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H U M l I O K S P A Ç O

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^"•^ espaço escolar tem de
ser analisado como um constructo
cultural que expressa e reflete,
\ N I O M U \ I N vn |<'|(A<;<>
p a r a além de sua materialidade
determinados discursos. No quadro I \ < i . |I N VéSi OI.AINO
das modernas teorias da percepção,
o espaço-escola é, além disso u m
mediador cultural em relação à
génese e formação dos primeiros
esquemas cognitivos e motores, » I •/«. /V
I - •

ou seja, um elemento significativo


do currículo, uma fonte de
experiência e aprendizagem.
Mais ainda, a arquitetura escolar
41 i i
pode ser considerada, inclusive,
como uma forma silenciosa
de ensino.

ISBN 85-7490-105-9

I 1 I I I
a arquitetura como programa

Espaço, currículo e
subjetividade — a arquitetura
como programa t r a b a l h a o
espaço e s c o l a r e m t o d o s os
níveis, p r o c u r a n d o e x p l o r a r
Iodas as suas possibilidades
enquanto instrumento CURRÍCULO, ESPAÇO
realmente eficaz de educação. E SUBJETIVIDADE
A p o i a d o s e m vastíssima a arquitetura como programa
p e s q u i s a histórica, o s a u t o r e s
p r o c u r a m fazer d a educação
u m p r o c e s s o d e configuração
d i e s p a ç o s ; espaços n ã o
s o m e i i l e d e lugares mas

I . I I U I M in p e s s o a i s e s o c i a i s .
Num unindo globalizado,

i MI c o i i N l a n l e Iransformação,

" i |>.i fio pode mais s e r

d o m i n a d o pela n e c e s s i d a d e
lli u m , h I H implacável

• p< In p o n t o di- v i s t a l i x o .
•Mi i > , a organização
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H i i i i o l u i u i i i i . i l u i . u m . , ii
T i t u l o originais
" D e l espacio escolar y la e s c u d a como l u g a r :
propuestas y cuesliones"e
La a r q u i t e c t u r a como p r o g r a m a . Espacio-escuela y c u r r i c u l u m "
I n : Revista H i s t o r i a de la e d u c a c i o n .
Vol. X I I - X I I I . Ediciones Universida<l de Salamanca, 1995.

CURRÍCULO, ESPAÇO E SUBJETIVIDADE

a arquitetura como programa


A n t o n i o V i n a o Frago e A g u s t i n Eseolano
C U R R Í C U L O , ESPAÇO
E SUBJETIVIDADE
Tradução a a r q u i t e t u r a como p r o g r a m a
Alfredo Veiga-Neto

Revisão da tradução:
Tomaz Tadeu da Silva

Reproduções fotográficas
Maria Manzanera
ANTONIO VINAO FRAGO
Projeto gráfico, capa e gerência de produção
Rodrigo Murlinho E AGUSTÍN ESCOLANO

Revisão de provas
Paulo Hamilton
Tradução:
Alfredo Veiga-Neto

Catalogação na fonte do D e p a r t a m e n t o N a c i o n a l do L i v r o

V766c
Vinao Frago, Antonio, 1943- 2 a
edição
Currículo, espaço e subjetividade: a arquitetura como
programa/ Antonio Vinao Frago e Agustin Eseolano: [tradução
Alfredo Veiga-Neto]. - 2. edição - Rio de Janeiro: DP& A, 2001.
152 p.; 16x23 cm.

ISBN 85-7490-105-9

1. Educação — Aspectos sociais. 2. Uso do espaço (Educação).


3. Currículos. I. Eseolano, Agustin. II. Título.

CDD-370.19
I ( I Í I I O I H S de l.i Universidad de Salamanca

© da tradução Do Paulo Editora L u l a

SUMÁRIO
Proibida a reprodução, total ou parcial,
por qualquer meio ou processo,
seja reprográfico, fotográfico, gráfico, microfilmagem ele.
Eslas proibições aplicam-se também às características gráficas
e/ou editoriais. A violação dos direitos autorais
é punível como crime (Código Penal, o / í . 184 e § § ; Introdução 07
Lei 6.895/80), com busca, apreensão e indenizações diversas
(Lei 9.610/98-Lei do Direito Autoral - arls. 122, 123, 124 e 126). Antonio Vinao Frago

Arquitetura como programa.


Espaço-escola e currículo 19
Agustin Eseolano

Introdução 21

A arquitetura como programa 26


D P & A Editora 0 e s p a ç o - e s c o l a no currículo 47
R u a J o a q u i m S i l v a , 98 - 2" a n d a r - L a p a
C E P 22.241-110 - R I O D E J A N E I R O - R J - R R A S I L
Tel./Fax: (21) 2232.1768 D o espaço escolar e da escola como lugar:
e-mail: dpa@dpa.com.br
homo page: w w w . d p a . o o m . l i r propostas e questões 59
Antonio Vinao Frago

Espaço e lugar:
a dimensão espacial da atividade humana 62

A escola como lugar 65

A d i m e n s ã o e s p a c i a l dos e s t a b e l e c i m e n t o s d e e n s i n o
e a dimensão e d u c a t i v a do espaço escolar 74
Impresso no Brasil
A localização: urbanismo e educação 81
2001
Kdifícios c c a m p o s escolares
OU a d i c i l c l i c a d o a b e r t o e d o f e c h a d o 89

Disposição e distribuição
i n t e r n a dos e d i f í c i o s e s c o l a r e s 106

0 e s p a ç o d a s a l a d e a u l a o u as r e l a ç õ e s e n t r e os
m é t o d o s p e d a g ó g i c o s e a d i s p o s i ç ã o e s p a c i a l das
pessoas e d o s o b j e t o s 121
v

A guisa de resposta 136

Bibliografia 141

INTRODUÇÃO
s
k _ y e me pedissem que sintetizasse quais têm sido
nos últimos anos — e a i n d a são — a q u e l e s campos de
investigação histórico-educacional aos quais dediquei atenção
preferencial, i n c l u i r i a entre eles — j u n t o com as questões
referentes ao processo de profissionalização d o c e n t e , à
escolarização e à evolução da educação secundária — três
outros que, ao menos para m i m , mantêm uma estreita relação:
o espaço e o tempo escolares e a alfabetização ou processos
de comunicação e tecnologização da palavra. Se me pedissem,
além disso, que especificasse aqueles que tinham me trazido
uma especial satisfação, eu citaria em primeiro lugar os três
indicados.
Algumas vezes tenho me perguntado sobre o porquê
dessa preferência. A resposta, como quase sempre, é uma
combinação de aspectos acadêmico-científicos e pessoais.
Os aspectos científicos estão aí visíveis: o auge, entre os
historiadores da educação, das chamadas história do currículo
e história da escola como instituição, realidade material e
cultura. E m recente número da revista Pcedagogica Histórica,
d e d i c a d a à história d a r e a l i d a d e e d u c a t i v a c o t i d i a n a
("Towards a History of Everyday Educational R e a l i t y " ) , Mare
Depaepe e Frank Simon, n u m artigo introdutório, diziam que

9
ANTONIO V INAO I' H A C O

essa questão, a saber, a realidade cotidiana dos processos e de deslindar o caráter ou a natureza da instituição escolar.
contextos de ensino e aprendizagem, foi e é a " c a i x a negra" Essa análise integrava ideias e fatos, teoria e p r a x i s . A brecha
da historiografia pedagógica . Por sorte, isso está mudando, e
1 aberta por esse trabalho não parece ter tido continuidade. No
uma das vias dessa mudança é a das investigações sobre o entanto, igualmente ao que aconteceu com outra questão não
espaço e o tempo escolares, assim como a das investigações menos i m p o r t a n t e , a do tempo escolar, essa dimensão da
sobre os d i s c u r s o s e d u c a t i v o s e sobre os processos de realidade educativa, a saber, o uso e a distribuição do espaço
comunicação que toda a atividade educativa carrega consigo. escolar, sua transformação em lugar, começa a estar na m i r a
t a n t o d a q u e l e s q u e se p r e o c u p a m c o m as questões
Os aspectos pessoais que i m p l i c a m essa preferência
organizativas, curriculares e didáticas, quanto daqueles que,
são mais difíceis de concretizar. Têm, às vezes, algo de intuição
a partir das ciências sociais, analisam os tipos de organização
ou olfato científico e algo de opção ou inclinação por aquelas
e distribuição e s p a c i a l que as instituições educacionais
questões que, segundo creio, conformam nossa mente, nosso
oferecem e as outras, fechadas ou demarcadas, com as quais
modo de pensar, de ver o mundo e de entendê-lo, assim como
elas guardam certas semelhanças.
de t r a n s m i t i r t a l visão e t a l c o m p r e e n s ã o . A l g o q u e ,
estranhamente, parece ter preocupado pouco, por enquanto, A p e s a r da importância da dimensão e s p a c i a l da
tanto aos historiadores quanto aos psicólogos e pedagogos. atividade humana em geral, e da educativa em particular, essa
O u , ao menos, que só de u m modo incidental, não sistemático, última é uma questão não estudada nem a fundo nem de modo
tem figurado em suas agendas de trabalho. Nessa opção, sistemático. Quando a atenção se d i r i g i u a essa questão, foi
subjaz, portanto, a certeza, filha da experiência, de que tais para centrar-se mais nos seus aspectos teórico-discursivos, ou
questões - o espaço, o tempo e a linguagem, ou seja, nossas seja, nas propostas efetuadas em relação com a distribuição e
vivências e representações das mesmas — constituem aspectos usos do espaço escolar, e legais, ou seja, nas regulações dos
chaves para compreendermos, tanto em nível i n d i v i d u a l aspectos tecnoconstrutivos, higiénicos e pedagógicos dos
quanto interpessoal, o social. Também, sem dúvida, para edifícios escolares, do que nos aspectos de índole antropológica
organizar nossas vidas, para viver e para deixar viver. e relacionados com a história da escola como lugar e de sua
realidade material. Várias razões explicam esse fato.
No que se refere ao espaço, a lacuna historiográfica
é evidente. No ano de 1985, surgiu na Espanha u m l i v r o : A p r i m e i r a delas é de t i p o historiográfico. Essa
Ensayos sobre la escuela. E l espacio social y material de la questão, do espaço escolar, dificilmente poderia interessar
escuela, cujo autor era Jaume Trilla. Nesse l i v r o , a partir de para u m a história da educação centrada nas ideias ou naquilo
u m enfoque inovador, se analisava, entre outros aspectos, o que se chamou pensamento pedagógico. Poderia interessar,
espaço escolar em sua perspectiva histórica, com a finalidade ao contrário, a u m a história da política educativa ou das
instituições escolares, ou a uma história social da educação.
1
D E P A E P E , M . & S I M O N , E " I s lhere any place for lhe history of 'education' i n lhe No e n t a n t o , as p r e o c u p a ç õ e s f u n d a m e n t a i s da p r i m e i r a
'history of education'?" Pcedagogica Histórica. International Journal of lhe History of
foram sempre — e isso é lógico — os aspectos ideológicos e
Education, n* X X X I , 1 9 9 5 , pp. 9-16.

11
10
11\ i n u u v y A u

legais de índole geral, os conflitos e lutas pelo poder, os perspectivas diferentes. A s s i m , por exemplo, a p a r t i r da
processos de d e c i s ã o política e, m a i s r e c e n t e m e n t e , a história da política educacional se começou a estudar as
formação dos sistemas educacionais nacionais ou o papel do intervenções e regulações estatais ou de outros organismos
Estado na educação. M u i t o raramente, tratou de analisar a públicos neste campo, o estabelecimento de modelos oficiais,
micropolítica escolar ou académica, isso é, a consideração a política de construções escolares e o planejamento da rede
das instituições educacionais como centros de decisão e poder escolar, entre outras questões, e, a partir da história social,
e, portanto, de conflitos pessoais e intergrupais. A q u i caberia, também como u m exemplo, o papel do discurso m é d i c o -
ainda que de modo p a r c i a l , uma análise histórica do espaço higienista na configuração do espaço educacional ou a sua
escolar. Os historiadores das instituições educacionais, por distribuição e usos em função da classe social ou do género.
sua vez, centraram a atenção, de u m modo geral, na sua génese
Dentro do processo geral - na história como disciplina
e na consolidação, ou em sua evolução e nas mudanças
e nas histórias s e t o r i a i s - de e x p a n s ã o dos temas de
relacionadas com os planos de ensino, com os professores e
investigação, dissolução de seus limites e fragmentação em
alunos. As alusões à distribuição e usos dos espaços que
campos mais específicos, a r e l a t i v a autonomia de novos
ocupavam não i a m além da mera informação sobre os edifícios
âmbitos de estudo, tais como a história do currículo e a história
em que se localizou a instituição em questão, acompanhada,
da escola como instituição - a definir quanto aos seus l i m i t e s ,
no m e l h o r dos casos, de fotografias e plantas. Quanto à
relações e questões - dentro da história da educação, tornou
chamada história social da educação (um qualificativo a ser
possível que essa dimensão espacial da atividade educativa
r e d e f i n i d o , t a l a a m b i g u i d a d e e a m p l i t u d e c o m que f o i
- a qual estava sendo tratada, cada vez com maior insistência,
utilizado), já lhe bastava ter de atender a tantas questões, até
pela psicologia do meio ambiente, a proxemia ou ciência
então ignoradas ou não tratadas, sobre as relações da educação
relativa ao emprego que o ser humano faz do espaço como
com os fatos económicos e sociais: por que i r i a se preocupar
meio de organização e relação social e a sociologia r u r a l ou
com u m tema que, da forma como tinha sido tratado (de uma
u r b a n a ou da v i d a c o t i d i a n a - e n t r a s s e na m i r a dos
maneira descontextualizada e meramente descritiva,
historiadores da e d u c a ç ã o . F o i , e f e t i v a m e n t e , d e n t r o da
r e l a t i v a m e n t e à história de a l g u m a instituição escolar
história da escola como realidade social e material, como
concreta), não parecia se revestir de maior interesse?
c u l t u r a específica, que a questão do espaço e do tempo
Foi, no entanto, a partir desses âmbitos, em conexão-, escolares a d q u i r i u importância nos últimos anos. Dentro de
com a cada vez maior atenção prestada à dimensão espacial uma história da escola como instituição social e cultural atenta
das atividades humanas pela antropologia e pela história à micropolítica e à organização interna da mesma, em que a
(deixamos fora a geografia, na qual essa dimensão é a razão reconstrução arqueológica adquire sentido não pela mera
que constitui a própria d i s c i p l i n a ) , que se empreenderam r e c o m p i l a ç ã o ou e n u m e r a ç ã o de objetos - u m a tarefa
investigações que tornaram evidente a necessidade de u m necessária mas insuficiente - , mas pela sua integração n u m
e s t u d o e s p e c í f i c o do e s p a ç o e s c o l a r q u e i n t e g r a s s e esquema explicativo que interpreta e dá sentido à realidade

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13
assim reconstruída. U m a história que requer uma nova leitura d i f i c i l m e n t e leremos u m a p e r s p e c t i v a g l o b a l d a q u e l a s
de fontes tradicionais - estatutos, regulamentos, discursos, questões que requerem uma análise que integre informação
memórias... - e o recurso a outras fontes até agora menos de diferentes épocas e lugares; uma informação que, se acaso
utilizadas, como autobiografias e diários, os relatórios das s u r g i r , o fará a q u i ou a l i , em pequenas unidades
visitas de inspeção, as descrições do edifício, das salas de descontextualizadas. A ausência de tal perspectiva favorece,
aula ou da vida escolar em geral, as memórias de arquitetos, n u m círculo vicioso, a exclusão de tais questões no ensino da
fotografias e plantas, cadernos e diários de classe, exames, d i s c i p l i n a . Que interesse podem ter essas questões assim
mobiliário e material de todo o tipo, calendários e horários fragmentadas?
escolares, inventários e u m longo etc. de restos da realidade
Por outro lado, é inegável que o dilema existe. Como
social e c u l t u r a l das instituições educacionais.
mostra a leitura de alguns dos textos incluídos no volume
Uma segunda razão explicativa para a escassa atenção c o l e t i v o de q u e são e d i t o r e s K . S a l i m o v a e E . V.
prestada pelos historiadores da educação ao espaço escolar Johanningmeier, Why should we teach History of Education
- na Espanha e fora dela - foi a adicionada dificuldade de (Moscou: The L i b r a r y of International Academy of S e l f - I m -
integrar pontos de vista profissionalmente distantes, tais como provement, 1 9 9 3 ) , alguns professores e investigadores dessa
o médico-higienista, o arquitetônico, o pedagógico e o político- d i s c i p l i n a resolveram-no acrescentando, à parte tradicional
a d m i n i s t r a t i v o . A q u e l e s que se a p r o x i m a r a m desse tema do p r o g r a m a , u m a outra, nova, na q u a l i n c l u e m temas e
p r i v i l e g i a r a m , por formação e por interesse, uma ou outra questões do tipo que comentei. Mas o usual, por enquanto, é
perspectiva, deixando de lado as demais ou tomando delas o a r e s i s t ê n c i a e m i n t r o d u z i r i n o v a ç õ e s e s t r u t u r a i s nos
estritamente necessário para dar conta das questões ou para programas docentes ou a introdução de tímidas reformas que
explicar o que se pretendia. só servem para dar uma visão superficial dos mesmos, sem
pôr em risco o esquema tradicional.
Há, t o d a v i a , uma t e r c e i r a razão, não menos
importante. Como também acontece em outros âmbitos, a Esse divórcio entre ensino e pesquisa, cada vez mais
investigação em história da educação esteve condicionada crescente, ou essa inércia a modificar o primeiro em função
pelo ensino dessa d i s c i p l i n a . 0 que quero dizer é que aqueles da segunda - inimaginável em q u a l q u e r d i s c i p l i n a que
temas que não têm lugar em u m programa normal de ensino, pretenda estar atualizada - , pode parecer irrelevante em
ou que não são u m desenvolvimento daqueles temas que alguns casos específicos ou excessivamente concretos. Mas
figuram em t a l programa, têm escassa possibilidade de ser isso não é assim quando se trata de processos de longa duração
objeto de uma investigação específica. Se os programas se - e s c o l a r i z a ç ã o , f o r m a ç ã o dos s i s t e m a s e d u c a c i o n a i s
estruturam, em geral, seguindo uma ordem cronológica - nacionais, alfabetização, configuração e ruptura de estruturas
i n d e p e n d e n t e m e n t e de q u e se a c h e m m a i s ou m e n o s educacionais duais, profissionalização e feminização docente
constrangidos por uma concepção da história da educação etc. — que exigem análises histórico-comparativas, ou quando
l i m i t a d a à história das ideias dos " g r a n d e s " pedagogos - , se trata daquelas questões - poucas, mas essenciais - que

14 l 5
conformam o ser humano como pessoa-no-mundo e quando A partir de sua leitura, Tomaz Tadeu da Silva, alento
se trata da educação formal como aquela atividade na q u a l como sempre àquelas investigações e temas que abrem n o -
se pretende levar a cabo aquela conformação de u m modo vas perspectivas e que operam nos l i m i t e s das diferentes
organizado e intencional. Refiro-me, como já disse, ao espaço, disciplinas, me propôs traduzir e publicar, em u m l i v r o , o
ao tempo e à linguagem, discurso e modos de comunicação. meu artigo, introdutório, de índole geral e metodológica, e o
Só u m a análise histórico-comparativa e integrada - não de Agustin Escolano, que combina aspectos gerais e concretos
fragmentada - pode oferecer uma interpretação com em torno da arquitetura escolar como currículo . 2

pretensões de globalidade de tais aspectos. No entanto, a


A publicação deste livro exige vários agradecimentos.
questão central permanece: como incorporar esses temas nos
A Tomaz Tadeu da Silva e à Editora D P & A , em primeiro lugar,
programas e no ensino da história da e d u c a ç ã o ? Como
por darem valor e mostrarem interesse pela novidade do tema.
combinar uma estrutura cronológica com outra, temática?
Aos companheiros do conselho de redaçâo de Historia de la
Como organizar u m curso académico em torno de duas ou
Educación, e de u m modo especial a A g u s t i n Escolano e José
três questões amplas - transversais, segundo a expressão usual
M a r i a H e r n a n d e z D i a z , por facilitarem a autorização
- , rompendo com u m esquema cronológico rígido? Que se
concedida por Ediciones de la Universidad de Salamanca, a
ganha e que se perde, em t a l caso?
q u e m p e r t e n c e m os direitos autorais dos trabalhos a q u i
O caminho se faz ao andar. Para dar resposta a essas incluídos. A essa editora e, como não, àqueles que dedicaram
p e r g u n t a s é necessário i n d a g a r e investigar. R e f l e t i r e p a r t e de seu t e m p o e esforço - a p a r t i r de u m e s p a ç o
contrastar. Escrever e esperar. Esperar que o pensamento académico e com u m discurso ou linguagem determinada -
amadureça e esperar as respostas de outros. Nunca o silêncio. p a r a t o r n a r possível u m a p u b l i c a ç ã o coerente em seus
Por i s s o , q u a n d o se me o f e r e c e u , há v á r i o s a n o s , a objetivos e resultados. Além disso, não resta mais do que
possibilidade de coordenar a parte monográfica do número esperar que a leitura dos referidos trabalhos desperte ideias
12-13 de 1 9 9 3 - 1 9 9 4 da revista Historia de la Educación, que sejam a origem de futuras investigações e que tudo isso
aceitei de imediato e propus que aquela parte fosse dedicada torne possível que essa questão - a questão do espaço esco-
ao e s p a ç o escolar, uma questão sobre a q u a l não h a v i a lar - seja incluída nos programas das disciplinas histórico-
p u b l i c a d o mais do que u m só artigo, mas que era objeto de educativas. Esse seria o melhor sintoma de que nossa tarefa
minhas aulas na licenciatura de pedagogia e em u m ou outro não foi em vão.
curso de doutorado - por exemplo, o curso que m i n i s t r e i na
Universidade de Málaga, em 1 9 9 1 . O resultado foi u m número
u m tanto volumoso, que reunia dez trabalhos sobre o referido
tema na p a r t e monográfica, e outros c i n c o na p a r t e de
2
Devo i n d i c a r , em relação a esses dois arligos, a colaboração da professora d a
"documentação e informação", além de u m a b i b l i o g r a f i a Universidad Nacional a Distancia, Gabriela Ossenbach Sauler, que não só estabeleceu
específica. os conlalos correspondentes com seus autores, como também teve, a seu cargo, a
tradução dos dois arligos.
V
16 17
ARQUITETURA COMO
PROGRAMA,
ESPAÇO-ESCOLA
E CURRÍCULO
A(;LSTÍN ESCOLANO
INTRODUÇÃO

c orno motivo de introdução a este trabalho, nos


serviremos — a i n d a que t a l p r o c e d i m e n t o não seja m u i t o
ortodoxo — de u m breve relato.
Quando já havia completado os cinquenta anos de
idade, o protagonista da narrativa visitou a escola que havia
frequentado em sua infância, entre os seis e os dez anos de
idade. O edifício havia sofrido notáveis transformações ao
ser adaptado, por ocasião das sucessivas reformas que se
haviam levado a cabo sobre sua estrutura original durante o
último meio século, às exigências de modernização material
e pedagógica de cada época.
Tal q u a l capas arqueológicas superpostas, nele p o -
dia-se observar vestígios de pelo menos duas reformas, mas
ainda conservava a vetusta estrutura e traços de quando
h a v i a s i d o c o n s t r u í d o , nos ú l t i m o s anos da d i t a d u r a
p r i m o r r i v e r i s t a (a inauguração aconteceu no início da etapa
r e p u b l i c a n a ) . Os planos e saliências c o r r e s p o n d i a m aos
p a d r õ e s q u e o Escritório T é c n i c o p a r a Construção de
Escolas, d i r i g i d o pelo arquiteto governamental A . Florez,
havia i m p l a n t a d o em vários lugares do país. Seu estilo, hoje
oculto em parte pelas reformas, correspondeu, sem dúvida
às c h a m a d a s c o r r e n t e s r a c i o n a l - r e g i o n a l i s t a s e n t ã o

2I
ARQUITETURA CUIHU 1'mn.KSMA. r,M-.\<,.ii-r.--»."i.n r. <••"•'•'••• ' "

dominantes, que se i n s p i r a r a m numa justaposição eclética A partir da narrativa anterior — mistura de ficção e
de critérios clássicos e funcionais e se serviram de materiais descrição realista — deveriam se manter, para nosso propósito,
próprios do país. U m modelo que havia conseguido dotar a principalmente duas observações: u m a , referida à história
escola primária espanhola de u m a i m a g e m i n s t i t u c i o n a l arquitetônica da escola; a outra, concernente aos processos
d i g n a , e m contraste c o m as quase surrealistas descrições psicopedagógicos que se operam no sujeito do relato.
que os observadores e viajantes dos fins do século X I X e
A l e i t u r a arquitetônica conduz a u m a conclusão
inícios do século X X ofereciam dos locais destinados pelos
conservadora: a média o u longa duração das estruturas
municípios à educação elementar.
c o n s t r u t i v a s escolares. U m e d i f í c i o - e s c o l a , p r o j e t a d o e
Além das antigas estruturas, o observador pôde notar construído na década dos anos vinte de nosso século, pode
que o edifício ainda mostrava alguns elementos funcionais e seguir sendo f u n c i o n a l no f i m do século sofrendo apenas
decorativos da época em que havia frequentado a escola. algumas ações de reciclagem que não afetam essencialmente
Observou, também, que os símbolos, ainda que tivessem o programa arquitetônico original. Não é arriscado supor, além
mudado, continuavam se exibindo em lugares destacados no disso, que sua vigência vá se prolongar até alcançar u m a
exterior do prédio e nas paredes das salas de aula. Isso duração secular, ainda que n u m futuro próximo tenha de sofrer
p e r m i t i u que ele identificasse os âmbitos de suas primeiras alguma outra ação reabilitadora. Imobilismo arquitetônico?
experiências, os espaços vividos, e provavelmente também Tradicionalismo didático? Economicismo da política
identificar-se a si mesmo naqueles lugares os quais ele não educacional em torno da escola pública?
havia desalojado completamente de sua memória.
0 relato revela, sem dúvida, a persistência, como
As salas de aula lhe pareceram sem dúvida menores; invariantes arquitetônicas, das estruturas construtivas que
os corredores, mais estreitos; a escadaria, pela q u a l se subia conseguiram formalizar os técnicos modernistas no início do
ao andar superior, onde estavam as salas de aula das meninas, século e m modelos que correspondiam aos postulados do
com menos degraus; o pátio de recreio, muito reduzido. Como higienismo, à racionalidade panóptica e ao movimento em
poderíamos — ele pensou — brincar e nos mover nele, os mais favor da graduação pedagógica. Esses pressupostos, a i n d a '
de trezentos meninos e meninas que coabitávamos naquele que já gozassem de certa tradição na chamada arquitetura
limitado território? Mas a memória não lhe era i n f i e l : o espaço i n s t i t u c i o n a l ( r e f i r o - m e , é c l a r o , aos d o i s p r i m e i r o s ) ,
que contemplava era, ainda que menor, o mesmo cenário de supuseram uma inovação relevante no âmbito das construções
sua infância, e os lugares que observava correspondiam aos escolares. A arquitetura, como forma de escritura no espaço,
seus primeiros esquemas perceptivos. A escola havia sido, expressava e instituía, assim, u m discurso inovador, mas ao
para ele, depois da sua casa e de alguns limites próximos a mesmo tempo punha em risco também os desenvolvimentos
ela, uma experiência decisiva na aprendizagem das primeiras posteriores da educação formal. Constituía-se, então, n u m
estruturas espaciais e na formação de seu próprio esquema i m p o r t a n t e fator de modernização do e n s i n o , a i n d a que
corporal.
iniciasse u m processo histórico que ia desembocar,

22
AGUSTIN ESCOLANO ARQUITETURA COMI» PROGRAMA. CiSPAÇO-ESCOLA K CURRÍCULO

c u m tanto grosseira, os elementos que formavam parte da


condicionado por diversas variáveis económicas, políticas e
sala de aula: as paredes, a porta e os janelões; as carteiras
c u l t u r a i s , em rígidas formas de conservadorismo quanto à
escolares, b e m alinhadas em duas fileiras; a mesa do p r o -
ordenação do território e do espaço escolares.
fessor (já sem estrado nem cátedra)... 0 estudo do espaço
N a perspectiva psicopedagógica antes referida, o (escolar e não-escolar) e de seus modos de representação e
r e l a t o m o s t r a a p r o f u n d a i m p r e s s ã o q u e as p r i m e i r a s j n j i d j d a c o n s t i t u i u , sem dúvida, u m m o t i v o c e n t r a l em
experiências do espaço organizado - o espaço escolar v i v i d o d i v e r s a s d i s c i p l i n a s c u r r i c u l a r e s . A e n c i c l o p é d i a , nos
- d e i x a r a m no o b s e r v a d o r , m a n i f e s t a ( e m q u e pese o capítulos de geografia, incluía noções e ilustrações sobre o
redutivismo com que ela volta à memória) na identificação espaço c ó s m i c o , os modos de se orientar e os mapas, assim
das estruturas arquitetônicas percebidas e experimentadas c o m o os m é t o d o s de d e s e n h a r p l a n o s ; nas s e ç õ e s de
na infância e na acomodação psicofísica das primeiras pautas aritmética e geometria, o espaço-escola podia ser objeto de
do esquema corporal - que ainda formavam u m a parte de exercícios de aplicação do sistema métrico, de medidas e
seu repertório de hábitos - à experiência revivida. cálculos de perímetros, superfícies e volumes; os cadernos
Envolto em sentimentos de nostalgia e c u r i o s i d a d e , de desenho o f e r e c i a m , como m o d e l o s p a r a r e p r o d u z i r ,
o visitante voltou à sua antiga casa, na q u a l , j u n t o aos seus desenhos esquemáticos de fachadas, planos e interiores
avós, p a i s , irmãos, havia passado os dias de sua infância. escolares; os livros de leitura inseriam textos alusivos à escola
N e l a encontrou outros testemunhos de sua escolaridade: a como edifício emblemático de povoados e cidades, b e m
c a r t i l h a em que deu seus segundos passos na aprendizagem situado, construído segundo critérios de higiene e conforto e
da l e i t u r a (os primeiros havia dado com a ajuda de seu p a i ) ; espelho das idealizações em que o já decrépito
a e n c i c l o p é d i a que l h e p r o p o r c i o n o u u m repertório de regeneracionismo ou a retórica de gestos e símbolos do novo
conhecimentos sucintos sobre as mais diversas matérias do regime haviam projetado sobre ele.
p r o g r a m a ; u m velho caderno de exercícios de c a l i g r a f i a ,
A n a r r a t i v a a n t e r i o r s u s c i t a no h i s t o r i a d o r da
desenho e p r o b l e m a s ; outros objetos e i n s t r u m e n t o s de
e d u c a ç ã o diversas questões que p o d e r i a m ser objeto de
t r a b a l h o . T o d o u m m a t e r i a l q u e n ã o só p o d e r i a ser
investigação, a i n d a que o interesse deste trabalho se c e n - ^
incorporado a u m museu etnográfico da educação, mas que
tre e x c l u s i v a m e n t e em mostrar o caráter " c u l t u r a l " que
também revelava muitos Jndícios de seu passado, de seu
t i v e r a m e têm os discursos e s a b e r e s sobre o e s p a ç o , a
currículo; que não era apenas u m monte de escombros de
função c u r r i c u l a r (empírica, o c u l t a , s u b l i m i n a r ) que a
u m a escola arcaica e ameaçada, mas também uma série de
anuaitetura escolar desempenhou na aprendizageni e na
traços ou signos que expressavam certas significações afetivas
formação das p r i m e i r a s estruturas c o g n i t i v a s e os usos
e culturais.
didáticos do espaço-escola nos manuais de ensino da escola
A o passar as f o l h a s do c a d e r n o , e n c o n t r o u u m tradicional.
desenho do plano da sala de aula, executado em escala, no
q u a l apareciam representados, de forma muito s i m p l i f i c a d a

24
ARQUITETURA COMO PROCRAMA. ESPAÇO-ESCOLA E CURRÍCULO

A ARQUITETURA COMO PROGRAMA ainda, a arquitetura escolar, como a definiu G. M e s m i n , pode


ser considerada inclusive como " u m a forma silenciosa de
N u m recente trabalho sobre as relações entre tempo e n s i n o " ( M e s m i n , G. 1967, pp. 6 2 - 6 6 ) .
e educação (Escolano, A . 1992, p p . 5 5 - 7 9 ) , mostramos como
Os espaços educativos, como lugares que abrigam a
as categorias espaço e tempo não são s i m p l e s esquemas
liturgia académica, estão dotados de significados e transmitem
abstratos, ou seja, estruturas " n e u t r a s " nas quais desagua a
uma importante quantidade de estímulos, conteúdos e valores
ação escolar. 0 espaço-escola não é apenas u m " c o n t i n e n t e "
do chamado currículo oculto, ao mesmo tempo em que impõem
em que se acha a educação institucional, isso é, u m cenário
suas leis como organizações disciplinares. Já faz vários anos
planificado a partir de pressupostos exclusivamente formais
que M . Foucault descreveu, com magistral argúcia analítica,
no q u a l se situam os atores que intervêm no processo de
c o m o a " a r t e das d i s t r i b u i ç õ e s no e s p a ç o " , a p l i c a d a
ensino-aprendizagem para executar u m repertório de ações.
igualmente a escolas, fábricas, quartéis, hospitais e cárceres,
A arquitetura escolar é também por si mesma u m programa,
f o i u m p r o c e d i m e n t o d a t e c n o p o l í t i c a d i s c i p l i n a r das
uma espécie de discurso que institui na sua materialidade u m
organizações m o d e r n a s , m a i s r a c i o n a l i z a d a s do que as
sistema de valores, como os de ordem, disciplina e vigilância,
clássicas, porém seguramente mais efetivas como dispositivos
marcos para a aprendizagem sensorial e motora e toda uma
para tornar " d ó c e i s " os corpos e as consciências (Foucault,
semiologia que cobre diferentes símbolos estéticos, culturais e
M . 1 9 8 2 , p p . l 3 9 s s ) . E m toda essa planificação panóptica e
também ideológicos. A o mesmo tempo, o espaço educativo
taylorista do espaço escolar, subjaz uma política social que
refletiu obviamente as inovações pedagógicas, tanto em suas
c o n t r o l a os m o v i m e n t o s e os costumes. Paralelamente, a
concepções gerais como nos aspectos mais técnicos. E evidente
d i s c i p l i n a do tempo educativo, inspirada nos vetustos ritmos
que as escolas do bosque ou os jardins de infância, para dar
do convento (aos quais o sistema napoleónico superpôs os do
alguns exemplos, expressaram em sua institucionalização ma-
tambor), reforçou, com a regularidade de seus ritmos, a ação
terial as teorias que os legitimaram, como igualmente é notório
microfísica das estruturas arquitetônicas, dando origem a todo
que as escolas seriadas ou as classes de ensino mútuo refletiram
um ordenamento da vida académica que passou, de forma
as práticas didáticas que se abrigaram entre seus muros.
"invisível", ainda que bem notória, a fazer parte do currículo.
A partir das perspectivas anteriores, o espaço esco- A. Giddens (pp.190-191) mostrou também, em seus recentes
lar t e m de ser analisado como u m constructo c u l t u r a l que trabalhos de teoria social, como " u m a escola é u m continente
e x p r e s s a e r e f l e t e , p a r a a l é m de s u a m a t e r i a l i d a d e , que gera poder d i s c i p l i n a r " . A "espacialização" d i s c i p l i n a r
determinados discursos. No quadro das modernas teorias da é parte integrante da arquitetura escolar e se observa tanto
percepção, o espaço-escola é, além disso, u m mediador c u l - na separação daslsalas de aulas (graus, sexos, características
tural em relação à génese e formação dos primeiros esquemas dos alunos) como na disposição regular das carteiras (com
cognitivos e motores, ou seja, u m elemento significativo do corredores), coisas que facilitam além disso a rotina das tarefas
currículo, uma fonte de experiência e aprendizagem. Mais e a e c o n o m i a do t e m p o . Essa " e s p a c i a l i z a ç ã o " organiza

26 27
i i u i . o • i 11 ij.il.ui./MiU

rninuciosamente os movimentos e os gestos e faz com que a seu desenvolvimento real, o mito clássico e ilustrado da polis
escola seja u m "continente de poder". Os primeiros modelos educadora, como ainda fez desaparecer a escola em sua
de escola seriada, como os que R. Blanco i n c l u i u em sua obra própria dinâmica de irracionalidade, deslocando-a para as
de 1 9 1 1 , respondem justamente a esses critérios de planificação periferias marginais, longe dos núcleos de m a i o r poder e
jmn&QÚ£â do espaço. A rotunda central do primeiro desses influência, sob o ilusório e ingénuo pretexto das
planos serve para " v i g i a r o andamento de todas as s e ç õ e s " recomendações do higienismo, da estreita visão ecológica e
(através de separadores envidraçados), e as demais salas de do naturalismo neo-romântico.|Nossas escolas j á não são
aula que saem radialmente dessa rotunda estão separadas certamente os tristes lugares descritos por Giner, Romanones
(setorializadas) entre si por pátios . Tais dispositivos são, além3 ou B e l l o , ainda que já naqueles tempos, ou mesmo antes, os
4

do mais, coerentes com as teorias arquitetônicas modernas que programas urbanísticos tenham sido tomados como naturais,
s u s t e n t a m q u e as pessoas e os o b j e t o s se r e l a c i o n a m induzidos pelo positivismo sociológico instituído pelo modelo
precisamente através de sua separação no e pelo espaço. As de setorialização da população, o qual prescrevia para cada
características psicossociais e culturais (também as educativas) segmento - e também para a infância - a sua própria área
dos indivíduos em geral se expressam especialmente mediante espacial. Nessa c i l a d a discursiva, caíram Giner e Cossio, ao
a separação em grupos (intervalos, distâncias, zonas) (Rapoport, postular, como todos os higienistas e moralistas de plantão,
A . 1978, p. 24). A orientação positivista das ciências humanas que a população se espalhasse entre a natureza e que a
(psicomelria, taylorismo, sociografia, programação) contribuiu infância se educasse n u m lugar saudável, ainda que estivesse
para tecnificar com base em fundamentos "científicos" esses afastado da v i d a urbana (Lahoz, 1 9 9 2 , pp. 8 9 - 1 1 8 ) . H o j e ,
como c r i t i c o u A . Fernandez A l b a , a tecnologia autoritária e a
paradigmas espaciais baseados na setorialização.
o . — • — - — I f - violência a d m i n i s t r a t i v a acabaram c o m a r a c i o n a l i d a d e ,
INão apenas o e s p a ç o - e s c o l a , mas também sua c o n s t r u i n d o a m b i e n t e s que c a r e c e m de f u n c i o n a l i d a d e
localização, a disposição dele na trama urbana dos povoados pedagógica e formas que se esboçam sem sentido para usos
e cidades, tem de ser examinada como u m elemento c u r r i c u - talvez futurísticos [futuribles]. Mas sobretudo deixaram claro
lar. A produção do espaço escolar no tecido de u m espaço que a configuração da escola na cidade moderna, mais uma
urbano determinado pode gerar uma imagem da escola como vez, segue o conflito, em vez de responder a critérios de
centro de um urbanismo racionalmente planificado ou como humanização. A relação da criança com o espaço urbano não
uma instituição marginal e excrescente. E. Faure postulou é u m episódio isolado, mas u m corolário que se acrescenta
seu modelo de " c i d a d e e d u c a t i v a " a p a r t i r da conhecida ao modo de construir as cidades em nossas sociedades . 5

definição de Plutarco que afirmava ser o " m e l h o r i n s t r u t o r " a


cidade - não a escola (Faure, E. 1973, p. 2 4 2 ) . Longe porém 1
G I N E R D E L O S R I O S , E 1 8 8 4 , pp. 1 3 - 1 4 . Testemunhos de Romanones sobre a
escola da época foram citados por Garcia Regidor, T. 1 9 8 5 , p. 4 5 . As notas de Bello
desse utopismo, a cidade moderna não só abandonou, em
sobre a situação precária das escolas do início do século são constantes no "Caderno
de Bitácora" que são as suas Viajes por las escuelas de Espana.
3
B L A N C O y S A N C H E S , R . Escuelas Graduadas. M a d r i d : I m p . de L a Revista de
A r q u i v o s , 1 9 1 1 , p p . 4 1 - 4 2 . A ENCICLOPÉDIA ESPASA, no verbete " E s c u e l a " , i n c l u i
5
F E R N A N D E Z A L B A , A . Prólogo a el nino y la ciudad. de A . B i s q u e r l , M a d r i d :

outro modelo de panóptico graduado (tomo X X , p. 1.040). C O A M , 1 9 8 2 , p. 2 3 .

28 29
ARQUITETURA COMO PROGRAMA. ESPAÇO-ESCOLA E CUHHICULO

Nas c i d a d e s u t ó p i c a s , as ideias de p e r f e i ç ã o e completamente livre(...), o ar do c a m p o " (Giner de los Rios,


equilíbrio tendem a produzir efeitos pedagógicos. A Cittá dei 1884, p p . 6-10). E esses locais-escola só deverão ser usados
Sole de Campanella, influenciada pela ideia de Plutarco a n - para as aulas que se deve dar em "salas-fechadas", cumprindo
tes comentada, comporta u m programa educador. Nela, a u t o - nesse sentido uma função análoga à que cumpre o " g a b i n e t e "
p i a consiste, como agudamente observa R. Ruyer, em tratar para o astrónomo, o engenheiro, o arqueólogo, o historiador
os p r o b l e m a s sociais como p r o b l e m a s de a r q u i t e t u r a e ou o arquiteto — " n e n h u m dos quais colhia a l i a maioria de
urbanística, assim como em neutralizar os instintos e as seus dados, os quais eram recolhidos ora ao ar l i v r e , ora no
paixões (o pathos), c o m p l e m e n t a Paolo Sica, através da museu, ante o monumento, na sociedade, no arquivo..., em
| ^educação (Sica, 1977, pp. 7 7 - 7 9 ) . A cidade moderna é, na 6
suma, no meio da realidade aberta, variada e inesgotável".
\ maior parte dos casos, u m constructo gestado entre interesses No mesmo sentido, " a p r i m e i r a escola é a v i d a " e os locais
e conflitos, apesar do qual o entremeado de racionalidades e em que ela se instala estarão abertos ao ar e ao sol, n u m meio
irracionalidades em que ela se materializa constitui uma parte n a t u r a l q u e i m p e ç a o d e s e n v o l v i m e n t o de " m i a s m a s "
importante, decisiva, do currículo não cursado, uma fonte ( c o n s t r u c t o do h i g i e n i s m o d a é p o c a , q u e e x p l i c a v a a
silenciosa de ensinamentos. propagação das doenças) (Giner de los Rios, 1884, p p . 5-7).

0 lugar que a escola teve de ocupar na sociedade foi Anos mais tarde, Manuel B. Cossio voltava a se referir
u m ponto de especial preocupação para os reformadores dos aos critérios de seu professor: "Sonha-se com monumentos
fins do século X I X e inícios do século X X . E Giner justificava escolares (com luxuoso e estético over-building, denunciava
a afirmativa rousseauniana segundo a qual as cidades eram G i n e r ) ; e eu acredito, ao contrário, que o ideal está em se
"abismos da espécie h u m a n a " e formulava como ideal de aproximar tanto quanto possível daquilo que Rousseau dizia:
toda a moradia o "aproximar-se, até o último grau possível, " a m e l h o r e s c o l a é a s o m b r a de u m a á r v o r e " . M a s ,
da vida ao ar l i v r e " . A escola também deveria se configurar "admitamos, para não escandalizar demais, que a escola é
conforme esse critério pedagógico, e mais de acordo com a uma casa". A s s i m , a escola buscará "o ar e a l u z " , longe das
concepção do médico e do higienista, em oposição ao que cidades e das fábricas ("abismos da espécie h u m a n a " ) , como
ele chamava a "ditadura do arquiteto". E m lugar dos "casebres mandam a higiene e a pedagogia (essa deve se basear, como
i m u n d o s " , disseminados na proporção de " u m em cada duas os modelos de Schiller e Frõebel, no jogo criador). " E como
ou três léguas", nos quais "se asfixia, de corpo e alma, uma será a escola? Como deve ser toda a construção racional...
centena de crianças sob a guarda de u m infeliz trabalhador sincera e económica". Para conseguir a sinceridade, " t e m de
b r a ç a l " , tem-se de programar u m b o m número de locais partir de dentro para fora, como u m organismo, e não de fora
decentes, seguindo o axioma de que "o único ar puro é o ar para dentro, que é como se costuma fazer". Logo, "rompamos
os muros da sala de a u l a " . "Levemos a criança ao campo, à
6
A a r q u i t e t u r a m o d e r n a l a m b e m apostou em f a v o r d a u n i d a d e e n l r e c u l l u r a e
oficina, ao museu... " (Cossio, M . B . 1 9 0 5 , pp. 2 8 - 3 6 ) . A q u i
sociedade. Gropius e a Bauhaus acredilavam que a arle poderia dar unidade c u l t u r a l
a todas as manifestações da vida cotidiana ( H A B E R M A S , J. " A r q u i t e c t u r a moderna y está o discurso idealista, romântico e naturalista dos homens
postmoderna". Revista de Occidente, n 4 2 , 1984).
a

30 31
Alioi M I I I II \ COMO PROGRAMA. K S P A Ç 0 - E 8 C 0 U E Cl RRlCI LO

da Instituição, paralelo ao que os levou a rejeitar o uso dos Moderna, realizado em 1933, recomendou localizar as escolas,
textos escolares; u m discurso que se volta a repetir quase assim como todos os serviços urbanos de uso c o m u m , nos
literalmente nas Notas sobre construcción escolar que o Museu espaços livres que faziam parte das unidades de habitação
Pedagógico Nacional p u b l i c o u em 1 9 1 1 . Nelas se pode l e r situadas entre as grandes vias de comunicação (Gatepac,
que " a escola propriamente d i t a , ou seja, a sala de aula, deve 1933). No mesmo sentido se pronunciava o arquiteto W. M .
apenas representar para a criança o que representa o gabinete Moser ( 1 9 3 3 ) , ao considerar que " a escola deveria ser o
de trabalho para o naturalista, o geógrafo, o historiador; u m e l e m e n t o d o m i n a n t e do c o n j u n t o de construções que a
lugar de repouso onde firmar, ordenar e construir as ideias e rodeiam, sendo o símbolo que represente o esforço em favor
dados r e c o l h i d o s no c a m p o , no m u s e u , na f á b r i c a , na da c u l t u r a " . A solução ideal seria que a escola estivesse dentro
sociedade, no meio da v i d a . . . " (Museo Pedagógico N a c i o n a l , do quarteirão de v i v e n d a s correspondentes, na zona de
1 9 1 1 , p . 6 ) . Sua localização evitará as c o n d i ç õ e s a n t i - espaços verdes. Desse modo, evitar-se-ia o contato com as
higiênicas e contrárias à sua missão social e educadora. Estará áreas de tráfego e se efetuaria uma distribuição harmónica
tão distante das ruelas sem luz e das massas de edifícios dos c e n t r o s de e n s i n o . I A ideia m o d e r n i s t a , a l é m de
quanto dos quartéis e das tabernas, abandonando-se o velho corresponder a critérios clássicos, já linha sido defendida por
critério antipedagógico de situar a escola no mesmo edifício E n r i q u e M . R e p u l l é s ( 1 8 7 8 , p . 8 ) , a u t o r dos p r o j e t o s
de outros serviços comunitários como o j u i z a d o , a prefeitura, arquitelônico-escolares há mais de meio século, para quem
o posto de saúde ou a prisão. as escolas deviam se instalar no cenlro das populações, ainda
que isoladas das vias públicas e n u m lugar adequadamente
A localização da escola é por si mesma uma variável
arejado, agradável e com boa comunicação com todos os
decisiva do programa c u l t u r a l e pedagógico comportado pelo
lugares de onde vinham os alunos. A partir dessa localização
espaço e pela arquitetura escolares. A proximidade à natureza
nuclear, a escola projetaria seu exemplo e influência geral
e à vida postulada pelos institucionistas favorece, entre outras
sobre toda a sociedade, como u m edifício estrategicamente
ações e estímulos, o jogo em l i b e r d a d e , o ensino ativo, a
situado e dotado de uma inteligência invisível que informaria
utilização didática do entorno, a contemplação n a t u r a l e
culturalmente o meio humano-social que o rodeia.
estética da paisagem, a expansão do espírito e dos sentimentos,
o desenvolvimento moral...(ibidem, p. 4 ) . De modo definitivo, Dentro desse conjunto de considerações, tem-se de
o urbanismo e a arquitetura ofereceriam assim uma completa convir também que a arquitetura escolar é um elemento c u l -
cobertura para alcançar as finalidades da educação, passando tural e pedagógico não só pelos condicionamentos que suas
a ser parte do programa pedagógico. estruturas induzem, aspecto que já salientamos anteriormente,

As correntes arquitetônicas vinculadas ao mas também pelo papel de simbolização que desempenha na

modernismo do início deste século voltaram a r e i n v i n d i c a r o vida social. 0 edifício-escola f o i , por isso, uma construção

lugar central que a escola devia ocupar em lodo o urbanismo diferenciada dos continentes exclusivamente práticos. D a

r a c i o n a l . 0 I V Congresso I n t e r n a c i o n a l de A r q u i t e t u r a mesma forma que outros edifícios (templos, palácios, câmaras

32 3 3
ARQUITETURA COMO PROGRAMA. ESPAÇO-ESCOLA E CURRÍCULO

m u n i c i p a i s , quartéis...), o edifício escolar é uma forma que às vezes u m tanto presunçosas, mas que com seu traçado
comporta determinada força semântica através dos signos e (jueriam expressar simbolizações e idealizações de uma nova
s í m b o l o s que e x i b e , como v a r i a n t e que é da c h a m a d a vontade c u l t u r a l .
arquitetura institucional. O viajante que toma contato pela
As Instrucciones sobre a r q u i t e t u r a escolar que a
p r i m e i r a vez com u m a população, pode observar e n e l a
Direção G e r a l de E n s i n o Primário p u b l i c a v a em 1 9 1 2
diferenciar, ainda sem conhecê-la, a singularidade de certas
e x p r e s s a v a m , ao c o n s i d e r a r a d e c o r a ç ã o dos edifícios
construções. Sua localização, o volume, o traço geométrico,
destinados à educação, a função estética e simbólica que
os s i n a i s q u e o seu desenho m o s t r a , os s í m b o l o s q u e
esses p o d i a m desempenhar na educação da infância e de
incorpora... tornam inconfundível seu objetivo e p e r m i t e m
t o d a a c o m u n i d a d e . R e l a t i v a m e n t e a essa q u e s t ã o ,
sua fácil identificação. Convém notar, no entanto, que isso
r e p r o d u z i a m o texto de A . Sluys: " O s povos c i v i l i z a d o s
não era assim antes de se configurar a arquitetura escolar
s o u b e r a m l e v a n t a r t e m p l o s em q u e se dá a e d u c a ç ã o
como u m género específico de ordem espacial. Não o era
religiosa, assembleias legislativas, símbolo da administração
quando a escola não existia como edifício adho.ee a instrução
popular, palácios da justiça, teatros, e t c ; a m a i o r parte
poderia levar-se a cabo em dependências tão diversas como
desses edifícios, com seu caráter artístico bem determinado,
os e s t á b u l o s , os cafés e salões de b a i l e , os desvãos e
impressionando agradavelmente com sua beleza; acaso a
cavalariças, os cemitérios e átrios de igrejas, os edifícios
escola primária não d e s e m p e n h a u m a importância de
fabris... (Gabriel, 1990, pp. 187ss). Nenh u m signo poderia
p r i m e i r a ordem nas nações cultas? Não é ela o laboratório
identificar esses habitáculos, tão diferentes entre s i , com u m
em que se lavra o p o r v i r de u m povo (...)? Onde se f i x a m
locus especializado em ministrar o ensino. Nesse sentido,
insensivelmente, na criança - desde a mais tenra idade, em
pode-se assegurar, pois, que o esforço levado a cabo pelos
que tudo impressiona vigorosamente - , os sentimentos mais
políticos e técnicos do regeneracionismo do último período
puros e delicados? Não é lógico, pois, que se dê à escola
de entresséculos - por definir o modelo (ou os modelos) de
u m caráter artístico em harmonia com o seu destino? E não
arquitetura escolar - c u m p r i u não só uma função pedagógica,
é que se trate, à força do d i n h e i r o , de construir palácios
mas também u m objetivo c u l t u r a l de primeira magnitude, ao
repletos de motivos ornamentais com u m luxo não justificado
criar u m dos símbolos que melhor aglutinam a consciência
pela própria natureza da instituição. A verdadeira beleza
coletiva das populações e sua própria identidade. Não deve
não exige que a escola possa assemelhar-se nisso a u m
nos surpreender, a esse respeito, que foram precisamente os
t e m p l o ou a u m palácio m u n i c i p a l , mas que, dentro dos
regeneracionistas que propiciaram a criação e a difusão desses
l i m i t e s de u m a p r u d e n t e economia, possa fazer-se da casa-
s í m b o l o s q u e t r a n s m i t e m u m c e r t o ethos e m f a v o r da
e s c o l a a l g o q u e não p a r e ç a u m a p r i s ã o c o r r e c i o n a l "
m o d e r n i z a ç ã o n a c i o n a l . T a m p o u c o deverá nos p a r e c e r
(Dirección General de p r i m e r a Ensenanza, 1 9 1 2 , p. 2 7 ) .
estranho que os retornados da emigração promoveram em seus
lugares de origem escolas de " b e l a e digna fabricação" (Pena, Com respeito à decoração interior, " é utópico em
1 9 9 1 , p p . 60ss e Terron Mato, 1992, pp. 113ss), certamente nosso país - continua o documento - falar de frisos ricamente

3 5
IXltUS I ll\ l',M.III,Anil
ARQUITETURA COMO PROGRAMA. ESPAÇO-ESCOLA K CURRÍCULO

decorados, de fachadas morais com composições artísticas Torres Balbás, u m dos a r q u i t e t o s do g r u p o q u e


das melhores firmas, de revestimentos de azulejos e baixos- aglutinaria o Escritório Técnico para Construção de Escolas,
relevos e esculturas e, por f i m , de tantas e tantas manifestações aludia ao papel simbólico e pedagógico que o edifício esco-
com que a arte mostra e reproduz, nas modernas escolas do l a r p o d i a desempenhar como referente m o d e r n i z a d o r da
e s t r a n g e i r o , cenas de jogos i n f a n t i s o u ações históricas E s p a n h a r u r a l . E m sua intervenção d e n t r o do c i c l o de
memoráveis ou a natureza em seus belos panoramas (...) Porém conferências organizado pelo Ministério de Instrução Pública
ainda resignados para sempre ao não ver, na escola, nenhuma e B e l a s A r t e s , e m 1 9 3 3 , p o r m o t i v o d a E x p o s i ç ã o de
dessas manifestações da arte h u m a n a m u i t o caras (...), A r q u i t e t u r a Escolar, Torres descreve como " a imensa maioria
d i f i c i l m e n t e poderá se resignar ao não encontrar, no recinto de nossos povoados se forma por u m mísero casario agrupado
escolar, a menor amostra dessa beleza e alegria (...); dessa ao redor de u m edifício monumental que se destaca pela sua
beleza que a arte humana imita em suas produções de beleza massa imponente sobre as moradias que o rodeiam (a i g r e j a ) " .
e alegria, por exemplo, das plantas, dos pássaros e das flores". 0 dito monumento tem uma tradição secular e para o seu

A importância do espaço-escola e em geral de todos embelezamento contribuíram muitas gerações. Nesse lugar,

os elementos materiais da educação foi também detectada as pobres gentes que vivem em choupanas apertadas, meio

por Luis Bello como leitmotiv das descrições inseridas em em ruínas, sombrias, sem n e n h u m conforto, buscam, p o r

suas Viagens pelas escolas da Espanha. " N e m o local, nem o alguns instantes, a evasão de sua vida ingrata e miserável. " A

material, são a Escola; e apesar disso - escreve o conhecido E s c o l a do mesmo p o v o a d o , no e n t a n t o , é u m l o c a l

colunista de E l Sol - , para m i m basta entrar em seu local desarrumado e sujo, como uma de tantas casas de moradia".

para saber se interessa, ao povo, a instrução de seus filhos, se 0 aldeão, sensível à ostentação, relaciona inevitavelmente a

os quer e se respeita e estima o professor". Bello entra também importância da função com a do lugar e com a forma brilhante

na polémica q u e Cossio despertou c o m suas críticas ao de executá-la. L u i s B e l l o j á a d v e r t i a que a solidez das

fetichismo do material, e que em certas ocasiões era utilizada instituições era equivalente à solidez de seus muros. Por isso,

com malícia para justificar a negligência dos políticos em a escola rural, sem que tenha de r i v a l i z a r em

sua obrigação de construir escolas. " E s t o u seguro - responde monumentalidade e distinção com a igreja, deveria ser u m

Bello - de que a Jean Jacques custaria muito trabalho resistir edifício sólido e estético, dentro das normas de austeridade

a uma hora de aula à sombra de uma árvore em Navacerrada, imprescindíveis, destacável desde logo das moradias de seu

no mês de j a n e i r o , ou em Móstoles, no mês de agosto". A entorno. Essa dignificação da arquitetura escolar

escola deveria ser, além de u m lugar "agradável, sóbrio, l i m p o , acrescentaria, também, o prestígio do professor e elevaria a

com ar e l u z " , "o lugar mais alegre e hospitaleiro", e, ao mesmo estima que os alunos têm para com a educação. O prestígio

tempo, o modelo de uma existência superior (...) " A influência da escola dependerá, pois, de como essa esteja instalada, de

dos primeiros anos na vida de uma criança tem força bastante seu tamanho, limpeza, orientação. E esse modelo influirá,

para fazê-la, mais tarde, renovar o p o v o " ( 1 9 2 6 , p p . 10-12). depois, na casa que a criança buscará no futuro, para melhorar
as condições de vida de seus pais (Torres Balbás, L . 1 9 3 3 ,

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37
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AGUSTÍN KHC.OI.ANO

p p . 6 1 - 6 2 ) . A escola c u m p r i r i a , assim, com uma função c u l - dos elementos que configuram a arquitetura escolar em seus

tural e social modernizadora da Espanha r u r a l , sem dúvida géneros mais c o n h e c i d o s . L i n h a s que u n e m e d i r i g e m ;


superfícies planas que apontam para fora de sua origem, como
melhor do que as soluções teóricas do reformismo corrente.
se quisessem se prolongar; curvas fechadas que voltam ao
A arquitetura influencia, desse modo, a sociedade, seu p o n t o de p a r t i d a ; formas esféricas q u e e x p r e s s a m
favorecendo o desenvolvimento de uma sociedade mais rica. concentração; cilindros que se estendem; figuras complexas
Ao transcender o funcionalismo banal que só daria cobertura q u e d ã o l u g a r a d e t e r m i n a d a s gestalten mediante a
às necessidades físicas, dá origem a uma nova forma de geometrização de formas elementares; simetria e regularidade
comunicação c u l t u r a l , que é também pedagógica no sentido das a b e r t u r a s ; f i g u r a s p r e g n a n t e s ; marcos e c o n t o r n o s
mais amplo e generoso. A função pragmática da arquitetura e n f a t i z a d o s ; h i e r a r q u i z a ç ã o de e l e m e n t o s primários e
adquire, assim, uma dimensão semântica. secundários... (Norberg-Schulz, 1979, p p . 87ss e 112ss). Toda
N u m a outra dimensão, u m dos modelos em que uma l i n g u a g e m arquitetônica que expressa, além de uma
melhor se pode observar o simbolismo da arquitetura esco- o r d e m c o n s t r u t i v a , u m sistema de i n t e n ç õ e s , valores e
lar é, sem dúvida, o froebeliano (Abad, E 1 9 9 1 , p p . 1 0 7 - discursos, u m jogo de s i m b o l i s m o s que a t r i b u e m a u m a
133). A vocação arquitetônica de Frõebel, seus tradição c u l t u r a l . j A muralha, por exemplo, que é u m símbolo
c o n h e c i m e n t o s de c r i s t a l o g r a f i a e a influência o u e as de civitas, pode i n d i c a r como muro ou cerco institucional a
tradições simbólicas da mentalidade^açônica^ejosrceram delimitação de u m a c o l e t i v i d a d e e s c o l a r , a l é m de
sobre ele d e t e r m i n a r a m a forte carga semântica de seus desempenhar outros objetivos técnicos. A torre, elemento que
projetos didáticos e espaciais. A esfera, o c i l i n d r o , o triângulo costuma fazer parte de muitos centros educativos do século
e o cubo não são elementos de uma geometria neutra. A esfera X I X , sobretudo daqueles de filiação religiosa, é u m signo de
transmite a ideia de continuidade e m o v i m e n t o ; a cúpula poder e de domínio (como se sabe, está também presente em
semiesférica pode se associar ao firmamento ou ao útero p r e f e i t u r a s , i g r e j a s e castelos). A s i m e t r i a e separação
protetor, como a caverna; a coluna, cilíndrica ou p i r a m i d a l , arquitetônica das salas de aula de meninos e meninas reflele
é símbolo de firmeza e v i r i l i d a d e ; o triângulo pode sugerir as as tradições de uma sociologia e de uma pedagogia sexista.
ideias de energia e d i n a m i s m o . O círculo do largo do pátio Os salões de c o n f e r ê n c i a s , os seminários ou as a u l a s
escolar e a simetria dos caminhos e canteiros do j a r d i m convencionais representam diferentes formas retóricas de
e x p r e s s a m t a m b é m d e t e r m i n a d a s f o r m a s de gestalt comunicação, além de c o b r i r determinadas funções. Toda
t o p o l ó g i c o - p e r c e p t i v a s que se i n c o r p o r a m ao p r o g r a m a a r q u i t e t u r a é d e f i n i t i v a m e n t e necessária, mas também
educativo de Frõebel. 0 grande arquiteto norteamericano arbitrária; f u n c i o n a l , mas também retórica. Seus signos
Frank L l o y d Wright reconheceria a impressão que a geometria indiciários d e i x a m , em seu contato, traços que g u i a m a
do j a r d i m de infância nele havia deixado. . conduta. A antropologia do espaço não pode deixar de ser, ao
mesmo tempo, física e lírica.
Seguramente poderíamos descobrir toda uma
semiologia se procedêssemos à desconstrução e decodificação

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38
ARQUITETURA C O M O P R O G R A M A . E S P A Ç O - E S C O L A V, C U R R Í C U L O

A a r q u i t e t u r a escolar, p a r a além dessa análise


dispx isições em geral se cumpriam, ainda que em certas ocasiões
semiológica, pode ser contemplada também como suporte de
I larecesse vergonhoso - diz Ascarza - que o símbolo da pátria
outros símbolos acrescidos. O edifício-escola, como se sabe,
tremulasse em locais-escola realmente indecentes (Fernandez
serviu de estrutura material para colocar o escudo pátrio, a
Ascarza, V. 1924, pp. 122-123).
bandeira n a c i o n a l , as imagens e pensamentos de homens
Os m u r o s das instituições e d u c a t i v a s s e r v i r a m
ilustres, os símbolos da religião, algumas máximas morais e
também para neles se e x i b i r e m imagens e inscrições de
higiénicas, o campanário e o relógio... Isso expressa toda uma
p e r s o n a l i d a d e s que se c o n s i d e r a v a m exemplares para a
instrumentação da escola a serviço dos ideais n a c i o n a i s ,
infância. Já o R. D., de 23 de setembro de 1 8 4 7 , estabelecia
religiosos e sociomorais.
em seu artigo 4 2 o seguinte: " N o local das escolas deverá se
E conhecida a ordem circular da Direção Geral de escrever o nome dos homens ilustres que o povoado tenha
Instrução Pública, de 10 de novembro de 1893, que dispunha produzido, ou dos que tivessem feito algum benefício, com
que "se p r o c e d a a c o l o c a r no prazo de seis meses, no um resumo biográfico para instrução ou exemplo das crianças"
frontispício de todas as escolas públicas, o escudo pátrio" (Ferrer y R i v e r o , 1 8 9 7 , p. 17). Essa norma, transformada em
(davam-se normas sobre seu desenho, forma oval, inscrição costume, f o i sendo praticada até épocas próximas a nós. Do
na parte superior do rótulo do órgão Direção Geral de Instrução mesmo modo, os símbolos religiosos e políticos e outras
Pública, e no inferior dp grau e número da escola). Também imagens e textos se penduravam nas paredes das salas de
mandava que o "pavilhão nacional" tremulasse durante as horas aulas e dependências escolares. O regulamento de escolas
dedicadas à instrução em todas as escolas públicas e nas escolas públicas de 1838 ordenava, em seu artigo 4-, a colocação de
normais, "hasteando-se-o ao começar as aulas e recolhendo- uma imagem de Jesus Cristo na sala de aula e " à vista das
se-o ao t e r m i n a r " . Quando no pátio ou j a r d i m escolar se crianças". O mesmo texto legal mandava colocar nas paredes
realizasse algum ato ou desfile, as crianças passariam diante da sala de aula cartazes com os "grandes deveres das crianças
da bandeira, saudando-a. A R. 0 . , de 3 0 de maio de 1894, na escola", assim como "grandes cartazes ou pranchas, cuja
fixou o dia 1 - de janeiro de 1895 como prazo improrrogável superfície apresente lições impressas ou manuscritas, com o
para c u m p r i r a norma precedente. Mais tarde, u m R. D., de 25 abecedário, tábuas de multiplicação, pesos e m e d i d a s " . As 7

de janeiro de 1908, mandava que em todos os edifícios públicos paredes do edifício serviram de suporte para nelas se fixarem
(incluídas as escolas) deveria tremular a bandeira espanhola, os retratos do Chefe do Estado (ainda que em certas ocasiões
desde o nascer até o pôr-do-sol, nos dias de festa nacional. eles não fossem atualizados e em certos centros pudesse seguir
Outra R. 0 . , de 13 de agosto de 1907, estabeleceu que deveria reinando Isabel I I em 1 8 7 6 ) , as orações de entrada e saída,
se fixar em todas as escolas o hino à bandeira premiado em algumas máximas morais e religiosas, o horário de distribuição
concurso público para o Ministério da Guerra (o Conselho de do tempo e o trabalho, as lousas, ábacos e cartazes, as lâminas,
Instrução Pública solicitou trocar o último verso por ter uma
conotação bélica pouco adequada para a infância). Essas 7
" R e g u l a m e n t o de las escuelas públicas de Instrucción primária d e m e n t a i " , de 2 6
de novembro de 1 8 3 8 , incluído em História de la Educación, 1 9 7 9 , pp. 1 7 5 - 1 7 6 .

40 41
/\ 1171 i i r. i i I I \ I . I I I I I I I rmn.H/\iM;\. r.MAi.u-I.M.llI, \ I'. l.l.HHIl.l LU
/Uíli.sTIN ESCOLANO

r e g e n e r a c i o n i s t a c a s t e l h a n o d e d i c o u vários t r a b a l h o s
mapas e tabelas, os quadros do sistema métrico d e c i m a l . . .
(Escolano, A . 1990, p p . 5 4 4 - 5 4 5 ) .
(Gabriel, N . 1 9 9 0 , p p . 2 1 8 - 2 1 9 ) . Finalmente, questões que
hoje chamaríamos ecológicas, ainda que tivessem implicações Finalmente, o relógio. Ninguém negaria u m lugar de

económicas, como as relativas à proteção dos pássaros e das privilégio a este artefato, entre os objetos que fazem parte da

árvores, p o d i a m igualmente figurar nos muros da escola. vida cotidiana nas sociedades modernas. É ele que marca o

A s s i m , a l e i de 19 de setembro de 1896 obrigava a colocar no ritmo da ação, mede os rituais e ordena os ciclos de existência

vestíbulo das escolas o seguinte texto: "Crianças, não priveis (Fernandez-Galiano, L . 1 9 9 0 , p. 2 5 9 ) . A mecanização do

os pássaros de l i b e r d a d e ; não os martirizeis e não destruais tempo suscitou uma nova percepção da temporalidade (Lledo,

seus n i n h o s . Deus c u i d a das crianças q u e p r o t e g e m os 1990, p.268). Não só facilitou o cômputo das horas, como

pássaros e a l e i p r o í b e q u e s e j a m c a ç a d o s , q u e s e j a m i n d u z i u u m a verdadeira revolução na autorregulação das

destruídos seus ninhos e que se lhes tirem os f i l h o t e s " . O atividades humanas e na própria organização social. Todos os

regulamento de caça, de 3 de j u l h o de 1 9 0 3 , encarregava os edifícios emblemáticos da comunidade (a igreja, a prefeitura,

governadores c i v i s , inspetores e prefeitos de controlar a a escola...) incorporaram o relógio como u m elemento bem

prescrição e estabelecia multas de 2 0 ou 5 0 pesetas para os visível nas torres, frontispícios ou qualquer outra zona destacada

infratores e incentivos equivalentes à metade da sanção para de sua fachada exterior. A partir d a l i , como outrora fizera o

os denunciantes (Enciclopédia Espasa, v. X X , p. 1066). As sino, seus sons, irreversíveis em sua fugacidade e reversíveis

máximas e m f a v o r das árvores f o r a m também i n s c r i t a s em sua repetição diária, serviram de pauta para ritmar a vida

frequentemente nas escolas. Respondiam às propostas de das sociedades laicas e acomodar a cronobiologia, os biorritmos

exaltação naturalista e romântica feitas pelos circadianos, os códigos culturais que informam os calendários

regeneracionistas, os quais acreditavam no poder civilizatório e relógios (Pomian, K . 1990, pp. 355-358). —

da terra e do bosque e instituíram-a festa da árvore para A invenção do relógio e sua difusão social, que tem
sensibilizar a sociedade sobre os riscos do desmatamento, sua origem nos começos do século passado, foi u m fato chave
induzida em geral pelos interesses de agricultores e criadores na cisão do binómio e s p a ç o - t e m p o q u e se opera c o m a
de gado. Formavam u m a parte daquele ambicioso e mais modernidade e que supõe uma evidente ruptura com a estreita
amplo programa de "pedagogia da paisagem", a que Ortega vinculação que ambas as ordens tiveram nas culturas pré-
dera sua atenção e dedicação, e da crença que Julio Senador modernas, t a l como mostrou A . Giddens em seu recente
expressou na capacidade que a árvore e a paisagem t i n h a m trabalho sobre o tema. As horas do dia quase sempre estiveram
para m o d u l a r a personalidade e o caráter dos povos e ainda associadas aos espaços em que costumavam transcorrer as
para a f i r m a r a l i b e r d a d e e a democracia na distribuição atividades, até que a modernidade introduziu a uniformidade
racional da terra. Essas propostas eram u m a denúncia da do tempo m e d i a n t e a m e d i d a pelo relógio mecânico e a
geografia de " t e r r a arrasada", despovoada e inerte, na q u a l regularidade na organização social (Giddens, A . 1990, p. 1 7 ) .
até as crianças se tinham convertido em perseguidores de Por isso, o relógio i n c o r p o r a d o ao e d i f í c i o - e s c o l a é u m
pássaros, a cuja descrição hiper-realista o referido

43
42
organizador da vida da comunidade e também da vida da horológica", diversos aspectos sobre a história da medida de
infância. Ele marca as horas de entrada na escola e de saída tempo e textos literários alusivos aos valores instrutivos e morais
dela, os tempos de recreio e todos os momentos da vida da que a experiência da duração pode desenvolver na formação
instituição. A ordem temporal se une, assim, à do espaço para da infância (Loygorri, C. 1920). Convém salientar aqui que o
regular a organização académica e para pautar as coordenadas relógio, segundo estudos de iconologia, é u m atributo que
básicas das primeiras aprendizagens. aparece associado à ideia de passagem do tempo, à ideia das
0 tempo, assim como o espaço, não é u m a priori no virtudes ou vícios que se relacionam com o seu adequado ou
sentido kantiano, ou seja, uma propriedade " n a t u r a l " dos i n a d e q u a d o uso ( a s s i d u i d a d e , p r u d ê n c i a , n e g l i g ê n c i a ,
indivíduos, mas sim uma ordem que tem de ser aprendida, preguiça...) e às idades pelas quais passa a vida humana
uma forma cultural que deve ser experimentada. Tal como (infância, adolescência, velhice) (Morales y M a r i n , J.L. 1984,
mostrou N. Elias, a criança das sociedades industriais necessita p. 360). A incorporação do relógio aos espaços escolares t e m ,
de sete a nove anos para "aprender o t e m p o " , isso é, para pois, além de u m significado c u l t u r a l , u m a clara função
chegar a "entender e l e r " o complicado "sistema de relógios e pedagógica que se acrescenta às intenções educadoras das
calendários" (Elias, N . 1989, p.154). Os relógios escolares — estruturas espaciais das instituições.
também os relógios domésticos e os de uso pessoal —, ao regu- E m resumo, a arquitetura escolar pode ser vista como
l a r a c o n d u t a diária, s e r v e m p a r a essa a p r e n d i z a g e m ; um programa educador, ou seja, como u m elemento do currículo
organizam as primeiras percepções cognitivas da invisível ou silencioso, ainda que ela seja, por si mesma, bem
temporalidade e garantem a internalização dos valores da explícita ou manifesta. A localização da escola e suas relações
exatidão, da aplicação e da regularidade, que são, na expressão com a ordem urbana das populações, o traçado arquitetônico
de Foucault, as virtudes fundamentais do tempo disciplinar
do edifício, seus elementos simbólicos próprios ou incorporados
(Foucault, M . 1979, p. 155). 0 relógio colocado na escola,
e a decoração exterior e interior respondem a padrões culturais
que perpetua, além disso, a cronometria apreendida durante
e pedagógicos que a criança internaliza e aprende.
a infância na vida da comunidade, se constitui, assim, n u m
símbolo c u l t u r a l e n u m mecanismo de controle social da Por f i m , não se deve esquecer que a escola, como

duração.(A arquitetura serve, mais uma vez, de suporte de u m qualquer outro tipo de habitação, incluída a própria casa, é

dos signos culturais de maior impacto na organização da vida uma criação cultural sujeita a mudanças históricas. A casa,

coletiva. A importância outorgada à medida do tempo levou, por exemplo, incorporou na época moderna, como estudou

inclusive, a fazer do estudo do relógio uma matéria de ensino. R i b c z y n k i , os valores da intimidade e da domesticidade. O

Torna-se interessante, a esse respeito, o manual que C. Garcia século X I X a t r i b u i u importância aos elementos mecânicos

Loygorri p u b l i c o u em 1920 sob o título A leitura do relógio, relacionados com a luz, a calefação e a ventilação (fatores que

para uso escolar. 0 l i v r o , dedicado ao Infante D o n Juan, têm relação com o higienismo e a industrialização). Nosso século

expunha, seguindo o sistema do que o autor denomina a "chave sublinhou as variáveis associadas à eficiência e ao conforto. O
modelo de casa atual conserva quase todos os significados

44
históricos na forma de camadas integradas, ainda que o culturais associadas ao industrialismo, ao positivismo científico,
dominante seja o mais recente (Ribczinski, W. 1989, pp. 2 3 2 - ao movimento higienista e ao taylorismo. A culturalidade dessas
234). 0 espaço-escola é também uma construção cultural e, mudanças reforça, da mesma forma, o sentido educador da
portanto, histórica. 0 quadro " I n t e r i o r de uma escola", de M . arquitetura, ou seja, seu valor como programa. Do mesmo modo
A . Houase (1680-1730), oferece uma imagem do que pode ter que opanopticon de J. Benlham é o "edifício paradigmático da
sido, como locus, a escola do Antigo Regime . Na composição, 8
modernidade emergente", com seu "olho inspetor" no centro ,
pode-se observar que o espaço (sala de uma casa comum), o seus espaços fragmentados e o caráter "reformista e repressivo"
mobiliário (mesas, bancos, cadeiras irregularmente dispostas), de seu traçado, expressão de algumas características da cultura
a decoração (pinturas) e a distribuição de ambientes (recantos) ilustrada que criou o modelo (Fernandez-Galiano, L . 1 9 9 1 , p.
ta
não têm correspondência com as representações da escola dos 227), a escola, em suas diferentes concretizações, é u m produto
últimos séculos. Parece como se esse modelo espacial ainda de cada tempo, e suas formas construtivas são, além dos suportes
conservasse a estrutura não dividida e a polivalência da classe da memória coletiva cultural, a expressão simbólica dos valores
indiferenciada, da mesma forma que o salão da casa doméstica dominantes nas diferentes épocas. Pode ser inclusive que a
antes que aparecessem as peças especializadas por funções. A escola, do mesmo modo que a casa, conserve cumulativamente
modernidade e a sociedade contemporânea conheceram a todos os significados e estruturas, sob a dominante cultural mais
diferenciação interna da residência, paralelamente com as recente. Não é em vão que nossa escola, a escola atual, apresente
transformações operadas na vida familiar e na sexualidade . 9
sem dúvida características "domésticas", clichés panópticos,
Do mesmo modo, o e s p a ç o - e s c o l a também f o i se r e g i o - padrões higienistas, signos românticos e elementos tecnológicos,
nalizando, emancipando-se primeiro da casa e de outros lugares expressivos cada u m das influências culturais que o programa
nos quais se localizou, conslituindo-se depois como habitação arquitetônico foi incorporando em sua evolução secular.
ad hoc especializada nas funções de instrução, inclusive com
anexos complementares (reservados higiénicos, pátios, átrios,
O ESPAÇO-ESCOLA NO CURRÍCULO
closets, bibliotecas e outras dependências), e diferenciando-se
finalmente em salas de aula separadas por graus ou ciclos e
A a r q u i t e t u r a escolar, além de ser u m programa
sexos. Na segunda metade do século X I X , o espaço-escola se
invisível e silencioso que c u m p r e d e t e r m i n a d a s funções
incorporou, assim como a moradia, aos preceitos do higienismo,
culturais e pedagógicas, pode ser instrumentada também no
e mais tarde às exigências do conforto e da tecnologia. Essa
plano didático, toda a vez que define o espaço em que se dá a
e v o l u ç ã o não veio d e t e r m i n a d a apenas pelas inovações
educação formal e constitui u m referente pragmático que é
pedagógicas, mas também pelas exigências das transformações
utilizado como realidade ou como símbolo em diversos aspectos
a
H O U A S E , M . A . " I n t e r i o r de una escuela", i n : Carlos IIIy la Ilustración, 1 9 8 8 , vol. do desenvolvimento curricular. E m algumas metodologias, i n -
I I , p. 6 4 3 .
clusive, como a montessoriana, o planejamento do ambiente
9
A R I E S , P H . E l nino y la vida familiar en elAntiguo Regimen. M a d r i d : Taurus, 1 9 8 7 ,
pp. 519 ss. O tema é tratado também por W. R i b c z i n s k i , em diversos pontos da obra e do espaço é " p a r t e constitutiva e irrenunciável de u m novo
citada anteriormente.

46 47
escola através da análise de alguns registros extraídos dos
modo de considerar a criança", de tal maneira que os objetos e
manuais empregados no ensino primário nos fins do século
o projeto educativo guardam, entre s i , uma íntima relação
X I X e primeira metade de nosso século. Essa análise exigiria,
(Sacheto, P.P. 1 9 8 6 , p . 5 5 ) . 0 mesmo o c o r r i a , como já
Beni dúvida, u m a pesquisa histórica m u i t o mais a m p l a e
observamos, no modelo Frõebel. Além disso, como se sabe, a
sistemática que não cabe nos l i m i t e s do presente trabalho,
utilização didática do e s p a ç o e de seu e n t o r n o é u m a
ainda que o esboço que aqui se expõe possa ser sugestivo
característica comum a todas as pedagogias denominadas ativas.
para futuros estudos que abordem a questão, mediante a
Por outro lado, os estudos de J. Piaget sobre a psicogênese das
análise de conteúdo e iconográfica dos textos.
estruturas topológicas na infância, que precedem as construções
de tipo euclidiano e projetivo (Piaget, J. 1970, p p . 102ss), Já na introdução deste artigo, se fez notar como o estudo
remetem igualmente à valorização das primeiras experiências do espaço-escola, como realidade e como representação, foi u m
espaciais (na casa e na escola) como fatores determinantes do núcleo didático central no desenvolvimento de diversas matérias
desenvolvimento sensorial, motor e cognitivo. A construção de do currículo primário, observável no tratamento que fazem do
tais estruturas é explicada pelos mecanismos de equilibração tema os livros de ensino. Exemplificaremos aqui com algumas
e auto-regulação, constructos que na teoria piagetiana são notas extraídas desses manuais.
aplicados para explicar todo tipo de desenvolvimento (Brown, Os manuais destinados ao ensino da língua incluem
G. e Desforges, C H . 1984, p. 150). Os trabalhos desse autor numerosas referências ao espaço-escola como referente didático.
sobre a concepção do espaço na criança e sobre a aquisição de Isso ocorre tanto nas cartilhas para a aprendizagem inicial da
diversas noções físicas e geométricas, que datam já na sua leitura como nos textos para o desenvolvimento da leitura e nos
origem da década de 1920 e têm continuidade até fins dos livros empregados para o ensino ativo da linguagem oral e escrita.
anos cinquenta, demonstram que a representação do espaço
na criança é uma construção intemalizada a partir das ações Figura 1.
Página da cartilha R a y a s ,
ou manipulações sobre o ambiente espacial próximo, do qual
método idealizado pelo pro-
obviamente a escola faz parte (Flavell, J . H . 1982, pp. 347ss). fessor Angel Rodriguez nos
A i n d a que não seja próprio a este estudo historiográfico, convém anos trinta, que teve nume-
igualmente lembrar que todas as psicologias contemporâneas rosíssimas edições. E s t a v a
baseado na associação ima-
da vertente fenomenológica, perceptualista ou cognitivista
gem-palavra-escrita. A pá-
enfatizaram a (unção desempenhada"i5êlas experiências gina mostra um desenho da <&x eoou-e£a. eo la. coocx efe todoo
espaciais primárias na construção das estruturas sensoriais e escola, com seus elementos rwnoo.
ordenadamente dispostos no
intelectuais da infância.
espaço, e o termo " e s c o l a "
C o m r e l a ç ã o a t u d o isso, a i n d a q u e c o m u m a formando parte do voca-
bulário (Rodriguez, A. Rayas
f i n a l i d a d e mais genérica, nos pareceu interessante explorar
(2 parte),
a
Plasencia: I I de S.
a utilização didática que a escola t r a d i c i o n a l fez do e s p a ç o - Rodriguez, S. A., p. 76)

49
48
U m m a n u a l c l á s s i c o de d e s e n v o l v i m e n t o o u época) alusiva à escola como suporte dos símbolos nacionais
aperfeiçoamento da l e i t u r a é E l libro de la lectura vacilante, (anteriormente se fez alusão a esse tema):
de A . Mailló. Nele aparece a escola como motivo de l e i t u r a , Alegre e animado, como episódio infantil, poético e sub-
assim como nos exercícios de conversação e escrita (em letra lime por inspirar um sentimento nobre e formoso, que fez
manuscrita). O texto que transcrevemos, a seguir, dá uma ideia palpitar ao mesmo tempo todos os corações na manhã de
dos valores e simbolismos que se atribuem ao espaço-escola 10 de setembro de 1894, foi o ato de içar pela primeira
(higienismo, signos políticos e religiosos): vez a bandeira espanhola na escola municipal do distrito
do centro de Iberápolis. A Direção Geral de Instrução
Minha escola é grande, limpa, com muitas janelas. Nas
Pública, ansiosa por enobrecer e dignificar o ensino e o
paredes há vários mapas, um retrato do Caudilho e uma
magistério, tão postergado na Espanha, havia determinado
imagem da Virgem Maria. 10

que o "estandarte da Pátria tremulasse no frontispício


das escolas durante as horas de aula; c a prefeitura e
Figura 2.
todos os professores, seguindo as ordens recebidas, com
O u t r o exemplo de teor semelhante é a zelo diligente, já tinham solenizado a colação de escudos
página q u e r e p r o d u z i m o s a seguir e bandeiras em vários estabelecimentos da cidade"
(Enciclopédia, Grau Médio. Madrid: (Santiago-Fuentes, M . La Escuela y la Patria. Lecturas
E s c o l a E s p a n h o l a , 1962, p. 3 5 ) . Nela manuscritas para ninas. Burgos: H . de S. Rodriguez, S.
aparece o desenho de u m a sala de aula
A., 2 4 ed., pp. 20-21). A parte do texto separada por
a

c o n f o r m a d a aos critérios higiénicos,


estéticos, pedagógicos e religiosos-políticos
aspas não aparece na ilustração por fazer parte da página
em uso na época. E s s e modelo espacial se seguinte).
utiliza para suscitar diversas atividades:
observação da g r a v u r a , comparação com As antologias literárias para crianças também selecionam
a própria s a l a de a u l a , m e d i d a d a s textos alusivos à escola como espaço ao qual se atribuem
dimensões da sala de aula, análises de imagens e idealizações afetivas, culturais e estéticas.
elementos didátieos (quadros, mapas...) e Assim, a escola pode ser a "rocha onde se aninha o altivo
decoração (frisos, estatuetas...), exercícios
condor do pensamento", o "solar onde se nutre a
de identificação d a escola (bairro, r u a ) e
vocabulário acerca do tema (escola nova- infância", o "ingente foco que de luz inunda choupanas,
velha, iimpa-suja...). povoados, palácios e cidades", o "santuário onde oficia a
inteligência humana", a "mansão bendita" e "prazerosa
aula", a "fonLe de luz" e o "altar perene" da esperança . 11

Transcrevemos, j u n t o à ilustração, o texto manuscrito


de uma leitura patriótica (redigida conforme a retórica da

10
MAILLÓ, A . Promesa - E l libro de la lectura vacilante. Burgos: H i i o s de S. Rodriguez
1 9 5 2 , pp. 4 8 - 4 9 .
11
S O L A N A , E. Recitaciones escolares. M a d r i d : Magistério Esparto!, 1927, pp. 3 3 , 42
e 51.

50
Figura 4.
A figura apresenta duas
g r a v u r a s clássicas de
idealizações sobre a escola.
Figura 3. Na p r i m e i r a , aparece a
A escola é também a casa escola no centro urbano
de toda a infância. Junto de uma localidade ima-
ao lar e à igreja, a escola é, ginária, próxima à praça,
desde a i d a d e do " p e - à igreja, à prefeitura e ao
quenino", um espaço para j u i z a d o (os centros do P l a s o de u n a poblacíón
o vínculo. Ao lado dela só poder), distante da estrada
ondeiam a árvore e a de f e r r o e das áreas
bandeira, ou seja, a natu- periféricas, não m u i t o
reza e a pátria (Alvarez, A. distante do entorno natu-
E l parvulito. Valladolid: r a l . A segunda gravura
Minón, 1963, pp. 10-11). mostra um interior bem
higienizado e harmo-
nicamente disposto, aberto
ao j a r d i m por uma porta
E s s a s i d e a l i z a ç õ e s do e s p a ç o e s c o l a r foram
ampla e janelões. Duas
especialmente expressivas no discurso regeneracionista do imagens que sem dúvida
início deste século. U m texto da época s u b l i n h a que a " r u a contrastam com a escola
real daquela época
da escola" é como a nossa própria r u a ( " u m a r u a que deves
(Franganillo, 1915, pp.
c o n s i d e r a r como aquela em que está situada t u a casa"). A 18-19).
escola a m p l i a o l a r ("porque te dá a q u i l o que não encontras
e m t u a c a s a , p o r c u l t a q u e essa s e j a " ) . A l é m d i s s o , Os m a n u a i s de matemática i n c l u e m , i g u a l m e n t e ,
p a t r o c i n a r u m a escola é a m e l h o r m a n e i r a de c o n t r i b u i r
numerosas referências ao e s p a ç o - e s c o l a . Transcrevemos
para o engrandecimento e m e l h o r i a m a t e r i a l do povo, assim
alguns exemplos:
como para o progresso da nação (expressão de u m a das
Olha a gravura e conta as pernas da mesa, os vidros da
conhecidas p r o j e ç õ e s f i l a n t r ó p i c a s dos h o m e n s da
janela, os livros, os vasos de flores, as crianças, os
regeneração). 12

cachorros do friso (pintado na parede).

Conta os vidros das janelas da sala de aula, as carteiras,


os quadros, tudo o que queiras. O que existe mais: quadros
F R A N G A N I L L O , 1915, pp. 17-22.
ou vasos de flores? Que existe de menos?
12

52 53
ARQUITETURA CUMU r i u n . u \ M v. uai >«.•••-•'••''> > "

Numa sala de aula há três fileiras com 6 crianças em Exemplificaremos isso com os esquemas e dados que
cada uma. Quantas crianças há nessa classe? p r o p o r c i o n a o l i v r o de G. M . B r u n o : Geografia-Atlas
(Palau Vera, J. Aritmética, primer grado. Barcelona: Seix (Barcelona - M a d r i d : Bruno, s.a.).
Barral, 1924, pp. 1 e 66)

Cada aluno de uma sala de aula tem de dispor de 1,50 m 2

de superfície de piso. Qual tem de ser, pelo menos, a


superfície de uma sala da aula para 40 alunos? (Pla-
Dalmau (ed.) Enciclopédia escolar ESTÚDIO. Gerona-
Madrid: Dalmau Charles, Piá, 1958, p. 226).

Meçam, a olho, em metros e centímetros, a altura da sala


de aula, da janela, do quadro-negro, de uma árvore, e t c ;
a largura e o comprimento da sala de aula, da rua, do
pátio de jogos, de um campo, etc (A seguir, incluem-se
diversos exercícios sobre o sistema métrico decimal e suas
equivalências com as medidas ainda em uso na Espanha;
fazem-se referências aos cursos anteriores em que se
mediram com pés, passos, palmos, dedos... Palau Vera, J. Figura 5.
Aritmética, tercer grado. Barcelona: Seix Barral, 1923, As gravuras da parte superior
correspondem à vista interna
pp. 123-127).
e ao plano da sala de aula. Na
p r i m e i r a , aparecem dese-
Medir as dimensões da sala de aula e achar o perímetro e
nhados todos os elementos do
a área do solo.
ambiente, perfeitamente
Repetir a mesma operação a respeito da lousa. (F. T. D. dispostos conforme critérios
estritos de ordem e simetria,
(ed.) Cartilla moderna de Geometria, s. d., 2 edição, p.
U

encimados por três letreiros


23).
que expressam valores da L a Ciam
tradição monástica. O modelo
Determinem-se as dimensões de um livro, de uma mesa,
recebe luz bilateral e apre-
de uma sala de aula (Xandri, J. Concentraciones. Madrid:
senta uma orientação não muito ortodoxa. O desenho da direita é o plano
Tip Yagues, 1932, p. 8). correspondente à vista anterior. A gravura inferior apresenta os arredores
da escola (essa se localiza frente a uma praça e junto à igreja). No desenho
O e s p a ç o - e s c o l a aparece tratado de forma mais
aparecem diversos elementos do entorno natural e urbano do plano m u -
i n t u i t i v a e prática nos textos de geografia. Nesses manuais, nicipal. As gravuras estão acompanhadas de perguntas sobre a classe e
inserem-se as primeiras noções e técnicas de p l a n i m e t r i a , sobre o entorno, dentro de um questionário mais amplo de geografialocal
(meio físico, população, economia, administração). O último exercício diz
assim como os conhecimentos conexos relativos à orientação,
assim: "Os alunos traçarão ou reproduzirão os desenhos dos planos e os
construção de escalas, planejamento, urbanismo e outros. mapas locais traçados pelo professor" (Bruno. Op. cit., pp. 4-5).

54 5 5
/U.ISTIN P.SCOI.ANO
ARQUITETURA COMO PROGRAMA. ESPAÇO-ESCOLA E C U R R I C I LO

0 espaço-escola tem sido, como mostra esta simples


P L A N I M E T R J A - A L R E D E O O R C S DC L A ESCUETA" 1
análise de textos e ilustrações, u m tópico presente e m todo
tipo de manuais escolares e, portanto, u m tema recorrente,
c o m u m a toda época e a todas as disciplinas do currículo. A
escola tem sido u m referente real e simbólico e até mesmo o
ponto de partida para a mais ambiciosa viagem imaginária
pela Espanha e pelo m u n d o , como faz o l i v r o de F. Torres. Na
Espanha autárquica e isolada dos anos 4 0 , as viagens ao ex-
t e r i o r só p o d i a m ser u m exercício d a imaginação, cujas
erranças não precisavam " n e m passaporte, nem m a l a " ; uma
Wkm» <h> u n término m u n i c i p a l
alienação alucinante ("sem sair do recinto de nossa escola");

Figura 6. u m transporte irreal ("como por arte de magia e graças à


Outros dois planos de situação da escola com dados de orientação e escala. variedade de virtudes que é a palavra de D o m Fernando", o
Observe-se a localização central da escola e a diferente orientação em professor). Sem mover-se do recinto escolar, "transportados
relação à anterior. Porque se dispõe de escala, é possível efetuar exercícios
nas ondas sonoras de sua v o z " , os a l u n o s " v i a j a r a m " ,
de medidas, como se sugere no questionário que acompanha os planos
(Edelvives (ed.) Enciclopédia escolar. Primer grado. Zaragoza- Luis " p e r e g r i n a r a m " , "fizeram v i s i t a s " . . . e até mesmo escreveram
Vives, 1943, . 162-163).
P P "um l i v r o de viagens". Essa viagem imaginária começa e
termina no próprio espaço-escola, do qual os personagens do
relato sempre recordarão duas imagens ("a silhueta de D o m
Fernando" e "as paredes brancas de nossa escolinha" - Torres,
pp. 1 4 4 - 1 4 5 ) , duas impressões que não sairiam nunca de sua
memória. Pode ocorrer até mesmo o caso de que sobre esses
muros brancos ("sem cartazes, sem mapas nem lousas que
interrompam a b r a n c u r a " , como os descritos por A . J. Onieva
em outro conhecido livro da época) se i m p r i m a " u m friso
decorativo com historietas i n f a n t i s " ou que os peitoris das
janelas, que apontam sempre para o S u l , estejam cheios de
"vasos" ("que as meninas c u i d a m com o maior c a r i n h o " —
Figura 7. Onieva, 1 9 5 8 , p . 9 9 ) , e também nesse caso, esses motivos
0 espaço-escola pode ser também o ponto
literários e naturais se constituiriam em uma forma de escritura
i n i c i a l e t e r m i n a l de u m a viagem
imaginária, como no relato de E Torres no espaço que se perpetuaria nas imagens e nas mentalidades
(Alrededor de la escuela. Madrid: coletivas da memória c u l t u r a l .
Hernando, 1943, 5 ed.). a

56
5 7
D O ESPAÇO E S C O L A R E DA

ESCOLA COMO LUGAR:

PROPOSTAS E QUESTÕES

ANTONIO VINAO F R A G O

13
Este trabalho é parte de u m projeto mais amplo de investigação sobre " 0 espaço e
o tempo escolares em sua p e r s p e c t i v a histórica" ( P S 9 3 - 0 1 7 7 ) , f i n a n c i a d o pela
Dirección General de Investigación Científica y Técnica ( D G I C Y T ) .
— Mas não sabem onde está o Instituto? — exclamou surpreso.
— Cada vez me convenço mais de que vocês são os homens mais
felizes da terra.

— Por quê? — perguntou meu pai.

— Porque uma das maiores desgraças que podem afligir o


homem é saber praticamente onde está e para que serve o Instituto.
Sabes a rua do Matadouro?
^ ^ ^ u a l q u e r atividade humana precisa de u m espaço
— E não haveria de saber, se a percorri uma centena de vezes!
e de u m tempo determinados. A s s i m acontece com o ensinar
— Pois nessa rua verás um edifício majestoso, branco, com o e o aprender, com a educação. Resulta disso que a educação
número 13, e que tem uma entrada régia. Na fachada e com letras possui uma dimensão espacial e que, também, o espaço seja,
salientes e douradas lerás uma inscrição que diz: Instituto Geral e
j u n t o com o tempo, u m elemento básico, c o n s t i t u t i v o , da
Técnico de Percebilla.
atividade educativa.
— Já sei a que edifício te referes. Mais de uma vez me fixei
A ocupação do espaço, sua utilização, supõe sua
nele; mas sem levantar os olhos para ler essa inscrição de que falas.
Eu supunha que era um cinema ou um teatro ordinário, porque constituição como lugar. O "salto qualitativo" que leva do espaço
sempre encontrei ali uma multidão de rapazes, pasteleiros efruteiros ao lugar é, pois, uma construção. O espaço se projeta ou se
que gritavam loucamente. imagina; o lugar se constrói. Conslrói-se " a partir do fluir da
v i d a " e a partir do espaço como suporte; o espaço, portanto, está
Memórias do bacharel Aiscrim (1924).
sempre disponível e disposto para converler-se em lugar, para
ser construído . O problema, o primeiro problema, se coloca
14

Vamos construir uma escola em forma de pentágono. É para quando se carece de espaço ou de tempo. Há muitas maneiras
que aprendam o que é a democracia. de impedir ou de proibir, mesmo sem fazêdo de forma expressa.
Basta que se ocupem todos os espaços e lodos os tempos. U m
A casa de chá do luar de agosto. (Fragmento do discurso do
coronel das forças de ocupação norle-americanas aos vizinhos da projeto lolalitário seria aquele em que os indivíduos, isolados ou
aldeia de Toubriki, na ilha de Okinawa.) em grupo, não dispusessem de espaços ou de tempos. De espaços
aos quais lhes dessem sentido fazendo deles u m lugar.

1 1
A L B A , Fernandez. Sobre la naturaleza que construye la arquitectura (geometria dei
recuerdo y proyeclo d e i l u g a r ) . M a d r i d : R e a l A c a d e m i a de Bellas Artes de San
Fernando, 1 9 8 4 , p p . 1 4 - 1 5 .

60
6 1
1WTOWI0 VINAd t RAGO

Seria aquele em que alguém ocupa todos os espaços ou tem-


São muitas as influências e entrecruzamentos entre o
pos possíveis, aquele no q u a l não restem nem resquícios nem
espaço e o tempo. Mas ao menos em relação ao passado, não
intervalos.
captamos a duração em si mesma; podemos medi-la, segmentá-
A escola pois, enquanto instituição, ocupa u m espaço la, mas carecemos de memória acerca da duração. 0 que
e u m lugar. U m espaço projetado ou não para tal uso, mas dado, recordamos são espaços que levam dentro de s i , comprimido,
que está a l i , e u m lugar por ser u m espaço ocupado e utilizado. u m tempo. Nesse sentido, a noção do tempo, da duração, nos
Por isso, sua análise e compreensão, a partir dessa perspectiva, chega através da recordação de espaços diversos ou de fixações
requerem algumas considerações prévias sobre as relações entre diferentes de u m mesmo e s p a ç o . De espaços m a t e r i a i s ,
o espaço e a atividade humana, a escola como lugar e a visualizáveis. 0 conhecimento de si mesmo, a história interior,
dimensão espacial dos estabelecimentos docentes. a memória, em suma, é u m depósito de imagens. De imagens
de espaços que, para nós, foram, alguma vez e durante algum
tempo, lugares. Lugares nos quais algo de nós a l i ficou e que,
ESPAÇO E LUGAR: A DIMENSÃO ESPACIAL
portanto, nos pertencem; que são, portanto, nossa história.
DA ATIVIDADE HUMANA
Essa tomada de posse do espaço vivido é u m elemento
Acreditamos, às vezes, que nos conhecemos no tempo, determinante na conformação da personalidade e mentalidade
quando na realidade só se conhece uma série de fixações dos indivíduos e dos grupos. Por isso, o espaço "não é u m
em espaços da estabilidade do ser, de um ser que não meio objetivo dado de uma vez por todas, mas uma realidade
quer acabar, que no próprio passado vai em busca do
psicológica v i v a " . E m certo sentido, o espaço objetivo — para
J6

tempo perdido, que quer 'suspender' o vôo do tempo. Em


denominá-lo de alguma maneira — não existe. E se existe,
seus mil alvéolos, o espaço conserva tempo comprimido.
não conta — salvo como possibilidade e como l i m i t e . 0 que
0 espaço serve para isso (...).
conta é o território, uma noção subjetiva ou caso se prefira,
... A memória não registra a duração concreta... E pelo o b j e t i v o - s u b j e t i v a — de índole i n d i v i d u a l ou g r u p a i e de
espaço, é no espaço que encontramos esses belos fósseis
extensão variável. U m a extensão que vai desde os limites
de duração concretados por longos tempos... Localizar
físicos do próprio corpo — ou de determinadas partes do mesmo
uma recordação no tempo é só uma preocupação do
— até o espaço mental dos projelos, a l i até onde chega o
biógrafo e corresponde unicamente a uma espécie de
pensamento que prenuncia a ação e o deslocamento . 17

história externa, uma história para uso externo, para


c o m u n i c a r aos o u t r o s . . . Para o c o n h e c i m e n t o da
1 6
M E S M I N , Georges. Uenfant, Varquitecture et Vespace. Tournai: Caslerman, 1973, p. 16.
intimidade é mais premente a localização de nossa 17
B A I L L Y , Anloine S. La percepcion dei espacio urbano. Conceplos, métodos de estúdio y
intimidade nos espaços do que a determinação das datas . 15
sua utilización en la investigación urbanística. M a d r i d : I n s t i t u t o de Estúdios de
Administración Local, 1979, pp. 109-110. Precisamente, porque o espaço c unia realidade
psicológica viva é que são possíveis a psicologia ambiental e o estudo das dimensões
emocionais e afetivas do ambiente ( C O R R A L I Z A , J.A. La expressión dei ambiente.
Percepcion y significado construído. Madrid: Tecnos, 1987, onde além de uma boa exposiçài i
e síntese teórica, avalia-se, dessa perspectiva, o campus universitário de Cantoblanco),

62
6 3
U O ESPAÇO ESCOLAR V. DA ESCOLA COMO L U G A R ! PROPOSTAS E Q l ESTÔES

O território e o lugar são, p o i s , duas r e a l i d a d e s Além disso, o espaço como território e lugar introduz,
individuais e grupalmente construídas. São, tanto n u m quanto nas palavras de Bachelard, a dialética do interno e do externo
no outro caso, uma construção social. Resulta disso que o - aquilo que é a escola e aquilo que fica fora dela, por exemplo,
espaço jamais é neutro: em vez disso, ele carrega, em sua e também em relação à sala de aula e a outros espaços escolares
configuração como território e lugar, signos, símbolos e - , o fechado e o aberto - estruturas cortantes ou herméticas
vestígios da condição e das relações sociais de e entre aqueles frente a estruturas de transição ou porosas - e o pequeno e o
que o habitam. 0 espaço comunica; mostra, a quem sabe ler, grande - a escola/lar frente à escola/quartel 19
. A essas
o emprego que o ser humano faz dele mesmo. U m emprego dicotomias, se poderia agregar mais outra - o curvo e o retilíneo
que v a r i a em cada c u l t u r a ; que é u m p r o d u t o c u l t u r a l - que afeta, como se verá, não apenas a estética e a percepção
específico, que diz respeito não só às relações interpessoais do espaço por seus usuários, como também as diferentes
- distâncias, território pessoal, contatos, c o m u n i c a ç ã o , concepções que se tenham sobre as funções ou tarefas básicas
conflitos de poder - , mas também à liturgia e ritos sociais, à a satisfazer por meio de uma ou outra ordenação espacial. Poder-
s i m b o l o g i a das d i s p o s i ç õ e s dos objetos e dos corpos - se-ia, ainda, acrescentar uma tríade não menos importante -_o
localização e posturas - , à sua hierarquia e relações 18
. próprio, o alheio, o comum - que mantém uma estreita conexão
com a distribuição, a posse, os usos e as relações que os
Todas essas questões podem ser referidas ao âmbito da
membros da instituição escolar mantêm entre si e com os objetos
escola como lugar, à sua configuração arquitetônica e à
que nela se encontram. E à luz dessas dicotomias e dessa tríade
ordenação espacial de pessoas e objetos, de usos e funções que
que se deve ler as páginas que seguem.
têm lugar em tal âmbito. Mas também já indicam alguns dos
aspectos que fazem da escola u m espaço peculiar e relevante.
E m especial quando se tem em conta que nela se permanece A ESCOLA COMO LUGAR
durante aqueles anos em que se formam as estruturas mentais
básicas das crianças, adolescentes e jovens. Estruturas mentais " 0 e s t u d o é u m a reunião de Professores e de
conformadas por u m espaço que, como lodos, socializa e educa, Escolares, que se realiza em algum lugar, pela vontade, e
mas que, diferentemente de outros, situa e ordena com essa com a intenção de aprender os saberes", dizia a Segunda
finalidade específica a tudo e a todos quantos nele se encontram. Partida da L e i I do título X X X I 2 0
. A noção de lugar, a
localização n u m espaço determinado configurado para tal f i m ,
já é, nessa definição de meados do século X I I I , u m dos
8
O texto clássico sobre isso, que criou o termo proxemia para se referir ao estudo dessa
dimensão social do espaço, continua sendo La dimensión oculta, de Edward T. H a l l e l e m e n t o s m a i s c a r a c t e r í s t i c o s d a instituição escolar.
(México: Fondo de Cultura Económica, 1972). Como complemento, pode-se ver, por
exemplo, o livro de Bailly, citado na nota anterior e os de Robert Sommer, Espacio y
comportamiento individual. M a d r i d : Instituto de Estúdios de Adminislración L o c a l ,
1 9
B A C H E L A R D , Gaston. La poética dei espacio, o p . c i l . , p. 3 1 .

1974, e Dominique Picard, Del código al desço. E l cuerpo en la relación sociãl?Buenos


2 0
Esta citação e outra posterior do título X X X I da Segunda Partida foram extraídas

Aires: PáirlÓs, 1 9 8 6 . Quanto às peculiaridades do conflito territorial e dos combales da edição de Los códigos espanoles concordados y anotados, M a d r i d : Imprenta la

rituais em função do sexo, recomendo Walter J. Ong, La lucha por la vida. Contestación, P u b l i c i d a d , 1 8 4 8 , l . I I , p. 5 5 5 , ainda que lenham sido comparadas com a edição de
sexualidad y conciencia. M a d r i d : Aguilar, 1982, em especial pp. 4 1 - 1 0 8 . Salamanca, A n d r e a Porlonarijs, 1565.

64 6 5
ANTONIO v INAO r UA<;O Do ESPAÇO ESCOLAR E 0 A ESCOLA C O M O L U G A R : PROPOSTAS E QUESTÕES

Mas que tipo de lugar é esse? Que características definem a b) 0 ensino baseado em preceptores e a domicílio,
escola como u m lugar? E possível uma tipologia histórica que tanto para os níveis elementares ou médios, quanto para os
dê conta da diversidade que oculta tal termo? 2 1
universitários ou de qualquer outra matéria 22
.

E m relação a essa questão, há pelo menos duas c) As propostas de abrir a escola para a vida, àquilo
perspectivas possíveis. Uma vai do nomadismo e da itinerância que acontece e está fora, não para que se entre nela, senão
até à fixação e à estabilidade. A outra, da ausência de espe- para fazer dela uma escola, para levar a cabo a atividade
cificidade própria até a sua delimitação e estabelecimento. educativa fora do recinto especificamente destinado a tal f i m ,

A l i , onde se aprende e se ensina, sempre é u m lugar, " e m meio à realidade aberta, variada e inesgotável" . 23

cria-se u m lugar. Mas tal lugar pode variar no tempo para os d) A dura realidade dos mestres itinerantes nas zonas
alunos e para o professor. 0 primeiro não é usual, salvo para rurais de população dispersa, deslocando-se seja por temporadas
períodos temporais dilatados, para o turismo educativo ou em de u m l u g a r 24
para outro, seja pelas casas das aldeias . 25

circunstâncias e x c e p c i o n a i s . O u p o r q u e se c o n s i d e r e m
A tipologia anterior, não exaustiva, permite outras
deslocamentos os que se produzem, dentro de u m complexo
c l a s s i f i c a ç õ e s segundo o e l e m e n t o de referência. Se a
educativo mais amplo, entre vários edifícios escolares mais ou
mobilidade do mestre tem lugar, por exemplo, em todos os casos
menos próximos — como já é habitual no ensino universitário.
acima descritos, o mesmo não acontece com a mobilidade do
0 segundo — o professor ou mestre itinerante - não foi algo tão
aluno. Por outro lado, o lugar educativo pode ser, em alguns
excepcional. A escola peripalética não precisa de u m lugar
casos, o l a r desse a l u n o (e a q u i o m o d e l o baseado em
específico. E m outras palavras, nela os lugares variam em
preceptores coincidiria — paradoxos do destino — com o do
função dos objetivos, usuários e matérias. Não que qualquer
lugar seja válido, mas que há espaços — o lar, a agora, as ruas,
2 2
Quando se menciona esse modelo, quase sempre vem à mente o mentor, a aia e o precep-
o j a r d i m , a natureza, o museu, a fábrica - que n u m determinado tor. Mas há também outras possibilidades como, por exemplo, os professores particulares,
momento são mais adequados do que outros ou que são tal como relata a Condessa de Campo Alegre, em Mi ninezysu mundo (1906-1917) (Revista
de Occidente, M a d r i d , 1956) — professores de dança flamenca e de alfabetização e
aconselhados como lugares de ensino a f i m de, quase sempre,
professores de inglês e espanhol — ou, como comenta Gabriel Maura y Gamazo, em Recuerdos
abrir ao exterior a instituição escolar. Nesse ponto, então, se de mi vida (Madrid: Aguilar, s.d.): de outubro de 1896 até junho de 1901 cursou livremente,
em sua casa, a carreira de Direito com um só professor, o catedrático e, depois, Ministro de
deveria distinguir pelo menos quatro modalidades:
Instrução Pública, Elias Tormo. Não teve, pois de frequentai', segundo suas próprias palavras,
"as indecentes reuniões nem as desorganizadas salas de aula do antigo Noviciado da
a) A e s c o l a p e r i p a t é t i c a de Protágoras e seus
Companhia, onde então estava instalada a Faculdade de Direito da Central" (pp. 29-30).
discípulos frente, por exemplo, à Academia de Platão ou o 2 i
Giner de los Rios, Francisco. " E l edifício de la escuela", i n Obras completas. Madrid:
Espasa-Calpe, 1 9 2 7 , l . X V I , p. 148.
L i c e u aristotélico.
2 1
Esse é o caso referido por Luis Bello em seu Viaje por las escuelas de Espana (Madrid:
Companía Ibero-americana de Publicaciones, 1929, t.IV, pp. 362-364) em relação aos
"ensinadores" ou "mestres r u r a i s " que encontra em seu caminho de Baza a Guadix.
2 1
Não são comuns, entre nós, os estudos da escola enquanto lugar. Não obstante, 2 5
Juan Martinez Ortiz chama de " m e s t r e de a l d e i a " a quem até 1 8 9 4 percorria,
lemos bons exemplos ( T R I L L A , Jaume. Ensayos sobre la escuela. E l espacio social y ensinando as primeiras letras, as casas de Las Pedrizas, uma aldeia de C o r r a l - R u b i o ,
material de la escuela. Barcelona: Laertes, 1985) que não tiveram continuação. na província de Albacete (Una vida. Infância y juventud. Albacete: 1 9 5 2 , p. 2 8 ) .

6 6 6 7
ANTONIO V I M M l I' I I M . l l D O ESPAÇO ESCOLAR E DA ESCOLA COMO LI G A R i PROPOSTAS i : Ql l STÔI 9

referido mestre de aldeia) e, em outros, pode ser constituído


A análise histórica ou a t u a l oferece u m a a m p l a
pelos locais utilizados, de modo temporal ou não, como escola
diversidade de modalidades. As fotografias que, à guisa de
— o mestre r u r a l —, edifícios claramente destinados a outra
ilustração, se i n c l u e m , por exemplo, em A educação no mundo
finalidade e função — museus, fábricas, casas comerciais,
atual, de John Vaizey, atestam essa d i v e r s i d a d e , e o irónico 27

gráficas — ou espaços não edificados. E, nesse último caso,


comentário de u m comparatista da educação primária, escrito
poderíamos distinguir, inclusive, entre espaços urbanos — ruas,
em 1902 no cartão postal d i r i g i d o a uma senhorita de Palma
praças, j a r d i n s — e não urbanos — montes, vales, rios, praias.
de M a l l o r c a ( F i g u r a 1) não é senão u m reflexo d a q u e l a
E, dentro dos urbanos, por sua vez, entre o ensino itinerante
d i v e r s i d a d e . Mas t a l análise m o s t r a também u m a c l a r a
— u m trajeto pela cidade —, o ensino ocasional — no modo que tendência à atribuição de u m espaço determinado como lugar
se imagina que fariam os sofistas, hoje aqui e amanhã a l i , para o ensino. y j n _ l u g a r estável e fixo. Tal tendência f o i
sem u m lugar fixo, mas com várias possibilidades recorrentes reforçada no tempo, por u m a outra, paralela: aquela que
n u m espaço delimitado como a agora ou a rua p r i n c i p a l da concebe a escola não apenas como u m espaço determinado e
polis — ou o ensino estável ao ar l i v r e , tal como acontecia nas rotulado enquanto t a l , como ainda u m espaço de natureza
ruas e pórticos do fórum da Roma a n t i g a . 26

própria. E m outras palavras, a instituição escolar e o ensino


só merecem esse nome quando se localizam ou se realizam
n u m lugar específico. E, com isso, quero dizer n u m lugar
especificamente pensado, desenhado, construído e utilizado
única e e x c l u s i v a m e n t e p a r a esse f i m . 0 reverso dessa
tendência à especificidade e institucionalização, à
identificação como tal espaço específico, seriam, na expressão í
de Jaume T r i l l a , as diferentes propostas e tentativas de
" n e g a ç ã o da escola como l u g a r " . 2 8
Propostas e tentativas
d e s d e a " c i d a d e e d u c a t i v a " de E d g a r F a u r e até a
desescolarização de I v a n I l l i c h , que só são pensáveis — outro
paradoxo — frente à sólida realidade de ambas as tendências:
à que leva ao sedentarismo e à que postula a especificidade
institucional da escola como lugar.

2 6
Para mais detalhes, ver o artigo de Leon Esteban c Ramon Lopez M a r t i n , " E s c u d a
Figura 1. y espacio: testimonios y textos", i n : História de la Educación. Salamanca: n - 1 2 - 1 3 ,
1 9 9 3 - 4 , pp. 7 5 - 9 6 .
Cartão postal.
2 7
V A I Z E Y , John. La educación en el mundo actual. M a d r i d : Guadarrama, 1 9 6 7 .
2
" T R I L L A , Jaume. Ensayo sobre la escuela. O p . c i t . , pp. 3 5 - 5 2 .

68 69
ANTONIO VINAO rRAGO ESPAÇO ESCOLAR E DA ESCOLA COMO LUGAR! PROPOSTAS a OIT.VIIHS

E m todo caso, essas tendências não d e v e m ser c o r t e " : acima, o conselho m u n i c i p a l , e abaixo, porta com
confundidas. A escola ancorada n u m espaço, a escola estável, porta, os quartos escuros e úmidos, a escola e o calabouço' . 10

não i m p l i c o u nem implica sempre — muito menos do que agora E assim descreve Dolores I b a r r u r i em sua autobiografia, ao
— u m lugar especificamente construído para t a l f i m . B e m ao recordar, com imagens diretas, claras, sua escola de crianças
contrário, o habitual tem sido recorrer a edifícios e locais não pequenas, em Gallarta: debaixo da escola, na sobreloja, diz
pensados na sua origem como escola mas que, por diferentes ela, achava-se o " c a n i l " ou "cárcere do povoado", e através
maneiras, se destinavam total ou parcialmente ao ensino. "das velhas e corroídas tábuas", que serviam de chão para
uns e de teto para outros, v i a m "os homens que a justiça
Parece razoável crer que essa modalidade - a dos "31
chamados locais h a b i l i t a d o s ou p r o v i s i o n a i s na fase de encerrava .
aplicação da l e i geral de educação de 1970 - só se refere ao No entanto, não é apenas no âmbito do ensino primário
ensino primário. Desde que, em meados do século X I X , as onde se pode constatar essa realidade. Como mostrei n u m
estatísticas escolares incluem informação sobre os locais onde trabalho anterior, a génese e o estabelecimento dos Institutos
se situam as escolas, é conhecida e quantificável essa situação. de ensino de segundo grau e das Escolas Normais só foi possível,
O aluguel de locais para escolas i m p l i c o u , até recentemente, na Espanha do segundo terço do século X I X , graças à utilização
u m elevado custo para os cofres de alguns municípios. A s s i m , com tal f i m de u m bom número de edifícios - conventos, em
é conhecido o texto das atas da assembleia de inspetores do quase sua t o t a l i d a d e — procedentes da desamortização
e n s i n o primário, convocada em 1 9 1 0 p e l o m i n i s t r o de eclesiástica iniciada em 1836, ou de universidades e colégios
Instrução Pública, o Conde de Romanones, incluído em suas extintos, alguns dós quais, por sua vez, tinham sido erguidos
memórias. Segundo essas atas, " m a i s de dez m i l escolas" - sobre antigos colégios ou edifícios dos jesuítas, após sua
de u m total aproximado de 25.000 - se encontravam em locais expulsão em 1767. Dado que durante o século X I X só se
alugados. M u i t o s deles, anexos ou adjacentes a espaços construíram três Institutos, a partir de nova planta — Vitória,
d e s t i n a d o s a outros usos p ú b l i c o s , tais como c á r c e r e s , Bilbao e Pamplona — e que se teria de esperar a I I República
hospitais, cemitérios, matadouros, quadras, salões de baile para que se observasse u m a u m e n t o no número desses
ou c a f é s , c u j a p r o x i m i d a d e os inspetores c o n s i d e r a v a m estabelecimentos, não é incorreto afirmar-se que a maior parte
i n a d e q u a d a . Se a escola — o local escolar — era u m assunto
29 dos Institutos e Escolas Normais funcionaram, até épocas
m u n i c i p a l , não deve parecer estranho que se situasse j u n t o a recentes, em edifícios de arquitetura conventual e religiosa.
outros l o c a i s d e s t i n a d o s a o u t r a s tarefas ou temas de Não em edifícios expressamente construídos para tal f i m . 32

competência m u n i c i p a l . Os cárceres entre elas. A s s i m relata


Luis Bello, no início de sua Viagem pelas escolas da Espanha, 3 0
B E L L O , Viaje por las escuelas de Espana. M a d r i d : E l Magistério Espanol, 1 9 2 6 , t.
quando visita a primeira escola, sua escola, " a seis léguas da I , pp. 2 0 - 2 1 .
3 1
I B A R R U R I , Dolores. E l único comino. Ediciones en lenguas eslrajeras, Moscou: 1963, p.62.
3 2
V I N A O F R A G O , A . Política y educación en los orígenes de la Espana contemporânea.
2 9
Conde Romanones. Notas de uma vida. M a d r i d : R e n a c i m i e n t o , s.d., I . I I , p p . Examen especial de sus relaciones en la ensenanza secundaria. M a d r i d : Siglo X X I ,
88-90. 1 9 8 2 , pp. 4 2 1 - 4 2 7 .

70 71
t\ i> i t m 11» v 11\ u > r IÍ \«.11 I J O ESPAÇO ESCOLAR E DA ESCOLA C O M O L U G A R ! PROPOSTAS I. 0 1 ESTOES

A utilização de u m edifício ou local destinado, ou situado j u n t o a u m de seus lados, onde uma inscrição nos
não, em princípio, ao ensino não deve confundir-se, tampouco, recorda que esteve localizada a conhecida escola catedralícia
com o grau de dependência ou independência do mesmo em de mesmo nome. Basta, também, contemplar algumas plantas
relação aos demais. Existe, sem dúvida, uma clara relação que mostrem as diversas possibilidades existentes, para avaliar
entre a construção específica, própria, e a independência a significativa diferença entre a escola m u n i c i p a l que ocupava
e s p a c i a l . Se u m e d i f í c i o escolar deve ser i d e n t i f i c a d o uma dependência residual no edifício da câmara m u n i c i p a l
arquitetonicamente como tal é, em parte, porque a instituição ou fora dele, e aquelas que, como acontecia em alguns dos
escolar a d q u i r e uma a u t o n o m i a em relação a outras projetos de prefeituras e escolas construídas na França, d u -
instituições ou poderes, em relação às quais antes guardava rante a Terceira República, ambas as escolas, a de meninos e
uma estreita dependência. E vice-versa. Repito, porém, ainda a de meninas, sobressaíam em ambos os lados, em altura e
que essa seja a tendência ou evolução geral, historicamente extensão, em comparação com a sede da administração m u -
se pode assinalar, também, exemplos de edifícios escolares n i c i p a l que era mais baixa e ficava no centro 33
.
c o n s t r u í d o s p a r a s e r e m d e d i c a d o s a essa f i n a l i d a d e e
A aceitação da necessidade de u m espaço e de u m
localizados como anexos ou dependências de outros mais
edifício próprios, especialmente escolhidos e construídos para
amplos, nos quais se integram.
ser uma escola, foi historicamente o resultado da confluência
Feita essa observação, convém ressaltar, no entanto, de diversas forças ou tendências. Algumas mais amplas, de
o interesse que oferece a geografia histórica da localização caráter social, como a especialização ou segmentação das
da escola como lugar e a análise da sua evolução desde a diversas tarefas ou funções sociais e a autonomia das mesmas,
dependência do templo — Egito, Suméria, escolas catedralícias umas em relação às demais. E outras mais específicas em
e paroquiais —, o ginásio — época e mundo helenísticos —, o relação ao âmbito educativo, como a profissionalização do
palácio — escolas palatinas — ou os poderes locais — escolas trabalho docente. Da mesma maneira que para ser professor
m u n i c i p a i s —, por exemplo, até a independência em relação ou mestre não servia qualquer pessoa, tampouco qualquer
a qualquer outro edifício ou poder; à localização autónoma, edifício ou local servia para ser uma escola. 0 edifício esco-
separada, isolada n u m espaço específico e próprio. Além lar devia ser configurado de u m modo definido e próprio,
disso, essa análise requer observar a relação entre lugares e i n d e p e n d e n t e de q u a l q u e r outro, em u m espaço também
edifícios. Importa, por exemplo, saber se a escola se achava adequado para t a l f i m . Isso i m p l i c a v a seu isolamento ou
integrada fisicamente no edifício da instituição que a acolhia, separação. Também sua identificação arquitetônica enquanto
ou se era destinado para ela u m local anexo ou u m edifício tal. A l g u n s signos próprios. E, no fundo, recolocar as relações
próximo. A visualização — plantas, estampas, fotografias - entre o i n t e r n o e o e x t e r n o , a q u i l o que se situava fora.
permite também avaliar o caráter dessa relação. Basta situar-
se frente à catedral de Chartres, onipotente, bela, e compará- 33
Lire, écrire et compter: 2000 ans dalphabétization, INRP, Musée N a t i o n a l de
la com o minúsculo edifício, ao mesmo tempo próximo e anexo, 1'Education, R o u e n , 1 9 8 1 , p. 5 8 , no q u a l se apresentam o plano da fachada da
prefeilura e das escolas de meninos e meninas de V i e u v i c q , datado de 1880.

72 73
ANTONIO VINAO FRAGO

Seu ensinamento "transmite-se através das formas que ele


O edifício escolar destacava-se, assim, frente aos demais,
concebeu e que constituem o entorno da criança desde a sua
sobretudo frente a outros edifícios públicos, civis ou religiosos.
mais tenra i d a d e " . A s s i m , todo educador, se quiser sê-lo,
35

E destacava-se também em relação à casa, u m lugar com o


tem de ser arquiteto. De fato, ele sempre o é, tanto se ele
q u a l a escola guardará sempre uma relação ambivalente, de
decide modificar o espaço escolar, quanto se o deixa t a l e
aproximação e de resistência. Nenhuma citação reflete melhor
qual está dado. 0 espaço não é neutro. Sempre educa. Resulta
tal relação do que aquele em que Pedro Chico, na segunda
daí o interesse pela análise conjunta de ambos os aspectos —
década do século X X , reclamava esse caráter autónomo e
o e s p a ç o e a e d u c a ç ã o - , a f i m de se c o n s i d e r a r suas
próprio, inclusive para a decoração da escola:
implicações recíprocas.
... a decoração da escola deve ter um caráter definido e
Para a n a l i s a r a d i m e n s ã o e s p a c i a l dos c e n t r o s
próprio. Não é igual à ornamentação de um teatro, de um
templo, de uma estação de trem, de um café ou de uma docentes, nada parece mais adequado, se a análise se pretende
sala de conferências ou de concertos: cada lugar exige total, do que seguir o exemplo das bonequinhas russas que
sempre sua decoração diferente e adequada. escondem simultaneamente, dentro de s i , outra similar mas
de tamanho menor. E m primeiro lugar, se deverá considerar
Assim, a escola infantil, ainda que deva ter sempre um
sua localização ou adequação em relação a outros espaços e
certo aspecto de lar, um certo calor do lar, exige igualmente
sua disposição, sua personalidade, e tem de fato, ou deve lugares; depois, o local ou o território ocupado e a distribuição,
ter, um tipo novo e diferente de ornamentação, chamado no mesmo, das zonas edificadas e não edificadas e, assim,
de ornamentação escolar, com u m caráter seguir progressivamente, desde essas últimas até a sala de
inconfundível, pois a escola tem, também na vida, seu aula, passando pelo edifício em seu conjunto e sua distribuição
nítido temperamento diferencial. 34
interna em diversos espaços e usos. Além disso, entre u m
espaço e outro será necessário considerar as áreas de transição
— pórticos, corredores, áreas de espera. Esse será o esquema
A DIMENSÃO ESPACIAL DOS ESTABELECIMENTOS
que seguirei nos parágrafos seguintes, deixando de lado esse
D E ENSINO E A DIMENSÃO EDUCATIVA
último reduto definido pelo mobiliário e, especialmente, o
DO ESPAÇO ESCOLAR
banco, a mesa, a cadeira ou a carteira. Mas antes é preciso
Enquanto lugar situado n u m espaço, a escola possui
analisar a projeção espacial do estabelecimento de ensino e
u m a determinada dimensão espacial. E l a pode ser analisada
as relações com o seu entorno; isso é, sua área de captação e
a partir dessa perspectiva. Mas também por isso, ao mesmo
influência, a q u e l a d e t e r m i n a d a pelas características e
t e m p o , o e s p a ç o escolar e d u c a , p o s s u i u m a d i m e n s ã o
procedência geográfica e, portanto, social, de seus alunos.
e d u c a t i v a . " 0 arquiteto é u m e d u c a d o r " , disse M e s m i n .

34
C H I C O , Pedro Decoración escolar. M a d r i d : Publicaciones de la Revista de MESMIN, Georges. Uenfant, 1'architecture et l espace, op. cil., p p . 17 e 105.
Pedagogia, 2> ed. revista, 1928, p. 11.

75
74
ir\i iiorayu i'„ii,ui,;\n i , un i.»m,,\ u u n u iin.\n. r n u r u a i \a • i/u&siu&o

A extensão dessa área de captação depende do nível


Universidade de V a l l a d o l i d , entre 1837 e 1886, que o leva a
educativo e tipo de ensino — máxima nos centros universitários,
qualificar essa última, em tais anos, de universidade local e
mínima nos centros de educação i n f a n t i l - , do meio físico, da
regional, " l a Universidad de Castilla l a V i e j a " . 39

rede viária ou de comunicações, do prestígio da escola e da


i d a d e , sexo e nível s o c i o e c o n ó m i c o dos a l u n o s . São 3 6
— A q u e l e que r e a l i z e i acerca da p r o c e d ê n c i a

justamente tanto essa variedade de possibilidades, quanto sua geográfica, segundo o l o c a l de n a s c i m e n t o , dos a l u n o s

evolução no tempo, para cada estabelecimento de ensino, e suas graduados do Seminário de São Fulgêncio de M u r c i a , entre

relações com as características, organização e funcionamento 1792 e 1807. Esse estudo mostrava a importância de fatores

do mesmo, que realçam o valor de estudos tais como: específicos — a extensão territorial do bispado —, assim como
de o u t r o s u s u a i s — a p r o x i m i d a d e e c o m p e t i ç ã o da
- 0 efetuado por W. E. Mardsen, sobre a localidade U n i v e r s i d a d e de O r i h u e l a — ou de í n d o l e pessoal — a
inglesa de Bootle, nos fins da década de 1 8 9 0 , que reflete os p r o c e d ê n c i a n o r t e n h a de a l g u m b i s p o . Não de m e n o r
efeitos, nesse ponto, das diferentes políticas de admissão, importância f o i observar c o m o , depois de u m a série de
seguidas pelas duas escolas do Conselho Escolar e as três processos inquisitoriais sobre diversos professores e alunos,
p a r o q u i a i s ou voluntárias que existiam nessa l o c a l i d a d e e numa fase de claro recuo ideológico e académico, a área de
naquela época, assim como das mudanças na rede viária ou captação do Seminário reduziu-se drasticamente nos últimos
do maior ou menor prestígio social de cada uma delas. 3 7
anos do período analisado, em comparação com os p r i m e i r o s . 10

- N o âmbito universitário, p o r e x e m p l o , os de A escola é espaço e lugar. Algo físico, material, mas


R i c h a r d L . Kagan, sobre a origem geográfica dos estudantes também u m a construção c u l t u r a l que gera " f l u x o s
das universidades de Castilla, nos séculos X V I e X V I I , que energéticos". A ideia da escola como construção c u l t u r a l é
mostra o caráter local e regional da grande maioria delas, também expressa por Agustin Escolano no outro capítulo deste
c o m e x c e ç ã o das u n i v e r s i d a d e s de Alcala, V a l l a d o l i d e livro. A ideia complementar segundo a qual a escola, enquanto
Salamanca ; e Federico Sanz Diaz, sobre os licenciados pela
38
lugar construído, é simultaneamente matéria organizada e
energia que f l u i , que se decompõe e se recompõe, é u m a
16
Como i n d i c o u W. E. Mardsen, " a área mais compacta espacialmente, fisicamente
adaptação da ideia exposta por Fernandez-Galiano de uma
plana e densamente povoada, o grupo de idade mais j o v e m , a escola de prestígio maneira mais geral em relação à arquitetura. 41
Com isso quero
mais baixo e o distrito com melhor dotação escolar" oferecem a menor área de captação
dizer, mais u m a vez, que o espaço educa. E que isso tem
("Aproximacions interdisciplinars a l a história de 1'educación urbana a A n g l a l e r r a " ,
Full Informatiu, Socielat d'Hislòria de 1'Educació deis Paísos de Llengua Calalana, lugar de diferentes maneiras e i m p l i c a várias questões.
n ' 7-8, 1 9 8 8 - 9 0 , p p . 5-19.
3 7
I b . , pp. 14-15.
:,<
' SANZ D I A Z , Federico E l alumnado de la Universidad de Valladolid en el siglo XIX (1837-
l s
K A G A N , R i c h a r d L . Universidad y sociedad en la Espana moderna. M a d r i d : Tecnos,
1886), Secretariado de Publicaciones de la Universidad de Valladolid, 1978, pp. 115-137.
1 9 8 1 , pp. 2 2 3 - 2 2 6 e 2 4 6 - 2 5 7 . Sobre essa mesma questão, em relação à Universidade 4 0
V I N A O F R A G O , A . " E l C o l e g i o - S e m i n a r i o de San F u l g ê n c i o : I l u s t r a c i ó n ,
de Alcala, ver o mais recente e rigoroso artigo de Benoit Pelleslrandi " T h e University
L i b e r a l i s m o e Inquisición", Areas, n 6, 1 9 8 6 , p p . 18-48.
u

of Alcala de Henares from 1568 to 1 6 1 8 : Sludents and Graduates", History of Univer-


" F E R N A N D E Z - G A L I A N O , L u i s . Elfuego y la memoria. Sobre arquitectura y energia.
sities, n I X , 1990, pp. 119-165.
2

Madrid: Alianza, 1 9 9 1 , pp. 24-29.

76 77
Antes de mais nada, como também i n d i c a Agostín de fundo, com relação à caracterização da escola como espaço
Escolano, a ordenação do espaço, sua configuração como lugar, e à interação entre as dimensões espacial e educativa de
constitui um elemento significativo do c u r r í c u l o — ambos os elementos.
independentemente de que aqueles que o habitam estejam, ou
Diante de que tipo de espaço ou lugar estamos? Como
não, conscientes disso. Tal ordenação supõe, como se verá,
qualificá-lo?
uma determinada distribuição e designação, entre várias outras
possíveis, de funções e usos de alguns espaços também U m a determinada leitura de Foucault — sobretudo em

determinados. Há ordenações do espaço, configurações do Vigiar e Punir — caracteriza a escola, l i m i t a d a a u m espaço

mesmo, adequadas ou inadequadas, segundo o modelo de f e c h a d o , j u n t o a o u t r a s i n s t i t u i ç õ e s d i s c i p l i n a r e s , de

organização educativa, método de ensino ou clima institucional dominação e de controle, tais como quartéis, hospitais ou

que se pretenda adotar. Inclusive segundo a imagem que se c á r c e r e s . Seu m o d e l o p r é v i o s e r i a m os conventos . 4 4

queira oferecer: daí a importância dos folhetos e materiais de Independentemente da sua maior ou menor adequação a cada

propaganda dos centros docentes com fotografias selecionadas. caso concreto — é óbvio, por exemplo, que nos internatos uma
caracterização desse t i p o seria m a i s a d e q u a d a - , essa
Além disso, todo espaço é u m lugar percebido. A
concepção de espaço escolar, por si só, é insuficiente. Tal
percepção é u m processo cultural. Por isso, não percebemos
1 concepção esquece as diferentes funções que esse espaço
espaços, senão lugares, isso é, espaços elaborados, construídos.
desempenha ou deve desempenhar. 0 próprio Foucault em
Espaços com s i g n i f i c a d o s e representações de e s p a ç o s .
' 0 olho do poder", numa entrevista realizada por Jean-Pierre
Representações de espaço que se visualizam ou contemplam,
B a r o u , j á falava da t r i p l a função p r o d u t i v a , simbólica e
que se rememoram ou recordam, mas que sempre levam consigo
d i s c i p l i n a r do t r a b a l h o . Essa tríplice função pode também
43

uma interpretação determinada. Uma interpretação que é o


ser atribuída ao espaço escolar, acrescentando-se, ainda, a
resultado não apenas da disposição material de tais espaços,
função de vigilância ou controle. 0 problema surge quando
como também de sua dimensão simbólica. Nada é melhor do
que falar, nesse caso, no valor didático do símbolo, u m aspecto
r e p r e s e n t a m , neste s é c u l o , as c o n c e p ç õ e s " s o l a r " e " í g n e a " da a r q u i t e t u r a , L e
a mais da dimensão educativa do espaço 42
. Corbusier e Frank L l o y d W r i g h l — Luis Fernandez-Galiano, Elfnego y la memoria...,
op. c i t . , p p . 4 4 - 4 9 —, foram educados, na infância, segundo os métodos de Frõebel.
Nos parágrafos seguintes, analisarei essa dimensão Sobre essa influência em Le Corbusier, ver as observações de Mare Solilaire, " L a

educativa, seguindo o esquema já r e f e r i d o . 4 3


Mas malernelle de Le Corbusier et le j a r d i n d'enfanls de Jeannerel", em Le jeune enfanl et
1'architecte. Les lieux de la petite enfance. Paris: Syros/Allernalive, 1 9 9 1 , p p . 7 5 - 7 9 ,
estabelecerei, antes, minha posição sobre uma questão básica, e, em relação a W r i g h l , o sugestivo artigo de Purificación Lahoz A b a d , " E l método
f r o e b e l i a n o de e s p a c i o - e s c u e l a . Su inlroducción en E s p a n a " , i n Historia de la
1 2
Tomo essa expressão do lílulo de u m livro de Federico Gomez Rodriguez de Caslro Educación, n" 10, 1 9 9 1 , p p . 1 0 7 - 1 3 3 , c u j a leitura constitui u m complemento perfeito
(El valor didáctico dei símbolo. M a d r i d : Ministério de Educación y Ciência, Dirección dos trabalhos incluídos nesse volume.
General de Ensenanza M e d i a y Profesional, 1970). " Uma caracterização recente desse tipo seria, por exemplo, a efeluada por Michel Bouillé,
1 3
U m a questão não levada em consideração nesle trabalho é a possível influência de em Uécole, histoire d'une ulopie? XVII e-début XXe siècle. Marseille: Rivages, p. 4 9 .
u m d e t e r m i n a d o sistema ou método pedagógico no pensamento e na obra de u m 4 5
F O U C A U L T , M i c h e l . " E l ojo dei poder". I n : B E N T H A M , Jeremias, E l panóptico,
determinado arquiteto. E paradoxal, por exemplo, que os dois arquitetos que melhor M a d r i d : L a Piqueta, 1 9 7 9 , p p . 9 - 2 6 .

78 79
se diz que nem sempre existe uma concordância entre tais colocadas em seus limites, ou de outra maneira legal. A escola
funções. Que é possível que ocorram - e que, de fato, ocorrem seria, assim, u m espaço demarcado, mais ou menos poroso,
- contradições entre elas. Entre a função produtivo-educativa no q u a l a análise de sua construção, enquanto lugar, só é
ou de ensino e a função disciplinar, por exemplo; ou entre possível a partir da consideração histórica daquelas camadas
ambas e a função de vigilância e controle. A s s i m , enquanto ou elementos envolventes que o configuram e definem.
essa última exige transparência e v i s i b i l i d a d e , as duas
anteriores tendem a d i v i d i r e segmentar os tempos, as matérias
A LOCALIZAÇÃO: URBANISMO E EDUCAÇÃO
ou conteúdos, as pessoas e os espaços. 0 espaço escolar torna-
se, a s s i m , no seu d e s e n v o l v i m e n t o i n t e r n o , u m e s p a ç o
Para a escola dependente ou anexa, a localização não
segmentado no qual o ocultamento e o aprisionamento l u t a m
constituía u m problema. Situava-se dentro ou j u n t o ao edifício
com a v i s i b i l i d a d e , a abertura e a transparência. A
- templo, ginásio, palácio, conselho m u n i c i p a l - que abrigava
racionalização burocrática - divisão do tempo e do trabalho
a instituição a serviço da qual a escola era criada. O máximo
escolares - e a gestão racional do espaço coletivo e i n d i -
a que se chegava era aconselhar, como fazia a segunda Partida
vidual fazem da escola u m lugar em que adquirem importância
(título X X - X I , segunda l e i ) , que a v i l a onde se estabelecesse
especial a localização e a posição, o deslocamento e o encontro
u m Estudo Geral fosse "de bom ar, e de belas saídas", a f i m
dos corpos, assim como o ritual e o simbólico. Numa instituição
de que os professores e os escolares vivessem sãos e pudessem
segmentada, p a r c e l a d a , a vigilância e o controle - a
" f o l g a r e receber prazer à tarde, quando se levantassem
coordenação - só são possíveis mediante a comunicação, a
cansados do estudo". Além disso, devia ser " b e m abastecida
existência de órgãos colegiados, a visibilidade espacial, os
de pão, de vinho e de bons alojamentos" onde se pudesse
elementos simbólicos u n i f i c a d o r e s ou a ritualização das
" m o r a r e p a s s a r o t e m p o sem g r a n d e s a c r i f í c i o " . A s
p r i n c i p a i s atividades que acontecem nela.
universidades estabeleciam-se, em geral, em edifícios centrais
Quanto à sua ordenação interna, a escola é, então, e não distantes das catedrais e das igrejas. As dimensões das
u m espaço segmentado e demarcado. Penso que esse último cidades e vilas asseguravam uma hospedagem próxima.
adjetivo refletc, também, de u m modo mais adequado, a A localização, enquanto problema a ser resolvido,
realidade do espaço escolar em sua relação com outros lugares
surge com a confluência dos fatos: u m deles, já referido, seria
e e s p a ç o s . A escola é u m e s p a ç o o c u p a d o , d e m a r c a d o
a necessidade de que a instituição escolar se localizasse em
[acotado] 4 6
, dando-se a esse termo o primeiro significado
u m edifício próprio, construído com t a l f i m ; o outro, seria o
que o Diccionario de la Real Academia de la Lengua Espanola
crescimento das cidades e as tentativas de regulá-lo mediante
a t r i b u i ao verbo "acatar"; reservar o uso e o aproveitamento
o planejamento urbanístico.
de u m terreno, manifestando essa reserva por meio de cotas
Por isso, ainda se costuma citar, como precedente, os
4 6
Tomo essa expressão, adaplando-a, do tílulo do livro coordenado por Horácio Capel, parágrafos de Luis Vives no De las disciplinas ( 1 9 4 8 ) , em
Los espacios acotados. Geografia y dominación social (Barcelona: P P U , 1 9 9 0 ) . que ele advoga em favor de u m lugar salubre "com abundância

80 8 1
de alimentos saudáveis", "afastado de toda concorrência", E m primeiro lugar, a higiene: u m local elevado, seco,
mas não em lugar despovoado, "longe da corte e da vizinhança bem arejado e com sol constitui o ideal. O que se deve evitar
de m u l h e r e s m o ç a s " , dos c a m i n h o s p ú b l i c o s e " s í t i o s são, pois, os lugares úmidos, sombrios e não arejados (terrenos
fronteiriços" . 0 fato é que se terá de esperar o século X I X
47 pantanosos, ruas estreitas). Mas a higiene é tanto física quanto
para que se encontrem referências, na Espanha — nos manuais moral. A relação dos lugares de proximidade perniciosa constitui,
de pedagogia ou em escritos sobre questões educativas - às por isso, todo u m repertório onde se misturam moralidade e
condições que devia r e u n i r o espaço reservado para nele saúde: tabernas, cemitérios, hospitais, quartéis, depósitos de
localizar uma escola. U m a das primeiras referências, senão a esterco, casas de espetáculos, cloacas, prisões, praças de touros,
p r i m e i r a , seria aquela efetuada por Montesino no Curso de casas de jogo, bordéis etc. Junto à higiene moral e física,
Educación que m i n i s t r o u no Seminário Central ou Escola preocupavam também a segurança das crianças — o trânsito de
N o r m a l de Professores de M a d r i d , de 1839 até 1849. Na sua carruagens — e, como diziam as Notas sobre construcción escolar,
opinião, a escola devia estar situada n u m lugar tão retirado e publicadas pelo Museu Pedagógico Nacional, a "missão social
tranquilo quanto permitissem as circunstâncias, sem distar e educadora" da escola e seu " a l r a t i v o " .
m u i t o da c i d a d e . Mas é sobretudo com a publicação da
48

Conforme as cidades cresciam e o modelo organizativo


Instrucción técnico-higiénica relativa a la construcción de
d a e s c o l a s e r i a d a ia se a m p l i a n d o e se c o n s o l i d a n d o ,
escuelas, de 2 8 de a b r i l de 1905, que essa questão, assim
estabeleceram-se, j u n t o com os anteriores, outros critérios
como as relativas ao edifício e ao campo escolares, receberá
c o m p l e m e n t a r e s q u e i m p l i c a v a m , às vezes, s o l u ç õ e s
uma maior atenção em tais textos . Os dois critérios básicos 49

contraditórias. Assim, por exemplo, enquanto que a Instrucción


que condicionam a eleição da localização serão, em todos os
autores, de ordem higiénica e moral. Somente em algumas
ocasiões, mais tarde e nem sempre, acrescentam-se outros, o instrucciones para la fundación y dirección de escuelas primarias, elementales y
superiores. M a d r i d : 1 8 4 2 , 2 ed., pp. 2 9 - 3 0 ; C A R D E R E R A , Mariano. Princípios
a
de
como o deslocamento dos alunos, a própria tarefa educativa educación y métodos de ensennza. M a d r i d : 1 8 7 7 , 5" ed., p. 3 0 1 ; A V E N D A N O , Joaquin
e as dimensões do estabelecimento de e n s i n o . 50
de e C A R D E R E R A , Mariano. Curso elemental de pedagogia. M a d r i d : Hernando, 1885,
5" ed., p. 2 6 3 ; S A N T O S , José Maria. Curso completo de pedagogia. Madrid: Hernando,
1 8 8 0 , 3" ed., p. 1 8 9 ; C A N D E A L , J. Colección de disertacionespedagógicas de utilidad
para los profesores de todas las ramas y para cuantos han de ocuparse de la educación
4 7
V I V E S , L u i s . " D e las d i s c i p l i n a s " . I n Obras Completas. M a d r i d : A g u i l a r 1 9 4 8 , p p .
550-552. de la infância. M a d r i d : 1 8 8 4 , 2 " ed., pp. 3 3 8 - 3 3 9 (esse autor recorre também a critérios
estéticos); M A R Q U E Z , Francisco Ballesteros. Pedagogia, Educación y didáctica
4 8
M O N T E S I N O , Pablo. Curso de educación. Métodos de ensenanzaypedagogia. Madrid:
pedagógica. Málaga: 1 9 0 9 , 5" ed., 5 3 7 - 5 3 8 ; F E R N A N D E Z , Manuel e F E R N Á N D E Z -
Cenlro de Publicaciones, Ministério de Educación y Ciência, 1 9 8 8 , p. 173. Edição,
N A V A M U E L , Ciência de la Educación. Terceraparte. M a d r i d : Organización didáctica
estudo p r e l i m i n a r e notas de Anastasio Martinez Navarro.
y pedagógica, 1 9 1 2 , 4 ed., p p . 3 6 - 3 8 ; G A R C I A , Pedro de Alcântara. Compendio
a
de
4 8
O f a t o de q u e se t i v e s s e de esperar, n a E s p a n h a , até 1 9 0 5 , p a r a q u e se
pedagogia teórico-práctica. M a d r i d : Perlado, Paez y Companía, 1913, 5 ed., p p . 4 9 6 -
a

regulamentassem essas questões explica o menor interesse, com exceções, que os


4 9 7 . Foram consultadas, também, a citada Instrucción técnico-higiénica de 1905 e as
tratados de pedagogia do século X I X mostram sobre elas. Não se deve esquecer, por
"Notas sobre construcción escolar publicadas por el Museo Pedagógico N a c i o n a l " ,
exemplo, (pie na França e na Bélgica já existiam, desde 1850 e 1 8 5 2 , respectivamente,
incluída como apêndice em Ministério de Instrucción Pública y Bellas Artes: Planos
regulamentações específicas sobre a localização e a construção dos edifícios escolares.
modelos de escuelas graduadas conpresupuestos reducidos. M a d r i d : 1 9 1 2 , pp. 5 8 - 6 8 .
5 0
Essa afirmativa e a síntese que a seguir se faz se baseiam nos seguintes textos:
F I G U E R O L A , Laureano. Manual completo de ensenanza simultânea, mútua y mixta,

82 83
técnico-higiénica de 1905 aconselhava a localização " e m localização das escolas "nos bairros periféricos", também
pleno c a m p o " , ainda que disso resulte algum afastamento do advertia que caso se optasse para que não estivessem " m u i t o
centro do povoado, por causa das supostas vantagens do d i s t a n t e das residências das c r i a n ç a s " , se escolhessem
exercício físico e da pureza do ar, e as Notas sobre construcción " l u g a r e s p r ó x i m o s a p r a ç a s , j a r d i n s ou r u a s l a r g a s e
escolar do Museu Pedagógico Nacional preferiam colocar a espaçosas". A favor da localização nos arredores da população
escola "nos arredores da população", havia aqueles - Julián — escolas ao ar livre — combinavam-se três fatores: o educativo
Lopez y Candeal, Mariano Carderera ou Francisco Ballesteros — distanciamento em relação ao barulho, ambiente propício
— que se i n c l i n a v a m , aplicando o critério da comodidade, ao estudo, fácil acesso à Natureza —, o higiénico e o económico
pelos terrenos centrais dos povoados . O primeiro propunha, 51
— m e n o r p r e ç o dos t e r r e n o s . C o n t r a t a l l o c a l i z a ç ã o , os
i n c l u s i v e , nos locais com mais de u m estabelecimento de problemas de transporte ou deslocamento e a não-integração
ensino, sua divisão em distritos - u m para cada escola - , ao meio urbano. Como se pode ver, u m dilema que afetava, e
situando cada uma delas no centro dos mesmos. Esta proposta, afeta, q u a l q u e r tipo de estabelecimento docente e que está
condicionada na sua resolução pela opção que se fizera no também por detrás dos debates que, por sua vez, surgiram em
dilema entre edifícios escolares de grandes ou de pequenas torno das vantagens e desvantagens dos campi universitários,
d i m e n s õ e s , não f a z i a m a i s do q u e s e g u i r , no â m b i t o localizados em áreas distantes e demarcadas para t a l f i m . 5 2

p e d a g ó g i c o , u m a c l a r a t e n d ê n c i a ao p l a n e j a m e n t o e
A origem ou precedente imediato dessa relação e n -
ordenação urbana, promovida com diferentes propósitos e a
tre p l a n e j a m e n t o u r b a n o e e d u c a ç ã o j á se e n c o n t r a nas
partir de diferentes origens, nas quais os estabelecimentos
p r i m e i r a s tentativas de l e v a r para a prática, e m termos
de ensino apareciam não como espaços residuais em relação
concretos, os projetos mais ou menos utópicos de reforma
à sua produção s o c i a l , mas como espaços demarcados e
social ou de criação de u m a nova sociedade. A s s i m , por
regulados quanto à sua localização, extensão e destinação
exemplo, na Figura 2, pode-se apreciar a localização da creche
futura a u m ou outro tipo de ensino. Essa é uma tendência
e do conjunto escolar com teatro, prevista e levada a cabo no
em que tal questão - a da localização da escola - , não passava
"familistério" contruído para seus operários por u m i n d u s -
de u m aspecto de u m plano urbanístico determinado, a ser
t r i a l de Guisa - Juan Bautista Godín - , sob inspiração do
considerado j u n t o com outros espaços de uso público. Por
"falanstério" de Fourier, na França, no Segundo Império
isso, a O r d e m Real de 3 1 de março de 1923 - elaborada pelo
( 1 8 5 1 - 1 8 7 0 ) . Como i n d i c o u Leonardo Benévolo, de q u e m
r e c é m - c r i a d o Escritório T é c n i c o p a r a a Construção de
Escolas, que e s t a b e l e c i a novas instruções higiénicas e
pedagógicas - ainda que mantivesse o critério favorável à r>2
Sobre essa questão, em sua perspectiva histórica geral e em relação a um caso concreto,
ver o bom estudo de Josefina Gomez Mendoza e outros, Gliettos universitários. E l campus
de la Universidad Autónoma de Madrid. M a d r i d : Ediciones de la Universidad Autónoma
5 1
Jul ián Lopez y Candeal, Colección de disertaciones pedagógicas..., op. c i t . , p p . 3 3 9 - de M a d r i d , 1987. Além disso, para a análise de outro caso concreto, indico as páginas
3 4 0 , Mariano Carderera, Princípios de Educación y métodos de ensenanza, op. c i t . , que redigirei sobre a localização do campus da Universidade de Murcia, em Juan Monreal
p . 3 0 1 e Francisco Ballesteros Marquez, Pedagogia. Educación y didáctica pedagógica, (dir.), Libro blanco sobre la Universidad de Murcia, Secretariado de Publicaciones e Instituto
op. c i l . , p . 5 3 8 . de Ciências de la Educación, Universidad de Murcia, 1979, pp. 171-185.

84 85
IÍO ESPAÇO ESCOLAR K H A F.M.UI.A i.wivm u w a r n i •«•• «

procede essa referência, tais modelos de ordenação urbana


u m urbanismo preocupado exclusivamente com a rede viária,
constituíam a antítese da cidade l i b e r a l , ao deslocar o acento
os transportes, o p l a n e j a m e n t o dos quarteirões e c o m o
da liberdade i n d i v i d u a l para a organização coletiva: em suas
melhoramento das condições habitacionais f a m i l i a r e s . U m 50

palavras, "nascem do protesto contra as condições inaceitáveis


urbanismo em parte semelhante a esse, e em parte diferente,
da cidade existente e tratam de romper, pela p r i m e i r a vez,
muito diferente, seria aquele de E l futuro Madrid, obra do
seus v í n c u l o s r e c o r r e n d o à análise e à p r o g r a m a ç ã o
r a c i o n a l " . 0 mesmo autor nos oferece outros planos de
5 3
destacado j o r n a l i s t a e político progressista, v i n c u l a d o à

povoados operários (Saltaire, 1851) ou modelos de desenhos Instuição L i v r e de E n s i n o , A n g e l Fernandez de los R i o s ,

urbanos — o de u m tratado de urbanismo francês de 1 9 2 8 - publicada só u m ano depois, em 1 8 6 8 . Seu urbanismo, como 56

em que se d e l i m i t a m a localização e os espaços dos centros o de Ildefonso Cerda e A r t u r o Soria, preocupava-se com os
de e n s i n o primário e s e c u n d á r i o , n o p r i m e i r o caso, e aspectos a c i m a comentados. Mas possuía, como apontou
universitário, no segundo . 54 Bonet Correa, u m duplo caráter social e global que não se
observa na obra de Cerda . U m sinal desse caráter seria,
57

entre outros aspectos, a atenção que esse jornalista dá, em


seu projeto de reforma, aos locais e edifícios destinados para
fins associativos, culturais, científicos e educacionais, em
especial às salas de conferências e bibliotecas populares e às
escolas infantis, primárias, profissionais e de a d u l t o s . U m 58

outro sinal dessa ordenação urbana racional seria a proposta,


que é f e i t a no mesmo l i v r o , de remodelação da divisão
paroquial e estabelecimento, nas paróquias remanescentes,
de diversos serviços públicos, entre os quais i n c l u i as escolas
Figura 2. de e n s i n o e l e m e n t a r e escolas para a d u l t o s e salas de
Plano geral do " f a m i l i s - conferências . 39

tério" de Guisa.

N e m toda a ordenação urbana, no entanto, i m p l i c a v a 5 5


C E R D A , Ildefonso. Teoria general de la urbanización y aplicación de sus princípios
y directrices a la reforma y ensanche de Barcelona. M a d r i d : 1867, 2 t. (edición facsímile,
essa perspectiva. A leitura, por exemplo, da Teoria general de
Instituto de Estúdios Fiscales, M a d r i d : 1968, 3 v.).
la urbanización, do engenheiro de estradas Ildefonso Cerda, 5 6
F E R N A N D E Z D E LOS RÍOS, A n g e l . E l futuro Madrid, paseos mentales por la

e de sua aplicação a Barcelona, p u b l i c a d a em 1 8 6 7 , revela capital de Espana, tal cual es y tal cual debe dejarla transformada la revolución.
M a d r i d : 1868 (edición facsímil, Los Libros de la Frontera, Barcelona, 1 9 7 5 ) .
5 7
C O R R E A , A n t o n i o Bonet. " A n g e l Fernandez de los Rios hombre de la generación
BENÉVOLO, Leonardo. Diseno de la ciudad-5.
5 1
E l arte y la ciudad contemporânea. dei 6 8 " , i n A n g e l Fernandez de los Rios, E l futuro Madrid, 1 9 7 5 , op. c i l . , pp. X I I I -
México: Gustavo G i l i , 1 9 7 8 , p p . 2 9 - 3 4 . I V C (referências nas p p . X L I V - X L V I I I ) .
I b . , p p . 4 6 e 5 2 , respectivamente.
5 4 5 8
F E R N A N D E Z D E LOS RÍOS, Angel. Elfuturo Madrid, op. c i l . , pp. 9 9 - 1 0 0 , 1 3 3 e 227.
5 9
Ib., pp.73-85.

86
87
ANTONIO V IINAO I' II \ ( . D llll B B r A U U EiOLULtAn B U / l

A ideia de " i m p o r " , mediante o planejamento urbano, E D I F Í C I O S E CAMPOS E S C O L A R E S O U A


limitações à "propriedade individual" - entre elas, a determinação DIALÉTICA DO ABERTO E DO FECHADO
"completa de todas as zonas ou distritos que a cidade deva ter" e,
portanto, dos "espaços livres" e da destinação dos edifícios Figura 3.
Plano p a r c i a l do polí-
"segundo a zona em que se encontrem" - ainda se destacava, em
gono m i n e i r o " A r r a y -
1928, como uma das características de toda "cidade l i n e a r " . E 60
anes" de Linares. 0 grupo
na publicidade e propaganda que se fazia da Cidade Linear escolar - um edifício para
madrilenha, em 1911, entre as vantagens e serviços disponíveis meninos e o u t r o p a r a
meninas — situa-se na
incluía-se até u m título especial sobre as escolas, dois deles parte s u p e r i o r c e n t r a l
criados pela Sociedad de Cultura à qual pertencia a maioria de (Rodolfo GarcíaPablos,
seus vizinhos . 0 planejamento da localização dos edifícios
61 "Necessidad de establecer
una doctrina de urbanis-
escolares seria consequência, no século X X , tanto da introdução
mo escolar", Ministério
da escola seriada , como da política de construções escolares ,
62 63
de Educación y Ciência,
e, nas últimas décadas, das concentrações ou criação das comarcas Dirección G e n e r a l de
escolares e da legislação urbanística, aspecto em relação ao qual Ensenanza P r i m a r i a ,
Construcciones escolares.
a Figura 3 oferece u m exemplo de plano parcial levado a efeito a M a d r i d : 1960,p.l60).
partir de instâncias oficiais na Espanha, nos anos cinquenta . 61

... se a escola precisa de uma grande extensão de terreno é


porque não consta apenas da sala de aula, mas porque
La reintegración al campo y la ciudad lineal. Informe presenlado por l a Compartia
deve ter um campo anexo. Não apenas um jardim ou um
6 0

M a d r i l e n a de Urbanización, fundadora y eonslruclora de l a C i u d a d L i n e a l m a d r i l e n a ,


a l a información pública abierla por la Junta de Reintegración a l Campo de Barcelona.
horto, elemento interessantíssimo, seja para ensinar certas
Madrid: 1918, pp. 15-51. coisas, seja para educar a fantasia; nem mesmo um pátio,
61
Datos acerca de la Ciudad Lineal. Madrid: 1911, pp. 21-22. tanque de ar corrompido e imóvel.... O campo escolar é, ao
Esse seria o caso, por exemplo, da Murcia no início do século, com suas quatro escolas
mesmo tempo, tudo isso, mas infinitamente mais do que
6 2

localizadas quase no centro de cada um dos lados Norte, Sul, Leste e Oeste da cidade.
f,i
Ver, a título de exemplo, o " P l a general de distribució d'edificis escolars" aprovado tudo isso. Por mais que se reduzam as condições de uma
em 1917 pelo " A y u n t a m i e n t o " de Barcelona e descrito em A j u n t a m e n l de Barcelona, escola, por modestas que sejam suas exigências, jamais
Les construccions escolars de Barcelona. Barcelona: 1 9 2 1 , 2 ed., p p . 1 7 1 - 1 8 3 , com o
deve renunciar a esse elemento, tão importante, pelo menos,
a

plano anexo.
6 4
Sobre t a l legislação, suas lacunas e sua aplicação i m p e r f e i t a , durante a última como a própria sala de aula, e cuja necessidade é, ao mesmo
década dos anos 7 0 , justamente nos anos de desenvolvimento da l e i geral de educação, tempo, higiénica e pedagógica . 6 5

r e m e t o , a p a r t i r de u m a p e r s p e c t i v a g e r a l , a A n t o n i o V i n a o , " E l p l a n e a m i e n l o
urbaníslico-docente: u n análisis de sus necesidades y p r o b l e m a s " , i n Revista de r e a l i d a d e , ver Rodolfo García-Pablos, " N e c e s i d a d de establecer u n a d o c t r i n a de
Educación, n 2 6 4 , 1980, p p . 6 9 - 8 0 , e, como um caso paradigmático, a Juan Rosa
2

u r b a n i s m o escolar", e m M i n i s t r i o de Educación N a c i o n a l , Dirección G e n e r a l de


Galvez, Urbanismo y educación. E l proceso de implantación de la Educación General
Ensenanza P r i m a r i a , Construcciones escolares, M a d r i d : 1962, pp. 1 5 3 - 1 7 0 . A realidade,
Básica en Alcantarilla (1970-1985). Tesis doctoral, Facullad de Filosofia, Psicologia
infelizmente, guardaria m u i t o pouca relação com o que esse artigo propunha.
y Ciências de l a Educación, M u r c i a , 1 9 9 1 . Quanto ao período imediatamente a n t e - 6 5
G I N E R D E L O S RÍOS, Francisco "Campos escolares". I n : Obras completas, t. X I I ,
rior, e a p a r t i r de uma perspectiva legal ou mais de proposta do que de análise da
M a d r i d : Espasa Calpe, 1 9 3 3 , 2 ed., p p . 1 9 3 - 2 3 6 .
a

88 89
1 ) 0 ESPAÇO ESCOLAR E DA ESCOLA COMO L U G A R ! PROPOSTAS K QUESTÕES

Esse parágrafo de G i n e r de los R i o s , p u b l i c a d o em modelos arquitetônicos que r e s p o n d i a m tanto à ideia de


1 8 8 4 , j u n t o c o m outros de C o s s i o 66
ou das Notas sobre e n c e r r a m e n t o ou c l a u s u r a q u a n t o à ideia de s o l i d e z e
construcción escolar do M u s e u Pedagógico N a c i o n a l , de
ostentação.
1 9 1 1 , deve ser c o m p r e e n d i d o como u m a t e n t a t i v a de
No jogo ou relação entre zonas edificadas e não
a p r o x i m a r - s e , na prática, do i d e a l que para esses dois
edificadas, eram quase sempre as p r i m e i r a s , sobretudo a
pedagogos representava a frase de Rousseau que o próprio
fachada e o edifício p r i n c i p a i s , as que d e t e r m i n a v a m a
{^JMÍ/LO*- Cossio citava: " A melhor escola é a sombra de uma á r v o r e " . 67

disposição do conjunto. Francisco Ballesteros, por exemplo,


A m e l h o r escola estava ao ar l i v r e , na Natureza, não entre
aconselhava situar o edifício " à entrada do campo escolar,
as paredes de u m edifício. A c e i t a , entretanto, a necessidade
mas separado da r u a ou lugar de trânsito, por u m a zona que
desse último, o campo escolar significava a presença da
se pode destinar ao j a r d i m ou ao h o r t o " . Ele tratava, assim,
69

Natureza na instituição docente. Não apenas se deveria sair


de evitar ruídos, perigos e distrações. E m outras palavras,
para ela, para o exterior, como, ainda, incorporá-la. 0 campo
não encerrar mas, s i m , isolar. Essa c o n c e p ç ã o e desenho,
escolar, j u n t o com o museu e os objelos e os dados trazidos
q u e h o j e se a c e i t a c o m o u s u a l p a r a t o d o t i p o de
de fora, recolhidos em visitas e excursões, materializava t a l
estabelecimentos docentes, não f o i , todavia, h a b i t u a l no
incorporação.
passado. E m g e r a l , a a r q u i t e t u r a e s c o l a r c o m b i n o u a
Essa posição, que se observa também, por exemplo, clausura ou encerramento com a acentuada ostentação de
na pedagogia froebeliana dos jardins-de-infância , implicava 68
u m edifício sólido cujas paredes constituíam a fronteira com
a revalorização dos espaços não edificados e a necessidade o exterior ou que sè achava separado desse exterior por u m a
de prever sua distribuição segundo funções e usos: educação zona mais ou menos a m p l a do campo escolar e u m muro ou
física, jogos, práticas de jardinagem e agricultura, diversão grade que assinalava os limites do espaço reservado. Vejamos
ou recreio, zonas de transição, proteção e acesso — puxados algumas p o s s i b i l i d a d e s :
ou pátios cobertos —, assim como sua ordenação ou disposição
a) Grande edifício no meio urbano, com a fachada
em relação ao edifício p r i n c i p a l , o exterior e outras zonas
rente à r u a , como os colégios R o l l i n e Clermont — em 1 8 4 9 ,
edificadas. Mas, até então, isso não havia sido h a b i t u a l , nem
L i c e u L o u i s - l e - G r a n d , de Paris — (Figuras 4 e 5 ) : pálios
o seria daí para diante. E m geral, por razões económicas ou
i n t e r n o s fechados e invisíveis a p a r t i r do exterior, como
por escassez de espaços disponíveis, mas também por razões
claustros; fachadas imponentes, majestosas, sólidas, estrutura
de controle e vigilância ou razões decorrentes do recurso a
simétrica com grandes alas retilíneas. O u , em nosso país, as
Escolas Pias de Zaragoza, Mataró e San Fernando de M a d r i d ,
'"' COSSIO, Manuel B. El maestro, la escuela y el material de ensenanza, Madrid: La ou o Colégio Salesiano de Utrera (Figuras 6, 7, 8 e 9 ) .
Lectura, s.d., (conferência dada em 1 9 0 5 , em B i l b a o ) , p p . 3 0 - 3 1
6 T
I b . , p . 28.
A B A I ) , Purificación Lahoz. El modelo froebeliano
6 8
de espacio-escuela. Su introducción m
M A R Q U E Z , Francisco Ballesteros. Pedagogia. Educación y didáctica pedagógica,
en Espana, op. c i l .
op. c i l - , p. 5 3 4 .

90
91
D O ESPAÇO ESCOLAR E DA ESCOLA COMO L U G A R ! PROPOSTAS E QUESTÕES
iuniu v INAO I' li \<;o

b) Edifícios também majestosos e sólidos, separados


do exterior por u m m u r o ou grade e u m m a i o r ou menos
espaço de terreno: Colégio Jesuíta de la Fléche (na França),
a U n i v e r s i d a d e de Deusto, o Colégio de J e s u s - M a r i a de
Figura 5.
San Gervásio, as Escolas Pias de Sarriá, o C o l é g i o de Colégio Clermont em 1849.
Nuestra Senora de l a Bonanova dos H e r m a n o s das Escolas Liceu Louis-le-Grand
Cristãs de Barcelona ou o I n s t i t u t o de Segundo G r a u de ( P a r i s ) . L i t o g r a f i a de
Benoist que representa seu
V a l l a d o l i d , construído entre 1903 e 1 9 0 7 (Figuras 1 0 , 1 1 ,
estado ao redor de 1860
1 2 , 1 3 , 14 e 1 5 ) . (Aléxis Léaud e Emile Glay,
UÉcole Primaire en
c) Edifícios com a fachada rente à rua, com dimensões France. La Cité Française.
e de arquitelura mais modestas, mas acessíveis a partir de Paris: 1934, T. I , p. 105).
uma r u a p e r p e n d i c u l a r que permite que sejam totalmente
visíveis: as Escolas Pias de Moya, com sua igreja anexa — ou
anexas à igreja — (Figura 16).

d) Edifícios acessíveis a partir de u m pátio interno


ao q u a l se tem acesso através de uma zona de transição —
nesse caso, u m puxado — que marca os limites com o exte-
rior: Instituto de Segundo Grau de B i l b a o (Figura 17).
j1 I f I í ifí
Figura 6.
Escuelas Pias
de Z a r a g o z a .
111 I 111111 Cartão pos tal
Figura 4. (cerca de 1940).
Colégio Rollin (Paris).

Figura 7.
Escuelas Pias de Mataró.
(Ramon Salas Oliveros,
Mataró I UEnsenyament.
Mataró:Caixa d'Estalvis i
Mont de Pietat de Mataró,
1964).

93
92
IJO ESPAÇO ESCOLAR E DA E S C O L A C O M O LUGAR' PROPOSTA» I IjUBSTOES
rui • u n i u V I IN A U I' l( AI.< I

Figura 11.
Universidad Jesuita de
Deusto. Cartão Postal
(cerca de 1900).

Figura 12.
Colégio de Jesús-
María de San
Gervásio (Bar-
celona). Cartão
Postal.

1'Etli.

Figura 10.
Colégio J e s u i t a de la
Feche. Fragmento de um
Figura 13.
desenho colorido de 1695
Escuelas Pias de
(Aléxis Léaud e E m i l e
Sarriá (Barcelona).
Glay, UEcole Primaire en
Cartão Postal.
France, op. cit., p.102).

94 95
DO ESPAÇO ESCOLAR E DA ESCOLA COMO L U G A R : PROPOSTAS E QUESTÕES

Figura 14.
Colégio de Nuestra Senora
de la B o n a n o v a de los
Figura 1 7.
Hermanos de las Escuelas
I n s t i t u t o de E n s i n o
cristianas (Barcelona).
Secundário de B i l b a o .
Cartão Postal.
Cartão postal.

e) Edifícios nos quais alguma de suas fachadas pode


dar diretamente ao exterior, mas aos quais se tem acesso
através de uma ampla zona ajardinada e que, além disso,
dispõem, de ambos os lados, de caminhos estreitos e laterais
Figura 15. que acolhem e fazem dar voltas àquele que tenta entrar em
Instituto tais edifícios: Grupo Escolar Pere V i l a i Codina, de Barcelona
de Segunda
(Figura 18).
Ensenanza de
Valladolid.
Nesse jogo de relações entre o interno e o externo, o
Cartão Postal
(cerca de 1904). fechado e o aberto, dois s e r i a m , em síntese, os modelos
s i m p l i f i c a d o s : U m , em forma de U , no q u a l p r e d o m i n a a
f a c h a d a , o s e n t i d o do espetáculo e a ostentação. Busca
impressionar aquele que o contempla e oculta o seu interior.
U m interior no q u a l se penetra sem transição, diretamente a
partir do exterior. Outro, em forma de U invertido, antítese do
anterior, ao q u a l se chega através de u m pátio ou j a r d i m e
que ao mesmo tempo acolhe e protege o visitante, recebendo-o
entre suas duas asas como se fossem braços.

O d u p l o jogo dialético dentro-fora e a b e r t u r a -


Figura 16. fechamento não t e r m i n a aí. Acha-se sempre presente na
Escolas Pias de Moya. arquitetura e na v i d a escolares. Por exemplo, na relação e n -
Cartão postal.
tre os diferentes espaços edificados. Como conectar e, ao

96 97
n u f.M',\(,.u r.M .1) I. \ II !•; D A E S C O L A COMO 1.1 l i t l l : PROPOSTAS K o i KSTOI

mesmo tempo, diferenciar os edifícios destinados ao ensino percebidos consciente ou i n c o n s c i e n t e m e n t e no mesmo.


pré-escolar e primário era — já no século X I X — e continua De todas essas questões, d e i x a r e i de lado as duas primeiras
sendo uma questão nunca fácil de resolver . Mas também se 70
e t r a t a r e i , não em detalhe mas c o n j u n t a m e n t e , as outras
pode observar, por exemplo, na disposição dos diferentes três . 72

espaços de u m mesmo edifício — questão que trato no parágrafo


U m dos textos que serve de epígrafe a este capítulo
seguinte. De u m ou de outro modo, a existência ou não de
procede de u m f i l m e : A casa de chá do luar de agosto. Trata-
zonas de transição — áreas c o m pórticos, pátios cobertos,
se, pois, de u m a ficção. Mas se trata de uma ficção que
corredores ao ar l i v r e — marca a diferença entre alguns
poderia ter sido realidade. Se não é certa, está bem pensada:
desenhos rígidos ou bruscos e outros, flexíveis e suaves. A
n a d a m e l h o r p a r a q u e as crianças e moradores de u m
sala de visitas — da qual as Figuras 19, 2 0 e 2 1 oferecem
povoado de u m a pequena i l h a do Pacífico recordassem e
diversas modalidades —, como zona de transição, constituía o
aprendessem o q u e era a democracia que a escola a ser
nexo c o m o exterior. Por isso, nos folhetos e álbuns de
construída tivesse a forma pentagonal. Especialmente se era
fotografias, ocupava sempre o p r i m e i r o lugar, depois d a
o exército dos Estados Unidos que i a se encarregar de sua
fachada ou da entrada p r i n c i p a l . Como dizia Joaquin Belda,
construção. A ideia pode parecer u m tanto tosca; mas já
em relação ao colégio de jesuítas de Orihuela, em que havia
não parece tanto assim quando, n u m a revista de a r q u i t e t u r a
cursado o bacharelado,
de 1 9 4 1 , o a r q u i t e t o do jardim-de-infância da Sagrada
0 salão de visitas era para nós, os colegiais, o lugar mais Família de Tenerife (Figura 22) escrevia, em relação a esse
simpático da casa: ele era, para o aluno, o meio de se edifício, o seguinte:
colocar em comunicação com a família e com a rua, e não
descíamos uma vez a ele, nos dias marcados para visitas,
que não fosse para receber uma alegria ou passar um ' 2
Quanto aos dois primeiros aspectos, sobretudo com relação ao debate acerca da
momento de folga . 71
capacidade e dimensões ideais dos estabelecimentos docentes, i n d i c o ao leitor as
páginas 42 a 46, entre outras, de meu livro Innovación pedagógica y racionalidad
Quanto ao edifício, por f i m , várias são as questões a científica. La escuda graduada pública en Espana (1898-1936). M a d r i d : A k a l , 1990.
Não é demais lembrar, todavia, que os edifícios escolares são edifícios construídos
analisar: a acomodação aos terrenos, suas dimensões, o
por adultos para, em muitos casos, crianças ou adolescentes. Se alguém já passou
desenho ou forma básica, o custo e os materiais a empregar e pela experiência de voltar, depois de muitos anos, à escola ou ao colégio em q u e
os elementos simbólicos e r e f e r e n c i a i s i n c o r p o r a d o s o u estudou, ou à casa onde passou a sua infância, terá a sensação — um tanto opressiva
- de que tudo está mais reduzido e estreito do que se recordava. A o contrário, alguém
pode imaginar a sensação de perda, temor ou solidão que, numa criança, podem
produzir os edifícios de grandes dimensões, os longos corredores ou os altos tetos. Foi
" Giner de los Rios oplava, em 1884, pela localização de cada unidade escolar e m
precisamente essa a sensação de que se lançou mão no filme De tal paio tal astilla,
pavilhões separados - quando permitia a extensão do terreno — e, quanto aos locais
uma das melhores películas de Sian Laurel e O l i v e r Hardy. Nela, ambos, vestidos de
p a i a as crianças p e q u e n a s , r e c o n h e c i a a n e c e s s i d a d e de " s e u i s o l a m e n t o e
meninos, tinham de se locomover numa casa com u m mobiliário e objetos de dimensões
independência", mas também de sua comunicação fácil com os demais ( G I N E R D E
descomunais. Certamente uma casa construída e m o b i l i a d a com tal propósito. Só
LOS Hl( )S, Francisco. "Grupos escolares". I n : Obras completas. M a d r i d : Espasa Calpe,
assim se pôde mostrar ao espectador como dois adultos eram reduzidos e m tamanho,
1933, l . X I I , pp. 153-154).
até se assemelharem a crianças, mediante o simples recurso de aumentar as dimensões
B E L D A , Joaquin. Las bodas de oro de mi colégio. M a d r i d : Hispânia, 1923, p. 52.
das dependências e dos objetos que os rodeavam.

9 8 99
"Sobressai no centro a capela, a cuja planta de cruz da u b i q u i d a d e daquela realidade e daquele âmbito. Uma
latina corresponde o exterior com uma nave, destacada do realidade e u m âmbito - nesse caso, o religioso-católico —
resto tanto por sua altura quanto pela animada complicação que devia ser o eixo e impregnar toda a vida escolar. E r a
de sua silhueta, combinada com a torre em sentido barroco, isso o que se queria i n d i c a r e era isso o que se devia perceber
que contrasta com a alegre s i m p l i c i d a d e do r e s t o . " 73
e combinar, além disso, com as exigências f u n c i o n a i s 7 4
.

A importância do religioso-católico destaca-se no Como expressou M a n u e l Revuelta, em relação ao edifício

desenho adotado. A localização da capela no centro também e s t i l i s t i c a m e n t e e c l é t i c o d a U n i v e r s i d a d e de D e u s t o ,

pode ser vista em outro edifício escolar da época: o I n s t i t u t o construído entre 1883 e 1 8 8 8 ,

de ensino médio de L o r c a , com dois braços simétricos que Nas formas arquiletônicas e decorativas... adivinha-se
partem do espaço central, em forma de cruz latina, que ocupa facilmente um conteúdo espiritual e pedagógico. E um
a capela - até o f i n a l dos anos 7 0 convertida em anfiteatro e edifício monumental e funcional, simbólico e pragmático,
salão de atos. A localização axial da capela, a planta em que transpira mensagem a, ao mesmo tempo, permite
c r u z l a t i n a e o m a i o r t a m a n h o da nave c e n t r a l ou do desenvolver comodamente as funções da vida diária. Sua
campanário e da igreja são elementos que também se pode magnificência parece refletir a pujança da Companhia,
que volta depois das perseguições . 75

encontrar em alguns colégios de ordens ou congregações


religiosas, construídos nos anos finais do século X I X e nas
primeiras décadas do século X X , j u n t o com o recurso de
pátios claustrais e formas neogóticas ou arquitelônicas de 7 4
As oficinas dos centros de formação profissional costumam oferecer uma situação
em p a r t e s e m e l h a n t e e em parte d i f e r e n t e . Sua a r q u i t e t u r a l e m b r a , i m i t a , u m
edifícios religiosos que p r o d u z i a m , no seu interior, efeitos
d e t e r m i n a d o desenho f a b r i l , mas c m geral se situam em espaços não visíveis do
tão curiosos como o que se vê na Figura 2 3 . Tal estilo e exterior ou como apêndices do edifício p r i n c i p a l onde se acham as salas de aula. A
percepção dos elementos proeminentes, pelos alunos, pode ser detectada quando se
f o r m a s e r a m , ao m e s m o t e m p o , r e f e r ê n c i a e s í m b o l o .
pede a eles que desenhem seu colégio, ou aquilo que consideram mais importante
Referência, por m i m e s e , a u m a r e a l i d a d e e âmbito não nele. N u m trabalho realizado no curso de 1 9 8 6 - 1 9 8 7 , por u m aluno de quinto semestre

escolares; e símbolo, por representação, da proeminência e de Pedagogia, da U n i v e r s i d a d e de M u r c i a , Juan Marlínez-Carrillo, sobre o edifício
do colégio das Escolas Pias de Albacete, recorreu-se a este procedimento: os elementos
religiosos - campanário, igreja, capela, crucifixo - costumavam aparecer com mais
7 !
R E G A L A D O , José E n r i q u e Marrero. "Jardín I n f a n l i l de la Sagrada Família en assiduidade e se destacavam, por seu tamanho, nos desenhos realizados por muitos
Tenerife". I n : Revista Nacional de Arquitectura, a . l , n" 2, 1 9 4 1 , s.p. Essa situação axial dos alunos de educação geral básica.
ou destacada das capelas, produto típico de uma mentalidade religiosa de índole pública, 7 5
G O N Z A L E Z , Manuel Revuelta S. J. La Companía de Jesus en la Espana contemporânea.
externa, de ostentação e imposição, contrasta com aquela que esteve em voga em muitos Tomo II: Expansión en tiempos recios (1884-1906). Sal Terrae, Mesajero y Universidad
colégios e instituições, depois do Concílio Vaticano I I . A nova mentalidade religiosa Pontifícia Comillas, 1 9 9 1 , p. 4 1 2 . Tanto nesse quanto no primeiro tomo, publicado em
intimista e privada, correspondiam lugares quase similares a outros por sua aparência 1 9 8 4 , pode-se encontrar referências mais ou menos extensas às características, ao
externa, sóbrios e de decoração simples ou austera. Não menos significativa seria a estilo e ao desenho dos edifícios adaptados ou construídos com finalidades docentes,
decisão da comissão criada em 1869 para escolher os projelos de escolas a serem pela Companhia de Jesus. Vejamos um exemplo (tomo I , p. 8 3 6 ) , em relação ao edifício
construídas, em favor daqueles em que a biblioteca se constituía no eixo ou centro do do colégio de Chamarlín, construído entre 1882 e 1886 e hoje desaparecido: dispunha-
edifício - veja-se, na seção de documentação e informação da revista História de la se em forma de H , com dois longos pavilhões paralelos, unidos no centro pela capela.
Educación. Salamanca: n" 12-13, 1993-4, a compilação de textos sobre construções e U m estudo da arquitetura e espaços escolares de tais colégios, assim como os de outras
edifícios escolares no período democrático (1868-1874). ordens ou congregações religiosas, está ainda para ser feito.

100 101
Figura 21.
Real Colégio de San A n -
tonio Abad de M a d r i d -
escolápios —. Salão de
Escola "Pere Vila i Codina" (Barcelona). Em Ajuntament de Barcelona, Les visitas. Folheto de propa-
construccions escolars de Barcelona, 2 ed., Barcelona, 1921, pp. 192-193.
a
ganda (1914).

f Figura 22.
• C Jardín Infantil
* 4 de la Sagrada
IA
Família em
Tenerife (1941).

Figura 23.
Colégio M a r i s t a de
Nuestra Senora dei
Pilar ( M a d r i d ) . L a -
vabos. Cartão Postal.

102 103
nn iiinm v IIMII r IIAI;II

deveriam ser monumentais ou pretensiosos. Todavia, em 1934,


A construção dos p r i m e i r o s grupos escolares ou
Ballesteros e Sainz continuavam queixando-se "dos edifícios
escolas seriadas, na Espanha das primeiras décadas do século
suntuosos, de grandes proporções e muito caros", mas não
X X , realizou-se a partir de pressupostos e condições muito
adaptados "às necessidades do e n s i n o " :
diferentes. Quanto ao estilo, passou-se muito rapidamente
Assim, enquanto a educação atual funda-se no contato
de u m modernismo inicial — algo mais compacto do que aquele
da criança com o meio natural, os edifícios escolares
que predominava, por exemplo, nas escolas construídas em
encerram-na num grande palácio sem comunicação com
Bruxelas, onde se recorria mais ao ferro do que à pedra e ao
o exterior; quando o ensino tem como instrumento mais
tijolo — ao neoclassicismo, ao regionalismo eclético e, já nos
poderoso a atividade manual, nos grupos escolares só se
anos 3 0 , ao r a c i o n a l i s m o . As composições e ornamentação
76

constroem os locais precisos para as aulas em que se deve


neogóticas ou neomudéjar, uma reminiscência do século X I X , realizar um trabalho intelectualista; quando toda a obra
foram excepcionais e isoladas. A razão disso é óbvia. E m educativa tem de se basear na colaboração da escola e
p r i m e i r o lugar, estava o preço do solo e as limitações que da família, as construções mais recentes carecem de
i m p u n h a m os terrenos que se p o d i a a d q u i r i r . Depois, as salões amplos onde possam se reunir os pais dos alunos . 79

q u e s t õ e s tributárias ou o r ç a m e n t á r i a s em r e l a ç ã o às
necessidades existentes . E, em terceiro lugar, a convicção,
77 Fosse porque da necessidade se fizesse virtude, fosse
r e i t e r a d a m e n t e r e p e t i d a , de que os e d i f í c i o s escolares por "profundos motivos educacionais", o fato é que ambos os
d e v e r i a m ser e c o n ó m i c o s e s i m p l e s , modestos, sólidos e inspetores aconselhavam que a criança se desenvolvesse
elegantes mas sem luxos, ostentações ou adornos inúteis . 78
" n u m ambiente de austeridade" que nela não despertasse
Que, isso s i m , não se deveria poupar os fundos para c u m p r i r u m "sentimento de orgulho ou v a i d a d e " , nem estabelecesse
p r e s c r i ç õ e s higiénicas e p e d a g ó g i c a s , ou as exigências
técnicas quanto à solidez e à d u r a b i l i d a d e , mas que não
7
" A s s i m é i n d i c a d o , por exemplo, nas Notas sobre construcción escolar, elaboradas
pelo Museu Pedagógico N a c i o n a l , em 1 9 1 1 , no Informe que a Subcomissão de Ensino
16
Sobre essa evolução, ver, a p a r t i r de uma perspectiva g e r a l , o capítulo sobre r e d i g i u em 1 9 0 2 , para a Prefeitura de M a d r i d - citado por M a n u e l Fernandez e
arquitetura de Carlos Sambricio e Rivera-Echegaray, incluído em Carlos Sambricio, Fernandez N a v a m u e l , Ciências de la Educación, op. c i l . , t . I I I , pp. 5 0 - 5 6 (referência
Francisco Portela e Federico Torralba, Historia dei arte hispânico. VI. E l siglo XX, na p. 52) - no Regulamento do concurso de projelos de edifícios escolares, elaborado
M a d r i d : A l h a m b r a , 1 9 8 0 , p p . 1 - 4 7 . Quanto à a r q u i t e t u r a escolar, o t r a b a l h o de em 1 9 1 0 , pela Comissão de Reforma, Tesouro e Obras extraordinárias da Prefeilura
Purificación Lahoz, " L o s modelos escolares de la oficina técnica para la conslrucción de Barcelona (Prefeilura de Barcelona, Les construccions escolars de Barcelona, op.
de escuelas", na revista História de la Educación. Salamanca: n 1 2 - 1 3 , 1 9 9 3 - 4 , pp.
Q
C i l . , p p . 1 3 8 - 1 4 1 , referência na p.138) e em R u f i n o Blanco y Sanchez, Organización
1 2 1 - 1 4 8 . A referência a Bruxelas deriva da memória de uma exposição sobre edifícios escolar. Prirnera parle. M a d r i d : H e r n a n d o , 1 9 2 7 , p. 2 4 .
escolares modernistas construídos nessa cidade, no início do século X X , que a autora B A L L E S T E R O S , A n l o n i o e S A I N Z , Fernando "Organización escolar", Publicaciones
leve oportunidade de visitar há muitos anos. de la Revista de Pedagogia. M a d r i d : 1 9 3 4 , p. 3 8 . 0 livro de Leopoldo Casero Sanchez,
7
" S o l i e i t a - s e ao A r q u i t e l o M u n i c i p a l que faça esse p r o j e t o de m a n e i r a m u i t o La Escuela nacional en Barcelona. E l problema de las construcciones escolares.
económica, para que possa servir para construir edifícios em diferentes pontos da Barcelona: 1 9 2 4 , c o n s l i l u i , por exemplo, u m a clara crítica à m o n u m e n t a l i d a d e e
c i d a d e " dizia a Prefeitura de Valladolid a seu arquitelo m u n i c i p a l , ao encomendar- elevado c u s l o dos p r i m e i r o s edifícios escolares conslruídos pela Prefeitura de
l h e , em 1 9 2 6 , u m modelo de edifício escolar ( C i l a d o por M a r i a Antónia V i r g i l i Barcelona, em relação às necessidades existentes e ao plano de construções escolares
B l a n q u e l , Desarrollo urbanísticoy arquitetónico de Valladolid (1851-1936). Valladolid: aprovado pela referida Prefeitura, em 1917.
A y u n l a m i n e l o de Valladolid, 1 9 7 9 , p. 2 7 7 ) .

105
104
•/ o mrAiju bOViULAn u i"\ bauu&jft l u m u UUUAIV. r n u r u o i A B •'• u u i i D i u a o

" u m contraste violento entre o meio familiar e o escolar", E m primeiro lugar, pela sua própria existência ou inexistência.
entre o exterior e o interior . Essa última advertência referia-
80
E m segundo lugar, por sua localização no edifício e sua
se, obviamente, às escolas primárias públicas e aos meninos proximidade ou afastamento em relação a outros espaços. Mas
e às meninas das classes populares que a elas a c u d i a m . A a disposição geral revela a ordem do conjunto, algo que a
advertência anterior poderia referir-se à generalidade dos distribuição parcelada não permite ver.
alunos e alunas. Mas, nesse ponto, mais realista e prático era
Quanto à referida disposição, parece claro o
o que Mariano Cardedera havia dito, muitos anos antes:
predomínio geral do retilíneo sobre o redondo ou curvilíneo,
Na escola tudo deve ser modesto. Só nos povoados ricos assim como dos retângulos e quadrados sobre os círculos,
e nos estabelecimentos p a r t i c u l a r e s , pagos espirais ou elipses . U m a p r i m e i r a razão para isso, também
82

espontaneamente pelas famílias e sem custo algum para óbvia, é que tais d i s p o s i ç õ e s , as adotadas, favorecem a
as verbas públicas, pode-se exagerar as comodidades e a
v i s i b i l i d a d e e, portanto, o controle e a vigilância. São mais
ornamentação . 81

lineares, mais ordenadas ou claras. No entanto, é curioso que


quando, nos princípios do século X X , na Espanha d e b a t i a m -
DISPOSIÇÃO E DISTRIBUIÇÃO INTERNA DOS se as características arquitetônicas dos edifícios das novas
EDIFÍCIOS ESCOLARES escolas seriadas, fosse d e f e n d i d o — por alguns dos que
promoviam essa modalidade de organização escolar —, como
Com a passagem da escola/sala de aula para a escola/ se sabe, o sistema panóptico ou radial proposto por Bentham,
colégio, a disposição e distribuição interna dos espaços nos u m século antes, para as construções prisionais e amplamente
edifícios escolares lorna-se u m a questão cada vez mais utilizado para tais f i n s . A rotunda central, com superfícies
83

importante. Reflete não apenas que funções ou atividades envidraçadas nas paredes, permitia ver o que acontecia no
são consideradas relevantes até o ponto de que se deva corredor central e nas entradas e saídas das salas de aula.
reservar, a elas, u m lugar próprio, como, a i n d a , o p a p e l Como dizia Francisco Ballesteros, que também se inclinava a
desempenhado por cada uma delas e suas relações entre s i , favor dessa d i s p o s i ç ã o , a " o r d e m r a d i a l ou p a n ó p t i c o "
i n c l u i n d o entre esses lugares, certamente, as salas de aula.
Além disso, disposição e distribuição complementam-se. Essa " Praticamente a totalidade dos desenhos que constam em Pasquale Carbonara,
2
Edifici
última permite reconhecer, na realidade ou a partir de u m per Vistruzione. Scuole materne, elementari, medie universitarie. Milano: Antonio
V i l l a r d i , 1 9 4 7 , oferece um predomínio total das l i n h a s relas. Sobre os diferentes
plano, o valor ou papel atribuído, por exemplo, aos espaços tipos de disposições, a p a r l i r de dois modelos gerais - o linear e o concentrado ou
de encontro, a moradia do mestre ou professor, o gabinete da compaclo - e suas variações, ver Luis Vasquez de Castro, " T i p o s de escuelas y escuelas
l i p o " , en Ministério de E d u c a c i ó n y Ciência, Dirección G e n e r a l de Ensenanza
d i r e ç ã o , o ginásio, a sala dos a l u n o s ou os b a n h e i r o s .
P r i m a r i a , Construcciones escolares, op. c i t . , p p . 2 1 9 - 2 2 9 . Trata-se da m e l h o r e mais
completa síntese que eu conheço sobre o assunto.
8 3
Sobre essa questão, i n d i c o o meu trabalho Innovación pedagógica y racionalidad
científica..., op. c i t . , p p . 3 1 - 3 2 e 139, em que apresento a proposta do edifício i d e a l ,
8 0
B A L L E S T E R O S , A . e S A I N Z , E Organización escolar, op. c i l . , p. 4 0 .
efeluada por R u f i n o Blanco, e a intermediária, que ele mesmo apresenta, na q u a l o
C A R D E D E R A , M . Princípios de educación y métodos de ensenanza, op. c i t . , p. 3 0 0 .
semicírculo ou r o t u n d a central é substituído por uma sala de aula retangular.

106 107
IIO ESPAÇO ESCOLAR E KA E S C O L A COMO LUGAR! PROPOSTAS K 01 KSTOES

facilitava " a u n i d a d e na direção e v i g i l â n c i a " . A q u i , a 84


aparecem na Figura 2 5 , que j u n t a os tipos fundamentais de
palavra chave era " u n i d a d e " . U m a u n i d a d e que se disposição geral nas escolas suíças do início do século; e
materializava no diretor, cujo gabinete se situava no espaço exemplos do último, com ligeiras adaptações, na Figura 2 6 ,
central ou de comunicação entre as quatro salas de aula do que reproduz a planta baixa do colégio das Escolas Pias de
m o d e l o que ele p r o p u n h a ( F i g u r a 2 4 ) . Tal u n i d a d e era Albacete. Outros modelos retilíneos, em forma quadrangular,
consequência dos primeiros "princípios característicos do foram menos comuns. São u t i l i z a d o s , entre outros casos,
panóptico", tal como haviam sido descritos por Bentham para quando se pretende deixar u m espaço central como pátio
os cárceres: a "presença universal e constante do governador coberto ou j a r d i m . A eles se aproximam, por exemplo, a escola-
do e s t a b e l e c i m e n t o " e " a c o n v i c ç ã o " de todos os seus modelo de jardim-de-infância de M a d r i d , ou alguns dos 8 7

membros de que " v i v e m e trabalham incessantemente sob a edifícios escolares construídos na Segunda República. M u i t o
inspeção perfeita de u m homem interessado em toda a sua mais incomuns e recentes são as construções curvilíneas,
c o n d u t a " . Só que no caso da escola seriada não h a v i a
83
redondas, elípticas ou com ondulações. Desse último tipo
carcereiros e encarcerados, mas sim diretores e professores. seria, por exemplo, aquele que se reproduz na Figura 2 7 : u m
E esses tendiam a realizar sua tarefa no espaço - invisível, a grupo escolar para 2 0 0 0 alunos, projetado pela Sociedade
partir do exterior - da sala de aula. E m coordenação e sob Geral de Edificação Urbana S. A . , dentro de u m plano geral
u m a d e t e r m i n a d a d i r e ç ã o , mas de m o d o a u t ó n o m o e de construção de escolas elaborado em 1932 para Valencia,
independente. Por isso, não é estranho que, como disse Rufino que ignoro se chegou a se realizar. E muito mais raras ainda
Blanco em 1 9 2 7 , o sistema panóptico não fosse aceito pelos são as escolas ou colégios fracionados em pequenos módulos
professores que haviam trabalhado em escolas construídas com u m ou dois espaços isolados entre si, situados n u m espaço
segundo t a l s i s t e m a . A q u i , a ideia do todo poderoso e
86
mais amplo, em geral ajardinado, e conectados por caminhos
onipresente vigilante central era inviável. Só teria aplicação ou pérgolas, t a l como está na Figura 2 8 . Como mostrou 8 8

na sala de aula de disposição semicircular ou com estrados Georges M e s m i n , os corredores têm de ser retos e não curvos,
para classes numerosas. Somente nesse caso era necessário pois em tal caso não se poderia vigiar. Essa é a razão funcional
ver com clareza e também, não esqueçamos, ser visto. dessa disposição . 89

Por isso, a disposição usual seria a linear simples ou


semi-retangular, em forma de L , de U e de U invertido (com
ou sem, em ambos os casos, u m braço central mais curto que 8 7
R e p r o d u z i d o e m A B A D , P.L. E l modelo froebeliano de espacio-escuela. Su
introducción en Espana, op. c i t . , p.128 e, com mais detalhes, em G A R C I A , P. A . ,
os laterais) ou T, também invertido: exemplos dos primeiros
Manual teórico-práctico de educación de párvulos según el método de los jardines de la
infância de E Frôebel. M a d r i d : H e r n a n d o , 2 ed., reformada e aumentada, 1 8 8 3 , pp.
a

2 9 8 - 3 0 0 e lâmina 3 3 , anexa.
M A R Q U E Z , H B. Pedagogia. Educación y didáctica pedagógica, op. c i t . , p.547. 8 8
Seria desse tipo, na Espanha, o centro piloto de educação geral básica construído no
B E N T H A M , J. E l panóptico, op. c i t . , p.75.
j a r d i m de E l Palmeral de Elche, nos anos setenta. Mas, como se pode observar, esse
B L A N C O Y S A N C H E Z , Rufino. Organización escolar. Primeraparte, op. c i l . , p. 5 2 .
não era u m centro normal, e s i m experimental. E só como experiência podia ser admitido.
8 9
M E S M I N , G. Uenfant, Varchitecture, et Vespace, op. c i l . , p. 117.

108
109
U n ESPAÇO ESCOLAR E l>\ ESCOLA I.OIHO I.II.MI: flturuSTAB i i.n I i rui

U m aspecto intermediário entre a disposição ou ordem A distribuição interna dos espaços, usos e funções requer
geral e a distribuição de cada espaço e atividade específica é a uma análise geral e permite, por sua vez, análises específicas de
existência de uma ou várias plantas e, nesse último caso, a cada u m dos mesmos. Como tendências gerais pode-se indicar
distribuição das diferentes atividades entre elas. As vezes, a a fragmentação e a diferenciação - u m espaço para cada
partir de razões funcionais óbvias — as salas de aula de crianças atividade - , o incremento dos espaços exigidos e a crescente
pequenas costumam localizar-se no térreo — e outras, de regulamentação e normalização da arquitetura e dos edifícios
considerações interiorizadas acerca do caráter de tais atividades. escolares em torno de alguns t i p o s , critérios e módulos
U m exemplo, entre outros possíveis, seria o do colégio das Escolas estabelecidos. Analisar esse processo, em sua evolução, aplicação
Pias de Albacete, cujo edifício foi construído em 1919 e ampliado e limitações, distinguindo entre a teoria pedagógica, a legalidade
em 1 9 5 7 . Na planta baixa (Figura 26), situam-se os serviços
90
e a realidade, é u m trabalho a ser realizado. Também parece
administrativos e de direção, o ginásio, a sala de reuniões e as necessária uma tipologia, em cada época e lugar, dos modelos
salas de aula da pré-escola e psicomotricidade. No primeiro propostos, dos aprovados e dos efetivamente construídos, assim
andar acham-se a maioria das salas de aula, a biblioteca e os como de suas modificações e usos posteriores . 91

laboratórios. E, no segundo andar, a residência da comunidade


religiosa, a capela, uma sala para atividades religiosas, u m antigo
dormitório de internos e três salas de aula. Essa última seria a
• UM
•TH í
zona mais tranquila, a menos frequentada e, por sua vez, a mais
Ecok de Si-Jein, Gcníve
Fifi. 3
Ecole de Pully, Vaud
r
isolada do solo. E isso n u m duplo sentido: físico e mental.

Esquema de un PLANO paraEscuela Graduada,


por el orden panóptico
H l
JLI JJ I
ÍZQÍI... •el sífiiHuni iSy^fBi ssisSti

Figura 25. F» S
Kcole Mliruhildcr.suasse, /uru • Horschsch. Sl-G«tl
Tipos de planos a r q u i -
I j - ——
tetônicos fundamentais de
P '{3 jjm 5^
G
escolas suíças ( H e n r y
Baudin), Les nouvelles con-
structions scolaires en
r- -L-- •
1 Suisse: Genève: 1917, p. 20). Ktuft du Lciten, Ztirrch Ecolv HeiliKbeig. Wintenhur, Zurich

í i

LA M :
W SMC NO u„ |

Figura 24.
Plano arquitetônico proposto para uma
escola g r a d u a d a , segundo a lógica 9 0
Tanto essa como outras referências a esse colégio procedem do trabalho de Juan
panóptica, por Francisco Ballesteros Marlínez-Carrillo, anteriormente citado.
* i § M a r q u e z , Pedagogia, Educación y 9 1
E m relação à Espanha, o artigo de Purificación Lahoz A b a d , citado anteriormente,
„7.T„ i - J JLLU Didáctica, op. cit., p. 548. mostra as p o s s i b i l i d a d e s desse tipo de estudos. Além disso, sobre a progressiva

110 111
• MF L o r A V U I-.M.OI.AH i, ESCOLA COMO LUGAR! PROPOSTAS I . QUESTÕES

Figura 27.
Plano arquitetônico
( p l a n t a b a i x a ) de u m
projeto de grupo escolar
para 2000 alunos
(Sociedad G e n e r a l de
Edificación U r b a n a , S.
A . , Plan general de
in.strucción pública,
Valencia: Memoria, S. L . ,
Figura 26. S. I., S. A. Pero 1932).
Plano arquitetônico do solar
e planta baixa do colégio das
Escolas Pias de Albacete.

r 8 § o
' §1
TA O Q .. n
. 0 •

á
desvalorização, por dificuldades financeiras, dos modelos-lipo durante o período inicial n 0 ( 1

1
•-T"
de aplicação da lei geral de educação, de 1971 até 1975, indico o meu trabalho " L a
-

9
3
educación general básica entre la realidad y el m i t o " i n Revista de Educación, número
i

1/
extra sobre " L a Ley General de Educación veinte anos después", 1992, pp. 4 7 - 7 1 . Para
a França, ver os trabalhos de Bernard Toulier ("Larehiteeture scolaire au X I X e siècle: De
1'usage des modeles por l'édifications des écoles primajres") e Christine Granier e Jean- lo
•i.. •
Figura 28.
Claude Marquis ( " U n enquête en cours: la maison d'école au X I X e siècle"), incluídos em
Hisloire de 1'Education, n.17, 1982, pp. 1-29 e 3 1 - 4 6 , respectivamente. E m relação a
Portugal, o livro Muitos aiws de escolas, v.l, I parte. Edifícios para o ensino infantil
a
e Projeto de grupo escolar com pavilhões, em Tavannes. Plano da planta
primário até 1941, editado pela Direção-Geral dos Equipamentos Educativos do Ministério baixa (Henry Baudin, Les nouvelles conslruclions scolaires en Suisse,
de Educação e Cultura, em 1985. E m relação à Inglaterra, ver os livros de Malcom Seabom, op. cit., p. 27).
The English School: Its Architeclure and Organizalion, 1370-1870. London: Routledge &
Kegan Paul, 1 9 7 1 e Malcom Seabom e Roy Lowe, The English School: Its Architeclure
and Organizalion, 1870-1970. London: Routledge & Kegan Paul, 1977.

112 113
Do ESPAÇO ESCOLAR E DA ESCOLA COMO L U G A R : PROPOSTAS E QUESTÔ1
A N T O N I O V I N A O FR \<;O

serviços a d m i n i s t r a t i v o s . À a u t o n o m i a e independência
Quanto à análise específica da génese, evolução,
p r o f e s s o r a l - tanto m a i o r q u a n t o m a i s elevado o nível
localização, características e tipologia de espaços específicos,
educativo — corresponde uma direção afastada, distanciada.
farei apenas uma breve referência, a título de exemplo, a três
delas: o gabinete da direção, os espaços de encontro e das Que está a l i , próxima, porém distante. 0 suficiente para não

salas de aula — não à sua distribuição interna do espaço, interferir diretamente na sala de aula onde se trabalha.

questão que t r a t a r e i no parágrafo s e g u i n t e , mas s i m à O u t r a s vezes, d e n t r o dessa localização v i s u a l —


compartimentação, conexão ou relações entre elas. próxima à porta de entrada e saída, mas não ao lado — adotam-

a) A localização do gabinete da direção reflete a se soluções que realçam, entre as demais funções da direção,

evolução seguida na concepção dessa figura e de suas funções; as funções de controle e vigilância. Também aqui nos serve

em outras palavras, a relação que de u m modo geral existe de exemplo o colégio das Escolas Pias de Albacete: o gabinete

entre a estrutura de papéis e a estrutura ou disposição espacial do diretor, diretamente acessível desde o corredor, situa-se

da escola. A s s i m , o posicionamento da direção n u m lugar justamente na interseção dos dois longos corredores ou eixos

central, a partir do qual se pudesse vigiar os professores, como principais de circulação do centro (Figura 2 6 ) . Basta chegar

se p r o p u n h a nas primeiras escolas seriadas, correspondia a e sair do mesmo e se pode ver, n u m instante, tudo aquilo que

u m a visão do diretor que conservava com os professores o neles acontece.

mesmo tipo de relação que o professor tinha antes, no sistema b) A fragmentação de professores e alunos em cursos
mútuo, com os monitores e, no sistema simultâneo ou misto, ou graus realça o papel e significado dos lugares comuns ou
com os professores auxiliares; só que, no novo modelo, isso de encontro. E, entre eles, da galeria ou do vestíbulo j u n t o à
não se dava na mesma sala de aula, mas em salas diferentes. 92
entrada. Tanto Rufino Blanco quanto Ballesteros e Sainz, entre
Se o diretor, além disso, devia entrar e i n t e r v i r nas aulas, outros autores, i n d i c a m a necessidade de u m lugar que sirva
nada melhor que estivesse n u m lugar próximo a elas. U m a de sala de espera, distribuição e reunião . Mas seu sentido, 93

vez substituída essa concepção i n i c i a l por outra, na q u a l o simbologia e uso variam de u m a outro autor. A s s i m , para
diretor se v i a , entre outras funções, como o representante da A n g e l L l o r c a , d i r e t o r do grupo escolar " C e r v a n t e s " , de
escola na comunidade externa e o responsável pelos serviços M a d r i d , esse era o espaço comum prévio à separação. Daí
gerais administrativos e pedagógicos, a sala ou gabinete da sua importância:
diração tenderá a se localizar, com o passar do tempo, no
Ao entrar... as crianças se reuniram na galeria do térreo
lugar em que hoje é h a b i t u a l : próximo à entrada do edifício,
com os professores, e ali permaneceram durante oito ou
â direita ou à esquerda, com uma pequena ante-sala a f i m de
dez minutos trocando impressões. Com isso, se queria
protegê-la ou separá-la, que impede o acesso direto desde o
corredor ou vestíbulo, e não muito distante da secretaria e
' " R u f i n o Blanco y Sanchez, Organización escolar. Primera parte, op. c i t . , p. 2 8 , que
se l i m i t a a transcrever o que é dito sobre o assunto em Instrucciones lécnico-higiénicas
9 2
F R A C O , A . Vifíao. Innovación pedagógica y racionalidad científica op. c i t . , p p .
de 1905, e A n t o n i o Ballesteros e Fernando Sainz, Organización escolar, op. c i l . , p, 18
22-23 e 62-76.

114 I I 5
i/w UBI-AVU r . M . i i i . A H is H A KM.IH,A como I.IICAK: PROPOSTAS E i.H ESTOES
/» l> I 11 n I I I V I IN AU I' II A I. II

habituá-los, na medida do possível, a conversar em voz venha a tomar permite ou dificulta uma ou outra organização
baixa, a fazer parte de grandes grupos sem que se interna. Eis aí, uma vez mais, a dialética do limite e da fronteira,
incomodassem, a respeitar os móveis e as plantas e a do aberto e do fechado, do poroso e do compacto, do que está
sentirem a unidade: desaparecem as segmentações; ali está dentro e do que está fora. A solução tradicional é conhecida: a
a escola. Todos os meninos e os professores, as meninas e sala de aula é u m compartimento em geral retangular, fechado,
até os visitantes, quando existem, constituem a escola . 94

no qual a única abertura permitida — ao olhar exterior e por


Outras eram, contudo, as funções atribuídas a esse razões de vigilância, iluminação ou h i g i e n e — é o v i s o r
espaço por Julián Lopez y Candeal na escola/sala de aula: envidraçado na porta ou o janelão exterior . 96

A escola deve ser um verdadeiro templo no qual entram A fragmentação organizativa e a autonomia do profes-
as crianças com o mesmo respeito com que os fiéis sor favoreceram o isolamento. E de u m modo tão intenso que
observam na casa do Senhor; e deixariam eles de se i m p u s e r a m não apenas, como se v i u , às tentativas de
constituir a tão vantajosa ideia de sala de aula, desde o configurar u m controlador central onipresente, como também
momento em que se lhes permitisse ali entrar sem nenhum — salvo a título experimental ou de inovação — às tentativas de
preâmbulo e em... confusa desordem...; por isso é preciso
romper com tal isolamento, criando espaços abertos e flexíveis
que, antes de chegar à Escola ou sala de aula, haja uma
q u e p e r m i t a m f o r m a r g r u p o s de d i f e r e n t e s t a m a n h o s ,
ante-sala onde se reúnam as crianças, onde tirem suas
heterogéneos, móveis e não dispostos sempre de acordo com o
capas, gorros e demais acessórios indumentários, e onde
tradicional modelo de ensino frontal. Essa ideia p r o p i c i o u
se efetue a revista de limpeza, e t c ; a fim de que, ao passar
desse local à Escola, façam-no com a maior ordem e desenhos de salas de aula com formas quadradas, hexagonais
compostura, formando-se sempre a ideia de que não ou arredondadas, sem estrado, u m mobiliário leve e recantos
podem adentrar de qualquer maneira, senão sempre com ou alvéolos quais pequenas peças anexas e separações móveis
o maior respeito, no santuário da ciência . 95
—biombos, portas de correr, etc. — que facilitam a disposição do

c) Como dispor das salas de aula em seu conjunto?


Que relação ou conexão pode ou deve haver entre elas? Re- '"' U m dilema semelhante — por razões nem sempre idênticas — se coloca com os sanitários
ou as latrinas. Mariano Carderera recomendava colocar " e m cada gabinete uma porta
sponder a essas perguntas condiciona, de imediato, a disposição
que se feche por si mesma, sem fechadura por dentro e cortada acima e abaixo, a f i m de
do espaço interior da sala de aula e a distribuição das pessoas que, de fora, se enxerguem a cabeça e os pés de quem está dentro" (Princípios de educación
y métodos de ensenanza, op. c i t . , pp. 302-303); por outro lado, nas já ciladas Notas sobre
e dos objetos no mesmo. U m a relação aberta e flexível não é
construcción escolar, do Museu Pedagógico Nacional, se dizia que "o respeilo à dignidade
igual a outra fechada ou rígida. A decisão de conjunto que se pessoal e a necessidade de cullivar essa ideia e esse sentimento na criança" exigiam que
"cada dependência" se achasse "isolada das demais por tabiques allos" e tivesse "sua
porta inteira, que deverá ser fechada por dentro". Essa diferença de critérios entre dois
textos, o primeiro de meados do século X I X e o segundo de 1911, pode ser inlerprelada
como uma amostra da evolução a partir de um crilério controlador para outro, mais
9 4
L O R C A , A n g e l . E l grupo escolar Cervantes. Madrid (1933 a 1934). Madrid: 1934,
l i b e r a l , mas também pode i n d i c a r a difusão da ideia de intimidade ou privacidade,
p. 11 (reunido, parcialmente, em Escuelas de Espana, marzo, 1935, p p . 123-128 -
também observada na configuração ou distribuição dos espaços nas moradias familiares.
op. c i l . )
R Y B C Z Y N S K I , W i t o l d . La casa. Historia de una idea. M a d r i d : Nerea, 1989.
Julián Lopez y Candeal, Colección de disertacionespedagógicas..., op. c i l . , pp. 344-345.

116 117
conjunto tanto para o trabalho individual quanto para o grande
g r u p o , p a s s a n d o p o r t o d a a g a m a de p o s s i b i l i d a d e s
intermediárias (Figuras 2 9 , 3 0 , 3 1 , 3 2 , 3 3 , 3 4 e 35). Apenas
uma vez em nossa história educativa tentou-se combinar uma
proposta de inovação escolar desse tipo com novos desenhos
arquitetônicos. As Orientaciones Pedagógicas, aprovadas pela ESTADOS UNi&i

Ordem M i n i s t e r i a l de 2 de dezembro de 1970, p r e v i a m a


formação de tais agrupamentos flexíveis, heterogéneos e de Figura 29.
tamanho variável. E mais: esse era o seu modelo de organização Tipos de salas de aula
usuais nos Estados
do ensino . A resposta arquitetônica a tal proposta foi a Ordem
97

Unidos, na Alemanha e
Ministerial de 4 de fevereiro de 1 9 7 1 , a qual estabelecia o na Suíça (F. Navarro
programa de necessidades para a construção de colégios de Borras, "Problemas
educação geral básica. Esse programa abandonava, como arquitectónicos de un
plan de construcciones
modalidade única, a estrutura da sala de aula com u m grupo
escolares", em Minis-
homogéneo disposto em filas e fileiras frente ao professor com tério de Educación y
seu e s t r a d o , mesa e q u a d r o - d e - g i z . Tornava possível a Ciência, D i r e c c i ó n
General de Ensenanza
diversificação de espaços flexíveis para grupos não estáticos
Primaria, Construc-
de d i f e r e n t e s t a m a n h o s . Sucessivas e i m e d i a t a s ordens ciones escolares, op,
ministeriais, aprovadas em 1973 e 1975, acabaram com tal cit., p. 46).
p o s s i b i l i d a d e , por razões sobretudo f i n a n c e i r a s . Mas a 98

realidade havia se encarregado de pôr as coisas em seus lugares.


A l i onde se construíram edifícios de acordo com tal programa, 9 8
F R A G O , A . Vinao. " L a educación general básica entre la realidad y el m i t o " i n
se c o n t i n u o u f a z e n d o u m uso t r a d i c i o n a l dos e s p a ç o s Revista de Educación, número extra sobre " L a Ley General de Educación veinte anos

construídos ou, decorrente das repetidas queixas sobre a não- después", 1 9 9 2 , pp. 4 7 - 7 1 . Nada reflete melhor o espírito e os ideais dessa época e
sobre esse tema, assim como a defasagem em relação ao que aconteceu depois, que a
f u n c i o n a l i d a d e do desenho, f e c h a r a m - s e os e s p a ç o s de leitura dos artigos da monografia sobre construções escolares, da Revista de Educación,
comunicação ou abertura. Apenas no âmbito da educação pré- n 2 3 3 - 2 3 4 , de 1974, em especial os de Maria Teresa Unzurrunzaga e Arturo de l a
a

Orden, e dos dois livros editados pelo mesmo Ministério de Educación y Ciência, o de
escolar e sob o chamado "método dos recantos" ou outros
Jean Ader, La escuela de opciones múltiples. Sus incidências sobre las construcciones
similares, mantiveram-se experiências desse tipo. escolares, Sevicio de Publicaciones dei Ministério de Educación y Ciência, M a d r i d ,
1977, e Estúdios sobre construcciones escolares, Servicio de Publicaciones dei Ministério
de Educación y Ciência, M a d r i d , 1978, que incluía a tradução de dois livros editados
" Sobre O processo de elaboração das Orientaciones Pedagógicas, de 1 9 7 0 , ver o que pela O.C.D.E., em 1975: La construction scolaire et 1'innovation dans Venseignemerti, de
escreveu u m destacado protagonista do mesmo, A r t u r o de la O r d e n Hoz: "Innovación Eric Pearson, e Uécole et la construction industrialisée, de Guy Oddie. A escolha desses
pedagógica en la Reforma educativa de 1 9 7 0 " . I n : B E R R I O , Julio R u i z (ed.), La três livros para serem traduzidos e editados não foi resultado do acaso, mas reflelia as
educación en la Espana contemporânea. Questiones históricas. M a d r i d : Ediciones S. tendências de determinados gaipos de altos funcionários e arquitelos do Ministério de
M . y Sociedad Espanola de Pedagogia, 1 9 8 5 , p p . 2 7 9 - 2 8 8 . Educación y Ciência, naqueles anos.

118 1 19
Do ESPAÇO ESCOLAH E DA ESCOLA COMO L U G A H i P i t o POSTAS E QUESTÕES

O ESPAÇO DA SALA D E AULA


O U AS R E L A Ç Õ E S E N T R E
OS M É T O D O S P E D A G Ó G I C O S
E A DISPOSIÇÃO E S P A C I A L
DAS P E S S O A S E D O S O B J E T O S

Í : J : : I Í:IZI m ci:::
N u m a entrevista realizada em 1982 com A n t o n i o
f i m LMI rza
Fernandez A l b a , pela revista Cuadernos de Pedagogia, esse
[ira ac3 oS ESED
arquiteto i n d i c a v a como "geralmente um modelo
© c i 3 L Z O Êífa cStâ
arquitetônico configura u m a pedagogia" e como, também,

i
Figura 30. "os conteúdos pedagógicos... são os que dão u m a q u a l i d a d e
ti ÍZE3 E E 3 EZÈ3 E E
Sala de aula c o n h e c i d a , na
® ao e s p a ç o " . 99
As páginas anteriores c o n f i r m a m , sem dúvida,
Holanda, como "tipo Groninga"
(F. Navarro Borras, "Problemas ambas afirmativas. Mas é no âmbito da sala de aula, o núcleo
arqui-teclónicos de u n plan de p o r e x c e l ê n c i a d a a t i v i d a d e i n s t r u t i v a , onde a análise
construcciones escolares", op. histórica mostra essa relação entre a disposição no espaço,
cit., p. 44).
das pessoas e objetos que nela estão, e o sistema ou método
de ensino seguido.

Figura 32.
G r u p o escolar " P r í n -
cipe de Astúrias", de
M a d r i d . Vista de uma
sala (Ministério de
Instrucción Pública y
Bellas Artes, La ense-
nanza primaria en
Figura 31. Madrid, 1924, M a d r i d ,
Salas de aula de forma pen- 1925).
tagonal (F. Navarro Borras,
"Problemas arquitectó-
nicos de u n plan de cons-
trucciones escolares", op. 9 9
F E R N A N D E Z A L B A , A . " E n t r e v i s t a . L a miséria dei espacio escolar". I n : Cuadernos
cit., p. 43). de Pedagogia, n» 8 6 , 1 9 8 2 , p p . 2 1 - 2 4 .

120 121
ANTONIO VINAO FRACO

A sala de aula pode ser lambem analisada, em sua


íkiLL
p e r s p e c t i v a e s p a c i a l e arquitelônica, do p o n l o de vista
h i g i ê n i c o - p e d a g ó g i c o . A ênfase colocada — segundo as
ocasiões e os lugares — em aspectos tais como a aeração, a
iluminação, a insolação ou a calefação, por exemplo, bem
como as mudanças de critério em relação ao contraste entre
a teoria, a legalidade e a realidade ou a relação de tudo isso
Figura 33. com o discurso médico e psicopedagógico, p r o p o r c i o n a m
Colégio de Jesús-María de material suficiente ao h i s t o r i a d o r . Neste parágrafo, deixarei
100

San Gervásio. Sala de aula.


de lado essas questões e me centrarei nessas relações e nessa
Cartão postal.
interação entre a disposição das pessoas e objetos — sobre
& todo o mobiliário — na sala de aula, e a metodologia e os
7 processos educativos. Tampouco pretendo passar em revista
0 • o *> D B ^1
todas as organizações do espaço educativo que existiram. Nem
mesmo as p r i n c i p a i s . L i m i t a r - m e - e i a mostrar a difusão,
Figura 34.
influências e variações do modelo de ensino mútuo em sua
Proposta de dis-
tribuição do es- aplicação à educação pré-escolar na p r i m e i r a metade do
paço de uma sala século X I X . Com isso, e c o m várias alusões a algumas das
de aula de crianças
rupturas do modelo de ensino simultâneo, pretendo mostrar
pequenas, segundo
o " m é t o d o dos quais são os dilemas que estão por trás das propostas e práticas
recantos". de p l a n e j a m e n t o e o r d e n a ç ã o d o e s p a ç o e s c o l a r p o r
antonomásia, isso é, daquilo que acontece em sala de aula.
Quando, há vários anos, v i pela primeira vez as gravuras do
Manual para los maestros de las escuelas de párvulos, de Pablo
Montesino, que representam o local ou sala de aula de tais
escolas (Figura 3 6 ) , duas perguntas me v i e r a m à mente.

,0
° 0 discurso médico-higienisla sobre a sala de aula e o edifício escolar está fora
desse t r a b a l h o . A título de exemplo e referência g e r a l , i n d i c o as conferências e
comunicações da terceira seção do Congreso Espanol de Higiene Escolar, Barcelona:
1 9 1 3 , p p . 2 5 5 - 3 2 4 , e, como u m estudo concreto, aquele realizado pela Inspeção
Figura 35.
médico-escolar de Barcelona, em relação às escolas nacionais da cidade, a p a r t i r de
E x e m p l o de disposição
um ponto de vista higiênico-sanitário, incluído e m Inspección médico-escolar de
flexível do espaço escolar. Barcelona. Barcelona: 1 9 2 0 , p p . 3 5 - 6 2 , onde se pode observar suas características
Janus, n.10, 1967, p.53. higiénicas e os planos comentados de algumas delas.

122 123
Do ESPAÇO ESCOLAR E DA ESCOLA COMO L U G A R I PROPOSTAS E QUESTOI

Seria habitual aquela sala, em sua época — o livro foi publicado e n c o n t r a v a m as m e s m a s r e f e r ê n c i a s inglesas que se
em 1840 — ou se tratava apenas de uma proposta teórica? encontravam em Montesino e a l i se mencionava u m a viagem
Nesse último caso, como parecia mais provável, de onde havia a Londres, feita por Cochin em 1827, custeado por u m comité
sido tomado, q u a l era seu modelo e que influências ou de senhoras p r e s i d i d o pela Marquesa de Pastoret, com o
efelividade real havia tido? Quando, algum tempo depois, objetivo de visitar as escolas e " i n f a n t schools" existentes, e
chegou às minhas mãos o Manual des salles d^asile, de Jean- criar u m estabelecimento similar em Paris.
D e n i s - M a r i e Cochin, em sua terceira edição de 1845, porém
publicado em 1 8 3 3 101
, pude ver, não sem alguma surpresa,
que a sala de a u l a mostrada nas gravuras que também
acompanhavam o texto (Figuras 37 e 38) — sala de aula
adotada também em outros estabelecimentos desse tipo, como
as escolas materiais das Filhas de Caridade de São Vicente
de Paula (Figura 39) 102
— guardava certas semelhanças com
aquela proposta por Montesino. A surpresa derivava do fato Figura 36.
de q u e tal antecedente - Cochin havia aberto seu Sala de aula segundo o
Manual para las
estabelecimento docente para crianças pequenas em 1828,
escuelas de párvulos, de
em Paris — não combinava, em princípio, com a conhecida Pablo Montesino (1840).
influência da pedagogia e educação inglesas em Montesino,
uma influência q u e p r o c e d i a de suas l e i t u r a s e do
conhecimento de ambas, durante seu exílio na Iriglaterra,
desde 1823 até 1 8 3 4 . Além disso, q u a n d o , no p r i m e i r o
capítulo de seu Manual, Montesino trata da " o r i g e m " das
escolas de crianças pequenas, todas as suas referências
(Owen, Lorde Brougham, Buchanan, Wilderspin) são inglesas.
Cochin nem sequer é citado. A leitura da " N o t i c e sur M .
Figura 37.
C o c h i n " que precede ao seu Manual e do apêndice sobre a
Sala de aula
origem histórica das salas de asilo me deu a pista: a l i se segundo o Manual
des salles d'asile
deJ.-D.-M. Cochin
101
E m 1834, seria proclamado pela Academia francesa "o melhor livro do a n o " — (1833). Exercícios
15UISS0N, F. (dir.). Nouveau dictionnaire depédagogie et d'instructionprimaire. Paris: nas a r q u i b a n -
Hachette, 1911, p. 288. E m sua primeira edição, de 1833, seu lítulo era Manual des cadas.
fondateurs et directeurs des salles d'asile.
102
Nuevo manual de las clases malernales, llamadas salas de asilo, para uso de las
Hijas de la Caridad de San Vicente de Paul. M a d r i d : I m p r e n t a de Tejado, 1858.

124 125
Do ESPAÇO ESCOLAR E DA ESCOLA COMO L U G A R ! P R O P O S T A S V. Q U K S T U K S

S e g u i n d o esta p i s t a , d i r i g i - m e ao l i v r o sobre
W i l d e r s p i n , publicado em 1982 por P h i l l i p Mc Cann e Francis
A. Y o u n g 103
. A l i pude ver, efetivamente, que o " b a l a n ç o
giratório" proposto como u m jogo i n f a n t i l e descrito na
primeira gravura do Manual de Montesino, figurava também
na gravura do l i v r o sobre W i l d e r s p i n que representava a

Figura 38. Drygate Infant School de Glasgow. No entanto, nenhuma das


Sala de aula segundo o duas salas de aula reproduzidas no referido livro — as de Bristol

4L Manuel des salles d'asile


de J.-D.-M. Cochin (1833).
e a Walthamstow " i n f a n t schools" — parecia manter qualquer
relação com os modelos de Cochin e Montesino; eram também
Exercícios de escrita.
duas amplas salas — mais estreita a última —, mas não se
pareciam nem em sua disposição nem em sua organização às
de ambos os autores.

Tive de esperar que aparecesse, em 1989, o l i v r o de


D a v i d H a m i l t o n , Towards a Theory of Schooling , [0i
para ver
como as representações das salas de aula a l i descritas, que
procediam de cada u m dos livros de W i l d e r s p i n e Stow — o
p r i m e i r o p u b l i c a d o em 1840 e o segundo, em ÍSSÓ ^ — 10

v i n h a m a coincidir, ainda com mais exatidão do que as do


Manual de C o c h i n , com as reproduzidas no Manual de
Montesino (Figuras 40 e 4 1 ) . Como ambos os livros — o de
Figura 39.
W i l d e r s p i n e o de Stow — reproduziam, por sua vez, salas de
Projeto a r q u i -
tetônico de sala
maternal, para
200 meninos
(Nuevo manual 1 0 3
M C C A N N , P h i l l i p e Y O U N G , Francis A . Samuel Wilderspin and the Infant School
de las clases Movement, L o n d o n : Croom H e l m , 1982.
maternales 1 0 4
H A M I L T O N , D a v i d . Towards a Theory of Schooling. London: The Falmer Press,
llamadas salas 1989. Dois artigos desse livro — "Orígenes de los lérminos 'clase' y ' c u r r i c u l u m ' " e

de asilo. Madrid, " D e l a inslrucción simultânea y el n a c i m i e n l o de l a clase en el a u l a " — foram


traduzidos e publicados nos números 2 9 5 e 2 9 6 , respectivamente, da Revista de
1858).
Educación, ambos dedicados, de modo monográfico, à história do currículo. Dos
dois artigos, o segundo i n c l u i as gravuras dos livros de W i l d e r s p i n e Tow, que figuram
neste capítulo.
1 0 5
Samuel W i l d e r s p i n , A System for the Education of the Young. L o n d o n : I l o d s o n ,
1840, y D a v i d Tow, The Training System. Glasgow: M c P h u n , 1836 e London: LogmanS,
1850, 8 ed. A m p l i a d a .
a

126
127
• >,i u o r A b u i u , \n i . it \ I . M . I I I . 1 i . i i m i i.i i . \n ; r n u r u n i 1
'" 1 1
'' 1

aula de " i n f a n t schools" preexistentes, deduzi que essa era a


fonte original dos modelos propostos e aplicados na França e
na E s p a n h a 106
.

Os traços m a i s c a r a c t e r í s t i c o s da o r g a n i z a ç ã o
pedagógica e espacial desse tipo de salas de aula eram dois. Figura 40.
0 p r i m e i r o deles era a reserva, numa mesma sala, de u m Sala de aula de uma " i n -
f a n t s c h o o l " (Samuel
espaço para o ensino mútuo — as carteiras com sua disposição
Wilderspin, A system for
em uma ou duas filas paralelas — e de outro espaço para o the education of the
ensino simultâneo — as arquibancadas situadas ao fundo. Esse young. London, Hodson,
sistema ou método colocava em prática, então, o ensino mútuo 1840).

com seus monitores, porque assim, ao dirigir-se às classes


populares ou pobres, podia escolarizar u m elevado número
de meninos e meninas n u m local amplo, a custos baixos 107
.
Mas incorporava, na mesma sala de aula e simultaneamente,
o método de ensino simultâneo praticado pelos Irmãos das
Escolas Cristãs, na França 1 0 8
. E o incorporava, além disso,
reforçando-o, graças, como assinalou Fréderic Dajez, "ao Figura 41.
efeito panóptico do a n f i t e a t r o " . 109 Sala de aula de
uma "infant
school" (David
0 de C o c h i n foi levado a cabo n u m estabelecimento docente com duas salas de
Stow, The train-
aula de ensino primário e uma sala de asilo para crianças de 2 a 6 anos de idade, e o ing system, Mc
de Montesino, na escola para crianças pequenas de V i r i o , criada em 1 8 3 8 (ver o P h u n , Glasgow,
p l a n o das duas salas de aula com suas a r q u i b a n c a d a s , no A r c h i v o G e n e r a l d e i 1836).
Ministério de Educación y Ciência de A l c a l a de Henares, maço 6 . 2 4 2 , Jardines de la
Infância, como anexo à informação efetuada sobre essas escolas, em 1 8 5 1 , por Fran-
cisco M e r i n o Ballesteros, ambos publicados por Carmen Sanchidrián Blanco, "Fuentes
y documentos para la hsitoria de la Educación I n f a n t i l " , Historia de la Educación,
p . 3 8 ) . Desse mesmo autor, ver " G e n è s e de l a socialisation scolaire de la pelite enfance
n»10, 1 9 9 1 , p p . 3 3 0 - 3 4 3 .
aux X I X è s i è c l e " . I n : Lei Dossiers de TEducation, n " 5, 1 9 8 4 , pp. 3 1 - 3 7 . Quanto à
I 0
' Por isso, não é estranho que o Barão de Gerando tenha incluído um capítulo sobre as sua lese de doutoramento sobre as salas de asilo na França, não lenho notícias de
salas de asilo entre as "instituições relativas à educação dos pobres", em seu livro De que lenha sido p u b l i c a d a . A regulamentação legal desse tipo de centros pode ser
la bienfaisance publique (Bruxelles: 1839, t . I , pp. 244-259), junto aos orfanatos, hospícios, encontrada em Jean-Noèl L u c , La petite enfance a Vécole, XIX-XXe siècles. Paris:
casas para crianças abandonadas e escolas elementares e profissionais para os pobres. E c o n ó m i c a , 1 9 8 2 , e sua difusão até 1837 na obra do Barão de G e r a n d o , De la
I0
" Sobre as diferentes concepções da expressão "ensino simultâneo" e sua introdução e bienfaisance publique, op. c i t . , pp. 2 4 5 - 2 5 0 : em 1 8 3 7 , na França funcionavam 3 2 8
difusão na Grã-Bre lanha, durante o século X I X , v e r o já citado artigo de David Hamilton, salas de asilo que a c o l h i a m 2 8 . 0 8 0 crianças, u m a cifra nada desprezível caso se
De la inslrucción simultânea y el nacimiento de la clase en el aula (nota 91). compare com as 192 escolas para crianças pequenas (109 públicas e 8 3 privadas)
Fréderic Dajez, " U n e lechnologie éducalive de la pelite enfance: le mélhode des que existiam na Espanha, em 1 8 5 5 , e se se tem em conta que a p r i m e i r a delas - a
salles d'asile ( 1 8 2 7 - 1 8 6 0 ) " , in Historia: Infantice, n* 1, 1984, pp. 3 5 - 4 4 (citado na escola de V i r i o , em M a d r i d - seria criada em 1 8 3 8 .

128 129
Do ESPAÇO ESCOLAR E DA ESCOLA COMO L U G A H i PROPOSTAS E o i I STOI

O segundo traço era a m i n u c i o s a regulação das


nas escolas de crianças pequenas" de M m e . M i l l e t , estava
atividades e movimentos que convertia cada grupo de meninos
empregando o termo corrreto: mecanismo." !
Não se tratava,
e meninas, com seu monitor à frente, em disciplinados pelotões
no entanto, de uma máquina que imitava ou substituía u m
que manobravam ao ouvir determinadas ordens de comando,
ser vivo — o robô ou autómato, o ensino programado —, mas de
ou som de chascas , 110
muxoxos, estalos com os dedos, palmas
uma engrenagem integrada por objetos e seres vivos que
ou assobios. A f i m de evitar a i m o b i l i d a d e , cada exercício
imitavam as máquinas. Máquinas cujos agentes motores eram
devia ter uma duração muito l i m i t a d a , de tal maneira que a
os professores e seus ajudantes, bem como os
d e c o m p o s i ç ã o de cada m o v i m e n t o em u m a sucessão de
monitores.Tratava-se daquilo que Fernandez Galiano chamou
u n i d a d e s simples a realizar, a cada o r d e m , r e d u z i a m "o
" u m a organização maquinal do movimento orgânico", em que
movimento a uma sucessão rápida de curtas sequências de
"o orgânico... i m i t a ou emula o m e c â n i c o " , 114
u m processo
i m o b i l i d a d e " e a u m a ginástica n a t u r a l que s u p r i m i a as
de "mecanização dos hábitos h u m a n o s " , da " v i d a s o c i a l " e
"vacilações e tempos m o r t o s " 111
. Essa m o b i l i d a d e e esses
de redução "dos homens a máquinas", semelhante às de outras
e x e r c í c i o s s a t i s f a z i a m as n e c e s s i d a d e s da c r i a n ç a e a
operações de engenharia social — construção das pirâmides,
distraíam. Com esse método, dizia o Barão Gerando, " a criança
galerias romanas, falange macedônica —, anteriores à era
se submeterá sem se dar conta; será sujeitada sem sentir-se
da física mecânica e do m a q u i n i s m o . 115
Trata-se de u m tipo
forçada" 112
.
de operações que, levadas a u m a escala mais a m p l a — à
E m síntese, esse método e sua correlativa organização escala da educação das classes trabalhadoras e populares,
das pessoas e objetos na sala de aula não era senão u m na p r i m e i r a fase da industrialização —, constituíam u m a
dispositivo mecânico, com toda a precisão de u m relógio, t e n t a t i v a de i n t r o d u z i r o r d e m e previsão, certeza e
aplicado a seres vivos n u m espaço fechado e reduzido. Por r a c i o n a l i d a d e , regulação e u n i f o r m i d a d e , n u m a situação
isso, quando Marie Pape-Carpantier, em seu conhecido livro social em que os elementos de controle da antiga ordem
sobre as escolas maternais, publicado em 1848, incluía em social h a v i a m sido minados e tornava-se necessário criar
suas páginas finais o "Mecanismo ou distribuição do tempo
1
C A R P A N T I E R , Maria. Ensenanza práclica de las escuelas de párvulos, a primeras
lecciones de los limos, con algumas cauciones yjuegospara su recreo. M a d r i d : H e r n a n d o ,
1 1 0
A expressão "chascas" é a utilizada (p.12) no anles cilado Nuevo manual de las clases 1 8 6 0 , p p . 2 1 6 - 2 2 4 . Este l i v r o , p u b l i c a d o na França, em 1 8 4 8 , era, como dizia o
maternales de las llijas de la Caridad de San Vicente de Paul. Esse segundo traço acha-se Nouveau d i c t i o n a i r e de Buisson (op. c i t . , p . 1 4 9 1 ) , u m verdadeiro Manual de salas de
mais acentuado no método das salas de asilo do que nos métodos das "infant schools" e asilo. Q u a n t o a Eugénie M i l l e t , não é demais l e m b r a r que ela viajou l a m b e m à
escolas para crianças pequenas de Montesino. Outro aspecto diferenciador é que nas Inglaterra, em 1 8 2 7 , a f i m de estudar o sistema das " i n f a n t schools", a cargo do
salas dc s i l o eram professoras aquelas que se encarregavam das tarefas, enquanto que,
u referido comité de senhoras e por sugestão de C o c h i n , que na sua volta p u b l i c o u u m
como se sabe, Montesino propunha que quem estivesse à frente de tais escolas fossem folheto com o título Observalions sur le système des éeoles d ' A l g l e l e r r e p o u r la
professores ajudados por professoras ou alguma mulher da própria família. première enfance élablies en Franee sous le nom des salles d'asile, Paris, 1 8 2 8 , e
111
Fréderic Dajez, Une technologie éducalive de lapetite enfance: le méthode des salles que, em 1 8 3 0 , ela foi nomeada inspelora geral das salas de asilo.
dasile (1827.1860), op. c i l . , pp. 4 0 - 4 1 . A expressão "ginástica n a t u r a l " é do Barão 1 1 4
F E R N A N D E Z - G A L I A N O , L u i s . Elfuego y la memoria..., op. c i t . , pp. 1 2 8 - 1 6 1
de Gerando, De la bienfaisance publique, op. c i l . , p. 2 5 5 . (citado na p . 1 4 2 ) .
1 1 2
Barão de Gerando, De la bienfaisance publique, op. c i t . , p. 2 5 5 . " r>
M U M F O R D , Lewis. Técnica y civilización. M a d r i d : Alianza. 1 9 7 1 , pp. 5 6 - 5 7 .

130 131
•.!, i •i a g u v u n n a • i * •..-><«» i , \ i . i r n u i.i i , t u j r n u r u s i n a ' '." i M U I •

outros novos. Daí decorrem os apelos do Barão de Gerando, tanto do método simultâneo (com pequenos resíduos do i n d i -

e tantos outros reformadores sociais da p r i m e i r a metade do v i d u a l , cada vez mais apoiado pelas tendências da paidologia

século X I X , para que se estendesse a escolarização — u m e do movimento da escola nova), quanto do mútuo, agora

determinado tipo de escolarização - da p r i m e i r a infância e entendido como u m trabalho cooperativo em pequenos grupos.

que se tornasse obrigatória a educação, por ele chamada de Até a q u i , tudo se referiu aos ensinos pré-escolar e
" p o p u l a r " , das classes trabalhadoras. U m a nova ordem estava elementar. No ensino secundário e no universitário, continuou
emergindo e uma nova escola se fazia necessária. vigendo, em geral, o modelo de aula/sala, com seu estrado,

0 problema era que a mecanização dos processos como u m púlpito, de onde o professor ministrava a doutrina,

educativos, mesmo sendo, conforme referi, algo diferente aos e seus bancos ou carteiras alinhadas e enfileiradas numa

autómatos que e n s i n a m ou instrução p r o g r a m a d a , disposição fixa, muitas vezes até mesmo fixos no chão. Numa

compartilhava, com essa última, uma concepção cibernética d i s p o s i ç ã o desse t i p o , pode-se a n a l i s a r as m a n e i r a s de

do ser h u m a n o e, em consequência, u m mesmo efeito: o perguntar e de se d i r i g i r aos alunos ou de distribuí-los e situá-

método, se fosse seguido corretamente, deveria ser eficaz e los na sala de a u l a 117
. Mas se deve estar alento, também, à

produzir resultados por si mesmo, graças ao seu mecanismo persistência ou emergência de outras disposições espaciais

ou natureza e não à h a b i l i d a d e ou qualidades de q u e m o em d i s c i p l i n a s específicas, laboratórios, salas práticas ou

aplicava ou daqueles aos quais ele fosse aplicado. Além disso, seminários em pequenos grupos, ou mesmo ao r e c u r s o ,

i n t e r p u n h a os auxiliares e os monitores entre o professor e o sobretudo com a massificação universitária, à sala em forma

aluno. Os alertas sobre a necessidade de uma atenção i n d i - de anfiteatro.

v i d u a l e a substituição progressiva, na segunda metade do


século X I X — na Espanha, ao longo do século X X —, da aula/
1 9 8 9 , pp. 3 8 1 - 4 1 7 , e Pierre Lesage, " L ' e n s e i g n e m e n t m u t u e i " , em Gaston Mialaret
sala pela aula/colégio, com a consequente distribuição dos e Jean V i a l (dir.), Hisloire mondiale de 1'éducation. 3. De 1815 à 1945, Paris: PUF,
alunos em cursos ou salas de aula homogéneas e a redução 1 9 8 1 , pp. 2 4 1 - 2 5 0 . A relação direla professor-aluno no método simultâneo foi também,
ao q u e tudo i n d i c a , uma das principais razões em favor da sua implantação frente a o
do número de alunos por sala, transformando os auxiliares sistema m o n i t o r i a l ou de ensino mútuo na Grécia, durante a segunda metade do
em professores, d e t e r m i n a r a m , entre outras razões, o século X I X . Ao menos, assim se deduz do trabalho de H e l e n e K a l a p h a t i , " L e s
bâlimenls scolaires de l'enseignement primaire en Grèce ( 1 8 2 8 - 1 9 2 9 ) " . I n : Historicité
desaparecimento do método de ensino monitorial ou mútuo
de Venfance et de la jeunesse. Athènes: Secretarial General à la Jeunesse, 1 9 8 6 , pp.
na e d u c a ç ã o elementar e, de passagem, na e d u c a ç ã o de 1 7 5 - 1 8 1 . Esse breve artigo proporciona informação geral de interesse sobre a evolução
da a r q u i t e l u r a escolar na Grécia. Suas colocações i n i c i a i s são correias, mas não
crianças p e q u e n a s , 116
assim como a utilização preferencial
d i s t i n g u e s u f i c i e n t e m e n t e entre textos ou propostas de m a n u a i s ou I r a t a d o s d e
pedagogia e texlos legais sobre construção de edifícios escolares, o p r i m e i r o d o s

Sobre as razões do exilo e do fracasso do ensino múluo, indico Slefan H o p m a n n , " E l quais - u m Decreto Real de 17 de maio de 1894 - foi elaborado por u m engenheiro.

movimiento de ensenanza mútua y el desarrollo de la administración curricular: enfoque


1 1 7
Assim eu fiz, por exemplo, em relação às alunas que chegavam até as salas de aula dos

comparado". I n : Revista de Educación, n" 2 9 5 , 1 9 9 1 , pp. 2 9 1 - 3 1 6 . Quanlo às bases Institutos de bacharelado, nas primeiras décadas do século X X , em "Espacios masculinos,

psicopedagógieas e organizacionais desse sislema de ensino, ver os trabalhos de David espacios femeninos. E l acceso de la mujer al bachillerato". I n : Mujer y educación en

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132 133
d e u l u g a r , c o m o t e m p o , a novas d i s p o s i ç õ e s com mu
No ensino primário e no de crianças pequenas, a
mobiliário ad hoc (Figuras 32, 33 e 35), que em certas
ruptura do modelo de explicação simultânea e da disposição
ocasiões colocavam problemas quando utilizadas de modo
c m bancos s u r g i u , já desde os fins do século X I X e inícios
t r a d i c i o n a l (Figura 42), ou à destinação de cada atividade
do X X , com a difusão da carteira i n d i v i d u a l , a necessidade
básica — expressão v e r b a l , expressão c o r p o r a l , expressão
da atenção i n d i v i d u a l — que i m p l i c a v a ou o deslocamento
artística, natureza, dramatização — a u m lugar ou espaço
dos alunos para a mesa do professor ou o deslocamento desse
específico, d i s t r i b u i n d o - s e os alunos de modo simultâneo
por entre as carteiras — e a organização de atividades em
entre eles (Figura 34).119

pequenos grupos, sem falar nas tendências mais recentes


c o m o as j á r e f e r i d a s s o b r e a i n t r o d u ç ã o de espaços
adaptáveis e a r u p t u r a da ideia de sala de aula como espaço
fechado (Figura 35). Para Pauline K e r g o m a r d , por exemplo,
do " a s i l o - a r m a z é m à e s c o l a m a t e r n a l " m e d i a v a " u m
mundo" 1 1 8
. Por isso, e de acordo com o Decreto de 2 de
agosto de 1 8 8 1 e a Instrução de 12 de j u l h o de 1 8 8 2 , que
estabeleciam o novo regime e sistema das escolas maternais,
ela p r o p u n h a uma distribuição do tempo m u i t o diferente
das propostas de Eugénie M i l l e t e de Papa-Carpantier a n -
tes citadas, assim como a graduação em duas salas de aula
de pequenos e maiores e uma nova organização do espaço
da sala. A o mesmo tempo, submetia à crítica a " d i s c i p l i n a
m i l i t a r " e " a r t i f i c i o s a " das salas de asilo e "o mecanismo e
o ensino c o l e l i v o " , em nome da i n i c i a t i v a i n d i v i d u a l da
c r i a n ç a , d a sua e s p o n t a n e i d a d e e do r e s p e i t o à s u a
Figura 42.
personalidade i n t e l e c t u a l e m o r a l . Seria esse u m programa
ou sistema — o das escolas maternais — para a escolarização Grupo escolar "Cervantes", de M a d r i d . Vista de uma sala de aula
(Ministério de Instrucción Pública y Bellas Artes. La ensenanza primaria
dos m e n i n o s e das m e n i n a s das classes p o p u l a r e s ou
en Madrid, 1924. M a d r i d : 1925).
trabalhadoras? Não r e s p o n d e r i a ao desejo, em parte já
r e a l i d a d e , de estender a e d u c a ç ã o p r é - e s c o l a r a outros
grupos e classes sociais? Por outro lado, a configuração da
sala de aula em função do trabalho em grupos reduzidos
1 1 9
Ver, por exemplo, u m a recente e clara explicação desse método o seu mobiliárii
específico em Esperanza Seco, Educación infantil: diseho curricular de aula. Madrid:
K E R G O M A R D , Pauline. La educación maternal en la escuela. M a d r i d : Daniel
Cincel, 1990.
Jorro, 1 9 0 6 , 2 v., I . I , p. 2 9 0 ( I edição francesa de 1 8 8 6 ) .
a

135
134
Além de Ioda essa série de opções e possibilidades, longe de Paris, no campo — contém uma detalhada descrição
está a questão que, em relação a outros espaços e lugares, de u m a v i v e n d a ou m a n s ã o - e s c o l a . Das p a r e d e s dos
propõem Françoise Paul-Lévy e M a r i o n Segaud, em sua vestíbulos, corredores e d e m a i s p e ç a s p e n d e m tapetes,
introdução a Anthropologie de Vespace. Ambas as autoras quadros e outros objetos com temas históricos e geográficos,
tomam como pretexto uma frase de Georges Perec em Espèces c l á s s i c o s , mitológicos e religiosos (personagens, cenas,
d'espaces: "Quando n u m quarto dada se muda de lugar a cama, esboços cronológicos, mapas, explicações no verso). Além
pode-se dizer que se muda de quarto ou que é que m u d a ? " 120
. disso, a casa possui u m "gabinete de estudos" com uma
M u d a r a cama é apenas u m a mudança no q u a r t o , elas biblioteca, uma coleção de minerais e outras coisas "curiosas"
perguntam, ou é mudar de quarto? E ainda mais: que é u m e u m j a r d i n z i n h o anexo de plantas usuais. Nessa mansão-
quarto? M u d a r o lugar de u m quarto é uma mudança na casa escola, a Baronesa preparava, a cada dia, itinerários didálicos
ou é mudar de casa? E que é uma casa? M u d a r uma praça de — para usar a terminologia aluai — segundo uma determinada
lugar é uma mudança na cidade ou mudar de cidade? E mais ordem e x p o s i t i v a 122
.
uma vez: que é uma c i d a d e ? 121
Mudar de lugar os objetos e
0 que surpreende na leitura dessas páginas se acha,
os usuários de uma sala de aula é apenas uma mudança na
contudo, no f i n a l , quando se descrevem os jardins, uns jardins
sala de aula ou nos coloca diante de outra sala de aula? Mudar
com céspedes, caminhos e árvores. De acordo com o gosto
a disposição dos espaços n u m edifício ou recinto escolar é
estético da época, a Baronesa confessa seu desagrado em
uma mudança no edifício ou no recinto ou i m p l i c a que nos
relação aos j a r d i n s abruptos, com desníveis. E l a prefere a
encontramos diante de u m edifício ou recinto diferentes? E m
simplicidade neoclássica, regular, horizontal e diáfana. Porém,
tal caso, que é uma sala de aula, que é uma escola, que é o
eis aqui que, ao aplainar os terrenos, d e c i d i u conservar "três
espaço escolar? 0 continente ou o conteúdo, os limites físicos
pequenos montes..., não para o prazer dos olhos, mas para
ou o lugar construído?
que por elas subam meus filhos, porque sinto que esse tipo
de exercício os diverte e os f o r t i f i c a " , ou seja, para a sua
A GUISA D E R E S P O S T A educação f í s i c a . 123

Numa ordem racional disposta com uma


As primeiras páginas das Cartas sobre la educación,
finalidade estética, outra ordem funcional —também, por sua
da Condessa de Genlis — a carta I X , na qual a Baronesa de
vez, racional — impõe uma configuração diferente do espaço.
A Imane conta à Viscondessa de Limours o plano de educação
A educação ilustrada, metódica, leva dentro de s i , q u a l u m
de seus filhos na quinta na q u a l ela havia decidido i r viver,

G E N L I S , Condessa de. Adela y Teodoro, o cartas sobre la educación. Madrid:


1
" P E R E C , Georges. Especes d'espaces. Galilée, 8.1., 1992, p.36 ( I ed. 1974).
a
Imprenta Real, 1 7 9 2 , 2 * e d . Aumentada e corrigida, t . I , pp. 35-42 (a I e d i ç ã o francesa
a

1 1
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n H l i p i d o u , Centre de Créalion I n d u s l r i e l l e , 1983, p. 19. 1 2 3
I b . , p. 4 2 .

136 137
MU iM'\I,II ESCOLAR E n \ ESCOLA COMO LI DAHS PROPOSTAS I Q l E S T 0 K 9

germe, entremeados, aspectos - o jogo, a educação física — interiores —, ao abrir ou fechar, ao dispor de uma ou outra
que rompem a arquitetura ordenada do j a r d i m neoclássico e m a n e i r a as separações e os l i m i t e s , as transições e as
abrem os olhos e, com eles, a mente e o corpo, à sensibilidade comunicações, as pessoas e os objetos, estamos modificando
romântica e ao espaço natural e selvagem, não regulado. a natureza do lugar. Estamos mudando não apenas os l i m i t e s ,
Destinar espaços específicos — lugares construídos — as pessoas ou os objetos, mas também o próprio lugar. Por
para as atividades de ensino e aprendizagem e sua distribuição isso, é necessário deixar esses "pequenos montes" aos quais
e ordenação interna não são senão uma faceta a mais dessa se referia a Baronesa de A l m a n e , abrir o espaço escolar e
entropia negativa (negentropia) que é a educação. A q u i l o que construí-lo como lugar de u m modo t a l que não restrinja a
se quer transmitir, ensinar ou apreender tem de estar mais ou d i v e r s i d a d e de usos ou sua adaptação a circunstâncias
menos d e l i m i t a d o , d e m a r c a d o , mas também ordenado e diferentes. Isso significa fazer do mestre ou professor u m
sequenciado. 0 mesmo acontece com o contexto ordenado e arquiteto, isso é, u m pedagogo e, da educação, u m processo
construído para ensinar e apreender. Sua disposição, funções de configuração de espaços. De espaços pessoais e sociais, e
e usos não são deixados ao acaso. Isso suporia reforçar a de lugares. Ao f i m e ao cabo, o espaço — assim como a energia,
tendência geral e crescente em direção à máxima entropia e, enquanto energia — não se cria nem se destrói, apenas se
com ela, o horror ao vazio, a insegurança e a incerteza. 0 transforma. A questão final é se se transforma em u m espaço
imprevisível, aleatório e instável deslocariam o provável, frio, mecânico ou em u m espaço quente e vivo. E m u m espaço
seguro ou previsível. Por isso, o ser humano prepara e dispõe, dominado pela necessidade de ordem implacável e pelo ponto
ordena e organiza. 0 problema se coloca quando lais precisão de vista fixo, ou.em u m espaço que, tendo em conta o aleatório
e regularidade, normalização e racionalização, realizam-se e o ponto de vista móvel, seja antes possibilidade que l i m i t e .
mediante dispositivos e engrenagens mecânicas ou E m u m espaço, em suma, para a educação, u m âmbito que
organizações maquinais de seres vivos. Quando se esquece não pertence ao m u n d o da mecânica, mas ao m u n d o da
que se opera não com materiais inorgânicos, mas s i m com biologia, ao mundo dos seres vivos.
seres h u m a n o s . Então, c u r i o s a m e n t e , a alta eficácia do
mecanismo planejado revela-se altamente ineficaz. 0 lugar
construído torna-se u m sistema fechado, não flexível nem
adaptável, no qual as necessidades de apropriação territorial
do ser h u m a n o e de configuração de espaços pessoais e
alheios, comuns e compartilhados, tornam-se inviáveis. Ao
estruturar ou modificar a relação entre o interno e o externo
em relação ao meio escolar — as fronteiras, o que se situa
dentro e c que se situa fora —, ou seu espaço interno — entre
as diversas zonas edificadas e não edificadas, entre os espaços

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