Vous êtes sur la page 1sur 8

O retrato de Ndalu, em Bom Dia Camaradas, de

Ondjaki

Trabalho elaborado para a Unidade Curricular


de Temas de Literaturas Africanas de Língua
Portuguesa, no âmbito do Mestrado de Teoria da
Literatura e Literaturas Lusófonas

Joana Palha
Nota Prévia

O romance de aprendizagem, mais conhecido por Bildungsroman, na forma,


costuma ser, na sua maioria, biográfico e o herói uma personagem muito sensível, que
vai encontrando guias que representam diversas perspetivas. Os protagonistas passam por
muitas indagações antes do seu caminho, culminando no seu amadurecimento.
O trabalho apresentado pretende construir um retrato da personagem principal,
Ndalu, aliado ao romance de aprendizagem, pois o protagonista, através de variadas
memórias da sua infância, tem uma visão muito própria da realidade vivida em Luanda
na época apresentada no romance, os anos da guerra civil angolana, pois está de certa
maneira envolvido no conflito.
A reflexão vai salientar a importância da família e da escola como formas de
amadurecimento no protagonista, pretendendo o trabalho mostrar como a infância pode
ser um período maravilhoso, sem olhar às condições sociais, e como as crianças, neste
caso especifico Ndalu, têm a sua experiência única devido à sua cultura, marcada por
vários episódios.

O retrato de Ndalu, em Bom Dia Camaradas, de Ondjaki

O retrato é geralmente definido como a representação de alguém ou de algo,


podendo ter várias perspetivas, não estando só circunscrito à descrição de uma obra de
arte ou mesmo de um objeto, mas também podendo apresentar aspetos sociais de um
determinado país ou classe social. O Bildungsroman pode aliar-se ao tema do retrato,
neste caso estando este tema relacionado com uma vertente descritiva mais social, devido
aos seus princípios de desenvolvimento, crescimento, formação e aprendizagem, fazendo
com que o protagonista, através dessa representação que vai construindo, tenha uma
melhor perceção da realidade e do caminho que vai traçar ao longo da sua existência.
Ndalu, o protagonista do romance, apresenta o protótipo do romance de
aprendizagem, preenchendo quase todos os requisitos, pois é o elemento-chave da
história, é do sexo masculino e é jovem, só se desencaixando na questão da mobilidade e
da insatisfação, não saindo do lugar onde está e não mostrando sinais de mal-estar em
relação ao seu ambiente familiar e social, apesar do conflito armado da sua cidade; no
entanto, mesmo não se deslocando Ndalu vive as suas aventuras e as suas experiências.
O menino é-nos apresentado como um pré-adolescente residente em Luanda, num bom
núcleo familiar, de classe média, frequentando a escola, onde tem muito boas amizades.
O protagonista tem uma curiosidade muito aprimorada, um carácter prático e
despachado, afirmando que “era o primeiro a acabar as coisas” (Ondjaki,2002:61), sendo
um observador nato de tudo o que o rodeia e tendo, apesar de o negar, pois não se vê de
todo dessa maneira, um pouco de carácter revolucionário, indagando “espírito
revolucionário? Eu nem sequer gostava de acordar cedo” (Ondjaki, 2002:110).
O amadurecimento e crescimento de Ndalu realiza-se de muitas maneiras, o que
também faz parte do seu retrato social, pois apesar de permanecer sempre no mesmo
espaço físico, Luanda, também passa por algumas transformações e lida com o lado
menos bom da realidade, os quais lhe causam muito sofrimento. O caso das despedidas
dos colegas e dos professores cubanos, onde o protagonista confessa a Romina, a sua
colega e amiga mais próxima, “eu não gosto de despedidas” (Ondjaki, 2002:90), e o caso
da morte do camarada António, o empregado da sua família, momento em que Ndalu
revela que fez “força para não chorar, fingi que o camarada António estava ali junto ao
fogão” (Ondjaki, 2002:134), onde o protagonista se vê confrontado com mais uma perda,
desta vez definitiva, funcionam como uma tomada de consciência de que o mundo contém
situações irreversíveis, às quais não se pode ficar indiferente e muito menos escapar.
O Bildungsroman pode construir um retrato de uma personagem, devido à sua
capacidade de conseguir apresentar características descritivas, tanto a nível pessoal como
a nível social, do protagonista, neste caso concreto, Ndalu, dando asas a uma análise
refletiva sobre todo o processo evolutivo empreendido pelo menino.

Ndalu e as relações familiares

A família é uma base importante no retrato que o protagonista de Bom Dia


Camaradas realiza de si próprio; todas as personagens do seu ambiente familiar estão
representadas ao longo do romance e a todas é dado um papel de relevância na vida e no
quotidiano do menino. As relações familiares de Ndalu são repletas de confiança e de
afeto, o que difere um pouco do romance de aprendizagem tradicional, devido à
apropriação do género, que está adequado à realidade da sociedade angolana da época,
pois a personagem principal costuma ser pressionada pela família para seguir um
caminho, o que não acontece com Ndalu, devido à compreensão mostrada pelos seus
familiares em relação ao facto de o menino estar numa faixa etária próxima da puberdade.
A primeira personagem apresentada por Ndalu, ao contrário do que se possa
supor, não é nem o seu pai, nem a sua mãe, e tão pouco as suas irmãs, mas sim o Camarada
António, o empregado que trabalhava na casa da sua família; está aqui presente desde já
a influência que esta figura exerceu sobre o protagonista, como se pode confirmar em
diversos episódios do romance. Notamos, então, mais uma vez a ternura que o ambiente
familiar incute em Ndalu, não desmerecendo o afeto mostrado pelos colaboradores da
casa, contribuindo este aspeto para a formação humana e social do protagonista.
Ndalu conta-nos que o pai trabalha no ministério, mas não dá muita importância
à figura paterna na sua história, apesar de lhe ter uma grande afeição e de o considerar
uma figura de base na sua ainda breve existência; o mesmo não acontece com a mãe,
professora, e com quem tem uma relação muito próxima, sendo esta também uma das
características das personagens masculinas do Bildungsroman, que entrevem na figura
materna a estabilidade e o amadurecimento que tanto buscam.
O protagonista, ao longo do romance, vai-nos fazendo um retrato da sua família,
bem como das suas rotinas familiares, dando muita importância a algumas, como é o caso
do pequeno-almoço, apresentando esta refeição de um modo repleto de prazer, com a
expressão “Matabichar cedo em Luanda, cuia!” (Ondjaki, 2002:21), e menos a outras,
como acontece com a questão do banho, onde se refere a este ritual como uma “mania,
toda hora já banho, banho, acho que não é preciso, se calhar de dois em dois dias, ou coisa
assim” (Ondjaki, 2002:61). A rotina familiar é um fator importante para o seu
crescimento, pois dá a Ndalu um sentido de organização desde a sua infância, bem como
no desenvolvimento de certos valores.

Assim já era hora do almoço. As minhas irmãs chegavam da escola, o


meu pai também chegava. A casa ficava mais barulhenta, mais o
barulho da rádio do camarada António ligado na cozinha, mais a minha
irmã caçula que queria contar tudo o que se tinha passado na escola
nessa manhã. Ela sabia que tinha que se despachar porque quando fosse
uma hora em ponto ia ter que parar o relato para deixar os pais ouvirem
as notícias. (…) (Ondjaki, 2002:25-26)

O mundo da infância retém imagens muito próprias e frescas, bem como


profundas experiências imprimidas de uma paisagem nativa e Ndalu dá bastante conta
disso ao leitor, pois descreve muitas vezes o bem-estar ou o mal-estar que a paisagem
inspira em si, em vários espaços de Luanda, mas principalmente no jardim da sua casa.

Fiquei na varanda. No jardim havia umas lesmas que deviam ser mais
velhas porque sempre acordavam cedo. Eram muitas. Depois do
matabicho, ficar assim na varanda com aquele fresquinho, ver as lesmas
irem não sei aonde, aquilo dava-me sono outra vez. Adormeci mesmo.
(Ondjaki, 2002:22)

A imagem da noite é muito curiosa, pois sendo um motivo romântico ganha ainda
mais ênfase na descrição feita pelo protagonista, “noite tem cheiro, sim” (Ondjaki,
2002:97), denotando mais um traço para desenhar o seu retrato psicológico, a sua
sensibilidade, o que também se alia a um dos princípios do protótipo do Bildungsroman.
A influência das mulheres mais velhas nos protagonistas do romance de
aprendizagem também é uma questão muito recorrente e temos aqui esse motivo ilustrado
pela figura da tia de Ndalu, Dada, que vive em Portugal e vai passar uns dias a Luanda,
ficando integrada durante esse tempo no ambiente familiar da casa. O protagonista tem
uma afeição especial pela tia, embora só a vá conhecer pessoalmente na idade em que
agora se encontra, pois mantém com ela uma relação madura a nível de todas as conversas
que aparecem ao longo do romance, sendo realçadas as conversas telefónicas, pois Ndalu
refere a voz da tia como “doce”. O sexo feminino, representado nas figuras da mãe e da
tia Dada, contribui, em grande escala, para muitos aspetos importantes no processo de
descoberta e amadurecimento dos protagonistas retratados no género literário que é o
Bildungsroman.

Ela foi uma das poucas pessoas mais velhas que eu encontrei que não
falou comigo como se eu fosse uma criança pateta, cumprimentou-me
com dois beijinhos quando eu até estava habituado a dar um beijinho
na cara dos mais velhos, e disse-me só assim: está muito calor, não
achas? (Ondjaki, 2002:39)

Ndalu clarifica, de uma forma simples, a descrição que enceta sobre a sua família,
mostrando de uma forma muito sucinta, mas original e completa, as relações e as rotinas
do seu quotidiano familiar. O lar aparece como um lugar onde o protagonista se sente
bem e feliz, não tendo relutância em referir nenhum aspeto, passando um retrato tranquilo
para o leitor.

Ndalu e a escola

O protagonista de Bom dia Camaradas faz também um retrato muito favorável da


escola, embora como toda a criança, também saliente os aspetos menos bons; contudo, de
uma forma geral, é notável que a escola é um lugar onde Ndalu se sente confortável, sendo
um menino interessado pela aprendizagem, daí que refira bastante o espaço escolar nestas
memórias que fazem parte da história da sua vida.

Ela começou a ler, eu fui arrumando outras coisas. Era muito giro mexer
nesses cadernos do antigamente, uma pessoa encontrava redações
engraçadas que fazíamos na segunda e na terceira classe, os desenhos
bem malaicos da pré-cabunga, as contas armadas de dividir, tudo coisas
que agora pareciam muito antigas. (Ondjaki, 2002:99)

As experiências escolares de Ndalu são muito importantes e pertinentes, pois


funcionam não só como uma experiência do protagonista, mas sim como uma experiência
em grupo, tornando-se assim a voz do narrador a voz do grupo; assim, nesta parte da vida
do menino existem vários protagonistas com voz, a qual, segundo Geta Leseur (1995),
deve ser aceite como autêntica. Alguns exemplos disso são a mobilização que Ndalu e os
colegas encetam para combater o grupo violento denominado de Caixão Vazio,
relembrando o protagonista que “quando a aula começou, os rapazes estavam todos a
pensar no Caixão Vazio. Cada um imaginava já estratégias de fuga” (Ondjaki, 2002:30),
e o ritual que levam a cabo todos os anos, no final do ano letivo, descrito no seguinte
excerto da obra:

Dali fomos para a parte de trás das salas, ali onde cheirava bué a chichi.
Tirámos os cadernos e os livros das mochilas, eu tinha trazido todos os
meus cadernos de apontamentos menos o de Língua Portuguesa que
tinha lá redações que eu gostava. O Cláudio tirou os livros, o Helder, o
Bruno também, pusemos tudo junto e acendemos o fogo. (Ondjaki,
2002:130)
Os colegas e os professores cubanos com quem o protagonista mantém uma boa
relação de amizade são uma marca muito presente no retrato escolar apresentado por
Ndalu, pois são as pessoas com quem mais convive, além da sua família; estas figuras são
com quem compartilha as experiências mais importantes do seu crescimento, passando
estas por serem meras brincadeiras, relações mais afetivas ou perceções de uma realidade
social obscura.

Eu e a Romina éramos amigos há muito tempo, mas não conversávamos


muito, até porque na escola se um rapaz está toda hora a conversar com
uma rapariga, assim já vão dizer que ele quer engatar, que tá a dar xaxo,
ou então, que é pior, dizem que é um rapaz que só quer andar com
meninas. (Ondjaki, 2002:73)

O protagonista faz uma contente rememoração de diversos episódios que têm a


sua vertente divertida, mesmo por serem meros acontecimentos revestidos de
simplicidade, sendo um exemplo concreto o facto de o próprio chegar de carro à escola,
dizendo que “os meus colgas estavam todos a rir porque eu tinha chegado de boleia”
(Ondjaki, 2002:16), ou também o facto de encenarem brincadeiras sem qualquer tipo de
maldade com os professores cubanos, devido à questão da língua, pois como Ndalu
desvenda “eu e o Bruno também gostávamos de brincar com os professores cubanos,
como eles às vezes não percebiam bem o português, nós aproveitávamos para falar rápido
e dizíamos disparates” (Ondjaki, 2002:16).
Ndalu, ao falar da escola, também alude a memórias dos cheiros e da paisagem
nativa da sua cidade, Luanda, realçando o facto do odor a catinga, devido ao imenso calor
que sente quando está próximo de colegas que vêm pelo seu próprio pé para a escola.
Segundo o menino “estava muito calor. Alguns colegas cheiravam muito a catinga, o que
é normal para quem tenha vindo a pé para a escola.” (Ondjaki, 2002:28)
A questão da educação é um dos pontos muito focados no romance de
aprendizagem, fazendo então todo o sentido este retrato escolar, também com uma
vertente social, pois Ndalu recebe uma marcante influência das personagens dos
professores cubanos. Rodríguez Fontela, ao longo dos seus estudos, chega até a chamar
ao Bildungsroman romance de educação ou romance pedagógico, devido a ser um género
literário de formação que modela uma personalidade, através de um agente, o professor.
Considerações Finais

O tema do retrato literário, neste caso abordado numa perspetiva social, interliga-
se com algumas das principais características do Bildungsroman, tendo um dinamismo
literário que permite uma descrição bem estruturada, dotada de grande simplicidade.
Ndalu, com as suas memórias, no romance Bom dia Camaradas, de Ondjaki, traça
um retrato, que além de seu, é muito próprio e íntimo de Angola, nomeadamente da cidade
de Luanda, espaço central da sua existência que serviu como base para a descoberta da
sua identidade, através da interação com o que o rodeava e com a sua natureza.

Referências

Leseur, G. (1995). Ten is the Age of Darkness. The Black Bildungsroman. University of
Missouri. Press Columbia and London.
Ondjaki (2002). Bom Dia Camaradas. Editorial Caminho Outras Margens. Lisboa.