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OS CONSERVADORES NO BRASIL IMPÉRIO

Jeffrey D. Needell, The Party of Order: the Conservatives, the State,


and Slavery in the Brazilian Monarchy, 1831-1871, Stanford, Stanford
University Press, 2006, 460 pp.

O novo livro de Jeffrey Needell per- uma ala defensora do constituciona-


tence à longa tradição de controvér- lismo e da monarquia representativa
sias historiográficas sobre as diferen- e outra, propriamente áulica, próxi-
ças e as semelhanças no ideário polí- ma dos desígnios políticos da Coroa
tico dos partidos conservador e libe- e seu instrumento nas quezilas do
ral no Brasil imperial. O mote de tempo. Há o intuito de trazer à tona a
Needell é a alegação de que os estu- visão saquarema dos eventos, descrita
diosos têm negligenciado a análise do como apegada à defesa das prerroga-
pensamento conservador à época, tivas do Estado e do equilíbrio entre
sapecando-lhe a pecha de autoritário. os poderes contra o crescente poder
Os historiadores tenderiam a ignorar pessoal de D. Pedro II, tributário este
a complexidade e as fissuras internas de práticas clientelísticas, corrupção
dos conservadores em conjunturas eleitoral e manipulação do jogo par-
históricas específicas, equivocando- lamentar. A história das idas e vindas
se na avaliação de seu legado à histó- dos liberais aparece sem foro de mó-
ria posterior das mazelas e injustiças vel importante dos eventos, analisa-
sociais do país. Ao analisar conjun- da com mais minúcia nas décadas de
turas reconhecidamente decisivas na 1830 (quando ainda eram “modera-
história do Brasil oitocentista, como dos” e “exaltados”) e de 1840, para
o período dito da conciliação dos par- diminuir aos poucos e praticamente
tidos na década de 1850 e a crise po- desaparecer de cena nos capítulos que
lítica em torno do debate e da apro- abordam a segunda metade da déca-
vação da lei de extinção gradual da da de 1860 e a crise de 1871. Os even-
escravidão, de 28 de setembro de tos de 1871 explicar-se-iam pela ci-
1871, o autor empenha-se em descre- são dos conservadores, com a derro-
ver a cisão dos conservadores entre ta da facção saquarema representan-

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do o triunfo de um poder executivo moniais, negócios e propriedades de
faminto de poder, inspirado por um famílias saquaremas ilustres são des-
monarca “intervencionista”, dispos- critos no primeiro capítulo, comple-
to a utilizar o seu “poder autoritário” mentado por um apêndice, ao final
para esmagar a até hoje subestimada do livro, trazendo a árvore genealó-
ou ignorada “tradição” saquarema de gica de alguns galhardos varões
defesa do “regime constitucional e fluminenses da época. Ainda que se
representativo” (p. 314). Tal derrota diga que “a agência dos subalternos”
seria também dos escravos e seus (p. 5) seja parte importante do “con-
descendentes, “que sem dúvida ga- texto” geral pretendido, ela só com-
nharam muito pouco” em 1871, tor- parece na narrativa por meio da bi-
nando-se vítimas de seu legado polí- bliografia secundária, obras de outros
tico, batizado por Needell de historiadores que invariavelmente se
“estatismo autoritário” (p. 315). equivocaram ao colocá-los em cena;
Como se vê, trata-se de propor uma seja lá o que for que façam os “su-
errata à historiografia do período, que balternos”, em conjunturas e perío-
teria, quase toda ela, adotado como dos diversos, seus atos são sempre
verdade histórica a versão dos adver- “irrelevantes” (inconsequential) ao
sários dos saquaremas, ignorando rumo dos acontecimentos, como logo
assim as perspectivas e as lutas dos veremos.
vencidos de 1871. Ademais, num pa- Convém observar algumas minudên-
rágrafo em que se apresentam “a cias do processo de construção dos
metodologia e os pressupostos” do alicerces desse edifício interpretati-
autor, lê-se que a história política e vo. Talvez tentar imaginar o labora-
intelectual contada no livro aparece tório histórico de Needell, livros e
em seu “contexto sócio-econômico”, documentos às pencas ao redor, e o
que teria sido “reconstruído”, permi- autor a selecionar fatos, para limá-los
tindo ver a interação entre “ideologia de suas impurezas, processando-os no
e mundo material ao longo do tem- alambique da verdade histórica. É o
po” (pp. 4-5). Quiçá por lapso de po- próprio Needell quem nos conduz
limento do texto, a palavra “contex- repetidamente à metáfora da purifi-
to” surge três vezes nesse mesmo cação, até mesmo do expurgo de pe-
parágrafo, a última delas para enun- cadores impenitentes. Ao folhear no-
ciar a esperança de que a história po- tas de rodapé, espaço o mais das ve-
lítica narrada no livro sirva de base zes de prosa dura e enxuta, descobri-
para pesquisas exitosas sobre “os mos o colorido da retórica crítica:
oprimidos”. Quanto ao dito “contex- certa historiadora “despreza”
to sócio-econômico”, alianças matri- (dismissive of) o significado dos par-

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tidos e suas ideologias (p. 353); vári- toriografia erra ao situar a emergên-
os historiadores (uma legião deles) cia da aliança reacionária em 1836 ou
não entendem “a óbvia falta de rele- 1837. Ao final da legislatura de 1834
vância” da revolta escrava de 1835 (em 1 de outubro), Rodrigues Torres,
na Bahia (p. 377); mais outro, forte Honório Hermeto Carneiro Leão (fu-
parvo, oferece apenas evidências “lar- turo Marquês do Paraná) e Bernardo
gamente circunstanciais e especula- Pereira de Vasconcelos, acordes na
tivas” sobre nem lembro o quê (p. oposição a Feijó e às reformas, já se
378); outros não percebem, apesar de firmavam como “líderes reacionári-
“estar na cara” (on its face, expres- os” (p. 55). Três fatores explicariam
são traduzida com pequena licença a necessidade de rever a periodização
poética), que fontes “abolicionistas” histórica, antecipando o surgimento
são “questionáveis” por natureza (p. do reacionarismo para outubro de
403), logo não se qualificam como 1834. Primeiro, Needell descreve as
“base imparcial para julgamento” articulações de Honório, “ao menos
(hardly an impartial basis for desde 9 de outubro de 1834”, a fim
judgement); o próximo da fila, ainda de derrotar Feijó nas eleições para
estudioso do abolicionismo, utiliza regente que se aproximavam. Cita
fontes “simplesmente inadequadas” correspondência enviada por Honório
(p. 403); mais um, fortíssimo asno, a Costa Carvalho, tentando convencê-
pois que se debruça sobre “a agência lo a ser candidato, pois este reuniria
escrava” nos acontecimentos que le- as qualidades necessárias — “lideran-
varam à lei de 1871 e suas conseqü- ça política e propriedade fundiária”
ências, oferece argumento “especu- (p. 55) — para unir os “moderados
lativo”, cujas “fontes” e “lógica” são conservadores” e derrotar os “mode-
“problemáticas” (p. 415); et caterva. rados reformistas” representados por
Dom Casmurro disse de José Dias, o Feijó (p. 56). A iniciativa falhou, mas
agregado de sua família, que este o argumento de Needell, bastante
amava os superlativos porque davam plausível, é de que foi importante no
“feição monumental às idéias”, ser- surgimento de outras, futuras, contra
vindo também para “prolongar as fra- Feijó e seus aliados. Segundo,
ses”.1 Na historiografia, o adjetivo dá Needell menciona o processo de or-
“feição monumental” à crítica. ganização dos reacionários na provín-
Vejamos agora as origens do partido cia fluminense, sua base política prin-
saquarema. Segundo Needell, a his- cipal, a partir da atuação de Rodri-
gues Torres, apontado presidente da
província do Rio de Janeiro em 14
1
Machado de Assis, Dom Casmurro, Rio de outubro de 1834. Terceiro, D.
de Janeiro, H. Garnier, 1899, capítulo IV.

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Pedro I morre em 24 de setembro de saquaremas desde 1834, e quiçá ja-
1834, chegando a notícia à Corte em mais o tivessem sido, não fossem os
24 de novembro, o que afasta de vez eventos de 1835 e suas repercussões.
a ameaça da restauração e leva a um Se a análise oferecida por Needell
realinhamento das forças políticas, enriquece nosso conhecimento de
favorecendo a médio prazo o grupo todo este jogo político, a sua insis-
saquarema em formação. tência em autonomizar tais filigranas
Tudo isso justifica a revisão da políticas em relação ao processo so-
periodização, antecipando-se o surgi- cial mais amplo impede uma melhor
mento do partido reacionário para aproximação da indeterminação dos
outubro de 1834? Há, de início, um acontecimentos, da complexidade
problema cronológico menor. Se a dos múltiplos fatores que os provo-
morte de D. Pedro I só foi noticiada caram.
na Corte em novembro de 1834, ela Cumpro agora o “dever amaríssimo”2
não pode justificar as negociações de comentar o argumento de Needell
eleitorais de Honório, iniciadas em sobre a irrelevância (inconsequential,
outubro, uma dificuldade reconheci- p. 150) da febre amarela para o fim
da por Needell; neste caso, a morte do tráfico negreiro em 1850. Os his-
de D. Pedro também não ajuda a da- toriadores, entre os quais Chalhoub
tar a emergência saquarema para ou- figura de modo conspícuo, têm “um
tubro de 1834, como quer o autor, domínio pobre [a poor grasp] dos
corrigindo a historiografia. Problema fatos sobre a epidemia” (p. 149).
de somenos importância. O que cabe Needell argumenta que Eusébio de
observar é que o interesse de Needell Queirós começara a adotar medidas
em rever a periodização é diminuir a para dar cabo ao tráfico desde 1849
importância dos eventos de 1835 para (p. 152), mas não diz que medidas
a formação do partido saquarema. foram estas (num assunto em que as
Para ele, a revolta escrava de 1835 autoridades imperiais vinham men-
foi irrelevante, não teve conseqüên- tindo ao menos desde o início dos
cias políticas (voltarei a este ponto em anos 1830) e a primeira fonte que cita
seguida). Por outro lado, oferece um é um relatório ministerial do próprio
bom relato das dificuldades políticas Eusébio (p. 379), “hardly an
de Feijó, bastante vinculadas ao fra- impartial basis for judgement”. Em
casso no controle das revoltas provin- seguida, comenta um pronunciamen-
ciais que se espalhavam pelo país. O to de Eusébio na Câmara, em 14 de
fato de haver entendimentos entre janeiro de 1850, no qual anunciara a
políticos que se opunham a Feijó des-
de 1834 não faz desses políticos 2
Ibid.

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intenção do gabinete de providenciar amargou ainda o desgosto de perder
a legislação necessária para abolir o um filho pequeno. Tudo isto para di-
tráfico. No contexto da pressão ingle- zer que é difícil ver a epidemia de
sa e do domínio saquarema do Estado 1850, com o seu cortejo de perdas
naquele momento, a questão estava pessoais e incertezas, como um as-
decidida logo que Eusébio assim de- sunto passível de partidarização po-
cidira (sic), por isto outros fatores, lítica naqueles meses que antecede-
como a epidemia de febre amarela e ram a aprovação da lei de abolição
as repercussões de recentes revoltas do tráfico em setembro.
escravas, não tiveram qualquer impor- Needell alega que os historiadores
tância no curso dos acontecimentos. que defendem a importância da fe-
Quanto à febre amarela, a primeira bre amarela para a extinção do tráfi-
estratégia de Needell é subestimar a co incluem entre suas fontes discur-
sua gravidade, o tamanho da crise que sos de parlamentares oposicionistas,
representou em termos de sofrimen- logo, sem poder de influência sobre
to humano e quanto aos esforços o gabinete, e feitos após a decisão de
mobilizados para lidar com ela. Diz Eusébio sobre o assunto. Releva ob-
que “apenas” (p. 150) quatro mil pes- servar talvez que o pronunciamento
soas morreram na Corte, numa po- de Eusébio na Câmara sobre a deci-
pulação de 260 mil habitantes, mas são de combater o tráfico, 14 de ja-
deixa de observar que esta cifra é neiro de 1850, ocorre uma semana
quase certamente bem inferior à real, após a constatação oficial dos primei-
pois foi coletada por Pereira Rego nas ros casos de febre amarela na Corte
estatísticas de hospitais e enfermari- (7 de janeiro). Quanto à possível
as após a epidemia, numa época em partidarização do assunto, o fato é que
que sabidamente os doentes evitavam a comissão higiênica formada às pres-
tais instituições. Outras fontes esti- sas para lidar com a crise foi consti-
mam o número de mortes entre 10 e tuída inteira por doutores médicos em
15 mil, sem indicar a origem dos da- consulta com a Academia Imperial de
dos, mencionando-se também que Medicina, sem caráter partidário de
mais de 30% da população contraiu espécie alguma. Finalmente, Paula
a doença. A epidemia durou pouco Cândido, um dos parlamentares opo-
mais de três meses. Ademais, a do- sicionistas quiçá indevidamente cita-
ença não poupou os políticos e a fa- dos pelos historiadores criticados,
mília imperial. Bernardo Pereira de tornou-se ele próprio, por escolha do
Vasconcelos morreu de febre amare- mesmo gabinete saquarema do qual
la, membros do gabinete ficaram do- estamos falando, o primeiro presiden-
entes, assim como o imperador, que te da Junta Central de Higiene, cria-

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da em 14 de setembro de 1850. processo histórico que levou à
Needell tampouco repara no fato de extinção do tráfico.
que a ligação entre febre amarela e Quanto às práticas de resistência es-
tráfico negreiro era muito presente na crava em geral, e as revoltas escra-
literatura médica do período, algo ain- vas em particular, seja a de 1835 ou
da mais relevante naquele momento, as do final dos anos 1840, ou quais-
porque os médicos higienistas logo quer outras, Needell as considera
determinaram que o navio que teria sempre e tão-somente irrelevantes ao
chegado com doentes de febre ama- processo histórico. Seu pressuposto
rela na Bahia, iniciando a sua propa- é o de que não havia no Brasil “co-
gação por outras cidades portuárias munidade escrava, no sentido de uma
do Império, estivera envolvido no trá- classe ou grupo organizado com auto-
fico de africanos. consciência e percepção de um sofri-
Em suma, há cousa demais aqui para mento comum decorrente de sua raça
admitir um simples descarte da febre ou condição” (p. 145). Neste caso, o
amarela como fator no processo de hábito do raciocínio anacrônico e te-
abolição do tráfico. A doença não era leológico assume tamanha proporção
assunto para luta partidária naquela que cansa explicar. É claro que os
conjuntura, mas deve ter ajudado a escravos existentes no Brasil do sé-
fazer emergir o tipo de firmeza polí- culo XIX não expressaram suas per-
tica necessária para ir adiante em tão cepções políticas em práticas e insti-
melindroso assunto. De novo, o fato tuições de “classe” com “auto-cons-
de Eusébio de Queirós ter decidido ciência” em qualquer sentido que se
abolir o tráfico sei lá quando em 1849, configurou depois, no futuro do pre-
ou mais certamente em janeiro de térito deles. Sobre modos e práticas
1850, não torna certo o evento, ainda de atuação política dos escravos, a
distante longos nove meses, gastos bibliografia existente é imensa (não
em negociações e em meio à crise cabe em nota de rodapé de resenha),
epidêmica, assim como conversa en- quase tudo resultado de livros, teses
tre futuros saquaremas não torna rea- e dissertações produzidas em progra-
lidade o partido saquarema antes de mas de pós-graduação brasileiros,
ele vir a ser (sic). O que se perde aqui quase nada presente na bibliografia
é a oportunidade de integrar pressão de Needell, que se limita a cismar
inglesa, firme controle do Estado pe- com meia dúzia de historiadores.
los saquaremas (muito bem demons- Ademais, Needell mostra critérios
trado por Needell), crise epidêmica e curiosos para lidar com a relevância
insegurança quanto às revoltas escra- dos números na interpretação de
vas numa explicação articulada do acontecimentos históricos. Se já re-

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gistrei minha estranheza diante do delas planos abortados de rebelião.
“apenas”, que antecede os mais de Needell atribui tanta importância a
quatro mil mortos de febre amarela este ponto porque seu objetivo, mes-
em 1850, nem sei o que dizer de uma mo quando trata da década de 1830,
revolta escrava (Vassouras, 1838) é lançar as bases para as suas inter-
declarada “irrelevante”, entre outros pretações posteriores, das conjuntu-
motivos, porque “menos do que 300 ras de 1850 e 1871, de modo a argu-
escravos se insurgiram, numa área em mentar, em todos os casos, que o jogo
que o proprietário deles tinha 500” das alianças e dos conflitos políticos
(p. 145). Talvez Needell devesse da elite e as filigranas parlamentares
comparar esse índice de adesão a um explicam esses processos históricos
movimento de resistência com outros em sua totalidade, sem necessidade
posteriores, de “classe” e “auto-cons- de atenção aos modos diversos de atu-
cientes”, para ver se os escravos se ação escrava ou quaisquer outros fa-
saíram tão mal assim nessa mobili- tores (salvo a pressão inglesa em
zação. 1850).
A principal dificuldade de Needell é Sobre as repercussões de 1835,
entender como combinar uma histo- Needell ainda concede algo aos his-
riografia que enfatiza a resistência toriadores sociais da escravidão, mes-
escrava e os receios que ela provoca- mo que de mau humor, pois, no tre-
va com o fato de os proprietários de cho citado acima, considerou nula a
escravos, com a conivência do gover- importância da revolta baiana “ao
no imperial, continuarem a importar menos após 1835”. Logo (que alí-
milhares e milhares de africanos, vio!), em 1835 houve medo senhori-
mesmo após a lei que não pegou de al nos meses após a revolta, o que de
abolição do tráfico de 1831 e a revol- resto se comprova facilmente na cor-
ta baiana de 1835. A pergunta é ób- respondência entre autoridades da
via e merece ponderação, mas época, já em boa parte analisada por
Needell a faz por pura retórica. A sua historiadores. Quanto ao que ocorreu
resposta é de que governantes e pro- em 1835 e depois, todavia, no que
prietários jamais experimentaram in- concerne ao controle dos escravos,
segurança ou medo algum em rela- Needell poderia ter aprendido muito,
ção às ações escravas. A revolta de caso tivesse compulsado e analisado
1835 na Bahia foi “atípica”, sem con- os papéis da polícia da Corte, refe-
seqüências (inconsequential) para “a rentes ao longo período em que
escravidão no Brasil ou na Bahia, ao Eusébio de Queirós foi chefe de po-
menos após 1835” (p. 146), quanto lícia nas décadas de 1830 e 1840. Tais
mais as que vieram depois, várias papéis estão no Arquivo Nacional,

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mesma instituição na qual Needell belião escrava, mas não era tolo a
consultou a correspondência particu- ponto de traduzir isso em terror sis-
lar de Eusébio, pouco mais de uma temático contra a população negra.
dúzia de maços, em geral gordos e Enfim, o que o problema da impor-
ricos de informação sobre o cotidia- tância da atuação escrava requer é
no da atuação policial em suas várias uma análise mais nuançada, que
dimensões.3 periodize e particularize as situações,
A leitura desses maços mostra que, sem generalizações quanto a um
após o sobressalto inicial dos meses medo pânico que ocorreu apenas em
posteriores à revolta de 1835, Eusébio conjunturas específicas, e sem descar-
traduziu o que aprendera ao ler os tar o assunto, considerando as evidên-
relatos oficiais sobre o evento em al- cias a respeito “indiretas”, “especu-
guns procedimentos objetivos e con- lativas”, “insuficientes”, etc. Escra-
tínuos de vigilância e repressão. Exi- vos não são políticos profissionais,
gia informações circunstanciadas so- saquaremas ou não, cujas intenções
bre os negros que chegavam dos na- e motivos possam ser estudados em
vios vindos da Bahia, em especial os discursos parlamentares e correspon-
africanos de origem nagô, ou mina, dência de próprio punho. Chegamos
principais implicados na insurreição. a eles por via indireta mesmo, por-
Perseguia, prendia e deportava suma- que raramente há outro jeito. Aliás,
riamente para a África os tais minas por falar em evidência “direta” ou
(termo que podia incluir, além dos “indireta” (se é que faz sentido sim-
nagôs, qualquer africano importado plificar as cousas deste jeito), no que
do Golfo do Benim), sempre que lhes concerne à importância do medo de
achava motivo de “suspeição”. Tudo insurreições escravas para a extinção
isto sem fazer alarde, e ao mesmo do tráfico negreiro em 1850, Needell
tempo em que apertava os mecanis- desconsidera, mas não enfrenta, a
mos de controle social dos negros em evidência “direta” e enfática, forne-
geral, ao mandar considerar qualquer cida pelo próprio Eusébio em seu dis-
negro um cativo até prova em con- curso memorial e memorável de 16
trário, mantendo presos por vadiagem de julho de 1852 (“sintomas de natu-
e recrutando os que não fossem cati- reza gravíssima [...] produziram um
vos e caíssem nas mãos da polícia. terror [...]”).
Manteve-se sempre alerta e manda- Agora um parênteses, ou quase isto.
va investigar qualquer rumor de re- Não seria justo cobrar de Needell que
fizesse algo diferente do que escolheu
fazer, logo, não se deveria mesmo es-
3
Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, Jus- perar que ele lesse e interpretasse os
tiça, Polícia da Corte, série IJ6.

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papéis da polícia da Corte na era de mesmo tráfico; recusa-se a soltar pri-
Eusébio de Queirós. O problema é que sioneiros que haviam cumprido pena
o tipo de história política realizado por por pequenos delitos, recrutando-os
Needell inclui a prática contumaz de à força para o serviço militar; desres-
avaliar detidamente os talentos indi- peita prerrogativas de membros da
viduais de cada político citado – mas Guarda Nacional, enviando-os para
isto apenas segundo a visão de seus o Exército e a Armada; como já foi
pares e cúmplices. Por conseguinte, no mencionado, defende e manda prati-
caso dos saquaremas em especial, em car a doutrina de tratar como escravo
tais momentos o texto dele regurgita qualquer negro apreendido nas ruas
adjetivos. Eusébio de Queirós tinha da Corte (contrapondo-se nisso à ori-
“qualidades pessoais notáveis” (p. 67), entação de Limpo de Abreu, então
era um “prodígio” (p. 67), “celebrado Ministro da Justiça, que os queria ti-
como a voz prestigiosa dos saquare- dos por livres até prova em contrá-
mas na câmara em 1848” (p. 135), rio); deporta negros libertos para a
aclamado “pela precisão e agudeza de África, sumariamente, apenas porque
seus discursos” (p. 135), “elogiado” ex-senhores diziam sentir-se ameaça-
por políticos de diferentes tendências dos por eles; et caterva. Enfim, a li-
(p. 68), e por aí vai, repetindo-se o mitação de perspectiva inerente a
bordão sobre cada líder saquarema à qualquer historiador, que não pode
baila, Honório, Rodrigues Torres, pretender dominar todos os aspectos
Paulino Soares de Sousa (pai), Paulino dos complexos processos históricos
Soares de Sousa (filho), etc. Às vezes, que estuda, deveria impor alguma
os adjetivos de Needell aparecem de- cautela ao ato de pespegar adjetivos
vidamente pendurados em aspas, logo, superlativos numa figura tal como
extraídos das fontes de época, tais Eusébio de Queirós.
quais; outras vezes, como no exem- Eis que chego ao fim das tiras de pa-
plo de Eusébio, as aspas estão ausen- pel, ainda com a pena na mão e preci-
tes, ficando a impressão de ele os ter sando dizer algo sobre a interpretação
escolhido por mote próprio. de Needell a respeito da lei de 28 de
Ora, os papéis da polícia da Corte setembro de 1871. Terei então de ser
revelam outras facetas de Eusébio, breve, brevíssimo, mesmo porque já
quiçá o outro lado do projeto político escrevi bastante sobre este tema, até
saquarema: ele interage com negoci- em publicações recentes, de modo que
antes envolvidos no tráfico negreiro, será fácil a qualquer leitor interessado
chamando-os “respeitáveis negocian- contrastar a minha visão com a do au-
tes locais”; acoberta e protege fun- tor de The Party of Order. Needell
cionários públicos coniventes com o constata que a crise de 1871 marcou

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a derrota do partido saquarema. O ra- to “secundário”, “subsumido” (p. 277)
cha dos conservadores, que possibi- nos temas constitucionais maiores.
litou a aprovação da Lei do Ventre Li- Realmente, isto é levar longe demais
vre, teria ocorrido em torno de ques- o amor à própria escultura. Todavia,
tões concernentes às concepções de aparece como desfecho lógico de um
Estado e de representatividade polí- livro caracterizado sempre pelo pro-
tica. A corrente saquarema, de oposi- cedimento de inflar a própria perspec-
ção à lei, capitaneada por Paulino So- tiva até o ponto de eliminar todas as
ares de Sousa (filho), Perdigão outras. O que há de interessante no
Malheiro e José de Alencar, defende- argumento da oposição parlamentar à
ria o constitucionalismo e o governo lei é a tentativa de construir uma
representativo contra o autoritarismo homologia entre a sua percepção de
crescente do imperador, que tinha que o imperador abusava do seu po-
como seus títeres os membros do ga- der, causando desordem no mundo da
binete, comandados por Rio Branco política, e a alegação de que o projeto
e capazes das mais medonhas artima- de lei provocaria a insegurança social
nhas para desestabilizar o jogo parla- ao reforçar a autoridade pública em
mentar e impor a aprovação da lei. detrimento da autoridade senhorial.
Quanto ao problema do constitucio- Em suma, os saquaremas resistiam à
nalismo, alguns trechos de discursos idéia de submeter o poder privado dos
parlamentares citados por Needell, senhores ao domínio da lei, e nisso
como o de Paulino, à página 288, mostravam que continuavam a ser os
mostram que houve debate sobre mo- legítimos representantes dos grandes
dos diferentes de interpretar os limi- proprietários de terras e escravos da
tes constitucionais do poder do im- província fluminense, e de outras pa-
perador, não um racha entre ragens. De resto, o que mais se discu-
constitucionalistas e outros que não tiu em 1871 foi mesmo escravidão e
o eram. Os governistas chegaram a emancipação, por mais que tal
ser chamados de “comunistas”, “re- constatação dificilmente se preste a
volucionários”, fomentadores do fundamentar fumaças de revolução
“caos social” e da “desordem” – tudo historiográfica.
prosa de político em momento de Haveria muitíssimo mais a dizer a res-
confronto. peito do que diz Needell sobre 1871.
O ne plus ultra da interpretação de Deixo-vos o superlativo, e o resto para
Needell é a conclusão de que os deba- outra oportunidade, se houver.
tes sobre a lei de 1871 não foram so-
Sidney Chalhoub
bre escravidão e emancipação – assun- Professor Titular
Departamento de História, UNICAMP

326 Afro-Ásia, 35 (2007), 317-326

res sidney.pmd 326 6/7/2007, 07:53