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Luciana p·

Advo d Imenta
Grad ua da na
ga Fundação
a e coordenadora
de Ensmo ed ,
. p Eurípedes
agogica Sde cursos onl·tne
@Lulypim oares da Rocha- SP

2g edição
2015
(\1. Editor~ ISBN 978·85-02·61794-0
\.--1: Sara1va
Rua Henrique Schaumann, 270, Cerqueira César - Sõa Paula - SP
CEP 05413-909 ·
PABX: (11) 3613 3000
SAC: 0800 011 7875
De 2' a 6', das 8:30 us 19:30
www.editarasaraiva.cam.br/cantata

Direção editorial Luiz Roberto Curia


Gerência executiva Rogério Eduardo Alves Ínci;:es poro catálogo sistemático:
l. Brasil: Direi:J empresarial 34:338.93(81)
Gerência editorial Thais de Camargo Rodrigues 2. leis: Direito empresarial: Brasil 34:338.93(81)
Editaria de conteúdo Roberto Novarro
Assistência editorial Thiago Fraga

Coordenação geral Clarissa Boraschi Maria


Preparação de originais Maria lzabel Barreiros Bitencaurt Bressan e
Data de fechamento .da ediçã~: -1H0:2in4 ··,
Ana Cristina Garcia (caords.)
Maria de Lourdes Appas Dúvidas?
Proieto gráfico Jessica Siqueira Acesse WNW.editorasaraiva.com.br/direito
Arte e diagramação Aldo Mautinho de Azevedo
Revisão de provas Amélia Kassis Ward e
Ana Beatriz Fraga Moreira (coords.)
Cecília Devus Nenhuma porte desta p~Jiicoçõo poderá ser reproduzido por ql..l::quer meio
cu formo sem a prévic c:.rtorizD~õo do Editoro Saraivo.
Simone L. C. Silberschimidt Avioloçõo dos direitos :;torois é crime estabelecido no lei n. 1.610/98 e
Serviços editoriais Elaine Cristina da Silva punidopeloortigol8(coCódigoPenol.
Kelli Priscila Pinta
Rafael de Paula Valverde lm819oo2ool 1 ~
Copa Casa de ldeias/Danie/ Rampazza

Produção gráfica Marli Rampim


Impressão Ed. Layola
Acabamento Ed. Loyala
AGRADECIMENTOS

Adoro agradecimentos. É a parte mais legaL Pena que tem que


ser pequenininha.
Este vai para os meus irmãos, Renata e Fábio, e suas respectivas
famílias (família da minha família! Gostei).
Para a minha professora da sexta série do primeiro grau, Vera
Mello, que hoje pode erguer a plaquinha: "eu já sabia".
E para a tia que vendia pipoca no intervalo da faculdade.
SUMÁRIO

Agradecimentos, 5
Prefácio, 13
Apresentação, 15
Nota da autora, 17
Nota à 2Q edição, 19

1. Quando eu crescer: Introdução- conceito de empresário, 21


1.1. Conceito de empresário, 25
1.2. Atividades civis, 27
1.2.1. Intelectual, 27
1.2.2. Rural, 27
1.2.3. Cooperativa, 28
1.3. Empresário individual, 28
1.3.1. Empresa individual de responsabilidade limitada, 30

2. Confissões:. regime jurídico da livre-iniciativa, 32


2.1. Regime jurídico da livre-iniciativa, 33
2.1.1. Impedimentos ao exercício da atividade empresarial, 35
2.1.2. Microempresa e empresa de pequeno porte, 35

3. Menos: obrigações do empresário, 37


3.1. Registro de empresas, 38
3.1.1. Órgãos,38
3.1.2. AtoS,39,
3.1.3. Processo decisório, 39
3.1.4. Empresa inativa, 40
3.1.5. Empresário irregular, 40
3.2. Livros comerciais, 41
3.3. Balanços anuais, 45
4. Eu e minha insõnia: estabelecimento empresarial, 46
4.1. Conceito e natureza jurídica, 47
4.2. Alienação, 48
4.3. Locação empresarial, 50
4.4. Shopping center, 51
4.5. Aviamento, 53
4.6. Comércio eletrônico, 53
5. Pessoas são feias: nome empresarial, 55
6. Vício em chocolate: propriedade industrial, 60
6.1. Patentes, 61
6.2. _Registro industrial, 63
6.3. Softwares, 66
1. lemanjá: teoria geral do direito societário, 67
7.1. - Personalizaçã o, 68
1.2. Classificação das sociedades empresárias, 69
7 .2.1. Quanto à responsabilid ade dos sócios, 69
7.2.2. Quanto ao regime de constituição e dissolução, 71
7.2.3. Quanto às condições de alienação da participação societária, 71
7.2.4. Quanto ao número de sócios, 72
7.3. Sociedade irregular, 72
7.4. Desconsidera ção da personalidade jurídica, 73
8. Dor de barriga não dá u~a vez só: constituição e sócios das sociedades contratuais, 75
8.1. Constituição das sociedades contratuais, 75
8.2. Sócios das sociedades contratuais, 79
9. Mãe de muitos filhos: sociedade em nome coletivo. sociedade em comandita por ações.
sociedade em conta de participação, 82
9.1. Sociedade em nome coletivo: arts. 1.039 a 1.044 do Código Civil, 83
9.2. Sociedade em comandita simples: arts. 1.045 a 1.os 1 do Código Civil, 84
9.3. Sociedade em conta de participação: arts. 991 a 996 do Código Civil, 84
1o. Odeio aniversário: sociedade limitada, 86
10.1. Formas de integralização das cotas, 87
10.2. Responsabilid ade dos sócios, 8S
10.3. Deliberações sociais, 89
10.4. Administraçã o, 90
10.5. Conselho fiscal, 91
11. Companhia da manhã: dissolução das sociedades contratuais, 92
11.1. Espécies, 93
11.2. Causas de dissolução total, 94
11.3. Causas de dissolução parcial, 95
11.4. Liquidação e apuração de haveres, 96
11.5. Dissolução de fato, 97

Sumário 8
12. Gororobas: sociedades por ações -I, 98
12.1. Característica s gerais da sociedade anônima, 99
12.2. Classificação, 1oo
12.3. Constituição , 1o 1
12.4. Valores mobiliários, 102
12.4.1. Ações, 103
12.4.2. Partes beneficiárias, 104
12.4.3.Debên tures, 104
12.4.4. Bônus de subscrição, 1os
_12.4.5. Notas promissórias, 1os
12.5. Capital social, 1os
12.6. Órgãos sociais, 106
12.6.1. Assembleia geral, 106
12.6.2. Conselho de administração , 1oS
12.6.3. Diretoria, 1oS
12.6.4. Conselho fiscal, 1o8
13. Dia de cão: sociedades por ações -li, 11 O
13.1. Administraçã o da sociedade, I 10
13.2. Acionistas, 111
13.3. Acordo de acionistas, 113
13.4. Poder de controle, 114
13.5. Demonstraçõ es financeiras, I 15
13.6. Dissolução e liquidação, I 16
13.7. Transformaçã o, incorporação , fusão e cisão, I 16
13.7.1.Transf ormação, 117
13.7.2.lncorp oração, 117
13.7.3.Fusão, 117
13.7.4.Cisão, 117
13.8. Grupos de sociedade e consórcio, I 1S
13.9. Sociedade de economia mista, I 19
13.10. Sociedade em comandita por ações, 119
14. Decoração de coração: teoria geral do direito falimentar, 122
14.1. Quem pode falir, 124
14.2. Insolvência, 125
15. Salto alto: processo falimentar, 128
15.1. Pedido de falência, 129
15.2. Sentença declaratória da falência, 131
15.3. Sentença denegatória da falência, 133
15.4. Administraçã o da falência, 133

9 Empresarial para quem odeia empresarial


15.5. Apuração do ativo, 135
15.6. Verificação dos créditos, 135
15.7. Liquidação no processo falimentar, 136
15.8. Reabilitação do falido, 137
16. Pausa para o gráfico: verificação e habilitação dos créditos, 140
17. Meu passado me condena: falido: restrições pessoais,
seus bens e regime jurídico de seus atos e contratos, 141
17 .1. Pessoa do falido, 142
11.2. Bens do falido, 142
17.3. Atos e contratos do falido, 144
17.3.1.Atos ineficazes, 144
17.3.2. Efeitos da falência quanto aos contratos do falido, 147
18. Gente pequena: regime jurídico dos credores do falido, 150
19. Dá licença? Recuperação judicial, 158
19.1. Órgãos, 160
19.1.1. Assembleia geral, 160
19.1.2. Administrador judicial, 161
19.1.3.Comitê, 162
19.2. Processo da recuperação judicial, 162
19.2.1. Fase postulatória, 162
19.2.2. Fase de deliberação, 164
19.2.3.Fase de execução, 165
19.3. Microempresa e empresa de pequeno porte, 166
19.4. Convolação em falência, 166
20. Prostrada: recuperação extrajudicial, 168
21. Crianças: liquidação extrajudicial das instituições financeiras, 171
22. Eu quero ser escritora: teoria geral do direito cambiá rio, 178
23. Calotes: quem nunca? Letra de câmbio, 183
24. A menina na janela: constituição do crédito cambiá rio, 186
24.1. Saque, 187
24.2. Aceite, 188
24.3. Endosso, 190
24.4. Aval, 192
25. Medo hereditário: exigibilidade do crédito cambiá rio, 194
25.1. Vencimento, 195
25.2. Pagamento, 196
25.3. Protesto, 196
25.4. Ação cambial, 197

Sumário 10
26. Acreditar ou não acreditar, eis a questão: nota promissória, 198
27. Financeiramente desorganizada: cheque, 201
28. Voltando para casa: duplicatas, 207
28.1. Causalidade da duplicata, 209
28.2. Aceite, 21 o
28.3. Protesto, 211
28.4. Duplicata por prestação de serviço, 212
29. Meu quarto, meu mundo: títulos de crédito impróprios, títulos de crédito eletrônicos, 214
29.1. Títulos de crédito impróprios, 215
29.1.1. Títulos representativos, 215
29.1.2. Títulos de financiamento, 216
29.1.3. Títulos de investimento, 217
29.2. Títulos de crédito eletrônicos, 217
30. Altos e baixos: contratos mercantis: introdução, 219
31. Sem comentário: compra e venda mercantil, 221
32. Tirando a dor com as mãos: contratos de colaboração, 224
32.1. Comissão, 226
32.2. Representação comercial, 226
32.3. Concessão comercial, 228
32.4. Franquia, 229
32.5. Distribuição, 230
33. A parte triste da mudança: contratos bancários, 231
33.1. Operações passivas, 232
33.1.1. Contrato de depósito bancário, 233
33.1.2. Contrato de conta corrente, 233
33.1.3. Contrato de aplicação financeira, 233
33.2. Operações ativas, 233
33.2.1. Mútuo bancário, 234
33.2.2. Desconto bancário, 234
33.2.3. Contrato de abertura de crédito, 235
33.2.4. Contrato de crédito documentário, 235
33.3. Contratos bancários impróprios, 235
33.3.1.Alienação fiduciária em garantia, 235
33.3.2.Factoring, 236
33.3.3.Arrendamento mercantil (leasing), 238
33.3.4. Cartão de crédito, 239
34. Chegando ao fim: contrato de seguro, 240

Referências, 243

11 Empresarial para quem odeia empresarial


PREFÁCIO

Este livro, que tenho a honrosa tarefa de apresentar, tránsfor ma


por adicionar novas ideias e por satisfazer as necessidades de um lei-
tor específico. Não encontr o talentos raros com muita frequência,
por isso me considero um ser humano de sorte ao prefaciar a obra de
Luciana Pimenta, a quem conheci no Institut o Livro e Net.
Os manuais em geral oferecem conteúdo genérico, que pode ser
utilizado em qualquer tipo de estudo e para qualquer finalidade (seja
acadêmica, seja na preparação para concursos públicos). Normalmen-
te ficam presos a uma linguagem muito técnica, equívoco que não foi
cometido pela autora de Empresarial para quem odeia empresarial.
Em cada uma de suas páginas percebe-se a preocupação de ser
didática, atingindo aqueles que encontr am dificuldade no aprendi-
zado dos sempre muito complexos institut os da matéria. O texto,
sempre muito claro, conversa com o leitor, orienta ndo-o para um
projeto de estudo e, por que não dizer, até mesmo para um projeto de
vida. Ao estudar com foco e com método, vencendo capítulo a capí-
tulo, é possível conhecer lances da rotina do operador do direito, an-
tevendo as dificuldades da vida forense e compre endend o a lógica
muitas vezes surpree ndente da legislação e da doutrina. O leitor cer-
tament e irá reconhecer a própria evolução no domínio da matéria,
sendo capaz de estabelecer metas realistas de crescimento pessoal e
profissional.
Luciana Pimenta e a Editora Saraiva criaram um livro diferente,
especial, que chega em boa hora e representa uma grande contribui-
ção para quem precisa aprender a matéria rapidamente e de forma
descomplicada (e muito bem-humorada).
Alessandro Sanchez
Professor de Direito Empresa1ial, palestrante exclusivo e coordena-
dor da Pós-Graduação em Direito Empresaiial da Rede de Ensino LFG
APRESENTAÇÃO

Desde pequena, muitas foram as vezes em que ouvi a frase "você


devia escrever um livro". Seria mentira se eu dissesse que isso não se
tornou um sonho.
Mas era um sonho contido, reprimido. Não sabia nem ·sequer
por onde começar, e nem mesmo tentei encontrar o caminho que eu
teria de percorrer. Continuei apenas escrevendo minhas cartinhas
para uns e outros, meus diários secretos e meus textos para os diver-
sos blogs que já tive.
Numa noite ouvi aquela mesma velha frase, que sempre me per-
seguiu e me assombrou, de uma pessoa qualificada, de uma pessoa
com gabarito para dizê-la. Era como se aquele caminho que eu não
procurei aparecesse bem diante dos nieus olhos, como mágica. Com
frio na barriga, não pensei duas vezes: a resposta foi sim. A proposta
foi diferente: pegue a matéria de que você menos gosta e escreva so-
bre ela. Sim. Loucura. Mas, pensando bem, fazia um certo sentido:
escrevendo, eu aprenderia.
O desafio editorial foi aceito.
Não foi nada fácil, e por várias vezes eu questionei se podia mes-
mo fazer isso. ·Especialmente porque essa oportunidade surgiu no
meio de um an? extremamente tormentoso na minha vida. Mas eu já
tinha começado, e já estava bem cansada de deixar as coisas por ter-
minar. Era questão de honra ir até o fim.
À medida que o número de páginas escritas aumentava, passei a
entender que não estava simplesmente escrevendo um livro: eu esta-
va me tornando televisão. Um reality show cuja única participante era
eu mesma. Pedaços da minha vida estavam sendo expostos sem que
eu mesma me desse conta. Depois de um tempo, eu me esqueci que
haveria alguém me ouvindo do outro lado. Acostumei-me com a pre-
sença das câmeras.
Em meio à exposição, uma maneira simples de aprender aquilo
que parecia ser impossível.
O que era absurdam ente complicado ficou simples. Porque eu
vivi aquilo. E o fim foi triste: eu tinha me acostumado, e sentiria sau-
dades.
O resultado ficou fora de qualquer parâmetro. Não me lembro
de ter lido alguma coisa nesses moldes desde que resolvi me aventu-
rar pelo mundo do direito. Se tivesse, talvez tomasse mais gosto por
algumas matérias.
Descomplicar o complicado. Amar aquilo que se odeia. Preten-
siosa, eu? Sim. Muito.
Esta obra é praticam ente uma filha. Exatamente assim: uma fi-
lha, que eu gerei, que nasceu de mim, e que de repente não é mais só
minha. É do mundo. E me dá frio na espinha pensar que isso também
vai acontecer com a minha outra filha ...
Espero que ela possa fazer pelos outros o que fez por mim. E
espero que, quando alguém terminar de ler o que escrevi, sinta que o
livro não serve mais, porque já terá deixado de odiar a matéria.
Encerro esta apresentação agradecendo aos editores Luiz Curia
- e Roberto Navarro. O primeiro, por acreditar no projeto; o segundo,
por materializar a presente edição. Obrigada!

Apresentação 16
NOTA DA AUTORA

Não tenho fim. Chego a me assustar com a facilidade que tenho


de buscar aquilo que me é difícil.
Determi nei que naquela noite (e era uma noite qualquer) eu fa-
ria o parto do meu primeiro filho livro. Estava ficando pesado demais
para eu carregá-lo sozinha. Então eu simplesm ente marquei a data.
Correu tudo bem. Seria um dia qualquer. Mas não foi. Quando me
dei conta de que ele não estava mais em mim, me doí. Um pedaço de
mim nas mãos de outra pessoa.
Era para ser o moment o de descansar. Mas eu percebi que gerar
se tornou meu hábito. E, para minha surpresa, poucas horas depois,
eu já estava me preparan do para engravidar de novo. Acho que não
sei mais ficar sem isso. Parideira. Dou luz a sentimentos: pequenos
embriões que, vagarosa ou rapidamente, crescem dentro de mim. Cá
está minha mente trabalha ndo de novo.
Não há a busca pela inspiração. Eu apenas vivo. Sou drama sim,
mas assim me faço. Quando calma, procuro a tormenta . E dela recla-
mo. Pois nela não me estranho. Toda essa loucura existe mesmo aqui
dentro de mim. E, no mundo real, existe um "você", que nunca deixa
de existir. E eu cultivo sim o meu sofrimen to, que muitas vezes é
apenas lento, nem tão sangrent o como eu faço parecer ser.
Gostaria de ser mais simples. Gostaria que alguém escrevesse
um "Luciana para quem odeia Luciana", e me descomplicasse. Mas,
enfim, como não posso me impedir de sentir, o lance é continua r
escrevendo mesmo.
Tenho mesmo um coração carente. E uma mente demente. E
uma alma que mente. Receita de depressão. O que eu quero é exata-
mente o problem a sem solução.
Lido o primeiro volume, não há necessidade de muito esforço
para decifrar-me. Eu já estava vivendo uma confusão suficientemen-
te grande antes. Antes dessa coisa de me chamarem de "autora". An-
tes dessa companhia ausente. Antes das preocupações de quem por
mim se importa. Antes de tudo. já era por demais confusa. Mas tinha
aprendido a guardar a minha confusão, a mesclar os meus sorrisos
com as lágrimas. E me fiz normal.
Mas, de repente, percebi uma porta. E, dentro dela, várias outras.
Não é o fim. Outras portas por abrir. Ardendo em pimenta,
aguardando as próximas cenas. Teatro mágico. Comecemos.
Um outro filho, um outro livro, um outro diário, ou apenas ar-
quivos perdidos em meio à minha memória. Em meiÓ à minha ba-
gunça.,.Não haverá consulta. Não haverá releitura. Apenas prossegui-
mento. E não é um projeto. Mas a projeção da minha vida.

·'

Nota da autora 18

_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ . ______ ~ ..· - - - - - - - · - · ·
NOTA À 2g EDIÇÃO

Ainda acho difícil me imaginar como autora, como escritora,


embora isso seja algo que eu sempre desejei muito. Por este motivo,
é ainda complicado para mim atualizar meu livro para a 2i! edição.
Rever o que eu escrevi há alguns anos me faz voltar a todas as
situações que eu aqui descrevi. Situações que eram extremamente
próximas à minha realidade na época, e que agora me parecem dis-
tantes. Situações engraçadas e situações tristes.
O direito muda, e eu, na minha humilde missão de falar sobre
ele, sigo as atualizações e as trago aqui. Quanto a mim, bom ... para
descrever tudo o que eu mudei seria necessário outro livro. Ou ou-
tros tantos.
Mas é gratificante retomar este projeto.
Ainda tenho muito a aprender. Tanto no Direito quanto na difí-
cil arte de viver a vida.
~-·

:fim. ê.u c.ontUuw- co.m eM.a mania. do.ú:ia de querer escrever sobre as coisas de
que não gosto. Melhor dizendo: continuo com a mania doida de escrever. Ponto.
Não sei ao certo se estou indo por um bom caminho. Talvez nem seja este
um caminho. Mas, a cada dia que passa, eu pulo pedras, corto galhos de árvo-
res e arranco plantas que se colocam na minha frente, na tentativa desenfreada
de chegar a algum lugar. Aonde? Boa pergunta.
Ando meio c_onfusa das ideias. Ainda tenho aquele antigo sonho de quan-
do eu crescer eu quero ser. Ainda não cresci, e ainda não sou o que queria ser.
Nem mesmo sei se estou bem certa do que quero ser. Talvez eu saiba, mas tem
tanta gente duvidando disso que acho melhor nem comentar.
De repente um montão de coisas aparece na minha vida, e todas elas se
apresentam para mim como possíveis. t: eu não acho que tenho discernimento
para separar o que é e o que não é. Confuso, né? Pois é ... Começamos bem.
Apenas vou para onde meu coração me manda ir.
Impulsiva, sonhadora, meio doida, um tanto quanto inconsequente. t:ssa
ainda sou eu. 1:::: quero mesmo continuar sendo assim quando eu corescer.
i=az mais ou menos uma semana que estou adiando esse novo começo.
Sem explicações racionais. Primeiro eu me dei um período de descanso depois
de terminar o outro livro; depois fiz uma cirurgia plástica pensando que, se eu
estivesse feliz com meu corpo, todos os outros problemas se resolveriam; de-
pois arrumei uma desculpa qualquer para ir a São Paulo e encontrar a maior
utopia da minha vida.
1:::: assim se passou o primeiro mês de 2012. Um novo ano, um novo livro.

Não este que escrevo, mas o que eu vivo. l::::stou exatamente na página
trinta e três de um total de trezentas e sessenta e seis (porque esse a-w é
ano bissexto).
f-laje nenhuma desculpa me fará sair da frente do computador. Varnos
brincar de direito empresarial, mas, ele cara, já adianto: este será um vo'L me
triste. Não pela matéria (que é, de fato, sofrível), mas porque o que era par3 ser
o melhor começo ele ano de todos os tempos ele repente se encheu ele lágri-
mas. t:stou assim hoje. t:motiva. Desculpem-me .
Sou mesmo drama. t: as pessoas costumam rir ele mim por isso. Não me
importo. Continuo uma criança indefesa, mesmo depois ele ter crescido.
Peço colo e busco alguém que me diga que vai ficar tudo bem. Torno tudo
imensamente maior elo que realmente é. Machuco-me e me deixo sent r a
• dor numa intensidade absurda, ainda que eu tenha apenas sofrido um leve
arranhão.
t:m meio a tudo isso, permaneço escondida atrás da más~ara de muhe-
forte. Ou e me vejam assim: deixem-me ser má, porque, quando me mostro l::oa,
sou fraca.
Situações inesperadas e complicadas correm diante dos meus olhos, car-
regando lentamente pequenos pedaços da minha doçura. [exatamente qu3n-
do começo a acreditar naquilo que eu achava ser inacreditável, um vento -:er-
ruba tudo. t: me esfarelo ... como vidro que cai no chão. Ainda assim, a ·1ida
continua: ninguém para para juntar os cacos. É preciso que eu mesma faça.
Ok. !=arei. Mas, clepo1s que eu tiver colado todas as peças e me feitc no-
vamente cristal, que ninguém venha querer que eu divida o meu brilho.
Neste exato momento, acabo ele decidir: quando eu crescer quero 3er
tudo aquilo que o mundo duvidou que eu seria.
Sim, eu também odeio direito empresarial (como odiava tributário). t: h·::>je
o meu ódio é multidisciplinar , abrangendo todas as matérias não jurídicas elo,
viela. f-laje. Amanhã não sei. Por hora, só quero parar ele pensar nas coisas -::ue
me fazem chorar, e ocupar a minha cabeça ele tal forma que não sobre elo rreu
dia um segundo sequer para odiar outra coisa.
t:ssa matéria costumava se chamar direito comercial quando eu estav3 na
faculdade. Tive aula disso por dois anos, um professor que parecia o Leôn·:io l
dos desenhos elo Pica-Pau e outro que era bem bonitinho, mas arrogante que II
só. Lembro-me ele ter discutido com ele em sala de aula. Mesmo odiando o
assunto (mil vezes mais do que eu odeio hoje), durante todo o terceiro ano de
I
direito tirei as melhores notas da sala sem nunca ter prestado atenção a uma
-aula desse professor.
Dormia sempre. Sempre mesmo! t:le entrava na sala, eu encostava a cabe-
ça na carteira e quase roncava. t:stava sempre muito cansada, porque trabalha-
va o dia inteiro e as aulas eram à noite e em outra cidade. No mais, eu fazia ::!e
propósito: só para mostrar àquele almofadinha que eu não precisava dele para
aprender a bagaço. .

Introdução. Conceito de empresário 22


Aprender eu não aprendi. Mas passei de ano. t: nem me lembro como foi
que fiz na época da prova da OAB. Só sei que passei também, ainda sem
aprender. Na minha vida de concurseira, tive ótimos professores nos cursinhos,
mas meu desempenho nas provas nunca foi bom. Na verdade, nunca me dedi-
quei verdadeiramen te à matéria.
Bom, acho que chegou a hora de encarar esse monstro.
................................................................................... .
_

Como eu dizia, chamava-se antes direito comercial. Há quem ainda prefira essa
terminologia, e há quem tenha optado por direito empresarial.
A discussão é meio sem nexo, como toda e qualquer boa discussão em direito.
Mas ela se explica por conta das teorias que embasam esse ramo. Falaremos delas já já.
Antes, é bom saber o que é que vamos estudar aqui, ou seja, o objeto dessa matéria.
O direito empresarial (vou optar por esse nome, ok?) trata da empresa.
Ah, vá! Jura?

Já. Varrz,o.4 ~' e juro que estou tentando melhorar, mas acho que
estou ficando cada vez mais triste. Vou ali chorar um pouquinho e já volto.
Voltei.

A primeira coisa que devemos saber é o que realmente significa a palavra "empre-
sa". E digo isso porque o termo é usado em muito ~entidos, mas apenas um nos inte-
ressa. Olha só estas frases:
._ A empresa faliu.
._ A empresa apresenta grande produtividade.
._ A empresa pegou fogo.
~ A empresa foi aberta em julho.
Embora a palavra seja a mesma nas quatro frases, os significados são bem diferentes.
Na primeira, temos empresa no sentido subjetivo. Uma empresa não pode falir:
l quem vai à falência, na verdade, é o empresário. Na segunda, temos o sentido funcio-
I nal: trata-se de uma atividade em que se articulam os fatores de produção. Na terceira
I vemos o sentido objetivo, de empresa como estabelecimento empresarial. É o lado
·físico da coisa. Finalmente, na última frase estamos diante do sentido corporativo, no
qual, na realidade, empresa significa sociedade.
. Dá para perceber que existem quatro acepções para a mesma palavra. E eu me
lembro das aulas que tive com o Professor Marcelo Cometti nas quais ele explicava
exatamente isso. A empresa tem um perfil poliédrico, ou seja, apresenta várias con-
cepções. E isso ele não inventou não. Foi um bambambam do assunto chamado Asqui-
ni que disse.

23 · Empresarial para quem odeia empresarial


Todos esses conceitinhos (empresário, estabelecimento empresarial, sociedade)
nós vamos ver mais para a frente, um por um. Mas o que importa agora é saber que o
Código Civil traz a palavra "empresa" no sentido funcional. Ou seja, empresa é igual a
atividade. Não dá para pegar uma atividade, não dá para a atividade pegar fogo. É um
conceito abstrato.
...................................................................................
'Pcw./.z,a: eu. tiu.e- um~~. A capa era verde. Sorte a sua, que nem
sequer sabe que ele um dia existiu.
....................................................................................
Empresa é a articulação dos fatores de produção (capital, mão de obra, matéria-
-prima e tecnologia). Empresa é a atividade. Se a empresa é isso, então o direito em-
presarial cuidá exatamente dessa atividade e das normad que a regulam.

:Eeq,ae? não. muilo., ni? Mas tudo bem. ~sse comecinho nem é tão importante
mesmo. Já reparou como os começos de livros têm pouca relevância? ~xceto
quando tratam de princípios. Aí a primeira parte é a mais importante.
Não. Mentira. ~importante sim. ~u que tô num baixo astral danado aqui e
por isso estou vendo tudo de maneira horrível.
~ntão, tá. Aí, vem toda aquela parte histórica (c-h-a-t-a), mas vou resumir
bem resumidinho.
........................ ...........................................................
~

No começo, as pessoas produziam tudo aquilo que precisavam. Depois começa-


ram a trocar. Depois começaram a vender. E aí surgiu o comércio. E com isso foi ne-
cessário criar regras para o comércio. Pronto. Fim do resumo.
As primeiras regras que disciplinavam o comércio surgiram na França. Acharam
por bem criar uma listinha de atividades: se estivesse dentro dessa listinha, era regu-
lado pelo direito comercial. Simples assim: cara-crachá. Essa era a chamada teoria dos
atos de comércio: se você praticasse alguma atividade que se enquadrasse nos chama-
dos atos de comércio (a listinha), então você estava submetido aos direitos e deveres
impostos pelo direito comercial.
Fácil ver o problema aqui, né? A lista, com o passar do tempo, foi ficando obsole-
ta. Não estava nela, por exemplo, a prestação de serviço.
E aí? Aí que tiveram a brilhante ideia de inventar que essa teoria não prestava
para definir o objeto do direito comercial. Não dava mais pra simplesmente listar um
monte de atividades e tratá-las como atividades comerciais.
Passemos para a Itália agora. Lá, decidiram que o que importava para o direito
comercial não era a atividade em si, mas sim a forma como essa atividade era exercida.
Se você exercesse uma atividade (independentemente de ela estar numa lista ou não)
de forma profissional e organizada com o intuito de produzir ou circular bens ou

Introdução. Conceito de empresário 24


serviços, então a sua atividade seria empresarial e estaria abrangida pelas regras do
direito comercial (ou direito empresarial). Essa é a chamada teoria da ·empresa.
Ok. Passeamos pela França e pela Itália: E o Brasil? Como fica?
A p~rte.primeira do antigo Código Comercial trazia os conceitos de comerciante
(pessoa física) 'e sociedade comercial (pessoa jurídica); adotávamos a teoria dos atos de
comércio. Tínhamos a nossa própria listinha.
Passados os anos, o povo daqui também começou a perceber que essa teoria era
furada. Olha que legal esses exemplos de não adoção da teoria pela jurisprudência:
co::1cessão de concordata aos pecuaristas (a pecuária não estava na lista) e concessão
de falência aos negociantes de imóveis (a atividade imobiliária também não estava
na lista).
O que estava acontecendo? já antes do novo Código Civil (novo?) estávamos ado-
tando a teoria de empresa, ou seja, o que importava era a forma como a atividade era
ex~rcida.
Aí então chegamos em 2002, e o Código Civil revogou toda a primeira parte do
Código Comercial, formalizando a teoria de empresa no Brasil, coisa que a doutrina e
a jurisprudência já vinham aplicando.

····················································································
l3e~ ali aqui? Só introdução, gente. Nada demais. Vamos ver o conceito de
em:xesário e depois fazemos uma pausa, tá? Para constar: já estou melhorzi-
nha. Chorar dá rugas. Tô fora .
····················································································
1.1. Conceito de empresário
Começamos a ler artigos. Estamos no Código Civil, pega lá:
"Art. 966. Considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econô-
mica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços".
Então não é qualquer pessoa que vende qualquer coisa de qualquer forma que é
empresário? Não.
São ci~co os elementos que, unidos, caracterizam a existência do empresário:
cc.pacidade jurídica, ausência de impedimentos legais, exercício efetivo e profissional
da empresa, regime diferenciado que cuida da insolvência (porque o eq1presário se
submete à lei própria sobre isso) e registro.
Primeira coisa: o empresário deve atuar com profissionalismo.
Se eu hoje resolvo vender um computador velho porque comprei outro que é
n:ais bonito, colocando eu mesma um anúncio no mural aqui do condomínio, eu não
sou empresária. Falta o profissionalismo, que se desdobra em três aspectos.
O primeiro deles é a habitualidade: o lance não pode ser de vez em quando, espo-
r;o_dicamente. Tem que ser constante. Não ad aeternum, lógico, mas não basta simples-
rr.ente vender uma coisinha ou outra um dia ou outro.

25 Empresarial para quem odeia empresarial


O segundo é a pessoalidade, que não quer dizer que eu, sozinha, devo fazer tudo.
Na verdade o sentido é quase oposto: a pessoalidade liga-se à contratação de empre-
gados que agirão em meu nome, produzindo ou fazendo circular bens ou serviços,
mas eles não são empresários. Empresária sou eu, que os contratei, e que respondo
pela atividade.
Finalmente, o terceiro aspecto é o monopólio das informações. Aquele que exer-
ce atividade empresarial deve ter conhecimento, por exemplo, das condições de uso,
qualidade, matéria-prima empregada, riscos à saúde ou à vida dos compradores etc.,
daquilo que é objeto da atividade exercida.
Falamos que a empresa é uma atividade, certo? Portanto, para eu ser empresária,
tenho que exercer essa atividade. E mais. A atividade deve ser econômica, ou seja, deve
buscar o lucro.
Mas veja: não estou falando que o empresário deve ter lucro. O que ele deve é
perseguir o lucro. Diferente, né? Se não fosse assim, a grande maioria das pessoas que
tenta se aventurar no mundo empresarial não seria considerada empresária, porque
não consegue atingir o lucro.
E o que significa dizer que a atividade deve ser organizada? É assim: existem qua-
tro fatores de produção, quais sejam: capital, mão de obra, matéria-prima e tecnolo-
gia. Para que determinada atividade seja considerada empresária é necessário que es-
ses quatro fatores sejam articulados pelo empresário.
E, para a caracterização do empresário, é preciso que a sua finalidade, quando do
exercício da sua atividade, seja a produção ou a circulação de bens e serviços.
Então deu pra perceber que não é toda atividade que pode ser considerada em-
presarial. As que não podem são as chamadas atividades civis, e a elas não se aplicam
as regras de direito empresarial.
Será atividade civil, por exemplo, aquela que for exercida por quem não se enqua-
dra nesse conceito que acabamos de ver, o conceito de empresário. Então, eu, que ven-
di o meu computador pelo anúncio no mural do condomínio, não sou empresária. Vou
além: ainda que eu tivesse toda uma estruturazinha aqui em casa, que comprasse com-
putadores para revender e os vendesse, eu mesma, através de não um, mas um montão
de anúncios no mesmo mural, minha atividade não seria empresária. E por que não?
Porque eu não cumpri o requisito da pessoalidade, ou seja, não tenho empregados.
Por isso é importante saber todos os aspectos da definição dada pelo art. 966:
faltando qualquer um deles, a pessoa não é empresária; consequentemente, não exer-
ce atividade empresarial; consequentemente (perdão pela redundância), não está am-
parada pelo direito empresarial.
Por determinação legal, três atividades também não são conside~adas empresá-
rias. Por quê? Porque a lei quis assim. E e.u vou responder dessa forina correndo o
risco de levar bronca do Sr. Editor. Vamos ver quais são essas atividades de maneira
pormenorizadq. (viu só? Usei até uma palavra bonita agora).

Introdução. Conceito de empresário 26


1.2. Atividades civis
1.2.1. Intelectual
Estamos agora no parágrafo único do mesmo art. 966. Lá está disposto que quem
exerce profissão intelectual de natureza científica, literária (eu!) ou artística não é em-
presário. Mas esse mesmo parágrafo traz uma exéeção: exceto se constituir elemento
de empresa, ainda que conte com colaboradores.
Devo dizer, aqui, que nunca consegui encontrar alguém que me explicasse tecni-
camente o que é esse tal de elemento de empresa. As explicações sempre vêm pelo
mesmo exemplo: o do médico. Vou continuar seguindo essa linha, mudando apenas a
profissão no meu exemplo, mas fica registrada aqui a minha indignação pela não exis-
tência de um conceito técnico e objetivo (sem exemplo) do que é elemento de empresa.
Olha só: vamos supor que a minha mãe seja pintora (é mentira: ela é advogada e
se formou há pouco tempo, mesmo eu tendo dito várias vezes que não tem nada de
lindo no direito). Profissional liberal, atividade artística, nada de empresário aqui.
Com o tempo, minha mãe começa a ficar famosa. Seus quadros são a coisa mais
linda deste mundo, a demanda aumenta muito, e ela começa a contratar gente para
trabalhar para ela. Enquanto ela tiver, por exemplo, uma secretária e uma faxineira,
continuará exercendo uma atividade civil. Só que ela se torna uma pintora megamás-
ter. Contrata mais pintores, um advogado, um contador, atendentes, vendedores, mo-
torista, um monte de gente. Ela, na verdade, já nem pinta mais: fica ali, atrás de uma
mesa de vidro linda, apenas coordenando a coisa toda.
Viu a diferença entre a época em que ela fazia os quadrinhos no quartinho de casa
e agora? Virou empresa. Aí sim ela passa a se submeter às normas empresariais. Quan-
do exatamente passou de uma coisa para outra? No exato momento em que já não há
no trabalho a sua atuação pessoal.

1.2.2. Rural
Aqui não tem explicação mesmo: a atividade rural não é empresarial por disposi-
ção legal. Só por isso mesmo. Mas veja que lindo: ela não é, mas pode ser.
Hã?
Fácil. Se o tiozinho que planta abóboras no sítio para vender quiser, ele pode ser
empresário. Para tanto, bastà que ele vá até a junta Comercial e proceda ao registro.
Fazepdo isso, passa a ter todas as benesses de ser um empresário, mas assume também
todas as obrigações respectivas.
Por que isso, hein? É difícil mesmo pensar por que um tiozinho que planta abó-
boras queira ser empresário. Mas não é difícil pensar num supertiozão, o cara do agro-
negócio.
A lei deu essa opção então.

27 Empresarial para quem odeia empresarial


Duas coisas (uma jurídica e a outra não). Nós vamos falar do registro (que é um dos
deveres do empresário) mais para a frente, mas, pelo que foi visto, já dá para concluir
uma coisa: vimos que uma atividade é considerada empresarial tendo em vista a forma
como é exercida. Então, não é o registro que faz com que a atividade seja empresarial.
Embora o empresário esteja obrigado a proceder ao registro, a atividade já era
empresarial desde o momento em que foi exercida cumprindo os requisitos legais. O
registro, então, é meramente declaratório.
No caso de atividade rural, é diferente. O registro é constitutivo: é ele, e só ele,
que torna tal atividade empresarial. Antes dele, ela era uma atividade civil.

/l a..uiJuL wUa ( rúio. jwzidica) é que acabei de me Iem brar que uma vez pedi
a um amigo (colorido) que me desse um tema para escrever. 1::: ele disse: "t:scre-
va sobre uma plantação de abóboras". Pronto, escrevi.

1.2.3. Cooperativa
Aqui não tem nenhuma exceção, não tem coisa importante para ver, não tem
nada. Cooperativa não se submete ao regime empresarial.
Mesmo que cumpra todos os requisitos? Mesmo assim. Por quê? Porque não. Ponto.
Vontades do legislador. Nada mais a declarar.
Legal. Vimos o que é a atividade empresarial, quem é o empresário e quais são as
atividades civis. Mas vamos só mais um pouquinho, tá? Meu sono tá quase chegando,
e, se eu for deitar antes de chegar no meu limite, as chances de eu ficar matutando
alguma coisa ruim enquanto rolo de um lado para outro na cama são grandes. Então
não me deixem sozinha neste momento ruim. Eu ajudo vocês e vocês me ajudam,
combinado?

1.3. Empresário individual


Certo. Vimos quem é o empresário. Agora, olhe só: empresário pode ser pessoa
física (empresário individual) ou pessoa jurídica (sociedade empresarial).
Importante: os sócios de uma sociedade não são empresários. Pelo menos não
tecnicamente falando. Quem exerce a atividade é sempre a sociedade. Ela responde
pelas obrigações, tem patrimônio próprio e mais um monte de características peculia-
res de que vamos tratar quando chegarmos ao tema.
É preciso lembrar que o empresário individual é aquele que apresenta todos os re-
quisitos do art. 966 do CC, e que atua por ele próprio. Pessoa física. Nesse caso, não há
separação de patrimônio: os bens da pessoa física respondem pelas dívidas empresariais.
O exemplo é o da tia ali da esquina que faz e vende bijuterias: ela atua com pro-
fissionalismo, exerce atividade econômica e organizada e produz/circula bens. A tia é
empresária individual.

Introdução. Conceito de empresário 28


E o que precisa para ser empresário individual? Duas coisas: capacidade e ausên-
cia de impedimentos. Sobre os impedimentos vamos falar no próximo capítulo. Fale-
m:)S então da capacidade.
Menor não pode. Doido também não. Pródigo também não. Aquela galerinha lá
dos arts. 3~ e 4~ do Código Civil. Para ser empresário, tem que ser capaz. Mas não para
por aí. Olha uma situação que pode acontecer: eu tenho 12 anos de idade e meu pai é
eo.presário individual. Ele morre, tadinho (batendo na madeira incessantemente
ac_ui: isola!). Eu herdo a empresa dele.
E aí? Sou "de menor", não posso ser empresária! .
Outro exemplo: sou a tia empresária que faz bijoux. Um dia, levo um tombo na
rua, bato a cabeça na sarjeta e fico meio lelé da cuca. E agora? Fiquei incapaz, não pos-
se mais ser empresária!
Para essas duas situações existe uma alternativa. Se o juiz conceder, o incapaz
pode continuar uma empresa. Como funciona isso? Assim: morreu meu pai ou eu
bati a cabeça na sarjeta. De uma forma ou de outra, quero continuar a empresa. Vou
lá, peço para o juiz me autorizar (e a autorização se dá por meio de um alvará). Ele
autoriza, e eu continuarei exercendo a empresa por meio do meu representante ou
rio meu assistente (a depender de a incapacidade ser absoluta ou relativa, respecti-
Vécmente).
No alvará constarão todos os bens que a empresa possui, isso porque, em regra,
os bens particulares do incapaz não responderão pelas obrigações empresariais. Em
regra? Sim, em regra, porque; se os bens forem empregados na atividade empresarial,
aí responderão.
Então, tá. Empresário individual é esse cara aí. Mas lembra do conceito de empre-
süio, né? Ele não vai fazer tudo sozinho: tem que ter empregados. Tem que? Sim. Tem
que. Os fulaninhos que trabalham para o empresário são chamados de prepostos, e os
atos que eles praticam dentro do estabelecimento comercial e com relação à atividade
desenvolvida obrigam o empresário.
Então, assim: eu sou a tia ali da esquina e vendo bijoux, e tenho uma maluca que
fc.z as entregas para mim. A maluca é tão maluca que capotou o carro na entrega e
q·..tebrou o portão da casa de uma senhorinha. Quem vai pagar? Eu. '
Da mesma forma, as informações prestadas pelos prepostos obrigam o em-
presário. Então, se a maluquinha disser ao cliente da minha lojinha que todas as
b;joux estão pela metade do preço, eu vou ter que vender tudo pelo preço que ela
informou.
Mas nem tudo são flores: pelos atos praticados com culpa ou dolo, o preposto
responde. E ele também não pode concorrer com o seu preponente, sob pena de res-
p:)nder por perdas e danos se o fizer. Chega a ser crime de concorrência desleal. Cui-
d3.do aí, maluquinha!

29 Empresarial para quem odeia empresarial


1.3.1. Empresa individual de responsabilidade limitada
Esse assunto é relativamente novo. Antes da Lei n. 12-441/2011, sempre que o
empresário fosse pessoa física, ele deveria optar pela forma de empresário individual.
A maior implicação disso era o fato de a responsabilidade dele ser ilimitada (respondia
com todo o seu patrimônio pelas obrigações da empresa).
Agora mudou. O empresário individual pode adotar a forma de Eireli, ou seja,
empresa individual de responsabilidade limitada. Falei que faltava pouquinho, mas
vamos atentar para isso aqui, tá? Depois eu paro. Prometo.
Então era assim: eu queria exercer a atividade de empresa, mas não queria saber
de ter mais gente comigo. Queria fazer eu sozinha. Antes dessa lei, eu teria que me
responsabilizar ilimitadamente pelas obrigações dessa minha atividade. Era um risco
grande. E, exatamente por isso, veio essa lei com essa nova modalidade de empresa
individual.
Essa lei é a 12-441, e, a partir dela, o empreendedor que optar por, sozinho, exer-
cer a atividade empresária poderá escolher entre empresário individual (responsabili-
dade ilimitada) ou empresa individual de responsabilidade limitada.
Estudaremos o empresário individual logo menos, mas já dá para adiantar que ele
não tem personalidade jurídica nem (como já falamos) limitação de responsabilidade,
enquanto a ElRELI possui personalidade e os benefícios da separação de patrimônio
e limitação de responsabilidade.
A lei alterou o Código Civil, acrescentando a EIRELI na lista de pessoas jurídicas
no art. 44·
Mas como? Simplesmente constituo a tal da EIRELI e tudo certo?
Não é tão simples assim. Para criar uma EIRELI, o empreendedor terá de integra-
lizar um capital social de, no mínimo, roo vezes o valor do maior salário mínimo vi-
gente no país. E mesmo se, depois, o valor do salário mínimo mudar, não tem que
aumentar o valor do capital integralizado: o que importa é a integralização dos roo
salários mínimos, considerando-se o valor dele na época da constituição.
E mais: cada pessoa só pode ter, em seu nome, uma EI RELI. Não dá pra sair abrin-
do empresas por aí a torto e a direito e utilizar-se dessa forma empresarial. Uma só, e
ponto final.
Outra coisa que essa lei trouxe: antigamente, uma sociedade empresária só podia
ficar com um único sócio em casos específicos (quando, por exemplo, o outro sócio
morresse), e, quando isso ocorria, tinha um prazo para que o sócio remanescente
constituísse outro, sob pena de consequências como a extinção da so?iedade. A gente
vai ver isso mais pra frente também.
Com a lei nova, a concentração de quotas nas mãos de um único sócio poderá dar
causa à form<:tção de uma EIRELI, independentemente da razão que levou a essa

Introdução. Conceito de empresário 30


concentração. Isso significa que, caso o sócio se encontre sozinho numa sociedade,
pela saída ou pelo falecimento do outro sócio, poderá pedir sua conversão em EIRELI.
A lei é bem boa pro empresário que quer, sozinho, constituir empresa. Aliás, so-
bre ela, é bem bacana dar uma olhadá no quadro abaixo, que traz as diferenças entre
os dois tipos de empresa que podem ser exercidos por uma única pessoa. Eu tirei ele
da "Cartilha da Eireli", que está disponível no Portal do Empreendedor':

--- -····.-··
Possui limitação de Não Sim
. responsabilidade?
. HÓ necessidade de capitaÍ social Não Sim, .100 vezes o maior salário
mínimo do país
Utiliza firma para exercício da Sim. Deve utilizar firma constituída Sim. Deve utilizar firma cor.stituída
em·presa? · ·por seu nome, completo ou por seu nome, completo ou
abreviado, aditando-lhe, se quiser, abreviado, aditando-lhe, se quiser,
designação mais precisa da sua designação mais precisa da sua
pessoa ou do gênero de atividade pessoa ou do gênero de atividade.
Ao final deve constar a sigla EIRELI
Utiliza denominação para exercício Não Sim. Aempresa pode utilizar nome
da empresa? fantasia seguido da sigla EIRELI
Ép~;;ivel ter mais de uma empresa Não
do tipo registrado em seu nome?
_Pode surgir da transfóimação dé- ·- : Sim:.:
sociedade que passa a ter apenas
um sócio?
Pode ser utilizada para exploração ·sim Sim
de atividades ligadas á exploração
de direito autoral ou de imagem? ~-~ ·._ .
.; ::... ·: -~ -~ .

Aplicam-se, quandocabíveis, as
regrás d~ soÇiedad~ li~itada?. ····=-··,.::

Pra acabar: EIRELI não é sociedadé unipessoal. Ela é um ente novo, distinto da
pessoa do empresário e distinta da sociedade empresária.

Y'e.m muito..d- ~ CUJOIUL· ~stou com sono e vou aproveitá-lo.

1 Disponível em: <https:jjportaldoempreendedor.gov.brjeirelijCartilha%zoEireli%zozoxzs_alta.pdf>.


Acesso em 12-6-zo 14.

31 Empresarial para quem odeia empresarial


~~,,,

2.. Confiss ões: ~'~~

····················································································
e ai que- Pwje eu a,c,oJu/.d ~·Resolvi dedicar um dia inteirinho à depres-
são, porque essa coisa de ficar me remoendo um pouquinho a cada dia não
está dando certo não. Quem sabe se eu simplesmente deixar chorar tudo o
que tem aqui dentro amanhã acordo melhor?
Não.
A quem estou eri.ganando? Quando se trata de mim, a tendência é sempre
piorar.
Acho que seria bom confessar algumas coisas.
Confesso que minha manhã não foi muito produtiva porque o sono resol-
veu ficar bem do meu lado quando comecei a ler o que eu precisava. A insônia
nunca aparece quando preciso dela.
Confesso que hoje deixei de lado as regras da boa alimentação e substituí
o almoço por uma xícara grande de café extraforte. Reclamações do estômago
chegarão em breve, certamente. !=avor protocolar em duas vias.
'

{JJ~
Confesso que, mesmo todo mundo me dizendo que sou forte, mãe sozi-
nha, dona de casa, autossuficiente , e blá-blá-blá, de vez em quando me sinto
. menininha adolescente e bobinha e tenho vontade de deitar no colo de al-

-:.:·!::.:.::.=>•"'•P"
guém (que eu bem sei quem é) e chorar. Ou só vontade de chorar sem colo
mesmo. t: choro.

Confesso que finjo não me importar para o fato de a pessoa em cujo colo
eu quero deitar não ter dado notícias, mas no fundo sei que fiquei o dia todo
lJf,r esperando por isso.

~·~.~.~~:-~~· Confesso que estudar me traz sentimentos antagônicos como ''já sei tudo"
X "não sei nada". t: aí preciso torcer para a segunda opção ser mais forte, se-
não eu me acomodo.
Co11fesso que às vezes fico em dúvida sobre minha capacidade, e, apesar
de as palavras de apoio serem bem-vindas, não fazem a angústia melhorar.
Confesso que estava relativamente bem depois que voltei para a zona de.
comodismo, mesmo sabendo que ela não me leva_ a lugar nenhum. Agora saí
dela, estou camir:1hando, mas não sei para onde vou.
Confesso quétem dias em que a noite é f...

. 2.1. Regime jurídico da livre-iniciativa

~ q.ucmdo. w;.d eAf.udo.u CÜJLeito- c.o.n/.di1.uci. e ac h ou que e r a c h ato?


t:u lembro. t: percebo o quanto fui injusta. t:studando aquela matéria, nunca
tive vontade de pular do sexto andar. Não posso dizer o mesmo agora.

Enfim, uma das coisas que está lá na Constituição é que o Estado só pode exercer
atividade econômica em algumas hipóteses: quando há relevante interesse coletivo
ou quando é necessário à segurança nacional.
Não vou entrar em detalhes constitucionais, porque seria muita alegria, e eu não
estou nesse clima. Mas a verdade é que, regra geral, atividade econômica é exercida
pela iniciativa privada. Certo. Ao determinar isso, a Constituição deve ditar as regras
que possibilitam à iniciativa privada desenvolver tais atividades.
É por isso que rola todo um regime jurídico para aqueles que exploram atividades
econômicas. E olha só: se a iniciativa privada vai cuidar dessas coisas, então é absolu-
tamente necessário que a Constituição adote os princípios do liberalismo: livre-ini-
ciativa e livre competição. Sem isso o direito empresarial nem sequer existiria. O Es-
tado mandaria em tudo, tudo seria objeto do direito administrativo, e todos seríamos
mais felizes. Pelo menos todos nós estudantes de direito.
Exatamente por conta desse regime liberal, o legislador ordinário estabeleceu al-
gumas regras para que as coisas ficassem condizentes: iniciativa privada, você pode
explorar as atividades econômicas, mas não de qualquer jeito.
A Lei n. 12.529/2011 traz em seu art. 36, § 3~, uma série de condutas que são consi-
deradas infrações contra a ordem econômica. Tem muita coisa lá. O importaqte nem é
saber o que dizem todos os incisos desse artigo (são 19 no total). O que você precisa
saber é que qualquer condutà (qualquer uma mesmo) será considerada crime quando:
"I - limitar, falsear ou de qualquer forma prejudicar a livre concorrência ou a livre-
-iniciativa;
11 - dominar mercado relevante de bens ou serviços;
I11 - aumentar arbitrariamente os lucros;
IV- exercer de forma abusiva posição dominante".

Essas são as hipóteses previstas no caput do mesmo art. 36 desta lei.

33 Empresarial para quem odeia empresarial


Então assim: se eu, tiazinha que vendo bijoux, faço alguma coisa que aumenta
arbitrariamente os meus lucros, cometo ilícito, independentemente do que seja essa
qualquer coisa que eu tenha feito.
Por esse motivo se diz que o rol do art. 2 1 é meramente exemplificativo. Vou
além: por disposição legal, a responsabilidade do empresário é objetiva. Não interessa
o dolo ou a culpa.
E por que as condutas praticadas com os objetivos acima elencados são conside-
radas crime? Porque a Constituição quis assim:
''Art. 174. (... )
fj 4!!. :A lei reprimirá o abuso do poder econômico que vise à dominação dos mercados,
à eliminação da concorrência e ao aumento arbitrário dos lucros".

Certo. E o que vai acontecer comigo, então? Vou ser repreendida pelo CADE
(Conselho Administrativo de Defesa Econômica), e as sanções que eu posso vir a su-
portar são multa, publicação da condenação na imprensa, proibição de contratar com
o poder público ou com instituições financeiras etc. Uma "sentença" (entre aspas, por-
que, tecnicamente, quem dá sentença é o juiz e mais ninguém) do CADE é título exe-
cutivo extrajudicial.
Olha uma coisa: em nenhum momento eu falei em crimes contra a ordem econô-
mica aqui, tá? Isso é assunto pro lindo do direito penal, e está na Lei n. 8.137/90. Infe-
lizmente, não estamos em penal. Estamos falando apenas de ilícitos administrativos.

····················································································
~-
Não precisa muito para me fazer chorar hoje não. Amanhã vou estar com
os olhos inchados, e vou sentir raiva de mim porque me deixei ficar triste. Mas
já decidi: hoje vou curtir minha tristeza e deixá-la me consumir.
····················································································
Outra medida adotada pelo legislador no sentido ele proteger a liberdade econô-
mica é a repressão à concorrência desleal. E nesse aspecto eu sou a melhor do mundo.
Concorro com muita gente. E a concorrência comigo sempre é desleal.

. ~ m.a.úL wn ~· Minha vida é uma desgraça mesmo.


....................................................................................
A Lei da Propriedade Industrial (n. 9.279/96) traz as situações caracterizadoras do
crime de concorrência desleal. Está lá no art. 195. Não. Também não vou copiar. E fica
a dica: é bom dar uma lida ele vez em quando.
Na esfera civil, a concorrência desleal é reprimida de duas for:mas: contratual •
(aquele que vende um estabelecimento e~presarial não pode se restabelecer, na mes-
ma praça, pelo prazo de 5 anos, sob pena de ter que fechar o seu novo estabelecimento
e ainda pagar as perdas e danos) e extracontratual.

Regime jurídico da livre-iniciativa 34


É fácil ver que há concorrência desleal quando a conduta é tipificada como crime.
Nesse caso, a indenização é devida e não há muita discussão. Mas a LPI determina que
atos não tipificados como crime, mas que prejudiquem a reputação ou os negócios
alheios, também podem gerar dever de indenização. Seria o caso da chamada concor-
rência desleal não criminosa.
Observe-se, contudo, que fica difícil a caractérização dela, uma vez que não exis-
tem critérios objetivos para sua aferição. '

2.1.1. Impedimentos ao exercício da atividade empresarial


Temos aqui mais um caso de proteção à ordem econômica: algumas pessoas sim-
plesmente não podem exercer empresa, ainda que capazes para os demais atos da vida
civil. A ideia é proteger quem vai realizar negociações com essas pessoas. Exemplo: o
falido pode voltar a falir e lesar seus novos clientes, então não o deixaremos exercer
atividade empresarial por um tempo.
Alguns exemplos dessas pessoas são, como dito, o falido não reabilitado, o conde-
nado por crime que vede o acesso à atividade empresarial antes da reabilitação penal,
o leiloeiro etc.
Mas calma lá: vamos supor que uma dessas pessoas exerça empresa e contrate
com outras pessoas. O que acontece? Ela não poderá alegar o impedimento para exi-
mir-se das obrigações assumidas.
Beleza?

2.1.2. Microempresa e empresa de pequeno porte


A Constituição manda privilegiar esse tipo de empresa. As regras estão na LC n.
123/2006.
Microempresa é aquela que aufere renda bruta anual de até R$ 36o.ooo,oo, e
empresa de pequeno porte é a que aufere renda entre esse valor e R$ 3.6oo.ooo,oo.
Não há capital mínimo ou rnáximo para a constituição dessas espécies de empresas,
mas deve-se observar os limiies acima. É necessário, ainda, que o empresário, além de
se enquadrar nos requisitos de valor, opte por esse tipo de empresa.
E se passar desses limite~? Aí, funciona assim: se uma ME tem renda bruta anual
s~perior à estabelecida, no ano seguinte ela é tida como EPP. Se uma EPP tem renda
bmta anual superior à estabelecida, já era. Perde a condição, ou seja, volta a ser tratada
comÇ> uma pessoa jurídica "normal" para fins de tributação e de normas trabalhistas.
Aqui entra a parte do Simples e do Supersimples, de que falamos no livro de Tri-
butário", mas não custa repetir.

2 PIMENTA, Luciana. Tributário para quem odeia tributário. São Paulo: Saraiva, zo 13.

35 Empresarial para quem odeia empresarial


o Simples, um regime espe-
Em 1996, com a publicação da Lei n. 9.317, foi criado
as pessoas jurídicas (ME e EPP)
cial de arrecadação de tribut os e contribuições no qual
es a terceiros (sistemaS) e da
optan tes desobrigam-se do recolh iment o das contribuiçõ
forma simplificada e unificada, o
contri buiçã o sindical, e ainda podem recolher, de
buições patronais.
lPl, o IRPJ, o PlS/Pasep, a Cofins, a CSLL e as contri
a EC n. 42/2003 passou a ser
O Simples funcio nou até julho de 2007, mas desde
os, e que deveria ser discipli-
possível optar por um regime que alcançasse mais tribut
nado por lei comp lemen tar.
criou o Supersimples. Tra-
Esse regime novo veio em 2006, com a LC n. 123, que
tributos. A opção por ele é uma
ta-se de um sistem a unificado de pagamento de vários
sas descritas nos incisos do art. 17
faculdade das empresas, mas não de todas. Às empre
é vedado fazer essa escolha. Aqui
da LC n. 123j2oo6, atuali zadap ela LC n. 128jzoo8,
dar uma olhad a na lei.
també m tem um mont e de gente envolvida; vale a pena

1
'Pw.n.!.o.. &te cap1l:,u1o. &d ~-Agora temos três alterna tivas:

a) prosse guimo s estuda ndo:


b) pulam os do sexto andar;
dormi r para ver se a dor
c) desliga mos tudo, fecham os os livros e vamos
de cabeça e a amarg ura passam .
e. Caso prefira a alterna -
Vou escolh er a te:rceir·a, n1as você fique à -.ontad
um bilheti nho dizend o que eu não tive
tiva b, por favor, lembre -se de deixar
acusad a de irstiga ção ao suicíd io é só o que
nada a ver com isso. Porqu e ser

....................................................................................
me falta nesta vida.

Regime jurídico da livre-iniciativa 36


,; ;:
/
\ ·-··- ·"

3. Me nos :

_QQr}g qçQ_~$:.Q_9'-~ITl pr~_$._4.d9,


' ' . . (,

....................
................................................................tenho
e uma pergun -
~- .flc.a& i de ltR1..eA CJ..:i do.iA, ~~
tam? Oue coisa mais depres siva! Sai pra lá, baixo as-
ta: como vocês me aguen
tral. Menos l
lhas, mas també m não é para
Tá certo que minha vida não está mil maravi
suicide i antes de termin ar o livro e
tanto. Daqui a pouco vão pensa r que eu me
ndo por mim. Ou que foi psico-
que outra pessoa começ ou a escrev er se passa
grafad o.
nunca mais dar a minha se-
Mudan do de vida hoje. Pr"rmeira provid ênóa:
tá salva lá. !=: meus livros també m. Tá
nha do Dropb ox para. ningué m. Minha v'rda
fácil fazere m um plágio.
livro triste, menti. A única tris-
!=:mais: quand o eu disse que este seria um
sou linda demai s para me impor tar
teza é a matér"ra mesmo , certo7 Passou. i=:u
com coisas peque nas. !=: modes ta també m.
desco brir um reméd io marav i-
Segun da provid ência: sorrir. ~- Acabe i de
o e sorria. Vai melhor ar, juro. !=:eu,
lhoso contra a depres são: olhe-s e no espelh
adoro meu sorriso . Tenho furinho s
ainda na minha modést'ra, devo dizer que
s! Devo me cons.rderar privile giada.
nas boche chas. Poxa vida, isso é para pouco
menos isso faz.
Se nada mais no mundo me faz feliz, pelo
. i=:scuro não leva a nada.
Tercei ra provid ência: abre essa janela, mulher
Deixa o sol entrar. !=: hoje o sol está lindo.
interes sa .
No mais, chega de enrola ção. Vamos ao que
....................................................................................
/:\-·
enqua drado nessa categoria,

'.·-
t'~\( __;-- - Vimos quem é o empre sário e falamos que, uma vez
ele passa a se sujeitar às regras do direit o empresarial
. Dentr o dessas regras, temos

i direitos e deveres. Legal.


Vamos agora ver os deveres desse serzinho: registro,
boraç ão dos balanços.
escrituração dos livros e ela-

\
~<
r·,
&uyuan1o- ~ i.M.o., vou listando alguns dos motivos que me fizeram per-
ceber que não e bom ficar alimentando a depressão. Um capuccino com :alda
de chocolate por cima e a borda da xícara melecada de Nutella. Não tem como
ficar triste depois disso! Tambem não tem como dormir. Mas, que alegra, a egra.
Recomendo.
r=aça como eu: poste uma foto dele no Twitter. Todo mundo vai acha lin-
do, vai querer tambern e vai falar com você por conta disso. [:você vai e~que­
cer um pouquinho da tristeza.

····················································································
3.1. Registro de empresas
3.1.1. Órgãos
As normas sobre essa coisa aí estão na Lei n. 8.934/94. Funciona assim: no âmbito
federal, temos o DNRC- Departamento Nacional ele Registro ele Comércio; no âmbi-
to estadual, as juntas Comerciais.
O DNRC é órgão ligado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comér-
cio Exterior. Basicamente, sua função é normativa (e não executiva): é ele quem diz
quem pode fazer o quê e como deve ser feito. Ele "cuida" das juntas Comerciais: é o
vigia; se as coisas não forem feitas da maneira correta, promove a representaç2.o às
autoridades competentes.
Quando falo de juntas Comerciais (vulgo )C), a primeira coisa que me vem à ca-
beça é fila. Lembro da época em que advogava num escritório em Bauru, quando per-
di boa parte da vida levando e trazendo o contrato social de uma escola que precisou
ser alterado com as mudanças trazidas pelo novo (oi?) Código Civil.
Mas isso não tem nada a ver. O lance das juntas é exatamente executar o registro.
É lá também que se faz a matrícula dos leiloeiros, tradutores públicos e intérpretes
comerciais.
O que pega é o seguinte: a subordinação da junta Comercial é híbrida. Ent2.o, se
se tratar ele matéria técnica, a junta se subordina ao DNRC; se a matéria for adminis-
trativa, a subordinação é ao governo do Estado onde ela se encontra (cada Es~ado,
obrigatoriamente, tem uma )C).
Outra coisa chata pra caramba em toda matéria e que entra aqui também é a com-
petência. Em regra, as ações que visam conhecer dos atos praticados pela )C correm na
justiça estadual. Mas, se se tratar de mandado de segurança, será competente a justiça
federal. Isso porque, como vimos, a )C está ligada ao DNRC, que é _órgão federal.
Valeu?
Última coisinha importante: a JC está adstrita aos aspectos de forma do reg:.stro.
Ou seja, ela só pode negar o registro se nãà tiverem sido cumpridas as formalidades, e
estas são sempre sanáveis. Foi exatamente por isso que eu tive que ir tantas vezes à

Obrigações do empresário 38
junta pra arrumar aquele bendito contrato social: toda vez faltava alguma coisa e eles
me mandavam voltar para corrigir.

Que. co.náfe-: eu eJLa ~e recem-contratada: não redigi o contrato.


Apenas funcionei como office-girl, ok? Tudo bem que desde aquela epoca eu odia-
va direito empresarial, mas daí a fazer serviço porco tem uma grande diferença.
....................................................................................
O que interessa é o seguinte: a junta analisa aspectos formais, não materiais.

3.1.2. Atos
Que tipos de atos são registrados? São três atos:
a) Matrícula
Esse é o nome do ato de inscrição de alguns profissionais que exercem funções
paracomerciais: leiloeiros, tradutores, intérpretes, trapicheiros e administradores de
armazéns-gerais.

····················································································
":J~" é uma.~ &ga.e, ni? t=u gosto.
....................................................................................
b) Arquivamento
Aqui estamos falando dos seguintes atos:
~ inscrição elo empresário individual e das cooperativas;
~ alterações contratuais das sociedades empresárias;
~ atos relacionados a consórcios de empresas e grupos de sociedades;
~ atos relacionados a empresas mercantis estrangeiras autorizadas a funcionar
no Brasil.
c) Autenticação
Relaciona-se com os livros comerciais. É o ato que dá regularidade ou ainda que
confirrria a correspondência entre cópia e original desses livros.

3.1.3. Processo decisório


Dois tipos: colegiado e singular. Para saber qual é qual tem uma listinha: deter-
minados atos são julgados colegiadamente, outros singularmente. Quando tem listi-
nha, fazemos tabelinha.

39 Empresarial para quem odeia empresarial


Uai. Mas não ia ser uma tabela? Cadê a coluna com a relação dos atos que são
decididos singularm ente? Para, né? Pra que complicar? Se não tá ali, então é singular.
Melhor gravar só essas que são mais fáceis ..
As juntas Comercia is têm dois tipos de órgãos colegiados: o plenário e as turmas.
O plenário tem de 11 a 23 vogais, que, na sessão inaugural , serão divididos nas turmas,
com 3 membros cada, e estas tomarão as decisões. O prazo para as decisões é de 5 dias.
Ultrapass ado este, o interessad o pode requerer o arquivam ento sem a decisã:o.
já as decisões singulares são tomadas pelo president e da junta ou por um vogal
por ele determina do, no prazo de 2 dias. . .
Mas e se eu quiser recorrer? Decidiram alguma c~isa na junta que me desagra-
dou. Não acho que foi feito certo. Vou lá e apresento um recurso. Quem vai julgar o
meu recurso? Os recursos serão julgados pelo plenário, ainda que o ato tenha se dado
inicialme nte sob o regime singular de decisão.

3.1.4. Empresa inativa


Então eu sou empresár ia e já fiz meu registro bonitinho lá na junta Comercial. A
lei me diz que se, no período de 1o anos, eu não fizer qualquer arquivam ento na junta
(uma alteração contratua l, por exemplo), preciso informar se ainda estou exercendo a
atividade ou não. Se eu não fizer' isso, a junta pode cancelar meu registro.
Ela me notifica (e pode fazer isso por edital). Se eu ficar quieta, já era. Eu me tor-
no uma empresár ia irregular. Mas, se eu não sou empresári a individua l e sim socieda-
de, isso não gera a dissoluçã o automátic a desta. Só fica irregular, mas não se dissolve.
Eu também perco a proteção do meu nome empresari al nesse caso.
Se eu quiser regulariza r minha empresa, terei que fazer como se fosse uma nova
constituiç ão, seguindo todo o procedim ento legal. Como eu perdi a proteção do
nome, se alguém registrou uma empresa com o mesmo nome que eu tinha antes, eu
me lasquei.

3.1.5. Empresário irregula r


Acabamo s de falar sobre uma das possibilidades de o empresár io se tornar irregu-
lar: quando o seu registro é cancelado pela junta. Outra possibilid ade é a de que o
empresár io nunca tenha feito o registro: ele é originaria mente irregular nesse caso.
Ok. Mas o que tem de ruim em ser irregular? Bastante coisa:
a) não pode pedir a falência de· um devedor (mas pode ter a sua falência requeri-
da e decretada e ainda requerer a própria falência);
b) não pode requerer recuperaç ão judicial;
c) não pode ter seus livros autentica dos na junta Comercia l (e, conseque nte-
mente, se tiver a falência decretada , incorrerá em crime falimentar);

Obrigações do empresário 40
d) se sociedade empresári a, sua responsab ilidade pelas obrigações sociais passa a
ser ilimitada;
e) impossibi lidade de participar de licitações na modalida de concorrên cia;
f) impossibi lidade de se inscrever no CNP), e as consequê ncias tributária s disso;
g) ausência de matrícula junto ao INSS.

3.2. Livros comerciais


Quase todo empresári o tem a obrigação de escriturar os livros comerciais.
Se eu disse quase, é porque já começam os com uma exceção: ME e EPP estão
dispensad as.
Acho convenien te ver esta parte bem devagarzi nho, porque não é tão simples
quanto parece. Olha só, estamos falando, em primeiro lugar, de três artigos juntos
' 1os.'V"m '
aqui: Código Civil, arts. 970 e 1.179, § 2.<?.; LC n. 123/2006, art. 26. Vamos ve- so
como estou de bom humor? Se eu estivesse no MSN agora, mandaria um sorrisinho
assim=). Adoro essas carinhas feitas com caracteres.
Código Civil:
•"Art. 970. A lei assegurará tratamento favorecido, diferenciado e simplificado ao em-
presário rural e ao pequeno empresário, quanto à inscrição e aos efeitos daí decorrentes".
"Art. 1. 179· O empresário e a sociedade empresária são obrigados a seguir um sistema
de contabilidade, mecanizado ou não, com base na escrituração uniforme de seus livros, em
correspondência com a documentação respectiva, e a levantar anualmente o balanço pa-
trimonial e o de resultado econômico. (... )
ff 2~ É dispensado das exigências deste artigo o pequeno empresário a que se refere o
art. 970".
LC n. 123/2006 (essa é a Lei da ME e da EPP):
':4.rt. 26. As. microempresas e empresas de pequeno porte optantes pelo Simples Nacio-
nal ficam obrigadas a:
I - emitir documento fiscal de venda ou prestação de serviço, de acordo com instru-
ções expedidas pelo Comitê Gestor;
Jj - manter em boa ordem e guarda os documentos que fundamentaram
a apuração
dos impostos e contribuições devidos e o cumprimento das obrigações acessórias a que se
refere o art. 25 desta Lei Complementar enquanto não decorrido o prazo decadencial e não
prescritas eventuais ações que lhes sejam pertinentes. (... )
ff 2~ As demais microempresas e as empresas de pequeno porte, além do disposto nos
incisos I e 11 do caput deste artigo, deverão, ainda, manter o livro caixa em que será escri-
turada sua movimentação financeira e bancária".
Certo. Como fazer a leitura conjunta desses artigos?

41 Empresarial para quem odeia empresarial


O Código Civil, tranquilo: pequeno empresário não precisa escriturar livros e fazer
os balanços. E quem é o pequeno empresário? Aquele que tem menos de 1,6om de altura?
Não.
A definição está na LC n. 123/2006 (art. 68): é o empresário individual caracteri-
zado como microempresa que aufere receita bruta anual de até R$ 6o.ooo,oo. Olha a
importância da lei atualizada aqui. Essa lei complementar foi alterada no finzinho de
2011. Até então, o limite era de R$ 36.ooo,oo. Agora mudou.
Ok. Pelo Código Civil, então, ele está dispensado das formalidades do art. 970.
Aí, vem o art. 26 dessa mesma LC, dizendo quais são as obrigações elas MEs e
EPPs optantes pelo Simples (já falamos do Simples aqui). O § 2~ desse mesmo artigo
fala das obrigações adicionais que têm as MEs e EPPs não optantes pelo Simples: elas
deverão manter uma escrituração simplificada. Aqui não há dispensa, mas apenas
simplificação.
Mas lembre-se: se entrar no conceito de pequeno empresário, não tem que fazer
nada. O Código Civil já dispensou. Não falei que era mais complicadinho do que pa-
recia? Continua comigo, porque tem mais. Devagar e sempre.
Vamos agora ver o art. 29, Vlll, ela mesma lei complementar:
"Art. 29. A exclusão de ofício das empresas optantes pelo Simples Nacional dar-se-á
quando:( ... )
VJJJ - houver falta de escrituração do livro caixa ou não permitir a identificação da
movimentação financeira, inclusive bancária".
Epa. Pera lá. Como assim vai excluir elo Simples aquele que não tiver escrituração
se o art. 26 tinha dito que os que estão no Simples não precisam escriturar?
É assim: as empresas sempre, sempre, sempre devem ter documentos que permi-
tam a identificação de suas atividades financeiras. A forma como elas farão isso não
interessa, mas terão que fazer.
Deu para entender? Ó: eu estou no Simples. Tenho que ter os meus documentos
todos certinhos lá. Não preciso fazer escrituração, mas isso não me exime da obriga-
ção de ter os documentos. Se eu não quiser ficar guardando tudo quanto é papelzinho,
eu escrituro. Se eu não quiser escriturar tudo no livro caixa, eu guardo tudo. Eu esco-
lho. De uma forma ou ele outra, tenho que ter tudo lá.
O livro em si não é obrigatório aos optantes pelo Simples, mas, ele alguma forma,
meus documentos elevem ser aptos a possibilitar essa fiscalização financeira.
Foi?
Resumo ela ópera elas MEs e EPPs:
.- optantes pelo Simples: dispensados da escrituração, desde que mantenham
documentação que permita identificar a movimentação financeira;
-II
._ não optantes pelo Simples: escrituração no livro caixa; f
._ pequeno empresário: dispensado 'de tudo. r
Ficou legal agora, né? Certo. Essa foi a exceção. Os demais empresários estão

Obrigações do empresário 42
obrigados a fazer a escrituração completa. Vamos ver agora as espécies ele livros em-
presariais.
Primeira informação: livros empresariais são espécie elo ramo livros do empresário.
No conceito ele livros elo empresário temos muito mais coisas, inclusive aquelas
determinadas pelo direito tributário. Livros empresariais, que estudaremos, são afetos
somente ao direito empresarial, e podem ser de dois tipos: obrigatórios ou facultativos.
Os livros obrigatórios são ele escrituração imposta aos empresários, sob pena de
sanções, inclusive na órbita penal (oi, direito penal... ainda te amo, tá?). Podem ser
comuns (todo mundo tem que fazer) ou especiais (somente determinada categoria ele
empresários tem que fazer). Bom exemplo de especial é o livro de duplicatas: todo
empresário que emite duplicata é obrigado a ter esse livro. Os que não emitem, logi-
camente, não precisam.
Livro comum só temos o chamado Diário. Esse aí não dá para fugir. Todo empre-
sário tem que ter. Geral tá incluído nesse dever.
Já os livros facultativos são aqueles que o empresário tem para melhorar o con-
trole ele sua atividade. Ele tem porque quer, porque acha legal, porque o contador
mandou fazer para poder cobrar mais caro, qualquer razão. Se não tem, não acontece
nada. Exemplos: livro caixa e livro conta corrente.
Todos esses livros elevem estar regularmente escriturados. Temos regras para isso
no próprio Código Civil (arts. 1.181 e 1.183): sempre em idioma e moeda corrente
nacionais, forma mercantil, ordem cronológica, seri1 espaços em branco, nem rabis-
cos, nem borrões, nem emendas, nem nada. Tipo aquelas regrinhas para fazer prova
ele concurso. Além disso, todo livro eleve ter termo de abertura e de encerramento, e
ser autenticado na Junta Comercial.

·····················································································
Pcuvia. p.aAa tJw.caA a4 pii.Pw4 do. te.dacLo. d.e.m &ia-· Já perceberam co mo es·
sas coisas sem fio comem pilha?
Momento estresse: não tem pilha palito. Tudo bem. O controle remoto da
televis§o pode ficar sem por alguns dias.
Momento estresse 2 (para mulheres): o dia em que você vai à manicure é
sempre o mesmo dia em que '{Ocê vai precisar trocar a pilha de alguma coisa.
E você vai estragar o seu esmalte. f=ato.
Respira. Concentra. Vai.
····················································································
; Se os livros não apresentarem todos esses requisitos, melhor nem ter, porque eles
não servirão para nada.
f Mas esses livros são livros mesmo, escritos a caneta? Aqueles livrões que parecem
r col.eção ele enciclopédia? Ainda existem enciclopédias? Bom, não. Não precisa. A lei
permite que os livros sejam substituídos por processos mecânicos ou eletrônicos, mas

43 Empresarial para quem odeia empresarial


precisam ter a autenticação da junta (sim, vai ter que imprimir). É admitida a micro-
filmagem para arquivamento, porque ninguém merece ter uma uma estante só para
colocar os livros, né? E também, olha que moderno, a escrituração pode ser feita em
"livro digital". Chique, né?
De todas as formas, os requisitos são sempre os mesmos.
Para efeitos penais (suspiros de amor), livros empresariais são considerados do-
cumentos públicos. '
Vamos ver agora as consequências das irregularidades na escrituração, que po-
dem ser civis ou penais (suspiros de novo).
Na esfera civil, um livro irregular perde a eficácia probatória. Isso implica o se-
guinte: vamos supor que haja uma ação de exibição d~ livro obrigatório contra um
empresário, e ele não tem esse livro ou o tem de forma irregular. Dançou, bebê. Os
fatos alegados dos quais o livro fariam prova serão tidos como verdadeiros, porque o
empresário não tem como fazer prova em contrário.
já que comentamos sobre a ação de exibição de livros, vamos falar um pouquinho
dela, só para matar a minha vontade louca de estudar direito processual civil.
Em regra, os livros empresariais estão acobertados pelo sigilo. Isso significa que,
ainda que em juízo, a lei traz as hipóteses em que haverá necessidade de exibição deles.
A exibição pode ser parcial (cópia da parte que interessa) ou total (retenção do
livro em cartório durante todo 9 processo). Perceptível que a exibição total é mais
"grave", né? Por isso, ela só pode ser concedida em algumas ações específicas (exem-
plo: questões relativas à sucessão, comunhão ou sociedade, administração ou gestão à
conta de outrem,falência). A parcial, não: qualquer ação que tenha por objeto assunto
relacionado pode conter seu pedido.
Importante: só na falência pode haver detenninação de ofício da exibição dos livros.
Outro importante: o sigilo dos livros não alcança duas pessoas, quais sejam, o
fiscal tributário e o fiscal do INSS. Se esses caras chegarem ao meu estabelecimento e
me pedirem para ver os livros, terei que mostrar, independentemente de ordem judi-
cial. Para qualquer outra pessoa, direi: "Amigo, conversa lá com o juiz".
Em direito penal, a consequência está na lei falimentar. É crime. Olha que inte-
ressante: enquanto o empresário bonito não está fazendo o livro, não há crime ne-
nhum. Só haverá se for decretada a falência dele. E só falência. Recuperação judicial
ou extrajudicial não entram aqui.
Fácil.
Última informação deste tópico: o empresário deverá guardar os livros comer-
ciais pelo prazo de prescrição das obrigações que estiverem escrituradas neles.

9-alia d.Ó. a ú.fii.ma ~' que é relativa aos balanços. Curtinho. Mais uma
dica de felicidade, e esta é clichê: viva perto de quem você ama. Batidão, todo

Obrigações do empresário 44
mundo sabe, mas poucos implementam. Não rola ficar perto de gente q~e te
faz maL de gente baixo-astral (sim ... fuja de mim quando eu est1ver depre), ou .
de gente que não tem nada a te acrescentar. .
~ :::]Uestão de energia. t:xiste, sim, esse lance, Se você está perto de quem
sente coisas boas, vai sentir coisas boas também. t: o contrário é mais verda·
deiro ainda: energia negativa é altamente contagiante.
!=alo por experiência própria.
Certo? Vamos terminar?
·····················································································
3.3. Balanços anuais
O empresário tem que fazer dois balanços por ano: o patrimonial e o de resultado
econômico. O primeiro demonstra tudo o que o empresário tem (incluindo seus dé-
bitos); o segundo demonstra os lucros e as perdas. .
Não ter esses documentos é considerado crime falimentar, e se aplicando aqm o
mesmo raciocínio: só será crime se houver decretação de falência.
Viu como era curtinho?

····················································································
~' wm ficenç.a. Vou ali ser feliz mais um pouquinho e já volto.
····················································································

45 Empresarial para quem odeia empresarial


4. Eu e minha insônia: ·<J~~~~'?';
··<·.::_··..<:·.·0

····················································································
1:i.owJ.e_ um tem{w- em que- eu ne.p.u.i a existência da insônia em minha vida.
Deitava cedo e ficava horas e horas fritando na cama, rolando para lá e para cá.
O lençol saía do colchão, o cobertor caía do chão, o travesseiro ficav~ com
"cheiro de durmo".
Devo dizer que amo de paixão esta expressão: "cheiro de durmo". i=az
parte da minha infância. Quando eu e meus irmãos éramos pequenos, minha
mãe costumava dizer que, ao acordarmos, tínhamos que lavar o rosto e escovar
os dentes para tirar o cheiro de durmo.
Enfim, essa coisa de negação não me pertence mais. Estabeleci um rela-
cionamento contínuo e duradouro com a insônia. Eu inclusive a alimento, to-
mando café ou energético depois das onze da noite.
Não adianta. Sou uma pessoa ela noite.
À noite é sempre mais fresquinho (e digo isso porque estamos no verão:
o frio da madrugada é triste), não tem telefone, não tem barulho ele carro na
rua, não tem televisão, não tem ninguém na internet para atrapalhar o meu
trabalho.
. Então, este livro é um tributo à noite. Grande parte de sua produção pro-
.. •
vavelmente acontecerá nas madrugadas.
Agora são exatamente 3 ela manhã. Tem feito um calor infernal durante 0
dia, mas estou bem tranquila sem suar aqui. O silêncio está maravilhoso. i'-1inha
pequena dorme como um anjo no quarto ao lado. Vizinhos todos em paz. Uma
harmonia linda.
E eu, sentadinha aqui na frente do computador, na companhia da minha
querida amiga insônia, escrevo. ·

Eu sei, a insônia não é boa: ela não me faz bem, e eu ·li em algum lugar
(provavelmente quem escreveu foi alguém que deita e dorme lindamente a
noite inteira) que grande parte elas pessoas que sofrem desse distt'1rbio do
sono também é portadora de depressão.
A minha depressão é frescura. A falta de sono não. Então, em vez ele ficar
desperdiçando meu tempo deitada na cama sem fazer nada, eu escrevo. Tema
de hoje: estabelecimento empresarial.

4.1. Conceito e natureza jurídica


Antes de mais nada, vamos sair um pouco do direito empresarial. Olha o nome
que eu dei a este tópico: conceito e natureza jurídica. O que é essa tal de natureza ju-
rídica que existe em tudo que é canto?
Assim: suponha que o direito é uma grande escola. Quando procuro. a natureza
jurídica, estou falando dos grupinhos que se formam: os nerds, as patricinhas, os es-
portistas e assim por diante. No direito, "quando se perquire a natureza jurídica de um
instituto, o que se pretende é fixar em que categoria jurídica o mesmo se integra, ou seja, de
que gênero aquele instituto é espécie"".
Ok. Feita essa digressão, vamos ver o conceito.
Estabelecimento empresarial é o conjunto de bens corpóreos e incorpóreos que
o empresário reúne para desenvolver a empresa. Sabe até o que integra o estabeleci-
mento, gente? Até o nome do domínio.
É o conceito dado pelo art. 1.142 do Código Civil:

''Art. 1.142. Considera-se estabelecimento todo complexo de bens organizado, para


exercício da empresa, por empresário, ou por sociedade empresária".
já com relação à natureza jurídica, achei bem legal o que foi dito pela professora
Andrea Russar Rachei: "Quanto à sua natureza, o estabelecimento comercial é considera-
do uma universalidade de fato formada por bens materiais e imateriais. Em outras palavras,
um complexo de bens cuja finalidade é determinada pela vontade de uma pessoa natural Ou
jurídica, o que o difere da universalidade de direito, que é composta por um complexo de
bens cuja finalidade é determin.ada por lei, como, por exemplo, a herança e a massa falida"'.
Envolve tudo mesmo: b~ns corpóreos, como o imóvel, as mercadorias em esto-
que, as instalações, os móveis e utensílios, máquinas, veículos etc., e bens incorpóreos,
como o ponto, a patente, a marca e outros sinais distintivos, a tecnologia etc. Tudo
isso organizado pelo empres*rio forma o estabelecimento empresariaL
E veja: se eu pegar separadamente o valor de cada um dos bens que o compõem
não vou chegar, somando tudo, ao valor do estabelecimento por inteiro. Isso porque
o elemento "organização" é o que dá valor ao estabelecimento. Por isso ele é protegido
pelo direito.

s CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de direito processual civil. 9· ed. Rio de Janeiro: Lumen )uris, 2003.
4 Disponível no Portal LFG: http:/fwww.lfg.com.br/public_htmljarticle.php?story=zoo8o8!913030082o.

47 Empresarial para quem odeia empresarial


Olha só que importante: não se confunde estabelecimento empresarial com o
patrimônio de uma sociedade. Eles podem coincidir, mas não são a mesma coisa. Os
bens de uma sociedade, por exemplo, que em nada se relacionam com seu objeto so-
cial, integram seu patrimônio, mas não o estabelecimento empresarial.
Importante também diferenciarmos o estabelecimento empresarial de outros
dois institutos:
~ Fundo de comércio: é o sobrevalor pago pelo adquirente do estabelecimento
empresarial em razão da organização dos bens (corpóreos e incorpóreos). É exatamen-
te esse fundo de comércio que faz nascer a clientela. Mais fácil entender com um
exemplo. Eu tenho uma padaria, mas quero vendê-la .. Achei um comprador. Se eu
somar o valor de tudo o que tenho na padaria vou chegar a um valor mais baixo do que
aquele que ela realmente vale, porque não estarei levando em conta o elemento "orga-
nização".
~ Ponto empresarial: é o local físico utilizado pelo empresário para a exploração
de sua empresa. A portinha. A casinha. A loja. Só. É um elemento do estabelecimento ,
mas não se confunde com este.

4.2. Alienação
O estabelecimento empresarial, pelo fato de ter valor econômico, responde pelas
dívidas do empresário. É por isso que certas regras devem ser observadas no momento
de sua alienação. .
Eu não posso, por exemplo, sair vendendo tudo o que tenho se estiver devendo na
praça. Meu patrimônio responde pelas minhas dívidas. Da mesma forma, o empresário
não pode simplesmente alienar o seu estabelecimento empresarial se tem credores.
Ao contrato de alienação do estabelecimento empresarial dá-se o nome de tres-
passe. Ele deve ser arquivado na junta Comercial e publicado na imprensa oficial, sob
pena de não produzir efeitos.
Olha como funciona: eu, empresária, quero alienar meu estabelecimento empre-
sarial.
Primeira pergunta: eu tenho credores?
Resposta 1: não.
Consequência: posso vender tranquilamente, sem perguntar nada a ninguém.
Resposta 2: sim (e isso é o normal, porque os empresários em geral firmam con-
tratos de longo prazo).
Consequência: preciso primeiro perguntar aos meus credores se eles concordam
com a alienação.
No caso da resposta 2, primeiro vou ter que notificar todos os meus credores da
alienação. Precisarei da anuência de todos eles para fazer o negócio, mas, se, após a
notificação, eles silenciarem pelos próximos 30 dias, considerar-se-á a anuência tácita.

Estabelecimento empresarial
E se eu não fizer isso e alienar a bagaça do mesmo jeito? Será considerado um ato
de falência, ou seja, uma atitude que autoriza meus credores a requerer minha falên-
cia. E mais: sea falência for decretada, a aliep~ção será considerada ineficaz: o credor
. poderá reivindic?-r o estabelecimento daquele que o adquiriu.
Certo. Peguei a anuência de todo mundo e alienei. O que foi alienado? Tudo. In-
clusive os débitos. Mas eu, que vendi, ainda vou ficar um tempo responsável por aque-
les débitos. Como assim?
Vendi minha lojinha de bijoux, mas a lojinha tinha uma dívida de s.ooo reais com
o banco. A dívida foi junto com a venda, mas o comprador não tem dinheiro para pa-
gar o banco. Nesse caso, o banco pode vir a cobrar a dívida de mim, a vendedora, por-
que por um tempo eu permanecerei responsável por ela.
Por quanto tempo? Um ano. Mas um ano contado a partir de quando? Se a dívida
estiver vencida na data da venda, um ano a partir da venda. Se não estiver vencida, um
ano a partir do vencimento.
Máster importante: dívidas trabalhistas têm privilégio, e podem ser cobradas
tanto do alienante c.omo do adquirente. São cobradas de quem tem mais dindin. E o
prazo aqui não é mais aquele de um ano. O alienante continuará responsável por essas
dívidas enquanto não prescrever o direito do empregado.
Máster importante também: nas dívidas tributárias o adquirente tem responsa-
. bilidade subsidiária ou integral pelas obrigações fiscais caso continue ou não a explo-
rar a atividade econômica.
Comprei uma padaria, que continuará sendo uma padaria. Os tributos não pagos
da antiga padaria passam para minha nova padaria. Mas, se a padaria que eu comprei
deixar de ser uma padaria, terei responsabilidade subsidiária: o fisco vai primeiro co-
brar do cara que me vendeu, e só se ele não puder pagar vai cobrar de mim.
Parte legal: se o estabelecimento foi adquirido em leilão judicial promovido em
falência ou recuperação de empresa, o adquirente se eximirá de todas as obrigações
preexistentes.
Para terminar essa coisa da alienação, é bom saber que em todo contrato de tres-
passe está implícita a cláusula de não restabelecimento . Significa que, salvo expressa
disposição contratual, o alienante, pelo prazo de 5 anos a contar do arquivallJento do
contrato de trespasse, não pode restabelecer-se fazendo a mesma coisa que fazia, con-
correndo com o adquirente.

Eei,q-a. 'PCI/.Ua riaá- 4 da manAã CU]OM1e eu juro que eu gostaria de dormir.


Mas nada de sono. Até porque tomei agora pouco uma xícara linda de co·
puccino. Agora meus olhos estão arregalados, meu corpo começa a sentir can-
saço e meu estômago dói.
Continuemos.

49 Empresarial para quem odeia empresarial


4.3. locação empresarial
Falamos lá no começo do tal do ponto empresarial, lembra? É o lugar onde a em-
presa é exercida. Bem tranquilo entender que o ponto é importante, né? Uma loja na
Avenida Paulista tem um acréscimo substancial ao seu valor se comparada à mesma
loja numa ruazinha sem saída num bairro afastado.
Vamos analisar essa loja na Av. Paulista. Se o empresário que exerce a empresa é
proprietário do imóvel, tranquilo. O problema aparece quando o imóvel é alugado.
Nesse caso, existem regras específicas para proteger o empresário. É fácil entender
por quê. Qlha só: fulano alugou, então, a portinha lá na Paulista para abrir a sua loji-
nha. Contrato de locação de, por exemplo, 3 anos. Ele demora 2 anos e meio para se
estabelecer ali (fazer seu nome, reformar a portinha, conquistar clientela). Aí, passa-
dos os 3 anos, quando o fulano está começando a ver seu lucro, o proprietário do
imóvel resolve não renovar o contrato de aluguel.
Não é justo, é?
A Lei de Locações instituiu a chamada renovação compulsória, ou seja, a impos-
sibilidade de o proprietário reivindicar o imóvel locado. Para tanto, três requisitos
devem ser preenchidos:
a) o locatário deve, necessariamente , ser empresário (individual ou socied<tde);
b) o prazo do contrato de locação deve ser de no mínimo 5 anos. No cálculo des-
se prazo, admite-se a soma de contratos renovados sucessivamente por acordo amigá-
vel, e o STF já sumulou o entendimento de que a sorna pode ser feita pelo sucessor ou
cessionário do locatário;
c) o locatário deve estar exercendo atividade empresarial do mesmo ramo pelo
prazo mínimo de 3 anos quando da propositura da ação renovatória. Considera-se que
esse é o prazo para que o estabelecimento agregue valor razoável ao imóvel.
No caso do tio que alugou a portinha na Paulista para abrir a sua loja, se ele está
lá há mais de 5 anos, exercendo há pelo menos 3 a mesma atividade, e se ele é empre-
sário, então o dono do imóvel não poderá reivindicá-lo. Se o fizer, o tio estará prote-
gido pela chamada ação renovatória.
O locatário tem um prazo para entrar com essa ação: entre 1 ano e 6 meses antes
do fim do contrato. E o prazo é decadencial: perdeu, já era.
I Esse direito do locatário não é absoluto. A própria Lei de Locações traz algumas
I

situações que afastam o cabimento da renovatória. Olha que bonita esta frase: "O di-
reito que se concede ao empresário no sentido de garantir-lhe a continuidade da explora-
ção de um imóvel locado não pode representar, jamais, o aniquilamento do direito àe pro-
priedade que o locador exerce sobre dito bem"·'.

5 COELHO, Fábio Ulhoa. Manual de direito comercial. 24. ed. São Paulo: Saraiva, 2012.

Estabelecimento empresarial 50
eAeq.a a Ml!. pn.élico-, ni? Ou ase chorei. Não, mentira.

Há uma ponderação de interesses aqui: direito de propriedade x direito de conti-


nuação da empresa. O que pesa mais? A resposta é: depende da situação. E as situa-
ções em que uma prevalece sobre a outra estão na lei.
O rol legal é exemplificativo, mas veja: o direito de propriedade é constitucioílal-
mente garantido. Sempre que ele for desprestigiado em decorrência da renovatória,
esta não poderá ocorrer.
O art. 72 ela Lei de Locações traz as situações que excepcionam o direito à r~>.no­
vação compulsória, especificando quais delas dão ao locatário o direito de ser indeni-
zado:
a) Reforma substancial no prédio locado: o locatário será indenizado se a refor-
ma não se iniciar no prazo de 3 meses da desocupação.
b) Insuficiência da proposta de renovação apresentada pelo locatário: quando
propõe a renovatória, o locatário é obrigado a apresentar proposta de novo aluguel.
Ficaria muito fácil se o locatário pudesse estipular qualquer valor e ainda assim o lo-
cador ficasse obrigado a renovar o contrato, né? Quero renovar, mas vou pagar cin-
quentão por mês. Ah, tá. E eu sou o Bozo.
Se houver discrepância entre o valor apresentado e o valor de mercado, o loca-
dor não estará obrigado à renovação contratual. E nem há que se falar em indeni-
zação aqui.
c) Uso próprio: a lei determina que o locador não pode impedir a retomada p:1:.?.
uso próprio se ele pretende explorar a mesma atividade empresariaL É o que está na
lei. Mas há entendimento no sentido de que tal proibição é inconstitucional , por ferir
o direito de propriedade. A solução, nesse caso, seria a indenização.
Ponto importante aqui é que esse inciso não se aplica ao caso de locação-gerên-
cia, que é aquela em que a locação compreende o prédio e também o estabelecimento
empresarial. Também não se. aplica às locações em shopping centers.
d) Transferência de estabelecimento empresarial existente há mais de um ano e
titularizado por ascendente, descendente ou cônjuge, desde que atue em ramo diver-
so do locatário: gera direito á indenização quando há desrespeito a essa ressalva (atu-
ação em ramo diverso).
,e) Proposta melhor de terceiro: o locatário terá a opção de cobrir tal propost:l,
mas, se não o fizer, o terceiro leva. Sem indenização aqui também.

4.4. Shopping center


Aqui a coisa muda. O empresário que decide atuar no ramo dos shopping center~
é diferenciado: o lance dele não se resume a alugar as lojas. Há todo um trabalho de

51 Empresarial para quem odeia empresarial


organização da distribuição dos produtos e serviços que compõem o complexo. Se-
gundo a ABRAS CE (Associação Brasileira de Shopping Centers), é "um centro comercial
planejado sob uma administração única, composto de lojas destinadas à exploração co-
mercial e à prestação de serviços, sujeitas a normas contratuais padronizadas, para manter
o equilíbrio da oferta e da funcionalidade, assegurando a convivência integrada e pagando
um valor de conformidade com o faturamento".
É diferente, por exemplo, de um empresário do ramo imobiliário: este simples-
mente faz as locações de prédios comerciais. O empresário do shopping deve organi-
zar o chamado tenant mix, que pode ser definido como o, estudo de mercado que re-
sulta num complexo de lojas dispostas e organizadas de maneira harmoniosa em um.
espaço comercial em função das atividades ali desenvolvidas. O objetivo, portanto, é
aumentar o número de clientes e elevar as vendas, sem que com isso haja aumento da
concorrência interna.
Por conta dessas peculiaridades, o direito acaba dando tratamento diferenciado
às locações ocorridas nesses espaços.
É certo que existe o direito de renovação compulsória dos espaços locados dentro
de um shopping, mas não se pode àdmitir que esse instituto se transforme num pro~
blema para o empresário que explora o shopping. Tendo em vista a relação lojista x
empreendedor, há quem chegue a afirmar que nem sequer existiria a natureza de lo-
cação entre essas pessoas.
Independentemente do nome que se adote, esse contrato tem mesmo caracterís-
ticas diferenciadas, por exemplo, a cobrança de uma taxa que pode ser equiparada a
um condomínio, chamada de taxares sperata. Em tese, essa taxa é paga em função das
vantagens que o lojista tem ao se estabelecer dentro do empreendimento. Também é
necessário que o locatário se filie à associação de lojistas, pagando a mensalidade res-
pectiva, que garante, por exemplo, despesas com publicidade.
É praxe pagar aluguel em dobro no mês de dezembro, por conta do aumento sig-
nificativo do movimento e das vendas decorrentes do Natal. Quase um décimo tercei-
ro, só que ao contrário. Outras taxas também podem constar do contrato.
A Lei de Locações proíbe, contudo, a cobrança de despesas extraordinárias de
condomínio, gastos com obras ou substituição de equipamentos modificativos do
projeto original e despesas não estipuladas em orçamento prévio.

Yneio. cAata eMa p.a;de-, ni? Melhor dizendo: meio chato este livro, né? Não
sei ... estou tendo a impressão de que quando escrevi sobre tributário me inte-
ressei pela matéria mais rapidamente. l.::m empresarial ainda não consegui
achar absolutamente nada· que me fizesse dizer: "Olha, isto é lega li". Talvez seja
porque já são 5 e meia da manhã.
!=alta só mais um item, depois vocês podem ir. t:u, pr-ovavelmente, vou
continuar aqui.

Estabelecimento empresarial 52
4.5. Aviamento
Aviamento é a aptidão que o estabelecimento tem para gerar lucro, decorrente de
atributos pessoais do empresário, ou da equipe) ou até mesmo da localização adequada.
É, na verdade{ uma característica do estabelecimento, e é inseparável dele. A jun-
ção do crédito e da cl(entela.

4.6. Comércio eletrônico


....................................................................................
9MW. muito.. fiim; eu.. a.nw. a 9nteJute.t. Não vivo sem. Só porque acabei de
reclamar que não tinha nada de legal aqui apareceu uma coisa. Um viva!
....................................................................................
Falaremos aqui do chamado estabelecimento virtual, no qual o acesso aos bens e
serviços, bem como todas as tratativas contratuais e pré-contratuais, se dão, exclusi-
\amente ou não, por meio de transmissão eletrônica de dados.
Os estabelecimentos virtuais podem ser de três tipos:
~ B2B (business to business): negociação entre empresários, cujo objeto são, em
regra, insumos. Aqui o direito empresarial domina: todas as regras se aplicam;
~ B2C (business to consumer): os internautas são consumidores. Aqui, aplica-se o
direito do consumidor;
~ C2C (consumer to consumer): o titular do site faz apenas a intermediação; os
negócios são feitos entre consunüdores. Bem fácil de lembrar de um, né? Não acho
que posso citar o nome, mas é um si te bem conhecido. O lance aqui é híbrido: entre o
dono do site e os internautas, direito do consumidor. Os contratos firmados pelos
consumidores entre si são regidos pelo direito civil.
Cada estabelecimento virtual tem seu nome de domínio, que tem uma função
técnica (interconexão dos equipamentos) e uma jurídica (identificação do estabeleci-
mento na rede).
Sobre este t~ma, é importante colocar aqui algumas informações a mais.
O comércio eletrônico é regulado pelo CDC, porque trata-se de operação típica
de consumo. Tem ainda o Decreto n. 7.962/13, que traz algumas regulamentações
buscando diminuir os riscos desse tipo de contratação.
De acordo com esse decreto, os sites devem trazer as informações do nome em-
presarial, inscrição do fornecedor, CPF ou CNPJ e o endereço físico e eletrônico. Os
produtos devem apresentar descrição de suas características, preço, se trazem algum
1isco à saúde ou segurança do consumidor e o preço, que deve incluir todas as despe-
sas acessórias, como frete ou seguro.
O consumidor poderá desistir da compra no prazo de 7 dias contados da assina-
tura da proposta.

53 Empresarial para quem odeia empresarial


ti-
m vir tamb ém info rmaç ões com o quan
Nas cham adas com pras coletivas, deve zaçã o da
vação do cont rato , praz o para utili
dade míni ma de cons umid ores para efeti ço com o
onsável tant o pelo prod uto ou servi
ofer ta e iden tific ação do forn eced or resp
pelo próp rio site.
···················· ···················· ·········
····················dúvid
···············mai.á- e<Lta fUVtie, exata ment e às sh4ü da manhã. Urna a vai
e~
não dorm iu?
disso, Lucia na Pime nta dorm iu ou
ficar etern ame nte no ar: depo is
vão come çar a se levan tar, eu j~ vou
Já que daqu i a pouc o as pessoas norm ais de levar mi·
ansa r um pouq uinh o até a hora
conti nuar acord ada? Ou vou desc
nha filha para a esco la?
Nunc a sabe rão.
·········
···········································································

54
! Estabelecimento empresarial
·._,,-.._
~:-I
>''"')
5. Pe sso as sã o fei as :

...................
................................................................. de repente tem a
é~ q,uando. você admira muito uma pess oa públi ca,
perto dela e perc ebe que na rea-
uinh o mais.
opor tunid ade de cheg ar um pouq não.
ente difer ente daqu ilo que pare ce ser. Não é legal
lidad e ela é comp letam
dece pcion ou, mas ·1sso me acon teceu
Óbvi o que não vou dizer quem me -
oa bem renom ada, que semp re me pare ceu um exem
recen teme nte: uma pess foi em
aráve l a um polít ico corru pto. Não
plo a ser segu ido. most rou-s e comp nte
hipot ética . mas sim relac ionad a diret amen te a mim. Cert ame
uma situa ção falas. t:
o conh ecim ento dos fatos e de suas
essa pess oa não sabe que eu tenh
tamb ém não vai saber.
um dia
oas são capa zes de ir? Será que
Me fez pens ar: até onde as pess
sim, cheia de amor -próp rio, em minh as
seja,
serei assim tamb ém? t:mbo ra eu do alguém.
eu anali sar se estou ou não ferin
atitud es semp re há espa ço para
estiv er
ma que me avise semp re que eu
Outr o dia pedi a uma pessoa próxi ela
mesm o que
cima das pessoas. t:spe ro
send o estúp ida ou pass ando por .
torna r uma delas
assim, e não quer o me
faça isso. Não gosto de pessoas
Mano Brow n já muito bem disse :
se falam.
"No mund o moderno, as pess oas não
pisam , se traem , se mata m.
Ao contrário,: se calam , se
a e da traiçã o.
fmba ralha m as cartas da invej
Copa, ouro e uma espa da na mão.
O que é bom pro si e o que sobra
é do outro,
tamb ém apod rece o esgoto".
Oue nem o sol que aque ce, mas que
Que cons te, a prop ósito : eu curto
rap.
tido
eu já tinha sido avisa da e já tinha
t:nfim , fique i desa ponta da. Mas o é
: o mund
próp rios olhos algum as vezes
opor tunid ade de ver com os meus
feio, e é form ado por pessoas feias.
nto .
ntro alguém difere nte, eu me enca
.........
...........................................................................
Acho que é por isso que, quan do enco
Vamos ao capítulo de hoje: nome empresarial.
Quanto ao conceito de nome empresarial, nem tem muito o que falar. É o nome
e em-
da empresa, ou seja, o elemento de identificação do empresário ou da sociedad
individua l, nome empresa rial e nome civil,
presária. Mesmo no caso de empresário
cada um tem uma proteção específica.
ou
Assim, não se confund e o nome empresarial com a marca, o nome de domínio
o título.
um .
A propósito, antes de entrarmo s especificamente no assunto, legal falarmos
pouquin ho sobre esses conceitos.
Marca é um sinal que serve para distinguir os produtos ou serviços de uma em-
ade
presa dos de outras empresas. Vamos ver melhor isso quando falarmos de propried
industria l (outro assunto superchato), então nem vou me estender muito.
Nome de domínio é o endereço eletrônico. É o www. Identifica o estabelecimen-
to virtual e permite que as pessoas cheguem a ele. É o endereço mesmo, o caminho
que você tem que percorrer para chegar a determin ado estabelecimento na net.
o
O título do estabelecimento é o elemento de identificação deste, enquant o
desig-
nome empresarial é o elemento de identificação do empresário. O título é uma
desenvol ve sua atividade , ao ponto comer-
nação que o empresário dá ao local em que
regra
cial. Não é obrigatório que o título e o nome empresarial coincidam, mas em
isso acaba acontecendo.
É assim: pode ser que o empresá rio opte por dar o mesmo nome a tudo
isso. Mas
juridicam ente de forma dife-
é importa nte lembrar que são coisas diferentes, tratadas
rente.
de-
Beleza. E o que é nome empresarial então? Eu só lembro que tem a firma e a
aprendi muito bem o que exatame nte é
nominação, mas, sinceramente, acho que não
nada de empresa rial
cada uma ou pra que serve. lsso não é novidade. Não aprendi
mesmo.
Antes de falarmos sobre cada uma das espécies de nome empresarial e elencar
existe
quem adota qual, olha só que interessa nte: vamos ver, mais para a frente, que
um tipo de sOciedade denomin ado sociedade em conta de participação. Essa é a única
que essa
sociedade que não adota nome empresarial. lsso porque ninguém pode saber
sociedade existe. É top secret.
Vamos entende r isso quando estudarm os os tipos societários. Por hora, basta
lembrar que sociedade em conta de participação não tem nome empresarial.
A firma é formada pelo nome civil do empresário ou dos sócios da sociedade em-
o objeto
presária. Sempre. O objeto social é facultativo. A denomin ação tem que ter
o (o
da empresa e pode ser formada ou pelo nome civil ou por qualquer outra expressã
famoso nome fantasia).
Quem vai usar qual?
._ Empresário individual: firma compost a pelo seu nome abreviado ou não;
._ Sociedade em nome coletivo: firma compost a pelo nome civil de um, alguns
deve
ou todos os sócios, abreviados ou não. Se não cànstar o nome de todos os sócios,
vir acompan hado dá: expressão "e companhia" ou "e cia.".
._ Sociedade em comand ita simples: firma compost a pelo nome de um, alguns
na fir-
ou todos os sócios comanditados. Sócio comandi tário nunca vai ter seu nome
forma, é
ma (sob pena de respond er ilimitada mente pelas obrigações sociais), e, dessa
obrigatória a presença da expressão "e companhia" ou "e cia." .
._ Sociedade limitada: essa aqui é dupla. Pode usar firma ou denomin ação, mas,
esta
em ambos os casos, deve ter a expressão "limitada" ou "ltda.". Se optar pela firn1a,
e, e, se não
será corcpost a pelo nome de um, alguns ou todos os sócios da sociedad
ou "e
constar o nome de todos, deve vir acompan hado da expressão "e companh ia"
cia.". Se for firma, não precisa constar o objeto, se for denomin ação precisa.
oo
._ Sociedade anônima : só pode ser denominação, obrigato riamente constand
no começo, meio ou fim
objeto social e também a expressão "sociedade anônimajs.a."
tam-
do nome ou a expressão "companhiajcia." no começo ou no meio do nome. Pode
para o
bém apresent ar o nome civil de fundadores ou pessoas que foram importa ntes
êxito da companhia.
das
._ Sociedade em comandi ta por ações: também pode usar qualque r uma
de sócios
duas, firma ou denomin ação. Se optar pela firma, só pode usar o nome civil
es so-
diretores ou administ radores que respond am ilimitada mente pelas obrigaçõ
o "e companh ia/e cia". Se optar por denomin ação,
ciais, e aí tem que constar a expressã
no nome empresa rial a locu-
deve ter o objeto social. Em qualquer caso, deve aparecer
ção "comandita por ações".
ME
Se for microempresário ou empresa de pequeno porte, deve acrescer as siglas
em
ou EPP, respectivamente, ao nome empresarial. Qualque r sociedade que estiver
.
recuperação judicial deverá acrescentar a expressão "em recupera ção judicial"
Legal saber também que nome empresa rial não é como o nome da gente, que é
rio ou os sócios da sociedad e quise-
praticam ente impossível de mudar. Se o empresá
a é obri-
rem alterar o nome, eles podem. Além disso, em algumas situações a mudanç
gatória:
a) nome empresarial do tipo firma, com nome civil de um sócio
que sai, morre,
se retira ou é excluído. Se o nome do fulano continua r lá, ele (ou seu espólio) continua
respond endo pelas obrigações sociais;
b) sociedade em comand ita simples, com firma em que constava
o nome do só-
, senão
cio comandi tado, mas esse se torna sócio comanditário. Tem que tirar também
continua respond endo;
c) sociedade em comand ita por ações, e o nome empresa rial é compost
o por
administ rativa.
nome civil de um sócio diretor ou adminis trador que deixa a função
Mesmo esquema: tira o nome ou continua responde ndo;

57 Empresarial para quem odeia empresarial


d) alienação de estabelecimento: o nome empresarial composto por nome civil
não é vendido junto. Pode, contudo, constar no contrato que o nome continuará o
mesmo, desde que seja acrescida a expressão "sucessor de";
e) transformação: uma sociedade pode mudar seu tipo. Se isso acontecer, deverá
obedecer às regras de nome empresarial referentes ao novo tipo adotado.
Ok.
O nome empresarial conta com proteção dupla do direito: protege-se a clientela
e também o crédito.
No primeiro caso, o direito cuida de não permitir que as pessoas contratem com
uma empresa que se passa por outra. No segundo caso, protege-se o próprio empresá-
rio, que poderia, por exemplo, ter seu crédito restrito em função de uma negativação
causada por outro empresário que usou o mesmo nome que o seu.
Então é assim: o nome empresarial é de uso exclusivo do empresário que o regis-
trou primeiro. Daí que até mesmo nomes que não são categoricamente iguais, mas
que apresentem semelhanças capazes de confundir os consumidores, não podem ser
usados.
Olha mais: se se tratar de nome fantasia, não basta que sejam diferentes as partí-
culas constantes do nome empresarial, por exemplo, "e cia." ou "ltda.". É preciso que
o núcleo do nome não seja idêntico ou semelhante. ·
Veja:
"Pimenta Comércio de Produtos Alimentícios Ltda." e "Sal Comércio de Produ-
tos Alimentícios Ltda." apresentam as mesmas partículas, mas não podem ser consi-
derados semelhantes, porque o núcleo é totalmente diferente.
"Pimenta Comércio de Produtos Alimentícios Ltda." e "Companhia Exportadora
e Importadora Pimenta" apresentam um monte de .partículas diferentes, mas o núcleo
é igual. Não pode.
Mas é bom saber que, se o nome empresarial for composto por nome civil, então
só será proibido se os nomes forem idênticos mesmo.
Só mais um detalhezinho pra terminar. Vamos falar, mais para frente, da marca e
da proteção que ela recebe. Mas acho legal, já aqui, fazer um quadrinho diferenciando
as regras relativas ao nome e as relativas à marca.

Proteção ,começa cçm Qregis!ro ~~.JurÍt~ Com~rçial :~~:.:. 4~fi\i:~sfEeÇ.i~~m~~r~9i~~~~~~t~~1j~ili.;:f;f

·:~:;~~~ ~~~~,s~~;~e~~i~:~~~~~~d~~~iãfu.sert:~~;:·-c·:-~~. _j~~t~~ã~ seE~~!m9:;:f~c~~-~se~;~}~~o7J:2~~\~~:~~ =


Proteção permanece enquanto o empresário ou a
sociedàde estiverem regularmenteregi~rados.

Nome empresarial 58
Aliás, sobre isso, rolou até um enunciado na I Jornada ele Direito Comercial (sim ...
existem Jornadas de Direito Comercial... e sim, eu também achei que Jornadas eram
exclusivas do Direito Civil).
Olha ele:
1. Decisão judicial que considera ser o nome empresarial violador do direito de
marca não implica a anulaçao do respectivo registro no órgão próprio nem lhe retira
os efeitos, preservado o direito de o empresário alterá-lo.

····························
·························································não
&.vdinPw- eM-e cuUu.nio-1 n.é.?
i=icamos por aqui, mas sem antes reproduzir
uma frase que uma pessoa muito querida (que, infelizmente, tem perdido espa-
ço na minha vida) postou numa rede social dia desses: "A busca pela sua felici-
dade não te dá o direito de cousor tristeza no outro".
i=ica a dica.

····················································································

59 Empresarial para quem odeia empresarial


propriedade industrial_

................................................... ............................... .
~

''Pw.nu.le- não. me. ~ o.d1a;, ~?''


Ouvi esse pedido hoje.
Suponha que eu conheço algUE'.m que é viciado em chocolate. 1'\ão vive
sem. Aí eu peço para essa pessoa não comer mais chocolate, porque o fato de
ela comer chocolate me deixa muito triste.
Issa pessoa sempre me disse que chocolate é a v· da dela. Relato~ a mim
todas as mentiras que já contou para poder continuar comendo chocolate sem
que ninguém soubesse disso. ~u sei de todas as suas 2rtimanhas e mer.tiras.
Mas ela aceita. ~ me diz que va1 parar de comer crocolate.
Não é compreensível que eu tenha dificuldade em acreditar de um dia
para o outro que ela realmente parou de comer chocolê:e? Ainda mais quando
ela mesma me diz que vai continuar rodeada de chocoiste?
~u quero muito acreditar, mas sei que existe serrpre a possibilidade de
essa pessoa voltar a ccmer um ou outro chocolate escondida de mim. Prova-
velmente eu nunca vou saber.
O pedido da promessa foi exatamente esse: a pessoa me odiou porque
eu insisti que ela se afastasse dos chocolates. ~ então pediu para eu não fazer
mais ISSO.

~u prometi. Mas, se algum dia ela vier a comer um chocolate, eu me sen-


-tirei a última pessoa do mundo por ter acreditado nela. ~ a possibilidade de
isso acontecer faz com que eu a ode'1e.
Prometo não te fazer me odiar, mas isso pode fêzer com que eu odeie
você.

O direito industrial é um sub-ramo do direito empresarial que cuida de quatro


"coisas": invenção, modelo de utilidade, desenhoindustrial e marca. É. Coisas mesmo.
.Não sei áinda o que são. Mas acredito que vamos saber em breve. Ou pelo menos pen-
?~.S(J que acredito. Meio descrente hoje.
Pronto. já descobri. São bens. Bens da propriedade industrial. Achei que eram
mesmo, mas não tinha certeza, então achei melhor não falar.
Emão é assii;n: toda vez que um bem imaterial e de valor econômico for objeto de
propriedade e, consequentemente, passível de apropriação por terceiros, haverá pro-
priedade industrial. O "dono" desse bem deve registrá-lo ou patenteá-lo para receber
a proteção: toda vez qÚe outra pessoa quiser explorar esse bem, deverá pedir autoriza-
ção ao "dono".
Esse bem integra o patrimônio do empresário.
A lei que cuida deles é a n. 9-279/96, Lei da Propriedade Industrial (LPI), e o seu
art. 5~ dispõe que os direitos de propriedade industrial são considerados bens móveis.
Olha lá: imateriais, mas móveis. Superchata de ler essa lei (e qual não é?), e bem com-
prida ta:nbém, mas tem praticamente tudo bem explicadinho lá .
Emão, para que eu seja protegida com relação aos bens imateriais que são patri-
mônio da minha sociedade empresária, tenho que me submeter a essa lei, registran-
do-os ou os patenteando.
Quem concede a patente ou o registro é uma autarquia chamada INPI (Instituto
~\/aciona! da Propriedade Industrial).
O livro que estou seguindo faz a divisão desse capítulo em patentes e registros, e
eu vou fazer da mesma maneira. Aliás, estou seguindo o Manual de direito comercial do
:?ábio Ulhoa Coelho (24!'. edição, Saraiva). Super recomendo!

6.1 . Patentes
Estamos aqui falando de invenção e modelo de utilidade. Esses são os bens paten-
teáveis.
Invenção é fácil de saber o que é. O próprio nome já diz: é qualquer coisa nova.
Modelo de utilidade, por sua vez, tem conceito na Wikipédia: "é o objeto de uso
prático suscetível de aplicação industrial, como novo formato de que resultam melhores
condições de uso Ôu fabricação. Não há propriamente uma invenção, mas sim um acrésci-
mo na utilidade de uma ferramenta, instrumento de trabalho ou utensílio, pela ação da
novidade parcial agregada. É chamada também de pequena invenção. No Brasil, o Modelo
de Utilidade se destina apenas a inovações em elementos físicos (vedada a proteção âe pro-
cessos), tais como utensílios, pequenos equipamentos etc.".
Certo. E o que precisa para que essas coisinhas aí sejam patenteáveis? Requisitos
(estão no art. 8~ da lei):
a) :.lovidade: nesse requisito entra a expressão "estado da técnica", bastante uti-
lizada na LPI.
Antes de mais nada, então, é bom saber que o tal estado da técnica abrange todos
os conhecimentos a que pode ter acesso qualquer pessoa, especialmente os estudiosos
de um assunto em particular. A lei diz que a invenção ou modelo de utilidade, para

61 Empresarial para quem odeia empresarial


que possa obter patente, não pode estar compreendido no estado da técnica. Quer
dizer que precisa ser desconhecido pela comunidade técnica, científica ou industrial.
lsso é a novidade.
b) Atividade inventiva: a coisa não pode ser óbvia demais. Tem que apresentar
um avanço, um progresso. Tá na lei também, arts. 13 e 14:

''Art. IJ. A invenção é dotada de atividade inventiva sempre que, para um técnico no
assunto, não decorra de maneira evidente ou óbvia do estado da técnica.
Art. 14. O modelo de utilidade é dotado de ato inventiva sempre que, para um técnico
no assunto, não decorra de maneira comum ou vulgar do estado da técnica".
;

c) Aplicação industrial: a coisa que eu inventei tem que poder ser produzida em
qualquer tipo ele indústria (art. 16). Não rola, por exemplo, eu inventar um creme ma-
ravilhoso que rejuvenesce horrores mas que só pode ser feito a partir de um composto
ativo encontrado na superfície ele Marte.
d) Não impedimento: aqui é decorebinha mesmo. A lei determina que algumas
invenções ou modelos ele utilidade não podem ser patenteáveis. Não tem muito o que
explicar. É o que está lá no art. 18 e fim ele papo. Como estou meio atordoada com essa
promessa ele não me odeie que eu te odeio, vou copiar logo, que é mais fácil pra mim
e pra você. Aliás, eu já tinha dito isso antes: essa matéria está todinha bem descrita na
LPL É só ler a lei, mas eu também já disse que odeio ler lei. Então vamos lá:

''Art. 18. Não são patenteáveis:


I - o que for contrário à moral, aos bons costumes e à segurança, à ordem e à saúde
públicas;
]J - as substâncias, matérias, misturas, elementos ou produtos de qualquer espécie,
bem como a modificação de suas propriedades físico-químicas e os respectivos processos de
obtenção ou modificação, quando resultantes de transformação do núcleo atômico; e
UI - o todo ou parte dos seres vivos, exceto os micro-organismos transgênicos que
atendam aos três requisitos de patenteabilidade - novidade, atividade inventiva e aplica-
ção industrial -previstos no art. 8'!. e que não sejam mera descoberta.
Parágrafo único. Para os fins desta Lei, micro-organismos transgênicos são organis-
mos, exceto o todo ou parte de plantas ou de animais, que expressem, mediante intervenção
i humana direta em sua composição genética, uma característica normalmente não alcan-
çável pela espécie em condições naturais".
Então, beleza. Inventei um bagulho qualquer. Passou pelos requisitos e tal, aí eu
vou lá no INPI pedir a patente. Aí tem todo um procedimentozinho (ou seria procedi-
mentinho?) interno, e, no fim, digamos que me concedam a patente. Legal. Estou
protegida agora. Para sempre? Não.
Patente ele invenção tem prazo ele 20 anos, e ele modelo ele utilidade prazo ele 15
anos, prazos esses que são improrrogáveis, e contados a partir do dia em que eu fiz o
'
I. Propriedade industrial 62
pedido. Isso porque o tal procedimentozinho pode demorar anos para terminar. Mas
olha só que interessante o parágrafo único elo art. 40 da lei:
''Art. 40. (. .. )Parágrafo único. O prazo de vigência não será inferior a I o (dez) anos para
a patente de invenção e a 7 (sete) anos para a patente de modelo de utilidade, a contar da
data de concessão, ressalvada a hipótese de o INPI estar impedido de proceder ao exame de
mérito do pedido, por pendência judicial comprovada ou por motivo de força maior".
Isso quer dizer o seguinte: ainda que o proceclimentozinho (gostei dessa palavra!)
demore, no caso da invenção não pode demorar mais que 1 o anos e no caso de mode-
lo ele utilidade não pode demorar mais que 8 anos.
Tem um lance aqui que se chama licença compulsória. É o seguinte: eu patenteei
meu bagulhinho lá. Legal. Em tese, só eu posso explorar esse bagulho. Mas aí eu, mui-
to esperta, começo a dar uma ele malandrona praticando abuso do poder econômico
ou dou uma ele lesada e não exploro economicamente o negócio que patenteei, em 3
anos da concessão da patente.
Alguém que percebe isso e tenha interesse e capacidade de explorar economica-
mente o bagulhinho que eu patenteei pode requerer, então, a licença para explorar. Eu
vou poder me defender, tentando demonstrar que não é caso de concessão de licença
compulsória (art. 69).
Eu perdi. O requerente ganha o direito ele explorar minha invenção ou modelo ele
utilidade. Aí, ele tem que começar a explorar o negócio no prazo de 1 ano, e, se não fizer
isso nesse prazo, eu posso ir lá e requerer a cassação d::t licença que foi concedida a ele.
Essa licença compulsória também pode ser concedida de ofício, em caso ele emer-
gência nacional ou interesse público. Aqui, a licença será temporária e não exclusiva.
A licença compulsória, portanto, faz extinguir a patente. Mas, além dessa, as situ-
ações abaixo também geram a extinção:
._. renúncia aos direitos industriais (desde que não prejudique terceiros);
._. falta de pagamento da taxa devida ao INPI (você achou que era de graça?);
._. falta de representante no Brasil, quando o titular mora em outro país.
E eu começo a sentir agora o peso da promessa que fiz. Odeio sentir ódio.
;

6.2. Registro industrial


São registráveis o desenho industrial e a marca.
Desenho industrial, também segundo a Wikipédia, é a configuração, concepção,
elaboração e especificação de um artefato. Essa é uma atividade técnica e criativa, normal-
mente orientada por uma intenção ou objetivo, ou para a solução de um problema. Simpli-
ficando, pode-se dizer que design é projeto.
,Os requisitos para o registro do desenho industrial são três:
a) Novidade: mesmo esquema das patentes.
b) Originalidade:

63 Empresarial para quem odeia empresarial


'1\rt. 97· O desenho industriàl é considerado original quando dele resulte uma confi-
guração visual distintiva, em relação a outros objetos anteriores.
Parágrafo único. O resultado visual original poderá ser decorrente da combinação de
elementos conhecidos".
c) Não impedimen to: aqui também tem um rol de coisas que não podem ser
registradas, como as que forem contrárias à moral ou aos bons costumes, e as formas
comuns ou vulgares. Art. 1 o o da lei. Dá uma lidinha lá. já copiei artigos demais aqui.
O registro do desenho industrial tem prazo de 1o anos e pode ser prorrogado por
três vezes sucessivas, mas as prorrogaçõ es só duram 5 ai10s cada.
....................................................................................
e eu ~ q,u.e. e.4l,ou com uma PwMw.e.e CUJOML· ~ domingo. Quase
caJw,
uma da manhã, e eu ainda não digeri essa hi~tória do chocolate (que, obvia-
mente, não passa de uma metáfora). t:stava agora mesmo conversand o com a
tal pessoa. Terminamos comigo dizendo: "relaxa, tá tudo bem", mas eu sei que
não tá muito bem.
Sei bem que o que essa promessa parece ser. De qualquer forma, eu sem-
pre soube onde tudo isso ia dar. Questão de tempo.

Marca é o sinal que identifica produtos ou serviços, mas a lei traz duas outras
e
categorias de marcas (art. 123, li lll). São elas:
.,_ marca de certificação: é aquela que atesta que um produto ou serviço atende
a determinad as normas de qualidade. Exemplo clássico é o ISO.
.,_ marca coletiva: identifica que determinad o produto ou serviço é fornecido
por membros de determinad a entidade, em geral associações de produtores de deter-
minado setor.

:JIUUUfUil!.o. ali cu:yui, ni? Já estamos acabando. Prometo. Mesmo porque, se


fosse demorar mais, eu certamente enfiaria uma tonelada de chocolate na fuça
de alguém. t: estou sendo bastante singela com a expr·essão "fuça".

Vamos.ver agora os requisitos para o registro da marca:


a) Novidade relativa: epa! A novidade ganhou um adjetivo! Relativa. Significa
que o signo em si não precisa ser absolutame nte novo, mas deve ser utilizado pela
primeira vez na identificaçã o daquele produto ou serviço. Então, observe-se que o
registro da marca, a princípio, confere proteção apenas em determinad o segmento.
Olha só: vamos supor que eu deseje criar uma confecção e queira registrar como
marca a palavra Pimenta. Pode ser que já exista um refrigerante registrado com essa mes-
ma marca. Mesmo assim, vou poder fazer o registro, porque a novidade é relativa. Eu não
poderia fazê-lo, contudo, se já houvesse outra confecção com essa mesma marca.

Propriedade industrial 64
b) :"-!ão colidência com marca notória: algumas marcas são tão conhecidas que,
mesmo sem registro no INPI, são protegidas pelo direito. Assim, eu não poderia, por
exemplo, registrar minha confecção com a marca Nike, ainda que essa marca não te-
nha registro no Brasil.
Olha que legal o artigo:

'1\rt. 126. A marca notoriamente conhecida em seu ramo de atividade nos termos do
art. 6". bis (1), da Convenção da União de Paris para Proteção da Propriedade Industrial,
goza de proteção especial, independentemente de estar previamente depositada ou regis-
trada no Brasil.
J I~A proteção de que trata este artigo aplica-se também às marcas de serviço.
J 2~ O INPI poderá indeferir de ofício pedido de registro de marca que reproduza ou
imite, no todo ou em parte, marca notoriamente conhecida".
Mas observe que marca notória é diferente de marca de alto renome. Legal a ex-
plicação da professora Mariana Egídio Lucciola 6 :

A marca de alto renome é aquela conhecida no mercado de consumo em geral, que


. alcançou um patamar de grande reconhecimento e reputação positiva, sendo protegida em
todos os ramos de atividade, conforme art. 125 da Lei 9-279/96.
]á a marca notoriamente conhecida é aquela registrada em outro país, mas que possui
expressivo reconhecimento perante os consumidores. Nesse caso, a proteção estende-se ape-
nas ao seu ramo de atuação. É o que depreendemos da leitura do art. 126 da Lei 9-279/96.
Então é legal saber que a marca registrada goza de proteção em determinad o
segmento, e o titular do registro não pode tentar impedir a utilização de uma mesma
marca por outro empresário que não atue no mesmo ramo. A ideia é proteger o con-
sumidor: ele não pode ser confundido a ponto de "levar gato por lebre". A exceção é a
tal da marca de alto renome. Esta goza de proteção em todos os ramos da atividade
econômica, e quer:n decide pela concessão dessa proteção é exclusivamente o INPI
(nem mesmo o judiciário pode meter o bedelho aqui).
c) Não impedimen to: mesmo esquema aqui. Os impedimen tos estão no art. 124.
Dá uma olhada lá.
O registro da marca tem prazo de 1o anos e pode ser prorrogado infinitas vezes,
por iguais e sucessivos períodos. O pedido de prorrogaçã o deve ser feito no último
ano de validade do registro.
Se eu registrei a minha marca e não a utilizo no período de 5 anos, ou se eu paro
de utilizá-la pelo mesmo período, o registro caduca.

G Disponh·el em: <http:jj\\Ww.lfg.com.br/public_htmljarticle.php?story=20I002I919290S84>.

65 Empresarial para quem odeia empresarial


6.3. Softwares
Achei legal falar disso num tópico separado. A proteção dos softwares é feita pela
Lei n. 9.61 oj98.
Funciona assim: eu crio um software. Eu registro o meu software. E, então, a partir
do primeiro dia do ano seguinte, eu tenho direitos sobre ele, por 50 anos.
Esse registro, que é feito no próprio INPI, tem caráter internacional e abrange
tanto o programa em si quanto o seu título comercial.

····················································································
Wdo., genle? é iM,o. p.o-4 e.nq,uanto.. Até que a matéria em si não é tão chata.
Chata estou eu hoje. Desculpe. Vai passar, eu juro. Vamos mudar totalmente de
assunto agora. f=alaremos das sociedades. t: eu espero que outras coisas mu-
dem na minha vida também.
A pessoa que me pediu a tal promessa ainda não tem a real noção do que
me fez prometer. t:spero que não se arrependa. t: espero que eu não me arre-
penda também.
····················································································

Propriedade industrial 66
;
/
y·~.~·--:_,,:...v··

:~~;~;~
'\~i_);/
1. lemanjá: ... .:.-

teo~ja geral do direito societário

Jem uma. trnÍ4ica da 6ancl.a ~' um reggaezinho bem gostoso de


ouvir, que faia assim: "/emanjá, vem lavar a nossa fé ... ".
Sempre gostei desse som, embora não soubesse, até agora há pouco,
quem é, de fato, lemanjá. São Google me ajudou. Descobri agora que, para os
africanos, le~anjá é a filha da dona do mar.
Cheguei ela praia há poucos dias, e sempre acreditei no poder do mar.
Literalments. lava a alma.
Momer.:o confissão de frescura: dessa vez eu não mergulhei. Tinha feito
escova prog~essiva há poucos dias, e, como meu cabeleireiro sempre fala que
eu devo usé' xampu sem sal, achei que não seria prudente enfiar a cabeça na
água salgada. Não tem nada a ver, provavelmente, mas, pelo sim, pelo não,
.i achei melhor não arriscar. t:ssas coisas que deixam o cabelo da gente liso cus-
/ ""''· _/;
., ' ....... tam carol
·~ ... --- -; t:nfim, clondoquices à parte, voltei revigorada. O mar sempre me faz bem.
t: melhor aida foi ver a minha pequena completamente fascinada com a praia,

(E/~J
pulando ondas e fazendo castelo de areia. O sorriso dela não tem preço. !=oi;
sem dúvida, uma das melhores viagens que já fizemos.
Quando chegamos ao hotel, ela reparou numa plaquinha pen'durada no
·~-:.. ·.. ::.. t .. - quarto dizendo que era proibido fumar ali. Sem pensar, olhou para mim e disse:
"Mamãe, podemos fazer uma plaquinha de proibido cara feia também?". Achei
sensacional.
Deixei no mar muita coisa ruim. t:spero que lemanjá não tenha ficado bra-
va comigo. Acho que não ficou não, porque em troca me deu disposição e
momentos ímpares na presença ele quem eu amo incondicionalmente: minha
filha e meus pais.
Como na música, lavou a minha fé. Mais do que nunca, agora eu acredito
em muitas coisas. Outras, eu simplesmente ignoro.
Vamos começar fazendo um resumão para saber onde exatamente estão associe-
dades empresárias.
As pessoas jurídicas, no ordenamento jurídico brasileiro, dividem-se em dois
grandes grupos: de direito público e de direito privado.
São pessoas jurídicas de direito público a União, os Estados, o Distrito Federal, os
Municípios e as autarquias, e estas são regidas pelo direito administrativo. As demais
são todas de direito privado.
As pessoas jurídicas de direito privado são ainda subdivididas: podem ser estatais
(sociedades de economia mista e empresas públicas) ou pão estatais (fundações, asso-,
ciações e sociedades).
As sociedades sofrem mais uma subdivisão: podem ser simples ou empresárias.
Pronto. Chegamos.
O que diferencia uma sociedade simples de uma sociedade empresária é a forma
como o seu objeto é explorado, e isso nós vimos lá no comecinho, quando conceitua-
mos a atividade empresarial. Então é empresária a sociedade que exerce atividade eco-
nômica de forma organizada para a produção ou circulação de bens e serviços.
Mas é bom lembrar que as cooperativas sempre serão sociedades simples e as
sociedades por ação sempre serão empresárias, independentemente da forma como
explorem seu objeto. Determinação legal.
Isso tudo nós já vimos. Foi só um apanhado geral mesmo. Vamos aprofundar o
estudo das sociedades empresári'as agora.

7 .1. Personalização
A pessoa jurídica (sociedade empresária) não se confunde com as pessoas físicas
que a compõem (sócios). Isso é fundamental. Nem tem como tirar isso da cabeça.
Certo. Premissa número um fixada.
A partir daí, podemos dizer que a sociedade empresária, como pessoa jurídica que
é, pode praticar todo e qualquer ato ou negócio jurídico (lógico, desde que não exista
vedação legal para tanto). Ainda que quem assine o documento seja uma pessoa física,
quem se obriga, na verdade, é a sociedade. Mesmo em se tratando de Eireli, que é so-
ciedade com um único sócio, pessoa física e pessoa jurídica não se confundem.
Então a sociedade empresária tem personalidade jurídica própria. Essa é a pre-
missa número dois.
Da personalização das sociedade empresárias podemos extrair três consequên-
cias:
a) Titularidade negociai: os negócios firmados pela sociedade obrigam somente
a ela. Como eu disse: ainda que tenha sido um tiozinho pessoa física que assinou o
contrato, não é ele que integra um dos polos da relação negociai, mas sim a própria
pessoa jurídica.

Teoria geral do direito societário 68


b) Titularidade processual: as eventuais demandas que venham a surgir cujo ob-
jeto sejam as relações negociais firmadas pela pessoa jurídica serão propostas pela ou
contra a própria pessoa jurídica. Sociedade empresária tem capacidade para ser parte
em processo. É ela, pessoa jurídica, inclusive, que outorga mandato, recebe citação e
intimação, contestá, recorre.
c) Titularidade patrimonial: o patrimônio da pessoa jurídica é próprio, e não se
confunde com o patrimônio pessoal de cada um dos seus sócios. Então, via de regra, é
o patrimônio da sociedade empresária que responde pelas obrigações assumidas por
da. Há exceções, em que os sócios respondem com seu patrimônio pessoal, mas isso
veremos mais adiante.
A pessoa física tem sua personalidade extinta com a morte. A pessoa jurídica,
para extinguir-se, deve passar por todo um procedimento, denominado dissolução.

7.2. Classificação das sociedades empresárias

7 .2.1. Quanto à responsabilidade dos sócios


Falamos que as sociedades empresárias têm patrimônio próprio. É exatamente
·esse patrimônio que garantirá o cumprimento das suas obrigações. Assim, fica fácil
verificar que a responsabilidade dos sócios é sempre subsidiária. Sempre, sempre. Isso
quer dizer que, em qualquer caso, primeiro se busca o adimplemento das obrigações
sociais pelo patrimônio da sociedade. Somente depois de exaurido este, e em casos
determinados, pode-se alcançar o patrimônio dos sócios.
Esse é o chamado benefício de ordem, regra prevista no art. 1.024 do Código Civil:
'l<\.rt. 1.024. Os bens particulares dos sócios não podem ser executados por dívidas da
:ociedade, senão depois de executados os bens sociais".
Importantíssimo esse artigo.
Então é assim: vamos supor que uma sociedade esteja devendo 1oo.ooo reais a
um banco. Não pagou, o banco executa. A execução vai recair sobre o patrimônio da
pessoa jurídica. Mas este não é suficiente para pagar a dívida toda. Aí sim o banco vai
poder cobrar o que falta dos sócios. É justamente aqui que entra a classificação que
estamos vendo.
Em algumas sociedades a responsabilidade dos sócios será ilimitada, ou seja, o
banco vai tomar deles tanto quanto baste para a satisfação integral da dívida. Em ou-
tros tipo de sociedade, o banco só vai poder tomar determinado montante.
De acordo com esse critério, as sociedades podem ser classificadas em três grupos:
a) Sociedade ilimitada: todos os sócios respondem ilimitadamente pelas obriga-
ções sociais (sempre lembrando que isso só vai ocorrer depois de exaurido o patrimô-
nio da sociedade, tá?). Só tem uma sociedade em que isso ocorre: a sociedade em
nome coletivo.

69 Empresarial para quem odeia empresarial


b) Sociedade mista: uma parte dos sócios tem responsabilidade ilimitada, e ou-
tra parte tem responsabilidade limitada. Aqui temos dois tipos de sociedade: as em
comandita simples e as em comandita por ações.
c} Sociedade limitada: todos os sócios respondem de maneira limitada pelas
obrigações sociais.
E quanto é esse limite? Antes de responder a essa pergunta, temos que passar
pelos conceitos de subscrição e integralização. Funciona assim: quando uma socieda-
de está sendo criada ou quando seu capital social está sendo aumentado, os futuros
sócios subscrevem uma parte. Ele vai lá e diz: esta parte aqui eu quero para mim. Com
isso ele ·se compromete a pagar o valor da parte que ele quer. Essa é a subscrição.
Quando efetivamente paga, ele integraliza a sua parte. Em resumo, subscrever é se
comprometer. integralizar é pagar.
Agora podemos ver os limites.
Sócios de sociedade limitada e sócios comanditários na sociedade em comandita
simples responderão com seu patrimônio pessoal até o valor total do capital social
não integralizado. Usando aquele mesmo exemplo da sociedade que deve 1 o o mil re-
ais ao banco. Suponha que essa sociedade tenha um capital social nesse mesmo valor,
mas que apenas metade disso esteja integralizada. O .banco então vai executar a socie-
dade, e, depois de exauridos seus bens, vai executar os sócios, que responderão com
seu patrimônio pessoal até o limite de so.ooo reais, que é o montante não integraliza-
do do capital social.
Ainda que a dívida seja maior, o banco só pode cobrar dos sócios esse valor. E
mais: ainda que um dos sócios tenha integralizado o total daquilo que subscreveu, se
. o outro não o fez, o banco pode cobrar desse um o valor não integralizado. Vai rolar
uma ação de regresso depois, mas aí não terá mais nada a ver com direito empresarial.
Agora, sócios de sociedade anônima e de sociedade em comandita por ações
vão responder com seu patrimônio somente até o limite daquilo que subscreveram
e não integralizaram. Não é mais sobre o total: cada sócio vai ser analisado particu-
larmente.
Mesma situação. Dívida de 1o o mil reais, sociedade executada, patrimônio insu-
ficiente. Ó banco vai cobrar dos sócios. Eu, que já integralizei tudo aquilo que subscre-
vi, não posso ser cobrada pelo banco. Mas o meu vizinho, que também é sócio, mas
ainda não pagou o valor subscrito, vai poder ser cobrado exatamente até o tanto qud
não pagou.

····················································································
.Al.i.áJ._ ~do. meu.~? !=alei bastante dele no livro de Tributário. ~le
1
continua morando aqui, e eu continuo mais bonita que ele.~ agora, além de ser
i feio, é caloteiro.
-····················································································
Teoria geral do direito societário 70
Conclusão importante: em qualquer dos casos, se o capital social estiver total-
mente integralizado, a responsabilidade pessoal dos sócios é zero. Cobra da socieda-
de; se não tiver patrimônio suficiente para pagar, já era.

7.2.2. Quanto ao regime de constituição e dissolução


Essa classificação é tranquila. Dois grupos:
a) Sociedades contratuais: são regidas, no que tange à constituição e dissolução,
pelo Código Civil, e seu instrumento constitutivo é o contrato social. São contratuais
a sociedade em nome coletivo, a sociedade em comandita simples e a sociedade limi-
tada. A participação societária aqui é denominada cota.
b) Sociedades institucionais: são regidas pela Lei das Sociedades Anônimas, e seu.
instrumento constitutivo é o estatuto social. São institucionais a sociedade anônima e a
sociedade em comandita por ações. A participação societária aqui é denominada ação.

7.2.3. Quanto às condições de alienação da participaÇão societária


A primeira coisa importante a saber é a seguinte: em algumas sociedades, as ca-
racterísticas pessoais de cada sócio são importantes. Em outras, não. .
Pense numa sociedade pequena, com três sócios. É plausível que os três se..consi-
derem mutuamente pessoas honestas e de confiança. São eles que vão cuidar da socie-
dade, portanto é imprescindível que as características de cada um sejam levadas em
consideração. .
Agora pense numa sociedade gigantesca, com 2.000 sócios. Neste último caso, o
que realmente importa é que cada um pague a parte que subscreveu no capital social.
Não interessa se cada um é honesto, rico ou bonito. Mesmo porque aqui o sócio (e
estamos chamando de sócio ele maneira não técnica, ok?) nem vai efetivamente parti-
cipar de nada. Ele só quer receber seu lucro e mais nada.
Preste atenção: falamos antes que a participação societária pode ser chamada de
cota ou de ação, a depender de ser a sociedade, respectivamente, contratual ou insti
tucional. Certo. A tal participação societária é patrimônio do sócio, e não da socieda-
de. Assim, é possível que ele, sócio, aliene essa parte de seu patrimônio. O adquirente,
por conseguinte, torna-se sócio.

Gu ~ q,uando. acPw. e.upv, para usar expressões como "por conseguinte".


....................................................................................
No primeiro exemplo, para que um dos sócios aliene sua participação societária
a um terceiro, é necessário que os outros dois concordem. No segundo caso, não. Fi-
cou fácil visualizar agora?
Legal.

71 Empresarial para quem odeia empresarial


A divisão aqui é a seguinte·:
a) Sociedade de pessoas: os sócios podem impedir que um estranho integre o
quadro social.
b) Sociedade de capital: a participaçã o societária pode circular livremente (o só-
cio pode vender pra quem quiser sem ter que pedir autorização pra ninguém).
Então veja as consequências dessa classificação:
Nas sociedades de pessoas, além de ser necessária a anuência dos demais sócios
quando da alienação, por um deles, da participação social, não é possível que recaia
penhora sobre tal participação. O pensament o é o mesmo: não é qualquer um qué
pode ingressar na sociedade. Os outros sócios devem anuir para que isso aconteça.
Então, penhora não rola.
Outra coisa: naquele mesmo exemplo da empres~ dos três sócios, ~m morreu.
Para que o herdeiro possa assumir o seu lugar, os sócios devem também anuir. Sem a
anuência, extingue-se parcialmen te a sociedade.
Nas sociedades de capital, entra qualquer um, sai qualquer um, pode penhorar,
pode haver sucessão causa mortis.
Sociedades institucionais são sempre de capital. já as contratuais podem ser de
capital ou de pessoas.

7.2.4. Quanto ao número de sócios


As sociedades podem ser uni pessoais ou pluripessoais.
Ok. É importante saber que existem apenas dois tipos de sociedades com um
sócio só: a subsidiária integral e a Eireli.
Da Eireli já falamos. E da subsidiária integral vamos falar quando tratarmos de
sociedades anônimas.

····················································································
J~ e.M.e. funce- CÍ<14 ~- ~também ficou bem fácil ver o
quanto a praia me fez bem. ~stou mais tranquila, sem depressões paralelas,
sem reclamar da vida.

Até Vinicius de Moraes já cantou para lemanjá. Olha que beleza. Da prÓ·
.xima vez que eu for à praia, vou oferecer uma flor para ela.
····················································································
7.3. Sociedade irregular
Lá atrás, quando tratamos do empresário individual, dissemos que uma das
obrigações deste é registrar seus atos constitutiv os na junta Comercial. As socieda-
des empresária s têm a mesma obrigação, sob pena de, não o fazendo, tornarem-s e
irregulares.
O Código Civil chama essas sociedades irregulares de sociedades em comum, e a
elas se aplicam as mesmas sanções aplicadas ao empresário irregular (nem vem que eu

Teoria geral do direito societário


72
não vou copiar tudo de novo! É só olhar lá nos primeiros capítulos), acrescidas de uma
específica: os sócios responderã o sempre ilimitadamente.
É o que diz·o art. 990 (que está no capítulo chamado Da Sociedade em Comum),
e, já que eu não copiei as sanções aqui, copio o artigo (sim, sou legal):
'1\rt. 990. Todos os sócios respondem solidária e ilimitadamente pelas obrigações sociais,
excluído do beneficio de ordem, previsto no art. 1.024, aquele que contratou pela sociedade".
Viu que tem máis coisas do que eu disse? Além de todo mundo responder ilimi-
tadamente, aquele espertão que contratou pela sociedade (o que assinou o documen-
to) responde diretament e, ou seja, o credor nem precisa buscar o patrimônio da socie-
dade antes: pode ir de cara no patrimônio pessoal desse sócio.

7 .4. Desconsideração da personalidade jurídica

~: na primeira vez em que fui fazer concurso para a


l1.wt.c.a u.o.u me
magistratura de SP, prova n. 181, peguei a prova e a primeira questão era sobre
esse tema. ~u sabia. Marquei a certa. Mas passei errado para o gabarito.
Oue burra, dá zero pra ela.
O tema é legal. Vamos lá que depois disso acaba este capítulo, valeu?

Vimos que o patrimônio da pessoa jurídica não se confunde com o patrimônio


dos sócios. Certo.
Mas dá uma analisada comigo em algumas situações.
a) Eu sou sócia administra dora de uma sociedade, mas não tenho poderes, por
exemplo, para comprar imóveis em nome da sociedade sem a anuência dos demais
sócios. Ainda assim, vou lá e compro uma casa na Ri viera de São Lourenço pela socie-
dade. Não pago, e o cara que me vendeu executa a sociedade, que também não tem
patrimônio suficiente para saldar a dívida. .,
b) Eu alieno um estabelecim ento empresarial (trespasse). Assumo, com isso,
uma obrigação de não fazer, materializada na cláusula de não restabelecimento. Ou
seja: pelo prazo de 5 anos a contar do arquivamen to do contrato de trespasse, não
posso me restabelecer fazendo a mesma coisa que fazia, concorrend o com o adquiren-
te. Para burlar essa regra, crio uma pessoa jurídica e volto a exercer a mesma atividade.
Nas duas situações, percebe-se que, a rigor, não tem nada de errado: a pessoa jurí-
dica não tem nada a ver com a pessoa física. Quem assumiu a obrigação, no primeiro
caso, foi a sociedade, e quem tinha dever de não fazer, no segundo, era a pessoa física.

73 Empresarial para quem odeia empresarial


Mas não dá para nega r que tá rolan do uma
treta aí, né? Fraude!
Nesses casos, pode o juiz desc onsid erar
a personalidade jurídica da sociedade e
ating ir diret amen te a pessoa física.
Olha que boni to o art. 50 do Código Civil
:
"Art. 50. Em caso de abuso da personalidade
jurídica, caracterizado pelo desvio de fi-
nalidade, ou pela confusão patrimonial, pode
o juiz decidir, a requerimento da parte, ou
Ministério Público quando lhe couber intervir do
no processo, que os efeitos de certas e deter-
minadas relações de obrigações sejam estendidos
aos bens particulares dos administradores
ou sócios da pessoa jurídica".
O juiz (e só o juiz) pode, quan do cons tatad
a a existência de fraude (desvio de fi-
nalidade ou conf usão patrimonial), simp
lesm ente igno rar a tal da auto nom ia patri
mon ial da sociedade, e nesse caso responsab -
iliza, diret a e ilimi tadam ente, o sócio que
deu causa a tal fraude.
A sociedade cont inua existindo; ela não
some. Som ente naqu ele aspecto em es-
pecífico ela é desconsiderada. Assim, no exem
plo em que a sociedade da qual sou sócia
com prou a casa na Riviera, eu, Luciana
Pime nta, pessoa física que prati cou os atos
com abuso, é que vou ter que pagar.
Aplica-se, aqui, o princípio da preservaçã
o da empresa',"que não será necessaria-
mente atingida por ato fraudulento de um de
seus sócios, resguardando-se, desta forma, os
demais interesses que gravitam ao seu redor,
como o dos empregados, dos demais sócias, da
comunidade etc.".
Fácil, né?
Só mais um detal hezin ho: o Código Civil
adot a a cham ada teori a maio r da des-
consideração. Isso quer dizer que para que
ela seja aplicada é obrig atóri a a prova da
existência da fraude.
Em outro s ramos, com o o direito amb ienta
l e o direi to do consumidor, esse re-
quisito não existe. Basta com prov ar que a
existência da pessoa jurídica está causando
embaraços ao adim plem ento de uma obrig
ação para com o cons umid or ou o meio .•
ambiente. Pode nem sequer ter existido a :'
fraude. Essa é a cham ada teori a menor.

éiM.o-, m.útPta. g.ertk. Acon selho quem mora


nho de mar. ou pelo meno s molh ar
no litora l a ir agora toma r Lm ba-
os pezin hos na 'água. t:u, como ainda
'
estou
mora ndo no interi or e não conse gui
comp rar a casa na Riviera, vou cortin
uar ·
por aqui, de longe saud ando leman
já.
················································································
·····

7 COELHO, Fábio Ulhoa. Manu al de direito


comercial, p. 159·

Teoria geral do direito societário -


74
constituição e sÓcios. das
·sociedades contra. tua
·, is

····· ···············································································
:J.uv.ie de, v.ó-, ni? t:_ a gente demo ra para enten der o signif icado . Um
belo dia
você acord a e comp reend e tudo.
t:.u ainda não acord ei. Mas pelo meno
s já sei que estou dorm indo. Já
apren di que algum as coisas acon tecem
por razõe s espec íficas , e não adian
ta ir
contr a. Deixe estar, Jacaré: a lagoa
há de secar. Mais uma frase ele vó,
com o
mesm o signif icado .
t:u, etern a menin inha româ ntica que
~e esco nde atrás ele uma máscara de
mulh er-ma cho, tenho vivido no meio
-term o. Nada acon tece, mas tamb
ém não
tem nada parad o.
!=iz algum as opçõ es sem volta, mas
ainda não cheg uei a lugar nenh um.

posso, contu do, ver que algumas pesso
s~~ . tinua m duvid ando da minha capa cidad
as estão fican do dista ntes de mim:
con-
.......... -~ ;' e. mas já anelei basta nte e não ouço
a voz delas . Posso tamb ém ver o final ma1s
'\ elo camin ho. t:m breve eu vou estar
olhan do para trás e rindo de todas lá.
~~: .. -\. as vezes em que caí no camin ho. Cole
ciono
' .l, ~ "'· '·--.-\

'l·~~~
cicatr izes no joelho .
Aliás, não s6 no joelh o. A maio r da
coleç ão, agora, é a da barrig a. Bend
ita
seja a cirurg ia plástica. .
"-'\ !i.'~
················································································
· .. ~âmos lá. Falaremos das sociedades cont
····
ratua is (nom e coletivo, com andi ta sim-
les e limitada) e dividiremos este capítulo
em duas partes: primeiro vamos falar da
ons~ituição e depois dos sócios.

B.JJ Constituição das sociedades contratuais


Y- c.. ;c;,:;.~:>- Como próp rio nom e diz, as sociedades cont
\·(..~€;,J:jJt>~ontrato sociaL Trata-se de uma espécie peculiar deratuais são formadas através do
0

cont rato pluri


-.;~-:r lateral: os sócios
;~
)
.·. _:,...)
.
unem esforços para desenvolver )lma empresa, buscando o lucro. Desse contrato nas-
ce a pessoa jurídica, e, de cara, os sócios já têm para com ela uma obrigação: integrali-
zar as cotas do capital social subscritas.
Como todo e qualquer contrato, esse também tem requisitos, e o descumpr imen-
to deles pode gerar sua invalidação. Mas, como diria um amigo mineiro meu, "ói ki": a
invalidação do contrato não se confunde com a dissolução da sociedade. L
i
f
Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. Falei bastante isso no outro !
livro, mas se aplica aqui também.
Vamos fazer um quadrinho de diferenças:

Então tá. Vamos ver agora quais são os requisitos a que o contrato social deve
obedecer para ser válido.
- Passadinha básica pelas aulas:de direito civil, art. 104 do Código. Esse até eu lem-
bro ~e cabeça~ para ser válido, um contrato deve ter agente capaz, objeto lícito e forma
prevrsta ou nao defesa em lei.
Contrato social tem que obedecer a esses requisitos básicos também. Só é impor-
tant~ lem.br~r que, com relação ao sujeito, menor pode exercer a empresa,
desde que
est~Ja assr~tr~o ou representa do, não tenha poderes de administração
e que 0 capital
socral esteja mtegralizado. já vimos isso.
Além desses, existem outros dois requisitos específicos, quais sejam:
~ todos os sócios devem contribui r para a formação do capital integral;
e
~ todos os sócios participarão dos resultados da sociedade.
E o prescrito no art. 98 1 do Código Civil, veja:
"A~t. ~8 i. Celebram contrato de sociedade as pessoas que reciprocamente se
obrigam
a contrzbuzr, com bens ou serviços, para o exercício de atividade econômica e a partilha
entre si, dos resultados". '
Os resultados mencionados no artigo podem ser positivos ou negativos. Então
luc~o .ou pr~juí~o ~e~ão ~ivididos entre todos os sócios. Isso não quer dizer que estd
prorbrda a drstnbmçao drferenciada ou desproporcional dos lucros. O que não pode ·
um ou alguns sócios serem excluídos da distribuição deles. e
Legal.

Constituição e sócios das sociedades contratuais 76


Cabe menciona r ainda mais um requisito, não de validade, mas de existência do
contrato social. É a chamada affectio societatis, que nada mais é que a vontade dos só-
cios de se unir para a formação de uma empresa. Fácil visualizar que o requisito é de
existência, né? Se não houver essa intenção, o contrato nunca vai existir.
Vamos ver agora como esse contrato é feito, e o que ele precisa ter dentro dele.
L----- Qualquer coisa que diga respeito à sociedade ou aos sócios pode constar do con-
trato social, mas algumas cláusulas são obrigatórias.
A Lei n. 8.934/94, que dispõe sobre os registros de empresas mercantis, traz em
séu art. 35 o rol de "coisas" que não podem ser arquivadas na junta Comercial, e no
inciso lll temos os atos constitutivos de empresas em que não conste a designação do
capital social ejou da declaração precisa de seu objeto.
Então, de cara, sem isso não vai rolar arquivam ento do contrato social na junta.
Enfrentou a fila à toa. Volta amanhã.
Mas não é só. Além dessa regra, também há previsão no Código Civil de cláusulas
que são obrigatórias no contrato social. Esse artigo repete o que foi dito na Lei de
Registro de Empresas e complem enta. É autoexplicativo, nem tem muito que falar
wbre cada um dos incisos. Olha ele aí:
"Art. 997· A sociedade constitui-se mediante contrato escrito, particular ou público,
qlte, além de cláusulas estipuladas pelas partes, mencionará:
I - nome, nacionalidade, estado civil, profissão e residência dos sócios, se pessoas na-
rurais, e a firma ou a denominação, nacionalidade e sede dos sócios, se jurídicas;
11 - denominação, objeto, sede e prazo da sociedade;
111 - capital da sociedade, expresso em moeda corrente, podendo compreender qual-
quer espécie de bens, suscetíveis de avaliação pecuniária;
IV- a quota de cada sócio no capital social, e o modo de realizá-la;
V- as prestações a que se obriga o sócio, cuja contribuição consista em serviços;
VI - as pessoas naturais incumbidas da administração da sociedade, e seus poderes e
atribuições;
Vll - a participação de cada sócio nos lucros e nas perdas;
V111 -se os sócios respondem, ou não, subsidiariamente, pelas obrigações sociais".
Tem mais uma coisinha que precisa estar no contrato para ele ser válido. Regri-
nha que está no Estatuto da OAB: o contrato social deve ter a rubrica de um advogado.
1

····················································································
&tão-, meu amigo., depois que você se formar e passar na OA~. assim que
souber que alguém vai criar uma sociedade empresária , cola nele.~ a sua chan-
ce de ganhar um cascalho fácil.
····················································································
Por fim, como eu disse antes, qualquer outro assunto relativo à sociedade pode
constar do contrato, mas as demais cláusulas são acidentais. Podem estar lá ou não,
mas, óbvio, se estiverem, obrigam os contratan tes.

Empresarial para quem odeia empresarial


77
Beleza. Fiz meu contrato, o advogado assinou, agora tenho 30 dias para levar esse
contrato na Junta e requerer a inscrição. Mas lembre-se: o arquivamento dos atos
constitutivos é ato meramente declaratório e não constitutivo, ok? Já falamos disso.
Duvidinha tosca que surge aqui, mas que na verdade não é tão tosca assim: o
contrato tem que ser escrito?
Bom, não tem como arquivar um contrato oral na Junta Comercial, né? Já dá para
concluir que uma sociedade regularmente constituída terá seu contrato feito obriga-
toriamente de forma escrita.
Mas dê uma lidinha com atenção neste artigo:
''A;t. 987. Os sócios, nas relações entre si ou com terceiros, somente por escrito podem
provar a existência da sociedade, mas os terceiros podem prová-la de qualquer modo".
O que ele quer dizer?
Se os sócios de uma sociedade querem fazer prova da existência desta, só podem
fazê-lo pela apresentação do contrato escrito. Mas imagine só uma situação: eu tenho
uma sociedadezinha irregular aqui no fundo de casa, vendo bijoux. Aí eu compro de
um fornecedor uma porrada de coisa, mas compro como se fosse uma sociedade com-
prando, e na verdade nem existe contrato social nenhum.
Aí, não pago.
O fornecedor vem me cobrar, e pode provar que a sociedade existe de qualquer
forma. De qualquer forma mesmo.
Daí se conclui que pode, sim, existir contrato verbal de sociedade, mas essa socie-
dade nunca será regular.
O contrato pode ser feito por instrumento público ou particular, e a forma adotada
na constituição não vincula eventual alteração. Ou seja, eu posso criar uma sociedade
por instrumento particular e alterá-la, depois, por instrumento público. E vice-versa.
Falando em alterações, é sempre possível que elas ocorram nos contratos sociais,
desde que se observem os requisitos de validade e existência e as cláusulas essenciais.
Regra geral, as deliberações sociais são tomadas por maioria de votos. Mas nem
se anime. Esse parágrafo é totalmente inútil agora, porque veremos que existe um
montão de quóruns diferentes. Falaremos deles daqui a pouquinho, mas já adianto: o
negócio é trash. Sim, eu tenho medo.
Lembre-se, por enquanto, que funciona assim: o que conta não é a quantidade de:
votos, m~s sim a participação social de cada um elos sócios. Vamos supor que exista
uma sociedade com 1o sócios, um deles com 91% elo capital social e os outros 9 com
1% cada um. O voto desse um que tem 91% domina tudo, ainda que os outros 9 votem
em sentido contrário.
; O número de sócios, no entanto, é importante caso haja empate. Então, numa
sociedade com 6 sócios em que um deles seja detentor de 50% do capital social e os

Constituição e sócios das sociedades contratuais 78


outros 5 detentores de 1o% cada, se houver empate, valerá a decisão dos 5· O critério
será o maior número de votos.
Se o empate prevalecer mesmo assim e se não houver nada disposto no contrato
social a respeito, vai para o Judiciário.
Eu avisei que essa coisa de regra geral de quórum não servia para muita coisa, né?
Nem demorou. Vamos começar a complicação desde já, porque o negócio está ficando
muito fácil e eu preciso continuar odiando essa matéria, senão perde a graça.
Se a deliberação importar em alteração no contrato social, funciona assim:
~ Sociedade em nome coletivo e em comadita simples: unanimidade. Todo
mundo tem que aceitar, ou não muda nada. Mas, se a alteração for em cláusula não
essencial, aí ganha a maioria.
~ Sociedade limitada: qualquer cláusula só pode ser alterada pela deliberação de
sócios que representem% do capital social.
Legal.
......................................................................................
Va.mo.J. CUJOM- ~ pAa ~ 'fU1JI1e- deAle capiido., mas contando
antes com a pausa do capuccino. Não, capuccino engorda. Vou comer uma
barrinha de cereal, que tem menos calorias, porque ficar com o corpo legal (eu
ia dizer ficar gostosa, mas acho que não pega muito bem) faz parte do lance da
dor de barriga que vai e volta.
A propósito, esclareço: sou encardida com algumas coisas. Pessoa me fala
que eu não consigo fazer alguma coisa, eu tento até con~eguir. Já comentei isso
no livro de Tributário.
t:stou com quase 32 anos hoje, e por muito tempo tenho ouvido as pesso-
as me falarem que nãó sou capaz. Pior ainda quando não dizem às claras, mas
fazem u.ma cara de "ah, coitada" quando olham para mim.
[disso que estou falando.
f-loje essas pessoas podem estar melhores do que eu, por cima, em situa-
ção privilegiada, mas o caminho que estou percorrendo vai me levar muito mais
pra cima do que todas elas. t: eu vou esfregar na cara de cada uma delas a
minha vitória.
............................... ....................................................
;
~

8.2. Sócios das sociedades contratuais


já comentamos que, basicamente, os sócios têm duas obrigações com relação à
sociedade: integralizar o capital social subscrito e participar dos prejuízos até o limite
de~erminado pelo tipo societário.
No que tange ao primeiro dever, o sócio que não o cumpre é chamado de sócio
remisso.
Assim: eu e meu vizinho queremos ser sócios da sociedade X. Comunicamos os
outros sócios, e, assim, subscrevemos uma parte societária. No contrato vai constar
como e quando devemos pagar (integralizar).

79 Empresarial para quem odeia empresarial


No dia do vencimento, eu, que sou superpontual com minhas obrigações, pago
direitinho, mas meu vizinho, feio e caloteiro, não paga. A partir daí ele é considerado
em mora.
Nós, os demais sócios, que já pagamos nossa parte, podemos optar pela exclusão
do sócio remisso. A ação aqui é a execução, e o próprio contrato social será título exe-
cutivo extrajudicial. Também podemos cobrar dele eventuais perdas e danos decor-
rentes de seu inadimplemento , mas aí será necessária uma ação de conhecimentÓ.
Certo. Vamos excluir o cara.
Haverá, então, uma diminuição do capital social, já que não contamos mais com
a parte que caberia a ele integralizar. Devolvemos o que ele já pagou (se pagou), mas
podemos descontar daí o que ele deve a título de juros de mora.
Pode ser, também, que sejamos todos muito bonzinhos e decidamos deixar o cara
continuar sendo sócio, mas diminuindo dele a cota que seria devida. Assim: ele subs-
creveu I o mil reais, mas integralizou apenas 2 mil. Decidimos que ele pode continuar
sendo sócio, com as cotas relativas aos 2 mil já pagos, e o capital social total terá uma
diminuição de 8 mil reais.
Existe última alternativa caso a gente não queria que o capital social sofra dimi-
nuição: as cotas não integralizadas dele passam para outro sócio ou para terceiro, que
ganha agora o status de sócio.
_Tudo isso está nos arts. 1.004. e 1.058 do Código Civil.
Legal.
Vamos ver agora quais são os direitos que cabem aos sócios.
a) Participação nos resultados: já falamos que não pode o contrato social excluir
do sócio o direito de participar dos lucros. Mas olha só: o lucro que uma sociedade
aufere pode ser destinado à capitalização, à constituição de reserva ou à distribuição
entre os sócios. Então, nem sempre o lucro vai para o bolso dos sócios.
Se a sociedade se dissolver, divide-se o acervo social entre os sóci~s, proporcio-
nalmente às suas cotas ou da forma como descrito no contrato.
Informação importante: se a sociedade tiver débitos previdenciários, não pode
distribuir lucros. Isso está na Lei n. 8.212/91, art. 52, e na Lei n. 4·357/64, art. 32, com
redação dada pela Lei n. II.osi/2oo4.
b) Administração da sociedade: não significa que todo sócio será necessariamen-
te administrador, mas sim que todo sócio tem direito de participar das deliberações.
Também não significa que a sua vontade sempre prevalecerá, porque, em regra, a mi-
noria deve se submeter à maioria. Mas, ainda assim, todo sócio continua tendo direito
de tomar parte nas deliberações sociais.
c) Fiscalização da administração: a qualquer tempo ou nas épocas estipuladas no
contrato, o sócio pode examinar livros, documentos e estado de caixa da sociedade.
Além disso, os administradores estão obrigados a prestar contas aos sócios na forma
prevista no contrato, ou, em caso de omissão, ao fim do exercício social.

Constituição e sócios das sociedades contratuais 80


d) Direito de retirada: em alguns casos o sócio pode pedir para sair, recebendo a
parte que lhe cabe no patrimônio social.
.................... ...................................................................
_

e oiAa que. eegae e4a ~:apareceram duas expressões bastante distintas


do ponte de vista lit~rário: .. pedir para sair .. , do Capitão Nascimento (Tropa de
flite) e .. parte que lhe càbe.. (neste latifúndio), de João Cabral de Melo Neto
(Morte e Vida Severino)_
Diversificação literária: a gente vê por aqui.
.....................................................................................
Pronto. Voltei. Vamos ver quando o sócio pode pedir a retirada.
Se a sociedade é por prazo indeterminado, em geral não existe nenhum óbice para
a retirada do sócio. Não precisa nem ter motivo. Só dizer: "não quero mais brincar".
Aí, o sócio tem que avisar com antecedência de 6o dias, para que os demais pos-
sam providenciar a liquidação de sua cota e a alteração no contrato social.
Se a sociedade é por prazo determinado, a coisa muda: o sócio só pode exigir seu
direito de retirada com justa causa comprovada judicialmente, ou, se se tratar de so-
ciedpde limitada, quando houver alteração contratual, fusão ou incorporação com a
qual o sócio não concorde.
Para terminar, analisaremos as situações em que o sócio pode ser excluído da
sociedade:
a) mora na integralização (é o caso do sócio remisso, que vimos agora pouco);
b) justa causa.
Somente nesses dois casos o sócio pode ser excluído, ou seja, não dá para fazer
uma assembleia e deliberar pela expulsão do sócio sem que esteja presente um dos
dois motivos acima.
Nas sociedades em nome coletivo e em comandita simples, a expulsão por justa
causa necessariamente se dará pela via judicial. já nas limitadas é diferente: se o sócio
expulso foi minoritário, qualquer que seja a causa, a expulsão se dará por simples alte-
ração no contrato social, mas terá que haver deliberação específica nesse sentido. Ao
sócio a ser expulso será dado o direito de se defender. Sendo efetivamente expulso, ele
pode ir chorar as pitangas para o juiz tentando provar que não incorreu em justa cau-
sa. Expulso o sócio, tem direito à obtenção do valor patrimonial de sua participação.
Se o sócio for majoritário, sua exclusão deve ser pleiteada no judiciário pelos de-
mais sócios, que terão o ônus de provar a causa da exclusão.

·····················································································
de~ eM.e. capi.tu.lo., mais um comentário sobre a dor de barriga.
.:ilnte.rL
A frase também se aplica a uma pessoinha específica, que adora dizer que
tudo o que eu falo ou faço é drama. Mas sobre essa pessoa ainda tenho muitos
capítulos para escrever.
Por hora, chega de alfinetadas.
····················································································
81 Empresarial para quem odeia empresarial
.,.. 'J
~OD _~:
. , , .... , . - .. • '/

.j

~1
9. Mãe de muitos filho$L/'' ~- ·- .....~

················································
·:u;:·····~·~~·~·éa® maWuw- i muilo- eu pude ~-[::hoje
~ .
perceber isso.
Primeiro um amigo me chama no MSN só para dizer que, às 20 horas de
uma segunda-feira, tomou uma garrafa de vinho e está superbêbado.
Abre parêntese: eu, que sou mulher, tomo uma garrafa de vinho fácil e não
fico lamentando nada para ninguém. i=echa parêntese.
i=iquei quase uma hora conversando e acalmando o bonito, embora minha
vontade fosse xingar até a quinta geração dele. Concordei com quase tudo, e
isso é 0
legal da Internet: a pessoa não vê a sua cara de insatisfação co outro
lado. Disse as coisas que ele precisava ouvir e no fim das contas ele co<segu1u
se levantar e fazer 0 que precisava. Pelo menos assim eu espero. Praticamente

uma criança.
Depois, uma amiga linda, quase irmã, me deixa um recado dizendo que
não está muito bem. Provavelmente brigou com o namorado.[:: quer1a conver-
. Mas estamos a mais de 100 km de distância. Se eu pudesse, pegaria
sar com1go.
carro e iria para lá agora só para passar a noite inteira sentada num boteco:_-
0
· · do que ela tem para me dizer. Porque falar 3l1v1a.
toman d o cervep e ouvm 0

i=iquei triste por não estar perto quando ela precisou de mim.
[ [::usou assim mesmo. Tenho essa co"1sa de querer cuidar de todo mun-
do. Vo~tade de pegar no colo e dizer: me dá aqui os seus problemas. Já estou
acostumada a conviver com. eles, não vai fazer muita difer~nça para mim um
problema a mais. Odeio ver as pessoas que eu gosto sofrendo. Odeie mais do

que odeio empresarial.


No final das contas, acabo meu dia carregada com coisas que não me
pertencem, mas realizada por ter sido útil para alguém. Porque o fato de eu ser
procurada pelas pessoas significa que sou confiável. Pelo menos eu vejo des-
sa forma.
No mais. se depois de tudo eu não tiver futuro nenhum na área cio direito,
viro terapeuta comportamental.

Vamos agora começar a falar das sociedades contratuais em espécie. Neste capí-
tulo explicaremos a sociedade em nome coletivo, a sociedade em comandita simples
e a sociedade em conta de participação, que são relativamente tranquÜas por não
apresentarem muitas especificidades. Além disso, elas são quase inexistentes na prá-
tica. Depois, dedicaremos um capítulo inteiro só para as limitadas.

9.1. Sociedade em nome coletivo:


arts. 1 .039 a 1.044 do Código Civil
Primeira informação: todo mundo responde ilimitadamente pelas obrigações so-
ciais. Os sócios serão todos pessoas físicas, e o nome empresarial, como já foi dito, será
do tipo firma. Somente sócio, e qualquer um deles pode ser administrador da sociedade.
Falecendo um dos sócios, sua cota será liquidada, a não ser que o contrato estipu-
le expressamente que haverá sucessão. Essa regra decorre de ser esta uma sociedade
de pessoas, conforme também já vimos.
Outra decorrência dessa classificação é que o credor particular de um sócio não
pode requerer a penhora da cota social dele. Mas aqui existem duas exceções que per-
mitem a penhora das cotas:
~ se o contrato da sociedade for por prazo determinado e este prorrogar-se taci-
tamente;
~ se a prorrogação for contratual, mas o credor, no prazo de 90 dias depois da
publicação do ato dilatório, entrou com oposição pela via judicial e teve sua pretensão
acolhida.
Bem tranquilo esse tipo de sociedade.

ê.u me- f.emfnei.. CUJ1Y1-a ck uma cun.í.g,a. que conheci pela Internet que se tornou
mais que confidente. Dela eu cuido descaradamente mesmo. Logo que come-
çamos a conversar, pude perceber o tamanho da fragilidade dela e a roubei prá
mim. Disse isso a ela, aliás!
Dela, sem dúvida, eu sou mãezona. [::adoro isso, porque, quando eu pre-
ciso, ela também é mãe para mim.

83 Empresarial para quem odeia empresarial


9.2. Sociedade em comandita simples:
arts. 1.045 a 1.051 do Código Civil
Dois tipos de sócios aqui: comanditados (que têm responsabilidade ilimitada) e
comanditários (responsabilidade limitada). Ambos têm direito a lucro e à participação
nas deliberações.
Os sócios comanditados serão obrigatoriamente pessoas físicas, e só eles podem
exercer a administração da sociedade. O nome empresarial será também do tipo fir-
ma, e não custa lembrar que só pode constar o nome civil destes. Caso conste o nome
de um sócio comanditário, este passará a responder de forma ilimitada.
Os sócios comanditários podem ser pes~oas físicas ou jurídicas, e não podem
praticar atos de administração, mas podem, por outro lado, receber poderes específi-
cos de procurador para realizar determinados negócios. :
Se morrer um sócio comanditado, a sociedade será parcialmente dissolvida, exce-
to se o contrato autorizar o ingresso dos sucessores. Se morrer sócio comanditário, a
sociedade continua com seus sucessores.
Olha que legal: em relação aos sócios comanditados, a sociedade em comandita
simples pode ser considerada de pessoas. Mas, em relação aos sócios comanditários,
não: é uma sociedade de capital.
Só isso também.

'Petvian..do. a..g,o.'UL em~~ de quem eu gostaria de ter sido mãe,


mas não fui porque elas não deixaram. [specificamente uma pessoa.
Queria demais ter cuidado dela, ter feito enxergar que as coisas podem
mudar, e que ela poderia sim ser feliz. Mas, apesar de todo o meu esforço, só
encontrei portas fechadas. Um dia, essa pessoa simplesmente desapareceu. Eu
nunca mais soube dela. Mas às vezes ainda me pego pensando nela e desejan-
do que esteja bem.

9.3. Sociedade em conta de participação:


arts. 991 a 996 do Código Civil
Lá atrás, quando explicamos o nome empresarial, dissemos que a sociedade em
conta de participação é proibida de adotar firma ou denominação, lembra? Dissemos
ainda que essa era uma sociedade secreta.
Vamos entender.
Primeiro, é importante saber que essa sociedade é despersonalizada. Hein? Ela
não tem personalidade jurídica.
Funciona assim: eu, Luciana Pimenta, quero abrir uma loja, mas não tenho capital
para isso. Chamo meu vizinho, que é cheio da grana (pelo menos uma característica

Sociedades: em nome coletivo, em comandita por ações e em conta de participação


boa), mas não quer que seu nome apareça no empreendimento. Lembre-se de que,
além de feio, ele é caloteiro. As pessoas não vão querer comprar nada de mim se soube-
rem que estou em.sociedade com ele.
Então, ele fica escondido. lsso mesmo. Não aparece em lugar nenhum. Perante
todo mundo, é como se não existisse. Ele apenas financia o negócio, e recebe os lucros
proporcionais. Quem v~i à minha loja nem sabe que existe o meu vizinho e contrata
diretamente comigo, pessoa física mesmo. Assim, aparentemente, não existe socieda-
de nenhuma, e eu respondo direta e ilimitadamente.
Dando nome aos bois, eu sou a sócia ostensiva e meu vizinho é o sócio partici-
pante. Ele só tem responsabilidade com relação a mim, da forma como estipuládo no
contrato (limitada ou ilimitadamente), e não tem qualquer tipo de relação com meus
credores. Somente eu quem exerço o objeto social, por minha conta e risco.
Se por acaso o vizinho resolver dar uma de intrometido e começar a participar
dos negócios que eu celebro, ele passa a responder ilimitadamente também.
Observe-se então que existe um contrato firmado entre meu vizinho e eu, mas
esse contrato nunca poderá ser registrado na junta Comercial. Por isso se diz que a
sociedade em conta de participação é secreta. Na verdade, mesmo que haja tal regis-
tro, ele nunca irá conferir personalidade jurídica à sociedade.
Os bens da sociedade compõem o chamado patrimônio especial, mas os efeitos
dessa especialidade só existem entre os sócios. Falindo o sócio ostensivo, a sociedade
será liquidada, mas, se falir o sócio participante, os direitos decorrentes do contrato
da sociedade podem integrar a massa falida.

·····················································································
'PaJu:~. teJz.min.alt. minAafuuJa ck mã.e, não poderia deixar de falar da filha ofi-
cial, né? ~-'linha cria. Essa é, na verdade, mais minha mãe do que minha filha. E
digo isso porque com ela aprendi tanta coisa que nem cabe num livro (muito
menos num de Empresarial).
O que eu posso afirmar é que minha vida definitivamente tem um marco:
o nascimento dela. Ainda que eu tente, não consigo mais imaginar meus dias
sem ela.

Ser -nãe de verdade é bem mais difícil do que ser mãezona da geral. ~
urna caixinha de surpresas para a qual toda mulher está preparada: quando
chega a hora, está lá. ~ item de fábrica.
Não é explicável. Só é "vivível". Eu me amo por ser mãe, e me amo ainda
mais por poder compartilhar a minha maternidade com todos os meus filhos
agregados.

····················································································

85 Empresarial para quem odeia empresarial


(:i)

\. /'' )
\f~~.~~'~

..
10. Odeio ontverso rto: _ .:· /
, '4. w
\'c_/

soCiedade·limitada.

······································
···········
·~·~~;;,;;~·;k·~·~ uma IJ.€1- está chega~do o meu aniversário.
t: eu odeio esse dia. Nem é por conta da 1dade em SI; e porque eu sou me1o
bicho do mato.
J=ico com vergonha quando as pessoas me dizem parabéns. Não sei o que
responder, e fica todo mundo com aquela cara sem gr_aça. Aí, tem aquelas pes-
soas que sempre dão presente e eu fico na obngaçao de lembrar do d1a do
aniversário delas, e de dar presente também.
De fato, eu adoro dar presentes. Acho uma forma legal de retribuir algu,ma
coisa, de demonstrar carinho e agradecimento. Mas o presente de an1versano
em si acho meio sem nexo.
Pensando nisso, acabei de compreender por que algumas pessoas ficam
bravas comigo quando eu as presenteio.
t:nfim, não tem como fugir do dia do parabéns. Por mais que eu tente
manter telefones e Internet desligados o dia todo, sempre tem um ou outro
h Junto com os votos de felicidades, que, na maioria das vezes são
que me ac a. d · ?"
falsos, vem também a pergunta imbecil:"[; os concursos, estuclan o mu1to. -
Odeio. Qual a razão ele comemorar a velhice se ,aproximando? !=alta pou-
co menos ele um mês e eu já começo a ter calafrios. t: sério. Odeio mesmo.

Pausa dramática.
Acabo de me lembrar de que, quando eu escrevia o livro de Tributário,
comen t e1· que ode·10 também Natal e Ano Novo. O que está acontecendo co-
·a ? Sera' que estou ficando cada dia mais amarga e ranzinza?
m~. . .
Credo. J=iquei com medo de mim agora: acho que o problema elos aniver-
sários acaba de aumentar. A cada ano que passa eu me torno mais chata. ·
····················································································
sJciedades limitadas. '
,_C. .
i' ....". .E!
, u me 1emb r0 de que , quando estava
Ii0 :~<~i "·.:_va:soCle - na faculdade, esse tipo societário se chama-
b
, ..:;_s;;> . d d
·~i a e por qu otas de responsabilidade limitada Você provavelmente nem sa ia
·
' ..• ~,,-~so. É. Estou ficando velha mesmo.
·~i
';~
A sociedade limitada é, hoje em dia, a mais presente no País. A grande maioria das
sociedades se organiza sob essa forma, e os motivos são bem claros: uma vez integra-
lizado o capital social, os sócios não responderão com seu patrimônio.
O Código Civil trata das sociedades limitadas entre os arts. 1.052 e 1.087. E o próprio
Código dá as balizas para o preenchimento das eventuais lacunas ou omissões: serão uti-
lizadas as regras relativas às sociedades simples, ou, se expressamente previsto no contrato
social, as regras relativas às sociedades anônimas. É o que se chama de regência supletiva.
lsso existe porque as regras constantes no capítulo específico das limitadas não
são suficientes para regular completamente o assunto. Por exemplo: não há disposi-
ção sobre o que deve ser feito caso uma deliberação resulte em empate.
Aí, vai ser assim: Se o contrato social nada disser, aplicam-se as regras das socie-
dades simples, e, no caso do exemplo acima, o empate se resolve pela contagem do
número de votos; prevalecendo este, por decisão judicial.
Por outro lado, se houver uma cláusula no contrato social que determine a su-
plência de regras pela Leis das Sociedades Anônimas, em caso de empate nas delibera-
ções será convocada uma nova assembleia. Prevalecendo o empate, a decisão será
dada pelo judiciário.
Importante ver aqui mais uma situação em que haverá solução diferente caso a
sociedade adote como regência supletiva as normas das sociedades simples ou a Lei
das Sociedade Anônimas. Trata-se da destinação dos resultados.
Pelas regras da sociedade simples, não há obrigatoriedade de distribuição míni-
ma de lucros. Assim, podem os sócios decidir pelo reinvestimento da totalidade ou
ainda pela distribuição total. já na LSA, uma parte do lucro auferido deve ser obriga-
toriamente distribuída entre os acionistas.
Como se vê, as regras de suplência são bem diferentes.
Antes de continuarmos, cabe fazer um adendo para falar um pouco das socieda-
des simples, uma vez que não tratamos delas ainda.
Sociedade simples é a que explora sua atividade de forma não empresarial. Seus
atos constitutivos não são registrados na junta Comercial, mas sim no Cartório de
Registro Civil de Pessoas jurídicas
Uma sociedade simples pode adotar qualquer um dos tipos societário, exceto so-
ciedade por ações, mas também pode não adotar nenhum tipo, e aí será considerada
uma sociedade simples pura. A responsabilidade dos sócios, nesse caso, será ilimitada,
mas se aplica a regra do benefício de ordem.
Legal. Vamos ver agora as peculiaridades das sociedade limitadas. Espero que
consigamos terminar de ver isso antes que chegue meu aniversário.

10.1. Formas de integralização das cotas


Os sócios de uma sociedade limitada poderão integralizar as cotas subscritas das
seguintes maneiras:

87 Empresarial para quem odeia empresarial


~ dinheiro;
~ bens (veja aqui que quem integraliza com bens responde pela evicção. Olá,
direito civil!);
~ créditos (quem integraliza com créditos responde pela solvência destes).
Os bens utilizados para a integralização podem ser móveis ou imóveis, e, neste
último caso, deverá ser feita a transferência da propriedade deste para a pessoa jurídi-
ca. Essa operação é isenta de lTBI.
Em algum lugar está escrito que o sócio pode integralizar suas cotas com traba-
r
lho? Não, né? É porque não pode mesmo, ok? II
i
1 0.2 Responsabilidade dos sócios
fi
!I
Antes de mais nada, nunca é demais relembrar a regra do art. 1.024 do CC, que
determina que os bens que integram o patrimônio da sociedade serão executados
I
!I
f
sempre em primeiro lugar. Somente se estes resultarem insuficientes é que será atin-
gido o patrimônio pessoal dos sócios.
Como o próprio nome diz, a responsabilidade aqui é limitada, e até já comenta-
mos esse limite: ele vai até o valor do capital social subscrito e não integralizado. Se
totalmente integralizado o capital social, os credores não poderão chegar ao patrimô-
nio pessoal do sócio. .
É o famoso perdeu, playboy. :
Olha uma coisa interessante que pode causar uma certa confusão aqui. Presta
atenção na seguinte frase: os sócios de uma sociedade limitada têm responsabilidade
subsidiária em relação a esta, mas todos respondem solidariamente pela integraliza-
ção do capita social.
O que quer dizer isso?
Simples: em relação à sociedade, os sócios terão sempre responsabilidade subsi-
diária. É o que relembramos antes: no cumprimento das obrigações sociais, primeiro
sempre vêm os bens da sociedade.
Nas relações entre os sócios, a responsabilidade é solidária. Quando o capital
social não está totalmente integralizado, os credores podem atingir o patrimônio pes-
soal de cada sócio. Os sócios respondem todos juntos pela integralização. Significa
dizer que mesmo que eu, sócia de uma limitada, já tenha integralizado minha cota na
sociedade, se outro sócio não o fez, eu posso ser chamada a responder com meu patri-
mônio pela quantia não integralizada. Aí, depois, eu cobro, via ação de regresso, da-
quele sócio remisso.
Como toda e qualquer boa regra, essa que dispõe sobre a limitação da responsa-
bilidade dos sócios comporta exceções. Olha elas aí:
a) se os sócios deliberarem em sentido contrário à lei ou ao contrato, as obriga-
ções decorrentes dessas deliberações implicam responsabilidade ilimitada. Quando

Sociedade limitada 88
isso ocorre, um sócio que não concorde com a deliberação deverá formalizar sua dis-
cordância para ser preservado em seus direitos;
b) sociedade marital: pelo Código Civil, uma sociedade não poderá ser formada
somente por marido e mulher se estes forem càsados pelo regime da comunhão uni-
versal ou da separação obrigatória. Descumprida essa regra, a responsabilidade passa
a ser ilimitada;
c) com relação aos débitos trabalhistas, a justiça do Trabalho vem desconside-
r-
r~ndo a regra da limitação da responsabilidade dos sócios. O mesmo ocorre com rela-
I ção a débitos previdenciários;
d) desconsideração da personalidade jurídica: conforme já vimos, em caso de
f utilização fraudulenta da pessoa jurídica, esta poderá ser desconsiderada, atingindo-
! -se o patrimônio pessoa do sócio fraudador de maneira direta e ilimitada.
I
1 0.3. Deliberações sociais
Algumas decisões relativas às sociedades limitadas só podem ser tomadas em as-
sembleia. E que decisões são essas? São as que levam em conta as matérias abaixo:
• ~ designação, destituição e remuneração de administrador;
~ votação das contas anuais dos administradores;
~ modificação do contrato social;
~ operações societárias, dissolução e liquidação da sociedade;
~ expulsão de sócio minoritário.
A assembleia deve ser convocada pelo administrador, publicando-se editais por
três vezes em jornal local de grand.e circulação e com antecedência mínima de 8 dias.
O quórum para a instalação da assembleia é de% do capital social em primeira con-
vocação. Não se alcançando esse quórum, será feita uma segunda convocação, com a
publicação de três novos editais e antecedência mínima de 5 dias. E aí a assembleia se
instala com qualquer número de presentes.
Não observadas essas regras, a deliberação tomada na assembleia pode ser anula-
da, exceto se tod~s os sócios anuírem, por escrito, com a deliberação.
É bem trabalhoso convocar uma assembleia. Por esse motivo, a lei autoriza que, se a
sociedade tiver até 1o sócios, as deliberações podem ser tomadas em reunião, que,é uma
assembleia simplificada; as regras de convocação estarão dispostas no contrato social.
Pelo menos uma vez por ano deve ser instalada uma assembleia, porque deve
haver a tomada das contas dos administradores, votação dos balanços patrimonial e
de resultado econômico e eventual eleição de administradores e fiscais.
E aqui começa a palhaçada dos quóruns.
juro que tentei, de todas as formas, encontrar um jeito fácil de aprender todos
esses nu:nerinhos, mas não adiantou nada. Vou tentar simplificar a parada, mas adian-
to que não tem como deixar assim tão simples. O lance é decoreba mesmo.

89 Empresarial para quem odeia empresarial


Temos cinco quóruns diferentes. Vou colocar um a um e abaixo de cada um deles
as deliberações respectivas.
a) Unanimidade
)> nomeação de administrador não sócio, se houver essa previsão no contrato

social e se o capital social não estiver totalmente integralizado.


b) % do capital social
)> alteração do contrato social;

)> incorporação, fusão ou dissolução da sociedade;

)> cessação da liquidação.

c) 2/3 do capital social


)> designação de administrador não sócio, se houver essa previsão no contrato

social e se o capital social estiver totalmente integralizado;


)> destituição de administrador não sócio nomeado no contrato social.

d) Mais da metade do capital social (maioria absoluta)


)> designação ou destituição de administrador em ato separado;

)> destituição de administrador não sócio;

)> expulsão de sócio minoritário.

e) Mais da metade dos sócios presentes à assembleia ou reunião (maioria sim-


ples)
)> aprovação das contas dos administradores;

)> nomeação e destituição de liquidantes;

)> julgamento das contas dos liquidantes.

Não adianta me xingar. Eu avisei que era chato desde o início, e que tinha bastan-
te coisa.
Tem apenas uma notícia boa aqui: se a sociedade for ME ou EPP, o quórum será
sempre de maioria absoluta do capital social.

10.4. Administração
Como deu para perceber pelas regras dos quóruns, o administrador pode ser só-
cio ou não sócio, nomeado no contrato social ou em ato separado.
É dever do administrador prestar contas anualmente, e apresentar os balanços
patrimonial e de resultado econômico. lsso deve ser feito no prazo de até 4 meses após
o fim elo exercício social.
Link com direito tributário aqui: se o administrador não paga dívidas tributárias,
pode ser incluído na CDA (certidão da dívida ativa) e responderá pelo inadimplemen-
to ela sociedade. Leia-se: ser administrador é bucha.
Olha outra bucha aqui: se o administrador praticar qualquer a'to estranho ao ob-
jeto social ela limitada e esta estiver sob'a regência supletiva das noririas referentes às
sociedades simples, ele responderá pelo adimplemento desses atos de forma pessoal.

Sociedade limitado 90
É a chamada teoria ultra vires, prevista no Código Civil no art. 1.0 15:

''Art. 1.0 15. No silêncio do contrato, os administradores podem praticar todos os atos
pertinentes à gestão da sociedade; não constituindo objeto social, a oneração ou a venda de
bens imóveis depende do que a maioria dos sócios decidir.
Parágrafo único. O excesso por parte dos administradores somente pode ser oposto a
terceiros se ocorrer pelo menos uma das seguintes hipóteses:
I -se a limitação de poderes estiver inscrita ou averbada no registro próprio da sociedade;
11 -provando-se que era conhecida do terceiro;
lll- tratando-se de operação evidentemente estranha aos negócios da sociedade"
(grifamos).
Mas veja: se a regência supletiva for pela Lei das S/A, não vai rolar responsabiliza-
ção pessoal de ninguém. A própria sociedade responderá pelo ato, e depois poderá
voltar-se, em regresso, contra o administrador que agiu em excesso.
Ó que legal: mais uma diferença decorrente da adoção das normas de regência
supletiva.

'Pa.uiin.Jim . .llc.a&i de- me ~de- uma. co.i4.a.. Talvez o meu ódio pelos
aniversários seja reminiscência da minha adolescência conturbada. Nunca tive
uma festa surpresa. Sou frustrada por isso.
.· ...................................................................................

10.5. Conselho fiscal


A existência do conselho fiscal nas sociedades limitadas é facultativa. Se existen-
te, ele será composto por no mínimo 3 membros e respectivos suplentes, sócios ou
não, mas que não podem ser cônjuges ou parentes até o terceiro grau de administra-
dor, e nem empregados ou administradores da sociedade.
A eleição dos fiscais ocorre em assembleia anual, por maioria simples. E olha que
legal o direito das minorias: se os sócios minoritários detentores de pelo menos I/5 do
capital social discordarem da escolha dos fiscais, terão o direito de eleger, em separa-
do, um membro e seu suplente.
A função precípua do conselho fiscal é auxiliar os sócios na fiscalização dos admi-
nistradores.

'Pw.nto.. Yló. iM.o.. Sem contar a parte dos prazos, nem doeu tanto.
Ainda continuo no mesmo dia em que estava quando comecei a escrever
este 'capítulo, o que significa que meu aniversário ainda não chegou. Ótimo.
Podemos permanecer no dia de hoje para sempre.
t: que fique bem claro: qualquer tentativa no sentido de me fazer. atual·
mente. uma festa surpresa vai me causar irritação ainda maior. t:stou velha de·
mais para isso.

91 Empresarial para quem odeia empresarial


:qi.s.sqlyçã.~ .~as .SC?Qi.edades cof)tratuai.s
'. .

····················································································
~da~ ...
São 8h42. Acabei de levar a cria para a escola e tenho um monte de coisas
para fazer, sendo a mais' importante delas escrever pelo menos uns três capítu-
los aqui.
E:nquanto isso, ontem à noite um amigo me ligou e disse que hoje estaria
em casa pela manhã, perguntando se a gente podia conversar.
O que fazer? Trab;alho ou diversão?
Solução: os dois.
Notebook, telinha do Word de um lado e janelinha do MSN do outro, webcam
ligada. l:::u trabalhando aqui e ele trabalhando lá, e parece que estamos senta-
dos frente a frente na mesma mesa. Dá para fazer pequenas pausas, conversar
sobre assuntos, aleatórios, rir de coisas imbecis, fazer perguntas sobre o que
não sabemos. 1::: bem legal.
Adoro essas coisas de tecnologia. Adoro mesmo. i=ico lembrando de
quando instalaram a Internet na casa dos meus pais. !=azia um barulhinho su-
perlegal para ligar·, demorava horas, e o telefone ficava ocupado. Aí a conta vi-
nha absurda no fim do mês.
Já comentei por aqui que não sei mais viver sem Internet. t:u acordo e a
primeira coisa que faço é ligar o computador. Às vezes, antes mesmo de esco-
var os dentes: enquanto roda o boot eu faço minha higiene matinal.
A única coisa que falta inventarem é um dispositivo que permita que você
compartilhe um café com a pessoa do outro lado. Ou uma cerveja; mas, como
ainda está cedo, eu ficaria com o café mesmo.
Como ainda não é possível fazer isso, vou eu mesma preparar meu café e
um pãozinho com peito de peru. Volto logo para começar isto aqui.
····················································································
.-. , O fim de uma sociedade não é tão simples como o de uma pessoa física (que mor-
·~,_r~, enterra e já era). É uma sequência de atos que leva ao desligamento total de um ou
•,::>y
de todos os sócios. Em sentido estrito, a dissolução é o primeiro desses atos que cul-
mina com a morte.
Vamos passar a usar, a partir de agora, os terrrios corretos, ok?
Quando estivermos nos referindo ao processo todo, falaremos em extinção.
Q.rando nos referirmos somente ao ato que desencadeia tudo isso, aí sim falaremos
eo dissolução.
Só para lembrar: as regras que veremos aqui só dizem respeito às sociedades con-
tratuais. Falaremos das institucionais (anônima e em comandita por ações) no· próxi-
mo capítulo, e aí veremos todas as regras delas de uma vez só.
Antes de efetivamente começarmos a falar da dissolução, é importante dar uma
passada nos conceitos e reflexos do princípio da preservação da empresa. já falamos
desse princípio.

Y"':m. () mJJn eo.nii.nua eJ.qa.do-1 o bonitinho continua do outro lado, e de vez


ern quando eu paro e fico só olhando para ele.
.....................................................................................
T~ata-se de princípio implícito na Constituição Federal, decorrente dos funda-
mentos e objetivos e das normas que regem a ordem econômica.
Observe-se que o fim de uma empresa acarreta o fechamento de postos de traba-
11-.o, o desabastecimento de produtos e serviços, a diminuição na arrecadação de im-
postos etc. Vários são os setores atingidos.
O maior exemplo da aplicação desse princípio encontra-se na Lei de Falências,
conforme veremos. Mas já falamos sobre a teoria da desconsideração da personalidade
juídica, que também leva esse princípio em consideração, autorizando a sociedade a
continuar funcionando normalmente, enquanto só será penalizado o sócio fraudador.
Nesse sentido, as normas que autorizam a dissolução parcial das sociedade tam-
b~m atendem a esse princípio: em regra, somente um sócio sai, e a empresa continua
normalmente. Se for possível que a sociedade permaneça existindo, e que a atividade
e:npresarial continue, romper-se-ão apenas os laços que ligam um sócio à sociedade.
Legal? Vamos ver, então, as espécies de dissolução.

11.1. Espécies
A partir do que foi dito, fica fácil perceber que a dissolução pode ser de duas es-
pécies: total ou parcial.
Desnecessário explicar, né? Total acaba tudo, parcial sai um ou mais de um sócio
e a sociedade continua .
No Código Civil, a dissolução parcial está tratada nos arts. 1.028 a 1.032 e 1.085 e
Lo86, e é chamada resolução da sociedade em relação a um sócio.

93 Empresarial para quem odeia empresarial


A dissolução pode classificar-se, ainda, em judicial (quando é feita por sentença)
e extrajudicial (quando feita por alteração contratual). Perceba que essa classificação
não leva em conta a causa, mas sim o instrumento da operação: sentença ou alteração
contratual.

11.2. Causas de dissolução total


Várias são as causas que podem levar à dissolução total de uma sociedade empre-
sária:
~ vontade dos sócios;
~ decurso do prazo, quando a sociedade foi contratada por prazo determinado;
~ falência;
~ exaurimento do objeto social;
~ inexequibilidade do objeto social;
~ unipessoaliclade por mais ele 180 dias;
~ causas contratuais.

Se uma sociedade foi contratada por tempo determinado, a dissolução total por
vontade dos sócios depende da decisão de todos eles (unanimidade). Mas, se foi por
prazo indeterminad o, depende da decisão de mais da metade do capital social.
Olha só que legal a aplicação do princípio da preservação da empresa aqui: a ju-
risprudência tem admitido que, mesmo que a maioria decida pela dissolução total da
sociedade, os sócios minoritários dissidentes podem continuar a empresa. Eles preci-
sam pedir isso ao juiz, mas em tese não há motivos para a negativa. Mesmo que seja só
um sócio, e que ele tenha participação mínima no capital social: desde que ele encon-
tre pelo menos mais um sócio, poderá continuar a empresa.
Decidida a dissolução, os sócios então devem fazer um documento para formali-
zá-la: pode ser um distrato ou a ata da assembleia em que a dissolução foi aprovada.
Nesse documento obrigatoriam ente vão constar os motivos que levaram à dissolução,
os valores que foram divididos entre os sócios e quem ficará responsável pelo ativo e
passivo que sobraram.
Com relação às sociedades por tempo determinado, é importante saber que a
dissolução não é automática. Decorrido o prazo, os sócios têm que elaborar o distrato
também. Se não o fizerem, considera-se prorrogado tacitamente o prazo, e a socieda-
de passa a ter existência por prazo indeterminad o.
Mas aí ela se torna uma sociedade irregular, e nem adianta, depois de passado o:
prazo, querer ir lá na Junta Comercial fazer essa alteração. A sociedade só será regular·
se fizer a alteração antes do fim elo prazo estipulado no contrato, e a decisão sobre a
prorrogação tem que ser por unanimidade.
A falência também é causa ele dissolução total da sociedade, e falaremos dela de
maneira bem explicadinha mais para a frente. Por hora, basta saber qüe a falência do
sócio não gera a dissolução. O que gera é a falência da própria sociedade.

Dissolução das sociedades contratuais 94


No que tange ao exaurimento do objeto social, é assim: uma sociedade é contra-
tada,. por exemplo, especificamente para construir uma ponte. Quando termina de
construir a ponte, a sociedade deixa de ter razão de existir. E morre.
Já a inexequibilidade pode ter as seguintes causas:
~ falta de interesse dos consumidores ;
~ insuficiência do capital social para produzir ou circular o bem ou serviço;
~ desentendim ento entre os sócios que culmine na impossibilidade da conti-
nuidade dos negócios comuns etc.
A última das causas, a unipessoaliclade, acontece sempre que, por qualquer razão,
um único sócio ficar com 100% das cotas do capital social. Esse sócio terá duas alter-
nativas: requerer, na Junta Comercial, a transformaçã o ela sociedade em'Eireli ou se
virar para achar mais sócios. Uma dessas duas providências tem que ser tomada no
prazo de 180 dias, sob pena de dissolução.
Essas são as causas de dissolução total previstas em lei, mas nada impede que o
contrato social traga outras causas.

./lA.'~ de~ mais do bonitinho do MSN. ~le não está mais aqui co-
migo, mas a manhã foi bem tranquila com a presença dele.

11.3. Causas de dissolução parcial


a) Vontade do sócio: o sócio não quer mais brincar, pede pra sair. Todo mundo
aceita, altera o contrato social, paga o que deve a ele e beleza. Essa é fácil.
b) Morte do sócio: os herdeiros do morto nunca serão obrigados a ingressar na
sociedade. Caso não queiram ser sócios, promoverão a dissolução parcial.
c) Retirada do sócio: já vimos essa quando falamos dos direitos elos sócios. Tran-
quilo.
d) Exclusão do sócio: também já falamos dessa. Pode ser judicial (falta grave) ou
extrajudicial (sócio remisso).; Importante lembrar também dos seguintes artigos, to-
dos do Código Civil:
"Art. 1.004.Os sócios são obrigados, na forma e prazo previstos, às contribuições es-
~abelecidas no contrato social, e aquele que deixar de fazê-lo, nos 30 (trinta) dias seguintes
ao da notificação pela sociedade, responderá perante esta pelo dano emergente da mora.
Parágrafo único. Verificada a mora, poderá a maioria dos demais sócios preferir, à
indenização, a exclusão do sócio remisso, ou reduzir-lhe a quota ao montante já realizado,
aplicando-se, em ambos os casos, o disposto no§ 1~ do art. 1.03 !''.
'1\rt. 1.030. Ressalvado o disposto no art. 1.004 e seu parágrafo único, pode o sócio ser
excluído judicialmente, mediante iniciativa da maioria dos demais sócios, por falta grave
no cumprimento de suas obrigações, ou, ainda, por incapacidade superveniente.

95 Empresarial para quem odeia empresarial


Parágrafo único. Será de pleryo direito excluído da sociedade o sócio declarado falido,
ou aquele cuja quota tenha sido liquidada nos tennos do parágrafo único do art. 1.026".
':4rt. 1.085. Ressalvado o disposto no art. I.OJO, quando a maioria dos sócios, repre-
sentativa de mais da metade do capital social, entender que um ou mais sócios estão pondo
em risco a continuidade da empresa, em virtude de atos de inegável gravidade, poderá ex-
cluí-los da sociedade, mediante alteração do contrato social, desde que prevista neste a
exclusão por justa causa.
Parágrafo único. A exclusão somente poderá ser determinada em reunião ou assem-
bleia especialmente convocada para esse fim, ciente o acusado em tempo hábil para permi-
tir seu comparecimento e o exercício do direito de defesa".
e} Falência do sócio: falaremos mais adiante.
f) Liquidação da cota por credor do sócio: como· já vimos, nas sociedades de
pessoas, o credor pessoal de um sócio não pode penhorar sua cota. Contudo, se o só-
cio devedor não dispuser de mais nenhum bem, o credor pode pleitear em juízo que
seja liquidada a sua cota. O valor será apurado em um balanço especial e depositado
pela sociedade em juízo.
Mais uma coisinha para finalizar este tópico e entrarmos no último: se a socieda-
de limitada tiver regência supletiva pela Lei das Sociedade Anônimas, a dissolução
parcial só poderá ocorrer pela retirada motivada ou pela expulsão. As demais causas
acima citadas não se aplicam.

11.4. liquidação e apuração de haveres


Haverá liquidação quando for o caso de dissolução total, e apuração de haveres
nos casos de dissolução parcial.
A liquidação pode ser extrajudicial ou judicial, e esta última acontecerá quando
algum ou alguns dos sócios não concordar com a causa que levou à dissolução ou
com a liquidação propriament e dita. No período da liquidação, a sociedade pode
praticar apenas os atos necessários para a solução das obrigações pendentes. Vale
dizer que há uma restrição da sua personalidade jurídica, que continua existindo,
mas não é mais plena.
O nome empresarial da sociedade deve ser acrescido da expressão "em liquida-
ção", e os administrado res não responderão mais pela sociedade. Quem o fará será o
liquidante.
Ele, o liquidante, em resumo, vai fazer o seguinte: junta tudo, paga o que deve, e
o que sobrar divide entre os sócios. Só aí, depois de tudo partilhado, é que a persona-
lidade jurídica da sociedade efetivamente se extingue.
No caso da apuração de haveres, o que se busca é tão somente verificar quanto
vale a cota do sócio ou dos sócios que pretendem deixar a sociedade. Assim sendo, não
há restrição da personalidade jurídica da sociedade, nem nomeação de liquidante.

Dissolução das sociedades contratuais 96


Mas o valor apurado deve ser exatamente o mesmo que seria apurado caso a dissolu-
ção fosse total. ·

11.5. Dissoluçao de fato


Situação não rara de ver na prática é esta: a sociedade percebe que não anda lá
muito bem das pernas; e, em vez de proceder à dissolução da maneira como falamos
adma (que é a correta), simplesment e vende tudo, fecha as portas e vai einbora.
Quando falo nisso, sempre penso nas agências de turismo. Dá pena ver as pesso-
~3 todas com as malas prontas para passear que percebem, normalmente às vésperas
da viagem, que a empresa simplesmente deu um "golpe na praça".
Outro exemplo que vi uma vez na televisão foi o de uma agência de casamento
que fez isso. Eu, particularmen te, nunca me imaginei vestida de noiva dando uma
festa linda onde todo mundo come e bebe à vontade e depois ainda sai criticando. Mas
a:ompanhei o casamento dos meus irmãos e de alguns amigos, e sei bem o quanto o
dia da cerimônia e da festa é importante. Deve ser deprimente descobrir, quase na
hora do sim, que não vai ter casamento nenhum, porque a empresa pegou o seu di-
nheiro e fechou.
A dissolução de fato é causa de decretação de falência, e as coisas se resolvem
pelas regras do direito civil. Ou seja: não se resolvem. Não, mentira. É aquela coisa
básica da responsabilidade civil.

··············· ···············
:10-!Ji.nAa ele- u.eJu1a.d.e_ ·······················································
em c.aA.a, sem ~inguérn para ficar me olhando pela web-
CJm e me dizendo que sou linda ou para me fazer sorrir igual idiota para a tela
do computador, terminamos mais um capítulo.
~mb::Jra eu não possa ver a carinha de cada um que lê as bobeiras que es-
c-evo em meio a coisas sérias, fica aqui o meu agradecimento pela companhia.
Beijo, me liga.
. ..................................................................................
~

97 Empresarial para quem odeia empresarial


:"'·~_,..-"";~.~ .
:..- .i

12.. Gororobas: "í" ... -~

'spçlêfA~#es.'por açpes . .:~;;::!?


' ~ ' ' ' l

····················································································
e.u, a.d.o.M. ~· ./ldo.Jw. m.eA./nO.. Já até pensei em abrir um restaurante
uma vez. Mas já pensei em muita coisa, e a maioria delas nunca saiu mesmo do
campo do pensar.
O problema é que eu não sei fazer pouca comida. Nem tenho vontade de
cozinhar quando só eu vou comer. Na maioria das vezes, acabo nem comendo.
Ou porque passei o tempo todo experimentando e comendo alguma outra
coisa enquanto tomava uma cerveja, ou porque simplesmente desisto mesmo.
O legal não é comer, mas fazer. ~. principalmente, o legal é ver as pessoas co·
mendo com gosto aquiío que eu fiz.
Isso não significa que eu seja magrelinha, ou que não coma nada. Sou da
opinião que poucos prazeres na vida se igualam ao de comer. [só pelo fato de
eu já ter comentado em algum lugar que passei há pouco tempo por uma cirur·
gia plástica para tirar a barriga, já dá para concluir que estou longe de ser uma
pessoa fina, estruturalmente falando.
f-loje, chegando perto ela hora elo almoço. fui dominada por uma preguiça
máster ele fazer comida. Acontece sempre. A preguiça é tão grande que se
generaliza: não tenho apenas preguiça de cozinhar para mim, mas também de
sair para comer.
la comer qualquer coisa fácil que tivesse na geladeira ou no armário da
cozinha, mas acabei encarando o fogão. Receita meio demorada, mas cem fácil
de fazer.
Coxa ou sobrecoxa ele frango numa assadeira, uma lata de cerveja e um
pacote ele caldo ele cebola. Papel alumínio e forno. bquece. Umas du3s horas
mais ou menos. Depois, tira o papel alumínio e esquece' por mais uma hora.
~nquanto isso, recomendo ligar a televisão no Discovery Channel. Sem·
pre passam uns program9s legais perto da hora do almoço. Depois, se mata de
'
F. comer.
\
I ·, ......-

:l!fÇ;)
i=iz isso hoje. Amanhã eu penso em comer alface. Alguns prazeres na viçla
valem a pena o sacrifício que trazem implícitos.
Bora falar de sociedades por ações? Indigestão na certa, mas não tem
como fugir. Capítulo longo e denso. Sinto que deveria ter escolhido outro para
começar falando de receitas.
Agora já era.

12.1. Características gerais da sociedade anônima


Sociedade anônima é sempre sociedade de capital. O capital social é dividido em
ações, que são alienáveis livremente, sem qualquer necessidade de anuência dos de-
mais acionistas, podem ser penhoradas sem nenhum problema e, em caso de morte
do acionista, esses títulos passam para os herdeiros. Estes, aliás, não gozam do direito
de requerer a apuração de haveres, como acontece nas sociedade de pessoas.
A responsabilidade dos acionistas é limitada ao valor que falta para integralizar as
ações de que sejam titulares. Mas como é feito o cálculo do valor ele uma ação?
As ações apresentam vários tipos de valores. Muito legal a explicação do Fábio
Ulhoa Coelho' (meu truta):
"Uma casa tem, também, diversos valores: se o objetivo é o cálculo e pagamento do
imposto sobre propriedade, o que interessa é o valor venal da casa; se for o pagamento do
imposto de transmissão, é o valor declarado na escritura,: mas nenhum destes terá qualquer
importância no momento da negociação deste bem, hipótese em que tem peso o valor de
mercado".
O valor da ação também pode ser expresso de várias formas:
,. Valor nominal: esse é o mais simples. É o resultado da divisão elo valor total do
capital social pelo número de ações emitidas. Se esse valor vier expresso no estatuto
social, diz-se que as ações têm valor nominal.
1> Valor patrimonial: é o valor da participação do titular no patrimônio líquido
da companhia. A divisão aqui não é mais do capital social pelo número de ações, mas
do patrimônio líquido por esse mesmo número.
1> Valor ele negociação: é o preço qtle o titular recebe pela venda ela ação. Como
se chega a esse valor eu nem quero tentar entender. Manjo absolutamente nada da-
quele povo doido que trabalha na Bolsa de Valores e fica gritando o dia inteiro com
aqueles telefoninhos estranhos no ouvido. Mas tem a ver com isso tudo aí: probabili-
dade de rendimento, risco, desempenho de atuação do setor em que ela atua etc.

8 COELHO, Fábio Ulhoa. Manual de direito comercial, p. 220.

99 Empresarial para quem odeia empresarial


~ Valor econômico: é o valor a que chegam os especialistas do assunto. O quan-
to a ação vale. Não se confunde com o valor de negociação, que é o valor que ela efe-
tivamente. teve em eventual alienação. Mesma coisa de uma casa: você pode ter um
valor que foi dado por um avaliador, mas pode vender a ação por valor diferente. I
~ Preço de emissão: é o que paga quem subscreve uma ação, fixado pelos funda- f
dores na constituição da companhia ou pelos administradores quando ocorre aumen-
to do capital social. Se o estatuto traz a previsão do valor nominal das ações, o p'reço
I
I

de emissão não pode ser inferior a este, mas pode ser superior, e aí a diferença recebe
o nome de ágio e formará reserva de capital.
Olha só uma coisa: uma S/A resolve aumentar seu capital social. Emite, então, I
mais ações. Se o preço de emissão dessas novas ações for inferior ao valor patrimonial
das já existentes, haverá a diluição dos lucros dos acim1istas preexistentes. Então, a I
emissão de ações com valor inferior ao patrimonial s6 pode acontecer de maneira
justificada, ou seja, se a companhia efetivamente precisar de recursos.
Vejamos uma consequência disso que foi dito: aquele que tem ação com valor
nominal está mais garantido no caso de aumento do capital social. lsso porque, como
já mencionamos, o preço de emis~ão não pode ser menor que o valor nominal. Aí não
ocorrerá a diluição.

:Já r:fiC.ícii ai? .llq,uí ~-A matéria é bem complicada mesmo. Tem que ler
com muita atenção.
~ ficou mais dificil ainda para mim. Por conta do tanto que comi e por
conta de uma coisa que acabou de aconte:er. Pessoa que me liga, depois de
um século sem dar qualquer noticia. me diz que está morando em Punta del
~ste, trabalhando num cassino, que volta no fim do mês e gostaria de me ver, e
termina a conversa de repente com a seguide frase: "Depois nos falamos, pre-
ciso ir. Beijos".
i=iquei com raiva? Sim ou claro que sim? Ou liga e conversa direito ou não
liga, poxa vida.
Mas vamos adiante.

As sociedades anônimas serão sempre empresárias, independentemente do obje-


to social ou da forma como explorarem a empresa. Seu nome empresarial será obriga-
toriamente do tipo denominação e seguirá as regras que vimos quando tratamos des-
se assunto.

12.2. Classificação
Comecinho tranquilo aqui: as sociedades anônimas podem ser abertas ou fecha-
das. Serão abertas quando admitirem a negociação de seus títulos na Bolsa de Valores
ou mercado de balcão, e serão fechadas se não admitirem.

Sociedades por ações -I 100


Para que os valores mobiliários de uma S/A sejam admitidos em mercado, a com-
panhia deve ser registrada na CVM - Comissão de Valores Mobiliários. A CVM pode
classificar as companhias em categorias, segundo às espécies e classes dos valores mo-
I biliários emitidos.
f Uma companhia aberta pode transformar-se em fechada. lsso acontece por meio

I do cancelamento do registro na CVM e depende de oferta pública para a aquisição da


totalidade das ações em circulação no mercado. Assim, todas as ações colocadas no
m'ercado, exceto as de propriedade dos controladores, de diretores, de administrado-
r~s e as em tesouraria, serão colocadas à disposição do público.
I Nesse caso, titulares de no mínimo 1o% das ações poderão, no prazo de 15 dias da

I divulgação do valor da oferta pública, convocar assembleia geral para contestar o valor
avaliado para as ações. Se o novo valor apurado for inferior ou igual ao valor inicial da.
oferta pública, os que requereram a nova avaliação e os que votaram a seu favor res-
sarcirão a companhia pelos custos incorridos.
Se, após a oferta, sobrarem menos de 5% do total de ações emitidas pela compa-
nhia, a assembleia geral poderá deliberar pelo resgate dessas ações. A aquisição pelo
controlador de quantidade de ações que, segundo a CVM, impeça a liquidez das rema-
nescentes ~quipara-se ao fechamento de capital, obrigando-o à formulação de oferta
pública para aquisição das ações em circulação.
Veremos certinho o que é cada um desses conceitos citados aí em cima, tá? Este
capítulo vai precisar ser lido mais de uma vez, porque as coisas são meio confusas
mesmo. Estou tentando deixar menos chato (missão impossível).

····················································································
'PoJL o.JLa, fW-d.e- eo.m.eç.ah. a a/lJt.a.n.c.a/1 o4 cafJe1o4, porque o negócio v ai f i c a r
feio. ~ o que estou fazendo, diga-se de passagem.
....................................................................................

12.3. Constituição '•. .


A matéria está tratada nos arts. So a 94 da LSA. Aliás, que falha a minha. Nem co-
loquei o número da porcaria da Lei. É a 6-404/76. Aproveito o ensejo para indicar, caso
alguém tenha interesse (o que eu duvido muito), um livro para um aprofundamento
maior no tema das sociedades anônimas. É o Lei das Sociedades Anônimas - S/A da co-
leção Leis Especiais para Concurso, Editora juspodivm. O autor é o Leonardo Botelho
Bandeira de Mello, e o coordenador da coleção é o Leonardo de Medeiros Garcia.
Fica a dica.
Antes de mais nada, para a constituição de uma sociedade anônima é necessário
preencher três requisitos:
~ subscrição, pelo menos por duas pessoas, de todas as ações em que se divide o
capital social;

101 Empresarial para quem odeia empresarial


.- realização mínima em dinheiro de 1o% do preço de emissão das ações;
.- depósito de parte do capital realizado em dinheiro em instituição financeira
autorizada pela CVM, feito pelo fundador, no prazo de 5 dias contados do recebimen-
to das quantias. Esse valor só poderá ser levantado após a companhia adquirir perso-
nalidade jurídica. Se em 6 meses isso não ocorrer, será restituído.
A companhia pode ser constituída por subscrição pública ou por subscrição par-
ticular.
Para se constituir por subscrição pública, deve haver registro na CVM, e a subs-
crição somente pode ser efetuada por intermédio de instituição financeira. Tendo
sido todo o capital subscrito, os fundadores convocarão assembleia geral, em anún-
cios nos jornais onde houver sido feita a publicidade da oferta de subscrição, para
promover a avaliação dos bens, se for o caso, e deliberar sobre a constituição.
Depois haverá a assembleia de constituição, que será instalada, em primeira con-
vocação, com a presença de subscritores de metade do capital social, e em segunda
convocação, com qualquer número. Será presidida por um dos fundadores e secreta-
riada por um subscritor. Cada ação dá direito a um voto.
Não havendo oposição de mais da maioria do capital social, o presidente declara-
rá constituída a sociedade, elegendo-se os administradores e fiscais. A ata será lavrada
em duplicata, ficando uma em poder da companhia e a outra designada ao registro.
A subscrição particular é mais simples. Pode ser feita por deliberação dos subscri-
tores em assembleia geral (que segue as mesmas regras da constituição por subscrição
pública) ou por escritura pública, considerando-se fundadores todos os subscritores.
Alguns detalhes:
.- a incorporação de imóvel para a formação do capital social não exige escritura
pública;
.- os subscritores podem fazer-se representar por procurador com poderes espe-
dais;
.- os fundadores responderão solidariamente pelos prejuízos decorrentes de
culpa ou dolo e atos ou operações anteriores à constituição.

12.4. Valores mobiliários


Aqui começamos a ver os conceitos que usei antes sem nem explicar nada. Foi,
proposital. Era para a gente começar a se acostumar com os termos, mesmo sem saber'
o que eles significam.
Valores mobiliários são os títulos que a S/A emite para conseguir recursos. São
eles:
.- ações;
.- debêntures;
.- partes beneficiárias;

Sociedades por ações -I 102


.- bônus de subscrição;
.- nota promissória .
Vamos ver cada um deles.

12.4.1 . Ações
São os valores mobiliários que representam uma unidade do capital social das
sociedades anônimas e conferem ao seu titular direitos e deveres.
O estatuto social fixará se terão ou não valor nominal. Se tiver, este será o mesmo
para toda a companhia.
As ações podem ser ordinárias, preferenciais ou de fruição.
As ações ordinárias são aquelas que conferem ao titular os direitos de acionista
comum. Nas companhias fechadas, podem ser classificadas em diferentes classes, em
função de:
.- conversibilidade em ações preferenciais;
.- exigência da nacionalidade brasileira do acionista;
.- direito de voto em separado para o preenchimento de cargos administrativos.
já as ações preferenciais conferem vantagens diferenciadas, que podem consistir
em prioridade na distribuição de dividendo ou no reembolso de capital.
As ações preferenciais podem ser com ou sem direito a voto. Se não trouxerem a
previsão de tal direito, devem ter pelo menos uma das seguintes vantagens previstas
no art. 17, § 1~, incisos l, ll e lll. O má:<imo de ações preferenciais sem direito a voto
de uma sociedade anônima é de so% do total de ações emitidas
Podem ainda as vantagens ser políticas, como o direito de eleger em separado um
ou mais membros dos órgãos de administração, ou subordinar as alterações estatutá-
rias à aprovação em assembleia dos seus titulares.
Finalmente, as ações de fmição são aquelas atribuídas aos acionistas cujas ações
já foram totalmente amortizadas.
As ações sempre serão nominativas (ou seja, sua propriedade presume-se pela
inscrição do nome do acionista no livro próprio) e poderão ser conversíveis (de ordi-
nária para preferencial, por ~xemplo). A forma e a conversibilidade das ações estarão
previstas no estatuto.
Uma ação é sempre indivisível em relação à sociedade, e, se pertencer a mais de
uma pessoa em condomínio,'os direitos serão exercidos pelo representante.
Nas companhias abertas, as ações só poderão ser negociadas depois de realizado
30% ,do preço de emissão, sob pena de nulidade.
Alguns conceitos para finalizar:
.- Resgate é o pagamento do valor da ação para retirá-la definitivamente de cir-
culação, com redução ou não do capital social. O resgate só será efetuado se, em as-
sembleia especial, tiver sido aprovado por acionistas que representem, no mínimo,
metade das ações das classes atingidas .

103 Empresarial para quem odeia empresarial


.,_ Amortização é a distribuição aos acionistas, a título de antecipação e sem re-
dução do capital social, de quantias que lhe poderiam tocar em caso de liquidação.
Pode ser total ou parcial, e abranger todas ou apenas uma das classes de ações.
.,_ Reembolso é a operação pela qual, nos casos previstos em lei, a companhia
paga aos acionistas dissidentes de deliberação da assembleia geral o valor de suas
ações, que somente poderá ser inferior ao valor do patrimônio líquido constante do
último balanço se estipulado com base no valor econômico da companhia.

12.4.2. Partes beneficiárias


São títulos negociáveis, emitidos somente pelas S/Afechadas em uma única série
ou classe, sem valor nominal e estranhos ao capital social, que conferem a seus titula-
res direito de crédito eventual de participação nos lucros.
A participação atribuída a elas nunca ultrapassará lo% dos lucros, sendo vedado
conferir qualquer tipo de direito privativo de sócio, salvo o de fiscalizar os atos dos
administradores.

12.4.3. Debêntures
São títulos que conferem a seus titulares direito de crédito contra a companhia,
nas condições especificadas. Podym ser divididas em séries.
A época do vencimento da debênture deverá constar da escritura, sendo possível
estipular amortizações parciais para cada série, criar fundos de amortização e reser-
var-se o direito de resgate antecipado, parcial ou total, dos títulos da mesma série. A
amortização de debêntures da mesma série será feita mediante rateio.
É possível a conversão de debêntures em ações, e os acionistas terão direito de
preferência para subscrever a emissão de debêntures com cláusula de conversibilidade.
As debêntures podem ser de várias espécies:
.,_ com garantia real: vinculam determinado bem ou conjunto de bens identifi-
cados ao cumprimento da obrigação (ex.: hipoteca e penhor). Os titulares de debêntu-
res com essa garantia possuem privilégio real, e sua posição em caso de concurso de
credores é a do credor com direito real de garantia;
.,_ coni garantia flutuante: dão ao credor garantia geral sobre o ativo da compa-
nhia. Sua posição em relação ao ativo é idêntica à do credor comum: o ativo da socieda-
de é a garantia futura do pagamento de seus créditos, mas não possui qualquer ação
contra eventual venda de ativos pela companhia. Em caso de concurso de credores, sua
posição equivale à do credor com garantia geral. É autorizado, ainda, o estabelecimento
de garantia flutuante em relação aos ativos de duas ou mais sociedade do mesmo grupo;
.,_ sem garantia: são títulos quirografários, ocupando essa posição no quadro ge-
ral de credores. São as debêntures comuns, que subsistem no silêncio da escritura
quanto à existência de garantias;

Sociedades por ações -I 104


.,_ subordinadas: são créditos subquirografários e somente terão preferência em
relação aos acionistas;
.,_ com garantia pessoal: embora não previstas expressamente na lei, podem ser
emitidas debêntures com garantias fidejussórias dos controladores da sociedade
emissora.
As garantias poderão ser conferidas cumulativamente.

12.4.4. Bônus de subscrição


São títulos negociáveis que conferem aos seus titulares direito de subscrever ações
do capital social, mediante apresentação e pagamento do preço de emissão das ações.
A competência para a deliberação sobre emissão desses títulos é da assembleia
geral. Os acionistas sempre gozarão de preferência para subscrever a emissão de bônus.

12.4.5. Notas promissórias


São valores mobiliários destinados à captação de recursos para restituição em
curto prazo (de 30 a 360 dias). São também chamadas de commercial papers.

·····················································································
JlC4!
Muita coisa. né? \; muita coisa cheia de muitos detalhes. \;u também acho.
!; fico triste por ter que informar que falta bastante coisa ainda. Mas acho que
a parte mais técnica já foi. Daqui para a frente melhora. Vou tentar melhorar a
linguagem também. aí a leitura fica menos cansativa, combinado?
Antes de continuar, pausa merecida para um café. copuccino. suco de gra-
viola ou um copo de água gelada com sal de frutas. Vou optar por este último.
.....................................................................................
12.5. Capital social
A integralização do capital social pode ocorrer em dinheiro, bens ou créditos, da
mesma forma co~10 ocorre nas sociedades limitadas.
Se a integralização for feita com bens, precisa ter três tiozinhos peritos ou contratar
uma empresa para avaliar. A avaliação será submetida a votação em assembleia &era!.
Também aqui, quem integraliza o capital social com bens responde pela evicção
e quem integraliza com créditos responde pela solvência do devedor.
O aumento do capital social pode ocorrer de três formas:
a) emissão de ações: deve ser votada em assembleia geral extraordinária, e, para
ocorrer, pelo menos % do capital social preexistente tem que estar integralizado;
b) valores mobiliários: conversão de debêntures ou partes beneficiárias em ações
ou o exercício dos direitos conferidos pelos bônus de subscrição;
c) capitalização de lucros e reservas.

105 Empresarial para quem odeia empresarial


O estatuto social pode estabelecer um limite para que o capital social seja aumen-
tado sem necessidade ele convocação de assembleia. É o chamado capital autorizado.
)á a redução do capital social pode ocorrer quando ele estiver em excesso ou
quando se verificar que seu montante é irreal. Os acionistas serão reembolsados de
maneira proporcional à sua participação no capital, resguardados os direitos de ter-
ceiros.

Vo.cê eJ1á. ~? t:spero que não esteja começando a me odiar tanto quanto eu
odeio o direito empresarial.
....................................................................................
12.6. Órgãos sociais

12.6.1. Assembleia geral


É o órgão top da S/A, e sua função é exclusivamente deliberativa. Nela se reúnem
todos os acionistas, incluindo aqueles que não têm direito a voto. Estes também são
chamados porque, mesmo sendo titulares das ações que não dão ou limitam o direito
de voto, tais acionistas, excepcionalmente, tomarão parte em algumas deliberações
(art. 125, parágrafo único), tais como:
~ deliberação de constituição da companhia;
~ eleição de membro da administração ou do conselho fiscal em ato sepa::ado;
~ não pagamento de dividendos fixos ou mínimos.
Só um comentário aqui, que eu não sei se já fiz, mas que é cabível, ainda que re-
petido.
A Lei das Sociedades Anônimas é como a Lei da Propriedade Industrial: chata,
longa, difícil de ler, mas tem absolutamente tudo esmiuçado dentro. Então, em alguns
pontos, não tem como: é cópia do artigo mesmo. Vou optar agora por Ctrl+C e Ctrl+V
mesmo, porque ajuda na familiarização com o dispositivo.
Se você está seguindo a lei, já eleve ter percebido que, quando eu falei sobre cada
um dos valores mobiliários, fiz isso também, mas de forma diferente: apenas transfor-
mei o artigo num texto mais bonitinho. Não tem como mudar muita coisa, nem dei-
xar mais simples.
Dito isso, vamos ver o art. 132, que trata do prazo para a realização da assembleia
geral ordinária e da sua competência:
''Art. 132. Anualmente, nos 4 primeiros meses seguintes ao término do exercício social,
deverá haver uma assembleia geral para:
I- tomar as contas dos administradores, examinar, discutir e vota! as demonstrações
financeiras;
11- deliberar sobre a destinação do lucro líquido do exercício e a distribuição de divi-
dendos;

Sociedades por ações -I 106


lll - eleger os administradores e os membros do conselho fiscal, quando for o caso;
IV- aprovar a correção da expressão monetária do capital social (art. 167)".
Esse rol é taxativo, o que traz duas implicações: tais assuntos serão tratados ex-
clusivamente na assembleia geral; e qualquer outro assunto que não esteja elencado aí
não pode ser tratado na assembleia geral.
Agora, parte chata de novo (como se tivesse alguma que fosse legal...): quóruns.
a) 1f4 do capital social para instalação em primeira convocação;
b) 2/3 do capital social para instalação em primeira convocação, se na pauta
constar apreciação de proposta de alteração do estatuto. A instalação da assembleia
em segunda convocação, em qualquer caso, pode dar-se com qualquer número de
acionistas;
c) mais da metade do total de ações com direito a voto presentes, descontados os
votos em branco para aprovação de proposta dirigida à assembleia (pela lei, art.129, é
esse o conceito de maioria absoluta);
d) metade do capital social (ações com direito a voto) para aprovação das maté-
rias constantes no art. 136, quais sejam:
~ criação de ações preferenciais ou aumento ele classe de ações preferenciais
existentes, sem guardar proporção com as demais classes ele ações preferenciais, salvo
se já previstos ou autorizados pelo estatuto;
~ alteração nas preferências, vantagens e cqndições de resgate ou amortiza-
ção de uma ou mais classes de ações preferenciais, ou criação de nova classe ni.ais
favorecida;
~ redução do dividendo obrigatório;
~ fusão da companhia, ou sua incorporação em outra;
~ participação em grupo de sociedades (art. 265);
~ mudança elo objeto da companhia;
... cessação do estado de liquidação da companhia;
~ criação de partes beneficiárias;
~ cisão da companhia;
... dissolução da companhia.
A convocação para a assembleia será feita por anúncio publicado por três vezes,
que, no caso ele reforma do estatuto, deverá indicar a matéria. O prazo para as publi-
cações é diferente para as companhias abertas e para as fechadas. Nesta, deverão ser
publicados com antecedência mínima de 8 dias, e, se não se realizar, com antecedên-
ciamínima 5 dias na segunda convocação. Nas abertas, os prazos são, respectivamen-
te, de 15 e 8 dias.
Eventual desrespeito a essas regras pode gerar a anulação das deliberações toma-
das, e o prazo para pleitear tal anulação é prescricional de 2 anos.

107 Empresarial para quem odeia empresarial


12.6.2 .. Conselho de administração
É órgão obrigatório somente nas companhias abertas, nas de capital autorizado e
nas de economia mista, colegiado e que tem uma parcela da competência destinada à
assembleia geral.
Composto por no mínimo 3 membros, pessoas físicas, com mandato nunca supe-
rior a 3 anos, sendo possível a recondução. As deliberações são tomadas por mai,oria
de votos, e a competência está descrita no art. 142:
"Art. 142. Compete ao conselho de administração:
I- fixar a orientação geral dos negócios da companhia·;
11 - eleger e destituir os diretores da companhia e fixarélhes as atribuições, observado
o que a respeito dispuser o estatuto;
lll- fiscalizar a gestão dos diretores, examinar, a qualq~er tempo, os livros e papéis da
companhia, solicitar informações sobre contratos celebrados ou em via de celebração, e
quaisquer outros atos;
IV- convocar a assembleia geral quando julgar conveniente, ou no caso do art. 132;
V- manifestar-se sobre o relatÓrio da administração e as contas da diretoria;
VI - manifestar-se previamente sobre atos ou contratos, quando o estatuto assim o
exigir;
VIl- deliberar, quando autorizpdo pelo estatuto, sobre a emissão de ações ou de bônus
de subscrição;
Vlll- autorizar, se o estatuto não dispuser em contrário, a alienação de bens do ativo não
circulante, a constituição de ônus reais e a prestação de garantias a obrigações de terceiros;
IX- escolher e destituir os auditores independentes, se houver".

12.6.3. Diretoria
É o órgão que representa legalmente a companhia e executa as deliberações da
assembleia geral e do conselho de administração.
Composta de no mínimo 2 membros, acionistas ou não, mas que obrigatoria-
mente residam no Brasil, eleitos pelo conselho de administração, quando este existir,
ou pela assernbleia geral.

12.6.4. Conselho fiscal


É órgão de existência obrigatória, mas seu funcionamento é facultativo. Com-
põe-se de no mínimo 3 e no máximo 5 membros, eleitos pela assembleia geral, com
igual número de suplentes, acionistas ou não, mas também obrigatoriamente residen-
tes no País.
A competência desse órgão está descrita no art. 163.

Sociedades por ações -I 108


···········································
~·d:,"~~:·~~·~::~·;~~r·~~·uzir o trecho de uma música "... tristeza
não tem fi 'TI, felicidade sim ... ".
Vamos fazer uma pausa? Mudar de capítulo, virar a página para dar uma
descansadinha. Pode ser?
Preciso desligar Úm pouco, meu povo. Já passa das tantas da madrugada,
e eu ainda estou com o estômago cheio por conta do almoço (que foi quase na
hora do jêntar). Se me perm'1tem ratificar um aspecto da sugestãodagororoba,
mantenho 0 que disse sobre ser realmente uma delícia, mas defm1bvamente
niÍo é comida para dia de semana. i=aça no domingo. de preferência num do-
mingo e111 que você não vá estudar direito empresariaL
····················································································

109 Empresarial para quem odeia empresarial


:-'",' :)-J;
·.':~~:-;

13. Dia de cão:

:.s:~,cí~ckiflêfpor':Oçõ,es ~Jr
,.J-<.'>,!~·.f~l,;. ~ 'I• , .. ','• ,.,, ,' • • ~ t ,I'' ,

····················································································
.lü, é a.M.im:
eu acordo cedo depois de ter dormido tarde, tiro a cria da cama
com dor no coração (porque, sempre que a vejo dormindo, tenho a certeza
que é um sono de paz), levo-a para a escola e volto, já começando a ficar inju-
riada porque preciso voltar as sociedades anônimas.
Antes ele recomeçar, abro o e-mail p~ra ver se tem alguma coisa interes-
sante no meio ele tanto spam. Não. Abro o site da OAB para ver minhas publi-
cações e dou de cara com uma sentença que diz somente isto:
O pedido não procede. A autora é advogada e conhecedora elas práticas
comerciais. Não existe um produto totalmente inquebrável. Isso é ele conheci-
1ii mento comum. O produto vendido pode ser mais resistente à queda, mas nun-
ca inquebrável. Posto isso, JULGO IMPROCt-:Dt-:NTt-: o pedido, nos termos do
artigo 269, I, do CPC
Comprei um determinado telefone celular única e exclusivamente porque
a tela era anti-impacto. Na televisão, a propaganda mostrava quedas ce mais
de um metro ele altura, diversas vezes, e o telefone continuava intacto.
Meu telefone caiu e quebrou. t-: eu, que sou advogada e conheço as prá-
il'
l :·: ticas comerciais, estou errada por pedir a troca do aparelho.
Tá ele palhaçada comigo, Sr. Juiz? Tá tirando onda ela minha cara. Certeza.
;
·'· ' "' t-: eu sou o Bozo, né?
Meu bom humor já foi embora mesmo, então vamos logo continua· ases~·
são tortura.
~._[X';·:;
····················································································
~~!}
·-~-~-~- ~
./ .

13.1. Administração da sociedade


i
A LSA chama de administradores às integrantes do conselho de administração e
<(;. s:·:. d~ diretoria, e essas pessoas são pres~nteadas com os deveres, constantes dos arts. 153
"·~··~. ·.\ .
-.:-·,_./i
l
I
.J
a 157· Ficaria. bem chato eu simplesmente transcrevê-los aqui, embora sejam bem
completos e autoexplicativos. Então, vou falar algumas palavrinhas básicas sobre cada
um dos deveres, mas sugiro que leiam. Não precisa decorar não. Só ler mesmo, com-
binado?
a) Dever de diligência: o administrador deve cuidar da sociedade como se esti-
vesse cuidando do seu próprio negócio, sem nunéa perder de vista a persecução pelos
interesses da sociedade.
b) Dever de lealdade: não pode o administrador se valer das informações a que
tem acesso em proveito próprio ou de terceiro. A bem da verdade, essa é uma regra
que se aplica a qualquer pessoa, e não somente aos administradores . Em alguns casos,
a violação a esse dever caracteriza crime de concorrência desleal.
c) Dever de informar: aplicável nas companhias abertas, desdobra-se em duas
vertentes. O administrador tem o dever de informar aos acionistas eventuais interes-
ses que ele venha a ter nos negócios sociais e também o dever de informar ao mercado
tudo aquilo que possa influenciar na decisão dos investidores.
Quando falamos da teoria ultra vires, dissemos que não se aplica às sociedades
anônimas. lsso quer dizer que o administrador, ainda que atue fora dos poderes que
lhe foram conferidos, ou mesmo ilicitamente, com dolo ou culpa, nunca vai respon-
der pessoalmente por tais atos.
Considera-se que tal ato foi praticado pela sociedade, e ela mesma arcará com as
consequências. Mas isso não impede, em absoluto, que a companhia se volte, em ação
de regresso, contra o administrador, o que dependerá de aprovação em assembleia
geral.
Olha que legal: se a assembleia geral decidiu que é mesmo caso de responsabili-
zação do administrador, mas os órgãos da administração não promoverem essa ação
no prazo de 3 meses, qualquer acionista poderá fazê-lo em nome da companhia. O
direito a ação prescreve em 3 anos.

13.2. Acionistas
• . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . o ••••••• ~ ••••••••••• ~ •••••••••••••••••••
•• o ••••••••••••••••••

·.:llnl.e4 de
c.o.tneç.a~~o, mais um :momento dia ele fúria: porque diabos algumas
palavras insistem em ser digitadas de forma errada? O dedo vai automático,
nãoé possível! Uma dessas palavras é exatamente "acionista". Juro: não tem
uma única vez que eu consiga digitar essa palavra ele maneira correta. Toda
hora sai "aciosnista". t-: toda hora eu tenho que arrumar.
t-: justamente hoje, quando já estou fui a ela viela por conta daquela senten-
ça, tenho que escrever um capítulo cujo subtítulo é exatamente essa palavra
amaldiçoada. t-:u mereço.
....................................................................................
111 Empresarial para quem odeia empresarial
Tal como era nas sociedades limitadas, o principal dever do acionista aqui é o de
pagar o preço das ações que subscreveu. Se não pagar no vencimento, incorre ~m
mora, e, a depender de previsão no estatuto, sobre o valor do débito incidirão juros,
correção monetária e multa estatutária, que não pode ser superior a 1 o%.
A companhia tem, então, duas opções: pode promover a execução do acionista
remisso, e o título executivo será o boletim de subscrição, ou pode vender as ações não
integralizadas na bolsa de valores, e essa regra se aplica também às companhias fá:ha-
das, porque a venda é feita de forma diferente, em leilão especial. Se o produto da
venda for suficiente para pagar as despesas e encargos de.correntes do inadimplemen-
to e, ainda assim, sobrar dinheiro, o saldo será devolvido ao acionista remisso. .
Vamos supor que a companhia não consiga vender a~ ações não integralizadas ou
não consiga obter sucesso na execução judicial. Nesse c~so, a ação será declarada ca-
duca, e as entradas eventualmente feitas pelo sócio reqlisso serão apropriadas pela
própria companhia.
Se possuir fundos ou reservas, poderá ela mesma integralizar tais ações e colocá-
-las à venda no mercado, agora da forma convencional. Do contrário, terá que conse-
guir um comprador para elas no prazo de um ano, sob pena de ter seu capital social
reduzido compulsoriamente.
São direitos essenciais dos acionistas os dispostos no art. 109:
a) Participação nos resultados sociais: todo acionista tem direito a receber divi-
de~dos, nome dado aos lucros da A, e a receber sua parte em caso de liquidação. Mas
S/
aqui também se aplica aquela restrição que vimos nas limitadas: se a companhia for
devedora do INSS, não poderá distribuir lucros.
b) Fiscalização da gestão dos negócios da sociedade: ao lado do conselho fiscal,
os acionistas também são dotados do direito de fiscalizar a companhia. Esse direito se
materializa, por exemplo, na possibilidade de exame dos livros por acionistas que re-
presentem mais de 5% do capital social quando há suspeitas de irregularidade.
c) Direito de preferência: toda vez que houver aumento de capital e novas ações
forem emitidas, os acionistas terão preferência na subscrição destas, obedecidas as
regras do art. 171, § 1~.
d) Direito de retirada: também demos uma passada sobre esse assunto no estudo
das limitadas. O acionista que discordar das deliberações feitas em assembleia ou da
companhia que passar por fusão ou transformação poderá pedir para sair, recebendo
o reembolso de suas ações. O reembolso é calculado com base no valor patrimonial
destas, mas o estatuto pode prever que seja baseado no seu valor econômico.
Olha só: eu não coloquei aqui o direito de voto. Por quê? Fácil. já dissemos que 0
direito de voto não é inerente a todo àcionista, exatamente porque algumas ações não
trazem consigo esse direito, como as preferenciais.
Mas veja: não é correto afirmar que as ações preferenciais não dão direito a voto.
Diz O art. I I I :

Sociedades por ações -li 112


'1\rt. 111. O estatuto poderá deixar de conferir às ações preferenciais algum ou alguns
dos direitos reconhecidos às ações ordinárias, inclusive o de voto, ou conferi-lo càm restri-
ções, observado o disposto no art. 109".
Percebeu ci verbo? Poderá. Quer dizer que as ações preferenciais podem sim dar
direito a voto, mas também podem não dar.
O direito de voto está regulado nos arts. 1 1o a 1 15 da LSA. Cada ação dá direito a
um voto. E mais: a própria lei estabelece que as ações preferenciais sem direito a voto
oJ. com o direito restrito passarão a ter esse direito plenamente caso os dividendos
não sejam pagos por 3 anos.
Outra informação importante: é vedado o voto abusivo e o voto conflitante.
Voto abusivo é aquele que tem a finalidade clara de causar dano ou prejuízo à
companhia ou aos demais acionistas.
já o voto conflitante ou em conflito de interesses é aquele que o acionista não
pode exercer porque o que está sendo votado é interesse seu. Assim, não pode o acio-
nista votar na deliberação sobre a avaliação de bens que ele mesmo deu em integrali-
zação de suas ~ções ou sobre a avaliação de suas contas. Veda-se, aqui, o benefício
próprio: claro que nessas situações o acionista votaria a favor de si mesmo.
Ambas as situações, voto abusivo ou conflitante, podem gerar responsabilidade
civil para o acionista.

13.3. Acordo de acionistas


Sabe aquele reality sltow que pa~sa todo começo de ano? Nem queira me dizer que
nunca assistiu porque é mentira. Enfim, lá sempre tem uma discussãozinha ou outra
em que os participantes acusam uns aos outros de combinar votos. Sempre tem.
O acordo de acionistas é exatamente isso: combinação de votos. E a lei permite.
Inclusive permite que isso seja feito escancaradamente, ou seja, eles não precisam fi-
car de conversinh;t de canto fazendo isso, como na televisão. Podem até registrar seu
acordo. Num contratinho mesmo.
E veja: caso a deliberação seja sobre o poder de controle, o exercício do direito de
voto, a compra e venda de ações ou a preferência das aquisições, e se o acordo estiver
formalmente registrado, então a companhia não poderá praticar atos que contrariem
esse acordo. Mais: se algum dos sócios que assinaram o contratinho agir de maneira
oposta, poderá contra ele ser promovida execução no âmbito judicial.
Ó o exemplo dado pelo meu amigo Ulhoa":

9 Manual de direito comercial, p. 250.

113 Empresarial para quem odeia empresarial


de preferência a outro, mas
"Assim, se um acionista acordou em conceder o direito
, a companhia não poderá regis-
vendeu suas ações a um terceiro, descumprindo o acordo
se encontre averbado".
trar a transferência da titularidade das ações, caso o acordo
casos acima, se comb inaram ,
Viu que legal? Além de poder comb inar votos, nos
terão que cump rir.
a venda do voto e o acord o
Ainda assim, em nenhu ma hipóte se será permi tida
sobre decisões homo logató rias e
sobre o cham ado "voto de verdade", aquele que recai
não propr iamen te cleliberatórias.

13.4. Poder de controle


O O O
O O 0 0 O O O O O O O 0 O O 0 O O O O O 0 i o O 0 O O O O O O O O O O O 0 O

O O 0 O 0 O O O O O O O O
O O O 0 O 0 O O I 0 O O O
O O O 0 O 0 O 0 O 0 O O
O 0 O O O

da senten ça quanto da
.fü, eu eAJ.o.u, aqMJ ~-Tentei me deslig ar tanto
. l pimba l A Intern et desliga
palavra chata que insiste em ser digitad a errado
sozinha.
não vou citar, mas que tem
Vai eu ligar para uma empre sa, cujo nome
de combo de Interne t, telefon e e
apena s três letrinh as, que vende serviço s
atendi mento pode ser co'lsid era·
televis ão, e que em termos de qualid ade ~e
da a pior presta dora de serviço do mundo .
os técnic os resolv eram fa.
Inform a a mocinh a do outro lado da linha que
ficar sem sinal por 4 horas. Oue beleza.
zer manut enção hoje e que eu vou
....................................................................................
a ações tantas quant as lhes se-
O acioni sta ou um grupo ele acioni stas que possu
bleia de modo perma nente e que
jam sufici entes para garan tir as decisões da assem
ado pela LSA de acioni sta con-
possa m eleger a maior ia dos admin istrad ores é cham
gios: é precis o que realm ente ust
trolad or. Mas não basta que ele goze desses privilé
disso para dirigir a sociedade.
o contro lador pelo danos cau-
Agindo com abuso de poder, contu do, respo nderá
parág rafos uma série de situaçõe>
sados. É o que dispõe o art. 117, que traz nos seus
que caract erizam o abuso de poder.
objetiva~ É que não se faz
I
Pode-se dizer que rola quase uma respo nsabil idade
e seria uma prova diabólica. Ado-
neces sária a prova do dolo do contro lador, até porqu
·11;
lt'i sível ou pratic amen te impossível
ro essa expressão: prova diabólica. É a prova impos
de ser produ zida.
de contro le são vendidé..s
Uma coisa óbvia: as ações que dão susten tação ao poder
porqu e tais ações acaba m confe -
por valor mais elevado que as ações "comuns". Isso
utura r a sociedade, de efetiv ament e
rindo 0 poder de eleger admin istrad ores, de reestr
de prêmi o de contro le.
dirigi-la etc. A essa difere nça de preço dá-se o nome
ela LSA:
Sobre esse assun to, impor tante a leitur a do art. 254-A
I J.''

1'11'1 Sociedades por ações -li


114
companhia aber:ta somente
''Art. 254-A. A alienação, direta ou indireta, do controle de
tiva, de que o adquirente se
poderá ser contratada sob a condição, suspensiva ou resolu
direito a voto de propriedade dos
obrigue a fazer oferta pública de aquisição das ações com
o preço no mínimo igual a 8o%
demais acionistas da companhia, de modo a lhes assegurar
bloco de controle.
do valor pago por ação com direito a voto, integrante do
direta ou indi-
f I~ Entende-se como alienação de controle a transferência, de forma
adas a acordos de acionistas
reta, de ações integrantes do bloco de controle, de ações vincul
a voto, cessão de direitos de
e de valores mobiliários conversíveis em ações com direito
os a valores mobiliários conversí-
subscrição de ações e de outros títulos ou direitos relativ
le acionário da sociedade.
veis em ações que venham a resultar na alienação de contro
f 2~ A Comissão de Valores Mobiliários autori zará a alienação de co~~role de que
oferta pública atendem aos requi-
trata o caput , desde que verificado que as condições da
sitos legais.
a serem observa-
f 3~ Compete à Comissão de Valores Mobiliários estabelecer normas
das na oferta pública de que trata o caput.
oferecer aos
f 4~ O adquirente do controle acionário de companhia aberta poderá ento de
nhia, media nte o pagam
acionistas minoritários a opção de permanecer na compa
do das ações e o valor pago por
um prêmio equivalente à diferença entre o valor de merca
ação integrante do bloco de controle".

13.5. Demonstrações financeiras


ma levan tar uma série ele
Term inado o exercício social, deve a socied ade anôni
a a situaç ão geral da comp anhia .
docum entos contáb eis que servem para tornar públic
pelo estatu to social. Norm al-
Exercício social é o períod o de um ano estipu lado
e que ocorr a em outra data (por
mente coinci de com o ano civil, mas nada imped
te).
exemplo, de 1~ de abril a 3 1 de março do ano seguin
ões financ eiras obrigatórias:
Nas comp anhia s fechadas, são quatro as demo nstraç
, o ativo, o passivo e o patri-
a)_ Balanço patrim onial: traz, de mane ira aprox imada
e é feito com base em regras de
mônio líquid o da sociedade. Diz-se aprox imado porqu
mas que apres entam sempr e certa
conta bilida de que eu não f~ço ideia quais sejam,
marge m de erro.
b) Demo nstraç ão de lucros e prejuízos auferi
dos.
c) Demo nstraç ão do result ado do exercí cio: é o desem penho da empre sa. Im-
inves timen tos e da eficiência da
porta nte porqu e permi te a verificação elo retorn o dos
admin istraç ão.
d) Demo nstraç ão de fluxo de caixa: se a comp
anhia fechad a tiver patrim ônio lí-
deste.
quido inferi or a 2 milhõ es de reais, estará dispen sada
, a cham ada demo nstraç ão de
Se a S/A for aberta, deverá apresentar, além dessas
no exercício social.
valor adicio nado, que retrat a a riquez a que gerou

115 Empresarial para quem odeia empresarial


13.6. Dissolução e liquidação

"i~:········ .. ·································································
Acabo de "ouvir um silêncio". O pai da minha filha costumava usar essa
expressão para se referir a uma bronca. No meu caso, foi silêncio mesmo. i=iz
uma pergunta ao Sr. !=:ditor e ele não me respondeu. Já sei o que isso quer di-
zer. ~ como o título de uma música da banda O Rappa (que, aliás, eu amo): o
silêncio que precede o esporro.
Tenho sérias dúvidas sobre a possibilidade de eu sobreviver a este dia.
Por outro lado, se já estamos dissolvendo a sociedade anônima, isso significa
que estamos acabando.
................................................................................... .
~

As regras de dissolução das companhias estão previstas nos arts. 206 a 218. Minha
vontade era escrever "leia os artigos" e terminar aqui o capítulo, mas sou fina e não
vou fazer isso.
A dissolução pode dar-se de pleno direito, por decisão judicial ou ainda por decisão
da autoridade administrativa competente, e a personalidade jurídica perdurará até o final
do procedimento, mas ao nome empresalial será acrescida a expressão "em liquidação".
Será dissolvida de pleno direito nas seguintes situações:
._ término do prazo de duração;
._ por deliberação da assembleia geral;
._ unipessoalidade de acionistas não reconstituída até a data da realização da
assembleia geral do ano seguinte;
._ outros casos previstos no estatuto.
)á a dissolução judicial ocorrerá com a anulação da constituição, quando ficar
constatado que o objeto social não é realizável, ou com a falência.
Pode também ocorrer dissolução parcial, ou seja, com relação a um ou alguns
sócios, na hipótese em que o acionista dissidente exerce seu direito de retirada e o
reembolso é feito com a redução do capital social. A morte de acionista, como já dito,
não gera qualquer efeito para a sociedade.
Com relação à exclusão de acionista, será decidida por quem detenha pelo menos
metade do capital social com direito a voto.
Dissolvida a companhia, é feita então a liquidação desta. Se a dissolução for judi-
cial, a liquidação também obrigatoriamente será. E será judicial a liquidação, ainda,
sempre que a amigável não for feita a contento e algum acionista ou o próprio Minis-
tério Público assim o requerer. ·

13.7. Transformação, incorporação, fusão e cisão


Essa matéria está tratada no Código Civil, nos arts. I. I I 3 a I. I 22. Mas quando na

Sociedades por ações -li 116


operação tiver uma sociedade anônima envolvida, aí as regras serão as da LSA. Claro,
né? Pra que seguir as mesmas regras?
Informo que continuo ranzinza. Muito ranzinza.

13.7 .1. Transformação


É a mudança de tipo social. Não surge pessoa jurídica nova, não extingue pessoa
jurídica velha, nada disso. Só muda o tipo.
~ Para transformar, basicamente tem que seguir as mesmas regras aplicáveis à
constituição. A aprovação tem que ser unânime. Geral tem que aceitar, até mesmo os
a•:ionistas sem direíto a voto. Só não será assim se o próprio estatuto previr a p6ssibi-
lidade da transformação, e, nesse caso, os acionistas dissidentes poderão exercer o
direito de retirada.

13.7.2. Incorporação
Neste caso, uma sociedade absorve outra, e esta outra deixa de existir. Submete-
-se às regras comuns de procedimento: os órgãos de administraÇão da sociedade anô-
nima elaborarão um protocolo e a assembleia geral deliberará sobre a incorporação.
P.í, será feita a avaliação do patrimônio a ser incorporado para que se possa fazer a
equivalência do valor deste com o capital social a ser realizado. Se a sociedade for
emissora de debêntures, só poderá proceder à operação com a aprovação dos deben-
turistas .
Importante diferenciar a incorporação da sociedade anônima com a chamada
i::1corporação de ações. Esta é assim: uma sociedade empresária adquire todas as ações
é.o capital social da sociedadf anônima, passando a ser a única acionista. A ela dá-se o
nome de subsidiária integral.
A subsidiária integral não pode ser sociedade estrangeira.

13.7.3. Fusão ,
Duas ou mais sociedades se unem, fazendo nascer uma nova. Submete-se às re-
gras comuns de procedimento. Primeira demonstração de alegria do dia: oba!

13.7.4. Cisão
É a transferência de uma parcela do capital social para outra sociedade, que já
existe ou que é criada nessa situação. Submete-se às regras comuns de procedimento.
Segunda grande demonstração de alegria do dia: uhu!
Nestas três últimas operações, é dado ao acionista dissidente o direito de retirada
da sociedade. Mas veja as particularidades: na incorporação, só tem esse direito o
acionista da sociedade incorporada; na cisão só terá esse direito se passar a ser

117 Empresarial para quem odeia empresarial


acionista de sociedade com objeto social essencialmente diferente ou se seus dividen-
dos obrigatórios forem menores.
Quanto aos direitos dos credores, na transformação não muda nada. Na incorpo-
ração e na fusão, eles terão direito a anular a operação se esta lhes causar prejuízo. Na
cisão, as sociedades cindidas passam a ser solidariamente responsáveis pelas obriga-
ções preexistentes.
A incorporação e a fusão precisarão de autorização do CADE sempre que resulta-
rem em empresas que participem em zo% ou mais de mercado considerado relevante
ou se qualquer das sociedades envolvidas tiver faturamento bruto anual expressivo.

13.8. Grupos de sociedade e consórcio


Duas ou mais sociedades podem unir esforços para a realização de atividades
comuns. Dessa união podem surgir os grupos de fato, os grupos de direito e os con-
sórcios.
Se você visse a minha cara neste momento, choraria. Queridos donos de clínicas
de estética facial: troco qualquer tipo ele tratamento por um exemplar deste livro,
embrulhado para presente.
Os grupos de fato são aqueles formados por sociedades coligadas ou sociedades
controlada e controladora. Consideram-se coligadas as sociedades que exercem influ-
ência uma sobre a outra, ou seja, uma participa nas decisões da política financeira e
operacional da outra, mas não exerce controle.
Importante. Antes, havia na lei um percentual fixo que determinava a coligação
( 1o%).Não existe mais.
Por outro lado, a sociedade controladora, como não poderia deixar de ser, con-
trola a sociedade controlada. Pleonasmo inevitável, peço desculpas. Mas basta lem-
brar do conceito de acionista controlador. É bem semelhante.
Preste atenção ao Ctrl+C e Ctrl+ V abaixo:
"Em regra, a lei veda a participação recíproca entre a sociedade anônima e suas coli-
gadas ou controladas, abrindo exceção somente para as hipóteses em que a companhia
pode adquirir as próprias ações (LSA, arts. 244 e 30, § I o, b)" 10 •
Também é admitida a participação recíproca nos casos de incorporação, fusão e
cisão, mas essa situação deve desaparecer no prazo de um ano.
A LSA traz dispositivos que se determinam maior transparência nas relações
entre essas sociedades, exigindo algumas demonstrações financeiras próprias (arts.
247 a zso).

1o COELHO, Fábio Ulhoa. Manual de direito comercial, p. 264.

I Sociedades por ações -\I 118


O grupo de direito é aquele formalizado por um acordo escrito, devidamente re-
gistrado na junta Comercial. Deverá ser titularizado por uma sociedade brasileira e
ter designação própria, onde constará a palavra "grupo" ou a expressão "grupo de so-
ciedades".
Embora possa contar com uma estrutura de administração única, o grupo não
tem personalidade jurídica própria, e entre as sociedades integrantes não existirá so-
lidariedade, exceto em relação à lei anti truste e às leis trabalhistas.
Finalmente, o consórcio é formado pela união de duas sociedades que pretendem
desenvolver um ou alguns empreendimentos em conjunto. O consórcio também não
tem personalidade jurídica própria nem solidariedade entre as consorciadas, exceto
perante as leis consumeristas.
O CADE atua neste caso da mesma forma que atua na fusão ou na cisão. Sempre
que da união de sociedades resultar participação superior a zo% de um mercado rele-
vante ou quando uma das consorciadas tiver faturamento bruto anual expressivo, será
necessária sua autorização para que o grupo se constitua.

13.9. Sociedade de economia mista

Direito administrativo: "Sociedades de economia mista são pessoas jurídicas de di-


reito privado, criadas mediante autorização legislativa, com maioria de capital público e
organizadas obrigatoriamente como sociedades anônimas"''.
Essas companhias, quando do tipo aberta, serão controladas e fiscalizadas pela
CVM.
A pessoa jurídica que controla a sociedade de economia mista, que obrigatoria-
mente será de direito público, tem as mesmas responsabilidades do acionista contro-
lador, mas essa companhia sempre voltará seus objetivos para a consecução do inte-
resse público. Em razão disso, parte do lucro pode ser comprometida com atividades
relativamente deficitárias (supremacia do interesse público sobre o particular).
No que tange aos seus órgãos de administração, cumpre ressaltar que o conselho
fiscal nessas sociedades será sempre permanente.

13.10. Sociedade em comandita por ações


Eu gostaria de fazer algum comentário. Qualquer tipo de comentário. Mas não
tenho mais forças. Não é brincadeira: estudar e escrever sobre esse assunto acabou
comigo. Sobrou de mim só o bagaço da laranja. E olhe lá.
Último tópico. Vejo uma luz no fim do túnel.

11 MAZZA, Alexandre. Manual de direito administrativo. São Paulo: Saraiva, 201 1.

119 Empresarial para quem odeia empresarial


A sociedade em comandita por ações rege-se quase que integralmente pelas nor-
mas constantes na LSA. As diferenças são as que constam dos arts. 1.090 e 1.092 do
Código Civil, a saber:
a) Responsabilidade dos diretores: o diretor da comandita por ações, obrigáto-
riamente sócio, terá responsabilidade ilimitada perante as obrigações sociais.
b) Nome empresarial: pode adotar firma ou denominação. Se optar pela firq1a, o
'
nome civil a ser usado só pode ser o de um dos diretores, e em qualquer tipo deverá
constar o tipo societário.
c) Deliberações: algumas matérias dependerão serilpre da anuência dos direto-·
res da sociedade:
~ mudança do objeto social;
~ prorrogação do prazo de duração;
~ aumento ou diminuição do capital social;
~ criação de debêntures ou partes beneficiárias.
Acabamos o Direito Societário, gente. Sobrevivemos. Mas, antes de passar pro
outro tópico, acho importante deixar consignado aqui os Enunciados da l jornada de
Direito Comercial (olha ela aqui de novo) relativos ao tema.
Vamos lá:

9. Quando aplicado às relaçÕes jurídicas empresariais, o art. 50 do Código Civil


não pode ser interpretado analogamente ao art. 28, § 5."., do CDC ou ao art. z."., § z.".,
da CLT.
10. Nas sociedades simples, os sócios podem limitar suas responsabilidades entre
si, à prO?orção da participação no capital social, ressalvadas as disposições específicas.
11. A regra do art. 1.0 15, parágrafo único, do Código Civil deve ser aplicada à luz
da teoria da aparência e do primado da boa-fé objetiva, de modo a prestigiar a segu-
rança do tráfego negocia!. As sociedades se obrigam perante terceiros de boa-fé.
12. A regra contida no art. 1.055, § 1."., do Código Civil deve ser aplicada na hipó-
tese de inexatidão da avaliação de bens conferidos ao capital social; a responsabilidade
nela prevista não afasta a desconsideração da personalidade jurídica quando presen-
tes seus requisitos legais.
13. A decisão que decretar a dissolução parcial da sociedade deverá indicar a data
de desligamento do sócio e o critério de apuração de haveres.
14. É vedado aos administradores de sociedades anônimas votarem para aprova-
ção/rejeição de suas próprias contas, mesmo que o façam por interposta pessoa.
15. O vocábulo "transação", mencionado no art. r83, § 1."., d, da Lei das S.A. deve
ser lido como sinônimo de "negócio jurídico", e não no sentido técnico que é definido
pelo Capítulo XIX do Título Vl do Livro I da Parte Especial do Código Civil brasileiro.

Sociedades por ações -li 120


16. O adquirente de cotas ou ações adere ao contrato social ou estatuto no que se
refere à cláusula compromissória (cláusula de arbitragem) nele existente; assim, esta-
rá vinculado à previsão da opção da jurisdição arbitral, independentemente de assina-
tura e;'ou manifestação específica a esse respeito.
17. ~~a sociedad~ limitada com dois sócios, o sócio titular de mais da metade do
capital social pode exclUir extrajudicialmente o sócio minoritário desde que atendidas
'. as exigências materiais e procedimentais previstas no art. 1.o8s, caput e parágrafo úni-
co:, do CC.
18. O capital social da sociedade limitada poderá ser integralizado, no todo ou em
parte, cem quotas ou ações de outra sociedade, cabendo aos sócios a escolha do crité-
rio de avaliação das respectivas participações societárias, diante da responsabilidade
solidári<:. pela exata estimação dos bens conferidos ao capital social, nos termos do art,
1.055, § !."., do Código Civil.
19. Não se aplica o Código de Defesa do Consumidor às relações entre sócios/
acionistas ou entre eles e a sociedade.

Prcnto. Fim.

121 Empresarial para quem odeia empresarial


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\~_..-:. -~·-~~~-~~1]: --~: ·. !: /


-~{:· ·.-.· .., ··-·,/

14. Decoração de coração: )

····················································································
Jl caá.a cf.o4 m.e-u.4 ~ eáM em~· Coisa linda: trocando todo o piso,
quebrando parede. mudando cômodos de lugar. Só de pensar, minha alergia dá
sinais de viela.
Por conta disso, minha mãe. que não é boba nem nada. resolveu êprovei·
ta r a brecha para redecorar a casa inteira. t: eu fui com ela esses dias a uma loja
de móveis e decoração em São Paulo.
Quase tive um infarto. t:u e minha mãe somos muito diferentes, mas en·
centramos o ponto de equilíbrio: em alguns assuntos nem eu nem ela tocamos.
Princípios bastante divergentes. mas o respeito é bem legal.

-.;, t:nfim: estávamos caminhando pelo labirinto da loja. eu olhando coisas
'·\
: .' ..:~ aleatórias. ela escolhendo um aparador para colocar no banheiro novo. Come·
!:·: _:.j ceia lembrar de todos os apartamentos em que já morei.
! 1
Desde que saí da casa dos meus pais. há quase 15 anos, só divid' aparta·
i!~>/ .... .... ·/
mento uma vez, com uma guria do sul. que depois ele muito tempo cescobri
que ficou com meu namorado ela época. Depois, morei com esse mesmo na mo·
rado que ficou com a guria e, posteriormente, com o pai da minha filha.
!=ato é que eu nunca morei em república, mesmo porque sou chata de·
mais para isso. Ainda assim, nunca tive muita preocupação com esse lance de
decoração. Mesmo hoje: não tem no meu apartamento urri quadro na parede,
um \'aso de flor, um enfeite, nada.
A única coisa que um dia foi arrumadinha foi o quarto da cria. Quando efa
nasceu, tinha o quarto todo lindo: paredes pintadas da mesma cor dos dela·
lhes do berço, quadrinhos nas paredes, cortinas nas janelas, tudo combinando,
e tudo sempre muito arrumadinho.
Aí. mudamos de casa, os móveis dela se juntaram ao armário embutido do
novo quarto, a parede ficou da mesma cor que era, o berçose foi e ceu lugar
a uma cama que não combina com nada.
Agora estou em vias ele mudar ele novo. t: foi justamente nesse dia, passe·
ando com a mammy. que me peguei pensando em decorar meu futuro novo lar.
Quero um canto. Um encanto. Decoração de coração. Quero xícaras que com·
binem com o JOgo americano. Um sofá r.ovo, e bibelôs nas mesinhas de canto.
Quero quadros. Quero um tapete claro. t: o edredom mais lindo para colocar
em cima da minha cama.
Quero meu ninho. t: pendurar nele a plaquinha de "lar doce lar".
Só o fato de eu sentir essa vontade me surpreendeu. t: me deixou conten·
te. Será que estou crescendo? t:stou ficando mocinha?
Legal. t:stou orgulhosa de mim.
Mas vamos lá, porque ainda tenho muito trabalho pela frente antes de po·
der comprar o primeiro tapetinho para colocar na porta de entrada da casinha.

Terminamos, no capítulo anterior, o sub-ramo do direito empresarial chamado


de direito societário. Confesso que digo isso com uma satisfação enorme, porque es-
pecialmente a parte das sociedades anônimas foi quase um calvário para mim.
Começamos agora mais um assunto pauleira: falências. lntroduçãozinha básica,
que faremos por meio de um exemplo.
Vamos tomar meu vizinho como protagonista da história. Ele, querendo comprar
um carro, procura um anúncio no jornal, encontra o modelo de que gosta, negocia
com o dono do carro e beleza. Faz um contratinho com ele para pagar em I 2 vezes.
Negócio particular mesmo, sem financiamento em banco nem nada. Deixa os I 2 che-
ques com o tiozão e vem embora com o carro novo.
Ele paga direitinho as I I primeiras parcelas, mas, quando o cara deposita o últi-
mo cheque, surpresa: o cheque volta por falta de provisão de fundos.
Tranquilo: o cara então executa o cheque, penhora alguma coisa do vizinho e fim
da história .
Mas vamos tornar a coisa um pouco mais feia: suponha que, quando o tio que
vendeu o carro vai executar o vizinho, descobre que este não tem mais nenhum bem.
E mais: descobre que o vizinho está devendo para mais um montão de gente.
Nessa situação, o que acontece é que os bens do vizinho não serão suficientes
para saldar as dívidas que ele tem com mais de um credor.
Veja: não é justo que aquele que chegar primeiro leve e o restante fique chupando o
dedo. Ou seja: não seria razoável permitir que apenas um (ou alguns) dos credores tenha
seu crédito satisfeito só porque ingressou com a execução antes dos outros. É exatamen-
te pa~a evitar esse tipo de injustiça que existe o chamado concurso de credores.
Em vez de uma execução individual, em que seria privilegiado um credor em de-
trimento dos outros, chama-se todo mundo para que a execução seja conjunta. Se o
devedor tiver patrimônio para saldar todas as dívidas, ótimo. Se não tiver, pelo menos
cada um recebe um pouco.

123 Empresarial para quem odeia empresarial


A falência é exatamente isso, mas ocorre quando o devedor não é o meu vizinho,
e sim um empresário individual ou uma sociedade empresária.
Esse é o princípio-base da falência: par condi tio creditorum. Por ele, os credores de
um único devedor se juntam e promovem a execução de maneira unificada, aumen-
tando as chances de que todos recebam.
O tratamento jurídico da sociedade empresária devedora, então, vai ser diferente
daquele que é dado ao devedor civil. Observe que são concedidos certos privilégios à
pessoa jurídica. Desde já podemos citar, de maneira bem simplificada, dois desses pri-
vilégios (não se preocupe com a falta de detalhes, porque veremos tudo direitinho no
decorrer dos próximos capítulos):
a) Recuperação de empresa: o empresário ou a sociedade empresária tem ao seu
dispor esse instituto, que permite que seja feita a reorganização da empresa, por meio de
a
determinadas condições especiais que não são oferecidas um devedor pessoa física.
b) Extinção das obrigações: o devedor empresário terá suas obrigações declara-
das extintas se conseguir pagar so% dos créditos quirografários. Isso não acontece
com o devedor civil: só depois de pagar tudo o que deve é que terá suas obrigações
extintas.
Passamos agora a analisar, pormenorizadam ente, os aspectos da falência.

14.1. Quem pode falir


Regra geral, qualquer pessoa, física ou jurídica, que exerce empresa pode se bene-
ficiar das regras falimentares.
já vimos lá no comecinho quem é considerado empresário e quem não é. Então,
toda vez que o devedor for um empresário em situação regular, podendo ser empresá-
rio individual ou sociedade empresária, sua execução concursal é feita por meio da .
falência. Assim, podemos, logo de cara, dizer que as cooperativas nunca terão a falên-
cia decretada, porque, por determinação legal, nunca serão sociedade empresária.
Contudo, o legislador achou por bem excluir das regras falimentares algumas
categorias de empresários. A exclusão pode ser total ou parcial. Será total quando
aquele determinado empresário contar com outro tipo de regra para proceder à exe-
cução concÜ.rsal. Por outro lado, a exclusão será parcial quando o empresário somente
não puder se valer do procedimento da falência em determinadas situações.
Aqui começa a parte em que não cabe muita explicação. É listinha mesmo, e você
tem que saber quem está totalmente excluído e quem está parcialmente excluído,
bem como as situações que culminam nessa exclusão parcial.
Estão totalmente excluídas da falência:
~ empresas públicas e sociedade de economia mista;
~ câmaras ou prestadoras de serviço de compensação ou liquidação financeira;
~ entidades fechadas de previdência complementar.

Teoria geral do direito falimentar 124


De outra banda, os parcialmente excluídos da falência podem ser divididos em
grupos: . .
a) Sujeitam~se às regras de liquidação extrajudicial previstas na Le1 n. 6.024/74:
~ instituições financeiras; · . _
~ sociedades a~rendadoras que tenham como objeto exclusiVO a exploraçao de
leasing; ..
~ administradoras de consórcios, fundos mútuos e outras at1v1dades asseme-
~as. .
: b) Devem ter a falência requerida pelo liquidante nomeado pela SUSE~ quando
- extraJU
· d"10a
· 1 ou quan d
frustrada a execuçao o su rgirf'm incHcios de crimf' fahmcntar:
._ companhias de seguro;
~ entidades abertas de previdência privada.
c) Submetem-se a regime de liquidação especial pela ANS e só podem falir nas
mesmas condições das seguradoras:
~ operadoras de planos privados de assistência à saúde.

14.2. Insolvência
Insolvência é o nome que se dá ao estado patrimonial do devedor cujo passiv_o
supera o ativo. Contudo, para fins de falência, não se considera esse aspecto da defi-
nição de insolvência, e sim seu aspecto jurídico estabelecido pela lei., . _ ,
Então olha só: para que seja requerida a falência de um empresano, nao e neces-
sária a prova de que ele deve mais do que tem. Da mesma maneira, o fato de ele provar
que tem mais do que deve não é suficiente para se livrar da falência. . ,
O que importa é que ocorra um dos fatores previstos no art. 94 da Le1 de Falen-
cias, que é a n. 11.1 o 1j2oos.
Esse artigo tem um montão de incisos, mas é importantíssimo . Vamos dar uma
olhada desde já, para irmos nos familiarizando.
"Art. 94· Será decretada a falência do devedor que:
I -sem relevante razão de direito, não paga, no vencimento, obrigação líquida mate-
rializada em título ou títulos executivos protestados cuja soma ultrapasse o equivalente a
40 salários mínimos na data do pedido de falência; . _ . ,
11 - executado por qualquer quantia líquida, não paga, não depos1ta e nao nomew a
penhora bens suficientes dentro do prazo legal; _
111- pratica qualquer dos seguintes atos, exceto se fizer parte de plano de recuperaçao
judicial: _ . .
a) procede à liquidação precipitada de seus ativos ou lança mao de mew rumoso ou
fraudulento para realizar pagamentos; . .
b) realiza ou, por atos inequívocos, tenta realizar, com o ob;et!VO de retard~r paga-
mentos ou fraudar credores, negócio simulado ou alienação de parte ou da total!dade de
seu ativo a terceiro, credor ou não;

125 Empresarial para quem odeia empresarial


c) transfere estabelecimento a terceiro, credor ou não, sem o consentimento de todos
os credores e sem ficar com bens suficientes para solver seu passivo;
c!) simula a transferência de seu principal estabelecimento com o objetivo de burlar a
legislação ou a fiscalização ou para prejudicar credor;
e) dá ou reforça garantia a credor por dívida contraída anteriormente sem ficar com
bens livres e desembaraçados suficientes para saldar seu passivo;
f) ausenta-se sem deixar representante habilitado e com recursos suficientes para pa-
gar os credores, abandona estabelecimento ou tenta ocultar-se de seu domicílio, do local de
sua sede ou de seu principal estabelecimento;
g) d~ixa de cumprir, no prazo estabelecido, obrigação assumida no plano de recupera-
ção judicial".
No inciso l temos a impontualidade injustificada, no ll a execução frustrada e no
lll os atos ele falência. ..
Se o empresário incorrer em qualquer uma dessas causas, será decretada a sua
falência, ainda que ele tenha patrimônio suficiente para saldar as dívicl;;~.s. É por isso
que se diz que a insolvência para fins falimentares é presumida.
Vamos analisar os incisos desse artigo. Antes, um breve momento divagação.
.............................................. , .................................... .
G1.u.a1.e. ~~meu cyua;J.o-. Vai ser clean, e provavelmente V O L' ;e r
que adaptar. ele algumiJ forma, o escritório la também, porque suponho c:ue
não conseguirei ainda alugar um apartamento com um cômodo só para isso.
o quartinho d3 pequena agora não sera mais de bebê, e sim de mocinha.
t: na sala quero um aparador.
É... acho que eu estou virando gente mesmo.
Voltando.

a) lmpontualiclade injustificada
Em primeiro lugar, a obrigação deve ser líquida (representada por título executi-
vo judicial ou extrajudicial).
Observe, contudo, que a própria lei traz os casos de obrigações cujo inadimple-
mento não pode servir ele base para o pedido ele falência, quais sejam: as obrigações
gratuitas e as despesas que os credores tiverem para tomarparte na recuperação judi-
cial ou falência, ressalvadas as custas judiciais de litígio com o credor.
Quanto ao adjetivo "injustificada", a lei também traz, no art. 96, uma lista de si~
tuações que podem afastar o pedido ele falência, ainda que ocorra a impontualidade.
O rol é meramente exemplificativo.
A prova ela impontualidade se faz exclusivamente pelo protesto, e existe ainda
um requisito ele ordem objetiva: o valor do título eleve ser de no mínimo 40 salários
mínimos. Mas essa regra acaba sendo relativizada, porque se permite que os credores

Teoria geral do direito falimentar 126


unam os valores de seus títulos para atingir o mínimo legal e então ingressem com a
falência em litisconsórcio ativo.
b) Execução frustrada
Ocorre quando o devedor rtão paga, nem deposita, nem nomeia bens à penhora
quando executado individualmente por um credor.
Funciona assim: eu vou a juízo e executo um empresário que me deve. Faço isso
individualmente, seguindo as normas sobre execução constantes do Código Civil. Aí,
o devedor fica omisso com relação ao pagamento, depósito ou nomeação ele bens.
Eu então peço o encerramento dessa execução e, munida de certidão do cartório
que atesta a inércia elo devedor, posso requerer a falência. Nesse caso, não se leva mais
em conta o valor da obrigação nem se faz necessário o protesto do título.···
c) Atos de falência
São atos que, teoricamente, fazem presumir a insolvência do devedor, entendida
aqui como estado patrimonial negativo.
Não confunda: já dissemos que a insolvência como estado patrimonial não é le-
vada em conta para fins de falência. O que o inciso lll do art. 94 faz é elencar algumas
situações que, em tese, poderiam levar a crer que o passivo do empresário é maior que
seu ativo. Ainda que se prove que isso não é verdade, se o empresário praticou algum
dos atos ali previstos não estará livre da falência .

fJ)Mde j.á, ~ c.o.meç.aJ!- a en1.ÚWll- a pequena a nãp fazer tanta bagunça.


Ou, se fizer, que arrume tudo depois. Não quero mais Jma sala com brinque-
dos espalhados, nem material escolar jogado em cima da mesa.
Realmente me deu vontade de voltar lá naquela loja e comprar um mon-
tão de coisas novas. t:ssas ideias decorativas estão borbulhando na minha ca-
beça, e só espero que não seja apenas fogo de palha.
···························································.·························

127 Empresarial para quem odeia empresarial


15. Salto alto:

processo falimentar

ê.u. me eemiJ,Jw. do. p;zimeiw- ~que. tw.e-, em que precisava ficar o dia
todo de pé, em cima de um salto. !=oi num escritório de consultoria empresarial,
pertinho da Avenida Paulista. [u era recepçionista e o traje era, obrigatoria-
mente, social. t:u morava em São Bernardo ainda. [ntão, tinha que pegar dois
ônibus e um metrô para chegar ao trabalho. [de salto alto.
No terceiro dia, eu tinha bolhas até no tornozelo. Mas no terceiro mês não
sentia mais nada.
Anos depois, engravidei. [ passei os nove meses descalça ou de chinelo.
Depois que a pequena nasceu, ainda fiquei praticamente um ano brincando de
casinha. Sem salto alto.
Aí, voltei a trabalhar. [ foi a mesma tortura: bolhas que iam, agora, quase
até o joelho. De novo, passado o tempo, meus pés se acostumaram, e eu podia
até correr de salto.
f.-loje, trabalho em casa. De chinelo. Mas em breve retorno ao maravilhoso
mundo da dor nos pés.
Salto alto é costume. [ as mulheres bem sabem que é quase impossível
encontrar um sapato de salto que seja maravilhoso e ao mesmo tempo confor-
tável. As duas coisas são incompatíveis. Ainda assim, nada mais chique que um
belo par de saltos.
A mesma coisa êcontece com uma série de outras situações na vida da
gente, mas acho que prefim não entrar em especificidades sobre isso. Já alfi-
netei gente demais por aqui. A verdade é que algumas coisas machucam a
:-;. gente, mas trazem em troca benefícios. t:, depois de um certo tempo, você
.;;:/':'
acaba se acostumando com a dor.
....................................................................................
Falaremos agora do processo falimentar. De cara, já fica a informação que ele se
; ·:divide em três etapas distintas:
.. fase pré-falencial: vai do pedido de falência até a sentença declaratória desta; li
I
.- fase falencial propriamente dita: da sentença até o encerramento da falência;
.- fase de reabilitação.
As regras relativas à falência, como já vimos, estão dispostas na Lei n. 11.1 o 1j2005
(que chamareinos de LF). Trata-se de lei multidisciplinar, e, em caso de omissão desta,
aplicam-se as normas do direito civil, processual civil e penal.
O processo vai tramitar no juízo do local onde se encontra o principal estabeleci-
mento do devedor. É o que dispõe o art. 3~ da LF. O termo "principal estabelecimento"
cfeve ser entendido no seu sentido jurídico. Assim, não se considera a sede designada
no contrato ou estatuto, nem o maior dos estabelecimentos, mas sim aquele onde se
encontra concentrado o maior volume de negócios.
Pode ser, por exemplo, que uma sociedade tenha um depósito gigantesco no cen-
tro da capital do Estado, mas que o seu escritório, onde as negociações são efetiva-
mente feitas, se encontre numa sala lá na periferia de uma cidadezinha do interior.
Caso essa sociedade entre em falência, o processo vai tramitar nessa cidadezinha.
Caso o maior estabelecimento se encontre fora do Brasil, será competente o juízo
do local da filial aqui.
Se na comarca competente houver mais de um juízo cível, a competência resolve
pelas regras comuns de processo civil: prevenção.
O juízo da falência é considerado juízo universal. Isso significa que ele atrai para
si todas as demais ações referentes aos bens ou interesses da massa falida. Temos ex-
ceções. Cinco ações não serão atraídas pelo juízo da falência:
.- ações em que a massa falida seja autora ou litisconsorte ativa, cuja regulamen-
tação não se encontre na LF;
.- reclamações trabalhistas;
.- execuções fiscais;
.- ações que demandem quantias ilíquidas;
.- ações de conhecimento em que é parte ou interessada a União.
Lembre-se dessas ações aí, porque isso é importante, ok?

15 .1. Pedido de falência


já vimos quem pode falir. Agora outra pergunta: quem pode pedir a falênda?
A primeira informação é que a lei determina que o próprio empresário devedor
deve requerer sua falência quando não atender os requisitos da recuperação judicial.
Isso está no art. 105, e mais para a frente vamos ver quais são os requisitos citados. É
a chamada auto falência, mas o descumprimento dessa regra (ou seja, se o empresário
deixa de requerer sua autofalência) não gera sanção nenhuma.
Também terão legitimidade para fazer o pedido as seguintes pessoas:
.- cônjuge sobrevivente, herdeiros ou inventariante;

129 Empresarial para quem odeia empresarial


~ sócio cotista ou acionista da sociedade empresária devedora;
~ credores.
Esta última é a opção mais recorrente, até porque são eles que têm mais interesse
no processo. O credor, portanto, não é, em geral, um sacana que simplesmente quer
acabar com a vida do empresário. Ele só quer o que é seu, e a falência tem-se mostrado
um instrumento eficaz para a cobrança de dívidas.
Tá, mas qualquer credor pode pedir a falência, então? Em regra, sim. Somente
duas coisinhas devem ser observadas. Se for um credor empresário, deverá apresentar
a prova de sua regularidade. Lembra que comentamos que uma das penalidades sofri-
das pelo empresário irregular era justamente a impossibilidade de ele requerer falên-
cia? Pois bem, tá aí!
Outra coisa: se o credor não for domiciliado no Brasil, terá que prestar caução
para requerer a falência de outro.
Certo. O credor então verifica que ocorreu algumas daquelas hipóteses do art. 94
(impontualidade injustificada, execução frustrada ou atos de falência) e, de posse do
seu título, vai a juízo.
Olha que legal: mesmo no caso de impontualidade injustificada, não é necessário
que todos os seus títulos estejam vencidos. lsso quer dizer que o credor pode juntar,
no pedido, títulos ainda não vencidos. Mas lembre-se de que pelo menos um deles
deve apresentar a impontualidade, e lembre-se também do valor mínimo de 40 salá-
rios mínimos.
O rito da autofalência é um e o da falência requerida por terceiros é outro.
Na autofalência, a inicial deve conter o balanço patrimonial e a relação dos cre-
dores, o contrato social ou, não existindo este, a relação dos sócios. Ops. Como assim
"não existindo este"?
Preste atenção: eu falei que, se um credor é sociedade empresária, deverá apre-
sentar a prova da sua regularidade para pedir a falência de seu devedor. Mas não falei
que no caso de autofalência o empresário precisa estar regularmente constituído. E
não falei porque não precisa mesmo. O empresário irregular também é parte legítima
para pedir a autofalência. Legal? Cuidado para não confundir.
Na auto falência o empresário também deve juntar, na inicial, os livros empresa-
riais que, mais para a frente, serão entregues ao administrador judicial.
Se faltar alguma coisa, o juiz mandará emendar a inicial. Do contrário, declara:{
a falênéia já de cara. Não tem citação nem contestação nem nada. E nesta fase não é
necessária a oitiva do Ministério Público.
Agora, se a falência foi requerida por terceiros, a coisa mLida um pouco.
O empresário devedor será citado para responder ao pedido de falência no prazo
de 1 o dias. Só vai responder mesmo. Não cabe reconvenção na falência. Se o pedido
tiver por base a impontualidade injústificada ou a execução frustrada, pode o devedor

Processo falimentar 130


fazer o depósito do valor total da dívida, acrescido de juros e correção monetária, no
mesmo prazo que tem para contestar. É o chamado depósito elisivo. ·
Então olha só: pedido feito por terceiro. Quatro coisas podem acontecer:
a) o devedor só contesta: o juiz poderá acolher a defesa do devedor e proferir
sentença denegatória da falência (sucumbência para o requerente), ou não acolher e
proferir sentença declaratória ele falência;
b) o devedor contesta e deposita o valor: o juiz primeiro vai ver a contestação. Se
acolher, sentenciará denegando a falência, sucumbência para o requerente e determi-
nará o levantamento do depósito em favor do próprio depositante (requerido). Se não
acolher, sentenciará também denegando a falência, mas a sucumbência será devida
pelo requerido e o levantamento do depósito determinado em favor do requerente;
c) o devedor só deposita: o juiz só tem a segunda opção da situação anterior.
Sentença denegatória, custas pelo requerido, depósito em favor do requerente. A dife-
rença é que, como o requerido não contestou, o depósito tem o mesmo efeito· de reco-
nhecimento do pedido, o que não acontece quando ele apresenta defesa concomitan-
te ao depósito;
d) o devedor não contesta e não deposita: o juiz profere sentença declaratória da
falência.
A lei diz que o depósito elisivo só tem cabimento nas hipóteses dos incisos I e li
elo art. 94· Mas ele poderá ser admitido também nos casos em que a falência for reque-
rida com fundamento nos atos de falência. Processo civil aqui: neste caso, o requeren-
te perde o interesse na instauração processual. Falta L1ma das condições da ação.

15.2. Sentença declaratória da falência


Primeira informação importante: o nome é sentença declaratória, mas a nature-
za da sentença é constitutiva.
Poxa, legislador? Custava ajudar?
Tá aí mais uma situação que pode ser comparada ao salto alto. No começo, dói um
pouco a falta de inteligência dos nossos legisladores. Mas depois você se acostuma.
É o seguinte: com a sentença da falência muda tudo. O devedor, os bens, os atos
jurídicos e os credores passam a ser tratados de maneira totalmente diferente, ou seja,
são submetidos a um novo regime jurídico, o regime falimentar. A sentença então
constitui esse novo regime. Por isso é constitutiva.
Trata-se de uma sentença.como qualquer outra, portanto deve obedecer às regri-
nhas básicas do Código de Processo Civil: relatório, fundamento e dispositivo. Além
disso, deve também obedecer ao disposto no art. 99 da LF, que é meio grandinho sim,
mas precisa dar uma olhada:
'J\rt. 99· A sentença que decretar a falência do devedor, dentre outras determinações:
I - conterá a síntese do pedido, a identificação do falido e os nomes dos que forem a
esse tempo seus administradores;

131 Empresarial para quem odeia empresarial


sem poder retro traí-lo por mais de 90 dias contados
JI- fixará o termo legal da falência,
peração judicial ou do primeiro protesto por falta de
do pedido de falência, do pedido de recu elados;
para esta finalidade, os protestos que tenham sido canc
pagamento, excluindo-se, de 5 dias, relação nominal
, no prazo máximo
Il1- ordenará ao falido que apresente dos respectivos cré-
rtância, natureza e classificação
dos credores, indicando endereço, impo
s, sob pena de desobediência;
ditos, se esta já não se encontrar nos auto .ff 1'!.
ões de crédito, observado o disposto no
IV- explicitará o prazo para as habilitaç
do art. 7'!. desta Lei; lvadas
ações ou execuções contra o falido, ressa
V- ordenará a suspensão de todas as
art 6'!. desta Lei;
as hipóteses previstas nos .ff§ 1'!. e 2'!. do falido,
de disposição ou oneração de bens do
VI -proibirá a prática de qualquer ato houv er, ressa lvados
rização judicial e do Comitê, se
submetendo-os preliminarmente à auto da a cont inu-
dades normais do devedor se autoriza
os bens cuja venda faça parte das ativi
do capu t deste artigo;
ação provisória nos termos do inciso XI partes
ias para salvaguardar os interesses das
VIl- determinará as diligências necessár seus adm inist rado res
o preventiva do falido ou de
envolvidas, podendo ordenar a prisã defin ido nest a Lei;
provas da prática de crime
quando requerida com fundamento em falência
Empresas que proceda à anotação da
Vlll - ordenará ao Registro Público de ão da falên-
a expressão "Falido", a data da decretaç
no registro do devedor, para que conste
102 desta Lei;
cia e a inabilitação de que trata o art. forma do
IX- nomeará o administ rad. or judic ial, que desempenhará suas funções na
na alíne a a do incis o 11 do
sem prejuízo do disposto
inciso Il1 do capu t do art. 22 destà Lei
cap ut do art. 35 desta Lei; as enti-
aos órgãos e repartições públicas e outr
X- determinará a expedição de ofícios
de bens e direitos do falido;
dades para que informem a existência falido
inuação provisória das atividades do
XI - pronunciar-se-á a respeito da cont o disposto no
ação dos estabelecimentos, observado
com o administrador judicial ou da !aer
art. 109 desta Lei; ia geral
conveniente, a convocação da assemble
Xll - determinará, quando entender auto riza r a manu-
itê de Credores, podendo ainda
de credores para a constituição de Com quan do da
funcionamento na recuperação judicial
tenção do Comitê eventualmente em
decretaçãoda falência; às Fa-
io Público e a comunicação por carta
Xlll - ordenará a intimação do Ministér tiver estabe-
Estados e Municípios em que o devedor
zendas Públicas Federal e de todos os
ento da falência".
lecimento, para que tomem conhecim
scre ver arti-
mais boa zinh a ness e lanc e de tran
Perc eber am que eu esto u ficando
gos? Salto alto ... do pelo juiz
cita da no inciso li, é o perí odo fixa
Term o legal da falência, expr essã o ação de inefi-
que tem imp ortâ ncia para a dete rmin
ante rior à decr etaç ão da falência,
resá rio falido com relação à massa.
cácia de dete rmin ado s atos do emp

132
Processo falimentar
deverá obe dece r a algu mas regr inha
s: li
I
Esse praz o é con tado para trás, e eiro prot esto por
~ não pod e retr otra ir por
mais de 90 dias con tado s do prim
falta de pag ame nto; da peti ção
~ se não hou ver prot esto , não
pod e retr otra ir por mai s de 90 dias

inicial; retr o-
ção judicial em falência, não pod e
~ se é o caso de conv olaç ão de recu pera
erim ento .
trai r por mai s de 90 dias do seu requ adia nte. Por
este últim o. Vam os ver recu pera ção judicial mai s
Relaxe qua nto a
enq uan to, gua rde isso apenas. lei proces-
ento , no prazo com um fixado pela
Da sent enç a cabe agravo de inst rum vo. Ape laçã o não.
É sent ença , mas o recu rso é agra
sUal ( 1 o dias). Olh a a peg adin ha.

ncia
15.3. Sentença denegatória da falê deve rá ava-
erir sent ença den egan do a falência,
Olh a que legal: qua ndo o juiz prof houve dolo, esse
que a requ ereu . Isso porq ue, se
liar qua l foi a inte nção do cred or do requ erid o. É essa a
nto de inde niza ção em favor
cred or será con den ado ao pag ame pres tar cauç ão
de o cred or resi dent e no estr ang eiro
razã o que just ifica a nece ssid ade
no Brasil.
qua ndo ped e a falê ncia de algu ém prejuízos. É qua-
É óbv io que um ped ido de falê ncia inst aura do dolo sam ente traz
ção serve para repa rar esse dano .
se que um dan o mor al. A inde niza eren te,
falim enta r não irá con den ar o requ
Se o dolo não for man ifes to, o juiz r com ação pró-
sent ir prejudicado, pod erá ingr essa
mas, se aind a assi m o requ erid o se
:;:>ria ness e sent ido. den ado ao
dene gató ria, o requ erid o será con
Em qua lque r caso, send o a sent ença
ncia .
:;:>agamento das verb as de sucu mbê ação, no praz o
D~ssa sent ença o recu rso
cabí vel é outr o. Aqui sim cabe rá apel
norm al de 15 dias.

15.4. Administração da falência rio juiz, o


adm inis trar a mas sa falida: o próp
Três agen tes terã o a atrib uiçã o de mbl eia dos cre-
falência (adm inis trad or judicial, asse
Min istér io Público e os órgã o da '
dore s e com itê dos credores). nto dos salá rios dos
cipa da de bens, o pag ame
Cabe ao juiz auto riza r a ven da ante do adm inis trad or
apro var a pres taçã o de con tas
auxilic.res do adm inis trad or judicial,
adm inis trati vo.
judicié.l e outr os atos de con teúd o Mas várias
lico é, com o sem pre, o fiscal da lei.
C repr esen tant e do Min istér io Púb Isso é imp orta nte
LF dete rmi na a sua inte rven ção.
são as situ açõe s em que a próp ria
cai.
para os con curs os do MP. Sem pre
sent ido:
V~ja algu ns artig os inte ress ante s ness e
l
133 EmJresarial para quem odeia empresaria
"Art. SE. No prazo de 10 (dez) dias, contado da publicação da relação referida no art.
7:?., J 2:?., desta Lei, o Comitê, qualquer credor, o devedor ou seus sócios ou o Ministério Pú-
blico podem apresentar ao juiz impugnação contra a relação de credores, apontando a
ausência de qualquer crédito ou manifestando-se contra a legitimidade, importância ou
classificação de crédito relacionado".
"Art. 30. (... )
f 2:?. O devedor, qualquer credor ou o Ministério Ptíblico poderá requerer ao juiz a
substituição do administrador judicial ou dos membros do Comitê nomeados em desobedi-
ência aos preceitos desta Lei".
"Art:' 132. A ação revocatória, de que trata o art. 130 desta Lei, deverá ser proposta pelo
administrador judicial, por qualquer credor ou pelo Ministério Público no prazo de 3 anos
contado da decretação da falência".
Vamos ver agora os órgãos da falência.
a) Administrador judicial
Trata-se de agente auxiliar do juiz, que age em nome próprio e deve cumprir as
determinações da lei. É também o representante dos interesses dos credores.
Para fins de aplicação ela lei penal, o administrador judicial é considerado funcio-
nário público.
Caramba. Preciso deixar registrado, publicamente, o meu amor incondicional
pelo direito penal. Saudades. Muitas saudades. Seu lindo.
Veja:
"Art. 21. O administrador judicial será profissional idôneo, preferencialmente advoga-
do, economista, administrador de empresas ou contador, ou pessoa jurídica especializada".
Esse cara pode contratar auxiliares, desde que haja autorização prévia do juiz. Sua
função é indelegável, mas pode acontecer se ele for substituído ou destituído.
A substituição ocorrerá em casos ele renúncia motivada, morte, incapacidade ci-
vil ou falência (elo próprio administrador). Não acarreta nenhuma penalidade. já a
destituição é sanção. Ocorre quando o carinha não faz direito o que deveria faze::-. Nos
próximos 5 anos, ele não poderá ser chamado a ser administrador ele outra falência.
Como já foi dito, o administrador age em nome próprio, então responde civil"
mente pela má administração ou infração à lei. Até o encerramento da falência, ale- .
gitimiclacle para propor ação contra ele é ela massa falida (credor indiviclualmen:e não;
pode fazer isso). Mas, passado esse período, qualquer credor que se entender ~esadà
poderá promover ação contra o administrador, desde que tenha oportunamente re-
querido sua destituição ou substituição.
Como dito, o administrador tem um monte de funções na fálência. Vamos ver
isso no decorrer elo estudo. Por ora, cabe salientar que os mais importantes são a veri-
ficação elos créditos, o relatório inicial, as contas mensais e o relatório final.

Processo falimentar 134


Além das contas mensais que acabei ele mencionar, o administrador também tem
que prestar contas ao término ela liquidação, e se eventualmente for substituído ou
destituído. O Ministério Público obrigatoriamente será ouvido sobre as contas, e tan-
to os credores quanto o próprio falido terão o prazo ele 1o dias para impugná-las.
Se houver impugnação, o administrador terá direito ele resposta, depois o juiz
decidirá, podendo até determinar, nessa sentença, a indisponibilidade de bens do ad-
ministrador para garantia ele indenização da massa.
b) Assembleia ele credores
Esse órgão é formado por todos os credores e tem as seguintes funções:
~ aprovar a constituição do comitê ele credores e eleger seus membros;
~ adotar modalidades extraordinárias de realização do ativo do falido;
~ deliberar sobre assuntos de interesse geral elos credores.
c) Comitê de credores
É o órgão que fiscaliza o administrador. A composição é a seguinte:
~ um representante dos credores trabalhistas;
~ um representante dos titulares de direitos reais de garantia e privilégios especiais;
~ um representante elos demais.
Cada um tem um suplente, e todos são eleitos pela assembleia.

15.5. Apuração do ativo


Com a sentença da falência, inicia-se a fase falimentar propriamente dita. E o
primeiro passo é a apuração do ativo.
Essa fase envolve um monte de atos, como a arrecadação dos bens, e medidas
judiciais, como o pedido de restituição e embargos de terceiros (separa e devolve os
bens, porque, não, esses aqui não são elo devedor).
Quando tratarmos elos bens do falido falaremos dessas medidas de maneira mais
detalhada.

15.6. Verificação dos créditos


É tarefa do administrador judicial, e para tanto ele tem que avaliar os documen-
tos e a escrituração do falido, bem como todas as informações que os credores lhe
passarem.
Começa assim: o administrador publica uma relação dos credores. Em tese, essa
lista já está lá no processo, mas, se não estiver, é o próprio administrador que tem que
providenciá-la.
É quase um "galera, chega mais!". A publicação será no diário oficial, e, a partir
dela, abre-se o prazo de 15 dias para quem não estiver incluído na lista pedir a sua
habilitação e também para que aqueles que estão lá, mas não concordam com a clas-
sificação que receberam, apresentem suas divergências.

135 Empresarial para quem odeia empresarial


Tanto o pedido de habilitaçã o como as divergências devem ser feitos por escrito,
diretamen te ao administr ador, e devem conter a quantia exata atribuída ao crédito,
origem, prova e eventual garantia.
O administr ador vai avaliar tudo isso e republica r a lista. Da republicação, abre-se
prazo de I o dias para a impugnaç ão. Estão legitimad os a promovê- la qualquer credor,
o comitê, o falido, o sócio ou acionista da sociedade falida e o Ministério Público.
As impugnaç ões são autuadas em separado, e os credores impugnad os serão cha-
mados para apresenta r resposta em 5 dias. Depois disso, o falido também tem 0 prazo
de 5 dias pat'a se manifesta r, depois o administr ador ter~ o mesmo prazo para dar seu
parecer. Aí vai tudo para o juiz. Da sentença que julga a impugnaç ão cabe agravo. ·
Depois de tudo, é publicada a lista oficial de credor~s. Nessa ninguém mexe mais.

·;;;;;;_ ·~· ~: ·j·~ ·~~·~ ·~~· ~:;:; ·~~· ·s·~~~~~~ ·~~· ~·~~:~·~ ·~~·s·t·~ ~~~~·í~~;~:
devo dizer que não sou a pessoa mais vaidosa do mundo. Seria mentira cabe-
luda dizer que lenho uma coleção de sapatos, como muita mulher tem.
Mas confesso: alguns problemas só são resolvidos com a compra de um
belo par deles.
....................................................... ........................... .
~

15.7. liquidàção no processo falimentar


É a fase em que se realiza o àtivo e paga o passivo.
Os ben.s do passivo podem ser vendidos separadam ente ou de maneira conjunta
(o estabeleo mento empresari al como um todo), e isso cabe ao juiz decidir. Sua decisão
será pautada no melhor interesse da massa. Assim, a forma que resultar em mais di-
nheiro, será a escolhida.
Se a venda for feita em leilão, a LF tem normas próprias. O Ministério Público
será obrigator iamente intimado, sendo nula a hasta pública que se realizar sem essa
providência. Importan te isso aqui também para provas do MP, hein?
Na LF não há a distinção que existe no Código de Processo Civil, acerca do nome
da hasta realizada para bens móveis (leilão) e bens imóveis (praça). É tudo leilão.
. , .A ve.n~a também pode ser feita por proposta, que será amplame nte divulgada no
dtano oftctal e em jornal de grande circulação. Os envelopes com as propostas serão
entregues lacrados ao juiz, que só os abrirá em dia e hora previame nte determina dos.
Finalmen te, a venda pode dar-se também por pregão. É um mix das duas alterna-
tivas anteriores : o juiz abre os envelopes, e, se perceber que a diferença de preço entre
as propostas é pequena (até 1o%), intima os empatado s para lances orais.
Essas são as alternativ as que a lei prevê. Qualquer outra solução de venda que
aten~a .melhor aos interesses dos credores pode ser adotada, desde que autorizad a
pelo JlllZ. Tem legitimida de para pedir isso o administr ador judicial ou credores que
represent em no mínimo 2/3 do passivo.

Processo falimentar 136


Se a sociedade falida tiver sócios com responsab ilidade ilimitada, os bens destes !. II
serão arrecadad os também. Mas primeiro será feita a venda dos bens da pessoa jurídi-
ca. Somente se o resultado dessa venda for insuficien te para a satisfação de todos os
credores será feitá a venda dos bens pessoais dos sócios.
Se houver aciorüsta ou sócios da sociedade falida que não integraliz ou suas ações
ou cotas, antes da ve~da o administr ador promover á a ação para cobrança do valor a
ser inte~ralizado, e essa ação não prescinde da prova da insuficiên cia dos bens sociais.
A realização do ativo compreen de, além da venda dos bens, a cobrança do.s crédi-
t6s que eventualm ente o falido tiver.
O ~esultado das vendas será depositad o em conta judicial pelo administr ador, e a
partir caí haverá o pagament o dos credores. Vamos ver a ordem de pagament o mais
para a frente. Eu disse, em algum lugar por aí, que tinha medo da falência, exatamen -
te por conta dessa ordem aí, mas acho que meu medo sumiu. Deveria ter tido medo
da SA, :sso sim. Falência é legal.
Depois que pagou todo mundo, o administr ador apresenta suas contas e o rela-
tório final, especifica ndo tudo o que aconteceu , no prazo de 10 dias, sob pena de in-
correr ~m crime de desobediê ncia.
Aí acaba: o juiz profere sentença de encerram ento do processo de falência, que
será publicada por edital, e os livros do falido são devolvidos a este. Dessa sentença
cabe apelação no prazo regular.

15.8. Reabilitação do falido


Ainda que a falência tenha se .encerrado, o falido ainda não estará apto a voltar ao
exercício da atividade empresari al. Ele só poderá fazer isso depois da sua reabilitação,
que compreen de a extinção das obrigaçõe s e a extinção da responsab ilidade civil e
penal do falido.
A extinção das obrigações civis ocorrerá nas hipóteses do art. 158 da LF:
''Art. 158. Extingue as obrigações do falido:
I - o pagamento de todos os créditos;
li- o pagamento, depois de realizado todo o ativo, de mais de so% dos créditos quiro-
grafár:os, sendo facultado ao falido o depósito da quantia necessária para atingir essa
porcer:tagem se para tanto não bastou a integra/liquidação do ativo;
I1I - o decurso do prazo de 5 anos, contado do encerramento da falência, se o falido
não ti·;er sido condenado por prática de crime previsto nesta Lei;
I'!- o decurso do prazo de 10 anos, contado do encerramento da falência, se o falido
tiver s'do condenado por prática de crime previsto nesta Lei".
O pagamen to total pode ocorrer antes ou depois da sentença de encerram ento; o
rateie dos 50% do passivo só pode ocorrer antes do encerram ento. As demais causas
ocorr=rão sempre depois.

137 Empresarial para quem odeia empresarial


Se a causa ocorrer antes do encerramento , dar-se-á o chamado levantamento da
falência, e, nesse caso, o juiz declarará a extinção das obrigações e o encerramemo da
falência na mesma sentença.
O procedimento de reabilitação se inicia com o pedido do falido, que deverá estar
instruído com a prova da quitação dos tributos relativos ao exercício do comércio. Se
o falido não estiver sendo processado criminalmen te ou se for absolvido nessa seara,
a extinção das obrigações já confere ao falido o direito de retomar atividades empre-
sariais.
Mas, se for caso de condenação em processo-crime, somente depois de transcor-
ridos 2 anos do cumprimento da pena poderá ele requerer a sua reabilitação penal, e a
sentença de extinção das obrigações é condição desta.
Se o falido não requerer a habilitação, transcorridos 5 anos da extinção da puni-
bilidade poderá voltar a explorar atividades empresariais.
Antes de terminar este capítulo, legal falar alguma coisinha sobre crimes fali-
mentares. Esta parte é uma contribuição especial de lvan Luís Marques, professor de
Ciências Criminais na Rede LFG, na ESA e na EPD, coordenador chefe no lBCCrim,
autor de livros e artigos, palestrante e consultor jurídico. Ademais, é gente boníssima,
e é também um dos responsáveis por eu estar agora escrevendo.

~ ~· YrlW.J;o. ~· i=echa parêntese.


Abre parêntese, parte dois: eu nunca vou te abandonar, direito penal.
Nunca. i=echa parêntese de novo.

A LF não tem procedimento penal especial. Segue o rito sumário do CPP, salvo
uma exceção: o crime de omissão dos documentos contábeis obrigatófios, que tem
pena máxima de 2 anos. Este vai para o )ECrim.
Olha só: mesmo com pena de reclusão, o rito dos crimes falimentares é o sumá-
rio. Cuidado.
Outro ponto relevante é o fim do inquérito judicial, que constava da lei antiga.
Agora segue a regra geral: inquérito policial mesmo (art. 187 da LF). É o fim do proce-
dimento inquisitorial incidental falimentar.
Os crimes previstos na lei são de ação penal pública incondiciona da (art. 184).
E veja: agora pode existir crime falimentar sem que tenha sido decretada a falên-/
cia do devedor. Isso ocorre porque a sentença que decreta a falência perdeu o mono-
pólio de condição objetiva de punibilidade.
H ein?
A condição objetiva de punibilidade é um fato jurídico que pre.cisa acontecer an-
tes para que o Estado, depois, possa punir. Ou seja, sem a falência, na lei antiga, não
tínhamos qime falimentar. Agora temos.

Processo falimentar 138


Além da falência, há a sentença que homologa o plano de recuperação extrajudicial
e a sentença que concede a recuperação judicial. Não vimos isso ainda, mas vamos ver.
Outro ponto da LF: a sentença que decreta a falência é marco interruptivo da
prescrição. Decretada a falência, interrompe-s e a prescrição.
A Lei n. 1 1.1 o 1j2005 trouxe um aumento das penas em relação à lei antiga. Con-
sequentemen te, aumentou também o lapso prescricional. Mas a prescrição dos cri-
mes da LF continua sendo regida pelo art. 109 do Código Penal.
Último parêntese: que emoção falar de direito penal!
A pena máxima em abstrato nos crimes falimentares varia de 2 anos (omissão dos
documentos contábeis obrigatórios) a 6 anos (fraude contra credores) .. Repetindo:
esse crime omissivo é o único delito falimentar que está sujeito ao Juizado Especial
Criminal (pena máxima até 2 anos). Somente os arts. 176 (exercício ilegal de atividade)
e 178 (omissão dos documentos) admitem suspensão condicional do processo (pena
mínima de 1 ano).
Outro fator relevante da lei foi o tratamento especial dado às empresas de peque-
no porte e às microempresas. Não se constatando prática habitual de condutas frau-
dulentas por parte do pequeno empresário, o juiz pode reduzir a pena ou substituí-la
por restritivas de direitos.
O restante é ler os crimes.

Vo.u ~ i.M.o. C1J:f0-'UL· Sem chance de continuar corn:empresar ial depois de


ter a honra máxima de estar na presença do direito pe~al.

139 Empresarial para quem odeia empresarial


./

~
16. Pausa para o g~áfic:o:

verificação ehabilitação dos·;cxéditos, ,. •; J,',l '' '

Por coincidência do destino, encontrei um organograma que eu fiz há muito


tempo. Achei legal compartilhar. Espero que ajude em alguma coisa.

na recuperação de empresas, não terão direi! o a voto

na falência só terão direito a voto se na data da


assernbleia já tiver sido homologado quadro geral de
se O;Jresentados fora do prazo. serão credores contendo o crédito retardatário
r.:cebidas como retardatárias
credor pode pedir
reserva de valores

Verificação e Habilitação
dos Créditos

Publicação do edital de processamento da recuperaçào judicial ou da


sentença de decretação da falência

\..!dias para credor contestar }


Iautuação em separado ~ \,2 dias para devedor replicar
\.2 dias paro administrador emitir parecer

~
.
\

~~il
'... -- bi.iê;.é,.:..J
''~~::.·.·-~:~-:::::.y

falido: restriçõ~s pessoais, seus bens e


·-regime jurídico de seus atos e contratos

····················································································
em~ co.Ua4, encontrei um caderno que me serviu de
1:ioje, rruvx..e.náo.
diário por algum tempo. Como sempre tive essa man·la de escrever, tenho vá-
rios desses cadernos, onde escrevo cartas para mim mesma. Na maioria das
vezes. nunca mais leio.
t:sse que eu encontrei começa em 22 de agosto de 2004 e termina em 16
de fevereiro de 2006. l.nclui o último ano da faculdade, quando fui morar em
Marília, e a minha mudança aqui para Bauru. Começo com um namorado, rela-
cionamento que durou 3 anos, e termino com o pai da minha filha, mas entre
um e outro um sem-número de outros rolos. t:, especialmente, inclui boa parte
do lado negro da minha vida.
.Confesso que, quando comecei a ler, tive vontade de colocar fogo naque·
las paginas. Algumas coisas simplesmente não podem ser documentadas em
escritos, e eu escrevi nesse caderno todas essas coisas. Acabei ficando sem
coragem de ler tudo. Parei na metade e o escondi mais uma vez num lugar que
nem eu mesma quero lembrar onde é.
De qualquer forma, não pude deixar de lembrar, com saudade, de muita
coisa boa que eu fiz naquele período.
t:stranho porque, ao mesmo tempo que parece que foi ontem, também
parece que foi em outra vida. Sou a mesma daquela época e, ainda assim, outra
completamente diferente.
Dizem que é melhor a gente se arrepender de fazer alguma coisa do que

~
se arrepender por não ter feito essa mesma coisa. Dizem que quem não tem
f :; passado não tem história. Dizem muitas coisas.
t..."-:_·c.....
"t:~-.-·: -.-
:\ ··--

/
. ·.:
repetiria
Mas eu digo que ja agi de maneira torta muitas vezes, e que não
não me acrescen tou absolutam ente nada. Pelo con·
nem metade delas, porque
trário, me tirou muito.
para
Alguns dos caminhos por onde andei eu prefiro esquecer , e torço
fortes, pois dessa forma não há o risco de al-
não ter deixado pegadas muito
guém descobrir que eu estive lá.
aquilo
Meu passado me condena, sim, mas meu presente faz de mim tudo
orgulho ou simplesm en:e por
que deixei ele ser por ignorância, prepotên cia,
falta de vergonha n01 cara.
tra':J3lhar.
Antes que essa pontinha de depressã o cresça aqui dentro, vamos
····················································································

17 .1. Pessoa do falido


se
Com a sentença da falência, o devedor passa a ser chamado de falido. Ele não
destes
torna incapaz, mas perde o poder de adminis trar seus bens. A adminis tração
não se pode dizer que nesse moment o
será encargo dos órgãos da falência. Também
com a venda destes em li-
ele perde a propried ade dos bens, porque isso só ocorre
quidação.
seu
Quanto aos atos ela vida civil, desde que não te.nham nenhum a ligação com
os normalm ente. Pode, por exemplo ,
patrimônio, o falido pode continua r a praticá-l
casar-se. l\1as alguns ele seus direitos ficarão restritos.
Ele não poderá sair da comarca sem autorização judicial, e, sempre que o fizer,
deverá deixar procurad or nomeado para representá-lo.
As correspondências que disserem respeito ao seu negócio não serão mais aco-
será en-
bertadas pelo sigilo. Na verdade, toda e qualquer correspo ndência do falido
-
tregue ao administrador, que verificará o assunto das cartas, devolvendo imediata
mente aquelas que em nada se relaciona rem com a atividade empresa rial.
de
Por fim, a mais importan te das restrições é a que diz respeito à impossibilidade
ele exercer a atividade empresarial enquant o não reabilitado.
I
ii
!
17 .2. Bens do falido
o,
Vimos que todos os bens do falido serão arrecadados. Em um primeiro moment
de sua propried ade se-'
até mesmo bens que estejam em sua posse mas que não sejam
posse
rão arrecadados. Os que sejam ele sua propriedade, mas que não estejam sob sua
(bens em comodato, por exemplo), também serão arrecadados ..
Apenas não serão incluídos nesse acervo os bens absoluta mente impenhoráveis,
os gravados com cláusula de inalienabilidade e os da meação do ~ônjuge. A
guarda
seja
desses bens passa a ser do administrador, mas nada impede que o próprio falido
bens que possam deteriora r-se ou que
declarado depositário. Se houver, na massa,

Falido: restrições pessoais 142


e de-
sejam de difícil conservação, poderá o administrador, com autorização judicial
pois de ouvidos o falido e o comitê de credores, vendê-lo s antes ela liquidaçã o.
Na sentença que decreta a falência, pode o juiz se pronunciar sobre o prosseguimen-
ial.
to provisótio da empresa do falido ou sobre a !aeração do estabelecimento empresar
Com relação à continua ção provisória da empresa, o juiz determin ará nesse sen-
mais
tido sempre que perceber que a sociedade em funCionamento pode ser vendida
s dos credores forem mais
rapidam ente ou por maior preço, e sempre que os interesse
ade
bem satisfeitos dessa forma. Considera-se, nesse aspecto, a economia, a notoried
.
da marca dos produto s e até mesmo a relevância econômica e social da atividade
caberá ao adminis trador judicial a gerência da
Se o juiz decidir pela continuação,
provisór ia, porque, uma vez arre-
sociedade. Observe que a continua ção será mesmo
cadados os bens, deverão ser liquidados o mais rápido possível.
Quando falamos ela arrecadação elos bens, dissemos que, num primeiro momen-
Con-
to, até mesmo bens que não são de propriedade do falido entrarão para a massa.
tudo, é óbvio que estes não serão vendidos.
Com a finalidade de proteger terceiros que vejam seus bens no meio da massa
terceiro,
falida, a LF traz dois instrume ntos: o pedido de restituição e os embargos ele
previstos nos arts. 85 a 93·
São essas as duas únicas formas que o terceiro tem ele reaver os bens que foram
ou não
esbulhados pela falência do devedor, e a diferença entre eles está na existência
bem que tenha
de relação jurídica entre o terceiro e o devedor. Assim, o locador de um
que,
sido arrecada do deverá ingressar com o pedido de restituição, mas uma pessoa
no estacion amento do estabele cimento falido
por exemplo, estava com o carro parado
e se viu destituíd o do seu veículo deverá ingressar com embargos de terceiro.
São situações que autoriza m o pedido de restituição:
._ o bem ser de propriedade. do terceiro;
._ o bem ter sido vendido a prazo ao falido e entregue até 15 dias antes da decre-
tação da falência;
to-
._ . o adiantam ento a contrato de câmbio para exportação, desde que o prazo
espe-
tal dessa operação, incluindo: as prorrogações, não exceda o previsto nas normas
cíficas da autorida de compete nte;
e
.. Yalores desconta dos pela sociedade a título de contribu ição previdenciária
ainda não pagos (só o INSS tem legitimidade para formular o pedido).
Em regra, a restituiç ão a ser feita é do próprio bem. Em algumas situações, con-
mais
tudo, a restituiç ão será feita obrigatoriamente em dinheiro: quando a coisa não
de
existir ao tempo da restituição, quando se tratar de pedido fundado em contrato
ao devedor pelo contrata nte de boa-fé.
câmbio e quando se tratar de valores entregues
se-
O pedido deverá conter a descrição da coisa a ser restituída, será autuado em
Leia-se: não
parado e suspend e a disponibilidade da coisa até o trânsito em julgado.
pode o bem ser vendido.

143 Empresarial para quem odeia empresarial


Julgado proced ente o pedido, o juiz determ inará que seja
devolvido no prazo de 48
horas. Julgada impro cedent e, pode o juiz entend er que o
requer ente é credor do falido,
situaçã o na qual este será desde logo incluído no quadro
de credores. Da senten ça que
julga o pedido cabe apelação, que será recebida apenas
no sentid o devolutivo.
Com relação aos embar gos de terceiro, aplica-se o trâmit
e norma l do Códig o de
Processo Civil.

Jünda no. nwmenlo. á.aUda.de e. ó.dio. do.~~ parei um pouco de escrev er


sobre o falido para dar uma olhada no meu álbum
da formatu ra.
Alguma s observ ações:
a) impres sionan te como eu era magra aos 21 anos
e mesmo assim me con-
siderav a gorda;
b) impres sionan te como algumas pessoas são,
em certo momen to, gran-
des amigos e depois nunca mais trocam uma pàlavra
;
c) impres sionan te como cedas pessoas que aparec
em ali nas fotos, que
estuda ram comigo por 4 anos (porqu e o primeir
o ano da faculda de eu fiz em
outro lugar), simple smente tinham sumido da minha
memór ia;
d) impres sionan te como alguns amores ficam marcad
os na nossa memór ia
a ponto de, 10 anos depois , você ver uma foto e
suspirar.
Legal. Olhar o álbum fez com que eu me afastas
se do lado ruim das lem-
brança s do passado. Sinto-m e melhor. E: com
vontad e de ligar para alguém .
Mas não vou fazer isso. Juro.
....................................................................................
17.3. Atos e contratos do falido

17.3.1. Atos ineficazes


Não é de um dia para o outro que o empre sário entra em
uma situaç ão que pode
culmin ar na falência. Na verdade, muitas vezes tal situaçã
o demor a anos. Nada mais
norma l, portan to, que o empre sário se sinta tentad o a
pratica r alguns atos na tentati -
va desesp erada de "salvar" os bens antes que seja decret
ada a sua falência.
Exatam ente para evitar que esses atos fraudu lentos gerem
ainda mais prejuíz os
aos credor es é que a LF consid era alguns atos pratica dos
antes da quebra como inefi-
cazes em relação à massa. Veja bem o que foi dito: alguns
atos são consid erados inefi-
cazes perant e a massa.
Isso não quer dizer que o ato seja inexis tente, nulo ou
anulável.
Um exemp lo ajuda a visualizar.
Vamos supor que eu, empre sária quase falindo, transfi ro
a casa linda e marav ilho-
sa na Riviera de São Louren ço, de propri edade da pessoa
jurídica, para minha amiga
mais querid a. Faço um contra to de compr a e venda, tudo
direiti nho.
Dois dias depois é decret ada a minha falência.

Falido: restrições pessoais


144
Se a compr a e venda tiver cumpl ido todos os seus requisi
tos, ou seja, se não for anu-
lável por motivos consta ntes na lei civil, o contra to é válido,
mas perant e a massa falida
ele não é eficaz perant e a massa. Assim, liquida dostod os
os bens da empre sa e tendo sido
todos os credores devida mente pagos, aquela compra e venda
contin ua valendo.
Por outro lado, se da liquida ção não resulta r valor suficie
nte para a satisfação dos
crédito s falime ntares , então a compr a e venda da casa da
Riviera será tida como inefi-
caz: a casa vai ser arreca dada e liquida da.
Minha amiga que compr ou a casa se resolve comigo depois
. A ineficácia-, portan -
b, ocorre somen te em relação à massa falida. Para todos os outros efeitos, a compr
ae
venda é plenam ente válida.
É para fins dessa declar ação de ineficá cia de alguns
atos que o juiz fixa o chama do
termo legal da falência, cujos prazos já vimos anteri ormen
te.
Impor tante deixar claro que ao legislador faltou técnic
a mais uma vez. No art.
129 ele elenca alguns atos que chama de ineficazes. Depois
, no art. 130, chama outro
grupo de atos de revogáveis. Falha mesm o. Deve-se
entend er tanto uns quanto os
outros , ou seja, tanto os atos descri tos no art. 129 como
os descri tos no art. 130, como
ineficazes perant e a massa falida. Não tem nada de revogá
vel neles.
Acho interes sante dar uma lidinh a nesses artigos da Lei
n. 1 1.1 o 1/wos :
'í:\rt. 129. São ineficazes em relação à massa falida, tenha ou
não o contratante co-
nhecimento do estado de crise econômico-financeira do devedm
; seja ou não intenção des-
te fraudar credores:
I -o pagamento de dívidas não vencidas realizado pelo devedo
r dentro do termo legal,
por qualquer meio extintivo do direito de crédito, ainda que pelo
desconto do próprio t{tulo;
11 - o pagamento de d{vidas vencidas e exig{veis realizado dentro
do termo legal, por
qualquer forma que não seja a prevista pelo contrato;
lil - a constituição de direito real de garantia, inclusive a
retenção, dentro do termo
legal, tratando-se de d{vida contratda anteriormente; se os bens
dados em hipoteca forem
objeto de outras posteriores, a massa falida receberá a parte
que devia caber ao credor da
hipoteca revogada;
IV- a prática de atos a título gratuito, desde 2 anos antes
da decretação da falência;
V- a renúncia à herança ou a legado, até 2 anos antes da
decretação da falên.cia;
Vi - a venda ou transferência de estabelecimento feita sem o
consentimento expresso
ou o pagamento de todos os credores, a esse tempo existentes,
não tendo restado ao devedor
bens suficientes para solver o seu passivo, salvo se, no prazo de
30 dias, não houver oposição
dos credores, após serem devidamente notificados, judicialmente
ou pelo oficial do registro
de títulos e documentos;
Vil - os registros de direitos reais e de transferência de proprie
dade entre vivos, por
título oneroso ou gratuito, ou a averbação relativa a imóveis
realizados após a decretação
da falência, salvo se tiver havido prenotação anterior.

145 Empresarial para quem odeia empresarial


Parágrafo único. A ineficácia poderá ser declarada de ofício pelo juiz, alegad~ em de-
fesa ou pleiteada mediante ação própria ou incidentalme~te no ~urso do ~ro~esso .
"Art. 130 . São revogáveis os atos praticados com a zntençao de pre;udzcar credores,
provando-se 0 conluio fraudulento entre o devedor e o terceiro que com ele contratar e o
efetivo prejuízo sofrido pela massa falida".
Observe que os atos descritos no art. 129 são condicionad?s a certo lapso tempo-
-a necessariamente serão praticados com fraude. E como no exemplo da
ra,l m as n 0 . . , . d ·
casa da Ri viera: ainda que a compra e venda não esteja eivada de VICIO, e1a po ena ser
considerada ineficaz se se enquadrasse nas hipótese dos incisos desse artigo. A exce-
ção é a alienação irregular de estabelecime~to empr~sar~a~ (~ncis~ V.lll). ,. . ,
0 art. 45 , § 89., da LSA traz outra hipotese de mehcaCia objet~va e~peCih~a ..e o
reembolso à conta do capital social, quando o acionista dissidente nao fm substitUJdo,
em relação aos credores da sociedade falida anteriores à retirada. .
Mas espera um pouquinho. A Lei das Sociedades Anônimas voltou para me as-
sombrar? Socorro!
Quanto ao art. 13o, não há menção a prazo: a qualquer tempo, se o credor demons-
trar que 0 ato foi praticado com fraude, ele será considerado. inefic,a~ per~nt~ a massa.
Diz-se, portanto, que os atos do art. 129 são casos de mehcacia objetiva, e os do
art. 130 são de ineficácia subjetiva. .
A declaração de ineficácia objetiva pode dar-se de vários modos:
., simples despacho exarado no processo de falência; .
., sentença que acolhe matéria de defesa apresentada pela massa ~ahda;
., julgamento de qualquer ação, autônoma ou incidental, promovida pela massa
falida, em que for pleiteada a sua declaração. . . , .
Vários modos, sim, mas observe que somente o juiz pode declarar a mehcaCia dos
atos. Sempre judicial, tá? _ , .
Com relação aos atos de ineficácia subjetiva,! diferente. Exi:te uma aç~o.propna
para isso, e somente ela se presta para esse fim. E a chamada açao revocatona, e sua
disciplina está nos arts. 132 a 135 da LF. . ..
Essa ação pode ser proposta pelo administrador jUdicial, por qualquer credor ou
pelo Ministério Público, no prazo de 3 anos contados da decretação da falência. Ela
correrá no juízo falimentar, e pode ser ajuizada contra: .
., todos os que figuram no ato, ou que por efeito dele foram pagos, garantidos
ou beneficiados; _ ~·
., terceiros adquirentes que, na data do ato, tinham conhecimento da intençao
do devedor de prejudicar terceiros; .
., herdeiros ou legatários das pessoas elencadas nas situações antenores.
Julaada procedente a revocatória, o bem volta para a massa falida, com to::los os
seus ac:ssórios, ou, se não for possível, o seu valor de mercado acrescido das perdas e
danos. Da decisão, cabe apelação.

Falido: restrições pessoais 146


17 .3.2. Efeitos da falência quanto aos contratos do falido
Estamos agora nos arts. 115 a 128 da LF.
A lei autoriza a resolução dos contratos bilaterais. Mas atenção: o conceito de
contrato bilateral para fins de falência não é o mesmo conceito do direito civil. Con-
sidera-se bilateral e plausível de resolução aquele contrato em que nenhuma das par-
tes deu início ao cumprimento da obrigação ainda.
Então veja: empresário firmou um contrato para a compra de determinada quan-
tidade de café. Obrigou-se a fazer o pagamento em 30 dias, e, também nesse prazo, a
outra parte obrigou-se a entregar o café.
Se nesse meio-tempo a falência do empresário é decretada, o contrat() se resolve,
porque nem o empresário pagou e nem o fornecedor entregou. Os contratos unilate-
rais também poderão ser resolvidos, mas sob as mesmas condições acima explicadas.
Esqueça os conceitos do direito civil aqui, senão confunde tudo.
Observou que eu não dei "oi" para o direito civil? Sempre dou um alozinho para
a outra matéria quando ela entra nos meus livros. Mas tenho certa antipatia por direi-
to das obrigações. Então prefiro fícar quietinha no meu canto.
Ficou assim: iniciada a execução de um contrato, ele não poderá ser resolvido de
forma automática.
Por outro lado, quanto aos demais contratos, pode ser mais interessante para os
credores que determinadas avenças firmadas pelo falido sejam resolvidas, ainda que
não cumpram os requisitos aí de cima. Quem decid~ isso é o administrador judicial,
autorizado pelo comitê de credores. e o que for decidido não pode ser questionado
pelos demais credores.
Um contratante, querendo saber como fica seu contrato firmado com o falido,
pode interpelar o administrador judicial, no prazo de 90 dias contados da investidura
deste na função. A decisão terá que ser proferida em 1o dias, sob pena de resolução, e
o contratante pode, nesse caso, ingressar com a ação cabível para a apuração de even-
tuais perdas e danos.
Essa é a regra geral. Contudo, algumas categorias de contratos têm tratamento
diferenciado:
"Art. 119. Nas relações cqntratuais a seguir mencionadas prevalecerão as seguintes
regras: .
I - o vendedor não pode ~bstar a entrega das coisas expedidas ao devedor e ainda
em trânsito, se o comprador, antes do requerimento da falência, as tiver revendido, sem
fraude, à vista das faturas e conhecimentos de transporte, entregues ou remetidos pelo
vendedor;
li -se o devedor vendeu coisas compostas e o administrador judicial resolver não con-
tinuar a execução do contrato, poderá o comprador pôr à disposição da massa falida as
coisas já recebidas, pedindo perdas e danos;

147 ·Empresarial para quem odeia empresarial


III - não tendo o devedor entregue
coisa móvel ou prestado serviço que
contratara a prestações, e resolvendo vendera ou
o administrador judicial não executar
crédito relativo ao valor pago será hab o cont rato, o
ilitado na classe próp1ia;
IV - o administrador judicial, ouvi
do o Comitê, restituirá a coisa móv
pelo devedor com reserva de domínio el compráda
do vendedor se resolver não continu
contrato, exigindo a devolução, nos ar a execução do
termos do contrato, dos valores pago
V- tratando-se de coisas vendidas s;
a termo, que tenham cotação em bols
do, e não se executando o contrato a ou merca-
pela efetiva entrega daquelas e pag
prestar-se-á a diferença entre a cota ame nto do preço,
ção do dia do contrato ea da época
bolsa ou mercado; da liqu idação em
VI - na promessa de compra e vend
a de imóveis, aplicar-se-á a legislaçã
Vll -a falência do locador não reso o respectiva;
lve o contrato de locação e, na falên
rio, o administrador judicial pode, a cia do locatá-
qualquer tempo, denun,ciar o contrato
Vlll - caso haja acordo para compens ;
ação e liquidação de obrigações no
sistema financeiro nacional, nos term âmbito do
os da legislação vigente, a parte não
considerar o contrato vencido antecipa falid a poderá
damente, hipótese em que será liquidad
estabelecida em regulamento, admitind o na forma
o-se a compensação de eventual créd
a ser apurado em favor do falido com ito que venha
créditos detidos pelo contratante;
IX - os patrimônios de afetação, con
stituídos para cumprimento de dest
cífica, obedecerão ao disposto na legis inação espe-
lação respectiva, permanecendo seus
obrigações separados dos do falido até bens, direitos e
o advento do respectivo termo ou
to de sua finalidade, ocasião em que até o cumprimen-
o administrador judicial arrecadará
massa falida ou inscreverá na classe o sald o a favor da
própria o crédito que contra ela rem
anescer".
'íl.rt. 121. As contas correntes com o
devedor consideram-se encerradas no
de decretação da falência, verifican momento
do-se o respectivo saldo".
A prescrição das obrigações do falid
o ficará suspensa com a decretação
cia, voltarido a corr er qua ndo do da falên-
trân sito em julgado da sen tenç a
de enc erra men to.
Pode oco rrer que um con trat o tenh
a sido firmado com cláusula de reso
falência. Es§a cláusula é válida, e lução pela
o adm inis trad or judicial não pod
e se opo r a ela.
Con trat os de trabalho tam bém não
se resolvem auto mat icam ente em
cia da falência. A CLT dispõe que decorrên-
a cessação das atividades da emp resa
tóri a dos con trat os de trab alho a é caus a resolu-
ela inerentes. Então, veja: o que exti
tos não é, de fato, a falência. Tan ngu e os contra-
to que, se houver ord em no sen tido
provisória das atividades da emp da con tinu ação
resa, tais contratos con tinu arão
enq uan to a sociedade perm ane cer válidos e vigentes
em func iona men to.
Por fim, os con trat os firmados em
moe da estrangeira serão convert
pela taxa de câmbio do dia da dec idos em reais
retação da falência.

Falido: restrições pessoais


148
························································
0e &do-, não. ~ fU:VU1- ······························
aq.uef.e. meu a.m.úJo-/amo.!!- da
!ant e tem po que não falo com
~· Tem bas- -
ele. ~ramos supe rami gos, melh
acho. t:ntã o eu. com ecei a ores amigos, eu
namorar, e ele tamb~m. Não
nos afastamos, mas
tam bém não conc retiz amo s
a vont ade que tínha mos de
e sabí amo s que tính,amos. ficar junto s. Tính amo s

Aca bam os nos enc ontr and o


algumas vezes dep ois que os
mor os term inar am, e até tent resp ectiv os na-
amo s. Mas nunc a fomo s além
do "e se ...".
~ melh or que a histó ria seja cont ada
dessa form a mes mo. Meu pass
me cond ena . Não poss o abri ado
r muit o.
································································
····················

149 Empresarial para quem odeia empresari


al
\.-
-6~·/2;\
\:~~o;);•/
~~~\_/--;::-.-:\
:-:-·. ,,
-~

.··•/
-.,_{ - .... ,

18. Gent e pequ ena:

····················································································
& já~ fe/1, ~' maJ. não.. Sempre tomo porrada pelo mesmo motivo.
No livro de tributário, comentei sobre o meu vício em redes sociais. Con-
fesso mesmo e nem ligo. Adoro. De longa data.
Logo que o pai da minha filha foi pres.o, comecei a participar pela Internet
com
de um grupo de mulheres na mesma situação que eu. t:ra bem legal falar
pessoas que passavam pelas mesmas coisas. Bem reconforta nte. Não demorou
por
muito para que começasse m a surgir intrigas e brigas infundadas , e acabei
co-
me afastar desse grupo, mas ainda tenho contato com duas pessoas que
nheci lá. Tornaram- se grandes amigas. Valeu a pena só por isso.

Depois veio a onda do Twitter.


Talvez por conta doblog, acabei me tornando um pouco conhecida nesse
ambiente. Bem pouco mesmo, nada de exageros. Algumas pessoas, contudo,
simplesme nte não suportam ver o outro em situação melhor. No meu caso,
essa ··situação melhor" nem sequer existe. ~ criação da mente insana dessao

pessoas.
Aí que, por conta disso, mais uma vez eu pude perceber o quanto as pes-
o
soas são pequenas, e o quanto são fúteis. Não consigo me conformar com
a no mundo a ponto ele passar o dia in-
fato de que tem gente tão desocupad
teiro cuidando ela viela elos outros! t:nquanto ficasó no "fulano disse que fulana
tir.a
:1 disse", tá tudo bem, eu relevo. Mas, quando me atinge diretament e, aí me
elo sério.
Preciso me vacinar contra essas coisas. Preciso de um antivírus. t:, mais
não
que tudo, preciso parar de acreditar que as pessoas são boas, porque elas
são. Só se aproximam ele você por algum motivo específico, por algum interesse.
No fundo, bem no fundo, todo mundo tem um pouco de maldade no co-
você
ração. Se você usa essa ·maldade para conseguir coisas elo bem, ótimo:
conseguiu burlar as leis da vida. Mas a grande maioria não faz isso.
Como muito bem diziam os manos lá da vila, zé povinho é moto.
Mas vamos continuar com a nossa falência, não sem antes dar um recacli-
nho especial: se você não tem o que fazer, venha aqui em casa. O tanque está
cheio de roupa suja.

Falamos que a falência é uma execução grandona, na qual os credores todos fi-
cam ele um lado e o devedor ele outro. Acontece que, nesse grupo ele credores, alguns
não são admitidos. Olha o que diz o art. 5~ ela LF:
"Art. 5!! Não são exigíveis do devedor, na recuperação judicial ou na falência:
I - as obrigações a título gratuito;
li - as despesas que os credores fizerem para tomar parte na recuperação judicial ou
na falência, salvo as custas judiciais decorrentes de litígio com o devedor".
Então, assim: foi pedida a falência ele uma sociedade, mas essa sociedade me
eleve uma casa na Riviera ele São Lourenço, que prometeu me dar de presente por-
que eu sou linda. De presente, free. Não posso, nessas condições, chegar toda bani-
tona lá no juízo da falência e pedir para ser habilitada como credora. É o que diz o
inciso l.
Agora vamos supor que essa mesma sociedade está falindo, mas eu vendi um carro
para ela e ela não me pagou. Agora eu posso me habilitar como credora, mas não vou
poder incluir no meu débito as despesas que tive contrf(tanclo advogado para fazer essa
habilitação. As dívidas que tive com uma eventual execução com a qual ingressei con-
tra ele, para cobrar esse mesmo valor, eu posso incluir. É o que diz o inciso ll.
Legal. Credores que não se enquadra m nessas situações, então, vão ter seus cré-
ditos habilitados na falência, e poderão constituir procurado r para representá-los.
Não precisa ser obrigatoriamente um advogado, mas se não for, óbvio, não vai poder
praticar atos privativos deste.
Se o credor for debenturi sta (LSA: te odeio), vai ter que ser representado por um
cara chamado agente fiduciário.
Ok. Todo mundo que era credor já se habilitou.
A sentença que declara a falência faz nascer a chamada massa falida subjetiva,
que é o conjunto ele credores que se habilitou na falência. É diferente ela chamada
massa falida objetiva, que é o' conjunto ele bens arrecadados. Então, preste atenção,
porque a lei fala em massa falida para se referir tanto aos credores quanto aos bens,
mas s.ão coisas diferentes. Precisa ver o contexto direitinho para saber se está tratando
ela subjetiva ou da objetiva.
Também a partir ela sentença acontece o seguinte:
~ as ações individuais contra o falido são suspensas;
~ os créditos não vencidos vencem antecipad amente;
~ os juros param ele correr.

151 Empresarial para quem odeia empresarial


Com relação à suspensão das ações individuais, lembrar que não são todas. Exce-
ções:
a) ações que versem sobre quantia ilíquida, inclusive trabalhistas;
b) execuções fiscais.
Essas continuam tramitando normalmente.
Agora imagine que eu tenha uma reclamação trabalhista contra uma sociedade
que foi declarada falida. Como ainda estou discutindo, na justiça do Trabalho, quanto
eu tenho para receber (quantia ilíquida), não vai haver suspensão da minha ação. Àí eu
penso: poxa vida, meu processo trabalhista está demorando muito, e enquanto isso a
galera lá na falência já está recebendo! Vai acabar o dinheiro e eu não vou receber nada:!
Pode acontecer mesmo. Então, pensando nisso, o legislador criou uma coisinha
legal: eu posso pedir para o juiz da falência reservar um pouco de dinheiro para mim.
Veja: '

"Sendo assim, cabe aos interessados - por exemplo, o reclamante - pleitear, perante o
juízo onde seu processo- no caso, o juízo trabalhista -a reserva de valor. Assim, nesse exem-
plo dado do juiz do Trabalho detenninaria ao juízo da falência ou da recuperação judicial,
confonne o caso, que resen,asse um valor determinado, para que, na eventualidade de aque-
le reclamante vencer a reclamação trabalhista, não ver frustrado seu direito de crédito em
razão de a massa já ter usado seus recursos para pagamento dos demais credores" 1".
No que tange à suspensão da fluência dos juros, é assim: somente até a decreta-
ção da falência os juros correm. Depois da sentença, não. Mas, se a massa comportar,
poderá pagá-los.
Exceção: debenturistas e credores com garantia real ficam fora. Para eles, os juros
continuam correndo normalmente.
Agora vamos para a parte que sempre cai em qualquer exame. Acho que cai em
exames do primeiro ano do ensino fundamental, por isso já vou começar a ensinar a
minha filha sobre essa parte. Cai até em exame de sangue. Conclusão: tem que saber.
Tem que .. já era.

é a~~ c:lo.4 ~- Mas, antes de entrar nessa parte, uma


·· pequena pausa. Comentei sobre o grupo de que eu· participei, das mulheres
que tinham maridos presos, né? Também falei que rolou muita treta lá, né?
Na época eu tinha um blog, que já desativei, mas mantive os posts arqui-
vados. t:ncontrei um, escrito em 24·5·2009, que fala exatamente do tipo de
gente pequena a que me referi no começo deste capítulo. Dá uma olhada em
algumas partes do post: ·

12 RAMOS, André Luiz Santa Cruz. Falências e recuperação de empresas. Salvador: jusPodivm, 201 o.

Regime jurídico dos credores do falido 152


i=iz verdadeiras amigas nessas comunidades, as quais vão estar pra sem-
pre guardadas no meu coração mesmo depois que a minha caminhada termi- .
nar. Não são apenas "amigas de porta de cadeia". São pessoas maravilhosas,
guerreiras de corpo e alma, com preocupações e sentimentos muito parecidos
com os meus.
Mas eu conheci também um outro tipo de pessoa nessas comunidades. t:
essas J=essoas, de certa forma, me impressionam ... é muita maldade reunida
numa pessoa só.

Caramba ... que vida triste a dessas pessoas. Dignas de pena ...
No fundo, eu acho que inventam mentiras tão bem elaboradas que aca-
bam acreditando nelas, mas jogam tanta corda que acabam se enforcando sozi-
nhas. t:, na verdade, as águas passadas movem moinhos sim ... Tudo que vai volta.
Pcis é. Post antigo, lição de moral atual.
····················································································
Vamos lá classificar os credores. Vou fazer assim: primeiro coloco o quadrinho
que a gente tem que decorar aqui, aí depois vou explicando o que é cada uma das coi-
sinhas que vão estar no quadro, beleza?

1~) Crédito extraconcursal

2~) Acidente do trabalho e créditos trabalhistas

3~) Crédito com garantia real

~) Dívida ativa
-
5~) Crédito com privilégio especial

· ~) Crédito com privilégio geral

· 7~) Crédito quirografário

~) Multas contratuais

9~) Crédito-subordinado

Se você tiver que escolher uma única coisa para aprender sobre falências, escolha
esse quadro. É megamáster importante. Quer uma ajuda? Vou colocá-lo bem grandão
na página 245, numa folha sozinha, sem nada escrito atrás, para você poder recortar e
colar no seu guarda-roupa. Pode recortar o livro, sim. Eu autorizo.

153 Empresarial para quem odeia empresarial


Agora sim, vamos falar de cada um deles.
a) Créditos extraconcursais
São os do art. 84, e são pagos antes de todo mundo. Os primeirões da fila. É im-
portante ler o artigo, porque, mesmo eles sendo os primeiros da fila, existe uma or-
dem entre eles (o artigo diz "na ordem a seguir"). Olha lá:
'1\rt. 84. Serão considerados créditos extraconcursais e serão pagos com precedência
sobre os mencionados no art. 83 desta Lei, na ordem a seguir, os relativos a:
I - remunerações devidas ao administrador judicial e seus auxiliares, e créditos deri-
vados da legislação do trabalho ou decorrentes de acidentes de trabalho relativos a serviços
prestados após a decretação da falência;
11 - quantias fornecidas à massa pelos credores;
ll1 - despesas com arrecadação, administração, realização do ativo e distribuição do
seu produto, bem como custas do processo de falência; -
IV- custas judiciais relativas às ações e execuções em que a massa falida tenha sido
vencida;
V- obrigações resultantes de atos jurídicos válidos praticados durante a recuperação
judicial, nos termos do art. 67 desta Lei, ou após a decretação da falência, e tributos re!ati-
vos a fatos geradores ocorridos após a decretação da falência, respeitada a ordem estabele-
cida no art. 83 desta Lei".
b) Créditos por acidente do trabalho e créditos trabalhistas
Tudo o que o falido tem que pagar aos seus empregados entra aqui. Mas existe
um limite máximo: 150 salários mínimos. O que ultrapassar esse montante vai para o
sétimo lugar, ou seja, vira crédito quirografário.
Tem mais uma coisinha para falar. O art. 15 1 traz uma superproteção ao salário.
Então, assim que o administrador judicial assume seu cargo, deve verificar a existên-
cia de empregados que estão com os 3 últimos salários atrasados. Se houver, paga logo
de cara, mas só até o máximo ele 5 salários mínimos por empregado. Depois, o que
faltar, o empregado vai receber. Significa dizer que o pagamento de salários não vai
entrar na nossa classificação. Só vai entrar o crédito trabalhista restante. Deu para
entender?
Leia o artigo que fica mais claro: empregado com salário atrasado recebe logo que
é decretada a falência - máximo de 3 meses de atraso, máximo de 5 salários mínimos
por empregado. O que sobrar vem nessa classificação. O que ultrapassar 150 salários f
mínimos vai lá para os quirografários.
c) Créditos com garantia real
São exemplos de créditos com garantia real os hipotecados, os caucionados, os
pignoratícios etc. Olha que bonitinha a definição ela Wikipédia: Garantia real é onde o
próprio devedor, ou alguém por ele, destina todo ou parte do seu patrimônià para assegurar
o cumprimento da obrigação contraída.-

Regime jurídico dos credores do falido 154


A preferência está limitada ao valor da garantia. Exemplo: sou credora do falido
no montante de 1o o mil reais, e tenho em garantia uma caução ele dez mil. Vou rece-
ber, nessa ordem, os 1 o mil que tenho garantido. Os 90 mil que faltaram vão lá para
os créditos quirografários também.
Da mesma forma, se a garantia é, por exemplo, um imóvel, e, na venda deste, não
se conseguir valor suficiente para pagar integralmente o crédito garantido, o que fal-
tar se toma quirografário.
d) Dívida ativa
São as dívidas do falido para com a União, Estados, Distrito Federal, Municípios
ejou autarquias, com origem tributária ou não.
Dentro dessa classificação existe uma ordem também: primeiro paga a União e
suas autarquias, depois os Estados e o Distrito Federal e suas autarquias, e só por últi-
mo os Municípios e suas autarquias.
e) Créditos com privilégio especial
São eles:
CC, art. 964. "Têm privilégio especial:
I - sobre a coisa arrecadada e liquidada, o credor de custas e despesas judiciais feitas
com a arrecadação e liquidação;
11 -sobre a coisa salvada, o credor por despesas de salvamento;
lll -sobre a coisa beneficiada, o credor por benfeitorias necessárias ou úteis;
IV- sobre os prédios rústicos ou urbanos, fábricas, oficinas, ou quaisquer outras cons-
truções, 0 credor de materiais, dinheiro, ou serviços para a' sua edificação, reconstrução, ou
melhoramento;
V- sobre os frutos agrícolas, o credor por sementes, instrumentos e serviços à cultura,
ou à colheita;
VI -sobre as alfaias e utensílios de uso doméstico, nos prédios rústicos ou urbanos, o
credor de aluguéis, quanto às prestações do ano corrente e do anterior;
VIl - sobre os exemplares da obra existente na massa do editor, o autor dela, ou seus
legítimos representantes, pelo crédito fundado contra aquele no contrato da edição;
Vlll -sobre 0 produto da colheita, para a qual houver concorrido com o seu trabalho,
e precipuamente a quaisquer outros créditos, ainda que reais, o trabalhador agrícola, quan-
to à dívida dos seus salários".
E mais:
.- os assim definidos em outras leis civis e comerciais;
._. aqueles a cujos titulares a lei confira o direito de retenção sobre a coisa dada
em garantia.
Da mesma forma que ocorre com os créditos com garantia real, faz-se o seguinte:
vende a coisa dada em garantia e paga o credor. Se ainda assim tiver saldo a ser pago,
esse saldo é reclassificado como crédito quirografário.

155 Empresarial para quem odeia empresarial


f) Créditos com garantia geral
Mais artigo do CC:
'1\!t. 965. Goza de privilégio geral, na ordem seguinte, sobre os bens do devedor:
I- o crédito por despesa de seu funeral, feito segundo a condição do morto e o costume
do lugar;
11 - o crédito por custas judiciais, ou por despesas com a arrecadação e liquidação da .
massa;
111 - o crédito por despesas com o luto do cônjuge sobrevivo e dos filhos do devedor
falecido, se foram moderadas;
IV- o crédito por despesas com a doença de que faleceu o devedor, no semestre ante-
rior à sua morte;
V- o crédito pelos gastos necessários à mantença do devedor falecido e sua família, no
trimestre anterior ao falecimento;
VI- o crédito pelos impostos devidos à Fazenda Pública, no ano conente e no anterior;
VIJ - o crédito pelos salários dos empregados do serviço doméstico do devedor, nos
seus derradeiros seis meses de vida;
VliJ - os demais créditos de privilégio geral".
E ainda:
.. créditos quirografár ios sujeitos a recuperação judicial pertencente s a fornece-
dores de bens ou serviços que continuare m a provê-los normalmen te após o pedido
de recuperaçã o judicial;
.,_ os assim definidos em outras leis civis e comerciais.
Observação: desculpe pela cópia incessante de artigos gigantes. Mas não tem
como, galera. Tem que dar uma lidinha pelo menos, ok? Quando eu digo que tem que,
pelo menos, ler, é para que se forme na sua cabecinha (e na minha) uma ideia do que
trata o assunto.
já combinamo s que não gostamos de ler a lei, e é por isso que eu transcrevo os
artigos. Assim você não tem o trabalho de abrir o Código. Então, para os que estive-
rem no livro não tem desculpa, tá? Tem que ler mesmo.
Combinado ?
g) Créditos quirografár ios
É aqui que entra a maior parte: são todos os créditos sem garantia nenhuma e
mais aqueles que, conforme vimos acima, passaram a ser quirografár ios ou porque
excederam o limite de 150 salários mínimos (no caso dos trabalhistas) ou porque ex-
cederam o valor auferido com a ve1-ida do bem dado em garantia.
h) Multas contratuais
Inclui penas pecuniárias por infração à lei penal ou administrat iva e multa tribu-
tária.

Regime jurídico dos credores do falido 156


i) Créditos subordinad os
São os créditos dos sócios ou administra dores sem vínculo empregatíc io e os cré-
ditos por debêntures subordinad as emitidas por sociedades anônimas falidas.

é iMo-. ~:a~ p.a;Je- da análise da Lei de i=alências. !=alta a


recuperação de empresas, que veremos nos próximos dois capítulos. Mas já
adianto que é tranquilo. Se sobreviveu à sociedade anônim2, meu amigo, você
;tira essa parte de letra.
r=ara finalizar, apenas um comentário pertinente: enquanto eu escrevia
este capítulo, a mesma pessoa que me irritou profundame nte hoje de manhã
por conta de fofoquinhas na Internet veio falar comigo. i=ingi que não sei de
nada, porque sou fina e linda, mas minha vontade era xingar. t:ntão, apenas a
chamei de "querida". t: duas frases tiradas do próprio Twitter explicam o por-
quê dessa designação:
""Jão é briga de verdade se uma mulher não chama a outra de querida".
"Não se engane: quando eu te chamo de querida. na verdade quero dizer
vadia'.
()esculpas sinceras pelo momento desabafo.)

157 Empresarial para quem odeia em presa ri ai


19. Dá licen ça?

'fi0e eJ1o.u me. ien1indo- a 'WinAa da eda eAita. A ú Iti ma boI ac h a cl o pa::: ::lte.
coisa que eu
O gás elo refrigeran te. ~ por aí vai. Mereço. porque o tanto ele
aguento não está escrito no gibi.
tJclo
Primeir-o, uma cliente me liga. Quase uma hora no telefone, expliquei
disse ao final que
sobre o processo dela ele uma maneira tão legal que ela me
parecia uma aula ele direito.
Tudo bem: ele cireito eu até manjo um pouco.
médcas.
Depois. uma amiga mais que linda me liga pedindo informaçõ es
médicas
Oi? Sim. Informaçõ es médicas. Mais especifica mente, informaçõ es
geitacion ais.
ele :icar
De gestação eu manjo por experiênc ia própria. Aliás, a delícia
é poder comer tudo o que você tem vontade sem sentir peso na cons-
grávida
.!
ciência e se achar ainda mais linda por estar gorda.
/ fvtais
,- De medicina eu manjo o que o Google e o meu pai me ensinam.
Mas adoro quando me pergunta m alguma coisa. Quando isso accnte-
nada.
r com a
ce, vou correndo pesquisa r tuclinho sobre o assunto para responde
inteligen te elo que
maior propried ade. Dá a impressã o ele que eu sou mais
.~--. realment e sou .
o namo-
Mais tarde. outra amiga me liga. chorando . Brigou (ele novo) com
/;;xpert no assJnto.
rado. Soe~ a rainha elos relaciona mentos que não dão certo.
meio ele uma depressã o
~ sempre tenho um conselho legal para quem está no
amorosa. Quando é comigo, lágrimas pra que te quero.
quando-
De psicologia , não manjo nada ele teórico, e sei muito do prático
é com os outros. Quando é comigo, manjo nada de nada.
m
f=inalmente. recebi e-mails de duas pessoas diferente s que se reportara
a mim como professor a. Achei chique demais. ~u. professor a? Que coisê lindal
mecha-
Tudo bem que já dei aulas ele catecismo e ele inglês, mas meus alunos
mavam de tia naquela época.
gente
Da arte ele ensinar, só sei mesmo ensinar a minha pequena a virar
grande. ~ olhe lá.
~nfim: num único dia eu fui chamada de advogada , médica.
psicóloga e
nte.
professor a. De todas as profissõe s. só a primeira se aplica oficialme
Mas, com licença. estou me achando sim
mecha-
Recupera ção JUdicial é o tema. ~vamos começar _logo, antes que
mem ele mais alguma coisa e meu ego estoure ele tão inflado.

Começa assim: "Nem toda empresa merece ou deve ser recuperada"'".


É. Tapa na cara logo de início. Mas é isso mesmo: a recuperação de empresas
não
fatores
é para qualquer um. Quem vai decidir isso é o judiciário, levando em conta
o volume de ativo e
como a viabilidade da atividade empresarial, a importâ ncia social,
passivo etc.
o
De qualquer maneira, a recuperação é um instrum ento que materializa bem
própria
princípio da preservação da empresa. Seus objetivos estão bem delineados na
lei: viabilizar a superação da situação de crise econômico-financeira do devedor, a fim de
permitir a manutenção da fonte produtora, do emprego dos trabalhad ores e dos interesses
dos credores, promovendo, assim, a preservação da empresa, sua função social e o estímulo
à atividade econômica (art. 47).
Então, legal, queremos preservar a empresa. Mas só vamos fazer isso com quem
é insu-
realmente tenha condições para tanto. Se a situação é grave demais, se a crise
não restará que
perável, se a continui dade da atividade não é viável, outro caminho
não a falência.
A LF traz uma listinha de meios de recuperação da empresa. Está no art. 50, que
tem 16 incisos. Não vou transcrever, desculpe, mas vale saber que o rol não é taxativo.
O próprio caput do artigo mencion a a expressão "dentre outros".
Então vai ser assim: vamos ver o que está acontece ndo na nossa empresa, e vamos
um ou
ver o que podemos fazer para que ela volte a ser lucrativa. Podemos escolher
ou até mesmo qualquer outro
mais de um instrume nto dentre os que a própria lei traz
que ali não conste.
Aí, apresentamos ao juiz:· senhor juiz, a sociedade está passando por estes proble-
mas, e vamos resolver desta forma.
É a partir daí que o juiz ~ai fazer avaliar se poderá ou não conceder a medida.
Antes de falarmos dos procedimentos, vamos ver quais são os órgãos que com-
põem a recuperação judicial.

13 COELHO, Fábio Ulhoa. Manllal de direito comercial, p. 420.

159 - Empresarial para quem odeia empresarial


19.1. Órgãos

19.1.1. Assembleia geral


É um órgão colegiado, composto pelos credores da sociedade que pleiteia a recu-
peração. Os credores de uma empresa em recuperação são as pessoas mais prejudica-
das, porque são elas que vão ter que suportar algum prejuízo ou fazer concessõ~s de
alguma maneira. É por isso que as decisões mais importantes são tomadas por essa
assembleia.
Oba só o que cabe a ela decidir:
':4rt. 35· A assembleia geral de credores terá por atribuições deliberar sobre:
I - na recuperação judicial:
a) aprovação, rejeição ou modificação do plano de recuperação judicial apresentado
pelo devedor;
b) a constituição do Comitê de Credores, a escolha de seus membros e sua substituição;
c) (vetado);
d) o pedido de desistência do devedor, nos termos do f 4~ do art. 52 desta Lei;
e) o nome do gestor judicial, quando do afastamento do devedor;
f) qualquer outra matéria que possa afetar os interesses dos credores".
Pode ser convocada pelo ju~z, nas hipóteses previstas na lei, ou sempre que ele
entender necessário. Ainda, credores com pelo menos 25% do total do passivo da so-
ciedade podem convocá-la.
Fu:1ciona assim a convocação: publicação no diário oficial e em jornal de grande
circulação, com a antecedência mínima de 15 dias. Aí, precisam estar presentes credo-
res de pelo menos metade do passivo para a assembleia poder se instalar. Se não der,
aí se faz uma segunda convocação, que deve respeitar o intervalo mínimo de 5 dias, e
essa segunda pode acontecer com qualquer número de presentes.
Participam da assembleia todos os credores que constarem na lista geral, e todos
eles têm direito de voto proporcional ao valor do seu crédito.
Funciona assim: a assembleia é organizada em instâncias. A top, lá em cima de
tudo e de todos, é o plenário. A competência deste é residual: ele vai tratar de todos os
assuntos que não sejam constituição do comitê e o plano de reorganização. As delibe-
rações são tomadas por maioria dos votos, e, como dito, todos têm direito a voto
proporcional ao crédito, mas a natureza deste não interfere em nada.
As outras instâncias (ou classes) relacionam-se com as classes de créditos:
~ uma formada por credores que se fundamentam na legislação trabalhista ou
decorrentes de acidentes de trabalho (classe I);
~ uma formada por credores com garantia real (classe li);
~ uma formada pelos outros credores com privilégio especial e geral, quirogra-
fários e subordinados (classe lll).

Recuperaç5o judicial 160


A Fazenda Pública não entra em lugar nenhum, e os credores titulares de crédito
com garantia real podem estar na segunda ou na terceira classe. Isso porque, como já
vimos, se o crédito com privilégio real não puder"ser pago integralmente com o valor
da venda do bem-dado em garantia, o saldo será tido como quirografário. Aí, será as-
sim: o cara vota na das se das garantias reais até o limite do valor do bem gravado e na
terceira classe com o restante do crédito.
Essa galera vai decidir sobre a constituição e a composição do comitê e também
votar sobre o plano de recuperação. Aqui, como dito, o plenário não fala nada.
: O quórum geral será de maioria dos presentes, mas não dos votos, e sim do cré-
dito. Em uma hipótese o quórum será especial (fato: nunca em nenhum l~gar vai
existir um quórum único). A hipótese é a aprovação do plano de recuperação.
Lembre, de novo: o plenário não vota-sobre isso.
A votação, então, vai ser por classes. E, em cada classe, o plano de recuperação
deve ter mais da metade dos votos para ser aprovado. Dos votos. Percebeu a diferença?
Nos outros assuntos, a votação era pelos créditos. Aqui não. É por voto. Cada credor
tem um voto.
E não é só isso. É preciso que os credores que representem mais da metade do
passivo apoiem o voto da classe dos credores com garantia real e dos credores com
privilégio, quirografários e subordinados.
Vish. Vamos de novo?
Regra geral: maioria do crédito.
Exceção: aprovação, rejeição ou alteração do plano de recuperação. Precisa da
maioria dos presentes, cada classe_votando separadamente. Mais: a maioria do crédito
tem que aprovar o voto das classes li e lll.
Deu agora? Parece complicado, eu sei, mas é só ler com atenção que dá para entender.

19.1.2. Administrador judicial


É quase igual ao administrador na falência: pessoa designada pelo juiz, preferen-
cialmente advogado, economista, administrador de empresas, contador ou pessoa ju-
rídica especializada.
Lembra quando falamos dos casos em que o administrador da falência poderia
ser destituído? Dissemos que a sanção era ele não poder exercer a mesma função no
prazo de 5 anos. A mesma sanção vale para o administrador da recuperação, ok? Tam-
bém estão impedidos de exercer essa função parentes até o terceiro grau, amigos, ini-
migos ou dependentes dos representantes legais da sociedade empresária que reque-
rer a recuperação judicial.
A função desse cara aí vai depender de algumas coisas.
Se o comitê (que é órgão facultativo) existir, vai verificar os créditos, presidir a
assembleia e fiscalizar a sociedade. Se o comitê não existir, o administrador vai fazer
isso e mais tudo aquilo que caberia ao comitê fazer.

161 Empresarial para quem odeia empresarial


Também depende do que acontece com os diretores da sociedade que pleiteia a
recuperação.
Se 0 juiz determina o afastamento elos diretores, o administrado r judicial vai ad-
ministrar e representar a sociedade. Se o afastamento não for determinado , então o
administrado r será o fiscal da sociedade, o presidente da assembleia e ainda vai cuidar
da verificação dos créditos.

19.1.3. Comitê
Como já dito, é órgão facultativo, e quem vai decidir sobre a existência ou não
dele é a,.assembleia, por qualquer daquelas classes que vimos. Aí, aprovada a sua cria-
ção, cada uma das classes vai eleger um representante e dois suplentes.
A competência é basicamente a de fiscalizar tanto o administrado r como a pró-
pria sociedade que requereu a recuperação. Se encontrar alguma coisa irregular, então
o comitê, por maioria de votos, deliberará sobre o encaminham ento de tal fato ao juiz
para providências.
Além dessa função, o comitê pode, quando for o caso, elaborar plano de recupe-
ração alternativo e decidir sobre a alienação de bens do ativo permanente.
Quando o comitê não existir, suas funções serão exercidas pelo administrado r,
mas este não poderá, por exemplo, fiscalizar a si me.smo. Então, as funções incompa-
tíveis serão exercidas pelo próprio juiz.

19.2. Processo da recuperação judicial


ji
Agora sim vamos ver como é efetivamente feita a recuperação. O processo todo
divide-se em três fases.

19 .2.1. Fase postulatória


Vai da petição inicial até o despacho que manda processar o pedido.
Somente poderá pedir a recuperação o empresário individual ou a sociedade em-
presária. Só. Nem credor, nem empregado, nem o Papa, nem qualquer outra pessoa.
Só empresário e sociedade. Mesmo assim, algumas sociedades também não podem,
quais sejam, sociedades simples, em comum, de economia mista e cooperativas. Tam-
bém estão excluídas ela recuperação as sociedades que estão excluídas da falência.
Tá. Então vimos quem pode pedir a recuperação. Agora vamos ver o que precis,a
para pedir, ou seja, os requisitos, que estão no art. 48:
.- existir regularmente há mais de 2 anos;
.- não estar falido, ou, se já foi falido, ter as obrigações decorrentes ela falência
declaradas por sentença transitada em julgado;
.- não ter obtido recuperação judicial nos 5 anos anteriores, ou, se se tratar ele
ME ou EPP, nos 8 anos anteriores;

Recuperação judicial 162


.. não ter condenação em crime falimentar.
Se se tratar de empresário individual, falecendo este, o pedido pode ser feito pelo
cônjuge sobrevivente, herdeiro ou inventariante .
Então o carinha preenche os requisitos e vai pedir a recuperação. Precisa fazer
uma petição inicial bem bonitinha, onde deve constar um monte de coisas. E todas
essas coisas estão no art. 51 da LF. Também é bem grandinho, mas esse eu vou copiar.
Acho importante saber, e estou com a leve impressão de que ninguém lê os artigos que
eu não transcrevo.
"Art. 5 I. A petição inicial de recuperação judicial será instruída com:
I- a exposição das causas concretas da situação patrimonial do devedor e das razões
da crise econômico-financeira;
11- as demonstrações contábeis relativas aos 3 últimos exercícios sociais e as levanta-
das especialmente para instruir o pedido, confeccionadas com estrita observância da legis-
lação societária aplicável e compostas obrigatoriamente de: ·
a) balanço patrimonial;
b) demonstração de resultados acumulados;
c) demonstração do resultado desde o último exercício social;
d) relatório gerencial de fluxo de caixa e de sua projeção;
111- a relação nominal completa dos credores, inclusive aqueles por obrigação de fazer
ou de dar, com a indicação do endereço de cada um, a natureza, a classificação e o valor
atualizado do crédito, discriminando sua origem, o regime dos respectivos vencimentos e a
indicação dos registros contábeis de cada transação pendente;
IV- a relação integral dos empregados, em que constem as respectivas funções, salá-
rios, indenizações e outras parcelas a que têm direito, com o correspondente mês de compe-
tência, e a discriminação dos valores pendentes de pagamento;
V- certidão de regularidade do devedor no Registro Público de Empresas, o ato cons-
titutivo atualizado e as atas de nomeação dos atuais administradores;
VI- a relação dos bens particulares dos sócios controladores e dos administradores do
devedor;
Vll - os extratos atualizados das contas bancárias do devedor e de suas eventuais
aplicações financeiras de qualquer modalidade, inclusive em fundos de investimento ou em
bolsas de valores, emitidos pelas respectivas instituições financeiras;
V111 - certidões dos cartórios de protestos situados na comarca do domicílio ou sede
do devedor e naquelas onde possui filial;
IX - a relação, subscrita pelo devedor, de todas as ações judiciais em que este figure
como parte, inclusive as de natureza trabalhista, com a estimativa dos respectivos valores
demandados".
Beleza. Estando tudo direitinho, o juiz manda processar a recuperação. Veja:
manda processar. Eu não disse que já, neste momento, o juiz vai homologar a recu-
peração.

163 Empresarial para quem odeia empresarial


Esse despacho significa apeàas que quem fez o pedido é legitimado, e que cum-
priu as determinações legais da petição inicial. Mais nada. Não está decidido ainda se
a sociedade ou o empresário serão beneficiados com a recuperação.
No despacho de processamento, o juiz já nomeia o administrador judicial, manda
intimar o Ministério Público e comunica a Fazenda Pública de que o pedido foi pro-
cessado. Esse despacho deve ser publicado no diário oficial, e já vai ter a data, horário
e local de convocação da assembleia geral.
O efeito. mais importante desse despacho é a suspensão de todas as ações que
estiverem correndo contra o devedor. E olha só: em regra, suspende todo mundo;
mas, lógico, tem exceções.
As ações que não se suspendem são praticamente as mesmas que não se suspen-
dem pela falência:
~ as que demandam quantias ilíquidas;
~ as trabalhistas;
~ as execuções fiscais.
Até aí, igual. A diferença é a última: as ações promovidas por credores que não se
submetem ao regime da recuperação de empresas, como os bancos, também não se-
rão suspensas.
Outra diferença é a seguinte: enquanto na falência as ações ficam suspensas por
tod-o o período desta, na recuperação a suspensão é temporária. As ações vão ficar
paradas no máximo 180 dias.
Se, ultrapassado esse prazo, não tiver havido a aprovação do plano, elas voltam a
correr.

19.2.2. Fase de deliberação


Depois do despacho que defere o processamento da recuperação, inicia-se a fase
de deliberações, e o principal objetivo dessa fase é votar o plano de recuperação.
Primeiro de tudo, deve ser feita a habilitação dos créditos, que ocorre da mes-
ma forma que na falência. Até colocamos o quadrinho lá atrás, lembra dele? Então.
É igual.
Aí, todo mundo habilitado, vamos analisar o plano.
Mesmo o legislador tendo deixado o empresário à vontade quanto à elaboração
do plano, determinou algumas balizas que obrigatoriamente deverão ser seguidas:
~ empregados com direitos vencidos na data da apresentação do pedido devem
ser pagos em no máximo 1 ano; os salários devem ser pagos em 30 dias;
~ os débitos fiscais deverão ser parcelados na forma determinada e autorizada
pelo Código Tributário Nacional;
~ se no plano houver previsão de alienação de bem onerado, essa alienação ou
mesmo a substituição da garantia deve ser expressamente aprovada pelo credor;

Recuperação judicial 164


~ créditos em moeda estrangeira só podem ser convertidos para mqeda nacio-
nal corr_ a anuência expressa também do titular do crédito.
Tirando essas premissas, o restante do crédito pode ser alterado, suprimido, di-
minuídJ, parcelado, qualquer coisa. O empresário vai fazer o plano, e depois os credo-
res vão dizer se concordam com o que foi proposto.
O plano deve ser àpresentado em até 6o dias contados do despacho que determi-
na o processamento da recuperação, e conterá todos os detalhes e mecanismos que o
e~presário entende suficientes e necessários para retomar suas atividades. .
São os credores que decidem se o plano de recuperação deve ser homologado ou
não. Eles podem, inclusive, caso não concordem com o que o devedor apresentou,
oferecer plano alternativo. Também podem apresentar objeções ao plano oferecido
pelo devedor, mas devem fazê-lo no prazo de 30 dias, comados da data da publicação
do edital.
Po::le ser que o plano tenha sido apresentado, pelo devedor, junto com a inicial.
Dissemos que o prazo máximo é de 6o dias do despacho que manda processar a recu-
peração, mas nada impede que seja apresentado antes. Se apresentado antes, então,
esse prazo é contado da publicação do aviso de recebimento do plano.
Se nesse prazo ninguém apresentar nenhuma objeção, o juiz bate o martelo e a
recuperação é homologada.
Caso haja alterações, o juiz só pode fazer a homologação quando o devedor ex-
pressamente concordar com elas. E mais: as alterações não podem trazer prejuízo aos
credores que estiveram ausentes nas deliberações, ou seja, os que não participaram da
assembleia.
Finalmente, se os credores não concordarem com o plano, o juiz decretará a fa-
lência.
Hâ um caso, contudo, em que o plano é aprovado fora desses moldes, ou seja,
ainda que não aprovado por todos os credores. É a hipótese de o plano de recuperação
ser quase aprovado.
Vamos devagar. O lance de quase aprovação funciona assim: primeiro, precisa
cumprir três requisitos cumulativos:
~ aprovação do plano pela maioria do crédito votante presente, independente-
mente ias classes;
~ aprovação por pelo menos duas classes, ou, se só duas estiverem presentes,
por uma delas;
~ aprovação por pelo menos 1/3 dos credores da classe que rejeitou o plano.
Se tudo isso acontecer, o juiz pode (é faculdade dele) conceder a recuperação.

19.2.3. Fase de execução


É a fase em que o devedor vai cumprir aquilo que foi homologado pelo juiz. Em
regra, o plano homologado é imutável; caso haja descumprimento, a falência será

165 [empresarial para quem odeia empresarial


decretada. Se por acaso ocorre.r alteração substancial na situação econômico-finan-
ceira da sociedade ou elo empresário devedor, pode rolar um aditamento no plano,
desde que a assembleia concorde com isso.
A empresa, então, continuará funcionando normalmente, mas não poderá ven-
der ou gravar de ônus os bens do ativo permanente a não ser que tal situação esteja
prevista no plano de recuperação ou que a operação seja necessária para o cumpri-
mento deste. Ainda assim, neste último caso, de necessidade para o cumprimento do
plano, é preciso que o juiz aprove, depois de ouvido o comitê.
Em regra, os administradores ela sociedade continuarão a exercer o cargo, mas
pode o j]:!iZ afastá-los, se entender pertinente, e nomear gestor judicial, que ficará in-
cumbido de todos os atos de administração da sociedade.
O deferimento ela recuperação deve ser averbado junto aos atos constitutivos ela
sociedade na junta Comercial, e será acrescida a expressão "erú recuperação" ao nome
empresarial.
A recuperação acaba pelo cumprimento ele todas as obrigações no prazo de 2
anos ou por pedido de desistência elo devedor, que pode ser feito a qualquer tempo e
estará sujeito a aprovação pela assembleia.

19.3. Microempresa e empresa de pequeno 'porte


Para as MEs e EPPs, a recuperação judicial tem algumas regrinhas específicas. O
que vai ser feito é o chamado plano especial, no qual todas os débitos quirografários
serão parcelados em até 36 vezes, e a primeira parcela será devida em até 180 dias ela
distribuição do pedido.
Esse plano especial é aprovado ou rejeitado pelo juiz: a assembleia de credores
nem se envolve.
Dívidas trabalhistas e tributárias não entram nesse parcelamento.
O procedimento é o básico: o devedor ingressa com a petição inicial, que já traz
o chamado plano especial. Os credores podem apresentar objeção, mas só têm o direi-
to de questionar se as condições apresentadas são as mesmas dadas pela lei. O juiz
analisa requisitos e objeções, e homologa ou não.
Se homologado o plano, seu descumprimento gera a decretação da falência.
Veja a diferença: para ME e EPP, as ações e execuções só serão suspensas quando
da homologação do plano. Nas demais sociedades, suspendem-se as ações com o eles- ;
pacho que manda processar a recuperação.

19.4. Convolação em falência


Ocorre nos seguintes casos:
._ se, em assembleia, os credores titulares de mais da metade do crédito enten-
derem que a recuperação é totalmente infundada e inviável;

Recuperação judicial 166


.- se o devedor não apresenta o plano de recuperação no prazo;
.- se o plano é rejeitado em assembleia;
.- se o devedor descumprir o plano homologado.
Aí, vira falência. Detalhe: os credores quirografários cujos créditos sejam consti-
tuídos posteriormente ao pedido de recuperação serão considerados credores com
crédito extraconcursal (vão lá para o comecinho dá lista). Os quirografários anteriores
ao pedido serão considerados credores de créditos com privilégio, desde que tenham
continuado a contratação com a sociedade enquanto esta tentava se recuperar.

····················································································
emaiá. um capi1:uio. <Le. u.ai.. Minha pretensão de importância por ter sido cha-
mada por vários nomes já passou. Voltei a ser só a menina que gosta de escre-
ver. Mas tá bom. t:u sou feliz assim também.
····················································································

167 Empresarial para quem odeia empresarial


·.\_· ..,___ ~--

....... '
20. Prostrada:

recuperação extraj_utlicial·

jlaf;.e ~ di.,a4 e.m qu.e-IJ.O.C-i tem a~ de que não deveria ter saído
da cama? Pois é. 1-ioje é um deles.
Alguns dias poderiam não existir.
Não vou começar a escrever sobre isso, senão ficaremos falando mais dos
desgostos da minha vida do que do direito empresarial. Vamos continuar. Já
passamos da metade do conteudo. ~stamos indo bem.

Vamos falar agora da recuperação extrajudicial, que ocorre quando o próprio de-
vedor chama os credores para negociar suas dívidas. Embora possa parecer uma solu-
ção bem legal para uma empresa que "anda mal das pernas", esse recurso não tem sido
muito utilizado.
O si te do Tribunal de justiça de São Paulo informou certa vez que, no ano em que
(.~"'H:~i de Falências entrou em vigor, as varas especializadas da comarca de São Paulo
receberam 1.109 pedidos de falência, 17 de autofalência e 56 de recuperação judicial.
.,;;:::~~.ó.I~so mesmo. Nenhum de recuperação extrajudicial. Mas isso foi em 2005. Agora
p~s?t número já está aumentando. Devagarzinho, mas está.
:-o;.:~_ji( yegal.
'. ,.'~ ;:}~Quem, então, pode pedir a recuperação extrajudicial? Fácil: as mesmas pessoas que
·'·"-'·põde1~.pedir a judicial. Então, também precisa preencher os requisitos do art. 48:
~c·, exercer atividade empresarial regularmente há mais de 2 anos;
~ não ser falido, ou, se for, ter as obrigações declaradas extintas por sentença
.J}J~psitada em julgado;
.-~~}·} ~ não ter obtido recuperação judicial nos últimos 5 anos, ou, se ME ou EPP, nos
".".últimos 8 anos;
~ não ter sido condenado por crime falimentar.
. . Só uma coisinha. Quando falei desse requisito lá na recuperação, sobre os crimes
.,~;l,f~limentares, é assim: se se tratar de empresário individual, é o próprio empresário
·•..>::.:;·v
que não pode ter a condenação; se se tratar de sociedade empresária, o administrador
ou sócio controlador é que não podem ter sido condenados.
Esses são os requisitos que vimos na recuperação judicial. Na extrajudicial, ainda
tem mais um, que está no§ 3~ do art. 161: "O devedor não poderá requerer a homologa-
ção de plano extrajúdicial, se estiver pendente pedido de recuperação judicial ou se houver
obtido recuperação judicial ou homologação de outro plano de recuperação extrajudicial
há menos de 2 anos".
Então, tá. Se o devedor apresenta todos esses requisitos, pode preparar um plano
de recuperação e mostrar aos seus credores. Se estes concordarem, levam ao juiz para
homologar..
Perceba uma coisa: esses requisitos só são necessários se o devedor quiser submeter
seu plano à homologação do juiz. Se ele quiser simplesmente conversar com seus credores,
mostrar um plano a eles e não levar nada ao judiciário, não precisa requisito nenhum, ok?
Mas, então, o que tem de diferente dessa recuperação para a judicial? Exatamen-
te o plano.
Primeira regra: o plano de recuperação extrajudicial não pode trazer qualquer con-
dição que prejudique os credores que não se submeterem a ele. Veja que não há publica-
ção de edital, lista de credores, nada disso. Então, pode ser que algum dos credores que
não esteja nem sabendo desse plano seja prejudicado por ele. Isso não é permitido.
Também não pode o plano contemplar pagamento antecipado de dívidas. Nada
mais óbvio. Se o devedor está em crise, não há nada que justifique a eventual vontade
dele de pagar alguma ou algumas de suas dívidas antecipadamente.
Outra coisa: só podem entrar nesse plano os créditos que já estejam constituídos
na data do pedido de homologação.
No mais, no que diz respeito à alienação de bens que tenham sido gravados de
ônus ou no caso de créditos em moeda estrangeira, as regras são as mesmas da recu-
peração judicial.
Importantíssimo: os credores titulares de créditos fiscais, trabalhistas e decor-
rentes de acidente do trabalho não podem entrar no plano de recuperação extrajudi-
cial. Todos os demais podem entrar no plano, mas não confunda: aqui não tem ordem
nenhuma a ser seguida. Vale o que estiver disposto no plano.
Para pedir a homologação da recuperação judicial, o devedor faz assim: .petição
inicial, em que ele deve juntar a sua justificativa, comprovar os requisitos e juntar o
seu plano com a assinatura de todos os credores. Então, veja: quando for pedir a ho-
mologação, todo mundo já deve ter concordado com o plano .
Não cabe ao juiz decidir se o plano é bom ou não, entendeu? Quando chega às
mãos do juiz, o plano já foi discutido e aceito por todos os credores. O juiz só vai ana-
lisar os requisitos, e não o plano em si.
Tá. Mas, se todo mundo já assinou, por que exatamente o devedor deve levar ao
juiz? Porque a homologação "prende" os credores. Ou seja, uma vez homologado, eles

169 Empresarial para quem odeia empresarial


cia só pode·
não poderão mais desistir daquilo com o que concord aram. A desistên
ocorrer median te a anuênc ia dos demais credores.
que existe a
Mais detalhes. Quando falamos da recuper ação judicial, dissemo s
leia de credores.
possibilidade de ela ser decreta da com a quase aceitação da assemb
Lembra? Aqui também tem esse lance. Dá uma lida no art. 163:
ção
"Art. 163. O devedor poderá, também, requerer a homologação de plano de recupera
que assinado por cre-
extrajudicial que obriga a todos os credores por ele abrangidos, desde
abrangidos".
dores que representem mais de 3/5 de todos os créditos de cada espécie por ele
o plano atra-
Então, o devedor pode obrigar os credores que não concord aram com
de acordo com ele.
vés da homologação, desde que titulares de 3/5 dos créditos esteja
foram todos
Legal. O juiz, assim que receber a inicial, e percebendo que os requisitos
circulação, no
preenchidos, manda publicar edital no diário oficial e em jornal de grande
do devedor, convoca ndo os credores para
local da sede e de todos os estabelecimentos
r espécie.
apresentar impugnações. Mas as impugnações não podem ser de qualque
Soment e algumas matéria s podem ser objeto de impugn ação:
homolo gado
., não preench imento do percent ual de 3/5, caso o plano tenha sido
nos termos do art. 163;
., prática de qualque r ato de falência;
., descum primen to de qualque r outra exigência legal.
s da data da
O prazo para apresen tação de impugn ações é de 30 dias, contado
de credore s, o devedo r deve
publicação do edital. Mais uma coisa: como não há lista
com o pedido de
mandar uma cartinh a para cada um deles, informa ndo que ingress ou
recuperação.
ela não ser
Na impugn ação, o credor deve compro var seu crédito, sob pena de
tar. Com a manifes tação ou sem .
recebida. O devedor, então, terá 5 dias para se manifes -:
e também sobre
ela, os autos seguirão para o juiz, que decidirá sobre as impugn ações
a eventua l homolo gação do plano.
Veja o art. 164, § 6~: "Havendo prova de simulação de créditos ou vício
de represen-
a".
tação dos credores que subscreverem o plano, a sua homologação será indeferid
er:
Se o pedido de homolo gação for indeferido, olha o que pode acontec
., o devedor apela;
os, o deve-,
., se o indefer imento ocorreu por falta de cumpri mento dos requisit
dor pode arruma r o que estava errado e apresen tar novo pedido.
A sentenç a que homolo ga o plano é titulo judicial.

ab-
Jai ILápiclo., ni?Ainda bem. t: eu vou passar o resto do meu dia fazendo
é certeza que qualque r coisa que eu tentar fazer vai
solutam ente nada. porque
dar errado.

Recuperação extrajudicial 170


);:)
..
.,;',;:~ ;./

21 . Cria nças :

liqúiâação extrajudicial dgsJ,


instituições financeiras

....................................................................................
1:J.o.je uma amicju.inAa dac.IÚ-a U-ei..o. ~ cuyui em ca.ã.a. Mesma idade

dela, 4 anos e meio. Cuidar de duas crianças é muito mais fácil do que de
tapete, assistin do
uma só: estão as duas na sala ao lado, sentadin has no
de miçanga s. t: eu
"Barbie em t:scola ele Princesa s" e fazendo colarezi nhos
trabalha ndo.
Coisa mais linda do mundo as duas.
o que será que
Agora pouco me peguei olhando para elas e pensand o:
passa nas suas cabecinh as?
idade. Sei que
Não me lembro de muita coisa de quando eu tinha essa
., estudava numa escola chamada Cirandin ha, e que adorava
o dia ele brincar
·''l.,f .•·.~ morava. t:ra pe-
·1 . --·-' / com massinha de modelar . Também me lembro da casa onde
I
usto que meu irmão
quena. e dividia o quarto com minha irmã. Achava superinj
tivesse um quarto ~ó dele.
o meu pai jogar
Lembro- me também que às quartas e sábados era dia de
clube. t:ra uma delícia nadar lá. l-1oje acho que a
futebol. t:ntão íamos todos ao
piscina nem existe.m ais .
, o fato de eu
Aos poucos, ~s preocup ações começar am a surgir. Primeiro
menininh os. A escola
ser gordinha . Depois, o medo de tirar nota baixa. Aí, os
nova. O vestibula r. O primeiro emprego .
demais.
Não estavam mentind o quando me diziam que passaria rápido
a ter preocup ações mais densas, mais
Não me lembro quando comecei
de ser uma pessoa normal e passei a
complex as. Não sei dizer quando deixei
tudo e que faz drama por tudo. Difícil,
ser uma doida. que se preocu-pa com
brava por eu ter
também , pensar que a minha pequena , que agora pouco ficou
dito que é hora de dormir, um dia vai ser como eu.
Queria ser criança. Mas não sempre. Só de noite, para poder assistir à
Barbie, e fazer birra por não querer dormir. Só nos fins de semana, para comer
batata frita e tomar Coca-Cola sem culpa. [ só quando a mente começasse a
ficar muito confusa.

Falaremos agora do que acontece com os bancos. já dissemos, lá no comecinho


da falência, que as instituições financeiras não se submetem ao procedimento corimm
da falência. É exatamente isso que veremos: como funciona com os bancos.
A execuÇão concursal dos bancos será extrajudicial\ e acontecerá de acordo com
a Lei n. 6.024/74· Importante: o regime dessa lei não exclui os bancos da falência.
Cuma?
Assim: se os bancos não estiverem sob intervenção do Banco Central ou em liqui-
dação extrajudicial, poderão, sim, falir. Lembra do Ban~o Safra? Faliu. A própria lei
prevê alguns casos em que o Banco Central deve requerer a falência do banco. Vere-
mos isso daqui a pouquinho. O importante agora é saber que não existe uma proibi-
ção absoluta de os bancos entrarem em falência.
A liquidação extrajudicial, portanto, não exclui a falência. Também não exclui o
procedimento de liquidação previsto pela LSA (trauma dessa lei).
Tem gente que não entra nessa tal de liquidação extrajudicial. São as instituições
financeiras federais. Nelas, a União vai proceder à liquidação ordinária, quando en-
tender que é o caso.
Para terminar esta parte de introdução, é importante saber que outras sociedades
também se submetem a essa lei:
~ sociedades integrantes do sistema de distribuição de títulos e valores mobiliários;
~ seguradoras;
~ sociedades de capitalização;
~ entidades de previdência privada;
~ sociedades arrendadoras que exclusivamente explorem o leasing.
Beleza. Vamos ver como funciona.
Primeira coisa: só o Banco Central pode decretar a liquidação extrajudicial das ins-
tituições financeiras. Só ele. Mais ninguém. Estou achando o máximo a possibilidade de
ir trabalhar ao lado do Banco Central. Muito chique. Mas não posso falar disso ainda.
As causas que autorizam a decretação da liquidação extrajudicial estão no art. 15
da lei, e podem ser divididas em dois grandes grupos.
Os fundamentos da execução concursal (art. 15, I, a e c):
'1\.rt. 15. Decretar-se-á a liquidação extrajudicial da instituição financeira:
I - ex officio: .
a) em razão de ocorrências que comprometam sua situação econômica ou financeira
especialmente quando deixar de satisfazer, com pontualidade, seus compromissos ou quan-
do se caracterizar qualquer dos motivos que autorizem a declararão de falência; (... )

Liquidação extrajudicial dos instituições financeiras 172


c) quando a instituição sofrer prejuízo que sujeite a risco anormal seus credores quiro-
'Jrafários;"
As sanções administrativas a cargo da autoridade monetária (art. 15, I, b e d):
'1\.rt. 15. Decretar-se-á a liquidação extrajudicial da instituição financeira:
I - ex officio: ( ..)
b) quando a administração violar gravemente as normas legais e estatutárias que dis-
ciplinam a atividade da instituição bem como as determinações do Conselho Monetário
Nacional ou do Banco Central do Brasil, no uso de suas atribuições legais; (... )
d) quando, cassada a autorização para funcionar, a instituição não iniciar, nos 90
dias seguintes, sua liquidação ordinária, ou quando, iniciada esta, verificar o BarKo Cen-
tral do Brasil que a morosidade de sua administração pode acarretar prejuízos para os
credores".
Viu que legal? O procedimento serve para punir as instituições também, ainda
que não estejam na situação de devedoras.
Por fim, pode ser decretada a liquidação a pedido da própria instituição financei-
ra, como consta no inciso ll do mesmo art. 15:
'1\.rt. 15. Decretar-se-á a liquidação extrajudicial da instituição financeira:( ... )
11 - a requerimento dos administradores da instituição - se o respectivo estatuto so-
cial lhes conferir esta competência -ou por proposta do interventor, expostos circunstan-
ciadamente os motivos justificadores da medida".
Quando decretada a liquidação, as ações em curso contra o banco serão suspen-
sas, e não se poderá mais ingressar com nenhuma outra. Outros efeitos são:
~ o vencimento antecipado e a suspensão da prescrição das obrigações da insti-
tuição;
~ a inexigibilidade da cláusula penal dos contratos unilaterais que se venceram
antecipadamente, se o passivo não for pago integralmente;
~ a inexigibilidade das penas pecuniárias por infração de lei penal ou adminis-
trativa.
O Banco Central nomeará um liquidante, que, tão logo nomeado, tomará todos
os livros e documentos da instituição e procederá um balanço geral.
Terá prazo de 6o dias, contados da nomeação, para apresentar um relatório ao
Banco Central, com o exame da escrituração, da aplicação dos fundos e disponibilida-
des, e da situação econômico-financeira da instituição; a indicação, devidamente
comprovada, dos atos e omissões danosos que eventualmente tenha verificado; e pro-
posta justificada da adoção das providências que pareçam convenientes à instituição.
Esse cara terá amplos poderes de administração, cabendo a ele verificar e classifi-
car os créditos, contratar e demitir funcionários, fixar os vencimentos destes, outor-
gar e cassar mandatos, representar a instituição em juízo etc. Contudo, para praticar

173 Empresarial para quem odeia empresarial


atos de alienação ou oneração de bens, o liquidante precisará da autorização do Banco
Central.
O Banco Central autoriza ou não a liquidação a partir do relatório, e, se autoriza-
da, o liquidante convoca a galera: credores, venham!
Mesmo esquemin ha de antes: publicação no diário oficial c em jornal de grande
circulação. Aí, ele organiza um quadro geral de credores e publica esse quadro junto
com o balanço geral. Dez dias para que os credores apresente m impugnação, que será
decidida pelo Banco Central. Depois, o liquidante publica uma nova lista de credores.
Se alguém ainda não concorda r com essa nova lista, pode prosseguir com a ação
judicial ,que tinha sido suspensa. Nessa situação, o liquidante será notificado para que
faça uma reserva ele fundos para o caso de o credor ter seu crédito garantido pelo ju-
diciário.
Os bens elo ativo serão vendidos por licitação, que depender á de autorização pré-
via do Banco Central.
A Lei de Falências não é totalment e excluída. Pelo contrário: ela é aplicada subsi-
diariamente. Uma coisinha legal. Regra de três: a liquidação extrajudicial está para a
falência assim como o administr ador judicial está para o liquidante.
Massa! Matemati quinha básica.
A aplicação ela LF neste caso quer dizer duas coisas:
~ o Ministério Público obrigator iamente está intimado;
~ aplica-se o disposto na LF com relação aos atos ineficazes.
E mais: se na Lei de Falências tínhamos as duas espécies de recuperação de em-
presas, aqui temos alguma coisa parecida. É que, em regra, a liquidação extrajudicial
faz sumir a instituição financeira. Galera demitida e tudo mais. Quando é possível
evitar isso, evita-se.
Temos duas espécies de reorganização: a intervenção e a administr ação especial
temporári a.
a) Intervenç ão
Poderá ser decretada com fundamen to em má administr ação que coloque em
risco os credores, infrações reiteradas à legislação bancária, ou ainda pela prática de
atos de falência ou impontua lidade injustificada.
As obrigações vencidas ficam com a exigibilidade suspensa, bem como os depósi-
li
'I tos. E as obrigações vincendas que datarem de antes da decretação terão seus prazos
i
também suspensos. Ou seja: nenhum crédito contra o banco pode ser cobrado, desde
que tenha sido contraído antes ela decretação ela intervenção.
Não poderá, ainda, ser pedida a falência ela instituição.
A duração ela intervenç ão será ele 6 meses, prazo este que pode ser prorrogad o
uma única vez por igual período.
b) Administração especial temporári a
As hipóteses que autorizam a sua decretação são:

Liquidação extrajudicial das instituições financeiras 174


~ as mesmas que autorizam a intervenção;
~ existência ele passivo a descob~rto;
~ gestão temerária ou fraudulen ta;
~ prática reiterada ele operações contrárias às diretrizes de política
econômic a
ou financeira;
~ desobediê ncia às normas referentes à conta ele reservas bancárias
.
Dá para perceber o caráter de sanção?
Aqui não se suspende ação nenhuma , nem prazo nenhum. Os credores continu-
am exercendo seus direitos normalme nte. O que acontece é que os administr adores e
membros do conselho fiscal perdem o mandato.
O prazo será fixado pela autoridad e administrativa e pode ser prorrogado, tam-
bém, uma única vez por igual período, se absolutam ente necessário.
Nos dois casos, será nomeado um gestor (interven tor ou conselho diretor, res-
pectivamente) para cuidar do banco, e tais medidas cessarão com o decurso do prazo,
com a decretação da falência ou da liquidação extrajudicial, ou ainda quando a insti-
tuição se reorganiz ar por fusão, cisão, incorporação etc.
Os administr adores responder ão pelos danos que tiverem causado à instituiçã o
financeira em decorrênc ia de descumpr imento das regras estipuladas em lei. A res-
ponsabilidade deles será, portanto, limitada ao prejuízo causado.
A apuração dessa responsabilidade será feita por meio de inquérito realizado pelo
próprio Banco Central, e todos os bens do administr ador ficarão indisponíveis desde
a decretação da intervenção, da administração especial temporár ia ou da liquidação
extrajudicial. .
Concluin do pela existência de prejuízos, o inquérito será remetido ao Ministério
Público, que terá o prazo de 30 dias para eventual proposição de ação de responsabili-
dade civil, e seguirá as normas do direito civil e do processo civil. Não o fazendo, os
credores terão mais 15 dias para tomar tal medida.
O controlad or de instituição financeira responde solidariam ente com o adminis-
trador.
Pra acabar, como fizemos na parte de Direito Societário, bom incluir aqui os
Enunciados relativos à matéria de falência e recuperação de empresas da l )ornada de
blá-blá-blá:

O prazo de suspensão previsto no art. 69., § 49., da Lei n. 1 1.1 o 1j2005 pode
42.
excepcionalmente ser prorrogado, se o retardame nto do feito não puder ser imputado
ao devedor.
43. A suspensão das ações e execuções previstas no art. 69. da Lei n. 11.1 o 1j2005
não se estende aos coobrigados do devedor.
·44. A homologação de plano de recuperação judicial aprovado pelos credores está
sujeita ao controle judicial de legalidade.

175 Empresarial para quem odeia empresarial


45. O magistrado pode desconsiderar o voto de credores ou a manifestação de
vontade do devedor, em razão de abuso de direito.
46. Não compete ao juiz deixar de conceder a recuperação judicial ou de homo-
logar a extrajudicial com fundamento na análise econômico-financeira do plano de
recuperação aprovado pelos credores.
47. Nas alienações realizadas nos termos do art. 6o da Lei n. 11.1 o 1j2005, n~o há
sucessão do adquirente nas dívidas do devedor, inclusive nas de natureza tributária,
trabalhista e decorrentes de acidentes de trabalho.
48. A apuração da responsabilidade pessoal dos sócios, controladores e adminis-
tradores feita independentemente da realização do ativo e da prova da sua insuficiên-
cia para cobrir o passivo, prevista no art. 82 da Lei n. 1,1.1 o 1j2005, não se refere aos
casos de desconsideração da personalidade jurídica. ·
49. Os deveres impostos pela Lei n. 11.1 o 1j2.005 ào falido, sociedade limitada,
recaem apenas sobre os administradores, não sendo cabível nenhuma restrição à pes-
soa dos sócios não administradores.
50. A extensão dos efeitos da quebra a outras pessoas jurídicas e físicas confere
legitimidade à massa falida para figurar nos polos ativo e passivo das ações nas quais
figurem aqueles atingidos pela falência.
51. O saldo do crédito não ~aberto pelo valor do bem ejou da garantia dos con-
tratos previstos no~ 3.'?. do art. 49 :da Lei n. 1 I .I o I/2005 é crédito quirografário, sujeito
à recuperação judicial.
52. A decisão que defere o processamento da recuperação judicial desafia agravo
de instrumento.
53. A assembleia geral de credores para deliberar sobre o plano de recuperação
judicial é una, podendo ser realizada em uma ou mais sessões, das quais participarão
ou serão considerados presentes apenas os credores que firmaram a lista de presença
encerrada na sessão em que instalada a assembleia geral.
54. O deferimento do processamento da recuperação judicial não ensejao cance-
lamento da negativação do nome do devedor nos órgãos de proteção ao crédito e nos
tabelionatos de protestos.
55. O parcelamento do crédito tributário na recuperação judicial é um direito do
contribuinte, e não uma faculdade da Fazenda Pública, e, enquanto não for editada lei
específica, não é cabível a aplicação do disposto no art. 57 da Lei n. I 1.1 o I/2.005 e no
art. I 9 I -A do CTN.
56. A Fazenda Pública não possui legitimidade ou interesse de agir para requerer
a falência do devedor empresário.
57. O plano de recuperação judicial deve prever tratamento igualitário para os
membros da mesma classe de credores que possuam interesses homogêneos, sejam

Liquidaçã~ extrajudicial das instituições financeiras 176


estes delineados em função da natureza do crédito, da importância do crédito ou de
outro critério de similitude justificado pelo proponente do plano e homologado pelo
magistrado.

·····················································································
~ ~~ ~ f:o.ia.t. A bagunça espalhada por todos os cômo-
dos de:xa claro que as -duas se divertiram muito. ~chegada a hora de a mamãe
aqui deitar na cama, ficar contemplando o teto e pensando em tudo ·1sso e
~·muito mais.
·····················································································

177 Empresarial para quem odeia empresarial


"'· . )
.~'""l ·''
~--- .

;
2.2. Eu quer o ser escrit ora:

teoria geral ~o di'reito ca~biár:ici

····················································································
3-aia Wdo.: que. aEeq;úa ~de aMu.nlo., !Um?
Por um momento, cheguei a acreditar que nunca mais iríamos terminar a
parte
parte elas socieclace s anônimas. Depois, que nunca mais terminaría mos a
me arrependi amargame nte de ter acei-
da falência. 1:::, por vários momentos , eu
to o desafio de escrever sobre direito empresaria l.

Ainda estou com a impressão que a parte elas S/A foi a pior ele todas. Dei-
sido
xo, desde ja, meu peclico sincero ele desculpas caso o assunto não tenha
dizer nada
tratado ele forma clara. t:u estava com tanta raiva que nem consegui
de
ao final elo capítulo, percebeu? Tão logo vi que tinha acabado, fechei tudo, saí
que não fica
perto do livro e do computado r. Aí, tive que retornar com a falência,
von-
muito longe em termos ele chatice. Ao fim desses dois assuntos, senti uma
tade imensa ele mudar de ramo: quis começar a vender água ele coco na praia.
. ......, .·.
Tirei urna folga ele 2 dias, mas retomei. Mesmo porque eu tenho no meu
i~:
. -.r:r)
pé antigo Sr. t:ditor. Sim, o velho. Ou e nem é mais o meu editor. Mas ele con-
0
tinua pegando no meu pé. Diz que sou escritora, e eu, boba, acredito.
Desde rneni·w eu sempre gostei de escrever. Teve um ano em que fui
ga-
proibida de participar do concurso ele redação ela escola, porque já tinha
aos 13 anos, estavam tentando me
nhado três seguidos. Injusto. Mas acho que,
preparar para a vida, c,ue também é injusta.
Cresci, fiz um monte de coisa errada, um monte de coisas certas, e aí um
i'
dia aparece alguém (aqui denomina do Sr. l:::ditor) é me diz: você pode escrever,-·
um livro.
f=oi assim que começou a minha saga, que ainda continua sendo ema saga,
pre-
mas já me custou algumas unhas, algumas noites sem dormir e me deu de
sente mais algumas rugas e cabelos brancos.
t:stou fazendo a minha parte: escrever. Na verdade, não é s1mp'esrne nte

e"""c' é litccolmeote pocic om filho '''' cqo• é o 'egoodo filho O pccmwo-- •

. __~ -~
ainda nem nasceu. Sou dessas mesmo. Simplesme nte niiD respeito a ordem
(crono)16gica das coisas.
Vamos agora começar urr,a parte nova. Direito carrc:á-io. Praticamen te
dei·
tudo novidade para mim, tá? Vamos devagar e no estilo fv.Dbra\. tentando
xar tudo bem claro.

Títulos de crédito são documen tos que represent am obrigações. Olha lá: começa
assim. São documen tos que representam. Não são nem se confunde m com as obriga-
ções em si. Somente as represent am.
São vários os instrumen tos que podem represent ar uma obrigação. Uma senten-
ça, por exemplo. Ou um contrato. Até mesmo uma nota de culpa. Os títulos de crédi-
to, então, são apenas uma espécie de documen to que represent am obrigações. E po-
dem represent ar qualquer tipo de obrigação, mesmo que não tenha nada a ver com o
direito empresarial, ou, mais especificamente, com o direito cambial.
Os títulos de crédito apresenta m características que os tornam especiais se com-
parados a outros instrumen tos representativos de obrigações. Primeiro, é possível a
negociação do crédito que eles representam. Além disso, a forma de execução ineren-
te a eles é facilitada.
É o que a doutrina chama, respectivamente, de negociabilidade e executividade.
Veja: uma sentença judicial, que também é instrume nto que representa obriga-
ção, não pode ser negociada. Se o juiz proferiu aquela sentença a meu favor, eu não
posso vendê-la ou transferi-la a outra pessoa para que esta pleiteie o crédito que ela
representa.
Frise-se, ainda, que os títulos de crédito podem ser negociados antes mesmo do
seu vencimento.
No mesmo sentido, uma nota de culpa não pode ser executada. Ela não tem força
de título executivo, embora represente uma obrigação.
Portanto, essas características inerentes aos títulos de crédito os tornam mais
bonitos e legais que os outros instrumen tos da mesma classe. Ok, quanto ao "legais",
reconheço que forcei a barra. Mas deu para entender.
O conceito de título de crédito mais famoso é o elaborado por Vivante: "Título de
crédito é o documen to necessário para o exercício do direito, literal e autônomo , nele
mencionado".
É exatamen te desse conceito que se extraem os princípios que regem todo o di-
reito cambiário: cartularidade, literalidade e autonomi a.
Pelo princípio da cartularidade, temos que o crédito deve ser materializado em
um documen to (ou cártula). O exercício do direito de crédito documen tado em um

• I título pressupõe a sua posse pelo credor, porque, do contrário, ainda que a pessoa seja
â<tivmnc ntc nedo", não pod"á v'h" da;""'" 'dativa ;''"" tito[o,,

_L 179 Empresarial para quem odeia empresarial


Olha que legal uma decorrência desse princípio: não serão aceitos a petição inicial
de execução baseada em título de crédito vencido, ou o pedido de falência com a mesma
base, se tais peças não estiverem instruídas com o título original. Não adianta nem cópia
autenticada: tem que ser o título mesmo, porque ele, e só ele, representa o crédito.
Atualmente dá para colocar uma exceção dentro desse princípio. Veja o que diz o
art. 15, § 29., da Lei da Duplicata (n. 5·474/68):
'f\rt. 15. A cobrança judicial de duplicata ou triplicata será efetuada de conformidade
com o processo aplicável aos títulos executivos extrajudici~is, de que cogita o Livro 11 do
Código de Processo Civil, quando se tratar: (... )
J 2.'! Processar-se-á também da mesma ma~ eira a execução de duplicata ou triplicata
não aceita e não devolvida, desde que haja sido protestada :mediante indicações do credor
ou do apresentante do título, nos termos do art. 14, preenchidas as condições do inciso 11
deste artigo".
Vamos estudar as duplicatas mais adiante, mas, por ora, importante a informação
de que as duplicatas podem ser protestadas por indicação (ou seja, sem que seja efeti-
vamente apresentado o título). Isso é exceção, ok?
O segundo princípio é o da literalidade. Para o direito cambiário, só tem validade
aquilo que está literalmente expresso no título. Não há espaço nenhum para presun-
ções, e só serão válidos os atos laúçados no próprio título.
Não adianta colocar post-it, 'nem fazer um documento lindo dizendo que ele é
parte integrante do título de crédito. Não vai valer nada. Ou está escrito ali no título,
ou não tem existência. Simples assim.
Finalmente, o princípio da autonomia determina que as obrigações que o título
representa sejam independentes entre si. Isso porque um único título pode ser repre-
sentativo de mais de uma obrigação, mas uma não tem nada a ver com a outra.
Esse princípio se subdivide em dois outros: o da inoponibilidade das exceções
pessoais a terceiros de boa-fé e o da abstração.
O primeiro determina que o devedor de um título de crédito não poderá opor a
terceiro exceções pessoais, por exemplo, a compensação de um crédito que possui em
relação ao credor originário. O segundo determina que, quando o título de crédito
entra em circulação, desvincula-se totalmente do negócio que lhe deu origem.
Vamos entrar agora naquela parte chata (mas necessária) das classificações. Qua-
tro são os critérios em que podemos agrupar os títulos de crédito:
a) Quanto ao modelo
Os títulos de crédito podem se.r livres, e são exemplo a letra de câmbio e a nota
promissória. São assim denominados porque não precisam seguir um padrão previa-
mente estabelecido. Uma nota promissória pode ser escrita com caneta cor de rosa
num papel de pão. Se preencher todos os requisitos, será válida.

Teoria geral do direito cambiário 180


Por outro lado, alguns títulos, como a duplicata e o cheque, apresen~am um pa-
drão estabelecido pelo direito. Não dá para eu emitir um cheque que fiz na minha
impressora e qu~rer com ele comprar uma c~sa· na Riviera de São Lourenço. Se bem
que seria bem legaJ.
b) Quanto à estrutura
Serão ordem de pagamento ou promessa de pagamento.
Ordem de pagamento é o título de crédito em que o emitente, também chamado
de sacador, manda o sacado pagar uma quantia determinada ao tomador, ·que tam-
bém pode ser chamado de beneficiário do crédito. É o caso da letra de câmbio, do
cheque e da duplicata. Fica fácil visualizar isso no cheque: eu, que passo o cheque, sou
a sacadora, e mando o banco (sacado) pagar um valor certo ao beneficiário, que é
quem recebeu o meu cheque.

····················································································
Oc/.eio. cAe.que4, c/iqaró,e_ ck ~· Não apenas por precisar estudá-los.
Na vida prática mesmo. Quando falarmos do assunto eu conto a minha linda
experiência .
....................................................................................
Já a promessa de pagamento é o título de crédito em que o promitente promete
pagar quantia determinada ao tomador beneficiário do crédito. É o caso da nota pro-
missória. Só tem duas pessoas aqui: quem promete pagar e quem vai receber.
c) Quanto à emissão
O título pode ser ser causal, e será assim denominado quando a lei eleger uma
causa possível para sua emissão. Somente quando e se ocorrer essa causa o título pode
ser emitido. A duplicata é título causal: só pode ser emitida para representar uma
obrigação decorrente de compra e venda mercantil.
Será não causal, por outro lado, o título que pode ser emitido para documentar
qualquer espécie de crédito, independentemente da causa que lhe deu origem. É o
caso do chequ<e da nota promissória.
d) Quanto à circulação
Por fim, um título pode ser considerado ao portador ou nominativo.
Ao portador é o título que não identifica o credor e que se transfere por mera
tradição. Quem estiver na posse do título é considerado beneficiário deste. Já os títu-
los nominativos trazem expressos na cártula o nome do beneficiário e poderão ser "à
ordem" (que circulam por endosso) ou "não à ordem" (que circulam por cessão civil).
Cabe aqui um parêntese para explicar a diferença entre o endosso e a cessão, ain-
da que o estudo do endosso aconteça mais para a frente.
O endosso é um ato cambial e, assim sendo, deve obediência àqueles três princí-
pios que vimos agora pouco. O devedor de um título nominativo à ordem não poderá
opor-se ao seu pagamento alegando exceções pessoais. O endossante responde tanto

181 Empresarial para quem odeia empresarial


pela existência do crédito como pela solvência do devedor principal e de todos os
eventuais codevedores.
já a cessão civil é instituto de direito civil, e não se submete aos referidos princí-
pios. Um título nominativo não à ordem vincula por cessão civil, e as exceções pesso-
ais podem ser alegadas. O cedente é responsável somente pela existência do crédito,
mas não pela solvência do devedor principal.
Ficou bem confuso, eu sei, porque está parecendo que essas informações estão
jogadas completam ente fora de ordem. Mas guarde elas aí, que serão importante.<= já já.
Para terminar este capítulo, vamos ver onde estão as regras que orientam os títu-
los de crédito.
'
O Código Civil traz alguns artigos sobre o tema (887 ao 926), mas eles têm a?lica-
ção somente no caso de inexistência ou lacuna da lei específica. Ou seja, primeiro te-
nho que saber se determinad o título tem uma legislação só dele. Se não tiver, aí eu
recorro ao Código Civil.
Letra de câmbio e nota promissória se submetem ao regramento constar.te na
Lei Uniforme de Genebra, a famosa LU (eu!).
O cheque tem lei própria.
A duplicata obedece às mesmas regras da letra de câmbio.
Sobraram para o Código Civil, portanto, três títulos: o warrant agropecuário, o
conhecime nto de depósito agropecuário e a letra de arrendame nto mercantil.

'Jalcuuio. em W-C//IN1Jll1acabei de me lembrar que prometi a uma pessoa c,ue iria


explicar o que é essa porcaria. t: acabei de me lembrar também que existe uma
banda com esse nome. De uma das músicas dessa banda eu gosto bastante.
Chama-se "Bitter pill" (pílula amarga), e a letra é tão linda e tão aplicável à minha
pessoa que, todas as vezes que a escuto, penso: "Como eu não escrevi isso?".
Chega por hoje.
Bem mais ligi·tt essa matéria do que a das sociedades anônimas, nér Ainda
sinto arrepios quênclo penso nas malfadadas S/A.

-
-
-
.
_
Teoria geral do direito cambiá rio 182
~---. -~-- .'

23. Calote s: quem nunca ?.

Letra de câmbiO'-
• j ' ~ t f.

····················································································
:Ü.m.iJJi.ei ~ ck uma~ que até hoje me faz sentir muita raiva ele mim
mesma e mais raiva ainda do pai da minha filha.
Ouanclo fiquei grávida, eu tinha um !=orei Ka. !=oi o primeiro carro que eu
mesma comprei. t:le me levou para tantos lugares que eu tinha verdadeira pai-
xão por ele.
Mas o carro era pequeno para o bebê que cr·escia na minha ba·riga. t:u
estava casada (ou, melhor dizendo, em termos mais claros, "amigada") com o pai
da cria, e decidimos comprar o carro que um amigo dele estava vendendo.
!=rise-se: amigo dele. t:ra um Gol prata, bonitinho o carro. Trocamos o neu car-
ro pelo Gol.
Além do carro um pouco maior, nós precisávamo s também montar o quar-
tinho da cria, e quase todo o dinheiro estava sendo sugado pela compra de
fraldas.
O Gol era novo, tinha 2 ou 3 anos ele uso. Decidimos então vend.§-lo e fi-
car com um carro um pouco mais velho para conseguir fazer dinheiro. Compra-
ríamos os móveis à vista, e a criança não iria nascer devendo.
Nem chegam~s a transferir o Gol para o meu nome. Compramos um !=ies·
ta 2 anos mais velho, e, com a diferença, o berço e o guarda-roup a mais lindos
do mundo foram comprados para o quarto da filhota.
Legal.
i
l Depois de um tempo, a cria já estava nascida e o pai já tinha abandonado
a missão (situação que vai ser explicada mais para a frente), o campeador do
Gol me ligou, dizendo que, quando foi fazer a transferênci a para o SEU nome,
apareceu uma restrição.
Olha a treta: quando comprei o Gol, constava, sim, uma alienaçã::J no do-
cumento. !=ui ao banco e me certifiquei de que o financiamen to estava quitado,
como o tal amigo havia dito, e que apenas não tinha sido dada a baixa no siste-
-
-j- ./
- ..·
-~-- ~-

\:.:;-:;_: _::.-_.: __
-.,
ma. t:le estava certo. Ótimo.

.•. ,~{-.>'/
_.,.·. •
i !

. ·t
l
Mas, enquanto ainda estávamos nas negociações, 2 dias depois de eu ter
feito a pesquisa no banco, o bonitão do Gol foi lá e refinanciou o carro. Olha
que lindo: recebeu o dinheiro que eu paguei pelo carro e recebeu também do
banco o valor referente ao refinanciamento.
~mais. Alguns dias depois, ele foi embora para o Japão. Reza a lenda que
está lá até hoje.
Quando, alguns meses depois, a pessoa para quem eu vendi o carro foi
tentar fazer a transferência, não conseguiu, porque constava essa alienação, o
refinanciamento com a mesma data do dia em que eu entreguei o dinheiro para
o japonês.
Por que eu contei toda essa história? Para afirmar publicamente que fui
feita de trouxa, já que, no fim das contas, tive que devolver o Fiesta para o
homem, devolver o dinheiro que ele tinha me dado na troca e ficar com o Gol,
que, pouco tempo depois, foi apreendido, ten~o em vista que o bonito nunca
pagou as parcelas do refinanciamento.
Sem mais comentários.

Vamos começar agora a ver os títulos de crédito um por um, começando pela le-
tra de câmbio. Seguindo a orientação de Fábio Ulhoa Coelho, faremos a análise, den-
tro do estudo d~sse título, da constituição e exigibilidade do crédito tributário, bem
assim das particularidades de todos os atos cambiários.
A partir daí vai ficar mais tranquilo. Depois analisaremos os demais títulos.
Como eu falei no finzinho do capítulo anterior, a letra de câmbio é disciplinada
pela Lei Uniforme, que é resultante da Convenção de Genebra, firmada em julho de
I 930 (mais conhecido como mil novecentos e bolinha).
O Brasil aderiu a essa convenção em I 942, e nessa época já existia uma lei que
disciplinava a letra de câmbio e a nota promissória. Para que a LU pudesse ser aplica-
da, revogando a norma interna, o certo seria, resumidamente, que o Congresso apro-
vasse uma lei que introduzisse tais normas no ordenamento pátrio.
Mas deram um jeitinho diferente aqui. O famoso jeitinho brasileiro. Em I 966, o
Poder Executivo baixou um decreto determinando que a partir de então o cumpri-
mento da Çonvenção de Genebra passava a ser obrigatório. O STF aceitou isso, e
pronto. LU valendo no Brasil, mas com reservas.
Essas reservas, ou seja, a parte da LU com a qual o Brasil não concordou, foram
supridas pelo Decreto n. 2.044/I908. lsso mesmo. Vou escrever por extenso pra nin-
guém pensar que eu errei na digitação: mil novecentos e oito.

Que ikp.mya, n.i? Tá pior que o meu quartol

Então olha como fica a legislação aplicável à letra de câmbio no Brasil:

Letra de cc'.mbio 184


a) Vigora a Lei Uniforme, mas, em virtude das reservas assinaladas pelo Brasil,
não vigoram os seguintes dispositivos:
.,_ art. ro;
.,_ art. 41, alínea 3-"-;
.,_ art. 43, n. i e 3;
.,_ art. 44, alíne'as 5-"- e 6."..
b) Ainda em virtude das reservas, o art. 38 da LU deve ser complementado, no
~entido de que as letras de câmbio pagáveis no Brasil devem ser apresentadas ao acei-
tante no próprio dia do vencimento.
c) A taxa de juros de mora no pagamento da letra de câmbio ou da nota promis-
sória é a mesma devida no caso de mora no pagamento de impostos devidos à Fazenda
Nacional (reserva feita aos arts. 48 e 49).
d) Em razão das omissões da LU, permanecem em vigor os seguintes dispositivos
do Decreto n. 2.044/1908:
.,. art. 3~;
.,. art. 10;
.,. art. 14;
.,. art. I 9, ll;
.,. art. 33;
.,. art. 36;
.,. art. 54, I.
Sinceramente, acho que você não precisa decorar esses números não. Na verda-
de, fiquei com pena de apagá-los depois que já tinha digitado tudo, e achei legal tam-
bém mantê-los aqui a título de curiosidade.
O que você precisa saber é que se aplica a LU, mas, tendo em vista que o Brasil
assinalou reservas a essa lei, em alguns aspectos ainda se aplica o Decreto n. 2.044/1908.
Acho que essas informações bastam.
Passaremos agora à análise do crédito cambiário.

~ q,ue- Unto. uma~ muito., muito forte de revelar o nome e o


sobrenome daquele bonito que me vendeu o Gol. O mundo precisaria saber
que tipo de picareta ele é. Mas me contenho. De qualquer forma, não posso
negar que às vezes desejo que ele arda no mármore do inferno.
Pronto, falei.

185 Empresarial para quem odeia empresarial


t?\A_....,;
...
/"':--~~
~::t\~1
·._ /.,.
/ ..... ~l'-'IIJ..t~·
:;:;·
24. A menino na janela:. ,-···--"""
/

:,'coiJstl!qiÇ~1o_
' '.. . '
dq crédito: caf11biárlç>_ '

····················································································
Um 6e1.o. dia u.o.cê. eálá na. iua caia, e de repente muda tudo. Você não sabe
que vai mudar tudo a p'artir daquele dia, mas a excitação gostosa do n:JVo é
envolvente, e você deixa a emoção te guiar no caminho cujo final a razão sabe
ser um beco sem saída. Mas vamos combinar uma coisa: a razão é chata. Quem
precisa dela? Além do mais, você é vivido, esperto, maduro. Você sabe elas
coisas. Nunca se deixara levar por essas coisas, né?
Dificilmente você se clara conta elo momento exato em que a curtição
passa a ser vício. Necessária. Quase sempre, quando você percebe, já é
tarde. Aí você tenta des-esperadamente se livrar dela. f=oge. Some. Afasta-se
do que, supostamente, te faz mal. Mas em vão. Você já entrou por aquela
porta, e, uma vez dentro, não há mais a possibilidade de voltar pelo mesmo
caminho. Agora você tem que se virar e procurar, na escuridão desco:<heci-
cla, uma nova porta.
t: aí. o que você faz?
Sugestão: relaxe e se deixe levar, porque aquilo que você achou que po-
deria te fazer sofrer amanhã te faz bem hoje. t: ninguém garante que você vai
estar vivo amanhã.
Regra geral, as pessoas nunca chegam a saber ele verdade o quanto fize·
rarn bem (ou mal) a nós. Tenho exercitado essa coisa ele falar para o outro o que
eu realmente sinto. Desprezo, amor, mágoa, saudade, decepção, entusiasmo,
alegria ou tristeza. O que for. Aprendi com uma amiga (lindíssima, por sinal) que
não é justo com você mesmo que alguém te faça sentir alguma coisa ruim ou
boa sem que esse alguém saiba.
f.:xistem situações em que você vai estar sozinho. Ainda que uma multidão
te rodeie, você vai estar sozinho. As respostas estarão todas dentro de você,
mas inevitavelmente você vai achar que é fraco e que não tem capacida:::le para
encontrá-las sozinho.
f.: você vai chorar. Vai se desesperar. Vai achar que já foi além do limite. Vai
achar que o fardo é pesado demais para você carregar. t: vai pensar em clesis:ir.
Mas qual é a opção se você desistir?
O vício, que você achava que só te fazia mal, de repente era um aviso de
Deus, de Jah, de Buda ou de qualquer outra entidade em quem você acrecl 1te.
O que acontece hoje é consequência do que você escolheu ontem. Mas 0

veneno que não te mata te fortalece. .


Não existe uma moral nessa história. Nem nexo, provavelmente. Mas hcje
eu estou feliz. f=eliz porque fiz uma coisa politicamente incorreta que me dei-
xou extremamente bem. f=eliz porque deixei para trás. de verdade mesmo, a
mágoa comigo mesma por ter falhado. f=eliz porque dei um beijo de boa-noite
na minha filha e disse, com todo o meu coração (e não apenas por costume),
que eu a amo.
f..loJe eu fiz a minha parte. t: me sinto a menina na janela.
Amanhã, força e fé pra fazer de novo, e melhor.
Vamos lá? Veremos aqui a letra de câmbio a partir dos seus elementos e
dos atos cambiais, como já mencionamos no começo do capítulo passado. Co-
mecemos.

24.1. Saque
Quando classificamos os títulos de crédito, localizamos a letra de câmbio na mo-
dalidade ordem de pagamento. Isso quer dizer que, quando surge uma letra de câm-
bio, três situações jurídicas distintas provenientes dela nascem também. ·
A primeira delas é a de quem dá a ordem do pagamento, ou seja, a determinação
de que certa quantia em dinheiro seja paga por alguém a outro alguém. Essa pessoa é
chamada de sacador.
A segunda situação é a da pessoa contra quem a ordem é emitida, o destinatário
da ordem que deverá efetuar o pagamento. Esse é o sacado.
E a terceira é a da pessoa a favor de quem a ordem foi dada, ou seja, o credor. A
ele damos o nome de tomador:
Mesmo sendo bem distintas as situações criadas pelo saque, a lei permite que a
mesma pessoa ocupe mais de u.m lugar, ou seja, sacador e sacado podem, por exemplo,
ser a mesma pessoa.
Certo. Identificamos a galera.
Saque é o ato de criação da letra de câmbio. Por ele, o tomador fica autorizado a
procurar o sacado e dele receber a quantia estipulada no título, e, também por ele, o
sacador se obriga ao pagamento. Funciona assim: em uma primeira análise, quem
deve pagar o título é o sacado. Mas, se não forem obedecidas certas condições e opa-
gamento não for efetuado por ele, o tomador deverá fazer a cobrança diretamente do
sacador.

187 Empresarial para quem odeia empresarial


A validade de uma letra de câmbio depende da presença dos seguintes requisitos.
~ a expressão "letra de câmbio" constante do próprio título;
~ a ordem pura e simples de pagar determinada quantia (é pacífico, hoje, que tal
quantia pode estar indexada ou com cláusula de correção monetária, desde que o cri-
tério de atualização seja o oficial ou de amplo conhecimento no comércio);
~ o· nome do sacado e sua identificação por um número de documento;
~ o lugar do pagamento;
~ o nome do tomador;
~ o local e a data do saque; . .
~ a assinatura do sacador, ou, se este não puder ou não souber assinar, de seu
procurador nomeado por instrumento público.
Olha só que bonitinho o modelo:

N. 01 Vendmento de 2 dias da vista Valor R$ 200.00


Novendmento rgar.I(Ao)V.Sa(S) rresta ~nla via de lella de
amblo.A
::;':.rc:·. ;• (Duzentos rea ls) x•x•x•x•x•x•x•x•x•x·x·x•x•x•x·x·x•x•
x•x•x•x•x•x·x·x·x•x•x•x•x•x•x·x·x·x·x·x-x•x·x·x•x•x•x·x·x•x
Na praça de &lO &manJo do Campo
~ lll)resenta:;Sodestacambibl p::>der~ se. Celta ate·- mes.esda d!ta 00 ~ue.

---------
.. ' ---__.m:li!
Docume.n;;tjio•···
CNPJ/CPFw
Ou!losi:\>G

Este é o Sacado/Devedor

A época do vencimento deve constar do título, mas sua ausência não o descarac-
teriza, porque, por determinação legal, quando isso acontece, considera-se que o títu-
lo será à vista.
Mas veja: embora esses requisitos sejam essenciais à letra de câmbio, o STF já
sumulou o entendimento (Súmula 387) de que a presença de todos eles só é necessária
no momento da cobrança ou protesto do título, e, se entende que a pessoa que porta
o título é rriunida de boa-fé, pode agir como procurador do sacador para preencher os
dados faltantes.
Dessa forma, é permitido que a letra de câmbio circule ou até mesmo que possa
ser sacada, ainda que incompleta.

24.2. Aceite
Quando o sacador emite uma letra de câmbio, o sacado não tem nenhuma obriga-
ção cambial. Ele se vinculará ao pagamento se, e, somente se concordar em atender a

Constituição do crédito cambiá rio 188


ordem que foi dirigida a ele, o que faz por um ato denominado aceite. Então, pode-se
dizer que o sacado somente assumirá a obrigação constante na letra de câmbio que lhe
é dirigida se quiser, e por meio do aceite. É ato discricionálio (oi, direito administrativo).
O aceite é feito por meio de uma simples assinatura do sacado no anverso do tí-
tulo, ou no verso, desde que contenha a expressão "aceito". Não gosto muito da pala-
vra "anverso", mas é ela que aparece na lei. De qualquer forma, o anverso é o inverso
do verso.
Uma vez que o sacado aceita a letra de câmbio, ele se torna devedor principal. Isso
quer dizer que na data do vencimento o credor terá que procurá-lo para o cumpri-
mento da obrigação, e só no caso de ele se recusar a efetuar o pagamento é que o cre-
dor está autorizado a procurar os demais codevedores.
Essa é a regra geral que funciona para todos os títulos de crédito: os codevedores
só podem ser cobrados se o devedor principal não pagou.
Dissemos que o aceite é ato voluntário do sacado. Ou seja, ele só aceita se quiser.
Contudo, a recusa do aceite traz uma consequência: o título considera-se desde já
vencido. Como a recusa do aceite gera vencimento antecipado do título, o tomador
pode, de imediato, efetuar a cobrança diretamente do sacador.
Isso também ocorre nos casos de aceite limitativo ou modificativo.
Assim: eu, credora de uma letra de câmbio, chego para o sacado e lhe apresento o
título. Ele aceita, mas aceita pagar só uma parte do valor ali estipulado (aceite limita-
tivo), ou então aceita pagar, mas alterando a data do vencimento (aceite modificativo).
Nesses casos, o aceitante se vincula exatamente nos termos do aceite, mas a letra de
câmbio considera-se vencida e o tomador pode também cobrar imediatamente do
sacador.
Para evitar o vencimento antecipado, o sacador pode valer-se da chamada cláu-
sula "não aceitável". Com ela, o tomador não pode apresentar o título ao sacado,
antes do vencimento, para aceite. Então, a alternativa que vai lhe restar é apresentá-
-lo na data do vencimento. Se o sacado não pagar, o tomador poderá cobrar do saca-
dor, mas como já está na data do vencimento, não trará nenhuma relevância o tal
vencimento antecipado.
Outras soluções intermediárias previstas na lei são a proibição, pelo sacador, de
apresentação para aceite antes de determinada data, ou ainda a estipulação; de um
prazo para apresentação a aceite.
A letra de câmbio tem prazo máximo para apresentação ao sacado.
Se for à vista, ela deve ser apresentada no prazo máximo de 1 ano contado do
saque. Veja que aí a apresentação não é para aceite, mas para pagamento mesmo. Ain-
da assim, o sacado não está proibido de aceitar e pagar.
No caso da letra de câmbio sacada a certo termo da vista (que é aquela em que o
vencimento se dá depois ele um prazo que começa a fluir do aceite), o tomador deverá
apresentar a letra para aceite no prazo máximo de 1 ano contado do saque. Mas agora

189 Empresarial para quem odeia empresarial


a cláusula
0 prazo é para aceite, e não para pagamento, e nessa situação não é possível
"não aceitável".
se dá depois
Pode ainda a letra de câmbio ser a certo termo da data: o vencim ento
deve ocorrer até
de um prazo que começa a fluir do saque. A apresentação para aceite
de câmbio em
a data do vencim ento fixada no título. O mesmo ocorre com a letra
data certa.
coobrigados.
Se perder esses prazos, o credor perde o direito ele cobrança contra os
tomado r que
Uma vez apresen tado o título, ao sacado é dado o direito de pedir ao
ele lhe seja reapres entado no dia seguinte. É o chamad o prazo de respiro.
apresen tada
O sacado que retém indevid amente a letra de câmbio que lhe foi
termos do art. 885 do CPC.
para aceite está sujeito a prisão administrativa, nos
...................................................................................
~de~· Isso, definitiv amente. eu nunca
ti·
'Pa~.J..UL c:/Ju:uruí1ic-a.
nha ouvido falar em toda a minha vida. Nem na passada.
....................................................................................

24.3. Endosso
o que
Regra geral, a letra ele câmbio é um título sacado com a cláusula "à ordem",
esse título por meio de um negócio cambial
quer dizer que o credor pode negociar
transferência do
chamad o endosso. Endosso, então, é o ato cambiário destinado à
crédito de um título à ordem.
, por con-
Mas lembre-se: a transferência do crédito também depend e ela tradição
ta do princípio da cartularidade.
não esteja
A cláusula "à ordem" pode ser expressa ou tácita. Assim, ainda que ela
"não à ordem", será
escrita no título, se este não contiver expressamente a cláusula
por endos-
considerada à ordem. A pessoa que aliena o crédito ele uma letra de câmbio
so é o endossa nte ou endossador, e a que adquire é o endossatário.
de câmbio
Só 0 credor pode endossar. Então, o primeir o endossa nte ele uma letra
o número de endosso s em
necessariamente será o tomado r. Mas não há limite para
a. São efeitos elo
um título: ele poderá ser endossado um milhão de vezes ou nenhum i
ição elo en-
endosso a transferência do crédito ao endossatário e também a constitu li
dossante no status ele coclevedor. l
ca o endos-
O endosso pode ser de duas espécies: em branco (quando não identifi
satário) ou em preto (quando identifica). O ato se materializa
so, ou no anverso do título com a expressão "pague-se" e, no caso
pela assinatu ra, no ver-
elo endosso em
l
preto, com nome \elo enclossatário.
e a transfe-
Veja que o endosso em branco transfo rma o título em "ao portador",
e em que a pes-
rência deste passa a ocorrer, a partir daí, por simples tradição, hipótes
soa que o transfere não se tornará coobrigado.
condicio-
É nulo o endosso parcial (considera-se inexistente) e ineficaz o endosso
nal (a condição é tida como não escrita).
transfer ir o
Denom ina-se endosso impróp rio aquele que não tem o condão ele
o com a fun-
crédito. Aqui temos o chamad o endosso -manda to, que é aquele utilizad
ção ele incumb ir o recebim ento elo título a um proc~traclor e serve para
legitim ar esse
procura dor na posse elo título.
por penhor
Temos também o chamad o endosso-caução, que é a oneraçã o ela letra
tário, mas
a um credor do endossante. Não há transferência do crédito ao enclossa
que. o enclos-
mera constitu ição deste em credor pignoratício do endossa nte. Observe
o título. Soment e se não for
satário, neste caso, não pode transferir, por novo endosso,
endossa tário se
cumpri da a obrigação que deu origem ao endosso-caução é que o
apropri a ela letra de câmbio endossada .
sem ga-
Pode ainda o endosso não vincular o endossante. É o chamad o endosso
rado coobri-
rantia. Transfere-se por ele o crédito, mas o endossa nte não será conside
gado.
trás fizemos
Falemos agora um pouqui nho da cessão civiL Lembra que lá para
tam entre si al-
uma comparação do endosso com ela? É porque, de fato, eles apresen
do crédito. Mas
gumas semelhanças, especia lmente o fato de transferir a titularid ade
a principal diferença é que a cessão civil não tem efeitos cambiários.
institut os.
Agora fica bem fácil entende r o que eu disse a)\tes sobre esses dois
Vejamos, novamente, os aspectos que diferenciam um do outro.
Isso quer
Foi dito que o endosso faz com que o endossa nte se torne coobrigado.
existênc ia do crédito como pela sol-
dizer que o endossa nte é responsável tanto pela
sacador e este se re-
vência deste. Ora, se o endossa tário cobrar a letra de câmbio do
Por isso dizer
cusar a fazer o pagame nto, poderá aquele cobrar o título do endossante.
que respond e pela solvência.
e queira
Na cessão civil isso não acontece. Vamos supor que eu tenha um crédito
respond o pela
transferi-lo, mas o faça por nieio ele cessão civil. Nessa situação, eu
recebeu de mim proceda à cobranç a do
existência do crédito, mas, caso a pessoa que o
eu ser cobrada. Não
devedor original e este se recusar ao pagamento, não poderei
i
respondo, aqui, pela solvência.'
li Outra diferença diz respeito aos limites de defesa do devedor quando
executado
l pelo adquire nte do título de crédito.

l Se a transferência se deu por cessão, pode o devedor arguir matéria relacion


relação jurídica que tem com o cedente. Exemplo: A é devedor, B tem
este poderá alegar,
ada à
o crédito e o
em sua defe-
transfere, por cessão, para C. Quando C for cobrar A,
exempl o, pode
sa, exceções que se relacionam com a relação que ele tinha com B. Por
o crédito origi-
dizer que B também é seu credor, e que, por isso, não vai pagar porque
nalmen te era de B.
Isso não pode acontecer no endosso. Princípio da inoponibilidade das exceções
pessoais.
Toda essa explicação é necessária porque alguns endossos produzem efeitos de
cessão civil, quais sejam:
~ endosso praticado após o protesto por falta de pagamento ou depois de decor-
rido o prazo legal para a extração desse protesto;
~ endosso feito em letra de câmbio com cláusula "não à ordem".
Importante frisar que a cláusula "não à ordem" pode ser inserida na letra de câm-
bio tanto pelo sacador como por qualquer dos endossantes. Mas olha só: se a cláusula
"não à ordem" faz com que o endosso prodl!za efeitos:de cessão civil, quem adquir~
um crédito representado emletra de câmbio com essa Cláusula não terá a garantia do
alienante, e nem mesmo a do eventual endossante anterior, porque a inserção dela
acaba por proibir novos endossos.

24.4. Aval
O aval é um ato cambial de garantia. Por ele, o avalista garante o pagamento do
título em favor do devedor principal ou de outro coobrigado, que são então chamados
de avalizados.
O avalista se obriga nos mesmos termos que o avalizado, mas ainda assim as obri-
gações continuam sendo autôn9mas entre si. Tanto que se, por exemplo, a obrigação
do avalizado for considerada nula, a do avalista permanece válida. Quer dizer o se-
guinte: o avalista passa a responder por todas as obrigações do avalizado, mas terá,
depois, direito de regresso contra este.
O aval se faz por simples assinatura no anverso do título. Poderá ser feita também
no verso, mas aí tem que constar a expressão "por aval" ou semelhante. Também poderá
ser o aval em branco ou em preto. Sendo em branco, considera-se avalizado o sacador.
O instituto que se compara ao aval mas que não se liga ao direito cambiário é a
fiança. A principal diferença entre um e outro é que o aval faz nascer uma obrigação
autônoma, enquanto a fiança cria obrigação acessória. É exatamente por isso que a
fiança induz ao benefício de ordem, ou seja, o devedor principal será cobrado em pri-
meiro lug~r, e só depois, caso não pague, poderá o credor cobrar do fiador. Isso não
ocorre no aval: o credor pode perfeitamente cobrar o avalista sem que tenha antes
cobrado o avalizado
Não é a primeira vez que eu procuro pela autoria desse texto. Sem sucesso. Se
alguém souber quem escreveu, por favor me avise. É lindo.
'f\ menina na janela via o mundo passar.
Sentia-se única e unia-se ao todo.
O todo a enoja e tudo a consome.
No fascinante mundo do ser.

Constituição do crédito cambiário 192


À fútil vida de querer.
Querer ser e ser o que quiser.
A menina na janela está descobrindo o mundo.
Eia não percebe as consequências de seus atos.
Ea não liga para o futuro próximo ou não.
Que ser agora e agora sendo esquece o tudo.
A menina na janela só quer ser feliz ... ".

193 Empresarial para quem odeia empresarial


·- -...~.
,'_! /
...;-_~:/

25. Medo hereditário:

-~-~~-~·~·~························:······················
. ~ e alguns am1gos num restaurante
bem legal aqu1 em Bauru. Bom para quem tem criança: bastante espaço para
bnncar. Mas pude notar, mais uma vez · como a minha ba·1x1n
· h a e• me d rosa.
que chegou, foi correndo brincar com a amiguinh A' b t
b h Logo
h b. · a. 1, as ou um
1c. 1n o su
, 1r no pe dela para ela não desgrudasse de m·1m por ma1s · nem um
mmuto.
t Ha tempos
· eu venho notando isso nela · Tenho a impressa- d
o e que e 1a
enta, mas
t [:::Simplesmente não consegue fazer quase nada sem que eu es t eja ·
por per o. por perto leia-se onde ela possa alcançar minha mão.
d r·
Por um lado. sinto-me bem com isso. Sinal de que eu lhe passo con 1ança
e e que ao, meu lado ele se sente segura. Por outro, é um pouco complicado.·
_ Agora a no1te, pensando nisso, tentei voltar ao passado e procurar alguma
razao para o comportamento dela. l:: cheguei à conclusão de que não d=
cl"f t p · . po a ser
d 1eren e. r1me1ro porque
. eu,
, quando pequena · tambe' m e r a me d rosa. Segun-
o, e acho que esse motivo e o mais forte porque minha gravid f01· d'
assim, conturbada. ' ez · lgamos
/.y'Z:..~
,f;/ .. '\.f.'.. b. Chorei muito quando ela estava na minha barriga · e m UI·t as vezes nem
:\í íi?;?r i~ :.'--?~/) sa 1a por que chorava. Sensível ao máximo Muito mais do q h · d
acreditar. · ue sou OJe, ::lO e

Às vezes me_ sinto mal por tê-la feito passar por tudo isso na gestação.
Gostana
d de acred1tar
_ .que os bebês não sentem nada c~nquan t.o es t-ao na b am-·
ga e suas
1 maes, mas 1sso definitivamente não é verdade • Ouer·a
I pe d.1r d escu 1-

pas a e a, mesmo sabendo que não sou eu quem deve fazer esse pedido.
l::ntendi, por fim, que os medos que ela tem não são problemas para psicó-

"-~"~-,SJf lo!o resolver, mas SIM m1nha responsabilidade. [:::são uma responsabilidade dupla,

\~~,;;: P rque, sem querer, eu acabe1 tendo que assumir o papel que cabia ao pai ::leia.
l::ssa
d certeza de que está apenas em minhas mãos me da'· força para 1evan-

\., t'J~f\ tar to as as manhãs: a mãe, a filha, a mulher, a menina, a dona de casa, a advo-
gada, a estudante, a professo·ra, a enfermeira, a escritora, a amante. Tudo.

\
:._·~~<.t~~s:~
r~'}
~~:)
Ainda que o medo seja inevitável. saiba, minha pequena princesa, que eu

estarei sempre aqui para você.


Ok. Prosseguindo.
····················································································
Vimos no capítulo anterior que os devedores de uma letra de câmbio, e, melhor
dizendo, dos títulos de crédito em geral, podem ser de duas espécies: principal e coo-
brigados ou codevedores. Para que um título se torne exigível do devedor prir.cipal,
basta o seu vencimento. Mas, com relação aos coobrigados, é necessária, primeiro, a
recusa do pagamento pelo devedor principal. E a prova da recusa se faz pelo prctesto,
que deve ser feito dentro de determinado prazo.
Se um coobrigado paga o título, ele pode, depois, cobrar do devedor princi'Jal ou
dos coobrigados anteriores.
Mas como funciona o regresso? Quem pode cobrar de quem? É importante saber
que existe uma escadinha de personagens numa letra de câmbio, sendo que um pre-
cede o outro. Olha só as regrinhas:
._ o sacador da letra de câmbio é anterior aos endossantes;
._ os endossantes são dispostos na ordem cronológica;
._ o avalista encontra-se em posição imediatamente posterior à do avalizado.
É nessas regras que devemos nos basear para saber quem tem direito de regresso

contra quem.
Feitas essas considerações iniciais, podemos agora ver os institutos cambiais que
se ligam à exigibilidade do crédito.

25.1. Vencimento
O vencimento pode ter por causa dois grupos de situações: o ordinário (decurso
do tempo ou apresentação do sacado da letra de câmbio à vista) e o extraordinário
(recusa do aceite ou falência do aceitante).
As regras de contagem de prazo estão no art. 36 da LU, e neste momento vou abrir
meu coração e fazer uma das _confissões mais fortes de toda a minha vida: pela primei-
ra vez, em quase 32 anos, peguei a tal da Lei Uniforn1e para ler.
Como prova do alegado; vou copiar o artigo aqui:
'1\rt. 36. O vencimento de' uma letra sacada a I Oll mais meses de data ou de vista será
na data correspondente do mês em que o pagamento se deve efetuar. Na falta de data cor-
respondente, o vencimento será no último dia desse mês.
Quando a letra é sacada a I ou mais meses e meio de data ou de vista, contam-se
primeiro os meses inteiros.
Se o vencimento for fixado para o princípio, meado ou fim do mês, entende-se que a
letra será vencível no primeiro, no dia IS, ou no último dia desse mês.

195 Empresarial poro quem odeio empresarial


As expressões '8 dias' ou 'quinze dias' entendem-se não como 1 ou 2 semanas, mas
como um prazo de 8 ou 15 dias efetivos.
A expressão 'meio mês' indica um prazo de 15 dias".
Legais esses artigos que não são como os dos nossos Códigos: não têm inciso, 'não
têm alínea, não têm nada. Parece que os caras apertam enter e pronto.

25.2. Pagamento
O pagamento extingue uma, várias ou todas as obrigações constantes no título.
Se quem paga é um coobrigado ou o avalista, extingue-se a obrigação de quem pagou.
e a dos coobrigados. Se quem paga é o aceitante, extingtÍem-se todas as obrigações.
Se a letra de câmbio é pagável no exterior, o credor deverá apresentar o título ao
aceitante no dia do vencimento ou nos 2 dias úteis seguintes. Se pagável no Brasil,
deve apresentá-la no dia do vencimento. ·
Mas olha: a inobservância dos prazos para apresentação não desnatura a letra de
câmbio. Ou seja, o credor não perde seu direito ao crédito. O que acontece é que qual-
quer devedor pode fazer o depósito do valor da letra de câmbio em juízo, e 0 credor
responderá pelas despesas desse depósito.
_ Existe, contudo, uma cláusula que pode ser aposta no título que faz com que a
nao apresentação implique a extinção do direito do credor ao crédito. É a chamada
cláusula "sem despesas". ; .
. O_devedor que paga um título deve exigir que este lhe seja entregue, e seja dada a
qmtaçao no próprio título. Ainda, o endossante que pagar uma letra pode riscar 0
endosso e os posteriores.
O pagamento parcial é admitido, mas deve obedecer a algumas regras:
._ somente o aceitante pode fazê-lo, e o credor não pode recusar;
._ o título permanece com o credor, mas será aposta nele a quitação parcial·
._ os coobrigados podem ser cobrados do saldo restante, mas é necessário 0 ~ro­
testo para a responsabilização do sacador, endossantes e seus avalistas.
Havendo justa causa, o devedor pode (e deve) recusar o pagamento.

25.3. Protesto
Três são os tipos possíveis de protesto: por falta de aceite, por falta da data do
aceite ou por falta de pagamento.
O protesto por falta de aceite é extraído contra o sacador, porque a ordem que ele
deu de pagar não foi cumprida. O prazo coincide com o fim do prazo de apresentação
ao sacado (ou um dia depois disso, se houve solicitação daquele chamado prazo de
respiro).
O protesto por falta da data do aceite, como já dito, é feito contra 0 sacado.

Exigibilidade do crédito cambiário 196


Por fim, o protesto por falta de pagamento é feito contra o aceitante. Deve ser
feito no prazo de 2 dias contados da data em que o título era pagável.
O descumprimento dos prazos para protesto faz com que o credor perca o direito
que teria contra os coobrigados. O direito que ele tem contra o devedor principal e
contra o avalista permanece inalterado.
O protesto será cancelado com o pagamento posterior do título, mediante apre-
sentação deste em cartório, porque a posse do documento faz presumir a quitação.
,Pode ainda ser cancelado por apresentação de documento que comprove a anuência
'do credor originário.
Se, contudo, o título protestado não puder ser apresentado e os credores não de-
rem a referida anuência, o protesto somente será cancelado por meio de açãÓ judicial.

25.4. Ação cambial


Não sendo o título pago no vencimento, poderá o credor promover a competente
ação de execução, desde que observe as condições de exigibilidade já analisadas. O
exercício desse direito, contudo, sofre a limitação temporal da prescrição.
Vejamos, portanto, os prazos prescricionais das ações cambiais:
._ credor contra devedor principal ou avalistas: 3 anos contados do vencimento;
._ credor contra os coobrigados: 1 ano contado do protesto ou, se o título tiver a
cláusula "sem despesas", do vencimento;
., regresso: 6 meses contados do pagamento.

'Pah.a ~' wna ~ ~ 0- que. eu~ 3ntes em relação ao


mede da pequena. As palavras ditas pelo ministro Luiz !=ux esses dias, num
julganento, serviram direitinho para mim:
"~certo que irás encontrar situações tempestuosas ncvamente, mas have-
rá de ver sempre o lado bom da chuva que cai e não a faceta do raio que
destrói. Tu és jovem. Atender a quem te chama é belo, lutar por quem te rejeita
é que se chegar à perfeição. A juventude precisa de sonhos e nutrir de lembran-
ças, assim como o leito dos rios precisa da água que rola e o coração necessi-
ta de afeto.
Não faças do amanhã o sinônimo de nunca, nem o ontem te seja o mesmo
que nunca mais. Teus passos ficaram. Olhes para trás, mos vá em frente, pois
há muitos que precisam que chegues para poderem segui.·-te".
Belíssimas palavras.

197 Empresarial para quem odeia empresarial


26. Acreditar ou não ocreditor1 =·· _

eis a questão:

.....................................................................................
ma.u uma citação- de ~me'<L: "... a confiança é umo mulher ingrata,
que te beUa e te abraça, te roubo e te moto".
i=:u não conseguiria ter expressado melhor.
Tenho passado por constantes provações Aesse sentido. Ouero com todo o
meu coração acreditar que as palavras não são usadas para mim como são para
todo o resto do mundo. Pretensão grande que, inevitavelmente. me faz duvidar.
Sinto que estou me aproximando elo maior lombo da minha vida. !=: as
consequências dele serão homéricas. Se hoje meu coração é cheio de cicatri-
zes, posso dizer que depois desse tombo ele vai se tornar irremendável. Ainda
assim, continuo caminhando mais e mais para o alto.
Burrice?

Não. ~ que provavelmente ainda estou na fase em que a confiança está


me beijando e me abraçando. Preparando o bote.
Vivendo em cima ele um muro. Ou, mais precisamente, em uma represa,
com as comportas fechadas. De um lado, vejo a água bem perto de mim, em
abundância. Do outro. altura enorme e lá embaixo quase nada. Se eu cair para
um lado, nada me acontece. Mas, se cair para o outro, sobra pouco de mim.
De um lado, a felicidade. Do outro, a decepção.
Complicado ter que falar disso, que para mim é tão concreto, mas só
pode ser explicado de maneira abstrata. Mais complicado é saber que a única
pessoa que poderia entender tudo não vai entender.
Imaginou certo quem achou que estou falando aqui da mesma pessoa
que era viciada em c'·10colate.
i=:stou me esforçando muit9 para confiar que ela não come mais chocola-
te. Muito mesmo. Mss fica bem difícil quando ela aparece com~ boca suja, ou
quando encontro embalagens espalhadas pelo chão.
·-.,--/i
·,
Por isso o medo: não quero sentir raiva ele mim por lor acreditado. Não
quero mesmo. !=:o que está acontecendo é que esse medo s·stá aos poucos me
deixando apática.

Nota promissória é promessa de pagamento à vista. O título envolve, pois, so-


mente duas pessoas: uma que promete pagar (emitente, sacador ou subscritor) e outra
que tem o direito de receber (beneficiário ou sacado).
São requisitos desse título:
»- a expressão "nota promissória";
»- a promessa incondicional de pagar quantia certa;
)- o nome do beneficiário (a nota promissória não pode ser ao portador);
)- a data do saque;
)- o local do saque;
)- a assinatura do sacador e a identificação deste por meio do número de algum
documento .
Fo tinha:

R$'--'[_ _______,j

\. l __. ___.__·.
: j
h.,>\!l~·------------:-------------
-·--·---Ço~~--""'~~~,. . .",, NOTA PROMISSÓRIA
' l éJ.J ;c: ... ~~.,...!f'":'
.J,;i<\:Jtl:t·t.t

~"' nv4~s ~t.~


L__:.__ _.:._:__.;._.;._ _ _ _ _ _ __;__ _ _ __. 'lll<ll,. !)1'4

~~\.wn·
~
~
t· y E'\f:T'Efi;'i:.:
ª"~ s
O(
~

'u
CP;; C!"lf'J:

Er.::.c:rcr.p-:
~

Deverá ainda constar a data e o local do pagamento, sob pena de, não constando,
considerar-se tal título pagável à vista no local do saque ou no local designado ao lado
do nome do subscritor.
A nota promissória está' submetida às mesmas regras da letra de câmbio. Assim,
tudo 0 que foi visto com relitção ao endosso, aval, protesto, vencimento, pagamento
etc. é aplicável aqui também, desde que compatívet
; Contudo, algumas características próprias deY::m ser citadas:
a) não se aplicam à nota promissória as regra> que com ela não sejam compatí-
veis (como o aceite, por exemplo);
b) 0 subscritor da nota promissória é o devedor principal, portanto a ele se apli-
cam as disposições relativas ao aceitante na letra d-e câmbio;

199 Empresarial para quem odeia empresarial


c) o aval em branco favorece o seu subscritor;
d) embora a nota promissória não admita aceite, poderá ser emitida com venci-
mento a certo termo da vista. O credor pode, então, apresentar o título ao emitente
no prazo de um ano, para que ele coloque um visto, e essa será considerada a data
inicial para a contagem do prazo para vencimento.

···················································································
.!linda 6em que- tini'!a 'fWUCa co.Ua. p.a!ta ~ aqui. Cérebro f ri ta nd o, pe n-
samentos que não se contentam em ficar fixos em apenas um assunto. Melhor
fechar os olhos. No escuro as coisas ficam mai~ claras.
····················································································

Nota promissória
200
····················································································
i2.ão. g.o.41o. de~- Não tenho, nem pretendo ler.
Quando me mudei paca São Paulo, em 1998 (18 aninhos), abri minha pri-
meira conta bancária. Como toda estudante que se preze, eu precisava da
conta para meu pai poder mandar dinheiro para mim.
Dessa conta, que era no antigo Banco Real, eu cuidei direitinho. Nunca
tive problemas com ela. Mas, depois de um tempo, comecei a trabalhar numa
empresa, e o salário era pago exclusivamente por depósito em conta do Bank-
Boston. Nem sei se esse banco ainda existe, ou, o que é bem mais provável, por
qual outro banco maior ele foi comprado.
O fato é que o BankBoston era a coisa mais linda do mundo. Minha agên-
cia era na Avenida Cidade Jardim, e eu me sentia a poderosa toda vez que
entrava lá, ou quando ia pagar alguma conta e o fazia com o cheque das folhas
verdes do BankBoston. Nem consultavam ... f:resunção total de que eu tinha
dinheiro.

. Alguns anos depois, saí dessa empresa. Pouco antes de ir embora de São
Pa~lo, fui ao banco para encerrar a minha con'a. Legal.
Quando fui obrigada a sair de São Paulo e voltar para a cidadezinha no
sertão, digo, no interior, passei por uma fase de revolta adolescente tardia.
Um belo dia, encontrei no meio das minhas coisas um talão de cheque do
BankBoston inteir.inho. Vinte folhas branquinhas. !=acuidade, sem emprego, de-
pendendo do dinheiro dos pais para comprar uma cerveja. Não tive dúvidas: fiz
a festa!

Conclusão: quando voltei a ser uma pessoa séria, demorei mais de um


ano para conseguir limpar meu nome.
Certeza de que eu não faria isso hoje, mas, por via das dúvidas, achei
melhor nunca mais ter talão de cheque.
····················································································
o que o cheque é o
os estu dar esse títu lo ent ão. Dos títu los de crédito, ach
Vam a a operação.
dá par a visualizar dire itin ho tod
mais fácil de entender, porque ord em de pagamen-
s saber é que o cheque é um a
A primeira coisa que precisamo de cré dito prévio.
põe um con trat o de abe rtur a
to à vista. Sua existência pressu pague, pelo cheque,
ord eno que o banco, sacado,
Então, é assim: eu, emi ten te,
tom ado r. Tranquilo.
um a qua ntia det erm ina da ao no sen tido de que a
à vista, qua lqu er informação
Sendo ord em de pag ame nto a não escrita. É a famo-
não a da emissão é con side rad
dat a do pag ame nto é out ra que o, e que, mais na verda-
o, que, na verdade, é pós-datad
sa história do cheque pré -da tad
vista me smo e pro nto .
de ainda, não é nad a disso: é à
direito civil. Preste atenção.
Aqui ent ra hist orin ha legal do ecipada de che que
dano moral a apresentação ant
ST], Súmula 370: "Caracteriza
pré-datado". tado. Depois, colo-
que não existe che que pré-da
Aí, você pensa: primeiro ela fala tem po gera dan o
ula dize ndo que apr ese nta r che que pré -da tad o ant es do
ca um a súm
cadeira!
moral. Essa me nin a tá de brin
s que o ST).
Longe de mim que rer saber mai ra coisa bla bla bla.
e: um a coisa é um a coisa e out
A que stão se resume a um a fras um a olhada na capa des-
bem isso mes mo! Faz um fav orzinho rápido para.mim? Dá
É presarial, né? É isso
e con fere pra ver se o títu lo foi impresso cor reta men te. Em
te livro
que está escrito lá? out ra história.
out ra história, e dan o mo ral é
Então, pronto! Direito civil é do fora da época.
o moral, sim, qua ndo apresenta
O che que pré-datado gera dan tência dele. Cheque conti-
não que r dize r que o dire ito empresarial ace itou a exis
Isso o dele na matéria que
à vista. À vista. É esse o conceit
nua sendo ord em de pag ame nto aqui con tinu amo s ba-
o ST) aceite o dan o moral, nós
estamos estudando. Ainda que
que é pag ame nto à vista.
ten do o pé e dizendo que o che " daqui a 5 meses,
ho um che que com o "bom para
Qu er dizer o seguinte: se eu ten emi ten te do che-
co hoje e apr ese nta r este , desde ten ha saldo na con ta do
for ao ban ral ou não, não tem nad a
eu vou ter que pagar dano mo
que, o banco vai me pagar. Se
a ver com a gen te aqui.
Certinho?
Então vamos continuar. idade sobre o che-
o banco) não tem responsabil
O sacado (que aqui sempre será amento não será feito. ·
ver provisão de fundos, o pag
que. Qu er dizer que, se não hou co. E vou além: o sacado
iten te do cheque, nun ca o ban
Qu em resp ond e por isso é o em ar nem avalizar. Nã o
ibid o de dar ace ite em che que. Não pode tam bém endoss
é pro
pode e pro nto . A LU proíbe. exémplo: eu apre-
o.caso com eta algum erro. Por
O banco só será responsabilizad emitente, e ainda assim
nto, tem din hei ro na con ta do
sen to um cheque para pagame

202
Cheque
r referente a um
Ou ent ão o ban co me dá em din hei ro um valo
zado) · Aí sim . se pra·t·1car
o ban ço não pag a.
ositado em con ta (cheque cru
che que que. ,só. podia, ser dep nunca. Porque
algum ,ato rhCtto,, sera r~sponsa
bilizado. Mas assumir a obrigação, isso
e não o banco.
que m e devedor e o emrtente,
Tra nqu ilo até aqui?
nha nos requisitos
ulado. Vamos dar um a olh adi
Che que é títu lo de modelo vinc
do cheque:
lo;
,.. a expressão "cheque" no títu
da (e a eventual insuficiên-
l> a ord em inc ond icio
nal de pagar qua ntia det erm ina
não des nat ura 0 cheque);
cia ou inexistência de fundos
l> a identificação do
banco sacado;
,.. o local do pagamento;
l> a dat a de emissão;

l> a ass ina tura do sac


ador/emitente.
pelo seguinte
a folha de che que aqui. E 0 faço
.Recu~o-me a. colocar a foto de um ston. No mais, por favor,
trvo : nao con srgo ach ar um a folha de cheque do BankBo
m_o
como é.
ne? Che que todo mu ndo sabe
não 0 for, presume-
e con star do cheque, mas, se
O local de emissão tam bém dev nom e do emi ten te.
no local con stan te ao lado do
-se que ele ten ha sido emitido

·~·~.-;~~~·~·~·sde·~ i··
~·;;;_~~~·io;~·~dep ósit o na min ha próp ria con
ta um che -
s fiz um
bem , por que tem pos atrá
car nom inal . Nem lem -
que esse e esq uec i de colo
que de valo r bem mais alto
con ta, mas, qua ndo che gou
que tinha caíd o na min ha
brei de con ferir se o che
do che que estava Já? Não
contas, cad ê que o valo r
o d1a 10 e eu fui pag ar as
estava.
iui ver isso (pag o as
ira, e já era noit e qua ndo
O dia 10 era um!] sexta-fe
und a para peg ar o che que
). Tive que esp erar até seg
con tas toda s pela Inte rnet
no ban co e pag uei juro s
de mais ou men os uma hora
de volt a, e0fr ente i uma fila
das contas.
pelo atra so no pag ame nto
························
···························································· es:
, algumas observaçõ
Qu ant o à circulação do cheque
l> não se adm ite end
osso-caução no cheque;
tação, salvo se o sacado tiver
l>. endosso feito pelo
sacado é nulo e vale como qui
deles par a paga-
esta bel ecim ent o emp resa rial e o endosso for feito num
mais de um
me nto no outro;
io e gera efeitos de cessão civil.
l> o endosso feito apó
s o prazo ele apresentação é tard
feito em favor do
em branco se con side ra que foi
No que tange ao aval, qua ndo
de avalizar.
sacador, e o sacado é proibido
resarial
203 Empresarial para quem odeia emp
No mais, as mesmas regras da letra de câmbio se aplicam aqui.
Passemos agora às modalidades de cheque:
a) Cheque visado: é aquele em que o banco lança um visto atestando a provisão
de fundos. Deverá ser nominativo e não endossado, e visto do banco não é a mesma
coisa que aceite (o banco não se obriga por ele). A consequência desse visto é que o
sacado se obriga a reservar os fundos na conta corrente do emitente durante o prazo
de apresentação.
Veja: se o banco não fizer essa reserva, e, se quando o credor apresentar o cheque
não houver mais os fundos que lhe foram assegurados haver, o banco responderá. Mas
não é a mesma coisa que dizer que o banco tem obrigação cambial. A obrigação dele
será decorrente de responsabilidade civil; obrigação cambial ele não terá nunca.
b) Cheque administrativo: é o emitido pelo banco tontra um de seus estabeleci-
mentos. O banco, então, será o sacado e o sacador. Da mesma forma que o cheque
visado, ele será obrigatoriamente nominativo. Exemplo é o traveller's check.
c) Cheque cruzado: é aquele que possibilita, a qualquer tempo, a identificação
da pessoa em favor de quem ele foi liquidado. São os dois tracinhos no canto do che-
que. Pode conter o nome da pessoa escrito entre os dois tracinhos, mas o mais comum
é que não tenha nada. É o chamado cruzamento geral ou em branco. Nesse caso, o
cheque somente poderá ser pago mediante crédito em conta da pessoa que portar o
cheque. Se o cruzamento for especial (com o nominho lá escrito), só poderá ser pago
por depósito na conta daquela pessoa ali determinada.
d) Cheque para se levar em conta: esse é o menos conhecido, até porque tem
exatamente o mesmo objetivo que o cheque cruzado, ou seja, identificar a pessoa em
favor de quem é liquidado. Funciona igualzinho.
O prazo de apresentação do cheque é contado da sua emissão, e será de 30 dias se a
emissão for na me·sma praça e de 6o dias se em praças diferentes. A comparação é feita
com relação à localidade da agência do banco sacado. Assim: eu tenho conta aqui em Bau-
ru, emito um cheque aqui, o prazo para apresentação é de 30 dias. Mas estou me mudando
para São Paulo (e estou mesmo! Falarei disso já já). Se em São Paulo eu emito esse mesmo
cheque, da agência daqui de Bauru, o prazo para apresentação será de 6o dias.
Uma coisa: se, mesmo morando em São Paulo, eu emito o cheque e nele escrevo
Bauru em vez de São Paulo no campo "cidade", considera-se o cheque como se fosse
da mesma praça. O critério é formal: verifica-se o local designado no cheque como o
de emissão, e não efetivamente onde ele foi emitido.
As consequências da não apresentação no prazo são as seguintes:
.,_ perda do direito de executar eventuais coobrigados;
.,_ perda do direito de executar o próprio devedor, se à época da apresentação
havia provisão de fundos mas esta deixou de existir por motivo não imputável ao emi-
tente (exemplo do nosso amigo Ulhoa Coelho: falência do banco).

Cheque 204
Fora esses casos, e, havendo fundos, o sacado pode pagar o cheque ainda que seja
apresentado fora do prazo. Ah! Detalhe: pode pagar se não estiver prescrito. Falare-
mos da prescrição logo mais.
Agora, vainos sustar o cheque. Ou, conio dizem por aí, "assustar".
Observação": pelo amor de Deus, hein? O correto é sustar!
São dois os casos em que a sustação pode acontecer:
a) Revogação ou contraordem: é um ato cambial que somente o emitente do
cheque pode fazer, no qual se limita o prazo de apresentação do cheque, por motivos
fundamentados. Funciona assim: se, ultrapassado o prazo, o cheque não tiver sido
apresentado, eu, emitente, posso ir ao banco e dizer que o cheque não deverá mais ser
pago, desde que haja razões para tanto.
b) Oposição: é ato de legitimidade do emitente ou do portador. Eles, mediante
aviso escrito, e com fundamento em razões de direito (extravio, roubo etc.), informam
ao banco que o cheque não deverá ser pago. Produz efeitos a qualquer tempo antes da
liquidação (ou seja, aqui não tem que esperar o prazo de apresentação).
Presentes os requisitos da sustação, o sacado não pode questionar a ordem. Mas
olha a treta: sustar cheque com dolo de fraude é crime. .
Observação: suspiros apaixonados e saudosos. Direito penal, volta para mim?
:\linguém é obrigado a receber por via de cheque. Nem mesmo o cheque visado
tem curso obrigatório. Mas precisa lembrar do direito do consumidor: se um estabe-
lecimento recusa-se a receber cheque, deve manter essa informação clara e visível. De
qualquer forma, não temos nada a ver com isso.
Um pagamento feito com cheque só extingue a obrigação quando de sua liquida-
ção. Significa que cheque sem fundos não extingue nada. Aliás, emitir cheque sem
fundos também é crime. Se o cheque voltar duas vezes por falta de provisão, o banco
deverá inscrever o nome do correntista no Cadastro de Emitentes de Cheques sem
Fundos.
O cheque sem fundos deve ser protestado no local onde deveria ser pago ou no
domicílio do emitente, pois só assim o direito de crédito contra os coobrigados per-
manece intacto. Contra os coobrigados, tá? Para poder cobrar o devedor principal e o
avalista, não é necessário o protesto. Por outro lado, como já vimos na letra de câmbio,
o cheque também pode conter a cláusula "sem despesas", e aí o protesto ta~bém se
torna desnecessário para os coobrigados.
No sentido de garantir o direito creditício, o protesto pode ser substituído por
uma declaração do banco na qual conste a informação de que os fundos da conta do
emitente não são suficientes para o pagamento. Mas essa providência não é suficiente
para embasar pedido de falência. Aí, tem que ser o protesto mesmo .
A ação de execução baseada em cheque não pago prescreve em 6 meses, contados
do fim do prazo para apresentação, mas, se o cheque for pré-datado, considera-se

205 Empresarial para quem odeia empresarial


para paga ment o. A ação de regresso dos
emiti do 0 cheq ue na data de apresentação
conta dos ou do paga ment o ou da distri-
coobrigados prescreve tamb ém em 6 meses,
buição da execução judicial.
ar seu crédito por meio de ação de
Prescrito 0 cheque, pode ainda o credor busc
cobra nça ou monitória.
························
··················nome
··················não ························
t:stou em dia com minha s obrig a·
~e-m d.ia, tenho mais o SUJO.

s antec ipada mente .


ções, e costu mo inclus ive pagar as conta
tem dinhe iro na conta , passa; se
; Cartã o, pratic amen te só de débit o: se

guard ado, nunca ando com ele na carte
não tem, um abraço. O de crédi to fica
o.
ra. Só levo espec ificam ente quan do precis
série de dores de cabeç a com esses exped ientes . t: chequ e,
t:vitei uma
meu amigo, nunca ma1s.
····················································································

206
r\- ... ,.,,,,.,
"'{.
/
~~0 i>f~:::l
"c:;':/ ~- ·..,~--

··• .·.;..._ ..... ~~

casa~. ~.:;;~
28 . Vo lta nd o pa ra ~~. ~- ..:~ .~ . ~

do para São Paulo.


./lpM.a i~- t:xata mente lO anos depoi s, estou voltan
i
o do avesso do avess o do avesso. More
Cidad e mais delic iado mund o. O avess
idade , larguei, fiquei um ano sem fazer
lá de 1998 a 2002. f=iz 2 anos de public
iro ano de direito . Ai, vim embo ra, por livre e espon tâ-
nada, depo is fiz o prime
nea pressão.
ser gente . f=oi lá que eu desc obri
f=oi na cidad e cinza que apren di a
lá. t: tudo conti nua sendo lá. f quem
onde é o centr o do mund o. f=oi tudo
e apren de, depre ssa a cham ar-te de reali-
vem de outro sonho feliz de cidad
dade.
apart amen to e escol a para mi-
Agora, estou preste s a voltar. Procu rando
da minha vida (emb ora tenha passa do
nha filha, tenho vivido os melho res dias
a essa calma).
por uma tensã o absur da para chegar
~) Vida que come ça mais uma vez .
._,_,;.~ nunca moro u dever ia morar. A
Quem mora em São Paulo reclama. Quem
a.
é na capita l que tudo acont ece. Bomb
verda de é que não dá para negar que
al, ala-
em um único lugar. Trânsito infern
Opor tunid ades, negócios, lazer, tudo
game nto, violên cia. Comp ensa. Da força da grana que ergue e destrói coisas
as estrelas.
belas, da feia fumaç a que sobe, apag ando
e minha filha, já teria voltad o para lá
Sou suspe ita pàra falar. Se não tivess
de e não vou deixa r passar por nada
faz tempo . Agora surgiu uma oport unida
nesse mund o .
sim. Quan do acaba a Caste lo
Algum a coisa acont ece no meu coraç ão,
em êxtase. Sinto -me chega ndo em casa,
Branc o e come ça a Marginal, eu fico
cidad e onde morei .
coisa que não sinto em nenhu ma outra
quan do chegu ei lá pela prime ira
Não terei desta vez o choqu e que tive
vez. Adole scent e, bobin ha, quan do eu
te encar ei frente a frente não vi o meu
lá é o meu lugar.
rosto. Volto mulher, madu ra e segura de que
~m clima de alegria e mudança, falaremos agora
das duplica tas. Prepara-
do? Aprov eito para convid ar cada um de vocês
para tomar um café comig o na
Avenid a Paulista quand o estiver em por lá.
................................................................................ ...
~

A lei que disciplina esse título de crédito é a n. 5-474/


68. Assim como eu confessei
não ter lido a Lei Uniforme, aqui é a mesm a coisa.
Nem sabia o núme ro dessa leLVi-
vendo e apren dendo . Agora ela está aberta no meu
comp utado r. Digno de foto de
mural .
Essa lei come ça determ inand o que, sempre que houve
r um contr ato de comp ra e.
venda merca ntil a prazo entre pessoas domiciliadas
no Brasil, o vende dor deverá emi-
tir uma fatura para aprese ntação ao comprador.
Essa fatura é um docum ento que
conté m a discriminação das mercadorias vendidas,
e considera-se contra to a prazo
aquele cujo pagam ento é feito depois de no mínim
o 30 dias conta dos da entreg a ou
despa cho da coisa.
Dois anos depoi s da edição dessa lei, o gover no criou
a tal da "nota fiscal-fa-
tura", docum ento que reúne inform ações fiscais e
come rciais : ou seja, pelo mesm o
docum ento, o empre sário que opta por esse sistem
a já emite a nota fiscal (efeitos
tribut ários) e a fatura (efeitos comerciais). A difere
nça é que a nota fiscal -fatur a
deve ser emiti da em todo contr ato de comp ra e venda
, não some nte nos contr atos
a prazo .
Beleza. O que realm ente impor ta para nós é o seguin
te: da fatura, ou da nota
fiscal-fatura, o empre sário pode extrai r um título
de crédit o denom inado duplicata.
Mas olha só: fatura é de emissão facultativa ou obriga
tória (a depen der de o contra to
ser a prazo ou não); nota fiscal-fatura é de emissão
sempre obrigatória. E a duplicata?
A d'.tplicata é de emissão sempr e facultativa.
Legal até aqui? A duplic ata é emitid a com base na fatura
ou na nota fiscal-fatura,
mas o saque não poder á acont ecer depois do venci mento
da obrigação ou da prime ira
prestação.·
Como fizemos com todos os outro s títulos, vamos
ver os requisitos da duplicata:
._ a expressão "duplicata", a data de emissão e o núme
ro de ordem ;
._ o núine ro da fatura ou da nota fiscal-fatura da qual
ela foi extraída;
._ a data certa do venci mento ou a declaração de ser
ela à vista;
._ o nome e o domicílio do vende dor e do comp rador;
._ o valor a pagar;
._ o local elo pagam ento;
._ a cláusula à ordem;
._ a declaração do recon hecim ento ele sua exatid
ão e da obrigação de pagá-la
destin aca ao aceite do comp rador ;
._ a assina tura do emite nte, poden do ser utilizada
a rubrica mecânica.

Duplicatas
208
Olha ela aí:

MODELO .._,
~C.HPJ ... -
"""""' .......

,,.
....•.
JSD P'C()U4r.( A
111o:tn.c.!1o· r.1. lloi.CJ..lU.

:l ~~~ '·:~;:~~~~;t~~~~~~;~~;J~;:~~~;~~~~:;~~;~~=~~~~~~
~~~~-..rM\,1t.AI)(vtiOit
,LlltR(. ANTL .... ~tca'MOA
a .w,...,.~,.~·~-
~J
-~
KA.fJJ.U.Df.~MJ\'[~SDJ.oCX)
eR.It:J()S~U:OAi!t.WSDESPES
,..I.S

Quem emite duplic ata eleve ter o cham ado livro ele
duplicatas. Nele serão escri-
turada s todas as emissões, com os respectivos núme
ros etc.
Cada duplicata só pode corres ponde r a uma fatura
(toda vez que falarmos "fatu-
ra", estare mos inclui ndo a nota fiscal-fatura no conce
ito, ok?), mas, se a venda for
parcelada, o vende dor pode escolher: ou emite uma
só e discri mina nela todas as par-
celas, ou emite uma duplic ata para cada parcela. Nesse
caso, todas elas terão o mesm o
núme ro e serão identificadas pelo acréscimo ele uma
letra elo alfabeto.
O devedor princi pal na duplic ata é sempr e o comp
rador (sacado).

28.1. Causalidade da duplicata


Todos os título s ele crédit o encon tram- se vinculados
ao direit o cambial, e, assim,
devem respeito àqueles princí pios que vimos no começ
o: cartulariclacle, literalidade e
auton omia.
Mas veja a diferença entre a duplic ata e os demais títulos
: ela só pode ser emitid a
como repres entaçã o ele uma comp ra e venda ou em
uma presta ção de serviço. É isso
que se cham a ele causa lidade da duplic ata .
Como eu não consigo ficar longe do direit o penal,
e toda vez que tenho a deixa
falo dele, olha o crime elo art. 172:

"Art. 172. Expedir ou aceitar duplicata que não corresponda


, juntamente com a fatura
respectiva, a uma venda efetiva de bens ou a uma real presta
ção de serviço.
Pena- Detenção de I a 5 anos, e multa equivalente a 20%
sobre o valor da duplicata".
Entendeu? Emiti r uma duplic ata que não corres ponda
a uma comp ra e vencia é
crime. É a cham ada duplic ata simul ada .

209 Empresarial para quem odeia empresarial


28. 2. Aceite
30 dias conta-
O vended or deverá enviar ao compra dor a duplicata, no prazo de
dos da sua emissão. O compra dor, então, pode fazer cinco coisas:
1o dias, contado s do
a) assinar o título e devolvê-lo ao vended or no prazo de
recebim ento;
b) devolver o título ao vended or sem assinar;
ento;
c) devolver o título ao vended or justifica ndo o porquê do não recebim
d) não devolver o título, mas comuni car o vended or do aceite;
e) não devolver o título e não falar nada.
Tá. E o que vai acontec er a partir daí?
o compra dor,
Seguinte: a duplica ta é título de aceite obrigató rio. O sacado, que é
a a recusar o aceite. Lembra
deve aceitá-lo, exceto nas situaçõ es em que a lei o autoriz
câmbio, por exemplo ,
que nos outros títulos de crédito isso não acontece? Na letra de
o sacado não tem obrigação nenhum a de dar aceite. Dá se quiser.
...................................................................................
daquela s ele vó que eu já comente i aqui em algum lugar:
;/lliáA_, ~ fw.a,
cada um dá o que tem.
···················································.·································
é autoriza -
Então, é assim: a Lei das Duplica tas traz as situaçõe s em que a recusa
da. Está no art. 8~. Olha ele aí:
"Art. 85'. O comprador só poderá deixar de aceitar a duplicata por motivo de:
entre-
I - avaria ou não recebimento das mercadorias, quando não expedidas ou não
gues por sua conta e risco;
rias, de-
11 - vícios, defeitos e diferenças na qualidade ou na quantidade das mercado
vidamente comprovados;
11l - divergência nos prazos ou nos preços ajustados".
É só nesses casos que o compra dor pode recusar- se a dar o aceite,
e, com isso, li-
r outra hipótes e,
vrar-se da obrigação cambial que a duplica ta represe nta. Em qualque
a obrigação estará constitu ída, ainda que ele não dê o aceite.
o compra -
Por corita disso, e levando em conside ração aquelas alternat ivas que
tipos de aceite na
dor tem quando recebe a duplica ta, pode-se dizer que existem três
duplica ta: .
.. aceite ordinár io: é o básico. O compra dor assina o título e beleza;
dor retém o
.. aceite por comuni cação: é o que estava lá no item d. O compra
quando a instituiç ão finan-
título, mas avisa o vended or elo aceite. Só pode acontec er
ceira cobrado ra autoriza;
apõe no tí-
.. aceite por presunç ão: é o que acontec e quando o compra dor não
r, mas não há nenhum a das causas
tulo seu aceite, nem comuni ca o aceite ao vendedo
que autoriz am a recusa.

?1()
e se essa justi-
Então, só se o compra dor informa r e justificar a ausênci a de aceite
pela duplicata.
ficativa estiver dentro das hipótes es do art. 8~ é que não se obrigar á
com uma só
De resto, meu povo, aplicam-se as disposições da letra de câmbio,
peculia ridade.
daquele cuja
Se houver aval em branco na duplicata, será conside rado em favor
ra ali, é con-
assinatu ra estiver acima da do avalista. Se não houver nenhum a assinatu
189 do STF:
siderad o em favor do compra dor. Precisa lembrar também da Súmula
"Avais em branco e superpostos consideram-se simultâneos e não sucessii"Os". Isso quer
dizer que os obrigad os são coavalistas do sacador.

28.3. Protesto
de devolu-
Três são os tipos ele protesto na duplicata: por falta ele aceite, por falta
do título, ou seja, se 0
ção ou por falta ele pagame nto. Se o vended or não está ele posse
por indicaç ões .
compra dor não devolveu o título a ele, poderá ser feito o protesto
Exceção ao princípi o da cartular idade.
nto e no
Em qualque r das hipóteses, o protesto deve ser feito no local do pagame
no prazo, o ven-
prazo de 30 dias a contar do vencim ento do título. Não fazendo isso
dedor perde o direito de cobrar o título dos coobrig ados.
A execução da duplica ta vai depend er da modalid ade de aceite.
então, só será
Se foi ordinár io, a duplicata, por si só, é título execütivo. O protesto ,
l (compra dor) e avalista não.
necessário para cobrar os codevedores: devedor principa
a comuni -
Se o aceite foi feito por comunicação, o título executivo é exatam ente
que aceitou a
cação, ou seja, a cartinh a que o compra dor enviou ao vended or dizendo
duplica ta e reteve o título.
vended or vai
Por fim, se o aceite foi por presunção, para ter título executivo o
precisar do seguint e:
e a duplica ta
.. protesto cambial: se ele tiver a duplicata, faz o protest o normal
o e o instru-
protesta da é o título executivo; se não tiver, faz o protest o por indicaçã
mento do protesto é o título;
quando
.. compro vante da entrega da mercadoria: é o canhoto que você assina
aquele papel que você assina e devol-
te entrega m uma coisa que você compro u. Sabe
ve pro tiozinho da transpo rtadora? É a prova do recebim ento.
or Hugo
Sobre o protesto por indicação, olha que tudo essa explicação do profess
Zaher, que consta no Portal LFG'':

1S_dirdto-comercial_o-que-e-
14 Disponível em: <http:/jwww.lfg.com.brjartigoj2oo809161403251
protesto-por-indicacao-hugo-zaher.htmi>. Acesso em 1-3-2012.

211 Empresarial pera quem odeia empresarial


"Trata-se do protesto - por falta de aceite, de devolução ou de pagamento - tirado
pelo sacador, quando o sacado recebe a duplicata para o aceite e a retém, de maneira que
poderá o sacador, para efeitos de protesto, apresentar simples indicações do portador.
Note-se que, se o sacador não remeteu ao sacado a duplicata para que fosse aposto o
aceite, não haverá o que se falar em protesto por indicação. Portanto, é requisito essencial
do protesto por indicação a prova de que o título foi encaminhado ao sacado.
Essa explicação encontra respaldo expresso no artigo 13, jJ 1E., da Lei n. 5-474/68".
Fácil, né?-
Mais uma coisinha: e a triplicata? O que é? Basicão: é uma segunda via da dupli--
cata. Então, se a duplicata se perdeu ou se extraviou, a lei permite que seja emitida a
triplicat2.; Ela não representa uma nova obrigação, mas a mesma, portanto é feita com
base nas informações que constam lá no livro de duplicatas.
Em relação à ação de execução, deverá ser proposta no local de pagamento do
título, que nele deve constar. Os prazos prescricionais são os seguintes:
~ 3 anos contados do vencimento, se a execução for contra o sacado ou avalistas;
~ 1 ano contado do protesto, se contra os endossantes;
~ 1 ano contado do pagamento, se for ação de regresso.

28.4. Duplicata por prestação de serviço


A Lei da Duplicata permite que empresários individuais ou sociedades empresá-
rias que ?restem serviço emitam fatura e duplicata, nos mesmos moldes da duplicata
de compra e venda.
Na fatura, deve estar discriminada a natureza do serviço prestado, e o valor será
o preço deste.
As regras são exatamente as mesmas para a duplicata de compra e venda, sendo
considerados motivos que autorizam a recusa do aceite a não correspondência do que
consta na fatura com os serviços efetivamente prestados, vícios ou defeitos na qualidade
do serviço devidamente comprovados e a divergência nos prazos ou preços ajustados.
Aqui também pode acontecer o protesto por indicação, mas para que seja feito é
necessário que se apresente ao cartório um documento comprovando o vínculo con-
tratual e que o serviço foi mesmo prestado.
Outro título de crédito por prestação de serviços é a chamada conta de serviço. É
basicamente a mesma coisa que a duplicata de prestação de serviços, mas recebe esse
nome porque emitido por profissional liberal ou prestador de serviço eventual. Assim,
não tem aqui nada de livro de duplicata.
É um documento no qual consta o serviço prestado, sua natureza, valor, data e
local do pagamento e o vínculo que o originou. Deverá, então, ser levado a registro no
Registro de Títulos e Documentos, e enviado a quem contratou o serviço. Não pago,
o emitente pode então protestar e executar. Entendeu o lance? Para cobrar, precisa do

Duplicatas 212
protesto, mesmo que a execução seja contra o devedor principal. E mais: a exigibilida-
de depende também de comprovação da prestação do serviço.

·····················································································
é iMo., gai.eA.i.nAa do. eem.
~u continuo esperando ansiosamente a data da minha mudança. Ainda
nem comecei a empacotar as coisas. Mas o simples fato de ter a certeza de
que eu estou voltando me deixa absurdamente feliz.
Para alguns pode parecer loucur·a, mas. para mim, é sempre lindo andar na
cidade de São Paulo.
····················································································

213 Empresarial para quem odeia empresarial


:--~....,

~~
-~ ~1!.::-,

"':_:;::.~2_:
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}
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. I

29. Me u qua rto , me u mundo::;}

-~í.tÚiós· de creditq lrrfpróprios,,


"ifúiJo$· :de;cr~difo ele~rônicos-

....................................................................................
de ter
.!linda não. me. rnu..dei, então não coloqu ei em prática aquele sonho
des-
uma casinha linda e arruma da. Sentad a na cama agora, senti vontad e de
da bagunç a, sei disso. Mas vai
crever meu quarto . teu deveria me enverg onhar
pessoa s têm ele mim. Se essas
servir para desmis tificar a imagem que alguma s
ia de compr ar meu livro, vão ver que, sem necess ida-
pessoa s tiverem a decênc
aqui.
de ele citar nomes, eu fiz uma homen agem a elas
e
Minha cama encost ada na parede . Odeio isso. e
O ideal você poder sair

ela cama por qualqu er lado. O mais ideal ainda


e que você tenha dois criaclos-
as gavetas dele ele coisas ele
·mudos , um ele cada lado da cama, para encher
criado- mudo, e não posso
que você não precisa . Mas eu não tenho nenhum
eu queria me suicida r: a janela
sair pelo lado direito ela cama. A não ser que
está bem ali.
dela, que ele
~grandona. King size. [ tem sempre 8 travess eiros em cima
porque eu não durmo com travess eiros.
manhã estão todos jogado s pelo chão,
aqui. .
Mas eles estão sempre
i não me lembro para
Do meu lado esquer do, uma estante que eu compre
da casa e n~o combin a com
quê, mas que já passou por todos os cômod os
am entre si. 1-ioje essa estan-
nenhum deles. Na verdad e, poucas coisas combin
pratele iras de cima, mais um
te está ocupad a com meus sapato s, e, nas duas
. Desde a caixinh a de cotone -
milhão ele coisas que eu não tenho .onde colocar
tes até uma bíblia.
dizer o que é, e que com-
Ao lado da estante , outra coisa que eu nem sei
ele que não me lembro mais. Uma
prei algum dia por um motivo. especí fico
Talvez minha mãe saiba um
mesinha, talvez. Pode ser. Ou um miniap arador.
nome francês para esse tipo ele móvel. ~u não
sei.
e perfum es, e lava nelas,
tem cima dele, todos os meus cremes hiclrata ntcs,
ele coisa. Na parte de baixo,
e cremes para as mãos. e para os pés, e esse tipo
mais sapato s .
o caos. Tenho medo todas
Meu guarda -roupa f;ca bem na minha frente e é
as vezes que abro as portas.
o que signific a dizer qJe
1-ioje meu quarto está extrem amente arruma do,
tem. Odeio dobrar roupa.
não tem nada espalh ado pelo chão. Mas, em geral,
. Depois eu embolo tudo e
As que eu tiro acabam ficando ali no canto mesmo
coloco para lavar. Bem mais fácil.
mas não convém . Acho
teu poderi a continu ar descre vendo minha casa,
descul pas aos demais pela per-
que alguém já tirou as dúvida s que tinha. Peço
ela de tempo. Juro que foi necess ária.

Vamos ver a última parte dos títulos de crédito agora.

29.1. Títulos de crédito impróprios


entam obrigações, e
Vimos que títulos de crédito são instru mento s que repres
cartularidade e autono -
que se encon tram submetidos aos princípios da literalidade,
mia. Até aqui, nada de novo.
mente , sobret udo pelo
Acontece que esses princípios têm sido mitigados ultima
os dizer que hoje em dia
desenvolvimento absurdo do comércio eletrônico. Podem
desses princípios, embo-
algüns títulos acabam por deixar de obedecer a um ou alguns
alguma coisinha de dife·
ra se subme tam ao mesm o regime jurídico. Eles aprese ntam
za de título de crédito,
rente, algum a particularidade, que não desnat ura sua nature
nas definições até agora
mas també m não permi tem que se enqua drem totalm ente
estudadas.
e podem os dizer que se
A eles damos o nome de títulos de crédito impróprios,
subdividem em quatro categorias:
~ títulos de legitimação: são os que confer
em uma prestação de servi~o ou o
a "raspadinha". A esses se
acesso a prêmios. Exemplos: o bilhete do metrô e a famos
executivos;
aplicam os três princípios de direito cambial, não são títulos
~ títulos representati\;os;
~ títulos de financ iamen to;
~ títulos de investimento.
Esses três nós vamos estuda r separadamente.

29.1. 1. Títulos representativos


doria custodiada, mas
São docum entos que repres entam a titular idade de merca
porque possibilitam que o
que podem exercer a função de títulos de crédito

215 Empresarial para quem odeia empresarial


proprietário negocie o valor da mercadoria sem prejuízo da custódia. São exemplos o
conhecimento de depósito e o warrant (olha ele aí!).
Trata-se de documentos emitido por armazéns gerais, e substituem o recibo de
depósito. . .
o conhecimento de depósito e o warrant são criados juntos, e precisam estar
juntos para que se retire do armazém a mercadoria. Mas podem circular separada-
mente. É que o conhecimento de depósito representa o direito de propriedade da
mercadoria, enquanto o warrant se refere ao crédito e valor dela.
lsh. Confundiu. Vamos ver melhor.
O conhecimento de depósito transmite a propriedade, enquanto o warrant é di~.
rei to real de garantia sobre bem móvel. Então, .funciona assim: somente quem tiver os
dois documentos tem direito à liberação da mercadoria no armazém gera:!. Mas vamos
supor que eu seja portadora do conhecimento de depósito, só. Eu tenho a proprieda-
de, mas não posso onerar a mercadoria. Então eu posso praticar todos os atos de pro-
prietária, inclusive vender a mercadoria, mas não posso instituir penhor sobre ela. Por
outro lado, se eu sou portadora do warrant, posso fazer exatamente isso: onerar a
mercadoria. O que eu tenho com o warrant, portanto, é a garantia em si, e exatamen-
te por isso posso transferi-la.
A circulação tanto de um quanto do outro se dá por endosso.
. Outro título representativo é o conhecimento de frete. Ele representa mercado-
rias transportadas. Quem emite esse documento é a transportadora, e a finalidade
dele é comprovar que a mercadoria foi recebida e obrigar o portador dele a fazer a
entrega em destino certo. É considerado título de crédito exatamente porque é dota-
do da característica de negociabilidade (a transferência se dá por endosso).
O que dá para perceber é que os títulos representativos têm finalidade primordial
diversa dos títulos de crédito. Seu objeto é sempre a mercadoria consignada, mas,
eventualmente, podem ser tidos como título de crédito, uma vez que podem passar a
se referir à obrigações pecuniárias.

29.1.2. Títulos de financiamento


São instrumentos que representam crédito decorrente de financiamento feito
por instituição financeira. Esses títulos seguem o mesmo regime jurídico dos títulos
de crédito, mas a peculiaridade aqui é a seguinte.
Vamos supor que eu vá ao banco e faça um financiamento para plantar alguma
coisa lá nas minhas terrinhas. Em garantia desse financiamento, dou a própria plan-
tação. Assim: me dá o dinheiro para plantar, e se eu não conseguir pagar, eu te dou a
plantação.
Essa garantia, contudo, é constituída no próprio título, e não em instrumento
separado. É o que se chama de princípio da cedularidade.

Títulos de crédito impróprios e eletrõnicos 216


São exemplos desse tipo de título a cédula e a nota de crédito rural, industrial,
comercial etc.

29.1.3. Títulos de investimento


Aqui temos a letra de câmbio financeira, os certificados de depósito bancário, os
certificados recebíveis imobiliários etc. São títulos que se destinam à captação de re-
cursos por parte daquele que os emite.
As debêntures seriam um exemplo. Mas olha o tempo do verbo: seriam. É que as
debêntures têm regime jurídico próprio (maldita LSA). Só falei nelas aqui para enten-
dermos o que são esses títulos.
Coisa chata, né?

29.2. Títulos de crédito eletrônicos


Em entrevista dada ao si te da Carta Forense, nosso amigo querido Fábio Ulhoa Coe-
lho foi questionado acerca do conceito de títulos de crédito eletrônico. Olha que legal'-':
"Para isso precisamos conceituar, antes, o que é o 'meio eletrônico' ou o 'suporte eletrô-
nico: Trata-se de uma das alternativas de conservação de informações, assim como o papi-
ro, a argila e a pedra foram no passado e o papel tem sido desde sua invenção pelos chineses
e introdução na Europa na Idade Média. No suporte eletrônico, a informação é traduzida
numa enorme sequência de sensibilização elétrica e falta de sensibilização elétrica nos fila-
mentos de um chip. Fala-se em mundo digital exatamente em razão dessas duas variáveis:
a sensibilização elétrica, que costu.ma ser representada pelo Zero, (o) e a falta de sensibili-
zação, representada pelo Um ( 1). Pois bem, no passado, desde sua invenção, o título de
crédito teve por suporte o papel, isto é, todas as informações referentes à obrigação nele
documentada, desde o valor do crédito até a assinatura dos coobrigados, estavam registra-
das sempre por meio de impressão de tinta sobre um tecido vegetal. No título de crédito
eletrônico, essas informações são registradas mediante uma sucessão de sensibilizações e
falta de sensibilizações elétricas".
I\ a mesma entrevista o professor responde acerca da submissão desses títulos aos
princípios de direito cambiário. Segundo ele, o princípio da cartularidade literalmen-
te desaparece. Nem tem como mesmo. Se o lance é eletrônico, como admitir a posse
da cártula? Mas o desaparecimento é tranquilamente superado pela facilidade que
existe de arquivar os registros no meio eletrônico.
Quanto à cartularidade, basta fazer a adequação. Se originalmente esse princípio
prevê que somente é valido o que consta da cártula, quando falamos em títulos eletrô-
nicos valerá somente aquilo que está registrado no meio eletrônico.

15 Disponível em: <http://www.cartaforense.com.brjMateria.aspx?id=sl99>. Acesso em 28-12-20 12.

217 Empresarial para quem odeia empresarial


que
Finalmente, quanto ao princípio da autonom ia, nada de novidade, uma vez
circular
uma obrigação cambial, mesmo que represen tada por título eletrônico, irá
sempre de maneira autônom a e indepen dente das que a antecede m.
E é assim que terminam os mais uma parte do nosso livro. Legal, né? Estamos
o livro
chegando ao fim. E eu já começo a sentir um aperto no coração. Foi assim com
de tributári o também . Dá medo de acabar. ..
········································do ···········································
f.nC.im, 'fW-'" CJ.~U;L, vou fechar a porta guarda-ro upa e dormir.
····················································································

218
Títulos de crédito impróprios e eletrônicos
I ·' :./··~;:.~:/
- ' ~·
y·'
... "'~:S/

. '.,· ·-~-

._, .

30. Alto s e baix os: -~ .•.. - 1·. >·--/.~-;

contrato~· m~rcantis: introd~.;~ç(tb

Antes de mais nada, já digo: hoje estou no baixo.


Úilim.a p.a;úe do. f.iuJw..
segundo
Na verdade, minha vida anda como uma montanha -russa: num
outro, no inferno. O camie1ho entre um e outro é percorrid o
estou no céu, no
depressa demais, não dá tempo de me acostuma r.
to mais
Aí, digo que não sei por que fico triste, sendo certo que teria mu
para ficar feliz. tvlas eu sei, sim. Sei bem. Tão bem que escondo iá no
motivos
em gaiolas
fundo de mim aquilo que não quero encara·. Meus monstros , presos
que não rne deixam
minúscula s e escuras, mas que, ainda assim, .emitem sons
esquecer que estão lá.
Alguns dias, quando estou no alto, tenho disposiçã o e coragem suficiente
me ajoelho
para encará-lo s e até enfrentá- los. NoutrJs, como hoje, apenas
passar e torcendo para que
quietinha num canto qualquer esperand o o tempo
ninguém me veja. Não é uma boa saída, eu sei, mas é o que faço.

~m geral. meus períodos de depressã o acontece m durante a


noite. :Juando

fica escuro, eu não enxergo direito e me entrego. ~ rr.e perco. Deixo-me perder.
de la-
Já quase nem reclamo mais. Se você acha que isso aqui é um m3r
algum tempo atrás. Aprencl: que os
mentaçõe s é porque não me conheceu
que os dias bons sejam mais valorizado s.
dias ruins são necessár ios para
Vamos começi1r logo, senão eu desardo. Igual maionese .

-A 'celebração de contrato é inerente à atividade empresarial. Observe o exemplo


i mó-
~usou empresá ria individual. Para abrir minha lojinha, precisei alugar um
con-
.vel. Depois disso, precisei contrata r uma vendedo ra e uma fa:'{ineira. Aí, abri uma
que vou revender . Cha-
. -t~-~b banco no nome da loja e fui ao Brás comprar as roupas
na loja.
,__:~::rtl~i c:i tiozinho do cartão de crédito para ele deixar eu ter uma maquini nha
e:~~~epois comecei a fazer as minhas vendas.
--~1
Nesse exemplo, no qual os termos técnicos foram absolutamente desprezados, eu
citei seis contratos. É fato: não tem como um empresário individual ou uma socieda-
de empresária funcionar sem eles.
Os contratos são chamado mercantis quando as duas partes são empresárias, e
estarão vinculados às normas de direito civil ou de direito do consumidor. O que de-
termina essa vinculação são as condições dos contratantes.
O estudo da teoria geral dos contratos é matéria de direito civil (eu não tenho
nada a ver com isso). Falaremos, nos capítulos seguintes, sobre os contratos mercantis
em espécie.

·················································••,••·······························
é. fu ui. 'J-o.i um capitv1o. ~ cWlio-. Talvez nem devesse se cha-
mar capítulo. Mas chama. 1::: vai continuar chamando. Porque eu quero ass1m, e
pronto.
Ando sentindo muita falta ultimamente. !=alta do que eu não tive, nem vou
ter. Porque nada do que tenho me satisfaz. Mas o que não tenho, serpente.
Sinto falta do que não vivi. Porque o que eu vivo me cansa. 1::: das coisas pelas
quais não vou morrer. Porque, do meu fim, já sei.

Contratos mercantis: introdução 220


-,. - .. ..,

·v~~~t~tl
31. Se~ comentórlot::~:~;,__.F9 (. $~~ ,!
.. \~-:~'"'r.·.~f
\(~"'~-

····················································································
eo.n.túu.w. ciiata., ~ 'flR1a quaiCJ.O.U p.o.up.a!z- todo mundo de q u aIque r
comentário hoje.
D"ireto ao ponto.

····················································································
Vamos começar a falar dos contratos em espécie, e o primeiro deles é o de compra
e venda. Mas veja: não é da compra e venda comum que falaremos. Portanto, não vai
entrar aqui o contrato que eu firmo com o dono da padaria quando compro um pão
de queijo e um café. A compra e venda mercantil, objeto do nosso estudo, acontece
sempre entre dois empresários·.
Na classificação geral dos contratos, a compra e venda mercantil é um pacto con-
. sensual: as partes sentam, negociam as cláusulas, chegam a um acordo com relação à
i~J
~'<;ontade de cada uma e pronto. Qualquer coisa pode ser objeto desse contrato: uma
casa, mercadorias, animais, plantações, tanto faz. O preço deve ser pago em dinheiro,
regra, em moeda nacional. Se não for pago em dindin, será uma troca e não uma
e venda.
de regra, os contratos de compra e venda mercantil se submetem a todas
regras e possibilidades previstas no Código Civil. ._,
'Àssim, podemos ter a venda por amostragem, que é uma espécie de contrato sob
condição suspensiva, que não se aperfeiçoa até que haja a tradição do bem com a qua-
esperada.
Podemos ter também a venda a contento (condição igualmente suspensiva), que
somente se aperfeiçoa quando o comprador se declara satisfeito com o bem adquirido"'.

TARTUCE, Flávio. Manual de direito civil: volume único. São Paulo: Método, 201 1.
s resolutivas. Por exemplo, se a entr ega
Pode m aind a ser gravados com cond içõe rato .
ou dete rmin ado local, resolve-se o cont
do bem não se der em dete rmin ada data "constitui um
cláu sula ele retro vend a, que
Há tamb ém a possibilidade da cham ada o direi de
to
a pelo qual o vendedor reserva-se
pacto inserido no contrato de compra e vend e
dentro de um certo prazo, restituindo o preço
reaver o imóvel que está sendo alienado, que
comprador no período de resgate, desde
reembolsando todas as despesas feitas pelo
previamente ajustadas"". to
tamb ém aqui segu imos as regras elo direi
Com relação à execução elo cont rato,
civil: ;
cumpridas logo que o cont rato é concluído
a) execução imediata: as obrigações são futur o;
é feito em uma únic a vez, no
b) execução diferida: o cum prim ento
prim ento é sucessivo e periódico.
c) execução cont inua da: o cum
s, perm anec emo s dent ro do direi to civil.
Rela tivam ente às obrigações elas parte a
a a entre gar a coisa e o com prad or se obrig
Cele brad o o cont rato, o vend edor se obrig 475 do
desc ump re o ajustado, aplica-se o art.
a paga r o preço. Se algu ma das part es
Cód igo Civil:
to pode pedir a resolução do contrato, se
"Art. 475· A parte lesada pelo inadimplemen por
ndo, em qualquer dos casos, indenização
não preferir exigir-lhe o cumprimento, cabe
perdas e danos".
e evicção e vício redib itóri o. Eu sei, esta-
Tam bém se aplicam aqui as regras sobr , com
ratos aqui, maté ria que você já apre ndeu
mos só falando ele teori a geral elo cont
adinha, né?
certeza, mas não cust a nada dar uma revis
Pelas lições ele Flávio Tart uce, evicção
é a perda da coisa diante de uma decisão ju-
ui a terceiro 1'. )á os vícios redib itóri os são
dicial ou de um ato administrativo que a atrib
m imprópria para uso ". Previsão legal nm
1

os defeitos que desvalorizam a coisa ou a toma


arts. 441 a 446 elo Código Civil.
esas com tran spor te e entre ga da coisa
Regra geral, caberão ao vend edor as desp . Mas
trans port e ocor rerá por sua cont a e risco
avençacla, e a cont rataç ão elo serviço ele
er outr as coisas.
isso é a regra geral: o cont rato pode prev ara
Qua ndo o cont rato envolve emp resá rios situa dos em países diferentes, a Câm
ados lnco -
mas cláusulas-padrão. São os cham
ele Com ércio Inter naci onal estip ula algu elo
para dividir os cust os e responsabilidades
terms, e são regras utilizadas justa men te
edor e com prad or.
tran spor te ele merc ador ias entr e vend
e venda, que se enco ntra m basi cam ente
Até agora, vimos regras gerais da com pra antis ou
os cont rato s ele com pra e venda, merc
na legislação civil e se aplic am a todo s

TART UCE, Flávio. Manual de direito


civil, p. 591.
17
TART UCE, Flávio . Manual de direito civil, p. 547·
18
al de direito civil, p. 540.
19 TARTUCE, F_lávio. Manu

222
Compra e venda mercantil
iona das
dos cont rato s merc antis , que estão relac
não. Passemos agor a à especificidade
falid o.
ao caso em que o deve dor enco ntrar -se
e vend a com um, se o deve dor (pessoa física) estr· ver em
Em se trata ndo ele com, pra. . . -
est d d · 1, · ite que o vend edor exiJ·a uma cauçao para
a o e,mso venera, o Codrgo Crvtl perm
. É o art. .
proc e d era entr ega da coisa avençada 495
antil . Pode rá aqui ' 0 vend edo r eXIg · ·
lsso não ocor re na com pra e vend a merc ' ir a
· · - d · . inist rado r judic ial para que este de-
o do adm
r~strtmçao a corsa ou amd a a notificaçã •. t"
ão não pode · Entã o , 0 ar
crda sobr e a reso lução_ ou não do cont rato. Mas exigir cauç rgo
. .
merc antis , e sim as regra s da LF
pras e vend as
que Citamos acrma nao se aplica às com ·
Belez~

···································
~············:···················:··········· o mais frequ ente . t: eu ainda me
wnilw1o. e Bem~· t: tamb ém
o fora da maté ria.
recus o a fazer qual quer come ntári
·········
···········································································

223 Empresarial para quem odeia em Jresarial


\ v ........·.

....................................................................................
Mw. que já Caieiaqui que o. fUd da minAa {J1Aa e4.tá ~· Devo ter
pas-
sado rapida mente sobre o assunto. Não sei
por quê, hoje senti vontad e de falar
sobre isso. Talvez porque , embor a tenha
se passad o um tempã o, o assunt o
ainda me machu que. t: falar sobre sempr·e
ajuda.
t:ra urna quinta -feira, 5 da tar·de. Não estava
frio para urna tarde de agos-
to. Minha filha tinha exatam ente 1 mês e 5
dias -dia 17 de agosto de 2007- t:la
estava dormi ndo na s~la, e eu aprove itei para
dormi r um pouco també m. As
mães de bebês peque nos têm que aprove
itar os raros mome ntos de folga
para descan sa r.
No mome nto em que o telefo re tocou, eu não
soube ao certo se era par-
te do meu sonho ou se ele realme nte estava
tocand o. Por via das dúvida s. re-
solvi atende r. O pai da cria tinha viajado. então
achei que era ele avisan do que
já tinha chegad o.
Não, não era.

<r;'\:h Urna voz estran ha, pergun tando se ele era


mos no papel, mas eu me consid erava, sim,
meu parent e. Nunca nos casa-
sua esposa. !=oi o que eu disse.
.... __ ,.. ,~./'.·:: Resposta: "t:u sou advog ado. e ele está preso"
.
Burnl
Não absorv i bem as palavra s a princíp io. Levant
ei. A prince sinha contin u-
ava a dorrn·rr. t:u sabia que em pouco s minuto
s ela acorda ria. pois estava quase
na hora de mamar. Liguei para o padrin ho dela
e contei o que tinha acaba do de
ouvir. Nesse mome nto, comec ei a chorar. Muito.
Soluçar.
t:u não queria acredi tar. Lavei o rosto e me
recom pus. Acho que a cria
soube exatam ente que eu precisa va daque
les 15 minuto s além do hor·ário da
mamada. Acord ou, rnas r1ão chorou muito.
t:la apena s queria rne avisar que
estava com fome. Tão peque na. lão frágil.
Tudo bem. filhinha . A mamã e está aqui.
Seus olhinh os ainda não estava m compl etame
nte aberto s. t:la mamava
com a força da fome. A sensaç ão de amam
entar é urna das melho res que eu já
experi mente i. Incríve l como o corpo human
o pode produ zir alimen to. Mágica a
ligação que se forma entre mãe e filho no mome
nto da amam entaçã o.
t:ra o pesád elo começ ando. e nós tínham
os uma filha agora. Urna filha.
Com pouco mais de 1 mês. t:u tinha tanta coisa
pra pensa r que nem sabia por
onde começ ar.
Sem rumo, liguei para meu pai. que estava
aqui em Bauru. "Pai ... você vai
demor ar? Pode vir aqui em casa quand o sair?". t:le
nem questi onou nada. Pro:
vavelm ente sentiu alguma coisa errada na
minha voz. "fslou indo agora, filha".
Chego u pouco s minuto s depois . A casa estava
tão arruma da quanto pos-.
sível, e isso significa que estava bem bagun
çada. Como eu já disse, quand o
nasce um bebê. tudo muda, inclusi ve o tempo
dispon ível para faxina r.
O pai da Giulia foi preso, pai.
Choro . t: mais nada .

Falaremos agora de outro s contratos, que denom inarem


os contra tos de colabora-
ção. Funciona assim: uma parte se une a outra no intuit
o de criar ou ampliar mercado.
Nas lições de Fábio Ulhoa, 'o colaborador se obriga a
fazer investimentos em divul-
gação, propaganda, manutenção de estoques, treinamento
de pessoal e outros, destinados
a despertar, em consumidores, o hábito de adquirir produ
tos ou serviços do fornecedor'"'o.
Percebeu o lance? É comp letam ente diferente de um
contra to de forne cimen to
de mercadorias, por exemplo, em que o comp rador
não tem nenhu ma obrigação de
buscar, criar ou aume ntar o nl.ercado para a coisa que
ele compra.
A relação entre as partes contr atante s també m é peculi
ar: como todo contr ato
mercantil, os contra tos de colaboração são firmad
os entre empresários, mas o dife-
rencial é que o contr atado ficará subor dinad o ao contra
tante, organizando-se confor-
me as orientações deste.
Bem impor tante: a subor dinaç ão não tem caráte r pessoa
l. Se tivesse, o contr ato
seria regido pelas norm as do direit o do trabalho, e
geraria vínculo de emprego. Não é
o que ocorre: o contr atado possui negócio próprio,
e a subordinação é meram ente
empresarial.
~
Esse contratos podem ser de duas espécies: por aprox
imação ou por intermediação.
São exemplos de contra tos de colaboração por aprox
imação o de comissão e o de
representação comercial, porqu e não há aqui intermediaçã
o, e sim uma identificação de
quem esteja interessado em adquirir os produtos do
fornecedor. O pagamento é feito
mediante percentual calculado sobre os negócios que
o contra tado ajuda a realizar.

20 COELH O, Fábio Ulhoa. Manua l de direito comerci


al, p. 485.

225 Empresarial para quem odeia empresarial


em mente a
Já quando falamos elos contrat os por interme diação, precisamos ter
produto s do
franquia e a concessão, em que o contrat ado (ou colaborador) adquire
remune ração via percentual,
contrat ante para revenda. Aqui não há que se falar em
porque o contrat ado aufere os lucros da própria atividade.
ação.
O contrat o de distribuição pode enquad rar-se em uma ou outra classific

32.1. Comissão
As partes aqui são denomi nadas comissário e comiten te.
negócios do
O comissário será sempre uma sociedade empresária que realizará
as pessoas
comiten te, mas por sua conta e risco. É ele quem se responsabiliza perante
o comiten te nem sequer particip a dessas negocia ções.
com quem faz negócios, porque
o de comissã o e o mandat o, sendo
Podemos traçar um paralelo entre o contrat
que couber, as
certo que o próprio Código Civil determ ina que se aplicam àquele, no
de outra. A dife-
regras deste. Nos dois, uma pessoa se obriga a praticar atos em nome
ário, se agir den-
rença, contudo , está na responsabilidade de cada um deles: o mandat
os, nunca respond erá, pois seus atos são sem-
tro dos poderes que lhe foram conferid
rio não: é ele quem respond e pelos
pre realizados em nome do mandan te. Já o comissá
determi nação do comi-
atos que pratica, pois os pratica em seu nome, ainda que por
tente.
deveres do
A disciplina legal está no Código Civil, arts. 693 e seguintes, e um dos
e no sentido ele evitar prejuízo s ao comi-
comissário é agir com diligência, não soment
se espera do negócio .
tente. Deverá, ainda, buscar o lucro que razoavelmente
risco, é impor-
Embora tenham os afirmado que o comissário age por sua conta e
quem contratar,
tante saber que ele não respond e pela insolvência elas pessoas com
a cláusula de/ credere. Essa cláusula deter-
exceto se no contrat o de comissão constar
e devedor perante o comiten te
mina a responsabilidade solidária entre comissário
ração mais elevada,
Via de regra, a inserção dessa cláusula gera ao comissário remune
exatam ente por conta do maior risco.
o, ou seja,
Como dito, a remune ração elo comissário dá-se por meio de comissã
ual. Se o comissá rio não puder conclui::
dos negócios que realizar, receberá um percent
será devida a remune ra-
negócios que começou, por exemplo, no caso de morte dele,
ção proporc ional ao trabalho desenvolvido.
reembolso
A lei autoriza, ainda, o comissário a reter o valor recebido a título de
mas deverá obedece r a certas regras, como as
de despesas feitas e comissões devidas,
instruçõ es dadas pelo comiten te e a prestação de contas periódic a.

32.2. Representação comercial


·possa apre-
A representação comercial é uma atividade autônom a, que, embora
o mandat o, rege-se por regime jurídico próprio.
sentar certos traços de ligação com

Contratos de colaboração 226


compra e venda
Por ela, uma das partes, o represe ntante, obriga-se a obter pedidos de
de produto s fabricados pela outra parte, o representado.
al é o
A disciplina legal encontra-se na Lei n. 4.886/65, cujo dispositivo inaugur
que se segue:
pessoa fí-
"Art. 1'!. Exerce a representação comercial autônoma a pessoa jurídica ou a
conta de uma
sica, sem relação de emprego, que desempenha, em caráter não eventual por
o de negócios mercantis, agencia ndo propos-
ou mais pessoas, a mediação para a realizaçã
ou não atos relacionados
tas ou pedidos, para, transmiti-los aos representados, praticando
com a execução dos negócios".
e estão im-
O represe ntante comercial deve ser registrado no Conselho Regional,
atividad e empresa-
pedidas de exercer essa função as pessoas que não podem exercer
crimes denomi-
rial, os falidos não reabilitados, os que tenham sido conden ados por
ação ·indébita,
nados pela lei como infaman tes (falsidade, estelionato, apropri
tiverem o registro cancela do. A falta do
contrab ando, roubo, furto etc.) e aqueles que
registro impede o pagame nto da remuneração devida ao represe ntante.
É vedado aos represe ntantes comerciais, sob pena ele multa:
profissão;
.- causar prejuízo, por dolo ou culpa, ao represe ntado no exercício da
._ auxiliar ou facilitar as pessoas impedidas de exercer a profissão;
._ promov er ou facilitar negócios ilícitos;
._ violar sigilo profissional;
.- negar a prestação de contas ao representado;
a por quem
.- recusar a apresentação da carteira profissional, quando solicitad
de direito.
es e requi-
O contrato de representação deve obrigatoriamente conter as condiçõ
pode ser por
sitos gerais da representação, indicando qual será o seu objeto. O contrato
região em que o
prazo determi nado ou indeterminado, mas sempre conterá a zona ou
ia de exclusividade sobre a zona.
representante atuará, bem como a eventual existênc
ão dos negócio s e do rece-
A remune ração do represe ntante depende da realizaç
ntado não tem
bimento , por parte deste, dos preços, o que significa dizer que o represe
, ficará sem
responsabilidade nesse aspecto. O represe ntante vendeu e não recebeu
pagame nto também . . .
os, o re-
. Por outro lado, uma vez que os pagamentos dos pedidos forem efetuad
o dia 15 do mês
present ante adquire o direito à sua comissão, que será efetuad a até
o monetária.
seguinte ao da liquidação da fatura, sob pena de incidir sobre ela correçã
ou dilações,
·Não tem o represe ntante autonom ia para a concessão de descontos
, e é vedada nessa avença a in-
exceto quando expressamente autorizado por contrato
clusão da cláusula de/ credere.
ser rescin-
A lei elenca os motivos pelos quais o contrat o de representação poderá
dido, por uma ou por outra parte:

227 Empresarial para quem odeia empresarial


'í1rt. 35· Constituem motivos justos para rescisão do contrato de representação comer-
cial, pelo representado:
a) a desídia do representante no cumprimento das obrigações decorrentes do contrato·
b) a prática de atos que importem em descrédito comercial do representado· '
c) a .falta de cumprimento de quaisquer obrigações inerentes ao contrato d: represen-
tação comercial;
d) a condenação definitiva por crime considerado infamante;
e) fcrça maior.
Art. 36. Constituem motivos justos para rescisão do con,trato de representação comer-
cial, pelo representante: ·
a) redução de esfera de atividade do representante em desacordo com as cláusulas do
contrato; .
b) a quebra, direta ou indireta, da exclusividade, se prevista no contrato;
c) a fixação abusiva de preços em relação à zona do representante, com 0 exclusivo
escopo dE impossibilitar-lhe ação regular;
d) o não pagamento de sua retribuição na época devida;
e) força maior".

Nos casos do art. 35, o representado poderá reter a comissão devida, para ressar-
cir-se de eventuais danos que lhe foram causados.
· Se falir o representado, os créditos devidos por este ao representante serão con-
siderados de natureza trabalhista, mas isso não faz presumir qualquer tipo de vínculo
emprega~ício entre um e outro.

32.3. Concessão comercial


Tr~t~-se de contrato atípico, no qual "um empresário (concessionário) se obriga a
comerczali~ar, com ou sem exclusividade, com ou sem cláusula de territorialidade, os pro-
dutos fabncados por outro empresário (concedente)""'.
Diss~mos ser atípico porque somente há lei que regulamente a concessão de veí-
culos automotores terrestres (Lei n. 6.729/79 - a chamada Lei Ferrari). Na concessão
de outras mercadorias, não há lei que discipline a matéria.
A concessão de veículos automotores inclui a comercialização desses veículos e
de seus acessórios, a prestação de assistência técnica e o uso gratuito da marca do
concedente.
Em regra, o contrato é celebrado por prazo indeterminado, mas 0 primeiro con-
trato_ ce:ebra.do entre concedente (montadora) e concessionário pode estabelecer pra-
zo nao mfenor a 5 anos. Findo esse prazo, não havendo denúncia de nenhuma das

21 COELHO, Fábio Ulhoa. Manual de direito comercial, p. 492.

Contratos de colaboração 228


partes, o contrato será automaticamente renovado, e considerado, a. partir daí, por
prazo indeterminado.

32.4. Franquia
Esse é bem comum e de fácil visualização.
Definição da Wikipédia: Franquia ou franchising é uma estratégia utilizada em ad-
ministração que tem como propósito um sistema de venda de licença, onde o franqueador
(detentor da marca) cede ao franqueado (autorizado a explorar a marca) o direito de uso da
sua marca ou patente, infraestrutura, know-how e direito de distribuição exclusiva ou se-
miexclusiva de produtos ou serviços. O franqueado, por sua vez, investe e trabalha na fran-
quia e paga parte do faturamento ao franqueador sob a forma de royalties. Eventualmente,
o franqueado r também cede ao franqueado o direito de uso de tecnologia de implantação e
administração de negócio ou sistemas desenvolvidos ou detidos pelo franqueado r, mediante
remuneração direta ou indireta, sem ficar caracterizado vínculo empregatício.
A lei que disciplina esse tipo de contrato é a n. 8.955/94, mas essa lei não tomou o
contrato de franquia um contrato típico. Isso porque cada franquia será regida pelo seu
próprio contrato. As regras constantes daquela lei só balizam as partes no sentido de
que as negociações devem dar-se da forma mais transparente e isonômica possível.
Funciona mais ou menos assim: eu tenho dinheiro, mas não manjo nada de ad-
ministração, mercado, treinamento de funcionários etc. Eu então "compro" o direito
de explorar uma atividade que já tem tudo isso pronto. Pelo contrato, tenho direito ao
uso da marca e me obrigo quanto à organização empresarial.
Regra geral, essa organização empresarial se dá em três aspectos:
~ contrato de engineering: o franqueado r define a forma física do estabelecimento;
~ contrato de management: treinamento de funcionários e administração do
negócio;
~ contrato de marketing: estudo de mercado, publicidade, promoções, produtos
novos etc.
Ainda que atípico, o franqueado sempre terá que obedecer a algumas regras no
contrato de franquia. Ele terá que pagar uma série de coisas ao franqveador, tais
como:
~ taxa de adesão;
~ percentual sobre os lucros;
~ taxa pelos serviços de organização empresarial.
Excluídas essas taxas devidas, o lucro auferido é todo do franqueado.
Deverá, ainda, obedecer a todas as normas relativas a preço de venda dos produ-
tos e oferecer aos consumidores somente os produtos estabelecidos no contrato.
O contrato deverá ser escrito, mas não é necessário o registro em cartório.

229 Empresarial para quem odeia empresarial


32.5. Distribuição
Como dissemos lá no início, o contrato ele distribuição pode enquadra r-se tanto
na categoria de contrato de colaboração por aproximação como por intermediação.
A distribuição-aproximação está disciplinada no Código Civil, no mesmo capítu-
lo em que se disciplina o contrato ele agência.
Em ambos os casos, uma pessoa assume, em caráter não eventual e sem vínculos
de dependência, a obrigação de promover, à conta ele outra, mediante retribuição, a
realização de certos negócios em zona determinada. Se o contratad o tiver à sua dispo-
sição os produtos a serem negociados, tratar-se-á de contrato de distribuição. Do con-
trário, o contrato será o de agência.
Regra geral, o distribuid or ou agente só pode agir, naquela zona determina da, a
mando de uma distribuid ora ou agência. Da mesma maneira, não pode o proponen te
(que é o nome dado exatamen te à distribuid ora ou agência) contratar outra pessoa
para, na mesma zona, trabalhar com o mesmo produto.
A remunera ção (comissão) correspon derá aos negócios concluídos na zona esti-
pulada, ainda que o agente/di stribuidor não tenha interferido neles. Se o negócio não
se realizar por culpa exclusiva do proponen te, a comissão também será devida. A ces-
sação injustificada ao atendime nto das propostas por parte do proponen te gera direi-
to de indenização ao distribuidor/agente.
Em geral, os contratos são firmados por tempo indetermi nado, e podem ser re-
solvidos por qualquer das partes, sem necessidade de motivo justificado. Basta a noti-
ficação com antecedência de go dias.
Aplicam-se aos contratos de distribuição-aproximação e agência, no que for cabí-
vel, as regras referentes ao mandato e à concessão.
Por outro lado, a distribuição-intermediação é contrato atípico. Trata-se do pac-
to celebrado entre distribuidoras de combtistível e postos de abastecimento, entre
fábricas de bebidas e seus atacadistas etc. Uma das partes obriga-se a comprar para
revenda os produtos da outra, no claro intuito de criação, consolidação ou expansão
do mercado.
Os direitos e deveres das partes são aqueles presentes no contrato que celebra-
ram. Por não haver disciplina no ordename nto jurídico regendo a matéria, não há
qualquer balizamento no que tange à exclusividade, indenização, prazos etc. As omis-
sões, teoricamente, podem ser resolvidas pelas leis ele concessão, que, em tese, é o
contrato que mais se aproxima deste.

·,

Sem comentário s ao fim, porque a historinha do início deste capítulo já foi


pesada demais. .

Contratos de colaboração 230


33. A parte triste da mudanç~:J?:

~de- m.aú.L nada, uma informação relevante: as historinhas que eu escrevo


no início de cada capítulo são quase integralme nte reais. Mas elas nãc seguem
uma ordem cronológic a.
Digo isso porque o que eu vou contar agora aconteceu exatanent e na
noite anterior ao meu prazo fatal de entrega do arquivo deste livro ao Sr. t:ditor.
o
Portanto, antes que ele pense que eu passei a madrugada inteira escrevend
os Ldtimos capítulos, que fique claro: eu só alterei algumas partes. O substan·

cial já estava feito. Ok?


Dito isso, posso contar que estou finalizando os ajustes ela minha mudan-
ça. e hoje tive uma surpresa bem triste.
Moro sozinha com a minha cria aqui em Bauru, e mews pais moram em
tra-
outra cidade a uns cento e poucos quilômetro s de distância. Mas meu pai
: ..,.S!.:-,; balha aqui também, então toda semana ele vem para cá.
•••;;.>-<-','

. ~~~~~·1 1-loje eu soube o quanto ele está triste com a minha mudança. t: o motivo
da mais forte da tristeza dele é um sÓ: a distância ela minha cria.
t:le a viu nascer, e, como o pai saiu ele casa quando ela era recém-nas cida,
de
meu pai sempre fez o papel de pai para ela. Acompanh a o seu cresci-nen to
. t: agora estamos indo embora. t:le não vê i mais ga·
perto desde o nascimento
nhar um abraço dela quando chegar do trabalho.
Acho que, quando eu e meus irmãos éramos pequenos, meu pai estava tão
dele
ocupado trabalhand o que p;aticamen te não nos viu crescer. t: não é culpa
não. t:le nunca f~i ausente, pelo contrário. Mas viela de médico é assim mesmo.

Agora, ele tem a oportunida de de ver a neta se desenvolve r. A menininha


dele, cargo que um dia foi ocupado por mim e agora é titularizado r:ela minha
filha, está indo para longe.
Quando eu soube disso, fiquei meio sem palavras. t:stava antes analisan-
é
do a mudança de maneira objetiva, mas mexer com assuntos do ::oração
sempre mais difícil.
O que me resta agora é ficar absurdamente rica logo, para poder lhe dar
passagens aéreas de presente todos os fins de semana. Assim ele poderá con-
tinuar vendo minha cria de perto.
No mais, preciso fazer uma declaração de amor pública que ainda não foi
feita neste livro.
Pai, eu nem sei dizer o quanto te amo. t:u mais que amo. Ainda vou te
encher de orgulho, e todas as minhas vitórias terão o seu nome.

Vamos aos contratos bancários agora. Falta pouco para acabar.


Para começar, um artigo interessante da Lei n. 4-595/64, conhecida como Lei da:
Reforma Bancária:
':.4rt. 17. Consideram-se instituições financeiras, para os efeitos da legislação em vigor,
as pessoas jurídicas públicas ou privadas, que tenham como atividade principal ou acessó-
ria a coleta, intermediação ou aplicação de recursos financeiros próprios ou de terceiros,
em moeda nacional ou estrangeira, e a custódia de valor de propriedade de terceiros".
Os bancos precisam de autorização especial para funcionar. Não é qualquer um
que pode, simplesmente, da noite para o dia, abrir um banco. Quem cuida disso é o
Banco Central ou, no caso de estrangeiros, o presidente da República.
Todo banco é obrigatoriam ente uma S/A, e a matéria-prima da atividade bancária
é o crédito.
'
Legal. Até agora, apenas infm:mações introdutórias.
Contratos bancários são todos aqueles em que uma das partes é um banco e cujo
objeto relaciona-se com a atividade bancária descrita no artigo que transcrevemos aci-
ma. Veja: não basta que o banco seja parte do contrato. Por exemplo, o contrato de
aluguel do imóvel onde está a agência não pode ser considerado um contrato bancário.
Em resumo, são considerados contratos bancários aqueles que somente podem
ser firmados quando o banco é parte.
Quanto às operações bancárias, podemos dividi-las em típicas (que são as que
têm ligação direta com o crédito) e atípicas (prestação de serviço acessório). As típicas
podem ser ativas ou passivas, a depender de ser o banco, respectivamente, credor ou
devedor da obrigação.
Regra g(!ral, as operações de crédito submetem-se às regras de direito do consu-
midor. Contudo, se uma das partes contratantes for um empresário que não puder se
enquadrar nos conceitos de consumidor dados pela legislação da matéria, então o re-
gime jurídico aplicado será o empresarial, e não o consumerista.
Passemos a analisar exatamente esse regime jurídico.

33.1. Operações passivas


Os principais exemplos desse tipo de operação são os contratos de depósito
bancário, de conta corrente e de aplicações financeiras. Em todos eles o banco

Contratos b.Jncários 232


assume a posição de devedor, e o objetivo maior é a captação de recursos por meio
da instituição.

33.1.1. Contrato de depósito bancário


É o contrato por meio do qual uma pessoa entrega quantias de dinheiro ao banco,
q·1e se obriga a restituí-las sempre que o depositante, unilateralmente, assim o requerer.
É um contrato autônomo e real (aperfeiçoa-se com a entrega do dinheiro). A par-
tir do momento em que o banco recebe as quantias depositadas, torna-se titular delas,
cobrando um preço por tal serviço. Não se trata, portanto, de mera custódia.
Regra geral, será por tempo indeterminad o, e a resilição pode dar-se a qualquer
tempo. Mas existe uma regrinha que autoriza o banco a extinguir tal contrato caso
não haja nenhuma movimentação no prazo de 30 anos.
São modalidades desse tipo de contrato:
.,. depósito à vista: a restituição deve dar-se de imediato, tão logo o depositante
solicite;
.,. depósito a pré-aviso: o banco terá um prazo, que será previamente estipulado
e contado da data da solicitação para fazer a restituição;
.,. depósito a prazo fixo: a solicitação de restituição só pode ser feita depois de
determinada data.

33.1.2. Contrato de conta corrente


Por ele, o banco se obriga a receber valores que o correntista lhe entrega e, bem
assim, efetuar os pagamentos que lhe forem ordenados. Diferentemente do contrato de
depósito, o de conta corrente é classificado como consensual, ou seja, o seu aperfeiçoa-
mento depende apenas do acordo de vontades, e não da entrega efetiva do dinheiro.

33.1.3. Contrato de aplicação financeira


Aqui, o correntista autoriza o banco a utilizar o dinheiro que mantém em conta
de depósito em determinados mercados de capital. Assim, enquanto o banco tem em
mãos mais capital para investimento, o correntista fará jus aos lucros q4e o banco
auferir com a aplicação do seu dinheiro.
Quem vai decidir qual a melhor forma de aplicar o capital é o banco, e exatamente
por isso não se pode assemelhar esse contrato com o de mandato ou o de corretagem.

33.2. Operações ativas


É o oposto: aqui o banco é credor. Na verdade, resumem-se essas operações aos
ccntratos em que o banco coloca à disposição do correntista um crédito. Os exemplos
são o mútuo bancário, o desconto, a abertura de crédito e o crédito documentário .

233 Empresarial para quem odeia empresarial


33.2.1. Mútuo bancário
Na linguagem popular, é o empréstimo.
Trata-se de contrato real, e, a partir da entrega do dinheiro, o mutuário obriga-se
a restituir 0 valor entregue, com as taxas e correções previstas, e a amortizar o valor no
prazo contratado. Por outro lado, tal contrato não gera nenhuma obrigação por parte
do banco, por isso se pode afirmar que é uma avença unilateral.
Se o contrato tiver garantia real, deverá ser feito por instrumento público, e um
aspecto importante é a impossibilidade de o mutuário obrigar o mutuante a receber
os valores antes do prazo estipulado no contrato. Assim: eu, que peguei o dinheiro do
banco, não posso obrigá-lo a receber antes do prazo, pleiteando, por isso, redução das
taxas. O ban~o pode receber e me dar descontos se quiser, mas eu nunca poderei
obrigá-lo a fazer isso.
Mas lembre-se de que estamos tratando aqui de contratos regidos pelo direito
empresarial. Digo isso porque, se o mutuário for consumidor, essa proibição não se
aplica (Código de Defesa do Consumidor, art. 52,§ 2~).
O mútuo pode desdobrar-se num contrato de financiamento, que é aquele em
que 0 valor objeto do contrato tem destinação certa. Nesse caso, o banco tem todo o
direito de fiscalizar a real utilização do montante entregue ao mutuário.

33.2.2. Desconto bancário


Funciona assim: tenho uma quantia para receber daqui a 30 dias. Vamos supor
que essa quantia seja de 1.000 reais. Vou ao banco, e ele me paga hoje 8oo reais. O
meu crédito de J.ooo reais é então transferido ao banco.
Créditos de qualquer natureza podem ser objeto do desconto bancário, mas, em ge-
ral, os bancos aceitam somente créditos representados por títulos de crédito, isso porque
a garantia de recebimento destes é maior, especialmente pela submissão aos princípios de
direito cambial, de que tanto já falamos. A transferência do crédito se faz por endosso.
Trata-se de contrato real, mas a relação entre o banco e o cliente perdurará até
que o crédito seja efetivamente pago. Se, eventualmente, o devedor não efetuar opa-
gamento na data do vencimento, o banco poderá agir de três formas:
~ executar judicialmente o devedor do título descontado (porque o crédito
constante em ·tal título lhe foi transferido);
~ executar o descontário (ou endossante), com base nas regras de direito cambial
(lembre-se, contudo, que para proceder dessa forma o protesto será imprescindível);
~ executar o desconto, mas com fundamento no contrato realizado com este (e
aqui não será necessário o protesto). ·
É em virtude dessa terceira possibilidade que se pode afirmar que o contrato de
desconto bancário é autônomo. Se assim nãofosse, o banco teria a qualidade de mero
endossatário nos casos de desconto bancário.

Contratos bancários 234


Por fim, é chamada de redesconto a operação financeira pela qual o banco des-
·conta, ele mesmo, o título que recebeu, em contrato de desconto, de outra instituição
financeira. Contudo, a realização dessa operação é de competência exclusiva do Ban-
co Central.

33.2.3. Contrato de abertura de crédito


É o chamado cheque especial. Por ele, o banco deixa certa quantia à disposição do
cliente, que pode utilizá-la ou não. Regra geral, o pagamento de juros só ocorre se a
quantia for efetivamente utilizada.

<JJiea de cuniga: fuja desse contrato.

33.2.4. Contrato de crédito documentário


Trata-se de contrato bastante utilizado no comércio internacional.
"Define-se pela obrigação assumida por um banco (emissor), perante seu cliente (orde-
nante) no sentido de proceder a pagamentos em favor de terceiro (beneficiário), contra a
apresentação de documentos relacionados a negócio realizado por estes dois últimos"".
Então, por esse contrato, o banco financia e se obriga a pagar a terceiros valores
relativos a negócios que seu cliente realiza. O pagamento se faz mediante a apresen-
tação de um ou alguns documentos, tais como guia de exportação, fatura, conheci-
mento de embarque etc.
As regras relativas a esse tipo de contrato são estabelecidas pela Câmara Interna-
cional de Comércio.

33.3. Contratos bancários impróprios

33.3.1. Alienação flduciáda em garantia


Trata-se da transferência da posse de um bem móvel ou imóvel do devedor ao
credor para garantir o cumprimento de uma obrigação. O contrato de alienação é
sempre um instrumento: por ele se realiza um negócio-fim.
Vamos exemplificar com a situação mais comum de todas: quero comprar um
carro, mas não tenho dinheiro para tanto. Vou ao banco e digo: "Banco, eu quero um
carro".: O banco me diz: "Beleza, vamos fazer assim: eu compro o carro e deixo com
você. Você vai me pagando aos poucos. Quando acabar de pagar, o carro é seu".

22 COELHO, Fábio Ulhoa. Manual de direito comercial, p. 514.

235 Empresarial para quem odeia empresarial


Nessa situação, eu estarei na posse direta do carro, mas não terei a propriedade
dele. Serei depositária do carro. O banco terá a posse indireta do carro e a proprieda-
de, mas se trata de propriedade resolúvel, uma vez que, depois que eu pagar tudo o
que devo, a propriedade será transferida para mim.
É quase um mútuo, no qual a garantia é o próprio bem.
Eu, que comprei o carro, sou a alienante, também chamada de devedora fid~ciá­
ria. O banco é o credor fiduciário, e é entendimento majoritário que somente pode ser
credora fiduciária a instituição financeira, embora seja discutível a natureza bancária
desse contrato.
Na maior parte das vezes esse contrato acaba sendo utilizado para a aquisição de
bens, mas nada impede que a garantia recaia sobre coisa de que já tenha a propriedade
o devedor. ·
Esse contrato obrigatoriamente é celebrado por escrito e deve conter as seguintes
informações:
a) valor total da dívida ou sua estimativa;
b) local e data do pagamento;
c) taxa de juros contratuais;
d) cláusula penal com indicação de correção monetária e juros moratórios;
e) descrição do bem objeto da garantia.
Inadimplido o contrato, as p~rcelas vencem todas antecipadamente. Pode o cre-
dor, então, valer-se da ação de busca e apreensão. Retomando o bem, será vendido,
independentemente de leilão. Isso porque, como dissemos, o credor tem a proprieda-
de resolúvel da coisa. Assim, caso o devedor não purgue a mora no prazo legal, a pro-
priedade consolida-se em favor do credor.
Não sendo encontrado o bem dado em garantia, a ação converte-se em ação de
depósito.
Importante ressaltar que a alienação fiduciária em garantia só pode ser feita
como operação no âmbito do mercado financeiro ou de capitais, ou ainda para garan-
tir créditos fiscais ou previdenciários.
Se o objeto do contrato for bem imóvel, não será possível, por óbvio, a ação de
busca e apreensão, mas os direitos do credor se tornam efetivos mediante a consolida-
ção da propriedade em seu favor.

33.3.2. Factoring
Trata-se do contrato no qual o banco presta serviços de administração de crédito,
obrigando-se a efetuar as cobranças em nome da empresa faturizada.
Um empresário, ao conceder crédito para seus consumidores ou compradores,
assume uma série de preocupações: controlar os vencimentos, acompanhar a

Contratos bancários 236


flutuação das taxas de juros, a eventual cobrança judicial de seus créditos etc. É exata-
mente esse o sentido do contrato de factoring: o banco passará a se-preocupar com
tudo isso.
Tal corÍtr~to pode revestir-se de dua~ modalidades.
Na primeira, chamada de conventional factoring, a instituição financeira garante
o pagamento dos-créditos, ou seja, adianta ao empresário faturizado o pagamento de
tudo aquilo que ele tem para receber. Por outro lado, temos também o chamado ma-
turity factoring, no qual não há esse caráter de financiamento. O banco, aqui, procede-
rá às cobranças, mas não se responsabiliza pela solvência dos débitos.
Nesse sentido, oportuna a transcrição das lições da professora Flavia Adine Feito-
sa Coelho, que consta no Portal LFG"·':

'fl. 'maturity factoring' corresponde a uma modalidade de faturização, que nada mais
é do que um contrato mercantil em que um empresário (faturizado) cede a outro (faturiza-
dor), total ou parcialmente seus créditos decorrentes de venda a prazo, recebendo do fatu-
rizador valor em moeda corrente nacional em razão da cessão do crédito, mediante opa-
gamento de uma remuneração, assumindo o faturizador o risco pelo inadimplemento do
devedor do crédito.
São comumente conhecidos como fomento mercantil.
Ocorre que na modalidade de 'maturity' a faturizadora paga os valores somente no
vencimento da obrigação, restando parte do valor a título de comissão à faturizadora.
Caso as partes convencionem do pagamento imediato de parte do crédito, ficando a
diferença como comissão quando do vencimento do crédito cedido, teremos a modalidade
de 'conventional factoring' e não de 'maturity factoring:
Por oportuno, a 'conventional factoring', pressupõe urna assunção de risco maior, ra-
zão pela qual maior será a comissão percebida pela empresa faturizadora.
Vale destacar que a faturização não deixa de ser uma cessão de crédito ínsito ao direi-
to civil corno norteador de normas gerais. Sendo assim, o faturizado (ou cedente) é respon-
sá;el pela existência do crédito. A inexistência do crédito faz surgir para o faturizador o
direito a perdas e danos".

Vê-se, portanto, que, a depender da modalidade de factoring, suas funções podem


variar de garantia, gestão de crédito e ainda financiamento.
Trata-se de contrato atípico, uma vez que não há, no Brasil, legislação específica
que regulamente o assunto. Veja-se, contudo, que o banco não está obrigado a aceitar
todos os créditos do faturizado, mas apenas aqueles que lhe interessem.

23 Disponível em: <http://www.lfg.eom.br/public_htmljarticle.php?story=w 10041 o J8oo40297&


mode=print>. Acesso em 7-3-2012.

237 Empresarial para quem odeia empresarial


(leasing)
33. 3.3 . Arrendamento mercantil em que se
mer cant il é o con trat o de locação
Pode-se dizer que o arre nda men to amo rtiz and o
opte pela com pra do ~em locado,
possibilita, ao final, que o locatário trat o atípi-
s a títul o de aluguel. E tam bém con
do preço da com pra os valores pago no con trat o
es, esta rá regulada inte iram ente
co, port anto , a relação entr e as part
que firm arem . rvar a
utár io de tal negócio, deve-se obse
Con tudo , qua nto ao trat ame nto trib pessoa jurí-
nda dor será obri gato riam ente uma
Lei n. 6.099/74· Para essa lei, o arre ica. E mais: descumpri-
e ser pessoa física ou juríd
dica, enq uan to o arre nda tári o pod e venda para
tido com o ele simples com pra
dos esses requisitos, o con trat o será
efeitos fiscais. observe tal
a dep end er do aspecto em que se
Então é imp orta nte perceber que, tivo às obrigações
constantes no pacto ou se rela
con trato , se relativo às obrigações
fiscais, ele terá uma disciplina. oração
ng ben s móveis ou imóveis, e a expl
Poderão ser objeto do con trato de /easi
Banco Central.
dessa atividade é regulamentada pelo
fina nceiro e o operacional.
Existem dois tipos de leasing: o residual
de /easing puro ou bancário, o valor
No primeiro caso, tam bém chamado final do con-
sivo. Assim, o locatário que fizer, ao
para a aquisição do bem é inexpres tações por ele
r um valor baixo, pois a soma das pres
trato, a opção pela compra irá paga aí os reto rnos
ção do custo do bem, incluindo-se
pagas são suficientes para a recupera
de investimento da arrendadora. 75% do
pelo locador não pode ultrapassar
já no /easing operacional o total pago siçã o do objeto
l do contrato, caso opte pela aqui
valor do bem. Assim sendo, ao fina antecipa-
será grande. O resíduo pode ser pago
arrendado, o valor residual a ser pago não haja op-
ete-se à dev oluç ão desse valor caso
dam ente , e a arrendadora comprom de valo r residual ga-
É o que se cham a de cláusula
ção de com pra ao fim do contrato.
rant ido (VRG). de lea-
essa cláusula desn atur a o contrato
A jurisprudência tem ente ndid o que
pra e venda a prazo.
sing, que passa a ser tido como com o arren-
to não for feita a opção pela compra,
Out ro aspecto imp orta nte: enq uan s dano prove-
s
dor. Contudo, não responderá pelo
datário assumirá a posição de loca
nien tes do uso da coisa. qual
con trato de leasing, há que se observar
No que· tange à natu reza bancária do nto dos alu-
tário opta r pela compra, o pagame
é a opção feita ao final. Se o arrenda dúvidas sobre
financiamento, e, assim, não restam
guéis gan ha característica clara de
o bancário.
a caracterização de tal con trato com e con-
compra, não haverá característica ness
Con tudo , se não houver opção pela
o de·natureza bancária.
trat o que perm ita enquadrá-lo com

238
Contratos bancários

---
I
33. 3.4 . Cartão de crédito
banco
, né? Trata-se do con trato pelo qual 0
Nem precisa falar mui ta coisa aqui pess oa físic a ou
ados o crédito concedido a uma
obriga-se a pagar a terceiros credenci
jurídica.
do venci-
uma com pra hoje com ele. No dia
Eu tenh o um cartão de crédito. Faço r acré scim o). Este re-
o da compra (sem qua lque
mento, pagarei ao banco o valor exat de vend a.
mediante apre sent ação das notas
passará o valor à loja que me vendeu,
fica-se nos dois paios.
A natu reza de con trato bancário veri poderei
o com a instituição financeira, eu
De acordo com o con trato que firm , imp orta na
a parcelada, mas isso, logicamente
fazer o pag ame nto da fatura de form r o valor das
(a loja que me vendeu) poderá negocia
cobrança de juros. Já o fornecedor ame nto de ju-
damente, tam bém med iant e o pag
nota s de venda, recebendo antecipa
ros e encargos convencionados.
·····
················································································
'Pwdo..
inho . Muit o
bem preo cupa da com meu paiz
Vou dorm ir agora, mas ainda
preo cupa da mes mo.
··············
······································································

-----
l
Empresarial para quem odeia empresaria

----
I
---------------------------------- 239
\ /

\
34. Chegando ao fimL.: . --

contratq de-~e.guro:
• , r, L • , • , •

····················································································
Yl1.ai4 uma u.q, um aperto no coração por chegar ao último capítulo. O que
vou fazer da minha vida depois que terminar de escrever este livro? Agora é
ainda pior, porque quando terminei o primeiro, de tributário, eu tinha já este
em vista para escrever. Agora não tenho nada.
. l::stranha demais a relação que eu crio com meus filhos, digo, com meus
livros. Quando estou escrevendo, quero muito terminar. Mas, quando chego ao
fim, sou tomada por L1m sentimento egoísta e a vontade de deixar o arquivo
guardado só para mim.
Minha vida vai mudar bruscamente em poucos dias. A mudança para São
Paulo certamente será um divisor de águas para minha carreira. Ainda assim,
sem dúvida sentirei falta de passar as noites em claro estudando coisas que eu
nunca aprendi para poder escrever sobre.
~ bem verdade aquilo que dizem que as pessoas precisam plantar uma
-:.:::_:.:.::--.,7
.•. .. :../
· ,_ árvore, ter um filho e escrever um livro. Sensação inigualável de dever cumpri-
do chegar ao fim da sua própria obra.
l::mbora este seja. teoricamente, um livro técnico, fica clara a natureza de
diário de que ele se reveste. Mais um período da minha vida que fica retratado,
mais partes da minha história que poderão ser conhecidas por qualquer pessoa.
Mas, se o fim é inevitável, comecemos, então. Capítulo final curtinho.
....................................................................................
Contrato de seguro é a avença pela qual uma seguradora se obriga a garantir in-
Ç:g:r~sse ou direito de um segurado, contra riscos predeterminados, mediante o recebi-
-· .· i:nbto de um prêmio. A disciplina legal está nos arts. 757 e seguintes do Código Civil.
. ·:;r.;,:
·-~ _.. Por esse contrato, os prejuízos materiais ou morais decorrentes de infortúnios,
desastres naturais, ou mesmo distúrbios sociais são distribuídos e suportados não ape-
I1as por uma pessoa, mas por vários segurados, configurando a chamada mutualidade.
:,:~: Cálculos atuariais determinam o valor do prêmio a ser pago à seguradora.
No Brasil, a atividade securitária é regulada pelo Decreto-Lei n. 73/66, o qual pre-
vê que os prêmios devem ser pagos por meio da rede bancária.
O sistema nacional de seguros privados é formado por vários órgãos, a saber,
CNSP (Conselho Nacional de Seguros Privados), órgão federal colegiado que trata da
política securitária; SUSEP (Superintendência de Seguros Privados), autarquia federal
que executa a política do CNSP; IRB (Instituto de Resseguros do Brasil), sociedade de
economia mista federal com capital dividido entre as seguradoras, que tem a função
de distribuir os prejuízos entre as empresas seguradoras; e, por fim, os corretores, que
negociam os seguros.
Como já vimos, as seguradoras não podem falir nem pedir recuperação judicial:
sua execução concursal é feita pelas mesmas regras que regem as instituições finan-
ceiras (liquidação extrajudicial).
No que tange à classificação civilista, o contrato de seguro pode ser dito:
._ de adesão: o segurado adere a um contrato-padrão;
._ comutativo: existe equilíbrio entre a vantagem auferida e a prestação paga
pelo segurado;
.. consensual: depende da vontade das partes (exceto seguro obrigatório);
._ não solene: pode ser celebrado por qualquer meio, inclusive verbalmente .
O segurado pode perder o direito à indenização se não pagar o prêmio e se não
purgar a mora antes do sinistro. Em caso de aumento de riscos, a comunicação à se-
guradora deve ser feita imediatamente, podendo esta, em 15 dias, resolver o contrato,
mas, nesse caso, o seguro valerá por 30 dias, e parte do prêmio deve ser devolvida.
O contrato de seguro pode revestir-se das seguintes formas:
a) Seguro de danos (contrato de ramos elementares): é o que se refere a qualquer
objeto patrimonial, tais como bens móveis e imóveis, integridade física e obrigações
(ex.: fiança bancária ou de locação).
O objetivo aqui é a recomposição de seu patrimônio, se ocorrer o sinistro, de
sorte que tem caráter indenizatório.
Não é lícito, nesse caso, o sobresseguro, ou seja, segurar o mesmo bem com várias
seguradoras. Mas é possível o cosseguro, que é a divisão da obrigação entre várias se-
guradoras, sobretudo quando o objeto segurado tem grande valor. ó

Em tese, o valor da indenização deve ser igual ou inferior ao valor do bem, mas,
em se tratando de veículos automotores, tornou-se comum a contratação de um valor
adicional (ex.: I o% a mais sobre o valor de mercado).
A seguradora se sub-roga nos direitos e ações que competirem contra o autor do
dano, exceto se este foi causado pelo cônjuge, descendentes, ascendentes, consanguí-
neos ou afins.
b) Seguro de pessoas: é o que tem por objeto o pagamento de uma importância
em caso de morte do segurado. Nesse caso não há indenização, mas há prestação de

241 Empresarial para quem odeia empresarial


e disposto no art. 789
capital. Permite-se aqui o sobresseguro, confor me expres sament
do Código Civil.
do pelo pro-
"Art. 789. Nos seguros de pessoas, o capital segurado é livremente estipula
e, com o mesmo ou
ponente, que pode contratar mais de um seguro sobre o mesmo interess
diversos seguradores".
de vida não cobre
Observe que o próprio STJ (Súmula 61) entend e que o seguro
suicídio premeditado.
c) Seguro-saúde: é aquele em que a segura dora se propõe
a garanti r o seguracio
-saúde é regida pelas Leis n.
contra riscos associados à saúde. A atividade de seguro
g.6s6/g8 e, I o. 185/2oo 1.
lizadas, ou seja, o
Só poderão oferecer esse tipo de seguro as operadoras espeCia
seguro de saúde. A Es-
objeto explorado por elas deve ser exclusivamente o contrat o de
cia Nacional de Saúde.
calização fica a cargo não mais na SUSEP, e sim da ANS -Agên
sobre o contra-
Finalmente, mas ainda neste tópico, alguns comen tários rápidos
de anônim a autoriz aja
to de capitalização, que é o pacto realizado entre uma socieda
esta faz contrib uições periódicas por
pelos órgãos do governo e outra pessoa, no qual
ao final, uma import ância
prazo determ inado, e aquela se compr omete a pagar-lhe,
determ inada.
É comum que na duraçã o de tal contra to estejam previst
os prêmios ou a anteci-
prova do contrat ado, será emitid o
pação do pagam ento por meio de sorteios. Como
de crédito imprópr:o .
um título de capitalização, que se reveste da nature za de título

&ua4 eJi.am Cl/.L ~a d.eMm ~·


como eu
Não vejo aqui espaço para agradecer a um montão de gente
mais nada, porque senão começo a chorar, e já fiz isso
gostaria. t: nem vou falar
demais aqui.
Uta da Lully.

Contrato de seguro 242


REFERÊNCIAS

janeiro: Lumen Jwris, 2003.


CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de direito processual civil. 9. ed. Rio de
2012.
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2014.
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2011.
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2013.
PIMENTA, Luciano. Tributário para quem odeia tributário. São Paulo: Saraiva,
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RAMOS, André Luiz Santa Cruz. Falências e recuperação de empresas. Salvado
2011.
TARTUCE, Flávio. Manual de direito civil: volume único. São Paulo: Método.
• ' I • I '

CLASSIFICAÇÃO DOS CRÉDlTOS


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___ 5~) Crédito com privilégio especial

-.- ,6~) Crédito com privilégio geral

8~) Multas contratuais

9~) Crédito subordinado

Empresarial para quem odeia empresarial


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