Vous êtes sur la page 1sur 453

SENADO FEDERAL

ReLEITURA
compilação de textos para discussão
Senado Federal
Mesa
Biênio 2011/2012
Núcleo de Estudos e Pesquisas do Senado Federal
CONSULTOR-GERAL LEGISLATIVO
Paulo Fernando Mohn e Souza Senador José Sarney
Senado Federal – Subsecretaria de Edições Técnicas | Ano 2 – n 4 – julho/dezembro de 2011
o PRESIDENTE
CONSULTOR-GERAL DE ORÇAMENTOS
Orlando de Sá Cavalcante Neto HISTÓRIA E ECONOMIA DOS
BIOCOMBUSTÍVEIS NO BRASIL Senadora Marta Suplicy
CONSULTOR DO NÚCLEO DE 1a VICE-PRESIDENTE
ESTUDOS E PESQUISAS EXECUÇÃO IMEDIATA DA SENTENÇA: uma
Fernando B. Meneguin análise econômica do processo penal Senador Waldemir Moka
A ELEIÇÃO INDIRETA PARA PRESIDENTE
2o VICE-PRESIDENTE
DA REPÚBLICA Senador Cícero Lucena
O LIVRO DIDÁTICO, O MERCADO 1o SECRETÁRIO
SECRETARIA ESPECIAL EDITORIAL E OS SISTEMAS DE ENSINO Senador João Ribeiro
APOSTILADOS
DE EDITORAÇÃO 2o SECRETÁRIO
AMBIENTE E ENERGIA: crença e ciência
E PUBLICAÇÕES Senador Vicente Claudino
no licenciamento ambiental:

ReLEITURA
3o SECRETÁRIO

compilação de textos para discussão


Parte I: o papel da energia e do
conhecimento científico na evolução Senador Ciro Nogueira
das civilizações
DIRETOR 4o SECRETÁRIO
Parte II: ciência e crença na previsão
Florian Augusto Coutinho Madruga
de impactos ambientais
DIRETOR DA SUBSECRETARIA Parte III: sobre alguns dos problemas
INDUSTRIAL que dificultam o licenciamento SUPLENTES DE SECRETÁRIO
José Farias Maranhão ambiental no Brasil
Senador Casildo Maldaner
DÍVIDA BRUTA E ATIVO DO SETOR
DIRETOR DA SUBSECRETARIA PÚBLICO: o que a queda da dívida Senador João Durval
DE ADMINISTRAÇÃO, SUPRIMENTO líquida não mostra? Senadora Maria do Carmo Alves
DE MATÉRIAS-PRIMAS E
DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO FUNDO DE PARTICIPAÇÃO DOS ESTADOS: Senadora Vanessa Grazziotin
Luiz Carlos da Costa sugestão de novos critérios de partilha
que atendam determinação do STF
DIRETORA DA SUBSECRETARIA
DE EDIÇÕES TÉCNICAS COMPETÊNCIA TERRITORIAL PARA O
Anna Maria de Lucena Rodrigues PROCESSAMENTO DAS AÇÕES POPULARES
COM LITISCONSÓRCIO PASSIVO ENTRE Doris Marize Romariz Peixoto
DIRETOR DA SUBSECRETARIA UNIÃO E AGENTE PÚBLICO RESPONSÁVEL DIRETORA-GERAL
DE ANAIS
Fernando Antônio Nunes Reis NOTAS SOBRE PROPOSTA DE
CONSOLIDAÇÃO DAS LEIS DE DEFESA
AGROPECUÁRIA Claudia Lyra Nascimento
O REGIME DIFERENCIADO DE
SECRETÁRIA-GERAL DA MESA
CONTRATAÇÕES PÚBLICAS: comentários
à Lei no 12.462, de 2011

MARCO REGULATÓRIO DAS POLÍTICAS


DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL NO
BRASIL: fundos de desenvolvimento e
fundos constitucionais de financiamento
Jul/Dez.
2011
Ano 2
No 4
RELEITURA
compilação de textos para discussão
Núcleo de Estudos e Pesquisas do Senado

Senado Federal - Subsecretaria de Edições Técnicas | Ano 2 - no 4 - julho/dezembro de 2011


senado Federal

CONSULTORIA LEGISLATIVA
Paulo Fernando Mohn e Souza – Consultor Geral

CONSULTORIA DE ORÇAMENTOS
Orlando de Sá Cavalcante Neto – Consultor Geral

Criado pelo Ato da Comissão Diretora no 10, de 2011, o Núcleo de Estudos e


Pesquisas do Senado Federal tem por missão organizar, apoiar e coordenar
projetos de estudos e pesquisas que visem à produção e à sistematização de
conhecimentos relevantes para o aprimoramento da atuação do Senado Federal.

núcleo de estudos e PesQuisas


Fernando B. Meneguin – Diretor
conselHo cientíFico
Caetano Ernesto Pereira de Araujo
Fernando B. Meneguin
Luís Otávio Barroso da Graça
Luiz Renato Vieira
Paulo Springer de Freitas
Raphael Borges Leal de Souza
contato:
nepsf@senado.gov.br
url:
www.senado.gov.br/conleg/nepsf1.html

Releitura : compilação de textos para discussão / Senado Federal, Centro


de Estudos da Consultoria do Senado. – Brasília : Senado Federal,
Subsecretaria de Edições Técnicas, Ano 1, n. 1 (jan./jun. 2010)- .
v. : il. ; 25,5 cm.
Semestral.
Editor: denominação alterada a partir do Ano 2, n. 3 para Núcleo de
Estudos e Pesquisas do Senado Federal.
ISSN 2179-3158

1. Ciência política – periódico. 2. Ciências Sociais – periódico. 3. Direito


– periódico. I. Núcleo de Estudos e Pesquisas do Senado Federal. II. Brasil.
Congresso. Senado Federal. Subsecretaria de Edições Técnicas.
CDD 320

O conteúdo deste trabalho é de responsabilidade dos autores e não representa


posicionamento oficial do Senado Federal. É permitida a reprodução deste texto e dos dados
contidos, desde que citada a fonte. Reproduções para fins comerciais são proibidas.
SUMÁRIO
HISTÓRIA E ECONOMIA DOS BIOCOMBUSTÍVEIS NO BRASIL
Fernando Lagares Távora    07

EXECUÇÃO IMEDIATA DA SENTENÇA: uma análise econômica do processo penal


Fernando B. Meneguin; Maurício S. Bugarin; Tomás T. S. Bugarin    73

A ELEIÇÃO INDIRETA PARA PRESIDENTE DA REPÚBLICA


Ricardo Nunes de Miranda    97

O LIVRO DIDÁTICO, O MERCADO EDITORIAL E OS SISTEMAS DE ENSINO APOSTILADOS


Tatiana Feitosa de Britto    145

AMBIENTE E ENERGIA: crença e ciência no licenciamento ambiental

Parte I: o papel da energia e do conhecimento científico na evolução das civilizações


Edmundo Montalvão   161
Parte II: ciência e crença na previsão de impactos ambientais
Ivan Dutra Faria    219
Parte III: sobre alguns dos problemas que dificultam o licenciamento ambiental no
Brasil
Ivan Dutra Faria    257

DÍVIDA BRUTA E ATIVO DO SETOR PÚBLICO: o que a queda da dívida líquida não
mostra?
Josué Alfredo Pellegrini    293

FUNDO DE PARTICIPAÇÃO DOS ESTADOS: sugestão de novos critérios de partilha


que atendam determinação do STF
Marcos Mendes    313

COMPETÊNCIA TERRITORIAL PARA O PROCESSAMENTO DAS AÇÕES POPULARES COM


LITISCONSÓRCIO PASSIVO ENTRE UNIÃO E AGENTE PÚBLICO RESPONSÁVEL
Hugo Souto Kalil   335
NOTAS SOBRE PROPOSTA DE CONSOLIDAÇÃO DAS LEIS DE DEFESA AGROPECUÁRIA
Fernando Lagares Távora; Gustavo Henrique Fideles Taglialegna; Humberto Mendes de
Sá Formiga; Marcus Peixoto    355

O REGIME DIFERENCIADO DE CONTRATAÇÕES PÚBLICAS: comentários à lei no 12.462,


de 2011
Renato Monteiro de Rezende    373

MARCO REGULATÓRIO DAS POLÍTICAS DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL NO BRASIL:


fundos de desenvolvimento e fundos constitucionais de financiamento
Márcio de Oliveira Júnior    429
BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL
História e Economia dos Biocombustíveis
no Brasil
Por:
Fernando Lagares Távora1

Resumo
O presente trabalho aborda a história e economia dos biocom-
bustíveis no Brasil. Fatos estilizados mostram a evolução do se-
tor sucroalcooleiro desde a introdução da cana-de-açúcar no
País até os dias atuais. São destacados personagens e algumas
ações em prol dos biocombustíveis e uma cronologia do setor
é também apresentada. Entende-se que organizar as informa-
ções relevantes sobre o setor de produção de biocombustíveis
e montar uma cronologia de fatos são úteis e podem ajudar na
formulação de políticas públicas para o setor. O principal foco
foi analisar se existem evidências de que o abandono do Pro-
grama Nacional do Álcool (Proálcool) tenha sido uma decisão
de governo, gerando uma base com lições do passado para se
evitar que erros cometidos se repitam, ainda mais no contex-
to da descoberta das reservas do pré-sal, dada a expectativa de
obtenção de combustível fóssil em abundância pelo País nos
próximos anos.

O estudo apresenta a produção da cana-de-açúcar, de álcool e


de biodiesel no mundo. Dados sobre o setor sucroalcooleiro e
do setor de produção de biodiesel são apresentados para a rea-
lidade do Brasil, assim como informações sobre a produção de
cana-de-açúcar, açúcar, álcool e biodiesel no País. Considera-
ções sobre a incipiente produção de energia elétrica por meio
do bagaço de cana são também abordadas. São feitas pondera-
ções sobre as estatísticas de comércio exterior de açúcar, álcool
e biodiesel. Há, também, breve relato sobre o uso de álcool e
biodiesel na frota brasileira. Além disso, notas sobre os preços
de terra, açúcar, álcool e biodiesel no Brasil são apresentadas.
Procura-se avaliar quão estratégico é o setor para o Brasil e
quão ele pode ser no futuro. Qual deveria ser o esforço do Esta-
do para construir políticas perenes que não ponham em risco o

1
Engenheiro Civil e Mestre em Economia do Setor Público, pela Universidade de Brasília,
Brasil. Ingenieur (Ir.), MSc in Management, Economics and Consumer Studies, pela Wa-
geningen University, Holanda. Consultor Legislativo do Senado Federal. E-mail: tavora@
senado.gov.br

RELEITURA | jul./dez. 2011 7


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

setor, em qualquer que seja o contex- ethanol, biodiesel. Moreover, consid-


to. Essa estratégia pode representar erations are made on the incipient
um importante instrumento de pla- electric energy production in Brazil
nejamento para o País. from sugarcane bagasse and straw.
Besides, reflections on sugar, ethanol
Palavras-chave and biodiesel international trade are
exposed. After that, a brief descrip-
Biocombustível; álcool; etanol; bio- tion of ethanol and biodiesel use on
diesel; cana-de-açúcar; açúcar; bioe- the Brazilian fleet is showed. Finally,
letricidade. brief comments about the prices of
land, sugar, ethanol and biodiesel
Abstract are presented. The economic analy-
ses key objective is to evaluate how
This work tackles the history and the strategic the biofuel production can
economy of biofuels in Brazil. Styl- be, now and in the future, and what
ized facts show Brazilian sugarcane efforts should the state make to build
sector evolution since sugarcane in- permanent policies without jeopar-
troduction in the country to these dizing the sector at any context. This
days. Characters, actions for biofuel strategy can represent an important
defense and a chronology are pre- planning tool for the country.
sented. It is understood that relevant
information are useful and can help
Key-words
in the construction of public policies
for the sector. The pivotal historical Biofuel; ethanol; biodiesel; sugar-
focus is to analyze if there are evi- cane; sugar; bioelectricity.
dences that the abandonment of the
National Ethanol Program (Proálcool) LISTA DE ABREVIAÇÕES
was a government political decision.
Another historical objective is to cre- Anfavea – Associação Nacional dos
Fabricantes de Veículos Automotores
ate an information basis with lessons
from the past, so that mistakes are not ANP – Agência Nacional do Petróleo,
repeated, mainly in the context of the Gás Natural e Biocombustíveis
Pre-salt reserve discovery, which will ATR – Açúcar Total Recuperável
probably generate abundant oil to
B4 – diesel com 4% de biodiesel – B5,
the country in the coming years. As a com 5%, etc
consequence, this scenario demands
strategic planning. Chumbo tetraetila – (Pb(C2H5)4),
aditivo para gasolina.
This study also presents sugarcane, CIDE – Contribuição de Intervenção
ethanol and biodiesel production sobre o Domínio Econômico
throughout the world. A dataset of CIMA – Conselho Interministerial do
the ethanol and biodiesel produc- Açúcar e do Álcool
tion sectors is presented for Brazil, CO2 – Dióxido de carbono ou gás car-
as well as data on sugarcane, sugar, bônico

8 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Conab – Companhia Nacional de PPC – Paridade do poder de compra


Abastecimento
PROÁLCOOL – Programa Nacional do
COP 15– Conferência das Partes da Álcool
Convenção do Clima das Nações Uni-
das PROINFA – Programa de Incentivo às
Fontes Alternativas de Energia Elétri-
Embraer – Empresa Brasileira de Ae- ca
ronáutica S.A.
Rio 92 ou Eco 92 – Conferência das
Embrapa – Empresa Brasileira de Pes- Nações Unidas para o Meio Ambiente
quisa Agropecuária e o Desenvolvimento
EPE – Empresa de Pesquisa Energética SGPR – Secretaria-Geral da Presidên-
FOB – Free on board cia da República
FUNAI – Fundação Nacional do Índio SOPRAL – Sociedade de Produtores
de Açúcar e Álcool
GNV – Gás Natural Veicular
TI – Terras Indígenas
IAA – Instituto do Açúcar e do Álcool
Ubrabio – União Brasileira do Biodie-
IBGE – Instituto Brasileiro de Geogra- sel
fia e Estatística
UNICA – União da Indústria de Cana-
IEA – Instituto de Economia Aplicada -de-açúcar
ITA – Instituto Tecnológico da Aero-
náutica
1. Introdução
MAPA – Ministério da Agricultura, Pe-
cuária e Abastecimento
O Brasil é grande e, se continuar in-
MDA – Ministério do Desenvolvi- vestindo em educação, pesquisa,
mento Agrário desenvolvimento e tecnologia, pode
MDL – Mecanismo de Desenvolvi- realizar as previsões mundiais e se
mento Limpo consolidar em uma das grandes eco-
ONU – Organização das Nações Uni- nomias deste século.
das
Em 2008, o Brasil foi a oitava econo-
Metanol – Álcool metílico (CH3OH)
mia em termos do Produto Interno
MIC – Ministério da Indústria e Co- Bruto (PIB) em valores correntes e a
mércio nona, em termos do PIB avaliado pela
MRE – Ministério das Relações Exte- paridade do poder de compra (PPC)2,
riores que é um método alternativo à taxa
MTBE – Metil-tércio-butil-éter de câmbio para se calcular o poder de
((CH3)3COCH3), aditivo para gasoli- compra de dois países (ver Tabela 1.1).
na.
Petrobras – Petróleo Brasileiro S/A 2
Em inglês: Purchasing Power Parity (PPP). A taxa de
câmbio pode não refletir adequadamente a medição
PIB – Produto Interno Bruto do PIB porque uma eventual valorização cambial
aumenta o PIB em dólares, não significando que o
país teve repentinamente sua economia ampliada
PNPB – Programa Nacional de Produ- ou mesmo que o trabalhador teve sua remuneração
ção e Uso do Biodiesel melhorada.

RELEITURA | jul./dez. 2011 9


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Tabela 1.1 – Ranking dos países conforme PIB corrente e PIB PPC, 2008
Países PIB Bilhões US$ Posição PIB Bilhões US$, PPC Posição
EUA 14.204 1o
14.204 1o
China 4.326 3o
7.903 2o
Japão 4.909 2o
4.355 3o
Índia 1.217 12 o
3.388 4o
Alemanha 3.653 4o 2.925 5o
Rússia 1.613 9o
2.289 6o
Reino Unido 2.646 6o
2.176 7o
França 2.853 5o
2.112 8o
Brasil 1.612 8 o
1.976 9o
Itália 2.293 7o 1.840 10o
Fonte: World Bank (2009), com dados extraídos de World Bank Indicators data base, 2009.
Elaboração pelo autor.

Olhando para as cidades brasileiras, gos Olímpicos em 2016, que deman-


as perspectivas são animadoras. Pro- darão ações imediatas.
jeta-se que em 2025, a cidade de São
Paulo, hoje a quinta maior do mun- Nessa mesma linha, projeções do
do em população, pode se tornar a Banco Goldman Sachs, posição no-
sexta mais rica do planeta, segundo vembro de 2007, indicam que o Brasil
a consultoria econômica internacio- poderia ser maior do que qualquer
nal PricewaterhouseCoopers (Jornal O economia europeia depois de 2030
Globo, 2009). Ainda de acordo com o e superaria o Japão em 2040. A ten-
estudo, o Rio de Janeiro deve passar dência é que o País se firme como a
da trigésima para a vigésima quarta quarta economia do mundo até me-
posição no ranking e outras sete ci- ados deste século (ver Tabela 1.2),
dades brasileiras (Brasília, Porto Ale- atrás da China, Índia, Estados Unidos
gre, Belo Horizonte, Curitiba, Recife, da América (EUA). Além disso, em
Fortaleza e Salvador) devem figurar 2050, a Rússia, com PIB estimado de
entre as 150 cidades com maior PIB US$ 8.600 bilhões, ficaria na frente do
no mundo em 2025. Japão, do Reino Unido (RU) e Alema-
nha.
Somente pela posição que o Brasil
já ocupa, projetos de infraestrutura, Nesse contexto, a necessidade de in-
transporte, energia, telecomunica- vestimento em pesquisa, desenvol-
ções deveriam ser prioritários para vimento e tecnologia ganham muito
fazer frente às demandas de desen- mais importância e devem ser trata-
volvimento que naturalmente surgi- das como estratégicas pelo Brasil.
rão no futuro. Fato que deve ser con-
siderado independente da realização É difícil imaginar como poderia ser a
da Copa do Mundo em 2014 e dos Jo- indústria aeronáutica brasileira atu-

10 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Tabela 1.2 – Projeção principais países do mundo, 2010 – 2050


Em bilhões de dólares
Ano Brasil China Índia França Alemanha Itália Japão RU EUA
2010 1.345 4.695 1.264 2.356 3.086 1.927 4.602 2.558 14.537
2020 2.194 12.676 2.870 2.815 3.522 2.238 5.222 3.129 17.981
2030 3.720 25.652 6.748 3.306 3.764 2.407 5.812 3.627 22.821
2040 6.631 45.019 16.715 3.892 4.391 2.576 6.040 4.383 29.627
2050 11.356 70.605 38.227 4.592 5.028 2.969 6.675 5.178 38.520
Fonte: MRE (2008), com dados originais extraídos de Goldman Sachs, 2007. Elaboração pelo autor.

almente se tivesse havido pesquisa e Os casos nos quais o País desenvolve


desenvolvimento de tecnologia desde tecnologia e persiste em sua aplica-
o voo autopropulsado com a aerona- ção gera excelentes frutos. Seguindo
ve 14-Bis do inventor mineiro Alberto essa receita, o País tornou-se também
Santos Dumont, em 23 de outubro de líder mundial na área de construção
1906. de concreto armado. Tendo criado
várias construtoras que edificam im-
Mesmo sem abraçar o setor desde portantes obras por todo o mundo e
seu nascedouro, o Brasil conseguiu desenvolvido testes estruturais que
desenvolver uma empresa de pro- são reconhecidos por seus padrões
dução de aviões em alto nível. A Em- de qualidade por universidades e
presa Brasileira de Aeronáutica S.A. pela Associação Internacional para
(Embraer), que acaba de completar Padronização4, como, por exemplo, o
quarenta anos em 20093, é a quarta método desenvolvido pelo então jo-
maior empresa fabricante de aero- vem engenheiro civil carioca Fernan-
naves comerciais do mundo (Portal do Luiz Lobo Barboza Carneiro em
Brasil, 2009). 19435. O método para a determinação
da resistência à tração dos concretos,
Sem dúvida, motivo de orgulho na- por meio de ensaio de compressão
cional, a empresa líder mundial em diametral de corpos de prova cilíndri-
aviões de médio porte não se fez cos, é conhecido mundialmente por
graças à sorte, mas sim em face de ensaio brasileiro.
investimento em pesquisa e desen-
volvimento, empreendedorismo, A Petrobras é outro exemplo da lide-
formação de pessoal, com destaque rança mundial exercida pelo País – a
acentuado ao trabalho de universi- prospecção de petróleo em águas pro-
dades e do Instituto Tecnológico da fundas. Indubitavelmente, a empresa
Aeronáutica (ITA) e ao sacrifício e de-
dicação de muitos brasileiros.
4
International Organization for Standardization
(ISO).
5
Mais informações sobre o desenvolvimento do en-
saio brasileiro podem ser encontrados em: http://
3
A empresa foi criada pelo Decreto-Lei no 770, de 19 www.redetec.org.br/inventabrasil/carneiro.htm.
de agosto de 1969, e privatizada em 1994. Acesso em Outubro de 2009.

RELEITURA | jul./dez. 2011 11


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

é uma daquelas instituições brasilei- produção de álcool6 – ficou à míngua


ras que deram certo. Em nenhuma e quase desapareceu? Seria a falta de
das crises mundiais de petróleo, o País visão estratégica a razão principal?
ficou desabastecido, nunca a empre- Ou o crescimento da produção de
sa deixou de exercer papel importan- combustível fóssil? Ou a queda do
te no desenvolvimento tecnológico preço do barril do petróleo no merca-
e científico do Brasil e tem sempre do mundial? Ou ainda, o Brasil pode
atuado para prover o País de conheci- prescindir de uma política para bio-
mento e ferramentas estratégicas para combustíveis?
enfrentar os desafios do futuro.
Para atacar a questão que envolve o
Por outro lado, esse mesmo Brasil que paradoxo da madorna do álcool de
construiu uma empresa de petróleo meados da década de 80 até início
reconhecidamente eficiente, que al- dos anos 2000, é necessário conhecer
meja consolidar definitivamente o os condicionantes que envolvem o
regime democrático e os princípios problema.
republicanos, que visa à redução da
pobreza e das desigualdades sociais e Atualmente, a questão dos biocom-
regionais, quase destruiu o programa bustíveis é multifocal e envolve, entre
de energia renovável mais bem suce- outras, questões de meio ambiente,
dido do mundo – a produção de álco- de tecnologia, sociais, políticas, his-
ol combustível. tóricas e econômicas. O propósito
deste texto é dividir o problema em
Ainda nesse contexto, faz-se mister torno dos biocombustíveis no Brasil
destacar que o Brasil produziu álco- e focar nas questões históricas e eco-
ol em volume suficiente para rodar nômicas.
94% da frota nacional de carros em
meados da década de 1980; que de- Para abordagem do foco histórico,
senvolveu, a duras penas, tecnolo- entende-se que organizar as infor-
gia nacional para esses carros; que mações relevantes sobre o setor su-
criou a primeira patente mundial de croalcooleiro nacional e de produção
biodiesel; que dispõe de terras abun- de outros biocombustíveis e montar
dantes, produtividade agropecuária uma cronologia de fatos pode ajudar
incomparável, capacidade laboral, na compreensão da questão. Infor-
conhecimento técnico e científico; mações bem estruturadas são úteis
que possui uma empresa – a Empresa para que seja possível revisitar o pas-
Brasileira de Pesquisa Agropecuária sado rapidamente.
(Embrapa) – líder mundial em pes-
quisa agropecuária em região tropical Entretanto, o principal foco da medi-
e que precisou, precisa e precisará de da seria analisar se existem evidências
açúcar, álcool e energia. de que o abandono do Proálcool te-

Então, por que o Programa Nacional 6


Para os fins deste trabalho não se diferencia os ter-
mos álcool, álcool carburante, álcool combustível ou
do Álcool (PROÁLCOOL) – ou ainda a etanol.

12 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

nha sido uma decisão de governo. Sob biodiesel no mundo. Dados sobre o
esse aspecto, entrevistas com pessoas setor sucroalcooleiro e do setor de
que trabalham no setor ao longo do produção de biodiesel são apresenta-
tempo configuraram-se úteis. dos para a realidade do Brasil, assim
como informações sobre produção
Igualmente útil é a identificação das de cana-de-açúcar, açúcar, álcool e
medidas que levaram ao fim do Pro- biodiesel no País. Considerações so-
álcool. Nesse bojo, tentar aprender bre a incipiente produção de energia
com lições do passado pode contri- elétrica por meio do bagaço de cana
buir para que erros cometidos não se são também abordadas. Ponderações
repitam. sobre as estatísticas de comércio ex-
terior de açúcar, álcool e biodiesel são
Para abordagem econômica, preten-
feitas. É realizado um breve relato so-
de-se a apresentação das principais
bre o uso de álcool e biodiesel na frota
estatísticas sobre cana, açúcar, álcool
brasileira. Além disso, notas sobre os
e biodiesel. A quantificação do tama-
preços de terra, açúcar, álcool, e bio-
nho do setor e do número de trabalha-
diesel no Brasil são apresentadas.
dores mostra-se igualmente relevante.

Essa abordagem permite avaliar quão Por fim, o capítulo 4 apresenta as


estratégico é o setor sucroalcooleiro conclusões e comentário finais do
para o Brasil e quão ele pode ser no trabalho.
futuro. Qual deveria ser o esforço do
Estado para fortificar ações que levas-
sem a políticas perenes que não po- 2. História dos
nham em risco o setor – em qualquer biocombustíveis
que seja o contexto – representa uma
percepção que pode ser adquirida a Idas e vindas da economia
partir da análise econômica.
açucareira
Além desta introdução, o texto está
composto de mais três capítulos. O Em 1525, apenas 25 anos após a des-
capítulo 2 apresenta a história dos coberta do Brasil, Martim Afonso de
biocombustíveis no Brasil. Uma abor- Souza introduziu a cana-de-açúcar
dagem com fatos estilizados mostra no País. Com efeito, deu-se início a
a evolução do setor sucroalcoolei- um dos mais bem sucedidos negócios
ro desde a introdução da cana-de- da história brasileira com produtos
-açúcar no País até os dias atuais. São advindos do setor sucroalcooleiro.
destacados personagens e algumas
ações em prol dos biocombustíveis A cana-de-açúcar começava a ser
no Brasil e uma cronologia do setor é utilizada como ração para animais
também apresentada. e, progressivamente, para produção
de alimentos, com destaque para o
O capítulo 3 apresenta a produção açúcar. Sete anos depois, foi criado
da cana-de-açúcar, de álcool e de o primeiro engenho em São Vicente,

RELEITURA | jul./dez. 2011 13


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Tabela 2.1 – Produção mundial de açúcar, 1840 – 19407


Em mil toneladas métricas
Ano Açúcar de cana-de-açúcar % Açúcar de Beterraba % Total
1840 773 94% 48 6% 821
1850 1.046 87% 159 13% 1.205
1860 1.364 79% 352 21% 1.716
1870 1.662 64% 939 36% 2.601
1880 1.881 50% 1.857 50% 3.738
1890 2.600 41% 3.680 59% 6.280
1900 5.285 47% 6.006 53% 11.291
1910 8.198 49% 8.668 51% 16.866
1920 12.023 71% 4.906 29% 16.929
1930 16.023 57% 11.911 43% 27.934
1940 18.245 61% 11.684 39% 29.929
Fonte: Moura Filho (2003). Elaboração pelo autor.

no Estado de São Paulo, e, em 1535, Em 1880, desenvolvimentos tecnoló-


o primeiro engenho nordestino, na gicos melhoram o açúcar de beterra-
cidade de Olinda, no Estado de Per- ba, elevando sua qualidade a níveis
nambuco. semelhantes ao açúcar de cana. Adi-
cionalmente, leis aprovadas na Euro-
No século XVII, a cana-de-açúcar se pa exigem o consumo do açúcar de
expande nas regiões com solos pro- beterraba localmente.
pícios – principalmente massapé – e
constitui-se em principal atividade A Tabela 2.2 mostra o impacto direto
econômica do País. nas exportações brasileiras de açúcar
da concorrência do produto produzi-
O produto se consolida como gran- do a partir da beterraba. Da década de
de produto de exportação, sem con- 30 do século XIX para a década de 80
corrente à altura. Em 1650, surge o do mesmo século, o açúcar passa de
açúcar produzido a partir da beter- 24% das exportações brasileira para
raba. Mesmo assim, o açúcar de cana meros 10%. No outro sentido, vem o
mantém-se com posição de destaque café que sobe de 40% para 62%8.
internacional, com uma participação
superior a 90% da produção mundial. Sodré (2002) destaca os seguintes tra-
A Tabela 2.1 apresenta cem anos de ços negativos relativamente ao açúcar:
produção mundial de açúcar fabri-
cado a partir de cana-de-açúcar e de das fontes que apresentava dados para o açúcar de
beterraba, discriminada por décadas, cana-de-açúcar e de beterraba para o período de 1840
a 1940. O autor destaca que há divergência entre as
com início em 1840.7 fontes de seu Estudo. Esse não era nosso foco, para os
interessados na análise de tais discrepâncias, sugere-
-se a leitura do texto.
7
Moura Filho (2003) trabalha com várias fontes de in- 8
Para uma análise da ascensão do café na economia
formações. Escolhemos coletar informações em uma brasileira, ver Sodré (2002) e Furtado (2007).

14 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Tabela 2.2 – Exportações brasileiras,


1831 – 1890
Em %
Produto 1831/40 1851/60 1881/90
Açúcar 24 21 10
Algodão 11 6 4
Couros 8 7 3
Café 40 49 62
Demais 17 17 11
Fonte: Sodré (2002). Elaboração pelo autor.

i. Desenvolvera-se, na fase do blo- mercado açucareiro, que teria como


queio napoleônico, o aproveita- golpe de misericórdia a quebra da
mento da beterraba como fonte de bolsa de Nova York de 1929 e a derro-
açúcar (em grande escala); cada de toda agricultura brasileira, no
início dos anos 30.
ii. O mercado inglês continuava a ser
abastecido pelas colônias antilha-
nas, que gozavam de tarifa prefe-
Primórdios dos
rencial;
biocombustíveis no Brasil
iii. O mercado dos Estados Unidos da
América, o de mais rápido cresci- Como reação a essa crise internacio-
mento da época, era atendido pelo nal, em um cenário no qual o mer-
rápido surto da produção cubana, cado de açúcar passava por uma de-
em condições favoráveis; pressão profunda, novas aplicações
para a cana-de-açúcar deveriam ser
iv. O mercado continental europeu
encontradas.
era atendido em boa parte pela pro-
dução colonial antilhana, protegida
O desenvolvimento de combustível a
por franceses e holandeses.
partir da cana-de-açúcar, visto como
Furtado (2007) 9 destaca que a econo- um dos mais fantásticos feitos tec-
mia açucareira do Nordeste resistiu nológicos da humanidade na área de
por mais de três séculos às mais pro- energia renovável, começou a ser in-
longadas depressões, logrando recu- centivado.
perar-se sempre que o mercado ex-
terno permitia, sem sofrer nenhuma Em 1900, de acordo com Maia & Fei-
modificação estrutural significativa. tosa (2009), foi apresentado um mo-
tor de Rudolf Diesel na Exposição
Uma fase mais aguda ainda de crise Universal de Paris, funcionando a
se avizinha, com forte derrocada do óleo de amendoim, considerado uma
das primeiras versões de um biocom-
9
Trigésima quarta edição do clássico “Formação Eco- bustível. Goettemoeller & Goettemol-
nômica do Brasil”, de Celso Furtado, cuja primeira ler (2007) informam que o engenheiro
edição foi lançada em 1959.

RELEITURA | jul./dez. 2011 15


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

alemão Nikolas Otto, em 1860, usou nica do Rio de Janeiro, considerada


álcool como combustível para um de como uma das primeiras ações de
seus motores de combustão do ciclo defesa do uso do combustível. Entre
“Otto”. Os autores destacam que ape- a década de 30 e 40, o corredor Chico
sar da forte taxação, na América do Landi ganha algumas provas de cor-
Norte, Henry Ford projetou seu pri- rida usando o álcool, enquanto seus
meiro carro, um quadriciclo, movido concorrentes utilizavam metanol tra-
exclusivamente a etanol em 1896. zido em tambores da Europa.

Em 1903, ocorre a primeira “Exposi- Em 1933, no Governo do Presidente


ção Internacional de Produtos e Equi- Getúlio Vargas, foi criado o Instituto
pamentos a Álcool” e o “Congresso do Açúcar e do Álcool (IAA), que de-
das Aplicações Industriais do Álcool” teve controle do mercado de açúcar,
no Estado do Rio de Janeiro. O grande com uso de cotas de produção e apli-
sucesso do lampião a álcool brasileiro cação de extenso controle em todas as
etapas do processo produtivo, de co-
foi ressaltado por Natale Netto (2007)
mercialização e de comércio exterior.
10
, que destaca que os equipamentos
brasileiros, por serem menos poluen- O Instituto foi criado como forma de
tes, apresentavam vantagens sobre os tentar beneficiar a cultura da cana-de-
lampiões clássicos, que consumiam -açúcar, com forte apoio do Marechal
óleo de baleia ou querosene. Era um Juarez Távora, Ministro da Agricultu-
prenúncio das vantagens ecológicas ra. A cotação do produto no início da
do uso do álcool como fonte de ener- década de 30 era um terço do que fora
gia. Goettemoeller & Goettemoller no início da década de 20. Ademais,
(2007) ressaltam que o álcool foi um diferenças de opiniões entre produto-
importante combustível para uso em res nordestinos e paulistas iriam per-
iluminação e foi inviabilizado para tal mear toda a vida da instituição11.
finalidade pela alta tributação prati-
cada nos EUA. Uma série de políticas foi desenvolvi-
da para suporte ao etanol. No entan-
As primeiras experiências de enge- to, a partir de 1945, o Governo optou
nharia no Brasil já vinham sendo re- por apoiar a nascente indústria auto-
alizadas desde o início do século e, já mobilística e petrolífera nacional. Em
em 1925, o primeiro carro viajou do 1953, a Petróleo Brasileiro S/A (Petro-
Rio de Janeiro a São Paulo, cerca de bras) é fundada e novos contornos de
430 km, movido a álcool (Unica, 2008). desenvolvimento econômico, espa-
cial e social se estabelecem no Brasil.
Em 23 de novembro de 1925, ocorre a A produção de etanol foi relegada a
conferência “O álcool como combus- segundo plano.
tível industrial no Brasil”, realizada
pelo Engenheiro civil Ernesto Lopes Worldwatch Institute (2007) destaca
da Fonseca Costa, na Escola Politéc- que no início do século XX os bio-
11
Para uma discussão mais política da existência do
10
Uma das referências de todo este Capítulo. IAA, ver Natale Netto (2007).

16 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

combustíveis chegaram a ocupar Criação e desenvolvimento


5% da oferta de combustível na Eu-
do Proálcool
ropa, com suporte principalmente
na Alemanha e França e que, entre a Em 1975, foi criado o Programa Na-
primeira e segunda guerra, o etanol cional do Álcool (PROÁLCOOL)12,
suplementou o petróleo na Europa, cuja principal ambição seria substi-
EUA e Brasil. Entretanto, com a des- tuir os veículos movidos a gasolina
mobilização militar e a descoberta de por outros movidos a álcool. O lema
novos campos de petróleo, a fartura “o álcool é nosso” virou sonho estra-
de petróleo barato eliminou os bio- tégico nacional dali em diante. Seria
combustíveis do mercado de com- inocente desconsiderar que o déficit
bustíveis. comercial do País era da ordem de
US$ 3 bilhões e que a importação de
Nos anos 60, no Governo do Presi- petróleo consumia cerca de 47% das
dente Juscelino Kubistchek, ocorre divisas de nossas exportações (Nata-
uma consolidação do setor canaviei- le Netto, 2007). O programa tentava
ro no Centro-Sul do País, em grande amenizar também os problemas do
parte por esforço do setor privado. balanço de pagamento.

Em 1973, com a primeira crise do pe- Em 1977, começa a adição de 4,5%


tróleo, que elevou o preço do barril de álcool à gasolina. Essa seria uma
significativamente, uma nova reali- contribuição definitiva do álcool para
dade foi imposta ao País. O valor mé- a saúde da população. Graças ao uso
dio do barril de petróleo, em 1973, foi do álcool anidro, que é adicionado à
US$ 3,88, ao passo que, em 1974, foi gasolina, pôde ser possível a substi-
US$ 12,55, um inacreditável aumen- tuição completa do chumbo tetrae-
to de 223,5%! Emergiram falhas de tila (Pb(C2H5)4), que era usado para
planejamento estratégico: o País era aumentar a octanagem da gasolina
dependente de importação de petró- e como anticorrosivo nos motores. O
leo e não tinha plano alternativo para produto é resistente à pressão, porém
possível escassez. é tóxico e libera partículas de chum-
bo (metal pesado) no ar13.
Apresentavam-se claras dificuldades
para produzir petróleo internamente Em 1979, eclode a segunda crise
(os campos de petróleo não estavam mundial do Petróleo. Após uma tra-
confirmados, a tecnologia não era 12
Durante toda sua existência, o Programa passou por
apropriada, o preço de extração ainda muitas disputas. No nível burocrático, o Ministério da
era maior do que o preço de importa- Indústria e Comércio, seu gerenciador inicial, a Petro-
bras, sua operacionalizadora, o Ministério das Minas
ção). Assim, além de medidas macro- e Energias, o planejador energético, e o Ministério da
Agricultura, o administrador das políticas da matéria-
econômicas clássicas, novas fontes -prima, revezaram-se, a seus modos, em disputas
de energia deveriam ser encontradas pelo desenvolvimento e pela condução das políticas
para o álcool brasileiro.
para suavizar os estragos da elevação 13
Goettemoeller & Goettemoller (2007) informam que
o produto só foi banido definitivamente dos EUA em
de custo na economia nacional. 1986.

RELEITURA | jul./dez. 2011 17


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Tabela 2.3 – Preço do petróleo importado pelo Brasil, 1973 – 1984


US$/barril
Ano Preços
1973 3,88
1974 12,55
1975 12,27
1976 12,97
1977 13,51
1978 13,65
1979 18,36
1980 30,72
1981 36,59
1982 35,25
1983 31,93
1984 30,50

Fonte: Gusmão (1985). Elaboração pelo autor.

jetória de aumento linear, o valor a álcool, o modelo Fiat 147. Rapida-


médio do barril de petróleo passa de mente, outras montadoras, com vá-
US$ 18,36 em 1979 para US$ 30,72 em rios modelos, começaram a alimen-
1980, e chega a US$ 36,59 em 1981 tar o mercado com essa nova opção.
(ver Tabela 2.3), de novo um surpre- Em 1980, o primeiro ônibus movido a
endente aumento de cerca de 100%!14 biodiesel percorre 300 km com bons
O Brasil que já vinha fazendo mala- resultados. Segundo Parente (2007),
barismo, caiu da corda e sofreu dura- o motor teve desempenho melhor do
mente mais esse golpe em sua matriz que o motor que utilizava somente
de custos. diesel.

Como consequência, carros a álcool Em 1980, na análise da fase inicial do


hidratado (álcool como combustível) Proálcool, o Ministério da Indústria e
começam a ser utilizado em grande Comércio informava que a meta de
escala em todo o país. Além disso, produção de 3,0 bilhões de litros para
passou a ser mandatória a adição de 1980 (ver Tabela 2.4) estava alcançada
15% de álcool anidro a gasolina. e que a adição de 20% de álcool ani-
dro já era uma realidade em quase
Em julho de 1979, foi lançado no todo o País.
mercado nacional o primeiro carro
14
Natale Netto (2007) afirma que o primeiro choque
Novas metas estabelecidas incluíam
do petróleo elevou o preço do barril em 322% em 12 a produção de 900 mil carros entre
meses, e que o segundo choque causou elevação de
50%. A diferença entre os percentuais e a tabela pode 1980 e 198215, a conversão de 270 mil
estar na coleta e tratamento dos dados e temporali-
dade. Natale Netto (2007) descreve um período de
tempo ao passo que Gusmão (1980) apresenta valores 15
Estimativas distribuídas dessa forma: 250 mil em
médios do dólar utilizados nas importações. 1980; 300 mil em 1981; 350 mil em 1982.

18 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Tabela 2.4 – Evolução da Produção de Etanol no Brasil,


1975 – 1980
Em bilhões de litros
Safra Produção Crescimento (%)
75/76 0,6 -
76/77 0,7 17%
77/78 1,5 114%
78/79 2,5 67%
79/80 3,6 44%
Total 8,9

Fonte: MIC (1980). Elaboração pelo autor.

carros de gasolina para álcool, e a pelo autor16. Esta patente foi reque-
produção de 10,7 bilhões de litros de rida em 1980 e, atualmente, já se en-
álcool em 1985, sendo que foi firma- contra em domínio público. Em 23
do o compromisso de que 92% dessa de outubro de 1983, Dia do Aviador,
produção seria para fins carburantes. uma aeronave nacional turbo hélice
De acordo com Natale Netto (2007), Bandeirante decolou de São José dos
no auge do processo de conversão, Campos para sobrevoar Brasília utili-
era possível transformar 20 mil auto- zando o querosene vegetal brasileiro
móveis por dia. denominado PROSENE.

Para alcance dessas metas, o Governo Em 1985, 92% dos carros vendidos
apoiou projetos de produção de álco- no País rodavam a álcool hidratado17
ol a partir de outras matérias-primas, e a mistura de álcool anidro à gasoli-
como mandioca, sorgo sacarino e na chegou a 22%. Parecia que o Brasil
babaçu. MIC (1980) destaca que a iria seguir firme nesse sentido.
produção a partir dessas matérias-
-primas não deveria substituir, sem O ministro da Indústria e Comércio,
vantagens comparativas reais, outras Roberto Gusmão, fez uma palestra,
culturas de atendimento ao mercado em 26 de novembro de 1985, no Se-
interno e/ou externo, devendo se ba- nado Federal, na qual destacou os se-
sear em aumentos de produtividade guintes aspectos positivos18:
e no aproveitamento de novas áreas.
Tentativas de produção de álcool a 1. o Proálcool fez com que o Brasil de-
partir de madeira também foram fei- tivesse a maior tecnologia na pro-
tas. No entanto, somente a produção dução de etanol no mundo. Com a
a partir de cana-de-açúcar se firmou. ampliação da eficiência técnica e

De acordo com Parente (2003), a pri- 16


O Engenheiro cearense Expedito José de Sá Parente
meira patente mundial de biodiesel da Universidade Federal do Ceará.
e de querosene vegetal de aviação 17
Fonte: Ramos (2006). A depender do critério, esse
percentual pode ser considerado ainda maior.
(PI8007957) foi registrada no Brasil 18
Para a íntegra da palestra, ver Gusmão (1985).

RELEITURA | jul./dez. 2011 19


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

econômica, os custos reais da pro- ativa nos setores de agropecuária,


dução de álcool reduziram-se em extração vegetal e pesca. Ademais, a
35%. Como consequência, o bar- renda familiar dos trabalhadores no
ril substituído de álcool hidratado setor, entre dois e cinco salários mí-
equivalia a US$ 37, ao passo que o nimos, era maior do que os recebi-
custo do barril de petróleo era US$ dos por 50% das famílias brasileiras.
3419.
6. Com a rotação da cana-de-açúcar
2. Estabilização no mercado inter- estimava-se que poderia ser pro-
nacional e interno de açúcar: esti- duzido um milhão de toneladas de
mava-se que a variação de 1% no grãos.
estoque internacional de açúcar
7. Promoção de desenvolvimento re-
provocava variação de 3% no preço.
gional e expansão da produção.
O Proálcool teria ajudado a reduzir a
volatilidade do mercado de açúcar. 8. Redução de exposição ao risco da
escassez de petróleo no mercado
3. Até a safra agrícola de 1985, o Pro-
externo. O Brasil reduziu sua de-
grama ajudou a economizar divisas
pendência de 36%, em 1979, para
da ordem de US$ 10 bilhões. Nunca
16% em 1984. No caso do setor de
é demais lembrar que o País tinha
transporte, a vulnerabilidade pas-
passado pela crise da dívida inter-
sou de 79%, em 1979, para 42%, em
nacional em 198220, o que fazia com
1984.
que reservas de dólares fossem algo
escasso. 9. Valor agregado ampliado: a produ-
ção de 11,3 bilhões de litros na safra
4. Geração de empregos: cerca de 700
de 1985 gerava agregação de valor
mil empregos gerados diretamente
da ordem US$ 2,4 bilhões (1% do
e, quando incluídos os empregos
PIB da época).
das indústrias de máquinas, equi-
pamentos e insumos para produ- 10. Poluição ambiental evitada: re-
ção de álcool, bem como da indús- dução de 70% a 80% na emissão de
tria automobilística, mais 500 mil chumbo entre 1978 e 1983, além de
empregos eram gerados. redução da ordem 57% e 64% de
monóxido de carbono e hidrocar-
5. O trabalhador canavieiro recebia
bonetos, respectivamente.
salários mais elevados do que 70%
da população economicamente O Governo do Presidente José Sarney,
tentando dar estabilidade à produção
19
Preço Free on board (FOB) de US$ 27/barril; custo de de álcool, estabeleceu quatro diretri-
transporte US$ 2/barril; refino e outros custos US$ 5/
barril, totalizando US$ 34/barril. zes:
20
A moratória mexicana, ocorrida em setembro de
1982, provocou o fechamento do mercado interna-
cional de crédito, fazendo com que o País ficasse sem i. irrestrita continuidade do programa
novos financiamentos para fechar o balanço de paga-
mentos. Com baixas reservas internacionais, com um de produção de álcool;
governo politicamente fraco e mergulhado em uma
imensa crise econômica, não restou muita coisa ao ii. comprovação de sua total e absolu-
Brasil a não ser se submeter a um programa de ajuste
fiscal do Fundo Monetário Internacional. ta viabilidade técnica;

20 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

iii. incentivo a seu aumento de pro- finanças públicas, desajuste monetá-


dutividade; e rio, inflação galopante, greves e mais
greves, comoção social...
iv. manutenção do valor do álcool a
65% do preço da gasolina.
Adicionalmente, a Petrobras alegou
Se um marciano chegasse ao Brasil, ti- que em 1987 a conta álcool gerou pre-
vesse contato com os fatos estilizados juízos para a empresa da ordem de 0,5
apresentados até aqui, e partisse em milhão de dólares por dia (Natale Net-
seguida, provavelmente pensaria que to, 2007). Como consequência direta
o Proálcool teria uma trajetória ar- de todos esses problemas, o Governo
rebatadora de desenvolvimento dali Federal, sufocado por problemas eco-
em diante. Os dados até então eram nômicos, políticos e sociais, arrefeceu
animadores, até mesmo um de seus as medidas de apoio ao Proálcool22.
maiores obstáculos, a famigerada
conta álcool,21 encontrava-se positiva. Faz-se mister destacar que contri-
Dados de Gusmão (1985) indicavam buiu para a facilidade de desistência
que, entre 1978 e 1985, considerando do Programa por parte do Estado a
exclusivamente o mercado de carbu- desconfiança (até mesmo a resistên-
rante, o saldo era de US$ 5,83 bilhões! cia) do consumidor pelo carro álcool
no fim dos anos 80. Aqueles carros
não tinham chegado a seu estágio de
Derrocada do Proálcool maturação tecnológica. Por exemplo,
com a substituição do combustível,
No entanto, em 1986, ainda em um os automóveis precisaram passar por
contexto de grande produção de car- alterações, como utilização de mate-
ros movidos a álcool, os preços do rial anticorrosivo nos carburadores e
petróleo despencaram, chegando a instalação de injeção auxiliar a gasoli-
menos de US$ 15 por barril em 1987 na para partida a frio23. É inesquecível
(Cunha, 2006). que, no período frio, os donos de car-

Outros fatores são relevantes para 22


O tema é árido e complexo. Em 1989, foi realizada
uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para
entender o momento econômico investigar a situação da Petrobras. Segundo Natale
por que passava o País: uma série de Neto (2007), o relatório da CPI, de dezembro de 1989,
apontava que o prejuízo da Petrobras era superior a
malsucedidos planos econômicos; US$ 10 bilhões, sendo US$ 3 bilhões devido à falta de
dificuldade de pagamento da dívi- correção dos preços dos derivados. Ainda de acordo
com o autor, a empresa apresentou déficit de caixa
da externa, declaração de moratória, de US$ 1,4 bilhão em 1990, e, pela primeira vez, em
trinta e seis anos, não distribuiu dividendos às ações
custo fiscal elevado, descontrole das ordinárias e apontou o Proálcool como um dos res-
ponsáveis pela situação.
23
Graner (2009) afirmou que, em relação a um mo-
21
De forma simplificada, a conta álcool pode ser tor movido à gasolina, os seguintes itens devem ser
entendida como a diferença entre o custo final de alterados para utilização de etanol nos automóveis:
produção do etanol e o seu preço de venda ao con- carburador ou injeção eletrônica, bomba de com-
sumidor. Boa parte das discussões em torno de seus bustível, regulador de pressão do combustível, filtro
resultados centrava-se no fato de que seu resultado de combustível, sistema de ignição, sistema de eva-
seria apenas um balanço incompleto dos resultados porativas, tanque de combustível, motor básico, con-
da comercialização do álcool carburante no Brasil por versor catalítico, sistema de partida frio, coletor de
não incluir, em seu cômputo, as receitas fiscais e pa- admissão, sistema de escapamento, suspensão, óleo
rafiscais proporcionadas pelo combustível ao Estado. lubrificante.

RELEITURA | jul./dez. 2011 21


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

ros acordavam uma meia hora antes tou metanol (CH3OH) da Rússia e dos
para aquecimento do carro a álcool. Estados Unidos da América. Alega-se
Aquele morre e liga causava um baru- que o produto tem potencial de cau-
lho que acordava a vizinhança... Esse sar danos ambientais mais rigorosos
estigma dos primeiros carros sempre do que o etanol e é mais perigoso
era trazido à tona. para a saúde dos frentistas. Dado o
potencial brasileiro para produzir
Um segundo fator que pode ser men- etanol, já não fosse temeroso gastar
cionado nesse contexto era a neces- divisas para comprar um produto
sidade de escolha do combustível no mais nocivo, ainda o Governo deci-
ato da compra do veículo. A decisão diu adotar experimentalmente o uso
era equivalente a um casamento, de metil-tércio-butil-éter – MTBE
tinha-se que pensar com muita cal- ((CH3)3COCH3) como aditivo à gasoli-
ma. Em um contexto no qual os pre- na em substituição ao álcool anidro.
ços da gasolina caiam, e rumores de Igualmente recai sobre esse produto
que o Proálcool não iria continuar, o
dúvidas quanto ao seu nível poluidor
consumidor não tinha dúvidas: evitar
e potencial cancerígeno.
a aquisição do carro movido a álcool
era a opção mais cuidadosa.
Em 1990, em um contexto de redução
drástica do Estado, foi extinto o Insti-
No entanto, talvez o tiro de morte na
tuto do Açúcar e do Álcool (IAA) e eli-
confiabilidade do programa tenha
minadas as cotas de comercialização
sido mesmo a falta de combustível
no mercado interno.
nas bombas dos postos em diferentes
cidades ao mesmo tempo. Perdia-se a
O IAA já não dispunha de quadros
esperança com os carros a álcool. So-
(quantitativo e, em alguns casos, qua-
mente mudanças drásticas poderiam
fazer o consumidor repensar suas es- litativo) para lidar com a complexida-
colhas. de da evolução do mercado de açúcar
e álcool. Chegou-se ao ponto que as
Em 1988, começava o fim da inter- diferenças de opinião históricas entre
venção estatal no setor sucroalcoo- produtores do Norte-Nordeste e do
leiro, que foi seguido de eliminação Centro-Sul, de repente, desaparece-
de práticas de regulação no setor de ram no tocante ao destino do Institu-
exportações de açúcar, de cotas e de to. Todos achavam que uma política
qualquer outra intervenção. Esse pro- de distensão deveria ser colocada em
cesso só se completa a partir de 1999 prática para que o processo de ex-
com a liberação de controle de todos portação fosse privatizado. Naquela
os preços e serviços do setor sucroal- ocasião, Cuba e Austrália já vendiam
cooleiro. mais açúcar para o mercado exterior
do que o Brasil!
Em 1989, já começava o retrocesso no
uso de aditivo à gasolina. Natale Net- E o pior: segundo Natale Netto (2007),
to (2007) informa que o Brasil impor- na opinião dos produtores, o IAA era

22 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

o responsável pela venda de açúcar para o Rio de Janeiro, para enfatizar


brasileiro abaixo das cotações inter- a importância que o tema teria para
nacionais. O combalido IAA que havia o País.
passado por um processo de perda de
poder continuado desde meados da Começava a ganhar força no cenário
década de 1980, não resistiu. Acabava internacional o debate sobre o aque-
uma das mais longas políticas de in- cimento global e o desmatamento.
tervenção estatal na história da eco- Como consequência, em 1997, ocorre
nomia brasileira. a assinatura do Protocolo de Kyoto,
ratificado em 1999, com vigência a
A bem da eficiência, da competitivi- partir de 2005, e pelo qual os signa-
dade e do desenvolvimento tecnoló- tários se comprometiam a reduzir
gico o País passava pelo aprendizado a emissão dos gases do efeito estufa
da desregulamentação do setor su- em, pelo menos, 5,2% em relação aos
croalcooleiro, que só se completaria níveis de 1990, no período entre 2008
no final da década. e 2012. O acordo foi assinado e rati-
ficado por 184 países. No entanto, os
Estados Unidos da América, respon-
A era ambiental provocando sável por mais de 36% da emissão de
mudanças 1990, não aderiu ao Protocolo.

Em 1992, ocorre, na cidade do Rio O acordo estimulava os países signa-


de Janeiro, a Conferência das Nações tários a cooperarem entre si, através
Unidas para o Meio Ambiente e o De- de ações para reforma dos setores de
senvolvimento, também conhecida energia e transportes, limitação de
como Rio 92 ou Eco 92, cujo principal emissões de gases provocadores do
objetivo era buscar meios de conciliar efeito estufa, para gerenciamento de
o desenvolvimento socioeconômico resíduos e dos sistemas energéticos,
com a conservação e proteção dos para promoção de fontes energéticas
ecossistemas da Terra. Dessa cimei- renováveis.
ra emergem documentos-princípios
para preservação de florestas, para A reformulação dos sistemas ener-
formulação de políticas sobre biodi- géticos e a pressão para redução de
versidade, desertificação e mudanças emissão de carbono colocaram em
climáticas, em especial, a Agenda 21, foco internacional novamente o velho
espécie de guia para elaboração de e conhecido álcool brasileiro. Dispu-
todas políticas voltadas para preser- tas acadêmicas sobre sua eficiência
vação do meio ambiente24. na redução de emissão de poluentes
e sobre sua eficiência voltaram à baila
Durante a cimeira, o presidente da no Brasil.
República, Fernando Collor, trans-
feriu a capital do Brasil de Brasília Independente da posição do interlo-
cutor, a rediscussão do tema mostra-
24
Fonte: Wikipedia, disponível em http://pt.wikipedia.
org/wiki/ECO-92. Acesso: 9/11/2009
va que o País não poderia abrir mão

RELEITURA | jul./dez. 2011 23


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

da pesquisa, experiência e tecnologia gem final parece ser de que os líderes


desenvolvidas. mundiais têm que trabalhar muito
para evolução na questão climática.
A nova tentativa de estabelecimento
de metas ambientais para o mundo
ocorreu durante a Conferência das Desregulamentação do setor
Partes da Convenção do Clima das sucroalcooleiro
Nações Unidas (COP 15), em Cope-
nhague, na Dinamarca, em 2009. Em 1993, por meio de legislação es-
pecífica25, a mistura de 25% de álcool
A cimeira foi encerrada, no entanto,
anidro à gasolina torna-se mandató-
sem um acordo satisfatório. O do-
ria. Paralelamente, o País passa por
cumento final, que já foi contestado
um bom desempenho no mercado
por vários participantes da confe-
internacional de açúcar. O álcool hi-
rência, estabelece em 2oC o aumento
máximo da temperatura até o fim do dratado continuaria a ser relegado até
século. Além disso, os países que o o lançamento dos carros bicombustí-
ratificarem se comprometem a decla- veis em 2003.
rar suas metas de emissões de gases
responsáveis pelo efeito estufa. Essas De 1994 a 1999, os preços de açúcar
metas seriam voluntárias, e não obri- e álcool passam a ser regidos exclu-
gatórias. sivamente pelo mercado, sem qual-
quer intervenção do Estado26. Merece
De acordo com IPCC (2009), China destaque também a edição da Lei do
e EUA emitem juntos 40% de todo o petróleo27, em 1997, que marca o fim
gás carbônico produzido no mundo. do monopólio estatal da União nas
Os EUA anunciaram meta volunta- atividades relacionadas à exploração,
ria de corte de 17% de suas emissões produção, refino e transporte do pe-
até 2020, em relação ao ano de 2005; tróleo no Brasil, que era exercido pela
a China, de 40% a 45% por unidade Petrobras desde 1953.
do PIB até 2020, o Brasil de 36,1% a
38,9% de suas emissões até 2020 e a No início da década de 2000, o lança-
UE de 30% de suas emissões em rela- mento do gás natural veicular (GNV)
ção ao ano de 1990. Como cada meta trouxe mais pressão e dificuldade
tem um parâmetro, elas não são di- para a sobrevivência do etanol como
retamente comparáveis. No entanto, combustível. Dados de Natale Netto
para ficarmos em um só exemplo, (2007) indicam que o GNV substituía
a proposta de redução americana é um bilhão de litros de álcool, com
muito, muito baixa: equivale a cerca sérias perdas de divisa e redução ex-
de 4% de redução em relação ao ano pressiva na atividade canavieira. O
de 1990, parâmetro base do acordo
anterior, o Protocolo de Kyoto. 25
Lei no 8.723, de 28 de outubro de 1993.
26
A Portaria MF no 189, de 5 de julho de 1995, libera os
preços dos tipos de açúcar, exceto cristal standard, e a
Contradições à parte, o resultado da Portaria MF no 275, de 16 de outubro de 1998, libera os
demais preços e serviços da agroindústria canavieira.
COP 15 foi muito limitado e a mensa- 27
Lei no 9.478, de 6 de agosto de 1997.

24 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

autor destaca também que a emissão Nacional dos Fabricantes de Veículos


de particulado do GNV (3,95 g/km) Automotores (ver Tabela 2.5).
era muito superior a da gasolina com
25% de álcool anidro (1,60 g/km). Em um contexto positivo, a indús-
tria sucroalcooleira, que vinha pro-
duzindo alimentos e bebidas, açúcar
Renascimento do álcool líquido e granulado, álcool anidro e
carburante, Lançamento do hidratado (inclusive aqueles para uso
doméstico), além de outros subpro-
Programa de Biodiesel e dutos do processamento químico,
Crescimento da importância começa a produzir bioeletricidade a
da cogeração partir do bagaço da cana-de-açúcar.

Em 2003, os carros flex-fuel, veículos Em 2005, foi lançado o Programa Na-


que podem ser movidos a álcool ou à cional de Produção e Uso do Biodie-
gasolina a qualquer taxa de mistura, sel (PNPB). A partir de então, o Estado
chegam ao mercado e causam gran- passou a ter metas de uso de biodie-
des mudanças28. Os consumidores sel na matriz energética nacional.
brasileiros mostram racionalidade De 2005 a 2007, a adição de dois por

Tabela 2.5 – Evolução da venda de carros flex fuel no Brasil, 2003 – 2008

Ano Vendas de carros flex fuel Vendas totais Participação

2003 48.178 1.237.021 3,9%

2004 328.379 1.457.274 22,5%

2005 812.104 1.541.494 52,7%

2006 1.430.334 1.748.758 81,8%

2007 1.995.090 2.240.857 89,0%

2008 2.329.247 2.546.352 91,5%

Fonte: Anfavea (2009). Elaboração pelo autor.

econômica e consistência ambiental cento de biodiesel ao diesel fóssil era


aderindo maciçamente à nova opção. autorizativa, evoluindo para ser obri-
Em 2008, cerca de 92% dos carros gatória, no mesmo percentual (2%),
vendidos no País já eram bicombus- de 2008 a 2012. O percentual subiria
tíveis conforme dados da Associação para cinco por cento a partir de 2013.
Além disso, novas atribuições relati-
28
Goettemoeller & Goettemoller (2007) informam
vas aos biocombustíveis foram atri-
que, em 1908, Henry Ford equipou seu automóvel buídas ao Conselho Nacional de Po-
modelo “T” com motor capaz de funcionar a qualquer
combinação de álcool e gasolina. lítica Energética e à ANP, que passou

RELEITURA | jul./dez. 2011 25


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

a ser denominada “Agência Nacional realização de cinco painéis nos quais


do Petróleo, Gás Natural e Biocom- foram debatidos os seguintes pontos:
bustíveis”.
1. Biocombustíveis e Segurança Ener-
Mas, de fato, a trajetória do biodiesel gética: transição da matriz energé-
no Brasil começou com iniciativas do tica; diversificação das fontes; uni-
Instituto Nacional de Tecnologia na versalização de acesso;
década de 192029. No entanto, somen-
te no final da década de 1970, em meio 2. Biocombustíveis e Mudança do
à crise energética internacional, foi Clima: mitigação das emissões de
criado o Plano de Produção de Óleos gases do efeito estufa, mudança de
Vegetais para Fins Energéticos (Proó- uso da terra; análise comparativa
leo). Em 1980, o Proóleo passou a ser do ciclo de vida;
denominado Programa Nacional de 3. Biocombustíveis e Sustentabilida-
Óleos Vegetais para Fins Energéticos, de: segurança alimentar; geração
cujo objetivo era promover a substi- de renda, desafios para os ecossis-
tuição de até 30% de óleo diesel com temas;
óleos vegetais produzidos a partir de
soja, amendoim, colza e girassol. En- 4. Biocombustíveis e Inovação: pes-
tretanto, o sucesso do Proálcool – que quisa e desenvolvimento; biocom-
acabou sendo um competidor do Pro- bustíveis de primeira e segunda
óleo – a estabilização dos preços do geração; oportunidades para a Ci-
petróleo, já na década de 1980, e, mor- ência e Tecnologia; e
mente, o alto custo de esmagamento 5. Biocombustíveis e Mercado Inter-
das oleaginosas e de produção do bio- nacional: regras comerciais; ques-
combustível impediram a expansão e
tões técnicas; padrões sócio-am-
consolidação do Proóleo30.
bientais.
Em 2008, foi lançada a mistura de die- A Conferência constituiu-se impor-
sel com 2% de biodiesel, o chamado tante fórum para o debate sobre os
B2, e foi realizada em São Paulo, por desafios e oportunidades para os bio-
iniciativa do Presidente Luís Inácio combustíveis. A desmistificação de
Lula da Silva, a “Conferência Interna- que os biocombustíveis eram respon-
cional sobre Biocombustíveis: os bio- sáveis pela alta de preço internacional
combustíveis como vetor do desen- de alimentos e sua produção de for-
volvimento sustentável” para tratar ma sustentável foram alvos dos deba-
os desafios e oportunidades enfrenta- tes, assim como o desenvolvimento
dos pelo etanol e outros combustíveis tecnológico e sua contribuição para o
renováveis. A ênfase do evento foi na equilíbrio ambiental e mitigação das
emissões de gases provocadores do
29
Fonte: Entrepreneurs Toolkit, disponível em http:// efeito estufa.
www.entrepreneurstoolkit.org/ Acesso: 2/5/2010
30
Outros programas foram tentados em seguida,
como o PRODIESEL e o Programa de Óleos Vegetais, Em julho de 2009, o País adota o B4
na década de 1980, e o Projeto DENDIESEL, na déca-
da de 1990. (diesel com 4% de biodiesel) e, em

26 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

janeiro de 2010, entra no mercado o 3. os biomas Amazônia e Pantanal e


B5 (diesel com 5% de biodiesel). Com a Bacia do Alto Paraguai;
essa medida, o Governo adianta a 4. as áreas de proteção ambiental;
meta do ano de 2013 e sinaliza que
5. as terras indígenas;
tem interesse de aumentar o uso de
combustível renovável associado ao 6. remanescentes florestais;
consumo de diesel. A produção de 7. dunas;
biodiesel para 2010, no Brasil, foi es- 8. mangues;
timada em 2,4 bilhões de litros (em 9. escarpas e afloramentos de ro-
um consumo médio de cerca de 45 cha;
bilhões de litros de diesel).
10. reflorestamentos;
Além disso, o Governo Federal, por 11. áreas urbanas e de mineração.
meio do Decreto no 6.961, de 17 de
setembro de 2009, aprovou o zo- Em 2010, os carros da Stock Car bra-
neamento agroecológico da cana- sileira (categoria de automobilismo)
-de-açúcar no País, a partir da safra começaram a competir usando o eta-
2009/2010. Com a edição deste nor- nol. O combustível foi fornecido pela
mativo, o Governo procura, por um Cosan Combustíveis e Lubrificantes,
lado, dissipar reclamações ambien- cujo contrato de parceria terá valida-
tais, principalmente vindas do exte- de de três anos32.
rior, e, por outro, garantir condições
propícias para uma agricultura sus- Em 2011, de acordo com a empresa
tentável para a cana. Entre os parâ- Amyris, chega ao mercado o diesel
metros apontados pelo Decreto como renovável de cana-de-açúcar, que
de referência para a decisão governa- iniciará sua produção comercial na
mental estão: a vulnerabilidade das Usina Boa Vista, em Quirinópolis, no
terras, o risco climático, o potencial Estado de Goiás.
de produção agrícola sustentável e a
legislação ambiental vigente. Espera-se, para os anos vindouros,
o surgimento e desenvolvimento de
Ainda de acordo com o Decreto novos biocombustíveis renováveis,
no 6.961, de 2009, foram excluídas utilizando várias outras rotas tecno-
do zoneamento agroecológico os se- lógicas.
guintes itens31:

1. as terras com declividade supe- 3. Economia dos


rior a 12%, observando-se a pre- biocombustíveis
missa da colheita mecânica e sem
queima para as áreas de expansão; Nenhum país no mundo conseguiu
2. as áreas com cobertura vegetal desenvolver tecnologia sustentável
nativa; 32
Fonte: http://www.energiahoje.com/online/bio-
combustiveis/alcool/2009/10/20/396370/stock-car-
Para o detalhamento de todas as exclusões, reco-
31
-com-etanol-da-cosan%C2%A0.html. Acesso em ou-
menda-se a leitura integral do Decreto. tubro de 2009.

RELEITURA | jul./dez. 2011 27


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Tabela 3.1 – Principais produtores de cana-de-açúcar, 2007


Em milhões de toneladas
Países Produção Participação
Brasil 514 33%
Índia 356 23%
China 106 7%
Tailândia 64 4%
México 51 3%
Outros 467 30%
Fonte: MAPA (2009), com dados originais
extraídos da FAO. Elaboração pelo autor.

alternativa ao uso do combustível fós- deva ser o papel dos biocombustíveis


sil na mesma escala do que o Brasil. na matriz energética nacional.
No capítulo anterior, foi comentado
que na fase aguda da desarticulação
da produção de etanol, o País chegou Panorama mundial da
a importar metanol para adicionar à produção sucroalcooleira e de
gasolina e, ainda, tentou introduzir o biodiesel
GNV veicular para uso em carros de
passeio33. Assim, uma grande consta-
Produção mundial de cana-
tação emerge: o País passou perto de
de-açúcar
perder um grande avanço tecnológi-
co, alcançado a duras penas devido à
No ano de 2007, o Brasil produziu 514
falta de visão estratégica.
milhões de toneladas das 1558 mi-
lhões produzidas no mundo, o que
A principal meta deste capítulo é
colocou o País como o maior produ-
abordar a questão sob o enfoque da
tor global de cana-de-açúcar, com
Economia dos Biocombustíveis, pro-
33% da produção, seguido de Índia
curando quantificar o tamanho e a
(23%) e China (7%) – ver Tabela 3.1.
importância do setor no Brasil. Para
tanto, serão apresentados dados esta-
Em termos de área plantada, a ordem
tísticos acerca da produção, comércio
é similar: Brasil com 6,7 milhões de
exterior, preços de cana, açúcar, álco-
hectares (30%), Índia com 4,9 milhões
ol e biodiesel no mundo e no Brasil.
de hectares (22%) e China com 1,2 mi-
Ao cabo do capítulo, entende-se que
lhões de hectares (5%) – ver Gráfico 3.1.
será possível concluir, a partir dos
dados econômicos analisados, qual No entanto, ao se observar a produ-
tividade para o ano de 2007, a China
33
Em 2010, o Estado brasileiro cogitou importar eta- fica com 86,1 ton./ha, o Brasil com
nol dos EUA em face da escalada dos preços no mer-
cado doméstico e devido à quebra de safra da cana- 77,6 ton./ha e o México com 74,5
-de-açúcar, com a redução da tarifa de importação de
20% para 0%. ton./ha (ver Gráfico 3.2).

28 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Gráfico 3.1 – Área planta de cana-de-açúcar, 2007


Em porcentagem

Fonte: MAPA (2009), com dados originais extraídos da FAO. Elaboração pelo autor.

Gráfico 3.2 – Produtividade dos principais produtores de cana-de-açúcar, 2007


Em toneladas por hectare

Fonte: MAPA (2009), com dados originais extraídos da FAO. Elaboração pelo autor.

RELEITURA | jul./dez. 2011 29


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Gráfico 3.3 – Produtividade dos principais produtores de cana-de-açúcar, 1990-2007


Em toneladas por hectare

Fonte: MAPA (2009), com dados originais extraídos da FAO. Elaboração pelo autor.
Neste Gráfico, Mundo refere-se à produtividade média global.

Não se pode, porém, concluir que o Por outro lado, se se manter a tendên-
país asiático tenha tendência de pro- cia observada nos últimos dois anos,
dutividade maior do que a brasileira. a China poderá se consolidar como o
Ao se observar a série de 1990 a 2007 país de maior produtividade. Então,
(ver Gráfico 3.3), somente nos últimos seria o caso de aceleração de produ-
dois anos a produtividade chinesa foi tividade e não produtividade fora da
maior do que a brasileira. Ademais, tendência histórica, hipótese que se
tomando-se a média do período, con- acredita ser a mais provável.
clui-se que a maior produtividade foi
a brasileira com 75,4 ton./ha, segui- Outra questão importante refere-se
da pelas produtividades do México ao açúcar total recuperável (ATR),
(73,7 ton./ha) e Índia (67,1 ton./ha ). que corresponde à quantidade efe-
A China apresenta produtividade mé-
dia de 65,8 ton./ha entre 1990 e 2007, ferências porque padronizam dados para diferentes
países. A utilização de dados cuja origem fosse de
um pouco superior a média mundial cada um dos países envolvidos poderia gerar grande
distorção estatística. Outra razão para não se preocu-
(64,3 ton./ha)34. par com uma pseudo queda de produtividade brasi-
leira, que será discutida mais adiante no item sobre
produção de cana-de-açúcar brasileira, é que, para a
34
Esta seção está baseada em MAPA (2009), com da- safra 2008/2009, a partir de dados da Conab, a cultivar
dos originais extraídos da FAO. Para fins de estudos ocupou 7,0 milhões de hectares, com produtividade
internacionais, tanto a FAO quanto o USDA são re- média de 80,9 toneladas por hectare.

30 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

tiva de sacarose na cana-de-açúcar. Produção mundial de


Para o caso brasileiro, o ATR por to- açúcar
nelada de cana-de-açúcar é da ordem
de 140,7 kg (Conab, 2008), o que leva Em 2007, a produção mundial foi
o País a ter alto rendimento. Em ou- de 166,3 milhões de toneladas (vide
tras palavras, não basta ter produtivi- Tabela 3.3). Nesse ano, o Brasil foi o
dade alta, mas é necessário também maior produtor de açúcar mundial
ter alta quantidade de sacarose na com 33,2 milhões de toneladas (20%
cana produzida. No Brasil, precisa-se da produção global), seguido pela
de 7,5 kg, 12,6 kg e 12,1 kg de cana- União Europeia com 29,1 milhões de
-de-açúcar para produzir, respectiva- toneladas (17,5% da produção global)
mente, 1 kg de açúcar, 1 litro de álco- e pela China com 18,5 milhões de to-
ol anidro e 1 litro de álcool hidratado neladas (11,1% da produção global).
(vide Tabela 3.2). Comparações com
base em ATR de cana-de-açúcar para O principal consumidor de açúcar em
outros países mostram-se inviáveis 2007 foi a Índia com 20,9 milhões de
porque o conceito de ATR foi cria- toneladas, seguida pela União Euro-
do especificamente para pagamen- peia e pelo Brasil com 19,3 milhões de
to diferenciado de cana com maior toneladas e 13,8 milhões de tonela-
produtividade de sacarose. Por ou- das, respectivamente (vide Tabela 3.4)
tro lado, o argumento de que a cana
brasileira tem mais teor de sacarose, Os principais importadores de açú-
pode ser verificado fazendo-se uma car em 2007 foram Rússia com 3,4
comparação de produtividade, por milhões de toneladas, seguida pela
exemplo, com a cana indiana. No Indonésia com 3,1 milhões de tonela-
Brasil, é possível obtenção de produ- das e União Europeia com 1,7 milhão
ção média de 7.000 litros por hectare, de toneladas (vide Tabela 3.5).
ao passo que, na Índia, a produtivi-
dade média de etanol é da ordem de Os principais exportadores de açú-
5.200 litros por hectare. Tomando- car foram Brasil com 42% do merca-
-se esses parâmetros, chegaríamos a do mundial, seguido pela Tailândia e
conclusão de que o produto indiano Austrália com 9,7% e 8,0% do merca-
teria 105 kg de ATR por tonelada de do global respectivamente (vide Ta-
cana. bela 3.6).

Tabela 3.2 – Quantidade necessária de cana para produzir


1 kg açúcar ou 1 litro de álcool no Brasil, 2008
Produto final ATR necessário ATR por ton. cana Cana-de-açúcar necessária
Açúcar (Kg) 1,0495 Kg 140,7 Kg 7,5 Kg
Álcool anidro (l) 1,7651 Kg 140,7 Kg 12,6 Kg
Álcool hidratado (l) 1,6913 Kg 140,7 Kg 12,1 Kg
Fonte: MAPA (2009), Conab (2008). Elaboração pelo autor.

RELEITURA | jul./dez. 2011 31


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Tabela 3.3 – Principais produtores de açúcar do mundo, 2007


Em mil toneladas
Países 2007 Participação
Brasil 33.200 20,0%
União Europeia 29.090 17,5%
China 18.450 11,1%
Índia 13.900 8,4%
EUA 7.150 4,3%
México 7.680 4,6%
Austrália 5.420 3,3%
Tailândia 4.630 2,8%
Paquistão 4.360 2,6%
Cuba 1.193 0,7%
Demais 41.227 24,8%
Total 166.300 100,0%

Fonte: MAPA (2009), com dados originais extraídos da USDA e da OIA. Elaboração pelo autor.

Tabela 3.4 – Principais consumidores de açúcar do mundo, 2007


Em mil toneladas
Países 2007 Participação
Índia 20.880 13,2%
União Europeia 19.310 12,2%
Brasil 13.820 8,8%
EUA 12.470 7,9%
China 9.110 5,8%
Rússia 6.500 4,1%
México 4.940 3,1%
Paquistão 4.400 2,8%
Indonésia 4.250 2,7%
Japão 2.451 1,6%
Demais 59.569 37,8%
Total 157.700 100,0%
Fonte: MAPA (2009), com dados originais extraídos da USDA e da OIA. Elaboração pelo autor.

32 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Tabela 3.5 – Principais importadores de açúcar do mundo, 2007


Em mil toneladas
Países 2007 Participação
Rússia 3.400 7,0%
Indonésia 3.070 6,3%
União Europeia 1.660 3,4%
EUA 1.570 3,2%
Coreia 1.120 2,3%
Japão 1.550 3,2%
Canadá 1.220 2,5%
Malásia 1.200 2,5%
Nigéria 1.200 2,5%
China 1.226 2,5%
Demais 31.601 64,7%
Total 48.817 100,0%
Fonte: MAPA (2009), com dados originais extraídos da USDA e da OIA. Elaboração pelo autor.

Tabela 3.6 – Principais exportadores de açúcar do mundo, 2007


Em mil toneladas
Países 2007 Participação
Brasil 20.530 42,1%
Tailândia 4.740 9,7%
Austrália 3.910 8,0%
Índia 2.730 5,6%
Guatemala 1.500 3,1%
Cuba 540 1,1%
Colômbia 560 1,1%
África do Sul 700 1,4%
União Europeia 1.625 3,3%
Turquia 42 0,1%
Demais 11.940 24,5%
Total 48.817 100,0%

Fonte: MAPA (2009), com dados originais extraídos da USDA e da OIA. Elaboração pelo autor.

RELEITURA | jul./dez. 2011 33


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Observando as tabelas, é possível mundo e outros 18 têm programas


concluir que, não na mesma ordem, em fase de implantação35. Os princi-
os cinco principais produtores (Brasil, pais atores na produção de álcool são
União Europeia, Índia, EUA, China) Brasil, Estados Unidos da América e
são também os cinco maiores con- União Europeia. A produção mundial
sumidores. E ainda que os três maio- de etanol em 2007 foi de 61,8 milhões
res importadores compram 16,7% do de litros e o prognóstico para 2017 é
açúcar transacionado. Por outro lado, 122,4 bilhões de litros. O Brasil expor-
os três maiores exportadores vendem tou cerca de 4,2 bilhões de litros em
quase 60% do açúcar transacionado, 2008 (17 % da produção total). Espe-
sendo que o Brasil é o líder exportan- ra-se que a exportação em 2017 seja
do sozinho cerca de 42% do açúcar pelo menos o dobro (Valor Econômi-
exportado em 2007. co, 2008).

Estima-se que a demanda atual do


Produção mundial de mundo por esse combustível seja de
álcool cerca de 120 bilhões de litros (vide
Tabela 3.7), sendo os Estados Unidos
Uma previsível escassez de combus- da América (EUA), o Brasil e a União
tíveis fósseis em algum ponto futuro, Europeia (UE) os maiores deman-
o aumento de demanda por energia dantes com 57, 27 e 22 bilhões de
devido ao crescimento mundial e a litros, respectivamente. É necessário
preocupação crescente com a ques- frisar que somente o Brasil adiciona
tão ambiental e com o aquecimento mais de 10% de álcool à gasolina (li-
global têm levado os países a busca- mite entre 20% e 25%). Caso o parâ-
rem novas fontes de energia. Nesse metro de adição se altere, a deman-
contexto, uma das mais triunfantes da pode ser alterada drasticamente.
iniciativas, com reconhecimento em Aqui, aplica-se a já recorrente ressal-
escala mundial, é a produção de bio- va com respeito à China. A mudança
combustíveis, em especial o álcool. de estratégia daquele país asiático
pode alterar a demanda mundial ra-
Knight (2007) afirma que o Brasil ob- pidamente.
tém três vezes mais energia da bio-
massa que a média dos países e cinco A produção para o ano de 2008 ain-
vezes mais que a maioria dos países da encontra-se longe do atendimen-
europeus. Considerando que a maté-
ria-prima para produção do etanol, 35
De acordo com Valor Econômico (2008), havia pro-
principal biocombustível brasileiro, é gramas existentes nos seguintes países: Canadá, EUA,
Belize, El Salvador, Venezuela, Colômbia, Brasil, Para-
a cana-de-açúcar, e que a planta tem guai, Suécia, Polônia, Alemanha, República Tcheca,
grande capacidade de biomassa, o Eslováquia, Hungria, Itália, França, Espanha, Nigéria,
Índia, China, Tailândia e Austrália. Ainda com base
cenário brasileiro é animador. na mesma fonte, há registro de implantação de pro-
gramas nos países seguintes: Honduras, Guatemala,
Nicarágua, Costa Rica, República Dominicana, Peru,
Existem programas de uso de álcool Bolívia, Argentina, Uruguai, Reino Unido, Holanda,
Bélgica, Áustria, Paquistão, Filipinas, Japão, Nova Ze-
combustível em cerca de 22 países no lândia, África do Sul.

34 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Tabela 3.7 – Demanda mundial por etanol, 2007

Países Quantidade (bilhões de litros) Mistura de etanol à gasolina (%)


EUA 57,0 Sem limite
Brasil 27,0 20% a 25%
UE 22,0 10%
China 4,8 10%
Austrália 2,1 10%
Japão 1,8 3%
Venezuela 1,5 10%
Índia 1,1 10%
Tailândia 1,0 10%

Fonte: Valor Econômico (2008), com dados originais extraídos da UNICA/Infinity. Elaboração pelo autor.

Tabela 3.8 – Produção mundial de álcool, 2008


Em bilhões de litros
País Produção Participação
EUA 34,0 51,0%
Brasil 27,0 40,5%
China 1,9 2,8%
França 1,2 1,8%
Canadá 0,9 1,3%
Alemanha 0,5 0,7%
Espanha 0,4 0,6%
Tailândia 0,3 0,4%
Demais 0,5 0,7%
Total 67,0 100%
Fonte: Pires e Schechtman (2009), com dados originais extraídos da Renewable Energy Policy for the
21st Century. Elaboração pelo autor.

to das demandas projetadas, no caso Produção mundial de


de as políticas públicas propostas biodiesel
pelos países serem, de fato, efetivas.
De acordo com Pires e Schechtman Para o caso do biodiesel, 21 países no
(2009), a produção de etanol mundial mundo já utilizam o combustível e 11
para 2008 foi de 67 bilhões de litros países estão implantando seus pro-
(ver Tabela 3.8), o que corresponde a gramas36. Os atores mais importantes
uma produção 8,4% superior à cita-
da na Revista Valor Econômico para 36
De acordo com Valor Econômico (2008), os países
que usavam mistura à gasolina, em 2007, são os se-
2007. Como tendência, espera-se que guintes: Groelândia, Canadá, EUA, Colômbia, Brasil,
a produção de etanol continuará a Argentina, Suécia, Reino Unido, Dinamarca, Polônia,
Alemanha, República Tcheca, Eslováquia, Hungria,
crescer para os anos vindouros. Áustria, Itália, França, Espanha, Tailândia, Coréia do

RELEITURA | jul./dez. 2011 35


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

são os mesmos do álcool, muito em- tem feito um esforço para ampliar o
bora o conceito por trás dessa estra- uso desse biocombustível. O imposto
tégia não seja análogo, uma vez que ecológico alemão – utilizado como
esse combustível não poderá pres- instrumento para fomentar o “des-
cindir de combustíveis fósseis. A pro- locamento” ambiental – é defendido
dução mundial, em 2007, foi de 9,5 por alguns porque investimentos em
bilhões de litros e a estimativa para soluções poupadoras de energia con-
2017 é 18,7 bilhões de litros (Valor tribuiriam para o aumento do PIB.
Econômico, 2008). Em seguida, a redução do custo da
mão-de-obra ganharia importância.
A produção para o ano de 2008 foi de Assim, ocorreria uma substituição
12 bilhões de litros, um acréscimo de dos fatores de capital e energia pelo
26% em comparação com o ano ante- fator trabalho alcançando os objeti-
rior (ver Tabela 3.9). vos de preservar o meio ambiente e
aumentar o nível de emprego.
A Alemanha, com 2,2 bilhões de litros
e tendência de ampliação, merece Outros entendem que a redução de
destaque na produção de biodiesel. emissão de carbono foi percebida
Complementarmente à política am- como sendo pequena em face da
biental posta em prática desde os úl- grande alteração tributária e que a
timos anos do século passado, o país redução nas contribuições da pre-

Tabela 3.9 – Produção mundial de biodiesel, 2008


Em bilhões de litros
País Produção Participação
Alemanha 2,2 18,6%
EUA 2,0 16,9%
França 1,6 13,6%
Brasil 1,2 10,2%
Argentina 1,2 10,2%
Tailândia 0,4 3,4%
Espanha 0,3 2,5%
China 0,1 0,8%
Canadá 0,1 0,8%
Demais 2,7 22,9%
Total 12,0 100,0%
Fonte: Pires e Schechtman (2009), com dados originais extraídos da Renewable Energy Policy for the
21st Century. Elaboração pelo autor.

vidência social de 1,7%; quase im-


Sul e Filipinas. Ainda com base na mesma fonte, há perceptível em um país onde essas
registro de experimentos em curso nos países seguin- contribuições ultrapassam os 40% do
tes: México, Chile, África do Sul, China, Índia, Malásia,
Japão, Indonésia, Filipinas, Austrália e Nova Zelândia. salário bruto.

36 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Polêmicas à parte, entende-se que a exclusivamente a álcool. Aqui, houve


tendência é que os países continuem forte expansão do álcool hidratado.
incentivando soluções com uso de
energia renovável, inclusive com ten- Por fim, a quarta fase – fase da crise –
dência de expansão de biodiesel. entre 1986 e 1995, marcou uma desa-
celeração do Proálcool, com redução
de investimentos públicos e desequi-
Panorama brasileiro da líbrio entre demanda e oferta. Ocorre
produção sucroalcooleira nesse período normalização dos pre-
ços internacionais do petróleo e revi-
Welter & Shikida (2002) fazem um re- goramento dos preços do açúcar.
lato das fases pelas quais passaram
a produção de cana, açúcar e álcool Os autores ainda apontam o período
até o início dos anos 2000 no Brasil. A pós-1995 como crítico para a agroin-
partir de revisão de literatura, os au- dústria canavieira, devido à indefi-
tores apontam que o setor sucroalco- nição dos rumos do Proálcool e ao
oleiro passou por quatro fases distin- ambiente de desregulamentação. O
tas de 1960 a 2000. artigo de Welter & Shikida foi escri-
to em 2002. Então, esse comentário
A primeira – fase da modernização37 deve ser entendido dentro desse con-
–, com começo na década de 60, foi texto temporal. Não se sabia à época
marcada pelo processo de desenvol- o que ocorreria com a produção de
vimento tecnológico, no qual políti- etanol e o País ainda estava levando a
cas de incentivo à fusões de usinas e cabo uma série de mudanças institu-
melhoria das pesquisas agronômicas cionais muito mais ampla, dentro do
foram fomentadas para se alcançar processo de privatização, desregula-
maior competitividade setorial. mentação e abertura comercial.

A segunda – fase da diversificação –, Com a vantagem de observar a histó-


entre 1975 e 1979, procurava ampliar ria após decorrido o prazo, não seria
as oportunidades para os produtos demais definir o período de 1996 a
do setor sucroalcooleiro em meio à 2003, anterior ao lançado o carro flex
crise energética mundial. Segundo os fuel, como fase da letargia!
autores, nesse estágio houve forte ex-
pansão do álcool anidro. Especificamente com respeito ao
processo de substituição de combus-
A terceira – fase da afirmação do ál- tíveis no Brasil, Sousa (2009) apresen-
cool – entre 1980 e 1985, confirma o ta uma ciclotimia dos combustíveis,
etanol como opção energética e há com ênfase do primeiro choque do
estímulos ao uso de carros movidos petróleo aos dias atuais. Entre o pri-
meiro e o segundo choque do petró-
37
Os autores do artigo não deram as definições às leo, o autor identifica uma substitui-
fases como descrito neste texto. Portanto, a denomi-
nação das fases foi uma forma de o autor definir em ção da gasolina pelo diesel. Entre o
poucas palavras o principal efeito dos períodos des-
critos.
segundo choque e o contrachoque de

RELEITURA | jul./dez. 2011 37


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

1987, quando o preço do barril de pe- em 200838) e está presente em 25 esta-


tróleo caiu drasticamente, ocorreu a dos, sendo 11 na região Centro-Sul e
substituição da gasolina pelo etanol. 14 na região Norte-Nordeste39, os úni-
Do contrachoque até pouco depois cos Estados que não estão envolvidos
da edição da Lei do Petróleo, houve na produção do setor são Roraima e
uma ligeira substituição pelo GNV. Amapá.
Com o lançamento do carro flex fuel,
o etanol volta a ganhar espaço. Considerando os dados da Secreta-
ria-Geral Presidência da República,
Nesse contexto, talvez poderíamos em todo o setor sucroalcooleiro há
identificar mais uma etapa, pós 2003, 1,26 milhões de trabalhadores, sendo
a fase do reflorescimento do etanol. 70,1% na Região Centro-Sul e 29,9%
Com aplicação de uma estratégia cor- na Região Norte-Nordeste. A distri-
reta, o País pode colher bons frutos buição dos trabalhadores em culti-
desse momento positivo da produção vo de cana-de-açúcar, fabricação de
sucroalcooleira: cana-de-açúcar, açú- açúcar (bruto e refinado) e fabricação
car, etanol e bioeletricidade podem de álcool representam 39,5%, 45,4% e
ser fundamentais para a continuida- 15,1%, respectivamente (vide Tabela
de do processo de desenvolvimento 3.11).
brasileiro.
Sem dúvida alguma, o setor é um im-
portante gerador de empregos, renda
O setor sucroalcooleiro e desenvolvimento no País. Moraes
nacional et all. (2009) aplicando a metodolo-
gia do cociente locacional concluem
De acordo com Neves et all. (2009), que as atividades produtivas têm
o setor sucroalcooleiro representou alta capacidade de interiorização. De
cerca de 2% do Produto Interno Bru- acordo com o Estudo, os municípios
to (PIB) brasileiro em 2008, ou seja, produtores de açúcar e/ou álcool
uma produção da ordem de US$ 28,2 chegam a 1.042 (aproximadamente
bilhões (vide Tabela 3.10). Ademais, a 19% de todos os municípios do País),
arrecadação de impostos agregados é demonstrando alta capilaridade do
estimada em US$ 6,86 bilhões (equi- setor.
valente a cerca de 6% da arrecadação
do Imposto de Renda em 2008). Além disso, os autores destacam que,
em 2007, o trabalhador de cana-de-
Dados de 2007, produzidos por Mo- -açúcar recebeu o segundo maior sa-
raes et all. (2009) indicam que o setor
emprega nas atividades de produção 38
Hipótese de a Petrobras ter 55 mil funcionários.
de álcool, incluindo o plantio, 465.236 39
Os estados da Região Norte-Nordeste são: Ron-
dônia, Acre, Amazonas, Pará, Tocantins, Maranhão,
trabalhadores (cerca de 8,5 vezes o Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernam-
buco, Alagoas, Sergipe e Bahia. Os Estados da Região
número de funcionários da Petrobras Centro-Sul são: Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de
Janeiro, Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Rio Gran-
de do Sul, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e
Distrito Federal.

38 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Tabela 3.10 – PIB do setor energético, 2008


Em milhões de US$
Produto Valor
Etanol 16.916,28
Etanol hidratado 12.294,41
Etanol anidro 4.183,09
Etanol não-energético 438,78
Açúcar 10.780,10
Bioeletricidade 389,63
Levedura e Aditivo 63,61
Crédito de carbono 3,48
Total 28.153,10

Fonte: Sousa (2009), com dados originais extraídos de Neves et


all. (2009). Elaboração pelo autor.

Tabela 3.11 – Perfil dos trabalhadores no setor Sucroalcooleiro

Regiões Cultivo de cana Produção/açúcar Produção/álcool Total


Centro-Sul 413.827 83,15% 319.897 55,91% 150.546 78,86% 884.270 70,1%
Nordeste 83.843 16,85% 252.250 44,09% 40.348 21,14% 376.441 29,9%
Brasil 497.670 100,00% 572.147 100,00% 190.894 100,00% 1.260.711 100,0%

Fonte: SGPR (2009). Elaboração pelo autor

lário médio entre os trabalhadores ru- ções de terreno inferiores a 12 graus


rais (R$ 590,60), ficando atrás apenas serão utilizadas colheitadeiras me-
do trabalhador da soja (R$ 799,69), cânicas para que sejam evitadas as
que, em geral, tem maior grau de queimadas que geram emissão de gás
educação. Moraes et all. (2009) des- carbônico e de outros gases provoca-
tacam que, entre 1999 e 2007, os au- dores do efeito estufa.
mentos reais de salários dos trabalha-
dores dos canaviais foram da ordem Estimativas de Conab (2008) indicam
de 4,30% ao ano, perdendo somente que para a safra 2007/2008 eram ne-
para a sojicultura (5,05% ao ano), o cessários cerca de 304 mil trabalha-
que pode indicar que essa tendência dores para que toda a colheita fosse
é consistente. feita manualmente. Os dados do Es-
tudo indicam ainda que uma colhei-
Um grande impacto esperado no tadeira é capaz de substituir 82 traba-
mercado de trabalho canavieiro será lhadores na Região Centro-Sul e 79 na
a entrada efetiva do corte mecaniza- Região Norte-Nordeste (vide Tabela
do no País. Nas regiões com inclina- 3.12).

RELEITURA | jul./dez. 2011 39


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Tabela 3.12 – Estimativa do corte mecanizado no Brasil


Itens Região Centro-Sul Região Norte-Nordeste
Corte mecanizado diário 700 toneladas 600 toneladas
Dias úteis de trabalho 150 120
Colheitadeiras em uso 1.154 22
Corte de um trabalhador 15,2 hectares 13,8 hectares
Corte de uma colheitadeira 1.246 hectares 1.095 hectares
Trabalhadores substituídos 82 79
Fonte: Conab (2008). Elaboração pelo autor.

Do ponto de vista social, há que se rante a fase do plantio. A pesquisado-


contar, no curto prazo, com programa ra destacou um dado estarrecedor: na
de suporte e requalificação de traba- década de 60, o trabalhador tinha por
lhadores que serão substituídos pela meta um corte diário de 2 toneladas
mecanização. Mas não há dúvida que por dia. Atualmente, corta-se 12 to-
tal processo será fundamental em ter- neladas por dia, com alguns trabalha-
mos de ganho de produtividade (vide dores chegando a 20 toneladas40.
dados na Tabela 3.12) e competitivida-
de e resultará na geração de empregos Em face do exposto, entende-se que
de maior qualidade e remuneração, o corte mecanizado demandará polí-
dentro e fora do setor sucroalcooleiro. ticas públicas para requalificação dos
Ademais, haverá substanciais ganhos trabalhadores, com sério impacto no
ambientais decorrentes da interrup- nível de emprego no curto prazo, que
ção da prática da queimada da palha os novos empregos gerados serão de
da cana-de-açúcar que provoca emis- maior qualidade, que a prática redu-
são de gás carbônico. zirá a exploração humana e física dos
trabalhadores e que significativos ga-
Por fim, mas não menos importante, é nhos ambientais poderão ser colhidos
essencial destacar que o corte manu- com a redução da emissão de CO2.
al constitui-se em uma atividade ex-
tremamente penosa e insalubre para
o trabalhador. Em audiência pública, Produção brasileira de
realizada em 4 de julho de 2007, a cana-de-açúcar
pesquisadora da Fundacentro, Maria
Cristina Gonzaga, destacou os pro- De 1975 a 2008, existe uma tendência
blemas enfrentados pelos cortadores de crescimento tanto da área planta-
de cana-de açúcar. Segundo ela, os da quanto da produtividade ao longo
trabalhadores recebem por produti- do tempo, o que mostra a consistên-
vidade, cortam a cana rente ao chão cia do setor sucroalcooleiro no Brasil
e organizam a cana em fileiras. Ade- (ver Gráfico 3.4).
mais, eles trabalham próximos a má-
quinas e, não raramente, tem contato 40
Para a íntegra das audiências da Subcomissão dos
com fertilizantes e agrotóxicos du- Biocombustíveis, ver Senado Federal (2007).

40 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Para a safra 2008/2009, a cana-de- cana-de-açúcar no Brasil e uma ten-


-açúcar ocupa uma área de 7,0 mi- dência de maior crescimento na re-
lhões de hectares, sendo 84,8% na gião Centro-Sul em comparação com
região Centro-Sul e 15,2% na região a Região Norte-Nordeste se eviden-
Norte-Nordeste, e produção de 571,8 cia. Para mostrar a dimensão dessa
milhões de toneladas, o que redun- cultura, vale ressaltar que a área plan-
da em produtividade média de 80,9 tada de soja, milho e arroz, na safra
toneladas por hectare. O Gráfico 3.5 2008/2009, foram, respectivamente,
mostra a evolução da produção de 21,3, 14,2 e 3,0 milhões de hectares.

Gráfico 3.4 – Área plantada e Produtividade de cana no Brasil, 1975 – 2008

Fonte: MAPA (2009), com dados originais extraídos do IBGE. Elaboração pelo autor.

Gráfico 3.5 – Produção de cana-de-açúcar no Brasil


Em milhões de toneladas

Fonte: UNICA (2009), com dados originais extraídos do MAPA e da própria Unica. Elaboração pelo
autor.

RELEITURA | jul./dez. 2011 41


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Produção brasileira de vendeu US$ 19,4 milhões do produ-


açúcar to para o exterior ao preço médio de
cerca de US$ 291 por tonelada (ver
A cana é utilizada para produção de Gráfico 3.7). Observando a série his-
açúcar, álcool e energia. Atualmente, tórica desde 1989, esse foi o segundo
De acordo com dados do MAPA, de preço mais alto, ficando atrás apenas
9/12/2009, o País tem mais de 437 do ano de 1990. A exportação de 2008
usinas, sendo 253 mistas, 16 especia- é a maior exportação anual do perío-
lizadas somente em açúcar e 168, em do. Os piores preços foram nos anos
álcool. A produção de açúcar na safra de 2002 e 1999, US$ 157 e US$ 158 por
2008/2009 foi superior a 31,0 milhões tonelada, respectivamente. Em 1999,
de toneladas de açúcar, com tendên- o Brasil aumentou suas exportações
cia de crescimento (ver Gráfico 3.6). em 45% e derrubou o preço interna-
cional, efeito de um agente de grande
escala econômica.
Exportação e importação
de açúcar brasileiro Tradicionalmente, o País não importa
açúcar em grande escala para consu-
O Brasil exporta açúcar para mais de mo. No entanto, por necessidades e
120 países, incluindo Estados Unidos demandas específicas, as pequenas
da América (EUA), União Europeia importações ocorrem de forma natu-
(UE), Japão e Rússia. Em 2008, o País ral (ver Gráfico 3.8). Apenas entre os

Gráfico 3.6 – Produção de açúcar no Brasil


Em milhões de toneladas

Fonte: UNICA (2009), com dados originais extraídos do MAPA e da própria Unica. Elaboração pelo autor.

42 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Gráfico 3.7 – Preço médio e exportação de açúcar do Brasil, 1989 – 2008

Fonte: MAPA (2009), com dados originais extraídos do MDIC. Elaboração pelo autor.

Gráfico 3.8 – Preço médio e importação de açúcar do Brasil, 1989 – 2008

Fonte: MAPA (2009), com dados originais extraídos do MDIC. Elaboração pelo autor.

RELEITURA | jul./dez. 2011 43


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Gráfico 3. 9 – Produção de álcool no Brasil


Em milhões de toneladas

Fonte: UNICA (2009), com dados originais extraídos do MAPA e da própria Unica. Elaboração
pelo autor.

anos de 1992 e 1995, ocorreram im- ção atual, 40,3% são de álcool anidro
portações médias de 60 mil toneladas – utilizado para adição à gasolina –,
por ano, que ainda assim é conside- 59,6% de álcool hidratado – utilizado
rada baixa. A média dos outros anos – como combustível – e 0,1% de álcool
20 toneladas anuais – é ainda menor. hidratado não combustível para ou-
Relativamente aos preços praticados, tras finalidades.
pode-se afirmar que se trata de pro-
dutos específicos e que os valores
envolvidos não refletem o preço do Exportação e importação
mercado internacional (ver Gráfico de álcool brasileiro
3.7 para uma comparação).
O Brasil também exporta etanol para
mais de 50 países, incluindo EUA,
Produção brasileira de EU, Japão, e Índia. Em 2008, o Brasil
álcool vendeu 5,1 milhões de metros cúbi-
cos (M3) de etanol a um preço médio
Relativamente ao álcool, destaca-se de cerca de US$ 467 por M3. O pre-
que sua produção alcançou o volu- ço mais baixo ocorreu em 2000 (US$
me de 27,5 bilhões de litros na sa- 153/M3) e o menor volume exportado
fra 2008/2009, com uma tendência em 1990, com 9 mil M3 (ver Gráfico
maior de expansão nos anos mais 3.10).
recentes, cerca de 180% de expansão
desde a safra 2002/2003, em grande Por mais incômodo que isso possa
parte pelo lançamento bem sucedi- parecer, o País importou álcool de
do dos carros com tecnologia flex fuel 1989 a 2001, chegando em 1995 a
em 2003 (ver Gráfico 3.9). Da produ- comprar quase 1,5 milhão de litros.

44 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Gráfico 3.10 – Preço médio e exportação de etanol do Brasil, 1989 – 2008

Fonte: MAPA (2009), com dados originais extraídos do MDIC. Elaboração pelo autor.

A partir de 2002, os volumes impor- longo processo de desenvolvimento,


tados são desprezíveis vis a vis com a lançou soluções inovadoras na área,
produção nacional. Com respeito aos como os carros flex fuel. Igualmente
preços, observa-se comportamen- passível de destaque está o fato de o
to razoável nas aquisições, exceção Brasil ter sido pioneiro na adição de
feita posteriormente a 2005, mas re- 20 a 25% de álcool anidro à gasolina.
presenta intervalo de tempo no qual
o País comprou pouco, não sendo, Atualmente, cerca de 92% dos car-
assim, parâmetro tão relevante para ros vendidos no País são flex fuel (ver
comparação (ver Gráfico 3.11). Gráfico 3.12), a maioria constituída
de veículos leves.

Uso do álcool nos veículos Considerando a utilização de álcool


brasileiros hidratado nesse tipo de carro e o ani-
dro adicionado à gasolina, a contri-
O Brasil começou suas experiências buição do País à redução de emissão
no início do século passado e já em de dióxido de carbono ou gás carbô-
1975 tinha um programa ambicioso nico (CO2) e de outros gases provoca-
para redução da dependência do pe- dores do efeito estufa é significativa.
tróleo importado. Ademais, o país de- Macedo et al. (2009) estima que o ál-
senvolveu tecnologia nacional e, após cool emite 89% menos CO2 que a ga-

RELEITURA | jul./dez. 2011 45


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Gráfico 3.11 – Preço médio e importação de etanol do Brasil, 1989 – 2008

Fonte: MAPA (2009), com dados originais extraídos do MDIC. Elaboração pelo autor.

Gráfico 3.12 – Venda de carros a álcool e flex fuel no Brasil, 1979 – 2008
Em porcentagem

Fonte: Anfavea (2009). Elaboração pelo autor.

solina. Ademais, o Estudo indica que a emissão devido às queimadas). Outro


emissão de gases do efeito estufa, en- dado surpreendente do Estudo indica
tre 1990 e 2006, teria sido 10% maior que, do início do Mecanismo de De-
se não tivesse sido utilizado o etanol senvolvimento Limpo (MDL) da Or-
no Brasil (essas contas excluem a ganização das Nações Unidas (ONU),

46 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

em julho de 2005, até julho de 2009, Produção de


o etanol brasileiro evitou a emissão bioeletricidade no Brasil
de gases de efeito estufa equivalente
a 60% dos créditos de carbono gera- De acordo com Conab (2008), no fun-
dos por esse mecanismo no mundo! cionamento corrente das unidades
Com base em seus dados, o Estudo industriais é preciso prover três tipos
calculou quanto seria a externalidade de energia: mecânica para rodar as
positiva do etanol. O etanol teria um moendas; térmica para o processo de
valor adicional de US$ 0,20 por litro, cocção de caldo, para fabricação de
ou seja, o equivalente ao quanto se açúcar e para destilação de álcool; e
deixa de gastar em outras tecnologias elétrica para fazer o sistema funcionar.
para remover CO2 de carbono da at-
mosfera devido ao seu uso. Ainda de acordo com o mesmo Es-
tudo, o modelo comum de geração
Outros fatores relevantes são que a energética apresenta as seguintes
frota de veículos leves tende a ser etapas:
65% da frota nacional já em 2015
(Jank, 2008-A) e que infraestrutura e 1) Queima do bagaço e a produção de
logística são modernas e eficientes. vapor de água em grandes volumes.
Nesse sentido, o avanço da produção
2) Parte do vapor de alta temperatura
de carros bicombustíveis mostra-se
é canalizado diretamente para a fa-
medida importante para o equilíbrio
bricação de açúcar e álcool.
ambiental. Em 2008, de acordo com
dados da Anfavea (2009), foram pro- 3) A quantidade de vapor excedente
duzidos mais de 2,2 milhões de carros faz funcionar uma turbina que pro-
a álcool e flex fuel (ver Gráfico 3.13). duz um movimento de rotação de

Gráfico 3.13 – Produção de carros a álcool e flex fuel no Brasil, 1979 – 2008
Em mil unidades

Fonte: Anfavea (2009). Elaboração pelo autor.

RELEITURA | jul./dez. 2011 47


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Tabela 3.13 – Perfil das unidades interligadas de produção de energia elétrica

Número de Energia comercializada Capacidade de Participação na


Regiões
usinas (MWh/h) moagem (mil ton.) cana processada
Centro-Sul 33 420,1 2.656 20,60%
Nordeste 15 87,9 1.291 31,00%
Brasil 48 508,0 2.229 21,90%

Fonte: Conab (2008). Elaboração pelo autor.

grande força, capaz de fazer girar as Conab – 4000 horas médias de traba-
moendas e o gerador elétrico. lho das usinas –, estimou-se em 2.032
GWh a energia comercializada (sufi-
O que ocorre, em geral, é que a quan-
ciente para alimentar 1,13 milhão de
tidade de vapor útil produzida é mui-
to maior do que a demanda da usina residências).
para produzir toda energia necessá-
Outro aspecto que deve ser destacado
ria para o seu funcionamento. Como
consequência, a quantidade exce- é a importância da energia renovável
dente pode ser destinada à produção na matriz energética brasileira. En-
de energia elétrica que pode ser utili- quanto muitos países desenvolvidos
zada no processo produtivo e distri- lutam para tentar limpar suas matri-
buída para rede de eletricidade, se a zes, o Brasil detém uma matriz ener-
usina estiver interligada. gética com 45,3% de energia reno-
vável (vide Tabela 3.14). Em 2008, os
Jank (2008-B) registra que a potência derivados da cana-de-açúcar repre-
gerada pelas usinas é suficiente para sentaram 16,4% de toda energia con-
operar 100% da operação do proces- sumida no País e 36,2% de toda ener-
so industrial e Conab (2008) informa gia renovável produzida. Somente o
que 48 usinas entregaram 508 MWh de item “Petróleo e Derivados” apresenta
eletricidade por hora trabalhada pelas participação energética maior do que
usinas na safra 2007/2008 (energia su- a produção do setor sucroalcooleiro.
ficiente para alimentar 2,48 milhões
de residências)41. A capacidade média O potencial de expansão da produção
de moagem das usinas interligadas de bioeletricidade é imenso e pode
naquela safra foi 2.229 mil toneladas, o trazer muitas benesses para o siste-
que correspondeu a uma participação ma energético nacional. Castro et al.
de 21,90% dessas usinas na moagem (2009) argumenta que o período de
de cana no Brasil. A Tabela 3.13 detalha safra é complementar à geração das
os dados das unidades interligadas. hidroelétricas, portanto a bioeletrici-
dade pode ser produzida em período
Com base na Tabela 3.13 e com infor- seco, quando as hidrelétricas produ-
mações fornecidas por técnicos da zem menos. Como restrição à expan-
são, argumenta-se que essa energia
41
Para um consumo médio de 147,7 kWh/mês, de
acordo com dados da EPE para o ano de 2008. renovável não tem tido sucesso nos lei-

48 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Tabela 3.14 – Matriz energética brasileira, 2008


Milhões de tonelada equivalente de petróleo (tep)
Fontes 2008 %
Não-Renovável 138 54,7%
Petróleo e Derivados 92,5 36,7%
Gás Natural 25,9 10,3%
Carvão Mineral e Derivados 15,7 6,2%
Urânio (U3O8) e Derivados 3,7 1,5%
Renovável 114,2 45,3%
Energia hidráulica e Eletricidade 34,9 13,8%
Lenha e Carvão Vegetal 29,2 11,6%
Derivados da Cana-de-açúcar 41,3 16,4%
Outras Renováveis 8,8 3,5%
Total 252,2 100%

Fonte: EPE (2009). Elaboração pelo autor.

lões de energia porque as regras e me- fase de autorização e 13 unidades


todologia dos leilões são deficientes. O encontram-se em processo de am-
Estudo destaca que o desprezo dessa pliação. A capacidade total instalada
energia não é racional, uma vez que a é de 3,8 bilhões de litros/ano.
cada 1.000 megawatts médios de bioe-
letricidade inseridos na matriz elétrica Estimativas do Governo Federal indi-
entre maio e novembro, ocorreria uma cam que a substituição de 1% de óleo
economia de quase 4% da capacidade diesel por biodiesel com a participa-
nos reservatórios das regiões Sudeste ção da agricultura familiar geraria 45
e Centro-Oeste. Atualmente, apenas mil empregos no campo com renda
23.841 GWh são gerados a partir da média anual de R$ 4.900,00. Ademais,
biomassa, o que corresponde a apenas o Governo estima que três empregos
4,7% da oferta energética da matriz de adicionais seriam gerados nas cida-
energia elétrica em 2008. des, elevando o potencial de postos
para 180 mil. Ainda de acordo com
o estudo, se ocorresse 6% de partici-
Panorama brasileiro da pação da agricultura familiar na pro-
produção de biodiesel dução de biodiesel seria possível a
geração de um milhão de empregos
O setor de produção de (Holanda, 2004).
biodiesel nacional
Não há dados disponíveis sobre o
De acordo com Brandão (2009), exis- mercado de trabalho no setor de pro-
tem 64 unidades produtoras autori- dução de biodiesel. Mas como atu-
zadas, 19 novas unidades estão em almente a produção de biodiesel a

RELEITURA | jul./dez. 2011 49


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

partir de soja responde por cerca de de 1,2 bilhões de litros, um acréscimo


80% da produção (ver Tabela 3.15), de 189% em comparação com o ano
entende-se que ainda há um longo anterior. Para 2010, com a entrada do

Tabela 3.15 – Participação das matérias-primas nos leilões de abril e maio de 2009

Produto Participação
Óleo de soja 76,37% - 81,33%
Gordura Bovina 19,36% - 16,11%
Óleo de algodão 2,23% - 0%
Outros materiais graxos 2,04% - 2,56%

Fonte: Brandão (2009), com dados originais extraídos da ANP. Elaboração pelo autor.

caminho a se percorrer para que as B5, espera-se uma produção superior


metas sociais propostas possam ser a 2,4 bilhões de litros.
totalmente alcançadas.

Exportação e importação
Produção brasileira de de biodiesel brasileiro
biodiesel
Embora não haja dados disponíveis
A partir de 2005, o Brasil começa a sobre comércio exterior de biodie-
desenvolver uma produção consis- sel, a produção tem sido usada para
tente de biodiesel para atendimento o consumo interno e ainda não têm
dos limites a serem adicionados ao existido condições para que o pro-
diesel em conformidade com a Lei no duto possa ser exportado. Questões
11.097, de 2005. Em seguida, é editada de logísticas, barreiras comerciais e
a Lei no 11.116, de 2005, que concede mesmo bloqueio político de países
benefícios fiscais para produção. Em desenvolvidos têm impedido que o
sua fase inicial, o programa foi idea- País comece a exportar. É recorrente
lizado para ter um forte cunho social. a alegação de que existe falta de sus-
tentabilidade na produção brasileira.
Atualmente, o biodiesel tem sido pro-
duzido em 15 estados42 e por cerca de O Ministério da Agricultura, Pecuária
50 produtores, com tendência de ex- e Abastecimento (MAPA) anunciou
que está elaborando juntamente com
pansão. A produção foi crescente de
o setor privado estudo para mostrar
2005 a 2009 (Ver Tabela 3.16).
a viabilidade da produção brasileira,
inclusive com base em critérios de
Em 2008, com a entrada do B2, a pro-
sustentabilidade43.
dução de biodiesel alcança o volume
A obtenção de novos mercados pode
42
Em 2009, os estados são: Bahia, Ceará, Goiás, Mato ser vista como uma grande estratégia
Grosso, Minas Gerais, Pará, Paraná, Piauí, São Paulo,
Tocantins, Rio Grande do Sul, Rondônia, Maranhão,
Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro. 43
O Estado de São Paulo, 19 de agosto de 2009.

50 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Tabela 3.16 – Produção de Biodiesel no Brasil, 2005 – 2009


Em M3
Meses 2005 2006 2007 2008 2009
Janeiro - 1.075 17.109 76.784 90.352
Fevereiro - 1.043 16.933 77.085 80.206
Março 8 1.725 22.637 63.680 131.991
Abril 13 1.786 18.773 64.350 105.458
Maio 26 2.578 26.005 75.999 103.663
Junho 23 6.490 27.158 102.767 141.139
Julho 7 3.331 26.718 107.786 154.557
Agosto 57 5.102 43.959 109.534 167.086
Setembro 2 6.735 46.013 132.258 160.538
Outubro 34 8.581 53.609 126.817 156.811
Novembro 281 16.025 56.401 118.014 166.192
Dezembro 285 14.531 49.016 112.053 150.042
Total 736 69.002 404.329 1.167.128 1.608.053

Fonte: ANP (2009). Complementação dos dados da Tabela em 2010.

para o País, uma vez que a capacida- 2012. O percentual subiria para cinco
de instalada brasileira supera o con- por cento a partir de 2013.
sumo local.
Em 2008, foi lançada a mistura de die-
sel com 2% de biodiesel, o chamado
Uso de biodiesel nos B2. Em julho de 2009, o País adota
veículos brasileiros o B4 e, em janeiro de 2010, entra no
mercado o B5. Assim, a meta do ano
O Brasil teve atitude pioneira no uso do de 2013 foi adiantada em três anos.
biodiesel. Em 1980, o primeiro ônibus
movido a biodiesel do mundo percor- Considerando a situação atual – uti-
re 300 km com bons resultados com lização do B4 até dezembro de 2009
respeito ao desempenho do motor e B5 a partir de janeiro de 2010 –, há
(Parente, 2007). No entanto, as ações ociosidade produtiva (capacidade
iniciais não tiveram continuidade. produtiva de 3,8 bilhões litros/ano).
A mistura B4 demanda cerca de 1,8
Somente com a criação do Programa bilhões litros/ano e a B5, 2,4 bilhões
Nacional de Produção e Uso do Bio- litros/ano. A estimativa atual é que o
diesel (PNPB), houve uma política aumento de 1% na mistura ao diesel
mandatória de utilização de biodie- geraria um incremento de 450 mi-
sel. De 2005 a 2007, a adição de 2% de lhões de litros de biodiesel44.
biodiesel ao diesel fóssil era autoriza-
tiva, evoluindo para ser obrigatória, 44
Considerando a hipótese de consumo de 45 bilhões
no mesmo percentual (2%), de 2008 a de litros de diesel no País (Brandão, 2009).

RELEITURA | jul./dez. 2011 51


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Tabela 3.17 – Perfil de utilização de terras no Brasil


Em milhões de ha
Floresta Amazônica 350
Áreas protegidas 55
Pastagens 210
Culturas anuais 46
Culturas permanentes 15
Florestas cultivadas 5
Áreas agricultáveis inexploradas 90
Cidades, lagos e estradas 20
Outros usos 60
Total 851

Fonte: Rodrigues (2006).

Uma proposta da União Brasileira Notas sobre o preço de terra,


do Biodiesel (Ubrabio) é introduzir
açúcar, álcool e biodiesel no
o B20 metropolitano como forma de
aumentar o consumo de biodiesel no
Brasil
Brasil e, em consequência, reduzir a
ociosidade. A vantagem adicional se-
Preço da terra brasileira
ria reduzir o impacto de poluição e o
O perfil de utilização das terras no
custo de saúde nas grandes cidades
Brasil (vide Tabela 3.17), geralmente
(Brandão, 2009).
apresentado, compõe-se de estima-
tiva a partir de dados do Instituto
Não é demais lembrar que o diesel
Brasileiro de Geografia e Estatística
utilizado no Brasil pode emitir até
(IBGE) e da Companhia Nacional de
500 partículas de enxofre por mi-
Abastecimento (Conab) e tem sido
lhão nas regiões urbanas e até 1.800
utilizado para argumentações no
partículas de enxofre por milhão
sentido de que o Brasil tem terras dis-
em regiões interioranas. A previsão
poníveis abundantes e baratas45.
de emissão, partir de 1o de janeiro
de 2009, estatuída na Resolução no Com base na Tabela 3.17, é possí-
315, de 2002, do Conselho Nacional vel extrair o perfil de uso de terra na
de Meio Ambiente (Conama), de 50 agropecuária (Tabela 3.18), que indi-
partículas de enxofre por milhão
ficou restrita para frota cativas de 45
Elaborado a partir da apresentação “Conjuntura e
ônibus urbanos de São Paulo e Rio Perspectiva do Agronegócio Brasileiro”, realizada na
Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado
de Janeiro. Esse seria um ponto con- Federal pelo Ministro da Agricultura, Pecuária e Abas-
trário ao uso do diesel comum e, por tecimento, Senhor Roberto Rodrigues, em 16 de mar-
ço de 2005, com atualizações baseadas na apresenta-
outro lado, favorável ao fomento do ção “Feedstock for bioethanol: the Brazilian case”, do
Professor Peter Zuubier, ocorrida em março de 2008,
biodiesel. em Roterdã, Holanda.

52 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Tabela 3.18 – Uso de terras na agropecuária Brasil


Em milhões de ha
Área agricultável explorada 66
Área inexplorada para agropecuária 90
Área utilizada na pecuária 210
Fonte: Rodrigues (2006). Elaboração pelo autor.

Tabela 3.19 – Reserva Ambiental


Em milhões de ha
Reserva ambiental 55
Floresta Amazônica 350

Fonte: Rodrigues (2006). Elaboração pelo autor.

Tabela 3.20 – Situação das terras indígenas no Brasil


Em ha

No de T.I. % Área
Delimitada 33 1,66 1.751.576
Declarada 30 7,67 8.101.306
Homologada 27 3,40 3.599.921
Regularizada 398 87,27 92.219.200
Total 488 100 105.672.003

Fonte: FUNAI (2009). Elaboração pelo autor.

ca que a agricultura utiliza 66 milhões 105.673.003 hectares, delineia-se o


de hectares; a pecuária, 210 milhões; perfil das terras indígenas, que perfaz
e que 90 milhões estariam disponí- 12,41% do total do território brasilei-
veis. ro (ver Tabela 3.20).

Igualmente, é possível identificar o É fundamental, nesse contexto, des-


perfil da reserva ambiental, que mos- tacar que a área disponível para agro-
tra a existência de 55 milhões de hec- pecuária no Brasil é muito, muito
tares de reserva e que a Floresta Ama- grande – 90 milhões de hectares cor-
zônica tem 350 milhões de hectares respondem a 900 mil km2. Em outras
(Tabela 3.19, acima). palavras, a área brasileira disponível
para agricultura seria aproximada-
E finalmente, agregando informa- mente igual à França continental
ções da Fundação Nacional do Índio mais a Alemanha, ou ainda duas ve-
(FUNAI), que dão conta que a área zes a área útil da Espanha.
das 488 terras indígenas (TI), cujos
processos de demarcação estão, pelo Mesmo considerando que a mudança
menos, na fase “Delimitada”, é de do clima e o processo de desertifica-

RELEITURA | jul./dez. 2011 53


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

ção em algumas áreas do Nordeste – quantidade de terras equivalente à


com a formação de voçorocas46, que utilizada atualmente pelo País para
tendem a prejudicar globalmente a agricultura. Ou pensando de outra
produção de alimentos – acredita-se forma, mantendo-se a área para fins
que o Brasil é um dos poucos países de pecuária, seria possível ampliar o
com o estoque de terras agricultáveis rebanho para 294 milhões de cabeças
no mundo. Ademais, entende-se que (vide Tabela 3.21, cenário 2).
o crescimento da produtividade da
agropecuária brasileira ajudará a re- Importante também ressaltar que o
duzir os impactos negativos mencio- Decreto no 6.961, de 2009, que apro-
nados. vou o zoneamento agroecológico da
cana-de-açúcar, tem, entre seus ob-
Além disso, caso o Brasil passe a ge- jetivos, produzir cana-de-açúcar de
renciar melhor o manejo da produ- forma sustentável, preservar a biodi-
ção de gado – que hoje corresponde a versidade, atender todos os disposi-
um rebanho da ordem de 210 milhões tivos legais, e desenvolver o produto
de cabeças para uma área de 210 mi- considerando critérios de energia.

Tabela 3.21 – Simulação de melhoria de produtividade na pecuária no Brasil, 2009


Rebanho em milhões, área para pecuária em milhões de ha
Cenários Rebanho Taxa de ocupação Área para pecuária
Cenário atual 210 1,0 210
Cenário 1 210 1,4 150
Cenário 2 294 1,4 210

Fonte: IBGE (2009), elaboração pelo autor.

lhões de hectares47 – uma área imensa Assim, esses dados são consistentes
poderia ser liberada para agricultura e com a tese de que o Brasil tem todas
pecuária, sem necessidade de desma- as condições de produzir qualquer
tamento. A título de simulação, uma commodity agropecuária sem des-
melhoria da produtividade de 40%48 truição do meio ambiente, sem dani-
(vide Tabela 3.21, cenário 1), ou seja, ficar terras indígenas, e com capaci-
em vez de 1 cabeça por hectare, uma dade de cumprir qualquer exigência
taxa de 1,4 cabeças por hectare fosse de sustentabilidade socioeconômi-
utilizada, seria liberada uma área de ca porque dispõe da matéria-prima
60 milhões de hectares, ou seja, uma essencial – terra abundante – e se
dispõe a praticar a agricultura utili-
46
Fenômeno geológico que consiste na formação de zando a melhor técnica disponível.
grandes buracos de erosão, causados por chuvas e Ademais, é importante frisar que, de
outras intempéries. Nessas condições, o solo perde
nutrientes e não apresenta condições mínimas de fe- acordo com dados da Unica (208-B), a
cundamento das plantas.
47
Para o IBGE, em 2006, havia 215 milhões de bovino,
Floresta Amazônica dista entre 2.000
bubalino, equino, asinino, muar no País. Para 2007, a e 2.500 km dos centros produtivos de
estimativa seria de cerca de 209 milhões de cabeças.
48
Percentual escolhido aleatoriamente. cana-de-açúcar do Nordeste ou do

54 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Sudeste, e que nesta última região pequena (2,5 % da área utilizada na


estaria cerca de 90% da produção na- agropecuária no Brasil). Vislumbra-se
cional (ver Gráfico 3.14). Mesmo no boa oportunidade para expansão. No
nível internacional, aqueles que ava- entanto, não se pode afirmar que as
liam a questão com isenção reconhe- terras brasileiras sejam baratas.
cem que o plantio de cana-de-açúcar
na Amazônia é um mito. Por exemplo, Conab (2008) afirma que novas fron-
Goettemoeller & Goettemoller (2007) teiras corresponderam a apenas
reconhecem que a Floresta é muito 2% da expansão da cana na safra
quente e úmida para otimização da 2007/2008, sendo que a substituição
produção de etanol. de atividade foi a principal razão para
o crescimento do plantio. As ativida-
Em 2008, a produção de cana-de- des que foram mais deslocadas são:
-açúcar ocupou 7,0 milhões de hecta- pastagem (66,4%), soja (17%) e laran-
res, o que pode ser considerada área ja (5%).

Gráfico 3.14 – Distribuição da produção de cana-de-açúcar no Brasil, 2008

Fonte: Unica (2008-B), com dados originais extraídos de NIPE-Unicamp, IBGE e CTC.

RELEITURA | jul./dez. 2011 55


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Gráfico 3.15 – Preço médio de pastagem em regiões de São Paulo, 1995 – 2009
Em R$ por hectare

Fonte: IEA (2009). Elaboração pelo autor.

Considerando que as terras de pasta- Considerando que o preço utilizado


gens foram as que mais foram agre- foi uma média e que se refere à ter-
gadas à produção de cana-de-açúcar, ra que potencialmente seria de baixa
foi realizado levantamento de infor- qualidade para utilização de plantio,
mações sobre preço médio de terra de os dados são relevantes para con-
pastagens49 em três regiões do Estado tradizer que as terras são baratas no
de São Paulo, com base em dados do País. Se terras “ruins” estão encare-
Instituto de Economia Agrícola (IEA). cendo, as boas...

Os preços médios para Campinas, Uma comparação com o Reino Unido,


Franca e Ribeirão Preto indicam, que que tem escassez de terras e caracte-
de junho de 1995 a junho de 2009, rísticas diferentes, ou mesmo com os
houve uma tendência de elevação de EUA, que apresentam grande varia-
preços nas regiões (vide Gráfico 3.15). ção nos preços de terra a depender da
região, nos impede de fazer compara-
49
De acordo com IEA (2009), a definição para “terra ções internacionais fidedignas50.
para pastagem” é aquela imprópria para culturas,
mas potencialmente apta para pastagem e silvicul-
tura. Terra de baixa fertilidade, plana ou acidentada, 50
Por exemplo, consulta aos sítios do UK Land Direc-
com exigências, quanto às práticas de conservação e tory (http://www.uklanddirectory.org.uk/index.asp)
manejo, de simples a moderadas, considerando o uso e do Land and farm.com (http://www.landandfarm.
indicado. com/), ambos em 6/2/2010, mostra grande disparida-

56 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Gráfico 3.16 – Preço de açúcar e álcool no Brasil, 1998 – 2009


Álcool (R$/l), açúcar (R$/Kg)

Fonte: UNICA (2009). Elaboração pelo autor.

No entanto, o que se pretende argu- economia de escala. De outro modo,


mentar é que a tendência de aumen- a incorporação só se dará com a cor-
to significativo do preço de terras já respondente elevação de custo de
vem sendo verificado no Brasil. Em produção.
maio de 2007, matéria publicada pela
Agência Estado (2008) indicava que, Assim, pelas razões expostas, en-
de 2001 a 2006, o valor médio por tende-se que as terras no Brasil são
hectare subiu 113,6% no País, sendo abundantes, mas não tão baratas,
que a valorização não teria sido ho- como muitos costumam dizer e que a
mogênea. A matéria feita com base simples comparação com o preço de
em dados do IEA destacava que, em outros países não seria adequada.
Franca, o valor por hectare subiu
170,0 % e, em Ribeirão Preto, 160,4 %.
A relação entre o preço do
Em complemento, destaca-se que açúcar e do álcool no Brasil
terras baratas e boas estão, em geral,
localizadas em regiões nas quais ou- Pode-se dizer que existe uma tendên-
tros componentes de custo deverão cia de deslocamento conjunto dos
ser considerados para a produção da preços do açúcar e do álcool no Brasil,
agropecuária. Claro que a racionali- mesmo sem a preocupação de uso de
dade econômica impõe que, se a gle- testes estatísticos ou econométricos
ba for viável, será incluída no sistema mais elaborados (ver Gráfico 3.16).
produtivo, respeitados os critérios de
Ademais, não se pode deixar de con-
de de preços das terras comercializadas naqueles paí- siderar que a taxa de câmbio exerce
ses, e pouca possibilidade de comparação com dados
preços brasileiros. importante papel na comercialização

RELEITURA | jul./dez. 2011 57


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

das commodities brasileiras, uma vez a quantidade de ATR para produção


que a cotação internacional desses de cada um desses produtos é dife-
produtos se faz na moeda america- rente (ver Tabela 3.2). Em outras pala-
na. No período de reflorescimento da vras, a quantidade de cana-de-açúcar
produção de álcool no País – de 2003 para produzir um litro de álcool varia
em diante – a taxa de câmbio se apre- de acordo com o tipo produzido, as-
ciou (ver Gráfico 3.17). sim como a quantidade de cana para
produzir um kg de açúcar, ou seja, os
Em certa extensão, o comportamen- produtos não são produzidos a partir
to randômico do preço do açúcar no da mesma quantidade de cana-de-
mercado internacional e o real valo- -açúcar.
rizado contribuíram para a expansão
do álcool no País no período recente. Para uma correta comparação, se-
Uma consequência foi que, em 2009, ria necessário ajustar as séries pelas
a venda de álcool hidratado e anidro relações de troca, determinada pela
já supera a venda de gasolina pura quantidade de ATR necessária em
(Unica, 2009-B). cada produto. Por exemplo, para uma
comparação justa entre o açúcar e o
O Gráfico 3.16 apresenta certo viés. álcool hidratado, deve-se comparar
De fato, não seria possível comparar 1,68 Kg de açúcar com um litro de ál-
os preços do kg do açúcar com o litro cool hidratado para que a simulação
do álcool anidro ou hidratado porque pudesse refletir a quantidade de ATR

Gráfico 3.17 – Taxa de Câmbio Brasileira, 1998 – 2009


R$/US$, média do período

Fonte: World Bank (2007), FXHISTORY (2009). Elaboração pelo autor.

58 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

que está, de fato, em jogo na comer- No nível interno, o processo de pro-


cialização (ver Tabela 3.22). dução de açúcar se acirrou e o preço
do álcool nas bombas disparou nas
Na comercialização real de açúcar e principais cidades brasileiras. Em
álcool não se pode modificar o preço Brasília, no final de janeiro de 2010,
formado simplesmente utilizando as era possível se verificar o litro do ál-
relações anteriores. Ademais, a deter- cool a R$ 2,25! Não restou, ao Gover-
minação dos preços no mercado tem no Federal, outra alternativa que não
fatores múltiplos que não levam em fosse modificar a porcentagem de
conta apenas a taxa técnica de trans- mistura na gasolina para garantir que
formação de ATR, o que faz com que não houvesse escassez do produto. A
a comparação baseada em quantida- Portaria MAPA no 7, de 11 de janeiro
de de ATR seja apenas um fator indi- de 2010, determinou, nos meses de
cativo de que, em certos momentos, fevereiro, março e abril, a redução do
vale a pena produzir açúcar e deixar o percentual de mistura do álcool ani-
álcool de lado para se aproveitar das dro à gasolina, de 25% para 20%.
condições de mercado.
Outro fator relevante a se observar
Em novembro de 2009, o álcool nas na análise de preços de açúcar e ál-
bombas dos postos de combustíveis cool diz respeito à condição ótima do
no Distrito Federal já tinha tido au- sistema de produção. Em tese, uma
mento superior a 10% e chegado a planta que produzisse somente álco-
valores superiores a R$ 2,00 por litro. ol poderia ser mais lucrativa do que
Entre as causas apontadas estavam a uma mista, que produzisse açúcar
quebra de safra de cana-de-açúcar na e álcool. Assim, poderia, em algum
Índia e a falta de estoques no País. A momento, ocorrer a especialização,
consequência imediata no mercado ou seja, usinas só para produção de
internacional foi que o preço do açú- álcool; outras só para produção de
car, para atendimento da demanda açúcar. No entanto, o risco do negó-
internacional, disparou, chegando ao cio aumentaria muito.
valor médio de R$ 55,50 por saca de
50 kg em setembro de 2009 (ver Gráfi- Mesmo o mercado de álcool crescen-
co 3.16). Esse é um exemplo claro de do a 10% ao ano e do açúcar a 2% nos
que o fator de transformação não é anos recentes (Conab, 2008), ainda
o único parâmetro para definição da há a percepção de que a garantia da
comercialização. possibilidade de transformar mais

Tabela 3.22 – Relação de substituição de ATR, 2008


Relação de substituição Valores Taxa de ajuste
Preço açúcar (Kg)/Preço de anidro (l) 1,6818 68%
Preço açúcar (Kg)/Preço de hidratado (l) 1,6115 61%
Preço anidro (l)/Preço de hidratado (l) 1,0436 4%
Fonte: Conab (2008). Elaboração pelo autor.

RELEITURA | jul./dez. 2011 59


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

cana em um ou outro produto prote- energia. Assim, a depender da escala


ja o investidor. É importante destacar da planta, a especialização pode se
que a margem de substituição entre mostrar vantajosa. Mas, por ora, toda
os dois produtos, quando toda a cana essa discussão ainda encontra-se no
disponível deva ser moída no período campo especulativo.
de safra, situa-se entre 5% e 10% (Co-
nab, 2008). Por outro lado, a regularidade de abas-
tecimento de etanol, tanto no merca-
Além da possibilidade de escolha de do nacional e internacional, ainda se
qual produto produzir, mesmo com constitui em um desafio para trans-
a margem de troca pequena, outra formação do produto em uma com-
vantagem se mostra relevante para modity internacional. Problema que
otimização do uso de ATR em usinas se amplia em um contexto de movi-
mistas, como descrito a seguir. mentos bruscos da produção de açú-
car em resposta a variações de preços
Conab (2008) destaca que – em épo- do mercado internacional. Portanto,
cas chuvosas e, consequentemente, entende-se que mecanismos de re-
de muita umidade – quando o rendi- gulação de oferta devem ser desen-
mento em sacarose está com baixos volvidos para que a consolidação de
níveis, é preferível atingir o limite má- um mercado internacional de etanol
ximo de produção de álcool e reduzir possa ser alcançada. Outro problema
ao mínimo a produção de açúcar. Ao extremamente sério, no nível interno,
contrário – nos períodos secos, quan- é a sonegação fiscal. O Sindicato Na-
do o rendimento em sacarose está no cional das Empresas Distribuidoras
auge – a decisão pode ser a produção de Combustíveis e de Lubrificantes
de mais açúcar. O Estudo ressalta, (SINDICOM) afirma que cerca de 4,5
ainda, que isso depende das condi- bilhões de etanol (30% do volume to-
ções de mercado e das condições téc- tal consumido em 2009) não tem seus
nicas de cada usina também. impostos recolhidos adequadamen-
te. O prejuízo estimado para o país é
Com avanço da tecnologia, quando a da ordem de R$ 1,0 bilhão!
produção do etanol celulósico – ob-
tido a partir do caldo, do bagaço, das
folhas e dos restos – estiver dispo- Preço do biodiesel
nível, acredita-se que será possível brasileiro
obtenção de uma produção de cerca
de 170 litros por tonelada de cana- O Programa Nacional de Produção
-de-açúcar51. Talvez um processo de e Uso do Biodiesel (PNPB) é muito
especialização seja mais atrativo. Por recente (criado somente em 2005).
outro lado, o acoplamento para tra- Portanto, o biodiesel brasileiro ainda
tamento do bagaço e demais partes se encontra em estágio de desenvol-
demandará um maior consumo de vimento, o que conduz à conclusão
de que os custos de produção ainda
A produção brasileira média de álcool atual é da or-
51

dem de 85 l/tonelada (MAPA, 2009). passarão por processo de ajustes gra-

60 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

duais nos anos vindouros, possivel- sel, o Governo Federal fomentou uma
mente para baixo. série de medidas específicas visando
a estimular a inclusão social da agri-
A adição mandatória de 5% a partir de cultura na cadeia produtiva de bio-
2010 e o fomento de sua expansão po- diesel.
dem criar condições para a queda do
preço desse combustível. A utilização As Instruções Normativas no 01, de
plena das usinas e o desenvolvimento 05 de julho de 2005, e no 02, de 30
de tecnologia para que culturas sejam de setembro de 2005, do Ministério
economicamente potencializadas do Desenvolvimento Agrário (MDA),
podem criar um ambiente para que o especificam as condições para que
custo de produção possa declinar. projetos de produção de biodiesel se
consolidem como empreendimen-
Atualmente, os preços do biodiesel tos aptos ao selo combustível social.
produzido no País ainda encontram- O enquadramento social de projetos
-se acima dos patamares tidos como ou empresas produtoras de biodiesel
ideais. Tomando-se os dezesseis pri- permite acesso a melhores condições
meiros leilões da ANP, os preços mé- de financiamento, além dar direito de
dios ficaram entre R$ 1,74 e R$ 2,69 concorrência em leilões de compra
por litro de biodiesel (ver Gráfico de biodiesel.
3.18).
Campos e Carmélio (2009) argumen-
Por outro lado, é importante frisar tam que o biodiesel deverá ter níveis
que o programa carrega um impor- crescentes nos próximos anos, com
tante componente social. Por meio boas perspectivas de exportação, que
do selo combustível social, que é exi- o combustível amplia a oferta de ali-
gido das empresas participantes dos mentos, sobretudo dos produtos cár-
leilões de compra e venda de biodie- neos e lácteos, que o seu preço ainda

Gráfico 3.18 – Preço médio de biodiesel nos 16 primeiros leilões da ANP


R$/l

Fonte: ANP (2009). Elaboração pelo autor.

RELEITURA | jul./dez. 2011 61


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

é superior ao do diesel, mas que avan- ainda alguns anos. Ademais, o volu-
ços tecnológicos e no campo agrícola me de extração diário irá crescer de
pode melhorar sua competitividade. modo progressivo.

Portanto, em face dessas considera- Em segundo lugar, importante parte


ções, argumenta-se que o programa das reservas de petróleo do mundo se
de biodiesel pode sofrer otimização localiza em áreas de instabilidade po-
no futuro, na hipótese de as políticas lítica, o que tem gerado flutuações de
públicas atuais serem aprimoradas preço (Mello et. all, 2007).
e, em consequência, ocorrer uma in-
dução à redução dos custos de pro- Além disso, uma taxa de extração de
dução. Além disso, entende-se que 85 milhões de barris por dia indica-
os preços atuais, a maior, englobam ria que o petróleo mundial pode ser
certa externalidade positiva – que é exaurido em 40 anos (Sauer, 2008).
de difícil quantificação –, em face da
existência da componente social do Em quarto lugar, a questão ambiental
programa de produção de biodiesel. tratada recentemente em Copenha-
gue mostra que os países terão de
mudar suas posturas para combater
a poluição e/ou aquecimento global,
4. Conclusões e com ou sem um bom tratado interna-
comentários finais cional. O fato de a COP 15 ter sido um
fracasso não significa que o tema irá
A confirmação da estimativa – pessi- perder sua importância.
mista! – de que as reservas do Pré-sal
ficariam entre 40 e 50 bilhões de bar- Em último lugar, o investimento, a
ris equivalentes de petróleo coloca- pesquisa e o know-how na área de
ria o Brasil, no mínimo, entre as dez biocombustíveis desenvolvidos em
maiores reservas do mundo. mais de um século no Brasil repre-
sentam igualmente grande patrimô-
Sem dúvida alguma, essa é uma ri- nio conquistado com dedicação da
queza do povo brasileiro que deve ser iniciativa privada e do Estado, com
tratada com atenção para que seja enorme sacrifício do povo brasileiro.
corretamente precificada no merca-
do, tenha um modelo exploratório Por todas essas razões, entende-se
apropriado e, por fim, os frutos sejam que os biocombustíveis deveriam
sabiamente utilizados para o desen- continuar desempenhando papel re-
volvimento do País. levante no País. Como citado no Ca-
pítulo 1, as áreas em que o País inves-
Por outro lado, entende-se que essa tiu – e insistiu – colheu grandes frutos.
estratégia não seja excludente da op- Três exemplos – muitos outros pode-
ção de continuar a política para os riam ser citados – são comprovações
biocombustíveis. Em primeiro lugar, inequívocas: a Embraer, a Petrobras e
a exploração plena do Pré-sal levará as empresas de engenharia nacionais.

62 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Este trabalho, ao avaliar sob a pers- ciente de açúcar, álcool e bioener-


pectiva histórica os biocombustíveis gia, mais recentemente.
no Brasil, tenta desmitificar a ideia
iii) O Proálcool conseguiu responder
recorrente de que o Estado ESCO-
a todas as metas quantitativas esta-
LHEU desistir dos biocombustíveis
belecidas pelo Governo Federal, in-
em meado da década de 80. Adicio-
nalmente, foi realizado, sob o prisma duziu desenvolvimento tecnológico
econômico, análise da importância – a ponto de provocar o desenvol-
de biocombustíveis no País. vimento do carro a álcool nacional
– e cumpriu importante papel na
O capítulo 2 – História dos biocom- redução dos impactos ambientais
bustíveis –, por meio de fatos estili- ao proporcionar condições para a
zados, tratou da ascensão da econo- substituição do chumbo tetraetila e
mia açucareira à consolidação dos evitar o uso do metanol e do MTBE,
biocombustíveis no Brasil, passando que representa hoje um dos moti-
pelos altos e baixos do Proálcool, pela vos para a existência do programa
conscientização ambiental, que pro- de produção de álcool nos EUA
vocou mudanças de paradigmas em (Worldwatch Institute, 2007).
todo o mundo, e pelo ainda incipien- Com todo esse background seria di-
te Programa Nacional de Produção e fícil explicar por que o programa de
Uso do Biodiesel. Adicionalmente, o
uso de energia sustentável mais bem
capítulo 2 faz, de forma sucinta, uma
sucedido do mundo quase foi para
relação de ações em prol dos biocom-
o ralo. Nesse contexto, os fatos reais
bustíveis (com seus respectivos auto-
são mais importantes do que expli-
res) e uma cronologia dos fatos mais
cações políticas. Mas o elevado cus-
importantes em conformidade com a
to do Programa em um ambiente de
literatura estudada.
queda drástica do preço do barril do
petróleo – que tirava a competitivi-
Como pontos principais do capítulo,
dade do álcool carburante – levava
podem ser destacados:
grande pressão ao caixa da Petrobras
i) As experiências com biocombus- e contribuiu para sua desarticulação
tíveis no Brasil já tem mais de um justamente logo após o seu auge. A
século e constituem-se em um ver- ampliação da extração de petróleo no
Brasil não tem sido citada como cau-
dadeiro feito tecnológico, ambien-
sa, mesmo porque o consumo no País
tal, econômico, social e político no
cresceu a taxas elevadas.
Brasil.
ii) A produção de álcool no País con- De acordo com os estudos feitos, com
tou com a sinergia da sociedade e análise da literatura consultada, com
do Estado que desenvolveram culti- entrevistas realizadas, chegou-se a
vares de cana-de-açúcar adaptados conclusão de que a extinção do Proál-
ao clima e solo brasileiros e tecno- cool não foi uma decisão de Governo.
logia nas usinas para produção efi- De nenhum deles!

RELEITURA | jul./dez. 2011 63


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

O abandono da linha que vinha sendo e Uso do Biodiesel, o Governo Fede-


adotada, de substituição do petróleo ral anunciou que está elaborando em
por combustível renovável, foi muito parceria com o setor privado estudo
mais uma insuficiência organizati- para mostrar a viabilidade da produ-
va e estratégica do Estado brasileiro, ção brasileira, com atendimento de
associada à conjuntura desfavorável todos os critérios de sustentabilidade.
no que diz respeito a preços (ou seja,
queda no preço dos combustíveis fós- O capítulo 3 mostra, também, que o
seis) do que uma decisão programáti- setor sucroalcooleiro representou,
ca. Repetiu-se o que ocorreu após a II em 2008, cerca de 2% do PIB brasi-
Grande Guerra Mundial: a fartura de leiro, e apresenta a arrecadação de
petróleo barato eliminou os biocom- impostos equivalente a 6% da arreca-
bustíveis do mercado de combustí- dação do Imposto de Renda no país.
veis, com séria perda da tendência Além disso, o setor emprega, com o
tecnológica alcançada. segundo maior salário médio da agro-
pecuária, cerca de 8,5 o número de
Com efeito, essa conclusão ganha empregados da Petrobras, em 25 es-
imensa relevância: o Estado brasilei- tados, o que indica alta capilaridade.
ro não pode repetir esse erro, tem que
ter visão estratégica e garantir espaço Por outro lado, a grande mudança
para os biocombustíveis na matriz na relação trabalhista no setor será a
energética brasileira, ainda que este- entrada do corte mecanizado que de-
jamos sentados sobre um mar de pe- mandará políticas públicas para re-
tróleo do Pré-sal. qualificação dos trabalhadores, com
sério impacto no nível de emprego
O capítulo 3 – Economia dos bio- no curto prazo . No entanto, entende-
combustíveis – mostra que o setor de -se que tal medida configura-se fun-
produção de biodiesel tem capaci- damental para redução de trabalho
dade total instalada de 3,8 bilhões de insalubre e para redução significativa
litros/ano (para um consumo atual de emissão de CO2, em face do fim
de diesel de 45 bilhões). Ademais, o das queimadas.
biodiesel tem sido produzido em 15
estados e teve produção crescente de Em 2007, o Brasil foi o maior produtor
2005 a 2009, chegando a cerca de 3,0 de cana-de-açúcar (33% da produção
bilhões de litros em todo período. mundial), com alta produtividade
e grande teor de sacarose. Relativa-
Em 2008, o Brasil foi o quarto produ- mente à produção de álcool, o Brasil
tor mundial de biodiesel com uma ocupa a segunda posição no mundo
participação de 10,2% da produção (27 bilhões de litros), ficando atrás
global. O comércio exterior de biodie- apenas dos EUA. Adicionalmente, o
sel, por sua vez, ainda é considerado País foi o maior produtor global de
inexistente. açúcar (31 milhões de toneladas).

Como estratégia de desfazer críticas Breve análise do comércio exterior


ao Programa Nacional de Produção brasileiro do açúcar e do álcool é

64 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

apresentada também no capítulo 3. de litros. A Ubrabio propõe a introdu-


De 1998 a 2009, as exportações de ção do B20 metropolitano como for-
açúcar brasileiras foram consisten- ma de aumentar o consumo de bio-
temente crescentes, exceção feita diesel no Brasil e, em consequência,
ao ano de 2000. Do lado das impor- reduzir a ociosidade.
tações, registra-se uma importação
média de 60 mil toneladas somente No nível ambiental, os biocombus-
de 1992 a 1995, consideradas bai- tíveis têm dado contribuições posi-
xíssimas. Igualmente se consideram tivas. Macedo et al. (2009) estima: i)
as importações e exportações brasi- que o álcool emite 89% menos CO2
leiras de álcool baixas. Sendo estas que a gasolina; ii) que a emissão teria
últimas muito decepcionantes vis a sido 10% maior se o etanol não tives-
vis o potencial nacional. E beira o ab- se sido usado no Brasil (exclusive as
surdo a ideia de o País importar eta- queimadas); iii) que a emissão evita-
nol dos Estados Unidos da América da corresponde a 60% dos créditos de
como noticiado em 25 de janeiro de carbono gerados pelo MDL; iv) que
2010 (Agência Estado, 2010). Com o o etanol teria um valor adicional de
potencial existente no Brasil, com US$ 0,20 por litro, se outra tecnolo-
planejamento estratégico, abertura gia fosse utilizada para remover CO2
de mercado nos países desenvolvi- de carbono da atmosfera que seu uso
dos e ampliação da internalização evita. A adição do biodiesel ao diesel
das questões ambientais, a tendência tem também dado contribuição para
natural seria o Brasil se firmar como melhoria das emissões associadas.
um líder na exportação de etanol. E
não um importador, mesmo quando Acerca da bioeletricidade, registra-se
o preço do açúcar subisse no merca- que, em 2008, apenas 4,7% da oferta
do global. energética da matriz de energia elé-
trica (Castro et al., 2009). Ademais, os
Se ainda não se alcançaram padrões derivados da cana-de-açúcar repre-
compatíveis com as vantagens com- sentaram 16,4% de toda energia con-
parativas do País no comércio exte- sumida no País e 36,2% de toda ener-
rior, no mercado interno o cenário gia renovável produzida (EPE, 2009).
dos biocombustíveis é completamen-
te diferente. O uso do etanol e do bio- Registra-se, ainda, que a potência ge-
diesel tem tido grande importância. rada pelas usinas foi capaz de suprir
Em 2008, cerca de 92% dos carros toda a necessidade do setor sucro-
vendidos eram com a tecnologia flex alcooleiro e o excedente de energia
fuel e mais de 2,2 milhões de unida- comercializado para rede na safra
des foram produzidas. A quantida- 2007/2008 seria suficiente para ali-
de de etanol consumida no País já é mentar 1,13 milhão de residências
maior do que a gasolina “A”. Em 2010, por um ano. Esse volume é conside-
com o B5, estima-se que 2,4 bilhões rado pequeno em face do potencial
serão produzidos, bem abaixo da ca- do setor. Como restrição à expansão,
pacidade já instalada de 3,8 bilhões argumenta-se que essa fonte renová-

RELEITURA | jul./dez. 2011 65


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

vel não tem tido sucesso por proble- tem todas as condições de produzir
mas na metodologia dos leilões de qualquer commodity agropecuária
energia. sem destruição do meio ambiente,
sem danificar terras indígenas, e com
Sobre os preços de terra, açúcar, ál- capacidade de cumprir qualquer exi-
cool e biodiesel, merecem destaques gência de sustentabilidade socioeco-
as considerações, como se seguem. O nômica.
perfil de utilização das terras no Brasil
indica que a atividade agrícola utiliza Dessa forma, argumentou-se que as
66 milhões de hectares; a pecuária, terras são abundantes, no entanto,
210 milhões; e 90 milhões estariam não são tão baratas, como muitos
disponíveis. Essa potencial área de costumam dizer e que a simples com-
expansão disponível para agropecu- paração com o preço de outros países
ária seria aproximadamente igual à não seria adequada. A valorização das
França continental mais a Alemanha, terras de baixa qualidade, por exem-
ou ainda duas vezes á área útil da Es- plo, no Estado de São Paulo, já é uma
panha, o que coloca o Brasil entre os realidade. As de boa qualidade então...
poucos países com o estoque de ter-
ras agricultáveis no mundo. Pode-se dizer que se verificou, sem
uso de testes econométricos, uma
O perfil da reserva ambiental indica tendência de deslocamento conjunto
que existem 55 milhões de hectares dos preços do açúcar e álcool no Bra-
de reserva e que a Floresta Amazô- sil e que, em certa extensão, o com-
nica ocupa 350 milhões de hectares. portamento randômico do preço do
O perfil das terras indígenas, por sua açúcar no mercado internacional e o
vez, indica que 105,7 milhões de hec- real valorizado contribuíram para ex-
tares são de reservas indígenas, que pansão do álcool no País no período
perfaz 12,41% do total do território recente.
brasileiro.
Ademais, a relação de troca de pro-
Argumentou-se que uma melhoria dução entre açúcar e álcool não levou
de 40% na produtividade da pecuária em conta somente a taxa de transfor-
brasileira – que hoje utiliza pratica- mação técnica de ATR; os preços no
mente uma cabeça por hectare – seria mercado internacional desempenha-
suficiente para liberar 60 milhões de ram importante papel também. Essa
hectares, que representa aproxima- taxa, quando toda a cana disponível
damente a área hoje utilizada na agri- deva ser moída no período de safra,
cultura brasileira. situa-se entre 5% e 10%.

Agrega-se a esse fato a recente publi- Entende-se que a regularidade de


cação do zoneamento agroecológi- abastecimento de etanol ainda se
co da cana-de-açúcar, que pretende constitui em um desafio e que meca-
buscar a produção de forma susten- nismos de regulação de oferta devam
tável. Assim, entende-se que Brasil ser fomentados para transformação

66 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

do produto em uma commodity inter- os biocombustíveis. Sousa (2009), re-


nacional. No nível interno, o combate presentando a Unica em reunião do
à sonegação fiscal na comercializa- Grupo de Trabalho da Comissão de
ção do etanol torna-se medida fun- Serviços de Infraestrutura, destacou
damental, já que se alega que cerca os seguintes itens como importante
de R$ 1 bilhão é sonegado a cada ano. em um novo marco legal:

Goldemberg et al. (2004) concluem • Consolidar e aperfeiçoar a legislação


que o custo unitário de produção do existente, particularmente quanto à
etanol brasileiro decresceu com o au- definição da cadeia decisória e às
mento da experiência, o que indica- condições de regulação;
ria que o etanol apresentou competi-
tividade de longo prazo. Algo similar • Rever o marco tributário, valorizan-
pode acontecer com o biodiesel, que do os tributos como instrumentos
apresenta custo elevado no presente, regulatórios que premiem as exter-
mas que pode reverter na medida em nalidades sociais, ambientais e de
que políticas públicas, tecnologia e saúde pública da bioenergia;
matérias-primas adequadas possam • Rever a regulação que incentive o
ser desenvolvidas. fortalecimento das empresas comer-
cializadoras, dos mercados futuros e
Por oportuno, é importante ressaltar derivativos, de contratos de longo;
o alerta apresentado por Natale Netto
(2007) que cita palavras do economis- • Desenvolver mecanismos que in-
ta David Zylberstajn: centivem os estoques de etanol pelo
setor privado ao longo da safra e
• É uma pena perder todo o investi- aumentem o comprometimento dos
mento passado, com a tecnologia demais agentes da cadeia em rela-
que desenvolvemos... ção ao abastecimento do mercado
doméstico;
• Se o Brasil acabar com o programa,
daqui a dez anos terá de importar • Incentivo ao desenvolvimento do
combustível dos EUA! ... transporte dutoviário e uso de novos
modais;
• Hoje o petróleo é barato. Amanhã
pode não ser. • Incentivo a projetos de pesquisa e
desenvolvimento aplicados a bio-
• O álcool é uma das poucas tecnolo-
combustíveis de 2a e 3a gerações.
gias de ponta nas quais o Brasil está
avançando. No caso específico do biodiesel, con-
vém, ainda, lembrar algumas suges-
• Isso sem falar na questão ambiental tões de Mello et al. (2007):
e na geração maciça de empregos.
Para que o setor tenha continuidade • investimentos pesados em pesqui-
em seu desenvolvimento, discute-se sa e desenvolvimento de variedades
atualmente no parlamento proposta agrícolas mais aptas à fabricação do
para um novo marco regulatório para biodiesel;

RELEITURA | jul./dez. 2011 67


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

• investimentos em tecnologias de vras, o Congresso Nacional terá um


processo que promovam o aden- papel muito importante na aprova-
samento energético das espécies ção de novos tipos de biocombustí-
oleaginosas, aumentando a produ- vel.
tividade e evitando a pressão por in-
corporação de novas áreas agrícolas; Por fim, mas não menos importante,
espera-se que este texto possa cons-
• incentivos à comercialização dos tituir-se em um material útil para
subprodutos gerados, visando redu- estudantes e estudiosos da matéria,
zir o custo de produção; base para reflexões de policy makers
• garantia efetiva de mercado para o e subsídio para partidos políticos,
biodiesel, que inclui o pesado cus- na formulação de seus programas,
to de deslocamento do produto das e de governos em direção a políticas
regiões remotas para os centros de que consolidem os biocombustíveis
mistura. como essenciais para a matriz ener-
gética brasileira.
Em suma, o capítulo 3 mostra que o
setor sucroalcooleiro e de produção
de biodiesel é um grande gerador de Bibliografia
riqueza, de emprego, de desenvolvi-
mento, produz alimentos, tem gran- Agência Estado. (2008) Em 5 anos, preço da ter-
de capilaridade, contribui para redu- ra em SP subiu mais de 100%. http://noticias.
ção da poluição ambiental, melhora o br.msn.com/economia/artigo.aspx?cp-docu-
mentid=4889387 Acessado em maio de 2008.
nível de saúde nas cidades, gera ener-
gia, tem potencial de ser um gerador
Agência Estado. (2010) EUA poderão ex-
de divisas, devendo, portanto, ser tra- portar etanol para o Brasil http://www.
tado como negócio estratégico pelo agrolink.com.br/noticias/ClippingDetalhe.
Brasil. aspx?CodNoticia=139675 Acessado em janeiro
de 2010.
Nesse contexto, cabe destacar que o
Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e
art. 238 da Constituição Federal de-
Biocombustíveis – ANP (2009) http://www.
termina que lei ordene a venda e re- anp.gov.br/ Acesso em dezembro de 2009.
venda de combustíveis de petróleo,
álcool carburante e outros combus- Associação Nacional dos Fabricantes de Veí-
tíveis derivados de matérias-primas culos Automotores – Anfavea (2009) Estatísti-
renováveis nos termos dos princípios cas. http://www.anfavea.com.br/tabelas.html
Acesso em dezembro, 2009.
constitucionais. Dessa forma, apenas
por meio legal é possível a utilização Brandão, S. (2009) Biodiesel. Apresentação rea-
de qualquer novo biocombustível em lizada no Senado Federal, em 11 de novembro
escala comercial52. Em outras pala- de 2009. http://www.senado.gov.br/sf/ativida-
de/comissoes/CI/gt_biocombustiveis/ Acesso
em dezembro de 2009.
52
A Resolução ANP no 19, de 22 de junho de 2007,
possibilita a utilização de combustíveis não-especifi-
cados no país, para fins experimentais, com consu-
mo mensal inferior a 10.000 litros, e anual de 100.000 igual período, em frota cativa ou equipamento indus-
litros, por prazo máximo de um ano, prorrogável por trial, mediante autorização prévia.

68 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Campos, A. A., Carmélio, E. C. (2009) Construir Brazilian experience. Biomass and Bionergy, 26
a diversidade da matriz energética: o biodiesel (2004), 301 - 304.
no Brasil. Biocombustíveis – a energia da con-
trovérsia. Editora Senac, São Paulo. Graner, L. (2009) A Indústria Automobilística
e os Biocombustíveis. Apresentação realiza-
Castro, N. J., Brandão, R., Dantas, G. A. (2009) da no Senado Federal, em 25 de novembro de
Bioeletricidade, sintonia fina com a agenda 2009. http://www.senado.gov.br/sf/atividade/
mundial. http://www.unica.com.br/downloa- comissoes/CI/gt_biocombustiveis/ Acesso em
ds/estudosmatrizenergetica/ Acesso em outu- dezembro de 2009.
bro de 2009.
Gusmão, R. H. (1985) Avaliação do Proálcool e
Companhia Nacional de Abastecimento – Co- suas perspectivas. Sociedade de Produtores de
nab (2008). Perfil do setor do Açúcar e do Álco- Açúcar e de Álcool, São Paulo.
ol no Brasil, Brasília, Brasil, Abril 2008: http://
www.conab.gov.br/conabweb/download/sa-
Holanda, A. (2004) Biodiesel e inclusão social.
fra/perfil.pdf, Acesso em abril de 2008.
Câmara dos Deputados, Coordenação de Pu-
blicações, Brasília.
Companhia Nacional de Abastecimento –
Conab (2008-B). Acompanhamento da safra
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatís-
brasileira de cana-de-açúcar safra 2007/2008,
Brasília, Brasil, Dezembro 2008: http://www. tica – IBGE (2009) http://www.ibge.gov.br/
conab.gov.br/conabweb/download/safra/3_ home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.
levantamento2008_dez2008.pdf, Acesso em php?id_noticia=1269&id_pagina=1 Acesso: em
dezembro de 2008. novembro de 2009.

Empresa de Pesquisa Energética – EPE (2009). Instituto de Economia Aplicada – IEA (2009).
Balanço Energético Nacional 2009. https:// Valor da Terra Nua. http://www.iea.sp.gov.br/
ben.epe.gov.br/downloads/Resultados_Pre_ out/banco/menu.php. Acessado em junho de
BEN_2009.pdf. Acesso em dezembro de 2009. 2008.

Fundação Nacional do Índio – FUNAI (2009) Intergovernamental Panel on Climate Change


http://www.funai.gov.br/ Acesso: em novem- – IPCC (2009). Publication and Data. http://
bro de 2009. www.ipcc.ch/publications_and_data/publica-
tions_and_data.htm. Acessado em janeiro de
Furtado, C. (2007) Formação econômica do Bra- 2009.
sil. Companhia das Letras, São Paulo.
Jank, M. S. (2008-A). Brazil: Why sugar is now
FXHISTORY (2009): Historical Currency Ex- the third option? Presentation of Sugar Cane
change Rate. http://www.oanda.com/convert/ Industry Association (UNICA) in Dubai, Unit-
fxhistory. Acessado em dezembro de 2009. ed Arab Emirates, 4 February 2008: http://
www.portalunica.com.br/portalunica/?Secao
Gazeta Mercantil (2008). Diesel de cana chega =refer%EAncia&SubSecao=palestras%20e%20
até 2010. http://www.agrolink.com.br/clipping/ apresenta%E7%F5es. Acessado em abril de
jr.aspx?cn=113740&ul=136238&cid=10753&rt= 2008.
1&cnd=0&tv=1. Acesso em 24 de abril de 2008.
Jank, M. S. (2008-B). Leading the way in sus-
Goettemoeller, J., Goettemoller, A. (2007) tainable biofuels. Presentation of Sugar Cane
Sustainable ethanol. Prairie Oak Publising, Industry Association (UNICA) in Washington
Maryville, Misouri. International Renewable Energy Conference,
in Washington, DC, United States of America, 5
Goldemberg, J., Coelho, S. T., Nastari, P. M., March 2008: http://www.portalunica.com.br/
Lucon, O. (2004). Ethanol learning curve – the portalunica/?Secao=refer%EAncia&SubSecao=

RELEITURA | jul./dez. 2011 69


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

palestras%20e%20apresenta%E7%F5es&SubS Ministério do Desenvolvimento, Indústria e


ubSecao=palestras. Acessado em abril de 2008. Comércio Exterior – MDIC (2006) O futuro da
indústria: biodiesel: coletânea de artigos, Bra-
Jornal da Globo (2009), Conferência do clima sília
termina sem metas definidas, edição de 18 de
dezembro de 2009. Ministério das Relações Exteriores – MRE
(2008) Relações Brasil-Ásia, Curso de Política
Jornal O Globo (2009) São Paulo será 6ª ci- Externa do Itamaraty, Brasília, mimeo.
dade mais rica do mundo até 2025, diz
ranking, http://oglobo.globo.com/econo- Moraes, M. A. F. D., Costa, C. C., Guilhoto, J. J.
mia/mat/2009/11/09/sao-paulo-sera-6- M., Souza, L. G. A., Oliveira, F. C. R. (2009) Exter-
-cidade-mais-rica-do-mundo-ate-2025- nalidades Sociais dos Diferentes Combustíveis
-diz-ranking-914665885.asp Acessado em no Brasil. http://www.unica.com.br/downlo-
9/11/2009. ads/estudosmatrizenergetica/pdf/Matriz_So-
cial_Moraes2.pdf. Acesso em 14/12/2009.
Knight, P. (2007). Energy crops have begun a
revolution for agribusiness in Brazil. World Moura Filho, H. P. (2003) 120 Anos de produção
Ethanol & Biofuels Report, F. O. Licht, 05 (12),
mundial de açúcar: comentário sobre séries
243-248.
estatísticas tradicionais (1820-1940). http://
www.abphe.org.br/congresso2003/Textos/
Leite, R. C. (1990) Pro-álcool: a única alterna- Abphe_2003_19.pdf Acesso em 14/12/2009.
tiva para o futuro. Editora da Unicamp, Cam-
pinas.
Natale Netto, J. (2007) A saga do álcool: fatos e
verdades sobre os 100 anos de história do álcool
Licht, F. O. (2008). Next Generation Biofuels.
combustível em nosso país. Novo Século, Osas-
World Ethanol & Biofuels Report, F. O. Licht, 06
co, São Paulo.
(12), 219-224.

Neves, M. F., Trombin, V. G., Consôli, M. A.


Macedo, I. C., Meira Filho, L. G. (2009) Uso do
(2008) Mapeamento e Quantificação do Setor
etanol contribui para reduzir aquecimento
Sucroenergético em 2008. MARKESTRAT/FUN-
global. http://www.unica.com.br/downloads/
estudosmatrizenergetica/ Acesso em outubro DACE, São Paulo.
de 2009.
Parente, E. J. S. (2003) Biodiesel: uma aventura
Maia, A. A., Feitosa, V. N. (2009) Histórico dos tecnológica num país engraçado. Tecbio, Forta-
biocombustíveis no Brasil. Revista de direito leza.
ambiental, 53, 7-23.
Parente, E. J. S. (2007) Entrevista: Expedito Pa-
Mello, F. O. T., Paulillo, L. F., Vian, C. E. F. (2007) rente. Biocombustíveis no Brasil – realidades e
O biodiesel no Brasil: panorama, perspectivas e perspectivas. Ministério das Relações Exterio-
desafios. Informações Econômicas, 37 (1). res, Brasília.

Ministério da Agricultura, Pecuária e Abaste- Pires, A., Schechtman, R. (2009) Análise de


cimento – MAPA (2009). Anuário Estatístico da preços de combustíveis e de políticas Interna-
Agroenergia. http://www.agricultura.gov.br/ cionais para promoção de biocombustíveis.
images/MAPA/arquivos_portal/anuario_cana. http://www.unica.com.br/downloads/estu-
pdf. Acesso em dezembro de 2009. dosmatrizenergetica/pdf/Matriz_Internacio-
nal_Pires7.pdf. Acesso em dezembro de 2009.
Ministério da Indústria e Comércio – MIC
(1980) Proálcool informações básicas para em- Portal Brasil (2009) http://www.portalbrasil.
presários. Comissão Executiva Nacional do Ál- net/embraer.htm Acessado em dezembro de
cool – Cenal, Rio de Janeiro. 2009.

70 RELEITURA | ano 2 número 4


BIOCOMBUSTÍVEIS
NO BRASIL

Ramos, M. (2006) O Proálcool não ensinou www.unica.com.br/multimedia/ Acesso em


nada? Revista Época, 407, 30-32. maio de 2008.

Revista Valor Econômico (2008) Biocombustí- União da Indústria de Cana-de-açúcar – UNI-


veis – A força do verde, Edição especial. CA (2008-B) Relatório de Sustentabilidade 2008
http://www.unica.com.br/multimedia/publi-
Rodrigues, R. (2005) Conjuntura e Perspec- cacao/Default.asp?sqlPage=2 Acesso em maio
tiva do Agronegócio Brasileiro. Apresenta- de 2010.
ção realizada na Comissão de Agricultura
e Reforma Agrária do Senado Federal, em União da Indústria de Cana-de-açúcar – UNI-
16 de março de 2005. http://www.senado. CA (2009) Dados e Cotações – Estatísticas
gov.br/sf/atividade/comissoes/comissao. http://www.unica.com.br/dadosCotacao/es-
asp?origem=SF&com=1307 Acesso em abril de tatistica Acesso em dezembro de 2009.
2005.
União da Indústria de Cana-de-açúcar – UNI-
Saldiva, P. H. N., Andrade M. F., Miraglia S. G. E. CA (2009-B) Etanol e Bioeletricidade – A cana-
K., André P. A. (2009) Etanol e saúde humana: -de-açúcar no futuro da matriz energética.
uma abordagem a partir das emissões atmos- http://www.unica.com.br/downloads/estu-
féricas. http://www.unica.com.br/downloads/ dosmatrizenergetica. Acesso em dezembro de
estudosmatrizenergetica/pdf/Matriz_Social_ 2009.
Saldiva4.pdf. Acesso em 14/12/2009.
Welter, E. F., Shikida, P. F. A. (2002) Evolução dos
Sauer, I. L. (2008) O petróleo é nosso, o pré-sal é setores indústria do açúcar e álcool no Brasil
nosso, a Petrobras é nossa. Cadernos Aslegis no em 1975, 1980, 1985, 1992 e 1995: uma análise
35 – A exploração do Pré-sal, Brasília. a partir do instrumental insumo-produto. Re-
vista Econômica do Nordeste, 33 (4), 791-816.
Secretaria-Geral da Presidência da República
– SGPR (2009) Compromisso Nacional – Aper- World Bank (2007) World Development Indi-
feiçoar as condições de trabalho na cana-de- cators http://library.wur.nl/citrix/wur/World-
-açúcar, Brasília. Development-Indicators.ICA. Acessado em
junho de 2008.
Senado Federal (2007) Resultado dos Trabalhos
do Ano de 2007 da Subcomissão dos Biocom- World Bank (2009) World Development Indi-
bustíveis, Brasília. cators data base. http://www.worldbank.org/
Acessado em fevereiro de 2010.
Sodré, N. W. (2002) Formação histórica do Bra-
sil. Bertrand Brasil, Rio de Janeiro. Worldwatch Institute (2007) Biofuels for trans-
port: global potential and implications for en-
Sousa, E. L. (2009) Etanol e bioeletricidade: a ergy and agriculture. Earthscan, London, UK
cana-de-açúcar no futuro da matriz energética. and USA
Apresentação realizada no Senado Federal, em
11 de novembro de 2009. http://www.senado. Zuubier, J. P. (2008). Feedstock for bioethanol:
gov.br/sf/atividade/comissoes/CI/gt_biocom- the Brazilian case. Presentation of 6th Euro-
bustiveis/ Acesso em dezembro de 2009. pean Motor – BioFuels Forum, Rotterdam, The
Netherlands, 9-10 January 2008: http://confer-
União da Indústria de Cana-de-açúcar – UNI- ence.europoint.eu/biofuels2008/. Acessado
CA (2008) Combustível do Brasil (vídeo) http:// em abril de 2008.

RELEITURA | jul./dez. 2011 71


EXECUÇÃO IMEDIATA
DA SENTENÇA
Execução Imediata da Sentença: Uma
Análise Econômica do Processo Penal
Por:
Fernando B. Meneguin1
Maurício S. Bugarin2
Tomás T. S. Bugarin3

Resumo
A admissão da execução provisória quando da sentença de pri-
meiro grau da Justiça é tema extremamente discutido no âmbi-
to penal. Punir imediatamente ou aguardar sentença condena-
tória definitiva do Poder Judiciário tem benefícios e custos para
a sociedade. Os benefícios da execução provisória estão asso-
ciados à questão de segurança pública e os custos aparecem
com a possibilidade de se praticar injustiças. Este artigo, por
meio de um modelo econômico que compara o bem-estar so-
cial na presença e na ausência da execução imediata da senten-
ça, fornece várias inferências sobre qual deveria ser a postura
ótima da sociedade sobre o tema. Os principais resultados são
que a execução imediata da sentença é mais aconselhável se:
a) as instituições jurídicas forem mais eficientes; b) for maior a
probabilidade de reincidência do crime; c) o dano da vítima for
considerável; e d) o crime gerar malefícios a uma quantidade
maior de pessoas.

Palavras-chave
Execução imediata da sentença. Crime. Bem-Estar Social.

Classificação JEL:
D02, K14, K40

1
Doutor em Economia. Consultor Legislativo e Diretor do Centro de Estudos da Consul-
toria do Senado Federal. E-mail: meneguin@senado.gov.br. End. para correspondência:
Senado Federal/Consultoria Legislativa – Anexo II – Bl. B – CEP 70165-900 – Brasília/DF.
2
Ph.D. em Economia. Professor Titular do CERME/UnB. E-mail: bugarin@unb.br. Endere-
ço para correspondência: Universidade de Brasília, Campus Darcy Ribeiro, ICC Norte, Asa
Norte, CEP 70910-900 – Brasília/DF.
3
Graduando em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. E-mail: to-
mas_0989@hotmail.com. Endereço para correspondência: Rua Mário Amaral, 400, Paraíso
– CEP 04002-020 – São Paulo/SP.

RELEITURA | jul./dez. 2011 73


EXECUÇÃO IMEDIATA
DA SENTENÇA

Abstract titular4. Modernamente, entende-se


que a tutela do Poder Judiciário so-
The ordinance of temporary deten- mente será justa e eficaz se for célere.
tion by lower courts is highly dis-
cussed in the field of criminal law. To Tamanha relevância adquiriu esse
immediately order detention or wait entendimento, que está esculpi-
for the final ruling of the Judiciary af- do como cláusula pétrea em nossa
ter all instances has both benefits and Constituição Federal5. Neste ínterim,
costs to society. The benefits of the começou-se a ponderar que a efeti-
ordinance of provisional detention vação da tutela jurisdicional somente
are associated with the issue of public acontece concretamente com a exe-
safety while the costs are related with cução da sentença, em face da certe-
the possibility of injustice. This paper za da justiça.
seeks to provide several conclusions
about what should be the optimal No âmbito civil, pode-se afirmar que
position of society on the issue using a doutrina moderna majoritária já
an economic model that compares defende que há de se admitir a execu-
the social welfare in the presence ção provisória da tutela. Existe, ainda,
and absence of the use of provisio- largo entendimento doutrinário no
nal measures by criminal courts. The sentido de viabilizar a execução da
main findings are that the immedi- sentença de primeiro grau, alegan-
ate order of provisional detention by do-se que, se houve uma decisão do
lower courts is more appropriate if: a) Poder Judiciário, ainda que por juízo
insofar as the judicial institutions are singular, já se tem reconhecido o di-
more efficient; b) the potential recur- reito, mesmo que preliminarmente.
rence of crime is high; c) the damage Em consequência, não há motivo
to the victim is considerable; and d) para imputar àquele que teve o direi-
the harm of the crime affects a greater to reconhecido o ônus de aguardar
amount of people. o posicionamento do Tribunal, visto
que a apelação tem, em regra, o efeito
Key words: Provisional Detention by suspensivo.
Criminal Courts. Crime. Social welfare.
No entanto, no âmbito penal, devido
Classificação JEL: D02, K14, K40 aos valores sobre o qual incidiriam a
execução provisória da sentença de
primeiro grau, notadamente a priva-
Introdução ção de liberdade, maior é o debate
quanto à admissão da execução pro-
Há muito se tem firmado doutri- visória da sentença.
nariamente que o processo é o ins- 4
CINTRA, Antonio Carlos de Araújo. GRINOVER, Ada
trumento democraticamente ade- Pellegrini. DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria Ge-
quado, por meio do qual uma parte ral do Processo.
5
Constituição Federal, Art. 5o, inciso LXVIII – a todos,
pleiteia a tutela jurisdicional sobre no âmbito judicial e administrativo, são assegurados
a razoável duração do processo e os meios que garan-
uma pretensão a que sustenta ser tam a celeridade de sua tramitação.

74 RELEITURA | ano 2 número 4


EXECUÇÃO IMEDIATA
DA SENTENÇA

Em 5 de fevereiro de 2009, o Supremo presentam dano à sociedade, e, por


Tribunal Federal (STF)6 decidiu, por assim serem, têm como vítima media-
sete votos a quatro, que não pode ha- ta o Estado. Também exerce monopó-
ver execução provisória da pena até o lio sobre dois outros poder-deveres, o
trânsito em julgado da sentença con- de punir o criminoso, estabelecendo
denatória. a pena cabível no caso concreto, e o
de executar esta pena. Ao monopoli-
Essa é uma questão complexa e mui- zar esses poderes, o Estado de Direito
to discutida no meio jurídico. Como a exerce-os com restrições.
legislação processual penal brasileira
permite uma série de recursos ao réu, De um lado, têm-se os direitos subje-
cria-se uma situação em que, apesar tivos públicos, que são, no âmbito do
de haver condenação nas primeiras Direito Penal, entre outros, o direito
instâncias, a decretação da prisão ao devido processo legal8, o direito
não acontece. ao contraditório e à ampla defesa9, a
presunção da inocência10, que, como
O debate gira em torno da possibili- extensão, se remete também ao prin-
dade da execução provisória da pena cípio que determina que, na dúvida,
e se ela ofende ou não o princípio da se julgará a favor do réu, e a obser-
presunção de inocência, o qual, se- vância, pelo Estado, do princípio
gundo a redação constitucional, de- da legalidade11, que é a exigência da
manda o trânsito em julgado da deci- atuação com fulcro e amparado em
são condenatória.7 lei. Cabe salientar que tais direitos se
encontram em dispositivos inseridos
O Estado, a fim de garantir a per- na Constituição Federal como cláu-
manência do Contrato Social, assim sula pétrea, de forma que somente
como a necessária convivência social poderiam ser restringidos diante do
harmônica, estipulou leis que visam exercício de um Poder Constituinte
reprimir condutas lesivas à estabili- Originário.
dade da sociedade. O Direito Penal,
principalmente, regula aquelas con- Logo, muito embora tenha que obser-
dutas que poderiam tornar, se reite- var tais direitos subjetivos públicos,
radamente praticadas, a coexistência deve também zelar pela proteção à
inviável. sociedade. Neste escopo, percebe-se
que a morosidade da condenação e
Desta forma, quando de Direito, o
Estado detém o monopólio do dever- 8
Constituição Federal, Artigo 5o, inciso LIV – ninguém
será privado da liberdade ou de seus bens sem o devi-
-poder de perseguir judicialmente os do processo legal.
9
Constituição Federal, Artigo 5o, inciso LV – aos liti-
infratores da lei, fundamentado no gantes, em processo judicial ou administrativo, e aos
entendimento de que os crimes re- acusados em geral são assegurados o contraditório e
ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes.
10
Constituição Federal, Artigo 5o, inciso LVII – nin-
6
Julgamento do Habeas Corpus 84.078-7/MG. guém será considerado culpado até o trânsito em jul-
7
A decisão que transita em julgado passou a ser defi- gado de sentença penal condenatória.
nitiva, pois sobre ela não cabe mais qualquer recurso, 11
Constituição Federal, Artigo 5o, inciso XXXIX – não
tornando-se irrevogável e irretratável, na mesma rela- há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem
ção processual. prévia cominação legal.

RELEITURA | jul./dez. 2011 75


EXECUÇÃO IMEDIATA
DA SENTENÇA

dos efeitos da sentença podem ser execução da pena só pode acontecer


extremamente prejudiciais para a so- depois do trânsito em julgado cria
ciedade, entre outros fatores, por au- um espaço entre os que podem pagar
xiliar na proliferação da sensação de bons advogados - e estes eternizam as
impunidade, assim como possibilitar ações - e aqueles que não podem, e,
o cometimento de novos crimes, uma por isso, ficam com a assistência judi-
vez que aquele que cometeu um cri- ciária gratuita - defensores públicos,
me tem periculosidade, na acepção que estão abarrotados de processos
jurídica da palavra, maior que aquele e não podem acompanhar uma ação
membro da sociedade que nunca co- penal em todas as instâncias, como
meteu crime algum. fazem os advogados bem pagos.

Outro grave problema consiste no Essa sensação de impunidade é bem


fato de que as condições socioeconô- mais nítida quando se fala em cri-
micas diferenciadas entre os brasilei- mes de colarinho branco e contra a
ros geram também aplicações penais administração pública e tributária.
desiguais entre os cidadãos. Nossa Na mesma entrevista citada acima,
justiça penal é incapaz de traduzir di- o Subprocurador-geral comenta o
ferenças e desigualdades em direitos. caso de uma mulher que foi presa
Isso acontece, em parte, pela maior por cerca de dois meses em outubro
dependência da população carente de 2008 por ter pichado as paredes
à assistência judiciária proporciona- de um salão da 28ª Bienal de Artes de
da pelo Estado. Apesar de as normas São Paulo e a situação do banqueiro
garantirem igualdade entre os cida- Daniel Dantas, acusado de vários cri-
dãos, inclusive como garantia cons- mes considerados bem mais graves,
titucional, na prática, a atuação sele- que foi solto duas vezes durante a
tiva da justiça criminal cria e reforça mesma semana depois ter sido preso
as desigualdades sociais. Em outras pela Polícia Federal. Segundo o Sub-
palavras, aqueles que não podem procurador, isso se deve à quantidade
pagar bons advogados, têm prisão de recursos disponíveis no Código de
decretada logo após a condenação Processo Penal e à possibilidade de se
na primeira instância, enquanto os contratar um bom advogado.
mais abastados conseguem protelar
a prisão diversas vezes ou mesmo O trecho acima ilustra a situação bra-
evitá-la. sileira na qual, em geral, a punição só
começa a surtir efeito após ter expira-
Essa impressão é endossada pelo da a última possibilidade de recurso.
Subprocurador-geral da República, Em outros países, no entanto, a pena
Wagner Gonçalves, que, em entrevis- começa a ser cumprida logo após a
ta à ONG Contas Abertas12, comentou condenação em primeira instância,
que o entendimento do STF de que a conforme Frischeisen, Garcia e Gus-
man (2008). Obviamente o réu tem
12
Entrevista transcrita no site http://www.jusbrasil. direito a recorrer, mas a pena já co-
com.br/noticias/802697/subprocurador-da-republi-
ca-cadeia-no-brasil-e-para-preto-pobre-e-prostituta meçou a ser cumprida.

76 RELEITURA | ano 2 número 4


EXECUÇÃO IMEDIATA
DA SENTENÇA

Como se sabe dos estudos em aná- der, em primeiro, quais são os prin-
lise econômica do direito, a pena é cipais efeitos da existência de várias
equivalente a um preço que se paga instâncias de recurso e, em segundo
pela realização de uma atividade ile- lugar, os dilemas de cada mecanismo
gal. O sistema penal deve prover um e, se possível, oferecer uma proposta
conjunto de mecanismos que, de ma- de regulamentação ótima do ponto
neira análoga a quaisquer outras ati- de vista social específica para o Brasil.
vidades de natureza econômica, fixe
preços que venham a inibir as ativi- Em outros termos, o que se comenta-
dades economicamente ineficientes, rá será o efeito suspensivo do recurso
no caso, que dificultem a realização interposto perante a sentença penal
dos delitos. Isto é, a pena tem o po- condenatória. Humberto Theodo-
der de reduzir o benefício esperado ro Júnior define o efeito suspensivo
da atividade ilegal. No entanto, se a como um efeito básico do recurso
pena não é aplicada, o mecanismo que impede ao decisório impugnado
desenhado para coibir o crime não a produção de seus efeitos naturais
funcionará ou, pelo menos, terá sua enquanto não solucionado o recurso
eficácia diminuída (Becker, 1968). interposto13. Não há dúvida quanto
ao efeito devolutivo do recurso em
Por outro lado, impor o cumprimento matéria penal, que segundo Fernan-
da pena num primeiro momento faz do Capez, é um efeito comum a todos
surgir o risco de se punir um inocente. os recursos, na medida em que devol-
vem o conhecimento de determinada
O processo penal é a forma através do matéria impugnada, podendo ser tal
qual o Estado, por meio do Ministério matéria mera questão processual14.
Público, pleiteia a tutela jurisdicio- Entretanto, quanto ao efeito suspen-
nal de sua pretensão punitiva. Assim, sivo, seria socialmente recomendável
apesar de ser o processo de conheci- que se suprimisse este efeito dos re-
mento de vital importância em um cursos para que fosse possível a exe-
Estado Democrático de Direito, ele cução da sentença do juiz de primeiro
não esgota, por si só, a pretensão que grau ainda antes da decisão do juízo
o Estado visa exercer; necessária é a que proferirá a sentença que estará
efetiva execução da pena. revestida pela coisa julgada e, quando
cabível, o referendo do Tribunal.
Enfim, essas duas possibilidades, pu-
nir de imediato ou aguardar a última Comenta tal questão, sob a ótica civi-
instância do Judiciário se pronunciar, lista, Humberto Theodoro (2009):
possuem benefícios e custos para a
O efeito suspensivo (impedi-
sociedade. Este artigo pretende co-
mento da imediata execução do
mentar a legislação processual penal decisório impugnado) pode ser
brasileira sobre a execução provisória afastado, em determinados ca-
da pena, compará-la com a situação
em alguns países e, por fim, elaborar 13
JÚNIOR, Humberto Theodoro. Curso de Direito Pro-
cessual Civil, Volume I.
modelo econômico visando enten- 14
CAPEZ, Fernando. Curso de Processo Penal.

RELEITURA | jul./dez. 2011 77


EXECUÇÃO IMEDIATA
DA SENTENÇA

sos, por não ser sempre essen- a execução da sentença penal con-
cial ao fim colimado pelos re- denatória transitada em julgado. Isto
cursos. De maneira geral, os atos significa que enquanto não estiver
de execução só devem ocorrer revestida da coisa julgada, que é a
depois que a decisão se tornar
firme (coisa julgada ou preclu- característica de imutabilidade que
são pro iudicato), por exigência estabiliza uma sentença quando ir-
mesma do princípio do devido recorrível, não haverá a possibilidade
processo legal. Enquanto não se de se executar o decisório.
esgotam os meios de debate e
defesa, enquanto não se exaure Assim, para Humberto Theodoro
o contraditório, não está o Poder (2009):
Judiciário autorizado a invadir
o patrimônio da parte (CF, art.
5o, LIV e LV). Há casos excep- Recurso em direito processu-
cionais, contudo, em que a boa al tem uma acepção técnica e
realização da Justiça abre efeti- restrita, podendo ser definido
vação, de imediato, das medidas como o meio ou remédio im-
deliberadas em juízo. pugnativo apto para provocar,
dentro da relação processual
Para discutir o tema, além desta intro- ainda em curso, o reexame de
dução, este artigo encontra-se dividi- decisão judicial, pela mesma
do da seguinte forma: na primeira se- autoridade judiciária, ou por
outra hierarquicamente supe-
ção, há um resumo das possibilidades rior, visando a obter-lhe a re-
existentes para o desenvolvimento do forma, invalidação, esclareci-
processo penal no Brasil. Na seção 2, mento ou integração.15
analisa-se como o assunto é tratado
no ordenamento jurídico de outros Esta regra, em âmbito civil, já encon-
países. A terceira seção traz uma sín- tra inúmeras exceções, disciplinadas
tese de como a literatura econômica inclusive por lei, ou seja, já existem
discorre sobre criminalidade. A seção situações em que o legislador perce-
4 apresenta alguns dados quantita- beu que a morosidade na produção
tivos sobre as decisões nos tribunais de efeitos da sentença seria extrema-
estaduais. A modelagem econômica mente prejudicial à parte e poderia,
do tema, cerne deste estudo, cons- inclusive, inviabilizar que a Justi-
ta da quinta seção. Por fim, a seção ça fosse alcançada posteriormente.
6 traz as conclusões e considerações Exemplo claro de tal exceção são as
finais do trabalho. situações em que há perigo de difícil
ou impossível reparação caso a tutela
jurisdicional seja morosa, situações
em que se tornam fundamentais me-
1. Os recursos no processo
didas rápidas e eficazes, as chamadas
penal brasileiro e a medidas cautelares.
suspensão da execução da
sentença Ainda antes de entrar em vigor a Lei
11.719/08 que revogou o art. 594 do
Atualmente, consolidou-se o enten- 15
JUNIOR, Humberto Theodoro. Curso de Direito Pro-
dimento que somente seria possível cessual Civil, vol. I.

78 RELEITURA | ano 2 número 4


EXECUÇÃO IMEDIATA
DA SENTENÇA

Código de Processo Penal16 já havia gurança que, embora tenham natu-


grande debate quanto à constitucio- reza distinta dos recursos, são instru-
nalidade de tal dispositivo. Esforçava- mentos constitucionais colocados à
-se a doutrina para argumentar que disposição do réu.
não se trataria de execução provisó-
ria. Chegou, inclusive, o STJ a firmar A seguir, apresentamos um rápido
a inteligência de que a prisão provi- resumo dessas possibilidades proces-
sória, como requisito para apelar, não suais.
ofenderia a presunção de inocência17.
O recurso em sentido estrito é a im-
Entretanto, com a entrada da Lei pugnação do interessado contra
11.719/08 ao ordenamento jurídico, decisões do juízo de primeiro grau,
entendeu por bem o STF que desca- permitindo a este juiz um novo pro-
bia a exigência ao recolhimento da nunciamento antes do julgamento
prisão para apelar18, de forma a tor- pela instância hierarquicamente su-
nar ainda mais excepcional a deter- perior. É admissível este recurso tan-
minação do recolhimento à prisão to nas sentenças em sentido estrito,
antes do trânsito em julgado. como em despachos, podendo o juiz
prolator obstar seu julgamento pelo
Existe uma série de recursos que po- tribunal ao se retratar. O artigo 581 do
dem ser apresentados no decorrer do CPP arrola as decisões que podem ser
processo penal. Em geral, estão disci- impugnadas através do recurso em
plinados no bojo do Código de Pro- sentido estrito, sendo que a doutrina
cesso Penal (CPP). São considerados e a jurisprudência majoritária enten-
recursos os determinados em sentido dem ser este dispositivo exaustivo,
estrito, em sentido lato (apelação), os havendo, entretanto, vozes que de-
embargos de declaração, infringen- fendem ser exemplificativo.
tes, e de nulidade, a revisão criminal,
o recurso extraordinário e a carta tes- A apelação é o pedido que se faz à ins-
temunhável. Existem, ainda, o recur- tância superior, pleiteando o reexame
so especial, o mandado de segurança, das sentenças definitivas ou com for-
o embargo de divergência, os agravos, ça de definitivas do juiz singular e nas
e a controversa correição parcial, que, decisões do Tribunal do Júri nas hi-
embora não constem do CPP, são de- póteses mencionadas expressamente
terminados constitucionalmente, nas no artigo 593 do CPP. Desta forma,
hipóteses indicadas. Por fim, existem tem como objetivo a modificação da
o habeas corpus e o mandado de se- sentença proferida, na qual o apelan-
te foi sucumbente, com efeito subs-
16
Art. 594. O réu não poderá apelar sem recolher-se titutivo. A doutrina caracteriza esta
à prisão, ou prestar fiança, salvo se for primário e de espécie de recurso como amplo, uma
bons antecedentes, assim reconhecido na sentença
condenatória, ou condenado por crime de que se li- vez que devolve ao juiz que julgará o
vre solto. recurso, o conhecimento de tudo rea-
17
STJ Súmula 9. A exigência da prisão provisória, para
apelar, não ofende a garantia constitucional da pre- lizado na instância inferior, se reque-
sunção de inocência.
18
Julgamento do Habeas Corpus 84.495/SP. rido pelo juridicamente interessado.

RELEITURA | jul./dez. 2011 79


EXECUÇÃO IMEDIATA
DA SENTENÇA

Merecem destaque também os em- A revisão criminal, disciplinada nos


bargos de declaração, previsto nos artigos 621 a 631 do CPP, pressupõe
artigos 619 e 620 do CPP. Trata-se de uma condenação e a injustiça de seu
pedido de esclarecimento para des- decisório. Tem como principal efeito
lindar dúvidas ou desmanchar equí- a anulação da condenação anterior.
vocos inerentes à sentença. Podem Cabe salientar que apenas se permite
ser opostos quando se entender que a revisão em favor do réu e nunca da
há, na sentença proferida, ambigui- sociedade.
dade, existente quando a decisão
permite duas ou mais interpretações, Mediante recurso extraordinário,
obscuridade, perceptível quando não nas palavras de Guilherme Nucci, se
há clareza na redação da decisão, garante a harmonia da aplicação da
contradição, em que duas ou mais legislação infraconstitucional em face
afirmações na decisão são divergen- da Constituição Federal, evitando-se
tes e não se harmonizam, ou omissão, que as normas constitucionais sejam
quando o acórdão ou a sentença dei- desautorizadas por decisões proferi-
xou de tratar matéria indispensável. das nos casos concretos pelos tribu-
nais do país19. Inspirado no Judiciary
Outras possibilidades processuais Act norte-americano de 1878, o recur-
são os embargos infringentes e de nu- so extraordinário tem como funda-
lidade, que tem como finalidade, res- mento principal o conflito entre ato
pectivamente a alteração da decisão normativo infraconstitucional com a
objeto de discórdia entre os desem- Constituição Federal, ou até mesmo o
bargadores que votaram, ou sua anu- conflito entre dois dispositivos Cons-
lação, devendo o embargo de nulida- titucionais (art. 102 da Constituição
de versar sobre questão processual. Federal e Lei no 8.038, de 1990).
Ademais, devem os embargos citados
atacar a decisão de segunda instância Quando interposto o recurso extra-
desfavorável ao réu. Estas formas de ordinário, o juiz que proferiu a deci-
embargos estão previstos no artigo são apreciará se foram respeitados os
609, parágrafo único do CPP. pressupostos normais de cabimento
de recurso, ou seja, fará o juízo de ad-
Os embargos de divergência são pos- missibilidade tradicional. Além dos
síveis quando existir divergência no requisitos tradicionais dos recursos,
julgamento realizado por Turmas, Se- deverá haver, nos recursos extraor-
ções ou Plenários diversos do STF ou dinários e especiais, o prequestiona-
do STJ, quando da decisão de casos mento das questões de direito susci-
análogos. Assim, caberá à Seção diri- tadas, ou seja, haverão de ter sido tais
mir a divergência e o embargo, quan- questões ventiladas pelas instâncias
do alegado a disparidade entre deci- inferiores.
sões de turmas, e ao Pleno no caso de
decisões diferentes entre Seção e Ple- Resultando positiva esta análise, este
no ou Turma e Seção. Estes embargos juiz enviará o recurso extraordinário
são regulados pelo regimento interno 19
NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de Processo
dos Tribunais. Penal e Execução Penal, 2007, p. 859.

80 RELEITURA | ano 2 número 4


EXECUÇÃO IMEDIATA
DA SENTENÇA

ao Supremo Tribunal Federal, que denominado simplesmente agravo,


julgará se existe a repercussão ge- quando regulado por lei, existente
ral. Entendendo que há repercussão nas formas retido e de instrumen-
geral, poderá o STF exercer o con- to, ou agravo regimental ou interno,
trole difuso de constitucionalidade. quando a decisão desafiada é profe-
Saliente-se que a matéria que poderá rida pelo relator, sendo apreciado o
ser objeto do recurso extraordinário é agravo interno pelo órgão colegiado
limitada, vez que deverá se tratar de na qual atua o relator como delegado,
matéria de direito, não podendo ser tramitando conforme previsto nos re-
questionadas matérias de fato, como, gimentos internos dos tribunais.
por exemplo, a apreciação de provas.
O recurso especial, dirigido ao STJ,
O habeas corpus será concedido, se- tem função análoga ao recurso extra-
gundo dispõe o art. 5o, LVIII, da CF, ordinário e tem por finalidade a uni-
combinado com os art. 647 e 648, am- formização da jurisprudência federal
bos do CPP, sempre que alguém sofrer em questões infraconstitucionais e a
ou se achar ameaçado de sofrer vio- harmonização da aplicação da legis-
lência ou coação na sua liberdade de lação infraconstitucional.
locomoção, por ilegalidade ou abuso
de poder. Aponta Guilherme Nucci, Nele também deverá, obrigatoria-
que não se trata de recurso, mas sim
mente, haver tido apreciação da
de um instrumento que visa asse-
questão suscitada em instâncias infe-
gurar direitos fundamentais, como
riores, o chamado prequestionamen-
a liberdade e o direito de ir e vir, po-
to. Também neste recurso, somente
dendo ser proposto contra decisão já
poderão ser suscitadas matérias de
transitada em julgado20.
direito, não se admitindo como fun-
A carta testemunhável, disciplinado damento a apreciação de matéria fá-
pelo artigo 639 do CPP, é o recurso que tica. Sobreleva notar que não existe,
visa garantir o conhecimento e o exa- para a interposição de recurso espe-
me de um recurso interposto. Assim, cial, a exigência de repercussão geral,
é cabível quando houver decisão que característica e requisito próprio do
não conheça um recurso ou, ainda extraordinário.
que o conheça, obstar sua expedição
ou seguimento à instância superior. Será concedido mandado de seguran-
Para tanto, a carta testemunhável é ça para proteger direito líquido e cer-
endereçada e apreciada à instância to, não amparado por habeas corpus
hierarquicamente superior àquela ou habeas data, quando o responsá-
que proferiu a decisão que ensejou a vel pela ilegalidade ou abuso de po-
paralisação ou rejeitou o recurso. der for autoridade pública ou agente
de pessoa jurídica no exercício de
O agravo é o recurso apto a atacar atribuições do Poder Público (inciso
decisões interlocutórias. Poderá ser LXIX do art. 5o da CF). Mirabete colo-
ca que não figura como recurso, e sim
20
NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de Processo
Penal e Execução Penal. como ação de natureza civil. Enten-

RELEITURA | jul./dez. 2011 81


EXECUÇÃO IMEDIATA
DA SENTENÇA

de, ainda, que como garantia cons- da sentença em conforme anterior-


titucional, não se confunde com os mente elucidado somente é possível
meios comuns de ação, uma vez que a execução da sentença penal após o
sua decisão tem execução imediata, seu trânsito em julgado.
sendo desnecessário um processo de
execução e com satisfação in natura Existem, ainda, na legislação pro-
do dever cominado pelo impetrado21. cessual penal brasileira, meios de se
evitar a prisão. Estes são a liberdade
Por fim, há a correição parcial, cuja provisória, o relaxamento da prisão
constitucionalidade e natureza jurí- em flagrante, o pedido de revogação
dica são, todavia, foco de debate dou- da prisão preventiva, o já menciona-
trinário. A doutrina e a jurisprudência do habeas corpus, o livramento con-
majoritária entendem constitucional dicional e a suspensão condicional da
a correição parcial. Quanto à sua na- pena.
tureza jurídica, não existe um acordo
harmônico. Entretanto, a hipótese A liberdade provisória se consagra
em que caberá a correição parcial já no entendimento de que a prisão
está firmada: quando houver des- deve ser a exceção, enquanto que a
pacho do juiz que cause tumulto no liberdade deverá ser a regra. Assim,
processo, ao invés de garantir seu poderá o indiciado ou réu, preso em
prosseguimento estável. A lei federal decorrência de determinadas espé-
1533/51 e o decreto lei 253/67 admi- cies de prisão cautelar, responder ao
tem e regulam a correição parcial na processo em liberdade, em homena-
esfera federal. gem ao princípio da presunção de
inocência.
Como se nota, existem várias ma-
neiras de adiar o fim de um processo Poderá ser expedido o alvará de soltu-
penal, protelando a possibilidade de ra como consequência da concessão
se executar a pena. Ao estudar o CPP, de liberdade provisória, com ou sem
percebe-se que, o processo penal é fiança (arts. 322 e 321 CPP). Foi criada
permeado de recursos amparados para ser aplicada aos crimes menos
por garantias constitucionais de pre- graves e é compatível com a prisão
sunção de inocência, ampla defesa e decorrente de pronúncia, (art. 408, §
contraditório impedindo a execução 3o CPP) com a prisão em flagrante e
da pena. Mesmo nos casos dos re- com a prisão decorrente de sentença
cursos extraordinário e especial, em recorrível (art. 594 CPP).
que a Lei no 8.038, de 1990, declara
que não possuem efeito suspensivo, O relaxamento da prisão em flagrante
é preciso a demonstração de neces- é admitido quando esta não foi pro-
sidade para a decretação da prisão duzida com observância de todas as
anterior à condenação definitiva, vez formalidades legais ou quando aque-
que obstam o trânsito em julgado le preso em flagrante estiver ampara-
do por causa excludente de antijuri-
21
MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo Penal. dicidade.

82 RELEITURA | ano 2 número 4


EXECUÇÃO IMEDIATA
DA SENTENÇA

A prisão preventiva será possível sempenho no trabalho e demonstrar


quando houver indício de autoria capacidade de se sustentar com tra-
e prova de materialidade do crime. balho honesto, é facultado o cumpri-
Além disso, para ser decretada, deve- mento do restante da sentença em li-
rá estar fundamentada na garantia da berdade, embora submetido a certas
ordem pública, da ordem econômica, condições.
por conveniência da instrução crimi-
nal, ou para assegurar a aplicação da A suspensão condicional da pena
lei penal (art. 312 CPP). Assim, cessa- visa evitar a prisão de curta duração.
da a causa que fundamentou a prisão Assim, se ao condenado for aplicada
preventiva, deverá o juiz expedir o pena privativa de liberdade, que não
alvará de soltura, podendo um advo- pode ser substituída por restritiva de
gado requerê-lo por meio de uma pe- direito (art. 77, III CP), não superior a
tição em que se pleiteia a revogação dois anos (art. 77, caput CP), poderá
da prisão preventiva. ser concedida a suspensão condicio-
nal da pena, desde que preenchidos
O livramento condicional se funda- os requisitos subjetivos previstos no
menta no argumento de que se deve inciso II do artigo 77 do Código Penal
evitar a prisão daquele que apresen- e não for reincidente em crime doloso.
ta condições de ser reinserido na so-
ciedade sem representar um perigo. Essa breve explanação permite con-
É aplicado ao réu condenado à pena cluir que, no Brasil, existem diversos
privativa de liberdade, desde que tal mecanismos que possibilitam o adia-
pena seja igual ou superior a dois mento do cumprimento da sentença,
anos (art. 83, caput Código Penal). em especial a decretação da prisão.
Também deverá o condenado ter Além disso, existem instrumentos
cumprido mais de um terço da pena que permitem ao réu responder ao
se não for reincidente em crime do- processo em liberdade, além de haver
loso (art. 83, I CP) ou mais de metade mecanismos para o condenado evi-
se o for (art. 83, inciso II). Em se tra- tar o cumprimento integral da pena
tando de crimes hediondos, deverá o privativa de liberdade. Na seção se-
condenado ter cumprido dois terços guinte, apresenta-se um panorama
da pena, sendo vedada a concessão da questão em outros países para, em
ao reincidente específico em crimes seguida, discutir o impacto na socie-
dessa natureza. Destarte, somente dade de tal sistema.
não poderá ser concedida a liberda-
de condicional ao reincidente espe-
cífico em crime hediondo ou a ele 2. Aplicação das sentenças
equiparado. Na verdade, é a última penais em outros países
etapa na progressão de regime em
que, ao condenado que apresenta ín- A Ministra Ellen Gracie esboçou que
dice suficiente de regeneração, bons em país nenhum do mundo, depois de
antecedentes na vida pregressa, bom observado o duplo grau de jurisdição,
comportamento carcerário, bom de- a execução de uma condenação fica

RELEITURA | jul./dez. 2011 83


EXECUÇÃO IMEDIATA
DA SENTENÇA

suspensa, aguardando o referendo da da inocência, mas isso não impede


Corte Suprema.22 o início do cumprimento da pena
logo depois de exarada a sentença.
Esta seção, baseada em Frischeisen, Há como exceção a possibilidade de
Garcia e Gusman (2008), comprova a fiança que deve, contudo, preencher
afirmação anterior, além de ilustrar a requisitos rígidos previstos em seu
matéria. código criminal.

Na Inglaterra, berço das ideias iniciais A Constituição Francesa, a exemplo


do princípio da presunção de inocên- da maior parte dos países, também
cia, a regra é aguardar o julgamento garante a presunção de inocência.
dos recursos já cumprindo a pena Ainda assim, o Código de Processo
determinada na primeira instância, Penal francês traz hipóteses em que
a menos que a lei garanta a liberda- o Tribunal pode expedir mandado de
de pela fiança, que não é automática, prisão, mesmo havendo a pendência
pois somente poderá ser concedida de recursos.
na Corte superior, concomitante à
análise do recurso. Em Portugal, a Constituição estabe-
lece que todo o arguido se presume
Nos Estados Unidos, as decisões pe- inocente até ao trânsito em julgado da
nais condenatórias são executadas sentença de condenação, devendo ser
imediatamente. O Código americano julgado no mais curto prazo compa-
prevê algumas formas de se aguardar tível com as garantias de defesa. A ga-
em liberdade, mas os institutos são rantia dessa presunção, contudo, não
limitados e dificultados pelos inúme- é óbice ao Princípio da Execução Ime-
ros requisitos a serem preenchidos. diata que vigora no direito português.

Frischeisen, Garcia e Gusman (2008) Na Espanha, a situação não é dife-


citam Relatório Oficial da Embaixa- rente. Frischeisen, Garcia e Gusman
da dos EUA, onde existe a seguinte (2008) explicam que a
informação: nos Estados Unidos há
um grande respeito pelo que se po- Espanha é outro dos países em
deria comparar no sistema brasileiro que, muito embora seja a pre-
com o ‘juízo de primeiro grau’, com sunção de inocência um direito
cumprimento imediato das decisões constitucionalmente garanti-
proferidas pelos juízes. Prossegue in- do, vigora o princípio da efeti-
vidade das decisões condena-
formando que o sistema legal norte- tórias. Seguindo este princípio,
-americano não se ofende com a ime- se o acusado foi condenado em
diata execução da pena imposta ainda processo em que lhe foi ofereci-
que pendente sua revisão. do contraditório e ampla defe-
sa, em que foram cotejadas to-
O Canadá, conforme a tradição britâ- das as provas, observado está o
nica, reconhece a força da presunção princípio da presunção da ino-
cência. A sentença condenató-
22
Julgamento do HC no 85,886, de 6/9/2005. ria é, deste modo, plenamente

84 RELEITURA | ano 2 número 4


EXECUÇÃO IMEDIATA
DA SENTENÇA

executável, mesmo que outros semprego e desigualdade, conjugado


recursos estejam em trâmite. com características individuais como
Por fim, pode-se citar a Argentina, estrutura familiar e escolaridade das
cujo ordenamento jurídico também pessoas. Outro grupo de artigos foca
contempla o princípio da presunção a influência do sistema judiciário e da
da inocência, o que não impede que probabilidade de punição.
seu Código de Processo Penal dispo-
nha que a pena privativa de liberdade Ehrlich (1996) desenha um modelo
seja cumprida de imediato, podendo para o mercado do crime. Criminosos
haver uma postergação apenas no ou consumidores de bens e serviços
caso de mulher grávida, ou que pos- ilegais, tanto quanto as autoridades
sua filho menor de seis anos, ou se o públicas que devem garantir o cum-
condenado estiver gravemente do- primento das leis, agem maximizan-
ente e a prisão resultar em risco de do suas utilidades. Todos os agentes
morte. formam suas expectativas sobre as
oportunidades legítimas e ilegíti-
mas, incluindo o rigor das penas bem
3. Literatura relacionada como a certeza de punição.

De fato, conforme explica Shikida


A economia da criminalidade tem
(2010), o sucesso da atividade ilegal
como um de seus expoentes o Profes-
está correlacionado com o lucro. O
sor Gary Becker, ganhador do Nobel
de Economia em 1992. Em seu tra- praticante do ilícito é o sujeito que or-
balho, Becker (1968), evidencia que ganiza o projeto, reunindo os fatores
a razão principal para se cometer um de produção disponíveis e assumin-
crime econômico (furto, roubo, ex- do os riscos inerentes à atividade efe-
torsão, usurpação, estelionato, recep- tuada, podendo perceber lucros ou
tação, etc.) é o fato de os riscos serem incorrer em prejuízo. O cerceamento
menores que os benefícios prove- da liberdade integraria o prejuízo.
nientes da atividade ilícita.
Evidências sugerem que o risco de
Alguns crimes, como o de colarinho punição no Brasil não é alto. O Nú-
branco, são tipicamente cometidos cleo de Direitos Humanos da Uni-
após um planejamento minucioso do versidade Federal de Ouro Preto23 di-
infrator dos ganhos potenciais e do vulgou levantamento realizado pela
risco de ser pego e punido. Associação dos Magistrados do Brasil,
apresentando o seguinte resultado:
Vários trabalhos foram escritos de
forma a tentar demonstrar quais va- entre 1988 e 2007, isto é, des-
riáveis promovem alterações nos de a promulgação da Consti-
tuição da República até hoje,
índices de criminalidade. Ormerod o Supremo Tribunal Federal
(2005) ressalta um grupo de estudos não condenou nenhum agente
que aborda a interferência do am-
biente macroeconômico, como de- 23
Oliveira (2007).

RELEITURA | jul./dez. 2011 85


EXECUÇÃO IMEDIATA
DA SENTENÇA

político acusado da prática de Segundo o relatório Justiça em Nú-


crimes contra a administração meros24, publicado pelo Conselho
pública. Mais ainda. Em todo Nacional de Justiça, ingressaram na
esse tempo, dos 130 processos Justiça Estadual, durante o ano de
distribuídos no STF, apenas 6
2009, 18,7 milhões de processos, sen-
foram julgados, e absolvidos.
Quanto aos demais, 13 já pres- do que o grupo dos maiores tribu-
creveram, 46 foram remetidos nais, composto por São Paulo, Rio de
à instância inferior e 52 conti- Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do
nuam tramitando na Corte. Sul e Bahia, contou com 69% dos ca-
sos novos.
Não existem dados que estimem a pro-
babilidade de detenção de um indiví-
Tramitaram, em 2009, no 2o grau da
duo no Brasil, mas supõe-se ser menor
Justiça Estadual, 3,1 milhões de pro-
que a verificada nos Estados Unidos,
cessos, sendo que 1,3 milhão já estava
que é de apenas 5%. Isto implicaria
pendente de julgamento desde o final
dizer que, no Brasil, a probabilidade
do ano anterior (42%) e 1,8 milhão in-
de sucesso no setor do crime pode ser
gressou durante o ano (58%).
maior que 95% (Fernandez, 1998).
Relativamente à litigiosidade de 2o
Após as breves considerações jurí-
grau no ano de 2009, foi apresentada
dicas sobre o tema, a ilustração de
informação consolidada que segrega
como o assunto é disciplinado na
os processos de competência crimi-
comunidade internacional e essa
nal e os demais, denominados não-
contextualização de como o tema -criminais. Do total de casos novos,
vem sendo tratado academicamente, verifica-se que 343 mil foram da área
apresentam-se alguns dados relativos criminal (19%) e 1,4 milhão, não-cri-
à Justiça Estadual que demonstram o minais (81%). Analisando esse mes-
baixo percentual de reforma das deci- mo percentual sobre os dados de de-
sões de primeira instância e passa-se cisões, casos pendentes e baixados,
ao modelo que estudará os benefícios há certa manutenção dessa relação, o
e custos da execução da pena, consi- que demonstra equivalência no fluxo
derando seu cumprimento imediata- de entrada e de saída dos processos
mente após a primeira sentença. de 2o grau, independentemente de
ser a área de atuação criminal ou não.

4. Evidência Quantitativa Informação importante para o presen-


te estudo é a quantidade de decisões
As informações detalhadas abaixo que são reformadas. A intuição nos faz
são relativas à Justiça Estadual, isso crer que, se não há alteração significa-
porque a grande maioria dos crimes tiva do julgamento, deve-se ficar com
é julgada no âmbito dos Estados. So- a execução imediata da pena.
mente são encaminhados à Justiça
Federal processos que envolvam a 24
Justiça em Números – 2009 /CNJ. <http://www.cnj.
jus.br/index.php?Itemid=245&id=206&layout=blog&opti
União ou seus servidores. on=com_content&view=category>.

86 RELEITURA | ano 2 número 4


EXECUÇÃO IMEDIATA
DA SENTENÇA

A tabela a seguir retrata a taxa de re- gunda instância ressalta que houve
forma da Justiça Estadual na primeira algum recurso impetrado. O provi-
e segunda instância, relativamente a mento dos recursos em segundo grau
2008. acontece na taxa de 20% (consideran-
do a média ponderada dos Estados
Note que os recursos providos são um em que há informações disponíveis).
subconjunto dos recursos julgados,
de forma que o primeiro tem que ser Essas informações são úteis para se
menor que o segundo. Em termos de compreender melhor o modelo dese-
primeira instância, o local em que as nhado na seção seguinte.
decisões são mais alteradas é o Piauí
(72,44%). Já o estado com a menor
taxa de reforma é o Amazonas (4,65%). 5. Modelagem econômica
Há também que se comentar que, Considere uma sociedade formada
além dessa taxa de reforma que acon- por N cidadãos, um dos quais foi con-
tece no primeiro grau, o simples fato denado em primeira instância e re-
de o processo ter seguido para a se- correu da sentença. Queremos avaliar,
Tabela I
Reforma das Decisões de Primeiro e Segundo Grau na Justiça Estadual – 2008

RELEITURA | jul./dez. 2011 87


EXECUÇÃO IMEDIATA
DA SENTENÇA

do ponto de vista do bem estar social, ca pessoa. No entanto, alguns crimes


se o acusado deve ou não ter sua sen- afetam muitos cidadãos de uma vez,
tença imediatamente executada. Para como um assalto a um banco ou um
tanto, suponha que a probabilidade crime contra o sistema financeiro ou
de o acusado ser realmente culpado contra a ordem econômica, como o
é descrita pelo parâmetro p, p∈(0,1). conluio de empresas oligopolistas
Esse parâmetro p é a probabilidade para cobrar preços de cartel. A pre-
de a justiça ter de fato condenado um sente modelagem é suficientemente
culpado em primeira instância. Por- rica para abordar esse afeito do crime
tanto, p pode ser interpretado como sobre mais de um indivíduo.
uma medida da qualidade da justiça
em primeira instância. Se a qualidade Esta análise centra-se no que ocorre
é elevada, existe alta probabilidade de no período imediatamente posterior à
um cidadão julgado culpado ser, de formulação da sentença em primeira
fato, culpado; portanto, quanto maior instância. Portanto, o crime já perpe-
a qualidade da justiça em primeira trado, bem como seus efeitos sobre a
instância, maior (mais próximo de 1) o sociedade, ambos fazem parte do pas-
valor de p. Por outro lado, quanto pior sado e não serão incluídos no cálculo
a qualidade da justiça, mais próximo da função de bem-estar social do perí-
de ½ será o valor de p, sugerindo que odo em foco. Em particular, o presente
a condenação é essencialmente arbi- modelo não incorpora qualquer ques-
trária. Note que um valor de p menor tão que envolva o motivo punição por
que ½ sugere um viés condenatório algo já realizado. De fato, ao analisar
da justiça no sentido de condenar um o bem-estar social no período subse-
réu mesmo com baixa probabilidade quente à formulação da sentença, pre-
de ser, de fato, culpado. ocupamo-nos exclusivamente com a
possibilidade de o crime ser repetido
Adotamos o critério de Bentham para caso o verdadeiro autor não seja preso.
avaliar o bem-estar social. Portan-
to, nossa função de bem-estar social O verdadeiro autor do crime deriva
consiste da soma das utilidades in- um benefício em termos de utilidade
dividuais dos cidadãos que formam modelado pelo parâmetro b>0. Caso
a sociedade. A utilidade de um cida- não seja preso, ele poderá reincidir
dão que não é vítima do crime pelo no crime, o que ocorre com probabi-
qual o réu está sendo julgado é uF. Já lidade r, r∈(0,1). O parâmetro r reflete
a utilidade de um cidadão vítima do a periculosidade do crime, ou seja o
crime é uV. Naturalmente, uF >uV e fato de que cada tipo de crime tem
Du= uF -uV >0 mede a perda de utilida- características particulares, poden-
de de um indivíduo que é vitimizado. do levar a maior ou menor probabi-
lidade de reincidência. Por exemplo,
Existem N indivíduos na sociedade crimes passionais tendem a se repetir
e o crime que está sendo analisado com probabilidade muito baixa, en-
afeta negativamente n≤N cidadãos. quanto furtos tendem a ser repetidos
Se n=1, então o crime afeta uma úni- com alta probabilidade.

88 RELEITURA | ano 2 número 4


EXECUÇÃO IMEDIATA
DA SENTENÇA

Finalmente, um criminoso mantido Caso a sentença seja imediatamente


preso incorre em perda de utilidade executada, o réu, se realmente culpa-
devido à punição caracterizada pelo do, estará impossibilitado de reinci-
parâmetro p>0, enquanto um cida- dir no crime. Portanto, haverá possi-
dão inocente mantido preso incorre bilidade de reincidência apenas caso
em perda de utilidade P≥p. De fato, em que o réu é inocente. Destarte,
espera-se que um inocente indevida- a função de bem-estar social nesse
mente punido sofra mais com a puni- caso é dada pela expressão abaixo (1).
ção que um criminoso devidamente
punido. O primeiro somando na expressão
abaixo reflete a utilidade social quan-
Estabelecidos os parâmetros básicos do o réu é de fato culpado (o que ocor-
do modelo, pode-se derivar a função re com probabilidade p); nesse caso, o
de bem-estar social no período ime- crime não será repetido no período
diatamente posterior ao julgamento seguinte, de forma que todos os cida-
em primeira instância, nas duas pos- dãos recebem a utilidade uF; no entan-
síveis situações: com ou sem execu- to, o réu tem sua utilidade reduzida
ção imediata da sentença. pela punição imediata p. Já o segundo

termo reflete a utilidade social quan- deve ser considerada no cálculo da


do o réu é inocente (o que ocorre com função de bem-estar social. Em par-
a probabilidade 1-p)25; nesse caso o ticular, o custo da punição para o
criminoso continua solto e reincidirá indivíduo que a sofre, bem como o
no crime com a probabilidade r, redu- benefício que o criminoso obtém do
zindo o bem-estar de n indivíduos e ato ilícito também devem ser con-
recebendo o benefício pessoal b; além tabilizados como um ganho social,
disso, há a perda de utilidade do réu neste caso usufruído por esse único
indevidamente punido, P. indivíduo.

É importante observar que, sendo A expressão acima pode ser reescrita


o criminoso também um membro mais simplesmente no formato se-
da sociedade, sua utilidade também guinte (2).

O primeiro somando na expressão


25
Cabe lembrar que se partiu do fato de que o réu já
foi julgado culpado em primeira instância. Portanto p (2) é a utilidade social caso não seja
é a probabilidade do julgamento ter sido correto e 1-p
de terem errado, ou seja, de o réu ser inocente.
perpetrado qualquer crime no perío-

RELEITURA | jul./dez. 2011 89


EXECUÇÃO IMEDIATA
DA SENTENÇA

do. O segundo somando é a perda de Comparando as expressões (2) e (4)


utilidade esperada devido à possibili- pode-se concluir que é melhor para
dade de reincidência no crime. O ter- a sociedade executar imediatamente
ceiro somando corresponde à perda a sentença se a condição abaixo for
de utilidade esperada pela punição e, satisfeita.
finalmente, o último somando reflete
o benefício que o criminoso obtém
ao reincidir no crime, caso o réu seja
inocente.
O termo à esquerda reflete a perda so-
Caso a sentença não seja imediata- cial esperada caso o réu seja culpado,
mente executada, então o crimino- mas não seja punido imediatamente.
so, qualquer que seja ele, estará livre Esse termo se decompõe, da direita
para executar novos atos ilícitos, o para a esquerda, em primeiro lugar na
que ocorre com probabilidade r. Ob- perda de utilidade individual de um
serve que nesse caso não importa cidadão que é vítima do comporta-
para o cálculo da função de bem-es- mento ilícito reincidente, Du= uF-uV;
tar social quem é o verdadeiro crimi- em segundo lugar, no número de ci-
noso, se o réu ou outro cidadão, uma dadãos afetados pela reincidência, n;
vez que ambos encontram-se soltos em terceiro lugar, na probabilidade
e, portanto, o criminoso perpetra a de reincidência, r, e, finalmente, na
ação com a mesma probabilidade, probabilidade do réu ser, de fato, cul-
provocando o mesmo prejuízo social pado, pois essa é a situação em que a
e obtendo dela o mesmo benefício. aplicação imediata da sentença é be-
Portanto, a função de bem-estar so- néfica.
cial nesse caso é dada pela expressão
abaixo, que independe de p. O termo à direita corresponde aos
custos sociais da punição. O primeiro
somando, , é o custo
esperado da punição, que depende
O primeiro termo na expressão (3) do réu ser ou não de fato o criminoso;
traduz o bem-estar social na situa- o segundo somando, , corres-
ção em que não há reincidência. Já ponde ao custo de oportunidade para
o segundo termo engloba a redução o réu criminoso em permanecer pre-
de utilidade dos n cidadãos afetados so: ele não pode reincidir no crime e,
no caso de reincidência, bem como o portanto, não pode obter o benefício
benefício que o criminoso aufere na b.
reincidência. A expressão acima pode
ser reescrita mais simplesmente na Outra forma de expressar a mesma
forma a seguir. condição encontra-se em (6).

90 RELEITURA | ano 2 número 4


EXECUÇÃO IMEDIATA
DA SENTENÇA

Nessa expressão acumula-se à es- mede a periculosidade desse tipo de


querda o custo social líquido26 espe- crime, ou seja, a probabilidade de
rado do crime reincidente perpetrado reincidência do criminoso, quanto
pelo réu em liberdade, enquanto acu- maior for essa probabilidade, maior
mula-se à direita o custo individual será o benefício da execução imedia-
da punição imediatamente aplicada, ta da sentença. Esta observação su-
que leva em consideração a possibi- gere que a decisão sobre a aplicação
lidade do custo ser maior para o réu da sentença não deve ser uniforme
punido indevidamente. para todos os tipos de ilícitos. Para
aqueles para os quais há elevada pro-
A análise da expressão (6) nos per- babilidade de reincidência, como os
mite tecer algumas considerações a furtos, a sentença deve ser imediata,
respeito de que postura a sociedade enquanto aqueles em que há baixa
deveria adotar quanto à execução do probabilidade de reincidência, como
mandado, dependendo dos parâme- os crimes passionais, a execução deve
tros que caracterizam cada socieda- ser postergada. Note que no caso dos
de bem como cada tipo específico de crimes passionais esta conclusão vai
crime. de encontro ao anseio popular de pu-
nição rápida e efetiva. Essa diferença
Em primeiro lugar, nota-se que quan- de orientação se explica pela diferen-
to maior for o p, maior será o termo à ça de objetivos entre a população e
esquerda comparado com o termo à o bem-estar social. De fato, quando
direita27. Como p representa a quali- a população exige execução pronta
dade do julgamento em primeira ins- da sentença no caso de crimes pas-
tância, conclui-se que quanto maior sionais, sua preocupação maior é a
a qualidade das instituições, melhor punição a um individuo que praticou
será a execução imediata da senten- ato considerado hediondo. Já aqui se
ça. Este resultado talvez explique por- toma uma postura mais fria e consi-
que se observa execução imediata de dera-se essencialmente os malefícios
sentença em países mais avançados que tal pessoa pode trazer se for man-
em que as investigações tendem a ser tida em liberdade, em comparação
de melhor qualidade que em países com o custo de punir imediatamente
em desenvolvimento, como é o caso um cidadão inocente.
da Inglaterra e dos Estados Unidos ci-
tados na seção 2. Em terceiro lugar, quanto maior a per-
da individual de utilidade Du= uF-uV,
Em segundo lugar, quanto maior for maior será o termo à esquerda. Por-
o parâmetro r, maior será o termo tanto, quanto maior for o dano cau-
à esquerda. Como esse parâmetro sado a uma vítima, maior deve ser o
benefício social em se executar ime-
26
Descontado do benefício individual b obtido por diatamente a sentença. Em particu-
meio do ato ilícito.
27
Note que a expressão (6) também pode ser reescrita
lar, crimes que envolvem tirar a vida
como: de uma pessoa requerem execução
imediata. Esta última observação re-

RELEITURA | jul./dez. 2011 91


EXECUÇÃO IMEDIATA
DA SENTENÇA

aproxima o modelo deste estudo com o benefício da execução imediata da


a demanda popular de rápida puni- sentença.
ção aos crimes hediondos.

Em quarto lugar, quanto maior o 6. Considerações Finais


número n, maior o termo à esquer-
da. Portanto, quanto mais cidadãos Um importante problema de incenti-
forem prejudicados com o compor- vos com o qual se defronta a socieda-
tamento criminoso, maior será o de é o trade-off entre a segurança dos
benefício da aplicação imediata de cidadãos e injustiças praticadas por
sentença. Este resultado sugere que meio do aparato estatal.
crimes do tipo de colarinho branco,
em que muitas pessoas são afetadas, A preocupação com a segurança su-
por exemplo, pelo desvio de recursos gere que penas mais rígidas com cer-
públicos, devem ser imediatamente teza de punição têm o efeito de redu-
punidos, ainda que o prejuízo indi- zir o nível de delitos (Becker, 1968).
vidual não seja tão claramente deter- Reciprocamente, a baixa probabilida-
minado. de de a pena ser aplicada reduz o cus-
to do crime para o criminoso e o in-
Reciprocamente, gostaríamos de en- duz a cometer delitos. Portanto, nesse
fatizar novamente o papel das insti- ponto de vista, quanto mais rápida e
tuições. Quanto menor for p, menor garantida for a punição, maior será a
será a segurança no resultado do segurança da sociedade.
julgamento em primeira instância, o
que sugere a espera na aplicação da No entanto, o julgamento, por mais
sentença. Esta observação talvez pos- cuidadoso que seja, é um mecanis-
sa explicar a decisão recente do Su- mo imperfeito de revelação. Portanto,
premo, que proibiu a execução provi- existe certa probabilidade de que a
sória de pena. sentença em primeira instância seja
incorreta, sendo o julgamento nas
Note também que quanto menor a instâncias superiores uma forma de
probabilidade de reincidência, me- se chegar mais próximo da verdade.
nor o interesse na execução imedia-
ta, reforçando de forma simétrica o Portanto, se por um lado a sociedade
argumento segundo o qual a decisão deseja a execução imediata para re-
sobre a aplicação da sentença deve duzir a criminalidade, ela também se
depender das características específi- preocupa com uma punição injusta,
cas do crime em análise. sugerindo assim a execução apenas
no final do julgamento. O trade-off
Adicionalmente, quanto maior o pa- entre essas duas preocupações deter-
râmetro P, maior o lado direito da minará a escolha ótima da sociedade.
desigualdade. Em consequência,
quanto maior o custo para a socieda- Em decorrência do modelo apresen-
de em se punir um inocente, menor tado neste artigo, pode-se inferir que a

92 RELEITURA | ano 2 número 4


EXECUÇÃO IMEDIATA
DA SENTENÇA

execução imediata da sentença é mais www.planalto.gov.br/ccivil/decreto-lei/Del-


aconselhável à medida que as insti- 3689Compilado.htm, em 8/9/2010.
tuições funcionem melhor, ou seja,
BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Justiça
julgamentos com baixo índice de erro. em Números 2009. Disponível no site http://
www.cnj.jus.br/index.php?option=com_
Também é preferível executar imedia- content&view=article&id=12188, em
tamente a sentença se a probabilidade 17/11/2010.
de reincidência for alta ou se o dano
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Habeas
da vítima é considerável. Por fim, a
corpus no 85.886; Segunda Turma; Relatora:
execução imediata da sentença é pre- Min. Ellen Gracie. Brasília, 6/9/2005.
ferível se o crime gerar malefícios para
uma quantidade grande de pessoas. CAPEZ, F. Curso de Processo Penal, Editora Sa-
raiva, São Paulo, 2003.
Observe que todas essas condições
estão atreladas ao tipo de crime, de CAVALIERI FILHO, S. Programa de Responsa-
bilidade Civil. Malheiros Editores, São Paulo,
forma que a execução imediata da
2002.
sentença pode ser indicada em al-
guns casos e rejeitada em outros. Essa CINTRA, A. C. A.; GRINOVER, A. P.; DINAMAR-
constatação é importante uma vez CO, C. R. Teoria Geral do Processo. Malheiros
que fornece um rumo para o aper- Editores, São Paulo, 2008.
feiçoamento das leis penais, indican-
EHRLICH, I. Crime, Punishment, and the Mar-
do que a imediata execução da pena
ket for Offenses. Journal of Economic Perspec-
deve estar relacionada com o tipo de tives, v. 10, n. 1, 1996.
ilícito cometido.
FERNANDEZ, J. C. A economia do crime revisi-
A principal contribuição deste estudo tada. Economia & Tecnologia. Campinas, v. 1,
é explicitar as qualidades requeridas n. 03, 1998.
para uma legislação penal e proces-
Frischeisen, L. C. F.; Garcia, M. N.; Gus-
sual que possibilite um ponto ótimo
man, F. Execução Provisória da Pena – Panora-
ao trade-off entre segurança pública e ma nos ordenamentos nacional e estrangeiro.
a aplicação das penas criminais. Tais Revista ANPR Online, no 7, jul-dez/2008. Bra-
condições devem ser consideradas na sília: Associação Nacional dos Procuradores da
implantação de políticas públicas de República, 2008.
combate ao crime.
LIST, C.; GOODIN, R. Epistemic Democracy:
Generalizing the Condorcet Jury Theorem. The
Journal of Political Philosophy, 9: 277-306,
Referências Bibliográficas 2001

BECKER, G. S. Crime and Punishment: an eco- MIRABETE, J. F. Manual de Direito Penal – Vo-
nomic approach. Journal of Political Econo- lume I – Parte Geral, Arts. 1o a 120 do CP, Editora
my, v.76, n. 01, 1968. Atlas, São Paulo, 2009.

BRASIL. Decreto-Lei no 3.689, de 1941. Código MIRABETE, J. F. Processo Penal, Editora Atlas,
de Processo Penal. Disponível no site http:// São Paulo, 2006.

RELEITURA | jul./dez. 2011 93


EXECUÇÃO IMEDIATA
DA SENTENÇA

NUCCI, G. S. Manual de Processo Penal e Exe- SHIKIDA, P. F. A. O problema da impunidade


cução Penal, Editora Revista dos Tribunais, São no Brasil a partir de evidências empíricas. 2010.
Paulo, 2007. Mimeo.

OLIVEIRA, J. A. Impunidade e Justiça. Núcleo THEODORO JÚNIOR, H. Curso de Direito Pro-


de Direitos Humanos/Universidade Federal cessual Civil – Volume I – Teoria Geral do Direi-
de Ouro Preto. Disponível no site http://www. to Processual Civil e Processo de Conhecimen-
ufop.br/ndh/textos/impunidade.htm, em to. Editora Forense, São Paulo, 2009.
22/9/2010.

ORMEROD, P. Crime: Economic Incentives and


Social Networks. Londres: The Institute of Eco-
nomic Affairs, 2005.

94 RELEITURA | ano 2 número 4


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO
A Eleição Indireta para Presidente da
República
Por:
Ricardo Nunes de Miranda1

Resumo
Este estudo trata do vácuo normativo quanto à realização da
eleição indireta quando ficam vagos, em definitivo, os cargos
dos mandatários do poder executivo, nos três níveis de gover-
no, e quando isso ocorre já na segunda metade de seus manda-
tos populares.

Inicialmente, apresenta-se uma revisão do processo da recente


eleição indireta para governador no Distrito Federal e no Esta-
do do Tocantins. Constata-se a grave lacuna no marco legal que
deveria disciplinar a escolha dos mandatários do poder execu-
tivo, mediante eleição indireta pelo respectivo poder legislati-
vo, ou seja, as câmaras municipais, as assembleias legislativas e
o Congresso Nacional.

Em seguida, é feita uma resenha histórica do problema em es-


tudo e se analisam os principais aspectos da eleição indireta do
Presidente da República e as principais sistemáticas de funcio-
namento do Congresso Nacional. A análise do tema segue com
a apresentação: (i) do marco normativo vigente, (ii) das inicia-
tivas legislativas em tramitação cujo objetivo é a normatização
da eleição indireta e (iii) do tratamento dado pela doutrina à
questão da eleição indireta. O capítulo se encerra com a revisão
crítica das perspectivas para a eventual realização, no futuro, de
uma eleição indireta para Presidente da República.

Finalmente, é feita uma revisão das duas experiências recentes


de funcionamento do Congresso Nacional como um sistema
unicameral: a Assembleia Nacional Constituinte de 1987/1988
e a Revisão Constitucional de 1993.

Como fecho de todo o trabalho, apresentam-se as minutas de


um projeto de lei do Senado Federal e de sua justificação como

1
Consultor Legislativo do Senado na área de Economia Regional.

RELEITURA | jul./dez. 2011 97


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

subsídios para a superação do vácuo Lula durante a campanha eleitoral de


legislativo relativo à previsão de lei a 2010. As repetidas multas recebidas
que se refere o § 1o do art. 81 da Cons- poderiam vir a ser seguidas por um
tituição Federal. eventual afastamento em definitivo,
caso fosse mantida sua atitude de
descaso frente aos contingenciamen-
Introdução tos da Justiça Eleitoral na busca de si-
metria nas condições de disputa dos
O tema da eleição indireta ganhou cargos de natureza eletiva.
atualidade em função de sua utiliza-
ção na recente substituição dos go- Com exceção dos recentes casos de
vernadores do Distrito Federal e do Tocantins e do Distrito Federal, o
Estado do Tocantins. Esses dois epi- tema da eleição indireta tinha se man-
sódios, que são objeto de análise nes- tido fora da agenda política enquanto
te estudo, deram grande visibilidade o Brasil consolidava suas instituições
à eleição indireta, pois o tema esteve democráticas, com destaque para a
permeando as cenas de corrupção ex- alternância no exercício do poder,
plícita que os meios de comunicação pois a cada dois anos o cidadão-elei-
repetiram exaustivamente no tocante tor comparece às urnas para estabele-
ao Distrito Federal. Durante essa in- cer mandatos populares. Alternando
tensa exposição, o caso de Tocantins entre eleição com foco local e eleições
servia como um complemento por com foco regional e nacional, o Brasil
sua semelhança. tem consolidado a prática republica-
na e fortalecido sua democracia.
Adicionalmente, a luta do Vice-Presi-
dente José Alencar contra um câncer Assim, a prática das eleições diretas
foi acompanhada por todos e levan- se tornou algo natural, sem impre-
tou sempre a interrogação quanto à vistos e dentro de uma normalidade
eventual substituição do Presidente que seria impensável há duas ou três
Lula caso houvesse um impedimen- décadas. A legislação eleitoral tem se
to mais duradouro de seu substituto aperfeiçoado e foram estabelecidos
legal. Afinal, o Brasil teve na história parâmetros que se tornam mais sóli-
recente dois vice-presidentes que dos a cada eleição. Exemplo ilustrati-
completaram o mandato presiden- vo seria a exigência de um ano como
cial: José Sarney, devido à morte do a anterioridade mínima para a eficá-
Presidente Tancredo Neves, e Itamar cia de qualquer norma que se refira à
Franco, em função do impeachment próxima eleição.
do Presidente Fernando Collor.
É claro que ainda há espaço para
Além da fragilidade da saúde de José aperfeiçoamentos, principalmen-
Alencar, causou preocupação os pos- te aqueles que poderiam atender à
síveis desdobramentos da persistente necessidade de fortalecimento dos
desobediência às normas da legisla- partidos políticos. Há lacunas ina-
ção eleitoral por parte do Presidente ceitáveis, como a possibilidade de

98 RELEITURA | ano 2 número 4


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

coligação partidária nas eleições pro- uma eleição indireta e evitaria a per-
porcionais ou a diminuta eficácia do da de energia e tempo como se deu
estatuto da fidelidade partidária. No no Distrito Federal e no Tocantins.
entanto, é válido acreditar que o vigor
do processo de consolidação de nos- Como será visto ao longo deste tra-
sas práticas eleitorais irá superar es- balho, no plano federal não existe
sas dificuldades e a vontade do eleitor previsão constitucional para a trans-
terá, a cada eleição, maior primazia formação do Senado Federal e da Câ-
do que os demais fatores presentes mara dos Deputados em um só corpo
no jogo político. de eleitores, onde a cada eleitor cor-
responda um voto de igual peso. Essa
Há, no entanto, um vácuo normativo questão ligada ao funcionamento do
quanto à realização da eleição indire- Congresso Nacional seria um proble-
ta quando ficam vagos, em definitivo, ma a ser enfrentado na proposição da
os cargos dos mandatários do poder lei prevista no § 1o do art. 81 da CF.
executivo nos três níveis de governo
e quando isso ocorre já na segunda Outra questão a ser enfrentada na
metade de seus mandatos popula- lei prevista no § 1o do art. 81 da CF
res. É sobre esse tema que se dedica se refere à adaptação das condições
a atenção neste estudo, com foco no de elegibilidade e das causas de ine-
plano federal. legibilidade aplicáveis nas eleições
diretas pelo voto universal, que são
O foco do presente estudo à eleição previsíveis e, assim, permitem o es-
indireta no plano federal deriva da tabelecimento de um marco norma-
circunstância de que, no município tivo que favoreça o predomínio da
e no estado, o poder legislativo forma vontade do eleitor no resultado das
um só corpo de eventuais membros eleições. A natureza imprevisível da
de um colégio eleitoral que venha a vacância, em definitivo, dos cargos
ter de eleger, indiretamente, o prefeito dos mandatários do poder executivo
ou o governador. Ou seja, não haveria nos três níveis de governo, não per-
maiores problemas para transformar mite que seja exigida aos candidatos
a câmara de vereadores ou a assem- à eleição indireta a obediência aos
bleia legislativa em colégio eleitoral. requisitos próprios de eleição direta.

Mesmo assim, como será objeto de Essas questões constituem outro


análise, o marco normativo foi objeto tema da análise a seguir desenvolvida
de intenso debate no Distrito Federal e são uma motivação para a elabora-
e no Tocantins, ressaltando o dano ção de uma minuta de projeto de lei
resultante da inexistência de uma lei como subsídio para a superação do
federal que regulamentasse a eleição hiato normativo apontado.
indireta para Presidente da Repúbli-
ca. Sem dúvida, a disponibilidade de Busca-se, pois, produzir uma minu-
uma lei federal serviria de parâmetro ta de projeto de lei que atenda a dois
para a compreensão do desafio de objetivos: de um lado, a Constituição

RELEITURA | jul./dez. 2011 99


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

de 1988 dispõe de maneira explícita Capítulo I apresenta a revisão do pro-


quanto ao Congresso Nacional como cesso de eleição indireta no Distrito
sendo de natureza bicameral, mas Federal e no Estado do Tocantins, per-
para que o mesmo funcione como mitindo constatar a grave lacuna no
corpo de eleitores indiretos do Presi- marco legal que deveria disciplinar a
dente da República, se faz necessária escolha dos mandatários do poder
uma lei onde haja essa previsão; e executivo nos três níveis de governo
de outro lado, para normatizar a re- mediante eleição indireta pelo res-
alização de uma eleição indireta são pectivo poder legislativo, ou seja, as
necessárias adaptações na legislação câmaras municipais, as assembleias
eleitoral dedicada aos eventos perió- legislativas e o Congresso Nacional.
dicos e previsíveis, quando a eleição
se dá por meio direto. O Capítulo II faz uma resenha histó-
rica do problema em estudo e anali-
Em síntese, este trabalho procura sa os principais aspectos da eleição
avaliar e caracterizar os ingredientes indireta do Presidente da República
que tornam a ausência de normati- e as principais sistemáticas de fun-
zação do art. 81 uma atitude impre- cionamento do Congresso Nacional.
vidente e inaceitável, porta aberta à A análise do tema segue com a apre-
grave crise institucional e anúncio sentação: (i) do marco normativo vi-
antecipado de intervenção do Su- gente, (ii) das iniciativas legislativas
premo Tribunal Federal em substi- em tramitação cujo objetivo é a nor-
tuição ao Congresso Nacional, cuja matização da eleição indireta e (iii)
inanição, mais uma vez, teria criado do tratamento dado pela doutrina à
o espaço para a prática do ativismo questão da eleição indireta. O capítu-
legiferante do Poder Judiciário. Nesta lo se encerra com a revisão crítica das
eventualidade, o conflito seria entre o perspectivas para a eventual realiza-
Supremo Tribunal Federal e o Senado ção, no futuro, de uma eleição indire-
Federal, como se procura demonstrar ta para Presidente da República.
neste trabalho.
O Capítulo III está dedicado à revisão
A metodologia utilizada consistiu na das duas experiências recentes de
análise dos ditames constitucionais funcionamento do Congresso Nacio-
e legais que se referem, diretamente, nal como um sistema unicameral – a
à questão do processo eleitoral, com Assembleia Nacional Constituinte de
ênfase na abordagem histórica. Aten- 1987/1988 e a Revisão Constitucional
ção especial foi concedida às normas de 1993 – e à apresentação de conclu-
regimentais de funcionamento do sões e críticas.
Congresso Nacional, da Assembleia
Nacional Constituinte de 1987/88 e Como fecho de todo o trabalho, se
da Revisão Constitucional de 1993. apresentam as minutas de um proje-
to de lei do Senado Federal e de sua
A organização deste estudo consis- justificação como subsídios para a
te, basicamente, em três capítulos. O superação do vácuo legislativo relati-

100 RELEITURA | ano 2 número 4


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

vo à previsão de lei a que se refere o § sa, Ricardo Lewandowski e Car-


1o do art. 81 da Constituição Federal. los Ayres Britto (Presidente). Por
maioria o Tribunal assentou que as
novas eleições deverão ser realiza-
1. Contexto Atual das indiretamente, nos termos do
voto do Ministro Ricardo Lewan-
O atual contexto está marcado pelas dowski. Vencidos os Ministros Fe-
recentes experiências com eleição in- lix Fischer (Relator) e Carlos Ayres
direta no Distrito Federal e no Estado Britto (Presidente). Também por
do Tocantins. A revisão do processo unanimidade o Tribunal decidiu
de eleição indireta nestas duas unida- que a execução da decisão se dará
des da Federação permite constatar a com o julgamento de eventuais
grave lacuna no marco legal que deve Embargos de Declaração. Falaram:
disciplinar a escolha dos mandatários pelo recorrente José Wilson Siquei-
do poder executivo nos três níveis de ra Campos, o Dr. João Costa Ribei-
governo mediante eleição indireta ro Filho; pela recorrente Coligação
pelo respectivo poder legislativo, ou União do Tocantins, a Dra. Camila
seja, as câmaras municipais, as as- Rosal; pelo recorrente Ronaldo Di-
sembleias legislativas e o Congresso mas Nogueira Pereira, o Dr. Anto-
Nacional. nio Paim Broglio; pelo recorrido
Marcelo de Carvalho Miranda; o
Dr. Torquato Jardim; pelo recor-
1.1. A eleição indireta no rido Paulo Sidnei Antunes, o Dr.
Tocantins Admar Gonzaga; pelo litisconsorte
passivo Partido Popular Socialista,
Em 25 de junho de 2009, o Tribunal o Dr. Fernando Neves da Silva e,
Superior Eleitoral (TSE), no julga- pelo Ministério Público Eleitoral,
mento do Recurso Contra Expedição o Dr. Antonio Fernando de Souza.
de Diploma (RCED) no 698, adotou a Em 8 de setembro de 2009, o TSE re-
seguinte decisão:2
jeitou os recursos apresentados pelo
então Governador Marcelo Miranda
O Tribunal, por unanimidade, re-
e confirmou a decisão de cassação de
jeitou as preliminares, proveu o
seu mandato. Por unanimidade, os
Recurso e determinou a realiza-
ministros do TSE cassaram o manda-
ção de novas eleições, nos termos
to do governador e do seu vice, Paulo
do voto do Relator. Votaram com o
Sidnei Antunes. Ele era acusado de
Relator a Ministra Eliana Calmon
abuso do poder econômico, compra
e os Ministros Marcelo Ribeiro,
de votos, conduta vedada a agente
Arnaldo Versiani, Joaquim Barbo-
público e uso indevido dos meios de
comunicação social nas eleições de
2
Superior Tribunal Eleitoral. Pesquisa de Jurispru- 2006. O TSE decidiu ainda que deve-
dência. ACÓRDÃO RECURSO CONTRA EXPEDIÇÃO
DE DIPLOMA No 698 – CLASSE 21a – PALMAS – TO- ria haver uma eleição indireta em To-
CANTINS. Disponível no endereço eletrônico: http://
www.tse.gov.br/internet/jurisprudencia/index.htm cantins para escolher o substituto do

RELEITURA | jul./dez. 2011 101


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

peemedebista até terminar a possibi- Após decidirem pela cassação, os


lidade de recursos. ministros debateram a eficácia da
medida. Primeiro, discutiram se
Em 9 de outubro de 2009, o gover- deveria haver ou não uma nova
nador interino Carlos Henrique Ga- eleição. No caso dos dois governa-
guim (PMDB), que era o Presidente dores cassados recentemente – o
da Assembleia Legislativa, venceu da Paraíba, Cássio Cunha Lima
as eleições indiretas para o mandato (PSDB), e o do Maranhão, Jackson
tampão para o Governo do Estado do Lago (PDT) – a corte entendeu que
Tocantins. O novo governador, que o segundo colocado tomaria pos-
obteve 22 votos dos 23 parlamentares se. Isso porque em ambos os casos
que participaram da eleição indire- o pleito foi para o segundo turno.
ta, é do mesmo partido político e faz Já a situação de Miranda era pecu-
parte do mesmo grupo político do go- liar, pois teve 51% dos votos ainda
vernador cassado pelo TSE. no primeiro turno.

Como origem de todo o processo, está Por unanimidade, os ministros


o pedido de cassação apresentado à chegaram à conclusão de que de-
Justiça Eleitoral pelo segundo colo- veria haver um novo pleito. Entre-
cado nas eleições de 2006. De acordo tanto, não houve consenso se ele
com a acusação, o governador cas- seria direto ou indireto. Por qua-
sado teria usado programas sociais tro votos a três, o TSE definiu que
do Estado como Governo Mais Perto quem vai escolher o novo gover-
de Você, sem autorização legislativa nador de Tocantins será a Assem-
e previsão orçamentária. A intenção bleia Legislativa local. Felix Fis-
seria distribuir a possíveis eleitores cher opinou que a eleição direta
recursos públicos, por meio da entre- era mais democrática, e foi acom-
ga de benefícios, bens, brindes, prê- panhado por Ayres Britto e pela
mios, casas, óculos, cestas básicas, re- ministra Eliana Calmon. Marcelo
alização de consultas médicas, entre Ribeiro, Ricardo Lewandowski, Jo-
outros. aquim Barbosa e Arnaldo Versiani
consideraram que o pleito deverá
Segundo foi divulgado pela Impren- ser indireto.
sa, com base em informações do TSE, O debate acima comentado é ilustra-
na apreciação do relatório do Minis- tivo quanto a diversos aspectos, mas
tro Felix Fischer, Relator do Recurso cabe ressaltar que se tratou de uma
Contra Expedição de Diploma no 698, cassação por motivos decorrentes do
a decisão da Corte se fundamentou processo eleitoral sem que fosse dada
em debates sobre o processo de subs-
posse ao candidato em segundo lu-
tituição do governador cassado:3
gar e que o processo de substituição
3
TSE cassa mandato do governador de Tocantins e de-
do governador cassado não era uma
termina eleição indireta Notícias Correio Forense – A
Justiça do Direito Online.mht. Informação disponível
no endereço eletrônico: http://www.correioforense. mandato_do_governador_de_tocantins_e_determi-
com.br/noticia/idnoticia/46111/titulo/tse_cassa_ na_eleicao_indir.html.

102 RELEITURA | ano 2 número 4


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

unanimidade entre os Ministros do vas eleições, nos termos do art.


TSE. O Relator, Ministro Felix Fischer, 224 do Código Eleitoral.
nas folhas 4 e 5, assim concluiu o Re-
Recurso a que se dá provimento
latório sobre sua apreciação do RCED
para cassar os diplomas dos recor-
698:4
ridos.
14. No caso, configurado abuso O caput do art. 224 do Código Eleito-
de poder pelos seguintes fatos: a) ral assim estabelece:
doação de 4.549 lotes às famílias
inscritas no programa Taquari por Art. 224. Se a nulidade atingir
meio do Decreto no 2.749/2006 a mais de metade dos votos do
de 17.5.2006 que regulamentou país nas eleições presidenciais,
a Lei no 1.685/2006; b) doação de do Estado nas eleições federais
632 lotes pelo Decreto no 2.786 de e estaduais ou do município nas
30.06.2006 que regulamentou a eleições municipais, julgar-se-ão
Lei no 1.698; c) doação de lote para prejudicadas as demais votações e
o Grande Oriente do Estado de o Tribunal marcará dia para nova
Tocantins por meio do Decreto no eleição dentro do prazo de 20 (vin-
2.802, que regulamentou a Lei no te) a 40 (quarenta) dias.
1.702, de 29.6.2006; d) doações de O Ministro Felix Fischer, na discussão
lotes autorizadas pela Lei no 1.711 do tema quanto aos efeitos da decisão
formalizada por meio do Decreto – realização de novas eleições, assim
no 2.810 de 13.6.2006 e pela Lei concluiu seu voto:
no 1.716 formalizada por meio do
Decreto no 2.809 de 13 de julho de Por todo o exposto e consideran-
2006, fl. 687, anexo 143; e) 1.447 do estar demonstrado o abuso do
nomeações para cargos comissio- poder político, dou provimento ao
nados CAD, em desvio de finali- recurso para cassar os diplomas
dade, no período vedado (após 1o dos recorridos. Voto, ainda, para
de julho de 2006); f) concessão de que, nos termos do art. 224 do Có-
bens e serviços sem execução or- digo Eleitoral sejam realizadas no-
çamentária no ano anterior (fotos, vas eleições diretas, excluídos os
alimentos, cestas básicas, óculos, recorridos que deram causa à nu-
etc. em quantidades elevadíssi- lidade dos votos. Proponho que,
mas) em 16 municípios, até 29 de até a posse do novo governador, o
junho de 2006, por meio de ações presidente da Assembleia Legisla-
descentralizadas no Governo mais tiva permaneça interinamente na
perto de você. chefia do Poder Executivo.
15. Verificada a nulidade de mais É como voto.
de 50% dos votos, realizam-se no-
Do longo debate que se seguiu ao Re-
4
TSE. Pesquisa de Jurisprudência. RCED no 689. Acór- latório do Ministro Felix Fischer é que
dão de 25/06/2009. Informação disponível no ende- a Corte se definiu pela realização de
reço eletrônico: http://www.tse.gov.br/internet/juris-
prudencia/index.htm eleição indireta:

RELEITURA | jul./dez. 2011 103


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

Decisão: O Tribunal, por unani- Por 4 votos a 3, os desembarga-


midade, rejeitou as preliminares, dores do TRE (Tribunal Regional
proveu o recurso e determinou a Eleitoral) do Tocantins decidiram
realização de novas eleições, nos que caberá à Assembleia Legis-
termos do voto do Relator. Por lativa definir as regras da eleição
maioria, o Tribunal assentou que indireta no Estado, motivada pela
as novas eleições deverão ser re- cassação do governador Marcelo
alizadas indiretamente, nos ter- Miranda (PMDB) por abuso de po-
mos do voto do Ministro Ricardo der político no pleito de 2006.
Lewandowski. Vencidos os Minis-
Com a decisão, os 24 deputados
tros Felix Fischer e Carlos Ayres
terão, além do direito de serem os
Britto. Também por unanimidade,
únicos eleitores, a exclusividade
o Tribunal decidiu que a execução
no registro das chapas, conforme
da decisão se dará com o julga-
lei aprovada anteontem na As-
mento de eventuais embargos de
sembleia.
declaração.
O projeto, de autoria do gover-
Desde a decisão do TSE, a polêmica
nador interino Carlos Gaguim
que envolveu a cassação do manda-
(PMDB), torna nula a realização
to do governador eleito em 2006 no
de convenções partidárias. Os de-
Tocantins teve diversos outros desdo-
putados poderão inscrever qual-
bramentos. De junho até setembro,
quer brasileiro com mais de 30
o governador cassado apresentou
anos e sem pendência na Justiça
ao Supremo Tribunal Federal (STF)
Eleitoral.
uma Ação Cautelar (AC 2431) e pediu
a suspensão do trâmite dos recursos Alegando inconstitucionalidade,
contra sua cassação naquele Tribu- o procurador eleitoral do Estado
nal, até que o Supremo analisasse a João Gabriel de Queiroz afirmou
Arguição de Descumprimento de Pre- que vai estudar a possibilidade de
ceito Fundamental (ADPF 167). Esta encaminhar um recurso ao procu-
ação discutia a competência do TSE rador-geral da República, Roberto
para julgar, originariamente, pedidos Gurgel, para barrar a proposta.
de cassação de diplomas de manda-
Queiroz disse que iria basear seu
tos eletivos federais e estaduais. O
recurso em jurisprudência do STF
STF arquivou a Ação Cautelar e con-
(Supremo Tribunal Federal), se-
firmou as prerrogativas do TSE.
gundo a qual o mandato pertence
ao partido. De acordo com o pro-
Os ritos da eleição indireta também
curador, para realização de eleição
foram questionados pela Procurado-
seria necessária a convenção par-
ria Eleitoral do Estado junto ao Tribu-
tidária.
nal Regional Eleitoral (TRE), como foi
assim comentado:5
Em 12 de setembro de 2009. Disponível no seguinte
endereço eletrônico: http://www.noticiasdaamazo-
5
Tocantins TRE decide que Assembleia vai definir nia.com.br/10154-tocantins-tre-decide-que-assem-
regra de eleição indireta. Notícias da Amazônia.mht. bleia-vai-definir-regra-de-eleicao-indireta/

104 RELEITURA | ano 2 número 4


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

Até o momento apenas Gaguim contestando a segunda lei. O Su-


se apresentou como candidato e, premo, entretanto, decidiu extin-
conforme acordo firmado entre os guir a segunda ADI e deixar para
parlamentares, deverá ser o único julgar apenas o mérito da primei-
concorrente na disputa. ra, com o aditivo, por entender
que ambas contêm basicamente o
Constata-se a ausência de consen-
mesmo objeto e as mesmas alega-
so sobre questões básicas inerentes
ções.
a qualquer processo eleitoral. Em
ambiente confuso, a normatização O advogado de Tocantins pediu o
da eleição indireta enfrentou dificul- arquivamento da ADI 4.298, por
dades e foi causa de pendências ju- falta de objeto, já que a lei por ela
diciais, tal como consta da análise a atacada foi revogada, e a rejeição
seguir reproduzida:6 do pedido de liminar, taxando a
iniciativa do PSDB como tentativa
A Assembleia Legislativa de To- inócua de utilizar a ADI como su-
cantins aprovou a Lei Estadual cedâneo de recurso eleitoral já jul-
no 2.143, de 10 de setembro deste gado pelo TSE. Com informações
ano, que, por conter uma série de da Assessoria de Imprensa do STF.
inconstitucionalidades, foi ques-
Anteriormente, no próprio TSE houve
tionada pelo PSDB por meio da
debate se a eleição indireta deveria ou
ADI 4.298. Reconhecendo as fa-
não ser objeto de uma votação aber-
lhas, a mesma Assembleia votou
ta ou secreta. Na apreciação das ADI
nova lei, de número 2.154, datada
4.298 e ADI 4.309, ajuizadas pelo Par-
de 26 de setembro último, corri-
tido da Social Democracia Brasileira
gindo as ilegalidades.
(PSDB) em que pleiteava a declaração
Segundo o advogado do estado, a de inconstitucionalidade da Lei no
nova lei foi editada antes do ajui- 2.143/2009 e da Lei no 2.154/2009, do
zamento da primeira ADI do PSDB Estado do Tocantins, que dispõe sobre
e ocorreu após ampla consulta a eleição, pela Assembleia Legislativa,
prévia aos Ministérios Públicos para Governador e Vice-Governador
Federal e Estadual, ao presidente do Estado do Tocantins, na forma pre-
do Tribunal Regional Eleitoral de vista no § 5o do art. 39 da Constituição
Tocantins, ao Tribunal de Justiça Estadual, no STF houve a seguinte
do estado, ao TSE e até ao STF. discussão:7
A edição de nova lei levou o PSDB
No que respeita à questão de sa-
a encaminhar um aditamento ao
ber se a votação, na eleição indire-
STF e, em seguida, a protocolar
ta, deveria ser aberta ou fechada,
nova ADI, de número 4.309, esta
mencionando que a lei vigente
6
Supremo confirma eleição indireta em Tocantins.
Análise recolhida no site “Consultor Jurídico”. Dispo- 7
Superior Tribunal Eleitoral. Informativo do STF no
nível no seguinte endereço eletrônico: http://www. 562, disponível no endereço eletrônico: http://www.
conjur.com.br/2009-out-07/stf-confirma-eleicao- stf.jus.br//arquivo/informativo/documento/infor-
-indireta-aberta-governador-vice-tocantins. mativo562.htm

RELEITURA | jul./dez. 2011 105


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

teria adotado a aberta, apontou o tocando, ao legislador ordinário


relator orientação jurisprudencial estadual, a definição da modalida-
que declarara a constitucionalida- de da votação.
de do preceito de votação aberta.
Outro rito eleitoral decisivo foi objeto
Frisou, entretanto, que a questão
de questionamentos, inclusive pela
não se resolveria de todo no pla-
OAB em Tocantins. Tratava-se da atri-
no dos aspectos práticos da op-
buição ou prerrogativa de registrar as
ção legislativa aqui adotada, qual
chapas concorrentes no pleito indi-
seja, o voto aberto, por haver, sob
reto. A análise a seguir reproduzida
tal perspectiva, bons argumentos
é esclarecedora da intensidade desse
em favor de ambas as soluções
debate:8
teóricas. Esclareceu que, se a vo-
tação secreta subtrai ao eleitor, na
Em audiência nesta noite, em Bra-
condição de representado, a pos-
sília, o presidente do TSE (Tribu-
sibilidade de controlar as escolhas
nal Superior Eleitoral), ministro
dos representantes, facilita-o a vo-
Carlos Ayres Britto, afirmou ao
tação aberta, sobretudo quando
governador interino do Tocantins,
haja suspeita ou risco de acordos
Carlos Henrique Gaguim (PMDB),
obscuros de bastidores. Assina-
que a Assembleia Legislativa (AL)
lou que o princípio da publicida-
terá “autonomia” e “competência”
de, que é a regra das deliberações
para comandar o pleito indireto
parlamentares, também concorre
para a ideia de superioridade da no Estado para escolha do chefe
votação aberta, sobretudo quando do Executivo no chamado manda-
associada ao fato de que o cunho to tampão. As informações são da
secreto do voto é expediente pri- Secretaria de Comunicação (Se-
macial de tutela do cidadão como com) do governo tocantinense.
eleitor, não de seu representante, Britto ratificou a posição do TRE
cujo dever básico está em dar-lhe (Tribunal Regional Eleitoral) do
conta pública das suas posições no Tocantins, que definiu: não enviar
exercício da atividade parlamen- observador e atribuir à Assembleia
tar. No entanto, considerou cum- a regulamentação das regras do
prir não subestimar que o voto pleito. A Corte, no entanto, pode-
secreto compõe também o legado rá rever a decisão e participar do
de nosso histórico constitucional. pleito, como sugeriu até mesmo
Entendeu, porém, que, por guar- presidente do TSE há uma sema-
dar a coerência imprescindível à na. Nesta quinta, durante a audi-
segurança jurídica e à autoridade ência, Gaguim também reforçou
mesma das decisões da Corte, a
solução curial seria a consequên- 8
TSE garante à Assembleia autonomia e competên-
cia retilínea do juízo de inaplicabi- cia para comandar eleição indireta. Em www.portalct.
com.br. Em 24 de setembro de 2009. A informação foi
lidade da regra da simetria e da re- obtida no endereço eletrônico: http://www.portalct.
afirmação da autonomia política com.br/n/4535a4271f606359ffb8a6d04af5eb2d/tse-
-assembleia-tem-autonomia-e-competencia-para-
dos Estados-membros na matéria, -ge/

106 RELEITURA | ano 2 número 4


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

a necessidade da participação do outubro de 2009, o Estado do Tocan-


TRE no processo eleitoral. No en- tins atravessou um período de transi-
tanto, a nova orientação de Britto, ção de governo em ambiente confuso
na prática, dá ao Parlamento to- em função da inexistência de normas
cantinense amplos poderes para claras e definitivas de como deveria
gerir a eleição, como decidiu o ser procedida uma eleição indireta.
plenário do TRE.
A lei estadual 2.143/09, que anu-
1.2. A eleição indireta no
la convenções partidárias e dá ao
deputado o direito de registrar as Distrito Federal
chapas concorrentes, questiona-
Em 27 de novembro de 2009, a Polícia
da e que poderia até mesmo ser
Federal executou a Operação Caixa
revogada, como admitiu até o pre-
de Pandora, com o cumprimento de
sidente em exercício da AL, Júnior
mandados de busca e apreensão na
Coimbra (PMDB), ganhou força.
residência oficial do governador José
A proposta do Executivo foi alvo Roberto Arruda, em secretarias do
de recurso movido pela Procura- governo e em gabinetes de deputados
doria Regional Eleitoral (PRE) por na Câmara Legislativa. Segundo as
considerá-la inconstitucional. A informações divulgadas na Imprensa,
PRE encaminhou ao procurador- Arruda comandava uma rede de pa-
-geral da República, Roberto Gur- gamentos a parlamentares do Distri-
gel, parecer por uma ADI (Ação to Federal, com dinheiro oriundo de
Direta de Inconstitucionalidade) empresas que faziam negócios com o
para anular a iniciativa. A OAB governo.
(Ordem dos Advogados do Brasil)
do Tocantins, por exemplo, reco- As denúncias atingiram diversos se-
mendou que a direção nacional cretários, um ministro do Tribunal
da entidade fizesse o mesmo. En- de Contas do DF, muitos deputados
tretanto, o PSDB foi ao Supremo distritais e o vice-governador, Paulo
Tribunal Federal (STF). Octávio. No dia 10 de dezembro de
2009, Arruda anuncia sua desfilia-
Da análise das informações dispo- ção do Partido Democratas (DEM) e
níveis sobre o processo de cassação também que não será mais candida-
e substituição do governador do To- to à reeleição e nem disputará mais
cantins, constata-se uma imensa per- nenhuma eleição. Tecnicamente, não
da de energia e tempo por institui- haveria tempo hábil de disputar car-
ções importantes como o STF, o TSE, go algum em 2010, já que os prazos
o TRE-TO e a Assembleia Legislativa, para filiação a outro partido haviam
a qual teve de aprovar, em regime de se esgotado.
urgência, duas leis e uma resolução
para regulamentar a realização da No dia 12 de janeiro de 2010, o Su-
eleição indireta. Em decorrência des- perior Tribunal de Justiça (STJ) au-
se quadro de incertezas, de junho a torizou a quebra de sigilos bancário

RELEITURA | jul./dez. 2011 107


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

e fiscal do governador do Distrito À exceção da preliminar de falta


Federal, José Roberto Arruda. No dia de interesse de agir, que foi exa-
11 de fevereiro de 2010, numa deci- minada com o mérito, as demais
são do Superior Tribunal de Justiça, o foram rejeitadas à unanimidade.
governador José Roberto Arruda teve O relator julgou procedente a ação
decretada sua prisão preventiva, jun- para decretar a perda do cargo
to a mais cinco pessoas, com o obje- eletivo por desfiliação partidária
tivo da preservação da ordem pública do Governador José Roberto Ar-
e da instrução criminal. O motivo da ruda, no que foi acompanhado
prisão preventiva foi sua suposta par- pelo Juiz Raul Sabóia e pelo Juiz
ticipação na tentativa de suborno do João Egmont. O Juiz Evandro Per-
jornalista Edson Sombra, testemunha tence abriu divergência, julgando
do caso de corrupção em investigação improcedente o pedido, no que
pela Polícia Federal por determina- foi acompanhado pelo Desembar-
ção do Ministério Público Federal. Foi gador Cândido Ribeiro e pelo Juiz
o primeiro caso na história do Brasil Antoninho Lopes. Desempatou
que um governador teve sua prisão o presidente em exercício, acom-
decretada, ainda que preventiva. panhando o voto do relator, para
julgar procedente o pedido, decre-
Com a prisão do governador eleito tando a perda do cargo do gover-
pelo voto popular, assumiu o Gover- nador JOSÉ ROBERTO ARRUDA,
no do Distrito Federal o Vice Paulo por infidelidade partidária.
Octávio. No dia 23 de fevereiro, por O processo de cassação do Governa-
não conseguir apoio político dos de- dor José Roberto Arruda teve origem
putados distritais, o governador in- em seu pedido de desfiliação de seu
terino do Distrito Federal enviou à Partido Democratas em 10 de de-
Câmara Legislativa do Distrito Fede- zembro de 2009. Nas palavras do Re-
ral um pedido de renúncia ao cargo. lator da Ação de Perda de Mandato,
No mesmo dia, ele encaminhou ao de iniciativa do Ministério Público,
DEM sua desfiliação ao partido. Com apresentam-se a seguir duas consi-
sua saída, o cargo de governador foi derações básicas para a compreensão
ocupado pelo Presidente da Câmara deste caso de cassação:10
Legislativa, Deputado Wilson Lima.
Assim, durante o mês de fevereiro de De acordo com o parágrafo único
2010, o Distrito Federal teve três pes- do artigo 21 da Lei no 9.096/1995,
soas ocupando o cargo mais impor- somente decorridos dois dias
tante do Poder Executivo. da data da entrega do pedido de
desfiliação é que o vínculo torna-
Em 18 de março de 2010, o Tribunal -se extinto, para todos os efeitos.
Regional Eleitoral do Distrito Federal É necessária, para a desfiliação, a
(TRE-DF) tomou a seguinte decisão:9 dupla comunicação: ao partido e

9
Acórdão no 2.885 do TRE-DF, publicado no Diário da 10
Acórdão no 2.885 do TRE-DF, publicado no Diário
Justiça Eletrônico de 18 de março de 2010, fls. 1/2. da Justiça Eletrônico de 18 de março de 2010, fls. 1/2.

108 RELEITURA | ano 2 número 4


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

ao juízo eleitoral. Da última comu- te a utilidade da demanda, inclusi-


nicação decorrem os dois dias. Na ve em respeito à vontade do eleitor.
espécie, malgrado feita a comuni-
A partir dessa decisão judicial, ini-
cação ao partido em 10/12/2009,
ciou-se o processo de eleição indireta
a endereçada à Justiça Eleitoral
no Distrito Federal, que assim como
apenas se realizou em 15/12/2009.
ocorreu no Tocantins, foi tortuoso em
Extinto o vínculo dois dias depois,
função de normas equivocadas e do
ou seja, em 17/12/2009, o prazo de
trinta dias do partido só expirou fato de que as denúncias que deram
em 16/01/2010, enquanto que o origem ao afastamento do governa-
do Ministério Público apenas fin- dor eleito em 2006 também atingiram
daria em 15/02/2010. O Ministério os Poderes Legislativo e Judiciário.
Público ingressou com a ação em
09/02/2010, muito antes de escoar Os problemas para a realização da
o prazo. Preliminar de decadência eleição indireta no Distrito Federal ti-
que se rejeita. veram início no tratamento equivoca-
do na Lei Orgânica da substituição do
.......................................................... governador e vice-governador no caso
A filiação partidária não é apenas de vacância em definitivo. Pela Lei Or-
uma condição de elegibilidade, gânica do Distrito Federal, a substitui-
mas também uma condição para ção deveria ocorrer por uma linha su-
o exercício do mandato. Porque o cessória, que passa pelo presidente da
eleitor elege o candidato, no sis- Câmara Legislativa, vice-presidente
tema majoritário, para honrar de- da Câmara Legislativa e chega ao pre-
terminado programa, do partido a sidente do Tribunal de Justiça.
que se filiou para concorrer, é na-
tural a perda do direito ao exercí- A Procuradoria da Câmara Legislativa
cio do mandato quando o eleito se emitiu um parecer recomendando à
afastar do compromisso assumido, Casa seguir o que manda a Constitui-
deixando a sua agremiação políti- ção Federal no caso de vacância dos
ca, abandonando a diretriz progra- cargos de governador e vice-gover-
mática a que jurou fidelidade. Isso, nador. Assim, o marco jurídico para
independentemente, de haver vice realização da eleição indireta que es-
que possa ser empossado no seu colheria o sucessor de José Roberto
lugar. Uma vez acolhido o pedido, Arruda no governo do Distrito Fede-
não havendo vice-governador, que ral foi acertado, em 29 de março, pela
renunciou, vagos então os dois Câmara Legislativa. Os deputados
cargos, incide por simetria o artigo distritais aprovaram, por unanimida-
81 da Constituição Federal, deter- de, alteração na Lei Orgânica do DF
minando-se, de acordo com seu para compatibilizá-la com a Consti-
§ 1o, eleição indireta pela Câmara tuição Federal.
Legislativa do Distrito Federal para
o cargo de Governador e para o Com a alteração, os dois textos são
cargo de Vice-Governador. Eviden- iguais quando dizem que, caso o go-

RELEITURA | jul./dez. 2011 109


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

vernador e o vice-governador eleitos cadação e distribuição de propina no


renunciem aos cargos ou sejam im- governo do Distrito Federal apontam
pedidos de exercê-los nos dois últi- o envolvimento de mais de 26 deputa-
mos anos de mandato, o Legislativo dos – entre titulares e suplentes – nas
deve escolher os novos chefes do Exe- fraudes. No documento, a PGR afirma
cutivo. Com esse novo marco legal, que a intervenção bastaria até a pos-
a eleição indireta foi marcada para o se dos novos deputados eleitos, em 1o
dia 17 de abril. de janeiro de 2011 – período em que,
espera-se, ocorra uma renovação dos
Mas o mencionado ajuste não eli- mandatos distritais.
minou as dificuldades, pois o Procu-
rador-Geral da República, Roberto Essa ameaça de intervenção federal
Gurgel, voltou a defender a interven- pairou ao longo de todo o processo
ção federal no Governo do Distrito de eleição e posse do novo governa-
Federal, que a Procuradoria-Geral dor. Somente em 30 de junho de 2010,
da República havia protocolado em essa situação foi superada, pois o STF
fevereiro no Supremo Tribunal Fede- adotou a seguinte decisão:11
ral (Intervenção Federal no DF – IF
5179). Gurgel questionou o colegiado O Tribunal, por maioria, julgou im-
que irá eleger indiretamente o novo procedente pedido de intervenção
governador e afirmou que as eleições federal no Distrito Federal, formu-
indiretas foram uma adaptação de úl- lado pelo Procurador-Geral da Re-
tima hora na Lei Orgânica do Distrito pública, por alegada violação aos
Federal. princípios republicano e demo-
crático, bem como ao sistema re-
Na verdade, preocupava ao Minis- presentativo (CF, art. 34, II, a ). Na
tério Público a realização da eleição espécie, o pedido de intervenção
indireta por um colégio eleitoral em federal teria como causa petendi,
que grande parte dos parlamentares em suma, a alegação da existên-
estava envolvida no esquema crimi- cia de esquema de corrupção que
noso que dominava o Distrito Federal envolveria o ex-governador do DF,
e levou à prisão e ao afastamento o alguns Deputados Distritais e su-
governador eleito pelo voto popular plentes, investigados pelo STJ, e
em 2006. cujo concerto estaria promovendo
a desmoralização das instituições
A realização da eleição indireta ficou públicas e comprometendo a hi-
pendente de diversas ações no STF gidez do Estado Federal. Tais fatos
de iniciativa do Ministério Público. A revelariam conspícua crise institu-
PGR encaminhou ao STF parecer em cional hábil a colocar em risco as
que justificava as razões para que seu atribuições político-constitucio-
pedido de intervenção no Distrito Fe- nais dos Poderes Executivo e Le-
deral incluísse, também, o Legislativo gislativo e provocar instabilidade
local. Segundo o parecer, as investi-
11
Supremo Tribunal Federal. Informativo no 593, do
gações do suposto esquema de arre- STF.

110 RELEITURA | ano 2 número 4


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

da ordem constitucional brasilei- tação interventiva teria sido con-


ra. Preliminarmente, a Corte, por trolada por outros mecanismos
maioria, rejeitou requerimento do institucionais, menos agressivos
Procurador-Geral da República no ao organismo distrital, revelando
sentido de adiar o julgamento da a desnecessidade de se recorrer,
causa para a primeira data do mês neste momento, ao antídoto ex-
de agosto em que a Corte estivesse tremo da intervenção, debaixo do
com sua composição plena. Ao sa- pretexto de salvar o ente público.
lientar a ansiedade da população Vencido o Min. Ayres Britto que
por uma resposta pronta da Corte julgava o pedido procedente.
quanto ao pedido de intervenção
e a proximidade do início formal Além da intervenção federal, o Minis-
do período eleitoral, reputou-se tério Público pediu ao TJ – DF, dois
estar-se diante de questão impor- dias antes da data marcada para a
tante que demandaria decisão o realização da eleição, a suspensão da
mais célere possível. Vencidos, no eleição indireta para governador do
ponto, os Ministros Marco Aurélio Distrito Federal. O MP alegava que a
e Celso de Mello que deferiam o Mesa Diretora da Câmara Legislativa
adiamento, por considerarem que não teria autonomia para estabelecer
a análise da matéria recomendaria as regras da eleição. O Ministério Pú-
a presença do quórum completo blico afirmava que a Câmara deveria,
dos integrantes do Tribunal. primeiro, ter alterado a Lei Orgânica
para compatibilizá-la com a Consti-
.......................................................... tuição Federal para regulamentar a
No mérito, entendeu-se que o per- eleição indireta e, depois, agendar o
fil do momento político-adminis- pleito e ditar as regras. Mas, ocorreu
trativo do Distrito Federal já não o inverso na Câmara Legislativa. Pri-
autorizaria a decretação de inter- meiro a eleição foi marcada, e depois
venção federal, a qual se revelaria, a Lei Orgânica foi alterada.
agora, inadmissível perante a dis-
solução do quadro que se preor- No entanto, o juiz Mário José de As-
denaria a remediar. Asseverou-se sis Pegado entendeu que não houve
que, desde a revelação dos fatos, ilegalidade na convocação do pleito.
os diversos Poderes e instituições Ele argumentou que a crise institu-
públicas competentes teriam de- cional vivida pelo DF pede uma ação
sencadeado, no desempenho de enérgica dos Poderes Constituídos, a
suas atribuições constitucionais, fim de normalizar as atividades ad-
ações adequadas para por fim à ministrativas. No despacho que nega
crise decorrente de um esquema a liminar, o juiz Assis Pegado também
sorrateiro de corrupção no Dis- observa que o Ministério Público so-
trito Federal. Observou-se, assim, mente apresentou a ação dois dias
que os fatos recentes não deixa- antes da eleição, sendo que o plei-
riam dúvida de que a metástase da to estava marcado desde o dia 23 de
corrupção anunciada na represen- março. O que ocorre no caso é que a

RELEITURA | jul./dez. 2011 111


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

grave crise institucional que paira so- pelos deputados distritais integrantes
bre o Distrito Federal demanda uma da Mesa Diretora da Câmara Legis-
atuação enérgica dos Poderes Cons- lativa do Distrito Federal, que após
tituídos, visando a normalidade das regulamentarem as normas para a
atividades administrativas e legislati- eleição indireta de governador e vice-
vas, afirma o juiz.12 -governador do DF voltaram atrás e
com propósitos alheios aos do povo
Na véspera da eleição, o ministro flexibilizaram as regras eleitorais,
Celso de Mello, do Supremo Tribunal desrespeitando a legislação eleitoral
Federal (STF), determinou o arqui- vigente. Para ele, não se pode aceitar
vamento de Ação Popular, autuada a deputados envolvidos em escân-
na Corte como Ação Cautelar (AC) dalos de corrupção o direito de votar
2596, proposta por um advogado de na eleição indireta para governador
Brasília contra a eleição indireta para e vice-governador do DF. Com esses
governador e vice-governador do Dis- argumentos, pedia a anulação dos
trito Federal. atos administrativos de que tratam a
eleição.
A eleição estava marcada para dia
seguinte e o advogado pretendia De acordo com o ministro Celso de
suspendê-la porque ela, segundo Mello, a jurisprudência da Corte é
ele, desrespeitava os prazos estabe- clara no sentido de que não compete
lecidos pela legislação eleitoral. Isso ao Supremo processar e julgar ações
porque a lei exige que os candidatos populares, mesmo quando ajuizadas
a cargos eletivos estejam vinculados contra as altas autoridades da Re-
a partidos políticos com pelo menos pública. O ministro Celso de Mello
um ano de antecedência em relação esclareceu em sua decisão que cabe
à disputa, regra criada para preser- ao juiz de primeiro grau de cada ju-
var o princípio da fidelidade partidá- risdição julgar as ações populares.
ria. Além disso, outra norma diz que Por esse motivo, negou seguimento a
políticos com intenção de concorrer ação e determinou seu arquivamento.
devem deixar os cargos no Executivo
pelo menos seis meses antes do plei- A eleição indireta para governador do
to, regra que teria por objetivo evitar Distrito Federal foi realizada enquan-
o uso da máquina pública em defesa to seguia tramitando no STF o pedi-
das candidaturas. do de Intervenção Federal (IF 5179)
apresentado pelo Procurador-Geral
O autor da ação afirmou que os ci- da República, Roberto Gurgel, em fe-
dadãos brasilienses estão perplexos vereiro deste ano. No pedido, Roberto
com os equívocos legais praticados Gurgel fazia um histórico do escân-
dalo de corrupção no Distrito Federal
12
TJ decide manter eleição indireta no Distrito Fede- desde o ano de 2009, com investiga-
ral. Diário do Grande ABC. Em 22 de março de 2010.
Informação divulgada no seguinte endereço eletrô-
ções relativas a crimes como fraude a
nico: http://www.dgabc.com.br/News/5805568/tj- procedimentos licitatórios, formação
-decide-manter-eleicao-indireta-no-distrito-federal.
aspx de quadrilha e desvio de verbas pú-

112 RELEITURA | ano 2 número 4


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

blicas. Ele apontava episódios como da Câmara Distrital, deputado Cabo


a deflagração da operação Caixa de Patrício (PT).
Pandora no dia 27 de novembro do
ano passado e o pedido de impeach- Em 17 de abril de 2010, o ex-secretá-
ment do governador e de afastamento rio de Desenvolvimento Econômico
dos deputados distritais envolvidos do Distrito Federal na administração
pela Ordem dos Advogados do Brasil. do governador e do vice-governador
afastados, Rogério Rosso (PMDB) foi
Na semana em que seria realizada a eleito novo governador do DF. O pe-
eleição, a Mesa Diretora da Câmara emedebista conseguiu obter 13 votos
Legislativa flexibilizou as regras da dos integrantes da Câmara Legislati-
eleição permitindo a participação dos va e acabou eleito em primeiro tur-
candidatos que tivessem apenas seis no – já que teve o apoio de mais da
meses de filiação partidária – e não metade dos 24 deputados distritais.
mais um ano – e dispensou a exigên- O escolhido comandará o governo do
cia de que os postulantes não tives- DF até o fim do ano de 2010.
sem ocupado cargos públicos há pelo
menos seis meses. Das seis chapas Em síntese, o processo de eleição in-
inscritas, quatro seriam impugnadas direta no Distrito Federal, assim como
se não tivesse havido essa flexibiliza- havia sido no Tocantins, foi marcado
ção. Mesmo assim, foram impugna- por grande desperdício de energia e
das duas chapas inscritas para eleição tempo das mais importantes insti-
indireta ao governo distrital. tuições do País. Ficou evidente que a
lacuna na normatização do art. 81 da
Esse exercício de flexibilização tor- CF tem contribuído para a criação de
nou-se necessário, pois no primeiro um quadro de insegurança jurídica e
prazo dado para inscrição das chapas, institucional, como foi constatado no
dez coligações apresentaram candi- Tocantins e no Distrito Federal.
datos, mas todos os partidos apresen-
taram irregularidades, que somente Esse vácuo normativo e suas conse-
foram corrigidas mediante a flexibi- quências caracterizam o contexto
lização das normas. A flexibilização atual do tema da eleição indireta dos
foi feita mediante acordo, de modo mandatários do poder executivo nos
que qualquer chapa que estivesse três níveis de governo pelo respectivo
em situação regular para atender aos poder legislativo, ou seja, as câmaras
requisitos de participação na eleição municipais, as assembleias legislati-
de outubro de 2010 poderia concor- vas e o Congresso Nacional, quando a
rer ao mandato-tampão de governa- vacância em definitivo desses cargos
dor. A eleição indireta é uma situação ocorre na segunda metade dos man-
nova, que ninguém tinha como prever. datos para os quais foram eleitos pelo
Consultamos o Ministério Público, o voto popular.
Tribunal Regional Eleitoral e a Procu-
radoria da Câmara e decidimos flexi- Caso houvesse a normatização da
bilizar as regras, afirmou o presidente eleição indireta no plano federal, os

RELEITURA | jul./dez. 2011 113


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

demais níveis de governo teriam um concretos para os desdobramentos


paradigma a ser seguido e, certamen- futuros visando à superação do vácuo
te, não haveria tanta insegurança jurí- normativo apontado.
dica e desperdício de tempo e energia
como constatado nos recentes casos
de afastamento de governadores na 2.1. O Problema em Estudo
segunda metade de seus mandatos
eletivos. Este estudo trata de um tema ador-
mecido no texto constitucional, mas
que tem causado problemas institu-
2. A Eleição Indireta do cionais onde já foi suscitado, como
Presidente da República visto no capítulo anterior. No plano
federal, um dia poderá causar uma
pelo Congresso Nacional grande polêmica na vida nacional,
pois carece de normatização a eleição
Este capítulo se inicia com a apre-
indireta de Presidente da República
sentação de uma resenha histórica
no caso de impedimento previsto no
do problema em estudo. Em seguida,
dispositivo constitucional a seguir
são avaliados os principais aspectos
apresentado:
de uma eventual eleição indireta do
Presidente da República mediante a Art. 81. Vagando os cargos de Pre-
análise das principais sistemáticas de sidente e Vice-Presidente da Repú-
funcionamento do Poder Legislativo blica, far-se-á eleição noventa dias
Federal. depois de aberta a última vaga.
A análise do tema segue com a apre- § 1o Ocorrendo a vacância nos úl-
sentação: (i) do marco normativo vi- timos dois anos do período presi-
gente, (ii) das iniciativas legislativas dencial, a eleição para ambos os
em tramitação cujo objetivo é a nor- cargos será feita trinta dias depois
matização da eleição indireta e (iii) da última vaga, pelo Congresso
do tratamento dado pela doutrina à Nacional, na forma da lei.
questão da eleição indireta.
§ 2o Em qualquer dos casos, os
eleitos deverão completar o perío-
Como fecho, encerra-se o capítulo
do de seus antecessores.
com a revisão crítica das perspectivas
para a eventual realização, no futuro, O tema é polêmico, difícil de ser tra-
de uma eleição indireta para Presi- tado, mas corresponde a uma grave
dente da República. lacuna na normatização da vida na-
cional que, no futuro, poderá gerar
Em síntese, esse capítulo apresenta situações de impasse político. No
as premissas e os fundamentos para plano federal, a probabilidade é bem
a proposição das minutas do projeto pequena; no entanto, entre os 5.564
de lei e de sua justificação, no tercei- prefeitos municipais é muito comum
ro e último capítulo, como subsídios o afastamento definitivo dos chefes

114 RELEITURA | ano 2 número 4


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

do poder executivo por motivos não- venção do Supremo Tribunal Federal


-eleitorais, como morte, condenação, em substituição ao Congresso Nacio-
eleição para outro cargo ou renúncia. nal, cuja inanição, mais uma vez, teria
No plano estadual, os exemplos apre- criado o espaço para a prática do ati-
sentados no capítulo anterior são vismo legiferante do Poder Judiciário.
ilustrativos da insegurança jurídica e Nessa eventualidade, o conflito seria
institucional decorrente da falta da lei entre o Supremo Tribunal Federal e o
prevista no art. 81 da CF. Senado Federal, como se procura de-
monstrar neste trabalho.
No plano federal, como só há um Pre-
sidente e um Vice-Presidente, o de-
bate sobre o tema acaba fulanizando 2.2. A eleição indireta na
a questão, o que não ocorreria caso evolução histórica do país
o ditame constitucional se aplicasse
apenas aos 27 governadores estadu- A prática da eleição indireta não é
ais e aos 5.564 prefeitos municipais. estranha à nossa história política.
Sempre é passível de reprimenda a No entanto, houve muitas modifica-
discussão desse tema, pois abre a ções quanto a uma questão básica:
possibilidade de ser tomada como a constituição do corpo de eleitores
uma atitude de mau agouro. responsáveis pelo processo de eleição
indireta. Ao longo de nossa história
Mas é de difícil compreensão a acei- política houve alternância entre dois
tação do vácuo nas normas políticas modelos: eleição indireta pelo Con-
para a eleição emergencial dos pri- gresso Nacional (deputados federais
meiros mandatários da Nação, pois, e senadores) e eleição indireta por
certamente, uma situação caótica um Colégio Eleitoral, com a adição de
poderia vir a ocorrer se, de repente, o representantes das assembleias legis-
País tivesse de eleger, dentro do prazo lativas estaduais.
de apenas 30 dias, os sucessores para
completar o mandato presidencial. Para este trabalho, considera-se
Não há dúvida de que haveria imensa como sendo similares ao caso de elei-
dificuldade política para o Congresso ção indireta pelo Congresso Nacional
Nacional eleger, indiretamente e no dois casos que apresentam certa se-
curto prazo de 30 dias, os sucessores melhança: a eleição indireta de Getú-
para personagens centrais de nosso lio Vargas, em 1934, pela Assembleia
sistema político atual. Nacional Constituinte, e a norma per-
manente para a eleição indireta pela
Como já mencionado na Introdução, Câmara dos Deputados e pelo Senado
este trabalho procura avaliar e carac- Federal, conforme previsto no § 3o do
terizar os ingredientes que tornam a art. 52 da CF de 1934, caso a vacância
ausência de normatização do art. 81 do cargo de Presidente da República
uma atitude imprevidente e inaceitá- se desse nos dois últimos anos do pe-
vel, porta aberta à grave crise institu- ríodo ou mandato presidencial. Nes-
cional e anúncio antecipado de inter- tes dois casos, o corpo de eleitores era

RELEITURA | jul./dez. 2011 115


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

restrito aos membros do Congresso nal com base na Lei no 4.321, de 7 de


Nacional, o que não se passa quan- abril de 1964, e o último por força do
do se trata de colégio eleitoral, que disposto no Ato Institucional no 16, de
incorpora representantes das assem- 14 de outubro de 1969.
bleias legislativas estaduais.
Dois presidentes da República no pe-
Ao longo da história republicana, fo- ríodo militar (Ernesto Geisel e João
ram eleitos indiretamente os seguin- Baptista de Oliveira Figueiredo) e o
tes Presidentes da República: os dois Presidente Tancredo Neves e seu Vi-
primeiros mandatários da nossa Re- ce-Presidente José Sarney foram elei-
pública (Marechal Deodoro da Fon- tos indiretamente, mas por colégios
seca e Marechal Floriano Peixoto), eleitorais.
Getúlio Vargas (de acordo com o art.
1o das Disposições Transitórias da CF O colégio eleitoral é estabelecido
de 1934), e os seguintes presidentes como responsável pela eleição indi-
do período militar: Humberto Castelo reta do Presidente da República na
Branco, Arthur da Costa e Silva, Emí- CF de 1937 e na CF de 1967, marcos
lio Garrastazu Médici e João Baptista constitucionais que se caracterizam
de Oliveira Figueiredo. Em 1984, na por origem autoritária. Enquanto
transição para a democracia plena, isso, marcos constitucionais de ori-
houve a eleição indireta de Tancredo gem democrática, como as constitui-
Neves. ções de 1934, 1946 e 1988, optaram
por delegar ao Congresso Nacional a
Com base na Revolução de 1930, tarefa de eleger alguém para comple-
Getúlio Vargas foi empossado como tar o mandato presidencial interrom-
Chefe do Governo Provisório, mas foi pido por vacância do cargo.
formalmente eleito de forma indire-
ta pela Assembleia Nacional Consti- Uma exceção à caracterização acima
tuinte, que acabava de promulgar a é a norma de natureza emergencial
Constituição de 1934. Situação opos- que, nos governos militares, foi uti-
ta ocorreu em 1937, quando deu um lizada para eleger no Congresso Na-
golpe de Estado e decretou uma nova cional os presidentes Castelo Branco
Constituição que prorrogou seu perí- e Garrastazu Médici. A primeira elei-
odo presidencial. Assim, governou o ção, logo após vitória do movimento
País de 1930 a 1945. militar, foi feita com o respaldo da Lei
4.321/64 e a segunda, após a doen-
O mesmo tipo de eleição indireta pelo ça do então Presidente Costa e Silva,
Congresso Nacional aconteceu com o com o respaldo do Ato Institucional
General Humberto Castelo Branco, no 16, de 1969. A seguir, são comen-
em 1964, com o General Arthur da tados esses dois momentos da vida
Costa e Silva, em 1966, e com o Ge- política nacional.
neral Emílio Garrastazu Médici, em
1969. Os dois primeiros mandatários A situação especial que antecedeu a
foram eleitos pelo Congresso Nacio- sanção da Lei no 4.321, de 1964, foi

116 RELEITURA | ano 2 número 4


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

assim comentada por Luiz Alexandre agosto de 1969, Costa e Silva sofreu
Kikuchi Negrão:13 uma trombose cerebral e foi afasta-
do do cargo, sendo substituído por
Derrubou o Presidente da Repú- uma Junta Militar. Neste contexto,
blica a Revolução de 31/03/1964 Médici foi eleito indiretamente pelo
pelas tropas do Comando da IV Congresso Nacional com base no dis-
Região Militar chefiado pelo Ge- posto no Ato Institucional no 16, de 14
neral Olympio Mourão Filho, entre de outubro de 1969. O Congresso Na-
outros setores das Forças Armadas cional estava fechado desde a edição
do Supremo Comando da Revolu- do Ato Institucional no 5 (AI-5), em
ção com suporte de políticos da 13 de dezembro de 1968. Com a do-
oposição e setores da comunidade. ença e posterior afastamento do Pre-
Na madrugada de 02/04, enquan- sidente Costa e Silva, a Câmara dos
to João Goulart ia do Rio de Janei- Deputados e o Senado Federal foram
ro a Porto Alegre para obter apoio reabertos para eleger o novo Presi-
popular junto ao Governo Estadu- dente e Vice-Presidente da República,
al de Leonel Brizola, o Presidente a 22 de outubro de 1969. Definida a
do Senado Federal Auro de Moura preferência nos meios militares pelo
Andrade declara vaga a Presidên- General Emílio Garrastazu Médici,
cia da República e empossa o Pre- o Congresso Nacional referendou o
sidente da Câmara dos Deputados nome de Médici e de seu vice Augus-
como novo Chefe do Governo Pro- to Rademaker, sem a participação da
visório. Em 06/04 o Projeto de lei
Oposição.
no 15 do Senador Eurico Rezende é
apresentado, recebe 3 emendas, é Comentadas as duas exceções à
aprovado com as emendas, recebe constatação de que, em geral, mar-
parecer favorável, é aprovado pela
cos constitucionais democráticos
Comissão de Constituição e Justiça
prescrevem a eleição indireta pelo
do Senado e é remetido à Câmara
Congresso Nacional e que o formato
dos Deputados. Em 07/04 sob o no
de Colégio Eleitoral foi utilizado em
1902/64, o Projeto de lei é apro-
marcos constitucionais de índole au-
vado pela Câmara dos Deputados
toritária, cabe analisar como a eleição
com a redação dada pelo Senado,
indireta se situaria dentro do atual
é sancionado por Ranieri Mazzilli
modelo de funcionamento do Poder
já sob o status da Lei no 4.321, de
Legislativo Federal.
1964 (publicada no dia seguinte).
A eleição do General Emílio Garrasta-
zu Médici, em outubro de 1969, deu- 2.3. A eleição indireta e o
-se em clima muito tenso e em grave funcionamento do Congresso
momento da vida nacional, pois, em
Nacional
13
NEGRÃO, Luiz Alexandre Kikuchi, Eleição Indireta
para Presidente da República, Governador e Prefeito, Cabe apontar os três padrões de fun-
in Doutrina Jus Navegandi, disponível no endereço:
http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=8420 cionamento do Congresso Nacional:

RELEITURA | jul./dez. 2011 117


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

a) o mais usual, o sistema de casa Das três situações de natureza excep-


de origem – casa revisora; cional acima mencionadas, o presen-
b) a tramitação das Propostas de te estudo se dedica, com exclusivida-
de, à proposta de normatização da
Emendas à Constituição; e
situação inusitada de eleição indireta
c) o funcionamento conjunto das no marco constitucional vigente. Isto
duas Casas na forma do Regimento por que a questão do julgamento do
Comum. Presidente por crime de responsabi-
Antes de comentar as três sistemáti- lidade foi objeto de uma experiência
cas usuais de funcionamento, é opor- concreta no atual marco constitucio-
tuno indicar que há a previsão cons- nal – quando o Congresso Nacional
titucional de três situações de caráter cumpriu com eficácia suas atribui-
excepcional para o eventual exercício ções – e a questão da revisão cons-
das atribuições do Poder Legislativo titucional, com funcionamento do
Federal: Congresso Nacional em sessão unica-
meral, constituiu um evento histórico
único, sem previsão de repetição.
a) o processo e julgamento dos cri-
mes de responsabilidade eventual-
mente cometidos pelo Presidente da 2.3.1. O Binômio Casa de
República, quando há uma clara di-
Origem – Casa Revisora
visão de atribuições, cabendo à Câ-
mara dos Deputados, com a aprova- Todo o processo legislativo é subordi-
ção de dois terços de seus membros, nado ao binômio casa de origem – casa
a admissão da acusação, e cabendo revisora, com exceção das propostas
ao Senado Federal o julgamento, de emenda à Constituição e das pro-
nos termos dos arts. 85 e 86; posições que dependem da aprovação
b) a realização da revisão constitu- pelo Congresso Nacional, em sessão
cional, após cinco anos, contados conjunta, como é o caso da apreciação
da promulgação da Constituição, dos vetos presidenciais e dos projetos
pelo voto da maioria absoluta dos de lei referentes ao orçamento anual e
membros do Congresso Nacional, ao plano plurianual de aplicações.
em sessão unicameral, tal como
prevista no art. 3o do ADCT; e Em função do estabelecido no art. 64
da CF, a Câmara dos Deputados de-
c) a eleição indireta pelo Congresso tém a decisiva função de casa de ori-
Nacional do Presidente e do Vice- gem para as principais iniciativas do
-Presidente da República, quando processo legislativo:
vagos os dois cargos nos últimos
dois anos do período presidencial, Art. 64. A discussão e votação dos
sendo a eleição feita até trinta dias projetos de lei de iniciativa do Pre-
depois da última vaga e cabendo sidente da República, do Supremo
aos eleitos completar o período de Tribunal Federal e dos Tribunais
seus antecessores, na forma previs- Superiores terão início na Câmara
ta no já mencionado art. 81. dos Deputados.

118 RELEITURA | ano 2 número 4


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

O procedimento acima mencionado tem sido no sentido de que é possí-


também se aplica às propostas de vel que texto contido nessa espécie
emenda à Constituição (PEC) de ini- de proposição se transforme em
ciativa do Poder Executivo e às me- diploma legal sem ter sido apro-
didas provisórias. Ao Senado Fede- vado expressamente por uma das
ral, normalmente, cabe a função de Casas. Por exemplo, determinado
casa revisora, o que, quase sempre, projeto de lei é aprovado na Câma-
é realizado sob forte pressão quanto ra dos Deputados, vai ao Senado
a prazos e a diversos fatores políti- e tem alguns artigos alterados na
cos. Ademais, por causa do princípio Casa revisora, retorna à Casa ini-
constitucional citado, a função desta- ciadora (art. 65, parágrafo único da
cada para o Senado Federal é de me- CF) que, por sua vez, decide man-
nor relevância que aquela destinada à ter o texto original dos artigos que
Câmara dos Deputados. O Consultor o Senado alterou e encaminha a
Legislativo Fernando Trindade se re- proposição ao Presidente da Repú-
fere à assimetria presente no binômio blica, que a sanciona e promulga.
casa de origem – casa revisora nos se- 11. Tal prática corrobora a tese que
guintes termos:14 aqui defendemos no sentido de
que a função revisora é função se-
7. Assim, o projeto de lei aprova- cundária no processo legislativo,
do inicialmente por uma das Ca- pois quem dá a última palavra, por
sas do Congresso Nacional será assim dizer, é a Casa iniciadora.
revisto pela outra, expressão essa
Em síntese, uma proposição pode ser
oriunda da Constituição de 1946
aprovada pelo Congresso Nacional
(art. 68, caput). Daí se falar em tal como aprovado em sua Casa de
competência revisora. Origem com base na revisão do binô-
8. Isso implica que a Casa onde se mio casa de origem – casa revisora,
inicia a tramitação do projeto de mesmo em discordância com o texto
lei detém a prerrogativa de exercer aprovado na Casa Revisora. Assim, é
o que poderíamos chamar delibe- válido constatar que a realização de
ração principal enquanto a outra uma eleição indireta se choca frontal-
Casa, que está investida da com- mente com essa prática de funciona-
petência para rever a proposição, mento usual do Congresso Nacional,
ou seja, para exercer o que pode- pois o candidato eleito terá, necessa-
ríamos chamar, por oposição, de riamente, de obter a maioria dos vo-
deliberação secundária. tos das duas Casas.

.........................................................
10. Ademais, no caso de projeto de 2.3.2. A Tramitação das
lei, a prática do processo legislativo Propostas de Emendas à
Constituição (PEC)
14
TRINDADE, Fernando, Consultor Legislativo do Se-
nado Federal, Reflexões sobre algumas questões perti- O preceito constitucional de apro-
nentes à tramitação, no Senado Federal, de proposta de
emenda à Constituição – PEC, Brasília, 2003. vação de PEC nas duas Casas do

RELEITURA | jul./dez. 2011 119


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

Congresso Nacional em dois turnos, Paralela e na conquista de mudanças


considerando-se aprovada se obtiver, em medidas de grande interesse para
em ambos, três quintos dos votos dos o Tesouro Nacional, como alterações
respectivos membros, cria situação di- na alíquota da Cofins para diversos
ferenciada em relação às demais sis- setores econômicos.
temáticas do processo legislativo.
A experiência recente com tramitação
Na tramitação de PEC, a ausência da de propostas de emenda à Constitui-
assimetria presente no binômio casa ção mostra distorções que merecem
de origem – casa revisora, é favorável ser apontadas. Quando há discrepân-
para o Senado Federal. No entanto, cia entre o resultado do processo le-
para a Nação como um todo, é um gislativo na Câmara dos Deputados
processo que permite o desperdício e aquele obtido no Senado Federal, a
de tempo e energia, pois a inexistên- obediência ao preceito constitucio-
cia de supremacia da Casa de Origem, nal de aprovação nas duas Casas do
como já comentado nesse trabalho, Congresso Nacional em dois turnos,
gera idas e vindas no processo de al- considerando-se aprovada se obtiver,
teração do texto constitucional, o que em ambos, três quintos dos votos dos
causa atrasos, tensão e incertezas. respectivos membros tem levado a
procedimentos desfavoráveis ao bom
Deste modo, por causa das especifici-
andamento do processo legislativo, à
dades do processo legislativo próprio
harmonia entre as duas Casas e à ma-
à tramitação de proposta de emenda
nutenção da coerência da Lei Maior.
à Constituição, é forçoso reconhecer
que esse exercício implica em gran-
O procedimento denominado infor-
des repercussões para o cidadão, as
malmente por fatiamento da PEC,
instituições em geral e os negócios.
com a promulgação da parcela da
Por último, cabe mencionar a seguin- proposição que tenha sido aprovada
te circunstância política: nos oito em ambas as Casas, ofende a essência
anos da Administração do Presidente do dispositivo constitucional, preju-
Fernando Henrique Cardoso, a Câma- dica a organicidade do texto constitu-
ra era mais rebelde e o Senado, mais cional, afeta o equilíbrio da proposta
cordato, e, assim, desempenhava bem de alteração em tramitação e desva-
o papel de simples casa revisora; mas loriza o trabalho realizado pelos par-
na Administração do Presidente Lula, lamentares. A norma constitucional
a situação se inverteu, e o Senado es- produzida perde a organicidade, pois
teve mais rebelde e a Câmara, mais sua promulgação se dá por parcelas
cordata, com dificuldade para aceitar ou, na linguagem corrente, por fatias
as mudanças inseridas pelo Senado, onde foi possível obter o consenso
como casa revisora, nas proposições das duas Casas.
recebidas da casa de origem.
Mais recentemente, foi criada moda-
A rebeldia do Senado pode ser per- lidade ainda mais agressiva aos pre-
cebida na criação da instituição PEC ceitos constitucionais, com a adoção

120 RELEITURA | ano 2 número 4


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

do procedimento denominado por texto, como o fatiamento de PEC ou a


PEC Paralela. Essa iniciativa busca criação de PEC Paralela. No entanto,
contornar a ausência de consenso na na eleição indireta para Presidente da
tramitação de uma alteração no texto República, esse tipo de improvisação
constitucional e consiste em propor é mais difícil, pois a distribuição das
uma nova PEC com os dispositivos forças políticas poderia produzir, re-
que não alcançaram o consenso entre petidamente, a seleção de um nome
as duas Casas enquanto a PEC origi- na Câmara dos Deputados diferente
nal, com o texto restrito ao que obteve do nome preferido pelo Senado Fe-
consenso, segue para a promulgação. deral.
Essa inovação traz para o processo de
alteração da Constituição a cultura da
improvisação e introduz grave empe- 2.3.3. O Funcionamento
cilho ao trabalho harmônico entre a Conjunto das Duas Casas
Câmara dos Deputados e o Senado na Forma do Regimento
Federal. Nessa situação, a tramitação Comum
do tema da PEC original segue em
frente com os dispositivos alvos de A Constituição Federal de 1988, quan-
controvérsia, os quais, normalmente, do disciplina o funcionamento do Po-
não apresentam organicidade e cons- der Legislativo Federal, não se refere
tituem a PEC Paralela, cujo propósito em momento algum ao plenário do
é a busca de uma nova convergência Congresso Nacional e sim ao plenário
de apoio político. de suas Casas, como não há referên-
cia à apreciação pelo Congresso Na-
Em síntese, é correto concluir que a cional e sim à apreciação pelas duas
realização de uma eleição indireta te- Casas do Congresso Nacional. Da
ria aspectos similares ao processo de mesma forma, não há a previsão de
tramitação e aprovação de PEC, pois sessão do Congresso Nacional e sim
há plena igualdade entre as duas casas de sessão conjunta das duas Casas do
legislativas e a decisão final tem de ser Congresso Nacional.
aprovada nas duas Casas. O problema
é que a promulgação de uma modi- Um exemplo ilustrativo seria relativo
ficação no texto constitucional pode à tramitação das leis que tratam dos
ser postergada até que o consenso orçamentos e dos planos. A respon-
seja obtido, enquanto não é razoável sabilidade por sua apreciação cabe
admitir fórmula de eleição do primei- ao Congresso Nacional, reunido sob
ro mandatário da Nação em que o dis- a forma de sessão conjunta das duas
senso entre as Casas seja o resultado. Casas. Neste sentido, a Constituição
estabeleceu normas claras e específi-
Como comentado na análise do pro- cas nos arts. 165 e seguintes, cabendo
cesso de tramitação e aprovação de destacar:
PEC, surgiram improvisações para
contornar a dificuldade de ter as duas Art. 165. Leis de iniciativa do Po-
Casas coincidindo sobre o mesmo der Executivo estabelecerão:

RELEITURA | jul./dez. 2011 121


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

I – o plano plurianual; da República aos projetos de lei apro-


II – as diretrizes orçamentárias; vados pelo Congresso Nacional. No §
4o do art. 66 há referência à maioria
III – os orçamentos anuais.
absoluta dos Deputados e Senadores e
......................................................... sessão conjunta. Antes de comentar, os
§ 4o Os planos e programas nacio- dispositivos constitucionais relevantes
nais, regionais e setoriais previstos para nossa análise seriam os seguintes:
nesta Constituição serão elabora-
dos em consonância com o plano Art. 66. A Casa na qual tenha sido
plurianual e apreciados pelo Con- concluída a votação enviará o pro-
gresso Nacional. jeto de lei ao Presidente da Repú-
........................................................ blica, que, aquiescendo, o sancio-
Art. 166. Os projetos de lei relati- nará.
vos ao plano plurianual, às diretri- § 1o Se o Presidente da Repúbli-
zes orçamentárias, ao orçamento ca considerar o projeto, no todo
anual e aos créditos adicionais ou em parte, inconstitucional ou
serão apreciados pelas duas Casas contrário ao interesse público, ve-
do Congresso Nacional, na forma tá-lo-á total ou parcialmente, no
do regimento comum. prazo de quinze dias úteis, con-
......................................................... tados da data do recebimento, e
comunicará, dentro de quarenta e
Quando a Constituição trata das me- oito horas, ao Presidente do Sena-
didas provisórias, faz, inicialmente, do Federal os motivos do veto.
referência ao Congresso Nacional,
.........................................................
para logo em seguida esclarecer que
a apreciação terá de ser feita em cada § 4o O veto será apreciado em ses-
uma de suas Casas: são conjunta, dentro de trinta dias
a contar de seu recebimento, só
Art. 62. Em caso de relevância e podendo ser rejeitado pelo voto da
urgência, o Presidente da Repú- maioria absoluta dos Deputados e
blica poderá adotar medidas pro- Senadores, em escrutínio secreto.
visórias, com força de lei, devendo ..........................................................
submetê-las de imediato ao Con- § 7o Se a lei não for promulgada
gresso Nacional. dentro de quarenta e oito horas
......................................................... pelo Presidente da República, nos
§ 5o A deliberação de cada uma casos dos § 3o e § 5o, o Presidente
das Casas do Congresso Nacional do Senado a promulgará, e, se este
sobre o mérito das medidas provi- não o fizer em igual prazo, cabe-
sórias dependerá de juízo prévio rá ao Vice-Presidente do Senado
sobre o atendimento de seus pres- fazê-lo.
supostos constitucionais. O Regimento Comum, nos arts. 107 e
Um último exemplo seria relativo à 108, disciplina com clareza qual deve
apreciação dos vetos pelo Presidente ser a interpretação do mencionado

122 RELEITURA | ano 2 número 4


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

ditame constitucional só podendo ser As rotinas das sessões conjuntas sem-


rejeitado pelo voto da maioria absolu- pre consideram as duas Casas. Para
ta dos Deputados e Senadores: iniciar os trabalhos, por exemplo, é
exigida a presença mínima de um
Art. 107. Na deliberação do Con- sexto da composição de cada Casa
gresso sobre o veto, será objeto de do Congresso (art. 28). Proclamado
votação a matéria vetada, consi- o resultado da votação de cada Casa,
derando-se aprovado o projeto ou poderá ser feita sua verificação a re-
dispositivo que obtiver o voto de querimento de líder, cinco senadores
2/3 (dois terços) dos membros de ou de vinte deputados (art. 45, § 1o).
cada uma das Casas, em votação
pública. Levando ao extremo o reconheci-
Art. 108. Não serão objeto de de- mento da inexistência do Congresso
liberação do Congresso os vetos Nacional como casa legislativa uni-
referentes aos projetos de lei men- cameral, seu próprio Regimento Co-
cionados no art. 42, V, da Consti- mum somente pode ser alterado por
tuição, quando a apreciação será iniciativa das Mesas do Senado e da
privativa do Senado. Câmara ou por iniciativa de, no míni-
mo, 100 subscritores, sendo 20 sena-
Para assentar, de uma vez por todas,
dores e 80 deputados (art. 128).
o entendimento de não haver opor-
tunidade alguma onde pudesse fun-
A composição das Comissões Mistas
cionar o unicameralismo no País, o
também reflete a natureza bicameral
Regimento Comum, logo em seu art.
do Legislativo Federal. A Comissão
1o, estabelece com clareza:
Representativa do Congresso Nacio-
nal é constituída de sete senadores
Art. 1o A Câmara dos Deputados e
o Senado Federal, sob a direção da e dezesseis deputados (art. 1o da Re-
Mesa deste, reunir-se-ão em ses- solução no 3, de 1990-CN) e a Comis-
são conjunta para: são Mista para apreciar uma Medida
Provisória é constituída de modo pa-
......................................................... ritário: 12 senadores e 12 deputados
O vigente Regimento Comum do (Resolução no 1, de 2002-CN). Já a
Congresso Nacional assim dispõe so- principal comissão do Congresso Na-
bre as deliberações: cional, a comissão a que se refere o §
1o do art. 166 da CF, é constituída de
Art. 43. Nas deliberações, os vo- 40 membros titulares, sendo 30 depu-
tos da Câmara dos Deputados e tados e 10 senadores (Resolução no 1,
do Senado Federal serão sempre de 2006-CN).
computados separadamente.
Indo mais além do processo legisla-
§ 1o O voto contrário de uma das
Casas importará na rejeição da tivo, também na área administrativa
matéria. se encontram exemplos da primazia
da natureza bicameral. Decisões ad-
......................................................... ministrativas, como a denominação

RELEITURA | jul./dez. 2011 123


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

do Diário do Congresso Nacional ou a Federal. Mencionados diplomas le-


vedação de construções móveis ou de gais não se referem aos senadores ou
colocação de tapumes ou similares aos deputados federais, mas utilizam
na área pública ocupada pelo edifício expressões como membros do Con-
do Congresso Nacional, foram toma- gresso Nacional e congressistas, lin-
das em Ato Conjunto dos Presidentes guagem incompatível com o vigente
do Senado Federal e da Câmara dos Regimento Comum do Congresso
Deputados.15 Nacional.

Como resultado da análise das nor- Cabe comentar que a Lei 4.321/64 é
mas que regem o funcionamento quase idêntica à Lei 1.395/51, a qual
conjunto das duas Casas, o nosso de- tem base na CF de 1946, que também
safio pode ser colocado de forma cla- estabelecia as normas para a eleição
ra nos seguintes termos: indireta pelo Congresso Nacional,
quando surgisse a vacância do cargo
i) como um corpo bicameral po- nos dois últimos anos de mandato.
deria tomar decisão própria de um Os dois diplomas legais se referem
corpo unicameral? aos eleitores como congressistas ou
ii) como os membros do corpo elei- membros do Congresso Nacional, ex-
toral não são iguais entre si e como pressões de uso desatualizado frente
a soma dos votos não pode ser to- às atuais normas regimentais que tra-
mada para todo o corpo eleitoral – tam do funcionamento do Congresso
mas em cada uma de suas duas par- Nacional.
tes –, como se poderia chegar a um
só eleito para o cargo de Presidente Em contraste com os diplomas legais
da República? acima mencionados, a Constituição
Federal não oferece a possibilidade
para realização de uma reunião uni-
2.4. O Marco Normativo cameral, como foi o caso da Revisão
da Eleição pelo Congresso Constitucional realizada após cinco
Nacional anos de sua promulgação em 1988.

Os três diplomas legais, que disci- Há uma contradição natural entre


plinaram a questão em estudo (Lei este modo de funcionar do Congresso
1.395/51, Lei 4.321/64 e Ato Institu- Nacional, na atualidade, e seu eventu-
cional no 16, de 1969), tratam o Con- al funcionamento como corpo eleito-
gresso Nacional como se fosse uma ral do Presidente e Vice-Presidente no
casa legislativa unicameral, não fa- caso previsto no § 1o do art. 81 da CF.
zendo diferença entre suas duas ca- Como sempre ocorre sessão conjun-
sas: Câmara dos Deputados e Senado ta das duas Casas, há possibilidade
do resultado da votação de uma Casa
15
CONGRESSO NACIONAL, Regimento Comum, Re-
ser discordante do resultado da outra
solução no 1, de 1970-CN, com alterações posteriores, Casa. Situação diversa se verifica na
até 2006, e legislação conexa, Congresso Nacional,
2007, Brasília-DF, pp. 139 a 143. maioria das atividades do processo

124 RELEITURA | ano 2 número 4


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

legislativo, quando vigora o sistema absoluta, seriam realizados outros


de casa de origem e casa revisora. escrutínios, até um terceiro e último
escrutínio onde o eleito seria aquele
Como já indicada, a exceção mais que obtivesse a maioria simples dos
conhecida à sistemática de casa de votos. Este procedimento é perfeita-
origem e casa revisora se refere à tra- mente praticável em um corpo eleito-
mitação das propostas de emenda à ral onde um eleitor é igual a um voto
Constituição. Também se afasta do e todos eles são iguais entre si.
figurino padrão a tramitação das de-
cisões de responsabilidade do Con- No entanto, não é difícil imaginar
gresso Nacional, como a apreciação como poderia se dar um impasse ins-
dos vetos presidenciais e das leis rela- titucional no processo eleitoral ba-
tivas ao orçamento da União, inclusi- seado no sistema de sessão conjunta
ve plano plurianual e lei de diretrizes das duas Casas: se no Senado ganhas-
orçamentárias. se, repetidamente, o candidato A, en-
quanto na Câmara o mesmo aconte-
Quando há uma casa de origem, ha- cesse com o candidato B, como seria
vendo discrepância nas decisões das obtida uma decisão final?
duas casas legislativas, predomina a
decisão da casa de origem. No entan- É exatamente este risco potencial de
to, quando se trata dos demais casos impasse institucional que torna im-
já comentados, a inexistência de casa prescindível contar com a lei prevista
de origem exige a concordância das no § 1o do art. 81 da CF. Além do curto
duas casas quanto à decisão a ser to- prazo de apenas 30 dias para eleger os
mada. É esta exigência de concordân- substitutos dos dois primeiros man-
cia que torna o atual padrão de fun- datários da Nação, há duas dimen-
cionamento do Congresso Nacional sões no conflito potencial:
como incompatível para o seu bom
desempenho como corpo eleitoral, a) choque entre a inexistência de
onde a cada eleitor deveria corres- normas para o funcionamento de
ponder um voto, havendo igualdade uma casa legislativa unicameral
entre todos os participantes, sem a no Poder Legislativo Federal e a
estratificação do corpo eleitoral em previsão constitucional de que o
duas casas legislativas. Congresso Nacional deverá, even-
tualmente, funcionar como corpo
Nos três diplomas legais que regula- eleitoral; e
mentaram as atividades do Congres- b) choque entre o atual tratamento
so Nacional como corpo eleitoral (Lei político concedido ao Senado Fe-
1.395/51, Lei 4.321/64 e Ato Institu- deral, que tem suas decisões consi-
cional no 16, de 1969), há previsão deradas no mesmo nível daquelas
de obtenção de maioria absoluta dos tomadas pela Câmara dos Deputa-
votos para a proclamação do elei- dos nas sessões conjuntas do Con-
to. Caso no primeiro escrutínio, ne- gresso Nacional, e o tratamento que
nhum candidato obtivesse maioria o eventual funcionamento de uma

RELEITURA | jul./dez. 2011 125


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

casa unicameral daria ao peso po- Deputados. Já esteve vários meses


lítico do Senado Federal, que teria em Plenário da Câmara, onde re-
seus 81 votos diluídos na soma com cebeu emendas, e retornou ao Ple-
os 513 votos da Câmara dos Depu- nário da Câmara, onde se encontra
tados, resultando na diminuição de desde maio de 1995, pronta para
sua relevância no processo de elei- entrar em votação;
ção indireta do Presidente e Vice- b) Projeto de Lei no 1.292-A, de
-Presidente da República. 1999, de autoria do Deputado Ni-
cias Ribeiro. Depois de tramitar
2.5. As iniciativas legislativas entre o Plenário e comissões, a pro-
posição está pronta para ser vota-
para disciplinar a eleição
da em Plenário desde setembro de
indireta 2003. Quanto à eleição indireta de
Presidente e Vice-Presidente da Re-
Como nos diversos casos onde hou- pública, praticamente repete dis-
ve o ativismo político do Poder Judi- posições legais já presentes em ou-
ciário, a vigente situação de eventual tros diplomas legais ou em outras
impasse institucional incorpora a ina- proposições legislativas. Tem como
nição do Poder Legislativo Federal. No característica avançar em relação à
entanto, há quatro iniciativas legislati- eleição indireta nos estados e nos
vas que tratam do assunto, mas estão municípios.16 A este projeto de lei
paradas em algum ponto do processo foram apensados as duas proposi-
legislativo e também não seriam efi- ções a seguir enumeradas;
cazes em elucidar todos os aspectos
c) Projeto de Lei no 1.888, de 1999, de
controversos da questão em análise.
autoria do Deputado Freire Júnior; e
Com todo respeito aos autores, os d) Projeto de Lei no 5.960, de 2005,
projetos de lei que pretendem regu- de autoria do deputado Marcos
lar a eleição indireta de Presidente Abramo.
e Vice-Presidente da República não Desta vez, o ativismo legislativo do Po-
avançaram muito em relação aos di- der Judiciário encontrará não uma ina-
plomas legais que se referiam à CF nição plena do Congresso Nacional,
de 1946 (Lei 1.395/51 e Lei 4.321/64) mas se defrontará com efeito similar,
nem ao disposto no Ato Institucional pois não houve, até agora, efetivida-
no 16, de 1969. de ou eficácia nas poucas iniciativas
legislativas em curso. Pois estas, além
As proposições legislativas em trami- de não afastarem o impasse potencial,
tação são as seguintes: não foram capazes de aglutinar recur-
sos políticos suficientes para recebe-
a) Projeto de Lei no 2.893, de 1992, rem a devida consideração. Como os
de autoria do Senador Mansueto
16
A proposta de regular a eleição indireta nos Estados
Lavor. Esta proposição foi aprova- e Municípios fere a autonomia dos entes federados,
da pelo Senado Federal em maio de tal como consta da decisão do STF quanto na ADI-MC
4.298, já objeto de comentários no Capítulo 1 deste
1992 e se encontra na Câmara dos estudo.

126 RELEITURA | ano 2 número 4


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

parlamentares não tomam decisões Para Celso Ribeiro Bastos e Ives


ao acaso, o mais provável é que te- Gandra Martins, em Comentários
nham sido percebidas as deficiências à Constituição do Brasil, a questão
das proposições mencionadas e, por exige uma regulamentação prévia por
isso mesmo, estejam na presente situ- parte do Poder Legislativo:18
ação de virtual arquivamento.
No § 1o, faz-se referência a que a
Na prática, em relação ao vazio na eleição será realizada nos termos
regulamentação do § 1o do art. 81 da da lei, quando indireta. À evidên-
CF de 1988, está presente a inanição cia, também a direta far-se-á nos
do Poder Legislativo e se mantém a termos da lei estrutural. A referên-
possibilidade de intervenção para o cia expressa ao texto legal no to-
ativismo do Poder Judiciário. cante à eleição indireta deve-se ao
fato de tratar-se de eleição em que
os representantes do povo são os
2.6. A eleição indireta na que escolhem a disciplina jurídica
doutrina do pleito para definir se a votação
nivela os votos de senadores e de-
Antes de passar à conclusão deste es- putados ou não.
tudo, cabe verificar como a doutrina O presente estudo foca exatamente a
tem tratado a questão em análise. questão posta acima pelos dois dou-
trinadores:
Para José Afonso da Silva, em Comen-
tário Contextual à Constituição, não a) será o Congresso Nacional, como
haveria razão para qualquer preocu- os representantes do povo, que, tem-
pação com um impasse potencial que pestivamente, editará a disciplina
poderia resultar da inexistência da lei jurídica do pleito e definirá os pro-
referida no § 1o do art. 81 da CF:17 cedimentos da sessão unicameral
onde estarão nivelados os votos de
Se ocorrer o fato e não houver essa senadores e deputados?
lei, deve-se fazer a eleição com base
em regras regimentais (ainda que b) ou esta tarefa será transferida ao
por analogia), pois o texto consti- Supremo Tribunal Federal que, em
tucional é bastante para a prática momento de tensão institucional
do ato. Não há de se embaraçar e no curto prazo de 30 dias, terá o
em controvérsias inúteis, quando o ônus de reformular os princípios
sistema constitucional possibilita norteadores do funcionamento das
alcançar o fim pretendido. sessões conjuntas do Congresso
Nacional, conforme o vigente Regi-
Salvo melhor juízo, não há bases mento Comum, e de estipular que o
regimentais a serem aplicadas por voto de um senador terá o mesmo
analogia.
18
BASTOS, Celso Ribeiro, e MARTINS, Ives Gandra da
17
SILVA, José Afonso, Comentário Contextual à Cons- Silva, Comentários à Constituição do Brasil, Saraiva,
tituição, Editora Malheiros, 2005, São Paulo-SP, p. 480. 1996, São Paulo-SP, p. 247.

RELEITURA | jul./dez. 2011 127


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

peso político do voto de um depu- de de verticalização (ADI 3.685-8, de


tado? 31.03.2006), o Poder Legislativo apro-
Assim, para os dois renomados au- vou a Emenda Constitucional no 52,
tores, é imprescindível uma lei para de 2006, ampliando o conceito de au-
disciplinar a eleição indireta. Esta tonomia dos partidos políticos.
conclusão é coincidente com a deste
trabalho, onde se insiste que haverá No caso da normatização do fun-
constrangimento institucional caso a cionamento do Congresso Nacional
norma prevista no § 1o do art. 81 vier para eleição indireta do Presidente e
a ser necessária e não estiver dispo- Vice-Presidente da República, como
nível. o prazo constitucional para a realiza-
ção da eleição indireta é de apenas 30
Para o Supremo Tribunal Federal, o dias, não haverá oportunidade para a
constrangimento será editar normas superação das dificuldades aponta-
para disciplinar atividade intramu- das neste estudo. Ou seja, ou o Poder
ros de outro Poder. Para o Congres- Legislativo normatiza a realização de
so Nacional, o constrangimento será eleição indireta ou poderá haver o
adaptar seu vigente Regimento Con- impasse aqui apontado.
junto para a realização de decisões no
sistema unicameral, o que seria uma Espera-se que essa norma nunca ve-
contradição com o restante de suas nha a ser utilizada, mas caso venha a
normas e representaria a diminuição ser necessária, deveria estar prevista
da relevância política do Senado Fe- no marco legal do País. Caso contrá-
deral. rio, estaríamos, em mais uma ques-
tão polêmica, com encontro marcado
com o ativismo do Supremo Tribunal
2.7. As perspectivas para Federal. Para subsidiar a superação
a eleição indireta no nível deste hiato normativo, apresenta-se
uma minuta de projeto de lei para
federal atender a previsão do § 1o do art. 81.
Em relação à realização de eleição in-
direta, estão postas as condições para
a repetição de choque institucional 3. Experiências Recentes de
entre os poderes da República, tal Votação Unicameral
como aconteceu, recentemente, em
relação ao instituto da fidelidade par- Este capítulo está dedicado à revisão
tidária. das duas experiências recentes de
funcionamento do Congresso Nacio-
Em algumas situações passadas, o nal como um sistema unicameral – a
conflito pôde ser contornado, como Assembleia Nacional Constituinte de
aconteceu no caso da verticalização 1987/1988 e a Revisão Constitucional
das coligações partidárias. Decidida de 1993 – e à apresentação de conclu-
pelo Poder Judiciário a necessida- sões e críticas.

128 RELEITURA | ano 2 número 4


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

Como fecho de todo o trabalho, apre- texto, em dois turnos de discussão


sentam-se as minutas de um projeto e votação, pela maioria absoluta
de lei do Senado Federal e de sua jus- dos Membros da Assembleia Na-
tificação como subsídios para a supe- cional Constituinte.
ração do vácuo legislativo relativo à Com esse marco constitucional, os
previsão de lei a que se refere o § 1o deputados federais e os senadores
do art. 81 da Constituição Federal. eleitos em 15 de novembro de 1986 se
tornaram os membros da Constituin-
te que veio a promulgar a Constituição
3.1. A Assembleia Federal de 1988. Cabe esclarecer que
Constituinte de 1987-88 essas eleições já foram realizadas sob
o manto do primeiro governo civil,
No contexto do processo de redemo- eleito indiretamente pelo Congresso
cratização do País, a Emenda Consti- Nacional em 1985, tendo como marco
tucional (EC) no 26, de 27 de novem- legal a Lei no 7.493, de 1986, sanciona-
bro de 1985, convocou a Assembleia da pelo Presidente José Sarney.
Nacional Constituinte. Como alte-
ração da Constituição Federal de Referida Lei permitiu ampla partici-
1967/1969, a Emenda no 26 em seus pação nas eleições de novos partidos
três primeiros artigos convoca a As- políticos, mesmo dos que ainda esta-
sembleia Nacional Constituinte e as- vam em formação, permitindo irres-
sim dispõe, com grifo nosso: trita distensão política, que foi deter-
minante para o ambiente ousado da
AS MESAS DA CÂMARA DOS DE- Assembleia Nacional Constituinte.
PUTADOS E DO SENADO FE- Os avanços na definição dos direitos
DERAL, nos termos do art. 49 da e garantias individuais e da expressa
Constituição Federal, promulgam separação dos Poderes são exemplos
a seguinte Emenda ao texto cons- ilustrativos do ambiente de renova-
titucional: ção democrática que impregnou a
Art. 1o Os Membros da Câmara dos formulação da nova Carta Magna.
Deputados e do Senado Federal
reunir-se-ão, unicameralmente, A Assembleia Constituinte teve seus
em Assembleia Nacional Consti- trabalhos abertos pelo então presi-
tuinte, livre e soberana, no dia 1o dente do Supremo Tribunal Federal,
de fevereiro de 1987, na sede do ministro José Carlos Moreira Alves, tal
Congresso Nacional. como previsto no art. 2o da EC no 26,
de 1985. Sua composição era de 559
Art. 2o. O Presidente do Supremo constituintes (487 deputados e 72 se-
Tribunal Federal instalará a As- nadores), representantes dos 23 esta-
sembleia Nacional Constituinte e dos, que existiam à época, e do Distri-
dirigirá a sessão de eleição do seu to Federal. Com a nova Carta Magna,
Presidente. passaram a eleger representantes para
Art. 3o A Constituição será promul- a Câmara e o Senado os Estados do
gada depois da aprovação de seu Amapá e Roraima, ex-territórios, e o

RELEITURA | jul./dez. 2011 129


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

recém-criado Estado do Tocantins, re- Parágrafo único. As matérias cons-


sultado da divisão do Estado de Goiás. titucionais somente serão votadas
pelo processo nominal.
As atividades da Constituinte se rea- Art. 66. No processo simbólico, o
lizaram, inicialmente, em 24 subco- Presidente, ao anunciar a votação,
missões destinadas à formulação das convidará os presentes que votam
linhas gerais da nova Constituição. Na
a favor a se manifestarem, procla-
etapa seguinte, o trabalho foi aperfei-
mando em seguida o resultado
çoado em oito comissões temáticas,
manifesto dos votos.
que por sua vez encaminharam o an-
teprojeto à Comissão de Sistematiza- Art. 67. O processo nominal será
ção. As atividades dos constituintes feito pela chamada dos Consti-
resultaram em um dos maiores tex- tuintes, utilizando-se listagem
tos constitucionais do mundo, com especial de votação, elaborada em
250 artigos e 89 atos das disposições ordem alfabética.
constitucionais transitórias. As res- § 1o As chamadas para as votações
trições alcançaram o tom analítico e nominais começarão numa vota-
programático da Carta. No entanto, ção pelo início da lista e na outra
nos últimos 22 anos, nossa Constitui- pelo final, e assim alternadamente
ção tem permitido ao País passar por na mesma ou na sessão seguinte.
inúmeras crises políticas, sem que as
instituições democráticas sejam aba- § 2o À medida que se sucederam os
ladas, e tem servido de respaldo à se- votos, o resultado parcial da vota-
gurança jurídica do cidadão, das ins- ção irá sendo anunciado, vedada a
tituições e das empresas e negócios. modificação do voto depois de co-
lhido o de outro Constituinte.
Cabe ressaltar que o processo de de- § 3o Os Constituintes que não
cisão foi baseado em votações de estiverem presentes no Plenário,
natureza unicameral, onde a cada no momento em que se efetuar o
parlamentar correspondia um voto. processo nominal de votação, po-
Cabe esclarecer que a linguagem derão registrar o seu voto após o
utilizada na Resolução no 2, de 1987, encerramento da chamada e antes
que dispõe sobre o Regimento Interno da declaração do resultado da vo-
da Assembleia Nacional Constituinte, tação, utilizando o microfone de
foi a de constituinte para designar os apartes, com declaração do nome
membros da Assembleia, ou seja, os parlamentar e da Unidade da Fe-
senadores e deputados federais. deração pela qual foram eleitos.
O processo de votação foi estabeleci- § 4o Nenhum Constituinte poderá
do nos arts. 65 a 67, da Resolução no 2, votar após a proclamação do re-
de 1987, com grifo nosso: sultado final da votação pelo Pre-
sidente.
Art. 65. As votações poderão ser § 5o Constarão da Ata os nomes
realizadas pelos processos simbó- dos Constituintes votantes, dis-
lico, nominal ou secreto. criminando-se os que votaram a

130 RELEITURA | ano 2 número 4


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

favor, contra e os que se abstive- os trabalhos e o Relator foi o Deputa-


ram. do Nelson Jobim. Em 237 dias de tra-
balho, foram apresentadas quase trin-
Como se pode constatar, o funciona-
ta mil propostas, sendo elaborados 74
mento da Assembleia Nacional Cons-
projetos de Emenda de Revisão. Des-
tituinte foi de natureza unicameral.
tes, apenas seis foram aprovados:
No entanto, essa mesma Assembleia
não previu para o funcionamento do
1. Emenda Constitucional de Re-
Congresso Nacional o exercício de ati-
visão no 1, que instituiu o Fundo
vidades sob o sistema unicameral. A
Social de Emergência, com o obje-
única exceção foi a Revisão Constitu-
tivo de saneamento financeiro da
cional, tema objeto da próxima seção.
Fazenda Pública Federal e de esta-
bilização econômica;
2. Emenda Constitucional de Re-
3.2. A Revisão Constitucional
visão no 2, que possibilitou a con-
de 1993 vocação de Ministro de Estado ou
quaisquer titulares de órgãos dire-
O Ato das Disposições Constitucio- tamente subordinados à Presidên-
nais Transitórias (ADCT), de 5 de ou- cia da República para prestarem,
tubro de 1988, em seu art. 3o previu pessoalmente, informações sobre
a realização do processo de Revisão assuntos previamente determina-
Constitucional depois de decorridos dos;
cinco anos da promulgação da Cons-
tituição Federal, com grifo nosso: 3. Emenda Constitucional de Re-
visão no 3, que permitiu a dupla
Art. 3o A revisão constitucional nacionalidade do brasileiro em
será realizada após cinco anos, determinados casos e facilitou a
contados da promulgação da requisição da nacionalidade bra-
Constituição, pelo voto da maioria sileira por estrangeiros;
absoluta dos membros do Con- 4. Emenda Constitucional de Re-
gresso Nacional, em sessão unica- visão no 4, que ampliou o rol das
meral. inelegibilidades, a fim de proteger
a probidade administrativa, a mo-
A Revisão Constitucional, que havia
ralidade para o exercício do man-
sido fixada, pela Resolução do Con-
dato e a normalidade e legitimida-
gresso Nacional no 2 de 1993, para a
de das eleições;
data de 6 de outubro, foi instalada no
dia 7 de outubro, após decisão do ple- 5. Emenda Constitucional de Re-
nário do Supremo Tribunal Federal visão no 5, que reduziu o mandato
(STF) contrária à posição de alguns presidencial de 5 para 4 anos;
partidos políticos que contestavam a 6. Emenda Constitucional de Re-
legalidade das sessões preparatórias. visão no 6, que suspendeu os efei-
tos da renúncia do parlamentar
O Presidente do Congresso Nacional, submetido a processo que vise ou
Senador Humberto Lucena, presidiu possa levar à perda do mandato.

RELEITURA | jul./dez. 2011 131


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

O processo de votação foi de natureza em todo o texto constitucional, a úni-


unicameral, onde a cada parlamentar ca menção à expressão unicameral é,
cabia um voto. Ou seja, houve plena exatamente, a do art. 3o do ADCT.
identidade entre senadores e deputa-
dos federais, os quais, na linguagem
utilizada no Regimento, eram trata- 3.3. Crítica
dos como congressistas ou membros,
sem distinção segundo a Casa de ori- A análise das normas que regeram a
gem. Na Resolução no 1, de 1993-RCF, formulação da Constituição de 1988
do Congresso Nacional, o processo de e o processo de sua Revisão em 1993
votação foi assim normatizado, com permitem constatar uma contradição
grifo nosso: nos ditames constitucionais que tra-
tam do funcionamento do Congresso
Art. 17. As votações, computados Nacional. Enquanto o Poder Consti-
os votos unicameralmente, pode- tuinte sempre atuou sob o sistema de
rão ser realizadas pelos processos votação unicameral, a Carta Magna é
simbólico ou nominal. rígida ao estabelecer o sistema bica-
§ 1o As matérias constitucionais meral para a realização das atividades
somente serão votadas pelo pro- do Poder Legislativo Federal, exceto
cesso nominal. Havendo quorum, para a Revisão Constitucional de 1993.
o processo nominal será dispensa-
do se, consultado o Plenário, ne- Cabe retornar à origem e dar ao pro-
nhum de seus membros se opuser. cesso de eleição indireta a caracte-
§ 2o As demais deliberações serão rística que marcou os trabalhos da
votadas pelo processo simbólico, Assembleia Nacional Constituinte e
salvo disposição regimental ex- da Revisão Constitucional de 1993: o
pressa ou deliberação do Plenário sistema unicameral. Assim, a atuação
em outro sentido. de votação do Congresso Nacional,
§ 3o Proclamado o resultado final quando funcionar como corpo eleito-
da votação, nenhum membro dos ral nos termos do art. 81, § 1o da CF,
trabalhos poderá ser admitido a amoldaria-se às especificidades dos
votar. trabalhos do Poder Constituinte.
§ 4o Caso o voto acionado pelo
congressista não corresponda à
sua vontade, poderá ele fazer de- 3.4. Minuta de Projeto de Lei
claração de voto, logo após a pro- (Art. 81, § 1o, da CF)
clamação do resultado, sem alte-
ração deste. (Minuta)
Encerrada a Revisão Constitucional, PROJETO DE LEI DO SENADO No ,
não há outra previsão na Carta Magna DE 2010
de atividade do Congresso Nacional
que deva seguir a votação de nature- Dispõe sobre a eleição indireta
za unicameral. Cabe esclarecer que para Presidente e Vice-Presidente

132 RELEITURA | ano 2 número 4


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

da República nos termos do § 1o indireta, poderão ser alteradas por


do art. 81 da Constituição Federal, projetos de resolução de iniciativa:
e dá outras providências.
I – da Mesa do Congresso Nacional;
O CONGRESSO NACIONAL decreta:
II – de, no mínimo, 100 congressistas,
Art. 1o Vagando os cargos de Presiden- sendo 20 senadores e 80 deputados.
te e Vice-Presidente da República na
segunda metade do período presiden- § 1o Na hipótese do inciso I, publica-
cial, far-se-á eleição pelo Congresso do o projeto e distribuídos os avulsos,
Nacional, para ambos os cargos, até será aquele incluído na Ordem do Dia
trinta dias depois da última vaga. da próxima sessão.

Art. 2o Para essa eleição, o Congresso § 2o Na hipótese do inciso II, recebi-


Nacional será convocado pelo Presi- do o projeto, será este publicado em
dente do Senado Federal. avulsos e encaminhado à Mesa a fim
de receber parecer.
Art. 3o Os trabalhos da eleição indire-
ta para Presidente e Vice-Presidente § 3o Publicado o parecer e distribuído
da República reger-se-ão por esta Lei em avulsos, proceder-se-á na forma
do § 1o.
e, subsidiariamente, pelas normas
do Regimento Comum do Congresso
Art. 5o Os trabalhos da eleição indi-
Nacional, do Senado Federal e da Câ-
reta serão realizados em sessão uni-
mara dos Deputados.
cameral, pelos membros da Câmara
dos Deputados e do Senado Federal,
§ 1o Os trabalhos do Congresso Na-
sob a direção da Mesa do Congresso
cional, do Senado Federal e da Câma-
Nacional, não se interrompendo por
ra dos Deputados, inclusive reunião recesso deste.
de Comissões, não poderão coincidir
com os horários das sessões da elei- Art. 6o As condições de elegibilidade
ção indireta. e as causas de inelegibilidade apli-
cáveis aos candidatos à eleição indi-
§ 2o Somente da matéria da eleição reta para os cargos de Presidente e
do Presidente e do Vice-Presidente Vice-Presidente da República são as
da República se poderá tratar nas ses- definidas nesta Lei, não sendo exigí-
sões a ela destinadas. vel aos candidatos o atendimento ao
previsto no art. 14 da Constituição
§ 3o As bancadas dos partidos ou blo- Federal que seja específico para os
cos serão representados por seus lí- eventos periódicos e previsíveis de
deres na Câmara dos Deputados ou eleição pelo voto popular.
no Senado Federal, alternativamente.
§ 1o São inelegíveis pelo Congresso
Art. 4o As normas regimentais vigen- Nacional para os cargos de Presidente
tes, aplicáveis ao processo de eleição e Vice-Presidente da República:

RELEITURA | jul./dez. 2011 133


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

a) os inalistáveis, os naturalizados, os 9. contra a vida e a dignidade sexual; e


analfabetos e os menores de trinta e
cinco anos; 10. praticados por organização crimi-
nosa, quadrilha ou bando;
b) os que tenham contra sua pessoa
representação julgada proceden- d) os que forem declarados indignos
te pela Justiça Eleitoral, em decisão do oficialato, ou com ele incompatí-
transitada em julgado ou proferida veis;
por órgão colegiado, em processo de
apuração de abuso do poder econô- e) os que tiverem suas contas relati-
mico ou político; vas ao exercício de cargos ou funções
públicas rejeitadas por irregularidade
c) os que forem condenados, em de- insanável que configure ato doloso
cisão transitada em julgado ou pro- de improbidade administrativa, e por
ferida por órgão judicial colegiado, decisão irrecorrível do órgão compe-
pelos crimes: tente, salvo se esta houver sido sus-
pensa ou anulada pelo Poder Judiciá-
1. contra a economia popular, a fé rio, aplicando-se o disposto no inciso
pública, a administração pública e o II do art. 71 da Constituição Federal,
patrimônio público; a todos os ordenadores de despesa,
sem exclusão de mandatários que
2. contra o patrimônio privado, o siste- houverem agido nessa condição;
ma financeiro, o mercado de capitais e
os previstos na lei que regula a falência; f) os detentores de cargo na admi-
nistração pública direta, indireta ou
3. contra o meio ambiente e a saúde fundacional, que beneficiarem a si ou
pública; a terceiros, pelo abuso do poder eco-
nômico ou político, que forem conde-
4. eleitorais, para os quais a lei comi- nados em decisão transitada em jul-
ne pena privativa de liberdade; gado ou proferida por órgão judicial
colegiado;
5. de abuso de autoridade, nos casos
em que houver condenação à per- g) os que, em estabelecimentos de
da do cargo ou à inabilitação para o crédito, financiamento ou seguro, que
exercício de função pública; tenham sido ou estejam sendo objeto
de processo de liquidação judicial ou
6. de lavagem ou ocultação de bens, extrajudicial, hajam exercido, nos 12
direitos e valores; (doze) meses anteriores à respectiva
decretação, cargo ou função de dire-
7. de tráfico de entorpecentes e dro- ção, administração ou representação,
gas afins, racismo, tortura, terrorismo enquanto não forem exonerados de
e hediondos; qualquer responsabilidade;

8. de redução à condição análoga à de h) os que forem condenados, em de-


escravo; cisão transitada em julgado ou pro-

134 RELEITURA | ano 2 número 4


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

ferida por órgão colegiado da Justiça razão de terem desfeito ou simulado


Eleitoral, por corrupção eleitoral, por desfazer vínculo conjugal ou de união
captação ilícita de sufrágio, por do- estável para evitar caracterização de
ação, captação ou gastos ilícitos de inelegibilidade;
recursos de campanha ou por con-
duta vedada aos agentes públicos em m) os que forem demitidos do serviço
campanhas eleitorais que impliquem público em decorrência de processo
cassação do registro ou do diploma; administrativo ou judicial, salvo se o
ato houver sido suspenso ou anulado
l) o Presidente da República, o Gover- pelo Poder Judiciário;
nador de Estado e do Distrito Federal,
o Prefeito, os membros do Congresso n) a pessoa física e os dirigentes de
Nacional, das Assembleias Legislati- pessoas jurídicas responsáveis por
vas, da Câmara Legislativa, das Câ- doações eleitorais tidas por ilegais
maras Municipais, que renunciarem a por decisão transitada em julgado ou
seus mandatos desde o oferecimento proferida por órgão colegiado da Jus-
de representação ou petição capaz de tiça Eleitoral;
autorizar a abertura de processo por
infringência a dispositivo da Consti- o) os magistrados e os membros do
tuição Federal, da Constituição Esta- Ministério Público que forem aposen-
dual, da Lei Orgânica do Distrito Fede- tados compulsoriamente por decisão
ral ou da Lei Orgânica do Município; sancionatória, que tenham perdido
o cargo por sentença ou que tenham
j) os que forem condenados à suspen- pedido exoneração ou aposentadoria
são dos direitos políticos, em decisão voluntária na pendência de processo
transitada em julgado ou proferida administrativo disciplinar;
por órgão judicial colegiado, por ato
doloso de improbidade administra- p) o cônjuge e os parentes, consanguí-
tiva que importe lesão ao patrimô- neos ou afins, até o segundo grau ou
nio público e enriquecimento ilícito, por adoção, do Presidente ou do Vice-
desde a condenação ou o trânsito em -Presidente da República cuja substi-
julgado; tuição no mandato presidencial seja
o objeto da eleição indireta em curso.
k) os que forem excluídos do exercício
da profissão, por decisão sancionató- § 2o Não se aplicam aos candidatos à
ria do órgão profissional competente, eleição indireta para os cargos de Pre-
em decorrência de infração ético- sidente e Vice-Presidente da Repú-
-profissional, salvo se o ato houver blica as vedações previstas no § 6o do
sido anulado ou suspenso pelo Poder art. 14 da Constituição Federal.
Judiciário;
§ 3o É vedada ao candidato eleito por
l) os que forem condenados, em de- eleição indireta a participação na
cisão transitada em julgado ou profe- eleição de seu sucessor, a se realizar
rida por órgão judicial colegiado, em por voto universal, não se aplicando

RELEITURA | jul./dez. 2011 135


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

o disposto no § 5o do art. 14 da Cons- V – cópia do título eleitoral ou certi-


tituição Federal. dão, fornecida pelo cartório eleitoral,
de que o candidato é eleitor em situ-
Art. 7o Os diretórios nacionais dos ação regular junto à Justiça Eleitoral.
partidos políticos convocarão as con-
venções nacionais para escolherem Parágrafo único. O requerimento de
os candidatos a Presidente e Vice- retirada de candidatura só poderá ser
-Presidente da República. formulado pelo partido político res-
ponsável por sua propositura.
Art. 8o Para a eleição regulada por esta
Lei não haverá condições de elegibi- Art. 10. É facultado ao partido ou co-
lidade e as causas de inelegibilidade ligação substituir o candidato que for
além do disposto no art. 6o. considerado inelegível, renunciar ou
falecer após o registro de sua candi-
§ 1o Se qualquer dos candidatos es- datura ou, ainda, tiver seu registro in-
colhidos pela convenção ou diretório deferido ou cancelado, obedecidos os
nacional não estiver filiado ao partido, seguintes requisitos:
ser-lhe-á aberto o prazo para fazê-lo.
I – a escolha do substituto far-se-á
§ 2o No caso previsto no § 1o, a filiação na forma estabelecida no estatuto do
ao partido que o escolheu como can-
partido a que pertencer o substituí-
didato implicará no desligamento de
do, e o registro deverá ser requerido à
outro partido ao qual o candidato foi
Mesa do Congresso Nacional;
ou esteve filiado.
II – os partidos políticos, por seus di-
Art. 9o Realizada a escolha, o partido
retórios nacionais, inscreverão, pe-
requererá à Mesa do Congresso Na-
rante a Mesa do Congresso Nacional,
cional, até cinco dias antes da data
os candidatos a Presidência e Vice-
marcada para a eleição, o registro dos
-Presidência da República até vinte
candidatos à Presidência e à Vice-Pre-
sidência da República, instruindo o e quatro horas antes do dia marcado
requerimento com: para o pleito; e

I – cópia da ata da convenção ou reu- III – o diretório nacional de cada par-


nião da comissão executiva nacional tido funcionará, para a escolha dos
que decidiu sobre a escolha dos can- candidatos substitutos, com os pode-
didatos; res de convenção nacional, dispen-
sados os prazos e as demais formali-
II – autorização do candidato, por es- dades estabelecidos pela Lei Eleitoral
crito; com referência à eleição direta pelo
voto universal.
III – prova de filiação partidária;
Art. 11. A Mesa do Congresso Nacio-
IV – declaração de bens, assinada nal fará publicar no Diário Oficial do
pelo candidato; e Congresso Nacional o requerimento

136 RELEITURA | ano 2 número 4


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

de registro dos candidatos para co- § 2o Se, antes de alcançado o resul-


nhecimento dos interessados. tado a que se refere o caput, ocorrer
morte, desistência ou impedimento
Art. 12. As votações, computados os legal de algum candidato, realizar-
votos unicameralmente, serão reali- -se-á nova votação e convocar-se-á,
zadas pelo processo nominal. entre os candidatos anteriormente
excluídos, o que tenha alcançado, até
§ 1o Proclamado o resultado final de então, o maior número de votos.
cada votação, nenhum congressista
poderá ser admitido a votar.
§ 3o Na hipótese dos parágrafos an-
teriores, se para a nova eleição rema-
§ 2o Caso o voto acionado pelo con-
gressista não corresponda à sua von- nescer, em último lugar, mais de um
tade, poderá ele fazer declaração de candidato com o mesmo número de
voto, logo após a proclamação do re- votos, qualificar-se-á o mais idoso e
sultado, sem alteração deste. será excluído do processo de votação
o candidato mais jovem.
Art. 13. O adiamento da votação po-
derá ser concedido pelo Plenário, me- Art. 15. A eleição do Presidente im-
diante requerimento de, no mínimo, portará a do candidato a Vice-Presi-
100 congressistas ou de líderes que dente com ele registrado.
representem este número.
Art. 16. Os trabalhos da eleição indi-
§ 1o Quando forem apresentados dois reta somente serão encerrados com
ou mais requerimentos, será votado, a eleição por maioria absoluta de um
em primeiro lugar, o de prazo mais candidato a Presidente da República,
longo, que, se aprovado, prejudicará convocando-se, a seguir, sessão sole-
os demais. ne para promulgação do resultado da
última votação e posse do eleito.
§ 2o Os requerimentos não serão dis-
cutidos nem terão encaminhamento
Art. 17. Antes de encerrada a sessão,
de votação.
o Presidente da Mesa do Congresso
Nacional receberá o compromisso
Art. 14. Será considerado eleito Presi-
dente o candidato que obtiver maio- do Presidente e do Vice-Presidente
ria absoluta de votos, não computa- da República, na forma do art. 78 da
dos os em branco e os nulos. Constituição Federal.

§ 1o Caso nenhum candidato alcance Parágrafo único. Caso os candidatos


maioria absoluta em uma votação, eleitos detenham mandato eletivo ou
far-se-á, seguidamente, nova eleição exerçam cargo ou função na Adminis-
após a proclamação do resultado da tração Pública, estarão desvinculados
anterior, concorrendo os candidatos dessa responsabilidade ao assumir
mais votados, excluído aquele que al- o cargo de Presidente ou Vice-Presi-
cançou o menor número de votos. dente da República.

RELEITURA | jul./dez. 2011 137


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

Art. 18. Cópia autenticada da ata dos cional como uma só casa legislativa;
trabalhos da eleição indireta será en- (ii) a adaptação das normas relati-
viada ao Tribunal Superior Eleitoral. vas às condições de elegibilidade e
às causas de inelegibilidade; e (iii) a
Art. 19. Esta Lei entra em vigor na vedação de reeleição aos candidatos
data de sua publicação. eleitos para completar o período pre-
sidencial interrompido pela vacância
inesperada.
3.5. Minuta de Justificação
A proposição busca superar o desafio
(Minuta) que pode ser colocado nos seguintes
termos: a Constituição de 1988 dispõe
JUSTIFICAÇÃO de maneira explícita quanto à nature-
za bicameral do Congresso Nacional,
Esta proposição se fundamenta no mas para que possa funcionar como
entendimento de que a ausência de um só corpo de eleitores indiretos do
normatização do art. 81, §1o, da CF Presidente da República se faz neces-
é uma atitude imprevidente e ina- sária uma lei onde haja essa previsão.
ceitável, porta aberta à grave crise Busca-se, pois, com esse projeto de
institucional e anúncio antecipado lei estabelecer as condições para o
de intervenção do Supremo Tribunal funcionamento do Poder Legislativo
Federal em substituição ao Congres- como um corpo de eleitores.
so Nacional, cuja inanição, mais uma
vez, teria criado o espaço para a prá- Outra questão enfrentada pelo dis-
tica do ativismo legiferante do Poder posto neste projeto de lei refere-se à
Judiciário. adaptação das condições de elegibi-
lidade e das causas de inelegibilidade
A realização de eleição indireta pelo usualmente aplicáveis nas eleições di-
Congresso Nacional, no curto prazo retas pelo voto universal, que são pre-
de apenas trinta dias depois de vagos, visíveis e, assim, permitem o estabele-
em definitivo, os cargos de Presidente cimento de um marco normativo que
e Vice-Presidente da República, re- favoreça o predomínio da vontade do
presenta um desafio para as lideran- eleitor no resultado das eleições.
ças políticas do País. Além da como-
ção natural dos momentos de perda, No entanto, a natureza imprevisível
haverá uma tensão extraordinária, da vacância, em definitivo, dos cargos
derivada do vazio quanto às normas de Presidente e Vice-Presidente da
que deveriam presidir a escolha dos República, não permite que seja exi-
primeiros mandatários da Nação. O gida aos candidatos à eleição indireta
presente projeto de lei visa preencher a obediência aos requisitos próprios
essa lacuna normativa. de eleição direta. Trata-se, pois, de
evitar, no momento de emergência
Três temas merecem a atenção: (i) o institucional, a incidência do mar-
funcionamento do Congresso Na- co normativo vinculado às situações

138 RELEITURA | ano 2 número 4


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

de normalidade, de natureza perene, impossibilitado de participar como


pois são condicionamentos justos e candidato na eleição (direta) de seu
apropriados à rotina da vida política sucessor. Ou seja, espera-se que ele
e eleitoral do País que não podem ser venha a se desempenhar como um
impostos de modo rígido nos mo- magistrado na condução temporá-
mentos de natureza emergencial. ria da Nação, mantendo-se isento no
jogo político que cuidará da eleição
Outra dimensão dessa problemática de seu sucessor. Para tanto, na situa-
consiste na necessidade de serem fle- ção específica e única de uma eleição
xibilizados os condicionamentos pró- indireta, propõe-se uma exceção ao
prios aos eventos eleitorais de natu- disposto no § 5o do art. 14 da Consti-
reza previsível, de modo que possam tuição Federal, que permite a reelei-
ser feitos acordos políticos favoráveis ção mediante eleição direta do Presi-
à superação do impasse resultante da dente eleito anteriormente pelo voto
vacância da Presidência. popular.

Assim, permite-se que um governa- Busca-se evitar a seguinte hipótese


dor de estado ou ministro de estado, desfavorável à prática republicana:
no exercício de suas responsabilida- uma coligação política, que ocupe a
des institucionais, possam ser candi- Presidência da República e detenha
datos a cumprir o prazo restante do a maioria no Poder Legislativo, pode-
período presidencial interrompido. ria provocar, mediante a renúncia de
Assume-se ser prioritária a pronta e seus filiados dos cargos de Presidente
imediata construção de respostas po- e Vice-Presidente, a eleição indireta
líticas para o preenchimento do va- de seu candidato às próximas elei-
zio presidencial. Com esse objetivo, ções pelo voto universal. No exercício
propomos uma exceção ao dispos- da função presidencial, esse candida-
to no § 6o do art. 14 da Constituição to (ou candidata) disporia das van-
Federal que veda a participação de tagens que o instituto da reeleição
presidente, governadores e prefeitos proporciona aos titulares dos cargos
em eleição direta sem a prévia de- eletivos, em detrimento dos demais
sincompatibilização, a seis meses do candidatos.
pleito. Essa flexibilidade visa ampliar
as possibilidades de construção de Ou seja, uma coligação política em
uma saída política para a emergência posição dominante poderia se man-
institucional e deve ser analisada em ter no exercício do poder. Mediante
combinação com a restrição imposta uma combinação de ações políticas,
ao candidato eleito, como se apresen- seria possível favorecer um candida-
ta a seguir. to a Presidente mediante sua eleição
indireta antes do enfrentamento de
Paralelamente à flexibilidade acima seus adversários na próxima eleição
indicada, propõe-se uma inovação direta, caso perceba que são frágeis
no instituto da reeleição: o candi- as possibilidades de vitória na eleição
dato eleito (indiretamente) estaria pelo voto popular.

RELEITURA | jul./dez. 2011 139


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

Como um reforço à natureza repu- te acerca desta proposição, certo de


blicana do Estado brasileiro, dá-se estarmos dotando o marco político-
um vigor especial à previsão do § 7o -institucional brasileiro das normas
do art. 14 da CF, vedando-se termi- necessárias para enfrentar uma even-
nantemente a participação na eleição tual emergência institucional decor-
indireta de parentes do Presidente e rente da vacância definitiva dos car-
Vice-Presidente recém-afastados de gos de Presidente e Vice-Presidente
seus cargos. da República na segunda metade do
período presidencial.
Por último, cabe enfatizar a ideia de
exigir dos candidatos uma história de
vida acima de qualquer suspeita ou Conclusão
denúncia de malfeito. Busca-se apli-
car a Lei Complementar no 135, de A proposta de um projeto de lei para
2010, mais conhecida como a Lei da atender ao comando do § 1o do art.
Ficha Limpa. Essa Lei alterou a legis- 81 da CF é o resultado do esforço de
lação eleitoral para incluir hipóteses compreensão do desafio de realiza-
de inelegibilidade que visam a pro- ção de uma eleição indireta tendo
teger a probidade administrativa e a como corpo de eleitores os deputa-
moralidade no exercício do mandato. dos federais e os senadores sem dis-
Cabe recordar que a Ficha Limpa foi tinção, cabendo a cada qual um voto.
resultado de um esforço de ano e cin-
co meses, com a coleta de 1,3 milhão Nos Estados, Distrito Federal e nos
de assinaturas da Campanha Ficha Municípios, o Poder Legislativo é
Limpa em todo o País. composto de uma só casa legislativa.
Logo, não há dificuldade na transfor-
No projeto de lei foram incorporados mação dos legisladores em eleitores
as causas de inelegibilidade da Lei do mandatário do respectivo Poder
Complementar no 135, de 2010, com o Executivo quando há vacância, em
gravame de perenidade em substitui- definitivo, dos cargos durante a se-
ção à natureza temporária, em algu- gunda metade de seus mandatos ob-
mas delas, de até oito anos. Isso por- tidos nas urnas pelo voto popular.
que acreditamos que as condições de
elegibilidade e as causas de inelegibi- No entanto, todas as normas para o
lidade propostas no art. 6o deste pro- funcionamento do Congresso Nacio-
jeto de lei correspondem à exigência nal se referem a reuniões conjuntas
aos candidatos à eleição indireta para das duas Casas. Assim, a verificação
Presidente da República de uma ficha de quórum ou as votações são sem-
limpíssima, de modo que possam ter pre realizadas de modo isolado em
legitimidade para a condução tempo- cada Casa. Ora, tal procedimento in-
rária dos destinos de nosso País. viabiliza o exercício de eleição indire-
ta de Presidente e Vice-Presidente da
Com estes antecedentes, solicitamos República. Há, pois, a necessidade de
aos nossos Pares o apoio para o deba- uma lei que venha a disciplinar o pro-

140 RELEITURA | ano 2 número 4


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

cesso de eleição indireta nos termos formativo/documento/ informativo562.htm.


do § 1o do art. 81 da CF. Acesso em 16 de agosto de 2010.

BRASIL. Tribunal Regional Eleitoral do Distrito


Como conclusão, propõe-se a utiliza- Federal (TRE-DF) Acórdão no 2.885 do TRE-DF.
ção do sistema unicameral para a re- Brasília. Publicado no Diário da Justiça Eletrô-
alização da eleição indireta, tal como nico de 18 de março de 2010. Acesso em 16 de
foi utilizado na Assembleia Nacional agosto de 2010.
Constituinte de 1987/88 e na Revisão
Constitucional de 1993. A minuta de BRASIL. Constituição (1988). Brasília. Senado
Federal. Disponível no endereço eletrônico:
projeto de lei aqui apresentada segue http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Consti-
essa orientação e se amolda às nor- tuicao/Constituiçao.htm#adct. Acesso em 13
mas originárias de funcionamento de agosto de 2010.
do Poder Constituinte, permitindo o
funcionamento do Congresso Nacio- BRASIL. Constituição (1934). Brasília. Se-
nal como um corpo homogêneo de nado Federal. Disponível no endereço
eletrônico:http://www.planalto.gov.br/cci-
eleitores. vil_03/Constituicao/Constituiçao34.htmcci-
vil_03/Constituicao/Constituiçao.htm#adct .
Acesso em 16 de agosto de 2010.
Bibliografia
BRASIL. Constituição (1967/69). Emenda
BRASIL. Congresso Nacional. Regimento Co- Constitucional no 26, de 27 de Novembro de
mum. Resolução no 1, de 1970-CN, com altera- 1985. Convoca Assembleia Nacional Consti-
ções posteriores, até 2006, e legislação conexa. tuinte e dá outras providências. Brasília. Sena-
Brasília. Congresso Nacional. 2007. Disponível do Federal. Disponível no endereço eletrônico:
no endereço: http://www.senado.gov.br/legis- http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Consti-
lacao/regsf/ RegCN.pdf. Acesso em 13 de agos- tuicao/Emendas/Emc_anterior1988/emc26-
to de 2010. 85.htm . Acesso em 13 de agosto de 2010.

BRASIL. Congresso Nacional. Revisão da Cons- BRASIL. Assembleia Nacional Constituinte.


tituição Federal em 1993. RESOLUÇÃO No 1, Resolução da Assembleia Nacional Consti-
DE 1993-RCF. Dispõe sobre o funcionamento tuinte no 2, de 25 de Março de 1987. Dispõe
dos trabalhos de revisão constitucional e estabe- sobre o Regimento Interno da Assembleia Na-
lece normas complementares específicas. Brasí- cional Constituinte. Brasília. Câmara dos De-
lia, 18 de Novembro de 1993. Senado Federal. putados. Disponível no endereço eletrônico:
2010. Disponível no endereço: http://www6. http://www2.camara.gov.br/legin/fed/resa-
senado.gov.br/sicon/# . Acesso em 13 de agos- co/1980-1987/resolucaodaassembleianacio-
to de 2010. nalconstituinte-2-25-marco-1987-592261-pu-
blicacao-117307-pl.html . Acesso em 13 de
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. ADI agosto de 2010.
3.685-8, de 31.03.2006. Disponível no en-
dereço eletrônico: http://www.stf.jus.br/ BRASIL. Ato Institucional no 16, de 14 de Outu-
portal/processo/verProcessoAndamento. bro de 1969. Brasília. Palácio do Planalto. Dis-
asp?incidente=2367564. Acesso em 13 de agos- ponível no endereço eletrônico: http://www.
to de 2010. planalto. gov.br/ccivil_03/AIT/ait-16-69.htm.
Acesso em 13 de agosto de 2010.
BRASIL. Superior Tribunal Eleitoral. Informa-
tivo do STF no 562. Disponível no endereço BRASIL. Lei Complementar no 135, de 4 de ju-
eletrônico: http://www.stf.jus.br//arquivo/in- nho de 2010. Altera a Lei Complementar no 64,

RELEITURA | jul./dez. 2011 141


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

de 18 de maio de 1990, que estabelece, de acordo sileg/Prop_Detalhe.asp?id=16527 . Acesso em


com o § 9o do art. 14 da Constituição Federal, ca- 16 de agosto de 2010.
sos de inelegibilidade, prazos de cessação e deter-
mina outras providências, para incluir hipóteses BRASIL. Câmara dos Deputados. Projeto de Lei
de inelegibilidade que visam a proteger a probi- no 1.888, de 1999, de autoria do Deputado Frei-
dade administrativa e a moralidade no exercício re Júnior. Dispõe sobre a eleição presidencial
do mandato. Brasília. Palácio do Planalto. Dis- motivada por vacância, nos termos do art. 81,
ponível no endereço eletrônico: http://www. § 1o da Constituição Federal. Disponível no en-
planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/LCP/Lcp135. dereço eletrônico: http://www.camara.gov.br/
htm. Acesso em 13 de agosto de 2010. sileg/Prop_Detalhe.asp?id=17358 . Acesso em
16 de agosto de 2010.
BRASIL. Lei no 4.737, de 15 de julho de 1965.
Institui o Código Eleitoral. Brasília. Palácio do BRASIL. Câmara dos Deputados. Projeto de Lei
Planalto. Disponível no endereço eletrônico: no 5.960, de 2005, de autoria do Deputado Mar-
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/ cos Abramo. Dispõe sobre a eleição pelo Con-
L4737.htm. Acesso em 16 de agosto de 2010. gresso Nacional do Presidente e Vice-Presiden-
te da República, vagando ambos os cargos, nos
BRASIL. Lei no 1.395, de 13 de Julho de 1951. dois últimos anos do mandato, nos termos do
Dispõe sobre a eleição do Presidente e do Vice- art. 81 da Constituição Federal. Disponível no
-Presidente da República pelo Congresso Nacio- endereço eletrônico: http://www.camara.gov.
nal. Brasília. Senado Federal. Disponível no en- br/sileg/Prop_Detalhe. asp?id=301668. Acesso
dereço eletrônico: http://www6.senado.gov.br/ em 16 de agosto de 2010.
legislacao/ ListaPublicacoes.action?id=107769.
Acesso em 13 de agosto de 2010. BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Recurso
Contra Expedição de Diploma (RCED) no 698.
BRASIL. Lei no 4.321, de 7 de Abril de 1964. Dis- RECURSO CONTRA EXPEDIÇÃO DE DIPLO-
põe sobre a eleição, pelo Congresso Nacional, do MA. ELEIÇÕES 2006. CAPTAÇÃO ILÍCITA DE
Presidente e Vice-Presidente da República. Bra- SUFRÁGIO. ABUSO DE PODER POLÍTICO E
sília. Senado Federal. Disponível no endereço ECONÔMICO. USO INDEVIDO DOS MEIOS
eletrônico: http://www6.senado.gov.br/sicon/ DE COMUNICAÇÃO. Disponível no endereço
ListaReferencias.action?codigoBase=2&codigo eletrônico: http://www.tse.gov.br/sadJudSa-
Documento=114791. Acesso em 13 de agosto dpPush/ExibirDadosProcesso Jurisprudencia.
de 2010. do?nproc=698&sgcla=RCED_&comboTribuna
l=tse&dataDecisao=25/06/2009. Acesso em 16
BRASIL. Câmara dos Deputados. Projeto de Lei de agosto de 2010.
no 2.893, de 1992, de autoria do Senado Fede-
ral – Senador Mansueto Lavor. Dispõe sobre a Supremo confirma eleição indireta em Tocan-
eleição de Presidente e Vice-Presidente da Re- tins. Análise recolhida no site “Consultor Jurí-
pública pelo Congresso Nacional e dá outras dico”. Disponível no seguinte endereço eletrô-
providências. Disponível no endereço eletrôni- nico: http://www.conjur. com.br/2009-out-07/
co: http://www.camara.gov.br/sileg/ Prop_De- stf-confirma-eleicao-indireta-aberta-governa-
talhe.asp?id=18780 . Acesso em 16 de agosto de dor-vice-tocantins.
2010.
TSE cassa mandato do governador de Tocan-
BRASIL. Câmara dos Deputados. Projeto de tins e determina eleição indireta. A Justiça do
Lei no 1.292-A, de 1999, de autoria do Deputa- Direito Online. Correioforense.com.br, em
do Nicias Ribeiro. Regulamenta o artigo 81 da 26/6/2009. Disponível no endereço eletrônico:
Constituição e estabelece normas para a elei- http://www.correioforense.com.br/noticia/
ção do Presidente e Vice-Presidente da Repú- idnoticia/46111/titulo/ tse_cassa_manda-
blica, no caso da vacância de ambos os cargos to_do_governador_de_tocantins_e_determi-
e dá outras providências. Disponível no ende- na_eleicao_indir.html. Acesso em 16 de agosto
reço eletrônico: http://www.camara.gov.br/ de 2010.

142 RELEITURA | ano 2 número 4


ELEIÇÃO INDIRETA PARA
O PODER EXECUTIVO

Tocantins: TRE decide que Assembleia vai BASTOS, Celso Ribeiro; MARTINS, Ives Gandra
definir regra de eleição indireta. Notícias da da Silva. Comentários à Constituição do Brasil.
Amazônia, em 26/06/2009, tendo como fonte Saraiva. São Paulo. 1996.
a Folha de São Paulo. Disponível no endereço
eletrônico: http://www.noticiasdaamazonia. NEGRÃO, Luiz Alexandre Kikuchi. Eleição Indi-
com.br/10154-tocantins-tre-decide-que-as- reta para Presidente da República, Governador
sembleia-vai-definir-regra-de-eleicao-indire- e Prefeito, in Doutrina Jus Navegandi. Elabora-
ta/. Acesso em 16 de agosto do em 5/2006. Disponível no endereço: http://
jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=8420.
TSE garante à Assembleia autonomia e com- Acesso em 13 de agosto de 2010.
petência para comandar eleição indireta. Em
www.PORTALCT.com.br. Em 24 de setembro SILVA, José Afonso. Comentário Contextual à
de 2009. A informação foi obtida no ende- Constituição. Editora Malheiros. São Paulo.
reço eletrônico: http://www.portalct.com. 2005.
br/n/4535a4271f606359 ffb8a6d04af5eb2d/
tse-assembleia-tem-autonomia-e-competen- TRINDADE, Fernando. Reflexões sobre algu-
cia-para-ge/ mas questões pertinentes à tramitação, no Se-
nado Federal, de proposta de emenda à Cons-
TJ decide manter eleição indireta no Distrito tituição – PEC. Brasília. Consultoria Legislativa
Federal. Diário do Grande ABC. Em 22 de mar- do Senado Federal. 2003.
ço de 2010. Informação divulgada no seguinte
endereço eletrônico: http://www.dgabc.com.
br/News/5805568/tj-decide-manter-eleicao-
-indireta-no-distrito-federal.aspx

RELEITURA | jul./dez. 2011 143


PROGRAMA DO
LIVRO DIDÁTICO
O Livro Didático, o Mercado Editorial e
os Sistemas de Ensino Apostilados
Por:
Tatiana Feitosa de Britto1

Resumo
Os programas federais de aquisição e distribuição de material
didático têm importância indiscutível para a educação brasi-
leira e vêm sendo consolidados, expandidos e aprimorados ao
longo dos últimos anos. Este artigo apresenta as características
desses programas e seus mecanismos de execução, com espe-
cial ênfase no processo de avaliação pedagógica das obras. Além
disso, discute e contextualiza sua importância para o mercado
editorial e aborda a introdução de sistemas apostilados em al-
gumas redes de ensino, em substituição aos livros adquiridos
pelo Governo Federal. Nas conclusões, o texto apresenta suges-
tões para o aperfeiçoamento dessa política pública e argumen-
ta que o fortalecimento institucional dos programas de ma-
terial didático passa pelo acompanhamento de sua execução
pelo Congresso Nacional e pela sociedade, alertando, contudo,
para o risco de que se restrinja o debate a questões pedagógicas
e didáticas, próprias de educadores e especialistas.

Palavras-chave
Educação; livro didático; mercado editorial; apostilas

Os programas de aquisição de livros didáticos executados pelo


Governo Federal destacam-se como uma das ações supletivas
mais relevantes da União para apoiar a qualidade da educação
nos estados e municípios. Esses programas experimentaram
significativos incrementos nos últimos anos, em termos de
magnitude e abrangência, e têm sido alvo de críticas relaciona-
das a supostos vieses políticos e equívocos pedagógicos.

Este trabalho visa apresentar as características dos programas


de material didático e seus mecanismos de execução, com es-
pecial ênfase no processo de avaliação pedagógica das obras.

1
Consultora Legislativa da área de Educação. Mestre em Políticas Públicas pelo Institute of
Social Studies (Haia – Holanda) e doutoranda em Sociologia pela Universidade de Brasília.

RELEITURA | jul./dez. 2011 145


PROGRAMA DO
LIVRO DIDÁTICO

Além disso, discute e contextuali- para assegurar a qualidade do mate-


za a importância dos programas de rial adquirido. De 2001 em diante, os
aquisição de livros didáticos para o alunos com deficiência começaram
mercado editorial brasileiro. Por fim, a ser contemplados, com a aquisição
aborda o tema da introdução de siste- de livros em braille e, mais recente-
mas apostilados em algumas redes de mente, com a compra de cartilhas,
ensino, que deliberadamente optam dicionários e CD-ROMs da Língua
por não utilizar os livros adquiridos Brasileira de Sinais (LIBRAS), a ado-
pelo Governo Federal. ção de novos formatos de acessibi-
lidade eletrônica para deficientes
Não se trata, aqui, de discutir os con- visuais (Mecdaisy), além do atendi-
teúdos didáticos incluídos em de- mento dos alunos da rede filantrópi-
terminadas obras, dessa ou daquela ca de educação especial.
disciplina. Julgamos que essa tarefa é
da alçada dos professores e especia- A partir de 2004, a aquisição de livros
listas de cada área, que respondem didáticos estendeu-se a outras etapas
pela avaliação pedagógica dos livros e modalidades da educação básica,
inscritos nos programas. O objetivo por meio do Programa Nacional do
que nos conduz é o de dar visibili- Livro Didático para o Ensino Médio
dade a aspectos importantes de uma (PNLEM) e do Programa Nacional do
iniciativa que movimenta milhões de Livro Didático para a Alfabetização
recursos públicos e problematizar de Jovens e Adultos (PNLA), este pos-
aspectos de sua implementação que teriormente transformado no PNLD
poderiam, eventualmente, ser aper- EJA. O termo programas de material
feiçoados. didático será utilizado neste estu-
do para referir-se conjuntamente ao
PNLD, PNLEM e PNLD EJA2.
1. Os programas federais
As iniciativas amparam-se no art.
de aquisição de material 208, VII, da Constituição Federal, que,
didático conforme a redação dada pela Emen-
da Constitucional no 59, de 2009,
O Programa Nacional do Livro Di- impõe ao Estado o dever de garantir
dático (PNLD), criado em 1985, é atendimento ao educando em todas
herdeiro de uma longa trajetória as etapas da educação básica, por
de políticas públicas que se iniciou meio de programas suplementares de
em 1929, com a criação do Instituto material didático escolar, transporte,
Nacional do Livro. Em meados dos alimentação e assistência à saúde.
anos 1990, o programa foi substan- Seu regulamento básico encontra-se
cialmente aperfeiçoado, com a uni- na Resolução no 60, de 20 de novem-
versalização do atendimento para
os alunos do ensino fundamental 2
Além desses, deve-se mencionar o Programa Nacio-
regular em escolas públicas e a in- nal Biblioteca na Escola (PNBE), destinado a prover
as escolas públicas de acervos de obras literárias, de
trodução da avaliação pedagógica referência e de pesquisa.

146 RELEITURA | ano 2 número 4


PROGRAMA DO
LIVRO DIDÁTICO

bro de 2009-FNDE, e no Decreto no • livros reutilizáveis de Língua Por-


7.084, de 27 de janeiro de 2010. tuguesa, Matemática, História, Ge-
ografia, Biologia, Química e Física;
O PNLD, o PNLEM, e o PNLD EJA
são executados pelo Fundo Nacional • livros consumíveis de Língua Es-
de Desenvolvimento da Educação trangeira (inglês e espanhol), a par-
(FNDE), autarquia vinculada ao Mi- tir de 2012;
nistério da Educação (MEC). Os re- • livros consumíveis de Filosofia e
cursos que os sustentam provêm, em Sociologia, em volumes únicos, a
sua maioria, da cota federal da arre- partir de 2012;
cadação do salário-educação.
• acervos de dicionários, para uso nas
Atualmente, os programas contem- salas de aula de 1o ao 3o ano, com ti-
plam a aquisição e a distribuição dos pologia adequada para esta etapa.
seguintes materiais: 3) Para a educação de jovens e adul-
tos:
1) Para o ensino fundamental:
• livros consumíveis de Letramento e
• livros consumíveis de Alfabetização Alfabetização Linguística e Alfabeti-
Matemática e Alfabetização Lin- zação Matemática, em volume úni-
guística, para o 1o e o 2o ano;
co, para turmas de alfabetização;
• livros reutilizáveis de Língua Portu-
• livros consumíveis de Língua Portu-
guesa e Matemática, para alunos do
guesa, Matemática, História, Geo-
3o ao 9o ano;
grafia, Artes e Ciências, para alunos
• livros reutilizáveis de Ciências, His- do 2o ao 5o ano;
tória e Geografia, para alunos do 2o
• livros consumíveis de Língua Por-
ao 9o ano;
tuguesa, Matemática, História, Ge-
• livros consumíveis de Língua Es- ografia, Artes, Ciências e Língua
trangeira (inglês ou espanhol) para Estrangeira Moderna (inglês ou es-
alunos do 6o ao 9o ano; panhol), para alunos do 6o ao 9o ano.
• acervos de obras complementares, Os livros consumíveis são aqueles en-
para uso nas salas de aula de 1o e 2o tregues aos beneficiários sem neces-
anos, abrangendo as áreas do co- sidade de devolução ao final do ano
nhecimento de Linguagem e Códi- letivo. Os reutilizáveis devem ser de-
gos, Ciências Humanas e Ciências volvidos pelos alunos ao final do ano
da Natureza e Matemática; e são conservados em uso por um pe-
ríodo de três anos. Os acervos não são
• acervos de dicionários, para uso
de uso individual: constituem mate-
nas salas de aula do 1o ao 9o ano,
rial permanente das escolas.
com tipologia adequada para cada
faixa etária. Considerando a vida útil dos livros
2) Para o ensino médio: reutilizáveis, os programas organi-

RELEITURA | jul./dez. 2011 147


PROGRAMA DO
LIVRO DIDÁTICO

zam-se em ciclos trienais, conforme seguida, realiza-se uma triagem das


o Quadro 1 abaixo. obras inscritas, a cargo do Instituto
de Pesquisas Tecnológicas do Estado
Assim, a quantidade de livros adqui- de São Paulo, para verificar a confor-
ridos e distribuídos anualmente varia midade técnica e física dos livros com
conforme a etapa da educação bási- as exigências do edital.

Quadro 1 – Aquisições do PNLD/PNLEM


PNLD/PNLEM Ano 1 Ano 2 Ano 3
Ensino fundamental (1 ao 5 ano)
o o
Aquisição integral Reposição parcial Reposição parcial
Ensino fundamental (6 ao 9 ano)
o o
Reposição parcial Aquisição integral Reposição parcial
Ensino médio Reposição parcial Reposição parcial Aquisição integral

ca a ser integralmente atendida. Em O passo seguinte é a avaliação peda-


2009, o montante de obras adquiri- gógica, coordenada pela Secretaria
das para o ano letivo de 2010 ultra- de Educação Básica do MEC, que será
passou a marca dos 110 milhões de discutida em maiores detalhes na se-
volumes. Segundo o FNDE, naquele ção 3. As obras aprovadas na avalia-
ano o Governo Federal investiu R$ ção pedagógica passam a constar do
577,6 milhões na compra de livros di- Guia do Livro Didático, que é distri-
dáticos para a educação básica e R$ buído a todas as escolas do País, para
112,8 milhões na distribuição dessas que os docentes façam suas escolhas.
obras para todo o País, por meio de Feita a escolha, o estabelecimento
pagamento à Empresa Brasileira de escolar deve encaminhar o pedido
Correios e Telégrafos (ECT). ao FNDE, por meio da internet ou de
formulário remetido pelos Correios.
A magnitude das estimativas referen- Nos pedidos, deve constar a primeira
tes ao custo dos programas de mate- e a segunda opção da escola.
rial didático para 2011 (cuja aquisição
ocorreu em 2010) é ainda mais im- Compilados os pedidos, o FNDE ne-
pressionante. O valor total chegaria gocia a aquisição dos exemplares di-
a R$ 1 bilhão, beneficiando cerca de retamente com as editoras, relativos
37 milhões de alunos matriculados à primeira opção manifestada pelas
em mais de 148 mil escolas de ensino escolas. A aquisição é realizada por
fundamental e médio. inexigibilidade de licitação, conside-
rando que as escolhas dos livros são
O funcionamento dos programas do efetivadas pelos professores.
livro didático divide-se em diversas
etapas. O marco inicial é a publicação Concluída a negociação, o FNDE
do edital com os critérios para ins- firma um contrato com cada edito-
crição das obras pelas editoras3. Em
tivadas. Não há limite máximo do número de obras
3
O edital apresenta detalhadamente os critérios que que podem ser inscritas, nem definição de preços
devem ser seguidos para que as inscrições sejam efe- nessa etapa.

148 RELEITURA | ano 2 número 4


PROGRAMA DO
LIVRO DIDÁTICO

ra, com quantitativos baseados em rial didático foi iniciada em 1996. A


projeções do número de alunos nas novidade é reputada como um dos
escolas, calculadas a partir do Censo principais aprimoramentos dessa
Escolar mais atualizado. Não haven- política pública, juntamente com a
do acordo entre as partes em relação universalização do atendimento e a
ao preço, o regulamento permite que ampliação para outras etapas e mo-
o FNDE, em respeito ao princípio da dalidades da educação básica além
economicidade, contrate a aquisi- do ensino fundamental. Mas está lon-
ção de obras escolhidas em segun- ge de ser isenta de críticas.
da opção. Na eventualidade de novo
impasse, o Fundo pode negociar a O processo de avaliação vem sendo
aquisição da obra mais escolhida na modificado a cada ano. No início,
região da escola. eram constituídas comissões de espe-
cialistas por área, que classificavam
A distribuição é feita diretamente pe- as obras como Recomendadas com
las editoras às escolas, por meio de Distinção (3 estrelas); Recomendadas
um contrato entre o FNDE e a ECT. A (2 estrelas); Recomendadas com Res-
previsão de chegada dos livros aos es- salvas (1 estrela); Não Recomendadas.
tabelecimentos de ensino se dá entre Todas as obras avaliadas constavam
outubro e o início do ano letivo. do Guia, e não havia impedimento
para que os professores optassem por
Vale ressaltar que, desde 2009, exige- livros recomendados com ressalva ou
-se que as redes de ensino firmem não recomendados – o que, de fato,
termo de adesão com o FNDE para ocorria com frequência.
formalizar sua participação nos pro-
gramas de livro didático. Essa medida Em 2001, as obras não recomendadas
visa maximizar a eficiência dos recur- deixaram de constar do Guia e, em
sos empregados, de modo a evitar a 2004, abandonou-se o sistema de es-
remessa automática de livros para trelas. A partir de 2007, abandonou-se
estados ou municípios que adotem o sistema de classificação como um
outros materiais didáticos, como sis- todo, e o Guia passou a incluir apenas
temas apostilados4. as resenhas das obras recomendadas.

Além disso, a avaliação passou a ser


2. A avaliação pedagógica realizada por equipes técnicas das
instituições de ensino superior públi-
dos livros didáticos cas, e não mais por comissões de es-
pecialistas diretamente contratados
A avaliação pedagógica do material
pelo MEC. Assim, a avaliação de cada
adquirido pelos programas de mate-
área passou a ser efetuada sob a res-
ponsabilidade de uma única univer-
4
Caso não faça a escolha do livro que será utilizado, sidade pública, contratada mediante
a escola participante do programa recebe exemplares
correspondentes aos livros mais solicitados em sua convênio com a Secretaria de Educa-
região. Ainda hoje, o percentual de escolas que dei-
xam de enviar suas opções ao FNDE beira os 20%. ção Básica do MEC.

RELEITURA | jul./dez. 2011 149


PROGRAMA DO
LIVRO DIDÁTICO

Outra inovação ocorreu na avaliação foram excluídas do Guia do Livro Di-


e na própria aquisição dos livros. O dático5.
processo passou a se realizar sobre
coleções didáticas para cada segmen- O processo de avaliação sofreu diver-
to de ensino (anos iniciais do ensino sas críticas. Já foi acusado de elitista
fundamental, anos finais do ensi- – por ser executado por equipes de
no fundamental e ensino médio), e professores universitários, sem ex-
não mais sobre livros avulsos. Com periência de docência na educação
isso, procurou-se evitar o problema básica; hermético – por não haver di-
da descontinuidade didático-peda- vulgação dos pareceres produzidos e
gógica, que poderia comprometer a dos nomes dos pareceristas, que po-
transição de uma série a outra, uma deriam, inclusive, estar eticamente
vez que livros de diferentes coleções impedidos de proceder à avaliação,
costumam apresentar distintas abor- caso fossem próximos aos autores e
dagens metodológicas e formas pró- às editoras das obras avaliadas; exces-
prias de organização de conteúdos. sivamente caro – pelos altos valores
pagos às universidades participantes,
A justificativa da avaliação é agregar repassados, muitas vezes, por meios
qualidade ao processo de aquisição das fundações de apoio à pesquisa;
de material didático. Assim, preten- ditatorial – por não contemplar a pos-
de-se que os livros que apresentam sibilidade de recurso pelos autores de
erros conceituais, induzem os alunos obras reprovadas; enviesado – por
a erros, estejam desatualizados ou de- privilegiar uma abordagem pedagó-
notem preconceito ou discriminação gica construtivista, em detrimento de
de qualquer tipo sejam excluídos do abordagens instrucionistas; subjetivo
Guia do Livro Didático. Além disso, o – por adotar critérios pouco claros e
Guia deve ser utilizado para orientar abertos a diferentes interpretações.
a escolha dos professores na ponta,
a qual deve ser realizada de maneira De fato, parte dessas críticas procede
democrática e participativa no esta- e, por isso mesmo, encontrou resso-
belecimento escolar. nância junto aos responsáveis pe-
los programas no MEC e no FNDE.
Na prática, a avaliação vem causan- O Decreto no 7.084, de 27 de janeiro
do bastante desconforto junto ao de 2010, trouxe aprimoramentos que
mercado editorial. Nas primeiras ex- pretendem sanar alguns dos proble-
periências, grandes editoras tiveram mas apontados.
livros consagrados pelo uso repro-
vados pelos avaliadores. Para se ter O art. 14 do mencionado decreto, por
uma ideia, na avaliação de 1996, de exemplo, estipula que as universida-
um total de 466 livros inscritos, 281
(60%) foram classificados como não 5
Esse é o caso dos autores Francisco Azevedo de Ar-
ruda Sampaio e Aloma Fernandes de Carvalho, que
recomendados. Mais recentemente, publicaram o livro Com a palavra, o autor – Em nossa
coleções que haviam sido aprovadas defesa: um elogio à importância e uma crítica às limi-
tações do Programa Nacional do Livro Didático, Edito-
com louvor em avaliações anteriores ra Sarandi, 2010.

150 RELEITURA | ano 2 número 4


PROGRAMA DO
LIVRO DIDÁTICO

des deverão constituir equipes téc- terpretação desses critérios, por dife-
nicas para a avaliação pedagógica, rentes equipes, a cada edição do Guia
formadas não apenas por professores do Livro Didático.
de seu quadro funcional, mas tam-
bém de outras instituições de ensino Dessa forma, a nosso ver, algumas
superior e da rede pública de ensino. medidas já vêm sendo tomadas para
Além disso, os integrantes das equi- aprimorar o processo de avaliação
pes de avaliação devem firmar decla- pedagógica dos livros didáticos. Ain-
ração de que não prestam serviço ou da que exista espaço para o aper-
consultoria, nem são parentes até o feiçoamento desse mecanismo, in-
terceiro grau dos titulares de direito cluindo a redução de seus custos e
autoral ou de edição inscritos no pro- a maior transparência do processo,
cesso. a avaliação pedagógica configura-
-se como extremamente importante
O § 3o do art. 20 da mesma norma para agregar qualidade a uma política
inovou ao prever a possibilidade de pública cara e abrangente, executada
recurso no caso de parecer indicati- pelo Governo Federal, respeitando o
vo de reprovação da obra. Ainda que contexto de descentralização da edu-
o recurso não seja analisado por uma cação básica.
equipe independente, como defen-
dem os críticos da avaliação peda- A nova onda de críticas dirigida a al-
gógica, o decreto determina que sua gumas das obras incluídas no Guia do
apreciação seja conduzida por três Livro Didático enfocou muito mais o
pareceristas que, embora integrantes conteúdo desses livros, do que o pro-
das equipes de avaliação dos progra- cesso de avaliação em si. As críticas
mas, não tenham participado da ava- concentraram-se em uma coleção de
liação inicial da obra reprovada. História, acusada de conter vieses po-
lítico-partidários na análise histórica
Os critérios de avaliação das obras, contemporânea do País, e em uma
por sua vez, encontram-se detalha- obra de Língua Portuguesa, destina-
damente descritos nos editais dos da ao segmento de jovens e adultos,
programas, tanto em termos gerais acusada de contrariar a norma culta
quanto especificamente para cada da língua e incentivar os estudantes a
componente curricular. Isso não im- se expressarem de maneira incorreta,
pede, contudo, a prevalência de uma nos termos da linguagem popular.
determinada concepção pedagógica,
consolidada nas diretrizes curricula- As editoras e os autores das obras cri-
res em vigor e nos parâmetros cur- ticadas, bem como as próprias auto-
riculares nacionais (PCNs)6, nem a ridades do MEC, já se manifestaram
ocorrência de inconsistências na in- sobre essas críticas, justificando a
adequação dos conteúdos dos livros
6
Curiosamente, a articulação entre a avaliação peda- do ponto de vista didático-pedagógi-
gógica e os PCNs não se dá de forma automática. De
fato, há registro de especialistas que participaram da co. Ademais, dadas as especificidades
elaboração dos PCNs que tiveram suas obras reprova-
das no Guia do Livro Didático. de funcionamento do programa –

RELEITURA | jul./dez. 2011 151


PROGRAMA DO
LIVRO DIDÁTICO

cuja avaliação pedagógica é feita por aquisição de aproximadamente 90%


especialistas externos ao Ministério dos livros publicados); do lado da
e cuja escolha das obras recai sobre oferta, configura-se um oligopólio
os próprios professores da educação (poucas editoras vêm concentrando
básica –, a hipótese de dirigismo po- o maior volume de compras do FNDE
lítico deliberado deve ser vista com ao longo do tempo).
cautela. Pesa, ainda, o fato de que a
coleção de História objeto de críticas Desde o início dos programas de livro
é editada por uma das mais impor- didático, identificam-se sete editoras
tantes editoras do País, cuja atuação que foram parceiras constantes do
não dá indícios de favorecer politica- MEC: Ática, Brasil, IBEP, FTD, Nacio-
mente o atual governo. nal, Saraiva e Scipione. Mais recente-
mente, a editora Moderna passou a
Quanto à crítica sobre o suposto aten- integrar essa lista.
tado cometido à língua pátria, a aná-
lise contextualizada da obra desmen- Segundo a magnitude, uma análise
te todas as acusações. Trata-se, tão do período de 1998 a 2006 aponta que
somente, de reconhecer as variantes mais de 90% das compras do FNDE
faladas da língua e os diferentes graus foram feitas de apenas dezessete edi-
de prestígio social associados a deter- toras (FTD, Ática, Saraiva/Atual, Sci-
minado uso linguístico, admitindo a pione, Moderna, IBEP, Brasil, Nova
validade (e o valor intrínseco) da co- Geração, Dimensão, Victor Civita,
municação oral de quem não teve a Base, Nova Fronteira, Quinteto, Na-
oportunidade de frequentar a escola cional, Ediouro, Schwarcz e Forma-
e concluir a educação básica na idade to).
própria.
Mais recentemente, um novo aspec-
to passou a se destacar no cenário
3. Os programas de editorial dos didáticos: passou-se da
material didático e o concentração em editoras de origem
familiar para o oligopólio dos gran-
mercado editorial des grupos empresariais, inclusive
estrangeiros. Assim, das dezessete
Os programas governamentais de
empresas listadas acima, doze fazem
aquisição de livros didáticos têm
parte de apenas seis grupos:
enorme importância para o mercado
editorial brasileiro. Estimativas apon- • a Abril, que controla a Ática, a Sci-
tam que a indústria dos didáticos re-
pione e a Fundação Victor Civita;
presenta cerca de 54% da indústria
nacional de livros. No que tange à • a Santillana, que controla a Moder-
concentração do segmento, tem-se, na e a Objetiva;
do lado da demanda, um quase mo-
• a IBEP, que comprou a Nacional;
nopsônio (no ensino fundamental,
por exemplo, o Estado responde pela • a FTD, que comprou a Quinteto; e

152 RELEITURA | ano 2 número 4


PROGRAMA DO
LIVRO DIDÁTICO

• a Ediouro, que comprou a Nova gógica e de gestão democrática do


Fronteira e a Geração Editorial. ensino público, dá margem à atuação
das editoras na ponta, o que favorece,
A concentração do mercado, em
justamente, as empresas de maior po-
termos de volume de compras e da
derio econômico. Desde meados dos
presença de grupos empresariais, é
anos 2000, o MEC vem instituindo re-
importante por dois motivos. O pri-
gras para coibir o abuso das editoras
meiro refere-se ao preço pago pelos
na divulgação de seus materiais junto
livros didáticos. O segundo diz res-
aos docentes, tais como a realização
peito ao funcionamento do modelo
de eventos nas escolas e o envio de
de escolha das obras.
brindes. Continua permitido o envio
de amostras dos livros para a avalia-
Quanto ao preço, devido à escala do
ção dos professores. O acesso físico
programa, o preço médio pago pelo
às obras – embora consideravelmente
governo pelos livros didáticos é muito
oneroso, se considerarmos o número
inferior ao preço praticado nas livra-
de escolas públicas no País – é, na prá-
rias. Hoje, o preço médio por exem-
tica, o principal insumo para definir
plar adquirido pelo FNDE situa-se em
as escolhas dos professores, até mais
torno de R$ 6,50. Entretanto, segun-
do que as elaboradas resenhas cons-
do estudo publicado pelo Instituto
tantes do Guia do Livro Didático8.
de Pesquisas Econômicas Aplicadas
(IPEA), a evolução dos preços pagos
Além disso, os grandes grupos edito-
pelo FNDE tem acompanhado a evo-
riais de didáticos começam a adotar
lução dos preços na indústria de trans-
novas estratégias de marketing para
formação, a despeito dos expressivos
seus livros, como a publicidade na te-
aumentos de cobertura do programa,
levisão e a realização ou o patrocínio
que elevaram significativamente o vo-
de eventos de formação continuada
lume de compras7. Ademais, o modelo
de professores. Passam, também, a
de negociação adotado dá brechas a
ampliar seu âmbito de atuação, com
falhas de mercado, como a assimetria
a criação de novos produtos, como
de informações em favor das editoras,
os sistemas apostilados, também co-
a inexigibilidade de licitação e os altos
nhecidos como sistemas estrutura-
custos de distribuição dos livros, cuja
dos de ensino.
impressão concentra-se em São Pau-
lo, para as demais regiões do País. Ha-
veria, portanto, espaço para ganhos
de eficiência a partir de alterações em 4. Os sistemas
alguns procedimentos dos programas. estruturados de ensino
Quanto à escolha nas escolas, con- Desde meados dos anos 2000, diver-
quanto seja importantíssima no con- sas redes de educação básica, espe-
texto de autonomia didático-peda-
8
Estimativas indicam que cerca de 10% dos livros di-
7
Entre 1994 e 2005, o preço do livro didático adquiri- dáticos publicados são doados às escolas e professo-
do pelo FNDE subiu 217% (Soares, 2007). res como prática de divulgação.

RELEITURA | jul./dez. 2011 153


PROGRAMA DO
LIVRO DIDÁTICO

cialmente em municípios paulistas de aquisição são geralmente oriundos


pequeno porte, passaram a adotar sis- do Fundo de Manutenção e Desen-
temas apostilados, em substituição ao volvimento da Educação Básica e de
material didático fornecido por meio Valorização dos Profissionais da Edu-
dos programas do FNDE. Diferentes cação (FUNDEB). Trata-se de verbas
registros apontam que cerca de um que poderiam ser empregadas em
quinto dos municípios do Estado de outras alternativas de expansão da
São Paulo adota esse tipo de material. oferta educacional ou de melhoria
da qualidade do ensino, tais como:
A polêmica em torno da utilização dos oferta de creches e pré-escolas e edu-
sistemas apostilados envolve vários cação de jovens e adultos; adoção da
aspectos. Trata-se de material prepa- jornada integral no ensino funda-
rado por empresas privadas, como mental; oferta de cursos técnicos e
COC, Positivo, Objetivo, entre outras. profissionalizantes; incrementos na
Sendo assim, as apostilas não passam remuneração dos profissionais da
por nenhum tipo de avaliação oficial, educação; instalação de laboratórios
como ocorre com os livros didáticos e equipamentos diversos nas escolas.
adquiridos pelo PNLD e pelo PNLEM.
Em consequência, diferentes estudos Além disso, até 2007, a maioria dos
identificaram sérios problemas con- municípios paulistas contratava os
ceituais e gráficos em apostilas de sis- sistemas apostilados sem processo li-
temas de ensino, além da utilização citatório, com base no critério de no-
de abordagens pedagógicas descon- tória especialização. A partir daquele
textualizadas e excessivamente es- ano, o Tribunal de Contas do Estado
quemáticas, herdeiras da orientação passou a exigir a realização de licita-
para o vestibular que caracterizou o ção, precedida de consulta ao órgão
surgimento desse tipo de material. gestor da educação no município,
para a escolha do sistema a ser utili-
Há, também, questões financeiras zado. Embora importante, essa exi-
a serem consideradas. Os custos de gência não impede, a nosso ver, que
aquisição e distribuição dos livros as licitações, em sua maioria realiza-
didáticos são integralmente arcados das na modalidade de carta-convite,
pelo Governo Federal. E, devido à possam sofrer algum tipo de direcio-
escala do PNLD, o custo unitário de namento, por meio do detalhamento
cada exemplar é relativamente baixo. dos serviços educacionais a serem
O material apostilado, por sua vez, é prestados pelas contratadas.
integralmente financiado pelo estado
ou município que o adota. Em média, Outra crítica à adoção dos sistemas
o custo é de R$ 150,00 por aluno por apostilados diz respeito à interfe-
ano9. E os recursos para financiar sua
multiplicado pelo número de livros utilizados, para
9
Para fins de comparação com os programas federais que se possa estimar o custo do programa por aluno.
de material didático, é preciso ter em mente que esse No caso do ensino médio, por exemplo, para cada
custo diz respeito ao material de todas as disciplinas. aluno são destinados sete livros reutilizáveis e quatro
De fato, os custos unitários no âmbito do PNLD são livros consumíveis, o que significaria um custo esti-
de aproximadamente R$ 6,50. Mas esse valor deve ser mado de R$ 41,00 por aluno por ano.

154 RELEITURA | ano 2 número 4


PROGRAMA DO
LIVRO DIDÁTICO

rência na autonomia dos professo- O estudo mencionado sugere diver-


res, que não são consultados sobre o sas vantagens dos sistemas aposti-
material que deverão utilizar em sala lados. Em primeiro lugar, fornecem
de aula e passam a ficar presos a um livros consumíveis de todas as disci-
rígido roteiro, transformando-se em plinas, para todos os alunos, de todas
meros aplicadores do material didá- as escolas. Com isso, não só ampliam-
tico. Do ponto de vista dos gestores e -se as possibilidades de exercícios e
das famílias, contudo, a estrutura do práticas de estudo, mas também se
material apostilado, com sequências otimiza o tempo em sala de aula, di-
didáticas claras e a explicitação dos minuindo a necessidade de copiar
objetivos de aprendizagem de cada exercícios da lousa.
aula, apresenta maiores possibilida-
des de controle e acompanhamento Em segundo lugar, os sistemas es-
do trabalho docente. truturados trazem orientações claras
para os professores sobre o planeja-
Esse fato, aliado ao apelo de estender mento e a condução das aulas, num
a suposta qualidade de escolas pri- contexto em que se verificam graves
vadas para a rede pública, é um dos deficiências na formação inicial do-
motivos que influenciam os prefeitos cente. Assim, uniformizar as aulas se-
a optar pelos sistemas apostilados. ria uma forma de garantir mais equi-
Cabe ressaltar, contudo, que o mate- dade, por meio da garantia de padrão
rial vendido para as escolas públicas, mínimo de qualidade para todos os
embora leve o selo da empresa que o alunos, bem como de nortear o tra-
produziu, nem sempre é idêntico ao balho docente, de modo a evitar que
que é adotado em suas escolas fran- conteúdos importantes sejam discri-
queadas da rede particular. cionariamente preteridos.

De todo modo, recente estudo pro- Além disso, os sistemas oferecem


duzido pela Fundação Lemann10 outras ferramentas de apoio ao tra-
concluiu que a adoção de sistemas balho docente, tais como eventos de
apostilados teve impacto positivo no treinamento, portais eletrônicos de
desempenho dos alunos nas avalia- recursos pedagógicos e até disque-
ções de Português e Matemática da -dúvidas. Com isso, obtém-se ganhos
Prova Brasil 2007. E o tema ganhou de escala no gerenciamento pedagó-
ainda mais visibilidade quando se di- gico de toda a rede de ensino.
vulgou que Cajuru, o município bra-
sileiro com a maior nota no Índice de Vale destacar, por fim, três circuns-
Desenvolvimento da Educação Bá- tâncias estreitamente relacionadas
sica (IDEB), é adepto de um sistema à proliferação dos sistemas apostila-
apostilado11. dos, especialmente nos municípios
de São Paulo. A primeira delas diz
10
Fundação privada sediada em São Paulo, com forte respeito ao fortalecimento da cultu-
atuação na área de educação.
11
Entrevistas com gestores educacionais de Cajuru
apontaram vários outros fatores responsáveis pelos desenvolvimento de um projeto pedagógico bem arti-
bons resultados alcançados pelo município, como o culado e investimentos em educação acima da média.

RELEITURA | jul./dez. 2011 155


PROGRAMA DO
LIVRO DIDÁTICO

ra da avaliação na educação, que dá mercadológico de poderosos grupos


grande visibilidade aos resultados al- privados na disseminação de seus
cançados em exames padronizados e produtos educacionais não deve ser
rankings de rendimento dos alunos. desprezado como fator de persuasão
De fato, algumas empresas que ela- junto aos gestores locais e autorida-
boram materiais apostilados para as des nacionais envolvidas com a edu-
redes públicas baseiam sua propa- cação básica pública.
ganda na possibilidade de aumentar
a nota do município nas avaliações
nacionais ou locais (como o Prova 5. Conclusões
Brasil e o Sistema de Avaliação do
Rendimento Escolar do Estado de São De modo geral, os programas de ma-
Paulo – SARESP). terial didático têm importância indis-
cutível e vêm sendo consolidados, ex-
A segunda está relacionada a um con- pandidos e aprimorados. Entretanto,
texto de municipalização do ensino como toda política pública, perma-
fundamental, em que as prefeituras nentemente em formação, há espaço
tiveram aumentadas suas responsa- para novos aperfeiçoamentos nesses
bilidades para com a oferta e a manu- programas, especialmente no que diz
tenção dessa etapa da educação bá- respeito à redução dos custos e à ado-
sica, sem necessariamente contarem ção de mecanismos de implementa-
com as condições técnicas e políticas ção mais transparentes. Entre as su-
para tal. Desse modo, os sistemas de gestões de melhorias encontradas na
ensino apostilados configuraram-se literatura, destacamos os seguintes
como uma solução pronta para a or- exemplos:
ganização curricular e pedagógica de
redes de ensino em situação quase • adoção de ciclos mais longos para
caótica. aquisição de livros não consumí-
veis;
A terceira refere-se ao esgotamen-
• definição de critérios mais claros de
to da capacidade de crescimento
avaliação pedagógica;
dos sistemas apostilados no setor
privado e ao amplo mercado poten- • divulgação dos nomes dos parece-
cial vislumbrado nas redes públicas. ristas e do conteúdo dos pareceres
Trata-se, na verdade, de uma enor- emitidos no âmbito da avaliação
me oportunidade de negócio para pedagógica;
as empresas que atuam no setor, de
• disseminação da lista de obras re-
modo que algumas das maiores edi-
provadas junto à rede privada;
toras envolvidas no PNLD passaram
a atuar também como produtoras de • utilização de práticas inovadoras
sistemas apostilados12. O interesse na sistemática de negociações do

12
Por exemplo: a FTD tem o Sistema de Ensino FTD; a Ser; a Saraiva, o Agora; o Positivo, o Aprende Brasil; o
Moderna, o Sistema Uno; a Ática/Scipione, o Sistema IBEP, o Sistema de Ensino IBEP.

156 RELEITURA | ano 2 número 4


PROGRAMA DO
LIVRO DIDÁTICO

FNDE junto aos detentores do di- zar-se excessivamente a discussão e


reito autoral dos livros didáticos; perder-se de vista a importância des-
sa política e os desafios reais que ela
• inclusão de sistemas apostilados
deve enfrentar.
nos Guias do Livro Didático, sujei-
tando-os à avaliação pedagógica.
Outro ponto a ser considerado diz Referências
respeito à instituição de um meca-
nismo de avaliação sistemática da ADRIÃO, Theresa; GARCIA, Teise; BORGUI, Ra-
efetividade do material didático dis- quel; ARELARO, Lisete. Uma modalidade pe-
culiar de privatização da educação pública: a
tribuído pelo MEC para a aprendiza- aquisição de ‘sistemas de ensino’ por municí-
gem dos alunos. Cruzamentos com os pios paulistas. Educação e Sociedade, Campi-
resultados da Prova Brasil poderiam nas, vol. 30, n. 108, pp. 799-818, out/2009.
ser utilizados para tal, bem como ava-
liações específicas, conduzidas por BECSKEHÁZY, Ilona; LOUZANO, Paula. Sala de
instituições de pesquisa. Ainda que o aula estruturada: o impacto do uso de siste-
mas de ensino nos resultados da Prova Brasil
rendimento dos estudantes não pos- – um estudo quantitativo no estado de São
sa ser diretamente atribuído ao mate- Paulo. Fundação Lemann, 2010. Apresentação
rial didático utilizado em sala de aula, em PowerPoint.
vez que muitos outros fatores intra e
extra-escolares afetam o processo de CASSIANO, Célia Cristina de Figueiredo. Re-
ensino-aprendizagem, a obtenção configuração do mercado editorial brasileiro
de livros didáticos no início do século XXI:
de dados em perspectiva comparada história das principais editoras e suas práti-
permitiria cotejar o desempenho de cas comerciais. Em Questão, Porto Alegre, v. 11,
estudantes que utilizam diferentes n. 2, pp. 281-312, jul-dez/2005.
coleções e obras didáticas, bem como
sistemas apostilados de ensino. Essas FUNDO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO
informações, por sua vez, poderiam DA EDUCAÇÃO. Página eletrônica: www.fnde.
gov.br
contribuir para o bom uso do subs-
tancial volume de recursos públicos LOUZANO, Paula et al. Sistemas estruturados
empregados nos programas federais de ensino e redes municipais do Estado de São
de material didático. Paulo. Fundação Lemann, 2010. Apresentação
em PowerPoint.
O fortalecimento institucional desses
programas passa pela apreciação de NICOLETI, João Ernesto. Ensino apostilado na
escola pública: tendência crescente nos mu-
sugestões de aperfeiçoamento pelos nicípios da região de São José do Rio Preto –
gestores e autoridades educacionais. SP. Dissertação de mestrado. Universidade Es-
Passa também pelo acompanhamen- tadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, 2009.
to pelo Congresso Nacional e pela
sociedade de sua execução. Nessa ta- SAMPAIO, Francisco Azevedo de Arruda; CAR-
refa, o que se deve evitar é o risco de, VALHO, Aloma Fernandes de. Com a palavra,
o autor. Em nossa defesa: um elogio à impor-
ao se restringir o debate a questões tância e uma crítica às limitações do Progra-
pedagógicas e didáticas, próprias dos ma Nacional do Livro Didático. São Paulo: Edi-
educadores e especialistas, partidari- tora Sarandi, 2010.

RELEITURA | jul./dez. 2011 157


PROGRAMA DO
LIVRO DIDÁTICO

SOARES, Ricardo Pereira. Compras governa- governo. Textos para Discussão no 1307. Brasí-
mentais para o Programa Nacional do Livro lia, DF: Instituto de Pesquisa Econômica Apli-
Didático: uma discussão sobre a eficiência do cada, 2007.

158 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA
Ambiente e Energia: Crença e Ciência no
Licenciamento Ambiental

Parte I: O Papel da Energia e do Conhecimento


Científico na Evolução das Civilizações

Por:
Edmundo Montalvão1

Apresentação
O avanço da Ciência depende, fundamentalmente, de mecanis-
mos de proteção contra os dogmas. A postura crítica inerente
ao trabalho científico é uma proteção contra a disseminação de
teses não validadas. O cientista deve questionar – de ofício – as
verdades estabelecidas. Para a ciência, as verdades são, sempre,
provisórias.

Entretanto, em nível global, ao intensificar-se o debate sobre as


questões ambientais, as abordagens científicas vêm sendo pos-
tas, gradativamente, em segundo plano. Nesse contexto, cres-
cem em importância as abordagens ideológicas, com elevado
grau de subjetividade.

No Brasil, esse processo pode ser observado, com clareza, nos


conflitos socioambientais associados aos processos de licen-
ciamento ambiental, especialmente quando são relacionados
com grandes projetos de infraestrutura e, mais especificamen-
te, com os empreendimentos do setor de energia.

Este documento faz parte de um conjunto de Textos para Discus-


são cujo objetivo é analisar as questões relacionadas com os con-
flitos que vêm caracterizando os as discussões acerca das opções
energéticas do Brasil vis-à-vis a legislação ambiental em vigor.

O foco principal dos textos que compõem esse conjunto é co-


locado sobre o papel da ciência nos conflitos, priorizando a
previsão de impactos ambientais, bem como as consequências
dessas previsões sobre o processo de licenciamento de grandes

1
Consultor Legislativo do Senado Federal. Núcleo de Economia. Área de Minas e Energia.

RELEITURA | jul./dez. 2011 161


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

projetos, com ênfase em empreendi- eles só ocorreram como consequência


mentos hidrelétricos. direta da adoção da metodologia cien-
tífica na solução dos problemas das
ciências naturais. O método científico
1. Introdução originou-se com os gregos, voltou a ser
considerada na Europa com Descartes,
O século XXI começou sob o impacto e consolidou-se no auge da Idade Mo-
de mais uma revolução tecnológica, derna3 com Isaac Newton, considera-
iniciada na década de 1970. Ela vem do o maior cientista de todos os tem-
transformando diversas áreas do co- pos pela maioria dos historiadores da
nhecimento humano – administra- ciência. A portentosa obra de Newton
ção, educação, genética, farmacolo- serviu de base para posteriores avan-
gia, telecomunicações, informática, ços científicos e tecnológicos4.
cosmologia, energia, entre outras, e
foi batizada por Peter Drucker2 como Quando Isaac Newton estabeleceu
a Era da Informação. as leis do movimento e da gravitação
universal, tomou como premissa que
A humanidade já havia experimen- o tempo era grandeza absoluta, in-
tado revoluções tecnológicas no pas- dependentemente de qualquer con-
sado recente, como a Primeira Revo- dição. Para velocidades compatíveis
lução Industrial, no início do século com a nossa experiência quotidiana,
XIX, e a Segunda Revolução Industrial, a premissa é invariavelmente vali-
consolidada no início do século XX. dada pelas medições. Mas, a teoria
Precedidas de revoluções do conhe- da relatividade de Einstein mostrou
cimento científico, as revoluções tec- que isso não é verdadeiro, quando as
nológicas tiveram e têm como ponto medidas de tempo são feitas em ve-
comum o fato de afetarem profunda e locidades comparáveis à da luz. A te-
amplamente os métodos de produção oria de Einstein mostrou que tempo
e o estilo de vida da humanidade. Seu é uma grandeza relativa. As experiên-
resultado é invariavelmente a melho- cias com fenômenos físicos, objetiva-
ra da qualidade de vida das pessoas, mente, mostram esse relativismo.
da eficiência do processo produtivo,
e a criação de novas profissões, ainda No aspecto subjetivo, o tempo tam-
bém pode ser percebido como uma
que, conjunturalmente, possa haver
grandeza relativa. Para o homem, os
desemprego e falências.
períodos paleontológicos, geológicos,
Em relação aos dez mil anos de histó- cósmicos, não são percebidos na sua
ria da humanidade, são bem recentes real dimensão, por estarem fora da
esses ciclos de avanço tecnológico. E 3
Apesar de não haver consenso sobre o período clas-
sificado como Idade Moderna, o período mais aceito
para descrevê-la é entre a queda de Constantinopla
2
Nascido em Viena, é o principal mentor das princi- (1453) e a Revolução Francesa (1789).
pais teorias de gestão dos últimos 50 anos tais como: 4
Por exemplo, os cientistas da NASA utilizaram ex-
gestão por objetivos; privatização; cliente em primei- tensivamente as leis de Newton do movimento e da
ro lugar; papel do líder; descentralização; e era da in- gravitação universal para tornarem possível a ida do
formação. Faleceu em 2005, aos 95 anos. homem à lua.

162 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

sua percepção de tempo, forjada em 2011; a primeira revolução industrial,


sua experiência cotidiana. Quando há um segundo e quatro décimos; e,
um paleontólogo afirma que o homo para um homem de 70 anos, sua vida
sapiens surgiu no planeta há duzentos teria iniciado quando faltasse irrisó-
mil anos, parece um período enorme, rio meio segundo para a passagem do
e, de fato é, na perspectiva do homem ano!
que vive, em média, setenta anos,
mas irrisório em comparação com o As principais revoluções científicas
início da vida na Terra. e tecnológicas da humanidade só
ocorreram recentemente, a partir do
E o que dizer do período, estimado pe- século XVIII, ressalvadas as pequenas
los geólogos, de quatro e meio bilhões revoluções ocorridas desde o período
de anos, a idade da Terra, ou treze bi- neolítico, como o advento da metalur-
lhões e setecentos milhões de anos, a gia e do período clássico grego. Essas
idade do Universo? São períodos di- notáveis demonstrações da capacida-
ficilmente imagináveis pelo homem, de intelectual da raça humana foram
em razão de a duração da experiên- sucedidas por uma mudança radical
cia temporal típica da vida humana no estilo de vida da humanidade, las-
ser desprezível quando comparada a treada principalmente na utilização
eles. Mas podem-se relativizar esses em larga escala de fontes de energia,
períodos, por meio de uma compara- para usos até então desconhecidos.
ção baseada numa medição de tempo Citam-se, por exemplo, a madeira, os
rotineiramente experimentado pelo combustíveis fósseis, a hidroeletricida-
homem – um ano, por exemplo. Isso de, a energia nuclear, a energia eólica.
daria uma melhor percepção de há Por outro lado, a escala da exploração
quão pouco tempo a espécie humana dessas fontes, crescente com o aumen-
iniciou sua trajetória evolutiva. to da população e com o aumento da
expectativa de vida dos cidadãos, im-
Assim, supondo nos situemos exata- plicou o uso cada vez mais acelerado
mente à meia noite da passagem do dos recursos naturais.
ano de 2010 para 2011 e que a Terra
tivesse surgido um ano atrás, no mes- Inegavelmente, esse estilo de vida
mo momento da passagem de 2009 moderno trouxe uma gigantesca
para 2010. Então, o Universo teria sur- melhora na qualidade de vida da po-
gido há três anos e dezesseis dias, e o pulação mundial, em relação à do
homo sapiens, em 31 de dezembro de início da primeira Revolução Indus-
2010, às 15h40min22seg. Outras data- trial. Mas o tempo vem mostrando
ções fictícias poderiam ser aduzidas a que a melhora da qualidade de vida
essa comparação: o surgimento da ci- pode impor custos. Desde o final do
vilização há dez mil anos (8.000 anos século XX, o IPCC5 vem alertando os
A.C.), nessa escala relativa de tempo, governos para o risco de aquecimen-
teria surgido às 23h58min50seg de 31
de dezembro, quando faltasse 1min- 5
Sigla em inglês do Painel Intergovernamental para
Mudanças do Clima. O IPCC tem o apoio da Organi-
10seg para a passagem para o ano de zação das Nações Unidas.

RELEITURA | jul./dez. 2011 163


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

to global, resultante principalmente científico. São questões de cunho


de emissões de dióxido de carbono eminentemente técnico, suscitadas
(CO2) e da liberação de gás metano pela importantíssima atitude, ineren-
na atmosfera. Tais emissões, segun- te ao método científico, de sempre
do o IPCC, são fruto de um estilo questionar teorias, recém-apresen-
de vida antrópico lastreado, entre tadas ou não. Tentar falsear teorias
outros fatores, no uso intensivo de tidas como de consenso é uma rea-
energia fóssil, no desmatamento ção quase instintiva dos verdadeiros
acelerado, na flatulência animal e na cientistas. O contraponto a uma teo-
popularização de lixões. ria é uma atitude fundamental para
testar a sua solidez.
Longe da Academia, não há mais
debate sobre o aquecimento global, O presente estudo é o primeiro, de
pois a ideia do aquecimento tomou cinco volumes, que se propõe a mos-
conta dos corações e mentes das so- trar por que a energia, nos moldes
ciedades de todos os países, e cos- atuais, é a única forma de sustentar
tuma suscitar reações apaixonadas esse estilo de vida, e por que a ciência
dos leigos, muito compreensivel- é a chave para solucionar os impasses
mente preocupados com os rumos a respeito do meio ambiente.
que o clima do planeta está toman-
do. Uma minoria de leigos apoia ou- Este primeiro volume procurará
tro grupo de cientistas não ligados mostrar como o binômio conheci-
ao IPCC – os chamados céticos – que mento-energia nos trouxe até o sé-
questiona as afirmações do IPCC so- culo XXI. Para isso, far-se-á uma re-
bre o clima, apesar de elas já serem trospectiva histórica do avanço do
consideradas irrefutáveis pela am- conhecimento e da descoberta da
pla maioria das pessoas. Os céticos energia, desde os tempos imemo-
suscitam indagações, para as quais riais dos ancestrais humanos até os
afirmam que a ciência ainda não tem dias de hoje. Os volumes subsequen-
respostas: a causa de mudanças po- tes explicitarão em que consiste o
tencialmente profundas no clima do conflito, exposto à opinião pública,
planeta pode mesmo ser imputada entre energia e meio ambiente, e
ao irrisório período desde a Primei- mostrarão que a sua pacificação é
ra Revolução Industrial? A queima possível e se dará através da própria
de combustíveis fósseis é mesmo a ciência e tecnologia. O recrudesci-
grande vilã do aquecimento global? mento desse conflito não é do inte-
Ou o aquecimento é um fenômeno resse da sociedade.
não antrópico, inerente aos ciclos de
aquecimento/glaciação do planeta? O estudo completo é voltado para
Há até quem questione se o planeta os formadores de opinião, e procu-
está mesmo aquecendo. ra destacar pontos que, atualmente,
tendem a ser relegados a um segundo
Se não há dúvidas no seio da socie- plano, quando se entabula o debate
dade, elas ainda persistem no meio em torno dos temas energia, alimen-

164 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

tos e meio ambiente e o conflito sub- nem destruída, apenas convertida em


jacente entre preservação ambiental outra forma de energia. Já a segunda
e desenvolvimento econômico. lei postula que a energia, quando con-
vertida, divide-se em duas formas: a
O presente volume baseou-se exten- energia recuperável (ou energia útil)
sivamente nas seguintes fontes de e a energia não-recuperável (também
informação, que não serão mais cita- chamada de entropia). Essa caracte-
das, em razão da constante mescla de rística não-recuperável da conversão
informações de ambas as referências: de energia implica que a produção de
entropia é irreversível.
www.pt.wikipedia.org
A. Hart-Davis, Cento e Sessenta Um exemplo simples para ilustrar
Séculos de Ciência – Volume 1 – essa irreversibilidade, implícita na se-
Duetto Editorial, 2010. gunda lei, é o de um carro em movi-
mento: a repentina parada do veículo
pelo acionamento dos freios transfor-
2. Papel da Energia no ma a sua energia cinética essencial-
Mundo Antigo mente em calor nos freios. Mas esse
calor dissipado nos freios é uma ener-
gia não-recuperável, pois não é usada
2.1. Papel da Energia na para outros fins. É, pois, uma transfor-
Formação da Vida na Terra mação irreversível. Para voltar à velo-
cidade inicial, é necessário utilizar
Se o tempo é relativo, o mesmo não mais energia. Portanto, é inevitável o
se pode dizer das leis naturais que go- aumento da energia não-recuperável
vernam o Universo. A imutabilidade (aumento da entropia) no processo
das leis físicas em todo o Universo é real de conversão de energia.
um postulado fundamental para os
cosmólogos explicarem o seu funcio- Em face da segunda lei da termodinâ-
namento desde os seus primórdios. mica, define-se o conceito de eficiên-
As leis naturais são válidas em qual- cia (ou rendimento) de uma máquina:
quer parte do universo, em qualquer o quanto de energia recuperável está
tempo. sendo utilizada em relação à energia
inicial. Em lugar da definição, um
Duas dessas leis naturais são particu- exemplo: se o calor produzido por
larmente relevantes para a explora- uma caldeira é igual a 100 unidades
ção dos recursos energéticos. São elas de energia, e se sua energia recupe-
a primeira e a segunda lei da termo- rável é de 40 unidades, sob forma de
dinâmica. A primeira lei postula que movimento, então sua eficiência ou
a energia é sempre conservada, ou rendimento é de 0,4 ou 40% (40/100).
seja, o balanço contábil da energia no Sob esse prisma, a expressão melho-
universo, ao longo do tempo, é aquele rar a eficiência denota uma redução
existente no seu início. Em outras pa- das perdas de energia num processo
lavras, a energia não pode ser criada de conversão.

RELEITURA | jul./dez. 2011 165


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

A conversão de energia está na base atmosfera terrestre, com o apareci-


do funcionamento do macrocosmo mento da primeira forma de vida: as
(do universo, das galáxias, dos siste- cianobactérias, que eram organismos
mas solares, dos planetas). Não pode- fotossintéticos.
ria ser diferente com o microcosmo.
A vida na terra está totalmente lastre- A vida aeróbica8 eclodiu em larga es-
ada na capacidade de os organismos cala na terra há cerca de 550 milhões
vivos converterem energia de uma de anos, deflagrando a chamada
forma em outra. A fotossíntese6 nada explosão cambriana de vida. As ca-
mais é do que a conversão de ener- deias alimentares refletem o meio de
gia solar em energia química, para o transformação da energia entre seres
consumo dos vegetais. Os seres que vivos. Os seres autotróficos estão na
produzem o próprio alimento são de- base (ou primeiro nível) da cadeia ali-
nominados autotróficos. O homem, mentar, e são denominados produto-
assim como outros animais, obtém a res. Os vegetais e o plâncton marinho
energia vital a partir da energia quí- estão nesse nível. Em terra, os herbí-
mica dos alimentos que consome. Por voros são um dos grupos do segundo
não produzirem o próprio alimento, nível da cadeia, por se alimentarem
são denominados heterotróficos. Por- de vegetais. Os herbívoros necessi-
tanto, todos os seres vivos – autotró- tam de enorme quantidade de ali-
ficos e heterotróficos – são pequenos mento para suprirem suas necessida-
geradores de energia7, que é utilizada des energéticas. Nos níveis seguintes
para o seu metabolismo e para sua estão os carnívoros, classificados en-
sobrevivência. tre os níveis intermediários e o topo
da cadeia alimentar. Eles necessitam,
Na infância do planeta, a atmosfera comparativamente, de quantidade
era constituída por monóxido de car- bem menor de alimentos, na medida
bono (CO), dióxido de carbono (CO2), em que a carne contém enorme con-
hidrogênio (H2), nitrogênio (N2), áci- centração de proteínas e carboidra-
do sulfídrico (H2S), amônia (NH3), tos, que são convertidos facilmente
metano (CH4) e vapor d’água. Não em energia em seus corpos.
havia oxigênio em sua composição.
Há dois e meio bilhões de anos, ini-
ciou-se o processo de oxigenação da 2.2. A Energia e o Surgimento
do Homo Sapiens Sapiens
6
Fotossíntese é o mecanismo pelo qual as células ve-
getais absorvem a energia luminosa e a convertem em
energia química. Nesse processo, o vegetal captura Alguns milhões de anos atrás, os ho-
CO2 da atmosfera, além de minerais e água extraídos minídeos viviam em árvores e cami-
do solo, que são utilizados como insumos no processo
de conversão. O resultado do processo é a glicose e o nhavam em quatro patas, como os
oxigênio. A glicose é usada pelas células dos vegetais
como fonte de energia para o seu metabolismo. O oxi- outros primatas. Eram herbívoros e
gênio é liberado na atmosfera. Os vegetais sintetizam se alimentavam da coleta de frutas,
seu próprio alimento (seres autotróficos). São também
usinas de retirada de dióxido de carbono da atmosfera.
7
Rigorosamente, não existem geradores de energia, 8
Organismo aeróbico é aquele que usa oxigênio do ar
apenas conversores de energia (Primeira Lei da Termo- e as moléculas orgânicas do alimento que consome
dinâmica). para fornecer energia às suas células.

166 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

de ervas, de tubérculos. Eram seden- fogo, alcançaram gradativamente o


tários, pois viviam em seus territó- topo da cadeia alimentar, desenvol-
rios, demarcados pela força de seu vendo estratégias coletivas para ca-
grupo familiar perante outros grupos. çarem até seus antigos predadores. O
A única forma de energia que utiliza- fogo, usado para o aquecimento, para
vam era a sua força muscular. Uma a cocção de alimentos e para a caça
mudança radical ocorreu quando es- coletiva, também deu aos hominíde-
ses ancestrais do homo sapiens pas- os condições para se adaptarem a ou-
saram de quadrúpedes para bípedes, tros climas e, gradativamente, migra-
possibilitando uma maior velocidade rem das regiões africanas para outros
de deslocamento, liberando assim os continentes.
membros superiores para outras fun-
ções, como portar armas para a caça, Mas talvez a contribuição mais im-
transportar sua prole, fabricar instru- portante da energia do fogo tenha
mentos. A partir daí, os hominíde- sido a aceleração no desenvolvimen-
os tornaram-se também carnívoros. to da espécie como decorrência da
Deixaram as florestas e passaram a se cocção dos alimentos. Há evidências9
aventurar nas campinas, onde havia que sugerem haver uma estreita cor-
fartura de presas. relação entre a prática da cocção e
o aumento do volume craniano dos
De simples coletores, passaram a ser hominídeos e, consequentemente,
caçadores-coletores. Deixaram o se- da sua inteligência. A cocção quebra
gundo nível da cadeia alimentar, e as complexas moléculas orgânicas,
passaram para uma posição interme- tais como proteínas e carboidratos,
diária, haja vista que também eram facilitando sua absorção pelo corpo
presas de animais carnívoros maio- e, principalmente, pelo cérebro. Isso
res. Concomitantemente, os grupos aumenta substancialmente o conte-
familiares passaram a ser nômades, údo energético disponível na alimen-
acompanhando o comportamento tação, particularmente aquela à base
migratório de suas presas. A ingestão de tubérculos feculosos (batata, man-
de alimentos de origem animal au- dioca). O cérebro humano é respon-
mentou a densidade calórica e nutri- sável pela absorção de 20-25% das
cional dos hominídeos, mudança que proteínas, vitaminas e carboidratos
parece ter sido crítica na história da disponíveis nos alimentos. Ademais,
raça humana. as calorias extras permitiram desen-
volver com mais eficiência a caça, em
O uso de outra forma de energia que razão de essa atividade ser energetica-
não a armazenada em seu corpo só mente dispendiosa. Pode-se afirmar
começou há cerca de um milhão de que é a energia que sustenta a vida e
anos, quando os hominídeos bípedes
dominaram o uso do fogo. De mamí- 9
W. R. Leonard – Alimentos e Evolução Humana –
Scientific American Brasil, edição 8, janeiro de 2003
feros inseridos nas faixas intermedi- – Editora Duetto. Acessado em 16/12/2010. Disponí-
árias da cadeia alimentar, os hominí- vel no seguinte endereço eletrônico: http://www2.
uol.com.br/sciam/reportagens/alimentos_e_evolu-
deos, por meio do uso inteligente do cao_humana.html

RELEITURA | jul./dez. 2011 167


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

foi base do exponencial aumento da sociedade e proporcionando avanços


cognição na espécie humana. culturais e artísticos. Foi o início das
civilizações10. A capacidade de comu-
As datações mais antigas remetem o nicação pela riqueza da linguagem
aparecimento do homo sapiens para humana acelerou enormemente o
duzentos mil anos atrás. Há claros in- desenvolvimento das civilizações,
dícios de diferenciação dessa espécie pois propiciou a transferência rápida
em relação aos seus ancestrais ho- do conhecimento, sem a necessidade
minídeos: dentes menores, pescoços de cada geração reinventar a roda.
maiores, cérebros bem maiores, apa-
relho fonador – que permite produzir Nessa época, o fogo já era também
uma variedade de sons muito maio- utilizado para queimadas controladas
res do que a dos demais primatas. que limpavam o terreno visando ao
Coube ao homo sapiens inventar as uso agrícola e à caça. Também já era
primeiras lamparinas a óleo animal, sobejamente dominada a construção
extraído da gordura dos animais ca- de fornos que queimavam barro para
çados, por volta de 70.000 a.C.. a fabricação de peças ornamentais,
esculturas, utensílios, tijolos. Mais
Entre trinta e cinco e dez mil anos tarde, aprimorou-se a técnica para a
atrás, iniciaram-se as diferenciações fabricação de cerâmica. E, graças ao
geográficas dos homo sapiens que apoio da força animal, construções
levaram ao aparecimento das raças. cada vez maiores, mais duráveis e
Dez mil anos atrás, já havia surgido fortificadas foram surgindo nos aglo-
o homo sapiens sapiens. Nessa época, merados populacionais, para os habi-
iniciou-se o chamado período neolí- tantes se defenderem dos inimigos e
tico, também conhecido como idade das intempéries.
da pedra polida. A análise arqueoló-
gica desse período mostra ter havido O fogo continuava a ser a única fonte
um abandono do estilo nômade dos de energia. E a madeira era o com-
caçadores-coletores e retorno ao esti- bustível usado em larga escala para a
lo sedentário, em razão do desenvol- replicação e manutenção do fogo nas
vimento da agricultura e da domes- diversas atividades manuais. Desta-
ticação de animais para o trabalho. cavam-se também o uso pontual de
Surgia um novo gerador de energia óleos vegetais e animais. Os utensí-
voltado para o benefício das pessoas: lios cerâmicos facilitavam a cocção
a força dos animais domesticados. dos alimentos, pois o fogo podia ser
aplicado diretamente no utensílio, e
A agricultura permitiu que houvesse não mais indiretamente – através de
maior diversidade alimentar e maior pedras pré-aquecidas – em buracos
quantidade de alimentos. E a fixação
dos grupos familiares decorrente da 10
Processo pelo qual os elementos culturais concretos
ou abstratos de uma sociedade (conhecimentos, téc-
exploração agrícola ensejou o apa- nicas, bens e realizações materiais, valores, costumes,
recimento de aglomerados popula- gostos, etc.) são coletiva e/ou individualmente elabora-
dos, desenvolvidos e aprimorados. – Dicionário Auré-
cionais, desenvolvendo-se a vida em lio versão eletrônica 3.0.

168 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

cobertos de peles de animais. O calor guerra de conquistas para escravizar


também permitia a defumação dos outros povos, e trazê-los para execu-
alimentos, garantindo a sua preser- tar trabalhos no campo e nas cidades,
vação para consumo posterior. Não além de utilizá-los no exército. O co-
se pode olvidar também que o fogo mércio de excedentes agrícolas e de
viabilizava a produção de carvão ve- manufaturados passou a exigir um
getal, cujo processo de fabricação foi contingente militar cada vez maior
desenvolvido ainda nesse período. para garantir a segurança das rotas
comerciais.
Foi também na revolução neolítica
que surgiu o comércio, o dinheiro – Mas esse contingente militar requeria
para facilitar a troca de excedentes – a um aprimoramento nos instrumen-
tecelagem de roupas de lã, linho ou tos de ataque e defesa para melhorar
algodão, as cestarias e o uso de ani- a eficiência das guerras de conquista.
mais para a tração não humana. O E esses instrumentos sofreriam enor-
Neolítico é o último período pré-his- me evolução com o advento da idade
tórico, e seu término coincide com o do bronze.
surgimento da escrita e com o início
da Idade dos Metais, há cerca de sete O processo evolutivo das relações in-
mil anos (5.000 a.C.). terpessoais culminou com o apareci-
mento da primeira grande civilização
da história da humanidade: a Sumé-
2.3. As Primeiras Civilizações ria, que estava localizada na Mesopo-
tâmia, região entre os rios Tigre e Eu-
As grandes civilizações se viabiliza- frates, atual Iraque. A Mesopotâmia
ram a partir dessa época. A comple- era habitada por vários povos: além
xidade das relações comunitárias e dos sumérios, ali viviam os assírios,
entre povos ensejou a necessidade de babilônios, entre outros.
leis disciplinadoras e de especializa-
ção de funções no seio da sociedade. As características da região mais
Surgiam a figura do líder, normal- apreciadas por esses povos eram sua
mente considerado o interlocutor das grande fertilidade e o generoso ciclo
sociedades com os deuses, e, conse- de chuvas, que favoreciam enorme-
quentemente, a necessidade de hie- mente a agricultura, a dessedentação,
rarquização social e da especialização a pesca e a navegação. Os vestígios
das pessoas, seja no campo tecnoló- mais antigos deixados pelos sumérios
gico, seja no campo burocrático para datam de 4.500 a.C.. Entre as heran-
cumprirem novas tarefas alavancadas ças mais notáveis, os sumérios lega-
pela hierarquização. ram à humanidade a primeira escrita,
a roda, o barco à vela, além de tecno-
Com isso, aumentaram os consu- logias de fabricação de colheitadeiras
midores de alimentos e reduziu-se primitivas. Entre uma guerra de con-
a mão de obra no campo. A solução quista e outra, as cidades-estado da
encontrada para essa redução foi a Suméria finalmente caíram nas mãos

RELEITURA | jul./dez. 2011 169


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

de seus vizinhos. A Mesopotâmia ain- separava o cobre dos outros elemen-


da continuaria sua era de esplendor, tos e escapava na forma de CO2. A
até a ocorrência de um el niño colos- mistura com carvão propiciava tam-
sal, que provocou uma enorme seca bém a separação do cobre liquefeito
e pode ter levado a região a uma das e da escória (menos densa que o co-
maiores ondas de fome da era antiga. bre). O cobre puro era então colocado
em moldes para fins artísticos e para
a confecção de utensílios.
2.4. A Energia, a Metalurgia e
a Era dos Metais Mas o cobre ainda era dúctil o sufi-
ciente para não permitir a confecção
Afloramentos de minerais de cobre, de ferramentas pesadas, como ma-
de ouro, de prata e de estanho foram chado, e armas cortantes. Logo os fer-
inicialmente explorados e malhados reiros da época descobriram que a for-
a frio, para a confecção de pequenos mação de ligas de cobre com estanho
objetos, como joias e alguns instru- ou arsênico aumentava enormemente
mentos de corte para os quais a dure- a dureza do produto. Estava descober-
za e resistência não eram requisitos. to o bronze. Isso permitiu a constru-
O uso do fogo11 para o derretimento ção de armas e armaduras muito mais
(fundição) desses metais ensejou uma resistentes, propiciando aos povos
nova revolução: a metalurgia. A fundi- que dominavam essa tecnologia uma
ção do cobre iniciou-se em torno de enorme vantagem competitiva em re-
5.000 a.C., nos Bálcãs e Oriente Médio. lação aos povos que não a detinham. A
vantagem do estanho é não ser vene-
O cobre também podia ser extraído noso como o arsênico e, por isso, era o
de minérios sob a forma de óxidos, preferido para a confecção do bronze.
carbonatos e sulfatos de cobre, atra-
vés do aquecimento em fornos. O Ao contrário do ferro, o cobre não é
processo de derretimento do cobre um metal abundante na crosta ter-
pressupunha a mistura do minério ao restre e menos ainda o estanho. Por-
carvão vegetal pulverizado. A mistura tanto, não durou muito até que os
então era colocada em um cadinho reinos tivessem que importar cobre e
e levada ao forno para ser aquecido estanho de outros lugares, até o esgo-
à temperatura de 1.083 ºC, quando, tamento do estanho. Inaugurava-se
então, o cobre iniciava o seu derreti- no mundo a era do esgotamento de
mento. O carbono contido no carvão recursos naturais.

A necessidade faz o homem, diz anti-


11
O fogo é o resultado da reação química entre o
material combustível e o oxigênio do ar, liberando go ditado. E os antigos ferreiros lan-
luz, calor e gases à alta temperatura (entre os quais, çaram-se na busca de alternativa ao
o CO2). A queima da madeira em fornos, na concen-
tração normal de oxigênio do ar (21%) alcança a tem- esgotamento das reservas minerais
peratura máxima suficiente para a fundição do cobre, de cobre e estanho. E conseguiram. A
mas não do ferro. As temperaturas de fusão de alguns
metais são: 232 oC (estanho), 327 oC (chumbo), 419 descoberta do processo industrial de
o
C (zinco), 659 oC (alumínio), 961 oC (prata), 1070 oC
(ouro), 1083 oC (cobre) e 1535oC (ferro). fundição do ferro ocorreu por volta

170 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

de 1.100 a.C.. A metalurgia do ferro já cia desses processos era um aço mais
era conhecida de vários povos, mas duro e resistente. Estava dado passo
o gasto maior de energia e de mão final para a massificação do uso do
de obra relegava o seu uso para a fa- ferro. Isso ocorreu por volta de 900
bricação de objetos ornamentais. O a.C.. Iniciava-se assim, a idade do fer-
primeiro processo tecnológico para a ro, a partir do conhecimento empíri-
metalurgia do ferro consistiu em mis- co de fabricação do aço.
turar minério de ferro a carvão vegetal
e aquecer a mistura a 1.150 °C. A essa A metalurgia também propiciou ins-
temperatura, eliminavam-se algumas trumentos para uso em cirurgias pri-
impurezas, mas outras permaneciam mitivas. O fogo era também utilizado
misturadas ao metal ainda sólido, sob para sua esterilização e os instrumen-
a forma de uma massa esponjosa. tos metálicos de corte e de perfuração
Essa massa era retirada por malhação eram usados em cirurgias locais e tam-
a ferro quente. O ferro assim obtido é bém em cirurgias invasivas, como ci-
conhecido como ferro forjado. O car- rurgia plástica, de cataratas, operações
vão mineral também já era utilizado cesarianas e trepanação do crânio14.
desde essa época na Grã-Bretanha,
para cocção, calefação e metalurgia. Outras descobertas importantes para
a humanidade, a partir dessa época,
A produção de ferro fundido iniciou- foram as da bússola15, da moagem e
-se com os chineses, que desenvol- da engrenagem16. Destaca-se também
veram fornalhas capazes de elevar a a energia eólica para fins de navega-
temperatura a 1.535 ºC, temperatura ção. Barcos a vela foram muito usados
de fusão do ferro. Mas o ferro fundido pelos fenícios, que, por volta de 1.000
também é muito dúctil e não se pres- a.C., usavam intensivamente navios a
tava à fabricação de armas e armadu- vela para fomentar o comércio.
ras. O passo seguinte foi a descoberta
do aço, mediante a adição de carbo- Não se pode deixar de citar, também,
no ao ferro numa determinada pro- o uso do petróleo na Idade Antiga.
porção (pelo menos 98,3% de ferro Os afloramentos frequentes desse
– no máximo, 1,7% de carbono). Mas hidrocarboneto, no Oriente Médio,
um passo tecnológico à frente ain- ensejaram o seu uso pelos povos da
da era necessário para tornar o ferro Mesopotâmia, do Egito, da Pérsia, da
um metal usado em larga escala. Esse Judeia. Desde 4.000 a.C., o betume
passo consistia em obter o equilíbrio era usado para pavimentação de es-
entre os processos de redução12 e de
têmpera13. O resultado da alternân- 14
Perfuração de orifícios na cabeça, para aliviar dores
e curar crises epilépticas.
15
Inventada pelos chineses por volta de 2.000 a.C.
16
A roda surgiu na Suméria, por volta de 3.500 a.C.. Na
12
O processo de redução consiste em produzir uma esteira da descoberta da roda, seguiu-se a invenção
drástica redução de temperatura do metal aquecido, das polias e das engrenagens. As polias podiam reduzir
mediante sua imersão em água. Esse processo au- a força necessária para içar grandes pesos. As engrena-
menta a dureza do metal, mas torna-o quebradiço. gens – as mais antigas que se conhece foram utilizadas
13
O processo de têmpera consiste de lento reaqueci- por gregos e chineses, no século III a.C. – permitiam,
mento e resfriamento do metal, de forma a torná-lo por exemplo, a transmissão do movimento de uma
mais duro e resistente. roda d’água para um equipamento de moagem.

RELEITURA | jul./dez. 2011 171


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

tradas, calafetação de grandes cons- poderosos, e a vida das pessoas tam-


truções, calefação, iluminação, lubri- bém sofria influência desses seres mi-
ficação e até laxativo. tológicos. A mitologia explicava tudo,
sem que houvesse qualquer ques-
A combinação entre o desenvolvi- tionamento por parte das pessoas.
mento de tecnologias e a disponibili- Vários povos antigos desenvolveram
dade de energia propiciava um novo sua própria mitologia, entre eles, os
salto tecnológico na história da hu- gregos antigos, egípcios, hindus, chi-
manidade. O binômio conhecimento- neses, nórdicos, celtas, sumérios. Não
-energia foi e continua sendo base havia, portanto, explicações físicas
de todos os avanços tecnológicos da para os fenômenos naturais e para os
raça humana, e resultam sistematica- acontecimentos.
mente em uma melhor qualidade de
vida para as pessoas. Isso começou a mudar na idade de
ouro da Grécia. Os gregos foram os
Far-se-á, agora, uma pausa na pers- primeiros a tentar compreender o
pectiva histórica da energia; sobre ela, funcionamento do universo, sem
pouco se falará nas próximas páginas, lançar mão da mitologia. Eles trouxe-
em face de seu uso ter sofrido certa ram à cena o senso de organização de
estagnação até o início da era indus- ideias, a filosofia e a busca de leis uni-
trial. Uma exceção será aberta para o versais simples. Para compreender o
período que precedeu a queda do Im- universo, diziam eles, era necessário
pério Romano, em face de a insufici- conhecer a sua natureza. Ademais,
ência de energia ter sido uma das cau- os fenômenos naturais tinham, para
sas do esfacelamento desse Império.
eles, explicação lógica.
A seguir, abordar-se-á a história do co-
O precursor desse movimento de li-
nhecimento – outro pilar das revolu-
bertação dos dogmas mitológicos
ções tecnológicas da humanidade. Foi
ancestrais foi Thales de Mileto, o pri-
com os gregos que o método de tenta-
meiro a tentar uma explicação para a
tiva e erro foi relegado a um segundo
natureza dos elementos, por volta do
plano e a razão foi ascendida ao pri-
ano 500 a.C.. Para ele, o princípio bási-
meiro plano, resultando na criação das
co do universo era a água, e os outros
bases para o pensamento científico.
elementos eram uma modificação da
água. Provavelmente, a partir de via-
gens ao Egito, trouxe para a Grécia o
3. O Conhecimento nas estudo da geometria, que se tornaria
Civilizações Antigas alicerce para o desenvolvimento da
matemática grega. Introduziu ainda o
3.1. A Aurora da Era do conceito de demonstração, passo ba-
Conhecimento silar na construção dos teoremas ma-
temáticos. Foi o primeiro a observar
Para os povos antigos, os fenômenos o fenômeno da eletricidade estática:
naturais eram governados por deuses ao esfregar âmbar em pele de animal,

172 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

essa resina natural passava a atrair • o sol faz as criaturas surgirem, pri-
objetos leves. A palavra âmbar em meiro na água, depois migram para
grego é grafada como elektron, o que a terra, alcançando estruturas cada
deu origem ao termo eletricidade. vez mais complexas. Essa ideia as-
semelha-se muito à teoria da evolu-
Anaximandro de Mileto, discípulo ção das espécies;
de Thales, contestou o papel da água
na formação do universo; ele afirma- O traço comum dos filósofos da região
va que a Terra era curva e suspen- de Mileto foi a proposição de explica-
sa no espaço, sem apoio nenhum, e ções naturais para as coisas. Tinham
que o princípio básico da natureza um perfil científico, apesar de serem
era o apeíron, infinito e eterno. Ele conhecidos, à época, como filósofos
também se preocupava em expli- naturais. Fenômenos assustadores,
car o como e o porquê das coisas do como raio e trovão, eram produzidos
mundo, que saem invariavelmente pelo vento; o arco-íris era o resultado
desse princípio. Inovou ao dar uma da propagação dos raios solares nas
explicação científica para o universo, nuvens; os terremotos eram o resulta-
ao invés da sobrenatural. Para Ana- do de rachaduras no solo seco, depois
ximandro, havia um número infinito de umedecido pela chuva. A explica-
de mundos que precederam o nosso ção nem sempre era correta, mas a
e que nasceram após a Terra. Preocu- atitude racional denotava o rompi-
pava-se em buscar explicações para mento com a superstição.
a evolução das coisas e das espécies.
Demócrito de Abdera nasceu por volta
Ele trouxe para a Grécia o relógio so-
de 460 a.C.. Foi o maior expoente do
lar. Anaximandro foi o primeiro a dar
atomismo, teoria que sustentava que
uma explicação virtualmente correta
tudo o que existe é composto por ele-
sobre a natureza e a causa dos ventos;
mentos indivisíveis chamados átomos.
segundo ele, o vento seria o fluxo de
ar formado quando seus elementos
No campo da astronomia, destacou-
mais leves são movimentados pelo
-se Hiparco, que viveu no século II
sol. Usando apenas seu poder de ob-
a.C.. Ele foi o fundador da astrono-
servação e sua reflexão, esse notável
mia científica. Mapeou com extrema
filósofo natural grego chegou a ideias
precisão a posição e o brilho de apro-
que são precursoras de muitas ideias
ximadamente mil estrelas (dentre as
sustentadas pela física e biologia
cerca de seis mil estrelas visíveis a
modernas. Dentre elas, destacam-se
olho nu17). A necessidade de precisão
duas:
em suas medidas levou-o ao desen-
volvimento da trigonometria.
• o mundo não tem apoio, mas se
sustenta por um equilíbrio de for-
A medição de tempo sempre foi fun-
ças. Essa ideia é muito semelhante
damental para o homem. Naquela
à Lei da Gravitação Universal, de
Newton, que explica por que a terra 17
T. Padmanabhan – Após os Três Primeiros Minutos –
gira em torno do sol; Editora Terramar, 1998.

RELEITURA | jul./dez. 2011 173


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

época, durante o dia, usava-se o reló- atuais, envolvendo a dúzia de um


gio solar para a medição do tempo. À produto, por exemplo, bananas, ovos.
noite, usava-se a posição de determi-
nadas estrelas, ampulhetas, velas. A Os babilônios, seus vizinhos na Me-
ancestral prática religiosa dos povos sopotâmia, desenvolveram o sistema
da antiguidade requeria uma acurada numeral que combinava as duas bases
medição do tempo, por meio da cui- dos sumérios, resultando na criação
dadosa observação do Sol e da Lua. da base sessenta. A contagem de tem-
Surgiram assim os calendários solar e po e as medidas trigonométricas são
lunar. O calendário lunar era o prefe- um legado desse sistema. Os egípcios
rido para o cálculo das datas das fes- trabalhavam na base dez. Os maias
tividades. Mas foi o calendário solar desenvolveram um sistema misto, de
que terminou por ser adotado para base cinco e base vinte. Os hindus de-
a contagem do tempo. Entretanto, o senvolveram o sistema que terminou
calendário lunar ainda hoje é usado sendo adotado nos tempos atuais: o
para calcular as datas de determina- sistema decimal com notação posi-
das festividades. Por exemplo, a pás- cional. Mas esses sistemas eram usa-
coa cristã é celebrada no primeiro do- dos basicamente para a contagem.
mingo após a primeira lua cheia após
a data dos equinócios (21 de março). Foram os gregos as grandes referên-
E a data do carnaval é calculada retro- cias para o desenvolvimento dos
cedendo 40 dias do início da semana fundamentos matemáticos dos dias
santa (sexta-feira). Cairá num domin- atuais. A lógica dedutiva e o conceito
go. É a origem da quarentena. A data de prova eram o que diferenciava os
do carnaval é a terça feira anterior a matemáticos gregos dos de outras re-
esse domingo. Depois da festa profa- giões. Pitágoras de Samos foi um dos
na, a penitência religiosa. mais famosos matemáticos do mun-
do antigo. Em relação ao movimento
Os números nasceram com as civili- dos planetas, Pitágoras, discípulo de
zações. A necessidade de se contarem Thales, defendia a teoria geocêntrica,
as colheitas, as moedas, os produtos e que a Terra era esférica. Mais adian-
manufaturados, de se dividirem ter- te, no século III a.C., Aristarco de Sa-
ras levou os povos ao desenvolvimen- mos foi o primeiro a defender a teoria
to de sistemas numerais. Vários che- heliocêntrica, mas ela não foi bem
garam aos nossos dias, ainda que não recebida na época. Ele também foi o
fossem práticos para cálculos mais precursor da medição das distâncias
elaborados. Os sumérios desenvol- entre a Terra e a Lua e entre a Terra e
veram dois sistemas com duas bases o Sol, e de suas dimensões. Errou os
independentes: o de base cinco, que cálculos (muito em razão da impreci-
usava os dedos de uma mão, e o de são dos instrumentos), mas acertou o
base doze, que usava as três falanges procedimento de cálculo.
de quatro dedos (o polegar só tem
duas). A base 12 é a origem da conta- Pitágoras é lembrado atualmente
gem em certas transações comerciais pelo teorema que leva o seu nome. Os

174 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

babilônios conheciam a fórmula por Aristóteles, um dos maiores filósofos


tentativa e erro, mas foi Pitágoras que da Grécia, estabeleceu os alicerces
consolidou o conceito de demonstra- do pensamento científico no mundo
ção de teoremas, hoje um dos pilares cristão e islâmico. Viveu no século
da matemática. Visitou o Egito e a Ba- IV a.C. Era médico de formação. Foi
bilônia, onde estudou os princípios tutor de Alexandre, o Grande. Criou,
geométricos que deram base para a em Atenas, o Liceu, para competir
prova de seu teorema. Fundou, na re- com a Academia, fundada por Platão,
gião da Calábria (à época pertencente de quem foi discípulo. Aprofundou
à Grécia), a Escola Pitagórica, voltada estudos em física, zoologia, matemá-
para os estudos da matemática, da tica e clima. Foi o primeiro a apre-
religião e do misticismo. Pitágoras sentar evidências científicas de que
também apreciava a música e, a par- a terra era esférica e a convencer os
tir da matemática, inventou a escala sábios da época clássica, em face de
musical. Ademais, a partir dos seus argumentos extremamente sólidos19.
estudos matemáticos, criou a teoria Desenvolveu o sistema de lógica de-
dos números, ramo atual da matemá- dutiva, que serve de base para o mun-
tica que se dedica ao estudo dos nú- do científico atual. Para Aristóteles, a
meros inteiros. Sua ideia de que tudo argumentação lógica perfeita, que ele
podia ser explicado pela matemática denominou silogismo, é constituída
influenciou outros pensadores famo- por três declarações que se conectam
sos, como Platão e Aristóteles. Foi Pi- de tal forma que, a partir das duas
tágoras que consolidou a ideia de um primeiras declarações – denomina-
éter presente em toda a parte, no qual das premissas – pode-se concluir pela
tudo se move, inclusive a luz. terceira declaração20. Ele também de-
fendia que tudo o que existe é consti-
Euclides, outro matemático grego tuído por quatro elementos: terra, ar,
imortalizado por sua obra, legou à fogo e água.
humanidade um dos mais importan-
tes livros da matemática da história: Outros matemáticos gregos merecem
Os Elementos. Nesse livro, o professor destaque. Diofanto de Alexandria
Euclides sintetizou o conhecimento deu um salto qualitativo nas ideias
grego sobre matemática. Enunciou de Euclides, ao aprofundar a teoria
cinco axiomas18 matemáticos, a par- das equações. É considerado o pai da
tir dos quais demonstrou vários teo- álgebra. Erastótenes de Cirene foi di-
remas da geometria. Os Elementos foi retor da Biblioteca de Alexandria e o
um dos principais livros na formação primeiro a determinar com precisão
inicial de inúmeros cientistas ao lon- o diâmetro da terra. Além disso, cal-
go da história da humanidade. Desta-
cam-se Galileu Galilei, Isaac Newton 19
Ao contrário do que se afirma comumente, durante
e Einstein. a idade média, as pessoas eruditas sempre souberam
que a terra era esférica. É possível que alguns euro-
peus menos letrados acreditassem que a terra era
18
Premissa imediatamente evidente que se admite plana.
como universalmente verdadeira, sem exigência de de- 20
Exemplo de silogismo: Todo homem é mortal (1);
monstração ­– Dicionário Aurélio versão eletrônica 3.0. João é homem (2); logo, João é mortal (3).

RELEITURA | jul./dez. 2011 175


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

culou a distância entre a terra e o sol “Todas as crenças dogmáticas são fa-
e contribuiu para o desenvolvimento laciosas e não devem ser aceitas pelas
da teoria dos números primos. Esses pessoas que se respeitam a si próprias
números desempenham, hoje, papel como sendo a palavra definitiva”.
fundamental na segurança de infor-
mações criptografadas. Desenhou Professora da Universidade de Ale-
importantes mapas da época, tendo xandria, Hipácia fez grandes contri-
sido, por isso, considerado o primeiro buições para a astronomia, física e
geógrafo. matemática. Era uma exímia solu-
cionadora de problemas que ator-
Outro notável matemático grego foi mentavam os matemáticos da época.
Arquimedes de Siracusa, que postu- Morreu aos 55 anos com requintes de
lou, a partir da observação, o princí- crueldade, por ter se envolvido numa
pio que leva o seu nome. Arquimedes disputa local com fanáticos católicos.
observou que um objeto em imersão Para alguns historiadores da mate-
desloca certo volume de água. Ao mática, o fim de Hipácia simboliza a
deslocar esse volume, o objeto passa morte da gloriosa matemática grega e
a sofrer uma força para cima (empu- o início de um triste e longo período de
xo), igual ao peso da água deslocada. obscuridade21 na Europa.
O princípio de Arquimedes é utiliza-
do ainda hoje, por exemplo, para a A prêmio nobel de medicina de 1986,
fabricação de navios e submarinos de a italiana Rita Levi-Montalcini, afir-
qualquer dimensão. Credita-se a ele mou recentemente22, em relação à
a famosa frase: dá-me uma alavan- participação de mulheres na ciên-
ca suficientemente longa e moverei cia: muitos descobrimentos científicos
o mundo. Conhecida há milênios, a atribuídos a homens foram realmente
alavanca só teve uma descrição ma- feitos por mulheres de sua família. A
temática com Arquimedes. Ele com- inteligência feminina não era admiti-
partilha com Pitágoras a distinção da nas sociedades misóginas do pas-
contemporânea de maior matemáti- sado. Hoje, há mais mulheres do que
co do mundo antigo. homens na investigação científica.
São as herdeiras de Hipácia!
Não se pode deixar também de des-
tacar Hipácia de Alexandria, a maior Os gregos também desenvolveram
matemática da Era Antiga. Nasceu a alquimia, por meio da metalurgia.
em torno do ano 360 da era cristã. Chineses e indianos do mundo anti-
Seu pai, e também professor, alerta- go foram influenciados pelas expe-
va-a seguidamente quanto aos obstá- riências alquímicas dos gregos. Os
culos à aquisição do conhecimento, alquimistas tinham três objetivos: a
criados por religiões e crenças. A esse transmutação de metais comuns em
respeito, vale destacar dois conselhos
paternos: “Reserva-te o direito de pen- 21
G. G. Garbi – A Rainha das Ciências – Livraria da Fí-
sar, pois mesmo que penses errado, é sica Editora, 2009.
22
http://www.brasiliaemdia.com.br/2008/2/8/Pagi-
melhor do que nem sequer pensar”; na3899.htm, acessado em 1/3/2011.

176 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

ouro, a descoberta de um medica- ga, por quase quinhentos anos (entre


mento universal e a criação do elixir 509 a.C. e 27 a.C.). O império romano,
da imortalidade. Os alquimistas gre- sucedendo a antiga Roma republica-
gos focaram suas experiências no pri- na, foi consolidado com a ascensão
meiro, a busca da pedra filosofal, que de Júlio César ao poder. O regime dos
era a chave para a transmutação. Já os imperadores caracterizou-se pela au-
alquimistas chineses concentraram- tocracia, mas foram mantidas as ins-
-se no segundo, a busca do elixir da tituições republicanas. O Senado era
imortalidade; a descoberta da pólvo- a mais forte das instituições remanes-
ra decorreu dessas experiências. E os centes, ainda que o seu poder tives-
indianos desenvolveram experimen- se sido consideravelmente subtraído
tos mais voltados para o terceiro obje- pelos imperadores.
tivo, a busca do medicamento univer-
sal. As três culturas desenvolveram Roma não se notabilizou por avanços
técnicas importantes para a posteri- no campo das ciências naturais. En-
dade, destacando-se a destilação. tretanto, sua capacidade de desen-
volvimento de engenharia marcou a
Os gregos acreditavam que o conhe- história, e não foi igualado antes do
cimento poderia ser obtido apenas século XIX. Rotação de culturas e téc-
pela argumentação e pela razão, atra- nicas de fabricação de vidro, colhei-
vés de silogismos. Só em raros mo- tadeiras a tração animal, aquedutos,
mentos, recorriam à realização de esgotos, guindastes, diferenciais para
experimentos. Platão defendia que, veículos, velas com pavio, navios
aos homens inteligentes bastava uma mercantes, concreto são algumas he-
exaustiva discussão para se chegar à ranças romanas para a posteridade.
verdade. Aristóteles aceitava o estudo
da ciência, mas negava qualquer es- O império romano no Ocidente man-
paço para a experimentação. teve uma estrutura territorial mo-
nolítica até o início do século V d.C..
Sua fragmentação ocorreu em face de
3.2. A Energia e o Império uma grave crise econômica, política e
demográfica. Uma das causas de sua
Romano23 queda foi uma crise de energia sem
precedentes na história do império.
A cultura grega influenciou fortemen-
te o império romano. Essa influência
A queda do império romano no Oci-
refletiu-se, por exemplo, na adoção
dente começou a se configurar a
da mitologia grega pelos romanos
partir do esgotamento do modelo de
e nas técnicas de guerra que torna-
conquistas militares, seguidas de pi-
ram o exército romano difícil de ser
lhagens, que enriqueciam enorme-
derrotado. Na política, destaca-se a
mente o caixa romano. O ápice desse
adoção da república, pela Roma anti-
modelo foi a conquista do Egito, em
30 a. C., A pilhagem do Egito irrigou
23
A Economia do Hidrogênio, p. 57 – Jeremy Rifkin – M.
Books do Brasil Editora. o erário romano com tantos recur-

RELEITURA | jul./dez. 2011 177


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

sos, que o imperador Augusto chegou irreversível do império romano oci-


a distribuir moedas aos plebeus de dental24.
Roma.

A conquista do Egito foi a maior do 4. Intermezzo na Europa


império romano. O ápice da extensão
territorial romana ocorreu no reina- Coincidindo com a fragmentação do
do de Trajano, ao final do século I. A império romano, no início século V, o
partir daí, incapaz de fazer frente aos desenvolvimento científico hibernou
povos germânicos, Roma abandonou na Europa. Após essa fragmentação,
as guerras de conquistas e passou a o continente europeu passou por um
trabalhar pela consolidação dos ter- intermezzo cultural e científico, pe-
ritórios conquistados, mediante um ríodo marcado pelo obscurantismo
modelo colonialista que investia em cultural. A ciência europeia pratica-
infraestrutura e serviços básicos. Isso mente desapareceu durante a maior
gerou uma enorme despesa ao erário parte da Idade Média. Como diz o
romano. Como se já não bastasse o ditado, o homem é escravo de seus
aumento das despesas com a manu- medos. Foi dessa forma que a razão,
tenção do exército, com a logística ne- libertada na Grécia Clássica, voltava a
cessária à manutenção do império, e ser escravizada. Havia pouco espaço
com a aposentadoria dos militares, as para a criatividade. Apenas era tole-
receitas de Roma estavam em declí- rado o que era conforme aos dogmas
nio pela ausência de novas pilhagens. católicos e à superstição. A inquisição
cuidava de semear o medo nas pes-
A alternativa estrutural à guerra de soas que ousavam pensar diferente-
conquistas foi o estímulo à agricul-
mente.
tura, como fonte de novas receitas
financeiras. No início do império, Abrindo um parêntesis, é impor-
os territórios do mediterrâneo eram tante ressaltar que, em suas táticas
densamente arborizados. No final do de dominação, instintivamente, a
império, as florestas já haviam sido classe dominante da Idade Média
quase que totalmente destruídas. utilizava-se de expedientes que hoje,
devidamente estruturados e cons-
A exploração ilimitada da madeira
cientemente utilizados, são base de
levou ao esgotamento dos recursos
uma forma de comunicação que tem
energéticos, arruinou a agricultu-
como função primordial impor uma
ra e, consequentemente, o modelo
ideia às massas. São, na realidade,
econômico de Roma. Pela falta de re-
técnicas de imposição de ideias a so-
cursos, a infra estrutura e os serviços
ciedades desatentas, para fins os mais
básicos deterioraram-se e o exército
diversos, menos o de compromisso
enfraqueceu-se. Os ataques bárbaros
com a verdade. Citam-se dois:
terminaram por minar a fragilizada
defesa de Roma. O final dessa última
24
O império romano oriental, com sede em Constan-
fase foi marcado pela fragmentação tinopla, ainda perduraria por mais mil anos.

178 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

• uma mentira repetida várias vezes que uma força externa aja sobre ele.
torna-se uma verdade; Seis e meio séculos depois, essa ideia
se tornaria a primeira lei de Newton.
• a propagação eficiente de uma
Estudou também a atração entre as
ideia jamais deve apelar à razão,
massas e a aceleração de massas sob
mas sempre à emoção e ao instinto.
a ação da força da gravidade, ideia
O medo foi o instrumento mais uti-
que seria desenvolvida com rigor ma-
lizado na Idade Média.
temático por Newton, resultando na
A esse respeito, deve-se lembrar que lei gravitação universal. Sua obra se
os princípios do método científico in- desenvolveu sob a influência do mé-
troduzido na Grécia Clássica – com- todo científico, inicialmente concebi-
promisso com a verdade e uso siste- do pelos gregos.
mático da razão – são o oposto dessas
técnicas medievais de propaganda O persa Avicena foi outro grande ex-
enganosa. poente da ciência, no século X. Esse
genuíno polímata foi um célebre fi-
Durante esse intermezzo, coube aos lósofo, médico, jurista, gramático,
árabes, chineses e indianos a tarefa teólogo, astrônomo, químico, geó-
de guardarem e desenvolverem os logo, paleontólogo e matemático.
conhecimentos gregos acumulados. Suas ideias não tiveram vida longa
Os árabes trataram de promover a no Oriente, em face da oposição de
tradução dos principais livros gregos teólogos ortodoxos, mas foram fun-
para sua língua. A partir daí, as ideias damentais para o Ocidente, que, ao
gregas foram migrando para a China tomar contato com elas, redescobriu
e Índia. A esses três povos devem-se o pensamento de Aristóteles. Ele in-
a maioria dos avanços científicos da fluenciou alguns filósofos europeus,
humanidade durante a Idade Média. destacando-se Tomás de Aquino, que
Entre os avanços citam-se: a pólvora, nutria grande admiração por ele.
o sismômetro, o álcool, ácidos, desti-
lação em alambique. Apesar de não rivalizar com a Grécia
Clássica nem com a revolução cien-
Destaque desse período foi o traba- tífica renascentista, a Idade Média
lho de Alhazen, cientista nascido no também teve um período de profícuo
século X na cidade de Basra (no terri- acúmulo de conhecimento. A par-
tório do atual Iraque). Ele escreveu o tir do século XI, a invasão moura da
Livro de Óptica, um tratado que, pos- península ibérica e os esforços de al-
teriormente, influenciaria importan- guns acadêmicos europeus para tra-
tes cientistas da Europa renascentis- duzirem os livros árabes e gregos para
ta e moderna, inclusive Newton. Ele o latim transformaram o pensamento
também inventou a câmera escura, do Velho Continente. Ressurgia, as-
precursora das câmeras fotográficas sim, o interesse pela investigação da
modernas. Afirmou que um corpo natureza, que voltou a ser vista como
permanece em repouso ou se deslo- um sistema coerente de leis que po-
ca a velocidade constante, a menos deriam ser explicadas pela razão.

RELEITURA | jul./dez. 2011 179


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

Há alguns exemplos desse renascimen- dia, no final das contas, não foi uma
to medieval. A agricultura aumentou era das trevas como apregoa o senso
sua produtividade a partir do desen- comum. Foi apenas um intermezzo
volvimento dos moinhos d’água e de imposto por uma cultura político-
vento, do arado de tração animal, das -religiosa que negava a liberdade de
ferraduras. No campo da arquitetura, o criação. Mas, parecia inevitável que,
estilo romântico, surgido no século X, em algum momento, a religião e a po-
evoluiu para o estilo gótico, no século lítica se separassem. As bases para a
XII, cuja técnica de construção é ba- secularização25 dos governos foram
seada em princípios matemáticos que implantadas por Tomás de Aquino,
influenciariam as técnicas de cons- expoente da escolástica26. Sob a forte
trução do Renascimento. O estilo gó- influência do aristotelismo, esse frade
tico permitiu aumentar consideravel- dominicano defendia certa autono-
mente a altura das catedrais e prover mia da razão na obtenção de respos-
maior iluminação natural. No campo tas, conquanto não negasse a subor-
da energia, vale registrar o início da dinação da razão à fé.
mineração sistematizada de carvão no
século XIII, em território europeu. Apesar de a atenção dos cientistas
medievais ter-se voltado para a Gré-
O renascimento medieval contou cia clássica, o retorno da liberdade
ainda com a invenção dos óculos, de de pensamento que se desenhava no
relógios mecânicos, das caravelas, da fim da Idade Média não foi pacífico. A
prensa móvel de Gutenberg, e com o renovação das ideias dominantes na
aperfeiçoamento das tecnologias da época provocou uma dura reação do
pólvora, da bússola, do astrolábio e obscurantismo religioso, que ceifou
da confecção de mapas. Todos esses muitas vidas entre os que professa-
inventos e aperfeiçoamentos viabili- vam algumas ideias sobre as ciências
zaram, entre outras realizações, a ex- naturais diferentes das da teologia ca-
pansão marítima e comercial da Eu- tólica. A mais proeminente vítima da
ropa culminando com a descoberta inquisição foi Giordano Bruno. Esse
das Américas, já no final do século XV. frade dominicano estudou profunda-
mente Aristóteles e Tomás de Aquino.
Uma das mais importantes tecnolo- Foi ferrenho defensor de um univer-
gias desenvolvidas nesse período foi so infinito, heliocêntrico, tendo sido,
a invenção de Gutenberg, que per- por isso, obrigado a deixar a batina.
mitiu a popularização da escrita. A
consequência mais impactante foi Defensor também das ideias de Pla-
a democratização do aprendizado e tão, Bruno preconizava que Deus é a
uma inédita rapidez na divulgação de
novas ideias, facilitando o advento da 25
Processo pelo qual a religião deixa de ser o aspecto
revolução científica que se seguiria. cultural agregador da sociedade, transferindo para
outra atividade o fator agregador e identificador dessa
sociedade.
Portanto, pode-se perceber que, do 26
Ramo da filosofia medieval. A questão-chave do
pensamento escolástico era a harmonização da fé e
ponto de vista científico, a Idade Mé- da razão.

180 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

alma universal do mundo e que to- de eruditos, as ideias que ditavam o


das as coisas materiais são manifes- comportamento da população eram
tações desse princípio infinito. Tais uma mescla de crenças da antiga Gré-
ideias influenciaram profundamente cia e de ensinamentos da Igreja Ca-
Espinosa, filósofo holandês, e Leib- tólica. Isso começou a mudar com o
niz, pensador alemão que, junto com Renascimento (ou Renascença), pois
Newton, desenvolveu o cálculo inte- se instalou uma nova ordem, na qual
gral e o diferencial. a razão tornou-se a medida de tudo.
A Renascença e a Reforma Protestan-
Giordano Bruno é tido como um te tornaram mais fácil a consolidação
pioneiro da filosofia moderna. Por da Idade Moderna.
ter afrontado as crenças católicas da
época, Giordano Bruno foi conside- O Renascimento foi um profícuo pe-
rado um herege pela inquisição ro- ríodo da história da Europa, entre o
mana e condenado a ser queimado século XIII e o século XVII, durante
vivo numa fogueira em praça pública. o qual foram redescobertas e reva-
Ao ser sentenciado, afirmou a seus lorizadas as referências culturais da
juízes: Talvez sintam maior temor ao Idade Antiga27. As sementes cultu-
pronunciar esta sentença do que eu ao rais colhidas da Grécia clássica foram
ouvi-la. Essa barbárie foi consumada guardadas no Oriente, replantadas na
em 17 de fevereiro de 1600, não sem Europa durante o período medieval, e
antes seus carrascos cravarem uma floresceram no final da Idade Média.
tábua em sua língua, como castigo O resultado foi um extraordinário de-
pela pregação de ideias consideradas senvolvimento, já na Idade Moderna,
heréticas. Mas, sua luta e a de outros de áreas tão díspares como artes, fi-
tantos filósofos e cientistas não foram losofia, religião, cultura, política, ci-
em vão, pois prepararam o terreno ência, tecnologia, além da consolida-
para a consolidação das novas ideias ção de novas áreas de conhecimento,
que floresceram no Renascimento. como a física, a química, a biologia, a
economia.

A ciência e o método científico res-


5. Renascimento e Idade surgiram com força durante a Idade
Moderna Moderna. Tal ressurgimento, já na
Renascença, reavivou o pensamento
A transição da Idade Média para a científico, produzindo mentes bri-
Idade Moderna não foi súbita, mas lhantes como Galileu e Newton. No
um lento processo de confronto de campo da filosofia, pensadores, como
ideias entre os filósofos modernos e Descartes e Espinosa, moldaram o
os nobres/clérigos católicos, a elite que viria a ser o Iluminismo28, resga-
da época medieval. Até meados do
século XV, conquanto o conhecimen-
27
Período compreendido entre a invenção da escrita
(4.000-3.500 a.C.) e a queda do império Romano (453
to científico tivesse avançado durante d.C.)
28
Um dos mais importantes períodos da história in-
a Idade Média num pequeno círculo telectual e cultural do Ocidente. A era iluminista é

RELEITURA | jul./dez. 2011 181


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

tando finalmente a razão do jugo dos maior gênio da história, em razão de


dogmas religiosos. Muitas conquistas sua multiplicidade de talentos. Gior-
científicas iniciaram-se nessa época, gio Vasari, pintor e arquiteto italiano,
que levaram a uma revolução do co- contemporâneo de Leonardo e um
nhecimento de enormes proporções. de seus biógrafos, assim expressou
sua admiração pelo conterrâneo: De
A principal marca diferenciadora tempos em tempos, o Céu nos envia al-
entre a revolução científica na Ida- guém que não é apenas humano, mas
de Moderna e a revolução da Gré- também divino, de modo que, através
cia clássica foi a inclusão da experi- de seu espírito e da superioridade de
mentação como um dos pilares do sua inteligência, possamos atingir o
método científico. Para os gregos, a Céu.
experimentação era desprezada, por
considerarem que apenas a mente Na esteira da retomada do método
era suficiente para se chegar à verda- científico, cita-se ainda o polonês Ni-
de das coisas. A combinação de expe- colau Copérnico, nascido em 1473.
rimentação e método científico grego Além de cônego da Igreja Católica, ele
serviu de base para o aparecimento era astrônomo e matemático. Quase
da ciência na sua face moderna. dois milênios após a primeira defesa
do heliocentrismo por Aristarco de
Um dos maiores expoentes do Renas- Samos, Copérnico reafirmou a ador-
cimento foi o polímata Leonardo da mecida teoria heliocêntrica. Explicou
Vinci. Nascido na Itália em 1452, ele com precisão o porquê dos equinó-
tinha uma curiosidade insaciável, só cios e solstícios e deu uma clara expli-
igualada pela sua capacidade inven- cação da causa das quatro estações.
tiva. Ele foi cientista, matemático, Ele esperou décadas para publicar
engenheiro, inventor, anatomista, seus estudos. Autorizou a publicação
pintor, escultor, arquiteto, botâni- apenas quando já se encontrava no
co, poeta e músico. Foi o precursor seu leito de morte.
da aviação e da balística e um dos
maiores pintores de todos os tempos. O primeiro grande expoente da ci-
Concebeu ideias muito à frente do ência moderna foi Galileu Galilei.
seu tempo, como helicóptero, ultra- Nasceu em 1564, em Pisa. Ele foi ma-
leve, tanque de guerra, uso da ener- temático, astrônomo e filósofo, e é
gia solar, calculadora. Trouxe grandes considerado o pai da ciência moder-
avanços nos campos da anatomia, na. Lastreou suas descobertas em ob-
engenharia civil, óptica e hidrodi- servações e experimentos, sob condi-
nâmica. É considerado por muitos o ções rigorosamente controladas. Foi
um dos primeiros cientistas moder-
nos a aplicar a matemática no mundo
aceita como tendo iniciado nos primeiros anos do
século XVIII, e terminado, com o advento das guerras real. Sobre essa aplicação, ele afirma-
napoleônicas do início do século XIX. Os iluministas
pretendiam contribuir para o progresso da humani-
va: A ciência é escrita na linguagem da
dade em todas as áreas do conhecimento, e visavam matemática. Newton viria a dar uma
também à superação dos resíduos de tirania e supers-
tição, legados pela Idade Média. demonstração cabal da importância

182 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

de um casamento indissolúvel entre a Galileu aprimorou o telescópio, ins-


física e a matemática. trumento criado pelo holandês Hans
Lippershey, em 1609, com o qual des-
Dentre as descobertas mais famosas cobriu as manchas solares, as monta-
de Galileu, estão o princípio do pên- nhas da Lua, quatro satélites de Júpi-
dulo e a lei dos corpos em queda li- ter, os anéis de Saturno e as estrelas
vre, que chegam ao solo no mesmo da Via Láctea. Com o telescópio, reu-
tempo, independentemente das suas niu ainda provas poderosas de que o
massas. Defendeu o método empí- Sol era o centro do sistema solar.
rico29, em contraposição ao método
aristotélico, que refutava a experi- As ideias de Galileu foram fundamen-
mentação como elemento formador tais para a compreensão de conceitos
do conhecimento. Ele enunciou o como força e movimento, que foram
Princípio da Inércia30 e o Princípio da base para Newton desenvolver as suas
Relatividade31. famosas três leis do movimento, que
permitem o cálculo de praticamen-
29
No campo da filosofia, o empirismo é um movimen-
to que acredita nas experiências como as principais te todos os movimentos do Universo
formadoras das ideias, em contraposição à noção em velocidades muito menores que
de ideias inatas. No campo da ciência, o empirismo
é utilizado quando se fala de método científico tra- a da luz, num espectro que abrange
dicional. Segundo esse método, as teorias científicas
devem ser baseadas na rigorosa observação do mun- do deslocamento médio dos átomos
do, em vez de lastreadas na intuição ou na fé. num gás, a rotação do sistema solar
30
Aristóteles afirmava que os objetos em movimento
só permaneceriam em movimento se houvesse uma em torno da Via Láctea, e assim por
força que os empurrasse, caso contrário, tenderiam a
parar. Isso está de acordo com o senso comum. Ga-
diante.
lileu contestou esse paradigma multimilenar ao afir-
mar que um corpo pode, sim, estar em movimento
perpétuo onde não há atrito, mesmo que nenhuma Em razão de sua defesa do heliocen-
força esteja atuando nele: quanto menor o atrito, trismo, em contraposição ao geocen-
mais os objetos em movimento se aproximam do
movimento perpétuo à velocidade constante, depois trismo32 propalado pelos teólogos
de serem empurrados. É o que aconteceria com um da época, Galileu foi levado a julga-
astronauta passeando no espaço: se ele desse um im-
pulso para se afastar da nave espacial, ele continuaria mento, por heresia. Declarado culpa-
se afastando dela a uma velocidade constante, em um
movimento perpétuo. Portanto, os objetos têm uma do, foi condenado e lhe foram dadas
tendência a permanecerem como estão (em repouso duas opções: a morte ou a retratação
ou em movimento), se nenhuma força modificar a sua
situação. Esse postulado é conhecido como o Princí- pública mais a prisão perpétua. Após
pio da Inércia de Galileu ou Primeira Lei de Newton.
31
O Princípio da Relatividade de Galileu afirma que
a retratação pública, reza a lenda que
as leis fundamentais da física são as mesmas, inde- Galileu teria dito na saída do tribunal:
pendentemente da referência adotada para medição
do movimento, mas o valor das medidas depende do contudo, a terra se move. Conseguiu
referencial. Em outras palavras, o tempo e o espaço
concebidos por Galileu e Newton são absolutos e in-
comutar sua pena de prisão perpétua
dependentes. Mas os referenciais, não. Por exemplo: em prisão domiciliar.
dois trens se cruzam em sentido contrário cada um
viajando a 100 km/h; para um passageiro que viaje
em um dos trens, o outro trem está a 200 km/h, em Johannes Kepler, nascido na Alema-
relação ao passageiro. Caso o trem do mesmo passa-
geiro estivesse parado, e o outro cruzasse a 200 km/h, nha em 1571, foi astrônomo, mate-
a percepção de velocidade do passageiro parado seria
a mesma. A percepção de velocidade do outro trem
muda de acordo com a referência, mas as leis que cal- 32
Segundo esse conceito, a terra seria estática e estaria
culam a velocidade serão sempre as mesmas. A dis- no centro do universo. Em torno dela, todos os astros
cussão em torno desse princípio foi fundamental para girariam. Algumas passagens da Bíblia reforçam essa
Einstein desenvolver a teoria da Relatividade. visão.

RELEITURA | jul./dez. 2011 183


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

mático e astrólogo, e uma das figu- existência do éter seriam objeto de


ras-chave da revolução científica do grandes debates até o início do sécu-
século XVII. Ele formulou as leis que lo XX, quando Einstein e outros cien-
levam seu nome, que forneceram os tistas pacificaram as duas questões. O
fundamentos para a teoria da gravita- Discurso do Método, sua obra mais
ção universal de Newton. No campo relevante, tinha como objetivo criar
da óptica, desenvolveu ideias funda- não só um método para resolução
mentais e inventou uma versão me- de problemas de matemática e física,
lhorada do telescópio refrator (duas mas também para encontrar a verda-
lentes), o que permitiu legitimar as de das coisas.
descobertas de seu contemporâneo
Galileu Galilei. A primeira lei de Ke- Outro francês que teve gigantesca
pler afirma que a Terra gira em torno influência no desenvolvimento da
do Sol. Isso enfureceu os clérigos ca- matemática foi Pierre de Fermat. Ju-
tólicos, mas ele estava a salvo da fú- rista e magistrado de profissão, ele é
ria do santo ofício, uma vez que vivia considerado o Príncipe dos Amadores
num país que havia sido o berço da de matemática, porque praticava a
Reforma Protestante33. Kepler susten- matemática apenas por diletantis-
tava ainda que os planetas se moviam mo. Suas habilidades matemáticas
graças a um efeito magnético irradia- eram impressionantes. Seu nome era
do do Sol, o que Newton viria a refutar. pouco conhecido à época, haja vista
sua crônica resistência em publicar
Outros grandes cientistas da época suas descobertas. Seus achados só
podem ser citados. René Descartes, foram conhecidos graças à troca de
filósofo, físico e matemático francês, correspondências com amigos e às
e grande admirador de Galileu, é con- anotações em livros que ele estudava.
siderado o fundador da filosofia mo- Uma das fontes de divulgação de seu
derna e o pai da matemática moder- trabalho foi Marsenne, padre, filóso-
na. Nasceu em 1596, na França. Foi o fo e matemático francês. Ao saber da
primeiro a publicar um ensaio sobre fama de Fermat entre outros mate-
a fusão da geometria e da álgebra, re- máticos franceses, passou a se cor-
sultando na geometria analítica; de- responder com ele e se encarregou
senvolveu estudos de óptica, tentou de divulgar seu trabalho entre outros
medir a velocidade da luz, e afirmava matemáticos da Europa.
que a luz era formada de corpúsculos;
defendeu a ideia de Pitágoras, segun- O hobby predileto de Fermat era tro-
do a qual o universo era totalmente car e resolver desafios. René Descar-
preenchido por um éter onipresen- tes iniciou polêmicas com Fermat
te. A natureza corpuscular da luz e a reiteradas vezes. Fermat, sempre com
calma e cortesia, demoliu Descartes
33
A Reforma Protestante foi um movimento reformis- em todas as ocasiões. A invenção da
ta cristão do século XVI, que confrontou os dogmas
da Igreja Católica da época, culminando com o enfra-
geometria analítica é obra de Fermat,
quecimento do poder clerical católico. Na Alemanha, incluído no seu trabalho não publi-
foi liderada por Martinho Lutero. Na França e Suíça,
por João Calvino e Ulrico Zuínglio. cado Introdução aos Lugares Geomé-

184 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

tricos Planos e Sólidos. Sabe-se que A multiplicação e a divisão de núme-


Descartes teve acesso à Introdução ros, até então difíceis de executar com
alguns meses antes de publicar seu li- calculadoras, foram enormemente
vro Geometria, onde apresentou para facilitadas pelo desenvolvimento de
o mundo a geometria analítica. Fer- logaritmos, pelo escocês John Napier.
mat também esteve profundamen- Nascido em 1550, Napier era mate-
te envolvido na fundação de outro mático, astrólogo e teólogo. Junto
ramo da matemática: o cálculo infi- com Henry Biggs, desenvolveu os
nitesimal. Esse ramo teve papel fun- logaritmos, o que facilitou enorme-
damental para a revolução científica mente as multiplicações e divisões,
que se seguiria, pois permitiu o de- pois eles permitiam transformar es-
senvolvimento do cálculo diferencial sas operações em soma e subtração,
e integral, consolidados por Newton respectivamente.
e Leibniz. Contribuiu também para a
teoria dos números. Sua obra foi ga- Os logaritmos permitiram o desen-
rantida para a posteridade em razão volvimento do mais importante ins-
do meticuloso trabalho de seus filhos, trumento de cálculo da história, até
que se encarregaram de publicá-la. o advento do computador: a régua
de cálculo. Trata-se de um verdadei-
Blaise Pascal nasceu na França em ro computador mecânico analógico.
1623. Era matemático, filósofo e teó- Durante mais de trezentos anos, até a
logo. Contribuiu enormemente para década de 1970, a régua de cálculo foi
o desenvolvimento da geometria pro- utilizada por universitários de todo o
jetiva, da teoria das probabilidades mundo, por físicos, por engenheiros,
e da análise combinatória. A teoria no projeto e na construção de obras
das probabilidades nasceu a partir mais complexas. Foi um insubstituí-
de uma troca de cartas entre Pascal vel instrumento de cálculo para de-
e Fermat. Ambos eram contumazes zenas gerações de profissionais das
praticantes de jogos de azar, e enta- ciências exatas. Ela permitia cálculos
bularam comunicação para darem aproximados de problemas extrema-
um tratamento científico que calcu- mente complexos e foi fundamen-
lasse as chances de se ganhar nesses tal para viabilizar, inclusive, a ida do
jogos. homem à Lua. A régua de cálculo foi
inventada pelo matemático inglês
No campo da física, Pascal esclare- William Oughtred em 1638.
ceu os conceitos de pressão, vácuo e
de variações na pressão atmosférica. Outro cientista de grande valor para
Criou a primeira calculadora mecâ- a história da ciência foi o holandês
nica para soma e subtração. Estabe- Christiaan Huygens. Nasceu em 1629.
leceu também o princípio de Pascal, Era matemático, astrônomo e físico.
que é o fundamento para a constru- Descobriu os anéis de Saturno, que
ção de macacos hidráulicos. Pascal Galileu havia apenas vislumbrado
considerava Fermat o maior matemá- sem nenhuma nitidez, e descobriu
tico de seu tempo. Titã, a maior lua de Saturno. No cam-

RELEITURA | jul./dez. 2011 185


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

po da física, desenvolveu a teoria de busca evidências experimentais, sob


que a luz seria uma onda que se pro- condições controladas e passíveis de
pagava no éter, diferentemente da vi- serem repetidas por outros pesquisa-
são de Newton, que defendia a teoria dores; 3) depois, divulgação de suas
corpuscular da luz, apresentada por descobertas aos seus pares, para que
Descartes. Foi o primeiro cientista a eles realizem rigorosas análises e tes-
sistematizar a teoria das probabilida- tes que a sustentem ou a contestem.
des, desenvolvida por Pascal e Fermat. Bacon morreu de resfriado, adquirido
ao rechear uma carcaça de galinha
Destacaram-se também Hans Jans- com neve, para ver se a carne podia
sen e seu filho, holandeses, fabrican- ser conservada. Sua obra influenciou
tes de óculos. Inventaram o primeiro diretamente Robert Boyle, Robert
microscópio em 1590. O primeiro a Hooke e Isaac Newton.
utilizar esse aparelho para explorar o
mundo microscópico foi o holandês Experimentador entusiasta, o irlan-
Antonie van Leewenhoek. Ele ob- dês Robert Boyle era físico e químico.
servou e descreveu detalhadamente Nasceu em 1627, e fez notáveis des-
os embriões de plantas, os glóbulos cobertas. Enunciou a lei dos gases34,
vermelhos e os espermatozóides em desenvolveu um indicador para de-
sêmen de animais. Descobriu tam- tecção de substâncias ácidas (usado
bém a existência de micróbios, hoje até hoje), descobriu o enxofre, a ace-
conhecidos como microorganismos. tona, o sulfato de mercúrio, o álcool
metílico, isolou o hidrogênio, provou
Francis Bacon, político inglês, de- que o ar é uma mistura. Ele refutou
fendia ideias semelhantes às de seu as teorias de Aristóteles e da alqui-
contemporâneo Descartes. Nascido mia sobre os quatro elementos, acei-
na Inglaterra em 1561, Bacon despre- tas durante mais de dois milênios. É
zava as falsas noções, responsáveis considerado o pai da química mo-
pelos erros cometidos pelos homens derna. Foi membro fundador da Real
que diziam fazer ciência. Essas falsas Sociedade35. Apesar de muito rico,
noções eram baseadas somente em vivia modestamente, e usava sua
algumas observações não testadas. fortuna para financiar as pesquisas
Por isso, defendia um novo padrão científicas. Tratava seus subalternos
de precisão, por meio de um paciente como seus iguais. Recusou convites
acúmulo de dados. para se tornar presidente da Real So-
ciedade, para se tornar nobre e mes-
O grande legado da filosofia de Bacon mo para se tornar um bispo da igreja
foi estabelecer uma organização que anglicana.
permitisse compartilhar os resulta-
dos do método científico e os da pes- 34
A Lei dos Gases é também conhecida como Lei de
quisa. Ao final do século XVII, suas Boyle, apesar de ele ter transparentemente atribuído
ideias já estavam consolidadas, da se- os créditos a seu assistente Robert Hooke e a Henry
Power, o autor da hipótese de variação da pressão at-
guinte forma: 1) de início, o cientista mosférica com a altura
35
Instituição inglesa dedicada à divulgação do conhe-
propõe uma hipótese; 2) em seguida, cimento científico. Foi fundada em 1660.

186 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

O inglês Robert Hooke também foi calculada a partir dos trânsitos de


um notável cientista experimental e, Mercúrio e Vênus. Descobriu que as
em razão de seu talento, foi convida- estrelas tinham movimento próprio.
do a ser assistente de Boyle. Nasceu Descobriu também a relação entre a
em 1635. Fez relevantes contribui- pressão atmosférica e a altura acima
ções no ramo da óptica. Sua expe- do nível do mar. Mapeou o campo
riência nesse ramo o levou à inven- magnético superficial da Terra e apre-
ção do microscópio de três lentes, à sentou a primeira justificativa racio-
construção do primeiro telescópio nal para a aurora boreal.
refletor e à descoberta da primeira
estrela binária (duas estrelas girando Isaac Newton36 foi o principal cientis-
uma em torno da outra). Desenvol- ta da Era Moderna e um dos maiores
veu também uma bomba de vácuo de todos os tempos. Newton nasceu
de precisão, utilizada por Boyle nos na Inglaterra em 1643, mesmo ano
estudos sobre o comportamento dos em que morreu Galileu, e é mais co-
gases, que tiveram como base os tra- nhecido por seus feitos nas áreas de
balhos do italiano Torricelli, discípulo física e matemática, embora tenha
de Galileu. Com essa bomba, Boyle sido também astrônomo, alquimista,
e Hooke mostraram que o som pre- filósofo natural e teólogo. Após um
cisava de um meio para se propagar. tio materno ter observado seu extra-
Juntamente com Boyle, inventou o ordinário talento para a construção
barômetro. Estudou o comportamen- de engenhos, sua mãe o levou para
to das molas, e enunciou uma lei que estudar em Cambridge, aos 17 anos.
leva o seu nome. Hooke e Edmond No Trinity College, estudou Os Ele-
Halley observaram que as órbitas dos mentos, de Euclides, Geometria de
planetas pareciam obedecer a uma Descartes, Óptica de Kepler. Estudou
ordem quadrática inversa, e pediram ainda as obras de Galileu e de Fermat.
para Newton dar roupagem teórica a
essa observação experimental. Surgi- Na realidade, Newton era um autodi-
ria daí a Lei da Gravitação Universal. data. Aos 21 anos, já havia atingido as
fronteiras do conhecimento em ma-
Edmund Halley nasceu em 1656. As- temática e física da sua época, e es-
trônomo e matemático britânico, tava pronto para dar as suas próprias
ele descobriu o cometa que leva o contribuições. Antes de formar, aos 22
seu nome. Mostrou que os cometas anos, já havia inventado o algoritmo
são objetos dotados de um ciclo de conhecido Método de Newton para a
aparecimento, e que muitos dos co- solução aproximada de raízes de uma
metas avistados no passado eram os função. Esse algoritmo é considerado
mesmos que apareciam novamente ainda hoje, entre os especialistas em
ao campo de visão dos homens. Pre- análise numérica, o melhor método
viu com precisão o ciclo de 76 anos para encontrar a solução aproximada
para o cometa Halley. Foi astrônomo de zeros de funções por computador.
real britânico. Mostrou que a distân- 36
http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/semi-
cia entre a Terra e o Sol poderia ser nario/newton/biografia.htm

RELEITURA | jul./dez. 2011 187


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

Logo após se formar, voltou para sua comportamento dúbio; os cientistas


casa, em Lincolnshire, para fugir da tinham argumentos experimentais
peste que vinha assolando Londres. para defender tanto uma como a ou-
Esses meses que passou em sua casa tra teoria. Apesar disso, a teoria ondu-
foram os mais produtivos da vida de latória tinha a preferência majoritária
Newton. Aos 23 anos realizou quatro de cientistas do século XIX, principal-
de suas maiores descobertas: 1) o teo- mente porque as evidências do com-
rema binomial, 2) o cálculo integral e portamento ondulatório da luz eram
diferencial, 3) a lei da gravitação uni- mais eloquentes do que as do com-
versal e 4) a natureza das cores. Esse portamento corpuscular. Mas, em
ano é conhecido entre os historiado- 1860, Maxwell mostraria que a luz era
res da ciência como um annus mira- uma onda, unificando a convicção
bilis37. O estudo de todos esses assun- dos cientistas da época. Ainda assim,
tos ainda hoje é obrigatório para os a celeuma foi retomada por Einstein
estudantes das áreas científicas dos no início do século XX para pacificá-
ensinos médio e universitário de todo -la definitivamente.
o mundo.
Durante muitos anos, Newton re-
Aos 24 anos, Newton voltou para servou para si suas extraordinárias
Cambridge. Aos 25 anos, manufatu- descobertas. Seu amigo Halley o con-
rou um telescópio compacto e extre- venceu de divulgá-las, encarregando-
mamente eficaz para a época, cujo -se das despesas com a publicação.
princípio de funcionamento é base Newton, então escreveu sua coleção
para os telescópios modernos. Ele mais portentosa: Philosophae Natu-
seria utilizado para comprovar expe- ralis Principia Mathematica (Prin-
rimentalmente a universalidade de cípios Matemáticos da Filosofia
sua teoria da gravitação. Aos 26 anos Natural), em três volumes. Halley pu-
tornou-se professor de matemática blicou-a em 1687, quando Newton ti-
no Trinity College, onde havia estuda- nha 35 anos. É, provavelmente, a obra
do. Ao dar aulas de óptica, já leciona- científica de maior influência jamais
va suas próprias descobertas. Aos 29 publicada. Nela estão contidas as leis
anos, foi eleito para a Real Sociedade de Newton para o movimento dos
e, já na posse, comunicou seu traba- corpos – fundamento da mecânica
lho sobre telescópios e sua teoria cor- clássica, disciplina estudada até hoje
puscular da luz contidos no livro Phi- nos cursos de física; a lei da gravita-
losophical Transactions. Sua teoria ção universal; a demonstração das
corpuscular confrontava com a teoria leis de Kepler. Para demonstrar suas
ondulatória da luz, proposta por seu teorias no campo da física, Newton
contemporâneo Huygens. Mas as ex- desenvolveu uma inédita ferramenta
periências mostravam que a luz tinha matemática: o cálculo diferencial e
o integral, que até hoje é ferramenta
37
Expressão latina que significa ano milagroso. No fundamental para os ramos avança-
contexto da história da ciência, é usado principal- dos de matemática, física, engenharia
mente para os anos de 1665, pelos trabalhos de
Newton, e de 1905, pelos trabalhos de Einstein. e até de economia. Seus estudos tive-

188 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

ram profunda repercussão no pen- Para concluir esse capítulo, um es-


samento científico e nas invenções paço merece ser destinado ao maior
práticas. matemático de todos os tempos: o
alemão Johann Carl Friedrich Gauss.
Aos 50 anos, desgostoso com uma Nasceu em 1777. Era filho de um rude
controvérsia com Leibniz sobre quem pedreiro, que não desejava que seu
havia descoberto o cálculo, Newton filho estudasse. Só o permitiu por in-
passou a tratar de outros assuntos. tervenção da mãe e de um tio, que viu
Mas nunca deixou de resolver desa- no seu sobrinho enorme talento. Aos
fios propostos por outros matemáti- três anos, já sabia somar e corrigia as
cos. Um problema (denominado ba- contas de seu pai. Aos dez anos, quan-
chistochrona), que se tornou clássico do seu professor solicitou à turma o
na época, foi proposto pelo mate- resultado da soma dos cem primeiros
mático suíço Jean Bernoulli. Leibniz números, Gauss apresentou a respos-
havia apresentado uma solução que ta correta em poucos segundos: 5050.
desafiava a compreensão dos ma- Ele acabara de inventar a fórmula da
temáticos da época. Newton então soma de uma progressão aritmética.
apresenta anonimamente sua solu-
ção à Real Sociedade. Bernoulli, ao Insatisfeito com demonstrações pou-
ver a solução, identificou na hora que co rigorosas e imprecisas dos mate-
se tratava de Newton, e exclamou: re- máticos que o antecederam, Gauss
conheço o leão pelas suas patas! Foi primava pelo extremo rigor nas suas
herói inglês ainda em vida, e declara- demonstrações. Suas demonstrações
do cavaleiro pela rainha Anna, aos 58 eram irretocáveis, tal a perfeição das
anos. Sir Isaac Newton faleceu aos 85 soluções. Aos treze anos, preencheu
anos e foi enterrado junto aos reis da os vazios que ele havia identificado
Inglaterra. na teoria dos números. Aos dezesseis,
reformulou a geometria de Euclides,
A obra de Newton deve influência utilizada desde a Grécia clássica, dan-
direta no desenvolvimento das enge- do consistência matemática à geome-
nharias civil, mecânica e elétrica e da tria não-euclidiana39, mas nada pu-
física. Durante quase duzentos anos, blicou sobre o assunto.
as leis de Newton seriam o estado da
arte no campo da física e da engenha- Apesar de Gauss ter sido o primeiro
ria. E até hoje elas descrevem com in- a tratar do problema, os primeiros a
crível precisão os fenômenos físicos
39
O nome foi cunhado por Gauss, mas ele manteve
do movimento dos astros e do movi- em segredo suas descobertas sobre a nova geometria,
mento de quaisquer invenções feitas pelo fato de a filosofia de Kant dominar a Alemanha
da época. Kant afirmava dogmaticamente serem as
pelo homem38. ideias de Euclides as únicas possíveis. Em carta a Bes-
sel, outro grande matemático da época, Gauss afir-
mou: não irei dedicar muito de meus esforços para es-
38
Conta-se que, em 1969, no dia em que Neil Arms- crever algo publicável sobre esse assunto (fundamentos
trong pisou na Lua pela primeira vez – 242 anos após da geometria), pois tenho horror aos gritos histéricos
a morte de Newton, um grupo de estudantes deixou que ouviríamos dos beócios se eu tornasse claros meus
um cartaz sobre o túmulo de Newton, com os dizeres: pensamentos sobre o assunto. Fonte: http://educaca-
“A Águia (nome do módulo lunar) pousou. Obrigado omatematica.vilabol.uol.com.br/histmat/a_nova_ge-
Newton”. ometria.htm, acessado em 1/3/11.

RELEITURA | jul./dez. 2011 189


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

publicarem sobre geometrias não- menta hoje fundamental em econo-


-euclidianas foram o russo Nicolai metria, em pesquisas geodésicas e
Ivanovitch Lobachevsky e o húngaro em análises de resultados experimen-
Janos Bolyai. Encorajado por essas tais. Esse trabalho também o levou ao
publicações, Gauss propôs o assunto desenvolvimento da curva de Gauss,
como tese de doutorado a seu orien- hoje fundamental nos estudos proba-
tando George Friedrich Bernard Rie- bilísticos e estatísticos, incluindo as
mann. Ainda que não tenha sido vas- pesquisas eleitorais.
ta, a obra de Riemann é considerada
uma das mais importantes de todos Aos vinte e um anos, ainda estudan-
os tempos, por ter aberto novos ca- te, publicou o livro Disquistiones, um
minhos importantíssimos para a ma- marco na história da matemática. Aos
temática. Suas grandes contribuições vinte e dois anos, defendeu sua tese
para a análise matemática e para a de doutorado. Ainda adolescente, ele
geometria diferencial permitiram o dizia haver tal volume de novas ideias
desenvolvimento da Teoria Geral da que trovejavam em sua mente, que
Relatividade de Einstein. Foi o pri- ele só tinha tempo para registrar uma
meiro a propor o uso de dimensões pequena fração delas. Disquistiones
maiores do que quatro para descre- era um livro de difícil entendimento,
ver a realidade física. Hoje essa pro- até para os especialistas da época.
posição é base para a compreensão
de vários ramos da matemática e da Após a publicação de seu livro, que
física. lhe trouxe fama, deu adeus à mate-
mática pura e passou a se interessar
Esse e outros desenvolvimentos ma- por aplicações práticas. Fez enormes
temáticos foram obtidos apenas em contribuições para a astronomia.
razão da capacidade de abstração dos Previu milimetricamente a trajetória
seus formuladores, sem nenhum vis- de um novo planeta-anão que ha-
lumbre prático. Mas, frequentemen- via aparecido no céu, denominado
te, os resultados terminam servindo, Ceres. Seu desaparecimento em se-
posteriormente, de ferramentas para guida causou perplexidade entre os
formulação de modelos físicos da astrônomos. Mas não em Gauss, que
natureza. Por exemplo, a geometria previu quando e onde Ceres reapare-
não-euclidiana que viria a ser utili- ceria. Nove meses depois, como pre-
zada por Einstein na teoria geral da visto, Ceres reapareceu exatamente
relatividade, inicialmente, era mate- onde Gauss calculara. Ele escreveu
mática pura. A afirmação de Galileu um livro sobre mecânica celeste, utili-
sobre a linguagem matemática tem zando exaustivamente a matemática.
sido sistematicamente corroborada Tornou-se professor de astronomia
pelos fatos. em Göttingen, onde permaneceria
até sua morte.
Aos dezoito anos, Gauss inventou o
método dos mínimos quadrados, que Na celeuma que surgiu quando da
minimiza os erros de medição, ferra- observação de Ceres por alguns

190 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

cientistas e sua classificação como em dezenove pequenas páginas con-


planeta-anão, o filósofo Hegel disse: tendo 146 descobertas extremamen-
Poderiam eles dar alguma atenção à te resumidas. Como ele não nutria
filosofia? Se o fizessem, reconheceriam vaidade pela primazia das descober-
imediatamente que só podem existir tas, não se preocupou em publicar
sete planetas, nem mais nem menos. aquelas contidas em seu diário. A pu-
Sua busca, portanto, é uma estúpi- blicação só viria a ocorrer em 1898,
da perda de tempo. Essa afirmação por meio de seu neto. Só os mate-
dogmática foi prontamente refutada máticos de meados do século XIX em
por Gauss, que havia levado a sério a diante é que conseguiram perceber a
existência de Ceres. Gauss mostrava real grandiosidade da obra desse gê-
desprezo pelos filósofos que se ocu- nio da raça. Caso Gauss tivesse divul-
pavam de assuntos científicos que gado em vida o que sabia, a matemá-
não compreendiam. Na verdade, a tica teria alcançado o estágio do final
ciência havia chegado a tal ponto de do século XIX cinquenta anos mais
avanço, que não havia mais espaço cedo, pois teria poupado décadas de
para generalistas e especuladores. Os esforços de outros grandes matemá-
filósofos tiveram inestimável papel ticos que o sucederam, como Abel e
no desenvolvimento científico, mas Jacobi.
chegara a hora de deixarem de pro-
tagonizar a cena científica e darem Até este ponto do presente Texto,
lugar aos especialistas. deu-se uma ideia das contribuições
de vários cientistas para o acúmulo
Juntamente com seu colaborador Wi- de conhecimentos do homem. Inú-
lhelm Weber, Gauss assentou as bases meros outros poderiam ter sido ci-
matemáticas do eletromagnetismo, tados, e a extensa lista de cientistas
fenômeno que já vinha sendo divul- que deram importantes contribui-
gado por Michel Faraday, e cujo en- ções para o conhecimento científico
tendimento é crucial para as teleco- possivelmente não caberia aqui. Por
municações, a geração e transmissão isso, optou-se por trazer apenas uma
de energia elétrica, o estudo da luz, amostra dos principais cientistas que
do calor e das partículas subatômi- contribuíram para esse acúmulo de
cas. E, com base nos inventos do gal- conhecimentos associados às fontes
vanômetro, em 1820, e do eletroimã, de energia e que propiciaram enor-
em 1825, Gauss inventou o telégrafo, mes avanços para a humanidade.
apenas para se comunicar o amigo
Weber, entre o observatório e o labo- O casamento entre a matemática e
ratório de física, distantes 3 km um as ciências básicas (a física, a quími-
do outro. ca, a termodinâmica, por exemplo)
ensejou o surgimento da engenharia
Outra fonte de legados de Gauss fo- como profissão. As ciências básicas
ram suas anotações no diário. Nelas, buscam representar a natureza por
havia riquíssimos tesouros matemá- meio de modelos mentais traduzidos
ticos não publicados, circunscritos em linguagem matemática, que serão

RELEITURA | jul./dez. 2011 191


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

tão bons quanto mais se aproxima- 6. A Primeira Revolução


rem do comportamento da natureza
que se quer modelar. E a engenharia Industrial
utiliza-se desses modelos para predi-
Durante milênios, pouco se fez no
zer comportamentos e desenvolver
campo da energia visando a utilizá-la
tecnologias. A engenharia passou a
de forma mais racional. Sua aplicação
desempenhar papel fundamental na
permaneceu, por longo tempo – até o
vida das pessoas a partir da Primeira
século XVIII, restrito a usos simples,
Revolução Industrial.
sem aproveitamento eficiente de seu
potencial. A partir do final da Idade
Antes de seguir adiante, destacar-se-
Moderna isso iria mudar drastica-
-ão alguns detalhes do estilo de vida
mente. O método científico havia
no final do século 18. A maioria da
contribuído enormemente para a li-
população era de camponeses, viven-
berdade de pensamento e preparado
do em precárias condições. Viviam
as bases para uma revolução tecnoló-
em choupanas de palha e apenas so-
gica. Doravante, os limites do homem
breviviam. Nas cidades, a iluminação passariam a ser balizados, principal-
residencial se resumia ao uso de velas mente por sua criatividade.
de sebo e de lamparinas. A ilumina-
ção pública era feita por candeeiros. No início do século XIX, o Ocidente
As construções eram feitas pela força estava maduro para o notável avanço
humana e animal. que se seguiria: a Primeira Revolução
Industrial. O acelerado acúmulo de
Os meios de transporte se resumiam conhecimentos científicos, tecnoló-
ao uso de equinos, asininos, carroças, gicos e econômicos ocorrido desde a
carruagens e navios. Dificilmente, o Renascença criou condições para que
deslocamento diário em terra supera- o uso combinado do conhecimento e
va seis léguas40. A grande maioria das da energia promovesse um salto no
pessoas dificilmente conhecia sítios estilo de vida mundial. E a máquina
além de um raio de mil quilômetros a vapor foi um marco nesse processo.
de seu local de nascimento. No Brasil
do início do século XIX, uma viagem A primeira máquina a vapor foi inven-
de 1000 km demorava cerca de um tada pelo ferreiro e mecânico Thomas
mês. Newcomen, em 1712. Seu invento
hoje é considerado um dos mais im-
O tráfico de escravos, prática comum portantes de todos os tempos41. Ela
na Idade Moderna, havia ressurgido foi inicialmente concebida para ex-
na Europa em função da colonização,
principalmente a da América. A in- 41
Tal juízo de valor, feito aqui e em outros pontos do
texto, pode parecer despropositado em razão de se
dústria existente era lastreada na ma- tratar hoje de uma invenção banal quando compara-
nufatura de bens e não havia quase da aos desenvolvimentos muito mais sofisticados nos
dias atuais. Mas essa e outras classificações compa-
nenhuma mecanização. rativas que aparecem no Texto, como maior, melhor,
mais importante, devem ser consideradas em face do
impacto que tiveram na história, e não em face do
40
Uma légua é equivalente a seis quilômetros. contexto do século XXI.

192 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

trair água do fundo de uma mina de O engenheiro inglês Richard Trevi-


carvão, permitindo escavações cada thick deu o passo seguinte no uso da
vez mais profundas. Entretanto, a efi- máquina a vapor. Em 1801, ele foi o
ciência do invento era muito baixa, responsável pela invenção da loco-
de cerca de apenas 1%. Isso represen- motiva, primeira máquina a vapor
tava enorme perda de energia. A fonte não-estacionária, que viabilizaria o
de calor para fazer vapor era o carvão. transporte de passageiros e de carga.
Criou também algumas invenções a
Esse invento tomou como base os tra- vapor avançadas para a época: barcos
balhos de Torricelli, e do físico fran- a vapor, dragas, debulhadoras.
cês Denis Papis que, ao descobrir a
panela de pressão, inventou também, A vantagem do veículo automotor
sem saber, o princípio da máquina sobre a tração animal era enorme:
a vapor, ao colocar um êmbolo na enquanto o cavalo era a força motriz,
tampa. O aparecimento da máquina havia limitação de distância percorri-
a vapor, já no século XVIII, deu gran- da por dia e de volume de mercado-
de impulso à indústria têxtil. Mas, até rias transportadas, e a necessidade de
a primeira metade do século XVIII, troca de animais de transporte. Logo,
quase nada havia mudado em relação as indústrias adotaram a locomotiva
à tecnologia e manufatura da tecela- para transporte de minérios e outros
gem utilizada há milênios. Em1755 produtos. Com o advento das linhas
surgiu uma máquina que tecia lã férreas, aumentou muito a distância
com mais velocidade e largura do que percorrida e o volume de produtos
conseguiriam as mãos humanas. Em transportados. A primeira locomotiva
1768, a máquina de tecelagem, com para uso industrial surgiu em 1814 e
substanciais aprimoramentos, foi as- transportava 30 toneladas de minério
sociada à máquina a vapor. A troca da a 6 km/h, velocidade de um cavalo. Já
lã pelo algodão facilitou bastante a em 1825, foi inaugurada a primeiro
tecelagem e impulsionou a indústria comboio de transporte de passagei-
têxtil mecanizada, principalmente no ros, ligando Manchester a Liverpool.
sul dos Estados Unidos. Ela percorria, em uma hora, o que
os cavalos demoravam quase um dia
O engenheiro escocês James Watt, em para percorrer (cerca de 30 km/h).
1765, aumentou a eficiência da má-
quina ao utilizar a pressão do vapor A mudança no tipo de transporte não
para movimentar o pistão, dispensan- saciou o apetite dos industriais por
do a pressão atmosférica. Essa má- novas tecnologias. Era fundamental
quina de Watt ganhou o mundo, e ela aumentar a eficiência das máquinas.
passou a movimentar equipamentos Em meados do século XIX, a eficiên-
em carpintarias, minas, tecelagens, cia das máquinas a vapor chegaria a
indústrias, em várias partes do plane- 25%. A máquina a vapor continuou
ta, substituindo o trabalho braçal. As dominando a cena durante quase
melhores máquinas de Watt alcança- todo o século XIX, recebendo contí-
vam eficiência de 6%. nuos aprimoramentos visando a au-

RELEITURA | jul./dez. 2011 193


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

mentar sua eficiência e sua capacida- especializados, o que os fez perder a


de de geração de força motriz. noção da agregação de valor dos seus
serviços. Com isso, a classe burguesa,
Três fatores combinados propiciaram detentora do capital, passou a domi-
a Revolução Industrial: o liberalismo nar o processo produtivo. Modifica-
econômico concebido por Adam Smi- ram-se profundamente as relações
th, a acumulação de capital da clas- de trabalho prevalentes na época e
se burguesa e a capacidade de gerar as relações internacionais. Iniciava-
movimento a partir de uma fonte de -se assim a era do capitalismo. Al-
energia, em substituição ao trabalho guns problemas sócio econômicos
braçal. Isso causou profundo impacto foram solucionados, mas outros se
no processo produtivo e no nível eco- aprofundaram, como o aumento das
nômico e social dos países e das pes- desigualdades sociais, o que ensejou
soas, alterando sua mentalidade com o início do movimento trabalhista.
espantosa velocidade. Um dos im- Mas, em média, a qualidade de vida
pactos mais relevantes da Revolução das pessoas melhorou muito.
Industrial foi o combate à escravidão
nas colônias, resultado do surgimen- Apesar de todo o sucesso da máquina
to da ciência econômica na Europa, a vapor, a compreensão do compor-
que considerava a escravidão uma tamento dos gases ainda era incom-
atividade extremamente ineficiente, pleta, o que limitava o seu desenvolvi-
e do ideal liberal, que considerava tal mento. Partindo dos estudos de Boyle
prática moralmente reprovável. e Hooke, e da bomba de vácuo, o fran-
cês Sadi Carnot publicou seu único
O período pré-industrial era domina- livro Réflexions sur La Puissance Mo-
do por atividades produtivas manu- trice du Feu et sur les Machines Propres
ais e artesanais. Em regra, o mesmo à Développer Cette Puissance42. Nele,
artesão cuidava concomitantemente Carnot explicou o funcionamento da
da obtenção da matéria-prima, da máquina a vapor e como o calor movi-
produção e da comercialização dos mentava os objetos. Ele também esta-
produtos finais. Outras vezes traba- beleceu os fundamentos da Segunda
lhavam em indústrias manufaturei- Lei da Termodinâmica. Inicialmente,
ras, mas sem perder o conhecimento Carnot considerava o calor como um
de todo o processo produtivo. fluido, denominado calórico. Mais
tarde, rejeitou essa ideia e associou o
Com a Revolução Industrial, os ar- calor ao movimento de átomos e mo-
tesãos perderam a competitividade léculas. Com isso, ele chegou à con-
frente a um processo produtivo me- clusão de que calor era energia.
canizado que tornavam os preços dos
produtos extremamente baixos e as Um ano antes de morrer, Carnot pro-
mercadorias muito mais abundan- pôs o primeiro modelo teórico sobre
tes. E as indústrias passaram por um
processo de mecanização que forçou 42
Reflexões Sobre Potência Motriz do Fogo e Sobre as
Máquinas Próprias para Desenvolverem essa Potên-
os artesãos a se tornarem operários cia.

194 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

máquinas térmicas, propiciando a totalmente. Ele chamou essa tempe-


compreensão do comportamento das ratura de zero absoluto, e a calculou
máquinas a vapor e, mais adiante, do com precisão (-273,15ºC). A Terceira
motor diesel e do motor a gasolina. Lei da Termodinâmica afirma existir
Em particular, mostrou como con- uma temperatura mínima na qual o
verter a energia contida no calor em movimento dos átomos deve cessar.
movimento mecânico: sempre que o Em outras palavras, a entropia tende
calor flui de um corpo quente para a zero quando a temperatura cai para
um corpo frio, parte do calor pode o zero absoluto. Para comprovar essa
ser convertida em movimento. E ele lei, Kelvin criou o que chamou bom-
mostrou que a forma mais eficien- ba térmica, capaz de transferir ener-
te de extração era durante o ciclo de gia de um corpo frio para um corpo
variações de temperatura e pressão quente. Com essa criação, Kelvin ha-
de um gás. Essa ideia abriu caminho via demonstrado o princípio que ser-
para o desenvolvimento do motor a viu de base para o desenvolvimento
combustão interna. Com sua obra dos refrigeradores e condicionadores
fundamental, Carnot ofereceu aos de ar.
engenheiros o modelo básico para a
compreensão do funcionamento das Com o aprofundamento de sua com-
máquinas a vapor, e o que fazer para preensão, a Termodinâmica tor-
aumentar sua eficiência. Mas isso foi nou-se essencial em vários outros
só no início do total domínio da ter- campos do conhecimento: física,
modinâmica. química, engenharia química, enge-
nharia aeroespacial, engenharia me-
Coube a Rudolf Clausius concluir que cânica, engenharia biomédica, biolo-
a conservação da energia poderia ser gia, ciência dos materiais, economia
considerada a Primeira Lei da Termo- e cosmologia.
dinâmica. Ele mostrou ainda uma in-
consistência entre o ciclo de Carnot As leis da Termodinâmica são fun-
e a Primeira Lei da Termodinâmica. damentais para a compreensão do
Clausius eliminou a inconsistência ao universo. Para ressaltar a essenciali-
introduzir o conceito de perda irrecu- dade da Termodinâmica, Seth Lloyd,
perável de energia, à qual denominou professor do MIT43 afirmou, em 2004:
entropia. Ato contínuo, ele enunciou só existem três coisas certas no mun-
a Segunda Lei da Termodinâmica, so- do: a morte, os impostos e as leis da
bre a entropia. Termodinâmica. Antes dele, ao ma-
nifestar sua profunda admiração pela
A Terceira Lei da Termodinâmica foi Termodinâmica, Einstein assim se
proposta pelo irlandês Lord Kelvin. pronunciou: uma teoria é mais im-
Ao resfriar um corpo frio, por meio da pressionante quanto maior for a sim-
retirada de calor, ele concluiu que os plicidade de suas premissas, quanto
átomos se moviam cada vez menos,
e que devia haver uma temperatu- 43
Massachusets Institute of Technology, uma das mais
ra na qual esse movimento cessasse prestigiosas universidades de engenharia do mundo.

RELEITURA | jul./dez. 2011 195


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

maior for o número de coisas diferen- O contato de Faraday com o mundo


tes relacionadas com ela e mais ex- acadêmico se deu por meio de Hum-
tensa for a sua área de aplicação. Daí phry Davy, médico e brilhante quí-
veio a profunda impressão que tive da mico inglês, e de quem Faraday se
termodinâmica. É a única teoria física tornou assistente. Davy fez pesquisas
de conteúdo universal a qual, dentro muito importantes na química e iso-
do domínio de seus conceitos básicos, lou vários elementos, incluindo o po-
nunca será superada. Considerado o tássio e o sódio. Mas quando lhe per-
pai da Termodinâmica, Carnot mor- guntavam qual havia sido sua maior
reu de cólera aos 36 anos. descoberta, ele respondia sem titube-
ar: Michael Faraday.
Outras evoluções no campo científico
preparavam terreno para o surgimen- Até o início do século XIX, pensava-
to de novas fontes de energia. A com- -se que a eletricidade e o magnetis-
preensão dos fenômenos elétricos e mo eram fenômenos independentes,
magnéticos aumentou enormemente e, por isso, eram estudados isola-
durante o século XIX, e alguns cien- damente. Em 1820, o dinamarquês
tistas de renome contribuíram para Hans Christian Oersted descobriu
isso. que havia uma conexão entre eletri-
cidade e magnetismo, quando, inad-
O inglês Michel Faraday era filho de vertidamente, pôs uma bússola ao
ferreiro. Nasceu em 1791. Sua educa- lado de um fio. Cada vez que ele liga-
ção se resumiu a dominar a leitura, va o fio a uma bateria, o ponteiro da
a escrita e as operações aritméticas. bússola mudava de direção. Assim,
Em parte, essa deficiência na educa- provou que a corrente elétrica produz
ção formal foi largamente compensa- um campo magnético em torno do fio
da pelo seu autodidatismo e por sua condutor por onde ela flui. Ele desco-
inata vocação para realizar experiên- briu que eletricidade produzia mag-
cias. Começou a trabalhar aos treze netismo. Seis meses depois, o francês
anos numa gráfica, onde podia ler os André-Marie Ampère mostrou que
livros que seriam publicados. Mesmo dois fios conduzindo corrente elétri-
sem formação acadêmica, tornou-se ca podem se atrair ou se repelir e, a
um dos mais influentes cientistas de partir dessa observação, enrolou os
todos os tempos. Seus trabalhos não fios como um carretel e inventou o
foram uma conquista solitária, mas primeiro solenoide, com efeitos se-
antes um trabalho colaborativo entre melhantes a um imã em barra. Com
vários cientistas de sua época. É con- a descoberta de Oersted, Ampère e o
siderado o maior experimentalista da alemão Johann Schweiger desenvol-
história e seu trabalho provocou e ain- veram o galvanômetro, equipamento
da provoca enorme impacto na vida que permite a leitura da corrente elé-
das pessoas de todo o mundo. Não trica.
dominava a matemática avançada,
mas compensava essa lacuna com sua Algum tempo depois, o inglês William
enorme capacidade de imaginação. Sturgeon descobriu que, se se colo-

196 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

casse uma barra de ferro dentro do mostrando o seu princípio de funcio-


solenoide, o campo magnético au- namento, mas ainda sem aplicação
mentava substancialmente, emu- prática. Dez anos depois, Faraday
lando os ímãs permanentes. Esta- descobriu que um campo magné-
va criado o eletroimã. O americano tico variável produz uma corrente
Joseph Henry chegou a fabricar um elétrica. Em outras palavras, Faraday
eletroímã que suspendia 340 kg. Os descobriu que magnetismo produzia
eletroímãs ainda hoje são muito utili- eletricidade.
zados, por exemplo, para transportar
material metálico em ferro-velho e Os fenômenos eletromagnéticos es-
em campainhas residenciais. Joseph tão por trás do funcionamento dos
Henry inventou também o relé. dínamos, geradores elétricos, mo-
tores elétricos, transformadores e
A telegrafia só se desenvolveu a par- outros equipamentos fundamentais
tir da combinação dos três inventos: na vida das pessoas. Exemplos de
relé, eletroímã e galvanômetro. A algumas aplicações onde esses equi-
tecnologia do telégrafo já permitia a pamentos se encontram: elevadores,
comunicação a grandes distâncias. eletrodomésticos, campainhas, apa-
Faltava apenas a linguagem de co- relhos de DVD, condicionadores de
municação. Coube aos americanos ar, computadores pessoais, relógios
Samuel Morse e Alfred Vail criarem o analógicos automáticos, locomotivas
código Morse, usado na telegrafia até elétricas, carros elétricos e híbridos,
recentemente. Consistia de pulsos de usinas hidroelétricas e termoelétri-
correntes codificados e inseridos em cas, saneamento, irrigação, platafor-
um cabo, transmitindo frases codi- mas de petróleo, mineração, navios,
ficadas para a outra extremidade do aviões, veículos a combustão interna,
cabo. Em 1860, foi inventado o tele- aceleradores de partículas.
fone pelo italiano Antonio Meucci44,
com base no conhecimento dos fe- Faraday foi o primeiro a construir a
nômenos eletromagnéticos. Em 1866, gaiola que leva o seu nome. Ele pró-
a Europa e os Estados Unidos foram prio entrou nela para mostrar que
unidos por cabos de telégrafo. uma pessoa, ao entrar na Gaiola de
Faraday, não sofre nenhuma descar-
Um ano após a descoberta de Oers- ga elétrica mesmo que a gaiola este-
ted, Faraday descobriu uma forma de ja sob o impacto de milhões de volts.
explorar as forças eletromagnéticas Esse fenômeno é o que permite, por
para fazer um fio girar continuamen- exemplo, que eletricistas façam ma-
te, e construiu o primeiro dínamo, nutenção em linhas de transmissão
de 750.000 volts ou mais, sem neces-
sidade de desligá-las.
44
Há muita controvérsia quanto à paternidade do te-
lefone. O mais aceito é que tenha sido inventado pelo
escocês Alexander Graham Bell. Mas o Congresso No campo da química, Faraday tam-
Americano reconheceu, em 2002, a primazia ao ita-
liano, em razão de sua invenção ter sido divulgada bém foi profícuo. Ele fundou a ele-
dezesseis anos antes da de Bell, e por ele ter vendido a
patente a Bell nos anos 1870. troquímica, descobriu o benzeno e a

RELEITURA | jul./dez. 2011 197


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

forma de liquefazer gases, tornando corre o cálculo preciso da velocidade


possíveis os métodos de refrigeração das ondas magnéticas, incluindo a
que surgiriam no futuro. Tornou-se luz, muito próxima aos valores medi-
membro da Real Sociedade em 1824. dos experimentalmente. Ele mostrou
Em 1833, tornou-se professor de quí- também que o calor era uma onda
mica da Royal Institution. Sua brilhan- eletromagnética e que, portanto, o
te carreira como químico foi ofuscada corpo dos seres vivos são fontes de
pelas fundamentais descobertas no ondas eletromagnéticas.
campo do eletromagnetismo. Por
duas vezes, recusou a presidência da
Real Sociedade e declinou títulos de 7. A Segunda Revolução
nobreza, afirmando que preferia con- Industrial
tinuar sendo apenas Mr. Faraday até o
fim de sua vida. Morreu aos 76 anos. Apenas 70 anos depois do início da
Primeira Revolução industrial, os
Todos esses fenômenos eletromag- países já dispunham de transporte a
néticos foram apenas constatados, a longa distância. Em meados do sécu-
partir de experimentações, mas não lo XIX, já havia mais de 10.000 km de
havia um modelo mental para eles, linhas ferroviárias no Reino Unido e
apesar de tentativas infrutíferas de mais de 30.000 km nos Estados Uni-
vários cientistas. Coube ao escocês dos. As grandes indústrias produziam
James Clerk Maxwell dar esse passo. produtos nunca antes vistos, melho-
Na década de 1860, com base nas fer- rando a qualidade de vida das pesso-
ramentas matemáticas desenvolvidas as. Elas se utilizavam de ferrovias para
por Gauss, ele apresentou um con- o recebimento de matérias-primas e a
junto de quatro equações que des- distribuição dos produtos acabados.
creve com precisão as propriedades
do campo elétrico, campo magnético, A comunicação a longas distâncias
sua inter-relação, e mostrou que a luz também já era possível com o telé-
é uma onda eletromagnética. grafo e com o telefone. A migração
do campo para as cidades se acelerou
As equações de Maxwell modelaram em razão da necessidade de mão de
com extrema precisão o fenômeno obra e da busca por melhores condi-
eletromagnético, permitindo aos ções de vida. Apesar de as condições
cientistas e engenheiros desenvolve- de vida nas cidades serem insalubres
rem novos modelos bastante precisos e precárias, ainda eram melhores do
de inúmeras aplicações que muda- que a vida no campo da época.
ram a qualidade de vida das pessoas.
Com isso, inúmeros outros desenvol- Na maior parte do século XIX, a indis-
vimentos surgiram no final do século ponibilidade de energia elétrica em
XIX e no século XX, como o das tele- todos os pontos das cidades tornava
comunicações, da internet, da trans- inviável o uso de motores elétricos
missão e geração de energia, da física recém-construídos. Só havia bate-
das partículas. De suas equações de- rias rudimentares criadas a partir do

198 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

invento do físico italiano Alessandro transmitir energia elétrica em corren-


Volta, insuficientes para qualquer te alternada para iluminar a cidade de
uso em motores. Só eram possíveis Buffallo. Ao concluir essa obra, Tesla
aplicações que requeriam pouca po- foi considerado o vencedor da bata-
tência, como o eletroimã. Mesmo o lha das correntes contra seu ex-patrão
carro elétrico, inventado pelo escocês e rival Thomas Alva Edison, experi-
Robert Anderson em 1835, precisou mentalista americano que apregoava
aguardar até 1881, quando o enge- as vantagens da corrente contínua.
nheiro francês Camille Fauré inven- Durante essa batalha, Edison termi-
tou a bateria de chumbo, com grande nou por inventar a cadeira elétrica, só
capacidade de armazenar energia. para mostrar que a corrente alternava
Em 1899, um carro de corrida elétri- matava. O fato é que a corrente alter-
co bateu o recorde de 110 km/h. Em nada se mostrou muito mais eficiente
1900, 28% dos veículos produzidos e mais barata do que a corrente con-
nos Estados Unidos eram movidos a tínua, para transmissão de energia a
eletricidade. curtas e longas distâncias. E ela tam-
bém se mostrou segura para usos do-
No último quarto de século XIX, havia mésticos.
uma premente necessidade de ener-
gia abundante para as indústrias. A Tesla desenvolveu ainda o primeiro
máquina a vapor não mais atendia controle remoto e contribuiu para o
essa necessidade. A energia elétrica desenvolvimento da robótica, do ra-
já era vista como uma potencial fon- dar, das ciências da computação, da
te de energia abundante. E coube ao balística, da física nuclear e da física
engenheiro Nikola Tesla viabilizar teórica. Ele tinha um talento único no
esse potencial. Croata de etnia sér- seu processo criativo. A reflexão so-
via, Tesla criou os fundamentos para bre um problema técnico específico
a implantação dos sistemas elétricos era seguida algum tempo depois por
em todo o mundo. As atividades de supostas alucinações que, na reali-
geração, transmissão, distribuição, dade, eram uma visão da solução do
a partir dos trabalhos experimentais problema. Ele encontrou a solução
sobre eletromagnetismo, marcaram de vários problemas complexos dessa
a tal ponto a vida das pessoas, já no forma. Foi um dos poucos cientistas
final do século XIX, que ensejaram a que podia dispensar a experimenta-
classificação do seu impacto como ção como instrumento de validação
um dos dois pilares da Segunda Revo- de uma ideia. Costumava dizer que
lução Industrial. bastava realizar o experimento na sua
mente para saber se um dado invento
Contrariamente ao que se afirma, não funcionaria.
foi Marconi quem inventou o rádio, e
sim Tesla. Ele foi o primeiro cientista Tesla viveu a maior parte de sua vida
a criar uma usina hidroelétrica nas nos Estados Unidos. Durante muitos
cataratas do Niagara, sob o patrocínio anos, tentou convencer o governo
financeiro de George Westinghouse, e americano a financiar seu projeto

RELEITURA | jul./dez. 2011 199


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

de transmissão de energia pelo solo, Entabulou-se então uma corrida en-


para distribuir energia gratuita para tre o químico inglês Joseph Swan e
toda a humanidade. Não conseguiu Thomas Edison pela primazia da in-
realizar seu sonho. venção da primeira lâmpada. Coube
a Swan, em 1879, o crédito pelo de-
Paralelamente ao desenvolvimento senvolvimento da lâmpada com fila-
do sistema elétrico por Tesla, o enge- mento de carvão puro mantido no vá-
nheiro inglês Charles Parsons desen- cuo produzido em um bulbo de vidro.
volveu a primeira turbina a vapor que Mas a lâmpada de Edison com ligas
podia ser conectada a um gerador metálicas é precursora da lâmpada
para gerar eletricidade. Ainda hoje, incandescente a tungstênio, usada
seu invento é a base para as usinas atualmente. Quando questionado so-
termoelétricas atuais. As tecnologias bre as mais de dez mil tentativas para
de geração termoelétrica e hidroe- tornar as lâmpadas mais duráveis,
létrica estavam, enfim, disponíveis Edison afirmou: eu não falhei, apenas
para produção em massa de energia descobri dez mil maneiras que não
elétrica. E a tecnologia de transmis- funcionavam.
são de energia por fios estava pronta
também para levar energia elétrica a O segundo pilar da Segunda Revolu-
todos os cantos do planeta. ção Industrial foi o desenvolvimento
dos motores movidos a hidrocarbo-
O desenvolvimento eficiente dessas netos45. Durante a maior parte do
tecnologias deve-se, em parte, ao século XIX, as máquinas a vapor do-
enorme avanço obtido na química minaram a cena. Mas seu tamanho
e na ciência dos materiais no sécu- dificultava uma série de aplicações
lo XIX. A identificação de novos ele- práticas, além de serem muito rui-
mentos e de compostos de elementos dosas. O petróleo vinha sendo explo-
conhecidos permitiu o desenvolvi- rado ao longo daquele século, mas
mento da ciência dos materiais, que não se via uma aplicação em grande
passou a ofertar produtos baratos e escala para esse hidrocarboneto, até
adequados para tais aplicações. o surgimento dos motores a combus-
tão interna.
Uma palavra deve ser dita sobre a ilu-
minação elétrica. Em seus experimen- Com base em trabalhos prévios de
tos, o cientista francês Joule verificou outros engenheiros e experimentado-
que fios condutores, ao serem percor- res, os alemães Nikolaus August Otto
ridos por uma corrente elétrica, aque- e Rudolf Diesel inventaram, respec-
ciam e emitiam tanto mais luz quanto tivamente, os motores a combustão
maior fosse a temperatura. O proble- (gasolina) e a compressão (diesel). O
ma era que o aquecimento fazia os curioso é que o protótipo de Diesel
fios derreterem. O uso desse princípio era movido a óleo de amendoim in
para produzir iluminação elétrica pas-
sou a ser objeto de várias tentativas in- 45
São compostos químicos constituídos essencial-
mente de hidrogênio e carbono. É o caso de petróleo,
frutíferas de se criar uma lâmpada. do gás natural, dos óleos vegetais.

200 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

natura, e ele era franco defensor dos do do petróleo ou do gás natural é a


óleos vegetais com combustíveis de matéria-prima da indústria petroquí-
seu invento. mica. Logo após a Primeira Guerra
Mundial, em 1920, surgiu a primeira
Esses dois motores, juntamente com indústria petroquímica do mundo,
os motores elétricos, mostraram-se nos Estados Unidos.
enormemente vantajosos em relação
aos motores a vapor e, praticamente, Elementos inorgânicos pouco abun-
decretaram o desaparecimento das dantes na natureza são extraídos de
máquinas a vapor da cena industrial petróleo visando a sintetizar partes
e residencial, salvo em aplicações constituintes de fertilizantes indis-
específicas, como a geração termo- pensáveis para o aumento da produ-
elétrica de energia. Além de mais si- tividade na agricultura.
lenciosos que as máquinas a vapor, os
motores tinham a enorme vantagem Com esses dois pilares – energia elé-
da portabilidade, o que viabilizava o trica e combustíveis, o mundo esta-
uso em veículos automotores, para va pronto para a Segunda Revolução
transporte de passageiros e de car- Industrial. A energia elétrica e os veí-
ga. O automóvel e o caminhão foram culos automotores logo se tornariam
consequências imediatas dessas in- imprescindíveis para vida das pesso-
venções. A universalização do uso de as, propiciando uma renovada me-
motores a gasolina e a óleo diesel nos lhora nas condições médias de vida
países alavancou a indústria do pe- da população mundial. E essa me-
tróleo e a automobilística por todo o lhora só iria crescer ao longo do sécu-
mundo. A popularização dos veículos lo XX. Cabe ressaltar que ela não foi
automotores trouxe novamente um captada em toda a sua potencialida-
enorme impacto na vida das pessoas. de, em face das crescentes desigual-
dades sociais, que privavam e privam
O advento da Primeira Guerra Mun- bolsões de pobreza do acesso às tec-
dial ensejou a necessidade de subs- nologias. Mas esse problema não foi
tituição de produtos naturais por e não é criado pela tecnologia em si,
produtos sintéticos. Nasceria dessa que deve ser vista como uma solução
necessidade a petroquímica46. O pri- para melhoria da qualidade de vida
meiro passo nessa direção foi dado das pessoas.
pela descoberta do craqueamento
térmico47 de petróleo, em 1891, pelo Deve-se observar que vários outros
russo Vladmir Sukhov. A gasolina re- campos de conhecimento científico
sultante do craqueamento tem como tiveram também um extraordinário
subproduto o propeno. Esse deriva- desenvolvimento durante o século
XIX. Citam-se a precisão de medidas,
46
Ramo da indústria do petróleo que produz mate- fundamental para a aferição de uma
riais sintéticos. hipótese científica, o desenvolvimen-
47
Craqueamento de petróleo é o processo de quebra
de moléculas longas em moléculas mais curtas, como to das ciências dos materiais e o enor-
gasolina, nafta, óleo diesel, piche. Nesse processo,
usam-se o calor e catalisadores. me desenvolvimento da química, da

RELEITURA | jul./dez. 2011 201


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

medicina, da indústria farmacêutica, distâncias, aviões, trens elétricos, ra-


para citar alguns. Destaca-se apenas diofonia, telefonia, telegrafia, cine-
o químico sueco Svante August Ar- ma, elevadores, televisores, fogões a
rhenius, Prêmio Nobel de Química gás, geladeiras, freezers, fornos elé-
de 1903. Ele foi o primeiro a cunhar o tricos, aspiradores de pó, liquidifica-
termo efeito estufa ao teorizar o fenô- dores, enfim, uma enorme gama de
meno de aquecimento global em face novas tecnologias usando derivados
da emissão de CO2 na atmosfera, re- de petróleo e eletricidade. Isso sem
sultante da queima de combustíveis citar os enormes ganhos de produti-
fósseis. vidade e eficiência na produção das
indústrias, propiciando ganhos de
Deve-se mencionar também a gran- escala e redução de preços. Não se
de evolução no campo social, políti- devem olvidar também as aplicações
co, jurídico, econômico que ocorre- de interesse coletivo, principalmente
ram na Idade Moderna, e continuam em infraestrutura, tais como as cons-
ocorrendo, concomitantemente aos truções de pontes, viadutos, prédios,
avanços científicos. arranha-céus, metrôs, túneis, a ex-
ploração de minérios, de petróleo, a
construção de barragens, o manuseio
8. O Século XX de cargas em portos, em aeroportos.
Nada disso se faz sem energia elétri-
O século XIX terminou com tal efer- ca ou combustível.
vescência de ideias criativas, que a
quantidade de novos inventos explo- Na virada do século XIX para o sé-
diu. A energia entrou em cena na vida culo XX, a quantidade de novidades
das pessoas com tal força, que ela recém-inventadas era tamanha que,
passaria a ser essencial para sustentar em 1899, Charles H. Duell, diretor
o estilo de vida que se desenhava. Os do Departamento de Patentes dos
avanços na medicina e nas políticas Estados Unidos, propôs dogmatica-
sanitárias fizeram aumentar a expec- mente o fechamento da sessão de
tativa de vida da população e reduzir registro de novas patentes, porque
enormemente a mortalidade infantil. tudo o que podia ser inventado já o
O resultado foi um aumento acelera- foi. Como disse Jean de La Bruyère,
do da população mundial, decorren- escritor francês do século XVII: É a ig-
do daí o aumento da demanda por norância profunda que inspira o tom
produtos que traziam cada vez maior dogmático. Einstein, que também vi-
qualidade de vida para a população. ria a trabalhar num Departamento de
Patentes (em Berna, na Suíça), logo
Nesse quadro de efervescência de se encarregaria de mostrar o quanto
ideias, ao longo do século XX, sur- Duell estava errado.
giram ou foram aprimoradas várias
aplicações: iluminação pública a ele- Havia e continua havendo muito
tricidade, veículos automotores para mais a ser inventado. O século XX ain-
transporte em pequenas e grandes da reservava novos saltos de conhe-

202 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

cimento, que viriam a ensejar, após além do conhecido urânio. Por esse
algumas décadas, o que alguns clas- trabalho, eles receberam o Prêmio
sificam como a Terceira Revolução In- Nobel de Física em 1903. Marie se
dustrial, ou a Era da Informação. Esse tornara a primeira mulher a ganhar o
seria o século em que a visão do ho- prêmio Nobel. Foi também a primei-
mem, enormemente ampliada pelos ra mulher a lecionar na Sorbonne. A
cada vez mais potentes telescópios paixão de Marie Curie pela pesquisa
e microscópios, além de avançadas levou-a a afirmar: a vida não é para
máquinas fotográficas, alcançaria os ser temida, mas entendida.
confins do universo e os tijolos funda-
mentais da matéria, respectivamente. Apesar da morte do marido em aci-
dente, em 1906, Marie continuou as
Antes dessa nova revolução, vários pesquisas e isolou o rádio puro, em
cientistas contribuíram para o adven- 1910, tendo feito meticuloso trabalho
to da chamada era atômica. Desta- sobre extração e propriedades des-
car-se-ão alguns. O alemão Wilhelm se elemento. Por esse feito, tornou-
Conrad Röntgen descobriu os raios X, -se a primeira pessoa a ser laureada
e fez a primeira radiografia da história duas vezes com o prêmio Nobel, em
da mão de sua esposa. Rapidamente 1911, e também a primeira a receber
a medicina vislumbrou a revolução o prêmio em duas disciplinas diferen-
que estava por trás dessa invenção. tes (física e química). Sem conhecer
Em 1900, os raios X já eram usados ainda os efeitos nocivos da radioati-
também para tratar câncer de pele. vidade, ela manipulava os elementos
Por esse invento, Röntgen recebeu o radioativos sem nenhuma segurança,
primeiro Prêmio Nobel de Física, em inclusive guardando o rádio em gave-
1901. tas de sua casa. Isso a levou a contrair
leucemia, doença que decretaria sua
Ao pesquisar os raios X, o francês morte, em 1934.
Antoine Henri Becquerel descobriu
o fenômeno da radioatividade. Ele O neozelandês Ernest Rutherford foi
mostrou que o fenômeno era devido outro expoente da era atômica. Ele
a partículas carregadas, pois elas mu- descobriu o núcleo atômico. E, em
davam de direção sob a ação de um 1908, ganhou o Prêmio Nobel de Quí-
campo magnético. Becquerel ganhou mica, por dar a prova cabal de que a
o Prêmio Nobel de Física em 1903, radioatividade era produzida por de-
juntamente com seus ex-alunos Ma- sintegração de átomos pesados, de-
rie e Pierre Curie. caindo para átomos menos pesados.

A polonesa Marie Curie e seu marido, Rutheford ainda percebeu um padrão


o francês Pierre Curie, fizeram pes- no decaimento que ele denominou
quisas fundamentais para entender tempo de meia vida. O padrão era o
a radioatividade, fenômeno inexpli- seguinte: o tempo para que a meta-
cável até então. Coube aos Curie des- de de uma amostra de átomo pesado
cobrir outros elementos radioativos, decaia em átomo menos pesado é o

RELEITURA | jul./dez. 2011 203


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

mesmo tempo para que a metade da útil, mas de existência duvidosa. O


amostra decaia para um quarto da atomismo de Demócrito estava de-
amostra inicial, e assim por diante. finitivamente chancelado pela ciên-
Esse fenômeno é a base para data- cia. Para isso, Einstein utilizou ferra-
ções arqueológicas, paleontológicas mentas estatísticas que se tornariam
e geológicas. Por exemplo, o tempo o primeiro método de contagem de
de meia vida do carbono 14 é de 5730 átomos.
anos, e o tempo de meia vida do urâ-
nio é de cinco bilhões de anos. No terceiro e mais audacioso artigo,
Einstein introduziu a Teoria da Rela-
O ano de 1905 não foi apenas o da ob- tividade Restrita48 (TRR), mostrando
tenção do doutorado do físico alemão que as leis do movimento de Newton
Albert Einstein, mas também um an- não se aplicavam a velocidades com-
nus mirabilis em razão dos quatro paráveis à da luz. Por exemplo, a ve-
artigos seminais de sua autoria, que locidade da luz medida por uma pes-
pautariam a física do século XX. O pri- soa parada na superfície terrestre é
meiro artigo tratou do efeito fotoelé- 300.000 km/s; se essa pessoa agora se
trico, pacificando a divergência entre movesse à velocidade da luz, em sen-
Newton e Huygens: a luz podia tanto tido contrário ao do feixe de luz cuja
ser partícula quanto onda. Ele ainda velocidade se quer medir, Newton e
mostrou que o éter não é necessário Galileu afirmariam que a velocidade
para a propagação das ondas eletro- da luz em relação ao novo referencial
magnéticas no vácuo, inclusive a da seria de 600.000 km/s. Entretanto,
luz. Foi um passo enorme na compre- Einstein mostrou que, mesmo nessa
ensão dos tijolos da matéria. Esse ar- situação, a luz tem a mesma velocida-
tigo se tornaria um dos dois pilares da de de 300.000 km/s para a pessoa que
mecânica quântica, e abriria as por- mede. Se a pessoa viajasse à velocida-
tas para o uso da energia atômica. Por de da luz no mesmo sentido do raio
esse artigo, ele ganhou o Prêmio No- cuja velocidade se quer medir, a ve-
bel de Física de 1921. O outro pilar foi locidade medida não seria zero, mas
desenvolvido pelo também físico ale- 300.000 km/s. Por mais perplexidade
mão Max Planck, que receberia o Prê- que possa despertar, a constância da
mio Nobel de Física em 1918. Planck velocidade da luz independentemen-
e Einstein tinham gosto pela músi- te do referencial foi demonstrada, em
ca. Einstein tocava violino; e Planck, 1887, pela famosa experiência dos
além de compositor, tocava piano, norte-americanos Albert Michelson
órgão e violoncelo. Por diletantismo, (Prêmio Nobel de Física de 1907) e
os dois gênios e amigos costumavam Edward Morley.
executar duetos em Berlim.
Para explicar esse resultado inespe-
O segundo artigo abordou o movi- rado, Einstein usou trabalhos teó-
mento browniano, uma evidência ex- ricos do holandês Hendrik Antoon
perimental da existência dos átomos, 48
É restrita porque não considera os efeitos da gravi-
até então tratados como um conceito dade na formulação.

204 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

Lorentz (Prêmio Nobel de Física de teoria da relatividade restrita para in-


1902), de Maxwell e do matemático cluir o efeito da gravidade. Finalmen-
francês Henry Poincaré. Ele teorizou te, em 1915, apresentou a Teoria Geral
que o tempo e o espaço não são ab- da Relatividade (TGR), mostrando que
solutos, como preconizaram Newton tempo e espaço são uma coisa só e que
e Galileu. Isso porque a constância a gravidade não é uma força, como
da velocidade da luz, independen- afirmava Newton, mas uma curvatura
temente do referencial, impõe que o no espaço-tempo. Até a luz se subme-
tempo transcorra cada vez mais vaga- tia a essa curvatura. Pela nova teoria,
rosamente num relógio à medida que o tempo era dilatado não só pela ve-
ele se aproxima da velocidade da luz. locidade da luz, mas também pela
Além disso, as dimensões do relógio a gravidade. A TGR serve de base para a
essas velocidades se contraem. Com cosmologia atual e deu a ferramenta
isso, ele mostrou que as leis do movi- necessária para os cientistas enten-
mento de Newton não se aplicavam derem as características do universo.
em velocidades relativísticas (próxi- Repentinamente, o universo se tornou
mas à da luz). um gigantesco laboratório de física.

A TRR mostra um modo de viajar para Mas a TGR era uma teoria de difícil
o futuro. Para tanto, considere dois gê- entendimento mesmo para os cien-
meos de dezoito anos. Um é colocado tistas e, salvo se houvesse uma com-
numa nave espacial que viajará a uma provação científica, ela seria remetida
velocidade próxima à da luz durante ao ostracismo. Sua comprovação ex-
algum tempo, e o outro fica na Terra. perimental veio através de um eclipse
Quando o viajante retornar, ele terá lunar na cidade de Sobral, no Ceará.
apenas, digamos, 28 anos, enquanto Se a luz realmente se curvasse sob o
que seu irmão gêmeo que permane- efeito da gravidade do Sol, então seria
ceu na Terra teria 38 anos. O gêmeo-as- possível ver uma estrela que estivesse
tronauta, de certa forma, teria viajado atrás do Sol, numa situação em que
dez anos para o futuro. Mas, viagens a luminosidade do Sol se reduzisse
a velocidades relativísticas exigiriam drasticamente, como num eclipse. E
uma quantidade gigantesca de ener- foi exatamente isso que ocorreu. Ao
gia, o que não as torna factíveis. ser comprovada experimentalmente
essa generalização, em 1919, o jornal
O quarto artigo mostrou que matéria The Times estampou a seguinte man-
(m) e energia (E) são apenas aspectos chete: Revolução na ciência: nova te-
de uma mesma coisa, e se relacionam oria do universo destrói as ideias de
através da conhecida relação: E =mc2. Newton. Não é bem assim; para velo-
Esse artigo está na base das bombas cidades compatíveis com a nossa rea-
de fusão e de fissão nucleares, e, ob- lidade, as leis de Newton funcionam,
viamente, das usinas termonucleares. e muito bem.

Einstein ainda passaria vários anos A teoria quântica surgiu em meados


matutando sobre a generalização da da década de 1920, para explicar os

RELEITURA | jul./dez. 2011 205


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

estranhos comportamentos das par- uma explicação determinística para


tículas subatômicas. Ela foi desen- o funcionamento do universo. Mas os
volvida por vários cientistasF49F. A experimentos invariavelmente têm
física quântica não é intuitiva. A te- mostrado que a mecânica quântica
oria é baseada nas observações que está certa ao descrever esse estranho
mostram ter a realidade atômica um comportamento probabilístico e dual
comportamento probabilístico: não dos tijolos fundamentais da matéria.
é possível, no nível atômico, conhe- O físico e escritor Brian Greene afir-
cer simultaneamente a velocidade mou: a mecânica quântica se conver-
e a posição de uma partícula, infor- teu na fonte das previsões numéricas
mações essenciais para descrever a mais corretas e precisas de toda a his-
mecânica do seu movimento. Só é tória da ciênciaF50F.
possível calcular a sua probabilidade.
O mundo determinístico de Newton Mas a mecânica quântica causou e
ruía, para velocidades relativísticas e ainda causa enorme estranhamento
para dimensões subatômicas. E, das entre os físicos. Eis algumas citações
ruínas, surgia outra realidade, a du- de físicos famosos manifestando esse
alidade onda-partícula: não só a luz, estranhamento:
mas também os tijolos da matéria
se comportam ora como ondas, ora • a mecânica quântica vai se impor.
como partículas. Mas uma voz interior me diz que
ainda não é a teoria certa. A teoria
O comportamento das ondas eletro- diz muito, mas não nos aproxima do
magnéticas (inclusive a luz visível) é, segredo do Velho (the Old One). Eu
hoje, bem compreendido, fruto das estou convencido que Ele não joga
teorias da relatividade e quântica e dados. Einstein, em carta ao físico
da evolução da química, no que tan- Max Born, em 1926.
ge o comportamento de elementos e
• quem não estivesse chocado com a
substâncias submetidos à luz visível.
Essa compreensão permite aos cos- teoria quântica, não a tinha enten-
mólogos contemporâneos tirarem dido. Niels Bohr, em 1958.
consistentes conclusões sobre plane- • houve uma época em que os jornais
tas, estrelas, galáxias e o big-bang, a diziam que só havia doze pessoas no
partir da luz que chega à Terra. mundo que entendiam a teoria da
relatividade. Acho que essa época
Einstein sempre discordou da me- nunca existiu. Pode ter havido uma
cânica quântica. Ele sempre buscou época em que só uma pessoa enten-
dia, porque foi o primeiro a intuir a
49
Citamos os principais: o dinamarquês Niels Bohr coisa e ainda não havia formulado a
(Nobel de Física de 1922), o príncipe francês Louis
de Broglie (Nobel de Física de 1929), o alemão Wer- teoria. Mas depois que as pessoas le-
ner Heisenberg (Nobel de Física de 1932), o austríaco ram o trabalho, muitas entenderam
Erwin Schrödinger e o inglês Paul Dirac (vencedores
do Nobel de Física de 1933), o austríaco Wolfgang
Pauli (Nobel de Física de 1945), o alemão Max Born
(Nobel de Física de 1954), o norte-americano Richard 50
Brian Greene – O Universo Elegante – Companhia
Feynman (Nobel de Física de 1965). das Letras, 2001.

206 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

a teoria da relatividade, de uma ma- descrevendo o méson pi, o único


neira ou de outra; certamente mais agraciado com o Prémio Nobel de
de doze. Por outro lado, acho que Física, em 1950, foi Cecil Powell,
posso dizer, sem medo de errar, que pelo seu desenvolvimento de um
ninguém entende a mecânica quân- método fotográfico de estudo dos
tica. Richard Feynman, em 1965. processos nucleares e sua descober-
ta que levou ao descobrimento dos
A física quântica continuou sua busca
mésons. A razão para esta aparen-
pelos tijolos mais elementares da ma-
te negligência é que a política do
téria. E César Lattes, um dos maiores
Comitê do Nobel até 1960 era dar
físicos brasileiros da história, teve
o prêmio para o líder do grupo de
papel-chave nessa busca. Sobre ele,
pesquisa, somente. O brasileiro,
a enciclopédia eletrônica Wikipedia
no entanto, nunca foi contempla-
assim se expressa:
do. No museu de Niels Bohr, em
Copenhague, Dinamarca, há uma
“Ainda jovem (23 anos), César Lat-
carta na qual está escrito por que
tes foi trabalhar no H. H. Wills La-
César Lattes não ganhou o Prêmio
boratory da Universidade de Bris-
Nobel – abrir 50 anos depois da
tol, dirigida por Cecil Frank Powell.
minha morte. Como Bohr morreu
Após melhorar uma nova emulsão
em 1962, somente em 2012 sabe-
nuclear usada por Powell, pedindo
remos a resposta do enigma.”
à Kodak Co. para adicionar mais
boro a ela, em 1947, realizou com César Lattes foi um dos mais convic-
o grupo do Laboratório uma gran- tos críticos de Einstein e da teoria da
de descoberta experimental – uma relatividade. Ao longo de sua vida,
nova partícula atômica, o méson tentou provar que era uma teoria
pi (ou pion), a qual desintegra em equivocada, e ainda há cientistas que
um novo tipo de partícula, o mé- sustentam tal afirmação51. Longe se
son mu (muon). Foi uma grande serem consideradas errôneas, postu-
reviravolta na ciência. Até então, ras críticas como a de Lattes foram e
aceitava-se que os átomos eram continuam sendo fundamentais para
formados por somente 3 tipos de acelerar a evolução da ciência52. Mas,
sub-partículas ou partículas ele- em relação à TGR, os “advogados do
mentares (prótons, nêutrons e elé- diabo” não vêm tendo sucesso. Várias
trons). Alguns cientistas contesta- têm sido as evidências experimentais
ram os resultados, mas o apoio do que invariavelmente reforçam a vali-
dinamarquês Niels Bohr, um dos dade da TGR.
maiores físicos da história, pesou
na aceitação da novidade que da- 51
www.wbabin.net/saraiva/saraiva35p.pdf e www.
alfredo-braga.pro.br/discussoes/barth-einstein.html,
ria início a uma nova área de pes- acessados em 20/12/2010.
quisa, a Física de Partículas. 52
Além dos questionamentos à teoria da relatividade,
Lattes também se juntou àqueles que defendem que
Einstein seria uma fraude, acusando-o de plágio dos
Embora Lattes tenha sido o prin- trabalhos de Henri Poincaré e de Lorentz. Foi em ra-
cipal pesquisador e primeiro au- zão dessa dúvida que Einstein não ganhou o prêmio
Nobel pela TGR. http://www.alfredo-braga.pro.br/
tor do histórico artigo da Nature discussoes/cesarlattes.html acessado em 20/12/2010.

RELEITURA | jul./dez. 2011 207


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

Um dos mais importantes resultados em co geração54, aumentando ain-


dessas extraordinárias ideias de Eins- da mais a eficiência da produção de
tein e da física quântica, no campo energia de origem térmica. Também
que nos interessa, foi o uso da ener- as chamadas fontes alternativas55 –
gia nuclear para geração de energia como a eólica – começam a ganhar
e o potencial uso da fusão nuclear. alguma competitividade em relação
As primeiras usinas termonucleares às fontes convencionais56.
surgiram na década de 1940, e, hoje,
são a fonte obrigatória em vários pa- binas a vapor de forma a aproveitar o calor dos gases
resultantes da queima para produzir mais eletricida-
íses, chegando a ser preponderante de. Já o termo cogeração é utilizado prevalentemente
em alguns países, como a França e a em sistema de geração de eletricidade, no qual o calor
rejeitado após a queima dos combustíveis (gás natu-
Lituânia. Assim sendo, os principais ral, óleo combustível, biomassa) é usado diretamente
insumos da cena energética mundial no processo produtivo, e não para gerar mais eletri-
cidade. Exemplo disso é a queima do bagaço da cana
estavam postos já na primeira meta- para produção simultânea de eletricidade e calor para
o processo de produção de álcool e/ou açúcar
de do século XX. 54
“Cogeração ou ciclo combinado refere-se ao em-
prego de mais de um ciclo termodinâmico num certo
processo de produção de energia elétrica com o ob-
jetivo de aumentar a eficiência desse processo. Em
9. Energia no Século XX e a outras palavras é a produção e utilização combinada
de calor e electricidade, proporcionando o aprovei-
Era da Informação tamento de mais de 70% da energia térmica prove-
niente dos combustíveis utilizados nesse processo.
Sendo uma tecnologia que permite o aproveitamento
eficiente dos combustíveis necessários à produção de
Voltar-se-á agora o foco para a evo- energia útil, a cogeração pode assegurar um aprovei-
lução do uso da energia no século tamento elevado da energia primária e, por essa razão,
responde favoravelmente aos objetivos das políticas
anterior e neste século XXI. Ao longo energéticas nacionais. A cogeração responde eficaz-
mente também a preocupações de natureza ambien-
do século XX, evidenciou-se uma es- tal, uma vez que, ao fornecer a mesma energia final
treita correlação entre o consumo de com um menor consumo de energia primária, reduz
significativamente as emissões para o ambiente. A
energia e a qualidade de vida das po- cogeração assume assim, um papel muito importante
pulações. na redução das emissões de CO2 para a atmosfera, e
no consequente cumprimento das metas assumidas
no protocolo de Kyoto. A cogeração é, com efeito, o
Já na primeira metade do século XX, a sistema mais eficiente de produção de electricidade a
partir de qualquer combustível.
grande melhoria da eficiência do ciclo 55
A fonte de energia pode ser classificada quanto à
capacidade de reposição do recurso natural. Exemplo:
a vapor e, posteriormente, o domínio Fonte renovável – os recursos naturais renováveis, em
do ciclo do urânio permitiram que tese, são inesgotáveis; é o caso da fonte solar, eólica,
hidráulica, maremotriz, biomassa. Há um maior inte-
usinas de geração de energia movidas resse nessas fontes, em razão de sua correlação com
a carvão e as termonucleares tam- externalidades negativas aceitáveis e com a segurança
energética. Fonte não-renovável – os recursos naturais
bém compartilhassem a cena com as não-renováveis é finito; é o caso do urânio enriqueci-
do, do carvão mineral, do gás natural, do óleo diesel;
hidroelétricas, assumindo um papel 56
A fonte de energia ainda pode ser classificada em
preponderante no mundo. Mais re- função de seu impacto ambiental. Exemplo:
Fonte convencional – a utilização dessa fonte (recur-
centemente, entraram em cena o gás so natural) impõe externalidades (impactos ambien-
natural, para uso em usinas a ciclo tais) cada vez mais questionadas pela sociedade; é o
caso de usinas térmicas de fontes não-renováveis e
combinado53, e a biomassa, para uso de usinas hidroelétricas. Enquanto as hidroelétricas
têm impacto local, as usinas térmicas têm impacto
regional e global; Fonte alternativa – trata-se de um
53
No Brasil, o termo ciclo combinado é mais utilizado recurso natural, renovável cujas externalidades são de
na caracterização de um sistema de geração de eletri- mais fácil aceitação pela sociedade; é o caso de PCHs,
cidade a partir de combustível fóssil (gás natural ou usinas eólicas, usinas solares, a painel solar ou térmi-
óleo combustível), ao qual se acopla uma ou mais tur- ca, e biomassa, utilizada em co-geração;

208 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

Foi nesse cenário que se experimen- O telefone celular tornou-se item de


tou uma enorme melhoria do índice uso obrigatório para os cidadãos.
de desenvolvimento dos países. A
criatividade humana tem propiciado Através da rede mundial, cresceu ex-
tamanha multiplicidade de tecnolo- ponencialmente a oferta de conheci-
gias lastreadas no uso da energia, que mento para as pessoas. Programas de
trouxe enormes melhorias no con- computador e a robótica facilitaram
forto das pessoas. Não há compara- enormemente a automação dos pro-
ção entre o estilo de vida nas últimas cessos produtivos, e tornaram ainda
décadas do século XX e o do final do mais eficientes as atividades empre-
século XIX. sariais e comerciais.

A partir da década de 1970, começa- A contínua evolução da rede mundial


ríamos a vivenciar a Era do Conheci- só é possível mediante o aumento da
mento (ou Era Digital), resultado dos capacidade de telecomunicação en-
enormes desenvolvimentos abertos tre redes. As empresas de telecomu-
pela Teoria Geral da Relatividade e nicação investem continuamente em
pela física quântica, no início do sé- tecnologias cada vez mais modernas,
culo XX. tanto para aumentar a velocidade de
transmissão dos dados, quanto para
A viagem rumo aos tijolos da ma- evitar o colapso de uma rede mundial
téria propiciou aplicações as mais de computadores cada vez maior.
diversas. Destacam-se a medicina
nuclear, a radiologia, a esterilização Na segunda metade do século XX,
de alimentos, a datação de objetos verificou-se uma gradual redução
e solos, a comunicação por satélite, de postos de trabalho na indústria e
transmissão por fibra óptica, GPS57, um crescente aumento de oportuni-
o raio laser, a criação do transistor e, dades para o trabalhador que detém
posteriormente a evolução dos cir- informação ou conhecimento sobre
cuitos impressos que conduziram aos determinado assunto. Cada vez mais,
microprocessadores. Computadores a capacitação deve ser contínua, e o
de grande porte foram inicialmente trabalhador é valorado pelo seu co-
construídos com esses microproces- nhecimento sobre assuntos os mais
sadores, e, logo começou a era dos variados e, não raro, inéditos. A tec-
computadores pessoais. A interliga- nologia atual desempenha papel fun-
ção dos computadores pessoais, cada damental nesse processo. As opções
vez mais populares, resultou na cria- de aprendizado por internet, por sa-
ção da internet. A fibra óptica tornou- télite, a circulação cada vez mais in-
-se um meio de interligação preferen- tensa de novas informações, tornam
cial, em face de sua confiabilidade. a aquisição de conhecimento uma
necessidade premente. Essa intensi-
57
O GPS, sistema de localização por satélite, levaria
dade faz com que o dia-a-dia do ho-
a erros grosseiros de posicionamento se a TGR não mem pareça transcorrer com maior
fosse levada em conta. Experiências com relógios atô-
micos mostram isso. velocidade. A percepção é que a pas-

RELEITURA | jul./dez. 2011 209


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

sagem do tempo está mais acelerada cia dos ambientalistas. O paradigma


do que antes. energético que prosperou no século
XX começa a ser cada vez mais ques-
Não se alongará mais sobre a Era da tionado. O resultado do questiona-
Informação, porque ainda se vive o mento reflete-se na crescente pressão
seu desenrolar. Mas uma característi- sobre o uso das fontes mais usadas,
ca deve ser, mais uma vez, reforçada. que sustentam o crescimento dos pa-
Como se poderia esperar, essa nova íses e o estilo de vida das sociedades:
revolução é lastreada no binômio
conhecimento-energia. Faltando um • o petróleo e o carvão tornaram-se
desses dois pilares, a revolução cessa- uma das principais fontes de CO2,
ria, e a curva continuamente crescen- um dos gases de efeito estufa, e de-
te de melhoria da qualidade de vida vem ser substituídos;
das pessoas sofreria inevitavelmente
uma inversão. • a instalação de usinas termonucle-
ares foi praticamente interrompi-
da no mundo, em face do acidente
10. Conflito entre Energia de Chernobyl, em 1986, e da per-
cepção de risco de morte que esse
e Meio Ambiente acidente provocou na população.
Mais recentemente, após o tsuna-
Até este ponto do texto, fez-se uma
mi devastador que atingiu o Japão
intencional digressão em torno do
em 2010, seguido dos acidentes nas
binômio conhecimento-energia. Não
se trata de uma fuga do tema apre- usinas termonucleares de Fukushi-
sentado na Introdução, mas uma ten- ma, reacendeu-se o debate em tor-
tativa de dar ao leitor uma perspec- no banimento de usinas nucleares;
tiva mais profunda das afirmativas • as usinas hidroelétricas têm sido
que se seguirão em torno do conflito alvo preferencial da encarniçada
hodierno entre a exploração de fontes luta de movimentos sociais e de
de energia e a preservação do meio ambientalistas radicais contra sua
ambiente. construção.
O início da Era da Informação coin- Como proposta de solução, alguns
cidiu com o alerta de cientistas sobre ambientalistas recomendam a subs-
impactos ambientais que vêm amea- tituição dessas fontes convencionais
çando a biodiversidade. Nos últimos por fontes alternativas. Entretanto,
trinta anos, diante da crescente pre- tecnicamente, essa não é uma solu-
ocupação de um número cada vez ção adequada, porque as fontes al-
maior de pessoas quanto a essa amea- ternativas não propiciam a segurança
ça, a implantação de novas fontes con- energética interna demandada pelas
vencionais de energia, para sustentar o sociedades. Um país só com fontes al-
crescimento populacional e o da qua- ternativas seria submetido anualmen-
lidade de vida das sociedades, tem ex- te a um alto risco de racionamento de
perimentado uma crescente resistên- energia. Isso sem contar com o enor-

210 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

me aumento nas contas de luz e nos Só para dar um exemplo, um veículo


preços dos combustíveis renováveis. elétrico com potência equivalente ao
de um carro popular custa cerca de
A segurança energética só é assegu- US$ 30.000 no Japão. Só a bateria res-
rada por fontes cujos combustíveis ponde por 70% do custo do veículo.
são passíveis de armazenamento. É Portanto, impor fontes alternativas
crucial, para a segurança energética para prover o crescimento da estru-
dos países, que a energia seja arma- tural da oferta de energia, com segu-
zenada para uso em momentos de rança energética, no momento atual,
carência periódica ou aleatória. Atu- seria impor um enorme salto nas tari-
almente, só as fontes convencionais fas de energia para os consumidores.
oferecem essa segurança. Seus com-
bustíveis – água, carvão, derivado de Os governos dos países têm pruden-
petróleo, gás natural, pastilhas de temente mesclado as fontes conven-
urânio – podem ser armazenados, a cionais com as fontes alternativas de
custo baixo, próximo das plantas de energia, mantendo estas com modes-
produção de energia. ta participação na sua matriz de ener-
gia, mediante incentivos específicos.
Derivados de petróleo, o carvão, o As fontes alternativas ainda são mui-
gás natural podem todos ser estoca- to mais caras do que as convencio-
dos ao lado das usinas termoelétri- nais. Um aumento no preço da ener-
cas, produzindo energia sempre que gia elétrica resultante da adoção só de
os consumidores demandarem. As fontes alternativas no Brasil ensejaria
hidroelétricas produzem energia re- aumento acentuado das tarifas, o que
novável, e sua forma de armazenar provocaria uma desarticulação da
energia – água em seus reservató- indústria e uma maciça onda de de-
rios – é, de longe, a mais barata; em semprego, em face da enorme perda
tese, quanto maiores os reservatórios, de competitividade no mercado in-
mais energia pode ser armazenada. ternacional. É preciso ter bom senso,
O combustível nuclear pode ser ar- e dar o devido tempo para que a ci-
mazenado sob a forma de pastilhas ência dê respostas para os problemas
e usado no momento requerido, nas ambientais de nosso tempo.
usinas termonucleares. O Brasil é um
dos três únicos países do mundo que
dominam o ciclo de enriquecimento 11. Posições da Ciência
do urânio e, ao mesmo tempo, têm
reservas de urânio em seu território (a Perante Problemas
sexta maior reserva mundial); os ou- Ambientais
tros dois são Estados Unidos e Rússia.
Ao longo deste Texto, destacou-se o
Por outro lado, no momento atual, as método científico como o instrumen-
fontes alternativas têm nas baterias o to principal para a conquista dos ex-
único meio de armazenagem dispo- traordinários avanços tecnológicos
nível, e elas são extremamente caras. da humanidade dos últimos duzen-

RELEITURA | jul./dez. 2011 211


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

tos anos. A metodologia, cujas bases É fato que cientistas têm alertado
foram assentadas na Grécia clássica para os riscos de impactos globais
e aperfeiçoadas na Idade Moderna, provocados pelo homem, devidos
ganhou contornos mais precisos ao ao seu estilo de vida crescentemente
longo do século XX. poluidor e consumidor de recursos
naturais. Arrhenius, por exemplo, já
Essa maior precisão deve-se ao con- teorizava o efeito estufa, em 1903, em
ceito de Falseabilidade, introduzido razão da emissão de CO2 pela quei-
na década de 1930 por Karl Popper ma de combustíveis fósseis. Contu-
– o maior filósofo da ciência do sécu- do, aqueles riscos ainda precisam ser
lo XX – para corrigir deficiências do submetidos ao rigor científico antes
raciocínio indutivo. Aceito por Ba- de terem uma aceitação consensual
con, esse raciocínio usa conclusões da comunidade acadêmica.
de situações singulares para validar
conclusões universais58. Para Popper, Percebe-se uma precipitação da so-
essa é uma deficiência insanável, e a ciedade, quando aceita as conclusões
ciência não pode ser baseada em tal catastrofistas de uma parte da comu-
inferência. Por outro lado, ele apre- nidade científica, sem que se ouçam
sentou uma abordagem útil e logica- outros cientistas que contestam tais
mente consistente: uma observação conclusões e antes que o consenso
singular não pode ser usada para científico tenha sido alcançado. Essa
mostrar que uma observação univer- afirmação – é preciso deixar muito
sal é verdadeira, mas pode ser usada claro – não significa que se está con-
para mostrar que é falsa. Portanto, testando a existência do aquecimen-
Falseabilidade ou Refutação de uma to global ou que a sociedade esteja
hipótese é o ato de obter uma afirma- errada na sua percepção. Ela significa
ção ou realizar uma experiência física apenas que a ciência, que tem propi-
que mostre que a hipótese é falsa. ciado à humanidade tantos avanços
na qualidade de vida dos homens,
Mas, fora da Academia, a Falseabi- ainda não chegou a um consenso so-
lidade não vem sendo considerada bre o assunto e, só por isso, deve-se
com o devido rigor na previsão de ter prudência e aguardar a chancela
alguns potenciais impactos sobre o da ciência, antes de se imporem sa-
meio ambiente. O debate tem toma- crifícios desnecessários, principal-
do ares emocionais, que em nada mente, aos países pobres.
contribuem para a busca da verdade.
Para ilustrar essa afirmação, dar-se-á Enquanto a Academia ainda debate o
o exemplo do aquecimento global59. tema, a grande maioria das pessoas já
considera o aquecimento global, cau-
58
Exemplo simples de conclusão falha com base no sado pela emissão de gases de efeito
raciocínio indutivo: Já que todos os cisnes que conheço
são brancos, então todos os cisnes são brancos. A des-
coberta de cisnes negros na Austrália mostrou a falha
na conclusão. Esse é um raciocínio claramente invá- Calder, ex-editor da revista New Scientist – ver em
lido em lógica. http://super.abril.com.br/ciencia/voce-deve-des-
59
“Aquecimento global virou uma religião. Falar algo confiar-tudo-ou-quase-tudo-ouve-le-aquecimento-
contra a corrente dominante virou heresia” – Nigel -global-446939.shtml, acessado em 30/06/2011.

212 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

estufa, como um fato. A maioria dos • os modelos de previsão do aqueci-


Países já adotam políticas de redução mento global são pouco confiáveis.
de gases de efeito estufa, presumindo Afinal, se não somos capazes de
que o aquecimento global é um fato. prever o clima para daqui a uma se-
Para um leitor convicto disso, pode mana, como poderíamos prevê-lo
soar estranha a afirmação de que a para daqui a cem anos?
ciência ainda discute o tema. Mas é
• algumas estações meteorológicas
isso que está ocorrendo. Para mostrar
que o consenso ainda muito longe situam-se em ilhas urbanas de ca-
de ser alcançado, seria interessante lor, o que corrompe as medidas re-
apresentar o pensamento dos céticos ais;
– muito pouco ouvidos pelos forma- • alguns cientistas afirmam que expe-
dores de opinião, o que dará uma me- rimentamos um resfriamento entre
lhor ideia do nível em que a discussão 1998 e 2007 no Hemisfério Sul, a
se encontra. despeito da elevação da concentra-
ção de CO2 em 4%. O aquecimento
Alguns cientistas do clima vêm de- deveria ser global e não hemisférico;
tectando possível aumento na tem-
peratura da Terra nos últimos cem ou • temperaturas são medidas desde
duzentos anos, que imputam princi- 1850, mas as alterações na camada
palmente à queima de combustíveis de gelo da Groenlândia e no Pólo
fósseis, acelerada a partir da Primeira Norte, só recentemente começa-
Revolução Industrial. Dados de esta- ram a ser acompanhadas por saté-
ções meteorológicas espalhadas pelo lites. Assim, os céticos perguntam:
mundo alimentam modelos do clima como determinar desde quando as
programados em computadores de geleiras estão em recuo? Ademais,
grande porte, que fazem previsões observa-se um aumento da camada
sobre os efeitos dos gases de efeito de gelo da Antártida;
estufa sobre o clima. São previsões • os mesmos métodos usados pelo
sombrias, quando não catastróficas. IPCC para afirmar que o aqueci-
Contrariamente aos argumentos dos
mento global é uma realidade, fo-
céticos, as posições do IPCC são so-
ram usados pelos cientistas céticos
bejamente conhecidas da opinião pú-
para mostrar61 que, entre os séculos
blica, e não as reproduziremos aqui.
IX e XIV, houve o período de aque-
cimento medieval em algumas regi-
Eis alguns contra-argumentos que
ões do mundo. Após esse período, a
deveriam ser considerados pelos que
Terra experimentou uma Pequena
debatem o tema60. Eles nem sempre
são complementares, às vezes até dis- Era Glacial, com resfriamento da
cordantes entre si, mas são suficien- temperatura planetária (ver Figura
tes para caracterizarem o falseamen- 1). É, pois, concebível, que o Plane-
to das afirmações do IPCC:
61
http://www.geografia.fflch.usp.br/graduacao/
apoio/Apoio/Apoio_Felicio/mudancas/P02D-Aque-
60
http://ambiente.hsw.uol.com.br/ceticos-do-cli- cGlobal-DaniOncaTacoHoquei.pdf, acessado em
ma1.htm, acessado em 7/6/2011. 7/6/2011.

RELEITURA | jul./dez. 2011 213


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

FIGURA 1
ESTIMATIVAS DA EVOLUÇÃO DA TEMPERATURA MÉDIA
GLOBAL AO LONGO DO ÚLTIMO MILÊNIO (IPCC, 1990)

ta esteja passando por fenômenos • o famoso gráfico Bastão de Hóquei62


semelhantes, que não sejam devi- (Figura 2), tem sido usado extensi-
dos a gases de efeito estufa. Sim- vamente pelo IPCC para provar o
plesmente, não se sabe o bastante efeito das atividades humanas so-
sobre os sistemas climáticos para bre as alterações climáticas. Após
afirmar algo com certeza; sua publicação, ele foi duramente
criticado por outros cientistas, que
• alguns céticos não desconsideram
apontaram grosseiros erros no uso
o aquecimento global, mas acredi-
de dados, sugerindo que os dados
tam que a atividade humana não
foram adaptados para se chegar à
seja responsável por ele. Estudo
conclusão desejada;
publicado na revista Science, em
2003, com base em amostras da ge- • recentes e-mails trocados entre
leira antártica de 240 mil anos atrás, cientistas ligados ao IPCC, divulga-
sugere que o aumento na concen- dos para a mídia, mostraram que
tração de CO2 seria consequência e os dados que o Painel Intergover-
não causa do aquecimento. É que namental usou para publicar suas
o aquecimento leva à liberação de conclusões a respeito do Taco de
CO2 aprisionado na natureza; Hóquei não estão disponíveis para a
devida validação por outros cientis-
• outros cientistas negam aqueci-
tas. Esse resultado não pode, pois,
mento global e sustentam que a
Terra está saindo de uma pequena
62
http://mitos-climaticos.blogspot.com/2007/04/
era do gelo; fig-84-taco-de-hquei-fonte-nature.html.

214 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

FIGURA 2
TACO DE HÓQUEI MOSTRA QUE A TEMPERATURA MÉDIA
DA TERRA ESTARIA SUBINDO NO FINAL DO SÉCULO XX

ser validado pela ciência, em face • o IPCC errou suas previsões quan-
de ele não ser reproduzível; to às geleiras do Himalaia e quan-
to à Floresta Amazônica. No caso
• a emissão humana de CO2 é uma
do Himalaia, foi constatada uma
fração mínima das emissões natu-
rais de CO2; fraude: o que seria o resultado de
um estudo circunstanciado sobre
• o vapor d’água é o principal gás de o assunto, incluído no relatório de
efeito estufa. O CO2 é o segundo em 2007 do IPCC, nada mais era do que
importância, e tem uma concen- um recorte de jornal publicado em
tração na atmosfera até cem vezes 1999, com meras especulações de
menor do que o vapor d’água. Com ambientalistas;
pode, então, o CO2 ser o vilão do
aquecimento global? Bem, obviamente, o IPCC tem tam-
bém tréplicas a todos esses contra-ar-
• a população de ursos polares está gumentos. O debate científico sobre
crescendo no Ártico, e não reduzin- aquecimento global está longe do seu
do, como apregoam os profetas do final. Mas a amostra que se procurou
apocalipse ambiental; apresentar aqui serve apenas para
• houve aquecimento global na pri- que os formadores de opinião que
meira metade do século XX, quan- já tenham se convencido do aqueci-
do a concentração de CO2 era bai- mento global considerem a hipótese
xa. Não há correlação entre CO2 e de dar um passo atrás e voltem sua
temperatura; atenção também para o que dizem

RELEITURA | jul./dez. 2011 215


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

os céticos. O mundo tem muitos de- biodiversidade. A ciência tem apoia-


les. O Brasil também63. E são pessoas do e impulsionado a maioria desses
do mais alto gabarito, com formação esforços.
científica extremamente consistente,
capazes de contribuir para um debate Mas, na questão energética, a pauta
profícuo em torno do assunto. ambiental precisa ser vista com cau-
tela. O caráter essencial da energia
O aquecimento global pode até vir e sua crescente demanda tornam a
a ser chancelado pela ciência, mas produção de energia uma atividade
um longo caminho deve ser percor- de elevado interesse público, e todo
rido antes que o consenso científico cuidado é pouco para que sua falta
seja alcançado. Até lá, é prudente não não desestabilize os países, inclusive
tomar atitudes radicais, como se ele o Brasil. Por energia, países foram,
fosse uma realidade. Afinal, em face vão e irão à guerra.
dos argumentos até agora suscitados,
não seria surpreendente que a ciência A produção de energia na forma atu-
chegasse ao consenso, futuramente, al é resultado da associação entre a
de que o planeta está passando por criatividade humana e o acúmulo
um período de resfriamento global, de conhecimentos proporcionados
jogando por terra todo o esforço em- pelo método científico. Olhando a
preendido para controlar os gases de história pelo retrovisor, percebe-se
efeito estufa. com clareza que a ciência é a grande
responsável pela mudança radical na
qualidade de vida das pessoas, expe-
12. Conclusão rimentada nos dois últimos séculos.
E as diversas formas de energia são o
O exemplo do aquecimento global principal insumo dessa mudança.
foi usado para mostrar a importân-
cia do falseamento na análise de afir- O mesmo não se pode afirmar com
mações de cunho científico. Outras relação ao conhecimento acerca de
questões ambientais também envol- algumas teses sobre o ambiente glo-
vem o nome da ciência para contes- bal. Por si só, a enorme complexidade
tar certos paradigmas econômicos da dos fenômenos climáticos recomen-
atualidade. É certo afirmar que, em daria prudência em relação a con-
muitos casos, com toda a razão: des- clusões que, futuramente, possam
matamento irracional, a pesca e caça se mostrar inconsistentes. O méto-
predatórias, o problema de lixões, do científico não chancela teses que
de esgotos, a perda de nascentes, de podem ser cientificamente falseadas
matas ciliares, o risco de extinção de por outras teses. Entretanto, o mo-
espécies, a ameaça generalizada à vimento ambientalista tem usado o
nome da ciência em vão, para validar
63
Ver entrevista no Programa “Canal Livre” com o Dr. crenças não científicas, ou teses cien-
Luís Carlos Molion, ex-diretor do Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais e professor da Universidade tíficas ainda não chanceladas pelos
de Alagoas. Disponível em http://www.youtube.com/
watch?v=JxC_JIwat9s. pares. Suas afirmações são sistemati-

216 RELEITURA | ano 2 número 4


O PAPEL DA ENERGIA
E DA CIÊNCIA

camente de caráter profético ou dog- tinua sendo objeto de contínuo ques-


mático, e não podem ser provadas no tionamento. Ela não explica todos os
momento em que a decisão precisa meandros do universo, e poderá ser
ser tomada. Quando muitas delas são superada futuramente por uma teo-
desmentidas posteriormente, já ca- ria mais apropriada às medições de
íram no esquecimento64, e ninguém um universo cada vez mais precisa-
mais nota a incoerência entre as afir- mente descrito. Ciência e paixão não
mações do passado e os fatos do pre- se devem misturar, ainda mais quan-
sente. do a paixão nasce de afirmações cien-
tíficas não comprovadas.
O contínuo avanço científico dos úl-
timos séculos sempre dependeu de Nas palavras de Giordano Bruno, “De-
uma postura crítica, que protege a ve-se, antes de tudo, duvidar de todas
humanidade de dogmas criados em as coisas. Não pode tomar parte num
torno de teses inconsistentes. A hu- debate antes de ter escutado as diver-
manidade chegou a esse vertiginoso sas opiniões, nem antes de avaliar e
processo de melhora da sua qualida- comparar as diversas opiniões, nem
de de vida em razão da postura críti- antes de avaliar e comparar as razões
ca, inerente ao método científico. É contrárias e a favor. Jamais deve jul-
quase uma compulsão para o verda- gar ou censurar um enunciado ape-
deiro cientista questionar sempre as nas pelo que ouviu, pela opinião da
verdades estabelecidas. maioria, pela idade, pelo mérito ou
pelo prestígio do orador, devendo por
Não haveria a tecnologia moderna consequência agir de acordo com uma
se a teoria da relatividade não tivesse doutrina orgânica que se mantém fiel
superado as leis de Newton, que rei- ao real e uma verdade que pode ser en-
naram durante quase dois séculos. E tendida à luz da razão.”
a própria teoria da relatividade con-

64
Ver Edmundo Montalvão – “Impacto de Tributos,
Encargos e Subsídios Setoriais Sobre a Conta de Luz
dos Consumidores”, pág. 36 Texto para Discussão nº
62, citando Ivan Dutra Faria – Nota Informática CON-
LEG nº 3.129, de 2009. Texto disponível no seguin-
te endereço eletrônico: http://www.senado.gov.br/
senado/conleg/textos_discussao/TD62-Edmundo-
Montalvao.pdf

RELEITURA | jul./dez. 2011 217


PREVISÃO DE
IMPACTOS AMBIENTAIS
Ambiente e Energia: Crença e Ciência no
Licenciamento Ambiental

Parte II: Ciência e Crença na Previsão de Impactos


Ambientais

Por:
Ivan Dutra Faria1

Apresentação
O avanço da Ciência depende, fundamentalmente, de mecanis-
mos de proteção contra os dogmas. A postura crítica inerente
ao trabalho científico é uma proteção contra a disseminação de
teses não validadas. O cientista deve questionar – de ofício – as
verdades estabelecidas. Para a ciência, as verdades são, sempre,
provisórias.

Entretanto, em nível global, ao intensificar-se o debate sobre as


questões ambientais, as abordagens científicas vêm sendo pos-
tas, gradativamente, em segundo plano. Nesse contexto, cres-
cem de importância as abordagens ideológicas, com elevado
grau de subjetividade.

No Brasil, esse processo pode ser observado, com clareza, nos


conflitos socioambientais associados aos processos de licen-
ciamento ambiental, especialmente quando são relacionados
com grandes projetos de infraestrutura e, mais especificamen-
te, com os empreendimentos do setor de energia.

Este documento faz parte de um conjunto de Textos para Discus-


são cujo objetivo é analisar as questões relacionadas com os con-
flitos que vêm caracterizando as discussões acerca das opções
energéticas do Brasil vis-à-vis a legislação ambiental em vigor.

O foco principal dos textos que compõe esse conjunto é colo-


cado sobre o papel da ciência nos conflitos, priorizando a pre-
visão de impactos ambientais, bem como as consequências

1
Mestre e Doutor em Política, Planejamento e Gestão Ambiental. Consultor Legislativo do
Senado Federal, do Núcleo de Economia, área de Minas e Energia.

RELEITURA | jul./dez. 2011 219


PREVISÃO DE
IMPACTOS AMBIENTAIS

dessas previsões sobre o processo de te Matheus, ex-presidente corintiano,


licenciamento de grandes projetos, Yogi Berra, é constantemente citado,
com ênfase em empreendimentos hi- de modo jocoso. Contudo, pelo me-
drelétricos. nos uma das máximas a ele atribu-
ídas é extremamente consistente e
oportuna: a de que as previsões são
1. Introdução coisas dificílimas, em especial quando
se trata do futuro.
Atualmente, no Brasil, os debates
envolvendo as grandes questões am- Este documento tem como objetivo
bientais vêm sendo transformados discutir algumas das causas de exa-
em uma notável coleção de opiniões. cerbação dos conflitos socioambien-
Os meios de comunicação estão re- tais no Brasil, com o foco principal na
pletos de colunistas que se dizem distinção dos papéis da crença e da
especialistas nos temas correlatos – e ciência nesses embates – em especial
alguns deles acreditam nisso, seria- no que se refere à previsão de impac-
mente. Muitos desses profissionais tos ambientais. Discute-se aqui não
discorrem sobre qualquer assunto uma questão teórica, acadêmica. Tra-
do enorme conjunto interdisciplinar ta-se de um grande imbróglio, acirra-
que compõe o debate socioambien- do na última década, cuja solução só
tal. Ainda que de modo errático, eles poderá ser almejada a partir da siner-
conseguem reunir muitos adeptos de gia entre política e ciência. Nenhuma
suas ideias e inúmeros convertidos às das duas será capaz de enfrentar tal
suas crenças. Trata-se aqui do nada desafio isoladamente. Com certeza,
desprezível poder de convencimento a maioria dos cientistas tem consci-
de profissionais bem preparados para ência disso. Talvez, a maioria dos não
a exposição midiática, bem como de cientistas, não.
sua crescente influência sobre os co-
rações e mentes dos interessados no
tema. 2. A fé e a ciência
No centro dos conflitos socioam-
bientais está o licenciamento. Esse Texto Complementar no1
processo exige avaliações de impac-
tos ambientais que, por sua vez, são A NOVA FÉ AMBIENTAL
baseadas na elaboração de previsões
de impactos. E aí está o principal pro- Por Ivan Dutra Faria
blema: fazer previsões. (Texto publicado originalmente n’
O Globo, em 24/1/2008, e no Cor-
Atribui-se a Lawrence Peter Yogi Ber- reio Braziliense, em 26/1/2008)
ra, um folclórico e lendário jogador Santo Agostinho acreditava
de beisebol ítalo-americano, algumas estar o mal na ausência de or-
frases muito divertidas. Sendo um dem e que o principal objetivo
frasista comparável ao famoso Vicen- do diabo era criar desordem.

220 RELEITURA | ano 2 número 4


PREVISÃO DE
IMPACTOS AMBIENTAIS

É bem possível que o diabo de tologia. Ainda pior é o fato de,


Santo Agostinho esteja em ple- nas semanas seguintes, a seção
na atividade nos dias de hoje, a de cartas da revista não regis-
julgar pelo uso indiscriminado trar um comentário sequer a
de conceitos da ciência com respeito desta desmedida pre-
significados totalmente diver- tensão científica dos autores da
sos do original, muitas vezes reportagem.
para fins pouco ou nada cien-
tíficos. Infelizmente, não se trata de
um fato isolado. As questões
No final de 2007, por exemplo, ambientais globais vêm se
a matéria de capa de uma revis- transformando em matéria de
ta semanal brasileira de grande crenças e seitas. Todo mundo
circulação foi, mais uma vez, se acha no direito de opinar –
o aquecimento global. Ao lon- com a convicção dos conver-
go da reportagem, elaborou-se tidos. Não há, no inconsciente
uma síntese das informações coletivo, uma distinção clara
apresentadas pelo Painel Inter- entre as mudanças climáticas
governamental de Mudanças e o chamado aquecimento glo-
Climáticas. Conhecido pela si- bal. Não existe uma compreen-
gla em inglês IPCC, esse órgão são do rigor com que a ciência
divulgou previsões que encon- estuda aquelas mudanças, em
tram forte oposição em uma contraponto ao fenômeno mi-
parcela significativa de cientis- diático do aquecimento global
tas – denominados céticos por – que parece resultar do co-
aquela reportagem. nhecido movimento pendular
da história. A nova posição do
O trabalho jornalístico foi se- pêndulo, a rigor, compensa o
veramente prejudicado, quase mito do resfriamento global,
ao seu final, por um grave des- da nova era glacial e do inver-
lize de seus autores. Lamenta- no nuclear, surgido na década
velmente, ao elaborarem uma de 1970.
matriz com as contrastantes
visões do IPCC e dos céticos Evidentemente, não são pou-
acerca dos principais efeitos cos os motivos para preocu-
das mudanças climáticas sobre pação. O planeta realmente
o planeta, os jornalistas acres- parece dar sinais de estresse,
centaram uma coluna ao con- causado por um modelo ca-
junto, na qual determinavam pitalista perdulário e devora-
quem está certo nesse conflito. dor de recursos naturais que
se acreditam finitos. Mas es-
Não fica clara naquela matéria ses problemas não devem ser
a origem de tamanha clarivi- enfrentados com base na fé e,
dência e capacidade analítica. sim, por uma bem balanceada
Mas restou evidente que aque- combinação de ciência e políti-
les jornalistas se julgam capa- ca, baseada na cooperação ho-
citados para definir o lado que nesta e idealista entre as partes.
tem razão em uma batalha na
qual estão envolvidos, em am- Muito se tem falado sobre o
bos os lados, centenas de dou- fim das utopias. Vivemos um
tores e pós-doutores em clima- início de século que se funda-

RELEITURA | jul./dez. 2011 221


PREVISÃO DE
IMPACTOS AMBIENTAIS

menta em um pragmatismo O clima talvez seja o mais com-


de mercado, em contrapon- plexo e o mais caótico dos sis-
to ao idealismo libertário que temas com que um cientista
marcou várias gerações. Nesse pode se deparar. Por isso, as
contexto, uma nova realidade construções bem arrumadas
vem sendo construída, com a e elegantes são criações dos
convicção de que o mercado é cientistas para poder enfren-
capaz de salvar o planeta. Tan- tar esse caos. Jamais serão
to assim que a tese do aqueci- imutáveis ou proféticas. Para
mento global se converteu em enfrentar os graves problemas
um catalisador de ponderáveis previstos por modelos proba-
forças políticas e da formação bilísticos da ciência, precisa-
de atraentes unidades de negó- mos de governantes com uma
cios. Esse mercado abrange um visão idealística e humanitária,
amplo espectro da sociedade, mas, acima de tudo, depende-
que inclui, em seus limites, or- mos de cientistas honestos e
ganizações bem intencionadas competentes. Já temos oportu-
e oportunistas clássicos. Como nistas e profetas demais.
o mercado não se sustenta sem
É difícil supor que uma visão cienti-
fetiches, proliferam congres-
sos, seminários, viagens inter- ficista2 seja capaz de fornecer respos-
nacionais, contratos de consul- tas satisfatórias para as inevitáveis
toria, produções audiovisuais perguntas que os diversos setores da
– e muita, muita, exposição sociedade formulam ao longo dos
à mídia. O pano de fundo é a conflitos socioambientais. As visões
repetição farsesca da história, embasadas em matrizes positivistas
pontuada pela intermitente são rejeitadas, a priori, em razão dos
visão apocalíptica do fim dos
tempos. pressupostos de superioridade da ci-
ência sobre todas as outras formas de
Nem por um segundo se deve compreensão humana da realidade.
duvidar da possibilidade de,
em um futuro não tão distante,
Todavia, as religiões e as ideologias,
os pavorosos cenários dese-
nhados pelo IPCC se tornarem em muitos casos, tornam-se antípo-
realidade. Mas não por uma das da adoção do rigor do método
questão de fé. Essas análises científico, tal como é aplicado às ci-
devem ser avaliadas pela ciên- ências naturais, em todas as áreas do
cia. Ocorre que esta não é base- saber e da cultura. Estabelece-se, nes-
ada em princípios sustentados ses casos, uma oposição dialética, em
pela fé e, sim, em uma busca um processo que não deveria ser, ne-
constante de processos confiá-
veis de intervenção no mundo
material. A fé e a ciência po- 2
Segundo o Novo Dicionário Aurélio (versão eletrôni-
ca; consultada em 30/4/2011): Cientificista: Relativo ou
dem convergir, dialogar e coe- pertencente ao cientificismo. Cientificismo: Cientismo.
xistir pacificamente. Entretan- Cientismo: 1. Atitude segundo a qual a ciência dá a co-
to, o verdadeiro cientista deve nhecer as coisas como são, resolve todos os reais pro-
blemas da humanidade e é suficiente para satisfazer to-
ter a humildade de aceitar que das as necessidades legítimas da inteligência humana.
a natureza é caótica, confusa e 2. Atitude segundo a qual os métodos científicos de-
vem ser estendidos sem exceção a todos os domínios
imprevisível. da vida humana. Científico: Que tem o rigor da ciência.

222 RELEITURA | ano 2 número 4


PREVISÃO DE
IMPACTOS AMBIENTAIS

cessariamente, um diálogo antipodal. subsequente a essa aceitação. As cren-


Confunde-se o científico com o cien- ças religiosas impõem a aceitação de
tificista e, sobretudo, oferece-se como fatos que não exigem comprovação
alternativa a crença e a convicção. histórica e de enunciados que não po-
dem ser demonstrados. A humanida-
O conflito, nesse caso, é portador de de não conseguiu êxito, até os dias de
uma oportunidade de diálogo – em hoje, em suas tentativas de demons-
geral, desperdiçada pelas partes con- trar a existência de Deus. Contudo,
flitantes – entre interlocutores que, também não há maneira de negá-la, a
efetivamente comprometidos com a não ser por meio de crenças.
busca da verdade, trariam ao debate
um bem dosado mix de ciência e po- É fácil acreditar que a Humanidade
lítica. Contudo, de forma espontânea necessita de arte e ciência para so-
ou não, tais conflitos vêm se transfor- breviver. Ambas são formas de co-
mando em uma questão de fé. nhecimento sistematizável. Embora
existam muitos critérios subjetivos
Uma das formas mais eficazes de se na arte, a sistematização do conheci-
buscar um conhecimento objetivo é mento artístico é perfeitamente pos-
aquela em que o observador mantém sível, ainda que sua calcadura seja
suas opiniões pessoais e suas convic- baseada em critérios estéticos pes-
ções originais restritas a uma linha de soais. Descobrem-se estilos, formas e
base a partir da qual empreende uma
simbolismos. Identificam-se escolas
jornada cognitiva de que contempla
e períodos. O conhecimento da arte
formas de rejeição, de contestação, de
está reservado àqueles que reconhe-
adesão e de disseminação de ideias.
cem os seus autores das obras e os
Esse processo implica a necessidade
associam aos contextos históricos em
constante de formular perguntas e
que as produziram. A subjetividade
buscar respostas, levando o obser-
presente – ainda que dominante – não
vador, inclusive, a renunciar às suas
impede a sistematização do conheci-
próprias opiniões, se forem invalida-
mento, a validação de informações e
das pelas respostas obtidas.
o processo de revisão por pares. Des-
Por outro lado, não é exatamente isso se modo, não se trata de crença.
que ocorre quando se decide tentar
explicar o universo que nos cerca atri- Na ciência, a distância para a crença é
buindo-lhe valores com alto grau de ainda maior. A sistematização do co-
subjetividade – virtudes, qualidades, nhecimento científico visa a produzir
defeitos e sentimentos, por exemplo. uma descrição verdadeira da nature-
Em lugar da razão, da observação, da za, rejeitando a subjetividade.
análise e da reprodutibilidade do ex-
perimento, dá-se às coisas um signifi- Em artigo publicado no jornal Folha
cado intrínseco. Isso é crença. de São Paulo, Marcelo Gleiser3 per-

As crenças exigem a aceitação imedia- 3


Sobre a Verdade: Além de toda a subjetividade huma-
na, o que é real ou não? Artigo de Marcelo Gleiser, pu-
ta de seus valores e um compromisso blicado no jornal Folha de São Paulo, em 15 de abril de

RELEITURA | jul./dez. 2011 223


PREVISÃO DE
IMPACTOS AMBIENTAIS

gunta como é possível distinguir o mitação que enobrece a ciência,


que é real ou não, além da subjetivi- dando-lhe sua dimensão humana.
dade humana. E ele mesmo respon-
de o questionamento, do seguinte
modo:
Texto Complementar no2

Esse é o problema, separar fato de O CORAÇÃO TURBULENTO DA


opinião, o que é real de verdade do TERRA
que é apenas fruto de uma visão
pessoal ou de crenças de um gru- Ulisses Capozzoli4
po de pessoas. Scientific American Brasil, Ano 9
no 108, p. 32, maio, 2011
(...)
SE AGORA UMA DONA DE
O que era verdade para alguém de CASA é capaz de entender e
1520 não era para alguém de 1650. explicar o mecanismo básico
E o universo em que vivemos hoje, de um tremor da terra, desafio
gigantesco, com centenas de bi- que a ciência consumiu séculos
lhões de galáxias se afastando uma para vencer, nem tudo parece
das outras, é completamente dife- motivo para comemorações.
Em lugar de permitir algum en-
rente do de uma pessoa de 1650. tendimento sobre os comple-
Qual dessas várias cosmologias é xos mecanismos que regulam o
verdadeira? Todas e nenhuma de- corpo da Terra, uma interpreta-
las. Se definirmos como verdade ção mais próxima do misticis-
o que construímos com o conhe- mo – características do estágio
cimento científico que detemos pré-científico – transparece na
mídia e aparentemente se dis-
num determinado momento, to- semina em comentários inter-
das essas versões são verdadeiras. pessoais.
Mas nenhuma delas é a verdade.
O mundo parece próximo da
Dado que jamais poderemos me- destruição final.
dir com absoluta precisão todas as
facetas do cosmo e da Natureza, é Filmes de oportunismo indis-
farçado, caso de 2012, supos-
essencialmente impossível obter tamente baseado num calen-
uma versão absoluta do que seja dário maia, e explorações de
a realidade física. Consequente- fundo religioso/catastrofista
mente, a ciência jamais poderá dão suas contribuições ao que
encontrar a verdade. O que po- pode ser um retrocesso concei-
demos fazer – e o fazemos mara- tual. Isso em aparente contra-
dição com uma época em que
vilhosamente bem – é usar nossa computadores se equiparam a
razão e nossos instrumentos para eletrodomésticos e a comuni-
nos aproximar cada vez mais des- cação global tem como limite a
sa verdade intangível. É essa li- capacidade de processamento
e a velocidade da luz.
2007. Gleiser é professor de física teórica no Dartmouth
College, em Hanover (EUA) e autor de livros como livro 4
Ulisses Capozzoli é mestre e doutor em ciências pela
A Harmonia do Mundo e Criação Imperfeita. USP e editor da revista Scientific American Brasil.

224 RELEITURA | ano 2 número 4


PREVISÃO DE
IMPACTOS AMBIENTAIS

Observadores mais otimistas vez disso, uma teoria deve ser consi-
podem considerar que a última derada como uma conjectura inicial,
vez que uma onda de catástro- ainda não corroborada. Em seguida,
fe natural