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XIV CONGRESSO BRASILEIRO DE SOCIOLOGIA

28 a 31 de julho de 2009, Rio de Janeiro (RJ)


GT 31 – VIOLÊNCIA E SOCIEDADE

Encarceramento feminino: rebeliões e confinamento coletivo

Leni B. C. Collares

Universidade Federal do Rio Grande (FURG)


2

1. Introdução

As referências encontradas acerca de rebeliões em penitenciárias


femininas são pontuais. No Relatório da Human Rights Watch1 em 1997
encontra-se o seguinte registro: “Rebeliões e protestos são relativamente
pouco freqüentes em prisões femininas”, afirmação importante por representar
certo consenso sobre esses episódios nos estabelecimentos penais que
abrigam mulheres.
As dificuldades para rebeliões serem estudadas nos presídios brasileiros
são muitas. Fernando Salla (2006, p. 24 – 26), um dos raros pesquisadores a
tratar desse tema, define como limitações principais a existência de poucos
registros oficiais sobre essas ocorrências, o modo superficial como os eventos
são apresentados pela imprensa e a pouca atenção dada pela Academia ao
estudo do fenômeno. Esse conjunto de fatores limitantes é permeado, ainda,
pela ausência da divulgação dos critérios utilizados pelo Estado para qualificar
os eventos como rebeliões. Em virtude dessas considerações, Salla (2006, p.
26) adverte que, se por um lado é preciso acautelar-se quanto ao número de
ocorrências apontadas como rebeliões, por outro, deve-se ter em mente que a
avaliação qualitativa dos registros representa um dos mais significativos
problemas a incidir sobre as dinâmicas carcerárias.
A ênfase conferida aos processos de adaptação das mulheres ao
encarceramento pode ser apontada como uma das razões pela qual a
Academia tem negligenciado o tema das rebeliões em prisões femininas.
Geralmente, a rebeldia manifestada pelas presas tem sido vista como uma das
formas de ajustamento às privações no cárcere ou, quando muito, apreendida
como infração disciplinar.
Com base em fontes documentais (periódicos, artigos, Relatórios)
identificou-se a ocorrência de 18 rebeliões na Penitenciária Feminina Madre
Pelletier (RS) entre 1990 – 20082. O levantamento foi complementado por meio
de entrevista com uma ex-detenta.

1
O Brasil atrás das grades. www.hrw.org/portuguese/reports/presos/detentas2.htm.
2
Os dados obtidos na pesquisa exploratória subsidiaram meu projeto de tese de doutorado apresentado ao
PPGS/UFRGS.
3

Neste texto, buscou-se classificar e descrever os eventos, ao longo do


período mencionado, segundo alterações nas redes internas de poder e contra-
poder.

2. Rebeliões na Penitenciária Feminina Madre Pelletier (1990 – 2008)

A diferença estabelecida entre “motins”, “distúrbios” e “incidentes” feita


por Roger Matthews (2003, p.106) permite-nos estabelecer uma aproximação
inicial com o tema das rebeliões em presídios femininos. Matthews entende
que motins e distúrbios são ações coletivas, mas, enquanto os motins
(rebeliões) objetivam “o mando sobre certas áreas do cárcere através do uso
da ameaça ou da força”, os distúrbios representam ações de protesto acerca
de determinados aspectos do encarceramento como, por exemplo, negar o
trabalho ou deixar de comer alimentos. Já os incidentes envolvem hostilidades,
por vezes, manifestações de violência entre indivíduos, situando-se, pois, nas
relações interpessoais. Para Matthews, não existe relação direta entre os
incidentes e os motins e os distúrbios na medida em que os dois últimos estão
ligados à busca por direitos e apresentam cores políticas. As ações dos
amotinados ocorrem tendo em vista a atenção da sociedade para aspectos do
encarceramento ou visam diretamente aos custodiadores para que
interrompam práticas arbitrárias.
Com base nessas definições, o levantamento feito por meio de jornais, a
partir de 1990, permitiu que fossem identificadas 18 rebeliões e três incidentes
graves na Penitenciária Feminina Madre Pelletier (RS), não tendo sido
encontrados registros de distúrbios. Para uma melhor visualização das
rebeliões, foi elaborado o seguinte quadro.
4

Quadro 1. Rebeliões na Penitenciária Feminina Madre Pelletier (RS) (1992 – 2008)


Razões Período Ocorrências

Superlotação, precariedade de espaço, insegurança para filhos


das reclusas, presença de mulheres com AIDS junto às mulheres 1992 4
3
e seus filhos .
1996 2
4
Presas não queriam revista geral no presídio
1996 e 1997 2
5
Presas queriam que as celas ficassem abertas à noite
2000 2
Por revisão das penas, medicamentos para soropositivas,
isolamento para vítimas de tuberculose, aumento da oferta de
6
consultas médicas, contratação de psiquiatra .
2001 1
7
Para que a diretora da penitenciária fosse afastada .
2003 1
Porque houve a transferência de uma presa para a Penitenciária
8
Modulada de Charqueadas .
2004 2
Porque faltou água. Queriam a remoção de uma agente que
9
cometia arbitrariedades ;
2006 1
10
Proibição das visitas de familiares para as presas .

Proibição de visitas para as presas e do recebimento das sacolas 2008 3


de mantimentos; paralisação das Audiências; apreensão de
11
drogas no horário de visitas .

Fonte: Zero Hora

Importante registrar que muitos dos eventos foram tratados pela imprensa
de forma comedida, em pequenos espaços da seção policial, sendo a maioria
caracterizados como “princípio de rebelião”.

3. Aprendendo com as rebeliões

As rebeliões de 1992 ocorridas na Penitenciária Feminina Madre Pelletier


apresentam diferentes peculiaridades. A primeira, pelo sentido de
“contaminação” (GOFFMAN, 1990) que atingiu as presas. Ao todo, 96
mulheres e 13 crianças estavam obrigadas à reclusão em um espaço de 270

3
Zero Hora, 24 de fevereiro de 1992; 2 de março de 1992; 5 de março de 1992.
4
Zero Hora, 28 de março de 1996; 9 de novembro de 1996.
5
Zero Hora, 5 de dezembro de 1996; 6 de janeiro de 1997.
6
Zero Hora, 15 de janeiro de 2000; 17 de janeiro de 2000.
7
Zero Hora, julho de 2001.
8
Zero Hora, 24 de julho de 2003.
9
Zero Hora, 19 de janeiro de 2004; 27 de abril de 2004.
10
Zero Hora, 26 de novembro de 2006.
11
Zero Hora, 17 de julho de 2008; 3 de agosto de 2008.
5

m² no Instituto Psiquiátrico Forense (IPF). Esse local, considerado um Anexo


da Penitenciária, foi criado em 1990, após um incêndio de grandes proporções
provocado por duas presas que se envolveram em um incidente com a
administração prisional 12.
A superlotação, a falta de trabalho, a presença de mulheres com AIDs,
além de gerarem tensão entre as presas, amplificaram o sentimento de
“contágio” pelo convívio forçado em grande grupo, especialmente para aquelas
que tinham seus filhos pequenos vivendo nessas condições13.
A segunda peculiaridade deve-se à forma autoritária e simplista como foi
tratado inicialmente o movimento pelas autoridades. Ao considerar a primeira
rebelião como movimento de um grupo específico, a administração transferiu
21 detentas, consideradas líderes, para presídios do interior e, ao mesmo
tempo, proibiu visitas de familiares para aquelas que permaneceram no prédio
do IPF. Essa medida deflagrou outra rebelião, de gravidade ainda maior, com
duração de 30 horas (mesmo com a presença da polícia de choque),
mostrando se tratar de uma ação conjunta e evidenciando não estarem as
presas dispostas a recuar em seus objetivos.
As manifestações incisivas das presas conduziram à relativa eficácia do
movimento. Além disso, foi um aprendizado para elas, as quais perceberam
que suas ações inferiam sobre a estrutura de poder da penitenciária, dando
visibilidade também às mazelas de seu encarceramento. Apesar das fortes
punições recaídas sobre todas _ aquelas que não foram transferidas, por
exemplo, passaram a noite sobre os entulhos do quebra-quebra e dos
incêndios _, as presas obtiveram a demissão do diretor e a promessa da nova
administração de reforma imediata no prédio central da penitenciária14. Mais
importante, no entanto, foi a redução do número de mulheres e crianças que
continuaram no IPF e, ainda, os convênios firmados entre a Secretaria da
Justiça, Trabalho e Cidadania com empresas privadas, permitindo o acesso a

12
O incêndio foi promovido por duas presas que viviam maritalmente e haviam sido separadas pela
direção da penitenciária. Zero Hora (5 de março de 1992) informa que, além do 2º andar ter sido
profundamente danificado , a Escola de Serviços Penitenciários, situada no 1º andar também foi atingida.
13
Zero Hora, em sua edição de 5 de março de 1992, informa a ocorrência de três rebeliões em um período
de seis meses. Em 6 de março de 1992 (ZH), outra rebelião explode e resulta na transferência de mais 10
líderes para outros presídios.
14
Apesar da promessa, de fato as presas recolhidas “provisoriamente” no IPF só retornam ao prédio
central do Madre Pelletier em dezembro de 1995, quando a reforma foi concluída.
6

curso de telemarketing para algumas, e distribuição de trabalho para as


demais.
As ocorrências situadas entre março de 1996 e janeiro de 1997 denotam
maior complexidade. Representam disputas por grupos de presas em torno dos
espaços do cárcere relacionadas ao tráfico de entorpecentes e se conjugam a
existência de fugas15 e tentativas de suicídio16. Estão ainda sobrepostas ao
objetivo de ruptura com práticas abusivas de agentes penitenciários (violência
sexual, celas de isolamento precárias, desvios de verbas da creche e da
alimentação das presas). Embora a imprensa tenha divulgado razões sucintas
relacionadas às revistas nas celas e à permanência de celas abertas à noite,
foi possível visualizarem-se diversos motivos que ensejaram os eventos desse
período por meio do Relatório feito pela Comissão de Direitos Humanos
(CCDH) da Assembléia Legislativa do Estado.
No documento, há registros de que a Penitenciária mantinha uma cela de
isolamento chamada “DOPs”17 para onde eram levadas as detentas que
sofriam castigo, lá permanecendo sem colchão, água ou alimentos. Com base
na denúncia de duas presas _ a primeira, a qual afirmou ter sido colocada
seminua nesse local e ameaçada de morte, e a segunda, que, mesmo estando
no regime semi-aberto, foi vítima de punição por ter ameaçado denunciar as
irregularidades cometidas _, o Juiz da Vara de Execuções Criminais
compareceu à penitenciária e constatou:

Essas celas não possuem água, cama e muito menos higiene. A


única janela é uma abertura no alto de uma das paredes
(provavelmente a janela referida por uma das apenadas em
audiência, onde, no inverno, teria sido colocada uma mangueira
para molhá-la quando pediu água). (Assembléia Legislativa do
Estado, Relatório Azul, 1996).

No esforço por construir uma teoria que explique as rebeliões ocorridas em


presídios brasileiros nos últimos anos, Fernando Salla (2006, p. 282 – 283) cita
o estudo de Useem e Kimball, realizado nos EUA, no qual mostram as
rebeliões como fenômenos de dimensões variáveis, impulsionadas também por

15
Quatro presas conseguiram fugir nesse período. Zero Hora, 4 de janeiro de 1996.
16
Na rebelião de 8 de novembro de 1996, seis mulheres cortaram os pulsos.
17
Uma clara alusão ao departamento de Operações Políticas e Sociais na época da ditadura, responsável
por torturas e desaparecimentos de presos políticos.
7

uma diversificada gama de fatores. Os autores sustentam que rebeliões não


podem ser justificadas somente pela disposição dos presos em agir, mas
igualmente devem ser consideradas as características institucionais em termos
da atuação dos custodiadores e das práticas internas promovidas em torno da
segurança (SALLA, 2006, p. 283).
Por um lado, o período 1996 – 1997 apresenta continuidades, na
Penitenciária Madre Pelletier, de práticas abusivas e autoritárias simbolizadas
nas celas de castigo (“DOPs”). De outro, há também a implantação do sistema
de fechamento das galerias, impedindo a circulação das presas. Até essa data,
somente uma das galerias da penitenciária era fechada, a do “seguro”, onde
ficavam as ameaçadas: as infanticidas, e ainda, aquelas que haviam se
envolvido em brigas sérias ou delatado outras para a administração prisional.
Com a mudança de orientação na política de segurança do presídio, o “regime
da ‘tranca’” (RAMALHO, 1979, p.42) passou a ser aplicado nas demais
galerias. A direção da penitenciária decidiu pelo fechamento destas durante o
dia e das celas da galeria E à noite, o que igualmente impulsionou as rebeliões.

Galeria E eram as novatas que chegavam, as primárias como eles


dizem. É uma galeria que elas entram e saem, ela é meio
esquecida. São as que vivem na rua, descuidistas. Galeria D tem
as que estão lá há muito tempo, com penas longas. Elas têm anos
de cadeia. (Ex-detenta).

Importante observar que os motins desse período tiveram início na galeria


E, alastrando-se rapidamente por toda a penitenciária. Além disso, nessa
galeria, registrou-se um incidente envolvendo duas detentas em uma briga, em
virtude da delação feita por uma delas sobre o tráfico de drogas que vinha
acontecendo no interior da penitenciária. Outro aspecto diz respeito ao número
elevado de presas da galeria E as quais reclamavam dos roubos ocorridos
durante a noite em suas celas, geralmente executados por aquelas que tinham
por objetivo garantir o pagamento pelo uso de drogas.
8

4. O contexto atual do encarceramento feminino

A questão das drogas, que doravante aparece em outras rebeliões


desencadeadas nessa penitenciária, deve ser avaliada segundo o contexto da
mudança no perfil delitivo feminino e da expansão do poder punitivo do Estado.
Ao final da década de 70, na Penitenciária Madre Pelletier, 20,1 % das
mulheres estava presa por delitos de drogas (VOEGELI, 2006, p. 81), sofrendo
esse quadro uma forte alteração ao longo da década de 90. Em 2006, as
mulheres presas por tal delito já representavam 66% da população carcerária
na mencionada instituição (WOLF, 2007, p. 59).
Julita Lemgruber (2001, p. 371 – 379) mostra-nos que, se de um lado
temos maior participação da mulher nas diferentes esferas da vida social,
inclusive naquelas consideradas delituosas, de outro, temos um sistema de
justiça criminal que se torna mais enérgico com as mulheres (e com os
delinquentes em geral) refletindo sobre as estatísticas.
O caráter de uma verdadeira “guerra às drogas” em curso imbrica-se
mundialmente à desregulamentação da economia, à precarização do trabalho e
ao aumento da desigualdade social (WACQUANT, 2001), tendo por função
apartar todos os indivíduos indesejáveis do ponto de vista da ordem social
(CHRISTIE, 1998, p. 62).
No Brasil, a tendência expansionista do poder de punir corre a par com o
proibicionismo dirigido às drogas qualificadas como ilícitas e se expressa em
ações belicistas contra aqueles que se envolvem com a produção, distribuição
e consumo de substâncias proibidas. O sistema penal, como instância de
controle social incorpora, cada vez mais, estratégias e práticas de
enfrentamento às condutas criminalizadas e legislações autoritárias orientadas
aos que se ajustam ao perfil do “criminoso” (KARAM, 2006, p. 22-3). Não por
outra razão, o Brasil, no rastro do endurecimento penal verificado em outros
países18, tem implementado o Regime Disciplinar Diferenciado (RDD)19, as

18
Também é fundamental considerar que o endurecimento da legislação responde às políticas articuladas
pela ONU em âmbito internacional. Em 1997, foi criado o Escritório das Nações Unidas Contra Drogas e
Crime (UNODC) com a fusão do Centro das Nações Unidas para a Prevenção Internacional do Crime e o
Programa Internacional de Controle de drogas das Nações Unidas. O Escritório coordena as políticas de
controle de drogas, prevenção ao crime e terrorismo internacional em todas as suas formas, considerando
a implementação de tratados internacionais e as ações multilaterais, bem como, de produção de normas,
padrões, ferramentas e práticas contra esses delitos. Na sustentação de seus propósitos, lê-se na p. 2 do
9

Prisões de Segurança Máxima20, a Lei dos Crimes Hediondos, qualificando o


tráfico no mesmo patamar do terrorismo e estendendo as penas de prisão para
os envolvidos em delitos desta natureza21.
Para Salo de Carvalho (2006, p. 60), os estatutos referentes às drogas não
representam “meros eufemismos” porque expressam uma prática repressiva e,
simultaneamente, induzem à interpretação e à aplicação das leis conforme
esses parâmetros. Permitem amplificar a pena no âmbito da execução penal,
valendo-se da redução do direito de defesa ao preso provisório, do regime
diferenciado aplicado aos condenados quando identificados como membros de
facções dentro dos presídios, manifestando o respaldo das autoridades com o
cometimento de arbitrariedades no interior das prisões.

5. Um novo estágio na organização das rebeliões

Entre os anos 2000 e 2004, uma série de rebeliões tomou conta da


Penitenciária Feminina Madre Pelletier. Esse certamente é o período em que
as ocorrências apresentaram objetivos mais claros em torno de aspectos
delimitados coletivamente pelas presas.

Documento intitulado Marco Estratégico do UNODC 2006-2009, que as drogas, o crime e o terrorismo
corroem a paz, o desenvolvimento e a segurança e seu combate constituem “pré-requisito para a
estabilidade econômica e a democracia”.
19
Na análise da legislação brasileira acerca do tráfico de drogas, Salo de Carvalho (idem, p.59-60)
acrescenta que a Lei 10.792/03 a qual altera a Lei de Execuções Penais, ao delimitar o ingresso do preso
no Regime Disciplinar Diferenciado “quando apresentar alto risco para a ordem e a segurança do
estabelecimento ou da sociedade (art.52, § 1º, LEP) ou quando recaiam fundadas suspeitas de
envolvimento ou participação, a qualquer título, em organizações criminosas, quadrilha ou bando (art.52,
§ 2º, LEP), manifesta o assetimento dos Poderes Públicos com práticas arbitrárias, regularmente toleradas
nas penitenciárias nacionais”.
20
Criada pela Lei Nº 10.792 de 1º de dezembro de 2003, alterando a Lei 10.792 (LEP) e destinada
especialmente para abrigar presos em RDD. Em 8 de maio de 2008, uma nova lei, a de Nº 11.671, passou
a dispor “sobre a transferência e inclusão de presos em estabelecimentos penais federais de segurança
máxima”. Segundo o Art. 3º, serão recolhidos nesses estabelecimentos “aqueles cuja medida se justifique
no interesse da segurança pública ou do próprio preso, condenado ou provisório”.
21
Salo de Carvalho (2006, p.40-41) afirma que a Lei 8.072/90, ao equiparar o tráfico aos crimes
hediondos, está para além dos comandos estabelecidos na Constituição, já que inviabiliza “Aos
condenados por crimes nela previstos (art.1°) o direito de liberdade provisória (art.2°, II), o indulto
(art.2°,II) e a progressão de regime (art.2°, § 2°), ampliando, ainda, os prazos da prisão temporária
(art.2º,§3º) e os de livramento condicional (art.5°)”. O efeito visível desse novo tratamento penal da
questão das drogas é a potencialização do encarceramento aos delitos relacionados com o tráfico de
entorpecentes.
10

Em 15 de janeiro de 2000, é iniciado um movimento denominado pelas


presas como o dos “cinco pontos”, cuja pauta se constituía por: revisão das
penas, medicamentos para soropositivas, isolamento para vítimas de
tuberculose, aumento da oferta de consultas médicas, acesso a consultas com
psiquiatra.
Os protestos iniciados na galeria D, nos dois motins, provocaram incêndios
e quebra-quebras com sérios danos ao prédio e, novamente, foram estendidos
a toda a penitenciária. As presas solicitavam a visita dos representantes da
Comissão de Direitos Humanos. Desta vez, quem compareceu ao local foi a
presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, que constatou:

(...) as denúncias feitas pelas detentas são procedentes. Disse


que o médico responsável admitiu a precariedade no atendimento.
“A casa não conta com um psiquiatra, é excessivo o número de
mulheres que está ingerindo calmantes e faltam medicamentos. –
disse Télia que está preparando um relatório sobre a situação do
Madre Pelletier para ser entregue para a Superintendência dos
Serviços Penitenciários (SUSEPE) e à Secretaria Estadual de
Saúde. (Zero Hora, 15 de janeiro de 2000)

Ao todo 11 mulheres foram enviadas para cumprir castigo na Penitenciária


Modulada e de Alta Segurança de Charqueadas22. As demais presas da galeria
D tiveram as visitas cortadas.
Em julho de 2001, uma nova rebelião ocorreu para exigir o afastamento da
diretora da penitenciária, acusada de beneficiar algumas presas em detrimento
de outras. O tratamento especial incluía celas mais higiênicas, averbação de
dias a mais de trabalho para efeito de remição da pena, e ainda:

Essa aí [nome da diretora] era um terror. Ela pegava os telefones


das criaturas e umas ela beneficiava, dava emprego, outras
imploravam, pediam, pediam serviço, ela não dava, sabe!?
E...uma série de coisas assim. Quando ela implicava era uma
coisa muito triste. Aí, ela não dava a parte. A XXXXX era uma que
sofreu muito na mão dela. Bah! Aí todo mundo pediu a cabeça
dela. Aí, ela foi exonerada. Teve, teve um motim. Um princípio de
incêndio. Aí, mandaram as gurias pra Charqueada. Umas 6, 7,
foram tudo pra Charqueada. E as que não foram pra lá, foram pro
castigo. Aí, onde começou toda essa rebelião, também por causa
disto. Lá na triagem [sala do castigo] não é lugar pra ninguém.

22
Segundo Zero Hora (17 de janeiro de 2000), a direção da SUSEPE informou que as presas cumpririam
castigo “em celas isoladas e especiais” e passariam por avaliação disciplinar com durabilidade de 10 a 15
dias.
11

Entra ali já tem que sair. Claro, no meio dia elas ganhavam
almoço. Mas não tem banho, não tem nada. Tem um vaso, que
nem é um vaso, é um buraco no chão e tem que dormir perto dele.
(Ex-detenta).

Como resultado, a diretora foi afastada sofrendo inclusive um processo


administrativo que, por pouco, não chegou à exoneração da função pública.
Em 24 de julho de 2003, um incidente envolvendo uma presa que
espancou severamente uma agente penitenciária foi estopim para outra
rebelião. Tendo a presa sido castigada com a transferência para o presídio de
Charqueadas, as demais se revoltaram. O motim, iniciado na Galeria B1,
transcorreu por toda a tarde com quebra de portas, janelas e grades e com
uso, pelas presas, de cacos de vidro com os quais ameaçavam se ferir e ferir
os agentes da segurança.

A XXXXX é uma que elas implicavam muito...porque ela traficava


lá dentro. Aquela coisa toda... E tinha telefone, eles achavam que
ela botava telefone pra dentro. Mas não era ela que botava, nem é
a família que bota telefone pra dentro, de maneira alguma. Foi um
período que eles [os agentes] andaram batendo muito. Pisaram.
Pisou umas 5 ou 6. Quando elas [as agentes] resolvem entrar é
fogo, né? Aí, eles chamaram o choque, o choque entra pra
acalmar. (Ex-detenta).

O grau de insurgência mostrado pelas mulheres levou a Superintendência


dos Serviços Penitenciários (SUSEPE) e o Departamento de Execuções
Criminais a comparecerem à penitenciária e se comprometer com o fim dos
maus-tratos. Por a promessa não ter se cumprido, uma nova rebelião explodiu
em 27 de abril de 2004. Dessa vez, as presas exigiam a remoção de uma das
agentes responsável pelo maior número de arbitrariedades:

Nessa época, a diretora lá era a Dona XXXXX. Depois ela saiu.


Era a Dona XXXXX, a Dona XXXXX e a Dona XXXXX, as três
tinhosas. Na época foram mandadas umas 15 [presas] para o
interior. Foi também a XXXXX, filha de XXXXX [detenta também
na Penitenciária], foi mandada para o interior. A pior era a chefe
da segurança. As duas ...Dona XXXXX dá nas mulheres mesmo!
Tinha uma outra...pequeninha...não me lembro o nome dela. As
gurias deram uma surra nesta mulher, mas um laço...e foi quando
teve o motim [o anterior]. Ela judiava das gurias, ela era horrível.
Aí, um dia, elas [as presas] não estavam de “muita veia”, pegaram
12

ela [a agente] e deram, mas deram... Aí, ela foi transferida. Depois
voltou. (Ex-detenta).

No caso das mulheres, a transferência para o interior representa um


castigo severo pela impossibilidade de receber visitas e estabelecer contato
com os filhos (quando se trata de mães), pois a maioria é proveniente de
famílias pobres, sem recursos financeiros para se deslocar a outros municípios.
Como as mulheres que estão presas sofrem maior abandono por parte das
famílias (especialmente dos maridos ou companheiros) (LEMGRUBER, 1999),
o cumprimento do castigo em locais mais afastados potencializa essa
possibilidade. Ainda é fator adicional de punição o fato de não receberem as
“sacolas” com alimentos (complementares à dieta), roupas e produtos de
higiene. Acresça-se a isso grande parte dos custos do encarceramento ser
coberto pelos familiares das presas.
No entanto, forma mais severa de punição tem sido o envio de lideranças
das rebeliões para o cumprimento da pena no Regime Especial Diferenciado
(RDD), possibilidade aberta pela Lei 10. 792 de 2003 ao dispor que os presos
podem ficar em confinamento solitário por até 360 dias, tendo apenas duas
horas de sol por dia e com restrições severas às visitas. Essa punição,
segundo Salla (2006, p. 298), simboliza o aspecto cada vez mais repressivo da
legislação e tem sido usada como principal mecanismo de contenção das
lideranças, no entanto, revela-se, simultaneamente, uma fonte de prestígio e
status a alguns presos frente à massa carcerária.
As rebeliões desse período23 evidenciam a presença de lideranças
reconhecidas pelas presas, com ascendência não só em suas galerias, mas
também sobre as demais; de redes de compromissos e da capacidade em
agenciar o descontentamento do conjunto em uma pauta reivindicatória (os
“cinco pontos”), bem como em estimular revoltas pontuais gerando ações
coordenadas.

É, tem aquela que se destaca melhor, né? Mas eles [agentes] não
deixam formar facção. Não deixam não. (...) Tem uma
que...sempre tem uma que se destaca mais, né? Por exemplo, no

23
Em 2004 também ocorreram protestos devido à falta de água no estabelecimento. Os protestos foram
feitos por meio da “bateção” de panelas e nas grades da penitenciária. (Zero Hora, 19 de janeiro de 2004).
13

D era XXXXX, era ela a rainha do tráfico, ela que mandava. Ela
que dizia se a mulher podia ficar se não podia ficar [na galeria],
aquela coisa toda. Era ela. (Ex-detenta).

Os dados da pesquisa, até o momento, apontam para a não-existência de


facções dentro da penitenciária feminina, mas sugerem que, entre 2000 e
2004, algo como a gestação dessa forma organizativa se insinuava em meio às
presas.
Edmundo Campos Coelho (2005, p. 33 – 36) mostra que a violência tem
relação com a falta de respeito aos direitos dos presos e com a frequência com
a qual as arbitrariedades são promovidas pelos guardas. Igualmente, as
respostas dos presos podem ser lidas dentro desse contexto como parte da
rotina e do mecanismo de catarse que alivia a tensão própria à vida no cárcere.
Assim, a violência nas prisões, especialmente quando se trata daquela entre
presos, não se deriva diretamente da superlotação e da escassez de recursos,
mas advém das regras construídas internamente pelos mesmos. A explicação
encontrada está na constituição de redes forjadas em termos de favores,
dependências e proteção, às quais se acrescem o pequeno efetivo da guarda e
a arquitetura das prisões que acumulam deficiências, conduzindo a
administração à impotência para coibir abusos em meio aos presos.
Esse conjunto de condições levou a que, depois do surgimento dos grupos
organizados no ambiente prisional, as administrações, por comodidade,
deixassem para os próprios detentos encontrar modos para solução dos
conflitos internos (COELHO, 2005, p. 130).
O cotidiano processado nas galerias fechadas do Madre Pelletier, com
distanciamento da guarda, implica mudanças nas dinâmicas interativas na
medida em que se redefinem papéis sociais, conflitos passam a ser mediados
pelas próprias detentas por meio de códigos e controles informais com sansões
àqueles que se afastam das regras estabelecidas para o grupo.
As sentenças mais severas atribuídas às mulheres envolvidas nos
chamados “crimes hediondos” geram a experiência prolongada de privações
básicas (materiais, afetivas e de segurança). Promovem, além disso, maior
experiência quanto às características em grupo e individuais da atuação dos
custodiadores, das suas reações, bem como quanto à capacidade em lidar
proveitosamente com a corrupção dos funcionários.
14

Em termos da atuação das lideranças, também deve ser considerado o


perfil delitivo _ o fato de serem mulheres condenadas por envolvimento em
redes do tráfico de drogas, cujo acesso a essa mercadoria (moeda forte na
prisão), compensa para algumas presas os riscos. Tal acessibilidade provê
ganhos duplamente: financeiros, que permitem sustentar-se na prisão e
sustentar suas famílias e, de poder sobre as demais presas, com a colonização
de alguns espaços prisionais.
Para Salla (2001, p. 27), grande parte das revoltas nas prisões brasileiras
resulta da omissão estatal em prover “as condições básicas do
encarceramento”, incitando os presos à denúncia das condições em que vivem
por meio de rebeliões. A essa realidade, nos últimos anos, verificam-se,
ademais, novos “detonadores imediatos”24 ou razões vinculadas a conjunturas
específicas, cuja motivação é dada pela disposição em resolver algum
problema pontual.
As rebeliões desse período no Madre Pelletier apontam para a conjugação
entre essas duas características: a necessidade de solução aos problemas de
funcionamento estrutural da penitenciária (más condições de atendimento
médico, jurídico, entre outros), ao desejo de conter os maus-tratos, ao
sentimento de injustiça pelo tratamento diferenciado e à solidariedade a uma
presa castigada durante os motins.
Por outro, esses “detonadores imediatos” foram articulados em uma pauta
reivindicatória que logrou a mobilização das presas por um tempo considerável,
demonstrando maior capacidade organizativa para o enfrentamento das
questões, e ainda, na forma de denunciar as condições do encarceramento.
Em virtude disso, as presas conseguiram a atenção não só de organizações da
sociedade civil, mas, principalmente, do Estado, mediante presença do juiz da
Vara de Execuções Criminais e da própria SUSEPE, que voltaram a se
envolver diretamente na mediação dos conflitos.

24
Fernando Salla cita como exemplo as brigas entre detentos, arbitrariedades do pessoal, omissão de
assistência médica e tentativas de fuga.
15

6. Crise na segurança pública e rebeliões

Em novembro de 2006, uma greve dos agentes penitenciários por


regulamentação da aposentadoria atingiu 80% do efetivo funcional. Com
poucos agentes trabalhando, somente o necessário para permitir o andamento
da rotina básica dos presídios, os grevistas decidiram pelo impedimento da
entrada dos familiares das presas, o que implicava igualmente proibição do
recebimento das “sacolas” de mantimentos. Revoltadas, as presas
desencadearam uma rebelião incendiando colchões, o que resultou em quatro
mulheres feridas.
O descontentamento dos agentes penitenciários, devido às condições de
trabalho e à falta de reconhecimento de direitos trabalhistas por parte do
Estado, vinha de longo tempo. Em 1996, o governo estadual havia revogado a
Portaria que regulamentava as horas extras. Além disso, a falta de servidores
nos presídios gaúchos era sentida fortemente pelos agentes penitenciários,
tanto por serem sobrecarregados como pelo fato de estarem em número
inferior ao necessário para suprir as funções de contenção dos presos. Apesar
de os presídios estarem superlotados25 (à exceção do Madre Pelletier, que, em
1996, contava com um número razoável de servidores), o governo estadual
não só não nomeava os agentes concursados (139 ao todo), como também se
propunha a demitir 8% da folha de pagamento considerando o Plano de
Demissão Voluntária (PDV), fechava autarquias e privatizava órgãos públicos.
A crise da segurança pública já havia sido apontada um ano antes quando
então, para suprir a falta de servidores penitenciários, o governo do Estado
instituiu a Portaria n. 11 de 25 de julho de 1995, exigindo que a Brigada Militar
seria responsável administrativa e operacionalmente por grande parte dos
presídios. As razões expostas referiam-se às “fugas, tentativas de fugas e
desordens generalizadas nos estabelecimentos prisionais, colocando em risco
a ordem pública e a própria incoluminidade dos presos e servidores
penitenciários”. Mediante essa Portaria também foi determinado que a
SUSEPE reavaliasse o Quadro Especial de Servidores Penitenciários e fizesse

25
Em setembro de 1996, a 11ª Coordenadoria Criminal enviou relatório feito pelo Comando da Força Tarefa à
SUSEPE sobre a situação dos presídios a que atendia. O Relatório concluiu que os estabelecimentos prisionais
gaúchos possuíam 1.740 vagas e abrigavam naquele momento o total de 3.227 presos.
16

um novo plano de carreira, e ainda, que definisse o quadro de lotação por


estabelecimento penal, a escala de trabalho e as práticas institucionais para o
regime fechado, semi-aberto e aberto. Contudo, essas eram proposições as
quais, de fato, conflitavam com as políticas de “enxugamento” do governo,
servindo antes como resposta à opinião pública que clamava por mais
segurança.
Não só os problemas não foram sanados, como também se acumularam
ao longo dos anos. De um lado, permanecia o descaso no tratamento
dispensado aos funcionários da segurança pública e, de outro, avançava o
processo da escalada punitiva, com a consequente superlotação das prisões e
potencialização das mazelas do encarceramento aos presos.
Em documento intitulado “A crise da Segurança Pública”, emitido no
primeiro ano da década atual pela Assembléia Legislativa26, encontra-se o
relato de uma audiência feita com representantes dos agentes penitenciários.
Nele é citada a falta de agentes penitenciários (déficit estimado nessa data em
2000 funcionários) e o temor quanto à própria segurança expressado pelos
agentes ao exercerem suas funções. Como exemplo do descalabro, os
representantes apontam o Anexo do Albergue Feminino para detentas em
progressão de regime, que estaria funcionando no anfiteatro da Penitenciária
Feminina Madre Pelletier. As condições “subumanas” do espaço que abrigava
111 presas foram descritas como “fugindo a tudo que diz respeito ao regime
aberto e semi-aberto”. As presas, de fato, continuavam cumprindo suas penas
como se fosse em regime fechado, com uma hora apenas de sol por dia e em
completa ociosidade, muitas, inclusive, dormindo com a cabeça encostada no
vaso sanitário. Além disso, as visitas também ocorriam no interior do anfiteatro
implicando dificuldades adicionais ao trabalho dos agentes.
A denúncia caracterizava, da mesma forma, as más condições de trabalho
que os agentes vinham enfrentando. Estando lotados na matriz do Albergue o
qual funciona em outro bairro da cidade, eram obrigados a se deslocar com
seus pertences de um espaço a outro para cumprir plantões de 24 horas, não

26
http://stelafarias.pre.mw8.tehospedo.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=127&Item
id=16. Acesso em 12/10/2008.
17

havendo no Anexo lugar para descanso, banheiro ou mesmo uma pia para
higiene pessoal27.
As deficiências acumuladas no exercício das funções conduziram à greve
dos agentes penitenciários em 2008 e a situação caracterizada pela imprensa
como sendo de “descontrole nas cadeias”28. Em 12 de julho do mesmo ano, a
greve foi decretada em torno das reivindicações de reposição salarial,
armamento para todos os servidores penitenciários e aumento do efetivo29.
Os piquetes formados por funcionários nos portões da Penitenciária
Feminina Madre Pelletier (e do presídio de Charqueadas)30 impediam a entrada
de familiares das presas ou o recebimento das sacolas. Igualmente, os agentes
penitenciários negavam-se a conduzir as presas até as audiências para
andamento de seus processos. Alguns dias antes as presas já haviam feito
protestos batendo nas grades em sinal de advertência. A rebelião eclodiu em
17 de julho, tendo início na galeria E, com um quebra-quebra que colocou as
portas das celas abaixo. As presas, muito revoltadas, gritavam em conjunto
que colocariam fogo na cadeia. Paralelamente, batiam fortemente nas grades.
Em 03 de agosto, uma nova rebelião com incêndios e quebra-quebra agitou o
Madre. A intervenção da Brigada Militar controlou a situação e, juntamente com
ação repressiva, o Juiz da Vara de Execuções Criminais decretou multa de 20
mil reais por dia aos presídios que não autorizassem as visitas. O
encerramento da greve (17 de agosto) pôs fim a mais longa mobilização de
servidores da segurança no Estado31.
Em setembro, presas denunciavam que estavam ocorrendo práticas de
“enxertos”, ou seja, os agentes estavam colocando drogas propositalmente nos
pertences dos familiares. A prática de “enxertos”, geralmente associada à
obtenção de favores ou ao silenciamento quanto a arbitrariedades cometidas,
está, nesse caso, também vinculada à revanche, visto a pressão das presas e

27
O Documento inclui a denúncia de 30% no custeio da segurança pública feita pelo governo do Estado,
chamando a atenção também para a luta dos agentes concursados que há dois meses acampavam, em
protesto, na Praça da Matriz.
28
Zero Hora, 26 de julho de 2008.
29
Os agentes exigiam a compra de 1800 pistolas, sendo 40 para serem entregues em cautela aos
servidores, a compra de viaturas e coletes balísticos e a emissão de carteiras funcionais.
30
Muitos presídios do Estado continuaram controlados pela Brigada Militar e não estavam em greve. Os
presídios do Rio Grande do Sul contabilizavam neste momento algo em torno de 27 mil presos e
possuíam capacidade para abrigar 15 mil detentos.
31
A greve só terminou após o governo do Estado se comprometer com as reivindicações dos agentes
penitenciários.
18

das famílias pelo direito à visita ter dificultado a manutenção do movimento


grevista.
Somente em outubro, depois de o Juiz da Vara de Execuções Criminais
tornar pública a gravidade das condições dos presídios no Rio Grande do Sul,
o governo do Estado decretou situação de emergência no sistema
penitenciário, comprometendo-se com a construção de novos presídios e com
as reformas nos existentes.
Fernando Salla (2001, p. 21) mostra que algumas rebeliões são instigadas
pelo staff prisional e por diversas razões, entre as quais, a de contestar alguma
política imposta pelos superiores hierárquicos. As ações dos grevistas aqui
relatadas conduziram às rebeliões, mas necessitam ser avaliadas no contexto
mais amplo, como etapa na acumulação de deficiências da segurança pública,
produzida por meio das políticas regionais de contenção de gastos públicos
que se mantêm no Estado e atingem setores essenciais.
Quando comparados às presas, certamente os agentes sofrem em menor
grau a deterioração que afeta o ambiente prisional (Wolf, 2007, p.106). No
entanto, não se pode deixar de observar que as greves dos agentes
descortinam também o outro lado da face obscura de qualquer prisão no País,
representado pelo descaso do Estado com o trabalho, os salários e a
segurança desses profissionais.
Sergio Adorno e Fernando Salla (2007, p.10–11) evidenciam as tendências
opostas as quais caracterizam as políticas penais. De um lado, tem-se a
criação de leis mais rigorosas, como a que tipifica o porte e uso de celulares
pelos presos como crime32 e a que dispõe para condenados por “crimes
hediondos” o cumprimento de dois quintos da pena (se primários) e três quintos
(se reincidentes) em regime fechado, resultando no aumento cada vez mais
expressivo da população encarcerada. De outro, o sistema apresenta déficit de
vagas e igualmente carência de funcionários, pois os acréscimos nesse
contingente estão longe de acompanhar o número de presos. Com isso, a
ordem interna nas prisões é ainda mais abalada, acirrando-se os conflitos entre
os próprios presos e entre estes e os agentes penitenciários.

32
Lei Federal n. 11.466 de 28 de março de 2008.
19

8. Considerações finais

Rebeliões em presídio feminino existem e são muitas. O fato de as


rebeliões implicarem sempre atos de violência, de certa forma, ajuda-nos a
entender porque esses episódios permanecem na zona cinzenta do
encarceramento feminino tanto para os estudos acadêmicos como para os
relatórios das ONGs. Afinal, os estereótipos de passividade e submissão
associados ao feminino induzem a que não se esperem das mulheres
comportamentos violentos.
Duas parecem ser as razões condutoras das mudanças na gestão do
confinamento: a forte reação das presas às violências e arbitrariedades que
sofriam e a capacidade construída em acessar entidades da sociedade civil e
autoridades do Estado, denunciando as condições do encarceramento.
Premidos entre o controle externo de um lado, e a possibilidade (sempre
presente) de ter a própria segurança ameaçada por grupos de presas, dentro
de um quadro de indiferença do Estado quanto a sua realidade funcional, os
agentes passaram a distanciar-se cada vez mais do cotidiano das presas. O
confinamento às galerias e a não-intromissão dos funcionários em seus
assuntos internos surgiram como resposta pragmática à nova realidade
prisional.
Em decorrência, por vivenciarem situações de confinamento que implicam
o “regime de vida em comum” (EVARISTO de MORAES), as interações entre
as presas passam a serem mediadas por aquelas com maior liderança e
maiores capacidades para mobilizar recursos na prisão. As interações
alternam-se entre constantes conflitos e a solidariedade, motivada
principalmente pela experiência da deterioração das condições do
encarceramento.

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