanalysis. Ex-editor do
Carmem Emília Keidann. Psiquiatra. Psica- International Journal of Psychoanalysis. Prê-
nalista. Membro associado da SPPA. Pro­ mio Sigourney 1999.
fessora e supervisora convidada do Cur-
Eneida Iankilevich. Psiquiatra. Psicanalista
so de Especialização em Psicoterapia de
da Infância e Adolescência. Membro efetivo
Orientação Analítica do CELG/UFRGS.
em funções didáticas da SPPA. Professora
Carolina Meira Moser. Psiquiatra. Espe­ e supervisora dos cursos de Especializa-
cialista em Psicoterapia de Orientação ção em Psicoterapia e de Atualização em
Analítica pelo CELG/UFRGS. Mestre em Psicoterapia da Infância e Adolescência do
Ciências Médicas – Psiquiatria pela UFRGS. CELG/UFRGS.
Psiquiatra do Programa de Transtornos Eugenio Horacio Grevet. Psiquiatra. Pro-
Alimentares em Adultos do HCPA. fessor adjunto do Departamento de Psi-
Carolina Silveira Campos. Graduanda do quiatria e Medicina Legal da UFRGS. Chefe
décimo semestre do Curso de Psicologia do Serviço de Psiquiatria do HCPA.
Autores vii

Felix Henrique Paim Kessler. Psiquiatra. Orientação Analítica do CELG/UFRGS.


Doutor em Psiquiatria pela UFRGS. Vice- Supervisor convidado do Programa de Re-
-diretor do Centro de Pesquisa em Álcool sidência Médica em Psiquiatria do Hospital
e Drogas da UFRGS. Chefe da Unidade de Psiquiátrico São Pedro.
Psiquiatria de Adição do HCPA. Professor Hector Ferrari. Psiquiatra. Psicanalista.
adjunto do Departamento de Psiquiatria e Membro da Asociación Psicoanalítica de
Medicina Legal da UFRGS. Buenos Aires (APdeBA) e da IPA. Profes-
Fernando Grilo Gomes. Psiquiatra. Psica- sor titular consultor do Departamento de
nalista. Mestre em Psiquiatria pela UFRGS. Saúde Mental da Facultad de Medicina
Professor adjunto de Psiquiatria da FA- da Universidad de Buenos Aires. Diretor
MED/UFRGS. do Mestrado de Cultura e Saúde Mental
Flavio Pechansky. Psiquiatra. Mestre e do Instituto Universitario de Salud Men-
Doutor em Medicina – Ciências Médicas tal (IUSAM) da APdeBA. Professor titular
pela UFRGS. Diretor do Centro de Pesqui- Freud Teórico e professor titular Freud So-
sa em Álcool e Drogas do HCPA. Diretor do cial (IUSAM).
Centro Colaborador em Álcool e Drogas do Igor Alcantara. Psiquiatra. Mestre em Ciên­
HCPA/Secretaria Nacional de Políticas sobre cias Médicas pela UFRGS. Membro aspi-
Drogas (SENAD). Chefe do Serviço de Psi- rante da SPPA. Professor e supervisor do
quiatria de Adição do HCPA. Professor as- Curso de Especialização em Psicoterapia de
sociado IV do Departamento de Psiquiatria Orientação Analítica da UFRGS.
da FAMED/UFRGS.
Isaac Pechansky. Psiquiatra. Psicanalista.
Germano Vollmer Filho. Psiquiatra. Psica- Especialista em Psiquiatria pela UFRGS.
nalista didata da SPPA. Ex-professor adjunto do Departamento de
Gerson I. Berlim. Psiquiatra. Psicanalista. Psiquiatria e Medicina Legal da FAMED/
Mem­bro efetivo e analista didata da SPPA. UFRGS. Membro efetivo e analista didata
Professor do Curso de Psicoterapia do CELG/ da SPPA.
UFRGS. Isacc Sprinz. Psiquiatra. Psicoterapeuta. Es-
Gisha Brodacz. Psiquiatra. Psicanalista. pecialista em Clínica Psiquiatra pela UFR-
Professora e supervisora convidada dos GS. Professor titular aposentado da PUCRS.
cursos de Especialização em Psicoterapia Professor e supervisor do Estudos Integra-
de Orientação Analítica e de Especializa- dos de Psicoterapia Psicanalítica (ESIPP).
ção em Infância e Adolescência da UFRGS.
Ivan Sérgio Cunha Fetter. Psiquiatra. Psi-
Membro associado da SPPA.
canalista. Membro efetivo e analista didata
Glen O. Gabbard. Psiquiatra. Psicanalista. da SPPA.
Professor de Psiquiatria da Baylor College of
Jader Piccin. Médico. Residente em Psi-
Medicine, Houston, Estados Unidos. Prêmio
Sigourney 2000. quiatria no HCPA.
Hamilton Oscar Perdigão da Fontoura. Psi- Jair Knijnik. Psiquiatra. Psicanalista. Mem-
quiatra. Psicanalista. Membro associado da bro associado da SPPA. Professor e supervi-
SPPA. Professor e supervisor do Curso de sor convidado dos Cursos de Especialização
Especialização em Psicoterapia de Orien- em Psicoterapia de Orientação Analítica do
tação Analítica do CELG/UFRGS. Coor- CELG/UFRGS.
denador executivo, professor e supervisor Jair Rodrigues Escobar. Psiquiatra. Psica-
do Curso de Extensão de Psicoterapia de nalista. Membro associado da SPPA. Pro-
viii Autores

fessor convidado e supervisor dos Cursos Programa de Pós-graduação em Psiquiatria


de Especialização em Psiquiatria e em Psi- da UFRGS.
coterapia da UFRGS. Lorena Caleffi. Psiquiatra. Especialista em
Joel Araújo Nogueira. Psiquiatra. Psicanalis- Dor pelo Serviço de Dor e Medicina Palia-
ta. Membro titular e analista didata da SPPA. tiva do HCPA. Psiquiatra da Clínica de Dor
José Carlos Calich. Médico. Psicanalista. do Hospital Moinhos de Vento (HMV),
Coordenador do Grupo de Trabalho sobre Porto Alegre.
Métodos Clínicos Comparados na Améri- Lucia Helena Freitas. Psiquiatra. Mestre em
ca Latina, membro do Comité Científico Saúde Pública pela Harvard School of Pu-
da Fundação Jean Laplanche – Institut de blic Health, Boston, Estados Unidos. Douto-
France. Editor pela América Latina do In- ra em Clínica Médica pela UFRGS. Membro
ternational Journal of Psychoanalysis. Pro- graduado pela SPPA. Professora associada
fessor convidado do Instituto de Psicanáli- do Departamento de Psiquiatria e Medici-
se da SPPA. Professor convidado do CELG/ na Legal da FAMED/UFRGS. Supervisora
UFRGS. Professor convidado da Faculdade da Residência do Serviço de Psiquiatria do
de Medicina da Universidade Federal de HCPA. Cocoordenadora do Núcleo de Estu-
São Carlos (UFSCar-SP). dos e Tratamento do Trauma Psíquico (NET
Julio J. Chachamovich. Psiquiatra. Profes- – TRAUMA) do Serviço de Psiquiatria do
sor, supervisor convidado e ex-coordena- HCPA. Professora colaboradora do Curso de
dor executivo dos cursos de Especialização Pós-graduação em Medicina. Psiquiatria da
em Psicoterapia de Orientação Psicanalíti- UFRGS. Professora do Curso de Especializa-
ca e de Extensão de Introdução à Psicotera- ção em Psicoterapia do CELG/UFRGS.
pia de Orientação Psicanalítica do CELG/ Luiz Carlos Mabilde. Psiquiatra. Membro
UFRGS. efetivo e analista didata da SPPA. Super-
Juarez Guedes Cruz. Psiquiatra. Psicanalista. visor convidado do Curso de Especializa-
Membro efetivo e analista didata da SPPA. ção em Psiquiatria da UFRGS. Professor e
supervisor convidado dos cursos de Espe-
Jussara Schestatsky Dal Zot. Psiquiatra.
cialização em Psicoterapia e Supervisão da
Psicanalista. Membro associado da SPPA.
UFRGS. Professor do Instituto de Psicaná-
Professora colaboradora e supervisora clí-
lise da SPPA.
nica do Curso de Especialização em Psico-
terapia de Orientação Analítica do CELG/ Manuel J. Pires dos Santos. Psiquiatra.
UFRGS. Professora convidada do Curso de Psicanalista. Professor e supervisor do Cur-
Psicoterapia Analítica do ESIPP. Professora so de Especialização em Psicoterapia Psica-
convidada do Curso de Especialização em nalítica do CELG/UFRGS.
Psicoterapia da UFSCar-SP. Marcelo Pio de Almeida Fleck. Psiquiatra.
Lais Knijnik. Psiquiatra. Especialista em Mestre e Doutor em Clínica Médica pela
Psicoterapia pela UFRGS. Professora e su- UFRGS. Pós-doutorado pela Universidade
pervisora do Curso de Especialização em McGill, Montreal, Canadá. Professor as-
Psicoterapia de Orientação Analítica do sociado do Departamento de Psiquiatria e
CELG/UFRGS. Medicina Legal da UFRGS.
Lívia Hartmann de Souza. Psiquiatra. Espe- Margareth Silveira Campos. Psiquiatra. Psi-
cialista em Psicoterapia de Orientação Ana- canalista de Crianças e Adolescentes. Mem­
lítica pelo CELG/UFRGS. Doutoranda do bro associado da SPPA.
Autores ix

Maria Cristina Garcia Vasconcellos. Psi- Coordenadora do Programa de Transtor-


quiatra. Psicanalista. Mestre em Antropolo- nos Alimentares em Adultos do HCPA.
gia Social pela UFRGS. Membro associado Neury José Botega. Psiquiatra. Professor
da SPPA. titular do Departamento de Psicologia Mé-
Maria Lucrécia Scherer Zavaschi. Psiquia- dica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências
tra. Psicanalista. Professora do Departa- Médicas da Universidade Estadual de Cam-
mento de Psiquiatria e Medicina Legal da pinas (Unicamp).
UFRGS e do Serviço de Psiquiatria da In- Neusa Lucion. Psiquiatra. Psicanalista. Es­
fância e Adolescência do HCPA. Coordena- pecialista em Psicoterapia pela UFRGS. Pro­
dora da Equipe de Psiquiatria da Infância e fessora, supervisora e coordenadora executiva
Adolescência do Centro de Atenção Psicos- do Curso de Especialização em Psicoterapia
social Infantojuvenil do HCPA. de Orientação Analítica do CELG/UFRGS.
Mariana Eizirik. Psiquiatra. Mestre em Psi- Paulo Henrique Favalli. Psiquiatra. Psica-
quiatria pela UFRGS. Membro filiado do nalista. Membro efetivo e analista didata da
Instituto de Psicanálise da SBPSP. SPPA.
Marilia Aisenstein. Psicóloga clínica. Psica- Pedro Schestatsky. Neurologista. Profes-
nalista didata e supervisora. Especialista em sor adjunto do Departamento de Medicina
Psicossomática. Ex-presidente do Instituto Interna da FAMED/UFRGS. Coordenador
de Psicossomática de Paris e da Sociedade do Departamento Científico de Dor da
Psicanalítica de Paris. Representante da Eu- Academia Brasileira de Neurologia (ABN).
ropa no Board da IPA. Peter Fonagy. Psicólogo. Psicanalista. Ph.D.
Mark Solms. Neuropsicólogo. Psicanalis- pela University College London. Diplo-
ta. Ph.D. Professor de Neuropsicologia da mado em Psicologia Clínica pela British
University of Cape Town, Cidade do Cabo, Psychological Society. Membro efetivo e
África do Sul. Analista didata e supervisor analista didata da British Psychoanalytical
na South African Psychoanalytical Associa- Society. Formação em Psicanálise de Crian-
tion. Professor honorário em Neurocirur- ças pelo The Anna Freud Centre. Professor
gia na St. Bartholomew’s & Royal London de Psicanálise da University College Lon-
School of Medicine. Membro honorário da don. Coordenador executivo do The Anna
New York Psychoanalytic Society. Membro Freud Centre. Pesquisador sênior do Natio-
da British Psychoanalytical Society. Prêmio nal Institute for Health Research.
Sigourney 2011. Raul Hartke. Psiquiatra. Membro efetivo
Marlene Silveira Araujo. Psiquiatra. Psica- e analista didata da SSPA. Supervisor con­
nalista. Especialista em Psicoterapia e Psi- vidado dos cursos de Especialização em Psi-
canálise de Crianças e Adolescentes. Mem- coterapia de Orientação Analítica da UFRGS.
bro efetivo da SPPA, exercendo funções Professor do Instituto de Psicanálise da SPPA.
didáticas. Robert L. Tyson. Doutor em Medicina.
Mauro Gus. Psiquiatra. Psicanalista didata Fellow do Royal College of Psychiatrists.
da SPPA. Psicanalista didata e consultor do Seattle
Miriam G. Brunstein. Psiquiatra. Psicote- Psychoanalytic Society and Institute, Seattle,
rapeuta. Mestre em Clínica Médica pelo Estados Unidos.
HCPA/UFRGS. Doutora em Bioquímica Robert S. Wallerstein. Psicanalista. Doutor
pela UFRGS. Médica contratada do HCPA em Medicina. Professor emérito e Ex-chefe
x Autores

do Departamento de Psiquiatria da Universi- de Pública pela Johns Hopkins University.


ty of California San Francisco School of Me- Doutor em Psiquiatria pela UFRGS. Profes-
dicine, e analista didata emérito e supervisor sor associado VI do Departamento de Psi-
no San Francisco Center for Psychoanalysis. quiatria e Medicina Legal da UFRGS.
Ex-presidente da American Psychoanalytic Sergio Lewkowicz. Psiquiatra. Psicanalista.
Association e da IPA. Prêmio Sigourney Analista didata da SPPA. Professor e super-
1991. visor dos cursos de Psicoterapia de Orien-
Romualdo Romanowski. Psiquiatra. Psica- tação Analítica do CELG/UFRGS. Coorde-
nalista didata da SPPA. nador científico da Fepal.
Roosevelt M. S. Cassorla. Membro efetivo Simone Isabel Jung. Psicóloga. Espe­cialista
e analista didata da SBPSP e do Grupo de em Psicoterapia Psicanalítica pelo ESIPP.
Estudos Psicanalíticos de Campinas (GEP- Mestre e Doutora em Psiquiatria pela
Campinas). Professor titular colaborador UFRGS. Professora do Curso de Psicolo-
do Departamento de Psicologia Médica e gia das Faculdades Integradas de Taquara
Psiquiatria da Unicamp. (FACCAT).
Rudyard Emerson Sordi. Psiquiatra. Psica- Victor Mardini. Pediatra. Psiquiatra. Es-
nalista. Membro associado da Associação de pecialista em Psiquiatria da Infância e da
Psiquiatria do Rio Grande do Sul (APRS) Adolescência pela UFRGS. Especialista em
e do CELG/UFRGS. Membro associado da Psiquiatria pela ABP, com Certificado de
SPPA, da Febrapsi e da IPA. Professor convi- Atuação na Área de Psicoterapia. Membro
dado do Curso de Especialização em Psico- graduado da SPPA. Psiquiatra contratado do
terapia Psicanalítica do CELG/UFRGS. Serviço de Psiquiatria da Infância e Adoles-
Ruggero Levy. Psiquiatra. Psicanalista. cência do HCPA. Professor convidado do
Membro efetivo e analista didata da SPPA. CELG/UFRGS.
Professor do CELG/UFRGS. Professor e su- Viviane Sprinz Mondrzak. Psiquiatra. Psi-
pervisor do CEAPIA. Representante latino- canalista. Professora do Curso de Especiali-
-americano no Board da IPA. zação em Psicoterapia de Orientação Ana-
Sergio Carlos Eduardo Pinto Machado. lítica da UFRGS. Professora do Instituto de
Psiquiatra. Psicanalista. Mestre em Saú- Psicanálise da SPPA.
SUMÁRIO

Introdução...............................................................................................................................15
Cláudio Laks Eizirik, Rogério Wolf de Aguiar, Sidnei S. Schestatsky

PA R T E I
TEMA INTRODUTÓRIO

1. Psicanálise e psicoterapia de orientação analítica:


raízes históricas e situação atual....................................................................................19
Robert S. Wallerstein

PA R T E I I
FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA PSICOTERAPIA DE ORIENTAÇÃO ANALÍTICA

2. Integração da psicanálise com as neurociências...........................................................41


Mark Solms

3. Conceitos psicanalíticos freudianos fundamentais......................................................62


Luiz Carlos Mabilde

4. Conceitos psicanalíticos fundamentais na escola das relações de objeto....................77


Elias Mallet da Rocha Barros

5. Conceitos fundamentais na abordagem do ego e suas defesas..........................................98


Isacc Sprinz

6. Teorias da ação terapêutica..........................................................................................115


Viviane Sprinz Mondrzak

7. Campo e intersubjetividade........................................................................................128
Paulo Henrique Favalli

8. Modelos psicanalíticos da mente................................................................................150


José Carlos Calich
12 Sumário

PA R T E I I I
FUNDAMENTOS DA TÉCNICA PSICOTERÁPICA DE ORIENTAÇÃO ANALÍTICA

9. Avaliação.......................................................................................................................177
Carmem Emília Keidann, Jussara Schestatsky Dal Zot

10. Planejamento em psicoterapia de orientação analítica..............................................194


Eneida Iankilevich

11. O contrato....................................................................................................................212
Neusa Lucion, Lais Knijnik

12. Setting psicoterápico: neutralidade, abstinência e anonimato..................................224


Isaac Pechansky

13. A aliança terapêutica e a relação real com o terapeuta...............................................238


Fernando Grilo Gomes

14. Fases da psicoterapia....................................................................................................249


Anette Blaya Luz

15. Insight e elaboração.....................................................................................................267


Ruggero Levy

16. Transferência................................................................................................................293
Robert L. Tyson, Cláudio Laks Eizirik

17. Contratransferência.....................................................................................................310
Cláudio Laks Eizirik, Sergio Lewkowicz

18. Violações das fronteiras profissionais.........................................................................324


Glen O. Gabbard

19. Atuações e encenações (enactments )..........................................................................340


Mauro Gus

20. Reação terapêutica negativa e impasse.......................................................................349


Antonio Carlos J. Pires

21. Sonhos..........................................................................................................................374
Juarez Guedes Cruz

22. Níveis de mudança e critérios de melhora .................................................................393


Romualdo Romanowski, Jair Rodrigues Escobar,
Rudyard Emerson Sordi, Margareth Silveira Campos

PA R T E I V
SITUAÇÕES ESPECIAIS

23. Ética e psicoterapia......................................................................................................403


Germano Vollmer Filho, Gerson I. Berlim

24. Psicoterapia de apoio de orientação analítica.............................................................419


Lucia Helena Freitas, Simone Isabel Jung
Sumário 13

25. Psicoterapia de orientação analítica e farmacoterapia...............................................435


Lívia Hartmann de Souza, Claudio Maria da Silva Osorio, Marcelo Pio de Almeida Fleck

26. Terapia de mentalização..............................................................................................455


Mariana Eizirik, Peter Fonagy

27. Gênero e psicoterapia..................................................................................................465


Marlene Silveira Araujo, Carolina Silveira Campos

PA R T E V
FUNDAMENTOS CLÍNICOS DAS ABORDAGENS PSICODINÂMICAS DE SITUAÇÕES
ESPECIAIS

28. Abordagem do caráter em psicoterapia......................................................................477


Manuel J. Pires dos Santos, Hamilton Oscar Perdigão da Fontoura, Carlos Gari Faria

9. Abordagem psicodinâmica do paciente ansioso: transtorno


2
de pânico e transtorno de ansiedade generalizada.....................................................493
Roosevelt M. S. Cassorla

30. Abordagem psicodinâmica do paciente deprimido...................................................513


Sergio Carlos Eduardo Pinto Machado, Sidnei S. Schestatsky

31. Abordagem psicodinâmica do paciente histérico......................................................533


Joel Araújo Nogueira

32. Abordagem do luto......................................................................................................542


Cláudio Laks Eizirik, Cátia Olivier Mello, Jair Knijnik

33. Abordagem psicodinâmica do paciente obsessivo.....................................................555


Julio J. Chachamovich, Ivan Sérgio Cunha Fetter

34. Abordagem psicodinâmica do paciente fóbico..........................................................577


Hector Ferrari

35. Abordagem psicodinâmica do paciente narcisista.....................................................600


Sergio Lewkowicz

36. Abordagem psicodinâmica do paciente borderline....................................................614


Sidnei S. Schestatsky

37. Abordagem das situações perversas na relação terapêutica.................................................632


Raul Hartke

38. Abordagem psicodinâmica do paciente psicossomático............................................659


Marilia Aisenstein

39. Abordagem psicodinâmica dos transtornos alimentares...........................................668


Mirian G. Brunstein, Carolina Meira Moser, Ana Carolina Faedrich dos Santos

40. Abordagem psicodinâmica do paciente com dor crônica.........................................689


Alexandre Annes Henriques, Lorena Caleffi, Pedro Schestatsky, Rogério Wolf de Aguiar

41. Abordagem psicodinâmica do paciente traumatizado..............................................704


Caroline Garland
14 Sumário

42. Abordagem psicodinâmica na infância.......................................................................723


Maria Lucrécia Scherer Zavaschi, Ana Margareth Siqueira Bassols,
David Simon Bergmann, Victor Mardini

43. Abordagem psicodinâmica na adolescência...............................................................755


Alice Becker Lewkowicz, Gisha Brodacz

44. Abordagem psicodinâmica do paciente idoso............................................................772


Antonio Carlos Scherer Marques da Rosa, Maria Cristina Garcia Vasconcellos

45. Abordagem psicodinâmica do paciente hospitalizado...............................................790


Igor Alcantara, Eugenio Horacio Grevet

46. Abordagem psicodinâmica do paciente dependente químico...................................808


Felix Henrique Paim Kessler, Flavio Pechansky, Diego Barreto Rebouças, Jader Piccin

47. Psicoterapia no hospital geral......................................................................................831


Neury José Botega

Índice.....................................................................................................................................845
INTRODUÇÃO
Cláudio Laks Eizirik
Rogério Wolf de Aguiar
Sidnei S. Schestatsky

A ampla aceitação das duas edições anteriores seja, nos principais quadros psicopatoló-
desta obra, aliada a novos desenvolvimentos gicos e nas situações mais encontradas em
da psicoterapia de orientação analítica, leva- nosso trabalho clínico.
ram os organizadores e a Artmed Editora a Se observarmos o amplo campo de
conceber e apresentar esta terceira edição. ação das diferentes psicoterapias e acom-
Ao longo dos 25 anos que nos separam panharmos o desenvolvimento de novas
da primeira edição deste livro, constatamos intervenções, tanto psicoterápicas quan-
com satisfação que ele tem sido utilizado to medicamentosas, das últimas décadas,
em todo o Brasil, em inúmeros cursos de constataremos que a psicanálise e a psico-
gra­duação, especialização e pós-graduação terapia de orientação analítica continuam
stricto sensu, tendo servido de estímulo e na linha de frente dos recursos terapêuticos
companhia para sucessivas gerações de psi- mais efetivos e eficientes para as diversas
coterapeutas, tanto em seus estudos formais formas de sofrimento psíquico. Confiamos,
como para enfrentar situações clínicas que assim, que esta nova edição continuará a
desafiam por sua complexidade e, muitas ser, ao mesmo tempo, útil e estimulante.
vezes, falta de referências específicas. Dedicamos este livro aos nossos pa-
Esta edição atualiza os capítulos que cientes e alunos, em especial os da Residên-
permaneceram da edição anterior, acres- cia Médica em Psiquiatria do Hospital de
centando-lhes bibliografia mais recente, Clínicas de Porto Alegre e os dos Cursos
e introduz novos capítulos, ampliando a de Especialização do Centro de Estudos
abordagem da psicoterapia de orientação Luis Guedes, associado ao Departamento
psicanalítica. O formato dos capítulos tam- de Psiquiatria e Medicina Legal da Facul-
bém teve modificações, com destaques ao dade de Medicina da Universidade Federal
longo dos textos e um quadro com pontos- do Rio Grande do Sul (UFRGS). Agrade-
-chave ao final de cada um deles. Com essas cemos, também, às nossas famílias, que
modificações, pretende-se tornar a leitura são uma permanente fonte de aprendizado
mais clara e prática. amoroso daquilo que Carlos Drummond
Decidimos concentrar esta edição nos de Andrade descreveu como a “dificílima
fundamentos teóricos essenciais para a teo­ dangerosíssima viagem de si a si mesmo”
ria da técnica e nas intervenções psicoterá- em busca da “insuspeitada alegria de con-
picas em situações clínicas específicas, ou viver”.
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PARTE I

Tema introdutório
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1
PSICANÁLISE E PSICOTERAPIA DE
ORIENTAÇÃO ANALÍTICA: RAÍZES
HISTÓRICAS E SITUAÇÃO ATUAL
Robert S. Wallerstein

Em 1995, publiquei um livro, The Talking punha as principais linhas do argumento,


Cures: the psychoanalyses and the psychothe- depois elaboradas com mais detalhes em
rapies (As curas pela conversa: as psicanálises meu livro de 1995.
e as psicoterapias).1 As diversas ênfases, no Aqui, de forma altamente conden-
plural, no título refletiam dois temas prin- sada, apresentarei as principais teses des-
cipais desse livro: sa história evolutiva complexa, vista sob
uma perspectiva atual, e encaminharei o
1. a evolução da psicanálise, como teoria e leitor às minhas contribuições anteriores
como terapia, a partir da estrutura uni- para a completa exposição de meus pontos
tária criada e proposta incansavelmente de vista. Inicio com Freud e o nascimento
por Freud, durante toda a sua vida, até da psicanálise, por ele desenvolvida como
o mundo metapsicologicamente plura- um produto purificado do amontoado de
lístico no qual vivemos abordagens terapêuticas em voga naquela
2. o desenvolvimento da psicoterapia psi- época e introduzida experimentalmente
canalítica – a partir de sua origem teó- com o auxílio de seu primeiro colabora-
rica, a psicanálise –, inicialmente como dor, Breuer. Ela logo se tornou a psicologia
uma adaptação distinta e coerente dos científica e a psicoterapia científica.
conceitos psicanalíticos às exigências
clínicas de pacientes não considera-
dos indicados para a psicanálise, mas
atualmente evoluindo para um campo Contudo, embora Freud tenha devotado um tem-
de relacionamentos multifacetados po monumental à criação (quase sem ajuda) da
(e problemáticos) com seu ancestral psicanálise, como uma teoria da vida mental e
psicanalítico uma terapia sistemática de seus transtornos,
ele próprio nunca se voltou para nenhuma ou-
tra técnica de psicoterapia além da própria psi-
Antes disso (em 1989), eu havia pu- canálise. Considerava que a psicanálise não ti-
blicado um artigo, Psicanálise e psicotera- nha nada a oferecer a pacientes não adequados
pia: uma perspectiva histórica,2 no qual ex-
20 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

ao método analítico clássico, a não ser a mes- que não foram totalmente analisados em suas
ma variedade de técnicas sugestivas e hipnó- raízes genético-dinâmicas; como consequên-
ticas que seus colegas sem formação analíti- cia, deviam, em última análise, estar basea-
ca empregavam. das na forte autoridade transferencial (sugesti-
va) do terapeuta.

Esta visão – a de que a psicanálise


propriamente dita era a única psicoterapia Além disso, Glover4 declarou, ainda
verdadeiramente curativa e científica dis- em 1954, que
ponível – permeou todo o período da vida
de Freud. Ela marcou a era da pré-história [...] caso as interpretações do analista
da psicoterapia dentro da psicanálise, a fossem consistentemente incorretas,
então muito provavelmente ele esta-
primeira sendo, agora, considerada mais ria praticando uma forma de suges-
especificamente uma outra psicoterapia tão, seja qual for o nome que desse a
além da própria psicanálise. Freud fez sua ela. Daí decorre que, quando analistas
própria diferenciação entre a psicanálise, diferem radicalmente quanto à etiolo-
considerada uma terapia etiológica, e os gia ou à estrutura de um caso – como
demais esforços psicoterapêuticos, que via hoje acontece cada vez com mais fre-
como meras espécies obsoletas de sugestão, quência – um lado ou o outro deve es-
tar praticando sugestão.
possivelmente superadas pela psicanálise.
Sua observação mais aguda a respeito foi a
Não que Glover já não tivesse tentado
famosa citação de sua conferência de 1918,
atenuar essa afirmação radical: “a má aná-
em Budapeste, na qual previa:
lise pode, concebivelmente, ser boa suges-
[...] que o desenvolvimento em lar- tão”.5
ga escala de nossa terapia nos forçará É fácil perceber o tipo de raciocínio
a amalgamar o ouro puro da análise estreito – isto é, o de que deve haver apenas
com o cobre da sugestão direta [mas uma linha interpretativa “correta” em cada
que] seus ingredientes mais efetivos situação analítica e de que qualquer desvio
e mais importantes certamente con-
dela, baseado em inexatidão, ignorância,
tinuarão sendo aqueles tomados em-
prestados da psicanálise estrita e não contratransferência ou qualquer outro as-
tenden­ciosa.3 pecto, deve, portanto, ser apenas sugestão
– que levou Glover, baseando-se em Freud,
Freud foi vigorosamente apoiado a essa aguda dicotomização da psicoterapia
nesse seu ponto de vista por Ernest Jones entre apenas a psicanálise, por um lado, e
e Edward Glover, sendo que este último le- simplesmente variações de sugestão, por
vou essa visão ao extremo. outro. Com isso, Glover e Freud, antes de-
le, prestaram um desserviço involuntário
ao futuro desenvolvimento de uma psico-
terapia dinâmica – assentada firmemente
A tese de Glover era a de que todas as outras
terapias, que não a psicanálise-padrão, seriam
na base teórica da psicologia psicanalíti-
apenas variedades de sugestão, porque esta- ca – ao obscurecerem as complexidades
riam baseadas em elementos (que podiam até envolvidas nos conceitos e nas práticas da
incluir interpretações de conflitos inconscientes) psicoterapia psicanaliticamente informada,
incluindo-a sob a rubrica excessivamente
Psicoterapia de orientação analítica 21

abrangente da sugestão, a qual é usada para aliar-se à psiquiatria e à medicina organi-


encobrir (e desse modo embaçar) uma di- zadas e de “cooptar” a psiquiatria para as
versidade de princípios e práticas distintas ideias psicanalíticas; da ampla aceitação, na
da psicanálise. psiquiatria americana, da doutrina psico-
biológica de Adolf Meyer, com sua ênfase
nos relatos de caso detalhados para mostrar
Assim, a primeira era no desenvolvimento da as várias relações causais das experiências
psicoterapia psicanalítica dentro da psicanáli- de vida; do crescimento do movimento de
se, que eu chamo de sua pré-história, foi mar- higiene mental, com suas exigências po-
cada pela descrição da psicanálise como uma sitivas por intervenções de saúde mental
terapia claramente articulada e com uma sé- mais orientadas; do impacto da educação
rie definida de princípios e práticas acordados americana progressiva, sob a liderança do
de modo consensual, sendo tudo o mais – para
todos os grupos de pacientes não adequados à filósofo-educador John Dewey; e de outras
psicanálise – arrastado para dentro da cate- ideias pragmaticamente otimistas, como o
goria mal definida e abrangente da sugestão. “movimento de assentamento em lares”,
voltado ao sofrimento dos desfavorecidos
social e economicamente, lançado por Jane
Por uma variedade de razões parti- Addams.
culares ao desenvolvimento histórico da Portanto, desde o início, os psicana-
psicanálise em relação à psiquiatria nos listas na América não entregaram o ainda
Estados Unidos, o desenvolvimento origi- incipiente campo da psicoterapia aos não
nal da psicoterapia psicodinâmica* foi um analistas, nem o rejeitaram, considerando-
fenômeno tipicamente americano. Ela sur- -o a aplicação benevolente da sugestão
giu da confluência de inúmeras tendências – se assim fosse, não se justificaria qual-
sociais e intelectuais nos Estados Unidos: quer estudo ou treinamento especial para
da tentativa consciente da psicanálise de aprendê-la. Ao contrário, a psiquiatria (e a
psicoterapia) psicodinâmica, ao se desen-
volver durante o período do fim da déca-
da de 1930 até o início da década de 1950
* A psicoterapia psicodinâmica é, na verdade, a única – quando a psicanálise norte-americana
contribuição caracteristicamente americana para a prá- cresceu de forma significativa em número
tica psiquiátrica moderna, embora uma contribuição
gloriosa. A psicanálise foi criada por Freud, na Áustria;
e se enriqueceu em prestígio pela absorção
a nosologia descritiva dos transtornos mentais maiores da onda de psicanalistas europeus refu-
foi trabalho de Kraepelin e sua escola, na Alemanha, giados de Hitler –, conseguiu “capturar”,
ainda que depois desenvolvida incomensuravelmente com êxito, a psiquiatria norte-americana,
pelos modernos arquitetos norte-americanos do do
DSM-III, DSM-IV e DSM-5. A eletroconvulsoterapia tornando-se, assim, a voz dominante em
foi inaugurada por Cerletti e Bini, na Itália; o coma in- faculdades de medicina, hospitais-escola e
sulínico, por Sakel, um polonês trabalhando em Viena; clínicas psiquiátricas do país. Uma conse-
a desastrada operação de lobotomia, por Egas Moniz, quência importante dessa conquista bem-
em Portugal; o conceito da comunidade terapêutica
foi desenvolvido por Maxwell Jones, na Inglaterra; a -sucedida da psiquiatria norte-americana
era moderna das drogas psicoativas foi inaugurada pela psicanálise foi a suposição, assumida
na Suíça, com o Largactil, mais tarde trazido para a por médicos e educadores psicanalistas,
América como Thorazina (clorpromazina), embora da responsabilidade pelo cuidado e pelo
novamente desenvolvida de forma exponencial na
América; e o lítio foi empregado pela primeira vez com tratamento dos pacientes internados e dos
sucesso por Cade, na Austrália. pacientes ambulatoriais mais gravemente
22 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

doentes que buscavam os hospitais-escola e fundamental, dentro do marco referencial


as clínicas afiliados às universidades. Esses psicanalítico, entre as abordagens psicote-
pacientes diferiam bastante dos pacientes rapêuticas de apoio e as expressivas:
ambulatoriais tipicamente neuróticos, dos
principais centros psicanalíticos europeus, Das várias possíveis formas de clas-
em torno dos quais os preceitos técnicos da sificar as tentativas psicoterapêuti-
psicanálise tinham sido criados – porque, cas [...], dois grandes grupos podem
em suas primeiras décadas na Europa, a psi- ser identificados – aqueles que visam
canálise tinha sido excluída da universidade primariamente ao apoio ao pacien-
te, com supressão dos sintomas e da
e do mundo médico acadêmico e, portanto,
manifestação do material psicológico
negada aos portadores de transtornos men- emergente associado, e aqueles que vi-
tais e comportamentais mais graves. sam primariamente à sua expressão.7
(grifo nosso)

E foi pela necessidade dessa adaptação, nos Ao mesmo tempo, o viés explícito em
Estados Unidos, às necessidades clínicas dos favor da abordagem mais expressiva foi
pacientes mais doentes que os psicanalistas, anunciado:
abrigados pela psiquiatria norte-americana, ti-
veram que desenvolver modificações nas inter-
venções psicanalíticas que fossem mais ade- [...] a psicoterapia de apoio [...] pode
quadas às exigências clínicas desses pacien- ser indicada [...] quando a avaliação
tes. clínica do paciente levar à conclusão
de que ele é muito frágil psicologica-
mente para ser mais profundamente
abordado, ou muito inflexível para ser
Foi esse desenvolvimento que re- capaz de uma alteração real da per-
sultou na psicoterapia psicanalítica, cujo sonalidade, ou muito defensivo para
principal pioneiro foi Robert Knight, da ser capaz de alcançar o insight [...]. A
Fundação Menninger e depois do Centro decisão de usar medidas supressivas
é, na verdade, tomada devido a con-
Austen Riggs. Como líder na psicanálise traindicações ao uso de intervenções
norte-americana, as principais preocupa- exploratórias.7
ções de Knight foram exatamente suas re-
lações com a psiquiatria.
Knight6 declarou que, até o advento Posteriormente, Knight8 diferenciou
da psicanálise, “a psiquiatria ainda carecia ainda mais os objetivos das abordagens de
de uma psicologia”. Ele se dedicou à arti- apoio e expressiva e, em relação a esta últi-
culação do que chamou de “uma ciência ma, os objetivos (e as indicações) da pró-
básica da psicologia dinâmica”:7 pria psicanálise.

[...]uma ciência básica na qual toda Pelo termo “primariamente de apoio”


psicoterapia competente deve basear- entendo a intenção de apoiar e re-
-se [e] para a qual as principais con- construir os mecanismos de defesa e
tribuições foram dadas pela psicaná- métodos adaptativos que costumam
lise.7 ser utilizados pelo paciente antes de
sua descompensação, e a implementa-
Assim, Knight formulou, pela pri- ção dessa intenção pelo uso de técni-
meira vez, o que propôs ser a di­ferença cas de apoio explícitas.
Psicoterapia de orientação analítica 23

A seguir, descrevia uma série de téc- o problema existia entre as visões propos-
nicas de apoio, na verdade a primeira lista- tas por Alexander e French9 e Fromm-
gem desse tipo, em um artigo psicanalítico. -Reichmann10 (uma minoria), que viam a
Entre as formas expressivas, a própria psi- tendência histórica como obscurecendo, e
canálise seria, claramente, a de mais longo até suprimindo, as diferenciações técnicas
alcance: “A psicanálise tenta o máximo na entre psicoterapia dinâmica e psicanálise, e
investigação, com um objetivo do maior a visão defendida por analistas (a maioria),
autoconhecimento possível e da modifica- dos quais Bibring,11 Gill,12,13 Rangell14 e
ção estrutural da personalidade”.8 Stone15,16 foram os principais porta-vozes.
E à psicoterapia expressiva (derivada Estes, seguindo Knight, entendiam o pro-
da psicanálise) é concedido um lugar niti- blema como um esclarecimento mais ade-
damente diferente: quado das distinções conceituais e opera-
cionais entre as duas. Esses pontos de vista
O maior campo [...] para a psicotera- opostos foram antiteticamente propostos
pia exploratória, que não envolve os de maneira muito intensa nos painéis pu-
objetivos ambiciosos da psicanálise,
blicados em 1954.
reside naquelas condições clínicas que
são expressadas como descompensa- Aqueles que “borravam” as diferen-
ções relativamente recentes, origina- ciações entre psicoterapia dinâmica e psi-
das de experiências de vida perturba- canálise tomaram duas posições um pouco
doras.8 discrepantes. Alexander17 exigia a total in-
tegração da psicanálise na psiquiatria e na
medicina:
É essa primeira descrição de Knight das dife-
renças declaradas entre as terapias psicanalí- A teoria psicanalítica [tornou-se] pro-
ticas, indo da terapia de apoio à terapia expres- priedade comum da psiquiatria como
siva, até à própria psicanálise, que estruturou um todo e, por meio dos canais psi-
os painéis, dentro da Associação Psicanalítica cossomáticos, da medicina como um
Americana, durante os primeiros anos da déca- todo.
da de 1950, todos reunidos em uma dezena de
artigos no Journal da Associação, em 1954. Co- Com essa “unificação” da psicanálise
letivamente, eles sustentavam as concepções com a psiquiatria,
dominantes na época sobre sua natureza – que
marcaram o que eu chamo de segunda era na [...] uma nítida diferença entre o tra-
relação da psicoterapia com a psicanálise, uma tamento psicanalítico e outros méto-
era de estabelecida diversidade de objetivo e de dos psicoterapêuticos que se baseiam
técnicas (um espectro das terapias psicanalíti- nas observações e na teoria psicanalí-
cas que ia da mais apoiadora à mais expressi- ticas está se tornando cada vez mais di-
va) dentro de uma unidade de teoria (a psica- fícil [...]. Na prática [...], todos os psi-
nálise). Essa era durou cerca de 20 anos, con- quiatras tornam-se cada vez mais pare­
tados a partir das completas descrições desses cidos, mesmo que um possa praticar a
manifestos de 1954. psicanálise pura e o outro uma psi­co­
terapia de orientação psicanalítica.17

A confrontação central na época era Assim, qualquer distinção entre a


entre dois pontos de vista principais so- própria psicanálise e outros procedimentos
bre a natureza da relação entre psicotera- expressivos foi declarada apenas “quantita-
pia dinâmica e psicanálise. Basicamente, tiva”,17 e, de fato,
24 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

[...] a única solução lógica [seria] iden- xander, psicanálise e psicoterapia analítica
tificar como “psicanalítico” todos es- tornariam-se indistinguivelmente próxi-
tes procedimentos relacionados que mas, em um continuum meramente quan-
se baseiam essencialmente nos mes-
titativo. No caso de Fromm-Reichmann,
mos conceitos científicos, observações
e princípios técnicos.17 (grifo nosso) a psicanálise se veria assimilada pela nova
teoria interpessoal da psiquiatria dinâmica.
No ponto máximo da posição de Ale- Ao contrário, Alexander considerava que
xander,17 “a única diferença realística é [...] a psicoterapia psicanalítica estaria fundida
aquela entre os métodos primariamente de de maneira quase indistinta com a psicaná-
apoio e os primariamente expressivos” (gri- lise. Porém, em qualquer direção, as dife-
fo nosso). Sua proposição seria a de colapsar renças entre as duas ficavam obscurecidas,
todas as formas de tratamento expressivo senão totalmente suprimidas.
(psicoterapia expressiva e a própria psica- Ambos os pontos de vista tiveram,
nálise) dentro de uma única categoria de te- na época, algum apelo popular, embora
rapia psicanalítica. A partir disso, Alexander refletissem uma distinta minoria na psica-
(como Knight) prenuncia uma lista de téc- nálise norte-americana. Desde então, essas
nicas diversificadas de apoio. No outro la- concepções de Alexander foram essencial-
do, coloca todas as abordagens expressivas, mente retiradas do discurso psicanalítico.
a psicanálise incluída, as quais, segundo ele, Os pontos de vista de Fromm-Reichmann
variariam apenas em parâmetros quantitati- (mais propriamente suas técnicas) sobrevi-
vos, e não em parâmetros críticos. veram apenas dentro de um pequeno gru-
Fromm-Reichmann18 assumiu uma po de colegas, trabalhando no campo em
posição um pouco diferente: para tratar que essas noções se enraizaram a princípio,
psicanaliticamente indivíduos borderline e/ ou seja, na (modificada) terapia psicanalí-
ou francamente psicóticos, seriam neces- tica de pacientes gravemente psicóticos, em
sárias não apenas modificações importan- geral nos ambientes institucionais.
tes da técnica psicanalítica (com as quais, Em contraste, aqueles que se empe-
naturalmente, todos concordariam) como nharam em “agudizar” as diferenças entre
também a revisão sistemática da teoria da o alcance das diferentes psicoterapias de
“psicanálise clássica”, em direção a uma base psicanalítica objetivavam, em seus
mais moderna “teoria da psiquiatria dina- planos de tratamento, selecionar a moda-
micamente orientada”, tendo como base lidade terapêutica mais adequada, a partir
as concepções interpessoais de Harry Stack desse espectro diferenciado, para a estrutu-
Sullivan. Isso ela defendia como uma ver- ra psicológica de cada paciente. Isso, natu-
são mais atualizada da psicanálise e tratava ralmente, era o oposto de “borrar” as di-
de sustentar essa reivindicação invocando a ferenças, transformando toda psicoterapia
famosa máxima definidora de Freud,19 de em “psicanálise”, forçando os limites dessa
que toda terapia que estivesse baseada nos “análise” a sua extensão máxima. Tratava-
conceitos de transferência e resistência po- -se de uma preocupação com o método de
deria denominar-se psicanálise. tratamento mais adequado para cada pa-
Apresentada dessa maneira, a psico- ciente em particular (dentro da variedade
terapia dinâmica de Fromm-Reichmann de métodos terapêuticos psicanalíticos).
poderia simplesmente ser redefinida como O problema inicial para aqueles que
psicanálise, de modo que, como com Ale- buscavam delinear com mais clareza as
Psicoterapia de orientação analítica 25

diferenças entre as várias terapias de base os de apoio que as psicoterapias psicana-


psicanalítica foi, naturalmente, de defi- líticas (que não a psicanálise) poderiam
nição. Gill,13 Rangell14 e Stone15 procu- utilizar. Também nesse primeiro ensaio,
raram começar com uma definição para Gill12 estabeleceu a principal linha de
psicanálise, considerada a matriz de todas ­demarcação entre os métodos expressivos
as outras e cujas dimensões eram mais cla- e os de apoio:
ramente conceitualizadas. Foi a proposi-
ção de Gill13 a que adquiriu mais ampla A decisão mais importante é se as de-
aceitação: fesas do ego devem ser fortalecidas
ou, ao contrário, ultrapassadas, como
Psicanálise é aquela técnica que, em- uma condição preliminar em direção
pregada por um analista neutro, resul- à reintegração do ego [...]. A decisão
ta no desenvolvimento de uma neu- de fortalecer as defesas é tomada em
rose de transferência regressiva e na casos nos quais isso é tudo o que é ne-
resolução final dessa neurose por téc- cessário, ou naqueles nos quais isso é
nicas apenas interpretativas. tudo o que é possível fazer com segu-
rança.
A partir dela, Gill se estende por vá-
rias ­páginas para explicar cada parte desse O autor prossegue até aumentar a so-
conceito em detalhes. Tal definição deli- fisticação da conceitualização das técnicas
mitava a psicanálise de modo mais preciso de apoio, por meio de uma elaboração de-
do que a de Freud,19 a qual estabelecia que talhada das maneiras de se fortalecerem as
qualquer terapia que apenas reconhecesse defesas.
os dois fatos, da transferência e da resis- Stone15 também tentou listar os
tência, e os tomasse como seu ponto de princípios que operariam diferencialmen-
partida podia denominar-se psicanálise. te na psicoterapia, em oposição à psica-
Em contraposição a Freud, Gill12 tinha nálise, mas, para isso, misturou as abor-
declarado anteriormente que: dagens de apoio e as expressivas (apenas
diferenciando-as da própria psicanálise).
[...] a designação “psicanálise” seria Ele elaborou sua listagem de oito diferen-
reservada para a técnica que analisa a tes indicações para psicoterapia, em vez
transferência e a resistência. Já a psi- de psicanálise (a mais elaborada até aque-
coterapia psicanalítica seria qualquer le momento), mas não tentou separar que
procedimento que reconhece a trans- indicações seriam mais adequadas a abor-
ferência e a resistência e utiliza racio- dagens expressivas e quais as abordagens
nalmente esse conhecimento na te-
rapia, embora isso possa ser feito de
de apoio. A lista de Stone, entretanto, de-
muitas formas diferentes, e parte ou finiu a base para a afirmação de Gill12 com
até toda a transferência possa não ser relação às indicações para psicanálise:
analisada.
A análise, então, é claramente o proce-
dimento para um grupo intermediá­
São essas “muitas formas diferentes” rio (de gravidade), no qual o ego está
de psicoterapia, nas quais “parte ou até to- suficientemente danificado para que
da a transferência possa não ser analisada”, um extensivo reparo seja necessário,
que, naturalmente, representam as várias mas que ainda é suficientemente forte
distinções entre os métodos expressivos e para suportar a pressão.
26 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

A partir disso, o restante segue de ferência, embora não uma neurose de


modo natural. Uma psicoterapia primaria- transferência regressiva total; inter-
mente de apoio torna-se a forma preferida pretação como o veículo principal do
comportamento do terapeuta – e, eu
para aqueles pacientes cujo equilíbrio psí-
sugiro, na qual os resultados são igual-
quico enfraquecido deve ser restaurado pe- mente intermediários.13
lo “fortalecimento das defesas”, por meio
de todas aquelas técnicas detalhadas por Diz ainda:
Knight, Alexander, Stone, Gill, entre ou-
tros. Poderíamos considerar esses pacientes [...] não quero ser mal interpretado,
como “muito doentes” para serem tratados pois não estou sugerindo que a psico-
pela psicanálise. Gill,13 inclusive, refere os terapia possa fazer o que a psicanáli-
perigos da psicanálise para uma “personali- se faz; mas estou sugerindo que uma
descrição dos resultados da psicotera-
dade precariamente equilibrada”. Uma psi- pia intensiva [ele quer dizer expressi-
coterapia primariamente expressiva torna- va] pode ser feita não meramente em
-se, por sua vez, a forma preferida aqueles termos de mudanças de defesas, mas
com transtornos reativos agudos ou em também em termos de outras altera-
estados transicionais de ajustamento, cujos ções intraego.13
egos não estão excessivamente danificados
e que podem tolerar o esforço de “analisar No geral, Gill12 havia afirmado ante-
as defesas” na extensão necessária, pelos riormente:
métodos de interpretação e elaboração,
chegando aos insights e às resoluções reque- Na psicoterapia, o objetivo pode ser
qualquer coisa, que vai do alívio de
ridos. Estes podem ser considerados os pa-
um sintoma o mais rápido possível,
cientes que estão “bem demais” para fazer com a restauração da capacidade in-
psicanálise, no sentido de não necessitarem tegrativa prévia do ego, passando por
ou de não se justificar sua entrada em um uma ampla variedade de objetivos
tratamento tão ambicioso e extenso. mais ambiciosos, até a psicanálise, o
Essa forma de conceitualizar a na- mais ambicioso de todos. A escolha da
tureza dos diferentes métodos terapêuti- terapia pode ser dividida entre aque-
la que determina o mínimo necessá-
cos e de suas diferentes indicações coloca
rio para restaurar o funcionamento
a psicoterapia expressiva em uma posição do ego e aquela que se empenha pela
“intermediária” – certamente na técnica – mudança máxima possível.
entre a terapia de apoio, de um lado, e a
psicanálise, de outro. Gill13 chamava-a de Isso está estreitamente relacionado a
um “tipo intermediário de psicoterapia”. outra questão que também não foi de to-
Ele foi adiante: do resolvida naqueles debates da década de
1950: trata-se dos graus de diferenciação
Esta é a psicoterapia [...] cujos objeti- real entre essa série de abordagens terapêu-
vos são intermediários entre a resolu-
ticas psicanalíticas, que iria da psicoterapia
ção rápida dos sintomas [i.e., psicote-
rapia de apoio] e a alteração de caráter de apoio até a psicoterapia expressiva (a
[i.e., psicanálise], na qual as técnicas forma “intermediária”) e, finalmente, até
são, de certo modo, também interme- a psicanálise. Seriam elas realmente dife-
diárias – por exemplo, relativa neutra- rentes qualitativamente, ou apenas pontos
lidade e inatividade; manejo da trans- nodais cristalizados ao longo de um con-
Psicoterapia de orientação analítica 27

tinuum? Ou seriam menos distinguíveis do campo magnético do paciente, não re-


ainda entre si, por serem essencialmente agindo, portanto, com seu próprio campo
apenas um continuum (quantitativamente magnético, ou se comporta como o juiz em
variável)? Isto é, permanecia a discussão uma partida de tênis.14 Já na psicoterapia,
entre o “obscurecimento” das diferenças o terapeuta, em vez de estar na cadeira do
versus seu “aguçamento”, o que sempre es- juiz, movimenta-se na quadra, junto com o
teve no centro daqueles debates. paciente, estando os dois campos magnéti-
Rangell14 talvez tenha expressado me- cos entrelaçados.14 Em relação às diferen-
lhor o grau de consenso alcançado dentro ças nos objetivos, Rangell evidenciou outra
da posição da maioria, que rotulei como analogia, emprestada de Gitelson, em que
aquela dos que buscavam aguçar as dife- comparou o processo terapêutico a uma
renças: reação química complicada que, uma vez
iniciada, poderia ser levada a uma resolu-
Neste ponto de vista, as duas discipli- ção final (i.e., o objetivo da psicanálise) ou
nas [psicanálise e psicoterapia psica-
interrompida em algum ponto intermediá-
nalítica], nos extremos opostos de um
espectro, são qualitativamente dife- rio de estabilidade, como no caso da psico-
rentes entre si, embora haja uma fai- terapia dinâmica (ver Rangell14).
xa fronteiriça de casos entre elas. Uma Duas outras contribuições importan-
comparação análoga pode ser feita tes dos debates de 1954 – a de Bibring e a
com o fato de que o consciente é dife- discussão entre Leo Stone e Anna Freud –
rente do inconsciente, embora exista devem ser mencionadas. Bibring descreveu
um pré-consciente e diferentes graus
cinco princípios terapêuticos básicos, os
de consciência. O dia é diferente da
noite, embora haja o crepúsculo en- quais, pela seleção e pela combinação dife-
tre eles; e o preto do branco, embora rencial, deveriam ser capazes de caracteri-
haja o cinza. zar todas as terapias psicanalíticas, da psi-
canálise à psicoterapia de apoio. Os cinco
A maior contribuição de Rangell aos princípios básicos, cada um visando a seu
debates publicados em 1954 foi seu esforço objetivo particular, foram denominados
em estabelecer as principais semelhanças e de:
diferenças entre psicanálise e psicoterapia
dinâmica. Ele apresentava cada uma sob 1. sugestão
dois tópicos. Em relação às semelhanças, 2. catarse
afirmava que ambas são tratamentos psi- 3. manipulação (no sentido de redirecio-
cológicos que influenciam outros seres hu- nar sistemas emocionais existentes no
manos por meio do discurso verbal, bem paciente ou expô-lo a novas experiên-
como tratamentos racionais, construídos cias)
sobre uma metapsicologia idêntica. Em re- 4. insight por meio do esclarecimento
lação às diferenças, dizia estarem nas técni- 5. insight por meio da interpretação
cas e nos objetivos.
Quanto à técnica, Rangell14 conside- Todas as psicoterapias, não apenas
rava que “o ponto diferencial crucial diz aquelas baseadas na teoria psicanalítica,
respeito ao papel e à posição do terapeu- poderiam ser classificadas, de acordo com
ta”. Usando uma analogia, afirmou que, Bibring, conforme as diferentes seleções e
na psicanálise, o terapeuta está na periferia combinações desses cinco princípios tera-
28 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

pêuticos centrais na condução da terapia. Se toda habilidade, conhecimento e


A classificação de Bibring continuou sendo esforços pioneiros que foram gastos
usada até quase os dias de hoje. para ampliar a abrangência da psica-
nálise tivessem sido empregados, em
A outra contribuição igualmente in-
vez disso, na intensificação e melho-
fluente daqueles debates foi a discussão de ra de nossas técnicas no campo ori-
Stone16 sobre o que ele chamou de “a cres- ginal [os transtornos histéricos, fó-
cente ampliação do campo de indicações bicos e compulsivos], eu não posso
para psicanálise” para quase toda doença deixar de sentir que, neste momento,
ou problema que tivesse um componente estaríamos achando que o tratamen-
emocional significativo em sua etiologia to das neuroses comuns seria quase
uma “brincadeira de criança”, em vez
– muito além, portanto, das clássicas psi-
de seguirmos lutando com os proble-
coneuroses consideradas por Freud como mas técnicos que encontramos, como
adequadas à psicanálise. Stone aceitava continuamos fazendo.20
essa tendência com cautela e ceticismo
– naturalmente, retornava-se à discus- Esse era, de fato, um apelo à limitação
são sobre (a) estender a aplicabilidade da das indicações para a psicanálise, uma po-
verdadeira (ou melhor) psicoterapia exis- sição à qual Anna Freud aderiu firmemen-
tente, a psicanálise, até os limites de suas te durante toda a sua vida, contra todas as
possíveis indicações, em oposição a (b) tendências mais “populares” entre os ana-
adequar abordagens psicoterapêuticas di- listas da época.
ferenciadas à natureza e às necessidades de Um último comentário em relação
cada paciente. A avaliação final de Stone16 a essa cristalização, em 1954, do que cha-
foi a de que a mei de “a segunda era” na história da psi-
coterapia psicanalítica, a era do consenso.
[...] abrangência da terapia psicana- O Projeto de Pesquisa de Psicoterapia da
lítica foi ampliada a partir das psico- Fundação Menninger, criado por alguns
neuroses transferenciais, para incluir
praticamente todas as categorias no-
de nós no início da década de 1950, foi um
sológicas psicogênicas. As neuroses de estudo dos mais ambiciosos e abrangentes
transferência e os transtornos de cará- do seguimento dos tratamentos e das vidas
ter de grau de psicopatologia equiva- subsequentes de uma coorte de 42 pacien-
lente continuam sendo as indicações tes tratados, metade por psicanálise e meta-
gerais ideais para o método clássico. de por psicoterapia psicanalítica. O Projeto
Embora as dificuldades aumentem e foi concebido e conceitualizado segundo
as expectativas de sucesso diminuam
os marcos referenciais de como eram en-
de uma maneira geral, à medida que
nos aproximamos da periferia nosoló- tendidas essas modalidades de tratamento,
gica, não há [uma] barreira absoluta na perspectiva da maioria dos psicanalistas
[para o método psicanalítico]. daquela era de consenso. Uma descrição
completa do trabalho e dos resultados e
Em sua discussão do trabalho de Sto- conclusões desse longo estudo de 30 anos,
ne, Anna Freud20 escolheu essa única ques- realizado à luz daqueles entendimentos, foi
tão para indicar que suas próprias predile- publicada em meu livro de 1986, Quarenta
ções opunham-se a tais sentimentos. Sem e duas vidas em tratamento.21
desejar “subestimar os benefícios resultan- Enfatizei o quanto esse desabrochar
tes aos pacientes” do que Stone declarara, da psicoterapia dinâmica foi particular-
ela, não obstante, expressava suas objeções: mente norte-americano, sendo ela con-
Psicoterapia de orientação analítica 29

cebida como distinta da psicanálise, mas nós, sem terem sido essencialmente mo-
inextricavelmente ligada a esta, constituin- dificadas, muito menos resolvidas, ape-
do-se como o veículo principal da “coop- sar da experiên­cia clínica acumulada e do
tação” da psiquiatria norte-americana pelo crescente conhecimento teórico adquirido
ideal psicanalítico. Isso não quer dizer, no durante esse período. Nem poderíamos
entanto, que essas concepções permanece- dizer que essa avaliação foi, de alguma
ram restritas ao cenário norte-americano. forma, modificada pelas considerações
Ideias comparáveis logo criaram raízes em daquele painel internacional, do ponto de
outros lugares, a princípio na Inglaterra e vista mais amplo das várias experiências da
no norte da Europa, e depois pelo resto da psicanálise nos diversos centros nacionais
Europa e na América Latina. E, em 1969 – e regionais de trabalho psicanalítico, com
uma década e meia após as publicações de todos os seus diferentes desenvolvimentos
1954 na América do Norte –, a Internacio- históricos e distintos contextos ecológicos.
nal Psychoanalytic Association (IPA), pela Contudo, apenas uma década mais
primeira vez, dedicou um painel importan- tarde, em 1979, quando as Sociedades
te em seu Congresso de Roma para “A re- Psicanalíticas Regionais Meridionais pa-
lação entre psicanálise e psicoterapia”. Em trocinaram um Simpósio em Atlanta, no
minha apresentação de abertura, como co- qual três dos protagonistas das discussões
ordenador daquela mesa-redonda,22 iniciei publicadas em 1954, Gill, Rangell e Stone,
declarando que isso marcava foram convidados a atualizar suas visões
sobre “Psicanálise e psicoterapia, seme-
[...] a crescente preocupação, den- lhanças e diferenças, uma perspectiva de
tro da família mundial da psicanáli- 25 anos”, muita coisa tinha realmente
se, com o que por muito tempo pare- mudado. Nos anos intermediários, novas
cera uma criação peculiarmente nor-
te-americana, o corpo da teoria e da
conceitualizações diagnósticas e terapêuti-
prática da psicoterapia psicanalítica cas tinham sido amplamente desenvolvidas
ou psicodinâmica, em toda a sua com- em relação às categorias dos pacientes bor-
plexa relação com sua linhagem psi- derline (como as abordagens psicanalíticas
canalítica. “modificadas” de Kernberg,23 e dos trans-
tornos de caráter narcisista (introduzidas
Estabeleci a estrutura para o painel na órbita da psicanálise por Kohut,24,25).
de 1969, expondo o que eu acreditava se- Essas novas considerações acrescentaram
rem as questões científicas mais impor- urgência e convicção aos esforços psicanalí-
tantes dentro da relação da psicoterapia ticos de manter uma posição firme sobre as
com a psicanálise. Propus uma sequência características próprias da psicanálise e das
de nove perguntas, com um breve sumá- psicoterapias psicanalíticas, com suas esfe-
rio após cada uma delas, relacionando-as ras diferenciadas de aplicação em relação à
com as principais posições, frequentemen- diversidade das formações psicopatológicas.
te di­cotomizadas, que eram assumidas por Isso, é claro, se tornou mais importante à
proponentes ilustres dos vários pontos de medida que os quadros sintomáticos mais
vista. O que se tornou claro, a partir da clássicos, em torno dos quais as concepções
minha listagem, foi que as questões e as psicanalíticas originais foram elaboradas,
controvérsias que tinham caracterizado os minguavam em nossos consultórios.
relatórios daquela mesa-redonda de uma Os três escolhidos para esse Simpósio,
década e meia antes ainda estavam entre Gill, Rangell e Stone, tinham estado essen-
30 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

cialmente de acordo durante os debates do significativamente modificadas dos outros


início da década de 1950, representativos dois protagonistas da mesa-redonda de
da então posição “clássica” da maioria (que 1979.
se mantinha associada à concepção de um Quem mudou mais radicalmente
espectro de psicoterapias, com uma cris- durante esse intervalo de tempo foi Gill, o
talização característica de cada modalida- qual, seguindo Knight, tinha sido o mais
de terapêutica diferenciada ao longo dele, claro, no início da década de 1950, em seus
cada uma com sua aplicação e indicação distintos delineamentos de psicanálise,
específicas a determinado segmento de psicoterapia expressiva e psicoterapia de
pacientes, nosologicamente coerente). Es- apoio, cada uma com diferentes técnicas
sa seleção de três autores que, um quarto e objetivos e indicada para um segmento
de século antes, tinham falado com tanta diverso do espectro psicopatológico. A mu-
unidade tornou ainda mais impressionan- dança radical na percepção de Gill foi uma
te a divergência de opiniões – exatamente consequência direta de sua preocupação
sobre as mesmas questões – que marcou com a crescente diluição da primazia da
seus discursos em 1979. Foi essa mudança, interpretação transferencial como sendo
mais uma vez importante, que eu denomi- o principal critério da psicanálise e do que
nei de “a terceira era” no desenvolvimen- era psicanalítico:
to da psicoterapia psicanalítica dentro da
psicaná­lise, a era atual, do “consenso frag- a) a interpretação mais precoce da trans-
mentado”. O amplo consenso (a despeito ferência, incluindo a busca diligente de
dos desvios significativos de Alexander e todas as possíveis alusões implícitas a ela
Fromm-Reichmann) que tinha caracteri- b) o foco no “aqui-e-agora”, em oposição à
zado a corrente principal do pensamento predominância genética na interpretação
psicanalítico nessa área por mais de duas da transferência
décadas está em um estado fragmentado c) a elaboração mais completa de todas as
que ainda persiste hoje, vinte anos depois. implicações do que ele chamava de pers-
Na realidade, foram as concepções de pectiva de “duas pessoas”, em oposição
Stone, as de nuanças mais sutis em 1954, à perspectiva de “uma pessoa”, ou seja,
que sobreviveram mais inalteradas no de- das contribuições para a transferência
correr dos anos.26 Em suas concepções por parte dos dois participantes
da maior orientação à realidade por parte
do psicoterapeuta psicanalítico, das dife- Aqui, quero apenas examinar as im-
renças sutis entre a natureza do processo plicações das mudanças de Gill sobre sua
interpretativo na psicanálise e na psicote- concepção de transferência por concepções
rapia psicanalítica e das dificuldades em (significativamente modificadas) sobre a
separar as abordagens mais interpretativas natureza da psicanálise comparada com a
(expressivas) das menos interpretativas ou psicoterapia. Ele tornou específicas essas
não interpretativas (de apoio), Stone exi- implicações no Simpósio de Atlanta, em
biu uma notável consistência de pontos de 1979, publicadas em uma versão revisada
vista durante todo o intervalo de tempo de em 1984.
seus escritos sobre o tema, desde seu pri- Gill27 começou revendo os “critérios
meiro ensaio, de 1951, até o mais recente, intrínsecos” pelos quais a análise costuma
de 1992. Era uma constância de perspectiva ser definida (“a centralidade da análise da
que contrastava nitidamente com as visões transferência, um analista neutro, a indu-
Psicoterapia de orientação analítica 31

ção de uma neurose de transferência re­ darei que limitemos rigorosamente as


gressiva e a resolução dessa neurose por indicações para psicoterapia psicanalí-
técnicas apenas interpretativas, ou pelo tica, e [em vez disso] pratiquemos pri-
mariamente psicanálise como pretendo
menos principalmente por interpretação”),
defini-la.27 (grifo nosso)
bem como os “critérios extrínsecos” comu-
mente indicados (“sessões frequentes, o O que vemos aqui é uma proposta
divã, um paciente relativamente bem in- para assimilar à psicanálise o que Gill, em
tegrado ou que seja considerado analisável 1954, esforçara-se para demarcar como
e um psicanalista totalmente treinado”). separado, isto é, a psicoterapia expressiva,
A partir disso, Gill27 referiu seu ponto de antes vista como uma área relacionada à
partida: psicanálise, mas bem distinta dela; ou, em
outras palavras, o autor propôs borrar, e
A questão da relação entre psicanálise talvez suprimir completamente, todas as
e psicoterapia é ainda mais importan- diferenças cuja manutenção ele um dia
te na prática hoje do que era em 1954,
devido às dificuldades práticas em
acreditou ser vital. De fato, isso retomou a
manter os critérios extrínsecos comu- posição de Alexander, a qual Gill outrora
mente aceitos da análise [...]. A ques- rejeitara. Ele evidentemente reconheceu a
tão se torna: o quanto o conjunto de base para essas posições radicalmente al-
critérios extrínsecos pode ser amplia- teradas: “A reconsideração que estou pro-
do antes que o analista possa decidir- pondo é resultado de minhas visões mo­
-se por psicoterapia em vez de psica- dificadas sobre a transferência e sua análi-
nálise?
se”.27
Em resposta a essa pergunta, Gill27 Além disso, a centralidade da análi-
declarou: se da transferência é [isoladamente]
o aspecto mais característico da psica-
Eu diria que, com a definição da técni- nálise. É o que a diferencia da psicote-
ca analítica à qual eu finalmente che- rapia. Resta-me tentar mostrar que ela
garei, esta técnica deverá ser ensinada pode ser mantida mesmo em condi-
a todos os psicoterapeutas. Se ela será ções ampliadas de critérios externos.27
empregada com sucesso ou não de- (grifo nosso)
penderá do treinamento e do talento
natural para o trabalho de cada um.
Gill, então, desenvolveu suas ideias
sobre como os critérios externos mencio-
E ainda:
nados – frequência, divã, duração e in-
[...] quero dizer que a técnica analíti- determinação do processo, entre outros
ca, da forma como a definirei, deverá – poderiam ser secundários e dispensados
ser empregada tanto quanto possível dentro de um trabalho psicanalítico apro-
mesmo se o paciente vier com menos priado. Declarou que, central a todas as
frequência do que o usual em psica- visões sobre as dimensões externas da ex-
nálise, usar a cadeira em vez do divã,
periência psicanalítica, estava uma
não estiver necessariamente compro-
metido com um tratamento mais lon-
go, for mais doente do que o paciente [...] suposição implícita sobre o pro-
considerado analisável e mesmo que o cesso psicanalítico que gostaria de
terapeuta seja relativamente inexpe- questionar. O de que a análise seja
riente. Em outras palavras, recomen- uma proposição do tipo tudo-ou-
32 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

-nada, gerando seus resultados posi- psicoterapia analítica, embora reconhecen-


tivos apenas se levada até o fim [...]. do a “infiltração” da psicanálise pelas téc-
Essa crença costuma ser uma vã ilu- nicas psicoterapêuticas. Rangell28 afirmou:
são. Freud comparava a interrupção
de uma análise com a interrupção de Não há análise sem alguns desses me-
uma cirurgia. Eu sugiro, ao contrá- canismos [psicoterapêuticos] [...]. Não
rio, que, na forma modificada de con- há caso analítico tratado apenas por
duzi-la que estou propondo, a análi- interpretação [...]. Se isso fosse um
se possa ser um processo com bene- pré-requisito, nenhum tratamento se
fícios progressivamente cumulativos, qualificaria como analítico.
podendo ser interrompida em vários
pontos, sem a necessária perda do que
Esse é o ponto crucial do argumento
foi conquistado.27
de Rangell,28 com base, segundo ele, em
Seguramente, estabelecer a psicaná- sua variada prática clínica de tempo inte-
lise como um empreendimento tudo-ou- gral, durante quase quatro décadas:
-nada é, de certo modo, uma postura vazia,
Desde as comparações de 1954, a cres-
uma vez que a análise pode ser interrom-
cente experiência e a precisão técnica
pida em todos os seus estágios intermediá- têm levado a uma diminuição das di-
rios, além do que, naturalmente em teoria, ferenças entre as duas [psicanálise e
a análise nunca está completa. Isso não é, psicoterapia dinâmica].
entretanto, o mesmo que amalgamar toda
a psicoterapia expressiva com a psicanálise, Concluindo, declarou:
como Gill agora faz, desde que atendida a
exigência da completa primazia da inter- Como observação empírica de longo
alcance durante esses anos, há, em nú-
pretação da transferência no aqui-e-agora. meros, uma grande zona de fronteira,
A única pergunta restante, então, era na qual os procedimentos terapêuticos
o que, para Gill, constituiria a psicotera- são praticados em uma área cinzenta
pia que não fosse análise. Nesse ponto, ele entre “psicanálise com parâmetros” e
propôs o nome “psicoterapia psicanalítica” psicoterapia intensiva sistemática, mas
para designar toda aquela abordagem tera- que não é verdadeiramente psicanáli-
pêutica que não interpretasse sistematica- se. Minha crença, hoje, é que ainda é
possível traçar uma linha entre as duas,
mente a transferência, isto é, o que Knight, embora também seja verdadeiro que,
a princípio, e Gill, depois dele, chamaram, em muitos casos, essa linha seja difícil
nas décadas de 1940 e 1950, de “psicotera- de definir.28
pia de apoio de orientação psicanalítica”.
Houve, contudo, uma terceira posi-
ção no Simpósio de 1979, a de Rangell, in-
termediária entre a opinião essencialmente Esse panorama de posições cristalizadas e bas-
inalterada de Stone e o retorno radical, por tante discrepantes sobre a natureza da relação
parte de Gill, às concepções outrora rejeita- entre a psicanálise e as psicoterapias psicana-
das de Alexander, às quais se sentiu atraí­ líticas – conforme resumido pelos três protago-
nistas do Simpósio de 1979, que tinham estado
do como uma consequência lógica de suas
tão unidos em seus pontos de vista durante os
próprias mudanças na concepção essencial debates na década de 1950 – reflete o que cha-
do empreendimento psicanalítico. A posi- mei de “a terceira era” na história dessa rela-
ção modificada de Rangell manteve a clare- ção, a era atual do consenso fragmentado.
za conceitual das diferenças entre análise e
Psicoterapia de orientação analítica 33

Atualmente, mais de três décadas de- 1. o foco na aliança de tratamento (a alian-


pois do surgimento desse consenso frag- ça terapêutica de Zetzel29 ou a aliança
mentado, a natureza da psicoterapia psica- de trabalho de Greenson30 como com-
nalítica (o que a define e a constitui, como ponentes principais do relacionamento
se relaciona com, ou é diferenciada, da pró- terapêutico – remontando diretamente
pria psicanálise) – agora uma preocupação a Sterba31)
universal, e não mais caracteristicamente 2. o foco na natureza do relacionamento
norte-americana – torna-se mais complexa terapêutico, como incorporando a
e até mais ambígua e problemática à medi- atitude médica humanizadora,32 e no
da que é debatida nos vários centros psica- papel da “nova experiência integra-
nalíticos ao redor do mundo, cada um com dora”, permitida no relacionamento
suas próprias pressões socioeconômicas, transferencial ao “novo objeto” 33 –
sua história e ecologia psicanalíticas singu- remontando a Balint34 e, ainda mais
lares, suas variadas lealdades teóricas (me- anteriormente, aos muitos ensaios
tapsicológicas) e suas convenções linguísti- germinais de Ferenczi35
cas e suportes filosóficos (epistemológicos) 3. os modelos hierárquico e evolucioná-
característicos. rio, desenvolvidos diversamente por
Chamo isso, agora, de um mundo Gedo e Goldberg 36 e por Tähkä, 37
sem consenso. Duas tendências principais nos quais os parâmetros da própria
marcaram essa mudança maciça, apro- psicanálise, conforme originalmente
fundada (e solidificada) nas mais de duas conceitualizada para pacientes classi-
décadas desde o Simpósio de 1979, da luci- camente neuróticos, estenderam-se,
dez e aparentes certezas da década de 1950 de forma gradual, para “além da inter-
para nosso mar contemporâneo de vozes pretação”,38 à medida que pacientes
divergentes, frequentemente discordantes, mais doentes e mais desorganizados
sobre essas questões. Uma foi a elaboração foram incluídos na esfera de ação psi-
gradual, dentro da própria psicanálise, do canalítica – sendo bastante obscuro o
papel do relacionamento psicanalítico (à ponto de cruzamento da fronteira da
parte ou além da interpretação) como um psicoterapia psicanalítica
determinante igual e interativo, junto com 4. o desenvolvimento paralelo, na Grã-
a interpretação verídica, da ocorrência do -Bretanha, por Suttie, Fairbairn, Gun-
insight e da efetuação de uma mudança te- trip, Balint, Bowlby, Winnicott e seus
rapêutica; e a outra, obviamente relaciona- muitos sucessores do Grupo Inter-
da, foi a crescente consciência e aceitação, mediário ou Independente, do foco
na América do Norte – o lar original do (internalizado) objeto-relacional
empreendimento da psicoterapia psicana- 5. paralelamente a isso tudo, a atual “vi-
lítica –, da diversidade teórica que passou rada relacional” na psicanálise norte-
a caracterizar a psicanálise desde os tempos -americana, lançada pelo influente
de Freud. livro de 1983, de Greenberg e Mitchell,
O crescente foco no relacionamento remontando, em suas raízes, à “psiquia-
psicanalítico como fator principal na mu- tria interpessoal” de Sullivan,39 com seu
dança da nossa compreensão sobre a pró- foco desenvolvido sobre a interação de
pria essência da terapia psicanalítica pode duas subjetividades (do analista e do
ser considerado, na América do Norte, sob analisando), dentro da matriz trans-
uma variedade de rubricas: ferência-contratransferência, como
34 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

a iniciadora de mudança terapêutica resultados terapêuticos tornou-se cada vez


(i.e., a mudança da psicologia de “uma mais evidente não apenas com os pacien-
pessoa” para uma psicologia de “duas tes mais doentes, como com transtornos
pessoas”) da personalidade narcisista e com organi-
6. a já comentada descrição dos aparente- zações de personalidade borderline, como
mente novos pacientes paradigmáticos também com os pacientes “neuróticos nor-
de nosso tempo, os transtornos da mais”, considerados classicamente os mais
personalidade narcisista e a psicologia acessíveis à psicanálise não modi­ficada.
do self,24,25 bem como a organização de
personalidade borderline e a abordagem
psicanalítica modificada (ego-estrutu-
ral e objeto-relacional amalgamadas) Outra tendência importante na psicanálise, le-
vando à crescente complexidade e ambiguida-
de Kernberg, 23 ambas declaradas
de que marcam a fronteira comum psicanáli-
aplicações da própria psicanálise (ou se-psicoterapia, e igualmente responsável pela
psicanálise “modificada”, ou até pos- progressiva fragmentação do consenso de 1954
sivelmente psicoterapia psicanalítica?) (nas semelhanças e nas diferenças) sobre essa
àqueles pacientes com transtornos de relação, foi o crescente reconhecimento, na psi-
ego mais extensos e profundos canálise norte-americana, de que o paradig-
ma metapsicológico da psicologia do ego, por
muito tempo considerado a verdadeira expres-
Todas essas formas de conceituali-
são moderna da psicanálise criada e legada por
zar o processo de mudança na psicanálise Freud, simplesmente não mais refletia o esta-
que estão “além” da interpretação, ou são do das coisas na psicanálise mundial. Diferen-
de outro tipo que não a interpretação, tor- temente, passamos a viver em um mundo de
naram progressivamente mais difícil traçar crescente diversidade psicanalítica (ou plura-
diferenciações entre a chamada psicanálise lismo, como viemos a chamar), de muitas (e ni-
e as variedades de psicoterapia psicanalí- tidamente diferentes) metapsicologias psica-
nalíticas – psicologia do ego dos dias atuais
tica. O que ocasionou essas mudanças na
(teoria do conflito contemporâneo), kleiniana (e
conceitualização da teoria e da técnica do suas extensões por Bion), objeto-relacional bri-
trabalho psicanalítico (e psicoterapêutico)? tânica, lacaniana (e francesa não lacaniana),
Para simplificar, o modelo austero40 da psicologia do self, relacional ou intersubjetiva
própria psicanálise e a demarcação distinta ou social-construtivista (norte-americana), en-
das psicoterapias psicanalíticas expressivas tre outras – que, com suas fronteiras delinea-
e de apoio associadas não funcionaram das de formas conceitualmente diferentes, na-
turalmente tornam muito mais difícil qualquer
nem refletiram de modo adequado e sufi-
distinção global mais precisa entre psicanálise
ciente os eventos do processo terapêutico e psicoterapia.
e as influências transformadoras e inte-
rativas reconhecidas dentro dele. Isso foi
claramente articulado por Rangell,28 em
seu relato no Simpósio de 1979, discutin- Minha própria perspectiva sobre o
do essas formulações 25 anos mais tarde, que, em face desse pluralismo teórico glo-
e por Wallerstein,21 nos escritos detalha- bal dentro da psicanálise, ainda nos man-
dos de experiências e achados de 30 anos tém juntos, como partidários comuns de
do Projeto de Pesquisa de Psicoterapia da uma ciência e profissão psicanalítica com-
Fundação Menninger. Essa falta de ajuste partilhadas, expliquei detalhadamente em
convincente entre o modelo e o processo e outros textos.41-43
Psicoterapia de orientação analítica 35

Uma implicação significativa desse que é psicanálise e de como ela funciona, é


mar de mudanças para as relações atuais­ muito mais difícil traçar linhas conceituais
entre as psicanálises e as psicoterapias psi- heuristicamente úteis entre a psicanálise, a
canalíticas é que o conceito familiar de psicanálise modificada e (apenas ou mera-
“análise selvagem”, articulado por Freud mente) a psicoterapia psicanalítica. Depen-
em 1910, atualmente perdeu seu significa- dendo da lealdade teórica do observador
do e deve ser substituído pela oportuna su- clínico ou do investigador-pesquisador,
gestão de Schafer,44 de “análise compara- dentro da gama de perspectivas teóricas
tiva”. Nem “análise selvagem” nem, muito psicanalíticas, essas linhas demarcatórias
menos, “psicoterapia selvagem”, nesse sen- serão traçadas de modos muito diferentes.
tido, têm qualquer sustentação conceitual Isso, em resumo, representa o estado dessas
no mundo psicanalítico fluido dos dias de questões hoje.
hoje. É evidente que todos os elementos do Assim, esta é uma descrição bastan-
desenvolvimento conceitual, remontando te condensada da evolução do relaciona­
em herança à ênfase original de Ferenczi mento das psicoterapias psicanalíticas com
sobre o relacionamento analítico, estavam sua matriz e origem, a psicanálise, desde
consignados, antes do desenvolvimento de as primeiras elaborações que privilegia-
psicoterapias derivadas explícitas, à esfera vam apenas esta até o momento complexo
das psicoterapias analíticas. Agora que es- e fragmentário da problemática e muito
sas influências foram reconceitualizadas contestada natureza do seu relacionamen-
como centrais ao nosso entendimento do to atual.

PONTOS-CHAVE DO CAPÍTULO

1. Ao longo das décadas de relacionamento entre psicanálise e psicoterapia analítica, o primeiro período
considerava tudo o que não fosse psicanálise como apenas sugestão.
2. O segundo período foi o da estabelecida diversidade de objetivos e técnicas dentro de uma unidade de
teoria.
3. Com o aprofundamento e a clarificação da natureza das psicoterapias analíticas e as pesquisas que
evidenciavam crescentes áreas de superposição, surgiu o período do consenso fragmentado.
4. Mais recentemente, observa-se um período de não consenso, em que cada vez mais há uma noção da
dificuldade em estabelecer limites precisos entre as duas abordagens.
5. Percebe-se que a ação terapêutica, as abordagens técnicas e mesmo os resultados das psicoterapias
psicanalíticas mostram muito mais complexidade em sua correta avaliação do que se supunha. Estu-
dos clínicos comparados e pesquisas realizados em vários centros do mundo têm promovido discussões
teóricas mais abertas e sem a pretensa certeza dos períodos iniciais.

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Psicoterapia de orientação analítica 37

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PARTE II

Fundamentos teóricos
da psicoterapia de
orientação analítica
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2
INTEGRAÇÃO DA PSICANÁLISE
COM AS NEUROCIÊNCIAS*
Mark Solms

Não é difícil entender por que o relacio- conhecidos disseram que ele “não é
namento entre a psicanálise e as neuro­ mais o Gage”.1
ciências deve nos interessar. A psicanálise
é uma ciência da mente, e temos conhe-
cimento, desde tempos remotos, de que Observações como essas, demonstrando que o
cérebro e a personalidade são inextricáveis, tor-
as atividades da mente estão, de alguma
nam claro que o objeto de estudo da psicanálise
forma particular, conectadas aos tecidos está, de algum modo, intrinsecamente ligado ao
do cérebro. Essa conexão foi estabelecida, objeto de estudo das neuro­ciências.
desde o início, em bases clínicas. Ao longo
dos tempos, os médicos reconheceram que
doenças do cérebro – ao contrário daquelas O próprio Freud reconheceu esse
de qualquer outro órgão – tinham efeitos fato em seus artigos de neurologia e con-
imediatos sobre as funções da mente. O tinuou a reconhecê-lo em todos os seus ar-
célebre caso de Phineas Gage, relatado pela tigos de psicologia. Contudo, a psicanálise
primeira vez em 1848, é classicamente ci- desenvolveu-se quase completamente in-
tado nesse contexto. Uma vareta de socar dependente das neurociências. Todos nós
pólvora atravessou os lobos frontais de seu sabemos a razão disso: apesar de Freud2
cérebro, com os seguintes resultados: reconhecer que “o aparelho mental [...] é
também conhecido por nós sob a forma
Sua saúde física é boa e estou inclina- de preparação anatômica [...]”, sempre
do a dizer que ele recuperou-se, [mas] recomendou que os psicanalistas perma-
sua mente foi radicalmente alterada,
necessem afastados das neurociências. À
tão decisivamente que seus amigos e
primeira vista, parece haver uma contra-
dição nessa postura, mas logo adiante será
esclarecida essa posição de Freud.
* Solms, M. Preliminaries for an integration of psy-
O simples fato de que psicanálise e
choanalysis and neuroscience. In: Winer J. Annual
neurociências desenvolveram-se em sepa-
of psychoanalysis. Hillsdale: Analytic; 2000. v. 28. rado por tanto tempo indica a realidade
p. 179-200. de que, não obstante a óbvia ligação entre
42 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

os dois campos, há muitos aspectos que os de Freud de seu Projeto e em sua descrição
separam. Deixando de lado as complexida- dele como “um tipo de aberração”.3 Por
des filosóficas da relação mente/corpo, po- fim, concluiu que “no final eu posso ter que
demos afirmar que, na prática, psicanálise e aprender a satisfazer-me com a explicação
neurociências têm objetos de estudo sepa- clínica das neuroses”.3,4 (grifo nosso) Essa
rados, que empregam diferentes métodos observação sobre explicação clínica, como
de investigação e que o conhecimento que se verá em seguida, é fértil em implicações
geram é, portanto, de dois tipos distintos. para nossa ciência.
Isso impõe problemas óbvios para aqueles É meu ponto de vista que a causa do
de nós que desejam forjar ligações entre es- fracasso de Freud em integrar seus achados
ses dois corpos de conhecimento, como se clínicos com a neurociência de sua época não
pode perceber pela literatura que começou foi apenas a insuficiência de conhecimen-
a acumular-se na fronteira comum entre to neurocientífico disponível na década de
eles durante as últimas décadas. 1890, como também a ausência de um méto-
do adequado para relacionar os dados neuro-
lógicos e psicológicos então disponíveis.
O primeiro pesquisador a explorar essa relação
foi, naturalmente, o próprio Freud.
Acredito, ainda, que, a despeito do aumento rá-
pido e exponencial em nosso conhecimento nos
Em meados da década de 1890, ele ramos das neurociências, toda tentativa subse-
redigiu uma série de rascunhos sobre o as- quente de correlacionar conhecimento psicana-
sunto, um dos quais sobrevive até hoje na lítico e neurocientífico topou com o mesmo pro-
blema básico que Freud encontrou cem anos
forma de um documento conhecido como
atrás – ou seja, a falha em desenvolver um mé-
Projeto para uma psicologia científica. Nesse todo válido para relacionar os achados clínicos
trabalho, Freud tentou traduzir o que era da psicanálise com o tipo de conhecimento ge-
conhecido na época, sobre as operações rado pelas várias ciências neurológicas.
profundas da mente, para a linguagem da
neurofisiologia e da anatomia. O método
que empregou para conseguir essa tradu- Todos os pesquisadores que escreve-
ção foi, como ele reconheceu, de “imagina- ram sobre esse assunto, desde Freud5-44 –
ções, transposições e suposições”3 (grifo nos- apesar do brilhantismo de algumas de suas
so). Em outras palavras, Freud baseou-se intuições –, basearam-se na mesma meto-
na especulação. dologia fundamental de Freud com relação
Naquela época, era tão grande a lacu- à maneira como correlacionaram os dois
na entre o conhecimento que Freud tinha campos de pesquisa, isto é, pela especulação.
obtido pelo método de investigação psica- Essas são algumas das razões que nos
nalítica sobre as operações internas da men- conduziram à atual situação: um súbito
te e o conhecimento que estava disponível, aumento de publicações nessa área, nos úl-
a partir de métodos de estudo fisiológicos timos anos, e com uma quantidade de mo-
e anatômicos sobre as operações internas delos concorrentes – em muitos aspectos
do cérebro, que o médico não teve escolha contraditórios – da organização neurológi-
senão recorrer à especulação para tentar ca das funções mentais profundas, que es-
transpô-la. Essa lacuna desempenhou um tudamos na psicanálise, sem que tenhamos
papel importante no posterior abandono qualquer base racional para decidir entre
Psicoterapia de orientação analítica 43

eles. Como escolher entre pontos de vista ca, o que se deu após um breve flerte com
rivais? Tenho certeza de que concordarão a psicofarmacologia. Na época em que se
que precisamos ser capazes de decidir es- dedicou à neurologia clínica, esta ainda era
sas questões, pois, se a mente e o cérebro uma disciplina jovem, baseada quase intei-
funcionam ambos de formas regulares e ramente em um único método. Este era co-
legítimas, e se essas funções e regularidades nhecido como correlação clínico-anatômica
estão relacionadas umas às outras de for- e foi transportado para a nova especialidade
mas legítimas semelhantes – e temos toda da neurologia por alguns dos profissionais
a razão para acreditar que estejam –, então mais talentosos e competentes da arte da
deveríamos poder decidir essas questões de medicina interna. Como seu nome sugere,
formas científicas efetivas. a medicina interna ocupava-se do diagnós-
Meu primeiro objetivo neste capítulo tico e do tratamento de doenças ocorrendo
é apresentar um método pelo qual possa- no interior do corpo, que, por isso, podiam
mos realizar essa tarefa científica de forma não ser diretamente percebidas no caso clí-
efetiva. Pretendo fazê-lo, primeiramente, nico vivo e tinham que ser deduzidas por
abordando a origem desse método; em suas manifestações indiretas, na forma de
segundo lugar, demonstrando como ele sintomas e sinais externos. Tinha-se que
funciona; e, em terceiro, relatando, muito esperar a morte do paciente e o relatório
brevemente, alguns dos achados que tal do patologista para determinar se o diag-
método está começando a produzir sobre nóstico estava correto ou não. Com o acú-
como as camadas mais profundas da mente mulo de experiências ao longo das gerações
são organizadas neurologicamente. acerca de que tipo de apresentação durante
a vida tendia a correlacionar-se com quais
achados patológico-anatômicos na necro­
PERSPECTIVA HISTÓRICA psia, gradualmente se tornou possível para
os médicos internistas reconhecer cons-
A fim de cumprir esses objetivos, vamos telações patognomônicas de sintomas e
recuar na história, traçar as origens da psi- sinais. Desse modo, podia-se prever, com
canálise a partir de um ramo particular razoável precisão, qual era o processo de
da neurociência e mostrar como o méto- doença subjacente e como conduzir seu
do psicanalítico originou-se desse ramo; tratamento. Essa foi a origem do conceito
então, delinearemos os desenvolvimentos de síndromes clínicas, com o qual, presumo,
subsequentes nesse campo, a fim de evi- muitos estejam familiarizados.
denciar que ele ainda continua sendo o A neurologia tornou-se uma espe-
ponto de contato natural entre as duas dis- cialidade separada da medicina interna
ciplinas. No processo, espera-se ficar de- quando ficou cada vez mais evidente que
monstrado que, assim como acontece em não apenas o cérebro – como qualquer ou-
nosso trabalho clínico, um problema que tro órgão – estava sujeito às suas próprias
parece insoluvelmente complexo em sua patologias especiais e peculiares a seus teci-
forma presente e madura, com frequência dos, mas também que um dano a diferen-
acaba tendo uma estrutura relativamente tes partes do cérebro produzia uma ampla
simples quando investigamos suas origens. variedade de manifestações clínicas. Quan-
Freud iniciou sua carreira científica do Freud estagiava em neurologia clínica,
como neuroanatomista, antes de voltar sua no início da década de 1880, esta foi a arte
atenção aos problemas da neurologia clíni- que ele aprendeu: diagnóstico e tratamen-
44 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

to racionais de doenças neurológicas pelo é, a da localização das funções mentais. No


método da síndrome, com base no conhe- início da década de 1860, Pierre Paul Bro-
cimento obtido pelo método de correlação ca demonstrou que uma doença em uma
clínico-anatômica. De fato, sabemos que parte específica do cérebro – marcada pela
Freud era um profissional particularmente letra A na Figura 2.1 – produzia um sinto-
talentoso nessa arte.45 Na época, ele publi- ma mental altamente característico, isto é,
cou uma série de artigos que provam sua a perda da fala. Com base nessa correlação
habilidade. clínico-anatômica, Broca localizou a facul-
Visto que as lesões cerebrais causa- dade da fala naquela pequena parte do cé-
vam alterações mentais, o método clínico- rebro. Carl Wernicke, 10 anos mais tarde,
-anatômico poderia ter outra utilidade, isto demonstrou que o dano a uma parte dife-

Figura 2.1
Psicoterapia de orientação analítica 45

rente do cérebro – marcada pela letra B na de que era, como colocou, apenas “um jogo
Figura 2.1 – produzia um sintoma mental estúpido de permutações”.49 Foi assim que
também diferente, isto é, perda da capaci- aconteceu. Mesmo sendo verdade que o
dade de entender a linguagem falada – e ele método clínico-anatômico representava a
também localizou essa função. Essas duas única técnica de pesquisa viável, disponível
descobertas germinais foram seguidas por para o neurologista do século XIX interes-
uma rápida série de correlações clínico- sado nas funções mentais, ele foi, na verda-
-anatômicas acerca de uma variedade de de, usado de formas sutilmente diferentes
outras funções mentais, tais como a habi- dentro de duas escolas de neurologia rivais.
lidade de movimentos, o reconhecimento Na escola austro-alemã, dentro da qual
de objetos e até a “inteligência”. Com base Freud foi treinado, a ênfase estava conser-
nisso, uma ampla série de faculdades psi- vadoramente no lado anatômico da equa-
cológicas foi localizada dentro de um mo- ção clínico-anatômica. De acordo com
saico de supostos “centros” na superfície isso, o objetivo primário da ciência neu-
dos hemisférios do cérebro. Essa foi a ori- rológica não era simplesmente reconhecer
gem de uma subespecialidade das ciências quais síndromes correlacionavam-se com
neurológicas, conhecida como neurologia quais lesões, mas explicar o mecanismo
comportamental. do fenômeno clínico – e as funções men-
Pelos artigos de Freud46-48 daquela tais normais correspondentes – em termos
época, sabemos que ele era inteiramen- anatômicos e fisiológicos. Essa abordagem
te versado nos métodos e nas descobertas refletia os ideais mais amplos da escola de
desse novo ramo excitante da ciência. De medicina de Helmholtz.
fato, há muitas evidências sugerindo que a Na escola de neurologia francesa, por
localização clínico-anatômica das funções sua vez, a ênfase estava mais no lado clíni-
mentais era objeto de especial interesse pa- co da equação. De acordo com essa escola,
ra ele. que reunia a personalidade de Charcot e
as famosas enfermarias do Hospital Sal-
pêtrière de Paris, a tarefa principal da ciên­
Então, Freud estava ciente, antes de conceber a cia neurológica não era tanto explicar os
psicanálise, de que havia um método bem es- vários quadros clínicos, mas identificá-los,
tabelecido pelo qual era possível correlacionar classificá-los e descrevê-los. A seguinte ci-
funções mentais, em uma base clínica, com as tação ilustra graficamente as diferenças en-
funções de partes específicas do cérebro. Mas,
se era assim, por que Freud não usou esse mé-
tre essas duas formas de aplicar o método
todo para identificar os correlatos neurológicos clínico-anatômico:
dos processos psicológicos que descobriu mais
tarde? E por que nós não o utilizamos hoje? Charcot [...] nunca se cansou de de-
fender os direitos do trabalho pura-
mente clínico, que consiste em ver e
Freud era um médico incomumen- ordenar coisas, contra as usurpações
te talentoso e não levou muito tempo pa- da medicina teórica. Em certa ocasião,
éramos um pequeno grupo de estu-
ra dominar o método sindrômico em seu
dantes estrangeiros, que, educados
trabalho diagnóstico e o método clínico- na fisiologia acadêmica alemã, testá-
-anatômico nas pesquisas que desenvolvia. vamos sua paciência com nossas dú-
Também não demorou a descobrir os limi- vidas quanto às suas inovações clíni-
tes desse método. Logo chegou à conclusão cas. “Isso não pode ser verdade”, um
46 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

de nós objetava, “pois contradiz a teo­ blema era quase insolúvel. Como explicar,
ria [da visão] de Young-Helmholtz”. em termos anatômicos e fisiológicos, o
Ele não retrucou com um “tanto pior mecanismo de uma síndrome clínica que
para a teoria; primeiro os fatos clíni-
não tinha qualquer base anatomopatológi-
cos” ou qualquer outra expressão com
o mesmo efeito; disse-nos, entretanto, ca? Como resultado, alguns neurologistas
alguma coisa que nos marcou muito alemães, entre eles professores de Freud,
mais: “Teoria é bom; mas ela não im- desenvolveram várias teorias especulativas
pede as coisas de existirem”.50 elaboradas, enquanto outros, apenas, de-
claravam que as neuroses não eram temas
Essa era uma citação favorita de adequados para atenção científica séria: se
Freud. Fato bem conhecido, durante seu não havia lesão anatômica, não havia sín-
período de estudos na Salpêtrière, em mea­ drome clínica.
dos da década de 1880, Freud afastou-se Durante o período crucial em que
da influência de algumas das figuras domi- Freud estudou com Charcot, esse era o as-
nantes da escola de neurologia austro-ale- sunto que mais o preocupava. Inicialmen-
mã para colocar-se sob a influência direta te, tornou-se um discípulo devotado de
e pessoal de Charcot. Essa mudança inter- Charcot; no retorno a Viena, expunha seus
feriu decisivamente em seu pensamento e, pontos de vista sempre e onde quer que
em particular, em sua atitude em relação à pudesse – para grande irritação de seus an-
localização clínico-anatômica. A razão para tigos professores. Entretanto, com a cres-
essa mudança foi simples. Ainda que as di- cente experiência clínica e sob a influên­
ferenças entre as escolas de neurologia ale- cia do neurologista inglês John Hughlings
mã e francesa fossem complementares em Jackson, Freud começou a afastar-se de
relação à maioria dos transtornos neuroló- Charcot e a desenvolver um ponto de vis-
gicos físicos, com uma escola enfatizando ta bastante singular para a época. Charcot
o lado anatômico e a outra o lado clínico satisfazia-se em somente descrever as sín-
da equação, havia um grupo de doenças dromes clínicas da histeria e da neuraste-
– consideradas como estando na esfera da nia, na suposição de que seus correlatos
neurologia da época – que derrubava as di- anatomopato­lógicos (que acreditava terem
ferenças entre as duas abordagens. uma etiologia hereditária) eventualmen-
É o caso das neuroses, da histeria e te produziriam os avanços necessários em
da neurastenia em particular, nas quais ne- técnicas microanatômicas e em outras téc-
nhuma lesão demonstrável do sistema ner- nicas laboratoriais.
voso podia ser encontrada na necropsia pa- Freud, ao contrário, acreditava – mais
ra explicar a sintomatologia clínica obser- ou menos entre 1887 e 1893 – que um
vada durante a vida do paciente. Isso não entendimento dessas síndromes clínicas
constituiu um problema sério para a escola nunca seria encontrado na anatomia pa-
francesa: Charcot simplesmente continuou tológica, ou pelo menos não pelo método
a descrever as síndromes clínicas patogno- de correlação clínico-anatômica. Baseava
mônicas da histeria e da neurastenia, como essa conclusão em duas importantes ob-
tinha feito com inúmeras outras doen­ servações, que fizera primeiro em relação
ças “nervosas”. As neuroses eram, para a outro tema na neurologia, o qual lhe ti-
Charcot, como Freud50 escreveu na época, nha revelado os limites do método clínico-
“apenas outro tópico na neuropatologia”. -anatômico: o problema da afasia – ou se-
Entretanto, para a neurologia alemã, o pro- ja, precisamente o tema ao qual o método
Psicoterapia de orientação analítica 47

clínico-anatômico tinha sido aplicado pela quanto ainda era um neurologista de pres-
primeira vez (por Broca e Wernicke) para a tígio. Isso é salientado pelo fato de que ele
localização de funções mentais há mais de rapidamente veio a fazer observações se-
20 anos. melhantes em relação a funções não psico-
As observações críticas de Freud47 fo- lógicas, mas igualmente complexas, do cé-
ram as seguintes: primeiro, observou que rebro. Em seus artigos sobre os transtornos
as faculdades psicológicas são complicadas, do movimento voluntário que ocorrem na
com sua própria organização interna com- paralisia cerebral, por exemplo, Freud deu-
plexa, cuja divisão se dá de acordo com a -se ao trabalho de demonstrar que eles não
lógica funcional de sua construção inter- podiam ser localizados. Em uma série de
na, e não de acordo com as leis estruturais monografias sobre o tema,51-53 como em
da anatomia cerebral. As leis dos sistemas seu livro sobre afasia,47 ele invocou fatores
funcionais psicológicos, portanto, não pre- dinâmicos do desenvolvimento, em vez de
cisavam ter nenhuma relação direta com o fatores anatômicos estáticos, para explicar
plano estrutural do sistema nervoso. os vários transtornos do movimento em
termos de rupturas específicas do sistema
funcional complexo que os sustentavam.
Por essa razão, Freud concluiu que as síndro- Foi apenas mais tarde, entre 1893 e
mes psicológicas precisavam ser descritas e 1900, quando a psicanálise nasceu, que
explicadas em seus próprios termos psicológi- Freud aplicou esses princípios à psicopa-
cos. tologia. Esse é um fato de grande impor-
tância, porque, na próxima seção, será
demonstrado como esses princípios foram
A segunda observação, estreitamente subsequentemente desenvolvidos e ex-
relacionada à primeira, foi a seguinte: as pandidos dentro do campo da neurologia
funções psicológicas são, em sua essência, e como um método neurocientífico para
processos dinâmicos; elas se originam de estudar a organização cerebral das funções
uma interação complexa de forças entre mentais foi estabelecido precisamente so-
funções componentes mais elementares e bre tais princípios. Isso é central para nós,
estão constantemente se reestruturando e na busca por um método pelo qual possa-
se readaptando às variações das circuns- mos reunir psicanálise e neurociência.
tâncias. Seus correlatos fisiológicos, desse Antes de seguir adiante, é importante
modo, podem nunca ser localizados den- recapitular e resumir o ponto de vista de
tro de centros anatômicos distintos; elas Freud. Ele foi treinado no método clínico-
devem ser cogitadas como processos – as -anatômico de localização das funções
dinâmicas resultantes de interações entre mentais, dentro da escola de neurologia
os elementos estáticos do sistema nervoso. austro-alemã, que enfatizava o objetivo da
É de importância crucial notar que explicação fisiológica e anatômica. Então,
Freud fez essas observações pela primei- aderiu à escola francesa, que enfatizava o
ra vez não com referência à histeria, ou a lado clínico da equação: a explicação de
qualquer outra neurose, mas em um estudo síndromes clínicas patognomônicas. Ele
sobre a afasia – ou seja, uma síndrome que usou essa abordagem clínico-descritiva pa-
só pode ocorrer no contexto de uma lesão ra dar inúmeras contribuições altamente
cerebral definida. Em outras palavras, essas valiosas à neurologia, primeiramente em
foram conclusões a que Freud chegou en- estudos da afasia, depois da paralisia cere-
48 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

bral e, por último, das neuroses. No decor- Desprezarei inteiramente o fato de


rer desse trabalho, Freud rejeitou o método que o mecanismo mental em que es-
clínico-anatômico da localização das fun- tamos aqui interessados também nos
é conhecido sob a forma de prepara-
ções mentais – na verdade, de localização
ção anatômica e evitarei cuidadosa-
de quaisquer funções complexas – dentro mente a tentação de determinar a lo-
de centros anatômicos circunscritos. calização psíquica por qualquer modo
Freud foi forçado a concluir que o anatômico. Permanecerei no campo
método clínico-anatômico podia ser usa- psicológico e proporei simplesmen-
do apenas para localizar as funções mais te seguir a sugestão de que devemos
elementares, correspondendo, na esfera representar o instrumento que exe-
cuta nossas funções mentais como
mental, às nossas modalidades sensoriais
semelhante a um microscópio com-
primárias (de visão, audição, paladar, en- posto, a um aparelho fotográfico, ou
tre outras), mas que era totalmente impos- a algo desse tipo. Nessa base, a loca-
sível localizar a organização neurológica lização psíquica corresponderá a um
do conjunto das faculdades mentais, que ponto do aparelho em que surge uma
têm princípios de organização supraorde- das etapas preliminares de uma ima-
nados, baseados em sua própria constru- gem. No microscópio ou no telescó-
pio, como sabemos, isso ocorre em
ção interna, a qual muda constantemente
pontos ideais, em regiões nas quais
no processo de seu desenvolvimento e em não se acha situado nenhum compo-
sua adaptação às variações das circunstân- nente tangível do aparelho.
cias. Para Freud, essas funções complexas
surgem da interação dinâmica de uma va- Entretanto, o que Freud preservou e
riedade de funções mais elementares. Ele transportou para o novo campo da psicaná-
concluiu que deveríamos conceber essa lise foi quase tudo o que ele tinha aprendido
interação como ocorrendo entre as estru- como neurologista. Ou seja, continuou a se
turas elementares do cérebro e, portanto, apoiar nos métodos clínico-descritivos da
renunciar à tentação de localizá-las dentro escola da neurologia francesa – com ênfase
daqueles elementos. especial no estudo cuidadoso do caso clíni-
co individual e na identificação de padrões
de sintomas e sinais regulares, com signifi-
Era óbvio para Freud, educado como foi na arte cado patológico particular –; a explicar os
da observação clínica meticulosa, que os fato- fenômenos clínicos em termos de forças e
res essenciais na etiologia e os mecanismos
energias naturais subjacentes (como tinha
das neuroses originavam-se de dinâmicas fun-
cionais complexas desse tipo e que, portanto, sido ensinado por seus primeiros mestres
eles podiam nunca ser localizados. na escola de medicina de Helmholtz); e a
acreditar que essas forças e energias eram,
de fato, algo potencialmente descritível
Isso levou o neurologista Freud a em termos físicos e químicos. Tudo o que
generalizar as conclusões a que tinha che- abandonou foi a noção de que processos
gado em relação à fala, à linguagem e ao psicológicos, que têm organizações funcio-
mo­vimento voluntário para todo o campo nais complexas e dinâmicas, pudessem ser
mental e a escrever as seguintes palavras localizados em áreas anatômicas distintas.
proféticas em A interpretação dos sonhos2 – Daí em diante, em vez de tentar explicar
que marcou a divisão final entre a psicaná- uma síndrome clínica correlacionando-a
lise e o método clínico-anatômico: com o dano hipotético a uma ou outra re-
Psicoterapia de orientação analítica 49

gião anatômica, como Charcot fazia, Freud funcional do aparelho mental em seus
investigava a estrutura psicológica interna próprios termos, usando um método pura-
da síndrome e a explicava em relação a um mente clínico e desconsiderando sua repre-
sistema funcional complexo, que presumia sentação anatômica. Isso deixou a psicanáli-
estar dinamicamente representado entre os se em uma relação muito particular com as
elementos do cérebro. ciências neurológicas. Colocou seus pressu-
postos fundamentais, e seu método básico,
dentro de uma tradição bem estabelecida na
Foi por essa razão que Freud continuou a reco- neurologia comportamental, tradição que
nhecer, durante toda a sua vida científica, que o esteve estreitamente associada com a ênfase
modelo do aparelho mental que criara para justi- clínico-descritiva difundida por Charcot, o
ficar suas observações clínicas era um constru- qual, seguindo Hughlings Jackson, sempre
to provisório, um sistema de relações funcionais rejeitou a noção de que as faculdades men-
que deveria estar representado de algum modo
tais complexas pudessem ser concretamente
nos tecidos do cérebro; e, por isso, continuou a
insistir que nós, na psicanálise, não deveríamos localizadas no cérebro. Refiro-me à escola
confundir os andaimes com a construção. de neurologia dinâmica, que esteve asso-
ciada, com o passar dos anos, a médicos e
teóricos destacados, como Constantin von
Tenho certeza de que todos estão fa- Monakow, Pierre Marie, Henry Head, Kurt
miliarizados com os muitos comentários Goldstein, Aleksandr Romanovich Luria e,
de Freud no sentido de que a psicanálise mais recentemente, Jason Brown.
algum dia voltaria a unir-se à neurociên- A influência desse ramo da neuro­
cia. Quero apenas lembrar que ele sempre ciência aumentou e diminuiu com o passar
insistiu que isso não seria possível até que dos anos. Nos dias atuais, está crescendo de
a neurociência desenvolvesse um método forma significativa, na medida em que es-
capaz de acomodar a natureza complexa, tudos de imagem funcional e de simulação
distribuída e dinâmica dos processos men- por computador têm revelado o “processa-
tais humanos. Citarei apenas um trecho mento distribuído paralelo”, fundamental-
nesse sentido, escrito no ano da morte de mente não localizável e dinâmico, que sub-
Freud:54 jaz a todo funcionamento mental e a todas
as funções complexas do cérebro. A ênfase
A topografia psíquica que aqui de- clínica desse ramo da neurociência, por sua
senvolvi nada tem a ver com a ana-
tomia do cérebro e, na realidade, en- vez, está em decadência; com os enormes
tra em contato com ela apenas num avanços no uso de dispositivos tecnológi-
ponto. [Ele está se referindo às moda- cos auxiliares na medicina, a arte do julga-
lidades sensoriais primárias do siste- mento clínico não é mais tão valorizada, e o
ma perceptual.] O que é insatisfató- fator humano na medicina está sendo per-
rio nesse quadro – e estou ciente disso dido. Ironicamente, poderíamos dizer que
tão claramente quanto qualquer um a psicanálise mantém-se unida a esse ramo
– se deve à nossa completa ignorân-
cia da natureza dinâmica dos proces-
da neurologia como um dos últimos postos
sos mentais. avançados das grandes tradições clínicas da
medicina interna.
Freud insistia que, até que isso fosse Entretanto, a questão importante pa-
entendido, a psicanálise deveria continuar­ ra nossos propósitos (olhar para a frente,
investigando e entendendo a organização­ e não para trás) é que Freud transportou
50 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

da neurologia para a psicanálise um méto- NEUROPSICOLOGIA


do básico – isto é, o clínico-descritivo, ou o
método de análise da síndrome, como mais O que pretendo fazer agora é descrever um
tarde veio a ser conhecido – e uma con- dos principais desenvolvimentos que ocor-
ceitualização básica das relações cérebro- reram desde a morte de Freud no ramo
-comportamento – isto é, o antilocalizacio- das neurociências, do qual a psicanálise se
nismo ou a conceitualização dinâmica, que originou, porque acredito que esse desen-
dá um lugar de honra aos métodos psicoló- volvimento nos fornece um método pelo
gicos de analisar síndromes mentais, inde- qual é possível reunir psicanálise e neuro-
pendentemente de esses sintomas terem ou ciências de uma forma compatível com os
não uma base orgânica. Esse método e seus pressupostos básicos de Freud. Durante o
princípios básicos determinaram o objeto início da década de 1920, um jovem psi-
de estudo da psicanálise, a forma como nos cólogo russo escreveu a Freud solicitando
ocupamos de estudá-lo e, mais importante reconhecimento formal de uma nova so-
de tudo, o tipo de conhecimento que a psi- ciedade psicanalítica que ele havia formado
canálise gera. na cidade oriental de Kazan. Esse homem
Agora, se desejamos integrar conheci- era Aleksandr Romanovich Luria. Freud
mentos desse tipo com conhecimentos so- outorgou seu reconhecimento, e seguiu-se
bre o cérebro, então nosso ponto de contato uma breve correspondência. Alguns anos
natural é com aquele ramo da neurociência mais tarde, Luria mudou-se para Moscou e
que compartilha nossos pressupostos bási- ingressou na Sociedade Psicanalítica Russa.
cos e do qual brotou a psicanálise: a escola Durante um período de cerca de 10 anos,
dinâmica da neurologia comportamental – ele conduziu uma ampla série de pesquisas
ou neuropsicologia, como mais tarde veio psicanalíticas, publicou um vasto número
a ser conhecida. Se tentarmos relacionar o de artigos, monografias e relatos breves
conhecimento psicanalítico, gerado na clí- e conduziu um trabalho clínico em um
nica, com conhecimentos sobre o cérebro, hospital psiquiátrico local, incluindo (cir-
gerados por métodos fundamentalmente culava o boato) a análise da neta de Dos-
incompatíveis, ou por métodos que Freud toievski. Luria foi atraído à psicanálise, ele
rejeitou de forma explícita, então não se- escreveu, porque era o único ramo da psi-
remos apenas confrontados pelo proble- cologia que não só estava solidamente en-
ma insolúvel de termos que apelar para a raizado na ciên­cia natural como estudava a
especulação, mas também precisaremos experiência de vida de seres humanos reais.
reconhecer que podemos estar violando as Entretanto, a corrente da opinião
premissas básicas sobre as quais nossa dis- política na União Soviética logo se voltou
ciplina foi construída. contra a psicanálise; no início da década de
1930 – temendo por seu futuro acadêmico,
senão por sua vida –, Luria retirou-se da
Sociedade Psicanalítica Russa, interrom-
Tenho certeza de que concordarão – e este sem-
peu de forma abrupta todas as atividades
pre foi o ponto de vista mais fundamental de
Freud sobre o assunto – que há pouco propósi- psicanalíticas e proferiu um discurso pe-
to em reunir psicanálise com neurociências se nitente, no qual admitia seus erros ideoló-
isso significar que temos que abandonar tudo o gicos, dizendo, de acordo com a linha do
que a psicanálise representa no processo. partido daquela época, que a psicanálise
“biologizava” o comportamento humano e
Psicoterapia de orientação analítica 51

ignorava suas origens sociais. Esse era um Todas as tentativas de postular que
comentário surpreendentemente ingênuo [...] ideias poderiam ser encontradas
vindo de alguém com um entendimento em unidades isoladas do cérebro fo-
ram tão irrealísticas quanto tentar en-
tão complexo dos ensinamentos de Freud;
contrar uma imagem dentro de um
mas a questão não era essa. Curiosamente, espelho, ou atrás dele.
há evidências que demonstram que Luria
nunca abandonou seu interesse particular
pela psicanálise, quaisquer que fossem seus Entretanto, Luria deu um passo além
pronunciamentos públicos. Consideremos, de Freud, o que representou o avanço fun-
por exemplo, uma carta que ele escreveu damental na neurologia comportamental,
para Oliver Sacks, em meados da década de ou neuropsicologia, como preferia chamá-
1970, na qual descreveu os tiques verbais de -la. Luria58 descrevia sua abordagem como
um paciente com síndrome de Gilles de la “neurodinâmica”, usando a seguinte ana-
Tourette como uma introjeção, no supere- logia para ilustrar o princípio:
go, da voz punitiva do pai.55 É surpreen­
dente, também, em vista da acusação de A maioria dos pesquisadores que exa-
que a psicanálise biologizava o comporta- minaram o problema da localiza-
mento humano, observar o que Luria fez ção cortical entendeu o termo fun-
ção como significando a “função de
em seguida (após retirar-se da Sociedade um tecido particular”. [...] É perfei-
Psicanalítica): ingressou na Faculdade de tamente natural considerar que a se-
Medicina, especializou-se em neurologia creção da bile é uma função do fíga-
e, então, imediatamente, começou a estu- do e a secreção de insulina é uma fun-
dar os sintomas mentais de seus pacientes ção do pâncreas. É igualmente lógico
neurológicos. E seu primeiro trabalho de considerar a percepção da luz como
pesquisa nessa área – na verdade, sua tese uma função dos elementos fotossen-
síveis da retina e dos neurônios alta-
de doutorado – foi sobre o mesmo assun-
mente especializados do córtex visual­
to que estava preocupando Freud quando associados. [Vocês lembrarão, este era
abandonou esse campo 40 anos antes, ou o tipo de função que Freud acreditava
seja, o tema da afasia. que podia ser localizada.] Entretan-
Quando Luria publicou os resultados to, essa definição não satisfaz todos
de seus esforços, em 1947, em uma mono- os usos do termo função. Quando fa-
grafia na qual evitava escrupulosamente o lamos da “função de respiração”, isto,
evidentemente, não pode ser entendi-
nome de Freud, propôs uma teoria da re-
do como a função de um tecido par-
presentação cerebral da linguagem que era ticular. O objetivo final da respiração
bastante semelhante àquela que Freud ha- é fornecer oxigênio para que os alvéo-
via proposto em 1891.56 Estou deixando de los dos pulmões o transportem para o
lado os detalhes, mas gostaria de registrar sangue através de suas paredes. Todo
uma breve citação. Consideremos a notável o processo é realizado não como uma
semelhança entre a sugestão de Freud de simples função de um tecido particu-
lar, mas, antes, como um sistema fun-
que vemos a mente como um instrumen-
cional completo, reunindo muitos
to óptico complexo, no qual a localidade componentes pertencentes a diferen-
psíquica corresponde a um ponto ideal, em tes níveis dos aparelhos secretor, mo-
que nenhum componente tangível do apa- tor e nervoso. Este “sistema funcio-
relho está situado, e a seguinte declaração nal” [...] difere não apenas na comple-
de Luria:57 xidade de sua estrutura, mas também
52 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

na mobilidade de suas partes compo­ Ao identificar o fator subjacente co-


nentes. mum produzindo uma série de sintomas
psicológicos, não apenas se aprenderá al-
O mesmo poderia ser referido, por guma coisa sobre a estrutura psicológica
exemplo, acerca da função da digestão. profunda da síndrome em questão, mas
Luria continuou a defender que as também se identificará a função compo-
funções mentais também podem apenas nente que é responsável pela parte do cére-
ser localizadas nesse sentido distribuído, bro que está danificada naquela síndrome.
dinâmico. A fim de identificar as diferentes Em outras palavras, reconhece-se a função
partes que, juntas, compõem os sistemas psicológica elementar de uma parte espe-
funcionais complexos do aparelho mental cífica do cérebro. Trata-se de um avanço
humano, ele criou um novo método de importante.
correlação clínico-anatômica, conhecido Uma vez que se tenha estudado, por
como “localização dinâmica”. O método esse método, a série completa de diferentes
funciona assim: se se deseja identificar a maneiras pelas quais uma faculdade psico-
organização neurológica de uma função lógica complexa falha, com um dano a cada
psicológica complexa, a primeira tarefa é parte do cérebro, então se terá descoberto
identificar todas as diferentes maneiras pe- sua organização neurológica distribuída,
las quais aquela função falha quando ocor- mediante a identificação de quais partes do
re uma doença neurológica focal em dife- cérebro contribuem, e de que maneira, pa-
rentes partes do cérebro. Luria descreveu ra o sistema funcional complexo que serve
esse primeiro passo como “qualificação dos àquela faculdade como um todo. Não se
sintomas”. Inicia-se com cada uma das di- terá localizado tal faculdade em nenhuma
ferentes formas pelas quais a função em es- parte do cérebro, mas identificado os vários
tudo falha, e então explora-se com cuidado elementos componentes, entre os quais,
a estrutura psicológica de cada um desses por interação funcional dinâmica, aquela
sintomas, identificando precisamente de faculdade psicológica está representada.
que maneira o sistema funcional falhou em
cada caso. Isso é feito usando-se métodos
de análise psicológicos em casos clínicos
Em minha opinião, esse método de Luria mar-
individuais. ca um passo importante para o futuro, porque
O segundo passo no método de Luria nos possibilita identificar a organização neuro-
é chamado de “análise da síndrome”. Ou lógica de qualquer função mental, não importa
seja, examina-se que outras funções estão quão complexa seja, sem contradizer os pressu-
afetadas, além da função primária sob in- postos fundamentais sobre os quais nossa dis-
vestigação, em cada caso. Mais uma vez, ciplina foi construída.
conta-se exclusivamente com métodos
psicológicos de investigação e busca-se es-
clarecer a estrutura interna desses outros Por esse método, as funções psicoló-
sintomas interligados, a fim de descobrir o gicas complexas ainda são entendidas em
que eles têm em comum com a função que seus próprios termos: psicológicos. Sua na-
é o foco de atenção primária. Dessa forma, tureza dinâmica é respeitada teoricamente
identifica-se um fator único, subjacente, e acomodada metodologicamente, elas não
que pode responder por toda a série de ma- são reduzidas à anatomia e à fisiologia, em-
nifestações clínicas superficiais. bora sua distribuição neurológica seja reve-
Psicoterapia de orientação analítica 53

lada, e alguma coisa nova é aprendida sobre região parietal inferior dos dois hemisfé-
sua organização funcional interna. Por esse rios –, a experiência consciente de sonhar
método, uma ligação viável é estabelecida para completamente. Esse fato clínico nos
entre os conceitos de psicologia e os de diz que as funções básicas responsáveis
anatomia, de fisiologia e de todos os outros por essas três partes do cérebro são funda-
ramos da ciência neurológica. mentais para todo o processo de sonhar,
Espero não ter feito o método neu- pois, quando qualquer uma delas está
ropsicológico de análise da síndrome pare- danificada, o sonho manifesto é inteira-
cer muito complicado, porque, na verdade, mente eliminado. Isso é revelado por uma
ele é bastante simples. Acredito, verdadei- análise da síndrome psicológica, na qual
ramente, que ele representa a ruptura pela a perda do sonhar está embutida. Volta-
qual Freud estava esperando. Isto é, creio rei a essa questão em breve. Antes, devo
que ele nos permite mapear a organização descrever as outras maneiras pelas quais o
neurológica de tudo o que, em psicanálise, sonhar é desorganizado por uma doença
conhecemos sobre as estruturas e as fun- neurológica. Se o cérebro está danificado
ções da mente. na região marcada pela letra G no diagra-
ma (ou seja, na região occipital temporal
ventral), então a experiência consciente
UM EXEMPLO: do sonhar persiste, mas os sonhos do pa-
ciente são destituídos de qualquer ima-
A FUNÇÃO DO SONHO gem visual. Por estranho que possa pa-
recer, pacientes com dano a essa parte do
Desejo agora dar um exemplo de como esse cérebro têm sonhos completamente não
método – que defendo como o ponto na- visuais. (Também foram descritos casos
tural de contato entre psicanálise e neuro- nos quais apenas aspectos selecionados de
ciências – funciona na prática. Escolhi um imagens visuais estão perturbados, como,
estudo de pesquisa que completei recente- por exemplo, a cor das imagens.)
mente59 sobre a organização neurológica Se, no entanto, o dano está situado
de uma função mental que é de especial nas proximidades da região marcada pe-
interesse à psicanálise. Refiro-me à função la letra H no diagrama (ou seja, na região
do sonho. temporal límbica), e se a lesão for acom-
Usando o método de Luria para estu- panhada por um foco de descarga (ou se-
dar os sonhos de 361 pacientes com lesões ja, por atividade convulsiva), então o pa-
neurológicas, minha pesquisa revelou que ciente experimenta pesadelos recorrentes
o sonho é perturbado por danos a seis par- e este­reotipados. Esses pesadelos param se
tes diferentes do cérebro. Essas regiões es- o transtorno convulsivo é controlado. Por
tão marcadas, na Figura 2.1, pelas letras C, fim, se o dano está situado na região mar-
E, F, G, H e J (note-se que a letra F corres- cada pela letra J (ou seja, na região frontal
ponde à mesma parte do cérebro que a le- límbica), o paciente experimenta um au-
tra E, mas no outro hemisfério). Iniciamos mento maciço na frequência dos sonhos; às
descrevendo os efeitos primários sobre o vezes, experimenta sonhos contínuos e tem
sonho causados pelo dano a cada uma des- grande dificuldade de diferenciar os sonhos
sas partes. Se o cérebro está danificado nas de experiências reais.
regiões marcadas pelas letras C, E ou F – ou Portanto, esses sintomas qualificam
seja, na região frontal medial basal, ou na as diferentes formas pelas quais o sonhar
54 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

pode ser desorganizado por danos cere- rebrais, bem como das relações dinâmicas
brais. Como referido, para descobrir a cau- entre elas, fornece o entendimento cien-
sa do colapso do sonhar em cada um desses tífico básico da anatomia e fisiologia do
seis casos, é necessário estudar a constela- sonhar.
ção de outros sintomas psicológicos que Por fim, com o intuito de chegar a um
acompanham as alterações no sonhar, após entendimento verdadeiramente abrangen-
um dano a cada uma das áreas. Isso permi- te da organização neurológica do sonhar,
te que o pesquisador isole o fator subjacen- também é necessário estudar as funções
te elementar comum a todos os sintomas e componentes das regiões do cérebro que
que, portanto, é responsável pela parte do não parecem envolvidas nesse processo. Is-
cérebro em questão para todo o processo so revela, ao mesmo tempo, quais funções
do sonhar. elementares do aparelho mental humano
Assim, quais são os seis fatores ele- não estão envolvidas na construção psico-
mentares responsáveis por essas partes do lógica dos sonhos. Para a finalidade deste
cérebro? Infelizmente, devido a limitações capítulo, marquei apenas duas dessas re-
de espaço, não será possível descrever a giões na Figura 2.1, que acredito serem de
riqueza total das síndromes psicológicas a particular interesse.
partir das quais deduzimos os fatores sub- A primeira delas é a região central
jacentes. Terei que simplificar um pouco as do tronco cerebral, marcada pela letra I.
coisas: para fins de exposição, vale ressaltar Mesmo que danos a essa parte desorgani-
apenas que uma análise das síndromes psi- zem gravemente o processo de sono REM,
cológicas associadas a lesões às seis áreas do a experiência consciente de sonhar persis-
cérebro envolvidas revela os seguintes fato- te. Isso sugere uma inesperada dissociação
res básicos: a região C contribui com um entre o processo fisiológico do sono REM
fator de motivação para o funcionamento e a experiência consciente de sonhos.60 Tal
mental. A região E contribui com um fator dissociação é confirmada pelo fato de que
de síntese quase espacial, fundamental pa- lesões nas áreas marcadas pelas letras C, E e
ra operações mentais simbólicas. A região F na figura, que levam a uma cessação com-
F, com um fator de representação espacial pleta da experiência consciente de sonhar,
concreta. A região G, com um fator de revi- não têm efeito sobre o fenômeno fisiológi-
sualização, essencial para a imagem mental co do sono REM.
visual. A região H, com um fator de alerta A outra região de interesse para a
emocional. E a região J, com um fator de qual chamo a atenção na figura, marcada
seletividade (ou de ativação e inibição sele- pela letra D (ou seja, a convexidade frontal
tivas), essencial para processos como aten- dorsolateral), é imensamente importante
ção, teste de realidade e julgamento. para o controle executivo da vida mental
Assim, esses seis fatores juntos cons- de vigília e da atividade motora voluntária.
tituem o sistema funcional do sonhar. Ou, Entretanto, danos a essa região não têm ne-
em outras palavras, o processo do sonhar nhum efeito sobre a experiência consciente
origina-se de uma interação dinâmica de sonhar. Isso sugere, não surpreenden-
entre esses fatores, que são responsáveis temente, que o pensamento do processo
por seis partes do cérebro. Uma análise secundário e a atividade motora volitiva
das propriedades estruturais e funcionais têm muito pouco a ver com o processo do
especiais dessas seis diferentes regiões ce- sonhar.
Psicoterapia de orientação analítica 55

Agora, se retrocedermos um pouco sencadeia o trabalho de sonhar se ele envol-


e examinarmos todos esses fatores juntos, ve esse mecanismo cerebral quase libidinal.
poderemos chegar a um modelo de como Partes da zona C também inibem impulsos
o processo dinâmico de sonhar, como um apetitivos e, juntamente com as estruturas
todo, é organizado nos tecidos do cérebro. seletivas da zona J, desviam o processo de
ativação dos sistemas executivo e motor do
cérebro, que estão marcados pela letra D
Com base em minha pesquisa, propus o mode- no diagrama.
lo seguinte, cada detalhe do qual sendo acessí- As regiões marcadas pela letra D são
vel à verificação empírica por uma variedade de inibidas durante o sono. Porém, se o cére-
métodos neurocientíficos. bro estiver danificado nas zonas C e J, pa-
rece que a inibição desses sistemas motores
falha, resultando no estabelecimento de
Parece que o sonhar é estimulado atividades motoras dirigidas e impossibi-
por um processo de ativação. O processo litando, com isso, um sonhar normal. Tal
de ativação mais comum que estimula um conceitualização do processo é apoiada pe-
sonho é o estado de ativação neurofisio- lo fato de que pacientes com dano a essa
lógica, que ocorre regularmente a cada 90 região do cérebro têm o sono gravemente
minutos durante o sono – isto é, o estado perturbado. Se o cérebro está danificado na
de REM, ativado pelas estruturas profun- região J, entretanto, o distúrbio de inibição
das do tronco cerebral marcadas pela letra é apenas parcial, tendo como resultado um
I na figura. Entretanto, esse é apenas um paradoxal aumento no sonhar e no pensa-
dos muitos fenômenos de ativação que po- mento onírico.
dem desencadear o processo de sonhar – e Em seguida, supondo que haja um
de maneira alguma é o fundamental, pois grau suficiente de inibição frontal, o foco
os sonhos ocorrem normalmente sem ele. do processo de ativação noturno desvia-
Outro processo de ativação que pode esti- -se para os sistemas posteriores do cére-
mular um sonho é uma descarga focal na bro, que regulam as funções perceptivas
região temporal límbica, que está marca- e as operações espaciais e simbólicas su-
da pela letra H na figura. Entretanto, esse periores, que estão baseadas na percepção
é um processo de ativação patológico, que (zonas E, F e G). Isso, então, se torna a
não pode ser determinado pelo processo do “cena de ação” primária do sonho mani-
sonhar e que, portanto, resulta em sonhos festo. Aqui, os três outros fatores men-
de ansiedade ou pesadelos. cionados entram em ação: simbolização
A zona C contribui para o próximo (zona E), pensamento espacial (zona F)
componente importante do processo do e imagem mental visual (zona G). Entre
sonhar. Essa região do cérebro motiva in- esses três, parece que simbolização e o
teresses apetitivos no mundo (esta expres- pensamento espacial são os mais impor-
são, “interesse apetitivo”, é o termo que tantes, pois, na ausência deles, o sonhar
os neurobiólogos modernos usam para o torna-se impossível, e todo o processo
que chamaríamos de “interesse libidinal”). falha. A imagem mental visual é um fator
Essa região canaliza processos de ativação menos ­im­portante, porque todo o proces-
endógenos na direção da atividade motora so mental de sonhar segue seu curso sem
volitiva. Um estímulo ativador apenas de- ele, a única diferença sendo que o produto
56 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

consciente final é destituído de imagem gicos e químicos mais refinados daquela


visual. Estou, portanto, inclinado a colo- teoria.*
car esse fator de representação visual na
extremidade final do processo de geração
de sonho descrito. Por isso, insisto que o método de localização di-
Esse quadro global sugere que o so- nâmica fornece à psicanálise uma passagem
nhar é um processo mental regressivo, tan- conceitual às neurociências básicas e, desse
to desencadeado por estados de ativação modo, aos enormes avanços no conhecimento
noturnos quanto dependente deles. Esses que inovações tecnológicas nesses campos ge-
estados de ativação são canalizados e inibi- raram nos últimos anos. Os benefícios poten-
dos pelos sistemas que controlam os com- ciais à psicanálise são tão óbvios que nem é
preciso enumerá-los.
portamentos dirigidos a objetivos (goal-di-
rected). Eles são desviados para longe dos
sistemas motores e em direção aos sistemas
perceptivos. Os sistemas perceptivos supe- Espero que esse exemplo breve e sim-
riores representam o processo de ativação plificado torne claro o suficiente como as
na forma de sínteses simbólicas e espaciais,
que são projetadas regressivamente para as *
Por exemplo, a análise mais rigorosa dos dados ana-
zonas visuais inferiores. tômicos revela que as estruturas na zona C, que são
Dessa forma, o estado de sono é pre- cruciais para a geração de sonhos, são as vias de fibras
servado. Se, no entanto, o processo de ati- prosencefálicas basais, que ligam núcleos dopaminér-
vação noturno é excessivo, como ocorre gicos mesencefálicos com o córtex frontal mediobasal
(a via dopaminérgica mesocortical-mesolímbica). Isso
nas convulsões ou na inibição frontal in- sugere que, seja o que for que essa via faça, é crítica para
completa, então esse mecanismo de prote- a função de sonhar. Eram essas fibras o alvo do pro-
ção do sono falha, e o sonhador é perturba- cedimento de leucotomia pré-frontal modificada, tão
do ou por ansiedade, ou pela inervação da popular na década de 1950. Há evidências sugerindo
que medicações antipsicóticas modernas atuem sobre
atividade motora volitiva. esse mesmo caminho.61 Uma revisão da literatura
O que o método de Luria revela so- psicocirúrgica mais antiga revela que a cessação do
bre a organização neurológica do sonhar, sonhar era uma consequência comum da leucotomia
portanto, é surpreendentemente compa- pré-frontal.59 É evidente que, independentemente do
que livrava os pacientes leucotomizados de seus sinto-
tível com a teoria clássica de Freud. Além mas psicóticos, também os impedia de gerar sonhos.
disso, devido à centralidade do sonhar nos Não tenho conhecimento de nenhuma pesquisa sobre
modelos da mente de Freud, ele nos forne- os efeitos de medicamentos antipsicóticos modernos
ce a primeira posição segura sobre a repre- sobre o sonho. Entretanto, há considerável evidência
de que agonistas da dopamina em geral (p. ex., L-dopa)
sentação anatômica e fisiológica de alguns estimulam um sonhar excessivo e que antagonistas da
conceitos psicanalíticos cruciais, incluindo dopamina (p. ex., haloperidol) o suprimem.62-64 Se
aspectos da libido, da censura, simboliza- revisarmos a teoria clássica dos sonhos à luz desses
ção, regressão topográfica, entre outros. achados, teremos uma base empírica para ligar o
instinto libidinal (ou suas manifestações importantes)
Além disso, embora não possa entrar em às vias dopaminérgicas mesocorticais-mesolímbicas.
todos esses detalhes aqui, pela identificação Portanto, não é sem interesse que neurocientistas
dos tecidos específicos do cérebro que es- contemporâneos incluam essas vias nos “sistemas de
tão envolvidos nos diferentes componentes comando da curiosidade-interesse-expectativas do
cérebro [...] que incitam comportamentos de busca
psicológicos do sonhar, torna-se possível de objetivos e interações apetitivas do organismo com
estudar os correlatos anatômicos, fisioló- o mundo”.65
Psicoterapia de orientação analítica 57

funções mentais humanas são represen- paciente, tenha ele uma lesão cerebral ou
tadas nos tecidos do cérebro, na forma não, precisamos conhecê-lo como pessoa,
de sistemas funcionais complexos que se no contexto de um relacionamento analí-
originam de interações dinâmicas entre tico, em um ambiente profissional segu-
uma quantidade de partes componentes ro, dentro do qual possamos ganhar sua
elementares – assim como uma imagem confiança com tato e compreensão. Ana-
surge do instrumento óptico composto, lisando suas resistências, observaremos a
como Freud sugeriu em A interpretação dos forma como os determinantes internos
sonhos. dos sintomas gradualmente se revelam na
Espero, também, que esse exemplo transferência; e, testando as hipóteses que
demonstre como o método de análise sin- nos ocorrem nesse sentido, na forma de in-
drômica torna possível identificar as partes terpretações apropriadas, observaremos os
componentes do cérebro, entre as quais se efeitos que estas têm sobre o material ana-
distribui uma função mental complexa, e lítico subsequente, e assim por diante. Dito
qual é a contribuição elementar que cada de outro modo, só poderemos esclarecer de
uma delas propicia ao sistema funcional forma adequada a estrutura dinamicamen-
como um todo. Esse é o produto cientí­fico te inconsciente de um sintoma mental pelo
do método que desenvolvemos na neu- método psicanalítico.
ropsicologia, nos últimos 70 anos, desde a Sabemos que esse não é o caminho
morte de Freud. mais fácil para estudar uma síndrome psi-
cológica, mas também entendemos que é o
único método verdadeiro e confiável quan-
CONSIDERAÇÕES FINAIS do se trata daquele aspecto mais profundo
da vida mental que a neuropsicologia dei-
Antes de terminar e de apresentar meu ar- xou de estudar, mas que sempre foi uma
gumento em favor de uma integração en- preocupação central para a psicanálise, isto
tre psicanálise e neurociências, com base é, a estrutura dinamicamente inconsciente
nesse método, é preciso levar em conside- da personalidade humana. De fato, as resis-
ração o fato de que a pesquisa que acabei tências emocionais que ocultam a estrutura
de descre­ver ocupou-se apenas do processo interna da personalidade explicam por que
do sonho manifesto. Em outras palavras, a organização neurológica destas, o aspecto
estudou diretamente apenas os efeitos que mais importante da vida mental humana,
danos a diferentes partes do cérebro têm ainda não foi explorada de modo sistemá-
sobre a experiência consciente do sonhar tico pelo método de análise sindrômica.
e precisou deduzir os mecanismos incons- Acredito que essa é a contribuição científi-
cientes subjacentes a partir dos sintomas ca que a psicanálise pode dar às neurociên-
demonstrados. É por essa razão que não cias, e esse é o próximo passo que devemos
podemos desnudar toda a estrutura in- dar agora.
consciente de uma síndrome psicológica Ironicamente, devemos o desenvol-
examinando um paciente neurológico no vimento de um procedimento clínico para
leito, e ainda menos avaliando-o em um analisar essas camadas mentais mais pro-
laboratório neuropsicológico. fundas ao fato de Freud ter abandonado os
A fim de obter acesso mais direto a métodos neurocientíficos de investigação
essas camadas mentais mais profundas do quando percebeu que eles eram (naquela
58 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

época) incapazes de solucionar a natureza e eu iniciamos 12 anos atrás (em 1993),


dinâmica dos processos mentais humanos. usando precisamente esses métodos.66 Até
Parece que agora chegou o momento de agora, estudamos a vida subjetiva de 35
reintroduzirmos os frutos desses trabalhos pacientes com lesões cerebrais focais, as-
no campo neurocientífico, do qual eles ori- sistindo-os com psicanálise ou terapia psi-
ginalmente brotaram. Acredito que, fazen- canalítica. Colegas na América, na Áustria,
do isso – embora eu não deseje subestimar na Suécia e na Alemanha estão iniciando
a enormidade da tarefa que nos aguarda –, estudos semelhantes. Essa pesquisa começa
seremos capazes de, aos poucos, integrar a revelar a organização neurológica daque-
psicanálise e neurociências em uma base les sistemas funcionais mais profundos que
clínica sólida, de forma que seja benéfica apenas o método de investigação psicanalí-
para ambos os campos, sem ignorar ne- tica pode revelar. Temo que aqui eu tenha
nhuma das valiosas lições que os pioneiros conseguido apenas defender a questão de
da psicanálise lutaram tanto, e por tanto que agora é possível, usando os métodos
tempo, para aprender. descritos, esclarecer a organização neuro-
O que estou recomendando, por- lógica das funções mentais mais profun-
tanto, e o que acredito que irá fornecer o das, que temos tradicionalmente estudado
alicerce fundamental para uma integração em psicanálise usando material puramente
duradoura da psicanálise e das neurociên- psicopatológico.
cias, é uma investigação inteiramente psi- Espero ter transmitido esse ponto de
canalítica de pacientes com lesões neuroló- vista de modo convincente, apesar do fato
gicas focais. Em outras palavras, sugiro que de que apenas fui capaz de sugerir como
mapeemos a organização neurológica das minha forma de abordar o problema real-
camadas mais profundas da mente, usando mente funciona na prática e descrever um
uma versão psicanalítica da análise da sín- fragmento do tipo de dados que ela gera.
drome e estudando a estrutura profunda Contudo, espero ter conseguido pelo me-
das alterações mentais que podem ser reco- nos convencê-los do princípio de que este
nhecidas em pacientes neurológicos dentro é um caminho que vale a pena seguir. Um
de uma relação psicanalítica. Se houvesse enorme esforço científico está diante de
mais espaço, gostaria de descrever os resul- nós, e, portanto, é desnecessário dizer que,
tados preliminares de um estudo que mi- quanto mais nos envolvermos nele, me-
nha esposa e colega, Karen Kaplan-Solms, lhor.

PONTOS-CHAVE DO CAPÍTULO

1. Cérebro e personalidade são inextricáveis, o que torna claro que o objeto de estudo da psicanálise está
de algum modo ligado ao objeto de estudo das neurociências. O primeiro pesquisador a explorar essa
relação foi o próprio Freud.
2. Independentemente dos seus correlatos clínico-anatômicos, Freud concluiu que as síndromes psicoló-
gicas precisavam ser descritas e explicadas em seus próprios termos psicológicos.
3. Era óbvio para Freud que os fatores essenciais na etiologia e os mecanismos das neuroses originavam-
-se de dinâmicas funcionais complexas e que, portanto, nunca poderiam ser localizados anatomica-
mente.
Psicoterapia de orientação analítica 59

4. Freud reconheceu, durante toda a sua vida científica, que o modelo do aparelho mental que criara para
justificar suas observações clínicas era um construto provisório, um sistema de relações funcionais que
deveria estar representado de algum modo nos tecidos do cérebro.
5. Há pouco propósito em reunir psicanálise e neurociências se isso significar que temos que abandonar
tudo o que a psicanálise representa no processo.
6. A fim de identificar as diferentes partes que, juntas, compõem os sistemas funcionais complexos do
aparelho mental humano, Luria criou um novo método de correlação clínico-anatômica, conhecido como
“localização dinâmica”.
7. O método de Luria marca um passo importante para o futuro, porque possibilita identificar a organiza-
ção neurológica de qualquer função mental, não importa quão complexa seja, sem contradizer os pres-
supostos fundamentais sobre os quais a psicanálise foi construída.
8. Com base na pesquisa sobre sonhos, propomos um modelo da função do sonhar em que cada detalhe
é acessível à verificação empírica por uma variedade de métodos neurocientíficos.
9. O método de localização dinâmica fornece à psicanálise uma passagem conceitual às neurociências
básicas e, desse modo, aos enormes avanços no conhecimento que inovações tecnológicas nesses
campos geraram nos últimos anos.

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3
CONCEITOS PSICANALÍTICOS
FREUDIANOS FUNDAMENTAIS
Luiz Carlos Mabilde

Para efeito de compreensão da teoria psi- escrito sobre os conceitos selecionados.


canalítica e de aplicação do método tera- Mas isso, além de significar zero em termos
pêutico psicanalítico, todo o freudismo de contribuição ao tema, seria desprezar ou
é conceitual e fundamental, uma vez que mesmo macular aquilo que a obra de Freud
permanece sendo o paradigma unificador tem de mais importante, isto é, seus aspec-
de tudo o que pode ser dito ou escrito sobre tos evolutivos, estruturais, conceituais e
psicanálise, até quando se pretende contra- fundamentais para a compreensão do fun-
pô-la. Quando afirmamos, por exemplo, cionamento psíquico normal e patológico.
que os dois pilares fundamentais do edifí- O freudismo é quase toda a psicanálise e
cio teórico psicanalítico são os conceitos de só vale em sua totalidade, em especial por
inconsciente dinâmico e de determinismo apresentar um desenvolvimento concei­
psíquico, estamos não só acentuando o que tual.
é básico em psicanálise como teoria, mas, Em função das premissas consigna-
sobretudo, declarando-nos freudianos e das, bem como pela disposição e exigência
deixando claro que ele é o nosso conceito e didáticas de atender aos objetivos deste li-
o nosso fundamento. vro, vou rastrear a obra freudiana, extrain-
Nada em Freud é secundário, menos do dela seus conceitos mais conspícuos, de
ainda desprezível. Mesmo quando se equi- acordo com uma divisão em cinco módulos,
voca, ele o faz de uma forma consecutiva e os quais agrupam textos em torno de um
articulada, ainda que mal enjambrada. Isso eixo temático comum. Assim, serão cinco
significa que toda a sua elaboração é estru- eixos, vários textos e determinados con-
tural, o que nos remete, de novo, à dimen- ceitos, todos compromissados com essa
são conceitual e fundamental de sua obra sistematização orgânica. Um ordenamento
como um todo. temporal e cronológico facilitará, também,
É claro que seria relativamente fácil o acompanhamento e a compreensão dos
elaborar um glossário com alguns concei- textos e dos conceitos.
tos freudianos fundamentais, selecionados Desse modo, mais do que destacar
com base em algum critério individual, e explicar conceitos fundamentais (o que
bastando, para tanto, copiar o que já está pode ser feito em qualquer dicionário), o
Psicoterapia de orientação analítica 63

principal objetivo deste capítulo é contex- Período pré-psicanalítico


tualizá-los em relação à obra freudiana. De
forma complementar, sempre que neces­ Cabe destacar, desse período, três traba-
sário, aqui e ali, será apresentada uma lhos, apresentados na sequência.
de­finição do conceito, a título de comen­
tário.
Os conceitos considerados funda- Projeto para uma
mentais estarão em negrito.
psicologia científica
Os cinco módulos são:
O Projeto é uma descrição pré-id da mente,
I) Como era Freud no início (1895-1905)
mas já representa a tentativa de Freud1 de
II) Metapsicologia freudiana (1909-1917)
estabelecer, em termos neurofisiológicos,
III) As três grandes revoluções (1920-1926)
um modelo abrangente dos fatos clínicos
IV) Trabalhos metapsicológicos comple-
extraídos das histerias. Sua concepção tem
mentares e trabalhos culturais (1930-
por base a quantidade de energia circulante
-1939)
entre as cadeias de neurônios, transposta
V) Trabalhos sobre técnica (1911-1915)
para observações de fatos clínicos psíqui-
cos.
MÓDULO I: COMO
ERA FREUD NO INÍCIO
Muitas das ideias contidas no Projeto persisti-
ram e se transformaram em conceitos funda-
Impõem-se, aqui, certas subdivisões, a fim mentais da teoria freudiana, tais como asso-
de podermos, desde já, evoluir em direção ciação (livre), interpretação, transferência e,
aos conceitos fundamentais desse período, sobretudo, sonhos, conforme veremos adiante.
como eles surgem e de que forma podemos
caracterizá-los.

A – Período pré-psicanalítico
1 – Projeto para uma psicologia cientí- Estudos sobre a histeria
fica1
Esses estudos já representam, na realidade,
2 – Estudos sobre a histeria2
o primeiro tratado psicanalítico de Freud,2
Sobre o mecanismo psíquico dos
tal a quantidade de ideias contidas nessa
fenômenos histéricos3
monografia. Quatro conceitos importantes
Relatos de casos – Emmy Von N.
surgem aqui: repressão, associação livre,
e Elizabeth Von R.
ab-reação e catarse.
3 – As neuropsicoses de defesa4,5
No trabalho Sobre o mecanismo psí-
B – Início do período psicanalítico quico dos fenômenos histéricos, Freud3 ele-
1 – A interpretação dos sonhos6 gem o trauma psíquico como causa da
2 – Três ensaios sobre a teoria da se­ histeria, substituindo, assim, a ideia da de-
xualidade7 generação constitucional de ­Janet. No en-
3 – Fragmentos da análise de um caso tanto, diferentemente de ­Breuer, que con-
de histeria (Caso Dora)8 siderava que o trauma levava a um estado
64 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

hipnoide e daí à histeria, Freud entendia a rias. Antes, como vimos, também trabalha-
histeria em termos bem mais dinâmicos, ra com modelos, mas se tratava de modelos
isto é, em função da repressão, termo que neurofisiológicos.1
empregou nesse trabalho pela primeira
vez, mas já com o mesmo sentido que tem
hoje: um mecanismo de defesa que exclui As neuropsicoses de defesa
da consciência impulsos inadmissíveis,
o que significa, portanto, uma operação Freud, em A história do movimento psica-
inconsciente que retira completamente nalítico,10 declara que a teoria da defesa
da consciência uma ideia (representação) (repressão) é a pedra angular sobre a qual
ou um afeto inaceitável. É também nesse se apoia toda a estrutura da psicanálise. Em
texto que aparecem pela primeira vez os dois trabalhos sobre o tema, anteriormente
conceitos de ab-reação e catarse, o que mencionados, Freud4,5 faz aparecer, pe-
significou um afastamento em relação à la primeira vez, o termo “defesa”, discute
abordagem hipnótica de Charcot. A ab- amplamente sua teoria e, em função disso,
-reação e o método catártico constituíam demarca o campo das psiconeuroses (his-
uma reação ao trauma, o qual era posto teria e obsessões). Aliás, é a partir dessas
em palavras e, assim, descarregado, de- considerações que Freud abandona a teoria
saparecendo os sintomas. Freud nunca da sedução (trauma) e dá mais importância
desprezou completamente essa operação para o papel das fantasias, abrindo as por-
dentro da técnica analítica. tas para a descoberta da sexualidade infan-
Em A psicoterapia da histeria, Freud9 til e para o complexo de Édipo. Fantasias
descreve sua notável descoberta da associa- são estruturas mentais resultantes de dese-
ção livre, graças ao tratamento com Emmy jos inconscientes (sexuais, entre outros) al-
Von N. e, principalmente, com Elizabeth terados em sua forma original pela ação das
Von R. A importância da associação livre defesas psíquicas. As fantasias podem se
para o método psicanalítico foi tão gran- apresentar como sonhos diurnos ou deva-
de que o próprio Freud a intitulou a regra neios; nesse caso, são conscientes e obede-
fundamental da psicanálise. Ela consiste cem a desdobramentos do pré-consciente.
em solicitar, estimular e interpretar cer- É também nesse último artigo que
tas oposições a falar (sem censuras), tudo ocorre a convergência de novos mecanis-
o que ocorre na mente do paciente. Por mos psíquicos, tais como os mecanismos
“sem censuras” deve-se entender a aboli- obsessivos e a projeção, que viriam a de-
ção da censura entre o consciente e o pré- sempenhar um papel muito importante
-consciente, a assim denominada primeira na teoria. É ainda nele que aparece pe-
censura. Como as associações levam ao la primeira vez e é definido o retorno do
reprimido, a associação livre é uma das reprimido, entendido como um fracasso
vias de acesso ao inconsciente, mediante da defesa contra a lembrança excluída da
momentâneas exclusões da censura entre consciência, que então reaparece.
pré-consciente e inconsciente, a segunda As defesas – que depois se ampliaram
censura. em número – ficaram mais conhecidas por
Com os Estudos sobre a histeria, Freud2 mecanismos de defesa, que podem ser
apresenta seu primeiro modelo psicológico concebidos como operações desenvolvi-
– com um referencial psicodinâmico – pa- das pelo ego, intrapsíquicas e inconscien-
ra a compreensão e o tratamento das histe- tes, com a finalidade de diminuir a tensão
Psicoterapia de orientação analítica 65

interna, sobretudo a ansiedade. Depois Três ensaios sobre a


de Freud, outros autores, tais como Anna
Freud, M. Klein e Lacan, contribuíram pa-
teoria da sexualidade
ra a expansão desse conceito.
Nesse trabalho, Freud7 explicita um dos
seus fundamentais conceitos, o qual apa-
Início do período psicanalítico recera pela primeira vez em Estudos sobre
a histeria2 e fora desenvolvido há anos:
Desse período – classicamente iniciado em série complementar, que expressa, em
1900 – cabe destacar dois trabalhos, A in- termos explicativos, a sinergia existente
terpretação dos sonhos6 e Três ensaios sobre entre constituição hereditária e vivências
a teoria da sexualidade,7 que, juntos, per- infantis. Com esse conceito, Freud apre-
fazem quase toda a inovação psicanalítica. senta a etiologia das neuroses e ultrapassa
a obrigatoriedade de escolher entre fatores
endógenos e exógenos. Tais fatores são, na
A interpretação dos sonhos verdade, complementares; e a etiologia,
nesse sentido, multifatorial.11
Esse trabalho era considerado por Freud6 o Quanto à sexualidade infantil, igual-
seu estudo mais importante. Em especial, mente básica nos Três ensaios, Freud7 con-
o capítulo VII apresenta a primeira con- siderava-a um dos seus conceitos mais im-
cepção propriamente analítica do aparelho portantes e controvertidos. Hoje, verifica-
psíquico, ou seja, a hipótese topográfica -se que ele se tornou menos controvertido
(inconsciente, pré-consciente e conscien- (a cultura vigente o aceita melhor), mas
te). Além disso, apresenta conceitos funda- continua muito importante. Outros con-
mentais, como o de inconsciente e de re- ceitos – diretamente implicados na sexu-
gressão, bem como o de processo primário alidade infantil –, como amnésia infantil,
e secundário. Aliás, como é sabido, o sonho zonas erógenas, auto e aloerotismo, prazer
foi o caminho por excelência para a desco- oral, anal e fálico, complexo de castração
berta do inconsciente. Como descoberta, o e complexo de Édipo, estão no centro dos
inconsciente pode concentrar toda a im- conflitos infantis.
portância da obra freudiana dentro do co- Embora a expressão complexo de
nhecimento humano. Voltarei a esse ponto Édipo só apareça mais tarde (1910),12 o
no tópico reservado à metapsicologia. conceito já era do conhecimento e práti-
ca de Freud,1 tanto junto a seus pacien-
tes, sobretudo ao abandonar a teoria da
sedução, quanto em sua autoanálise. O
O inconsciente, como sistema, funciona de
complexo de Édipo é o ponto culminante
acordo com leis especiais, que estão desprovi-
das da lógica da noção de tempo, espaço e cau- da sexualidade infantil e no qual termina
salidade, formando o que se denomina proces- de se desenvolver a pulsão sexual objetal;
so primário do funcionamento psíquico. esta toma uma característica e uma dire-
ção incestuosa, razão pela qual se intensi-
fica a ansiedade de castração (inaugurada
É claro que o processo que leva em quando da descoberta da diferença entre
consideração a lógica e as demais leis racio- os sexos pela criança), o que põe fim ao
nais chama-se processo secundário. próprio complexo de ­Édipo.
66 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

MÓDULO II: Freud,15 nesse trabalho, introduz, em


definitivo, o conceito de narcisismo na teo­
METAPSICOLOGIA FREUDIANA ria psicanalítica, inclusive como um dos
mais importantes, dadas as diversas impli-
cações que contém. Antes disso,12,16-19 ele
já havia observado e estudado o conceito
Por metapsicologia pode-se entender um con- de outras formas, isto é, em um paciente
junto de modelos conceituais mais ou menos seu muito parecido com Leonardo da Vin-
distantes da experiência, tais como a ficção de ci, mas sem o seu gênio; no trabalho sobre
um aparelho psíquico dividido em instâncias, o próprio Leonardo, em que aparece pela
a teoria das pulsões, o processo da repressão,
primeira vez o conceito, que, então, indi-
entre outros.
cava um tipo especial de relação de objeto
(homossexual); e no caso Schreber, em que
o narcisismo era descrito como uma etapa
do desenvolvimento psicossexual, situada
Isso significa ser a metapsicologia freu-
entre o autoerotismo e o amor objetal. Em
diana o que realmente caracteriza a ma-
Formulações sobre os dois princípios do fun-
neira peculiar do pensar psicanalítico,
cionamento mental20 e em Totem e tabu,19
tanto que o termo foi criado pelo próprio
exprime os mesmos pontos de vista. Cabe
Freud (1887-1902) para designar a psico-
destacar que é possível encontrar outros e
logia fundada por ele (também conhecida
diferentes enfoques ou aplicações para o
por psicologia profunda).13 Quer dizer, é
termo “narcisismo”, além dos citados, tais
uma forma totalmente di­ferente de descre-
como perversão, estrutura, ponto de fixa-
ver um processo psíquico; parafraseando
ção, defesa. Digno de nota, o masoquismo
Freud,14 é descrevê-lo nas suas relações di-
seria a antítese do narcisismo, na medida
nâmicas, tópicas e ­econômicas. Esses são os
em que se apresentaria como ódio ao ego.
três únicos pontos de vista metapsicológi-
De início, o conceito de masoquismo che-
cos que Freud ­descreveu e utilizou em suas
gou a confundir Freud, que, considerando-
principais construções. Mais tarde, foram
-o como perversão sexual (prazer em sentir
acrescentados os pontos de vista genético
dor), classificou-o dentro das pulsões sexu-
(Hartmann, Kris e Loewenstein) e adapta-
ais. Depois, a verdadeira natureza pulsional
tivo (Rappaport).
do masoquismo foi corrigida para agressiva,
Em 1915, Freud lançou quatro dos
o que é o correto. Algo similar ocorreu com
seus mais importantes trabalhos metapsi-
o narcisismo, inicialmente visto como pul-
cológicos de uma vez só, os quais trazem
são autoconservadora, e não como sexual.
em seu íntimo conceitos fundamentais.

Sobre o narcisismo: O conceito de narcisismo é central para o de-


senvolvimento da série metapsicológica inter-
uma introdução ligada de 1915 e, sobretudo, para a evolução
dos conceitos de ideal do ego, identificação e
Em termos metapsicológicos estritos, nar- agente crítico, que desembocam no conceito de
cisismo significa libido investida no ego, superego.
ou seja, amor ao ego.
Psicoterapia de orientação analítica 67

Os instintos e suas vicissitudes de conflito psíquico, como expressão de


duas­tendências de sentidos opostos que
Freud21 desdobra, nesse trabalho, duas teo- se ­chocam; no caso, são os dois instintos.
rias – uma geral e outra especializada – pa- Mais tarde, com a adoção da teoria es-
ra explicar o processo de desenvolvimento trutural, o conflito psíquico (neurótico)
do indivíduo em termos pulsionais. Pulsão, é expresso pela clássica fórmula: ego (su­
aliás, é o termo mais apropriado para a tra- perego) X id.
dução do alemão trieb. Mas é clássico men- Freud examina, também, em Instintos
cionar o título do trabalho em questão com e suas vicissitudes,21 as quatro característi-
o termo “instinto”, o que vem a ser, portan- cas de uma pulsão, que dão absoluta pri-
to, uma má tradução do vocábulo alemão. mazia à pulsão sobre os demais constituin-
tes da vida mental. São elas: pressão (força),
meta (fim), objeto e fonte. Da mesma for-
ma, ele postula as vicissitudes das pulsões.
Pulsão deve ser entendida como um produto da
própria experiência do sujeito, isto é, das vivên- Por vicissitudes, entende-se a sujeição das
cias de satisfação ficam resíduos das represen- pulsões a determinadas condições. Freud
tações de desejo, que estão sempre dispostas a menciona quatro dessas transformações:
recuperar a vivência de gratificação. reversão de conteúdo, volta contra o self,
repressão e sublimação.
Por sublimação se tem o único me-
Quando essas representações incons- canismo de defesa exitoso do ego, execu-
cientes são investidas, elas se esforçam pa- tado por meio da dessexualização da meta
ra obter satisfação, originando-se, então, a pulsional, que assim se torna aceita pela
pulsão, que é um conceito situado entre o cultura e pelo seu representante dentro do
biológico e o psíquico. Ao contrário da pul- aparelho psíquico (o superego).
são (ontogenética), o instinto é filogenético
e se traduz por uma ação que se realiza sem
prévia aprendizagem. O inconsciente
É também nesse trabalho que Freud
faz a exposição definitiva de seus pontos de O inconsciente é uma das descobertas cru-
vista sobre a pulsão. Antes disso,7,15,17,22,23 ciais de Freud, talvez a principal.
ele percorreu um longo e penoso caminho Como vimos, por ocasião de A inter-
para estabelecer suas teorias instintivas, pretação dos sonhos,6 na hipótese topográ-
que são didaticamente divididas em qua- fica, o inconsciente toma a forma substan-
tro passos. Nesse trabalho,21 ele apresen- tivada para indicar um lugar no aparelho
ta o terceiro e o quarto passos, sendo este psíquico. Já na segunda tópica (hipótese
último o que resulta nas clássicas pulsões estrutural), ele parece ser uma qualidade,
amorosas e agressivas. Uma teoria instin- um adjetivo: o ego inconsciente, o id in-
tiva agregada a esta última surge em 1920, consciente, o superego inconsciente.
com os instintos de vida e de morte.
Em 1905, nos Três ensaios,7 ao apre-
sentar o primeiro passo de sua teoria ins- Mais do que suplantar a primeira tópica, a se-
tintiva (instinto do ego e instinto sexual), gunda a complementa, agregando novos níveis
Freud traz pela primeira vez o conceito
68 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

Como se percebe, descritivamente, é


aos anteriores. Estes não desaparecem, mas são fácil definir inconsciente: é tudo que está
enriquecidos, alcançando explicações que não se fora do campo atual da consciência. Já na
incluíam na primeira tópica, tais como o ego, a visão dinâmica, fica mais complicado: de-
consciência moral do superego e o sentimento de
culpa.
signa um dos sistemas da segunda tópica de
Freud, constituído por conteúdos aos quais
foi recusado o acesso ao pré-consciente pe-
As primeiras aproximações de Freud1,6 la ação da repressão.
ao conceito de inconsciente ocorrem a
partir de grupos psíquicos separados (da
consciência), origem dos sintomas neuró- Luto e melancolia
ticos, e da ideia de que se podia trazê-los à
Freud24 considerava esse trabalho uma ex-
consciência mediante a hipnose. Depois, as
tensão do estudo sobre narcisismo, o qual
representações inconscientes constituem o
escrevera um ano antes. Em Luto e melan-
segundo esboço conceitual do que chegaria
colia, ele desenvolve duas linhas básicas.
a ser o inconsciente reprimido.
Por um lado, retoma o tema da instância
No trabalho que dá título a esta seção,
crítica – que, no trabalho anterior, era res-
Freud14 caracteriza o inconsciente dinâ-
ponsável pela paranoia – a fim de ex­plicar a
mico ao estudar a sugestão pós-hipnótica,
melancolia, o que, mais adiante, levou à hi-
as parapraxias, os sintomas, os sonhos e os
pótese do superego e a uma nova avaliação
esquecimentos. O inconsciente dinâmico
do sentimento de culpa. Por outro lado,
é assim denominado por não se extinguir
faz um exame dos problemas e­nvolvidos
psiquicamente e por apresentar efeitos
com a natureza da identificação, do qual
sobre o comportamento (ao contrário do
resulta uma evolução desde a ideia de vê-la
inconsciente descritivo e topográfico). O
como associada à fase oral, passando pela
próprio método psicanalítico se utiliza do
concepção que a considera uma fase preli-
inconsciente dinâmico e procura explorá-
minar da escolha objetal (identificação pri-
-lo, desvendando-o por meio de sua per-
mária), para, finalmente, descrever sua ca-
manente e derivada existência, o que in-
racterística mais importante (e que é a mais
clui sua influência no comportamento
destacada no trabalho): um investimento
do indivíduo. Ao inconsciente dinâmico
libidinal em um objeto é substituído por
corresponde o reprimido, o que nos leva a
uma identificação (p. ex., após uma perda
concluir que, do ponto de vista dinâmico
de objeto, como na melancolia).
(distribuição de forças psíquicas), só existe
Identificação é um processo incons-
um inconsciente. Porém, do ponto de vis-
ciente, não uma simples imitação, expresso
ta descritivo, existem dois, o inconsciente
em uma apropriação parcial ou total de as-
propriamente dito (reprimido) e o pré-
pectos de outra pessoa. Assim, em termos
-consciente, já que este último também
conceituais, a identificação se faz só com
se encontra fora da consciência em dado
objetos. Como já referido, a identificação
momento. E, do ponto de vista sistemáti-
foi adquirindo progressiva importância na
co (conjunto de funções), existem três: as
obra de Freud – de início, relacionada aos
partes inconscientes do ego e do superego
sintomas histéricos, depois, em termos de
e o id.
Psicoterapia de orientação analítica 69

incorporação oral, como exemplificado nas princípios reguladores da atividade psíqui-


fantasias canibalísticas de Totem e tabu19. ca, tema das preferências de Freud. Come-
Todavia, é, sobretudo, no papel desempe- ça com o princípio da inércia, analisado
nhado por ela na formação do objeto in- no Projeto,1 para significar a tendência de
terno, tanto na constituição da melancolia retornar ao estado inerte. Segue-se o prin-
quanto (e principalmente) na formação do cípio da constância, presente nos Estudos
superego, que a identificação assume gran- sobre a histeria,2 de características homeos-
de magnitude. táticas, isto é, a busca por manter um nível
baixo e constante de energia no psiquismo.
Em Formulações sobre os dois princípios da
MÓDULO III: AS TRÊS vida mental,20 é enunciado o princípio do
prazer, em contraposição ao princípio da
GRANDES REVOLUÇÕES realidade. Nesse trabalho, de acordo com
a própria ação do instinto de morte, apa-
Freud25-27 procedeu, em três trabalhos rece o princípio de nirvana, tomado por
clássicos, o que se poderia de­nominar de empréstimo do budismo, que buscaria o
grandes revoluções, exatamente pela pro- estado ideal de energia zero.
priedade que tais trabalhos tiveram de Foram quatro situações básicas –
mudar, de forma extraordinária, a teoria princípio da realidade, retorno do reprimi-
freudiana. Até hoje, a psicanálise reconhe- do, traumas e compulsão à repetição – que
ce e utiliza seus achados na aplicação do levaram Freud à conclusão de que nem
método analítico e em desenvolvimentos tudo na vida psíquica correspondia ao ob-
teóricos. Quer dizer, se Freud já havia feito jetivo de evitar o desprazer e proporcionar
muito até aqui pelo conhecimento da vida prazer. Como se constata, embora a noção
mental, acabou fazendo ainda muito mais. do princípio do prazer se mantivesse por
toda a obra, ficou difícil articulá-la com
outras referências teóricas, o que deu lugar
Além do princípio do prazer a este trabalho.
De acordo com o instinto de mor-
Freud25 apresenta, nessa obra, aquele que te, todos os seres vivos tendem a retornar
seria o seu conceito mais revolucionário (o ao estado inanimado, alterando, assim, o
instinto de morte) e que, pelo seu caráter ­próprio entendimento do papel do instinto
especulativo, suscitou a maior divisão en- de vida: este não visa a preservar a vida (o
tre os psicanalistas. Essa elaboração teórica que, aliás, não ocorre), mas possibilitar que
constitui um agregado ao quarto passo da a morte seja alcançada de forma natural.
teoria instintiva de Freud. Além do princípio do prazer é o re-
Como o título sugere, o que levou sultado de trabalhos anteriores, nos quais
Freud a essa elaboração teórica foram fa- Freud1,10,15,18,28,29 percorreu um longo
tos, observados por ele, que contradiziam caminho estudando os fenômenos de repe-
o princípio regulador do aparelho mental, tição e os princípios reguladores da ativida-
o princípio do prazer. Este, na realidade, de psíquica. Nesse trabalho de 1920, a com-
vem a ser o resultado da evolução concei- pulsão à repetição é vista como expressão
tual em torno da intrigante questão dos do instinto de morte.
70 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

O ego e o id (“é a ansiedade que leva à repressão e aos


demais mecanismos de defesa”).
Com esse trabalho, Freud26 formula uma A ansiedade é o afeto desprazeroso
nova e mais completa descrição da mente por excelência e o mais comum (os outros
e de seu funcionamento (teoria estrutural). são a dor física, a dor psíquica [luto] e o
São apresentadas as três macroestruturas, masoquismo moral). O ego não quer senti-
quais sejam, o ego, tanto como self quanto -la, defende-se dela, e daí surgem as neuro-
como estrutura, com atribuições e funções ses. Nota-se que o conceito de ansiedade é
executivas; o superego (primeiro apare- central em Freud, seja quando teoriza so-
cimento do termo) como equivalente do bre o funcionamento psíquico normal, seja
ideal do ego; e o id, como depositário das ao se deter no conflito e nas neuroses.
pulsões.
Para chegar a esse resultado,
Freud1,6,12,14,15,17,18,23-25 realizou várias A ansiedade-sinal constitui o uso que o ego faz
análises detalhadas a respeito da estrutura de uma catexia (quantidade de energia que pe-
e do funcionamento do ego (lato sensu): netra no aparelho psíquico e é percebida pelo
começou no Projeto,1 mas, já no capítulo polo percepção-consciência) experimental, a
VII de A interpretação dos sonhos,6 apare- qual aciona o automatismo desprazer-prazer
(princípio do prazer), a fim de testar a realidade
cem sinais de mudança, com a hipótese
e evitar o desprazer.
topográfica substituindo a do Projeto.1 A
hipótese do narcisismo, por sua vez, inclui
considerar o ego como tendo funções; por
Assim, a consideração básica de Freud
outro caminho, os estudos sobre os sonhos
em relação à ansiedade, tanto na primeira
levam aos trabalhos metapsicológicos de
quanto na segunda teoria, refere-se à no-
1915, os quais, em seu conjunto, tratam
ção de perigo, seja interna, seja externa. Na
do funcionamento mental e da estrutura.
primeira teoria, o perigo externo levava à
Assim, em O inconsciente,14 o ego passa a
ansiedade realística, e o interno, à neuróti-
fazer parte do sistema inconsciente, o que,
ca. Na segunda, o perigo causa a ansiedade
na realidade, vem a ser o progenitor do ego
automática, se externo, e a ansiedade-sinal,
estrutural. Já em Luto e melancolia,24 apa-
se interno.
rece a ação do ideal do ego, o progenitor
do superego.
MÓDULO IV: TRABALHOS
Inibições, sintomas METAPSICOLÓGICOS
e ansiedade COMPLEMENTARES E
Foi por meio desse trabalho que Freud27
TRABALHOS CULTURAIS
substituiu a primeira teoria da ansiedade
(teoria traumática) pela segunda, a teoria Psicologia de grupo
da ansiedade-sinal. Tal mudança implica e a análise do ego
inverter imediatamente a formulação da
primeira teoria (“a repressão leva à ansie- O destaque a ser feito nesse trabalho recai
dade”) para a que encontramos na segunda sobre a explicação dada por Freud30 sobre
Psicoterapia de orientação analítica 71

a gradual diferenciação que vai ocorrendo rego exigirá do ego que seja como o ideal,
no ego, dando lugar ao ideal do ego. Este, castigando-o pela consciência moral quan-
mais tarde, dá lugar ao superego, mas não do ele se situar longe desse objetivo.
perde sua importância dentro da teoria, Após a instalação do superego, vão se
além, é claro, de fazer parte do próprio su- incorporando a ele novas características ao
perego. ideal do ego, ao se incluir neste o ideal de
O ideal do ego constitui a evolução do uma comunidade, de um grupo, e assim
conceito de agente crítico, o qual se faz pre- por diante. Os grupos humanos se formam
sente em o caso Schreber,31 Sobre o narcisis- por meio de vínculos identificatórios entre
mo: uma introdução15 e Luto e melancolia,24 os egos dos indivíduos que os integram.
em que Freud examina sua característica e, Assim, um deles será eleito como ideal do
principalmente, as implicações de sua ação ego e líder do grupo, à semelhança do pai
sobre o ego, do que resultam a paranoia e a infantil. A diferença entre identificação do
melancolia. Como se vê, até esse trabalho, ego com um objeto e substituição do ide-
Freud30 explica o ideal do ego de uma for- al do ego por um objeto é exemplificada,
ma isolada e separada de outros conceitos, nesse trabalho, por dois grupos artificiais
tendo mais uma função do que um lugar (o Exército e a Igreja), facilitando a com-
em uma tópica. Depois, em O ego o id,26 preensão do papel do ideal do ego nos fe-
conceitualiza-o como sinônimo de supe- nômenos grupais.
rego e, finalmente, em Esboço de psicanáli- Como se nota, Freud30 dá sequên-
se,32 considera-o uma subestrutura dentro cia, aqui, aos trabalhos que examinam as
do superego, com seus componentes e/ou questões culturais, além dos problemas
funções junto à consciência moral e à auto- metapsicológicos. Dentro da temática da
-observação. cultura e suas implicações, antes, Freud
O ideal do ego gera uma das máximas tratou disso em Totem e tabu,19 e, depois,
do superego: “Assim você deve ser”. Ele é em Futuro de uma ilusão,34 O mal-estar na
o herdeiro das perfeições do narcisismo civilização,35 Por que a guerra36 e Moisés e o
original e da sexualidade infantil, que é monoteísmo.37
predominantemente autoerótica e, portan-
to, reconhecida como narcisista pelo ego.
Assim, pode-se dizer que o ideal do ego O mal-estar na civilização
é o herdeiro do narcisismo original e das
identificações com os pais idealizados da Esse trabalho ultrapassa bastante a sociolo-
infância. Sobre essas identificações primá- gia que seu título sugere. Na realidade, ele
rias se edificarão as secundárias, que terão discute dois temas da maior importância
matizes hostis, ambivalentes e constituirão para a psicanálise:
o supere­go definitivo.33
De qualquer modo, uma vez forma- a) o antagonismo irremediável entre as
do o ideal do ego, o narcisismo sofrerá exigências pulsionais e as restrições da
mudanças, pois o ego buscará, com seus civilização
atos, assemelhar-se ao ideal, ou seja, irá se b) a agressão ou destruição
sentir estimado por ele ou com sentimento
de culpa, conforme consiga gratificá-lo ou Quanto ao primeiro item, muito ce-
não. Mediante a auto-observação, o supe- do, Freud, em 1897, afirmou que o inces-
72 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

to, como exemplo de exigência pulsional, é MÓDULO V: TRABALHOS


antissocial, e a civilização consiste em uma
progressiva renúncia a ele, além de confe-
SOBRE TÉCNICA
rir-lhe a responsabilidade pela dissemina-
ção das neuroses. Porém, uma avaliação Chama-se técnica psicanalítica um conjun-
clara do papel desempenhado pelos fatores to de procedimentos e recursos utilizados
externos e internos nessas restrições só foi por Freud com seus pacientes, a fim de que
possível nesse trabalho,35 portanto, depois eles:33
que as investigações sobre a psicologia do
a) conheçam o seu inconsciente ou os seus
ego o levaram às hipóteses do superego e
desejos inconscientes, preenchendo as
do sentimento de culpa. É com base em tais
lacunas mnêmicas, ocorridas durante
conclusões que Freud declara ser o senti-
o desenvolvimento da sexualidade, pela
mento inconsciente de culpa o mais impor-
ação da repressão
tante fator do mal-estar da civilização.
b) obtenham um maior conhecimento do
Por agressão entende-se a tendência
ego, principalmente dos mecanismos de
de levar a cabo a ação de danificar o obje-
defesas inconscientes e das resistências
to, destruí-lo, humilhá-lo. Freud começou
que deles provêm
a estudá-la por meio do sadismo, vendo-o,
c) tenham maior conhecimento do id e de
por exemplo, nos Três ensaios sobre a teoria
suas pulsões, bem como do superego, em
da sexualidade,7 como um instinto compo-
especial de sua parte inconsciente, pois,
nente ou parcial do instinto sexual. Só mais
do contrário, ele atua como resistência
tarde, depois de muita relutância e compli-
à cura para satisfazer a necessidade de
cações, conforme se constata no desenvol-
castigo
vimento da teoria instintiva, é que Freud25
d) percebam as distintas partes inconscien-
admitiu a agressão como independente,
tes, correspondentes ao id, ao ego e ao
ainda que derivada do instinto de morte.
superego, por meio da análise do signifi-
Quer dizer, a agressão não só é indepen-
cado dos sintomas, dos sonhos, dos atos
dente como também se opõe aos esforços
falhos, das memórias encobridoras
civilizatórios. A busca de aniquilação pode
se estender a todo o mundo exterior, inclu-
Essa tarefa vai conduzindo a uma
sive o inanimado.
construção de verdades históricas, que fo-
ram determinando a forma de estruturação
das pulsões e do aparelho psíquico. Quer
Somada à renúncia ao prazer sexual (descober- dizer, as construções e interpretações vão
to como meio para a felicidade), a inclinação tornando mais próximo o passado primi-
para a agressão é o fator que mais perturba tivo infantil, a pré-história do complexo de
nossa relação com o próximo e obriga a civiliza- Édipo, inclusive pelas repetições na trans-
ção a um grande dispêndio de energia.
ferência. Esse é o caminho da cura analíti-
ca, pela qual o sujeito se sentirá mais unido
a seus afetos e desejos, aceitando-os como
Em síntese, o homem civilizado tro- próprios, porém diferenciando-os da ação,
cou uma parcela de felicidade por uma par- elegendo quando e como conduzi-los, li-
cela de segurança. gando-os e dominando-os por meio de um
Psicoterapia de orientação analítica 73

ego mais pré-consciente e mais livre das


imposições superegoicas. A interpretação é o principal instrumento téc-
Do ponto de vista evolutivo, como nico do analista, fruto do trabalho associati-
vimos, Freud,2 em Estudos sobre a histeria, vo prévio do paciente, dos símbolos universais,
dos seus sintomas (como representações) ou
forneceu uma boa descrição sobre sua téc- dos conhecimentos anteriores de sua história.
nica da época baseada na sugestão e pres-
são. Disso, rapidamente, ele evolui para o
que passou a chamar de método analítico
(técnica usada na análise do “Homem dos
A dinâmica da transferência
ratos”, em 1909).16 Por fim, entre 1912 e
1915, ele escreveu seis artigos sobre a técni- A transferência é um fenômeno obser-
ca, os quais abrangem um grande número vável na clínica psicanalítica e que apre-
de temas importantes e que, até pela escas- senta uma explicação fenomenológica e
sez, se tornaram clássicos. Desses artigos, uma metapsicológica. A fenomenológica
vou me ater a três para destacar três outros resulta do translado do afeto de vivências
conceitos fundamentais. do passado para o presente, no caso para
o psicanalista. Sob o vértice da metapsico-
logia, o que ocorre é um deslocamento de
O manejo da interpretação um quantum de energia libidinal de uma
dos sonhos na psicanálise representação objetal inconsciente para
uma representação-palavra pré-conscien-
É exatamente nesse trabalho que Freud17 te, com a qual mantém um tipo de rela-
define e integra a interpretação na dinâ- ção associativa (contiguidade, analogia ou
mica do tratamento, isto é, como um pro- oposição).
cedimento do analista submetido a certas De início, Freud1,6,7,16 tratou da
regras técnicas (nível, tipo, ordem, for- transferência como um simples desloca-
mulação, oportunidade). Antes disso, em mento, não a incluindo na essência da re-
Estudos sobre a histeria,2 por exemplo, ela lação terapêutica. No trabalho de 1912, ele
era vista apenas como uma forma de fazer faz sua primeira exposição de conjunto do
ressurgir as recordações patogênicas. fenômeno, o qual adquire um caráter ver-
Assim considerada, a interpretação dadeiramente psicanalítico, por um lado,
caracteriza a psicanálise, isto é, evidencia ao assumir a função de repetir na análise
o sentido latente de um material. E foi a protótipos e imagos – de modo especial,
atitude freudiana para com o sonho que pais e irmãos – na pessoa do analista, o
constituiu o primeiro modelo de interpre- qual se insere em uma das séries psíqui-
tação, sendo seu objetivo final desvendar o cas do paciente; por outro lado, pelo fato
desejo inconsciente e a fantasia que o en- de que esse tipo de transferência favorece
volve, tornando-o consciente. Contudo, a a resistência.
interpretação não é reservada apenas aos Freud10,25,27 ocupou-se outras vezes
sonhos, aplicando-se também a quaisquer do conceito, em especial para acentuar as
produções inconscientes e, mais comu- inter-relações com a compulsão à repetição
mente, a tudo aquilo que traz a marca do (pelo seu caráter repetitivo) e com a resis-
conflito psíquico. tência (pelo seu caráter de oposição à cura).
74 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

Recordar, repetir, elaborar dela, revive-se, no vínculo com o analista,


os conflitos reprimidos da infância.
Por resistência entende-se a expressão clí- Freud,27 com base na observação clí-
nica da defesa inconsciente, realizada auto- nica e na teoria estrutural, descreveu cinco
maticamente pelo ego ante a pulsão ou a tipos de resistência:
ansiedade-sinal. Esse acontecimento é fre- a) do ego: repressão (e demais mecanismos
quente no tratamento analítico e dá lugar de defesa), transferência e ganho secun-
a períodos negativos no processo analítico, dário
em que o conhecimento do inconscien- b) do superego: reação terapêutica negativa
te do paciente não progride, pois seu ego c) do id: compulsão à repetição
está mais dedicado a defender-se do que a
se conhecer. Uma das formas de instalar-se Na verdade, o conceito de resistência
essa resistência do ego é pela transferência, colaborou de forma decisiva para o sur-
que passa a ter, então, uma característica gimento da psicanálise, uma vez que foi
negativa e a converter-se em um obstácu- o reconhecimento da sua natureza obs-
lo para o desenvolvimento do tratamento. trutiva ao processo analítico que levou
Porém, assim como é um sério obstáculo, Freud1,25,27,38 a desenvolver novas técni-
a transferência torna-se um dos principais cas, as quais configuraram novas e impor-
recursos técnicos da análise, pois, por meio tantes teorias.

PONTOS-CHAVE DO CAPÍTULO

1. Para compreender a teoria psicanalítica e seu método terapêutico, é preciso conhecer a fundo o freu-
dismo, pois este segue sendo o paradigma unificador de tudo o que se escreveu e se escreve sobre
psicanálise.
2. A obra de Freud é extensa, complexa e, por estar baseada em conceitos fundamentais, constitui uma
estrutura teórica de difícil apreensão. A razão para tanto é a forma dispersa, evolutiva e de distintas
magnitudes pelas quais seus conceitos aparecem e ganham verdadeiro estatuto conceitual.
3. O capítulo divide a obra de Freud em cinco módulos, os quais agrupam textos em torno de um eixo
temático comum. Assim, serão cinco eixos, vários artigos e determinados conceitos apresentados den-
tro dessa sistematização orgânica. Um ordenamento temporal e cronológico dos artigos estudados é
também utilizado, a fim de facilitar o acompanhamento e a compreensão da obra freudiana.
4. Mais do que destacar conceitos fundamentais e, por vezes, defini-los, o principal objetivo deste capítulo
é contextualizá-los dentro da obra de Freud. Dito de outra forma, conhecer a história de cada conceito.

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Psicoterapia de orientação analítica 75

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pletas de Sigmund Freud edição standard 20. Freud S. Formulações sobre os dois princí-
brasileira. Rio de Janeiro: Imago; 1972. v. 7. pios do funcionamento mental. In: Freud S.
8. Freud S. Fragmentos da análise um caso Obras psicológicas completas de Sigmund
de histeria. In: Freud S. Obras psicológicas Freud edição standard brasileira. Rio de Ja-
completas de Sigmund Freud edição stan- neiro: Imago; 1972. v. 12.
dard brasileira. Rio de Janeiro: Imago; 1972. 21. Freud S. Os instintos e suas vicissitudes. In:
v. 7. Freud S. Obras psicológicas completas de
9. Freud S. A psicoterapia da histeria. In: Freud Sigmund Freud edição standard brasileira.
S. Obras psicológicas completas de Sigmund Rio de Janeiro: Imago; 1972. v. 14.
Freud edição standard brasileira. Rio de Ja- 22. Freud S. Atos obsessivos e práticas religiosas.
neiro: Imago; 1972. v. 2. In: Freud S. Obras psicológicas completas de
10. Freud S. A história do movimento psicanalí- Sigmund Freud edição standard brasileira.
tico. In: Freud S. Obras psicológicas comple- Rio de Janeiro: Imago; 1972. v. 9.
tas de Sigmund Freud edição standard bra- 23. Freud S. A concepção psicanalítica da per-
sileira. Rio de Janeiro: Imago; 1972. v. 14. turbação psicogênica da visão. In: Freud S.
11. Giovacchini PL. Roteiro à leitura de Freud. Obras psicológicas completas de Sigmund
Porto Alegre: Artes Médicas; 1985. Freud edição standard brasileira. Rio de Ja-
12. Freud S. Um tipo especial de escolha de ob- neiro: Imago; 1972. v. 11.
jeto feita pelos homens. In: Freud S. Obras 24. Freud S. Luto e melancolia. In: Freud S.
psicológicas completas de Sigmund Freud Obras psicológicas completas de Sigmund
edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Freud edição standard brasileira. Rio de Ja-
Imago; 1972. v. 11. neiro: Imago; 1972. v. 14.
13. Laplanche J, Pontalis JB. Vocabulário da psi- 25. Freud S. Além do princípio do prazer. In:
canálise. São Paulo: Martins Fontes; 1986. Freud S. Obras psicológicas completas de
14. Freud S. O inconsciente. In: Freud S. Obras Sigmund Freud edição standard brasileira.
psicológicas completas de Sigmund Freud Rio de Janeiro: Imago; 1972. v. 18.
edição standard brasileira. Rio de Janeiro: 26. Freud S. O ego e o id. In: Freud S. Obras psi-
Imago; 1972. v. 14. cológicas completas de Sigmund Freud edi-
15. Freud S. Sobre o narcisismo: uma introdu- ção standard brasileira. Rio de Janeiro: Ima-
ção. In: Freud S. Obras psicológicas comple- go; 1972. v. 18.
tas de Sigmund Freud edição standard bra- 27. Freud S. Inibições, sintomas e ansiedade. In:
sileira. Rio de Janeiro: Imago; 1972. v. 14. Freud S. Obras psicológicas completas de
16. Freud S. Notas sobre um caso de neurose Sigmund Freud edição standard brasileira.
obsessiva. In: Freud S. Obras psicológicas Rio de Janeiro: Imago; 1972. v. 20.
76 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

28. Freud S. Repressão. In: Freud S. Obras psi- Freud edição standard brasileira. Rio de Ja-
cológicas completas de Sigmund Freud edi- neiro: Imago; 1972. v. 23.
ção standard brasileira. Rio de Janeiro: Ima- 38. Freud S. Construções em análise. In: Freud
go; 1972. v. 14. S. Obras psicológicas completas de Sigmund
29. Freud S. O estranho. In: Freud S. Obras psi- Freud edição standard brasileira. Rio de Ja-
cológicas completas de Sigmund Freud edi- neiro: Imago; 1972. v. 23.
ção standard brasileira. Rio de Janeiro: Ima-
go; 1972. v. 17.
30. Freud S. Psicologia de grupo e análise do
ego. In: Freud S. Obras psicológicas comple-
LEITURAS SUGERIDAS
tas de Sigmund Freud edição standard bra-
sileira. Rio de Janeiro: Imago; 1972. v. 18. Freud S. A dinâmica da transferência. In: Freud S.
31. Freud S. O caso Schreber. In: Freud S. Obras Obras psicológicas completas de Sigmund Freud
psicológicas completas de Sigmund Freud edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago;
edição standard brasileira. Rio de Janeiro: 1972. v. 12.
Imago; 1972. v. 10. Freud S. Análise de uma fobia de um menino de 5
32. Freud S. Esboço de psicanálise. In: Freud S. anos. In: Freud S. Obras psicológicas completas de
Obras psicológicas completas de Sigmund Sigmund Freud edição standard brasileira. Rio de
Freud edição standard brasileira. Rio de Ja- Janeiro: Imago; 1972. v. 10.
neiro: Imago; 1972. v. 23. Freud S. História de uma neurose infantil. In:
33. Valls JC. Diccionario freudiano. Buenos Ai- Freud S. Obras psicológicas completas de Sig-
res: Julian Yebenes; 1995. mund Freud edição standard brasileira. Rio de
34. Freud S. Futuro de uma ilusão. In: Freud S. Janeiro: Imago; 1972. v. 17.
Obras psicológicas completas de Sigmund Freud S. Leonardo da Vinci e uma lembrança da
Freud edição standard brasileira. Rio de Ja- sua infância. In: Freud S. Obras psicológicas com-
neiro: Imago; 1972. v. 21. pletas de Sigmund Freud edição standard brasilei-
35. Freud S. O mal-estar na civilização. In: Freud ra. Rio de Janeiro: Imago; 1972. v. 11.
S. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud S. Parapraxias. In: Freud S. Obras psicológi-
Freud edição standard brasileira. Rio de Ja- cas completas de Sigmund Freud edição standard
neiro: Imago; 1972. v. 21. brasileira. Rio de Janeiro: Imago; 1972. v. 15.
36. Freud S. Por que a guerra. In: Freud S. Obras Freud S. Recordar, repetir, elaborar. In: Freud S.
psicológicas completas de Sigmund Freud Obras psicológicas completas de Sigmund Freud
edição standard brasileira. Rio de Janeiro: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago;
Imago; 1972. v. 22. 1972. v. 12.
37. Freud S. Moisés e o monoteísmo. In: Freud Zimernan DE. Vocabulário contemporâneo de
S. Obras psicológicas completas de Sigmund Psicanálise. Porto Alegre: Artes Médicas; 2001.
4
CONCEITOS PSICANALÍTICOS
FUNDAMENTAIS NA ESCOLA
DAS RELAÇÕES DE OBJETO
Elias Mallet da Rocha Barros

Ao me propor a escolher alguns concei- Não entrarei na discussão sobre o


tos psicanalíticos fundamentais da teoria que diferencia psicanálise de psicoterapia
das relações de objeto para a psicoterapia analítica e, por conseguinte, também, pro-
psicanalítica, cheguei à conclusão de que positalmente, não debaterei a questão do
deveriam ser os de transferência e contra- número de sessões.
transferência, da maneira como são en-
tendidos contemporaneamente, isto é, di-
retamente associados à interação analítica Penso que, desde que estejamos trabalhan-
e a seu impacto sobre a subjetividade do do bem com a transferência e a contratrans-
analista. Nessa perspectiva, podem ser con- ferência, estamos mantendo a base analítica
siderados conceitos fundadores, ou seja, de nosso trabalho. Isso será mais fácil, acre-
dito, a partir da experiência clínica, à medida
aqueles dos quais os outros decorrem. Ao
que atendermos nossos pacientes com maior
comentar que uma nova metapsicologia es- frequência. Entretanto, os fenômenos transfe-
tá se constituindo a partir de nossa prática renciais e contratransferenciais estão presen-
clínica, André Green1 ressalta o conceito de tes em toda situação terapêutica, e seu desen-
transferência: volvimento dependerá de quanto e quão profun-
damente nós os interpretarmos.
[...] não é mais um dos conceitos da
psicanálise a ser pensado como os ou-
tros, ela é a condição a partir da qual Procurarei mostrar, neste capítulo,
os outros podem ser pensados. E, da que a tarefa do analista ou do psicotera-
mesma maneira, a contratransferên- peuta diante da fala do paciente, do ponto
cia não se limita mais à pesquisa dos de vista do enfoque transferencial, asseme-
conflitos não resolvidos – ou não ana-
lha-se mais ao trabalho do criptolinguista
lisados – do analista, capazes de fal­
sear sua escuta; torna-se o correlato diante de uma língua desconhecida a ser
da transferência, caminhando a seu decifrada do que ao do intérprete diante de
lado, induzindo-a às vezes e, para al- uma língua estrangeira. O intérprete tem
guns, precedendo-a. a chave que permite a tradução da língua
78 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

estrangeira, enquanto o criptolinguista não Melanie Klein,2 ao responder à obje-


a tem, e sua tarefa consiste em encontrá- ção feita por Anna Freud de que a criança
-la. Este, na sua tentativa de decifrar a não poderia transferir nada para a figura
língua desconhecida, procura identificar do analista, pois uma nova edição não seria
padrões que lhe permitam descobrir o que possível enquanto a primeira edição ainda
Chomsky denominou gramática gerativa. estivesse em curso, aponta:
A busca de correspondência palavra a pa-
lavra entre uma língua conhecida e outra A análise de crianças pequenas mos-
desconhecida seria fadada ao fracasso, pois trou-me que uma criança de 3 anos
o significado delas depende, na maioria dos já atravessou a parte mais importante
casos, de sua função no contexto sintático, do desenvolvimento de seu comple-
ou seja, gramatical, em que se situam. xo de Édipo. Por conseguinte, a re-
pressão e a culpabilidade já a distan-
Não estou afirmando que o incons-
ciaram consideravelmente dos ob-
ciente se organiza como linguagem, como jetos que ela desejou originalmente.
o faz Lacan. O conteúdo do inconsciente é Suas relações com esses objetos já so-
constituído por significantes não verbais, freram modificações e deformações
as representações-coisa mencionadas por de tal ordem que os objetos de amor
Freud, dissociados de seus significados. atuais são imagos dos objetos origi-
Assim, não existe relação fixa entre signi- nais.
ficante e significado, e, portanto, inexiste
um código linguístico para constituir uma Klein está, nesse trecho, fazendo afir-
linguagem. Não havendo código, não há mações que revolucionaram a psicanálise
intenção comunicativa que possa ser atri- nos anos seguintes e constituíram os ele-
buída ao inconsciente. Este só se abre à mentos mais originais de seu sistema. Ela
comunicação e a um contexto referencial afirma, portanto, que a própria relação
ao integrar a situação analítica. No incons- com os pais reais comporta já um certo
ciente, seus conteúdos estão fechados em si grau de transferência. A questão essencial
mesmos. É por meio dos relacionamentos e envolvida na transferência não é a relação
das vivências emocionais indissoluvelmen- passado/presente, mas aquela existente en-
te associadas que se estabelece um processo tre mundo interno, no qual os significados
de comunicação, seja qual for a vontade são gerados, e mundo externo. Decorre
do sujeito. A transferência, nesse contexto, dessa concepção a ideia de que o repetido
diz respeito não ao enunciado, o conteúdo na transferência são as relações de objeto
do que está sendo dito ou atuado, mas ao vigentes no mundo interno, e não compor-
processo de enunciação presente, ou seja, a tamentos específicos, simples hábitos.
quem está sendo dito. Qual é a natureza desse mundo inter-
no, como é constituído e como é “povoa-
do”? Não se trata de um mundo subjetivo,
Na relação com o analista em um ambiente mas de um mundo no interior do sujeito,
criado para minimizar ao máximo as interferên- como enfatiza Laplanche.3 Esse mundo de
cias de tudo aquilo que não seja o subjetivo, objetos internalizados é constituído desde
o que se expressa na transferência é o mundo o nascimento, por meio de uma sucessão
dos objetos internos existentes no sujeito. Esse
mundo encontra sua expressão em fantasias
de projeções e introjeções. As projeções são
inconscientes. desencadeadas pela pressão da ansiedade
de aniquilamento. Desse ponto de vista, a
Psicoterapia de orientação analítica 79

introjeção e a projeção têm um papel estru- Ao se relacionar de forma metafó-


turante da vida mental. rica ou metonímica com a consciência, o
inconsciente está constantemente criando
novos significados. É nesse sentido que
Gostaria de enfatizar que esse mundo inter- a transferência assume o caráter de uma
no não é um decalque, uma cópia subjetiva do poiesis, tal como definida na cultura grega
mundo externo. Os objetos internos que o cons- clássica. O paciente nos diz coisas com pa-
tituem têm certa autonomia. Esse mundo no in- lavras e, além delas, usa uma comunicação
terior do sujeito contém as fantasias incons- não verbal com gestos e atuações. Nesse
cientes que expressam as relações objetais,
contexto, as próprias palavras podem tor-
as quais lhe conferem uma identidade; contém
também suas estruturas defensivas e é o espa- nar-se atuações da forma de operar das re-
ço no qual as vivências emocionais são pensa- lações de objeto prevalentes no mundo in-
das e adquirem sentido. terno. Podemos tomar essas manifestações
como discursivas (que incluem também o
não verbal presente na situação analítica)
Sobre a existência de um mundo in- dirigidas ao analista, como tentativas per-
terno com tais características, Laplanche,3 manentes de recriação das conexões perdi-
para enfatizar sua originalidade, assim se das entre os significantes não verbais do in-
expressa: consciente e os significados da experiência
emocional que dão sentido a nossa vida psí-
É neste ponto que falo de escânda- quica. Esse discurso que permeia a relação
lo, pois esses objetos são verdadeiros do inconsciente com o consciente estrutu-
objetos para M. Klein, objetos que, a
ra-se sob a forma de um código linguístico
partir desse tempo de introjeção, le-
vam uma vida própria no interior do desconhecido, regido por certos princípios
sujeito, provocando nele efeitos reais, articuladores de significado, o equivalente
quase mecânicos, de agressão e de ex- a sua gramática gerativa. Diante dele, como
citação, em particular. O par real/fic- analistas, nossa função se assemelha à do
tício é então substituído pelo par in- criptolinguista, que deseja decifrar o códi-
trojetado/projetado ou este par se de- go que rege a língua desconhecida, a qual se
fasa em relação àquele outro. O que é constitui em transferência.
introjetado não é ilusório, particular-
mente no sentido de não ser manipu-
Penso que Fédida4 expressou clara-
lável ao infinito. mente essas ideias em um seminário em
São Paulo, ao dizer:

Sugiro que as fantasias inconscientes expres- Mas, na situação do tratamento, pen-


sam-se pela relação do paciente com o ana- so que é por uma palavra ou por um
lista, a qual se constitui em discurso (verbal e gesto que tem a função de metáfo-
não verbal), segundo os princípios que regem ra, a função poética da metáfora, que
os processos metafóricos e metonímicos. A me- o outro pode se reconhecer. Por isso,
táfora refere-se ao processo de transporte (ou é preciso que as palavras, os gestos,
transferência) de um sentido próprio para um emanem do próprio paciente. É as-
sentido figurado, operando por meio de compa- sim que a palavra metáfora toma seu
rações implícitas. A metonímia refere-se a co- verdadeiro sentido: não a poesia, mas
nexões que se dão por semelhança de função ou a poética, no sentido de poiesis grega,
significação. quer dizer, a dimensão poética da re-
criação constante do sentido, a recria-
80 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

ção constante da língua na palavra. O


­poeta é aquele que cada vez inventa a amigos. Estes vão responder como figuras
língua. ­reais. O analista ficará neutro, não aprovará ou
desaprovará nenhum comportamento ou atitu-
Ao descobrirmos a chave que permite de, apenas interpretará. Assim fazendo, o ana-
decifrar a língua desconhecida, corremos lista cria condições para a criança/paciente
o risco de nos transformarmos em simples manifestar em estado puro toda a sua capaci-
dade de transferir suas imagos internalizadas,
intérpretes de uma língua estrangeira, risco
isto é, as relações de objeto que caracterizam
a ser evitado a todo custo para preservar- seu mundo interno, para a figura do analista,
mos nossa condição analítica. e é esse movimento que estabelece, no sentido
Gostaria de definir, também, o cam- estrito, a situação analítica.
po que nos permite delimitar e atribuir um
valor heurístico à noção de transferência
em psicanálise. Seriam todas as manifesta- Nessa perspectiva, é a natureza da res-
ções do paciente em uma sessão resultado posta do analista que cria o campo transfe-
de transferências? Se a resposta for positi- rencial específico à situação analítica e que
va, o que haveria de singular nessa relação nos permite atribuir um valor heurístico
propiciada pela situação analítica para o ao conceito na teoria psicanalítica. Desse
psicanalista moderno que nos permitiria modo, a neutralidade do analista (que não
definir o campo da transferência? Em que deve ser confundida nem com passividade,
essa relação transferencial difere de outras nem com a frieza do cirurgião) não é ape-
relações do cotidiano? Para os psicanalistas nas condição de manifestação de um cam-
que consideram os processos transferen- po transferencial na situação analítica, ela é
ciais como presentes em todas as relações a própria criadora desse campo.
humanas, entre os quais me incluo, dizer Seria a transferência um fenômeno
que tudo que ocorre em um encontro com espontâneo?
o psicanalista tem um caráter transferencial
não é suficiente, por não facilitar qualquer
discriminação.
Os autores de inspiração kleiniana usam com
Seria preciso, do meu ponto de vis- frequência o termo inglês urge para se referir
ta, acrescentar que a situação analítica não ao processo pelo qual as manifestações trans-
existe per se, mas é criada pela interpreta- ferenciais emergem. O termo é de difícil tradu-
ção sistemática da transferência na relação. ção em outras línguas e refere-se a um ímpe-
Essa resposta exige uma explanação do sen- to, a uma ânsia, a algo que está sendo impelido
tido dado ao conceito de transferência. ou instigado a se manifestar. Trata-se, portan-
to, de um processo que se manifesta de forma
imperiosa.

A relação mantida por um paciente com seus


pais reais ou amigos e com o analista é de mes- Uma característica inegável da psi-
ma natureza. Ele estabelece, em ambos os ca- canálise contemporânea é a preocupação
sos, uma relação dupla, respondendo à natu- com seu aspecto relacional, consubstan-
reza tanto real quanto fantasiosa do objeto. O
que varia e vai caracterizar e construir a rela-
ciada em seu interesse pela interação do
ção analítica é a natureza da resposta do ana- par. Essa é, seguramente, uma preocupa-
lista, que se diferencia da resposta de pais ou ção pós-freudiana. Laplanche3 nos indica
que a definição de psicanálise, para Freud,
Psicoterapia de orientação analítica 81

concentrava-se, em primeiro lugar, em sua André Green1 considera tão revolu-


caracterização como método interpretativo cionária essa mudança de polos teóricos
fundado nas associações livres, para depois que sugere estarmos diante de uma nova
ser entendida como tratamento e, por fim, metapsicologia, uma espécie de terceira
como teoria. tópica, que se instala sub-repticiamente
Na contemporaneidade, enfatizamos no pensamento psicanalítico. Green sugere
a situação clínica, e o encontro analítico que isso se deu como consequência da prá-
passa a ser observado e estudado como tica clínica psicanalítica, que fez os analis-
uma relação entre duas pessoas que ocor- tas buscarem desenvolver uma concepção
re independentemente de suas vontades e teórica, enraizada de forma mais profunda
produz um impacto emocional mútuo – na clínica. Essa nova concepção passou a
um encontro no qual ocorrem trocas de constituir uma teoria da clínica, uma abor-
informações, isto é, comunicações em nível dagem diferente da de Freud, e que supe-
verbal e não verbal, intencionais ou não. rou a dicotomia entre teoria e prática exis-
Refletir sobre a transferência, hoje, tente até então.
significa preocupar-se com o que é trans- Em 1905, no pós-escrito de seu tra-
mitido sobre o funcionamento intrapsíqui- balho Fragmentos da análise de um caso de
co do paciente (e, eventualmente, do ana- histeria (caso Dora), Freud7 define “trans-
lista, ou seja, a contratransferência), com ferências” da seguinte maneira:
o que ocorre na relação paciente-analista
durante o encontro. Passamos a enfatizar a Que são transferências? São novas
interação entre paciente e analista em um edições ou fac-símiles dos impulsos e
nível intrapsíquico.5 fantasias que são despertados e torna-
Recentemente, passou-se a acentuar,­ dos conscientes durante o andamento
além do aspecto relacional, a dimensão in­ da análise. Possuem, no entanto, uma
peculiaridade característica de sua es-
tersubjetiva do encontro analítico como pécie: substituem uma pessoa ante-
uma nova dimensão da interação paciente- rior pela pessoa do médico. Em ou-
-analista. Ogden6 afirma: tras palavras, toda uma série de expe­
riências psicológicas é revivida, não
Creio que uma importante faceta do como algo que pertence ao passado,
presente momento da psicanálise é o mas que se aplica ao médico no pre-
desenvolvimento de uma conceitua- sente momento.
ção da natureza do interjogo da sub-
jetividade e intersubjetividade no set-
ting analítico e a [consequente] explo- Nesse trabalho, Freud também defen-
ração das implicações para a técnica de que o tratamento analítico não cria as
que esse desenvolvimento concei­tual “transferências”, apenas as traz à luz. Em
traz. 1914, em seu trabalho Relembrar, repetir
e elaborar, Freud8 introduz o conceito de
“neurose de transferência”, com o sentido
Assim como o sonho era visto por Freud como de uma neurose artificial que repete a tota-
a via régia de acesso ao inconsciente e, por ex- lidade dos comportamentos patológicos do
tensão, ao sintoma, a transferência também paciente na relação com a figura do analis-
passa a ocupar, de modo progressivo, na psi-
ta. Essa neurose artificial é uma reedição da
canálise contemporânea, esse espaço ao lado
dos sonhos. neurose clínica, que reorganiza as reações
de transferência em torno da patologia. An-
82 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

teriormente, no mesmo ano,9 ele já havia


usado o termo “neurose de transferência” Klein, desde o início de sua obra, não concebe
em seu trabalho sobre o narcisismo, para a existência da pulsão desligada de um objeto.
designar uma entidade nosológica. Nele, as O representante mental da pulsão associada ao
objeto é a fantasia inconsciente. Como resulta-
“neuroses de transferência” opunham-se às do, impulsos, defesas e emoções são represen-
“neuroses narcísicas”. O que nos interessa tados e vivenciados de modo inconsciente sob a
aqui é o emprego do termo no primeiro forma de fantasias. A afirmação da existência
sentido mencionado.­ de emoções no inconsciente é uma consequên-
Em 1920, no trabalho Para além do cia natural da posição central que ocupa, em
princípio do prazer, Freud10 associa as ma- seu pensamento, a noção de relações objetais.
nifestações transferenciais ao princípio de O impacto da pulsão sobre o objeto gera a expe-
riência emocional. Assim, se as pulsões só têm
compulsão à repetição. A partir daí, a en- existência inconsciente e não podem ser disso-
fâse na questão da transferência passa para ciadas de seu objeto, as emoções também es-
o caráter repetitivo das manifestações con- tão presentes no inconsciente.
flitivas. As principais divergências quanto
ao conceito de transferência referem-se à
questão de como se concebe o que é repeti- Klein faz da existência da emoção no
do na situação transferencial: inconsciente o centro da vida mental, aqui-
lo que a organiza e lhe confere sentido. Para
1. Repetimos comportamentos singulares os pós-kleinianos, como Meltzer e Bion, as
dirigidos a uma figura específica do emoções constituem o núcleo significativo
passado? da experiência e requerem uma transfor-
2. Ou repetimos padrões emocionais de mação em forma simbólica para poderem
comportamentos ou, ainda, tipos de ser pensadas e comunicadas.
relações de objeto? Abordaremos, agora, o “debate inau-
3. Qual a relação do passado histórico gural” que opôs estas duas grandes figu-
com a situação presente? ras da psicanálise: Anna Freud e Melanie
Klein. Nesse simpósio, Klein responde às
Em que pontos fundamentais Mela- críticas de Anna Freud, e é por meio dessas
nie Klein e seus continuadores, os analistas respostas que podemos depreender certas
de inspiração kleiniana, diferem de Freud originalidades de sua concepção. Tais res-
em relação à noção e à utilização do con- postas precisam ser examinadas com cui-
ceito de transferência? Antes de responder dado, pois, muitas vezes, Klein responde a
diretamente a essa questão, o que farei a críticas que nunca foram formuladas con-
partir de uma discussão aprofundada do tra ela. É somente examinando em detalhes
debate entre Anna Freud e Melanie Klein, as afirmações de Klein que se pode notar
realizado em 1927 – “o debate inaugural”, algumas das sutilezas e singularidades que
na expressão de Laplanche11 –, gostaria de marcam a visão dessa autora e passam a
tratar de outro ponto de divergência, que constituir aspectos centrais de sua teoria e
se revelará muito importante ao consi- da de seus sucessores.
derarmos as concepções de Anna Freud e Antes de iniciar nossa análise, é pre-
Klein e que precisa ser esclarecido para que ciso notar que o artigo de Klein sobre es-
as outras questões possam ser respondidas. sa discussão a respeito das condições en­
Trata-se da questão do status da emoção na volvidas na psicanálise de crianças assu-
estrutura da vida psíquica. me uma postura de resposta às críticas de
Psicoterapia de orientação analítica 83

Anna Freud. Klein começa por acentuar remos o que o termo pode significar para
a importância de se analisar a transferên- Klein. Petot13 esclarece:
cia negativa. Muitos pensam que aí está
a originalidade de sua técnica de análise. Mas é claro que, para Melanie Klein,
o debate não se dá entre, por um lado,
Trata-se, entretanto, de um engano. H. von
o reconhecimento da transferência e a
Hug-Hellmuth começou a analisar a trans- não-existência da neurose de transfe-
ferência negativa antes de Melanie Klein rência e, por outro, o reconhecimento
e até mesmo afirmou que essa análise era da transferência e da neurose de trans-
mais fácil do que a da transferência posi- ferência. Para ela, o debate é o seguin-
tiva. O que confunde os leitores é o cará- te: subestimação (Anna Freud) ou
ter enfático da defesa da necessidade de se avaliação correta (ela própria) da ca-
pacidade de transferência da criança.
analisar a transferência negativa, por parte
de Klein. Ela não podia dizer isso de ou-
Klein responde a Anna Freud afir-
tra forma naquela época, pois se tratava
mando que a transferência da qual ela fala
de uma necessidade interna decorrente de
refere-se à externalização de imagos incons-
seu sistema. Em 1927, ela acreditava que só
cientes nas relações atuais. Ela introduz sua
os objetos maus eram internalizados. A se­
concepção do duplo caráter da relação man-
guir,­ela afirma que a criança desenvolve,
tida com os pais e com o analista na sessão.
tal ­como o adulto, uma neurose de trans-
A criança relaciona-se, de forma concomi-
ferência – ao contrário de Anna Freud, que
tante, com os pais reais (ou com o analista)
insistia na impossibilidade de a criança de-
e com a imago internalizada desses pais (ou
senvolver uma transferência completa e,
do analista), modificada por sucessivos mo-
sobretudo, uma neurose de transferência.
vimentos de projeção e introjeção.
Anna Freud12 escreveu:
De onde se origina a transferência? A
essa questão, Klein responde que os pro-
A criança não está pronta, como o
cessos contínuos de projeção e introjeção,
adulto, para empreender uma nova
edição de suas relações amorosas, intimamente ligados às emoções do bebê,
porquanto, como se poderia dizer, a dão início às relações objetais, e daí decorre
antiga edição não se encontra ainda a teoria kleiniana sobre a origem da trans-
esgotada. Os primeiros objetos de sua ferência.
afeição, os pais, existem ainda para ela
como objetos de amor na realidade, e Sustento que a transferência origina-
não, como é o caso dos neuróticos, so- -se dos mesmos processos que, nos es-
mente na imaginação. tágios mais arcaicos, determinam as
relações de objeto. Dessa forma, na
análise, temos de voltar repetidamen-
É preciso notar que, ao responder a
te às flutuações entre objetos amados
Anna Freud, Klein utiliza o termo “neu- e odiados, externos e internos, que
rose de transferência” pela primeira e últi- dominam o início da infância.14
ma vez em toda a sua obra. Em qualquer
outra ocasião, ela se referirá à “situação de O mecanismo de projeção adquire,
transferência” ou simplesmente à “trans- aos poucos, um novo significado e uma
ferência”. Petot13 sugere que, se não fosse importância crescente nos trabalhos de
pela polêmica, a concepção de “neurose de Klein, à medida que sua experiência clínica
transferência” seria totalmente estranha ao se aprofunda. A princípio, em sua obra, a
sistema kleiniano. Mais adiante, constata- projeção é referida como desenvolvendo-
84 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

-se sobre a superfície do objeto (on ou onto


the object). Com a introdução, em 1946, do Klein enfatiza a importância de considerarmos
conceito de identificação projetiva, a pre- a totalidade do material comunicado pelo pa-
posição que acompanha a palavra “proje- ciente como parte da transferência, e não ape-
nas as referências diretas à figura do analista,
ção” muda. Torna-se into, quer dizer, passa
tendo em vista sua ideia de que a transferên-
a indicar que a projeção se dá para dentro do cia está enraizada nos estágios mais arcaicos
objeto, indicando a existência de um espaço do desenvolvimento e nas camadas mais pro-
interno neste. Ao introduzir o conceito de fundas do inconsciente. Segundo a autora, toda
identificação projetiva, em 1946, Klein mo- a estrutura defensiva é mobilizada na sessão
difica e amplia a concepção de transferência analítica para lidar com a ansiedade. São em-
até então vigente entre os psicanalistas. pregadas, nessa situação, todas as defesas
que foram utilizadas no passado para lidar com
tais ansiedades. Pelo exame detalhado do sis-
tema defensivo posto em movimento, aprende-
Com a definição do mecanismo de identifica- mos muito sobre a maneira como os objetos in-
ção projetiva, é descrito um processo por meio ternos foram construídos.
do qual a projeção de partes cindidas do self
que contêm sentimentos e/ou até mesmo fun-
ções mentais para dentro do objeto modifica
sua identidade do ponto de vista da percepção Ainda nesse artigo, Klein14 escreve:
de quem projetou.
Com isto quero dizer que nosso cam-
po de investigação cobre tudo aquilo
Ao projetar para dentro, o paciente que se situa entre a situação presen-
está ativamente fazendo algo com a mente te e as primeiras experiências. Na rea­
lidade, é impossível encontrar aces-
do analista e, ao fazê-lo, comunica alguma
so às emoções e às relações de objeto
coisa a respeito de sua própria mente, de mais antigas, a menos que examine-
como se desenvolve seu processo mental. mos suas vicissitudes à luz de desen-
Podemos pensar essa utilização da volvimentos posteriores.
projeção em duas linhas. A primeira refere-
-se a como a identificação projetiva pode Está claro que o desmonte da organi-
ser usada para promover uma atuação na zação defensiva passa pelo conhecimento
transferência por parte do analista. A se- de como ela foi construída e que a recons-
gunda, complementar, acentua a função trução das relações objetais, em especial
comunicativa da identificação projetiva. das primeiras, as fundadoras, é realizada a
Betty Joseph15 tem chamado a atenção para partir de um exame minucioso de sua ope-
o fato de que muito da nossa compreensão ração no presente.
da transferência advém do entendimento Na época em que esse artigo foi es-
de como os pacientes atuam sobre nós pa- crito, em 1952, os analistas que não per-
ra que sintamos determinadas coisas pelos tenciam à escola kleiniana davam atenção,
mais variados motivos. A autora ressalta a sobretudo, ao que era comunicado e reme-
importância de considerarmos a transfe- morado verbalmente na sessão, tratando
rência como uma situação total, tal como o material segundo o modelo freudiano
Klein enfatizou em seu artigo de 1952. Que do conflito. A introdução dos conceitos
significa essa noção de totalidade? Ela com- de cisão e identificação projetiva permitiu
porta, a meu ver, diversas dimensões. dispensar a lembrança verbal, pois eles nos
Psicoterapia de orientação analítica 85

facilitam um acesso a fenômenos mentais Aos poucos, a percepção de que as coisas


muito arcaicos, alguns dos quais, inclusive, não mudavam na vida interna e externa do
ocorreram em épocas anteriores ao desen- paciente foi causando um mal-estar na ana-
volvimento da comunicação verbal. Essas lista. Ao examinar o conjunto das sessões,
vivências são comunicadas ao analista por e tomando por base um sonho, a analista
meio de identificações projetivas, e cabe a pôde perceber e interpretar o que estava
este colocá-las em palavras. As vivências sendo atuado na transferência. Tratava-se
permanecem na vida mental dos indiví- da atuação de uma situação em que o pa-
duos sob a forma de “memórias em senti- ciente tinha por assegurado ser o paciente/
mentos” (memory in feelings), conforme a filho preferido pela analista/mãe e referia-
expressão de Klein. A situação total inclui, -se a um sentimento que o paciente tinha
portanto, também os elementos da vida de que a analista/mãe se excitava com ele.
mental do paciente que são comunicados A análise detalhada da transferência
de forma não verbal e que se referem a vi- como situação total permite que, além da
vências ocorridas antes do desenvolvimen- natureza das defesas usadas, seja avalia-
to da fala ou que permaneceram vivas sob do o nível da organização psíquica dentro
a forma de “memórias em sentimentos”, da qual o paciente está operando. Betty
sem nunca terem sido articuladas de forma Joseph15­ mostra que os acontecimentos da
verbal. sessão são produtos da interação entre a
Há outro aspecto da transferência – realidade e a percepção dessa realidade por
como situação total – a ser mencionado. parte do paciente, resultado das fantasias
Ele diz respeito a fenômenos mentais que inconscientes enraizadas em sua história.
só podem ser entendidos se considerarmos É pelo exame detalhado das pressões do
a repetição de determinados padrões ao paciente para fazer o analista viver e atuar
longo de um conjunto de sessões. A fan- aspectos de seu mundo interno na trans-
tasia que subjaz a esse padrão só nos é re- ferência que conhecemos o paciente, suas
velada depois de um cuidadoso exame dos defesas e sua história.
movimentos mínimos que ocorrem nas co- A interpretação contínua e minuciosa
municações e reações do paciente, na ses- desse processo de transferência como si-
são, cotejados com os movimentos intras- tuação total nos permite identificar como
sessões. Elizabeth Rocha Barros16 refere-se os objetos internos e o sistema defensivo
a esse método de exame do material como foram construídos. Esse conhecimento é
utilizando-se ora de uma lente com zoom, essencial para que se opere a mudança psí-
que nos permite o exame dos detalhes dos quica.
movimentos nas sessões, ora de uma lente Acabamos de constatar, ainda que de
grande angular, que nos permite uma visão modo sucinto, como o conceito de trans-
do todo. ferência ampliou-se, resultando na noção
Betty Joseph15 ilustra a situação total de transferência como situação total e tor-
na transferência com o caso de um paciente nando-se indissoluvelmente ligado à noção
que lhe dava muita satisfação quando ses- de contratransferência. Passemos, então,
sões isoladas eram consideradas. O pacien- à discussão sobre o que é interpretado no
te parecia ouvi-la e, aparentemente, pensa- aqui e agora com o passado do paciente.
va sobre o que era dito; a analista esperava Dito de outra forma, abordaremos qual a
a hora desse paciente com certa excitação. relação da criança analítica com a criança
86 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

histórica. Convém lembrar que não inter- O presente interpretado é visto como
pretamos apenas a criança analítica, mas função do passado, não como o passado.
também o adulto analítico. Essa afirmação Ruth Riesenberg-Malcolm18,19 escreve so-
é igualmente verdadeira para o caso de aná- bre esse tema e aponta para o fato de que,
lise de crianças, quando devemos buscar ao interpretarmos, estamos interpretando
interpretar suas partes mais adultas. o passado no presente. Ela defende que re-
Em outro texto, escrito em colabora- construir, em análise, trata-se de um cons-
ção com Elizabeth Rocha Barros, afirma- tante entrelaçar de eventos lembrados da
mos:17 história com eventos vivenciados na aná-
lise.
Os analistas kleinianos consideram
Por que reconstruir? A resposta mais
que não existe uma linearidade entre
o passado histórico e o passado revi- imediata de um kleiniano seria: antes de
vido no presente da transferência. A mais nada, constitui um trabalho realizado
criança psicanalítica repete alguns as- na cabeça do analista que lhe permite re-
pectos do seu passado histórico, mas construir momentos da história da relação
sua evolução durante o processo ana- do paciente com seus objetos internos, suas
lítico é diferente. A transferência com- ansiedades e as maneiras como suas defe-
porta várias dimensões temporais e
sas foram formadas. Quanto ao momento
inclui também uma dimensão a-his-
tórica, pensam estes analistas. Acon- de comunicar esse conhecimento ao pa-
tecimentos do passado não explicam, ciente, as respostas variam. Alguns analis-
por si só, o presente atual. Ao identi- tas acreditam que o próprio paciente fará
ficarmos a origem de uma determina- as reconstruções necessárias, por meio de
da maneira de ser em nosso paciente sua experiência de análise da transferência.
ainda ficamos com uma questão, tal- Outros pensam que devem comunicar suas
vez a mais essencial, para ser respon- interpretações reconstrutivas sempre que o
dida psicanaliticamente, qual seja: o
que mantém esta maneira de ser pas-
paciente tiver um conhecimento grande o
sada no presente? suficiente de si mesmo, adquirido no aqui
e agora da interpretação transferencial, que
lhe permita a utilização desse conhecimen-
to de forma não defensiva.
Melanie Klein menciona diversas vezes as ida-
des cronológicas em que certas estruturas
mentais estariam presentes. Penso, entretanto,
que, ao introduzir o conceito de posições (es- Os kleinianos insistem sobre a importância e a
quizoparanoide e depressiva), ela rompe, em necessidade do contato emocional vivo e ime-
seu sistema, com a necessidade de referência diato entre o paciente e o analista na situação
a um tempo cronológico, adotando uma pers- analítica para que a interpretação gere convic-
pectiva temporal genealógica. Os kleinianos e ção e propicie a mudança psíquica. Daí a cau-
os pós-kleinianos estão mais interessados em tela com que se fazem interpretações que visem
saber que estrutura veio antes de qual outra do ao passado e permitam que o paciente escape
que quando isso ocorreu. Essa questão aparece defensivamente do que está acontecendo.
com frequência sob a forma de uma preocupa-
ção com o nível mental em que o paciente está
operando, se se trata de um funcionamento ca-
racterístico da posição esquizoparanoide ou da De tudo o que foi dito a respeito da
depressiva. transferência, decorre que, para trabalhar
com ela, necessitamos do conceito com-
Psicoterapia de orientação analítica 87

plementar de contratransferência. Os fe­


nômenos da contratransferência têm sido ser dissociados. Não considero a contratransfe-
discutidos com tanta frequência na litera­ rência apenas como a resposta do analista ao
tura psicanalítica que dizer algo novo a res- paciente, a qual poderia ser estudada isolada-
mente da transferência. Minha perspectiva su-
peito torna-se muito difícil. Paradoxalmen­ gere a existência de um complexo processo de
te, contudo, discute-se tanto esse tema elaboração e de transformação dos sentimentos
por­que ainda existem importantes lacunas do analista na sessão antes que uma interpre-
a serem preenchidas na compreensão do tação possa ser construída.
processo e de seu significado na teoria psi-
canalítica.
Ao me propor a voltar ao assunto, Penso que se tornou consenso entre
guio-me por uma questão posta por Laplan- um grupo importante de analistas a ideia
che,3 quando ele pergunta: “Como pro­gride de que a contratransferência se origina
o pensamento analítico?”. E responde: nos processos de identificação projetiva.
Por meio da identificação projetiva, o pa-
Por repetição e ruptura, por banaliza- ciente projeta aspectos (ou a totalidade
ção e reafirmação, por circularidade e de seu self) para dentro do analista. Este
aprofundamento. Os momentos ino-
vadores são também retorno à fonte.
(receptor das identificações projetivas) se
O aprofundamento é a reafirmação de torna, por momentos, os aspectos nega-
uma exigência originária. (grifo nos- dos do paciente ao projetar. Ele se trans-
so) forma no eu com o qual o paciente tem
conflitos em ser e, assim, não pode ser.
A constatação forçada pelas circuns- Dessa forma, o analista vivencia, pelo pa-
tâncias da prática analítica de que não é ciente, aquilo com o que ele tem conflitos
possível estar com outro ser humano de ou que não tolera vivenciar. O receptor da
maneira íntima sem passar por uma expe- projeção (o analista) torna-se participan-
riência emocional perturbadora, a meu ver, te na autonegação do paciente e passa a
constituiu a exigência originária que levou existir na fantasia deste como um sujeito
Freud a buscar meios de limitar o alcance separado. Ele é, ao mesmo tempo, o eu e
dessa turbulência com o objetivo de pro- o não-eu do paciente. Desse modo, a parte
teger o paciente das possíveis atuações do projetada do paciente é objetivada na sub-
analista. Para mim, aprofundar esse tema, jetividade do analista. Ogden6 refere que
hoje, consiste em reafirmar a exigência do o desfecho de negação mútua é a criação
exame da experiência pela qual passa o de um terceiro sujeito, “o sujeito de iden-
analista do ponto de vista da natureza do tificação projetiva”, que, ao mesmo tem-
impacto perturbador do paciente sobre ele po, é e não é o projetor e receptor. Nesse
e do trabalho mental necessário para supe- processo, o receptor (analista) nega-se a si
rar a perturbação e para transformá-la em próprio ao render-se ao (criar espaço pa-
interpretações, verbalmente comunicadas. ra o) aspecto negado da subjetividade do
Esse é o aspecto que pretendo examinar. projetor (paciente).
A investigação dos aspectos que cons­
tituem o sujeito da identificação projeti-
Compreendo a transferência e a contratransfe- va permitirá o aprofundamento da com­
rência como processos dialéticos que não podem preen­são do fenômeno da contratransfe-
rência.
88 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

Acolher, nesse caso, consistia em eli­


Glen Gabbard20 comenta que a contratrans- minar da sessão toda e qualquer interfe-
ferência hoje representa o campo comum do rência que perturbasse a objetividade do
conhecimento psicanalítico. Isso, basicamen- analista e que pudesse se constituir em
te, significa que os analistas contemporâne-
os aceitam que a subjetividade do analista
um convite para uma atuação. Freud não
tem um papel na construção da interpreta- deixava de estar correto, mas o desenvol-
ção, mas, ao mesmo tempo, não existe acordo vimento conceitual da época não lhe per-
quanto aos processos que permeiam a trans- mitiu alterar sua noção de acolhimento, na
formação dos sentimentos do analista em medida em que não concebia o tratamento
uma interpretação. sobretudo como uma relação intersubjeti-
va. A psicanálise contemporânea enfatiza a
natureza intersubjetiva e dialógica do tra-
Para Canestri,21 o que melhor carac- balho interpretativo.
teriza a psicanálise contemporânea é uma H. Racker23 e Paula Heimann24 pro-
forma de interpretar que incorpora o pro- põem a transformação dos sentimentos
cesso de escuta e o processo subsequente contratransferenciais em instrumentos de
que ocorreu em nossas mentes como fun- pesquisa da personalidade do paciente. Essa
ção desse tipo particular de escuta. Irma sugestão surge da incorporação à psicanálise
Brenman Pick (1985) escreveu: “Na verda- do conceito de identificação projetiva e da
de, é impossível acolher a expe­riência do teoria das relações objetais. Acolher, nesse
paciente sem também passar por uma ex- caso, consiste em tomar os sentimentos
periência”. Essa frase sumariza a natureza contratransferenciais como aspectos do pa-
da problemática envolvida na questão da ciente projetados para dentro da mente do
contratransferência desde sua introdução, analista, expressivos da arquitetura de sua
quando Freud22 expressou preocupação vida psíquica. A formulação da interpreta-
com a natureza perturbadora do impacto ção depende do exame desses sentimentos
do paciente sobre o analista, o qual pode- como projeção que modifica a própria per-
ria deslocá-lo da posição objetiva análoga cepção que o paciente tem do analista.
à postura do cirurgião, preconizada por Money-Kyrle25 amplia o escopo da
ele. Freud, nessa altura, não associou essa pesquisa propiciada pela contratransferên-
perturbação à natureza da escuta psicana- cia, apontando para o fato de que as proje-
lítica, ou seja, à natureza do acolhimento ções do paciente podem estar intimamen-
proporcionado pelo analista no contexto te ligadas às reações internas do analista a
transferencial. Provavelmente por não dar essas projeções. Dessa forma, Money-Kyrle
ênfase ao caráter relacional da sessão ana- introduz a ideia de que os sentimentos des-
lítica, Freud tomou a contratransferência pertados no analista pela escuta psicanalí-
como uma interferência, uma espécie de tica interagem com seu mundo de objetos
ruído perturbador, expressão de conflitos internos, e, dessa maneira, o fenômeno a
inconscientes não resolvidos do analista. ser estudado torna-se muito mais comple-
Na perspectiva de sua teoria, todo confli- xo. Acolher, aqui, significa estabelecer as-
to estava relacionado com a sexualidade e sociações entre os sentimentos do paciente
redundaria inevitavelmente, no conflito projetados no mundo interno do analista
nuclear, o edipiano, que só poderia ser e identificar as funções que essas projeções
tratado em análise. exercem no espaço mental daquele.
Psicoterapia de orientação analítica 89

suportáveis, tornando a experiência nessa


Bion,26-29 em lugar do termo “contratransfe- nova representação mais assimilável pelo
rência”, preferia falar no impacto das identifi- aparelho mental (função alfa analítica).30
cações projetivas no analista. Com base no me- Em uma de suas conferências no Rio de
canismo de identificação projetiva, acreditava
que existia um fluxo contínuo de fantasias in-
Janeiro, quando perguntado sobre como
conscientes ocorrendo tanto na vigília quan- utilizar a contratransferência na sessão,
to no sonho e que, na sessão, resultavam em Bion31 respondeu criticando o termo e di-
continuados convites para o analista assumir zendo que só havia uma coisa a fazer com a
papéis, atuan­do aspectos do mundo interno do contratransferência: analisá-la.
paciente. O conceito de transferência como si-
tuação total, inicialmente mencionado por
Klein14 e, na sequência, desenvolvido por
Esse fluxo contínuo implica a existên- Betty Joseph,15 chama a atenção para a im-
cia de um comércio entre os mundos in- portância da escuta minuciosa do paciente:
ternos do paciente e do analista, da mesma não só do ponto de vista do conteúdo da
forma que ocorre entre o bebê e sua mãe. narrativa, mas, sobretudo, da perspectiva
Essa relação entre mundos internos define de como ele nos está usando na relação es-
um espaço no qual significados são gerados. tabelecida no quadro analítico transferen-
O analista, no lugar da mãe, passa a exercer cial. O paciente nos convida a sentir certas
a função de transformar as experiências emoções para atuar determinados papéis e,
emocionais do paciente/bebê pela capta- dessa forma, nos atrai para dentro de seu
ção dos sentimentos projetados por meio sistema defensivo. Betty Joseph15 sugere
de sua rêverie; isso caracteriza, na visão de que o paciente, por meio de suas descri-
Bion, uma função continente a ser exerci- ções de experiências emocionais, não es-
da pelo analista. O modelo de transforma- tá apenas falando sobre a maneira como
ções operadas no psiquismo, conforme esse estas são vividas, mas criando, no espaço
ponto de vista, segue uma analogia com o analítico, a própria arquitetura que subjaz
sistema digestivo e os processos metabóli- à organização de sua vida psíquica em ca-
cos. Nessa perspectiva, acolher consiste em da momento. Esta se torna disponível pa-
transformar os sentimentos intoleráveis ra o analista pelo exame minucioso de sua
do bebê/paciente projetados, exercendo contratransferência. O analista, incons-
uma espécie de função de diálise mental. cientemente, é instado a participar dessa
Bion hipotetiza uma série de funções, que construção, constituindo, dessa maneira,
comentaremos adiante, exercidas sobre as um espaço intersubjetivo. Acolher, nessa
projeções que tornam possível a digestão perspectiva, consiste em uma atitude ativa
desses sentimentos intoleráveis. de exame analítico da contratransferência
Acolher o paciente, por meio da ex- e na construção de uma interpretação que
periência contratransferencial, para Bion, coloque em palavras o significado defensi-
consiste em operar uma transformação nos vo dos convites para além destas, expressi-
sentimentos deste pela mente do analista, vos da estrutura das fantasias inconscien-
seja lhe dando uma primeira representação tes, que nos são feitos pelo paciente.
mental para estados não mentais (função Pierre Fédida,32 preocupado com a
alfa sintética),30 seja alterando sua repre- possibilidade de transformação da psica-
sentação mental de estados anímicos in- nálise em uma psicologia da comunicação
90 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

ou das relações interpessoais, adverte para contratransferência não se reduz à produ-


a necessidade de se construir uma metap- ção do análogo aos sentimentos do pacien-
sicologia da contratransferência. No caso, te na mente do analista, mas ao seu aspecto
esta teria como modelo de elaboração a evocativo de metáforas expressivas de es-
metapsicologia do sonho. Seu alvo, ao fa- truturas inconscientes.
zer essa crítica, eram as descrições dos fe- A evocação é uma forma de expres-
nômenos contratransferenciais em termos são não discursiva, ainda que seja permea­
limitados aos processos de comunicação da pelo discurso verbalizado do paciente,
em curso, deixando para um segundo pla- permitindo, dessa forma, que apareçam
no a problemática de cenários inconscien- conexões outras que não as próprias da
tes que estavam sendo atuados na relação lógica discursiva, mediada por palavras,
com o analista. ampliando, assim, as formas de representa-
O artista Giacometti, citado por Fédi- ções de relações afetivas. Nessa perspectiva,
da,33 comenta que o desenho de um rosto a evocação opera uma desconstrução, uma
tem menos a ver com a aptidão de um traço desorganização que permite a manifesta-
para representar o que a vista recebeu do ção dos elos inconscientes que interferem
que com o poder das palavras de engendrar na elaboração do significado da experiência
esse rosto, guiando o lápis a seu encontro. emocional.
O que está sendo acen­tuado, da perspectiva Laplanche,3,11 discutindo a lingua-
psicanalítica, é que a imagem que temos do gem, aponta para uma dupla função por ela
rosto torna-se evocação e constitui fonte de exercida. De um lado, uma função de aber-
inspiração mais profunda, com raízes no tura à comunicação – enquanto o incons-
inconsciente, do que a visão de qualquer ciente, por definição, é fechamento – e, de
rosto. O desenho inspira-se em uma repre- outro, uma função de simbolização defini-
sentação evocada, que já operou uma sele- da como sua possibilidade de fazer entrar
ção dos traços que a estruturam a partir da em conjuntos relacionais mais amplos,
ressonância que a contemplação produziu mais flexíveis e mais abertos o que estava
em nós e que ­forma uma espécie de dese- encerrado nos ciclos rígidos das fantasias
nho interior. inconscientes.
A menção que Fédida faz a Giacomet- A função da evocação, nesse contex-
ti e a outros pintores leva-me a acentuar o to, é garantir uma nova corporificação das
papel da evocação como forma de apreen- emoções constituidoras das fantasias in-
são de complexas redes de relação na cons- conscientes, em um plano qualitativo que
tituição das representações mentais. A evo- combina elementos discursivos e não dis-
cação estabelece uma concepção não dis- cursivos. Dessa maneira, a imagem interior
cursiva dessa rede de relações e se expressa evocada é análoga, mas não idêntica, aos
em uma captação imagética vivencial dos sentimentos do paciente. Essa presentifica-
sentimentos envolvidos. ção das redes de afeto torna visível algo que
As palavras do paciente, seu compor- não estava evidenciado em seu discurso. Os
tamento na sessão e seus convites implíci- sentimentos do analista, evocados pelo pa-
tos para o analista atuar papéis que exercem ciente durante a sessão por meio da iden-
determinadas funções em seu sistema de- tificação projetiva, necessitam sofrer um
fensivo constituem o plano evocativo que complexo trabalho de transformação para
resulta na contratransferência. Da mesma tornar visível algo que não estava previa-
forma que na arte, a riqueza do conceito de mente lá e que não se esgota na mera des-
Psicoterapia de orientação analítica 91

crição analógica do sentimento projetado


na subjetividade do analista. O impacto emocional da fala do paciente no
Fédida,33 ao mencionar a condição analista é também um modo de ação sobre sua
de trabalho do analista e a função da lin- mente, evoca sentimentos ou pressões para a
ação, nos moldes descritos por Betty Joseph,
guagem, recorre a um neologismo bastante que o convidam a sentir determinadas emoções
expressivo. Ele diz que a linguagem dá ré- e/ou a atuar de certas maneiras na transferên-
son às coisas. A palavra é um neologismo cia. Esse impacto constitutivo de uma evocação
composto das palavras “ressonância” (rés- traz consigo, segundo Fédida, um desejo de lin-
sonance) e “razão” (raison) e sugere que a guagem, isto é, uma possibilidade de fala que
linguagem do analista é resultado de uma lhe dá uma significação em seu tom próprio.
ressonância, isto é, de um som que (re)tor- O indizível pela linguagem falada expressa-se,
dessa forma, pela própria indizibilidade da pa-
na e dá razão. Razão aqui não é utilizada lavra, manifestando-se por evocações.
no sentido de intelectualização, mas refere-
-se à capacidade do indivíduo de dar sen-
tido, encontrar uma significação para suas Penso que a interpretação contém um
vivências emocionais. A linguagem, nesse lado subjetivo referente à experiência do
contexto, não é cópia de uma vivência, mas analista (sua consciência subjetiva), o qual
aquilo que lhe dá sentido a partir de uma se expressa primeiramente em um plano
ressonância. Fédida33 afirma: evocativo, que mistura elementos discur-
sivos e não discursivos, e um lado objeti-
Quando a coisa retorna à fonte das vo, resultado de uma reflexão do analista
palavras, nomeá-la equivale a tomar (sua consciência objetiva), traduzido em
o visual como desejo de linguagem da
discurso, que inclui as conexões expressas
imagem. E a receptividade é esta capa-
cidade da linguagem de permitir que no plano evocativo não verbal. Esse discur-
a turbulência do nome surja em seu so favorece redes relacionais mais amplas
tom próprio. Desse tom engendra-se, e menos rígidas, estruturas enquadrantes
pelo nome, o desenho interno da coi- atribuidoras de significado às experiências
sa, a lógica de seu sentido. emocionais existentes no inconsciente.
Tal perspectiva abre espaço para uma
Gostaria de continuar ainda por um pesquisa da intersubjetividade, na medida
momento a construção proposta por Fé­ em que se enfatiza que, na sessão analítica,
dida. Ele avança em sua ideia, inspirando- é construído um espaço comum a partir
-se em Cézanne, que escreve a propósito de de algo que não é só o paciente nem só o
sua atividade de pintar. Diz o pintor: “É co- analista, mas o produto da interação entre
mo se eu fosse a consciência subjetiva des- ambos naquele momento. O analista não é
sa paisagem, da mesma forma que minha concebido nessa função como expectador
tela é sua consciência objetiva”.33 Nessa dos processos mentais do paciente, uma
afirma­ção, podemos perceber com clareza vez que seu mundo interno torna-se o
que a tela é uma analogia não discursiva – campo de experiências por excelência, den-
mas de forma alguma idêntica – à repre- tro do qual traços do dinamismo mental do
sentação da paisagem na mente do pintor. paciente são vivenciados e articulados.
A imagem da tela é uma apreensão de ou- Penso que a noção de que o intrapsí­
tras conexões por uma forma que articula quico pode ser mais bem observado pela
significados em um plano não mediado relação estabelecida com o analista, isto
por palavras. é, pelo intersubjetivo, tem sua origem no
92 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

artigo de Heimann,24 inspirado pela teo- objetivo restabelecer igual equilíbrio en-
ria da identificação projetiva exposta por tre os aspectos discursivos e não discursi-
Klein, em 1946. A contratransferência se vos (não verbais) da fala do paciente. Ela
alimenta de todos os sentimentos vividos é a forma sugerida para permitir o acesso
na sessão pelo analista, mas constitui-se às articulações emocionais que envolvem,
como tal, isto é, como contratransferência, ao mesmo tempo, elementos discursivos e
somente quando apreendida como a parte não discursivos que são expressivos da or-
do processo transferencial vivida pelo ana- ganização interna do paciente. Se o sentir
lista. Portanto, ela é, concomitantemente, humano é uma concepção emocional não
uma forma de escuta (aberta também para discursiva que permeia o discurso articula-
os aspectos não discursivos) e um modo de do consciente e heterogêneo, necessitamos
ação transferencial. de uma forma de escuta especial. Esta é im-
portante para termos acesso à significação e
ao sen­tido do discurso do paciente, na me-
A contratransferência transmitida via identifi-
dida em que a própria descrição dos senti-
cação projetiva é um campo de articulação não mentos é heterogênea em relação ao sentir.
discursiva da vida mental do paciente da forma Penso que, nessa perspectiva, a con-
como está operando no aqui e agora da transfe- tratransferência, que opera como uma for-
rência. Para que a contratransferência se trans- ma de rêverie do analista, e os sonhos do
forme em uma interpretação, ela necessita per- paciente adquirem um papel preponderan-
correr um longo caminho, que inclui autoanáli- te na compreensão de como este articula
se, reflexão, familiaridade, relação com a teoria
analítica, entre outros aspectos. Ao interpretar, o
o significado de suas emoções e o sentido,
analista parte de um campo não discursivo das portanto, de sua vida psíquica. Creio que é
vivências e das imagens evocadas para o campo essa semelhança entre os processos de rêve-
da interpretação formulada em linguagem dis- rie e do sonho que leva Fédida a propor que
cursiva descritiva de significados. qualquer metapsicologia da contratransfe-
rência será baseada na metapsicologia da
vida onírica.
A psicanálise coloca em paralelo, co- Por meio da rêverie do analista e do
mo regras necessárias para criar a situação sonho do paciente, temos acesso aos cen-
analítica e que constituem um todo me- tros de atração do inconsciente ou, dito de
todológico, de um lado, a associação livre outra maneira, aos objetos internos, em
a ser seguida pelo paciente e, de outro, a torno dos quais gravitam as relações emo-
atenção igualmente flutuante como méto- cionais, ou, ainda, ao que Meltzer chama
do de escuta analítica. Associar livremente de núcleos significativos da vida emocio-
consiste em uma atitude de renúncia cons- nal.
ciente a buscar articular de forma lógica as
conexões discursivas e não discursivas a
partir daquilo que surge de modo espontâ-
neo, estimulado pela presença e pela escuta A escuta analítica envolve algo mais do que ser
capaz de se “colocar na pele do outro”, pois a
do analista. Assim, a sensibilidade abre-se
natureza da relação que mantemos com nos-
para conexões que não aquelas da ordem so paciente é diferente da que ele mantém co-
lógica consciente. nosco. Temos por função precípua na situação
A atenção igualmente flutuante (glei- analítica a apreensão de significados. Eu diria,
chschwebende Aufmerksamkeit) tem por
Psicoterapia de orientação analítica 93

tratransferência, operemos o que os linguis-


no entanto, que é de um tipo particular de em- tas denominam de “transmutação da base
patia que necessitamos. Eu arriscaria chamá- simbólica”. Na sessão, o paciente conta um
-la de empatia metaforizante. É um sentir como sonho, elicia sentimentos em nós ou nos
o outro que, ao mesmo tempo, transforma esse
sentir em outra coisa, por meio de um ato de
convida a atuar um papel. Essa narrativa e
apreensão de seu significado via comparação suas expressões atuadas evocam metáforas
de estados emocionais análogos, sem, contu- que combinam articulações discursivas e
do, serem isomórficos. Não procuramos identi- não discursivas que dão forma aos senti-
dades entre significados de experiências emo- mentos que estão sendo projetados em nós
cionais nossas, como analistas, e do paciente. na transferência. Ao interpretarmos, colo-
camos essas experiências evocadas em ou-
tra base simbólica, ou seja, transmutamos
Não se trata nunca de dizer “se é as- a linguagem evocativa dos símbolos visuais
sim em mim, é assim no paciente”. Envol- do sonho das metáforas ou das vivências
ve um exame das experiências emocionais expressivas da contratransferência em lin-
evocadas em nós pelo impacto da relação guagem verbal descritiva de significados e,
com o paciente, as quais produzem, me- assim, ampliamos a capacidade de pensar
diante uma apreensão da função exercida as experiências ao atribuirmos significado
por esse estado emocional em nós, metáfo- aos sentimentos envolvidos. É nesse sen-
ras expressivas do significado inconsciente tido que arrisquei a terminologia empatia
de suas formas de relação. metaforizante para descrever o tipo de em-
O inconsciente não é idêntico nem patia necessária para a operação de nossa
análogo ao conteúdo latente, da mesma função analítica. Esse consenso que está se
­forma que o psicodinamismo inconsciente formando sobre a importância da subje-
do paciente não está explícito nos sentimen- tividade do analista no processo analítico
tos contratransferenciais evocados em nós. amplia, de um lado, nossos instrumentos
O inconsciente pode ser apreendido por de trabalho, mas, por outro, nos defronta
meio do trabalho psíquico que opera a re- com certos perigos, que, a meu ver, podem
lação entre conteúdo manifesto e conteúdo alimentar a descrença pela qual passa atual­
latente do sonho, bem como pela relação en- mente o conhecimento psicanalítico por
tre a contratransferência e a natureza da re- favorecer possibilidades de banalizá-lo.
lação transferencial. A contratransferência, A contratransferência, como estado
diretamente, não nos dá acesso ao incons- mental do analista utilizado a serviço da
ciente. É preciso haver um trabalho analítico investigação da personalidade do paciente,
sobre a relação transferência-contratransfe- da forma como foi introduzida por Paula
rência para a construção da interpretação. Heimann24 e H. Racker,23 representou um
A função de rêverie, nessa perspectiva, é um grande avanço nas fronteiras das expecta-
componente essencial do processo de elabo- tivas de desenvolvimento propiciadas pelo
ração da contratransferência, na medida em conhecimento analítico. Não se limitou a
que constitui o processo pelo qual são cria- ser um instrumento técnico, pois modifi-
das metáforas que dão forma à experiência cou a própria concepção do tipo de conhe-
do analista das dimensões inconscientes da cimento obtido por meio da psicanálise.
relação com o paciente.34 A relação emocional estabelecida na
Sugiro que, ao formularmos uma in- sessão entre analista e analisando, permea­
terpretação a partir da elaboração da con- da pelos processos de identificação projetiva
94 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

e investigada pela análise da contratransfe- Nada é dito nessa interpretação que apro-
rência, permitiu-nos compreender melhor funde nosso entendimento sobre o psico-
a maneira como nossos pacientes moldam dinamismo inconsciente do paciente que
(e moldaram no passado) suas vidas. Ao dê conta da função exercida por essa raiva
mesmo tempo, defrontamo-nos, paradoxal- como organizadora de um padrão mental,
mente, com a complexidade da vida emo- que poderia estar a serviço do sadismo ou
cional humana e com os perigos de adotar- do masoquismo; também não faz menção
mos posturas simplistas que a banalizem. à função exercida pela não expressão da
A partir da teoria das relações objetais raiva, como seria de se esperar no contexto
e de um conhecimento mais aprofundado de uma abordagem psicanalítica que levas-
dos mecanismos de identificação projeti- se em consideração os aspectos dinâmi-
va, a psicanálise teve um melhor acesso à cos intrapsíquicos presentes na interação.
maneira como o passado atua no presente, O conceito de contratransferência, nessa
permitindo-nos hipotetizar sobre o futuro perspectiva simplificadora, torna-se prati-
da organização mental que domina o pa- camente sinônimo daquilo que o analista
ciente. A ênfase da tarefa analítica move-se sente quando está com seu paciente e que,
do explicar para o compreender o significa- com frequência, utiliza de maneira bruta
do da experiência em curso. na sessão, sob a forma de interpretações in-
A psicanálise amplia seus objetivos diretamente confessionais.
para além da compreensão da natureza O perigo implícito de tratarmos repe-
das experiências traumáticas que afetaram tidas vezes de um tema tão discutido como
aquela personalidade e da reconstrução das a contratransferência decorre de um senti-
vivências marcantes que a estruturaram. mento de banalização do conceito que gera
A contratransferência nos dá acesso à ma- uma sensação de que não há mais nada de
neira como a identificação projetiva mol- novo a ser investigado. Widlöcher36 nos
da a subjetividade, pela interpenetração de adverte para o efeito devastador que tem
processos emocionais que ocorrem nas re- tido para a psicanálise o sentimento de ex-
lações interpessoais. cesso de familiaridade com seus conceitos.
Ferro35 descreve um modelo que ca- Esse sentimento cria a impressão de que,
racteriza como bioniano, mas que, a meu com meia dúzia de conceitos, podemos
ver, já estava presente no trabalho klei- explicar a mente humana. Widlöcher36
niano, no qual os personagens, criados na ainda comenta que, nas universidades, os
história narrada na sessão, são nós de uma estudantes não são contra a psicanálise, até
rede narrativa interpessoal que nascem co- pelo contrário, simpatizam com ela, mas
mo holografias da inter-relação emocional simplesmente não acreditam que valha a
atual estabelecida entre analista e paciente. pena pagar o preço para ter a experiência
Uma utilização superficial desse modelo psicanalítica, pois não têm o menor con-
contém o risco de reduzir a psicanálise a tato com aquilo que lhe é essencial como
uma psicologia das relações interpessoais, situação analítica e com seu caráter de ex-
traduzida em interpretações que se limitam periência única.
a revelar uma fenomenologia das emoções. Ogden6 defende que o processo ana-
O analista limita sua fala, por exemplo, à lítico, se bem-sucedido, envolve a reapro-
menção da raiva que o paciente colocou priação das subjetividades individuais de
dentro dele por não poder senti-la, para ci- analista e analisando, que foram transfor-
tar um caso clínico recentemente relatado. madas, por meio de sua experiência, no
Psicoterapia de orientação analítica 95

terceiro analítico recém-criado (o “sujeito


da identificação projetiva”). Esse processo relação. Podemos dizer que é pela situação edi-
de resgate envolve a apropriação de si mes- piana que o self negocia o desenvolvimento de
mo como sujeito (a transformação de um uma capacidade crítica, ao formar um espaço
me-ness em I-ness) por meio de processos interno que permite a observação de suas rela-
simbólicos de captação e transformação da ções no mundo, e cria, dessa maneira, um eu-
experiência emocional, como venho suge- -intérprete, ou seja, um eu que é capaz de ob-
servar-se e atribuir significados aos sentimen-
rindo. Nesse processo, novas individualida-
tos e condutas.
des estão sendo construídas, pois o paciente,
com as interpretações, desenvolve uma sub-
jetividade caracterizada especialmente pela
existência de um eu-intérprete que passa a O resgate da objetividade em uma
acompanhá-lo em suas expe­riências. situação na qual o analista tem um duplo
Quais seriam, então, as condições papel, de observador e de participante da
necessárias para o analista desenvolver ou interação, repete, de certa forma, a triangu-
manter sua subjetividade, sua capacidade lação edipiana. A objetividade depende do
de ter vivências, observá-las e interpretá- resgate da subjetividade capaz de observar
-las, dando-lhes significado, do ponto de e interpretar, descolando-se do fato em si,
vista emocional? Sugiro que o processo de ou seja, do senso comum.
construção de interpretações depende, em Segundo Ogden:37
essência, da maneira como a situação edi-
piana foi (e é) elaborada dentro do analista [...] o processamento (metaboliza-
em cada sessão. O analista confronta-se no- ção) de uma identificação projeti-
va por um terapeuta pode enten-
vamente com a questão edipiana na situa-
der-se como o intento de restabele-
ção analítica, pelo constante chamamento cer um processo dialético psicológico
a ser, ao mesmo tempo, o observador e o no qual é possível vivenciar os senti-
participante de uma relação. mentos induzidos, pensar sobre eles
e entendê-los mediante um sujeito-
-intérprete. Esse processo dialético
tem dimensões tanto intrapsíquicas
As qualidades emocionais metabolizadas na re- como interpessoais, o que quer dizer
solução do complexo de Édipo são: capacida- que dele participam subjetividade e
de para desenvolver uma subjetividade própria, intersubjetividade.
sentido de historicidade, amor pelo objeto, ca-
pacidade de pensar adotando diferentes pon-
tos de vista e, sobretudo, de ser, concomitan- Penso que essa concepção sintetiza o
temente, o participante e o observador de uma plano no qual o conceito de contratransfe-
rência se insere na psicanálise atual.

PONTOS-CHAVE DO CAPÍTULO

1. Os conceitos de transferência e contratransferência são centrais nos desenvolvimentos kleinianos e


pós-kleinianos.
96 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

2. Para Melanie Klein, pode-se observar a presença da transferência desde a infância, pois, para ela, o
elemento essencial é considerar a transferência como situação total e como expressão do mundo
interno do paciente.
3. Desde que formulou o conceito de identificação projetiva, Klein e seus seguidores, em especial Bion,
foram capazes de descrever a microscopia da relação analítica e psicoterápica como uma sucessão de
identificações projetivas e introjetivas.
4. A contratransferência, ao contrário do que antes era considerado, passa a ser um instrumento essen-
cial na relação terapêutica, e cada vez mais se observa e se estuda o funcionamento da mente do
terapeuta, em contínua interação com a do paciente.
5. As relações de objeto, base da formação do psiquismo, estão presentes desde o início da vida, e sua
observação e análise vão constituir parte essencial do trabalho terapêutico.
6. Com a progressiva resolução do complexo de Edipo, várias qualidades emocionais são desenvolvidas:
capacidade para estabelecer uma subjetividade própria, capacidade de pensar adotando diferentes
pontos de vista, sentido de historicidade, amor pelo objeto e a noção de ser um observador e o partici-
pante de uma relação ao mesmo tempo.
7. Tanto a mente do paciente como a do terapeuta oscilam entre as posições esquizoparanoide e depres-
siva, assim como entre momentos de compreensão e não compreensão, sendo um dos principais obje-
tivos do tratamento de orientação analítica a integração das partes cindidas da personalidade e a
possibilidade de a pessoa tornar-se progressivamente mais que ela de fato é, como sugeriu Bion.

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5
CONCEITOS FUNDAMENTAIS NA
ABORDAGEM DO EGO E SUAS DEFESAS*
Isacc Sprinz

As noções de ego e de defesa estão presen- o ego no “limbo”: primeiro, seu interesse
tes desde os primeiros escritos de Freud,1 pelo inconsciente e pelas pulsões; segundo,
ainda que ele tenha utilizado o termo “ego” não querer misturar suas ideias com as dos
de modo diverso em vários momentos da filósofos, pois, para estes, o termo “ego”
sua obra, o que gerou margem para dú- estava sobrecarregado de significados me-
vidas e discussões sobre seu significado. tafísicos. Poderiam ser acrescentadas mais
Não se pretende, neste capítulo, discorrer duas razões: seu desencanto pela teoria da
sobre essas controvérsias,** e sim sobre sedução e pelo fato de não conseguir pen-
a definição e a evolução desses conceitos. sar sobre o ego a não ser em termos neuro-
No primeiro período da obra de Freud, o lógicos, como expôs no Projeto.
ego foi descrito como uma organização de O período de 1900 a 1915 pode ser
neurônios que permitia ao indivíduo dis- caracterizado como de hesitações quanto à
tinguir seus processos internos da realida- noção de ego.3 Questões como narcisismo,
de externa e estava presente nas primeiras identificações, dissociação do ego, melan-
elaborações propostas do conflito psíquico, colia e outras conduziram a viragem para
representando o polo defensivo da perso- a teoria estrutural. Nesta, o ego ressurge
nalidade. Para Hartmann,2 duas razões em importância como mediador entre exi­
levaram Freud, a partir de 1900, a colocar gências contraditórias advindas da reali-
dade externa, do id e do superego. Passa a
englobar partes que antes não estavam bem
definidas, tanto a consciência como o pré-
* Toda a bibliografia consultada para a realização deste -consciente, tendo sua maior parte incons-
capítulo é de autoria de analistas e dirigida a analistas. ciente e envolvendo funções defensivas.
Por isso, ao incorporarmos as ideias, tomamos a liber- O conceito de defesa foi definido por
dade de alterar o termo “analista” por “psicoterapeuta” Freud como a pedra angular da teoria psi-
e “análise” por “psicoterapia psicanalítica”.
** Remetemos o leitor aos textos de Laplanche e canalítica. Freud também utilizou o termo
Pontalis3 (Vocabulário da psicanálise), Hartmann2 (El “resistência” para diferentes fenômenos (p.
desarollo del concepto del yo en la obra de Freud, cap. ex., a interrupção da livre associação do
14, em Ensayos sobre la psicologia del yo) e Gill e Rapa- paciente), de modo que a diferença entre
port4 (Um exame histórico da psicologia psicanalítica
do ego, cap.II, em Aportaciones a la teoria y técnica defesa e resistência podia ser simplesmente
psicoanalitica). a forma como eram observadas.
Psicoterapia de orientação analítica 99

Uma breve pesquisa sobre a evolu- gústia em Inibições, sintomas e ansiedade7


ção do conceito de defesa pode servir tanto constituíram um grande avanço. Antes,
para clarificar seu significado quanto para a angústia era considerada como resulta-
explicar algumas das controvérsias com do do recalque. Agora, entendia-se que o
seu uso. Freud introduziu o termo pela pri- recalque era causado pela angústia, e não
meira vez em As neuropsicoses de defesa.1 sua causa. Ficou claro que as defesas con-
Nesse trabalho, escreveu que, para manter sistiam em processos inconscientes e que o
fora da consciência ideias ou sentimentos recalque­era apenas uma defesa entre mui-
inaceitáveis capazes de causar afetos peno- tas. O conceito de defesa ganhava um lugar
sos, a pessoa recorria inconscientemente a mais adequado no novo modelo estrutural.
processos mentais que se opunham àqueles As ideias inaceitáveis, que Freud mencio-
conteúdos. A esses processos mentais, que nara desde o início, tornavam-se represen-
aconteciam fora da consciência, chamou tantes mentais de uma das duas pulsões bá-
de defesas. Esta foi das primeiras colocações sicas, libido e agressão. Essas pulsões, que
de Freud sobre o conflito na mente, uma pressionavam constantemente para a des-
parte da qual tem desejos ou sentimen- carga na conduta e no pensamento, cons-
tos que outra parte considera objetáveis, tituíam a estrutura da mente que denomi-
opondo-se à continuidade da sua presença nou id. As diversas defesas, por sua parte,
na consciência. Para opor-se a eles, a parte mantinham afastados os derivados pulsio-
da mente conhecida como ego estabelece nais – pensamentos e ideias por meio dos
defesas contra a consciência dos conteúdos quais as pulsões se expressavam. As defe-
inaceitáveis. sas foram definidas como funções do ego,
Em 1896, nos Novos comentários sobre estrutura da mente que mediava entre as
as neuropsicoses de defesa,5 Freud propôs a pulsões e o mundo exterior.8 Às vezes, o
hipótese de que a escolha da neurose estava ego/self (Freud utilizou esses termos como
associada à defesa predominante na situa- sinônimos) permitia que os impulsos do
ção de conflito. Continuou a escrever sobre id e suas representações mentais encon-
esses tipos de defesas particulares e definiu trassem formas de expressão e satisfação;
outros, como formação reativa, anulação e outras vezes, quando julgava sua aparição
isolamento, e seu interesse passou da defesa perigosa, se opunha a eles, processo em
ao recalque, que veio a ocupar lugar cen- sua maior parte inconsciente.
tral na gênese das neuroses. Ele se valia do Os perigos que faziam emergir as
termo “recalque” em lugar de “defesa”. En- operações defensivas do ego foram enu-
tendia o recalque como o mais importante merados por Freud: a perda do objeto, a
processo defensivo, que mantinha fora da perda do amor do objeto, o temor à castra-
consciência ideias inaceitáveis mediante ção e a condenação pela própria consciên-
considerável gasto de energia, que deno- cia. Freud estabeleceu uma sequência com
minou contracatexias. Essa energia, prove- ansiedades específicas para cada uma das
niente do ego, era necessária, pensava, para fases do desenvolvimento. Defesa passa a
opor-se à pressão das ideias e aos impulsos ser um termo geral para descrever a forma
inconscientes que pressionavam por des- como o ego se protegia contra os perigos
carga. enumerados. Também descreveu o sinal de
A introdução da teoria estrutural em angústia, pequenas quantidades de ansie-
O ego e o id,6 e a revisão da teoria da an- dade que ativavam inconscientemente as
100 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

operações defensivas, ao anteciparem uma CONTRIBUIÇÃO DE ANNA FREUD


temida situação de perigo.
No ano de 1936, nos 80 anos de seu pai, An-
na o presenteou com uma cópia do livro O
As defesas são processos mentais inconscien- ego e os mecanismos de defesa,9 um dos mais
tes, instituídos pelo ego, para se proteger de afe- influentes da psicanálise. Ela aprofundou e
tos dolorosos como a angústia e a depressão. Es- clarificou o conceito de defesa em relação
tão presentes no conflito psíquico, mas também não só à teoria do conflito psíquico como
fazem parte da adaptação normal e do desen- também à técnica da psicoterapia. Enfatizou
volvimento do caráter. As defesas são utiliza-
que as defesas eram processos inconscientes
das desde muito cedo na vida, de forma normal
e adapta­tiva; porém, se persistirem sem se mo- que deviam ser entendidos e analisados. Na
dificar à medida que o desenvolvimento prosse- terapia, não era apenas mostrar ao paciente
gue, poderão tornar-se parte de uma formação quais as suas defesas, ali onde os desejos in-
de compromisso. A formação de compromisso foi conscientes emergiam; devia realizar-se um
descrita por Freud7 como o modelo psicanalítico esforço para que o paciente ficasse conscien-
do sintoma neurótico: na neurose, está presente te das defesas utilizadas. Além disso, tera-
um conflito que produz ansiedade; essa ansie-
peuta e paciente deveriam pesquisar a histó-
dade aciona mecanismos de defesa que levam a
um compromisso entre duas instâncias: o id e o ria evolutiva dessas defesas. Mencionou que
ego. Assim, surge uma formação de compromis- os sintomas eram formações de compromis-
so, que tanto defende o indivíduo contra o dese- so, nas quais o ego tinha o papel de usar in-
jo que emerge do id como gratifica parcialmente variavelmente um método especial de defe-
esse mesmo desejo. sa, quando confrontado com uma demanda
pulsional específica.9

Por ser tão básico e fundamental, o


conceito de defesa vem sendo alterado, re-
Anna Freud9 elaborou uma lista de métodos es-
visado e refinado, à medida que a experiên­ peciais de defesa, os quais a partir daí, foram
cia clínica vai moldando a compreensão chamados de mecanismos de defesa: recal-
das complexidades do desenvolvimento que, regressão, formação reativa, deslocamen-
psicológico e do conflito psíquico. A ma- to, projeção, isolamento, anulação, negação,
neira de lidar com as estruturas defensivas inversão contra o eu e reversão. Acrescentou,
é alvo de discussões acaloradas entre psi- ainda, os mecanismos de identificação com o
coterapeutas psicanalíticos. Isso se dá, em agressor e entrega altruísta, observando que
também havia defesas contra os afetos e con-
parte, pela diversidade de visões teóricas e, tra as percepções da realidade que produziam
sobretudo, pela relevância das defesas pa- afetos dolorosos. Por último, descreveu as de-
ra o campo da psicanálise. Logo, as apli- fesas de negação em fantasia, em palavras ou
cações clínicas sobrepujam os desacordos em atos.
teóricos, pois, no fim, o que mais importa
é o efeito que elas têm no encontro entre
terapeuta e paciente. Tal debate foi inau- Quanto mais o terapeuta for bem-su-
gurado por duas formidáveis senhoras – cedido em trazer as defesas à consciência,
ambas sucessoras de Freud e pioneiras da mais impotentes estas se tornam, e, assim,
psicanálise infantil –: Anna Freud e Mela- e, mais progride sua compreensão em rela-
nie Klein. ção ao id do paciente. Estudando situações
Psicoterapia de orientação analítica 101

que instigam reações defensivas, conside- enquanto, na Hampstead Clinic, discutia


rou as defesas em termos dos três tipos de e revisitava o livro O ego e os mecanismos
ansiedade, esboçados por Freud em Inibi- de defesa,9 ao lado do colega Joseph San-
ções, sintomas e ansiedade:7 ansiedade ob- dler.10,11 Foi nas discussões com Sandler
jetiva, ansiedade pulsional e ansiedade do e colaboradores10 que Anna Freud deixou
superego. Em termos de prognóstico, defe- claro o uso de conceitos topográficos para
sas que resultam da ansiedade do superego detectar os conflitos. Ela cresceu acompa-
são propensas a ter um resultado favorável. nhando o desenvolvimento da teoria topo-
Defesas contra a ansiedade objetiva tam- gráfica e, aos poucos, passou a incorporar
bém teriam boa probabilidade de suces- os paradigmas estruturais. Em suas pala-
so. Os únicos estados que mais fracassam vras:
em responder à psicoterapia são as defesas
contra as forças dos instintos. Eu pertenço definitivamente ao gru-
Anna Freud apresentou também três po dos que se sentem à vontade em
ir e voltar aos aspectos topográficos
novas ideias: quando as circunstâncias são conve-
nientes... A propósito, esse meu péssi-
1. o psicoterapeuta pode observar, na
mo hábito de viver entre os dois mo-
superfície da consciência, os conflitos delos de referência, o topográfico e o
intrapsíquicos no instante em que o estrutural, é muito recomendado, pois
ego se opõe a eles e os reprime; clareia os pensamentos e, quando ne-
2. vinhetas clínicas exercem um grande cessário, simplifica os relatos e as des-
efeito no aprimoramento do processo crições clínicas.11
técnico do psicoterapeuta, pois este,
de modo gradual, desbravará, por Na medida em que aprendeu a se
intermédio da transcrição do que fez e sentir confortável com a teoria estrutural,
da leitura de casos, o reino misterioso passou a usar os dois aportes teóricos como
dos elementos inconscientes; ferramentas de trabalho:
3. a transferência como defesa: quando se
Pensar o inconsciente, o pré-cons-
analisam os conflitos, descobre-se que
ciente e o consciente em termos de
um impulso emergiu até a superfície qualidades em vez de lugares ou áreas,
e que o paciente regrediu, assumindo não os relega ao segundo plano; pelo
antigos meios de se defender. contrário, os fatores qualitativos pare-
cem ser a única explicação real para a
Tais momentos concedem oportu- luta travada entre as partes da mente.12
nidades para que se estude a transferência
defensiva, que confronta o terapeuta com O ego se importa apenas com os im-
um desafio técnico maior, porque a forma pulsos ameaçadores no momento em que se
em que emerge na consciência do paciente tornam conscientes, e o id e o ego não são
é egossintônica. apenas antípodas: ambos são dotados de lin-
Mesmo que Anna Freud tenha pa- guagens peculiares, têm intenções distintas
rado de escrever sobre técnica, isso não a e agem por meios diferentes um do outro.
impediu de acreditar na existência de uma Entretanto, é claro que, quando o acordo é
janela para o inconsciente. Tornou-se mais cumprido e o conflito não é de todo eviden-
convicta e veemente em relação à presença te, o ego arranja um meio de garantir um
dos conflitos na superfície da consciência, destino seguro aos impulsos vindos do id:
102 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

O ego fornece um auxílio enorme aos Apesar de Sandler e colaboradores10


instintos. Ao se manifestar no mundo insistirem na formação de compromisso,
externo, o ego pode guiar os instintos Anna Freud vê o ego como uma instância
a terem uma gratificação adequada à
que, inicialmente, permite a expressão dos
demanda. O ego leva em considera-
ção a realidade e não se governa a par- derivados da pulsão e, depois, tenta refrear­
tir do princípio do prazer. No entan- qualquer manifestação pulsional. Centra­
to, por insistir na realização do desejo lizou todas as luzes no ego para, então, vol­
de uma forma segura, conivente com tar-se para o id. Contestando Sandler e co-
a realidade e com o bom senso, ten- laboradores,10 diz:
de a inibir, com os processos de pensa-
mento, a gratificação total do instinto. [...] se você quiser, pode persistir na
Então, por um lado, o ego é, em algum sustentação do modelo de conflito in-
grau, parceiro do id e, por outro, mos- consciente e de formação de compro-
tra-se como adversário.10 missos, mas, desse jeito, você não será
capaz de ver o ego e o id como instân-
As primeiras sugestões de Anna Freud cias separadas.
são a de reconhecer o derivado da pulsão
e, logo, interpretar a resistência. A próxima As diferenças essenciais envolvidas
tarefa é a de desfazer o que foi feito em rela- entre uma abordagem que analisa as de-
ção à defesa, sendo imperativo reconstruir fesas versus a análise da formação de com-
a sequência da manifestação do impulso de promissos são, entre outras:
acordo com o contexto. Depois, investigar
a resistência inerente ao impulso e identifi- 1. o uso de reconstruções breves versus
car o elo entre o derivado do id e a defesa a interpretação dos componentes da
específica utilizada, complementando: formação de compromisso;
2. a suposição de que a psicoterapia
Nós preenchemos os hiatos presen- cura a partir do insight versus a crença
tes na memória instintual do pa- fundamental na estimulação de novos
ciente [...]. Enquanto interpretamos
meios de formação de compromissos,
o primeiro e o mais comum tipo de
transferência – a do id –, adquirimos muitas vezes sem que o insight seja um
informações que completam as lacu- dos fatores vigorantes.
nas referentes ao desenvolvimento do
ego ou, colocado de outro jeito, temos As possibilidades heurísticas presen-
um histórico das transformações so- tes em sua obra só se destacaram em 1973,
fridas pelos instintos.9 quando Gray decidiu revisitar os conceitos
de Anna Freud.
Anna Freud apontou que, quando os
derivados da pulsão vêm à superfície, eles
só o fazem porque há um observador de CONTRIBUIÇÃO
prontidão. Ela assiste de perto às reações
expressas pelo ego, e suas técnicas priori- DE OTTO FENICHEL
zam o impulso e a defesa. Uma das suposi-
ções básicas é a de que o conflito só existe É sabido que as formulações estruturais de
no ego e, por conseguinte, na consciência, Freud6,7 ofereceram novas possibilidades de
embora surja do inconsciente. No id, sabe- identificar e de representar a gama de con-
-se, os elementos contraditórios coexistem flitos mentais. Seu modelo estrutural favore-
sem conflito entre si.13 ceu a compreensão dos conflitos dos pacien-
Psicoterapia de orientação analítica 103

tes, e os teóricos reverdeceram as esperanças desde o início. Há os que afirmam ser es-
na evolução da técnica do atendimento clí- se elemento o que impede a psicanálise de
nico. A década de 1930 deflagrou a hegemo- ser científica. Em contrapartida, existem os
nia do ego sobre o id e, em paralelo, a im- que consideram difícil de imaginar a con-
portância das defesas e dos traços de caráter dução do tratamento sem a presença da
na constelação neurótica. W. Reich14 come- sugestão. Na atualidade, reconhece-se que a
çou a mudança da análise de sintomas para sugestão não pode ser eliminada totalmente
a análise da personalidade; enfatizou que as da si­tuação clínica. Fenichel considera que a
operações defensivas se fixavam à persona- fala do paciente acaba por disfarçar ou enco-
lidade, ou caráter, e que os traços de caráter brir os conflitos inconscientes, acrescentan-
deviam ser analisados junto com o conteú­do do que a psicanálise é a psicologia que des-
de associações, recordações, sentimentos e vela disfarces. O psicoterapeuta deduz o que
sonhos. Escreveu que os traços se tornavam o paciente quer exprimir e transmite o que
tão fixos e rígidos que funcionavam como lhe foi confiado por meio da interpretação.
uma blindagem caracterológica, difícil de Para descobrir o que as palavras do pacien-
modificar ou analisar. Reich também indi- te significam, é importante que se instaure
cou que os traços de caráter funcionavam uma intensa empatia para com ele, e, para
como poderosas resistências à mudança e ao tanto, o psicoterapeuta se vale de sua princi-
tratamento psicoterápico. R. Sterba15 expli- pal ferramenta, o próprio inconsciente.
cou a necessidade de uma “aliança do ego”, Fenichel deu ênfase ao interesse do
entre o ego auto-observador do paciente e o psicoterapeuta pelas formas em que o in-
ego do analista. H. Nunberg16 demonstrou consciente influencia e se traduz nas ati-
como a “função sintética” do ego podia re- tudes defensivas do ego. Supôs que o te-
solver conflitos interiores. rapeuta deveria surpreender a pulsão e
Fenichel17 realizou uma reformu- desmascarar o disfarce em conluio com o
lação geral da teoria clássica e da técnica, ego defensivo, pois o inconsciente seria sua
com a qual a psicologia do ego foi reinte- única ferramenta de trabalho.
grada à corrente principal da psicanálise.
Sua abordagem sistemática foi construída a
partir dos cânones clássicos da técnica e da CONTRIBUIÇÃO DE PAUL GRAY
tradicional análise das defesas, que vigoram
até os dias de hoje, como se percebe nos es- Em 1973, Gray retomou algumas das pre-
critos de Brenner. Preconizou que a abor- missas de Anna Freud com o que chamou
dagem clássica para analisar a defesa segue de processo de análise das defesas vistas de
o modelo da superfície à profundidade,18 perto. Gray19 detalha as tendências em vo-
visualizando a organização mental em ca- ga entre os analistas, para explicar o por-
madas. Cada camada protegeria conteúdos quê de o modelo estrutural de Freud e da
aninhados em camadas mais profundas, e segunda teoria da angústia não terem sido
assim sucessivamente. operacionalizados na prática clínica. Alude
Fenichel empenhou-se em livrar o à fascinação que o id atrai e delata a prefe-
trabalho analítico da influência da suges- rência dos terapeutas na compreensão dos
tão, que enfraquecia o ego ao deixá-lo pas- instintos e de seus derivados, e não na pro-
sivo e vulnerável a uma figura autoritária cura dos mecanismos defensivos que ini-
investida de poderes mágicos. O problema bem sua expressão. Os psicólogos do ego
da sugestão tem inquietado os analistas falavam que a análise das defesas era a es-
104 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

sência do tratamento, mas não haviam de- Ao examinar o superego, Gray uti-
senvolvido nenhum método para efetuá-la. liza o método e a perspectiva que Anna
Freud usou para lidar com a transferência
de ­defesa. A análise do superego se tornou
O que Gray demonstrou foi que, em vez de ana- proeminente no pensamento de Gray, por-
lisar sistematicamente as defesas, se preferiu que aí descortinou o significado da influên-
confiar na transferência baseada na autoridade cia do superego sobre a origem das defesas
do analista, que influenciava o acesso ao ma- que o ego usa contra as pulsões agressivas.
terial inconsciente do id. A despeito de ter ade- Em seus escritos, chamou a atenção para
rido à teoria estrutural, a técnica psicoterápica aspectos fundamentais da técnica que ali-
psicanalítica continuava atada ao modelo to-
viavam ou reforçavam as defesas contra a
pográfico, cujo objetivo é o de contornar as de-
fesas do paciente para tornar consciente o in- agressão; defesas que, ao serem trabalha-
consciente. Gray20 acreditava que a sugestão das, permitiam ao paciente apoderar-se
não pode ser evitada. No entanto, apostava em plenamente de seus impulsos agressivos
sua minimização e no fato de que os resulta- para usá-los de forma salutar e produtiva.
dos poderiam ser alcançados de forma efetiva Segundo Gray,22 os psicoterapeutas
a partir da análise das defesas. tinham a propensão de reduzir a intensi-
dade do impulso agressivo com interpre-
tações precoces, de teor genético, e, assim,
Defende que muitas das técnicas in- desarmavam e desviavam de si toda a carga
terpretativas, consideradas infalíveis, não sádico-destrutiva da agressão. Era como se
conseguiram acompanhar os avanços da os psicoterapeutas se esquivassem dos pró-
teoria estrutural de Freud e nem as contri- prios impulsos agressivos ou não quises-
buições sobre os mecanismos de defesa fei- sem se sujeitar à transferência negativa, que
tos por Anna Freud. Tudo o que se mani- poderia ou não contrastar com o potencial
festa durante a consulta diz respeito ao fun- destrutivo que cada um carrega dentro de si.
cionamento da mente do paciente, ou seja, A ênfase de Gray22 na análise do superego
tudo o que acontece em ato alude à quali- concentra-se nas atividades do superego que
dade do vínculo e dos objetos que povoam inibem os derivados da agressão.
o mundo interno do paciente. O principal
objetivo da abordagem clínica de Gray é
ampliar a capacidade de auto-observação
A começar por Freud, a metodologia empregada
do paciente, em especial quando se trata pela maioria dos analistas consistia no uso da for-
da eclosão das defesas ante os conflitos in- ça autoritária, derivada das transferências do su-
trapsíquicos.21 Explora o papel da realida- perego, para sobrepujar, em vez de analisar, as re-
de externa usada como um meio defensivo, sistências que barravam o acesso aos conteúdos
propondo que se enfoquem o discurso e as reprimidos do id. Gray compreendeu que a transfe-
atividades mentais emergentes do pacien- rência derivada da autoridade poderia despistar as
defesas e trazer à consciência o conteúdo reprimi-
te. É importante ressaltar que o objetivo de
do e que, para muitos pacientes, isso representava
Gray é o de focar a emergência, in loco, do a ação terapêutica no tratamento. Todavia, sentiu
processo defensivo no paciente, sendo ne- que, para outros, os que conseguiam ter uma par-
cessário ficar atento ao que se produz e ao ticipação plena no processo psicoterápico analítico,
que é omitido no diálogo do aqui-e-agora essa modalidade de tratamento deixava a desejar.
da psicoterapia.
Psicoterapia de orientação analítica 105

Com tais pacientes, era preferível citar suas funções autônomas do ego, com
apostar no insight, pois demosntravam o objetivo de aprender e observar a regres-
uma maturidade do ego que favorecia o são e as mudanças psíquicas em resposta a
gerenciamento da vida instintiva e, logo, sentimentos irracionais de perigo, oriun-
não se beneficiariam com a incorporação dos da infância. É por isso que o cabedal
da autoridade vinda do terapeuta, a qual de técnicas de Gray é considerado, por
incrementaria ainda mais o poder do su- ele mesmo, inapropriado ou ineficaz para
perego, limitando a possibilidade de o certos pacientes mais limitados. Acredita
paciente se sentir mais autônomo. Assim, que esses procedimentos têm um lugar
recomendou que os terapeutas não explo- importante no campo de conhecimento
rassem as transferências do superego, por da psicoterapia e que podem, dependen-
mais tentadoras que fossem, pois investigá- do da necessidade, passar por ajustes ou
-las seria um meio, por si só, de acioná-las alterações em vista de prover benefícios
no paciente. Para tanto, o analista deveria terapêuticos aos pacientes.
assumir uma postura o mais neutra possí- São pontos centrais das hipóteses de
vel, a fim de evitar ser alvo das projeções Gray:
das transferências do superego.
1. a análise da defesa é a melhor forma de
se chegar ao núcleo do conflito que está
em jogo;
2. ajudar os pacientes a expandir a consci-
Gray vê a confirmação dos materiais genéticos ência em relação aos conteúdos incons-
como secundária e encoraja o processo de au-
cientes proporciona que seu modo de
to-observação para que a necessidade de erigir
defesas diminua no decurso do tratamento.23 A viver seja menos neurótico;
persistência na interpretação das defesas e na 3. é necessário analisar qualquer espécie
investigação dos elementos sugestivos está en- de modificação feita pelo paciente em
tre as principais contribuições de Gray. E é por se tratando do processo terapêutico.
esse motivo que suas ideias embasam a práti-
ca de muitos analistas e de psicoterapeutas de O esforço empreendido por Gray foi
orientação psicanalítica. o de reformular a técnica analítica e con-
vertê-la em um método eficaz para a in-
vestigação das defesas e de suas respectivas
manifestações.
Em relação ao ponto mais geral na Conforme Gray, citado por Levy23
teoria da técnica, que é o de se dirigir à para perscrutar o inconsciente, o terapeu-
função observadora do ego, Gray enfatiza ta deve aprimorar a escuta, como se fos-
ser necessário encontrar vias plausíveis de se dotado de um terceiro ouvido, capaz
comprometer o ego com o tratamento. A de apreender os derivados do id e buscar
crença de que o paciente tem maturidade fontes de conhecimento que tenham res-
e algum grau de autonomia em uma das sonância com o conflito. Em vez de com-
partes do ego é a pedra basilar de todos os parar a escuta à arte e elevá-la à categoria
seus postulados teóricos e técnicos. A partir da intuição e da criatividade, Gray prefe-
desse pressuposto, Gray desenvolveu uma riu pensar o ofício do terapeuta como algo
metodologia que ajuda o paciente a exer- mais artesanal, uma inclinação para ouvir
106 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

de perto e com redobrada atenção às on-


das do conflito e da defesa. No instante em A concepção de Gray sobre a análise do confli-
que os derivados da pulsão vêm à tona, o to intrapsíquico deixa o ego em um plano privi-
perigo, caudatário do conflito, instala-se legiado. A problemática principal não culmina
nas pulsões, mas na parte irracional do ego, o
no ego e tende a acionar medidas defensi- qual, ao não avaliar bem a noção de perigo e as
vas automáticas para remover da superfí- ameaças vindas das pulsões, possibilita o sur-
cie da consciência o que se deflagrou. gimento de defesas inconscientes ultrapassa-
das e desnecessárias – caso a parte madura do
ego não consiga administrar conscientemen-
te as pulsões. Estas têm uma tendência natu-
Em A narrativa de um sonho e a memória como ral de vir à superfície da consciência, à medida
resistência,24 Gray subverteu as noções mais que os mecanismos inibitórios do ego são ana-
apreciadas sobre o papel da memória e dos so- lisados de forma progressiva.
nhos no tratamento. Por exemplo, o ato de re-
cobrar as memórias e de contar os sonhos se-
ria uma espécie de desvio espaço-temporal e
tangenciaria as metas do tratamento. Quando o O terapeuta não necessita fazer inter-
paciente relata um sonho na sessão, ele eclipsa pretações do conteúdo inconsciente; em
a realidade e se transporta para outras tempo-
vez disso, pode trabalhar nas fronteiras da
ralidades. Conforme o autor, o foco nas memó-
rias e nas associações poderia se caracterizar superfície, confiante de que, com a análise
como um deslocamento defensivo, pois levaria das defesas, as pulsões encontrariam me-
o paciente para fora do espaço e do tempo da nos obstáculos para adentrarem nos um-
sessão. brais da consciência. Quando as pulsões
migram para a consciência, o paciente tem
a chance de pôr à prova suas capacidades
A restituição das memórias, fora de ego para assimilar, de forma cognitiva e
de uma estratégia defensiva, demonstra experimental, as pulsões.
o progresso da psicoterapia, pois alude
à aquisição da capacidade de reviver, de
modo consciente e em outro papel, os de- CONTRIBUIÇÃO DE
rivados da pulsão e a conquista de maior CHARLES BRENNER
tolerância aos impulsos agressivos. Na vi-
são de Gray, o conteúdo genético é rele- Em oposição a Anna Freud e ao interes-
vante para a ação terapêutica porque apre- se pelo conflito em seu estado nascente,
senta o histórico das medidas defensivas descrito por Gray, Brenner25 enfatizou
que o paciente usou para lidar com certos o conflito inconsciente infantil. Diz-nos
derivados da pulsão. O psicoterapeuta de- que o terapeuta interpreta as forças do
ve ter em mente o que transmitir ao pa- inconsciente e realiza inferências sobre as
ciente, sem enfatizar o que sente durante tendências do id, do ego e do superego. A
a intervenção. A contratransferência pode tarefa envolve uma dissecação interpreta-
ser uma espécie de contrarresistência. Na tiva das possíveis formações de compro-
verdade, Gray atribuiu grande parte do misso. Brenner realiza uma abordagem
atraso na técnica psicoterápica psicanalí- funcional das defesas, tomando-as como
tica à contrarresistência. posturas mentais que barram e ameaçam
Psicoterapia de orientação analítica 107

o acesso do material inconsciente à cons- são, às defesas, às demandas do superego e


ciência, podendo ser entendida como uma às exigências de adaptação. Assinala ser um
extensão das ideias de Hartmann e Kris, erro definir ou identificar a defesa pelo mo-
enquanto Anna Freud observa o processo do como se defende, pois cada função do
de instauração do conflito manifesto na ego tem múltiplas maneiras de atender aos
superfície. variados propósitos em questão. Ressalta
que, ao definir a defesa estritamente pela
função exercida na economia psíquica co-
mo um componente de conflito, é possível
A teoria dos mecanismos de defesa de Brenner dispensar a consequente ambiguidade que
enfatiza mais as funções do que as motivações
ou os conteúdos abordados nos estudos sobre
acompanha as definições de defesa, as quais
as defesas. Brenner26 argumenta que a defe- incluem as formações de compromisso, as
sa é um aspecto do funcionamento mental de- fantasias e os sintomas.
finido apenas por suas consequências: a redu- Apesar da parcimônia teórica aventa-
ção da ansiedade e/ou dos afetos depressivos da por Brenner,26 sua análise do que o ego
associados aos derivados da pulsão ou às fun- dispõe como defesa é bastante ampla – tão
ções do superego. Sem essa visão, não há nada ampla que pode até mesmo superar o que
de especial nos mecanismos de defesa.
os estudiosos das relações de objeto con-
sideram como fenômenos defensivos. Por
exemplo, segundo ele, as defesas podem ser
Considera, ainda, que as defesas são vistas como atitudes do ego que repercu-
as responsáveis pela diminuição ou pelo tem nas percepções, na produção de fanta-
desaparecimento da ansiedade e dos afetos sias e nas identificações. O ego converte as
depressivos na vida mental e supõe que as identificações e as fantasias em maneiras de
funções do ego são o eixo principal de tu- se defender. O objetivo de Brenner é enfa-
do. Elas servem para reforçar as proibições tizar a plasticidade do ego em se tratando
do superego, assim como para mediar, pre- do uso das defesas. Em meio a isso, traça
venir ou, até mesmo, opor-se às gratifica- quais as funções específicas constituem as
ções. A despeito disso, Brenner percebe que defesas, as chamadas funções psíquicas de
nenhum aspecto do funcionamento do ego oposição ou de estancamento dos impul-
é exclusivamente voltado aos propósitos da sos, que tendem a acionar a ansiedade ou
defesa. os afetos depressivos.
Em concordância com Fenichel, as- Ante o paciente, o terapeuta é capaz de
sume que qualquer defesa pode, ao mesmo investigar a mente, assim como de identifi-
tempo, facilitar gratificações vindas dos car e explicar as formações de compromisso:
derivados da pulsão. Os esforços do indi­ elementos instintivos, influências do supe-
víduo de, a um só tempo, evitar o desprazer rego, recrutamento das defesas, considera-
ou reduzir o efeito das ameaças culminam ções da realidade e de como é percebida.
no prazer. Sua principal postulação é o fato
de que a defesa nunca se torna uma fun- A defesa é um aspecto do funciona-
mento mental que se define apenas
ção especializada ou exclusiva do ego. De
por suas consequências: a redução
modo concomitante, as mesmas funções da ansiedade e/ou do componente
do ego podem servir aos derivados da pul- depressivo que se associa à dinâmi-
108 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

ca do superego ou aos instintos de­ por se culpar, para evitar a cons­ciência do


rivados da pulsão.26 episódio que o frustrou. Enquanto a ênfa-
se das interpretações se centrava no fato de
Não há funções especí­ficas do ego res- que o paciente estava se culpando e criti-
ponsáveis pelas defesas por si só e não exis- cando a si mesmo, o foco de atenção se di-
te nenhum mecanismo perito na habilida- vidia, visto que a indignação e a raiva eram
de de implantar ou de promover defesas.26 destinadas a outra pessoa. O fato é que cada
A atenção, a percepção, o pensamen- interpretação continha referências aos pro-
to, a memória, o afeto e as demais funções pósitos da defesa e aos derivados da pulsão.
são, pura e simplesmente, arsenais defen-
sivos próprios das funções do ego. Para
Brenner, o ego tem a aptidão de evocar Brenner entende a defesa como um processo
qualquer conteúdo situado na mente. To- que regula a economia psíquica e que as de-
das as defesas apresentam em comum o fesas são acionadas para atenuar ou reduzir
fato de se oporem aos impulsos. A defesa a ansiedade ou afetos depressivos resultantes
é um elemento pertencente à esfera da ne- da excitação pulsional. Ele caracteriza a fun-
gação ou da contradição. Toda defesa vol- ção das defesas como eventos exclusivamente
intrapsíquicos, identificados por suas funções,
tada contra os impulsos e seus respectivos e não por suas motivações. Na verdade, argu-
derivados gera ansiedade e/ou depressão e menta que não há mecanismos de defesa par-
impõe uma proibição aos aspectos do id.26 ticulares, apenas funções do ego que podem ou
Quando há o deslocamento do pre- não ter finalidades defensivas.
sente para o passado, ou vice-versa, o pa-
ciente tende a restituir o equilíbrio. Mudan-
ças nos objetivos ou nos focos que iman- Em resumo, descreve as intervenções
tam a atenção indicam perigo. Mo­dulações que nomeiam os componentes da forma-
sutis do tom de voz, ênfases impressas em ção de compromisso e que são responsá-
determinados assuntos e atribuições dadas veis por pensamentos, planos, atitudes,
a eles, entre outros fenômenos, são dignos fantasias e emoções. Coleta minuciosa-
de atenção e demonstram o tipo de sen- mente as atitudes que vê diante de si. Os
sações desconfortáveis desencadeadas na elementos que nomeia ao paciente não
consciência e que, de algum modo, ajudam pertenciam à consciência, e, de certa for-
a resgatar o senso de segurança no processo ma, essa ideia conserva afinidade com as
psicoterápico psicanalítico. As simples va- reconstruções e com alguns dos preceitos
riações no discurso do paciente, ocorridas de Anna Freud. Porém, nomear conteúdos
de momento a momento, quando perce- que estão alojados nas profundezas do in-
bidas pelo terapeuta, podem ser utilizadas consciente é o que Brenner enxerga por de-
para reduzir a ansiedade gerada pelo con- trás da defesa presente nos compromissos,
flito. São esses os alvos do trabalho psico- e isso se opõe à técnica de Anna Freud, que
terápico psicanalítico no entender de Bren- visa a flagrar a defesa no ato. As duas técni-
ner. Em um caso clínico, mostra que, para cas têm objetivos distintos. As intervenções
se defender da raiva provocada por uma de Brenner têm como alvo desestabilizar o
pessoa que o ofendeu, o paciente acabava equilíbrio das forças em conflito na mente
Psicoterapia de orientação analítica 109

do paciente. Seu propósito é o de provocar Klein pontuava a transferência como


uma reestabilização mais saudável.25 Um o principal agente das mudanças terapêu-
resultado desejável nesse processo incluiria ticas. A transferência, seja negativa, seja
o registro de novas possibilidades de reso- hostil, condensa as defesas e as ansiedades
lução dos conflitos evidenciados nas for- e deve ser interpretada no início do trata-
mações de compromisso. mento. Isso, por si só, aliviaria o paciente
e favoreceria o trabalho psicoterápico. Se-
gundo ela, o psicoterapeuta tinha o com-
OUTRAS CONTRIBUIÇÕES promisso de mostrar ao paciente que ha-
IMPORTANTES via entendido suas angústias recônditas e
suas defesas e que não o abandonaria nes-
sa jornada em direção ao que o amedron-
tava. Os críticos de Klein argumentam que
Melanie Klein pensava diferente de Anna Freud, havia algo de hostil no ato de interpretar
supondo que as defesas não se configuravam defesas no início do tratamento. Para eles,
como entidades distintas e separadas, mas as intervenções assumiriam conotações
como partes integrantes da constelação psíqui- perturbadoras ou até mesmo traumáticas,
ca. Logo, as ansiedades e as defesas teriam de
no momento em que desmantelariam, de
ser interpretadas em conjunto. Descreveu defe-
sas “primitivas” como clivagem do objeto, cli- forma abrupta, o equilíbrio das estruturas
vagem do ego, idealização, negação da realida- defensivas, responsáveis pela manutenção
de interna e externa, projeção, introjeção, oni- psíquica do paciente. Dito de um modo
potência e identificação projetiva. menos dramático, interpretações feitas
no início da psicoterapia poderiam causar
um fortalecimento das estruturas defen­
Também destacou que algumas des- sivas, em vez de miná-las aos poucos, visto
sas defesas, tais como a projeção e a identi- que o paciente as encararia como ataques
ficação, eram, ao mesmo tempo, processos ou as registraria como algo fora de seu
mentais fundantes, mediante os quais a es- alcance mental. Entretanto, Klein consi-
trutura do ego se desenvolvia. Os seguidores derava uma inaptidão não interpretar as
de Klein consideram as defesas não tanto ­ansiedades profundas e as defesas contra
como processos psicológicos transitórios, elas logo de início. Na visão da autora,
acionados quando necessários, mas como não se deve comprometer o potencial da
configurações psicológicas que se conden- psicoterapia com o prolongamento desne-
sam para formar um sistema rígido e inflexí- cessário do sofrimento apresentado pelo
vel, descritos como organizações narcisistas paciente.
por Hebert Rosenfeld ou organizações pato- Desde os debates e as confrontações
lógicas por John Steiner. Essa noção de siste- aqui citados, muitas formulações em re-
mas de defesa da personalidade, associados lação às defesas ganharam forma. Winni-
a poderosos controles dos objetos internos, cott27 colheu dessas divergências a maté-
foi igualmente aplicada à dinâmica de gru- ria para fomentar sua abordagem. Ele se
pos e sistemas sociais por Elliot Jacques, valeu de aspectos teóricos e técnicos tanto
Wilfred Bion, Robert Hinshelwood e outros. de Anna Freud quanto de Melanie Klein.
110 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

Criticou algumas posturas e adotou ou- do bom convívio do terapeuta com tais tra-
tras. ços de caráter e com as defesas, e aí residem
inúmeras controvérsias sobre a idealização
do psicoterapeuta. Para Kohut, as defesas
Em seu construto sobre o falso self, Winnicott narcisistas não se configuram como resis-
argumentou a respeito da necessidade de se tências e, por conseguinte, não precisam
trabalhar, nem que seja por um tempo, com as ser interpretadas. Elas vão se dissolver sozi-
estruturas defensivas, pois foi o próprio falso nhas, sem interpretações. Em contraparti-
self que levou o paciente ao tratamento. Con- da, Kernberg, inspirado em Klein, entende
tudo, alertou que essa prática não deve se es- a posição de Kohut como uma receita para
tender e que ela só existe para que a alian-
ça com o verdadeiro self se processe depois. o fracasso, insistindo que, para pacientes
Uma das críticas de Winnicott a Anna Freud borderline e narcisistas, seja essencial um
é a seguinte: se o analista se concentrar mui- confronto interpretativo direto das defesas
to nos elementos presos às superfícies do ego, em jogo.
talvez negligencie as camadas mais profun-
das do self. Ademais, o excesso de interven-
ções ­“suaves” tende a incrementar um conluio
do analista para com o falso self do paciente. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A terapia poderá se tornar interminável, por-
que o verdadeiro self estará sempre à mar-
Freud tinha uma compreensão pluralista
gem dela.
da técnica e aplicava um espectro amplo de
meios terapêuticos. Foi o primeiro a modi-
ficar sua técnica de acordo com o tipo de
A pluralidade das visões e das opi­ paciente e de patologia. O Freud dos escri-
niões sobre a análise das defesas tem como tos técnicos não é o mesmo de sua própria
emblema os psicanalistas norte-america- prática, nem os terapeutas deixam de fazer
nos. Primeiramente, influenciados pelos intervenções diferentes das que oficialmen-
estudos de Anna Freud e Otto Fenichel te admitem. Existe uma dissociação entre a
sobre o ego e as defesas, realizaram abun- prática idealizada e a prática real, que deve
dantes publicações em torno das defesas ser considerada a sério pela influência que
no contexto da psicologia do ego. Insistia- pode ter sobre a teoria e a teoria da técnica.
-se que a análise da defesa fosse conduzida É preciso ter ciência da variedade e da multi-
de acordo com os moldes paradigmáticos plicidade das formas defensivas e das formas
indicados por Anna Freud. Porém, con- indiretas que o paciente usa para disfarçá-
tribuições subsequentes influenciaram os -las, respeitando as defesas que estruturam e
pensamentos dos psicanalistas norte-ame- sustentam as referências dos pacientes. Não
ricanos em relação à análise das defesas. O se pode assegurar que tipo de intervenção o
que ilustra essa mudança de rumo é a visão paciente aceitaria melhor. Em determinado
contrastante entre Heinz Kohut28 e Otto caso, é mais produtivo ir da superfície à pro-
Kernberg.29 Na psicologia do self de Kohut, fundidade, noutro seria mais efetivo uma
é dada importância à análise das defesas intervenção direta no conflito.
narcisistas; o progresso do paciente depen- Ataques frontais às defesas podem
derá, entre outros fatores, da tolerância e deixar os pacientes com duas opções:
Psicoterapia de orientação analítica 111

1. a abdicação das defesas, sem que te-


nham sido desenvolvidos mecanismos aqui-e-agora de duas pessoas em interação.
vicários para preencher os hiatos e gerar Também não é a atual realidade psíquica ou
uma sobrecarga de ansiedade e culpa, subjetiva do paciente que está em xeque. Na
verdade, é tudo isso, dependendo do paciente
ou e de suas particularidades. A “interpretação da
2. o impulso de deixar um tratamento que defesa” é fundamental para o trabalho analíti-
ameaça seu estabelecido método de levar co, mas, vale lembrar, que nada mais é do que
a vida uma parte do todo.

A técnica psicoterápica psicanalítica


não pode ignorar a intuição, nem descartar O conceito de defesa foi designado
o manancial de sentimentos irracionais que inicialmente como recurso para evitar a
promovem a empatia para com os pacien- manifestação dos derivados das pulsões
tes: a realidade psíquica não pode ser subs- (tais como as fantasias e os desejos). De-
tituída por uma imagem conceitual. Ado- pois, foi modificado por Anna Freud,9
tar uma única teoria da técnica não implica ampliando as perspectivas quando somou
nenhuma garantia de acertos. à definição já existente a hipótese de que
O conceito de ego oferece estratégias a defesa se opunha aos afetos. Mais tarde,
para distinguir as defesas bem adaptadas e Arnold Modell31 remodelou as dimensões
as sublimações dos colapsos e suas implica- das ideias anteriores e incluiu o aspecto de
ções. Dispor de um conceito de ego orienta que as defesas se voltam para as relações de
a intervenção e fornece múltiplas formas objeto.
de reconhecer quando o paciente está pre- Talvez a contribuição mais forte e uni-
parado para receber a interpretação. Seu ficadora entre as formulações tenha sido
papel principal e mais conhecido é o de plasmada por Jacob Jacobson,32 que suge-
criar, no processo analítico, um esquema riu que os afetos dolorosos fazem todas as
de entendimento das defesas intrapsíqui- teorias psicanalíticas convergirem. Diante
cas e das resistências. A multiplicidade de dessa perspectiva, a psicanálise se sustenta
si­tuações, inerentes ao processo psicoterá- a partir da fundamentação de que a mente
pico, não permite que se formulem regras está sujeita a afetos dolorosos, que devem
ou diretrizes capazes de serem aplicadas em ser combatidos pelas defesas. As teorias psi-
todos os contextos. canalíticas se diferenciam pela compreensão
da natureza e da fonte de origem do sofri-
mento psíquico, assim como pela maneira
segundo a qual o indivíduo lida com afetos
O que está em questão não é a interpretação da dolorosos, mas, no fim, o trabalho é essen-
defesa antes do impulso e nem os meios cria-
tivos de lidar com as falhas do ego.30 Não é a
cialmente o mesmo em todos os modelos
interpretação da transferência. Não é a recons- psicanalíticos: a defesa contra os afetos.
trução. Não são as reações da contratransferên- Não se veem mais as defesas como
cia, nem mesmo as interpretações dos enact- simples sinais de resistência que se inter-
ments presentes na transferência e na con- põem à realidade. A defesa é vista agora
tratransferência. O foco não está no vínculo do como reflexo das relações dinâmicas com
o mundo interno; seu grau de significân-
112 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

cia é equivalente ao de outros elementos tar os pacientes, e isso só se concretizou


da vida mental e deve ser analisada com pelas críticas existentes, tal foi seu modo
rigor e seriedade. Os conceitos de resis- de ­aprimoramento. Todos esses aspectos
tência e de defesa seguem em paralelo ao provocaram grande impacto na análise das
desenvolvimento da teoria da técnica. No defesas.
início, eram vistos como obstáculos de se
chegar ao cerne das fantasias e dos dese-
jos inconscientes emanados das pulsões
sexuais. Hoje, com a maioria das psicote- Hoje, os psicoterapeutas estão menos inclina-
dos a aderir a uma abordagem clínica tradicio-
rapias enfocando o caráter, a defesa e sua nal ou ortodoxa. Há uma tendência à flexibilida-
manifestação em modos de resistência são de e à integração das diferenças. Os terapeutas
os fatores que levam o paciente a lançar estão mais abertos a viver a atmosfera singular
um olhar panorâmico a todas as funções criada pelas vicissitudes da transferência e da
e dimensões que compõem sua existên- contratransferência. Sentem-se mais autoriza-
cia, tanto conquistas quanto fracassos. No dos a experimentar novas situações. Não exis-
entanto, há sempre mais de uma maneira tem privilégios de uma só escola ou de um úni-
co pensador: todos acabam se unindo em prol
de entender o que se oculta no conteúdo do bem-estar do paciente. Nenhum paciente é
associativo do paciente. A interpretação à igual a outro. Qualquer psicoterapeuta respon-
luz da defesa e o manejo dos afetos desa- sável e apto a escutar as flutuações psíquicas
gradáveis são modos de levar o tratamento compreenderá que é preciso contemplar as par-
adiante, mas ainda assim são apenas uma ticularidades de seus pacientes.
parte do processo.
Vale a pena relembrar Melanie Klein
citada por Spillius:33 As distinções entre as correntes psi-
coterápicas não desapareceram, mas a im-
A partir do que disse agora, espero pressão é a de que se encontram mais flexí-
que fique claro que não quero afir- veis e versáteis, pois a psicanálise está mais
mar que o processo terapêutico seja
generosa e aberta às novidades. No fim, há
levado a cabo só por meio de inter-
pretações, nem que o terapeuta deva mais recompensas e ganhos para os psico-
interpretar todo o tempo. Primeiro, terapeutas e para seus pacientes do que em
deve dar ao paciente a oportunida- outros tempos. É preciso ter o cuidado de
de suficiente de expressar seus pen- não fazer do trabalho psicoterápico uma
samentos e sentimentos, ao mesmo “linha de montagem”. O excesso de teoria
tempo em que coleta o material que pode levar os pensadores a se perderem em
irá interpretar. Em condições nor-
especulações infrutíferas. Nem o paciente,
mais, não deve interromper o pa-
ciente, mas deixá-lo ir adiante du- nem o terapeuta podem ser escravos da
rante certo tempo [...]. teoria, mas a teoria deve estar a serviço de
ambos. Entender o modo como a pessoa se
Muitos psicoterapeutas continuam a defende do sofrimento é fundamental para
seguir as orientações técnicas da escola que decifrar a conflitiva íntima dos pacientes
elegeram. Entretanto, as diferenciações en- que nos chegam, não importando a teoria.
tre os referenciais teóricos e técnicos já não Aprender como transmitir tal compreen-
são tão tumultuadas quanto antes. Cada são, sem que as defesas se recrudesçam ou
escola conquistou sua identidade, ou seja, distorçam a realidade, é essencial à arte da
desenvolveu métodos específicos para tra- psicoterapia.
Psicoterapia de orientação analítica 113

PONTOS-CHAVE DO CAPÍTULO

1. A noção de ego e de defesa está presente desde os primeiros trabalhos de Freud, evoluindo ao longo de
sua obra.
2. Anna Freud aprofundou o conceito de defesa, enfatizando a importância de que o paciente ficasse
consciente das defesas utilizadas e da história destas.
3. Fenichel preconizou que a abordagem clássica para analisar a defesa seguia o modelo da superfície à
profundidade.
4. Paul Gray formulou que a análise da defesa é a forma mais adequada de se chegar ao núcleo do conflito
e que ajudar os pacientes a expandir a consciência em relação aos conteúdos inconscientes propor-
ciona um modo de viver menos neurótico.
5. Brenner propôs analisar os conteúdos inconscientes que subjazem às defesas presentes nas formações
de compromissos; suas intervenções têm como alvo desestabilizar o equilíbrio das forças em conflito na
mente do paciente e provocar uma reestabilização mais saudável.
6. É fundamental entender como a pessoa se defende do sofrimento para decifrar a conflitiva íntima dos
pacientes, não importando a teoria.
7. Aprender como transmitir tal compreensão, sem que as defesas se recrudesçam e distorçam a reali-
dade, é essencial à arte da psicoterapia.
8. O conceito de defesa vem sendo alterado, revisado e refinado à medida que a experiência clínica tem
moldado a compreensão psicanalítica das complexidades do desenvolvimento psicológico e do conflito
psíquico.
9. As aplicações clínicas da compreensão do ego e dos mecanismos de defesa sobrepujam os desacordos
teóricos, pois o que mais importa é o efeito que eles têm no encontro entre terapeuta e paciente.

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6
TEORIAS DA AÇÃO TERAPÊUTICA
Viviane Sprinz Mondrzak

Como funciona a psicoterapia de orienta- UM BREVE HISTÓRICO


ção analítica? Por meio de quais mecanis-
mos atua sobre o paciente? Onde, no psi- Em seu trabalho Uma breve descrição da
quismo do paciente, seus efeitos se fazem psicanálise, Freud1 faz uma espécie de re-
presentes? Estas e muitas outras questões a visão das ideias sobre a ação da psicanálise
respeito da ação terapêutica da psicotera- até aquele momento. Refere que, no início,
pia de orientação analítica são levantadas a psicanálise pretendia apenas entender al-
com frequência quando se estuda o tema guma coisa da natureza das doenças nervo-
e têm importância fundamental para a sas, procurando superar a impotência que
compreensão do que fazemos com nossos caracterizava seu tratamento. Os médicos
pacientes, do alcance dessa tarefa e de suas não sabiam o que fazer com o fator psíqui-
limitações. Como a teoria da técnica em psi- co e o deixavam aos filósofos, aos místicos
coterapia de orientação psicanalítica (assim e aos charlatões. A partir do hipnotismo,
como seu corpo teórico) parte dos conceitos verificou-se que notáveis mudanças so-
psicanalíticos, as teorias sobre sua ação tera- máticas podiam ocorrer por influências
pêutica terão que partir das ideias sobre os mentais, colocadas em ação pelo próprio
mecanismos de ação da psicanálise, antes de hipnotizador, abrindo espaço para a maior
se deter em suas especificidades, e é essa li- percepção da existência de processos in-
nha que procuraremos traçar neste capítulo. conscientes sujeitos à experimentação.
Assim como outros temas, este é O próximo passo viria com Breuer,
controverso, e a maneira como a ação te- em 1881, ao perceber como os sintomas
rapêutica vai ser pensada depende do mo- surgiam no lugar de alguma ação não efe-
delo de funcionamento da mente utilizado, tuada e da qual não havia memória. Por
das noções sobre mudança psíquica e dos meio da hipnose, era possível recuperar
objetivos da psicoterapia. Neste capítulo, essa memória com intensa liberação de afe-
a linha teórica enfatizada corresponde aos tos, levando ao desaparecimento do sinto-
principais referenciais que caracterizam a ma. Dessa maneira, um só e mesmo proce-
psicoterapia de orientação psicanalítica em dimento servia ao propósito de investigar o
nosso meio, que segue o eixo Freud-Klein- mal e livrar-se dele, e esse método recebeu
-Bion. o nome de catarse, que é a precursora da
116 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

psicanálise e que, segundo Freud, conti- transferência. Percebe, então, que ela é a
nuou em seu núcleo. principal resistência à recordação, porque,
Após algum tempo, verificou-se que com ela, o paciente procurava repetir as
nem todos os pacientes eram suscetíveis à ­situações passadas, em vez de lembrá-las.
hipnose e que os sintomas desaparecidos A transferência seria, assim, um fragmento
sob seu efeito retornavam, o que levou ao de repetição, fazendo serem experimenta-
abandono de tal método. Era necessário dos como atuais sentimentos que têm ori-
algo que substituísse o efeito da hipnose gem no passado. Ao mesmo tempo, perce-
de recuperar memórias esquecidas, o que be que é por meio dela que se dá a maior
acabou levando à associação livre, até ho- possibilidade de superar as resistências.
je um dos pontos mais importantes para a Essa dupla visão da transferência, como
compreensão do mundo psíquico. Freud principal obstáculo e como principal ins-
percebeu que o discurso do paciente não trumento de ação terapêutica, acompanha
seguia uma associação casual, ao contrário, todo o pensamento de Freud. De qualquer
era determinado por material inconsciente, forma, a centralidade da transferência está
trazendo sempre pistas do que fora esque- claramente estabelecida.
cido e que, com alguma interpretação do Na visão de Freud,2 não se pode pre-
médico, poderia ser reconstruído. Assim, a ver quais os resultados que serão obtidos
associação livre e a interpretação substituí­ pelo analista. Este coloca em andamento
ram a hipnose, formando a base do método um processo de solução de repressões exis-
psicanalítico de acesso aos conteúdos in- tentes, procurando afastar os obstáculos
conscientes, sempre com ênfase no preen­ em seu caminho, mas, em geral, uma vez
chimento de lacunas de memória, conside- desencadeado, esse processo segue o pró-
rado, até então, o mecanismo de ação, por prio rumo. O analista deve estar prepara-
excelência, da psicanálise. do para uma luta perpétua com o paciente
No trabalho de revelar o que havia para tentar manter na esfera psíquica todos
sido esquecido, tornou-se evidente que se os impulsos que este gostaria de dirigir pa-
lutava contra uma resistência incons­ciente ra a esfera motora. A transferência é con-
muito intensa por parte do paciente, che- siderada uma “área intermediária” entre
gando à teoria da repressão: as mesmas a doença e a vida real, por meio da qual a
forças que agora lutavam contra tornar transição de uma para outra é feita, já que
determinadas lembranças conscientes de­ assume todas as características da doença
veriam ter atuado anteriormente, causan- e é acessível a nossa intervenção. A partir
do sua repressão, a saída da consciência. das reações repetitivas exibidas na transfe-
Porém, o fato de serem inconscientes não rência, somos levados até o despertar das
eliminava sua força, apenas fazia com que lembranças que aparecem sem dificuldade
atuassem de outra forma, disfarçada, me- após a resistência ter sido superada. En-
diante sintomas. Assim, o conceito de tretanto, não basta nomear as resistências,
“resistências” passa a ocupar uma posição elas precisam ser elaboradas, processo que
central no mecanismo de ação da psicaná- efetua as maiores mudanças no paciente
lise, e a ênfase é colocada no trabalho de e distingue o tratamento psicanalítico de
superação das resistências que levaram à outros tratamentos. Dito de outra forma: a
repressão. tarefa terapêutica consiste em recolocar as
Um passo importante acompanha forças libidinais, centradas nos sintomas,
os avanços de Freud na compreensão da a serviço do ego. Para resolver o sintoma,
Psicoterapia de orientação analítica 117

seria necessário remontar ao conflito que se tornassem possíveis novas configurações


lhe deu origem, renovando-o e tornando- intrapsíquicas.4
-o acessível mediante a transferência para, Seguindo nessa linha de tempo, a pró-
então, levá-lo a outro desenlace. xima contribuição fundamental a ser con-
Assim, o trabalho terapêutico desen- siderada é a de Melanie Klein.5-7 Para ela, a
volve-se em duas fases. Na primeira, pro- análise age no equilíbrio entre as pulsões de
cura-se concentrar toda a libido na trans- vida e de morte, determinadas constitucio-
ferência; na segunda, trava-se uma batalha nalmente, buscando um abrandamento da
em torno desse novo objeto e outra vez se inveja, considerada a principal represen-
liberta a libido deste, pelo trabalho de in- tante da pulsão de morte. A partir de seus
terpretação, que transforma em conscien- estudos sobre mecanismos primitivos de
te o que era inconsciente. Mais tarde, ao funcio­namento da mente e de seu modelo
introduzir a segunda tópica, Freud3 diria de desenvolvimento (posições esquizopa-
que o objetivo seria trazer o id para a esfe- ranoide e depressiva), Melanie Klein defen-
ra do ego e, em 1940, descreve o trabalho de o trabalho psicanalítico como auxiliar
psicanalítico como traduzir processos in- do paciente na passagem de uma posição
conscientes em conscientes, preenchendo a outra, buscando a integração no ego dos
lacunas da percepção consciente. aspectos cindidos e projetados. Dessa for-
ma, muda-se a ênfase, da resolução de con-
flitos para o processo de integração do ego.
Assim, nessa trajetória esboçada brevemen- A interpretação das fantasias inconscientes
te, apesar da ênfase na recuperação de memó- primitivas permite que os mecanismos de
rias, podem-se localizar outros elementos bá- dissociação, projeção, característicos da
sicos com relação aos mecanismos de ação da posição esquizoparanoide, deem lugar a
psicanálise: aumentar a capacidade perceptiva mecanismos da posição depressiva, ou seja,
da consciência; acessar os conflitos por meio a integração dos componentes agressivos
da transferência, que confere a eles atualidade
possibilita a experiência de dor e luto. As-
e intensidade afetiva para procurar novas so-
luções; a associação livre como método funda- sim, há uma ênfase nos mecanismos de in-
mental de acesso ao inconsciente e sua contra- trojeção e projeção como veículos da ação
partida no terapeuta, a atenção flutuante; a re- terapêutica. O instrumento é a interpreta-
lação com o terapeuta como essencial para a ção das fantasias inconscientes, percebidas
mudança psíquica. mediante a transferência, que, com Klein,
se torna um conceito mais abrangente, de
transferência como situação total, em que
A respeito desse último fator, nota-se são transferidos fantasias, afetos, defesas.8
que Freud já havia-se dado conta de que Nesse processo, é importante o paciente
apenas o tornar consciente não bastava e perceber que o analista aceita tais senti-
de que a força que impulsionava o trata- mentos agressivos (principalmente a inve-
mento não era o desejo de melhora do pa- ja), não se assustando com eles, o que faz
ciente, mas o elemento de sugestão, o que perderem seu caráter onipotente.
deixa clara a importância do papel desem- O analista funcionaria como um su-
penhado pelo relacionamento interpessoal. perego mais tolerante, abrindo caminho
Ferenczi foi um dos autores a enfatizar a para que o paciente aceite esses sentimen-
necessidade de uma experiência afetiva na tos como seus, possibilitando o caminho da
análise, expressa via transferência, para que reparação. Em 1934, Strachey desenvolveu
118 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

essa ideia em seu clássico trabalho sobre a cesso. Transferência e contratransferência


ação terapêutica da psicanálise, introduzin- vão sendo, cada vez mais, consideradas
do o conceito de interpretação mutativa, fenômenos indissociáveis, levando à noção
aquela que seria responsável pela mudança de campo,12 em que o relacionamento ana-
psíquica. A interpretação mutativa rela- lista-paciente passa a delimitar uma nova
ciona o que é percebido na transferência estrutura.
com a situação infantil que lhe teria dado
origem. O primeiro passo seria o analista
ajudar o paciente a perceber a discrepân-
cia entre o objeto da fantasia e o analista Percebe-se, portanto, que a tendência, dentro
do pensamento psicanalítico, é, cada vez mais,
real, pela análise e interpretação dos meca-
considerar a importância dos vários aspectos
nismos de projeção e introjeção que deram envolvidos na relação entre duas pessoas, de
origem a essa percepção distorcida. Em um modo que o psiquismo de uma influi na outra,
segundo momento, haveria, então, a in- e é justamente esse trânsito, via identificação
terpretação genética, relacionando com o projetiva, que vai possibilitar o entendimento
significado infantil.9 Como se pode notar, do que está se passando e a possibilidade de
ainda é considerado básico na interpreta- mudança psíquica.
ção o remeter ao passado, mas já se perce-
bem alguns sinais de que a recuperação de
memórias passadas não seria tão essencial. Nessa trajetória, outras contribuições
Talvez uma das maiores contribui- de Bion13-17 tiveram influência na forma
ções de Klein ao tema do mecanismo de de se entender o mecanismo de ação da psi-
ação da psicanálise tenha sido seu conceito canálise. Para ele, as experiências emocionais
de identificação projetiva, um mecanismo são a base para a formação de um aparelho
defensivo intrapsíquico, mediante o qual mental capaz de pensar. Na infância, pela
o paciente projeta, no objeto, aspectos cin­ capacidade de rêverie da mãe, fornecendo
didos que não pode tolerar como seus, pas­ um continente capaz de conter a emoção
sando a se identificar com esse objeto-alvo e dar-lhe um significado, esse aparelho vai
da projeção. se estruturando e formando elementos alfa,
Bion desenvolveu o aspecto comuni- utilizáveis para sonhar e pensar, em vez de
cativo da identificação projetiva, mostran- apenas evacuar a emoção. Ao analista cabe
do como o mecanismo não existe apenas na proporcionar esse continente, dentro do
fantasia, mas tem o potencial de produzir qual o paciente se sinta mais seguro para
no objeto o sentimento que se está experi- enfrentar a dor psíquica que acompanha
mentando. Como se verá adiante, a identi- o contato com a realidade, tanto interna
ficação projetiva é considerada o principal quanto externa. As resistências não são
instrumento para se ter acesso ao mundo apenas contra o afeto reprimido, mas con-
psíquico do paciente. tra a dor psíquica, e o trabalho psicanalíti-
No início da década de 1950, Ra- co não busca apenas evidenciar repressões,
cker10 e Heimann11 dedicaram-se a estu- mas expandir a capacidade da mente de
dar a contratransferência, destacando sua transformar suas emoções em elementos
importância dentro do processo psicana- pensáveis. Destacam-se os requisitos es-
lítico e a forma como os sentimentos do senciais ao estado mental do analista para
analista participam ativamente desse pro- promover esse processo: sem memória e
Psicoterapia de orientação analítica 119

sem desejo (próximo da atenção flutuante erros, perturbações e reparos, formando


de Freud) e com capacidade negativa (tole- determinada “relação implícita comparti-
rância à falta de significado). lhada”.20 No processo terapêutico, destaca
dois momentos mutativos: a interpretação,
que faz um reordenamento consciente dos
dados, e, como pano de fundo, um movi-
Há, portanto, uma mudança de ênfase no obje- mento de perceber, compartilhar e promo-
tivo da psicanálise, que passa a ser possibilitar ver mudanças nessa relação, estabelecendo
uma transformação por meio da qual o analista
coloca em palavras a emoção surgida na expe-
uma nova “forma de estar com”.20
riência da sessão, possibilitando que se expan- Avanços no estudo da memória des­
da a capacidade do paciente de pensar sobre tacam-se na discussão dos mecanismos de
suas emoções. ação da psicanálise, principalmente as des-
cobertas sobre a existência de dois sistemas
de memória: uma declarativa, explícita,
A análise configuraria, então, um que corresponde à memória consciente, e
processo afetivo-cognitivo, em que emoção outra, chamada procedural, implícita, to-
e pensamento não estariam em oposição – talmente inconsciente e que se evidencia
ao contrário, um seria a matéria-prima do somente pelo desempenho, e não pelas
outro. A contratransferência é o meio pe- recordações conscientes. Fonagy,21,22 a
lo qual o analista trabalha e transforma a esse respeito, considera que a re­moção de
identificação projetiva do paciente e o que repressões não pode mais ser considerada
esta ativa em si próprio como resposta a chave da ação terapêutica. A mudança
emocional.18 Assim, os processos mentais psíquica ocorre por uma nova ênfase entre
do analista e a capacidade de “ler” suas res- diferentes modelos de relações de objeto.
postas emocionais se apresentam como o Muitas das alterações ocorridas no proces-
principal instrumento de ação terapêutica. so terapêutico não estariam no campo da
Essa centralidade das emoções tem compreensão consciente, e sim no campo
sido corroborada pelos estudos das neu­ dos comportamentos e conhecimentos
rociências, que mostram como elas têm não verbais do inconsciente procedural,
papel fundamental em todo processo de e momentos de significação que ocorrem
determinação de quais vias sinápticas serão na interação paciente-terapeuta permitem
mais estimuladas, coordenando mente e o alcance de um novo grupo de memórias
corpo, organizando percepções, pensamen- implícitas, ocasionando um progresso que
to, memória, fisiologia e interação social, se reflete na maneira como o paciente passa
sendo capazes de desencadear um processo a interagir com outros.
de ativação de vias neuronais.19 Tais estudos deixam claro o interes-
Novos conhecimentos, oriundos da se em aprofundar os conhecimentos sobre
observação das relações mãe-bebê, tam- os modos de ação terapêutica, utilizando,
bém têm contribuído com as teorias sobre inclusive, subsídios de outras ciências. De
a ação terapêutica da psicanálise. Stern20 qualquer forma, o assunto continua susci-
traça um paralelo entre o processo terapêu- tando polêmicas, principalmente no tocan-
tico e o processo diádico mãe-bebê: o par te ao papel do levantamento de repressões
desenvolve um conjunto de padrões mi- e na recuperação de memórias passadas co-
crointerativos, em que os passos incluem mo mecanismo de ação.23
120 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

Assim, vemos como a evolução no ação da psicanálise como um degrau para o


corpo teórico da psicanálise trouxe mu- passo seguinte, sem, no entanto, ser neces-
danças na forma de se pensar os mecanis- sariamente descartado.
mos de ação da psicanálise, em especial os
estudos do desenvolvimento infantil, do
papel das experiências pré-edípicas e da re- E A PSICOTERAPIA
lação interpessoal analista-paciente.
DE ORIENTAÇÃO
PSICANALÍTICA?
A ideia defendida é a de que se deve aceitar um
modelo de multicausalidade, em que a orienta- As semelhanças e diferenças entre psica-
ção teórica de cada um e as particularidades nálise e psicoterapia de orientação psica-
de cada paciente darão mais destaque a um ou nalítica constituem matéria de constante
outro elemento.24 discussão. Para os propósitos deste capítu-
lo, consideramos que ambas as formas de
tratamento partem de um mesmo corpo de
Gabbard e Westen25 considera que, conhecimentos e utilizam o insight e a inter-
em linhas gerais, há uma tendência a se pretação como ferramentas básicas de tra-
pensar no mecanismo de ação de uma for- balho. Cada uma, no entanto, dá origem a
ma mais humilde, optando por falar de processos particulares, que se desenvolvem
mecanismos de ação, no plural. Essa maior em settings diferentes, resultando, princi-
tolerância com as incertezas, tanto nas palmente, em graus diferentes de profundi-
formulações teóricas quanto nas sessões, dade de emergência da transferência.27 Há
também teria um potencial mutativo, ao diferenças relacionadas à formação de um
considerar um psicoterapeuta que aceita as psicoterapeuta e de um analista e aos ob-
limitações de seu método, adotando uma jetivos propostos: na psicoterapia, há um
postura não onipotente. foco central, enquanto, na análise, não há o
O que parece ser inquestionável é a comprometimento com algum aspecto em
importância da nova relação estabeleci- particular da vida do paciente.
da com o terapeuta, não como experiên- Assim, considera-se que a psicanálise
cia corretiva, mas pela possibilidade do se caracteriza por um método que torna
pacien­te de desenvolver outro repertório possível a observação ordenada do mun-
de respostas diante de um objeto que mos- do psíquico e que serve também de base
tra novas atitudes em relação a ele e o con- para o método psicoterápico. Na psicote-
vida a pensar antes de repetir os padrões até rapia de orientação psicanalítica, faz parte
então utilizados. Soma-se a isso a experiên- do método a delimitação de determinadas
cia de ser escutado e compreendido por um áreas preferenciais (focos) de atenção do
outro, de uma forma única, em um modelo trabalho interpretativo. Quais seriam as ca-
de escuta com um referencial implícito que racterísticas desse método? Antes de tudo,
busca o que está mais além da narrativa a criação de um campo em que essa obser-
formal.26 vação do mundo psíquico possa se proces-
Nessa linha evolutiva (que certamente sar e no qual a comunicação entre ambas as
prosseguirá agregando novos conhecimen- partes, terapeuta e paciente, possa ocorrer,
tos), é importante que se possa perceber ca- o que se refere à criação de um setting espe-
da elemento estudado nos mecanismos de cífico de trabalho.
Psicoterapia de orientação analítica 121

Para nos aproximarmos do que se é a integração psicológica. De forma para-


passa no relacionamento paciente-tera­ doxal, aquilo que leva o paciente a sentir a
peuta em uma sessão, é importante consi- relação como artificial é justamente a insis-
derarmos que a comunicação humana se tência do analista em ser real, não corres-
dá em diferentes níveis: um nível metalin- pondendo às fantasias e mantendo-se nos
guístico, em que a comunicação é feita por limites de sua função: não podemos deci-
meio da linguagem; e um nível metacomu- dir pelo paciente nem privilegiar um ou
nicativo, segundo o qual se comunicam as outro ponto de vista que nos pareça mais
emoções dos participantes acerca da rela- saudável; só podemos ajudá-lo a perceber
ção, o que é feito mediante elementos não melhor.
verbais. Assim, na comunicação paciente- Assim, aquilo que transmitimos, mui-
-terapeuta, as mensagens transmitidas e to além das palavras, em nossos gestos, na
captadas pelos participantes da dupla vão entonação da voz, na atitude de compreen-
muito mais além do que é dito em palavras. der e não julgar ou aconselhar, é que for-
Além disso, as próprias palavras vão ser en- mará o contexto dentro do qual o paciente
tendidas de acordo com o clima emocional possa se sentir encorajado a pensar sobre
do momento, e, assim, as interpretações seus sentimentos. Os aspectos formais do
terão seu valor determinado pelo marco setting funcionam como uma organização
psicológico no qual são oferecidas.28 Dessa do espaço de trabalho, lembrando que há
forma, a questão do setting ganha destaque uma realidade externa à qual ambos os par-
como determinante da ação terapêutica. ticipantes devem se sujeitar.
Setting entendido não apenas em seus as-
pectos formais, mas, principalmente, em
relação ao que é determinado pela atitude Assim, podemos considerar que a primeira ação
do psicoterapeuta, em que se destacam a terapêutica provém da atitude do terapeuta, ao
neutralidade e a postura receptiva, reflexiva propor uma aproximação reflexiva, ordenadora,
e não crítica, que formam um continente que, em vez de julgar, procura um sentido para
capaz de conter as angústias do paciente, o que o paciente sente.
considerado o mecanismo de base de ação
da psicoterapia.
Nesse contexto, a regra da abstinência O elemento verbal do método psi-
não é uma simples lei técnica a ser seguida. canalítico é a interpretação, que procura
Ela provém de uma compreensão do tera- mostrar para o paciente outros vértices
peuta acerca dos limites de sua tarefa, recu- de aproximação de seus conflitos. Na psi-
sando uma posição onipotente de ser capaz canálise, a interpretação transferencial é o
de curar o paciente, não compartilhando da principal instrumento. Na psicoterapia, as
fantasia de que trabalhar elaborativamente interpretações que privilegiam o foco es-
significa desfazer-se de partes indesejáveis colhido são prioritárias, mas somente um
de sua personalidade. Caper29 salienta que acompanhamento dos movimentos trans-
uma das dificuldades em manter a regra ferenciais-contratransferenciais pode for-
da abstinência é que a atividade peculiar necer elementos para que o terapeuta com-
do analista/terapeuta parece artificial, não preenda o que se passa, estabelecendo uma
podendo oferecer conselhos ou consolos, constante tensão entre transferência e foco.
causando certa dose de sofrimento real pa- Interpretações que não sejam baseadas na
ra poder alcançar o objetivo principal, que percepção do clima emocional da sessão
122 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

serão intelectualizadas e distantes. Assim, internas. Nesse processo, é fundamental o


o trabalho interpretativo seria o segundo papel do terapeuta como representante de
responsável pela ação terapêutica. figuras de importância na vida do pacien-
Mas, com que intenção interpreta- te. O que poderíamos chamar de poder da
mos, que efeito procuramos? sugestão deve ser usado pelo terapeuta de
outra forma, não para influenciar opiniões,
mas para ajudar a vencer resistências à dor
Desde observações muito simples, que apenas e às mudanças.
procuram dar nome a determinadas sensações Assim, podemos imaginar que o pa-
confusas, a interpretação procura novas formas ciente chega à psicoterapia com algumas
de aproximação, novos sentidos para as expe­ teorias acerca de si mesmo e do que está lhe
riências emocionais do paciente. acontecendo. Como está buscando ajuda,
sabemos (mas o paciente às vezes não tem
consciência) que as formas usadas até en-
Paula Heimann30 defende que busca- tão para enfrentar as várias situações de sua
mos aumentar a capacidade perceptiva do vida não estão mais funcionando de modo
ego do paciente e que é para ele que inter- adequado. Nosso paciente chega com dois
pretamos, a fim de que possa perceber com objetivos: um, manifesto, de mudança;
mais clareza seus processos intrapsíquicos outro, latente, de evitar mudanças, já que
e interpessoais. Apesar de muitos proces- estas sempre se acompanham de medo e
sos primitivos só poderem ser expressos insegurança. Ambos os objetivos são ver-
em palavras de forma aproximada, a for- dadeiros, e a existência de um não exclui o
mulação em palavras é importante, porque outro. Em psicoterapia, escolhemos algum
estas promovem pensamento crítico e são foco que nos pareça corresponder à área de
o veículo de comunicação clara e explícita maior sofrimento para o paciente e com
entre paciente e terapeuta. A interpretação cuja importância ele concorde. Esse foco
atrai para a região da palavra aquilo que pode ir dando lugar a outros, ir se desmem-
se dá na dimensão do ato, da fantasia, do brando. O foco não significa que todas as
sentimento. Ela não é apenas a tradução interpretações serão centradas aí, mas de-
de algum significado, mas instrumento de limita uma zona de trabalho, para a qual
modificação da relação entre forças psíqui- estabeleceremos estratégias de aproxima-
cas, por meio da comunicação ao paciente, ção, de acordo com as resistências que vão
na circunstância apropriada, da compreen- surgindo, tendo como guia o que se per-
são alcançada pelo terapeuta quanto a essa cebe na relação que o paciente estabelece
relação.31 conosco. Esta ainda é a melhor referência
Entretanto, interpretar, por si só, não para identificarmos os padrões de resposta
produz efeito terapêutico, como Freud32 já do pa­ciente, a transferência-contratransfe­
destacava ao falar do trabalho de elabora- rên­cia, mesmo que as interpretações sejam
ção, que, de alguma forma, pode ser aproxi- pre­dominantemente extratransferenciais.­
mado ao trabalho do luto.33 Ambos os tra- A partir da identificação gradual desses
balhos acontecem aos poucos e envolvem a padrões, sempre procurando relacio­ná-los
capacidade de tolerar dor. Na psicoterapia, com o foco, formulam-se interpretações,
trata-se da dor que acompanha a percep- uma espécie de descrição dos fatos psíqui-
ção de determinadas realidades externas e cos. Todavia, essa descrição tem algumas
Psicoterapia de orientação analítica 123

características particulares, já que procura continuam se guiando por mecanismos pri-


apresentar uma outra forma de perceber mitivos, regidos pela onipotência do pensa-
o mesmo fenômeno, apontando contradi- mento, por uma postura superegoica severa
ções, distorções e, principalmente, estabe- (característica do superego mais primitivo),
lecendo as diferenças entre mundo externo por ideais de ego distanciados da realidade,
e realidade psíquica, o que cria, portanto, impondo expectativas inatingíveis. Seja qual
um paradoxo entre modos de sentir e pen- for o foco escolhido, boa parte do trabalho
sar e o que pode ser percebido. É a possibi- e dos efeitos obtidos acontecerá em torno
lidade de perceber as contradições e tolerar destas questões: abrandamento das críti-
esses paradoxos que abre caminho para o cas do superego, por meio da aceitação das
insight, uma mudança de nível lógico do próprias limitações e da percepção de que
pensamento em direção a uma maior abs- as exigências correspondem a uma onipo-
tração.28,34 tência infantil; busca por resolver conflitos
A atitude do terapeuta, de compreen- por meio de modos mágicos, que envolvem
são não crítica, de aproximação imparcial a negação da realidade interna ou externa.
de qualquer conteúdo apresentado, cria a Em psicoterapia, além do trabalho
atmosfera necessária para que o paciente se sobre o foco escolhido, esperamos que o
sinta acompanhado na tarefa de submeter paciente possa identificar e introjetar algo
suas teorias a uma reavaliação. Mediante a da atitude reflexiva do psicoterapeuta, de
neutralidade, essas teorias podem ser ques- busca de compreensão, e que possa utili-
tionadas, contrastadas e, inclusive, redefi- zar esse modelo em outras situações de sua
nidas.34 vida. Dessa forma, o terapeuta deve trans-
Supomos que as teorias do paciente mitir, em sua atitude geral, a aceitação im-
e os padrões de resposta baseados em suas­ plícita de seus limites e dos limites de seu
premissas foram formados na infância e método, abrindo mão de uma postura oni-
passaram a vigorar como verdades inques- potente, de quem teria as respostas certas e
tionáveis, mesmo com o desenvolvimento definitivas: as interpretações são hipóteses,
e a aquisição de novas capacidades. Assim, e é importante poder mostrar de onde elas
detectamos modos de funcionamento que partiram.

ILUSTRAÇÃO CLÍNICA
A paciente, de 32 anos, procura atendimento por problemas conjugais, uma queixa frequente em adultos,
já que é no trabalho e nas relações afetivas que mais se manifestam as consequências de conflitos mal
resolvidos. Apresenta-se com uma profusão de queixas, repetidas exaustivamente, que procuram mostrar
como o marido não a valoriza, não faz planos conjuntos, trata apenas de seus próprios interesses, vive para
o trabalho, escuta mais os colegas do que ela mesma, e assim por diante. Mesmo que seu relato apresente
o marido como alguém que não a trata bem, o terapeuta sente certa irritação, já que parece não ter outra
saída além de se aliar a ela na constatação de que o marido a maltrata. O terapeuta sente-se pressionado

(Continua)
124 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

(Continuação)
a tomar um partido, e é possível que essa seja a intenção inconsciente inicial da paciente. Apesar de seu
sofrimento com a situação e do desejo de que possa haver uma melhora, evidencia-se que a única saída
que procura é o apoio do terapeuta em relação a sua teoria de que o problema é o marido que a desvaloriza
e a possibilidade de que ambos possam mudá-lo e fazê-lo adaptar-se às suas expectativas. Não há, ain-
da, a possibilidade real de que possa pensar de forma mais ampla sobre detalhes de sua situação conju-
gal e muito menos de sua participação nas dificuldades que enfrentam, já que não tem a menor crítica so-
bre suas atitudes em relação a ele, claramente despóticas e controladoras. É claro que a paciente não tem
consciência de todo esse processo. Manifestamente, está procurando alguém que a ajude nos problemas
com o marido, o que corresponde a determinado nível de seu desejo. Em outro nível, o desejo é não pensar.
Um dos guias importantes para o terapeuta é a irritação que suas queixas provocam, apesar de o conteú-
do parecer plausível. O terapeuta precisa realizar a tarefa inicial de conter, não atuar esse sentimento para
poder pensar sobre ele, ou corre o risco de maltratar a paciente.
Qualquer tentativa de fazer com que pense sobre si mesma é, de início, rechaçada, com a queixa de
que o terapeuta está do lado do marido e duvidando do que ela conta. É necessária uma outra via, que jus-
tamente mostre como está assustada com a possibilidade de pensar no que está ocorrendo, procurando,
portanto, um aliado nas queixas, alguém para lhe dar razão. É importante que a paciente saiba que aco-
lhemos seu sofrimento, mas que talvez ele não provenha da fonte que lhe parece mais provável. A solução
procurada não existe, pois não poderemos mudar o marido e induzi-lo a corresponder às suas expectativas.
Muito tempo de trabalho foi necessário para que percebesse seu desejo de poder controlar de modo onipo-
tente a realidade e as pessoas, como uma forma de se sentir protegida, já que parecia não se sentir capaz
de enfrentar o mundo sem tal recurso.
O foco inicial da psicoterapia foi amplo: suas dificuldades conjugais. Dentro desse foco, foram neces-
sários níveis de abordagem diferentes, começando pelo que parecia a resistência mais presente: a dificul-
dade em aceitar que não poderia modificar tudo e todos que lhe causassem sofrimento. Assim, pôde-se co-
nhecer, aos poucos, os anos que passou tentando, das formas mais variadas e descabidas, evitar que o pai,
psicótico, tivesse surtos, e a dor de reconhecer que não tinha esse poder. Podia ajudar o pai, não transfor-
má-lo em outra pessoa. Da mesma forma, foi ficando mais perceptível sua intensa desvalia e a fantasia
de que o casamento com um homem de um nível socioeconômico mais alto que o seu a resgatasse dessa
família profundamente desvalorizada por ela, bem como a queixa de que ele, como era de se esperar, não
cumpriu a missão e era apenas uma pessoa como qualquer outra, com defeitos e qualidades. Assim, aos
poucos, foi se delineando um esboço de uma teoria que não era consciente para ela, mas estava atuante:
“sou uma pessoa sem valor e incapaz, porque não consegui transformar meu pai e minha mãe em outras
pessoas, evitando toda a minha dor e decepção; minha saída é que este homem (o marido) resolva essa
angústia, bastando para isso que eu consiga que ele me valorize de forma total, irrestrita, todo o tempo”.
Essa formulação funciona como uma hipótese de trabalho, que não pretende compreender integralmente o
mundo psíquico da paciente.
Podemos perceber como o terapeuta, de início, correspondia a uma figura superegoica que lhe negaria
o direito a essa solução, a única que parecia possível. O clima das sessões era preponderantemente para-
noide, tenso e queixoso, tendo como único assunto suas queixas do marido e do psicoterapeuta, o qual, su-
postamente, não a apoiava. A percepção, via identificação projetiva, dos sentimentos provocados pela pa-
ciente, se contidos e compreendidos, é essencial para que se estabeleça uma outra atmosfera e um outro
modelo de aproximação de suas angústias. Podemos considerar este o primeiro mecanismo de ação da psi-

(Continua)
Psicoterapia de orientação analítica 125

(Continuação)
coterapia, a constituição de um setting neutro, no qual a paciente pudesse, neste caso muito lentamente,
sentir-se menos assustada para examinar outros aspectos antes negados. As interpretações se limitavam a
mostrar como era difícil admitir que não tinha superpoderes, como isso a fazia sentir-se frágil, procurando
colocar em palavras o que estava latente em sua postura belicosa.
Ao conversarmos sobre as circunstâncias de sua vida, o que foi se tornando possível após um longo pe-
ríodo, a ideia não era recuperar memórias passadas, mas aumentar sua capacidade de percepção de suas
angústias atuais, mostrando-lhe como continuava tentando resolvê-las de forma mágica, para evitar o so-
frimento. Por exemplo: era necessário conversar longamente sobre sua revolta caso chovesse nos dias em
que ia para a praia, a incapacidade de aceitar que não controlava o clima e, passo seguinte, mostrar-lhe o
pânico ao se imaginar no mundo sem esses poderes, a clara fragilidade subjacente ao desejo onipotente de
poder ter o controle absoluto sobre tudo. Assim, dentro do foco mais amplo, foram se sucedendo focos par-
ciais, visando a abordar a resistência mais presente no momento, sempre procurando, com as interpreta-
ções, apontar outras formas de pensar sobre o que sentia. O guia para determinar a pertinência de uma li-
nha interpretativa é dado pela percepção do clima que predomina no momento: interpretações com conteú-
dos que podem ser considerados corretos, mas feitas em um clima emocional inadequado, não poderão ser
assimiladas. No início da psicoterapia, seria inoperante mostrar, por exemplo, sua própria desvalorização,
projetada no marido, apesar de esse mecanismo já estar perceptível desde o começo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS o que se passa com o paciente e conosco,


além do que podemos acessar pelos órgãos
Se, na psicoterapia, assim como na análi- sensoriais ou pela razão; além disso, é o ti-
se, só conhecemos a abertura e o final (na po especial de relacionamento que o setting
conhecida analogia de Freud com o jogo psicoterápico procura criar, com seu clima
de xadrez), podemos pensar que o méto- emocional específico, tornando possível
do utilizado coloca em ação um processo que o trabalho interpretativo, o elemento
cujo curso não pode ser determinado com cognitivo, possa ter sentido, não se limitan-
precisão, dependendo tanto de fatores in- do ao fornecimento de alguma informação
dividuais de paciente e terapeuta como das intelectualizada ao paciente. A interpreta-
características da dupla que formarão. Há ção, correspondendo a determinada orga-
sempre o desejo de que se possa encontrar nização de dados que o terapeuta formula,
uma teoria de ação geral, mas é importan- veicula mensagens verbais e não verbais,
te que tenhamos em mente, para futuros ambas essenciais, já que os elementos não
estudos, que as particularidades de cada verbais formam a moldura dentro da qual
grupo de pacientes devem ser levadas em as mensagens verbais podem, ou não, ser
consideração. compreendidas. Parte importante da ação
De maneira geral, percebe-se uma terapêutica da psicoterapia de orientação
tendência de colocar mais peso nos fatores psicanalítica se dá por meio do modelo de
afetivos do que nos cognitivos, apesar de funcionamento mental que o terapeuta
essa ser uma contradição apenas aparen- oferece, um modelo de contenção das an-
te. O afetivo fornece a base para conhecer gústias, de abordagem reflexiva, não críti-
126 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

ca e não onipotente. É sob essa influência vas formas de pensar suas experiências e
que o passo seguinte se torna possível: a abandonando, em alguma medida, modos
expansão na capacidade do paciente de de funcionamento mais primitivos, mais
perceber sua realidade, interna e externa, onipotentes e, portanto, menos adequa-
revisando antigas teorias, admitindo no- dos.

PONTOS-CHAVE DO CAPÍTULO

1. A psicoterapia de orientação psicanalítica coloca em ação um método de conhecimento do mundo


psíquico do paciente.
2 A relação estabelecida entre paciente e terapeuta é a base sobre a qual o trabalho psicoterápico se
desenvolve e a possibilidade de mudança psíquica se apoia.
3. A modalidade de relação paciente-terapeuta é definida pelo setting, que tem como um de seus princi-
pais constituintes a atitude do terapeuta de neutralidade e continência das emoções, além dos aspec-
tos formais.
4. Na comunicação paciente-terapeuta, atuam aspectos verbais e não verbais.
5. A interpretação relacionada ao foco escolhido é o instrumento preferencial e, apesar de ser uma verba-
lização, também comunica aspectos não verbais.
6. O acompanhamento dos fenômenos transferenciais é essencial, mesmo quando as interpretações
transferenciais não são priorizadas, porque é o que determina o tipo de relacionamento que está se
estabelecendo.
7. A identificação projetiva é a via principal para a percepção do clima emocional da sessão, captada
pelos sentimentos contratransferenciais do terapeuta; é o guia para a escolha da melhor forma de
interpretar.
8. O mais provável é que vários elementos entrem em cena na determinação dos modos de ação da psico-
terapia, localizados dentro do espectro entre a ênfase no relacionamento e a ênfase no insight; a for-
mação de cada terapeuta fará um ou outro fator ser priorizado. As características de cada paciente
também o fazem mais suscetível a um ou outro fator.33

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Psicoterapia de orientação analítica 127

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7
CAMPO E INTERSUBJETIVIDADE
Paulo Henrique Favalli

A clínica psicanalítica e psicoterápica es-


truturou-se, desde suas origens, sobre ba- Nos dias atuais, há consenso quanto à impos-
ses essencialmente empíricas. A situação sibilidade de uma observação de cunho psica-
de tratamento constituiu-se, assim, em um nalítico caucionada pela soberana objetividade
do terapeuta observador. Sua inerente subjeti-
campo de observação e produção de conhe- vidade impõe-se no ato de observação, estrutu-
cimentos sobre a vida psíquica do paciente. rando-se um campo intersubjetivo dinâmico no
A suposição de um terapeuta isento, capaz qual ambos os participantes não podem mais
de observar de forma objetiva os proces- ser compreendidos separadamente. O que quer
sos mentais que ocorrem na mente de seu que aconteça a um dos participantes, necessa-
paciente, consagrou o modelo positivista riamente, produz efeito sobre o outro.
clássico2-3 adotado pela maioria dos que se
dedicaram à prática da psicoterapia. Nesse
Barros e Barros3 reconhecem a im-
modelo, a influência do clínico restringe-se
possibilidade de acolher a experiência do
ao uso da interpretação como forma de re-
paciente sem que o terapeuta passe por
velação de conteúdos até então inacessíveis
uma experiência. Essa experiência pessoal­
à consciência do paciente. No entanto, a
decorre também do acervo das vivên-
própria experiência clínica tem-se encarre-
cias emocionais que vieram a compor seu
gado de questionar essa proposta, na medi-
mundo interno e que, de alguma maneira,
da em que constata serem a “neutralidade”
se mobilizam no momento específico da-
ou a “receptividade passiva” do terapeuta
quele encontro com o paciente. Os autores
condições teóricas distantes das ocorrên-
citados indagam o que fazer com essas ex-
cias reais vividas no consultório.
periências.
A proliferação de trabalhos sobre os
fenômenos contratransferenciais dá teste- Ignorá-las? Considerá-las fruto de
munho desse fato. O mais isento e sagaz idiossincrasias pessoais? Considerá-
dos terapeutas não poderia estar imune à -las fruto de manifestações neuróticas
reciprocidade dialética que se estabelece e, assim, descartá-las? Buscar enten-
dê-las como formas de comunicação
entre o sujeito e o objeto do conhecimento,
que nos contam algo sobre o paciente
a qual tem merecido dedicada atenção dos e parte do contexto relacional vivido?
teóricos que se ocupam desse tema.4 Como processá-las? Deveríamos nos
Psicoterapia de orientação analítica 129

tornar atentos observadores do que se orientação dinâmica. Como nos situamos


passa em nosso mundo interno e ten- no âmbito dos fundamentos teóricos da
tar colocar em palavras os sentimen- psicoterapia, é impossível, ao longo do tex-
tos despertados em nós pela presença
to, estabelecer distinções do que se aplica
do paciente?3
a essa técnica ou à psicanálise stricto sensu.
Isso implica uma mudança de para- Sou da opinião de que é o conhecimento
digma, visto que os referenciais técnicos amplo e profundo dos conceitos psicana-
construídos sob as bases de uma psicologia líticos fundamentais que melhor habilita o
unipessoal cedem lugar ao pressuposto da clínico a fazer as adaptações exigidas para
ocorrência de um contexto bipessoal, no cada caso em tratamento.
qual o funcionamento mental do terapeuta
é estruturado também pelo paciente e, ao
mesmo tempo, estruturador deste último.5 AS ORIGENS
Essas constatações, no entanto, não
surgiram de súbito à percepção dos clíni- Nos artigos de técnica, em sua maioria es-
cos. É necessário destacar que as transfor- critos entre 1910 e 1915, Freud é explícito
mações que a teoria do método psicanalíti- quanto à atitude do analista como obser-
co (e psicoterápico, por consequência) têm vador neutro e distante de seu objeto de
suportado encontram correspondência estudo, a mente do analisando. São reco-
com as evoluções do pensamento filosófi- mendações coerentes com os propósitos
co sobre o conhecimento e a constituição proferidos para a terapia e expressos na
do sujeito. Uma revisão sobre esse tema foi consagrada formulação: tornar consciente
recentemente apresentada por Schwartz.2 o inconsciente, preenchendo as lacunas de
Mesmo que se preservem as invariantes bá- memória. O descobrimento arqueológico
sicas na estrutura do método, nota-se uma dos conteúdos reprimidos da mente, vi-
linha evolutiva nas diferentes abordagens sando à reconstrução de uma suposta ver-
sobre a situação terapêutica. O que se pre- dade histórica, exige uma postura livre de
tende, neste capítulo, é expor algumas ten- quaisquer interferências externas e, princi-
dências dessa evolução, as quais passaram a palmente, daquelas originadas na própria
delinear os conceitos de campo e intersub- mente do pesquisador. Assim colocada, a
jetividade. Como não são ainda conceitos tarefa analítica seria consumada com sim-
consagrados dentro do corpo teórico da psi- plicidade, se não fossem as resistências in-
canálise, deparamo-nos com várias outras terpostas pelo paciente.
formas de nomear a mesma gama de fenô- Foi na batalha contra os baluartes re-
menos. Abstenho-me, então, de buscar uma sistenciais que Freud pôde reconhecer, pela
definição fechada que apenas restringiria as primeira vez, que a atitude do paciente em
diversas alternativas de reflexão sobre ocor- relação a ele, dentro da sessão, não decor-
rências que brotam diretamente do trabalho ria de qualquer elemento da realidade, pois
diário com pacientes. se enlaçava com o processo associativo,
Cumpre ressaltar, mais uma vez, que obstruindo-o no intuito de proteger ardua­
os pressupostos aqui referidos decorrem da mente a lembrança retida no inconsciente.
experiência clínica da psicanálise. Esta tem Ele observou que as associações não eram
fornecido o lastro teórico sobre o qual se tão livres como supunha, pois tendiam a
desenvolvem as técnicas psicoterápicas de ser desviadas para a própria relação com o
130 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

analista, buscando atuar com este o então


chamado complexo patogênico reprimido. é a definição dos mecanismos psíquicos que re-
Porém, se a atuação implica resistência ao gem essa comunicação. Tal definição será um
método, pois o paciente repete para não marco decisivo no entendimento da situação de
tratamento e origina-se da expansão ocorrida
lembrar, ela também é reveladora, já que
na psicanálise com o advento da teoria das re-
situa o terapeuta como verdadeiro prota- lações de objeto.
gonista da cena inconsciente que ele tenta
descobrir. Configuram-se aí alguns para-
doxos, pois a “resistência mais poderosa
ao tratamento” é, também, um poderoso OS DESENVOLVIMENTOS
instrumento do método, já que “não se po-
de vencer um inimigo ausente ou fora do A tentativa de expor uma história “natural”
alcance”. do tema que estou abordando passa, neces-
Sob outro enfoque, ao revelar o in- sariamente, pelas contribuições de Melanie
consciente, a transferência induz a novas Klein. Se, para Freud, a transferência surge,
resistências, pois é particularmente difícil na análise, como poderosa resistência, mas
admitir um impulso reprimido se ele tem converte-se em um valioso instrumento
que ser revelado diante da própria pessoa da cura, para Klein, esse status amplia-se
com quem se relaciona. Essas observações de forma radical. Da condição de simples
de Freud definem a fragilidade de sua pro- auxiliar no processo analítico, a abordagem
posta inicial de um analista-observador da transferência passa a confundir-se com
neutro, visto que sua simples presença in- a essência desse processo. A ideia básica é
terfere no campo observado. Surge, mais a de que a relação permeia a totalidade da
uma vez, a problemática da sugestão, e foi vida mental do paciente, atraindo sobre si
para contrapor-se a ela que Freud agregou o foco do trabalho da análise. Isso significa
a seu método as conhecidas recomenda- que devemos buscar compreender o que a
ções técnicas. No entanto, a tentativa de análise está representando, inconsciente-
criar um analista isento, “purificado” em mente, para o analisando, a cada momento
seu funcionamento mental, revela-se in- específico.6,7
viável. Assim, a análise, até então ocupa- Essa posição baseou-se em um mo-
da com o campo intrapsíquico, volta-se, delo teórico divergente daquele exposto
forçosamente, para o estudo do contexto por Freud, visto que parte da ideia de que
relacional como via possível de acesso ao o conteúdo transferido não se restringe
mundo interno. apenas a eventos ou personagens pretéritos
que são reeditados na relação atual com o
terapeuta. O modelo kleiniano decorre de
Penso que o momento no qual Freud melhor uma noção de mundo interno como um
apreende aquilo que mais tarde viria a consti- espaço, ou “cenário”, onde se relacionam
tuir o conceito de campo está na proposição de “personagens” – objetos – construídos e
que a comunicação entre o paciente e seu te-
coloridos pelos contínuos processos de
rapeuta possa ocorrer de inconsciente para in-
consciente. Essa parece ser uma noção aceita introjeção e projeção, presentes desde o
com facilidade por qualquer um que tenha fei- início da vida. Transferência, portanto, é a
to a experiência de atender pacientes no âmbito reprodução, na situação de tratamento, das
psicoterápico. O que não encontramos em Freud relações mantidas entre os objetos consti-
tuintes do mundo interno.
Psicoterapia de orientação analítica 131

Do ponto de vista metapsicológico, Simultâneos ao trabalho de Heimann


pode-se dizer que o destaque dado, até e igualmente inovadores foram os estudos
então, ao mecanismo de repressão cede es- desenvolvidos por Heinrich Racker sobre
paço aos processos projetivos. O conceito a contratransferência.10,11 Ele unifica, em
de identificação projetiva, introduzido em definitivo, o binômio transferência/contra-
1946, amplia a percepção sobre os proces- transferência, pois define a função ativa da
sos mentais que agem na relação terapêu- mente do analista na criação do contexto
tica. Isso, no entanto, não foi intuído dire- relacional. Este fora sempre pensado (in-
tamente por Klein, e sim por aqueles que clusive por Heimann) como uma ação cen-
seguiram seu pensamento. Ao perceber a trífuga, isto é, o paciente é quem transfere,
ação da identificação projetiva no material é quem projeta; mesmo que sua projeção
de algum paciente, ela interpretava, sem- desencadeie um movimento “contra” den-
pre, como uma ocorrência restrita à mente tro do analista, é ainda o paciente o sujeito
deste; nenhuma menção era feita aos sen- dessa reação. Racker, por sua vez, é inequí-
timentos despertados no próprio terapeu- voco ao afirmar que, apesar de sua própria
ta.8 Paradoxalmente, a conceitualização da experiência de tratamento, o analista não
identificação projetiva revela os fenôme- está livre de seus conflitos inconscientes:
nos intersubjetivos à psicanálise como um “parte de sua libido ficou ligada na fanta-
novo e vasto campo de sua investigação. sia – aos objetos introjetados – e, portan-
Ocorre, assim, uma importante transfor- to, continua disposta a ser ‘transferida’”.10
mação no entendimento da cena analítica, Assim, postula que a transferência pode ser
voltando-se as atenções para o estudo da encarada como “[...] uma função das trans-
contratransferência. ferências do enfermo e das contratransfe-
É consenso que o marco dessa trans- rências do analista”.10
formação foi o trabalho publicado por Defende que, com frequência, se mis-
Paula Heimann, em 1950, sob o título On turam, no paciente, projeção e verdadeira
Counter-transference.9 A partir daí, a mente percepção. Esta última detecta, seja no tom
do analista passa a compor, junto com a do de voz, seja na formulação da interpreta-
paciente, os objetos da observação. Essa au- ção, o estado emocional do analista, o que,
tora desfaz a ideia de um analista impassível sem dúvida, interfere na expressão trans-
e emocionalmente imune às manifestações ferencial. Constitui-se, dessa forma, uma
do paciente. Ela considera que, sob o termo verdadeira
“contratransferência”, reúnem-se todos
os sentimentos que o analista vivencia em [...] neurose interpessoal – la névrose à
deux – que costuma surgir na situação
relação a seu paciente, os quais devem ser
analítica, embora, em geral, com dife-
vistos como uma criação deste último, uma rente intensidade em um e outro dos
parte de sua personalidade. Heimann fun- dois participantes.11
da a chamada concepção totalística da con-
tratransferência. Sua posição é coerente, Portanto, ao reconhecer que determi-
pois ela se mantém fiel ao postulado freu- nada expressão transferencial incita uma
diano de neutralidade, visto que o analista, reação contratransferencial específica, Ra-
mesmo reconhecendo os sentimentos que cker não deixa de referir que esse é sempre
lhe são provocados, deve subordiná-los à um movimento de dois sentidos, ou seja,
tarefa analítica, na qual será sempre o reflexo uma situação transferencial também cor-
do paciente em um espelho.9 responde a determinado contexto contra-
132 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

transferencial. Dessa forma, lança as bases do a desempenhar o papel que, de forma


do que, mais tarde, viria a se conceituar co- ativa – ainda que inconscientemente –, o
mo o “campo psicanalítico”, ainda que não analisando forçou para dentro dele. A pro-
o tenha nomeado de forma explícita. posição de Grinberg (e a própria concep-
Outros autores também se ocuparam ção totalística de contratransferência) tem
das possíveis alterações surgidas no campo recebido críticas de alguns autores, como
por interferência da patologia contratran- Etchegoyen,17 quando afirma que:
ferencial. Entre eles, despertam especial
interesse os trabalhos de Money-Kyrle e [...] por mais forte que seja a proje-
Grinberg, principalmente por sua tentativa ção do paciente, o analista não tem
que sucumbir necessariamente a ela;
de elucidar ocorrências perturbadoras da se sucumbe é porque há algo nele que
situação de tratamento, observando o fun- não lhe permite receber o processo e
cionamento interpessoal à luz de conceitos desenvolvê-lo.
que até então se restringiam ao âmbito in-
trapsíquico, ou, de forma mais específica, o O mesmo pondera Stefania T. Man-
conceito de identificação projetiva. fredi,18 quando argumenta que tais ideias
Money-Kyrle12 toma como ponto sugerem ser apenas o paciente ativo, en-
de partida o que os recíprocos processos quanto o analista é apenas um alvo. Diz ela
de identificação projetiva e introjetiva po- que, embora a contratransferência tenha-se
dem causar no funcionamento mental de tornado um instrumento, não deixou de
cada um dos componentes da dupla. Esses ser um inconveniente e como tal deve ser
processos, até aí abordados apenas em sua estudado em seu continente natural, que é
expressão patológica, agem, igualmente, a mente do analista, antes de passar à inter-
sobre o que o autor chama de contratrans- pretação.
ferência normal. A capacidade do terapeuta
de estar identificado introjetivamente com
o paciente permite senti-lo e compreendê- De qualquer forma, os desenvolvimentos sobre
-lo dentro de si e, por consequência, repro- a contratransferência revelam-se de muita uti-
jetá-lo sob forma de interpretação. O pro- lidade na prática clínica, pois advertem sobre
cesso se perturba quando o self do paciente a necessidade de o terapeuta manter-se aler-
ou seus objetos internos correspondem, de ta àquilo que pode, por algum momento, lhe
forma demasiado próxima, a algum aspec- soar como estranho (Unheimliche) em sua rea-
ção afetiva ou conduta. Esse estranho pode es-
to do terapeuta que este ainda não alcan- tar indicando um contexto acionado pela força
çou compreender, envolvendo-os em um das intensas fantasias do paciente, mas que,
contexto de não entendimento e confusão em última instância, remetem o terapeuta ao
propício a gerar desvios no andamento da estranho dentro de si, seu próprio inconsciente.
terapia.
León Grinberg, em uma série de tra-
balhos correlatos,13-16 ocupa-se com uma Um aporte decisivo para a compreen-
reação específica provocada no analista são dos eventos da situação terapêutica foi
quando este se situa como receptor passi- determinado pelo pensamento criativo de
vo da projeção maciça que o paciente faz Wilfred Bion. Ainda que não se tenha ocu-
de seus próprios objetos internos. Nessa pado especificamente com trabalhos sobre
ocorrência, que ele denomina “contraiden- a técnica, ele propõe uma ruptura com o
tificação projetiva”, o analista se vê leva- modelo clássico de observação psicanalíti-
Psicoterapia de orientação analítica 133

ca. O analista entra em cena não mais co- cie extremamente primitiva de elo entre
mo um mero observador e tradutor da vida paciente e analista. Bion conclui sobre a
mental do paciente, mas contribui com sua possibilidade de um uso normal de iden-
própria vida mental para as ocorrências tificação projetiva, o qual será o alicerce de
dentro da sessão, sendo um dos fatores toda a sua teoria sobre o processo de pensar
constituintes das transformações que ali se e, por consequência, sobre as ocorrências
operam. A intersubjetividade não é perce- dentro da situação analítica.
bida apenas como inevitável, impõe-se co- No artigo seguinte, Ataques ao elo de
mo única via possível de aproximação com ligação,21 essas propostas surgem mais ex-
a realidade psíquica; esta última perde a plícitas e sistematizadas, enfocando a im-
condição de factualidade tangível, saturada portância da mãe real (e, portando, da ati-
de nexos de causalidade, para configurar-se tude objetiva do analista) como promotora
como uma construção possível que só tem de equilíbrio ou de catástrofe psíquica. Fi-
significado na relação emocional única entre xa-se aí a necessidade de uma relação com
analista e analisando. A meu ver, a ruptura outra mente como base da formação do
trazida pelo modelo bioniano tem como pensamento, como produto da união entre
fundamento central a ideia condensada na partes da mente ou entre dois objetos.
afirmação de Bertolone, retirada do texto de
Gaburri e Ferro:19 “A mente é alguma coisa
que se estende além dos limites do sujeito”. Tendo concebido uma dimensão “funcional” da
A experiência de análise de psicóticos identificação projetiva como meio para a comu-
permitiu a Bion realizar uma reviravolta no nicação de determinado estado mental, Bion
modo de entender a identificação projetiva,­ parte para a elaboração do arcabouço de sua
valorizando sua função comunicativa. Isso teoria do processo de pensar, ou seja, o apare-
lho para pensar os pensamentos.22-24 Este se
nos é apresentado de maneira arguta no constrói sobre o modelo de uma relação dinâmi-
artigo Sobre a arrogância,20 por meio de ca entre algo que é projetado – contido – e um
um relato clínico em que a percepção do receptáculo que o contém – continente. Essa
contexto de campo bipessoal permite ao relação é representada pelo símbolo ♂↔♀, e
analista a compreensão do impasse em nela se sustentam os fundamentos de uma clí-
que estava envolvido juntamente com seu nica “bioniana”.
paciente. Ele descreve uma experiência de Como já referido, essa dimensão clínica do
pensamento de Bion significou uma considerá-
incomunicabilidade e não entendimento: vel mudança na maneira de entender a função
do analista na sessão; ele participa, vivencia
O estabelecimento de um forte rela-
e descreve a experiência emocional, mas não
cionamento analítico por meio da co-
pode mais pretender ser o tradutor isento, fiel
municação verbal parecia, assim, im-
e literal do inconsciente do paciente.
praticável. Analista e paciente forma-
vam um par frustrado.20

A capacidade do paciente de associar- Autores mais atuais desenvolveram


-se com o analista assentava-se na opor- tais ideias, ocupando-se, sobretudo, dos
tunidade de cindir e afastar partes de sua fenômenos presentes na estrutura forma-
psique, projetando-as dentro deste. A in- da pelo par analítico, como abordaremos
tolerância do analista em ser receptáculo mais adiante. Antes, porém, se impõe uma
de tais projeções era vivida pelo enfermo breve explanação sobre o momento em que
como ataques deferidos contra essa espé- o conceito de campo passa a tomar forma
134 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

entre as abordagens teóricas que tratam da diálogo (associação livre e atenção flutuan-
relação analítica. te), bem como as condições em que se de-
senvolve (setting, abstinência, interpretação,
entre outras), induzem à regressão em am-
CAMPO PSICANALÍTICO: UMA bos os participantes. Para o analisando, ela
EXPOSIÇÃO DO CONCEITO é permitida e necessária, ainda que sujeita
aos limites da expressão verbal. Para o ana-
Coube ao casal Madeleine e Willy Baran- lista, pode significar uma tentativa de sentir,
ger, em 1961, traçar as linhas mestras de o mais próximo possível, o nível de funciona-
um fenômeno que nomearam como “cam- mento do analisando, desde que deixe intacto
po psicanalítico”. Partem dos pressupos- o aspecto observador de seu ego, mantendo
tos desenvolvidos por Heimann e Racker inalterada sua postura interpretativa. Des-
sobre a contratransferência, mas não se crevendo dessa forma a situação analítica, os
restringem à sua função de indicador das Baranger consideram-na radicalmente nova
ocorrências transferenciais. Referindo-se a e distinta de qualquer outro campo bipessoal.
um fenômeno que transcende as manifes- Essa posição nos leva a retomar a
tações específicas da mente do paciente ou questão da transferência entendida como
do analista, esses autores descrevem uma reedição de um protótipo infantil passível
de manifestar-se dentro ou fora da análise.
[...] situação de duas pessoas indefec- Mais uma vez, revelam-se os limites dessa
tivelmente ligadas e complementa- concepção, já que a transferência na análise
res enquanto está durando a situação
é específica, na medida em que se produz
e envolucradas num mesmo proces-
so dinâmico. Nenhum membro dessa a partir dos diversos elementos participan-
dupla é inteligível dentro da situação tes do campo. Se as dimensões de espaço e
sem o outro.25 tempo e, ainda, as próprias características
do diálogo vão talhar o caráter da reação
Esse conceito pode ser mais bem apre- transferencial, o que dizer, então, da in-
endido se o enfocamos a partir de suas ca- terferência da própria pessoa do analista e,
racterísticas estruturais, pois assim ele é des- principalmente, de sua subjetividade?
crito: “O campo é uma estrutura diferente Isso nos remete ao elemento central na
da soma de seus componentes, como uma constituição do campo, que é a estrutura di-
melodia é diferente da soma das notas”.26 nâmica que subjaz ao diálogo analítico; em
Assim, o campo se estrutura, primeiramen- outras palavras, a fantasia inconsciente do
te, dentro de um enquadre funcional. As par. Utilizando, ainda, a analogia proposta
dimensões de espaço e tempo delimitam para representar a situação analítica como
esse enquadre, relativizando e sendo relati- um quadro com sua moldura definida pelas
vizadas pelos demais elementos que o cons- condições de espaço e tempo e seu desenho
tituem. Dentro dessa moldura de espaço e delineado pelas características do diálogo
tempo, desenha-se o diálogo analítico como analítico, temos que pensá-lo como em um
outro elemento estrutural básico. Englo- constante movimento em terceira dimensão.
bam-se aí as diferentes expectativas de um O que importa, com a utilização desse
par assimétrico, os papéis e as tarefas de cada modelo, é avançar além das descrições pla-
um, as experiências subjetivas individuais e nas de transferência e contratransferência,
as manifestações dessa subjetividade no di- como fenômenos próprios às mentes de
álogo. As características específicas desse cada um dos participantes, e ir em busca de
Psicoterapia de orientação analítica 135

seu ponto de confluência, onde passam a Como é sugerido que ambos os prota-
formar uma nova estrutura, distinta dessas gonistas concorrem na ativação desses me-
descrições isoladas. canismos, é necessário retomar a questão
da simetria/assimetria da situação analítica,
ou, em outras palavras, determinar quais as
O que propõem os Baranger, ao introduzir o características específicas do engajamento
conceito de campo, é formar uma compreensão de cada um dos protagonistas nessa situa-
mais ampla e profunda da proposição, deixa- ção. Nos trabalhos de 1961 e 1964,25,27 os
da em aberto por Freud, de uma comunicação Baranger não se estendem nesse ponto. Re-
de inconsciente para inconsciente. A condição
ferem apenas que a análise se diferencia de
necessária a essa comunicação é a existência
de uma fantasia inconsciente do par, que, nes- qualquer outra situação de par, pois aqui a
se caso, adquire um sentido diferente do que se identificação projetiva deve ser limitada e
atribui correntemente, quando proposto em ter- controlada no analista; preconizam, ainda,
mos unipessoais. que ele a utilize em pequenas doses como
uma sondagem experimental. Restabele-
cem, assim, a assimetria no interjogo de
Tal fantasia não pode ser considerada identificações projetivas, pois mencionam
como determinada pelos impulsos instinti- sua utilização limitada pelo analista. Essa
vos do analisando ou do analista, ainda que formulação, no entanto, nos leva a indagar
os impulsos de ambos intervenham em sua como um processo que, em sua essência,
estruturação: é inconsciente, pode ser dosado ou con­
trolado. Caso fosse possível “utilizar” a
Tampouco, e isso é o mais importan- identificação projetiva dessa maneira, isso
te, pode ser considerada como a soma seria somente um procedimento intelectual
das duas situações internas. É algo que
se cria entre ambos, dentro da unidade
distante da genuína experiência emocional
que constituem no momento da ses- que qualifica a situação de campo analítico.
são, algo radicalmente distinto do que Com a concepção de um campo bi-
são separadamente cada um deles.25 pessoal, mudam, também, as perspectivas
de avaliação do andamento do processo
Tudo o que foi exposto até agora per- terapêutico. Sugere-se que essa avaliação
maneceria em um plano meramente des- se volte para o plano situacional (ou rela-
critivo se os autores referidos não se propu- cional), buscando identificar momentos de
sessem a entender a natureza dessa fantasia mobilidade ou de cristalização do campo.
de par ou a responder à questão que eles O contínuo interjogo das identificações
mesmos formulam: quais processos inter- projetivas pode produzir estereotipias e pa-
vêm em sua produção? Para isso, baseiam- ralisações do processo, envolvendo ambos
-se no conceito de identificação projetiva, os participantes. Tais circunstâncias, deno-
reconhecendo sua ação centrífuga e centrí- minadas por esses autores como “baluar-
peta, isto é, como um movimento não ape- tes”, só poderão ser superadas se o analista
nas da mente do analisando, mas também for capaz de observar-se, junto com seu
da mente do analista. Explicam a fantasia analisando, como participante da fantasia
inconsciente do campo bipessoal como o imobilizadora e, a partir dessa “segunda
interjogo de identificações projetivas e in- mirada”, formular sua interpretação.
trojetivas, com seu necessário corolário de Ainda que posteriormente tenham
contraidentificações. reformulado sua teoria sobre o papel das
136 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

identificações projetivas recíprocas e cru- tivo do par”, para que possam, paciente e
zadas na constituição do campo analíti- analista, alcançar uma visão comum sobre
co,28 penso que essa contribuição do casal o que sucede na profundidade de seu fun-
Baranger retém sua validade, em especial se cionamento interpessoal:
agregada à sugestão de Bion sobre a ocor-
rência de um grau normal de identificação Somente neste momento é possível a
projetiva como mediadora de uma comu- discriminação e redistribuição do que
havia-se confundido pelo cruzamen-
nicação primitiva. to das identificações projetivas e cada
membro da dupla pode individualizar
melhor seus aspectos interiores ativa-
ALGUMAS VERSÕES dos na relação com o outro.37
CONTEMPORÂNEAS
Ferro segue adiante, buscando dar
uma forma mais definida a seu modelo de
Sustentado em um modelo de trabalho que
campo. Para isso, lança mão de referenciais
nasce de um “encontro fecundo” entre as
da narratologia, dispondo o material sur-
conceitualizações de Bion e dos Baranger,
gido na sessão como “personagens”. Estes
Antonino Ferro desponta com uma série
não precisam ser, necessariamente, antro-
de trabalhos que nos convidam a uma re-
pomórficos, podendo, além de pessoas,
flexão profunda sobre aquilo que ocorre na
constituir-se por objetos ou situações que
sala de análise. Em todos os escritos revisa-
formam os nós de uma rede narrativa in-
dos para este capítulo,5,29-38 o autor deixa
terpessoal. Os personagens são “escritos”
clara sua filiação a um conceito de campo
na sessão por diversas vias comunicativas:
bipessoal no qual somente é pos­sível co-
as associações de ideias, as lembranças in-
nhecer a fantasia inconsciente da dupla, es-
fantis, o desenho, o jogo, as fantasias, os
truturada por contribuições da vida mental
sonhos, e assim por diante. Ainda que,
de paciente e analista, mediatizada pelas
de acordo com um referencial kleiniano,
recíprocas identificações projetivas.
possam estar representando os objetos
do mundo interno do paciente, ou, com
Freud, significar uma rede de relações his-
A premissa de que a identificação projetiva não tóricas, pelo vértice proposto por Ferro,
é apenas a fantasia onipotente de um indiví-
tais personagens dramatizam as inúmeras
duo, mas algo que se dá entre duas pessoas,
é levada por Ferro às suas últimas consequên- possibilidades de histórias que expressam
cias, sustentando que analista e paciente com- sempre o que, no momento atual, se passa
partilham, com toda a intensidade, as emoções entre as duas mentes da relação analítica.
e os temores surgidos na sessão. É central a Há, também, a já referida imagem
ideia de que o encontro analítico deva consti- visual de “holografia afetiva”, ilusão ótica
tuir-se em um espaço gerador de uma experi- que permite uma sucessiva reconstrução
ência emocional da dupla, privativa e irrepetí-
tridimensional de um mesmo objeto, como
vel, que, ao adquirir um significado mútuo, se
transforma em uma nova história, cuja narrati- forma de representar os inúmeros “mun-
va é sempre composta a quatro mãos. dos possíveis” pensáveis pela dupla.33
Mas, se os personagens da sessão fa-
lam sempre do presente, que lugar ocupa a
O trabalho da análise (e do analista) será de “história”, na qualidade de ordenação, no
integrar essas “áreas do tecido comunica- tempo dos eventos psíquicos? A resposta
Psicoterapia de orientação analítica 137

de Ferro a essa questão distingue-o, radi- do analista), tendem a utilizar vias subter-
calmente, do que ele chama de “psicanálise râneas para integrarem-se à atualidade do
monopessoal”, isto é, aquela feita de re- funcionamento do par, e o que, de fato, se
construções que se montam a partir de um observa é um constante movimento oscila-
processo de investigação e desvendamento tório entre esses dois regimes, representado
de um enigma. Entende que os desloca- pelos símbolos T↔R (por analogia à osci-
mentos temporais, veiculados pela evo- lação descrita por Bion: PS↔D).
cação de lembranças, buscam “datar” os Assim disposta, essa tese suscita al-
fatos mentais e emocionais, assim como as guns questionamentos, pois pressupõe um
cisões atendem às necessidades de situá-los nível de interação entre analista e analisan-
no espaço. São sistemas de proteção que do regido, exclusivamente (pelo menos em
devem ser respeitados como testemunhos termos de abstração teórica), pela atualida-
do universo afetivo individual do p ­ aciente. de da experiência emocional gerada no en-
Porém, afirma, seguindo Bion, que existem contro analítico. A transferência atua como
somente sentimentos do presente e que só uma intrusa que provoca repetição estereo-
estes é possível conhecer.5,29 Há, portanto, tipada e a estagnação do campo, obstruin-
uma outra história a ser conhecida, que é do a fertilidade criativa do par ou a possibi-
aquela que está sendo construída em con- lidade de “novas experiências afetivas, que
junto e que se forma por “lembranças de tornam transitáveis e pensáveis, no encon-
experiências nunca antes acontecidas”, tro com outra mente, emoções nunca antes
experiências essas compostas por novos convividas”.38 É claro que ele próprio se
personagens, que se estruturam no aqui e antecipa a essa crítica, afirmando que
agora e que depois se tornam novos “ha-
bitantes” do mundo interno ou da “histó- [...] o ângulo de autorreferencialidade
do campo não pode ser visto o tempo
ria”.33 Esses personagens transcendem a
todo como único, pois, nesse caso, te-
referência temporal e são entendidos como ríamos uma situação que se enrosca-
“modalidades expressivas” do que acontece ria esterilmente sobre si mesma.29
no campo, o qual necessita de “nós narrati-
vos” para tornar-se narrável.39 Entretanto, afirma, mais adiante,
A ênfase de Ferro sobre a especifici­ no mesmo texto, que, quando observado
dade da experiência atual leva-o a sugerir do ângulo que considera entre todos o mais
que o funcionamento mental da dupla significativo, o par analítico fala apenas e
analítica se desenvolve com base em dois sempre de si mesmo e do funcionamento
diferentes regimes fundamentais alter- recíproco. A evidência de um modelo de
nativos.29,37 O primeiro é o que tradicio- trabalho que privilegia o polo R da oscila-
nalmente denominamos “transferência” (e ção sugerida (T↔R) transparece na leitura
a contratransferência como seu comple- de seus textos, geralmente ricos em vinhe-
mento), seja ela entendida como repetição tas clínicas. Isso se manifesta, sobretudo,
do passado, seja como externalização do em dois fundamentos básicos de seu pen-
mundo interno. O outro desses regimes, samento: o paciente como melhor colega e
denominado “relação”, é o que se consti- as interpretações narrativas.
tui pela experiência intersubjetiva inédita, A ideia de que o paciente sabe mais
cuja representação simbólica será sempre sobre como é sentir-se igual a ele do que
construída de forma consensual. A trans- qualquer analista pode saber foi exposta
ferência, ou as transferências (do paciente e por Bion nas Discussões realizadas em Nova
138 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

York, no ano de 1977.40 A sugestão de que meios defensivos sutis para evitar a dor de
este será sempre o “melhor colega” com confrontar-se com a realidade interna e ex-
quem poderemos contar para entendermos terna e, sobretudo, tenta sempre, pela repe-
os acontecimentos de dentro da sala da tição transferencial, alterar o caráter desta
análise é adotada por Ferro como um dos última. Se não funcionasse assim, não seria
“carros-chefes” de seu sistema. Ele propõe paciente, e o processo analítico se tornaria
que se mantenha uma constante função de inviável.
monitoramento das transformações por As ideias de Ferro sobre o campo
que passam as figuras trazidas pelo pacien- analítico levam a uma original consequên­
te à sessão. cia quanto à técnica interpretativa. É nes-
se âmbito que mais se evidenciam as pe-
Essa abordagem dá condições ao ana- culiaridades desse autor, pois ele propõe
lista de ver-se a si próprio, bem como um rompimento com a forma tradicional
ao paciente, a partir do ponto onde ele de interpretar, ou com o que ele costuma
está situado [...] O paciente nos rela- chamar de “interpretações fortes”. Nestas,­
ta constantemente como somos para
ele a partir de ângulos totalmente des-
o analista coloca-se em um papel de intér-
conhecidos para nós; ao mesmo tem- prete-decodificador, que enuncia, de ma-
po, porém, é preciso que reconheça- neira assertiva, o conteúdo das fantasias
mos que ele nos coloca na posição de inconscientes subjacentes às expressões do
permitir que “seu” problema entre em paciente, buscando principalmente nelas o
campo exatamente por meio de nós.29 seu significado transferencial. A elas con-
trapõe um tipo de interpretação que não
Essa aproximação mostra-se de extre- menciona, necessariamente, a transferên-
ma utilidade clínica, pois conduz o analista cia, ainda que encerre o mesmo conteúdo.
a uma sistemática avaliação de si mesmo e A ideia é “vestir” as interpretações com as
de seu trabalho, evitando, assim, a tendên- palavras e as personificações derivadas do
cia a atribuir sempre à fantasia inconscien- discurso do paciente, sem referências explí-
te do analisando, ou às suas identificações citas ao hic et nunc da sessão, tendo o cuida-
projetivas, as ocorrências surgidas no cam- do de moldá-las em uma textura narrativa
po de análise. No entanto, alguns relatos compartilhada. Estas são chamadas de “in-
de Ferro parecem negligenciar aquilo que terpretações fracas”, por seu conteúdo in-
é próprio ao paciente, a sua realidade psí- saturado, isto é, que permite configurações
quica. Há o risco de darmos a esse “melhor de sentido ainda muito incipientes, abertas
colega” o lugar do observador neutro, ca- para ulteriores contribuições do paciente.
paz de captar e descrever com precisão a Trata-se mais de construir um significado,
“realidade” do que sucede ao par analíti- junto com o analisando, do que de traduzir
co. É preciso não esquecer que, ainda que um significado já existente.
as manifestações do paciente sejam o guia Além de considerar as premissas de
que deve nos orientar na busca do entendi- Bion sobre a saturação dos enunciados, é
mento daquilo que acontece na sessão, es- útil, para se entenderem as propostas de
sa “realidade” que ele descreve surge-nos, Ferro sobre a interpretação, ter conheci-
inevitavelmente, transformada pelo filtro mento da teoria narratológica em que ele
de sua própria mente. Assim, o “melhor as sustenta.34 Dos vários autores citados,
colega” é também aquele que resiste ardua­ o que mais diretamente fixa as bases desse
mente ao trabalho da análise, utilizando sistema hermenêutico é Umberto Eco, em
Psicoterapia de orientação analítica 139

sua Obra aberta. Esse autor analisa a obra inúmeros escritos.43-57 A dialética, como o
de arte, seja literária, seja plástica ou mu- próprio Ogden45 sintetiza,
sical, como um sistema de signos infinita-
mente traduzíveis. Toda obra de arte, mes- [...] é um processo em que elemen-
mo quando é forma acabada e fechada na tos opostos se criam, preservam e ne-
gam um ao outro, cada um em rela-
sua perfeição de organismo calibrado com ção dinâmica e sempre mutativa com
exatidão, é aberta pelo menos quanto a po- o outro. O movimento dialético ten-
der ser interpretada de diferentes modos, de para integrações que nunca se rea­
sem que sua irredutível singularidade seja, lizam por completo. Cada integra-
por isso, alterada.41 Há textos com uma ção potencial cria uma nova forma de
inesgotável possibilidade interpretativa, oposição, caracterizada por sua pró-
em cuja construção irá contribuir o “leitor- pria forma distinta de tensão dialéti-
ca. Aquilo que é gerado dialeticamen-
-executante”.
te está continuamente em movimen-
A transposição desses princípios para to, perpetuamente em processo de ser
a situação analítica expande o campo de vi- criado e negado, de ser descentrado da
são do analista, livrando-o dos limites que autoevidência estática”.
a couraça de um referencial teórico fechado
possa representar. No entanto, há sempre o
conhecido risco de tomarmos o paciente co- O sujeito da psicanálise constitui-se (integra-
mo um texto literário, abstraindo-o de sua -se em uma síntese) ou se descentra (polari-
condição de ser singular, cujo sofrimento se zando os opostos) de modo contínuo, seja em
vincula a experiências específicas intransfe- termos de sua abordagem metapsicológica
(consciente/inconsciente, posição esquizopara-
ríveis e que, necessariamente, se inserem no
noide/posição depressiva, realidade/fantasia,
contexto histórico próprio daquela pessoa. unicidade/separação), seja como sujeito parti-
Sob outro enfoque, indago-me se o uso sis- cipante de um encontro específico com o outro,
temático de interpretações não saturadas compondo o que conhecemos por situação ana-
não favorece o incremento de ansiedades lítica. Os sujeitos da situação analítica man-
confusionais, visto que evitam as necessárias têm uma relação dialética entre si, de maneira
cisões normais que permitem diferenciar e que analista e analisando não podem ser pen-
sados como entidades separadas que tomam
situar os objetos, ou aspectos destes, para
um ao outro como objetos. Ogden não se refere
que possam, depois, ser integrados.42 a um campo onde se processam os fenômenos
Apesar de sua originalidade, propi­ bipessoais, mas à geração de um terceiro sujei-
ciadora de novos desenvolvimentos, o con- to, que passa a interagir dialeticamente com os
ceito de campo não foi subscrito por mui- participantes da dupla.
tos dos autores que tratam do tema da in-
tersubjetividade. O estudo dos fenômenos
referentes à situação terapêutica deu ensejo A concepção de intersubjetividade
a outras abordagens teóricas igualmente analítica apresentada por esse autor funda-
fecundas. Entre elas, destaco­as proposi- menta-se, a princípio, nas ideias de Win-
ções de Thomas Ogden. Sua originalidade nicott. Foi Donald Winnicott58,59 quem
e independência não escondem a marca- apontou para o fato de o desenvolvimento
da influên­cia de Klein, Bion e Winnicott. emocional do indivíduo não se processar
Soma-se a isso uma forma de pensar siste- em um ambiente neutro. Apesar da renún-
maticamente moldada pelos princípios da cia de Freud60 à teoria da sedução, é neces-
dialética hegeliana, como se denota em seus sário reconhecer que o bom ou o mau am-
140 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

biente de um bebê em formação não pode terceiro analítico, embora criado conjunta-
ser considerado apenas como projeção. mente, não ser vivenciado da mesma for-
Cabe lembrar a conhecida afirmação de ma por ambos os participantes, mas que se
Winnicott de que “um bebê é algo que não constitua na assimetria do setting analítico,
existe (separado dos cuidados maternos)”. que é fortemente definido pela relação entre
Mãe-bebê constitui uma unidade que con- os papéis de analista e analisando. O analista
tém em si uma contínua tensão dinâmica deve, portanto, observar o desmantelamen-
entre as entidades mãe e bebê, efetivamente to de seus limites individuais, de maneira
possuidores de existência física e psicologi- que possa pensar a partir da experiência in-
camente separados. consciente do terceiro intersubjetivo e, ao
Outro conceito de Winnicott que mesmo tempo, pensar sobre ele, desde uma
contribui para essa abordagem da inter- posição de analista fora dele:
subjetividade é o de “espaço potencial”.43
Tal expressão refere-se à área intermediária A experiência do analista no e do ter-
da experiência que se situa entre a realida- ceiro analítico é (primariamente) uti-
lizada como veículo para a compreen-
de e a fantasia, um espaço hipotético que, são das experiências conscientes e in-
ao mesmo tempo, reúne e separa a criança conscientes do analisando (analista e
(sujeito) e a mãe (objeto). É nesse espaço analisando não estão envolvidos em
que surge a atividade imaginativa e se for- um processo democrático de análise
mam os símbolos. Formas mais específicas mútua).47
do espaço potencial incluem o espaço do
brincar, a área dos objetos e fenômenos A tarefa analítica, pois, será descre-
transicionais, a área da criatividade e da ver, da maneira mais completa possível, a
experiência cultural e, ainda, o espaço ana- natureza da experiência vivenciada na re-
lítico. Neste último, os polos opostos que lação entre a subjetividade individual e o
compõem a experiência são as respectivas terceiro analítico. Para que essa descrição
subjetividades de paciente e analista, po- seja possível, deve valer-se daqueles objetos
tencialmente geradoras de um terceiro su- construídos no interjogo de comunicações
jeito, o “terceiro-analítico intersubjetivo”. da dupla e que dão significado à experiên-
cia. Ogden nomeia-os “objetos analíticos”,
conforme a exposição feita por Green:61
Ogden parafraseia Winnicott, afirmando que, [...] o real objeto analítico não está
“em um contexto analítico um analisando é nem do lado do paciente, nem do ana-
algo que não existe separado da relação com lista, mas no encontro dessas duas co-
o analista, e um analista é algo que não existe municações, no es­paço potencial que
separado da relação com o analisando”.47 situa-se entre eles.

Assim como fazem os Baranger e Fer-


Como criadores do terceiro analítico, ro, Ogden também aborda os eventos do
analista e analisando destroem-se e recriam- campo interpessoal sob o prisma da iden-
-se mutuamente, mantendo uma constante tificação projetiva. Adota esse conceito na
tensão dialética entre esse terceiro elemento acepção que lhe é dada a partir de Bion e
e as individualidades de cada um dos com- Rosenfeld e o considera como uma dimen-
ponentes da dupla. A oscilação entre subje- são de toda intersubjetividade, às vezes
tividades e intersubjetividade possibilita ao como qualidade predominante da expe­
Psicoterapia de orientação analítica 141

riência, às vezes como um sutil pano de tico em particular. Esse enfoque aproxima-
fundo.49 Entretanto, cria certo paradoxo -se das ideias de Ferro sobre o mesmo te-
quanto a esse caráter “universal” da iden- ma, quando refere que há uma história que
tificação projetiva, pois também a entende está sendo construída em conjunto e que
como uma forma específica de terceiridade se forma por “lembranças de experiências
analítica.50 Essa especificidade está no fato nunca antes acontecidas”.33
de que tanto o sujeito que projeta quanto o Por fim, cabe destacar a importân-
que recebe a identificação projetiva se trans- cia dada por Ogden ao funcionamento da
formam negando mutuamente suas­sub­ mente do analista durante a sessão. Ele su-
jetividades individuais, permitindo, desse gere que o sentido da experiência incons-
modo, serem “subjugados” por um terceiro ciente do terceiro analítico só pode ser
sujeito (o sujeito da identificação projetiva). captado de forma indireta, mediante uma
O resultado disso pode ser um colapso par- condição análoga ao estado de rêverie des-
cial do movimento dialético da subjetivida- crito por Bion. Essa condição requer uma
de e da intersubjetividade. O autor sugere valorização de todas as nuanças e detalhes
que, para ocorrer crescimento psicológi- dos eventos da hora analítica, incluindo aí
co, deve haver uma superação do terceiro os pensamentos mais mundanos do analis-
subju­ gador e o estabelecimento de uma ta, fantasias, sentimentos, ruminações, de-
dialética nova e mais geradora de unicida- vaneios, sensações corporais, os quais pare-
de e dualidade, similaridade e diferença, cem totalmente desconectados daquilo que
subje­tividade individual e intersubjetivida- o paciente está dizendo ou fazendo naquele
de. Um processo analítico bem-sucedido momento. Os pensamentos e os sentimen-
pressupõe essa superação e uma reapro- tos envolvidos na rêverie são geradores de
priação das subjetividades do analista e do metáforas que dão forma à dimensão in-
analisando como indivíduos separados, consciente da relação analítica.
ainda que interdependentes.49,50 A influência das ideias de Bion na
A maneira peculiar como Ogden en- atividade clínica de Ogden tem sido enfati-
foca o processo analítico, que tentei expor zada em seus últimos artigos.56,57 Sugere o
em linhas gerais, também traz consigo autor que a arte da psicanálise consiste em
implicações quanto à forma de perceber a gerar condições para que o paciente (com
questão da “história passada” do paciente a participação do analista) seja capaz de
na sessão analítica. As associações que bro- sonhar seus sonhos não sonhados e inter-
tam no diálogo não são escutadas como rompidos. Baseia-se no enfoque que Bion
uma via de recuperação de uma memória dá ao trabalho do sonho, considerando-o
recalcada, mas “como a criação de uma ex- como expressão de um processo contínuo,
periência que, até então, não existira sob tal que se desenvolve tanto quando estamos
forma”.49 Segundo ele, dormindo quanto quando estamos acorda-
dos, processo esse que dá forma à experiên-
[...] o analista não vivencia o passa- cia, tornando-a pensável. Se, por um lado,
do do analisando; vivencia sua pró-
pode parecer que o analista empresta sua
pria criação do passado do analisan-
do, gerada na sua vivência do tercei- mente (e, portanto, aquilo que compõe seu
ro analítico.50 mundo interno) para sonhar a experiên­cia
ainda não processada pela mente do pa-
O “passado”, portanto, surge como ciente, por outro, esse “novo sonho” não
uma construção inédita daquele par analí- pertence nem a um, nem a outro, e sim a
142 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

um terceiro sujeito, que tanto é quanto não existe “dentro” da mente do paciente,
é o paciente ou o analista. conceitualmente isolado da matriz so-
A leitura dos trabalhos de Ogden tor- cial da qual emerge.
na-se bastante viva pelos inúmeros exem-
plos clínicos que apresenta. Aí podemos Essa posição afasta-se da concepção de
observá-lo trabalhando com seus próprios um funcionamento mental mobilizado, em
conteúdos mentais e com o contexto in- essência, pela busca de descarga de pulsões
tersubjetivo. Todavia, ainda que proponha endogâmicas. Criticando o caráter meca-
uma mudança na forma de interpretar, por nicista desse último modelo, os intersubje-
meio do que denomina ação interpretativa, tivistas entendem a mente como predomi-
não se observa uma alteração substancial na nantemente relacional e comunicativa.
forma do diálogo analítico, como é o caso Nessa linha de pensamento, destaca-
de Antonino Ferro e as interpretações nar- -se Owen Renik, que propõe uma contun-
rativas. Em sua maioria, as intervenções de dente revisão de alguns fundamentos técni-
Ogden constroem-se sobre o caráter sim- cos da terapia psicanalítica. Ele reconhece
bólico da comunicação verbal e dirigem-se que o interesse pela contratransferência
à expressão mais imediata da transferência passou a ocupar um lugar de destaque para
do paciente no modo como se apresenta no a compreensão do processo psicanalítico.
aqui e agora da sessão. O consenso é o de que a tomada de cons­
As abordagens referidas até aqui to- ciência do próprio envolvimento emocio-
mam o conceito kleiniano de identificação nal habilita o terapeuta a evitar a indesejada
projetiva como o pressuposto metapsico- atuação contratransferencial, transforman­
lógico básico que alicerça o entendimen- do-a em fonte de conhecimento. Renik,
to dos fenômenos relacionais da situação no entanto, questiona esse postulado, afir-
terapêutica. Há, no entanto, autores que, mando que toda percepção da contratrans-
mesmo preservando uma postura clínica ferência é, necessariamente, precedida por
intersubjetivista, dispensam o uso daquele uma atuação da parte do analista. Sustenta
conceito quando argumentam a favor de essa ideia com base na afirmação de que
seu posicionamento clínico. Uma abran- toda forma de pensamento envolve algum
gente exposição crítica dessas teses foi feita tipo de atividade motora, mesmo que mui-
por Dunn,1 em um texto que se estrutura to atenuada. Assim, o terapeuta “atua” nas
como um frutífero debate entre as propos- mais tênues nuanças de sua forma de escu-
tas intersubjetivistas e o modelo clássico tar o paciente, de decidir se fala ou perma-
de observação psicanalítica. A ideia central nece calado, nas palavras que escolhe, no
do enfoque intersubjetivo sustenta-se, so- tom com que as pronuncia. Esses gestos são
bretudo, na impossibilidade de uma des- percebidos pelo paciente e agem sobre ele,
coberta da psicologia do paciente feita por mesmo antes que o terapeuta possa dar-se
um observador externo não viesado. As conta dessa “atuação”.62 Para esse autor, o
percepções do clínico estão sempre molda- conceito de neutralidade analítica nutre-se
das por sua irredutível subjetividade. Para de uma ilusão, ainda que proposto apenas
Dunn,1 como uma meta a ser perseguida, mas difí-
cil de ser alcançada:
[...] a posição intersubjetivista é de
que o fenômeno mental não pode Em vez de dizer que é difícil para um
ser suficientemente compreendido se analista manter uma posição na qual
abordado como uma entidade que sua atividade analítica esteja objeti-
Psicoterapia de orientação analítica 143

vamente focada na realidade interna neutralidade de parte do analista de forma


do paciente, eu diria que é impossível alguma favorece esse processo dialético de
para um analista estar nessa posição, aprendizagem.
mesmo que seja por um instante. Visto
As críticas de Renik ao conceito clás-
que estamos constantemente atuan­do
dentro da situação analítica na base de sico de neutralidade mostram-se pertinen-
motivações pessoais, das quais só po- tes quando advogam que é inviável para o
demos ter conhecimento após o fato, terapeuta despojar-se de suas motivações
nossa técnica, incluindo a escuta, é inconscientes ao ingressar na cena psico-
inescapavelmente subjetiva.62 (grifo terápica ou analítica. Afinal, é exatamente
do autor). sobre a importância dessas motivações na
composição do campo de tratamento que
Mas Renik não se detém aí, pois su- discorre este capítulo. No entanto, sua tese
gere que tentar buscar a neutralidade como sobre o processo dialético de ação terapêu-
um ideal técnico pode ser, até mesmo, con- tica (e, por consequência, sobre a inconve-
traproducente.63 Argumenta que um tera- niência da busca de uma atitude neutra)
peuta, ao pretender-se neutro e objetivo, pressupõe uma simetria na relação de tra-
desmente a influência que seus julgamen- tamento contrária aos fundamentos téc-
tos pessoais possam ter sobre suas formula- nicos de uma clínica com base no método
ções e intervenções. Agindo dessa maneira, psicanalítico.
favorece uma idealização transferencial, Ainda que o termo “neutralidade”
atribuindo-se um papel de autoridade que tenha sofrido um desgaste e se mostre ina-
compromete o respeito pela autonomia do propriado para definir a posição do tera-
paciente. peuta dentro do campo, há toda uma es-
A partir desses princípios, Renik de- trutura que denominamos setting, a qual dá
senvolve sua teoria sobre a ação terapêuti- à relação de tratamento uma singularidade
ca do método analítico. Em sua opinião, o que a diferencia de qualquer outro tipo
que o paciente espera do terapeuta é que ele de relação interpessoal. Nessa estrutura,
ofereça uma perspectiva diferente da sua. os ­lugares são assimetricamente definidos
Supostamente, deveria ser uma perspectiva pela escuta e pela associação livre. A meu
mais sensata, mas pode não ser assim: ver, o paciente não vem ao tratamento pa-
A competência do analista não se sus- ra encontrar uma posição alternativa com
tenta na premissa de que seu ponto a qual possa se confrontar dialeticamente;
de vista é mais válido do que o do pa- para isso, poderia contar com qualquer
ciente, mas sim no fato de que o ana- pessoa bem-intencionada de suas relações
lista pode prover uma perspectiva al- pes­soais.
ternativa, uma nova maneira de cons- Também não creio que ele esteja in-
truir a realidade, que pode ou não ser
utilizada pelo paciente, dependendo
teressado nas opiniões pessoais do seu te-
do mérito que ele atribui a ela.63 rapeuta, mesmo que, por vezes, de forma
explícita, manifeste esse interesse. O que ele
O processo terapêutico é, portanto, busca é um ambiente (ou continente) onde
um processo de interação dialética, no qual possa atualizar os conflitos penosos que o
analista e paciente descobrirão seu cami- atormentam, sem que sofra as repetitivas
nho nos encontros cruciais entre teses e an- consequências que esses conflitos promo-
títeses, por meio de um processo de nego- vem. É essa nova experiência emocional
ciação. Nesse sentido, Renik enfatiza que a que, transformada em algo pensável, pode-
144 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

rá constituir um verdadeiro aprendizado, alcance. Freud, certamente, não escapou


capaz de promover mudança psíquica. desse imperativo. Ao abandonar a ideia da
Ao expor sua visão sobre a dinâmica transferência como um fenômeno pontual,­
do processo terapêutico, Renik não se volta um mero desvio, ou “falsa ligação”, no flu-
para uma explicação dos aspectos metapsi- xo associativo do paciente, ele a coloca no
cológicos que fundamentam a possível mu- centro dos acontecimentos, definin­ do-a
dança psíquica. Enfatiza que o terapeuta só não apenas como poderoso auxiliar do tra­
pode tornar-se objetivo no momento em tamento, mas como elemento essencial de
que toma consciência da condição abso- convicção, pois nada poderia ser atingido
luta de sua subjetividade. Afirma que, “na in absentia ou in effigie. Assim fazendo,
análise, como em tudo na vida, as obser- Freud vê-se, mais uma vez, diante da pro-
vações da realidade são construtos forma- blemática da sugestão: se a transferência
dos em relação a interesses subjetivos es- está sempre presente, como delimitar a ver-
pecíficos”.64 Objetividade, portanto, é um dadeira ação terapêutica do efeito sugesti-
conceito pragmático, pois se refere tanto a vo que ela comporta? Para contrapor-se a
objetivos quanto a objetos, e a validade da esse incômodo questionamento, ele elabora
compreensão surgida no tratamento estará as conhecidas recomendações técnicas, que
totalmente baseada em sua eficácia tera- disciplinam, mas não resolvem o proble-
pêutica. Conclui que, tanto na psicanálise ma. Não sendo possível evitar a disposição
quanto no resto da ciência, verdadeiro é do paciente à sugestão, nutrida pela própria
aquilo que funciona. transferência, impunha-se que se tentasse
O contraponto a essa tese é que uma neutralizá-la do lado do analista. Como vi-
visão tão pragmática, carente de um subs- mos, essa imagem de um terapeuta isento,
trato metapsicológico que especifique a idealmente “purificado” por sua análise pes-
ação terapêutica das técnicas de base psi- soal, revelou-se ilusória na prática clínica.
canalítica, pode ser igualmente válida para A impossibilidade de banir a contra-
outras técnicas de tratamento, capazes tam- transferência da cena analítica a faz ser in-
bém de apresentar bons resultados, sobre- tegrada ao método, mas com a função res-
tudo se mantivermos a suposição de que a trita de balizador da transferência. Fala-se,
avaliação desses resultados só pode ser feita então, no “uso” que o terapeuta pode (ou
em bases essencialmente subjetivas. não) fazer de sua contratransferência para
melhor entender seu paciente. Reconhe-
cendo a possibilidade, no âmbito terapêu-
CONSIDERAÇÕES FINAIS tico, de uma comunicação de inconsciente
para inconsciente, não há dúvida de que a
O seguimento diacrônico de um concei- percepção sobre as próprias reações emo-
to busca delinear os acréscimos que cada cionais mune o terapeuta com um instru-
versão renovada propõe ao conhecimento mento mais agudo e profundo para a com-
do fenômeno observado. Aqui, temos co- preensão de seu paciente. Entretanto, não
mo objeto a situação analítica e diferentes pode ser omitido que esse “instrumento” é
formas de compreendê-la. Todavia, se a também o mais poluído com o que procede
abertura de novos ângulos de percepção de sua própria história pessoal.18
significou um avanço no processo, ela Como destacou Money-Kyrle,12 o al­
também trouxe consigo os limites de seu cance da percepção de um analista não
Psicoterapia de orientação analítica 145

ultrapassa os limites daquilo que ele com-


preendeu de si mesmo. Portanto, a pro- sua participação no campo, recuperando seus
posta de um uso “opcional” da contra- aspectos projetados, agora certamente modi-
transferência torna-se inexequível: como ficados pela análise da experiência bipessoal.
fazer uso de algo que se situa, em essência,
no âmbito da experiência inconsciente, se
esse uso é um atributo do sujeito mesmo Convém lembrar que, apesar de o
da experiên­cia? Sendo a contratransferên- modelo do campo relacional exposto ao
cia espontânea e inevitável, cabe, antes de longo deste capítulo ter sido construído a
tudo, tentar detectá-la em todos os deriva- partir da clínica psicanalítica, seus funda-
dos que estejam assinalando sua ocorrência mentos teóricos nos permitem concluir
e sujeitá-la à constante autoanálise que se que podemos utilizá-lo para a compreen-
impõe ao terapeuta no curso de sua tarefa. são dos fenômenos interpessoais presentes
Mesmo assim, resta sempre a questão: on- em qualquer outro tipo de técnica psicote-
de situar a fronteira entre aquilo que é uma rápica. Os princípios de funcionamento são
reação emocional induzida pelo paciente e os mesmos, e, portanto, seu conhecimento
as manifestações oriundas estritamente da torna-se indispensável, mesmo para quem
constelação psíquica do analista? O modelo atua no âmbito restrito da psicoterapia.
parece se esgotar em sua origem, na medi-
da em que transferência e contratransfe-
rência são conceituadas como fenômenos Cabe, ainda, mencionar que as diferentes abor-
individuais, ocorrendo no paciente e no dagens desse modelo são inequívocas em pre-
analista, respectiva e separadamente. Sua servar a necessária assimetria de funções na si-
tuação analítica, pois, afinal, como assevera Og-
ação recíproca será mais bem apreendida den, não se trata de um processo democrático de
com os ajustes ao modelo trazidos pela no- análise mútua. A manutenção da estabilidade do
ção de campo, ou, de forma mais genérica, setting dá à relação bipessoal a condição restrita
de intersubjetividade. de um tratamento. Ainda que ambos os partici-
pantes estejam comprometidos no processo com
o lastro de suas vidas emocionais, cabe apenas
a um deles associar livremente, enquanto ao ou-
Com a concepção de um campo relacional es- tro compete escutar, tentar integrar os elementos
truturado pelo jogo dialético das interferências vivenciados na sessão e, quando possível, trans-
recíprocas entre observador e observado, não formá-los em interpretação. Mesmo não sendo o
há mais como pensar as ocorrências da vida detentor de uma verdade irrefutável, é papel do
mental de paciente e analista de modo isolado. terapeuta presidir o processo, o qual será sempre
A ideia de uma tensão oscilatória constante en- dirigido à realidade psíquica do paciente.
tre as individualidades de cada um e a absor­
ção destas para dentro da intersubjetividade
relaxam a premência analítica de distinguir o A vivência intersubjetiva proporcio-
que é de um ou do outro. Amplia-se o ângulo na condições de crescimento mental ao
de observação, possibilitando ao terapeuta re-
conhecer os fatos clínicos psicanalíticos65 que próprio analista, mas, acima de tudo,
estão sendo construídos, simulta­neamente, por habi­li­ta-o a um contato emocional mais
ele e por seu paciente. É por meio desse reconhe- genuí­no, que, se refletido em uma lingua-
cimento que cada um poderá discriminar melhor gem exitosa, poderá promover a mudança
psíquica em seu paciente.
146 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

PONTOS-CHAVE DO CAPÍTULO

1. Questiona-se a possibilidade de uma observação de cunho psicanalítico caucionada pela soberana


objetividade do terapeuta-observador. Sua inerente subjetividade impõe-se no ato de observação,
estruturando-se um campo intersubjetivo dinâmico em que ambos os participantes não podem mais
ser compreendidos separadamente. O que quer que aconteça a um deles necessariamente produz efeito
sobre o outro.
2. As raízes desse entendimento encontram-se nas ideias de Freud sobre transferência e contratransfe-
rência. Esse autor sugere que, além das comunicações verbais manifestas entre o paciente e seu
terapeuta, pode ocorrer uma comunicação de inconsciente para inconsciente.
3. A introdução, por Melanie Klein, do conceito de identificação projetiva abre um novo e vasto campo de
investigação da cena analítica, voltando-se as atenções para o estudo da contratransferência.
4. Os trabalhos de Heimann e Racker apontam para o reconhecimento de que a situação de tratamento é
sempre um movimento de dois sentidos, ou seja, uma situação transferencial também corresponde a
determinado contexto contratransferencial. Portanto, é essencial que o terapeuta mantenha-se alerta
àquilo que pode, por algum momento, soar-lhe como estranho em sua reação afetiva ou conduta. Esse
estranho pode estar indicando um contexto acionado pela força das intensas fantasias do paciente,
mas que, em última instância, remete o terapeuta ao estranho dentro de si, seu próprio inconsciente.
5. A contribuição de Bion significou uma considerável mudança na maneira de entender a função do
analista dentro da sessão, pois concebe uma dimensão “funcional” da identificação projetiva como
meio para a comunicação de determinado estado mental.
6. Coube ao casal Madeleine e Willy Baranger, em 1961, formalizar o conceito de campo psicodinâmico,
descrevendo-o como “situa­ção de duas pessoas indefectivelmente ligadas e complementares enquanto
está durando a situação e envolucradas em um mesmo processo dinâmico. Nenhum membro dessa
dupla é inteligível, dentro da situação, sem o outro”.
7. Sugerem eles que o elemento central na constituição do campo é a estrutura dinâmica que subjaz ao
diálogo analítico; em outras palavras, a fantasia inconsciente do par. Esta se constrói sobre o interjogo
de identificações projetivas e introjetivas, com seu necessário corolário de contraidentificações.
8. Autores contemporâneos têm abordado os fenômenos de campo e intersubjetividade sob diferentes
vértices. Destacam-se, pela originalidade de suas contribuições, Antonino Ferro, Thomas Ogden e Owen
Renik.
a) Ferro lança mão de referenciais da narratologia, dispondo o material surgido na sessão como “per-
sonagens”
b) Ogden vale-se dos princípios da dialética hegeliana e sugere que as respectivas subjetividades de
paciente e analista são potencialmente geradoras de um terceiro sujeito, o “terceiro-analítico inter-
subjetivo”
c) Renik questiona o conceito de neutralidade analítica e entende a situação terapêutica como um
processo de interação dialética, no qual analista e paciente descobrirão seu caminho nos encontros
cruciais entre teses e antíteses, mediante um processo de negociação
9. Conclui-se que a concepção de um campo relacional estruturado pelo jogo dialético das interferências
recíprocas entre observador e observado amplia o ângulo de observação, possibilitando ao terapeuta
reconhecer os fatos clínicos que estão sendo construídos, de forma simultânea, por ele e por seu
paciente.
10. Por fim, cabe destacar que as diferentes abordagens desse modelo são inequívocas em preservar a
necessária assimetria de funções dentro da situação de tratamento.
Psicoterapia de orientação analítica 147

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Psicoterapia de orientação analítica 149

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8
MODELOS PSICANALÍTICOS
DA MENTE
José Carlos Calich

Não é fácil lidar cientificamente com sentimentos.


(Freud, 1930)

A psicoterapia de orientação psicanalítica Questões institucionais, de mercado


baseia-se nos conhecimentos da psicaná- de trabalho e pressões culturais concorrem
lise, e dela deriva seu corpo teórico. Este, para o problema. Seu estudo abrangente
contudo, não é único e integrado, não ha- envolve questões epistemológicas, relações
vendo uma só visão ou posição “da psica- com outras áreas do conhecimento e sua
nálise”. Sua aplicação à teoria da psicote- contextualização na própria história da
rapia de orientação psicanalítica torna-se, teo­ria psicanalítica.
principalmente para o iniciante, complexa O objetivo deste capítulo é introduzir
e, por vezes, desconexa. O contato com a o tema dos modelos teóricos, sua origem,
realidade teórica põe em evidência uma di- seu significado no contexto psicanalítico
versidade de abordagens, algumas aparen- e os principais modelos da mente no mo-
temente antagônicas, outras de integração mento atual do conhecimento, em uma
difícil, com diferentes níveis de abstração, tentativa de auxiliar o leitor a situar-se no
conceituações conflitantes, linguagens dis- complexo universo teórico da psicanálise e
tintas e uma tendência a haver defensores e da psicoterapia de orientação psicanalítica.
detratores de cada uma das vertentes com a As definições aqui utilizadas e as questões
mesma “paixão”. abordadas, além de serem resultado de
uma síntese pessoal, foram simplificadas
com o objetivo de clareza e espaço e com
fins didáticos. Não é objetivo do capítulo
o estudo das chamadas “escolas” de pensa-
A origem dessa multiplicidade de teorias e difi-
culdades em sua integração está ligada, prin-
mento psicanalítico, sendo estas apresenta-
cipalmente, aos problemas de teorização sobre das apenas com a finalidade de exemplifi-
seu objeto de estudo, o inconsciente, devido às cação de sua estrutura. Ao leitor interessa-
suas características de complexidade, imate- do no aprofundamento e desdobramento
rialidade e subjetividade. das questões tangenciadas, recomenda-se a
consulta às referências bibliográficas.
Psicoterapia de orientação analítica 151

O QUE É UM MODELO?
Quando suporta a incerteza, pode imaginar, ar-
ticular, usar sua intuição, começando o conta-
Uma ciência, em última instância,
to com o desconhecido. Constrói, então, um es-
permanece ou sucumbe enquanto é
quema mental, concebendo imaginariamente
uma técnica válida para a descoberta,
aquilo que está observando, suas propriedades
e não em virtude do “conhecimento”
e relações; com algum tipo de experimentação
ganho. O conhecimento sempre está
(do “teste da realidade” ao método científico),
sujeito a ser substituído; de fato, o cri-
avalia a adequação e a utilidade de seu mode-
tério pelo qual se julga a vitalidade de
lo, ampliando-o ou substituindo-o.
um assunto é a substituição de desco-
bertas por novas descobertas.1

Quanto maior o número de situações


imaginadas que podem ser explicadas, elu-
Modelo pode ser definido, para as finalidades cidadas, interpretadas ou previstas (possi-
deste capítulo, como um esquema que o ser hu- bilidades de generalização, valores explica-
mano constrói, inicialmente de modo involuntá- tivos e preditivos) pelo modelo construído,
rio em sua mente e, em seguida, compartilha- mais ele persiste como referência àquelas
do com os demais, para tentar compreender a si
próprio e o mundo a sua volta. Por meio desses
situações e a novos modelos (diz-se que
esquemas, imagina a estrutura ou o comporta- tem maior valor heurístico).
mento dos fenômenos que observa e que lhe são A articulação coerente de modelos
desconhecidos.1-4 de elevado valor heurístico constitui uma
teoria sobre um domínio específico do
conhecimento. Essa é, de forma sintética,
a hipótese predominante nos dias atuais
A construção de um modelo parte da
para a construção do conhecimento, tanto
intuição e é baseada em premissas. Estas úl-
individual como na área das ciências, em
timas são elementos básicos que podem ter
programas de investigação científica (com
origens culturais, mitológicas, da observa-
a utilização do método científico,2,3,7-9
ção de fenômenos repetitivos ou de outras
principalmente de experimentos controla-
fontes internas e que são aceitas, mesmo
dos, de validação e de falsea­bilidade) ou do
inconscientemente, como verdadeiras.
saber em geral (validado ou refutado por
Todo modelo tem um princípio orga-
meio de métodos próprios a sua área de
nizador interno que une e articula esses ele-
abrangência e conhecimento).10,11
mentos básicos. Sua construção depende de
curiosidade, uma característica desenvolvida
pelo ser humano ao longo de sua evolução.5,6
O ser humano olha o mundo e a si próprio Em síntese, é possível afirmar que o processo
com a curiosidade necessária para imaginar de aquisição do conhecimento inicia-se pela in-
tuição a respeito de um fenômeno observado na
“para que cada elemento serve”, “o que tem
realidade a nossa volta ou em nossa realidade
dentro”, “como é feito”, “o que se pode fazer interior, passa pelo estabelecimento de concei-
com isso”. Para exercer essa capacidade, deve tos, evoluindo para o levantamento de hipóte-
suportar saber que não conhece. Se não su- ses ou conjeturas sobre as relações entre esses
porta, diz de várias formas “não me interes- conceitos e formando um modelo. O conjunto de
sa”, “para que saber isso?” ou “isso é igual ao modelos articulados constitui uma teoria.
que já conheço”, jogando fora a curiosidade. 
152 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

Com base nessa definição, o modelo observações sobre vulcões, terremotos e so-
é intermediário entre uma intuição e uma bre a relação da Terra com o Sol e outros
teoria e, necessariamente, provisório. Isso planetas (novas variáveis-premissas, expe-
decorre do fato de que as intuições iniciais rimentação, verificação), os esquemas não
nem sempre são as mais adequadas e, mes- tiveram mais a mesma serventia. Alguém
mo quando consolidadas pela experimen- percebeu que deveriam existir curvaturas, e
tação, podem não ser as mais abrangentes, imaginou-se (nova intuição) que o Sol e os
ainda que satisfaçam condições parciais, planetas giravam em torno da Terra (salto
momentâneas ou circunstanciais. teórico, novo modelo).
Conhecimento após conhecimento,
esquema após esquema, modelo após mo-
A passagem de um modelo para outro depen-
delo, chegamos a uma esfera achatada nos
de da “disponibilidade” de premissas (novas polos, parte de um sistema solar, que, por
variá­veis, conhecimento acumulado, mitos ou sua vez, é parte de uma galáxia (teoria).
“visibilidade” cultural) e de uma mente capaz Persistem, contudo, inúmeras indagações,
de rearranjar os dados em novas combinações incertezas e “verdades” provisórias. Ain-
e articulações, de ter uma nova intuição. O co- da que, como modelo, a noção de “plano”
nhecimento, portanto, não evolui de forma acu- pudesse ser “útil” para distâncias mui-
mulativa linear, mas aos saltos.3
to pequenas, como explicação do campo
gravitacional, dos abalos sísmicos ou dos
sistemas solares, os pilares, os elefantes, as
Alguns modelos conhecidos sobre o tartarugas e as serpentes tiveram seu poder
sistema solar podem ser ilustrativos. Em preditivo e explicativo muitíssimo redu-
tempos milenares, os egípcios imagina- zido (o modelo foi se revelando de baixo
vam que a Terra fosse plana, apoiada sobre valor heurístico).
imensos pilares. Os hindus acreditavam A persistência das questões de como a
também em um plano, porém apoiado em Terra se sustenta no ar, como mantém a re-
enormes elefantes, que, por sua vez, fica- lação fixa com o Sol, com outros planetas e
riam sobre o casco de uma tartaruga gi- estrelas levou a novas investigações, imagi-
gantesca, a qual estaria sobre uma serpente nações (novos saltos teóricos), novos mo-
descomunal. Qualquer movimento desses delos. Conhecimentos foram se somando.
animais provocaria terremotos, e, quem No momento em que a humanidade estava
chegasse ao fim do plano, cairia. Enquanto culturalmente preparada (“visibilidade”
os barcos não iam longe, e não havia como cultural), surgiram as hipóteses sobre a for-
perceber as inúmeras implicações dessas ça da gravidade e a órbita da Terra em tor-
teorias, imaginava-se o “desconhecido” ar- no do Sol, extremamente úteis para nossos
ticulando-se “algo conhecido” (premissas, avanços tecnológicos. A primeira hipótese
elementos básicos) e conjeturando relações foi considerada incompleta no momento
(intuição). em que novas especulações e variáveis leva-
De forma provisória, esses esquemas ram à concepção da teoria da relatividade,
ou modelos tiveram sua utilidade. No mo- a qual também começa a ser considerada
mento em que os barcos foram mais longe, incompleta, e assim seguimos.
desaparecendo e voltando do horizonte, A conclusão é no sentido de que,
ao mesmo tempo em que se fizeram novas temporariamente úteis, nossos modelos,
Psicoterapia de orientação analítica 153

em todas as áreas do conhecimento, estão da “escola” em que estão inseridos, modi-


sempre em avaliação, sendo aprimorados, ficam seu modelo de modo substancial (a
completados ou substituídos. Para com- evolução de Klein para Bion, por exemplo).
preender determinado modelo e sua ar- Outros, por sua vez, oriundos de uma fon-
ticulação, é necessário entender qual seu te comum, criam modelos que rompem de
princípio organizador, sua abrangência, os forma radical com aqueles que lhes deram
limites de sua proposição e especificidades origem (psicologia do self em relação à psi-
de sua utilização. cologia do ego e Winnicott em relação a
Melanie Klein).

O QUE SÃO MODELOS


PSICANALÍTICOS DA MENTE?
Eventualmente, um mesmo pensador utiliza di-
ferentes modelos para tentar compreender os
De acordo com as definições anteriores, fenômenos mentais. Diversos estudiosos iden-
tificam, por exemplo, pelo menos três modelos
da mente no pensamento freudiano15,16 e pelo
menos dois em Melanie Klein.17
um modelo da mente é a forma como se imagi- Cada modelo, portanto, tem seu próprio
na que existe, se constitui, se organiza e exer- princípio organizador, sua própria episteme. É
ce suas funções, aquilo que é específico e es- oriundo de saltos teóricos, rupturas maiores ou
sencialmente humano, a mente. Em função de menores em relação aos modelos dos quais se
seus princípios organizadores, existem diversos originou. Utiliza-se, de modo velado ou explíci-
modelos da mente: psicológicos, filosóficos, so- to, de pensamentos não psicanalíticos que in-
ciológicos, antropológicos, entre outros. Quan- fluenciaram a cultura na qual seus fundadores
do um conjunto de formulações inclui a consi- estavam imersos (zeitgeist). É, em geral, fru-
deração de que a atividade mental é baseada to de necessidades geradas na própria clínica,
no papel central de um inconsciente dinâmico, decorrentes da insuficiência dos modelos ante-
estamos diante de um modelo psicanalítico da riores em dar conta de determinados fenôme-
mente.13,14 nos psíquicos, patológicos ou não, com conse-
quências na técnica psicanalítica e psicoterá-
pica.18,19
Ainda que modelos psicanalíticos
possam ser confundidos com “escolas”,
não estão, no contexto aqui referido, co- Em geral, depois de lançado um novo
locados como sinônimos. Modelo psica- elemento organizador, sua inevitável con-
nalítico da mente refere-se à estrutura do frontação e a discussão com os modelos
pensamento, a seus princípios organizado- de pensamento psicanalítico já existentes
res. “Escola”, por estar ligada à afiliação, fazem as duas teorias, antiga e nova, se de-
pode representar um conjunto de técnicas, senvolverem e se aprimorarem. Encontram
um agrupamento geográfico, político ou seguidores, comunicadores proselitistas e
até histórico. “Escolas” diferentes podem detratores, contribuindo para o crescimen-
ter princípios organizadores muito próxi- to do pensamento psicanalítico em geral.
mos (p. ex., Winnicott e Kohut). Alguns Trazem, contudo, fragmentação teórica e
pensadores, sem promover uma ruptura institucional (esta última não somente por
definitiva com os conceitos fundamentais esses motivos).18
154 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

O MODELO FREUDIANO os conceitos perdem sua especificidade, e a


teoria enfraquece.
O progresso no trabalho científico é o
mesmo que se dá numa análise.­Tra-
zemos para o trabalho as nossas es- Freud concebeu o inconsciente dinâmico partin-
peranças, mas estas necessariamente do de uma intuição ante uma necessidade clí-
devem ser contidas. Mediante a ob- nica. Apoiou-se em premissas que tinha a seu
servação, ora num ponto, ora nou- dispor: o contexto cultural e científico do fim do
tro, encontramos alguma coisa nova; século XIX, conhecimentos sobre a mente (não
mas, no início, as peças não se com- linearmente acumulados e que tinham “visibili-
pletam. Fazemos conjeturas, formu- dade” cultural naquele momento da história da
lamos hipóteses, as quais retiramos humanidade) e sobre sua pessoa, por meio da
quando não se confirmam, necessita- autoanálise. O conjunto foi reorganizado em um
mos de muita paciência e vivacidade modelo teórico coerente, consistente, de eleva-
em qualquer eventualidade, renuncia- do valor heurístico e tornado público por sua
mos às convicções precoces, de modo obra.*,21,22
a não sermos levados a negligenciar
fatores inesperados, e, no final, todo o
nosso dispêndio de esforços é recom-
pensado, os achados dispersos se en- A necessidade clínica referida era,
caixam mutuamente, obtemos uma de forma bem específica, o atendimento
compreensão interna (insight) de toda de pacientes histéricos por Freud, inicial­
uma parte dos eventos mentais, temos mente junto a Charcot, na Salpetriêre, em
completado o nosso trabalho e, então, Paris, e depois com Meynert e Breuer, em
estamos livres para o próximo traba-
lho.20
Viena.

É comum a afirmação de que todos


os modelos psicanalíticos da mente partem O ambiente cultural da Áustria, o contexto ilu-
de Freud e com ele dialogam. A autoridade minista pós-Revolução Industrial e a Revolu-
conferida pela consistência de seu método ção Francesa, aliados aos conhecimentos psi-
de investigação, sua condição de fundador quiátricos, neurofisiológicos, filosóficos, literá-
e guardião dos limites da disciplina, aliadas rios, sociológicos, antropológicos e artísticos,
contribuíram para que Freud identificasse fe-
a sua permanente tentativa de ampliar e
nômenos mentais que iam além dos perceptí-
melhor adequar seus modelos, a sua capa- veis pela consciência. Ele criou um modelo de
cidade de ir em busca do “novo” e aos mais funcionamento para a mente humana baseado
de 45 anos de escritos freudianos, funda- nesses novos conhecimentos, bem como a pos-
mentam a premissa. É necessário destacar, sibilidade de um método que permitisse suas
porém, que a tentativa de integração entre mudanças.
os vários modelos psicanalíticos existentes
só é possível mediante um diálogo entre as
teorias – somente com a teoria freudiana, * As ideias abordadas sobre o modelo freudiano da
mas com todos os modelos de elevado valor mente, nesta seção, e sobre os modelos de Klein e
heurístico. Dependendo das bases em que Bion, a seguir, correspondem a uma versão adap-
se dá esse diálogo, as teorias se aprimoram tada daquelas já expostas na Revista de Psiquiatria
do RS,21 baseadas, principalmente, nas contribuições
e se fortalecem. Quando o diálogo é autori-
de D. Meltzer,22-24 E. Spillius,25,26 H. Segal,27-28 R.
tário, há uma tendência à confrontação e à Steiner,29-31 J. M. Petot,17,32 E. Bianchedi33 e Elias
ruptura; quando excessivamente tolerante, Rocha Barros.34
Psicoterapia de orientação analítica 155

Nesse momento, as explanações fi- manter sua genial e abrangente teoria com
siológicas começavam a tomar vulto em um eixo principal. Ao mesmo tempo em
vários campos da ciência, em geral, e da que esse referencial lhe deu uma enorme
medicina, em particular, incluindo a neu- quantidade de instrumentos úteis, propi-
rofisiologia. Nesse cenário, influencia- ciando inúmeras descobertas e formula-
do por métodos empírico-dedutivos que ções, também impôs limitações. Os concei-
iriam, no início do século XX, culminar no tos básicos estão expostos no Projeto para
positivismo lógico, Freud procurou cons- uma psicologia científica35 e mantiveram-se
truir uma ciência explanatória que pudes- como espinha dorsal do modelo freudiano
se provar seus achados, encontrando seus da mente. Freud entendia a vida mental
fatores e agentes causais, organizados em como ligada ao corpo e às suas necessida-
forma de leis e princípios gerais. Olhava o des e, dessa forma, ocupada em encontrar
cérebro e a mente como fenomenologica- meios de gratificar essas necessidades sem
mente idênticos e estava preocupado com confrontar-se diretamente com o ambiente
o modelo neurofisiológico, a hidrostase, a (este visto como externo ou interno).
termodinâmica e o conceito darwiniano de
evolução da mente.
A enfermidade mental, em um primeiro momen-
to, era concebida como resultante de inibições
Esse conjunto determinou o modelo de incons- especificamente da vida sexual; depois, por ou-
ciente construído por Freud, estabelecendo a tra visão mais estrutural, era entendida no sen-
centralidade dos conceitos de pulsão (formu- tido de um conflito entre pulsão e defesa. Em
lação teórica para tentar expressar a transfor- um terceiro momento, também pôde ser vista
mação de estímulos em elementos psíquicos) e como um conflito de índole ética e moral entre
repressão. Decorrem dessa formulação noções ego e superego, amor e ódio.
como investimento, representação, resistência,
defesas, fases do desenvolvimento da libido, a
teoria inicial sobre a ansiedade, a transferên-
cia como revivência de uma memória passada, Apesar da concepção de um “supere-
a realidade psíquica, entre outras. go” e da descrição dos mecanismos de in-
ternalização, principalmente o de identifi-
cação, Freud não chegou a uma concepção
A concepção de realidade psíquica de “mundo interno”; embora nomeado em
foi fundamental à investigação freudiana, sua obra, este não toma corpo como uma
possibilitando encontrar um significado e realidade, não encontrando um local den-
um lugar na história de vida do sujeito para tro do modelo básico.
a etiologia dos sintomas e a formação do
caráter.
Chamo a atenção para o fato de que
esse modelo não é aplicável a todas as ideias No modelo freudiano, os sonhos são atividades
de Freud, mas é o que predomina em seu mentais de descarga que garantem o processo
neurofisiológico do dormir e a emocionalidade;
pensamento; é a ele que Freud retorna após
não são o centro da vida mental, mas assumem
novas formulações (que se afastam desse um papel indicador de um funcionamento men-
modelo), como sobre luto e melancolia, tal, como poderiam fazer a fala ou os movimen-
sobre o problema econômico do maso- tos musculares voluntários.
quismo ou sobre o narcisismo, procurando
156 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

foi alterando seu modelo inicial da mente,


O narcisismo é visto sob vários ângulos, ampliando sua abrangência.
mas destaca-se como uma teoria sobre a na-
tureza da libido e sua vinculação com o corpo.
Desse modo, a transferência, devido ao modelo
hidrostático, neurofisiológico, é vista como uma ESQUEMA DOS MODELOS E
“repetição do passado”, e o pensamento neu- ESTRUTURA DAS TEORIAS
rótico, como aquele que “sofre com suas lem-
branças”; em outras palavras, é atormentado
PSICANALÍTICAS DE FREUD*
por experiências dolorosas não assimiladas.
Primeiro modelo
Como compara Meltzer,22 esse é um Refere-se ao modelo do trauma (afeto-
modelo cirúrgico, no qual a ansiedade e -trauma). Sem início preciso, dura até
o conflito são como corpos estranhos na 1897. Freud centra esse modelo na memó-
mente, causando constante irritação. O ria do trauma real (principalmente aquele
processo analítico é visto como uma recu- resultante de experiências de abuso [sedu-
peração de lembranças passadas que são ção] sexual na infância), utilizando um re-
mais bem revividas no “calor da transfe- ferencial neurodinâmico.
rência”, ou seja, na repetição, com o médi- As forças inconscientes inibidas (de-
co, daqueles conflitos do passado causado- saprovadas pelo ambiente) que levavam ao
res de angústia. sintoma eram compreendidas como afetos
Portanto, o interesse inicial de Freud ou emoções que haviam sido estimulados
pelos casos de histeria delineou seu modelo por experiências traumáticas reais. O sin-
psicanalítico, partindo dos fenômenos de toma surgia quando uma quantidade de
repressão dos afetos, das vivências “trau- energia afetiva era grande demais (trauma
máticas” e das manifestações somáticas. E, real) para ser assimilada pela consciência
nesse contexto, foi satisfatório, tendo ele- (igualada ao ego). Era, então, forçada para
vada capacidade de responder a questões fora dela (reprimida) e tinha que encontrar
relativas às neuroses em geral e a diversos um meio de expressão indireta. As memó-
aspectos do funcionamento mental e do rias associadas a essas emoções tornavam-
comportamento humano individual e em -se, nos pacientes neuróticos, inaceitáveis
grupos. para seus padrões normais de moralidade
Como já abordado, e semelhante ao e condutas e não podiam ser descarrega-
que ocorre em outras disciplinas e na ciên- das de forma normal (adequação social e
cia em geral, a evolução do conhecimento autoes­tima).
psicanalítico não se deu de forma homogê- O tratamento baseava-se na ideia de
nea, contínua ou linearmente acumulativa. que tais emoções podiam ser “liberadas” pe-
Ela foi resultado de necessidades clínicas la recuperação da emoção com a memória
diversas, eventualmente circunstanciais, associada à consciência, sendo o afeto libe-
vinculadas à evolução (também não homo- rado por meio da ab-reação (catarse), com a
gênea) do conhecimento em outras áreas consequente assimilação do conteúdo men-
do saber e aos contextos culturais em que
sofreu transformações. Desse modo, à me-
dida que surgiam novas necessidades clíni- * Esse esquema é baseado nos estudos de Sandler
cas e novos movimentos culturais, Freud e Wallerstein,16 Greenberg e Mitchell15 e Meltzer.23
Psicoterapia de orientação analítica 157

tal rejeitado pela consciência. Freud desta- ciente”, por meio da análise da resistência/
cou a importância do desenvolvimento se- transferência, da interpretação dos sonhos,
xual na etiologia das neuroses e do trauma. dos atos sintomáticos e da associação livre.

Segundo modelo Terceiro modelo


O modelo contém a noção de sistemas psi- O modelo estrutural (id, ego e superego)
cológicos relacionados espacialmente: o inicia-se em 1923. Freud centra esse mo-
modelo topográfico (consciente, pré-cons- delo no conflito entre as estruturas, o qual
ciente e inconsciente). Inicia-se em 1897, compreende três níveis: conflito biológico,
prosseguindo até 1923. Freud centra esse intrapsíquico e real. No entanto, todos são
modelo no conflito entre pulsão e censura, tratados em termos de suas representações
utilizando como referencial a dinâmica in- psíquicas.
trapsíquica, uma luta interna. Esse conflito Fatores determinantes na mudança
se torna o fator causal da neurose e de toda do modelo são a introdução dos conceitos
a dinâmica psíquica. Fatores determinan- de narcisismo (com as noções de ideal de
tes na mudança do modelo envolveram a ego e superego) e o interesse de Freud pelos
autoanálise de Freud, que conduziu à teo- problemas ligados à agressão (estimulados
ria da interpretação dos sonhos, em 1990, pela violência da Primeira Guerra Mun-
a experiência clínica e a improbabilidade dial): masoquismo e depressão melancóli-
de que todos os casos de histeria estives- ca. Esses conceitos conduzem a uma nova
sem ligados a um abuso real. O abandono relação do indivíduo (sujeito) com outros
da ideia do trauma real como causa colo- indivíduos (objetos), e sua articulação não
cou em destaque a existência de fantasias, encontra lugar no modelo topográfico.
oriundas das experiências de satisfação da O modelo estrutural, criado então
pulsão e de suas vicissitudes. por Freud para substituir o topográfico,
A pulsão, buscando sua descarga por leva a uma nova teoria da ansiedade (Ini-
meio da consciência, torna-se uma ameaça bições, sintomas e ansiedade)36 e a um apro-
à integridade do eu (ego). A atitude pro- fundamento no entendimento das defesas
tetora (defensiva) da repressão, ao agir so- do ego, com o surgimento da “psicologia
bre a pulsão ameaçadora, leva a uma nova do ego”. As implicações técnicas do mode-
expressão (retorno do material reprimido), lo incluem preocupações sobre como o ego
em uma época posterior, sob a forma de se adapta aos diferentes níveis de conflito e
sintoma, parapraxia (atos falhos), sonho a análise dos mecanismos de defesa (Qua-
(identificado como resultado de fantasias dro 8.1).
de realização de desejos que buscam a su-
perfície) ou atividade artística criativa.
Conceitos centrais à teoria psicanalí- ALGUMAS EVOLUÇÕES
tica, como repressão, conflito, compulsão PÓS-FREUDIANAS
à repetição, projeção, complexo de Édipo,
ansiedade de castração, vida sexual infan-
til e seu desenvolvimento, são partes desse O que ocorreu com Freud também se pas-
modelo. As implicações técnicas do mo- sou com outros pensadores psicanalíticos,
delo levam a “fazer consciente o incons- que, pressionados por realidades clínicas
158 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

QUADRO 8.1

MODELOS E ESTRUTURA DAS TEORIAS PSICANALÍTICAS DE FREUD

Primeiro modelo Segundo modelo Terceiro modelo

Período, na obra Impreciso – 1897 1897-1923 1923-1939


de Freud
Denominação Teoria do trauma Modelo topográfico Modelo estrutural
(afeto-trauma)
Organizadores Memória de um abuso Inconsciente, pré-cons- Id, ego e superego
sexual na infância ciente, consciente (isso, eu, super-eu)
Conflito Memória com afeto Conflito interno entre a Conflito entre as estruturas,
excedente era inaceitável expressão da pulsão e a entendidas por meio de suas
para os padrões morais e instância de censura. representações psíquicas.
as condutas do paciente.
Sintoma Energia afetiva era grande A atitude protetora A angústia sentida pelo ego
demais (trauma real) para (defensiva) da repressão, é o sinal de desprazer que
ser assimilada pela ao agir sobre a pulsão leva o ego a se colocar em
consciência (igualada ao ameaçadora, leva a uma posição de defesa, desenca­
ego). Era, então, forçada nova expressão (retorno deando a repressão e a
para fora dela (reprimida) do material reprimido) formação de sintomas. O
e tinha que encontrar um em uma época posterior, sintoma é, simultaneamente,
meio de expressão sob a forma de sintoma, representante do reprimido
indireta. parapraxia (atos falhos), diante do ego e “território
sonho (identificado como estrangeiro” para o ego;37
resultado de fantasias de produz, também, por via
realização de desejos que indireta de satisfação
buscam a superfície) ou pulsional, uma satisfação
atividade artística substitutiva, deformada e
criativa. irreconhecível, sentida
paradoxalmente como
sofrimento e geradora de
desprazer e nova angústia.
Modelo de Recuperação da emoção “Fazer consciente o Como o ego se adapta aos
tratamento com a memória associada inconsciente”, por meio diferentes níveis de conflito e a
à consciência, sendo o da análise da resistên- análise dos mecanismos de
afeto liberado por meio da cia/transferência, da defesa.
ab-reação (catarse), com interpretação dos sonhos,
a consequente assimila- dos atos sintomáticos e
ção do conteúdo mental da associação livre.
rejeitado pela consciência.
Psicoterapia de orientação analítica 159

diversas, e estando envolvidos em outros tivistas, inter-relacional, interpessoal, inte-


contextos culturais e científicos, identifica- racional, construtivista social e uma nova
ram novas nuanças nos fenômenos obser- escola de relações de objeto (ver adiante).
vados, transformando o modelo freudiano Partindo do estudo da paranoia e
de mente. do atendimento de psicóticos, e também
A identificação, nos consultórios, de como uma reação às mudanças de mode-
pacientes deprimidos, psicóticos, frontei- lo propostas pela psicologia do ego, surge
riços, portadores de transtornos de caráter o modelo de Lacan, que se propõe a uma
ou de falhas profundas na organização do “releitura” do modelo freudiano, influen-
narcisismo deu origem ao questionamento ciado, entre outros, pelo pensamento es-
do modelo pulsional. Diante da dificulda- truturalista de Lévi-Strauss, pelos estudos
de em trabalhar com as novas organizações linguísticos de Saussure e pelo enfoque fi-
patológicas, os psicanalistas dividiram-se: losófico de Hegel e Heidegger.38
houve os que procuraram aperfeiçoar o A partir dos estudos freudianos sobre
modelo vigente e os que propuseram ino- a ansiedade e sobre os processos de luto e
vações teóricas que equivaliam a um novo identificação e das necessidades clínicas ge-
modelo.38 Alguns romperam com os con- radas pelo atendimento de crianças, tendo
ceitos nucleares, afastando-se da própria sido influenciada pela dialética hegeliana,42
psicanálise. Por partirem de contextos Melanie Klein desenvolveu seu trabalho
bastante diversos e de intuições diferentes, (ver a seguir). Das insuficiên­cias teóricas
os modelos de mente criados, ainda que de seu modelo surgiram os estudos de D.
mantendo os conceitos centrais, passaram Winnicott (influenciado pelo pensamento
a lidar com fenômenos a partir de diferen- de Heidegger, Merleau-Ponty e Husserl43 e
tes olhares e linguagens, promovendo o que de W. R. Bion (ver a seguir).
tem sido chamado, com fre­quência, na lite-
ratura de “babel psicanalítica”.18,19,39
Tomando como base os ângulos en- UM EXEMPLO DETALHADO
focados por Freud em suas descobertas, de- DE MUDANÇAS DE
senvolveram-se modelos teóricos e, a partir MODELO: A PASSAGEM
deles, as chamadas “escolas” psicanalíticas.
Assim, para citar alguns exemplos, a ênfase DE FREUD PARA MELANIE
no modelo estrutural e na análise do ego KLEIN E DESTA PARA BION
e de suas defesas, pressionada pela cultu-
ra pragmática anglo-saxã, principalmente Klein modificou a forma freudiana de pen-
americana, foi a base da chamada “escola sar a mente humana, de um modelo expla-
da psicologia do ego”, de cujas insuficiên- natório, causal, para um modelo descritivo,
cias teóricas originou-se um novo modelo, fenomenológico. Isso equivale a dizer que,
o da “psicologia do self” (H. Kohut). Des- ao observar os fenômenos da imaginação,
te, por sua vez, influenciadas também por infinitos em suas possibilidades, distan-
estudos recentes sobre teoria da comunica- ciou-se de um modelo finito de distribui-
ção, teoria dos sistemas sociais, cibernética, ção de energias mentais. Em função dessa
teoria determinista do caos e da complexi- abordagem, ampliou a descrição feita por
dade,40,41 derivaram as escolas intersubje- Freud sobre a divisão da mente, dando-
160 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

-lhe um papel central. Concluiu que não mais vistos como se estivessem “sofrendo
vivemos em um mundo, mas em dois, o da de lembranças”, mas “vivendo no passado”
realidade externa, dos objetos externos e ou em um “outro plano de funcionamento
de suas relações, e um mundo interno, tão mental”. O processo analítico centra-se na
real quanto o primeiro, com seus objetos localização e na interpretação da ansiedade
internos e suas vívidas interações. Nas pa- emergente em cada sessão, em uma tenta-
lavras de Meltzer,22 isso deu um significado tiva de tornar conhecido o mundo interno,
inteiramente novo ao conceito de fantasia, reduzindo as dissociações e projeções, de
de modo que a fantasia inconsciente pas- modo a poder alcançar e ultrapassar a posi-
sa a ser vista como uma “transação”, uma ção depressiva, com o luto pelos objetos e a
“trama” realmente ocorrendo no mundo consequente integração destes.
interno, e aos sonhos, que começam a ser
vistos como quadros pictóricos dessa vida
paralela, “a vida onírica”, que ocorre per- Ao fim de sua teorização, Klein cunhou o concei-
manentemente durante o sono ou a vigília. to de identificação projetiva, que alterou parte
Assim, o conceito freudiano de su- de seu modelo mental e foi ponto de partida de
perego pôde ser expandido e transforma- seus colaboradores e seguidores, tendo-se di-
do no conceito de objetos internos, a rea- fundido a praticamente todos os demais mode-
lidade psíquica pôde ser tratada, de uma los psicanalíticos. A partir dessa noção, a men-
te não fica mais restrita a dois mundos, mas a
forma concreta, como “um lugar onde tantos quantos os processos de divisão e iden-
ocorrem ‘transações’ e onde estão sendo tificação projetiva gerarem, cada qual com seu
dados (ou gerados) os significados que se- funcionamento independente.
rão atribuí­dos ao mundo externo”.22 Em
outras palavras, o mundo externo passa a
ser vivenciado a partir dos significados que A compreensão desse fenômeno pro-
lhe são atribuídos pelo mundo interno. O duziu novas possibilidades de interação
narcisismo (apesar de não explicitado na com o mundo externo e a participação do
obra de Klein) evolui para um conceito “outro” na vida mental, com inúmeros
mais interacional, ligado a configurações desdobramentos posteriores, tais como a
emocionais, em que a mente oscila entre as influência da contratransferência no pro-
relações objetais e o retraimento narcísico. cesso analítico. Este último conceito e suas
Essas configurações emocionais, descritas implicações técnicas foram desenvolvidos
por ela como posições, representam uma por contribuições posteriores às de Klein.
outra consequência da alteração do modelo Wilfred Bion, partindo de uma for-
de mente privilegiado por essa autora. mação kleiniana, foi influenciado pela cul-
Nesse modelo, as emoções ocupam tura indiana, em que nasceu, por sua vivên-
um papel central, e a mente é entendida cia no exército, pelo pensamento de Hume,
como lidando com significados e valores. Wittgenstein, Mach e Kant, pelos mate­
A transferência passa a ser considerada máticos Poincaré e Frege, pelos escritores
não mais uma lembrança do passado, mas Milton e Keats, pelos físicos Heisenberg e
a externalização do presente imediato do Einstein.44 Suas necessidades clínicas pro-
mundo interno; como tal, é vista como rea­ vieram do atendimento de grupos e de pa-
lidade psíquica. As interpretações deixam cientes psicóticos. Ele elaborou um novo
de ter o sentido do “como se” para se trans- modelo de desenvolvimento, baseado em
formarem no “é”, e os pacientes não são outra concepção da mente.
Psicoterapia de orientação analítica 161

Descreveu o desenvolvimento da mente como a Bion agrupar as emoções básicas (amor, L;


um processo complexo, estruturado passo a ódio, H; e desejo de conhecer, K) e seus opos-
passo, que não pode ser comparado com as for- tos (-L, -H, -K). Essa formulação fornece a base
mas biológicas de crescimento. De acordo com para que, posteriormente, haja um desloca-
ele, a mente se desenvolve autonomamente; mento do conflito básico considerado por Freud
ela “se constrói”, aproveitando experiências. entre o amor e o ódio para a “emoção e a opo-
Isso altera a concepção kleiniana da relação sição à emoção”.
do bebê com o seio (alvo de divisões, idealiza-
ções e projeções) e considera a relação do bebê
com a mãe o grande modulador da dor psíqui-
ca, que permite ao bebê prosseguir em seu de- Tal ideia converge para um conceito
senvolvimento. central na perspectiva dos chamados klei-
Bion assumiu a visão de que a mãe deve nianos atuais, que é o de “ataque ao víncu-
realizar funções mentais para o bebê, que este lo emocional”, “ataque ao pensamento e ao
pode apreender por um processo de internali- conhecimento”. As ideias de Bion ampliam
zação e, principalmente, por a mãe estar dis- o conhecimento sobre o narcisismo, a divi-
ponível para servir como um modelo pensante,
são e a identificação projetiva, a existência
organizador, a ser introjetado. O centro desse
modelo é a ideia de que a mãe realiza a fun- de partes psicóticas da personalidade e –
ção de pensar pelo bebê, devolvendo a este o central para a técnica psicanalítica atual – a
que ele lhe “jogou” como ansiedade incompre- participação ativa da contratransferência
ensível, sob forma de partes perturbadas proje- na construção do processo analítico.
tadas; isso permite que o bebê desenvolva a di- O desenvolvimento dos conceitos
ferença entre consciente e inconsciente, entre contidos em cada um dos modelos traz al-
pensar e sonhar.45 terações à teoria da técnica e, portanto, à
prática da psicanálise e da psicoterapia de
orientação psicanalítica. No modelo bio-
A tolerância à frustração e a conse- niano, utilizado como exemplo, grande
quente possibilidade de desenvolver o “pri- parte da compreensão da transferência e,
meiro pensamento” com a experiência da portanto, do mundo interno do analisando
ausência da mãe são também elementos passa a ser resultado da percepção e do en-
cruciais na compreensão desse modelo. O tendimento de como o paciente mobiliza o
estudo dessas funções levou à descrição de mundo interno do terapeuta nas sessões e
um modelo da mente que privilegia a ex­ de como este age sobre aquele, permitindo
periência emocional e a coloca como o cen- um acesso a formas mais sutis de manifes-
tro do significado: para que a mente cresça tação dos complexos mecanismos primiti-
e se desenvolva, a experiência emocional vos de funcionamento da vida mental:
das relações íntimas deve ser pensada,
compreendida e transformada em signifi- Deixou-se de acreditar que uma in-
cado.42,46 terpretação, por mais correta que seja,
produza em si mesma uma mudança
imediata, assim como se tornou parte
essencial de nossa técnica a busca de
Assim, as emoções passam a ser os “elos bá- contato emocional com o paciente, o
sicos” que permitem a integração do self. Essa que só é possível ser identificado se le-
ênfase em uma teoria do pensamento, baseada varmos em conta o funcionamento do
em uma teoria das relações de objeto, permitiu psiquismo como um todo. Na sessão,
isso implica termos nossa atenção vol-
162 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

tada para as mudanças mínimas que com certas características das teorias. Isso
ocorrem na transferência e na contra- leva a um investimento em algumas ma-
transferência antes e após interpretar- neiras de pensar e trabalhar, independen-
mos.47
temente das capacidades explicativas ou da
abrangência de determinados modelos.
A função da interpretação passa a ser
Estão sintetizadas a seguir, apenas à
a de integrar, por meio do movimento de
guisa de exemplificação, três das principais
significação da experiência emocional, as-
tensões contemporâneas entre diferentes
pectos dissociados, excindidos da perso-
modelos psicanalíticos da mente.
nalidade por identificação projetiva, per-
mitindo um fortalecimento do ego e uma
maior capacidade de construir novos sig-
nificados, o que possibilita a expansão da Pulsão versus
mente. A noção de um movimento contí- relações com o objeto
nuo de rupturas em partes (fragmentação)
e construções do todo (integração), expres- O seio “bom” que amamenta e inicia
so por PSD (movimento contínuo entre as a relação amorosa com a mãe é o re-
posições esquizoparanoide e depressiva), presentante do instinto de vida, sendo
leva, conforme o modelo bioniano, à con- também sentido como a primeira ma-
nifestação da criatividade.48
sideração técnica de um analista paciente-
mente aguardando (mentalmente, não sem A libido não busca o prazer, busca seu
atividade), em um estado semifragmenta- objeto.49
do, até que a realidade emocional da sessão
assuma seu lugar e produza significado. Há duas maneiras principais, no pen-
samento psicanalítico, de compreender a
natureza da experiência humana. A primei-
ra define as pulsões e suas interações como
TRÊS EXEMPLOS DE estando na origem dessa experiência, e a se-
TENSÃO ENTRE MODELOS gunda coloca os outros seres humanos (os
“objetos”, por contraposição a si mesmo,
Conforme já destacado, novas necessida- ao “sujeito”) como sua fonte originária. Al-
des clínicas e intuições promoveram for- guns autores15,38,50,51 consideram que essa
mas originais de pensar a mente humana. diferença corresponde aos dois paradigmas
Sua natureza imaterial, complexa e subje- (princípios organizadores) fundamentais
tiva torna muito difícil o estabelecimento da psicanálise e sua principal fonte de ten-
de critérios objetivos de refutabilidade e de são teórica. As demais tensões e os diferen-
especificidade dos modelos (a possibilida- tes modelos criados seriam, por essa visão,
de de verificação de que um modelo é mais desdobramentos dessa primeira.
útil ou mais específico para determinada Eventualmente, o modelo pulsional é
situação clínica). Novas e antigas teorias chamado de modelo da pulsão-estrutura,15
convivem, portanto, e permanecem em pelo tipo de organização “estrutural” que a
tensão. pulsão promove. A expressão é contraposta
Se, por um lado, isso conduz ao diálo- a relação-estrutura, correspondendo ao ti-
go e ao crescimento do conhecimento, por po de organização “estrutural” promovida
outro, pode provocar rupturas, principal- pelas relações de objeto. Segundo Green-
mente pela identificação pessoal ou grupal berg e Mitchell,15
Psicoterapia de orientação analítica 163

[...] a investigação de Freud colocou-o nado, ao contrário do objeto de um ins-


frente ao que considerou as “profun- tinto, que é fixo e herdado. O da pulsão é
dezas” da experiência humana, locali- variável e substituível.52 De certo modo, ele
zando tanto a motivação para o mo-
é constituído, construído por meio das ex-
vimento psíquico como a energia que
possibilitava toda atividade mental na periências de satisfação e não satisfação da
figura da pulsão. pulsão, vividas pela criança nos primeiros
anos de vida.35
O conceito de pulsão foi concebido, Os mencionados estudos sobre o nar-
como já mencionado, conforme uma for- cisismo, sobre os processos de luto e sobre
mulação teórica, uma abstração, para pro- a psicologia de grupo promoveram uma
curar expressar a transformação de estí- evolução do conceito em direção ao obje-
mulos biológicos em elementos psíquicos. to da identificação (identificação primária,
Freud buscou construir toda a teoria psi- constituição do sujeito) ou da introjeção
canalítica em torno desse conceito. Portan- (objeto interno), formador do ideal de ego
to, as motivações últimas, nesse modelo, e, posteriormente, do superego.53 Essas
seriam oriundas das necessidades geradas novas constatações levaram Freud a modi-
pelo corpo. ficar seu modelo topográfico, procurando
manter a centralidade da pulsão no novo
modelo estrutural, como referido.
Como decorrência da teoria pulsional, a repres-
são (como mecanismo básico de “regulagem”
da pulsão) assume um papel nuclear na pró- As já aludidas novas necessidades clínicas, vi-
pria constituição do inconsciente. Noções con- vidas em novos contextos culturais e científi-
sequentes, como investimento, representação, cos, permitiram intuições que deslocaram a
resistência, defesa, transferência como memó- pulsão de sua centralidade. Inverteram o centro
ria passada, a teoria inicial sobre a ansiedade da motivação, colocando na relação com o ob-
e as fases do desenvolvimento da libido, foram jeto a origem dos espaços mentais, da emocio-
concebidas com base nesse princípio organiza- nalidade, da subjetividade, do pensamento, en-
dor para dar conta das várias nuanças do de- fim, de todas as transformações necessárias à
senvolvimento humano, de sua patologia e de experiência humana.
seu método de tratamento.

A noção de objeto em psicanálise é


A inequívoca importância dos outros imprecisa. Além de proposta em um ele-
seres humanos na constituição da mente vado nível de abstração (como em “objeto
do indivíduo fez o próprio Freud, duran- interno”), há, em razão de sua natureza e
te seus estudos sobre o narcisismo, o luto função em cada modelo, uma penum-
e a psicologia de grupo, complementar seu bra em seu significado, que evolui de um
conceito de “objeto”. “objeto da percepção” a uma estrutura en-
A noção de objeto havia sido introdu- dopsíquica com vitalidade e status de uma
zida muitos anos antes, inicialmente como “quase pessoa”.51 Há excelentes revisões a
objeto da percepção e, depois, como objeto respeito, por exemplo, em Baranger,51 San-
da pulsão (por meio do qual é possível que dler e Sandler54 e Hinshelwood.55
a pulsão atinja sua finalidade, o prazer).35 Os pioneiros dessas modificações fo-
Uma característica importante desse objeto ram R. Fairbairn, Melanie Klein e J.O. Wis-
é a de não ser organicamente predetermi- dom, de modo independente na Inglaterra,
164 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

H.S. Sullivan, nos Estados Unidos, e J. La-


can, na França. Cada um com modelos de mas a do comportamento da mente como siste-
dimensões, abrangências e princípios orga- ma. De um lado, a mente é vista como unitária,
nizadores distintos, com implicações para individual, influenciada somente de modo se-
cundário por outras mentes, um sistema fecha-
a teoria da técnica. W.R. Bion, D. Winni-
do. De outro, é considerada parte de um conjun-
cott, D. Meltzer, E. Jakobson, H. Kohut, M. to, em permanente troca com as outras men-
Mahler, O. Kernberg, R.D. Storrolow, S. tes, com espaços compartilhados, um sistema
Mitchell, J. Laplanche, A. Green, J.B. Pon- aberto.
talis, P. Castoriadis-Aulagnier, D. Anzieu e
R. Kaës são alguns dos principais seguido-
res desses pioneiros, cada um com proposi- Os termos “aberto” e “fechado” servem
ções de novos modelos ou com importan- fa­cilmente a preconceitos, havendo a ten-
tes evoluções dos anteriores, também com dência a associar “aberto” a progressista e
implicações para a teoria da técnica. Mais “fechado” a conservador, retrógrado, adqui-
recentemente, na América do Sul, Berens- rindo uma apreciação moral, alheia ao espí-
tein e Puget,56 partindo da experiência com rito necessário à compreensão dos modelos.
famílias, casais, instituições e grupos, e fun- Os estudos iniciais de Freud, já abor-
damentados na centralidade das relações dados, conceberam a mente humana como
de objeto, propuseram um novo modelo, a uma unidade individual, como um sistema
teoria vincular. fechado que se constituía a partir de fon-
tes biológicas internas e que se relacionava
com outros sistemas (outros indivíduos),
Modelos intrapsíquicos os quais tinham apenas um papel secundá-
e intersubjetivos rio em sua constituição e manutenção.

Outra importante fonte de tensão teórica é


o confronto entre os modelos intrapsíqui-
cos e os intersubjetivos, também expresso No extremo intrapsíquico do espectro formado
por esses modelos, o foco de atenção é o que
como tensões entre a one-person psycholo-
ocorre com a mente de uma pessoa considera-
gy e a two-person psychology,57-59 ou, ain- da isoladamente. Os processos são originados
da, tensões contidas nas discussões sobre o de modo integral dentro de sua própria men-
predomínio do sujeito ou do grupo/cultura te e, em última instância, voltados a ela mes-
no estabelecimento de estados mentais e do ma. Nesse modelo, a transferência parte exclu-
mundo interno propriamente dito. Ainda sivamente do paciente, de seu passado, e é vi-
que cada uma dessas formulações englobe vida no presente com a figura do psicanalista/
psicoterapeuta apenas como seu representan-
diferentes nuanças e contextos da teoria e
te. Este último, dentro desse modelo, constrói
da técnica, estarão aqui reunidas em torno o setting na abstinência e na neutralidade e
de seu modelo comum por questões de es- formula interpretações a partir de sua própria
quematização e espaço. mente, também isolada. Nesse polo, a contra-
transferência é vista como um obstáculo à ob-
jetividade da escuta psicanalítica.
Colocadas como um desdobramento da relação
do indivíduo com os outros, a questão não é so-
mente a da origem da mente e sua motivação, A partir dos novos modelos que defi-
niram o objeto como central à experiência,
Psicoterapia de orientação analítica 165

diferentes relações e influências do objeto tificações projetivas, adesivas, transgeracio-


foram conjeturadas. No cenário clínico, nais, do falso self e da alienação do sujeito
uma das decorrências iniciais dessa evolu- toma vulto.
ção foram os estudos sobre a identificação Na técnica, a fantasia do campo (uni-
projetiva e a contratransferência e sua in- dade entre a autorreferência e a referência
trodução como instrumento de auxílio à externa) forma uma nova unidade, exi­
escuta e à interpretação. Em outras áreas gindo do terapeuta um novo olhar, um
do conhecimento, as considerações sobre olhar de segunda ordem, de um segundo
o papel do observador como modificador tempo, por estar na condição de observa-
daquilo que é observado passaram a influir dor inserido em um sistema. Essas novas
no cenário das ciências e das próprias teo- condições do modelo levam a uma nova
rias sobre o conhecimento. Essa conjunção dimensão da observação, que deve incluir a
de movimentos promoveu o deslocamento incerteza em suas implicações teóricas.
do eixo para uma visão voltada para a in- A visão intersubjetivista “radical” con-
tersubjetividade. sidera que o sujeito individual se constitui e
se define no espaço coletivo, intersubjetivo,
e que os aspectos individuais são existentes,
Formulada de forma sintética, a evolução des- porém incognoscíveis, tendo visibilidadde
sas investigações levou à concepção de que, apenas no campo intersubjetivo.
com os limites do corpo e da biologia, a cons-
tituição da mente depende da interação com o
mundo exterior e com as qualidades “reais” do
O valor dessa alteração de perspectiva para a
objeto (principalmente as qualidades incons-
teoria da técnica psicanalítica e psicoterápi-
cientes). O sujeito individual se constitui e se
ca é muito significativo, dando à pessoa real
define no espaço individual e também no cole-
do terapeuta importância definitiva. Algumas
tivo, no contato com os outros. Ao se auto-orga-
alterações técnicas nela apoiadas envolvem
nizar, a mente está em processo de constan-
a revelação da contratransferência (ou, nes-
te ­intercâmbio com o meio, tornando a reali-
sas condições, da transferência do analista) e
dade psíquica uma função da interação entre
de situações pessoais do terapeuta na tenta-
seus componentes, nos contextos social, cultu-
tiva de construção da interpretação conjunta
ral, familiar e interpessoal, sendo mais do que
(“cointerpretação”) de significados produzidos
a soma de partes. Nesse modelo, a existência
pela nova unidade interacional paciente-tera-
de espaços psíquicos comuns e partilhados
peuta (“cocriação”) à medida que a relação te-
com outros deve ser considerada, e o indivíduo,
rapêutica acontece.63-67
pensado como um sistema aberto de indivídu-
os inter-relacionados em constante mutação e
reorganização.
Pelo fato de a mudança ser relati-
vamente recente, de o espectro das novas
A tensão entre o indivíduo e o grupo, possibilidades ser amplo e de o momento
o narcisismo e o social-ismo1 é permanen- institucional assim favorecer, ocorreram
te. O modelo é influenciado pelas teorias agrupamentos variados, com distintas de­
deterministas do caos e da complexidade, nominações, bem como diferenças de in-
pela teoria da comunicação, pela teoria dos terpretação da nova teoria, principalmen-
sistemas sociais e pela cibernética. Passam te nos Estados Unidos, correspondendo
a ser considerados os fenômenos de campo à psicanálise intersubjetivista, à inter-re-
e intersubjetividade.60-63 O papel das iden- lacional, à interpessoal, à interacional, à
166 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

construtivista social e à nova escola ameri- colocou o conflito psíquico na origem dos
cana de relações de objeto (não confundir sintomas neuróticos em geral, da formação
com a escola inglesa de relações de objeto, do caráter e, finalmente, de toda a ativida-
cujos precursores são Fairbairn* e Melanie de psíquica. A atividade mental, o psiquis-
Klein). Algumas críticas a essa tese “irre- mo e a própria mente passam a ser vistos
mediavelmente” intersubjetiva ou à subje- como uma “formação de compromisso”,
tividade irremediável do analista65 são no um resultado da interação de necessidades,
sentido de que se perderia a especificidade exigências internas, pressões ou forças an-
dos conceitos de personalidade, caráter e tagônicas.
inconsciente, além de questões epistemoló- Em função daquilo que é considerado
gicas e de coerência conceitual.68,69 originário do modelo, vários são os níveis
de antagonismo que podem constituir o
conflito: prazer e desprazer, desejo e sua
Conflito versus déficit repressão, instintos sexuais e de sobrevi-
vência, pulsão e defesa; pulsão de vida e
Vemos a mente humana, por sua pró- pulsão de morte, conflito intersistêmico
pria natureza, compelida a manobrar (entre as instâncias ego e id, ego e supere-
constantemente entre duas forças ba-
go), pensamentos (ideias) e partes do self,
sicamente opostas, das quais se deri-
vam todas as emoções, sensações, de- emoção e oposição à emoção, significação
sejos e atividades. A mente jamais e retirada da significação, tradução e não
poderá escapar ao conflito e jamais tradução. Pelo que já foi exposto, é possível
poderá ser estática; deve evoluir sem- concluir que os modelos de Freud, Mela-
pre, estar sempre em marcha, de um nie Klein e Bion e seus desenvolvimentos
modo ou de outro, e empregar sem- posteriores, os assim chamados “grupo de
pre seus dispositivos mediadores para kleinianos atuais”, “neofreudianos” fran-
estabelecer um equilíbrio entre os
seus impulsos antitéticos. É o resulta-
ceses (pensamentos de Green, Laplanche,
do bem-sucedido de tais dispositivos Botella), bem como a teoria da psicologia
e recursos que gera os estados de har- do ego, para citar alguns exemplos, são ba-
monia e unicidade, estados esses que seados em algum tipo de conflito psíquico,
são ameaçados por fatores endógenos que dá origem ao aparelho mental e às suas
e exógenos. E, como os instintos são disfunções.
inatos, temos de concluir que existe
uma certa forma de conflito desde o
princípio da vida.70
Como princípio organizador, o conflito pressu-
põe um certo grau de diferenciação estrutural
A noção de conflito psíquico foi in- entre self e objeto.72 Para haver um conflito, é
troduzida por Freud71 desde seus primei- necessário que, mesmo no funcionamento ini-
ros escritos psicanalíticos, em 1894, na bus- cial mais primitivo, haja atividade mental para
ca de uma explicação causal, uma etiologia constituir-se a oposição. Nesse modelo, o déficit
psíquica, para os sintomas histéricos. O de- poderia ser uma sensação, uma ilusão, resulta-
senvolvimento do pensamento freudiano do de uma defesa (identificação projetiva ma-
ciça, cisão ou forclusão, por exemplo) ou de um
ataque ao próprio self, aos vínculos que consti-
* Fairbairn écitado por muitos estudiosos dessas tuem a própria mente, para livrar-se da angús-
novas tendências como precursor do pensamento tia, como na teoria de Bion.73
intersubjetivista e inter-relacional.
Psicoterapia de orientação analítica 167

OS MODELOS NA PRÁTICA
O modelo do déficit parte do princípio or-
ganizador de que, não havendo estímulo (exter- CLÍNICA (NA SESSÃO)
no) adequado, uma cadeia de desenvolvimento
deixa de existir, em que partes ou toda a men- Ao nos propormos a utilizar uma técnica
te podem parar de se desenvolver. Em concor- de orientação psicanalítica, oferecemos ao
dância com esse princípio, há maior passivida- paciente um modelo de escuta particular,
de do indivíduo, menor diferenciação entre as no qual, independentemente da eventual
estruturas e entre self e objeto, podendo, mes-
“escola” de afiliação, aquilo que é trazido
mo, permanecerem em indiferenciação. Por
exemplo, na criança, a manutenção da ideali- de forma verbal ou não verbal para a sessão
zação do selfobjeto,74,75 por falta de empatia será recebido pelo psicanalista/psicotera-
do cuidador com seu processo maturacional, o peuta e transformado em sua mente à luz
que impede o desenvolvimento do self. O autor de seu próprio modelo psicanalítico inter-
compara isso à falta de oxigênio para a crian- nalizado, sua teoria implícita privada.76
ça respirar. Esse modelo internalizado dependerá
da interação entre a formação do psicanalis-
ta/psicoterapeuta (seus supervisores, profes-
O modelo do déficit implica uma falta sores, leituras) e o contato com seu próprio
real. A deficiência de algo essencial resulta mundo interno, ligado, portanto, direta-
em uma incapacidade de desenvolver toda mente a sua personalidade, às suas vivências
uma cadeia de funções da personalidade; e ao seu próprio tratamento psicanalítico.
em seu lugar, estabelece-se um vazio, um
déficit. Este somente será preenchido por
outros aspectos da personalidade que não
deveriam estar naquela cadeia de desenvol- Quando surgem eventuais deficiências des-
se modelo pessoal do psicanalista/psicotera-
vimento. Trata-se de uma sobreadaptação,
peuta, por falha na formação, na internaliza-
um falso-self. É o modelo predominante ção, ou porque o modelo teórico é insuficiente
em Winnicott e Kohut (e, de certo modo, para aquele específico aspecto da compreensão
em Lacan). do mundo interno do paciente, a lacuna tenderá
A diferenciação entre esses dois cami- a ser preenchida pelo modelo de funcionamen-
nhos do psiquismo tem como consequên- to mental (não necessariamente psicanalítico),
cia uma distinta compreensão do material que ocorrerá de forma espontânea ao psicana-
lista/psicoterapeuta.59
do paciente nas sessões e uma diferente
teoria da técnica para atingir mudança ou
desenvolvimento psíquico. A técnica que se
origina da compreensão da mente baseada É importante sublinhar que, mesmo
no conflito será a da interpretação do con- sem percebermos, todos construímos, de
flito. A técnica derivada do reconhecimen- forma espontânea, modelos do funciona-
to de uma falha, de um déficit de desenvol- mento mental e, dependendo de nossas
vimento, será a de “reconstituição” do de- vivências ou de nossas possibilidades emo-
senvolvimento interrompido, por meio de cionais – que geram nossa maneira de ver
uma ação do analista (p. ex., manutenção a mente – e do grau de contato com nosso
da idealização do analista, que, por uma próprio inconsciente, tangenciamos mode-
adequada proporção de frustrações e grati- los psicanalíticos.
ficações, permite o desenvolvimento de um Essa “teoria implícita” poderá dar ori-
self independente). gem a uma intervenção do psicanalista/psi-
168 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

coterapeuta que estará ou não adequada ao dades clínicas atuais e da disponibilidade


modelo de mudança psíquica objeti­vado. de novos elementos e paradigmas do co-
Tal movimento repete a história da nhecimento maior.
criação de modelos em psicanálise, abor- Seu objeto de estudo, pelas carac-
dada anteriormente. Depende de uma série terísticas já expostas, tem dimensões não
de fatores o destino dessa “teoria implíci- conhecidas, sendo “infinitamente aberto,
ta”. Alguns deles são o grau de investimen- mas acessível na proporção do rigor da sua
to narcísico na nova “teoria” pelo psicana- metodologia”. Seu campo de verificação,
lista/psicoterapeuta, sua disponibilidade seu laboratório, reside no atendimento
em recorrer a supervisão ou ir em busca do de milhares de pacientes por profissionais
que já foi descrito sobre aquele aspecto. com treinamento adequado, podendo sua
teoria ser “confirmada” ou “refutada” pe-
las duplas paciente-terapeuta, o que a faz se
desenvolver ou ser substituída.10
Em contraponto, dependendo da tolerância ao
novo, da capacidade para intuição, do alcan-
ce da nova abstração, do talento para integrar
essas intuições e da disponibilidade de tornar Seus modelos são sempre parciais, corres-
pública suas conjeturas, existirá a possibili- pondendo a reducionismos de uma totalida-
dade de elas serem discutidas e avaliadas por de inapreensível. Por terem essas característi-
outros, vindo a contribuir ou não com o corpo cas, tendem a não estar em complementarida-
teó­rico geral. de, uma vez que seus princípios organizadores
promovem dimensões diferentes de observação,
e não apenas vértices diferentes de uma mes-
ma dimensão. Os fenômenos clínicos observa-
dos por um podem não ter nenhuma correspon-
CONSIDERAÇÕES FINAIS dência no modelo de outro.

Se, de fato, o objeto se constrói com o


método, conforme o princípio episte- Por exemplo, fundamental ao pensa-
mológico de Bachelard, a construção
mento winnicottiano e à sua compreensão
do saber do inconsciente não pode ser
dissociada das condições de sua ela- da experiência emocional e da patologia, o
boração. Por aí, o campo do conhe- espaço transicional não encontra lugar na
cimento psicanalítico se mostra con- teoria freudiana ou kleiniana.
gruente com as características de seu Por essa pluridimensionalidade, é
objeto próprio: ele é infinitamente provável que nunca haja uma teoria inte-
aberto, mas acessível na proporção do grada ou única, ainda que os modelos pos-
rigor da sua metodologia.77
sam ser progressivamente mais abrangen-
tes e com valores heurísticos maiores.
Diante do exposto, é possível afirmar
que a teoria psicanalítica é viva, dinâmica,
está em permanente avaliação e atualiza-
ção. Seu contato com a cultura e com a Alguns modelos provavelmente são mais ade-
ciência é expresso na abundância de novas quados a determinados fenômenos clínicos,­
teorias consistentes, provenientes de reali-
Psicoterapia de orientação analítica 169

tividade ou suas sucessoras para calcular


porém, é improvável que possamos transitar o tempo que um automóvel levará para
por mais do que um ou dois deles sem cairmos percorrer 10 km a 60 km/h. Os conceitos
na intelectualização, na superficialidade ou na derivados do modelo da física newtoniana
incongruência.
são suficientes. Não poderíamos pensar
o mesmo em relação à psicoterapia? Essa
investigação não poderia auxiliar no de-
Como já assinalado, identificamo-nos senvolvimento de instrumentos técnicos
com o modelo. Para evoluirmos, teremos específicos necessários? E também no ti-
que mudar um “paradigma” interno. Po- po de formação e treinamento que deverá
de ser que não consigamos fazer isso com ter o profissional qualificado a exercê-la?
muita frequência. É possível que, por esse meio, estejamos
E, em relação à psicoterapia de orien- qualificando nosso instrumento, man-
tação psicanalítica, seria possível identifi- tendo nosso contato com o inconsciente
carmos um ou vários modelos psicanalíti- e com o humano, com suas qualidades e
cos da mente que refletem a ação psicote- limitações, em vez de nos limitarmos à
rápica? Essa pergunta se inspira nas ideias busca de regras e de outros argumentos de
expostas nas seções anteriores, de que autoridade, tão distantes do conhecimen-
todos os modelos abarcam uma versão to frutífero e da real necessidade daqueles
reduzida de um fenômeno de dimensões que nos procuram.
maiores e de que cada modelo, em função Nos últimos anos, o grupo de Peter
de sua “visibilidade” do psiquismo e de Fonagy, em Londres, e o The Boston Chan-
sua dinâmica própria, implica um tipo de ge Process Study Group (BCPSG) propuse-
mudança psíquica e uma teoria da técnica ram modelos de compreensão de alguns fe-
para atingi-la. nômenos psíquicos e modelos promotores
Qual o movimento psíquico esperado de possível mudança psíquica, com grande
ao longo de uma psicoterapia de orientação aceitação na comunidade psicoterápica e
psicanalítica? Não haverá um modelo psi- psicanalítica. Entendo que, de forma mais
canalítico da mente implícito na busca des- ou menos explícita, propõem modelos
se movimento? Não se trata de um retorno que se enquadram nessa possibilidade de
à ideia do ouro da psicanálise versus o cobre construção de um modelo de base psicana-
da psicoterapia de orientação psicanalítica. lítica da mente para o trabalho psicoterá-
Assim como nos modelos psicanalíticos pico. Seria imprudente e inadequado, em
apresentados, não se trata de um modelo um espaço tão restrito quanto o fim deste
de “ouro” e outro de “cobre”. Ao contrá- capítulo, tentar comentar, avaliar ou criti-
rio, valorizar a psicoterapia de orientação car suas abrangências, resultados ou limi-
psicanalítica poderá significar a utiliza- tações. Entretanto, creio que, por motivos
ção do rigor metodológico para explicitar a meu ver complexos e equivocados, têm
a abrangência e os limites de seu modelo, sido considerados modelos psicanalíticos
suas­incongruências e insuficiências, coe- abrangentes da mente e suficientes para
rentes com os movimentos esperados. substituir os modelos expostos neste capí-
Utilizando uma comparação teme- tulo, de elevada coerência, complexidade e
rária: não é preciso usar a teoria da rela- valor heurístico.
170 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

PONTOS-CHAVE DO CAPÍTULO

1. O ser humano compreende a si próprio e o mundo por meio da construção de esquemas ou modelos
inicialmente involuntários e individuais. Depois, é possível terem sua complexidade aumentada e
podem ou não ser compartilhados com os demais.
2. Para se construir um modelo, são necessárias curiosidade e capacidade de suportar a angústia vincu-
lada à incerteza, podendo, assim, aproximar-se do desconhecido. Constrói-se, então, um esquema
mental, um modelo, concebendo-se imaginariamente aquilo que está observando, suas propriedades e
relações; com algum tipo de experimentação (do “teste da realidade” ao método científico), avalia-se a
adequação e a utilidade do modelo, ampliando-o ou substituindo-o.
3. Um modelo é intermediário entre uma intuição e uma teoria e, necessariamente, provisório.
4. Essa é a hipótese predominante nos dias atuais para a construção do conhecimento, tanto individual
como na área das ciências, em programas de investigação científica (com a utilização do método
científico, principalmente de experimentos controlados, de validação e de falseabilidade) ou do saber em
geral (validado ou refutado por meio de métodos próprios a sua área de abrangência e conhecimento).
5. Um modelo da mente é a forma como se imagina que existe, se constitui, se organiza e exerce suas
funções aquilo que é específico e essencialmente humano, a mente. Em função de seus princípios
organizadores, existem diversos modelos da mente: psicológicos, filosóficos, sociológicos, antropológi-
cos, entre outros. Quando um conjunto de formulações inclui a consideração de que a atividade mental
é baseada no papel central de um inconsciente dinâmico, estamos diante de um modelo psicanalítico
da mente.
6. Cada modelo da mente tem seu próprio princípio organizador, sua própria episteme. É oriundo de saltos
teóricos, rupturas maiores ou menores em relação aos modelos dos quais se originou. Utiliza-se, de
modo velado ou explícito, de pensamentos não psicanalíticos que influenciaram a cultura na qual seus
fundadores estavam imersos (zeitgeist). É, em geral, fruto de necessidades geradas na própria clínica,
decorrentes da insuficiência dos modelos anteriores em dar conta de determinados fenômenos psíqui-
cos, patológicos ou não, com consequências na técnica psicanalítica e psicoterápica.18,19
7. Freud procurou construir uma ciência explanatória que pudesse provar seus achados, encontrando seus
fatores e agentes causais, organizados em forma de leis e princípios gerais. Percebia o cérebro e a
mente como fenomenologicamente idênticos e estava preocupado com o modelo neurofisiológico, a
hidrostase, a termodinâmica e o conceito darwiniano de evolução da mente.
8. Esse conjunto determinou o modelo de inconsciente construído por Freud, estabelecendo a centralidade
dos conceitos de pulsão (formulação teórica para tentar expressar a transformação de estímulos em
elementos psíquicos) e repressão. Decorrem dessa formulação noções como investimento, representa-
ção, resistência, defesas, fases do desenvolvimento da libido, a teoria inicial sobre a ansiedade, a
transferência como revivência de uma memória passada e a realidade psíquica.
9. A enfermidade mental, em um primeiro momento, era concebida como resultante de inibições especifi-
camente da vida sexual; depois, por outra visão mais estrutural, era entendida no sentido de um con-
flito entre pulsão e defesa. Em um terceiro momento, também pôde ser vista como um conflito de índole
ética e moral entre ego e superego, amor e ódio.
10. No modelo freudiano, os sonhos são atividades mentais de descarga que garantem o processo neurofi-
siológico do dormir e a emocionalidade; não são o centro da vida mental, mas assumem um papel
indicador de um funcionamento mental, como poderiam fazer a fala ou os movimentos musculares
voluntários. O narcisismo é visto sob vários ângulos, mas destaca-se como uma teoria sobre a natureza
da libido e sua vinculação com o corpo. Desse modo, a transferência, devido ao modelo hidrostático,
neurofisiológico, é vista como uma “repetição do passado”, e o pensamento neurótico, como aquele que
Psicoterapia de orientação analítica 171

“sofre com suas lembranças”; em outras palavras, é atormentado por experiências dolorosas não assi-
miladas.
11. A identificação, nos consultórios, de pacientes deprimidos, psicóticos, borderline, portadores de trans-
tornos de caráter ou de falhas profundas na organização do narcisismo deu origem ao questionamento
do modelo pulsional, por vários psicanalistas pós-freudianos. Estes, diante da dificuldade em trabalhar
com as novas organizações patológicas, se dividiram: houve os que procuraram aperfeiçoar o modelo
vigente e os que propuseram inovações teóricas que equivaliam a um novo modelo. Alguns romperam
com os conceitos nucleares, afastando-se da própria psicanálise.
12. Por partirem de contextos bastante diversos e de intuições diferentes, os modelos de mente criados,
ainda que mantendo os conceitos centrais, passaram a lidar com fenômenos a partir de diferentes
olhares e linguagens, promovendo o que tem sido chamado, com frequência, na literatura de “babel
psicanalítica”.
13. Tomando como base os ângulos enfocados por Freud em suas descobertas, desenvolveram-se modelos
teóricos e, a partir deles, as chamadas “escolas” psicanalíticas. Assim, para citar alguns exemplos, a
ênfase no modelo estrutural e na análise do ego e de suas defesas, pressionada pela cultura pragmá-
tica anglo-saxã, principalmente americana, foi a base da chamada “escola da psicologia do ego”, de
cujas insuficiências teóricas originou-se um novo modelo, o da “psicologia do self” (H. Kohut). Deste,
por sua vez, influenciadas também por estudos recentes sobre teoria da comunicação, teoria dos siste-
mas sociais, cibernética, teoria determinista do caos e da complexidade,40,41 derivaram as escolas
intersubjetivistas, inter-relacional, interpessoal, interacional, construtivista social e uma nova escola
de relações de objeto.
14. Partindo do estudo da paranoia e do atendimento de psicóticos, e também como uma reação às mudan-
ças de modelo propostas pela psicologia do ego, surge o modelo de Lacan, que se propõe a uma “relei-
tura” do modelo freudiano, influenciado, entre outros, pelo pensamento estruturalista de Lévi-Strauss,
pelos estudos linguísticos de Saussure e pelo enfoque filosófico de Hegel e Heidegger.
15 A partir dos estudos freudianos sobre a ansiedade e sobre os processos de luto e identificação e das
necessidades clínicas geradas pelo atendimento de crianças, tendo sido influenciada pela dialética
hegeliana, Melanie Klein desenvolve seu trabalho. Das insuficiências teóricas de seu modelo surgiram
os de D. Winnicott (influenciado pelo pensamento de Heidegger, Merleau-Ponty e Husserl) e de W.R.
Bion.
16. No modelo de Melanie Klein, as emoções ocupam um papel central, e a mente é entendida como lidando
com significados e valores. A transferência passa a ser considerada não mais uma lembrança do pas-
sado, mas a externalização do presente imediato do mundo interno; como tal, é vista como realidade
psíquica. As interpretações deixam de ter o sentido do “como se” para se transformarem no “é”, e os
pacientes não são mais vistos como se estivessem “sofrendo de lembranças”, mas “vivendo no pas-
sado” ou em um “outro plano de funcionamento mental”.
17. Ao final de sua teorização, Klein cunhou o conceito de identificação projetiva, que alterou parte de seu
modelo mental e foi ponto de partida de seus colaboradores e seguidores, tendo-se difundido a prati-
camente todos os demais modelos psicanalíticos. A partir dessa noção, a mente não fica mais restrita
a dois mundos, mas a tantos quantos os processos de divisão e identificação projetiva gerarem, cada
qual com seu funcionamento independente.
18. W. Bion descreve o desenvolvimento da mente como um processo complexo, estruturado passo a passo,
que não pode ser comparado com as formas biológicas de crescimento. De acordo com ele, a mente se
desenvolve autonomamente; ela “se constrói”, aproveitando experiências. Isso altera a concepção klei-
niana da relação do bebê com o seio (alvo de divisões, idealizações e projeções) e considera a relação
do bebê com a mãe o grande modulador da dor psíquica, que permite ao bebê prosseguir em seu
desenvolvimento.
172 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

19. Nesse modelo, as emoções passam a ser os “elos básicos” que permitem a integração do self. Essa
ênfase em uma teoria do pensamento, baseada em uma teoria das relações de objeto, permitiu a Bion
agrupar as emoções básicas (amor, L; ódio, H; e desejo de conhecer, K) e seus opostos (-L, -H, -K). Essa
formulação fornece a base para que, posteriormente, haja um deslocamento do conflito básico conside-
rado por Freud entre o amor e o ódio para a “emoção e a oposição à emoção”.
20. São exemplificadas três tensões comuns entre os modelos: a) pulsão versus relações com o objeto;
b) modelos intrapsíquicos e intersubjetivos; c) conflito versus déficit.

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PARTE III

Fundamentos da
técnica psicoterápica
de orientação analítica
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9
AVALIAÇÃO
Carmem Emília Keidann
Jussara Schestatsky Dal Zot

O processo de avaliação de um paciente


com o objetivo de instaurar uma psicote- de que sejam mais eficazes do que terapias não
rapia de orientação analítica (POA) cons- analíticas ou placebo. Fonagy,5 contudo, apon-
titui-se do que chamamos de entrevista ta que essa carência, por si só, não significa
que a psicoterapia ou a psicanálise sejam ine-
inicial, definição do diagnóstico psicodi-
fetivas; o que falta em nossa disciplina é o in-
nâmico, indicação ou não de psicoterapia vestimento em pesquisas empíricas e a inter-
e efetivação do contrato psicoterapêutico -relação com as diferentes áreas da ciên­cia que
(que será abordado no Capítulo 11). trabalham em busca da elucidação dos resul-
tados.

Zimerman1 já destacava a vigência do mito de


que todos os pacientes podem ser tratados e Assim, é responsabilidade nossa indi-
curados pela psicoterapia e psicanálise. car a técnica mais apropriada e a que mais
benefícios traz para aliviar o sofrimento da
pessoa que nos procura. A avaliação indi-
Os progressos da ciência, da psico- vidualizada, portanto, faz-se mais do que
farmacologia e da pesquisa de resultados nunca necessária e é condição decisiva para
terapêuticos2 cada vez mais exigem refi­ o melhor aproveitamento da psicoterapia
namento nas avaliações e indicações tera- que nos propomos a realizar.
pêuticas. Sandell e colaboradores3 reitera Em um colóquio, no Centro de Es-
que a seleção é parte integrante da psicote- tudos Luís Guedes, sobre contrato e inter-
rapia e da psicanálise, não só para o início rupções em psicoterapia,6 assinalou-se que
do tratamento, mas também para sua con- muitas interrupções precoces de tratamen-
tinuação. to decorrem de uma inadequada avaliação
inicial. Freud,7 a propósito, afirmava o se-
guinte: “No que concerne ao psicanalista,
O declínio atual da busca pela psicoterapia contudo, se o caso é desfavorável, ele co-
analítica e pela psicanálise, no entendimento meteu um erro prático: foi responsável por
de Kandel,4 deve-se à não evidência objetiva despesas desnecessárias e desacreditou seu
método de tratamento”. Assim, compreen­
178 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

de-se que vários autores, estudiosos das paciente, o motivo da procura, sua motiva-
psicoterapias, assinalem que as entrevistas ção, entre outros aspectos.
de avaliação representam um momento
crítico tanto na vida do paciente como na
do profissional a quem ele recorre.8-10 Quanto à técnica
Este capítulo se propõe a abordar os
seguintes temas referentes ao processo de Uma norma básica é facilitar ao entrevis-
avaliação e às indicações de psicoterapia de tado a livre expressão de seus processos
orientação analítica: a entrevista inicial, o mentais, o que, em geral, não se consegue
diagnóstico psicodinâmico e as indicações com um enquadre formal de perguntas e
e contraindicações e as considerações. respostas. Bleger12 salienta que, nesse pri-
meiro encontro, nosso propósito é ver co-
mo funciona o indivíduo, e não como ele
diz que funciona; assim, devemos deixá-lo
ENTREVISTA INICIAL
tanto quanto possível à vontade para mos-
trar seu modo de ser e de interagir.
Conceito A escuta atenta, com um mínimo de
interrupções, permitirá observar como a
Quando nos referimos à entrevista inicial, pessoa se expressa, desenvolve seu pensa-
buscamos conceituar um tipo específico de mento, expõe ou não sentimentos, relacio-
encontro, com objetivos definidos e for­ na-se com o entrevistador, o que fala ou
mato próprio, diverso dos demais que hão sobre o que cala.13,14
de ocorrer, caso seja indicada a psicote­ A atitude de escuta, porém, não im-
rapia. plica mutismo, tampouco distância ou
Ferreira,11 em seu dicionário, define frieza. Deve-se agir com cordialidade,
entrevista como vista e conferência entre discrição e sensibilidade, pois certamente
duas ou mais pessoas em local predeter- quem nos procura traz seu sofrimento e
minado; encontro combinado, comentário vem em busca de ajuda. Pode-se, pois, de
ou opinião fornecido a entrevistadores pa- início, solicitar os dados de identificação do
ra ser divulgado em jornal, revista, etc. Em entrevistado e esclarecer o quanto durará a
nosso caso, trata-se de um encontro com- entrevista e a possibilidade de que não se-
binado entre duas pessoas com a específica ja a única. A seguir, ele é convidado a falar
finalidade de decidir se quem consulta de- sobre as razões de sua vinda e solicitado a
ve ou não realizar uma psicoterapia, com contar tudo o que puder, a fim de formar-
quem e de que tipo. mos uma ideia do que o aflige.
É importante que se esclareça, desde o A maioria dos autores salienta, repe-
princípio, que a entrevista inicial, embora timos, que a técnica da entrevista é exclu-
na forma singular, não exclui a realização siva e distinta de uma sessão de psicaná-
de outras; duas ou mesmo três compõem lise ou psicoterapia. Não só os objetivos,
o processo de avaliação, dado que dificil- afirma Etchegoyen,15 de uma e outra são
mente um único contato será suficiente diferentes, mas também os instrumentos,
para conhecer o entrevistado. Muitas variá­ já que a associação livre não é proposta e
veis influenciam esse processo: o tipo de a interpretação é reservada para situações
encaminhamento, a experiência prévia do especiais.
Psicoterapia de orientação analítica 179

seja muito baixa, pois é um estímulo eficaz


Trata-se de uma técnica não diretiva, deixan- para o paciente expressar seus problemas,
do ao entrevistado a iniciativa, mas ajudando- nem muito alta, de forma que impeça a
-o em momentos difíceis; um aceno de cabeça, comunicação e desorganize o objetivo do
um comentário neutro ou uma pergunta, em ge-
ral, bastam para restabelecer uma comunica-
encontro.
ção interrompida.

Campo da entrevista
Cruz6 e outros autores (como Liber- A entrevista configura um campo no qual,
man16) consideram que o terapeuta de- de acordo com Baranger e Baranger,18 há
ve abster-se de qualquer intervenção de duas pessoas indefectivelmente ligadas e
cunho interpretativo nessa circunstância, complementares, enquanto permanece a
visto que ainda não se estabeleceu o setting, situação, envolvidas no mesmo processo
o entrevistado ainda não é o “paciente” e dinâmico. Esse conceito de campo dinâmi-
não estamos, portanto, autorizados a utili- co, de forças que se cruzam e que se cons-
zar a interpretação. troem a partir da participação de ambos,
Porém, há aqueles15,17 que julgam modifica a compreensão e a utilização de
válido o uso da interpretação para remover vários instrumentos da técnica, no enten-
algum obstáculo ou promover o vínculo dimento de Iankilevich e Dal Zot.19
entre elementos que estão sendo apresen- Aqui, deparamo-nos com um ponto
tados e cuja conexão o paciente não perce- que vem despertando a atenção dos teóri-
be. Quinodoz,17 inclusive, afirma que o pa- cos da psicanálise e da psicoterapia: a inte-
ciente desconhece seu mundo fantasmático ração da dupla paciente-terapeuta.
inconsciente e que, nas entrevistas prelimi-
nares, o psicoterapeuta tem a oportunidade
de fazê-lo vivenciar uma escuta analítica e
tomar contato com seu mundo interno. Segundo Ferro,20 hoje trabalhamos cada vez
mais com a ideia de que o foco de nossas pre-
É importante assinalar, também, que
ocupações se deslocou das características do
a entrevista inicial deve, necessariamente, paciente para as da dupla e da interação en-
provocar ansiedade, como toda situação tre “aquele determinado paciente” e “aquele
nova e desconhecida em que dois indivídu- determinado terapeuta”. Não temos uma bitola
os se encontram e um deles vai ser avalia- universal. Não é qualquer tipo de paciente que
do – na verdade, ambos o são. O terapeuta, podemos tratar. Conhecer os limites e os alcan-
apesar de, em geral, já ter feito muitas en- ces próprios de cada terapeuta é essencial para
o sucesso da psicoterapia.
trevistas desse tipo, sabe que cada situação
nova é um desafio e que ninguém tem a
certeza de se sair a contento. Além disso,
agregam-se fatores relacionados aos signifi- Os instrumentos de avaliação de que
cados inconscientes que cada um dos parti- dispõe o terapeuta são o reconhecimen-
cipantes atribui a esse primeiro encontro.6 to do estado de sua mente,10 suas teorias,
Por isso, depende, em grande medida, da seus conhecimentos, sua intuição e empa-
habilidade do entrevistador manter a an- tia e, sobretudo, sua própria angústia. O
siedade em um limite aceitável. Que não entrevistador participa do fenômeno que
180 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

observa e se condiciona a ele, como bem 1. O paciente busca o tratamento de forma


salienta Etchegoyen:15 a “máxima objeti- espontânea?
vidade que podemos obter só é alcançada 2. Mostra capacidade de reconhecer que
quando se incorpora o sujeito observador seus sintomas são de natureza psicoló-
como uma das variáveis do campo”. Co- gica? Denota sofrimento?
mo, às vezes, há o risco de que o terapeuta 3. Há tendência à introspecção e a relatar
defina sua avaliação por uma única impres- os problemas de modo honesto e ver-
são dominante na primeira entrevista, su- dadeiro?
gere-se um intervalo entre esta e as demais, 4. Tem vontade de participar ativamente
de uma semana em média, o que permite do processo de tratamento?
apreciar como o paciente reagiu a esse pri- 5. Expressa curiosidade e desejo de se
meiro encontro. O segundo encontro pode entender?
esclarecer muitos aspectos ou nos surpre- 6. Assume a responsabilidade de modifi-
ender com algo que não havíamos pensado car as dificuldades que enfrenta, em vez
ou percebido, seja por nossa angústia, seja de externá-las e projetá-las nos outros?
pelo desejo do paciente de causar uma im- 7. Apresenta expectativas realistas em
pressão diferente de seu verdadeiro modo relação à psicoterapia?
de ser. Isso oferece um indicativo da maior 8. Há disposição de investir tempo e di-
flexibilidade ou rigidez do paciente no uso nheiro nessa busca?
das suas defesas. Caligor e colaboradores21
sugerem duas sessões de acompanhamen- Provavelmente, não responderemos­
to após a consulta inicial para esclarecer nas primeiras entrevistas a todas essas
problemas mais complexos ou incertezas ­questões (baseadas em Sifneos23), mas tê-
quanto ao diagnóstico. -las em mente nos ajudará a apreciar as
condições de cada entrevistado. Freud7 já
ressaltava, nos primeiros escritos, que o so-
Motivação frimento é a força motivadora primária do
tratamento.
Há consenso entre os autores de que a Um aspecto que deve ser observado
motivação é um pressuposto básico para diz respeito à manifestação consciente des-
que se indique psicoterapia de orientação sa motivação, expressa, em geral, no desejo
analítica. Porém, o que conceituamos co- verbal do paciente de se livrar apenas dos
mo motivação? De acordo com Houaiss,22 sintomas ou do sofrimento colocado em
é um “conjunto de processos que dão ao uma situação externa imediata. Esta, quan-
comportamento uma intensidade, uma do isolada, não indica uma boa motiva-
direção determinada e uma forma de de- ção. Uma motivação genuína implica um
senvolvimento próprias da atividade indi- desejo de modificação interna por meio
vidual”. Assim, começamos constatando do insight: o paciente se dispõe a explorar
que é um tema de âmbito exclusivo do pa- pensamentos, emoções e conflitos de sua
ciente, das características do seu caráter e vida diária, buscando vinculações com as
dos objetivos dessa procura de atendimen- circunstâncias do passado, sendo capaz de
to. Algumas questões podem nos orientar reviver situações dolorosas ou difíceis, preo-
na definição da motivação nas entrevistas cupado em ser honesto consigo para alcan-
iniciais: çar a verdade sobre si mesmo.8,14,24
Psicoterapia de orientação analítica 181

Thomä e Kächele9 advertem quanto conside­rados motivados para POA, verifi-


a não se poder esperar que cada paciente cando-se uma associação significativa entre
nos procure com uma boa motivação pa- motivação e resultado de psicoterapia (p <
ra o tratamento, ciente das conexões entre 0,05.).
suas moléstias, seus problemas e conflitos
de vida, trazendo consigo certo insight. Se
esses pacientes existem, a prática mostra Transferência e
que não são maioria. Contudo, é possível
esperar que a experiência da psicoterapia contratransferência
desenvolva nele uma motivação, o que mu- na avaliação
dará o rumo das expectativas iniciais.25
Em revisão feita por Dal Zot,26 citam- Desde Freud,27 sabemos que muitas de
-se várias pesquisas que estudaram a moti- nossas ações e reações estão condiciona-
vação. Brill e Storrow, em 1963, em um es- das por experiências passadas que tendem
tudo com 111 pacientes ambulatoriais em a se repetir no presente, tornando a per-
Los Angeles, observaram que 92% daqueles cepção da realidade atual um misto de
que estavam motivados melhoraram. Ma- presente e passado. Ora, em uma situação
lan, em um estudo experimental sobre os de avaliação, vão reproduzir-se conflitos e
resultados da psicoterapia breve, realizado pautas do passado do entrevistado que as-
em 1976, relata que, entre 10 critérios de sumem uma vigência atual, uma realidade
seleção estudados, apenas um, a motiva- imediata e concreta, em que o entrevis­
ção, apresentou correlação positiva com tador é investido de um papel que estri-
o resultado. Sifneos, em 1968, estudando tamente não corresponde a ele. Por meio
uma amostra de 55 pacientes que realiza- dessas “transferências”, é possível obter
ram tratamento breve, concluiu que, dos preciosas informações sobre a estrutura
35 que melhoraram, 88% apresentaram mental do sujeito e o tipo de sua relação
motivação de boa a excelente. Straker, em com as outras pessoas.15
1968, revisando as causas e os índices de Porém, com a ênfase atual no concei-
abandono em uma clínica psiquiátrica em to de campo dinâmico,28 não se pode mais
Montreal, encontrou os menores índices pensar em transferência isoladamente, sem
de abandono entre os pacientes que procu- levar em consideração sua contrapartida,
ravam o tratamento por iniciativa própria que é a contratransferência; não se pode
e entre os que apresentaram alta motivação pensar em identificação projetiva ocor-
desde o início do tratamento. Hollender, rendo apenas da parte do paciente, sem as
citador por Dal Zot,26 refere que o aban- identificações projetivas e introjetivas do
dono seria praticamente eliminado se, nas terapeuta também em ação, formando a
primeiras entrevistas, a ênfase se centrasse fantasia inconsciente do par, que vai estar
em avaliar a motivação do paciente para também presente desde a avaliação ini-
tratar-se. cial.19 A situação psicoterápica modifica-
A pesquisa desenvolvida em 1979 -se, então; o objeto de observação passa a
por Dal Zot26 em um ambulatório de englobar tanto o paciente quanto o psicote-
psicoterapia em Porto Alegre constatou
­ rapeuta, em sua dimensão intersubjetiva.29
que, dos 71 pacientes estudados, 51 ob- Gabbard30 e Thomä e Kächele9 des-
tiveram melhoras. Destes, 91,1% foram tacam que os elementos transferenciais
182 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

existem desde o primeiro encontro entre via identificação projetiva. O terapeuta, por
paciente e terapeuta, mesmo antes, por ve- seu turno, está mais sensível e indefeso ante
zes. Assim, a própria marcação da primeira as identificações projetivas de seu cliente e
consulta revelará aspectos do paciente que ainda sem o recurso da interpretação pa-
podem traduzir experiências prévias com ra manejá-las. A experiência, o estudo e a
outros terapeutas ou desconfianças e ati- supervisão hão de auxiliá-lo; tais reações
tudes com figuras de autoridade, ou seja, contratransferenciais, com certeza muito
muitas de suas características pessoais. Os úteis, exigem controle constante para sua
fatores relativos à figura real do terapeuta, compreensão.
idade, sexo, aspecto físico, apresentação O reconhecimento do uso da iden­
pessoal, e do consultório frequentemente tificação projetiva pelo paciente muitas
se convertem em ponto de partida para a ­vezes se faz quando o terapeuta percebe
transferência inicial.31 em si sentimentos ou comportamentos
A transferência também pode apre- es­tranhos ou atípicos ao seu modo ha-
sentar-se como uma resistência, e um dos bitual de agir com os demais pacientes.
sinais disso, segundo Malan,32 é observa- Mesmo que a consciência de tais senti-
do toda vez que um paciente parece não mentos pos­si­bilite ao terapeuta ampliar o
estar expondo comunicações espontâneas, entendimento do mundo objetal interno
dificultando a coleta da história. Já que a do paciente e dos problemas peculiares de
transferência é um aspecto vital da avalia- suas relações interpessoais,30 repetimos,
ção, pois afeta diretamente a cooperação deve-se permanecer atento: a avaliação
do paciente com o terapeuta, abordar os envolve duas pessoas em funções diferen-
sentimentos nela evocados poderia remo- tes, assimétricas, ambas com sua equação
ver obstáculos à coleta efetiva de sua his- pessoal (passado, representações de self e
tória. objeto, necessidades projetivas), que pode
O entrevistador, por sua parte, con- interferir na observação objetiva dos fatos.
forme Etchegoyen,15 não reage a todos
esses fenômenos de forma absolutamente
lógica e racional, mas também de maneira DIAGNÓSTICO PSICODINÂMICO
irracional e inconsciente, o que constitui
sua contratransferência. Para o psicotera-
peuta, tais sentimentos são informações O que avaliar?
diagnósticas vitais, pois o orientam tanto
acerca das reações que o paciente produz Identificação
nos outros como também da necessidade
de discriminar suas próprias reações diante Ao pensarmos nesse aspecto, por vezes nos
deste. ocorrem apenas dados objetivos, numéri-
Uma particularidade da circunstância cos, como idade, sexo, endereço, estado
de avaliação é a de provocar angústia pela civil. Todavia, subjacente a uma aparente
experiência nova, desconhecida, a que se objetividade, encontraremos valiosas in-
expõem paciente e terapeuta. A forma de formações que logo nos orientam na avalia-
o primeiro descarregar essa angústia se dá, ção em curso. Assim, caso se trate de uma
em geral, por comunicações não verbais, mulher de cerca de 65 anos, casada, com
Psicoterapia de orientação analítica 183

filhos independentes, profissional prestes a se investigue a presença ou não de fatores


se aposentar, o que podemos pensar? Que desencadeantes, por serem os responsáveis,
se encontra em uma etapa do ciclo vital em geral, pela ruptura do equilíbrio ante-
lidando com as consequências do enve- rior. A ausência de fatores desencadeantes
lhecimento e com inevitáveis perdas, bem ou de crises vitais ou acidentais sugere a
como precisando, talvez, encontrar outras presença de patologia de caráter.
situações de satisfação. Certamente nossa
investigação deverá percorrer essas áreas
próprias da etapa de crise vivida pela pa- Conflito atual
ciente; são, com certeza, hipóteses a serem
testadas. Da mesma forma, um jovem de 25 Considerando a psicoterapia de orientação
anos, recém-formado, solteiro, apenas por analítica como tendo sua base teórica na
esses aspectos, evocará em nós outras pos- psicanálise, as seguintes formulações, con-
sibilidades. Assim, em especial em relação forme Wallerstein citado por Cruz,33 são
às crises vitais e ao grau de adaptação al- fundamentais para orientar o pensamento
cançado, os dados de identificação dos pa- do entrevistador:
cientes contêm, latentes, elementos indica-
tivos importantes. Também incluímos aqui • A doença mental deriva de conflitos
o encaminhamento, isto é, como o paciente intrapsíquicos.
chegou até nós. Por iniciativa própria, so- • Tais conflitos são predominantemente
licitação de familiar ou por especialista de inconscientes.
outra área, todos são dados que fornecem • São partes constituintes do conflito um
pistas sobre sua motivação. impulso instintivo que gera ansiedade e,
em consequência, uma defesa.
• Antes do início das manifestações clíni-
Fatores desencadeantes: cas, os conflitos psíquicos são manejados
crises vitais ou acidentais por padrões peculiares de defesa, os
traços de caráter.
O avaliador deve buscar a relação temporal • Pela influência de um fator desencade-
entre a eclosão dos sintomas e a ocorrência ante, métodos previamente utilizados
de algum evento ou circunstância na vida para manter o equilíbrio falham, e os
do paciente, relação frequentemente igno- sintomas aparecem.
rada por ele, devido a mecanismos de defesa • Tais sintomas revelam importantes
protetores, como negação, racionalização, elementos dos conflitos e dos meios
isolamento. Uma crise vital, por exemplo, com que o ego tenta lidar com eles e se
nascimento de filhos, adolescência, clima- manifestam nas relações atuais da vida
tério, aposentadoria, ou crises acidentais, do paciente, na sua interação com o
como perda por morte ou separação de terapeuta, repetindo padrões do passado.
um familiar, doença física própria ou de
familiar, perda de emprego, casamento, Mas, como avaliar, nas entrevistas
vestibular, podem indicar em que direção iniciais, a existência desses conflitos? Fren-
buscar o conflito. Conforme Cordioli,8 na ch, citado por Schestatsky,34 introduziu
avaliação psicodinâmica, é importante que os conceitos de conflito focal e nuclear.
184 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

Lembrando que essas formulações provêm propor a modificar, além do conflito atual,
do conceito freudiano de conflito psíqui- os conflitos infantis, isto é, retomar toda a
co, acrescentamos, de acordo com Sches- história do paciente, para proporcionar-
tatsky,34 que os conflitos focais se definem -lhe melhores instrumentos, visando a mu-
como derivativos de conflitos nucleares, danças mais estáveis em sua vida.36 Como
profundos, primitivos, adormecidos, que exemplo, citamos a paciente B, de 36 anos,
seriam ativados e continuamente expressos casada e com filhos, que procura atendi-
de vários modos. Estariam mais próximos mento por indicação de sua ex-terapeuta.
da superfície, pré-conscientes, explicando Na primeira entrevista, sem que o terapeu-
a maior parte do material clínico de uma ta dissesse nada, chora copiosamente a to-
sessão. Seriam uma adaptação dos conflitos do momento, mencionando, nas pequenas
nucleares e passíveis de aproximação por pausas, não saber o que há com ela, apenas
meio da psicoterapia de orientação analíti- que se sente mal, perdida e só. Não refere
ca, e não só pela psicanálise. crise conjugal, financeira ou com os filhos;
Na avaliação, quando identificamos embora sinta certa insatisfação com o tra-
pelo menos um conflito focal do paciente balho, não revela nada consistente sobre
que se expresse por meio de um ou mais ele em termos de problemas. No entanto,
sintomas ou padrões de comportamento afirma já ter-se sentido assim em outras
nos relacionamentos interpessoais e cause ocasiões em sua vida, aliás, desde muito pe-
sofrimento, estamos em condições de indi- quena. É a última de vários irmãos; “apesar
car POA. Um exemplo seria o caso da pa- disso”, conclui, “venho vindo, dando um
ciente A, de 40 anos, solteira e professora jeito, conseguindo um certo espaço... Mas
universitária, que procurou um terapeuta agora não está dando para continuar...”. O
em função de uma crise por não conseguir terapeuta, percebendo que o conflito in-
trabalhar em sua dissertação de mestrado, fantil tomou nova feição, repetindo-se na
tendo já se tratado com um psiquiatra que vida atual, indicou-lhe psicanálise.35
a medicara com ansiolíticos, antidepres- Acentuamos que essa distinção de in-
sivos e hipnóticos devido a sintomas de dicação nem sempre é clara, como sublinha
ansiedade, depressão e insônia. A paciente Etchegoyen.36 Cabe ao paciente decidir-se,
melhorara desses sintomas, mas nada evo- mas o autor lembra que é um erro indicar
luíra em sua dissertação, além de sentir-se análise a alguém com problemas ligados à
confusa, desanimada e com uma espécie de situação de vida atual ou presente. Além
paralisia mental (sic). Como até o momen- disso, se o que o paciente apresenta é ape-
to não tivera maiores problemas em sua nas uma nova versão de conflitos anterio-
vida, inclusive profissional, configurava-se res, a psicoterapia não será suficiente e po-
uma situação atual e circunscrita, razão pe- derá, inclusive, fracassar.36
la qual o terapeuta indicou POA.35
Todavia, para pacientes com pato-
logia de caráter, na qual estão implicados Adaptação prévia, força do ego,
os conflitos nucleares, infantis, que resul- vínculos e relações objetais
tam em um modo habitual de ser, pensar,
sentir, fantasiar e relacionar-se com os ou- A história laboral de um paciente e seus
tros, seria indicada a psicanálise. Esta vai se padrões de relacionamento são indicado-
Psicoterapia de orientação analítica 185

res da força global do ego. É provável que geral, no decorrer da coleta da história.
aqueles que foram capazes de manter seus Permanecermos atentos às distorções e às
empregos ou vida acadêmica e estabelecer alterações da sensopercepção, bem como
relações de compromisso por períodos re- à presença ou não de alucinações visuais
lativamente longos têm egos mais flexíveis ou auditivas, será importante na avaliação
e integrados. Ter um ego forte significa ter diagnóstica.
certo nível de inteligência, habilidade para A linguagem e a comunicação do pa-
tolerar emoções dolorosas, capacidade pa- ciente revelarão aspectos do inconsciente
ra sublimação e um teste de realidade bem por meio da presença de lapsos e atos fa-
estabelecido.8 Uma pessoa que também ul- lhos. Os traços de personalidade também
trapassou diferentes fases do seu ciclo vital se evidenciam na forma como o paciente se
com sucesso na definição de uma identida- expressa e responde às questões. Por exem-
de própria e no desenvolvimento psicosse- plo, um paciente com características obses-
xual adequado é considerada como tendo sivas vai dar atenção excessiva a todos os
um bom nível de adaptação prévia. detalhes de seu relato. O paciente histérico
A literatura em geral e algumas pes- pode fornecer respostas coloridas e vagas,
quisas locais26,37 apontam a adaptação pré- frustrantes; o paranoide pode constante-
via do paciente como um bom fator prog- mente distorcer a intenção das questões,
nóstico. Um bom vínculo com o terapeuta posicionando-se defensivamente em rela-
vai depender da qualidade das relações de ção ao entrevistador.
objeto do passado, assim como de suas re- As observações sobre os estados afeti-
lações posteriores. Investigar, na entrevista vos do paciente ganham proeminência na
inicial, a relação do paciente com seus pais, avaliação, sendo, talvez, o manejo do afe-
irmãos, colegas e amigos pode fornecer in- to uma das mais importantes funções das
dicativos de como vai se desenvolver a rela- defesas.30 Assim, pacientes que descrevem
ção terapêutica. eventos dolorosos em suas vidas sem qual-
Outro aspecto importante a ser inves- quer tonalidade afetiva estão fazendo uso
tigado é a existência de traumas e/ou negli- do isolamento e da intelectualização; os
gências na infância, pois acarretam prejuí- hipomaníacos, geralmente divertidos ou de
zos na capacidade de mentalização do pa- bom humor, podem estar recorrendo à ne-
ciente, bem como por estarem relacionados gação para defender-se contra sentimentos
a patologias graves na vida adulta, conforme de desgosto e raiva. Os pacientes borderli-
vários estudos atuais têm demonstrado.30,38 ne podem expressar desprezo e hostilidade
em relação às figuras significativas de suas
vidas, usando a dissociação para evitar a
Exame mental e integração entre sentimentos bons e maus
presença de sintomas para com os outros. Também, quando se
detectar humor depressivo, é importante
O exame do estado mental será feito ao investigar a presença de ideação ou planos
longo das entrevistas de avaliação, sem que suicidas, bem como esclarecer o significado
seja necessário um interrogatório formal a do suicídio pretendido.
respeito. A orientação do paciente quanto Uma grande quantidade de informa-
a tempo, espaço e pessoa esclarece-se, em ções é comunicada por comportamento
186 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

não verbal. Que assuntos provocam an- identificação projetiva, negação e controle
siedade, silêncios ou desvios no olhar do onipotente.
entrevistado? Outro aspecto a ser avaliado
é como o paciente controla seus impulsos.
É capaz de adiar sua descarga ou tende a Capacidade para estabelecer
entregar-se a eles, colocando em risco a si uma aliança terapêutica
e aos outros? Prevê adequadamente a con-
sequência de suas ações? Há um predomí- As pesquisas mais recentes sugerem que a
nio da ação em detrimento da reflexão e do aliança terapêutica é a variável mais crucial
pensar? São características que podem dar para o sucesso das psicoterapias.8 A força
pistas para uma aproximação diagnóstica da aliança terapêutica como fator domi-
de quadros de funcionamento borderline, nante no resultado de uma ampla varie-
nos quais o controle dos impulsos é precá- dade de terapias tem sido enfatizada pelas
rio, há tendência a sexualidade promíscua e investigações de inúmeros autores.30 Esses
a conflitos quanto à dependência. estudos também sugerem que a natureza
da aliança terapêutica na fase inicial da psi-
coterapia talvez seja o melhor preditor do
De acordo com Kernberg,39 dois outros aspec- resultado desta.
tos devem ser avaliados: a difusão da identida- A expressão “aliança terapêutica” de-
de e a capacidade de teste de realidade, pois é signa a capacidade do paciente de estabele-
patognomônica do funcionamento borderline a cer uma relação de trabalho com o terapeu-
falta de integração do self, com uma experiên- ta, em oposição às reações transferenciais
cia subjetiva de vazio crônico, autopercepções regressivas e à resistência.40 Esse termo foi
e comportamentos contraditórios, que dificul- cunhado por E. Zetzel, em 1956, aparecen-
tam uma visão integrada de si mesmo como al-
guém discriminado dos demais entes significa-
do na literatura psicanalítica desde então,
tivos. Já no teste de realidade, avalia-se a ca- recebendo também outras denominações,
pacidade do paciente de distinguir sentimentos como “aliança de trabalho”, por R. Green-
e emoções como provenientes de estímulos do son, em 1965.
mundo interno ou externo. Essa capacidade se Essa aliança implica que o pacien-
mostra prejudicada quando há um nível psicó- te, independentemente de seus aspectos
tico de funcionamento. doentios, demonstre uma parte racional
preservada que se alie ao terapeuta para
levar adiante as tarefas psicoterápicas co-
O nível de operações defensivas ma- mo um colaborador ativo.8 Um indício da
nifesta a organização da personalidade. Os capacidade de se vincular ao terapeuta é
pacientes borderline e psicóticos, por exem- o critério salientado por Sifneos23 de que
plo, apresentam defesas mais primitivas o paciente tenha estabelecido, no passado,
centradas no mecanismo de dissociação e pelo menos uma relação emocionalmente
em outros mecanismos associados, como significativa.
Psicoterapia de orientação analítica 187

ILUSTRAÇÃO CLÍNICA
Uma mulher, que chamaremos de Maria, telefona, dizendo-se encaminhada por uma amiga. Marcamos uma
entrevista em que fala com relativo desembaraço, mas também com ansiedade, vergonha e temores. Diz
estar vivendo uma fase com vários problemas clínicos. Beira os 50 anos, é a filha caçula entre seis irmãos.
Sempre viveu com os pais; agora, ela e o companheiro residem com a mãe viúva. É profissional liberal liga-
da a uma grande empresa e com escassa atividade particular. Não tem filhos, mas muita ligação com os
vários sobrinhos e afilhados.
Descreve sintomas relacionados ao sistema cardiovascular, taquicardia, tremores, hipertensão. Já fez
avaliação com seu cardiologista de confiança, nada tendo sido encontrado. Cogitou-se a hipótese de trans-
torno de pânico, mas sem confirmação explícita. Foi-lhe prescrito propanolol, que utilizou por algum tempo,
tendo, então, procurado outro clínico, que lhe sugeriu não tomar nenhum medicamento, em vista da avalia-
ção psicoterápica que iria realizar. Apresenta, ainda, sintomas relacionados à entrada da menopausa, ten-
do iniciado reposição hormonal. Sente-se muito angustiada, tem insônia, medo de dirigir automóvel e temor
de ficar só. Tais sintomas psicológicos a motivaram a procurar a psicoterapia.
Sobre a relação com o companheiro, comenta ser uma pessoa bastante presente, que garante apoio e
segurança tanto a si como à mãe, mas com uma série de limitações. Quanto aos aspectos socioeconômico
e cultural, trata-se de um profissional de nível médio, mal remunerado, com três filhos de casamentos an-
teriores, fontes de despesas constantes para ele; isso requer empréstimos de Maria, o que gera desconfian-
ças, competições e dúvidas sobre o futuro da relação.
Maria sempre teve laços muito próximos com a família de origem. Contudo, há prenúncios de compli-
cações, algumas já desencadeadas relativas à administração e à herança de bens.
Há cinco anos, perdeu seu pai por infarto. Era muito ligada a ele e justifica que nunca morou só, nem
com o companheiro, por insistência dele. O pai sempre foi considerado uma pessoa muito afetiva, presente,
coerente em suas atitudes e ideias, trabalhador incansável e com sucesso na profissão. Sentiu muito não
estar presente quando de sua morte, ocorrida em um fim de semana no interior do Estado. Ela seguidamen-
te viajava para estar junto aos seus pais, mas, naquela ocasião, precisara ficar na cidade.
Sua mãe, há mais ou menos três anos, sofreu um episódio de angina e foi prontamente atendida por
Maria, que a levou a especialistas, tendo-se recuperado. Maria sempre faz comparações com o que ocorreu
ao pai; sente-se culpada, ruminando acusações por não ter estado ao seu lado.
Traz o assunto da relação com ambos os genitores, percebendo o temor atual de vir a perder a mãe,
ainda facilmente negado pela vitalidade, força e atividade dessa senhora. Ressalta, predominantemen-
te, as qualidades de cada um, sem perceber o aspecto ambivalente, cuja revelação, contudo, já se esboça.

Comentários
Algumas reflexões nos ocorrem. Percebemos que, desde a chamada telefônica, já se estabeleceu uma rela-
ção positiva entre paciente e terapeuta. Havia expectativas de Maria em função do conhecimento das me-
lhoras obtidas com a amiga que a encaminhara e que realizara tratamento psicoterápico.
(Continua)
188 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

(Continuação)
No decorrer da avaliação, foi possível identificar a presença de sintomas próprios da menopausa, bem
como queixas relacionadas ao sistema cardiovascular. Ficou evidente a existência de uma crise vital, a me-
nopausa, associada à morte do pai por doença cardíaca. Soma-se a isso o reconhecimento de um relaciona-
mento afetivo insatisfatório. As queixas foram entendidas como manifestações corporais provocadas pela
emergência da angústia proveniente da percepção da passagem do tempo e das perdas correspondentes.
A ameaça da morte da mãe, também por problema cardíaco, trouxe a necessidade de se confrontar com to-
dos os seus lutos não elaborados, a impossibilidade de ter filhos, a profissão não plenamente realizada, a
morte do pai. No relato de sua história pessoal, observamos que tinha, até então, alcançado um equilíbrio
razoável, que nesse momento se rompera, havendo o reconhecimento da impossibilidade de resolver so-
zinha seus problemas. Havia sofrimento e limitações decorrentes de seus sintomas, o que nos fez pensar
na hipótese de tratamento psicofarmacológico concomitante. Entretanto, estavam presentes certa percep-
ção da origem psicológica dos problemas e a motivação da paciente para ir além do alívio dos sintomas.
Não nos passou despercebido que a provável origem dessas dificuldades atuais estaria situada em
um passado mais remoto. A realização profissional, o estabelecimento de uma relação afetiva estável e as
questões da maternidade são próprias de fases anteriores do ciclo vital, indicando, certamente, problemas
de estrutura da personalidade.
Nesse momento da procura do terapeuta, porém, a motivação da paciente vinculava-se ao conflito
atual,­e o foco foi circunscrito, sendo-lhe indicada a psicoterapia de orientação analítica; não se excluiu a
possibilidade de, no futuro, de acordo com sua evolução, cogitar-se um tratamento analítico.

INDICAÇÕES DE PSICOTERAPIA tos expressivos e de apoio. A psicoterapia


psicanalítica pensada por nós aproxima-se
DE ORIENTAÇÃO ANALÍTICA do polo mais expressivo, utiliza a interpre-
tação como instrumento principal, mas
É nas indicações que vamos encontrar a não único. Valendo-se frequentemente de
maior dificuldade de estabelecer os limites confrontações e clarificações, não tem co-
claros e precisos entre as várias formas de mo meta central a interpretação da trans-
psicoterapia dirigidas ao insight – psicaná­ ferência, mantém a neutralidade possível,
lise, psicoterapia psicanalítica e psicotera- volta-se mais aos acontecimentos da vida
pia de apoio – e os pacientes mais adequa- externa do paciente, não descuidando, po-
dos a cada uma. Há uma tendência atual30 rém, dos conflitos psíquicos inconscientes
a referir-se às modalidades de tratamento subjacentes.
como ocorrendo dentro de um continuum A recomendação quanto à frequência
que vai de um polo mais expressivo a um ao tratamento é de duas sessões semanais,
polo de apoio, de acordo com a prática vi- podendo, no entanto, reduzir-se a uma ses-
gente e as pesquisas empíricas. são em situações especiais: impossibilidade
Na conclusão do estudo clássico leva- financeira, dificuldades de tempo e de aces-
do a efeito por Wallerstein2 na Menninger so à consulta, períodos iniciais, quando a
Foundation Psychotherapy Research Pro- motivação é baixa. Inclusive Orenland,
ject, consta que todas as formas de psicote- citado por Wallerstein,2 ressalta que uma
rapia contêm uma combinação de elemen- sessão por semana
Psicoterapia de orientação analítica 189

[...] é apenas uma requisição sema- da identidade pessoal, da autoimagem,


nal para testemunhar ou corrigir os entre outros
eventos da vida de uma pessoa, inde­
pendentemente da orientação do psi- Porém, em todas essas situações, se-
coterapeuta e da natureza das suas in-
ja qual for a gravidade do quadro clínico,
tervenções.
devem estar presentes no paciente como
A posição do paciente é face a face condição sine qua non:
com o terapeuta, o que permite a comuni-
cação mais direta entre ambos, não estimu- • reconhecimento da origem psicológica
lando a regressão nem enfatizando a trans- dos seus sintomas
ferência, o que ocorre com a utilização do • presença de sofrimento significativo
divã psicanalítico e a frequência maior. • tolerância à frustração
• controle suficiente dos impulsos
• teste de realidade preservado
Indicações • capacidade de regressão a serviço do ego;
• capacidade de estabelecer uma aliança
Um dos pontos mais polêmicos na literatu-
terapêutica
ra psicanalítica e psicoterápica atual2,41,42
• razoável força do ego e nível de inteli-
é a delimitação das diferenças entre psica-
gência no mínimo médio
nálise e psicoterapia psicanalítica, o que ge-
ra um campo, por sua vez, também pouco Por fim, precisam ser levadas em con-
claro quanto a suas indicações. ta as condições reais do paciente no mo-
Partilhando da ideia da existência mento de sua avaliação: disponibilidade
de um continuum desde a psicoterapia de de tempo, recursos financeiros suficientes
apoio até a psicanálise no polo mais ex- para custear a psicoterapia, limitações geo-
pressivo, optamos por considerar a psico- gráficas (residência em cidades distantes do
terapia de orientação analítica indicada nas local da psicoterapia).
seguintes situações: Outro aspecto importante que requer
• um conflito atual com uma situação atenção é a avaliação clínica e neurológica,
ou circunstância da vida presente que pois, muitas vezes, doenças físicas provo-
desequilibrou o paciente a tal ponto que cam sintomas semelhantes aos de origem
se sente incapaz de resolvê-lo com seus emocional, como por exemplo, depressão
recursos habituais associada a câncer, ao uso de determinadas
• um conflito neurótico derivado e rela- substâncias, como anti-hipertensivos, hor-
tivamente independente dos conflitos mônios tireóideos, pílula anticoncepcional,
básicos infantis inibidores do apetite, problemas circulató-
• presença de uma crise vital ou acidental rios cerebrais.8
em um transtorno da personalidade
moderado
• transtornos da personalidade de graves Contraindicações
a moderados sem comportamento des-
trutivo ou antissocial Enumeramos as seguintes contraindica-
• atrasos ou déficits de desenvolvimento ções como fundamentais:
em processos evolutivos definidos: aqui-
sição da autonomia, estabelecimento • quadros psicóticos agudos
190 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

• quadros depressivos graves com sérias possibilidades de sua abrangência. Nosso


tentativas de suicídio objetivo foi compartilhar com os terapeu-
• alcoolismo crônico ou adição a drogas tas nossa experiência de mais de 20 anos de
• quadros fóbicos causadores de incapaci- POA na clínica privada, além da atividade
tação crônica profissional inicialmente em ambulatórios
• quadros obsessivo-compulsivos causa- de psicoterapia públicos ou semiprivados e
dores de incapacitação crônica atualmente ligada ao ensino e à supervisão
• quadros de personalidade borderline de psicoterapia.
com actings fortemente agressivos ou Lembramos que este capítulo ilustra
autodestrutivos nossa maneira de trabalhar fundamenta-
• síndrome cerebral orgânica e deficiência da nas teorias psicanalíticas e que o mais
mental decisivo é nos mantermos fiéis aos princí-
• transtornos alimentares graves pios técnicos, visto que cada terapeuta há
• ausência de motivação para uma psico- de imprimir seu estilo pessoal à prática em
terapia que visa ao insight ou de interesse questão, como nos sugere Etchegoyen.15
em um trabalho introspectivo Por fim, destacamos alguns aspectos que
consideramos novos e enfatizados neste
Esses quadros, provavelmente, obte- novo século:
rão benefícios de outras psicoterapias com
características suportivas, comportamen- • a relação entre terapeuta e paciente como
tais, bem como do uso de psicofármacos central, a responsabilidade cabendo a
e de ambiente hospitalar, quando necessá- ambos desde a avaliação
rio.8,30,32 Não se exclui a possibilidade de • a ênfase no estabelecimento de um cam-
psicoterapia psicanalítica em alguns desses po psicoterápico, além da valorização do
quadros, desde que combinada com outras binômio transferência-contratransferên-
abordagens. cia
A noção de campo analítico28 parece • a maior preocupação com a especificida-
exigir, no entanto, uma relativização das de das indicações com vistas a melhores
indicações e das contraindicações tradicio- resultados da POA
nais centradas em critérios específicos, diz • a consideração de que é fundamental
recentemente Gastaud,43 que terapeuta e paciente constituam uma
aliança ou vínculo de trabalho adequado
[...] pois mesmo pacientes carentes de • o reconhecimento da necessidade de
tais “capacidades” podem, ao encon- mais pesquisas na área da psicoterapia
trar determinado terapeuta, se bene-
ficiar de um tratamento de orienta-
• a crescente responsabilidade ética em
ção analítica baseado na criação de aprofundar conhecimentos que pos-
uma estrutura emocional inédita que sibilitem avaliações e indicações mais
se desenvolva de acordo com suas ca- precisas
pacidades e necessidades. • a permanência da valorização da hipó-
tese psicodinâmica, da busca do conflito
psíquico e da motivação genuína
CONSIDERAÇÕES FINAIS • a valorização, também, de uma adequa-
da formação e, de preferência, de uma
Certamente, tal abordagem sobre o pro- experiência de tratamento analítico ou
cesso de avaliação para POA não esgota as psicoterápico do terapeuta
Psicoterapia de orientação analítica 191

PONTOS-CHAVE DO CAPÍTULO

1. Processo de avaliação: inclui entrevista inicial, hipótese do diagnóstico psicodinâmico, indicação ou


não da psicoterapia de orientação analítica e efetivação do contrato.
2. A entrevista inicial, embora na forma singular, não exclui a realização de duas ou mais entrevistas, de
modo a conhecer o entrevistado e a interação entre este e o terapeuta.
3. Técnica da entrevista: não diretiva; utiliza-se a escuta analítica, com o propósito de ver como o indiví-
duo funciona. Associação livre não é proposta, e a interpretação é reservada para situações especiais.
4. Motivação: é um pressuposto básico para a indicação da psicoterapia de orientação analítica. O sofri-
mento é a força motivadora primária do tratamento.
5. Pesquisas confirmam a correlação da motivação com o resultado das psicoterapias.
6. A entrevista configura um campo com duas pessoas indefectivelmente ligadas e complementares e
envolvidas no mesmo processo dinâmico. A utilização da transferência leva em consideração sua con-
trapartida, que é a contratransferência. A identificação projetiva inclui as identificações projetivas de
terapeuta e paciente, formando a fantasia inconsciente do par que vai estar presente desde a avaliação
inicial.
7. Diagnóstico psicodinâmico:
a) identificação do paciente
b) presença de fatores desencadeantes: crises vitais ou acidentais
c) presença de conflito atual
d) adaptação prévia, força do ego, vínculos e relações objetais
e) exame mental e presença de sintomas
f) capacidade para estabelecer uma relação terapêutica
8. Indicações da psicoterapia de orientação analítica: forte motivação para compreender-se, reconheci-
mento da origem psicológica dos sintomas, presença de sofrimento significativo, tolerância à frustra-
ção, controle suficiente dos impulsos, teste de realidade preservado, capacidade de regressão a serviço
do ego, capacidade de estabelecer uma aliança terapêutica, razoável força do ego e nível médio mínimo
de inteligência, disponibilidade de tempo e recursos financeiros suficientes.
9. Contraindicações para psicoterapia de orientação analítica: quadros psicóticos agudos, depressões
graves com tentativa séria de suicídio, alcoolismo crônico e outros transtornos causadores de incapa-
citação crônica.
10. Requer-se responsabilidade ética de aprofundar conhecimentos que possibilitem a avaliação e indica-
ção mais precisa.
11. Recomenda-se tratamento analítico ou psicoterápico de parte dos psicoterapeutas.

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10
PLANEJAMENTO EM PSICOTERAPIA
DE ORIENTAÇÃO ANALÍTICA
Eneida Iankilevich

O início da psicoterapia é um momento de complexidade do campo que se cria, que


fortes emoções. Se, na alta, predominam precisará conter as esperanças e os receios,
emoções e ansiedades depressivas, em fun- as aproximações e os recuos na construção
ção da separação que se aproxima, a fase do trabalho psicoterápico.
inicial é colorida por emoções e ansiedades Esse quadro complexo, principal-
paranoides. mente pelas já descritas implicações narci-
sistas, pela incerteza quanto aos resultados,
permite compreender o predomínio de
Paciente e terapeuta, guardadas as diferen- ansiedades paranoides no início da psico-
ças de função, propõem-se a iniciar um proces- terapia, em que a dupla ainda não se co-
so que envolve, invariavelmente, investimentos nhece bem, ainda não adquiriu confiança
e custos diferentes para cada um, é verdade, em sua capacidade de ligação e de trabalho.
mas igualmente importantes. O paciente bus- São múltiplas as configurações possíveis,
ca auxílio para o sofrimento e para limitações
de sua vida, enquanto o terapeuta disponibili- dependendo, em especial, das necessidades
za sua pessoa, especialmente em sua formação neuróticas do paciente e das possibilidades
profissional, na tentativa de auxiliá-lo. Sofrem e limitações técnicas e pessoais do terapeu-
ambos, portanto, grandes exigências narcisis- ta. Não se deve esquecer do ensinamento
tas. O paciente precisa reconhecer seus proble- de Freud1 de que a confiança ou descon-
mas e sua incapacidade para resolvê-los sem fiança inicial do paciente “é quase desprezí-
ajuda, enquanto o terapeuta irá se deparar com vel, comparada às resistências internas que
questionamentos não só sobre limites e alcan-
ces do método de tratamento a que dedica sua
mantêm a neurose firmemente no lugar”.
vida profissional, como também, a cada novo Um longo caminho será percorrido
encontro psicoterápico, sobre sua própria capa- até ser atingido o objetivo inicial de ajudar
cidade e competência. o paciente a viver melhor, não permanecer
aprisionado ao problema que o fez buscar
ajuda. Muito ocorrerá nesse processo, sem-
Evidencia-se, assim, o que Freud1 de- pre perturbado por forças inconscientes
nomina “jogo de forças colocado em ação que tendem a manter o equilíbrio já exis-
pelo tratamento”, aqui entendido como a tente, como enfatiza Freud. Nesse cami-
Psicoterapia de orientação analítica 195

nho, um planejamento inicial cuidadoso [...] resolução do conflito, o desenvol-


serve como marco, orientando a mente do vimento de novas formas de adapta-
terapeuta ao longo dos movimentos inevi- ção e a reintegração e o amadureci-
mento da personalidade em qualquer
táveis do processo. O planejamento pode
grau possível para o paciente.
ser necessário, para dar um exemplo, nos
momentos em que a regressão do pacien-
te no campo tenda a acionar os aspectos
Assim, um planejamento faz-se necessário
narcisistas do terapeuta que se beneficia-
para pensar de que forma atingir esses obje-
riam da necessidade que o paciente tem tivos, evitando a vagueidade e a aleatoriedade,
dele, correndo o risco de criar um conluio que, segundo Schestatsky,3 “predominam em
inconsciente para a manutenção da doen- muitos tratamentos”.
ça – e da relação. Não se pode esquecer de
que uma psicoterapia de bons resultados
leva à alta, à separação, inevitáveis, mas Malan4 ressalta a importância do pla-
nem por isso aspectos menos difíceis do nejamento, destacando que “planejamento
crescimento.­ significa uma intenção de conduzir um tra-
Este capítulo tem por objetivo es- tamento de determinada maneira”, o que
tudar o planejamento em psicoterapia de remete à questão da técnica, sugerindo se-
orientação analítica, entendido como a rem assuntos a considerar em conjunto.
aproximação que adquire importância por
sua relação com o plano geral do processo,
conforme o que defende Freud1 acerca das PLANEJAMENTO: POR QUÊ?
regras iniciais do tratamento.
Uma procura atualizada (2007-2013) de
trabalhos sobre o tema obteve poucas refe-
Planejamento, portanto, não é estático, mas rências, especialmente em psicoterapia de
um esboço que serve como ponto de referência orientação analítica. Trabalhos na área de
e que deve ser repensado ao longo de todo o infância e adolescência5,6 remetem à ques-
processo. tão da importância do planejamento. Dos
poucos resultados encontrados, um inte-
ressante trabalho de pesquisa comparando
O processo psicoterápico busca aju- a formulação do diagnóstico clínico entre
dar o paciente não só a resolver o problema psicoterapeutas mais e menos experientes7
que designa como causador de seu sofri- assinala a capacidade diagnóstica como
mento, como lhe possibilitar a ampliação fator do processo psicoterápico. Mesmo
dos recursos mentais de que dispõe para considerando as inevitáveis falhas nessa
viver as experiências emocionais de sua busca, a precariedade de respostas chama
vida. Sendo a psicoterapia de orientação a atenção, mas penso que deve ser também
analítica um método terapêutico que com- contextualizada: encontra-se muita litera-
partilha a concepção de mente da psicaná- tura sobre outras abordagens psicoterápi-
lise, atém-se ao entendimento do conflito cas, assinalando, talvez, uma modificação
inconsciente que se manifesta no problema nas possibilidades técnicas disponíveis.8
designado. Nas palavras de Dewald,2 o ob- Cabe assinalar que esse fato não deve ser
jetivo dessa psicoterapia é a considerado prejudicial; ao contrário, po-
196 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

de incentivar nossos estudos e nossa busca algo que esse autor defende como um aceno
pela qualificação constante do instrumento a um procedimento que se afasta do científi-
psicoterapêutico que utilizamos, a psicote- co. Mabilde e Araújo11 defendem que
rapia de orientação analítica. Essa técnica
apresenta indicações, contraindicações, al- [...] o planejamento é composto de
diagnóstico, objetivos e manejo, ele-
cances e limites, mas com bons resultados,
mentos que estão em contínua intera-
quando corretamente indicada e trabalha- ção. E que o melhor ou pior resultado
da. E, para um bom aproveitamento da téc- do tratamento está na dependência da
nica, o planejamento é essencial. maior ou menor adequação com que
o terapeuta organiza e executa tais ele-
mentos no estabelecimento e cumpri-
mento do planejamento psicoterápico.
Zimmermann,9 em trabalho apresentado no
Terceiro Simpósio de Psicoterapia Dinâmica do O planejamento de uma psicotera-
Centro de Estudos Luis Guedes, realizado em pia pode ser considerado o coroamento
Atlântida, em 1979, afirma serem necessários
muitos anos de trabalho, estudo e treinamen-
da avaliação ou, também, formar um todo
to para saber o que se passa com a pessoa que com esta. Cruz12 afirma que
busca ajuda psicoterápica, o que pretende con-
seguir com a intenção de se tratar e quais os [...] o planejamento significa uma in-
meios a serem empregados. “Quantos anos? tenção de efetivar a psicoterapia de
Toda a vida do psiquiatra!”. determinada maneira em função dos
achados da etapa diagnóstica; e a in-
tenção não é um esquema rígido, mas
um esboço das linhas de trabalho a se-
Ao longo do trabalho, esse autor en- guir.
fatiza o risco de aceitar pacientes em trata-
mento psicoterápico “sem conhecer, com Uma avaliação cuidadosa deve permi-
alguma exatidão, seus problemas princi- tir ao terapeuta alguma noção prognóstica
pais e conflitos básicos”. Há risco de uma a ser levada em consideração no plano de
psicoterapia sem fim, distante das necessi- trabalho, para evitar ser “pego de surpre-
dades do paciente, “algo assim como duas sa” por um abandono, por exemplo, final
pessoas caminhando no escuro e na deso- sempre doloroso, especialmente para nós.
rientação – ou, talvez mais ainda, um cego Lewkowicz,13 estudando pacientes repeti-
conduzindo outro”.9 dores de consulta em psicoterapia breve,
Cruz10 refere-se a um colega que re- conclui ser “fundamental a avaliação inicial
comendava, de forma descuidada, que, em adequada do paciente, delineando o mais
psicoterapia, bastava questionar-se, antes de claramente possível seus objetivos e limita-
qualquer procedimento, “e por que não?”, ções”.

ILUSTRAÇÃO CLÍNICA 1
Um adulto jovem, no início de sua vida profissional, procurou um terapeuta por apresentar, segundo ele pró-
prio, muita dificuldade de relacionamento, um sentimento constante de “estar errado” que o impedia de fa-
(Continua)
Psicoterapia de orientação analítica 197

(Continuação)
zer uso dos conhecimentos que sabia ter. Com as mulheres, esse era um problema muito grave, pois aca-
bava desistindo das relações ante a menor contrariedade. Precisava estar sempre com a razão, o que pen-
sava ser “um absurdo”, mas sentia-se ofendido e sem valor se não fosse assim. Preferia, então, isolar-se,
mesmo que isso lhe trouxesse grande sofrimento. Essa, refere, era a razão da busca do tratamento, mesmo
não tendo certeza de poder ser ajudado efetivamente. Um padrão de funcionamento desse paciente, coe-
rente com a história de vida que contou, foi sendo reconhecido. Um esboço de planejamento, voltado para
esse padrão persistente e não de todo egodistônico foi se esboçando na mente do terapeuta. O paciente, en-
tão, disse que estava com uma viagem de estudos marcada para dali a três meses. Lutara muito por essa
possibilidade, sendo classificado entre os primeiros lugares, mas estava achando que não lhe seria possí-
vel ir, por inúmeras razões (nenhuma que pudesse apresentar com convicção), mesmo “sabendo que ia, até
já recebeu a bolsa para isso”.
O diagnóstico estabelecido, clínico e psicodinâmico, continuou valendo, mas fez-se necessário traçar
um plano de trabalho que considerasse a viagem, o significado que ela tinha para ele naquele momento e
a relação com o quadro geral descrito. O planejamento deveria viabilizar o exame de sua atual dificuldade
em levar adiante o ambicionado programa de estudos e aproveitá-lo, que possibilitasse ao paciente se dar
conta do padrão comum de sua conduta, procurando motivá-lo a seguir seu tratamento futuramente. Pode-
-se pensar que essa psicoterapia, se não levasse em conta, em seu planejamento, a circunstância das di-
ficuldades com a viagem, que o paciente estava tão relutante em admitir, talvez fosse vivida por ele como
estéril, confirmando sua noção de não poder ser ajudado e justificando, de seu ponto de vista, mais um re-
cuo em direção ao isolamento.

Dal Zot4 questiona: “por que alguém


procura um médico, um psiquiatra, um a­ tual por evidências, ampliaram o debate e a
psicoterapeuta?” e responde “porque tem necessidade de que nós, terapeutas de orienta-
algum sofrimento, uma necessidade, deseja ção analítica, procuremos prestar atenção a es-
sas questões, estudar, encontrar respostas que
um alívio, uma ajuda”. O terapeuta, por- favoreçam o reconhecimento dos resultados de
tanto, recebe uma pessoa em busca de aju- nosso trabalho. Nesse sentido, o planejamento
da. Cabe a ele indicar a ajuda que será mais da psicoterapia torna-se ainda mais essencial,
eficaz. Aguiar8 aponta que como medida de avaliação dos resultados, po-
dendo contribuir para a pesquisa, como já assi-
[...] não se pode mais prescindir de nalava Zimmermann.9
um acurado estudo diagnóstico, uma
vez que os recursos terapêuticos au-
mentaram e estão se tornando mais
específicos. Essas considerações, ainda que ne-
cessárias, dizem respeito a condições ex-
ternas ao exercício da psicoterapia, mes-
O desenvolvimento da psiquiatria biológica e mo que, inegavelmente, possam interferir
de outros métodos psicoterápicos, o contexto a em alguma medida. O que deve ser enfati-
que se convencionou chamar pós-modernida-
zado é nossa responsabilidade ao atender
de, com sua busca por resultados rápidos, com
pouco “custo”, além das exigências da ciência um paciente que nos procura por estar so-
frendo, responsabilidade que diz respeito,
198 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

também, a indicar-lhe o tratamento mais por “não concordar com o diagnóstico”,


efetivo. ou com “o jeito do terapeuta de falar com
ele”. O primeiro psiquiatra “diagnosticou”
transtorno de déficit de atenção/hiperati-
vidade, medicou-o, mas Rui não percebeu
Ao ser indicada a psicoterapia de orientação
analítica, precisamos saber identificar o pro-
“nenhum efeito”. O segundo “diagnosti-
blema do paciente, sua etiologia e suas re- cou” fobia social, com o que não conseguia
percussões e traçar uma estratégia de abor- concordar, por ser bem disposto, gostar de
dagem que possibilite alívio de seu sofrimen- sair, ter amigos, só às vezes estando mais
to e, se possível, ampliação de sua capacidade quieto. Mesmo assim, ficou dois meses com
de questionar, estranhar sua forma habitual de ele, “tentando”. Da terceira vez, sentiu-se
funcionamento, permitindo-lhe uma vida mais mais auxiliado. O terapeuta “diagnosticou”
rica e criativa. Como ensina Valério,15 uma psi-
coterapia não aborda apenas os problemas de
ser ele um “filho mimado” e ficava mos-
uma pessoa, mas também sua dificuldade de trando-lhe isso. Apesar de considerar ter
resolvê-los. sido o que mais o ajudou, acabou achando
que não estava adiantando. Disse ser uma
pessoa que “não se esforça”, prova disso era
já estar na segunda faculdade. “Também
Nas palavras de Lucion,16 “permane-
não tenho opinião própria, o que me dizem
ce a necessidade de que se entenda o que
concordo” e “sou um zero nessa coisa de
os sintomas significam para aquela pessoa
entender sentimentos”.
que está ali conosco”. Levy17 considera a
Quando o terapeuta assinalou a dis-
psicoterapia de orientação analítica, assim
crepância entre esse julgamento de si mes-
como a psicanálise de que deriva, métodos
mo e os fatos que contara (não se esforçar e
de atribuição de significado que procuram
ter entrado em duas faculdades; estar indo
“ampliar a mente com a criação de mode-
ao quarto psiquiatra e ser alguém que con-
los mentais que permitam pensar melhor
corda com tudo), riu e disse:
determinada situação”.
Os vestibulares eram muito fáceis...
Não concordei, mesmo, com os ou-
PLANEJAMENTO: O QUÊ? tros psiquiatras, mas é ver os estágios:
não consigo fazer! Acho muita boba-
gem, como vou me sustentar, manter
Rui, um rapaz de 21 anos, procedente do
o nível com que estou acostumado,
interior do Rio Grande do Sul, morando provar que posso ter valor? Eu sinto
sozinho em Porto Alegre para concluir os que meu pai nunca me aprova, nun-
estudos na faculdade que cursa, procurou ca me aprovou. Ele era de uma família
atendimento psicoterápico encaminhado muito pobre, conseguiu subir na vida,
pela namorada. Sua ansiedade e seu so- me dá o que nunca teve, sinto que não
frimento eram evidentes. Queixava-se de correspondo... Agora ele quer que eu
“não conseguir evoluir na faculdade ou nos volte para casa, diz que eu não vou
para a frente, então que vá trabalhar
estágios”. com ele, que ganho mais... trabalho
Contou ser aquela a quarta tentativa com ele desde meus 12 anos, não que-
de tratamento que fazia. As tentativas an- ro mais, acho. E tenho minha namo-
teriores não deram certo, então abando- rada aqui, gosto de Porto Alegre, mas
nou os tratamentos após algum tempo, ou como dizer que eu não quero voltar,
Psicoterapia de orientação analítica 199

depois de todo o sacrifício que ele fez? sido acurados ou não, algo não foi atendido
E também não tenho certeza de nada, de sua busca. Nossa avaliação faz pensar no
começo um estágio, acabo achando encaminhamento para um tratamento de
que sei mais que meus chefes... e em
orientação analítica, devido ao padrão re-
geral sei, mesmo, afinal aprendi muito
lá, trabalhando com o pai... petitivo de sua conduta e à evidência de um
conflito inconsciente na raiz desta. Vollmer
Essa entrevista inicial ilustra o que os Filho20 salienta que “o conflito inconscien-
autores referem sobre nossa responsabi- te configura a realidade psíquica”.
lidade ao receber um paciente. Rui já foi, Como atender esse paciente sem re-
segundo disse, “diagnosticado” de várias conhecer a importância de seu conflito
maneiras, o que faz pensar no alerta dos inconsciente com o pai e com a posição
autores citados anteriormente: talvez esses infantil, que se faz tão evidente sob nosso
diagnósticos estivessem adequados, mas ponto de vista? A motivação, aspecto de-
não tenha sido levada em consideração a terminante dos resultados de tratamento,21
necessidade do paciente de manter a situa­ não favorece o encaminhamento para psi-
ção de sua vida inalterada, provavelmente canálise. Em uma psicoterapia de orienta-
pelo ganho secundário envolvido. Mesmo ção analítica, seria possível levar em con-
reconhecendo ser essa a versão que ele sideração esses aspectos (busca repetida de
apresenta, de nosso ponto de vista, já está atendimento, padrão repetitivo de aban-
mostrando muito do que precisamos saber. dono e insatisfação, pouca motivação) e
Em sua história, aparecem dificuldades de estabelecer um foco, compreendido como
manter-se não só em tratamento, mas tam- o que é central do conflito do paciente que
bém em relações de namoro ou amizade. possa tornar-se o ponto de convergência
Em pouco tempo, sente-se insatisfeito, das atenções do terapeuta.22 Tal foco, ine-
afastando-se por não estar recebendo o que vitavelmente, aplicaria o que Etchegoyen23
esperava. Alice Lewkowicz,18 ao estudar in- afirma ser o fundamental em psicoterapia
terrupções em psicoterapia breve, afirmou de orientação analítica: o conflito atual,
que “o abandono pode ser enfocado como “uma conjuntura da vida que desequili-
uma compulsão à repetição”. brou o paciente e lhe provoca um conflito
É importante assumir que, apesar do que não é capaz de resolver com seus ins-
apelo a nosso narcisismo, a interrupção trumentos comuns”.23 “O estabelecimen-
constitui o mais provável desfecho de mais to desse foco é o passo inicial do planeja-
essa tentativa de atendimento desse rapaz. mento, imediatamente associado a todo
Tendo isso em mente, haveria possibili­dade trabalho tático de exploração das defesas e
de planejar uma psicoterapia de orientação ansiedades que previnam o paciente dessa
analítica com alguma chance de bons re- percepção”, alerta Schestatsky.3
sultados para Rui? Por que psicoterapia de O estabelecimento de um foco, por
orientação analítica? parte do terapeuta, deve encontrar con-
Cordioli19 refere que os resultados cordância no paciente para que seja efeti-
da psicoterapia dependem do paciente, do vo. Essa concordância foi a variável que se
terapeuta e da técnica, nesta incluída a re- mostrou estatisticamente significativa em
lação entre terapeuta e paciente. Rui segue relação aos resultados de psicoterapia no
procurando ajuda. Já foi atendido sob di- trabalho feito por Mondrzak,22 em 1983,
ferentes enfoques. Independentemente de achado que está de acordo com outros da
os diagnósticos que diz ter recebido terem literatura,2,21,24 de uma época em que se
200 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

estudava e trabalhava muito com psicote- com o foco mostrou-se mais determinante
rapias breves e focais psicodinamicamente dos resultados do que a própria motiva-
orientadas (como atesta a breve revisão da ção. Com Rui, seria possível pensar que sua
literatura realizada para este capítulo). ansiedade difusa e a onipotência defensi-
Formada nesse período, ainda hoje va que contribuem para o que ele mesmo
esses conceitos auxiliam minha prática psi- descreve como ser “um zero em matéria de
coterápica. Não poderia pensar em atender sentimentos” protegem-no de entrar em
Rui, por exemplo, sem delimitar um foco a contato com a dimensão real de sua limi-
partir do qual tentar fazer o paciente reco- tação e com a necessidade de responsabili-
nhecer o padrão repetitivo de seu funcio- zar-se pelo que é seu. Sua atitude distante e
namento e se interessar por isso. Para tan- crítica em relação aos terapeutas e às tera-
to, acredito, teria que buscar, como sugere pias anteriores pode ser compreendida co-
Cruz,10 a ansiedade emergente na sessão. mo mais uma forma de repetir seu conflito,
Com Rui, talvez se pudesse esboçar uma “triunfando sobre os chefes”, para não pre-
aproximação por meio da situação que cisar viver a dor de entrar em contato com
descreve do pai querendo que retorne a sua o significado do que repete. A delimitação
cidade de origem e ele sem saber se o quer, de um foco que conseguisse despertar seu
mas criando uma condição de fracassos interesse poderia desencadear um processo
repetidos que parecem justificar tal exigên- de reflexão que o paciente evita por meio
cia. Seria possível, então, mostrar o que in- da ação repetitiva e compulsiva (está sem-
conscientemente provoca, ao criar situações pre iniciando um estágio, uma psicotera-
repetidas de fracasso, apesar das condições pia), lembrando os ensinamentos de Freud
que também demonstra ter, ao ser aprovado em Recordar, repetir e elaborar.25 Para isso,
nas posições a que concorre. Com essa abor- o foco precisaria ser formulado com clareza
dagem de um possível conflito atual (ainda e especificidade, captando e dando sentido
não percebido como tal), em que seu papel à ansiedade manifesta.
ativo na determinação das circunstâncias Mondrzak,22 estudando a concor-
pode aparecer, também se objetiva aumen- dância do paciente com o foco, descreve
tar sua motivação e seu interesse pelos pro- ser possível que este mostre sinais de con-
cessos internos que o mantêm na condição cordância desde o início do tratamento,
de vida de que tanto se queixa. após um período inicial de discordância,
Mabilde e Araújo,11 em trabalho que ou não mostre sinais de concordância du-
enfatiza a importância do planejamento rante todo o tratamento. Rui mostrou-se
em um caso de transtorno da personalida- “entusiasticamente de acordo”, desde o
de, afirmam que o planejamento, tendo em início: “maravilhou-se”, como dizia, com
vista o “jeito de ser” de uma paciente, tra- a possibilidade de entender o acúmulo e a
balhado dentro do foco proposto (no caso, repetição de situações em que se sentia de-
a relação com o noivo), “permitiu que seus cepcionado com o que recebia ou realizava,
constantes actings não a levassem a inter- passando a inundar as sessões com raciocí-
romper o tratamento”. O estabelecimento nios aparentemente profundos, tornando-
de um foco com o qual Rui concordasse e -as paralisadas, do ponto de vista da tera-
que atendesse a essa concepção possibilita- peuta. Foi possível examinar esse mecanis-
ria que o paciente levasse adiante a psicote- mo dentro do foco proposto (criava outra
rapia e se beneficiasse dela. De acordo com situação de fracasso, apesar da aparência de
Mondrzak,22 a concordância do paciente “total cooperação e entusiasmo”, que o pro-
Psicoterapia de orientação analítica 201

tegia de decidir o futuro de sua própria vida, incluem especialmente a reação ina-
atribuído, então, ao “pai tão bem-sucedido dequada a estresses específicos, não
que o chamava para casa” e à “terapeuta bri- apenas desaparecem, mas são subs-
tituídas pelas respostas “adequadas”
lhante que o chamava para Porto Alegre”),
correspondentes.
com alguma possibilidade de progresso, ain-
da que evidenciados a força das resistências Nas palavras de Eizirik e colaborado-
e a estrutura de caráter subjacente. res,27
[...] na psicoterapia de orientação
analítica, os objetivos de “máximo be-
Convém lembrar o quão fascinante é o estudo
nefício terapêutico” vêm em primeiro
da mente, correndo-se o risco de ficar “encon-
lugar, acima da prioridade psicanalí-
trando significados” cada vez mais elaborados,
tica do “máximo conhecimento de si
à custa de uma psicoterapia de bons resulta-
mesmo”.
dos. Isso implica pensar o que são considera-
dos bons resultados em psicoterapia de orien-
Cruz10 refere que,
tação analítica, ou, em outras palavras, com
que objetivos se trabalha. [...] na psicoterapia, abordam-se os
con­flitos derivados, e sua resolução
cria “pontos intermediários de estabi-
Zimmermann26 considera objetivos lidade”; intermediários no sentido de
da psicoterapia dinâmica não apenas a re- que não se chega a uma resolução, via
neurose de transferência, dos conflitos
dução significativa de sintomas, inibições primitivos.
e angústias dos pacientes como também a
resolução ou a diminuição da intensida- Essas questões das distinções entre
de dos problemas nas relações de objeto, psicoterapia de orientação analítica e psi-
a melhora no padrão de vida, o aumento canálise são complexas e continuam sendo
da produtividade no trabalho e a melhora estudadas, mas os autores coincidem quan-
na capacidade de obter satisfações. Esses to a ser objeto de ambas o trabalho com o
objetivos, afirma, sempre serão limitados inconsciente. “Encantar-se” com as “des-
em relação aos da psicanálise, por dizerem cobertas” realizadas pode levar a psicotera-
respeito a uma situação crítica ou a um ou pias vagas, intermináveis.
mais focos de perturbação ou imaturidade,
e não à estrutura básica da pessoa.
Para Malan,4 A regressão inevitável do paciente pode acio-
nar aspectos narcisistas do terapeuta que per-
[...] o aproveitamento de um paciente mitam a manutenção de pseudopsicoterapias
deveria ser formulado em termos da de orientação analítica que, em última instân-
“resolução” de seus conflitos, objeti- cia, atendam a necessidades infantis (ou me-
vo de todas as formas de psicoterapia. nos nobres...) do par. Um planejamento preten-
No entanto, este é um conceito difícil de evitar esse risco, ainda que não o exclua.
de definir, quanto mais medir, sendo,
por isso, necessário recorrer a uma de-
finição operacional baseada em senti-
mentos que possam ser observados ou Freud, citado por Eizirik,28 defendia
descritos. De acordo com esta defini- que a psicoterapia, se não pode causar mal al-
ção, presumimos ter havido resolução gum, também não pode fazer qualquer bem.
quando respostas “inadequadas”, que Em outras palavras, nosso instrumento­tem
202 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

alcances e limitações. E riscos. O planeja-


mento de uma psicoterapia deve, obriga- No planejamento de uma psicoterapia, tendo
toriamente, levar isso em consideração. Se, sido essa a indicação, convém reconhecer que
na avaliação, é imprescindível o estabeleci- lidamos com processos complexos e que a bus-
ca de significado, mesmo que não seja o único
mento de uma hipótese diagnóstica clínica recurso disponível, tem provado ser essencial e
e psicodinâmica que norteará a indicação, determinante da possibilidade de mudança de
no planejamento da psicoterapia de orien- nossos pacientes.29
tação analítica direcionada à motivação, os
objetivos (conscientes e inconscientes, se
possível) e os recursos do paciente devem Rui, por exemplo, talvez pudesse
ser considerados, sob pena de estabelecer-se ter-se beneficiado das técnicas de atendi-
um plano distanciado de suas necessidades. mento que lhe foram propostas anterior-
Malan4 descreve a impossibilidade de mente. Podemos pensar que a avaliação e
encontrar um foco adequado como motivo o planejamento realizados tenham deixado
de recusa de pacientes. Segundo ele, isso de considerar as forças psicodinâmicas em
ação, tornando, então, inócuas as possibi-
[...] pode significar tanto a incapaci- lidades oferecidas por essas abordagens.
dade para ver qualquer foco ou tema Kandell30 estudioso da memória premiado
unificador para interpretações quan- com o Nobel em 2000, afirma ser mente/
to, enfatizando a palavra “adequado”,
cérebro um único e complexo sistema, ain-
poderíamos ter a situa­ção em que se
podia ver um tema unificador, mas da pouco conhecido por nós.
este parecia envolver certos perigos Cruz31 dá ênfase ao fato de que a
específicos, se fosse feita uma tentati- hipótese diagnóstica inicial está sujeita a
va de utilizá-lo em psicoterapia breve. ­alterações, tanto no que se refere aos aspec-
tos clínicos quanto no que diz respeito aos
Apesar de esse autor referir-se a psico- aspectos dinâmicos, conforme o terapeuta
terapias breves, com um número de sessões vai ­conhecendo mais e melhor o paciente.
reduzido, os perigos de que fala também
existem para psicoterapias sistemáticas e Em função disso, é necessário que o
terapeuta tenha a flexibilidade de rea-
devem ser considerados no delineamento
valiar a hipótese inicial no mesmo rit-
do planejamento e do foco. Malan4 refere mo em que vai co­lhendo novos dados
o “perigo” de não se poder iniciar efetiva- e que, inclusive, possa alterar seu pla-
mente ou concluir o processo psicoterá- no à medida que as hipóteses iniciais
pico, além do risco de surtos depressivos vão sendo complementadas.
ou psicóticos em pacientes com estruturas
mais frágeis. Evidencia-se não só ser o pla-
nejamento um todo com a avaliação como O planejamento deve ser, pois, um processo di-
também nossa grande responsabilidade ao nâmico e constante ao longo da psicoterapia,
receber um paciente, em especial diante de para não corrermos o risco de lidar com nos-
múltiplas possibilidades de tratamento hoje sos pacientes como se fossem sempre o mes-
mo ser, negligenciando até mesmo as modifi-
disponíveis, cada uma com sua especifici-
cações ocorridas como resultado do próprio tra-
dade de ação. É preciso conhecimento dos balho psicoterápico ou desejando que tenha
procedimentos disponíveis para fazer a me- condições que ainda não tem e que talvez nem
lhor indicação para o paciente, naquele mo- venha a ter.
mento específico de sua vida.
Psicoterapia de orientação analítica 203

Eizirik28 descreve uma paciente fóbi- ves, mais regressivos, que nos procuram.
ca que começava a apresentar progressos São tentativas válidas que atestam a com-
quando recebeu um convite para uma via- plexidade dos fenômenos mentais, pois
gem profissional que lhe seria muito bené- medidas medicamentosas e cognitivo-
fica, mas que não queria aceitar. -comportamentais, para citar algumas, não
têm podido, sozinhas, alcançar os resulta-
O terapeuta, mantendo-se no foco, dos desejados com esses pacientes, o mes-
interpreta o castigo que a paciente se mo fenômeno observado em nossa área.
impõe como resultado de suas fanta-
sias agressivas de triunfo sobre a mãe.
Na IX Jornada de Psiquiatria da Região
Sul e VI Jornada Gaúcha de Psiquiatria,
O terapeuta intervém mais do que realizada em julho de 2003, um convidado
costuma fazer, procurando mostrar as americano, Andrew Nierenberg, eminente
vantagens da viagem, até que a paciente psiquiatra “biológico”, terminou sua pa-
protesta: “Mas como? Se eu não consigo lestra sobre o tratamento de pacientes com
nem ir ao cinema sozinha, como é que vou transtornos bipolares dizendo que precisa-
entrar num avião e me afastar de minha mos, urgentemente, de novas terapêuticas.
família?”.28 Além das implicações pesso- Talvez uma boa possibilidade fosse o que
ais do terapeuta, que declara interesse em então sugeriu Cláudio Eizirik, um dos edi-
fazer uma viagem como aquela, mas que tores deste livro: a integração com métodos
não tinha condições para tanto, aparece o psicoterápicos. Fonagy32 pensa na mesma
risco de deixar de avaliar constantemente o direção, ao afirmar que os terapeutas que
estado mental do paciente e a terapia, afas- trabalham com métodos psicodinâmicos
tando-se do planejamento realista. devem tentar uma aproximação maior com
A grande e definitiva limitação da outras áreas do trabalho com a mente, para
psicoterapia de orientação analítica (pres- aprender e mostrar o valor da contribuição
supondo ser conduzida por profissional que têm a dar. E aproveitar as contribuições
capacitado) reside na pessoa do paciente, de outras abordagens, eu acrescentaria.
em sua motivação, no reconhecimento de
sofrimento, em seus recursos de ego, que,
se insuficientes, podem inviabilizar a téc- PLANEJAMENTO: COMO?
nica. Nas palavras de Schestatsky,3
Schestatsky3 afirma que a
[...] não seria ocioso repetir a impor-
tância de sempre se visualizar o sis- [...] dificuldade de planejar uma psi-
tema defensivo operando mais ativa- coterapia é diretamente proporcional
mente no paciente, assim como seus à dificuldade de conceitualizar tanto a
recursos de ego disponíveis (capaci- natureza dos processos mentais quan-
dade de estudar, trabalhar, ter vida se- to a natureza dos seus processos cura-
xual ativa) e principalmente sua mo- tivos.
tivação para se submeter a um trata-
mento tão árduo e oneroso de tantos Acredito nas palavras desse autor,
pontos de vista, especialmente o emo- quando defende que, “na psicoterapia de
cional. orientação analítica, estamos discutindo,
basicamente, o modelo intrapsíquico, psi-
Em nossos dias, esforços vêm sendo codinâmico”, e reforço sua declaração de
feitos para atender os pacientes mais gra- que
204 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

ainda que adotássemos outro mode- tão relacionados a experiências infantis que
lo referencial, não mudaria a exigên- originaram conflitos básicos, resolvidos de
cia de que seu domínio eficaz perma- modo inadequado. Antes do início das ma-
necesse sendo de crucial relevância.3
nifestações clínicas, os conflitos intrapsí-
O modelo psicodinâmico implica um quicos são manejados por padrões peculia-
modelo de conflito psíquico. res de defesa, os traços de caráter, mas, pela
interferência de um fator desencadeante, os
Tal modelo implica conhecimento ar- métodos previamente utilizados para man-
ticulado e dinâmico de, basicamente, ter o equilíbrio falham e os sintomas apa-
três processos: o de impulsos, neces- recem. Tais sintomas revelam importantes
sidades e desejos, o de ansiedades as- elementos dos conflitos e dos meios pelos
sociadas a eles e o de mecanismos de
quais o ego tenta lidar com eles e se manifes-
defesa mobilizados – todos em nível
inconsciente e gerando sintomas cuja tam nas relações atuais da vida do paciente e
função é ao mesmo tempo defensiva na sua relação com o terapeuta, com repeti-
e expressiva. Confusões e imprecisões ção de relações do passado.12
maiores sobre os principais elementos Tal concepção permitiu que autores
deste modelo e de sua interação e orga- considerados “radicais” quanto aos efei-
nização implicarão, na prática, planos tos da psicoterapia breve afirmassem que,
terapêuticos igualmente confusos e es-
trabalhando o conflito atual, estaríamos,
tereotipados, resultando na execução
de tratamentos viciosos, intermináveis, de alguma forma, lidando também com o
que se esgotam em um grande número conflito nuclear. Mesmo não sendo “radi-
de impasses.3 cais”, ao recebermos um paciente, vemos
uma pessoa que sofre, ora apresentando
sua situação como ligada a um fato espe-
Os autores concordam com a necessidade de, cífico, ora a apresentando de maneira vaga.
indicada uma psicoterapia de orientação analí- A noção de foco como “ponto de urgên-
tica, delimitar-se um foco de trabalho que evite cia”12 possibilita que examinemos o que
a dispersão possibilitada pelo atrativo da com- está determinando de forma mais aguda o
plexidade de fenômenos que se produzem nes-
sa relação. sofrimento do paciente, procurando, com
isso, não só o alívio de seu sofrimento co-
mo também sua vinculação ao tratamento.
Indicada a psicanálise, tal risco é evi- A experiência com Vera exemplifica esse
tado pela centralização do trabalho na rela- ponto.
ção transferência/contratransferência. Cruz12 refere que a psicoterapia de
Cruz12 resume as concepções de Wal- orientação analítica
lerstein a respeito da psicopatologia no
[...] utiliza como técnicas a interpre-
modelo psicodinâmico, segundo o qual
tação transferencial e extratransfe-
a doença mental deriva de conflitos in- rencial, juntamente com intervenções
trapsíquicos que são predominantemente não diretivas, confrontações, assinala-
inconscientes, constituídos de impulsos mentos, esclarecimentos e até inter-
instintivos que geram ansiedade e, como venções de apoio, partindo das asso-
consequência, defesas. Esses conflitos es- ciações do paciente.
Psicoterapia de orientação analítica 205

ILUSTRAÇÃO CLÍNICA 2
Vera é uma mulher jovem, casada há cinco anos com um homem que diz amar. Há seis meses, nasceu-lhes
uma filha saudável que lhes traz muita satisfação, “apesar da trabalheira”. Há cerca de três meses, Vera
começou a sentir-se triste, lamentando que, “ainda que tenha uma vida tão boa, nunca tenha se sentido
sexualmente satisfeita”.
A psicoterapia, concebida para examinar esse problema, transcorria sem ameaças de abandono ou ou-
tras queixas por parte da paciente, mas em um clima de monotonia e falta de perspectivas. A terapeuta
pensou que a “urgência” que parecia ausente talvez resultasse de um foco defensivo, ainda que a queixa
fosse razoável. Com isso em mente, pôde perceber que a paciente sempre vivera isso que chamava “sua
vida sexual morna”, sem sentir que precisava buscar atendimento. À medida que questionamentos come-
çaram a ser trazidos, foi possível perceber que o desencadeante da procura estava ligado predominante-
mente à condição de mãe de Vera. O foco mudado para esse tema permitiu um engajamento muito maior
da paciente e possibilitou uma noção mais clara de suas dificuldades, inclusive sexuais, ligadas à relação
com a mãe, até então idealizada.

pia breve e focal enfatizam a necessidade


O foco é concebido como o tema principal em de selecionar para essas técnicas pacientes
torno do qual convergem as interpretações do com motivação, definida como sofrimento
terapeuta. (egodistonia), e com quem se pudesse esta-
belecer um foco nas primeiras entrevistas.

Tema principal que é consequência


direta do entendimento do conflito cen-
tral do paciente. Malan4 conta ter ouvido Em nossos dias, quando recebemos pacientes
muitas vezes a pergunta “Como é possível por vezes tão comprometidos, a busca de um
foco é importante na tentativa de ajudá-los não
manter as interpretações no foco?”. Res-
só a se vincular ao tratamento como a apren-
ponde sempre ter achado essa uma questão der a pensar psicologicamente, mesmo quando
difícil, pois acredita que a combinação com outras técnicas se faz ne-
cessária.
[...] a melhor forma de manter as in-
terpretações dentro do foco é, em pri-
meiro lugar, selecionar pacientes com
um foco definido e, depois, formular Valério15 destaca a necessidade de
um plano terapêutico correto.4 uma aproximação afetiva com o foco por
parte da dupla e, para isso, acredita ser ne-
Schestatsky33 insiste na associação de, cessário o entendimento dos traços de ca-
pelo menos, dois elementos: sofrimento ráter do paciente. Vollmer Filho20 afirma
psíquico com seus sintomas e um confli- que “[...] não basta o esclarecimento racio-
to identificável. Dal Zot21 descreve como nal para que se possa obter a remissão dos
os autores que se dedicaram à psicotera- sintomas”. Os autores consultados concor-
206 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

ILUSTRAÇÃO CLÍNICA 3
João, um senhor de meia-idade, procurou psicoterapia de orientação analítica depois de inúmeras tentati-
vas de atendimento que abandonava por dizer incapazes de ajudá-lo. O quadro depressivo grave, melancó-
lico, impossibilitava sua vida profissional e de relações. Era muito difícil identificar um fator desencadean-
te. Dizia ter sido sempre assim, apesar de ter trabalhado e mantido alguma vida social até há alguns anos.
Nas sessões, mostrava-se interessado, mas criava um clima desvitalizado que não conseguia reconhecer.
Parecia querer mudar, mas estar impedido por sua grave patologia. Apesar dos sentimentos contratransfe-
renciais de desânimo, impotência e desespero, a terapeuta sentia-se mobilizada pela vida vazia, pela dor
do paciente, pelo sentimento que transmitia de precisar de ajuda.
Os terapeutas anteriores haviam indicado uso de medicação, com o que a terapeuta atual concorda-
va, devido especialmente aos riscos que apresentava, inclusive de suicídio. A recusa de João em seguir de
forma adequada as orientações quanto à medicação tornou-se o foco do tratamento. Lenta e dolorosamen-
te, esse trabalho foi permitindo entender melhor os sentimentos persecutórios, as queixas do paciente com
aqueles que deveriam cuidá-lo e sua reação vingativa de impedimento ante a “ameaça” de alguma ajuda,
mesmo aquela decorrente do efeito da medicação, ao tirar-lhe a justificativa para seguir “provando” a in-
capacidade dos cuidadores.
Sua história passada começou a ser trazida sob outro vértice. Maus-tratos repetidos por parte de uma
mãe deprimida puderam fazer sentido para ele, que “já contara isso muitas vezes, ouvindo interpretações
parecidas, sem que lhe parecesse fazer sentido”. Em uma das sessões, algo comovente ocorreu, quando ex-
clamou que nunca pensara no que sentia quando apanhava sem saber a razão, ou ficava esquecido na es-
cola. O fato de o reconhecimento de sua conduta ocupar o lugar do enfrentamento com seus sentimentos foi
muito difícil. Ao longo desse árduo processo, em que já usava corretamente a medicação, trouxe a morte da
mãe, ocorrida há alguns anos, como possível desencadeante do quadro atual, algo já levantado em outras
psicoterapias, mas que agora parecia fazer sentido: já não tinha a mãe para castigar, esse fora o último
abandono. O tratamento seguiu difícil; a melhora foi obtida de forma lenta e restrita, como o prognóstico do
paciente, mas um caminho para o pensamento começou a se esboçar. Acredito que, sem o estabelecimento
do foco inicial em sua dificuldade de usar de modo correto a medicação, não teria sido possível obter esse
resultado. Tal foco era trabalhado, basicamente, na relação de João com a terapeuta e suas orientações,
entendidas como atributos desta.

dam com essa recomendação, na medida conflito atual. A segunda alternativa, de


em que o padrão de relacionamento deter- seu ponto de vista, é possibilitar o trabalho
minará a vivência do paciente daquilo que ­sobre o traço de caráter do paciente.34
acontece na psicoterapia. Desse ponto de As possibilidades de operacionaliza-
vista, as interpretações transferenciais se- ção do foco estabelecido são múltiplas e
rão instrumento importante. dependem das condições do paciente, do
Vollmer Filho34 esclarece duas pos- terapeuta e do campo de trabalho que se
sibilidades que podem evoluir a partir da estabelece. Cruz12 sugere que
interpretação transferencial. A primeira é
a correção da identificação projetiva emer- [...] o plano a seguir em um dado mo-
gente no aqui e agora, o que, uma vez atin- mento chama-se plano estratégico, e o
gido, permite a continuação do exame do conjunto de princípios que seguimos
Psicoterapia de orientação analítica 207

para levá-lo a bom termo se conhece de forma efetiva como tentativa de não
por estratégia. O conjunto de medidas melhorar, mostrando como ela lhe falha-
utilizado para executar o plano estra- va, o objetivo era o reconhecimento de sua
tégico se chama tática.
necessidade de manter a convicção de não
precisar cuidar da própria vida, pois não
recebia o que lhe era devido. Já com Rui,
Utilizando noções inicialmente vinculadas aos era possível observar sua busca de gratifica-
afazeres da guerra, mas logo aproveitadas para ção oral com o encantamento que procu-
qualquer empreendimento humano que exigis- rava impor no campo – gratificação sádica,
se um planejamento para conseguir determina- na medida em que, assim, fantasiava triun-
do objetivo, como descreve, Cruz12 enfatiza a
far sobre a terapeuta. Interpretar isso, nesse
necessidade de avaliar as forças em ação na
determinação e na manutenção do problema momento, corria o risco de servir para mais
do paciente, para estudar de que forma e utili- uma manobra defensiva. O foco escolhido
zando que recursos (interpretações transferen- visava a perturbar o equilíbrio mantido pe-
ciais, extratransferenciais, confrontações, in- lo paciente, favorecendo o reconhecimento
tervenções mais diretas ou questionamentos, de sua participação ativa nos acontecimen-
por exemplo) trabalhar com ele. tos, com vistas a que pudesse mudar.
Outra questão importante diz respei-
to ao tom usado. Alguns pacientes reagem
Esse autor considera ser a “arte” do mal a formulações com humor, enquanto,
psicoterapeuta reunir os dados obtidos ao para outros, elas podem ser de ajuda. Da
longo da avaliação para um planejamento mesma maneira, os termos utilizados na
que permita um trabalho com formulação das interpretações devem ser
coerentes com os utilizados pelo paciente.
[...] uma dose de sensibilidade e bom
senso que permita utilizar esses prin-
cípios nos momentos e modos ade-
quados; saber distinguir o que desta- Cabe ressaltar que o paciente e a relação tera-
car no material do paciente, o que dei- pêutica sofrem modificações ao longo do pro-
xar de lado por uns tempos e o que, cesso, podendo haver mudança nesses pa-
definitivamente, não abordar na psi- drões.
coterapia.12

A experiência psicoterápica me en- Um planejamento deve conter algu-


sinou que, ao levantar uma hipótese de ma noção do que deve ser atingido para
trabalho (como Etchegoyen,35 considera a poder pensar em alta. Tendo sempre em
interpretação), devemos ter alguma ideia mente que o planejamento não é estático,
do que pretendemos. Ao formular uma in- evolui com a psicoterapia, objetivos a se-
terpretação transferencial em psicoterapia, rem alcançados devem ser traçados. Assim,
talvez a intervenção mais suscetível de re- com Vera, o objetivo não foi que atingisse
sultar inócua (seja por banalização, desen- uma vida sexual mais satisfatória, pois di-
cadeamento de ansiedade intolerável, seja zia não ter sentido essa necessidade até o
pelo uso defensivo do paciente, para citar nascimento da filha, mas que retomasse sua
algumas possibilidades), há que se ter claro condição de cuidá-la sem se sentir despo-
“para quê”. Com João, quando a terapeuta jada de sua condição feminina. Atingidos
mostrava sua recusa em usar a medicação esses objetivos, a paciente poderia sentir-se
208 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.)

pronta para levar sua vida ou desejosa de [...] o elemento central da psicotera-
ir adiante na conquista de satisfação, espe- pia, o veículo por meio do qual ela
cialmente sexual. causará benefício, dano ou nada fará
resultar, situa-se precisamente na re-
lação que se estabelece entre o médico
e o paciente.
Motivação para seguir buscando compreender
seus processos mentais deve ser sempre consi-
derada um bom resultado.
O trabalho em psicoterapia de orientação ana-
lítica exige do terapeuta constante estudo, ex-
periência de supervisão e tratamento pessoal,
A responsabilidade de assumir um pois o instrumento de que dispomos somos nós
tratamento exige muito do terapeuta. O mesmos, e a responsabilidade de ajudar outro
trabalho de definição de um foco e de es- a se aproximar de si mesmo é muito grande.
tabelecimento de um planejamento, nos
moldes descritos, talvez nos proteja de me-
recer o que Freud1 chama “vaidade e falta A complexidade disso pode ser capta-
de reflexão” daquele que, “com o mais bre- da na observação de Cruz,31 quando afirma
ve conhecimento”, opina sobre “um estra- que “o paciente, afinal, está nos procurando
nho, completamente ignorante de todos os para que o ajudemos na vida dele, e não para
princípios da análise”. que organizemos a sua vida de acordo com
nossas concepções”.
Intervir nos processos mentais de
outro que nos procura para isso é entrar
Faz-se necessário que, em respeito às pessoas em uma relação subjetiva que também nos
que nos procuram para tratamento, à teoria e à
técnica a que dedicamos tanto de nossas vidas,
envolve, exigindo que estejamos atentos à
possamos admitir o quanto precisamos apren- “neutralidade possível”,36 que mantenha-
der com nossos pacientes para poder ajudá-los mos o foco nas necessidades e nos valores do
e como esse aprendizado será determinante de paciente. Acredito ser essencial o que Melt-
nossa capacidade. zer37 ensina quando defende ser meta do
tratamento psicodinâmico ajudar o paciente
a responsabilizar-se pelo que é seu, por meio
do insight. Não para culpar-se, eu diria, mas
CONSIDERAÇÕES FINAIS para abrir possibilidades de mudar ao rom-
per com um padrão estereotipado, exclu-
Keidann,14 lembrando que mesmo uma sivo, portanto limitante, e poder usar com
avaliação cuidadosa não pode prever o que mais flexibilidade os múltiplos recursos dis-
vai ocorrer ao longo da psicoterapia, sus- poníveis à mente para lidar com a complexi-
tenta ser essencial apreciar as condições da dade da vida, em seus prazeres e frustrações,
dupla, da pessoa do terapeuta e do pacien- sem perder a capacidade de se encantar, de
te, pois “ambos já estão envolvidos numa pensar, de imaginar e de se relacionar.
interação dinâmica”, da qual os temores à Nosso instrumento permite múltiplos
mudança fazem parte. Segundo Eizirik,28 conluios inconscientes, sendo responsabili-
Psicoterapia de orientação analítica 209

dade do terapeuta evitar isso. A avaliação lho. Isso é imperativo para não corrermos
cuidadosa, com o estabelecimento de um o risco de atender ao que exclamou uma
foco e de um planejamento em constante paciente, ante a perspectiva de alta de um
reavaliação que atendam às necessidades processo psicoterápico de bons resultados:
do paciente, dentro dos critérios descritos, “como, se o mundo vai continuar cheio de
pode, como já referido, servir como orien- problemas!?”...
tação nesse nosso fascinante e difícil traba-

PONTOS-CHAVE DO CAPÍTULO

1. A psicoterapia de orientação analítica, quando indicada, exige uma avaliação o mais precisa possível
das condições do paciente, tanto as que motivaram a procura do tratamento quanto os fatores de
saúde, para que um processo efetivo seja estabelecido e o paciente possa obter benefícios.
2. Paciente e terapeuta, guardadas as diferenças de função, propõem-se a iniciar um processo que envolve,
invariavelmente, investimentos e custos diferentes para cada um, é verdade, mas igualmente importantes.
3. Uma psicoterapia de orientação analítica impõe uma cuidadosa formulação psicodinâmica para que
um adequado planejamento seja estabelecido. Considera-se que o problema atual do paciente seja
causado predominantemente por fatores inconscientes (conflito atual), possivelmente com raízes na
infância (conflito nuclear). Precisamos saber identificar o problema do paciente, sua etiologia e reper-
cussões e traçar uma estratégia de abordagem que lhe possibilite alívio do sofrimento e, se possível,
ampliação de sua capacidade mental, permitindo-lhe viver sua especificidade, dando sentido próprio
às suas experiências e, assim, contribuindo para uma vida mais rica e criativa.
4. No planejamento de uma psicoterapia, tendo sido essa a indicação, convém reconhecer que lidamos
com processos complexos e que a busca de significado, mesmo que não seja o único recurso disponível,
tem provado ser essencial e determinante da possibilidade de mudança de nossos pacientes. Convém
lembrar o quão fascinante é o estudo da mente, correndo-se o risco de ficar “encontrando significados”
cada vez mais elaborados, à custa de uma psicoterapia de bons resultados. Isso impõe pensar o que
são considerados bons resultados em psicoterapia de orientação analítica, em outras palavras, com que
objetivos se trabalha, e delimitar um foco, compreendido como o que é central do conflito do paciente que
possa tornar-se o ponto de convergência das atenções do terapeuta.22
5. Intervir nos processos mentais de outro que nos procura para isso é entrar em uma relação subjetiva
que também nos envolve, exigindo que estejamos atentos a manter o foco nas necessidades e nos
valores do paciente.
6. O planejamento é uma tarefa constante do processo psicoterápico, na medida em que compreendemos
que as mudanças ocorrem ao longo do processo.

REFERÊNCIAS 2. Dewald PA. Psicoterapia: un enfoque diná-


mico. Barcelona: Toray; [1972].
3. Schestatsky SS. Introdução ao planejamento
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11
O CONTRATO
Neusa Lucion
Lais Knijnik

Este capítulo aborda o contrato e suas vi- As bases teóricas do contrato foram
cissitudes, entendendo-os como parte do apresentadas por Freud em dois trabalhos:
processo psicoterápico. O contrato será Recomendações aos médicos que exercem a
examinado muito além das combinações psicanálise,³ de 1912, e Sobre o início do tra-
formais sobre horários das sessões, fre­ tamento (Novas recomendações aos médicos
quência, pagamentos, férias e responsabili- que exercem a psicanálise I),4 de 1913. Ne-
dades, que são feitas no início do tratamen- les, formula e estabelece as normas funda-
to psicoterápico. mentais que compõem o contrato.
A palavra “contrato” é definida por Freud4 compara o tratamento analíti-
Houaiss¹ como “um pacto entre duas ou co a um jogo de xadrez, no qual as aberturas
mais pessoas que se obrigam a cumprir o e os finais, por serem limitados, podem ser
que foi entre elas combinado sob deter- descritos de forma sistemática, enquanto a
minadas condições”. É palavra de origem “infinita variedade de jogadas que se desen-
latina: contractus, significando convenção, volvem após a abertura desafiam qualquer
ajuste, pacto. descrição desse tipo”. Ao tratar das regras
Zimerman² acrescenta que a palavra para o início do tratamento, afirma:
“contrato” pode ser decomposta em com +
trato, significando que, além do indispen- Penso estar sendo prudente, contu-
sável acordo manifesto de algumas com- do, em chamar estas regras de reco-
mendações e não reivindicar qualquer
binações práticas básicas, há também um aceitação incondicional para elas. A
acordo latente que se refere ao modo como extraordinária diversidade das cons-
analista e paciente irão tratar-se reciproca- telações psíquicas envolvidas, a plasti-
mente. As funções e os papéis da dupla es- cidade de todos os processos mentais
tão definidos: de um lado, há um paciente e a riqueza dos fatores determinantes
que busca alívio de seu sofrimento psíquico opõem-se a qualquer mecanização da
e, de outro, um terapeuta que, de forma sis- técnica.
temática, dispõe-se a utilizar todos os seus
recursos teóricos, técnicos e emocionais
O contrato é entendido, desde sua conceituação
para que, juntos, possam mitigar esse so- original, como parte do processo psicoterápico.
frimento.
Psicoterapia de orientação analítica 213

Ele representa o princípio da realida- teoria da técnica, uma vez que necessaria-
de e a ele se opõem as forças das fan- mente influenciam o pro­cesso”.8
tasias e do princípio do prazer, sempre
prontos a rompê-lo. O modo como o
contrato é sentido e estabelecido ou
como são tentadas suas rupturas ex- ELEMENTOS CONSTITUINTES
pressa, ao vivo, dados preciosos para a DO CONTRATO
compreensão do paciente.5
As combinações do contrato – estabeleci-
das após a avaliação e a indicação de psico-
O contrato tem uma função estruturante no es- terapia – podem ser feitas de maneira deta-
tabelecimento do setting psicoterápico, na me-
lhada ou simplificada. Há psicoterapeutas
dida em que cria um arcabouço, um ambien-
te, que permite observar manifestações in- que preferem esmiuçar todas as possíveis
conscientes, fantasias, resistências, reações situações que surgirão no decorrer do tra-
transferenciais e contratransferenciais, assim balho psicoterápico.
como manifestações do caráter.

Meltzer,6 ao discutir o processo analí- A tendência atual é fazer combinações amplas


tico, afirma que: e simplificadas com os pacientes, restringindo-
-se a elementos como a frequência da psicote-
[...] embora a interpretação possa rapia, os horários das sessões, os honorários e
ser importante para a “cura” e para a as férias.
compreensão interna (insight), não
constitui a tarefa principal do analis-
ta com relação ao estabelecimento e
à manutenção do processo analítico. Freud4 cita o tempo e o dinheiro co-
Isto é feito através da criação do set- mo os pontos de importância no estabele-
ting, no qual os processos transferen- cimento do contrato. As demais situações
ciais da mente do paciente podem en- serão tratadas à medida que forem surgin-
contrar expressão. do no curso do tratamento, uma vez que
constituem uma via de expressão de con-
Para Winnicott,7 o setting é a soma de
flitos e do caráter do paciente, assim como
todos os procedimentos que organizam a
do momento transferencial-contratransfe-
análise e engloba todas as atividades extra-
rencial que a dupla está vivendo.
-analíticas do processo analítico: os marcos