Vous êtes sur la page 1sur 173

tido Bokn Gass

Uma introdução à Bíblia

As comunidades cristãs a partir da


segunda geração

SEGUNDO TESTAMENTO
A serviço da leitura libertadora da
Bíblia

V olume 8

Ildo Bohn Gass

Digitalizado por: Jolosa

PAULUS

2005
" M i n ii

KIi;l]i
15. S c lí.: d- l
'> ■ > l 2 i - 9 / 0 S à o L c o j
I;i >nes: (51) 3568-25( r
l ;:ix: (51) 3568-1113
( cl>i@ccbi.org.br
vvww.cebi.ore.brO

«'■ 1’AULUS - 2005


Rua Francisco Cruz, 229
04117-091 São Paulo/SP
! Fone: (11) 5084-3066
I;ax: (11)5579-3627
www.paulus.com.br
cditorial@paulus.com.br

1elaboração: Ilclo Bohn Gass

Revisão: Franciso Orofmo, ]osé Ftlmilson Schinclo, Luiz )osc Dictrich,


Monika Ottcrmann, Sebastião Armando Gamclcira Soares e
Tea Frigerio

Projeto Gráfico e impressão: Contexto Gráfica

Reimpressão: 2010

Tiragem: 1.000

liBM : 85-89000-75-3
r

índice

Apresentação........................................................................................................5
Parte I: As com unidades da segunda geração c ristã......................... 7
Introdução............................................................................................................ 7
A guerra judaico-romana e as comunidades........................................ 12
Evangelho segundo Marcos .................................................................... 13
Um pouco mais de história...................................................................... 21
Herança das comunidades paulinas........................................................ 28
1. Segunda Carta aos Tessalonicenses.............................................. 29
2. Evangelho segundo Lucas e a questão sinótica.......................... 31
3. Livro dos Atos dos Apóstolos...................................................... 44
4. As cartas aos Colossenses eaos Efésios....................................... 47
4.1. Carta aos Colossenses .............................................................. 56
4.2. Carta aos Efésios....................................................................... 58
5. Primeira Carta de Pedro.................................................................. 60
LIerança das comunidades de Tiago....................................................... 63
1. Evangelho segundo Mateus............................................................ 63
2. Carta de Tiago................................................................................... 73
3. Carta de Judas ................................................................................... 77
Conclusão da Ia parte............................................................................... 80
Para orar e aprofundar.............................................................................. 82
Sugestões de leitura.................................................................................... 82
Parte II: As com unidades da terceira geração c ristã................. 85
Introdução.................................................................................................... 85
Um pouco de história................................................................................ 88
Herança das comunidades do Discípulo Am ado................................ 97
1. Livro do Apocalipse.......................................................................... 98
2. Evangelho segundo Jo ão ................................................................. 115
V Plimeira Car oão..............
■I. Segunda Car. oão..............
S. Terceira Cari ,oão..............
I lerança das comvu ides paulinas..
1. Carta aos Hei” _ i s ...................
2. Cartas Pastorai ........................
2.1. Primeira Carta a Timóteo
2.2. Segunda Carta a Timóteo
2.3. Carta a Tito..............
3. Segunda Carta de Pedro
Conclusão da 2a parte...........
Para orar e aprofundar..........
Sugestões de leitura................
Apresentação

Com este livro, Uma introdução à Bíblia chega ao seu último volu­
me, que está dividido em duas partes.
A primeira é uma introdução à vida de comunidades primitivas
da segunda geração cristã, especialmente à literatura do Segundo Testa­
mento que produziram nesse período.
A segunda parte deste volume trata da vida de comunidades da
terceira geração cristã, bem como da literatura bíblica que escreveram.

5
Parte I:
As comunidades da
segunda geração cristã

Introdução

Na segunda parte do volume anterior, ocupamo-nos do movi­


mento missionário das igrejas helenistas especialmente nos anos 50.
Essa década foi a época mais intensa da atividade apostólica de Paulo e
de sua equipe. Como vimos, foi nesses anos que foram elaboradas as car­
tas autênticas de Paulo, os primeiros escritos do Segundo Testamento.
Depois de apresentarmos alguns dados históricos do contexto
no Império Romano e da resistência judaica nos anos 50 c 60, situamos
as viagens de Paulo a partir do concilio de Jerusalém realizado em 49.
Em seguida, vimos alguns elementos centrais na estratégia pas­
toral de sua equipe, que organizou uma rede de comunidades solidárias,
a partir do mundo do trabalho, sem um poder centralizado e livres,
diante da Lei.
Analisamos alguns conflitos que Paulo enfrentou cm conseqüên­
cia da nova prática que suas comunidades viviam. Eram conflitos com
autoridades judaicas, com cristãos judaizantes, com a sabedoria grega c
com o poder econômico e político.
Procuramos também libertar Paulo de certos preconceitos que
temos em relação a ele, a partir de interpretações equivocadas de alguns
de seus escritos. Vimos quatro dessas interpretações que consideramos
não conferir com sua prática. E o caso da sua postura em relação às
mulheres, ao poder imperial, à escravidão e a suas orientações sobre o

7
r<importamento moral dos cristãos. Vimo.-. que ele propõe relações dc
reciprocidade quanto ao gênero, de prudência diante de um poder tira­
no, de superação das relações de escravidão e de uma ética do discerni­
mento.
Por fim, propusemos uma chave de leitura para cada uma das
sete cartas autênticas de Paulo (lTs, ICor, 2Cor, Gl, Fl, Fm c Rm)
Se no volume anterior nos ocupamos da primeira geração cristã,
que corresponde à época apostólica (30-67), nesta parte dedicar-nos-emos
à vida e aos escritos das comunidades no período conhecido como
subapostólico. E a segunda geração. São as pessoas que se converteram a
partir do trabalho pastoral desenvolvido pelas testemunhas dc jesus.
Nas con^unidades da primeira geração, participavam quase exclusivamen­
te ‘pessoas’ que aderiam ao Evangelho de jesus de Nazaré, já nas igre
jas da segunda geração, faziam parte ‘famílias’ inteiras, uma vez que já
havia cristãos que nasceram em famílias que aderiram ás comunidades
cristãs.
Para início dessa época, optamos pelo ano 67, uma vez que deve
ser essa a data aproximada em que já não estão mais vivas as testemu­
nhas que haviam convivido com Jesus. Para data final desse período,
decidimos pelo ano 97, quando já nos encontramos na terceira geração
cristã, o período pós-apostólico.
N a época subapostólica, as comunidades passaram a viver um pe­
ríodo de crise. Primeiro, por causa do desaparecimento da primeiragera-
(ão de discípulos e discípulas. Depois, como conseqüência da persegui­
ção pelos líderes das sinagogas, quando reorganizaram o Judaísmo após
a destruição do templo e de Jerusalém. Por fim, também por causa da
repressão por parte do Império Romano na época dos imperadores
Vcspasiano (69-79), Tito (79-81) e sobretudo Domiciano (81-96).
Foi para ajudar as comunidades a sobreviver a essa crise que nas­
ceram os escritos do Segundo Testamento durante as épocas subapostólica
e pós-apostólica. A literatura que produziram quis ser um apoio, uma luz
num período em que já não havia mais a orientação da primeira geração
de discípulos e discípulas de Jesus de Nazaré e diante da perseguição,
tanto por autoridades judaicas quanto romanas.
O primeiro escrito desse período foi o Evangelho segundo Mar­
cos em torno do ano 70. Mais do que apresentar discursos de Jesus,
esse Evangelho descreve sua prática em defesa e promoção da vida de
quem estava mais à margem da sociedade de então.
Como vimos no volume anterior sobre as primeiras comunida­
des, entre os apóstolos mais influentes nas igrejas nascentes encontra­
vam-se o Discípulo Amado, os apóstolos Paulo, Pedro e, muito próxi­
mo deste, João e Tiago, o irmão do Senhor. Vimos também que cada
um desses apóstolos estava por trás de uma forma peculiar de viver a fé
na presença de Jesus ressuscitado na vida das comunidades da primeira
geração. Foi o caso das igrejas do Discípulo Amado, das comunidades
helenistas e das igrejas da Judéia. Além dessas grandes correntes do
Cristianismo primitivo, certamente ainda houve outras tendências das
quais, no entanto, não temos registros escritos na Bíblia.
As comunidades da segunda e terceira gerações entenderam-se como
herdeiras desses grandes missionários da era apostólica. Para dar autori­
dade aos seus escritos, atribuíam sua autoria a testemunhas da primeira
geração. É por isso que temos escritos desses períodos atribuídos a Pe­
dro (IPd, 2Pd), a Paulo (2Ts, Cl, Ef, lTm, 2Tm, Tt), a Judas (Jd) e a
Tiago (Tg).
Além desses livros que trazem o nome de seus patronos como
autores dos textos, temos ainda outros que pertencem à herança pauli-
na, das igrejas de Jerusalém ou do Discípulo Amado, mesmo que não
tragam o nome de seu fundador. E o caso do Evangelho segundo Lu­
cas e do Livro de Atos dos Apóstolos que pertencem também às comu­
nidades de herança paulina. E também o caso do Evangelho segundo
Mateus que nasceu em comunidades que têm sua origem na Igreja de
Jerusalém e têm em Pedro um de seus protagonistas. Os escritos das
comunidades do Discípulo Amado (Jo, ljo , 2Jo, 3Jo) foram atribuídos
ao apóstolo João ainda no segundo século.
Como os escritos das comunidades do Discípulo Amado são da
terceira geração cristã, objeto de estudo da segunda parte deste volume,
limitamo-nos agora a algumas informações a respeito dessas igrejas no
período subapostólico. E provável que, com a guerra judaico-romana, mem­
bros das comunidades joaninas, como também de outras tendências do
Cristianismo primitivo, tenham se mudado da região da Palestina em

9
direção ã região ao norte e leste do Lago da Galiléia, em direção à Síria
ou a outros lugares. Essa migração se intensificou com a perseguição
sofrida por parte de lideranças das sinagogas nos anos 80 e 90. Como
ainda veremos, começou a progressiva ruptura entre os judeu-cristãos c
as sinagogas nessa época.
Depois de situarmos o primeiro escrito da era subapostólica, isto é,
o Evangelho segundo Marcos, agruparemos os livros da segunda geração
cristã dc acordo com sua pertença a uma ou outra herança apostólica.
Como deixaremos o estudo da literatura produzida pelas comunidades
do Discípulo Amado para a segunda parte, restam especialmente dois
grandes blocos de escritos.
O primeiro está sob a influência das comunidades paulinas. En­
tre os textos de herança dessas igrejas, situamos a Segunda Carta aos
Tcssaloniccnses pelo ano 80, Lucas-Atos pelos anos 85 a 90 e Colos-
senscs-Efésios em torno de 95. Embora a Primeira Carta dc Pedro seja
atribuída a este apóstolo, ela faz parte da herança paulina, como ainda
veremos. O ano de sua redação deve ser 96. Como certamente as Car­
tas Pastorais (lTm, 2Tm e Tt) pertencem à terceira geração, também fica­
rão para a segunda parte.
O segundo bloco de escritos da época subapostólica está sob a influ­
ência das comunidade fundadas pelos apóstolos, especialmente as da
judéia, onde Pedro, ]oão e Tiago, o irmão do Senhor, foram os maiores
líderes. São as igrejas formadas, na sua origem, por pessoas judias de
nascimento. Entre os escritos deixados pelas igrejas de herança de Tia­
go, datamos o Evangelho segundo Mateus pelos anos 85 a 90 e as Car­
tas de Tiago c de Judas cm torno de 95.
A diversidade eclesiológica presente nos escritos do Segundo Tes­
tamento nos ajuda a hoje relativizar tudo o que nos divide, não só den­
tro das diferentes confissões cristãs, mas também entre elas. Desafia-
nos a conviver no respeito às diferenças. Impulsiona-nos a buscar
também a unidade em torno do essencial, deixando-nos questionar
permanentemente pela proposta de fraternidade e de vida anunciada
por (esus.
Além das Cartas Pastorais (lTm, 2Tm e Tt) e dos escritos de
herança do Discípulo Amado (Jo, ljo , 2Jo e 3Jo), ainda ficarão para a

10
segunda parte deste volume a Carta aos Hebreus, a Segunda Carta de
Pedro e o Livro do Apocalipse.
Há uma clara diferença entre as grandes linhas das cartas autên­
ticas de Paulo e os escritos da época subapostólica. Paulo, acima de tudo,
queria ajudar as comunidades a superar crises internas no que diz res­
peito, por exemplo, às relações de gênero, de classe, de culturas, de
carismas, de lideranças, bem como às ameaças de cristãos judaizantes.
Também essas questões estão presentes nos escritos da segunda
geração. Mas há um dado novo. Os escritos das eras subapostólica e pós-
apostólica querem ajudar as comunidades a sobreviver à crise gerada com
a morte das primeiras testemunhas de Jesus e com a perseguição por
parte de líderes das sinagogas e das autoridades romanas. Além de esta­
rem voltados para questões internas, estão também interessados no
fortalecimento da estrutura das comunidades para sua sobrevivência
em um novo momento histórico.
Como eram comunidades pequenas e fracas, não tiveram força
suficiente para resistir a perseguição. Em boa medida, sua lenta institu­
cionalização é conseqüência dessa fragilidade estrutural diante das for­
ças de opressão. O patriarcado, que possivelmente nunca fora vencido
na sua totalidade, foi sendo reforçado aos poucos, enquanto o projeto
de comunidades de iguais foi se perdendo. A perseguição romana, além
das questões naturais de identidade de qualquer grupo humano, terá
sido uma das razões fundamentais para a hierarquização, a patriarcali-
zação, a uniformidade e a unificação da doutrina. No entanto, lembra­
mos que a perseguição romana não adngiu a todas as comunidades
com a mesma violência. Aquelas cuja prática e cuja estrutura eram mais
democráticas e diferentes do império, certamente foram mais forte­
mente atingidas. Comunidades menos conflitantes com as estruturas
imperiais foram menos abaladas.
Esperamos que o estudo e a meditação da literatura que a segunda
geração nos legou renove nossa esperança e nosso compromisso com os
mais pobres, a fim de que as estruturas de nossas instituições não nos
impeçam de nos manter firmes na caminhada em busca da transforma­
ção da sociedade, vivenciando novas relações com todas as criaturas e
seu Criador.

11
A Guerra judaico-romana e as comunidades
No volume anterior (p. 100-105), você já leu sobre o governo
ilo imperador Nero (54-68) e sobre a guerra judaico-romana nos anos
66-73.
No entanto, convém recordar aqui vários acontecimentos que
abalaram a vida das comunidades judaicas e cristãs nos anos 60.
Um deles foi a perseguição de Nero aos cristãos de Roma a parti i
de 64. Outro foi o massacre de judeus que se rebelaram em várias par
tcs do império, sobretudo no Egito em 66. Um terceiro acontecimento
foi a guerra judaico-romana (66-73) que teve como ponto alto a des
truição de Jerusalém e do santuário. Com a destruição da cidade santa c
do templo, os judeus perderam suas principais referências visíveis. Isso
não foi somente algo exterior, atingiu também a essência do Judaísmo.
A principal conseqüência religiosa para a comunidade judaica foi
que o culto não podia mais ser oferecido, uma vez que o altar e o tem­
plo jaziam em ruínas.
Também a casta sacerdotal havia sido morta durante a guerra, ou
pelos zelotas ou pelos romanos. Conseqüentemente, desapareceu o gru­
po dos saduceus. Eles haviam permanecido ao lado dos romanos du­
rante a guerra. Com a tomada do templo pelos zelotas em 66, no início
do conflito com Roma, eles foram praticamente eliminados pelos re­
voltosos que saquearam suas propriedades e queimaram todos os regis­
tros de terras e de dívidas guardados no templo.
A conseqüência política imediata dessa catástrofe para os judeus
foi a transformação da Judéia em província diretamente vinculada a
Roma e não mais aos legados romanos da Síria. Cesaréia passou a ser a
sede dos procuradores romanos, enquanto Jerusalém aquartelava a dé­
cima legião de soldados.
Também as primeiras comunidades de Jerusalém foram direta­
mente atingidas. Sua história durou somente um pouco menos de 40

12
anos. Em 70, muitos cristãos devem ter morrido na guerra ou então
fugiram para outros lugares, como o norte da Galiléia, o sul da Síria e a
Transjordânia. E possível que, depois da guerra, algumas comunidades
tenham se reorganizado, mas a Igreja de Jerusalém havia perdido total­
mente sua importância no contexto das demais comunidades. Com seu
fim, também o Cristianismo, ainda muito cedo, perdeu uma importante
referência. Outras cidades do império passaram a adquirir maior rele­
vância, como foi o caso de Antioquia, de Efeso e de Roma.
Um quarto fator que agravou a crise das comunidades foi a mor­
te dos apóstolos e dos missionários da primeira geração cristã.
Tudo isso contribuiu para que as igrejas entrassem numa nova
fase. Nesse momento, já estamos na segunda geração, que vai desde a guerra
judaico-romana até 97, final do governo do imperador Domiciano.
Depois da queda de Jerusalém, a marca mais forte dessa fase é a trágica
separação entre cristãos e judeus, como veremos adiante.

Evangelho segundo Marcos


uComeço da Boa-Nova de Jesus,
o Messias, o Filho de Deus. ”
(Mc 1,1)

Nas primeiras décadas do Cristianismo, não havia necessidade


de escrever sobre Jesus. Primeiro, porque sua memória ainda estava
muito presente, e as testemunhas que conviveram com ele ainda esta-
vam quase todas vivas e as comunidades reuniam-se em torno delas.
Segundo, porque, como Jesus, os primeiros cristãos também esperavam
a irrupção do Reino para breve (Mc 9,1; 13,26-32; lTs 4,13-5,11). Efe­
tivamente, não havia a necessidade de colocar por escrito a prática e a
mensagem de Jesus de Nazaré. Ao estudar as cartas autênticas de Paulo,
você já percebeu que o apóstolo escreve fundamentalmente para orientar
as comunidades a respeito de questões bem pontuais. Ele não está preo­
cupado em falar da Boa-Nova e da vida terrena de Jesus de Nazaré. Está
mais interessado no Cristo da cruz-ressurreição, no Messias glorioso.
13
Porém, o tempo foi passando, e a prim ara geração cristã, que con­
vivera com ele, foi morrendo ou sendo martirizada. E como seu retor­
no esperado não se realizava, as igrejas sentiram a necessidade dc escre­
ver os evangelhos para que, de um lado, a memória a respeito de jesus
não se perdesse e, de outro, pudesse iluminar a vida das comunidades, a
fim de poderem sobreviver num novo contexto.
Os autores de Marcos foram os primeiros a produzir uma litera­
tura que não era cm forma de carta, de apocalipse, de reflexão sapien-
cial ou de novela bíblica. São eles que inauguram um novo gênero literário
na Bíblia. Escrevem um “Evangelho”, isto é, uma narrativa da prática c da
mensagem de Jesus incluindo sua paixão, morte e ressurreição, organizada
como uma biografia, apresentada como um “Evangelho” isto é, como
uma “Boa-Nova”.

Antes dc seguir seu estudo sobre o Evangelho segundo Marcos,


convidamos você para reler as páginas 51 a 58 do volume anterior, uma
vez que se referem a este Evangelho.

Data, local e autores


Este Evangelho certamente foi elaborado nos últimos anos da
década de 60. A redação final deve ter sido feita imediatamente depois
da destruição de Jerusalém em 70. Como você já viu, Mc 13 faz referên­
cia à guerra judaico-romana, bem como à destruição do templo.
O local onde foi escrito é incerto. Mas é provável que tenha sido
elaborado em algum lugar próximo à Galiléia, talvez na fronteira leste
do Lago dc Genesaré, na Dccápolc ou em Cesaréia de Filipe, ao norte.
Os autores de Marcos têm como destinatários comunidades cristãs de
origem palestinensc. No entanto, elas têm em seu meio pessoas de ori­
gem não-judaica, uma vez que dão explicações a respeito de costumes
dos judeus (cf. 7,3-4). Em Cesaréia de Filipe, há diversidade étnica e foi
lá que Marcos localizou o pedido de Jesus a seu grupo para que fizesse
uma profissão de fé (Mc 8,27-30). Na Decápole, também vivem pesso­
as de outras culturas, uma vez que ali se criavam porcos, animais consi­
derados impuros pelos judeus (Mc 5,1-20).
Como os demais evangelhos,
O * os autores dc Marcos também são

14
anônimos. No entanto, uma tradição do segundo século o atribuiu a
Marcos. Seria o João Marcos em cuja casa se reunia uma igreja doméstica
na cidade de Jerusalém (At 12,12-13). Segundo Cl 4,10, era primo de
Barnabé e foi com ele a Antioquia (At 12,25). Integrou a primeira equipe
missionária de Paulo, abandonando em seguida a missão (At 13,5.13).
Segundo At 15,36-40, esse teria sido o motivo da separação de Paulo
e Barnabé, quando cada um organizou sua própria equipe missioná­
ria. Mais tarde, podemos encontrá-lo novamente em companhia de
Paulo (Cl 4,10 e Fm 24) e dos autores da Primeira Carta de Pedro
(lP d 5,13).
Os autores de Marcos foram pessoas de liderança nas comunida­
des, homens e mulheres que ajudaram a recolher as tradições orais e as
coletâneas escritas. Por fim, uma ou mais pessoas fizeram a redação,
deixando, a seu modo, também o seu estilo, as suas marcas.

Fontes de Marcos
Quando, alguns anos depois, foram editados os evangelhos se­
gundo Mateus e Lucas, seus redatores já tinham à sua frente o texto de
Marcos. Porém, os autores de Marcos tiveram que ser mais criativos,
uma vez que não dispunham de muita coisa escrita além de pequenas
coletâneas e da tradição oral.
De um lado, portanto, suas fontes de consulta foram as coleções
que certamente já existiam e circulavam nas comunidades. Eram cole­
tâneas sobre a paixão, morte e ressurreição de Jesus, sobre suas parábo­
las e sobre sua atividade terapêutica. E provável que, como vimos no
volume anterior, também tenham conhecido o documento da fonte
“Q”. Porém, como estavam mais interessados em sua prática do que
em seus discursos, devem ter omitido intencionalmente os ditos dessa
fonte. Já Mateus e Lucas usaram o documento “Q” como fonte de
consulta, o que ainda veremos.
Além dessas coletâneas, outra fonte importante foi a tradição oral
que se mantinha viva nas igrejas desde o início dos anos 40. Haviam,
pois, passado 40 anos desde o final da vida pública de Jesus até que se
escrevesse o primeiro Evangelho a seu respeito.

15
Objetivos de Marcos
Como os demais evangelhos, também o de Marcos descreve a
vida de Jesus intimamente ligada à vida de suas comunidades. Por isso,
não informa somente sobre a mensagem e os gestos do Nazareno, ma>
mistura a mensagem, a prática e os conflitos de Jesus com a pregação, a
prática e os conflitos das comunidades dos anos 60. Portanto, atualiza
para um novo contexto a Boa-Nova do Messias. E um escrito que tem
um forte compromisso com a militância em favor do Reino. Isso tam
bém nos motiva a atualizar permanentemente o Evangelho aos novos
tempos em que vivemos hoje. É mais ou menos o que nós também
fazemos quando, a partir dos evangelhos, buscamos compreender o
que Jesus faria se estivesse hoje aqui em nosso lugar.
Dois são os principais objetivos do Evangelho segundo Marcos
Um deles é mostrar quem é Jesus de Nazaré para as comunidades. Ou
tro objetivo é mostrar o que é ser discípulo de Jesus de Nazaré nos dias
em que este Evangelho foi escrito.

Quem é Jesus de Nazaré


Um primeiro objetivo de Marcos é mostrar quem é Jesus de Na­
zaré para as comunidades. Por isso, os títulos que confere a Jesus já
refletem a caminhada a partir da experiência com o Ressuscitado. São
uma confissão de fé pós-pascal. Nesse sentido, ele é o Messias, Cristo
ou Ungido (1,1; 8,29; 14,61; 15,32), o Senhor (1,3; 5,19; 11,3), o Filho
de Davi (10,47-48), o Santo de Deus (1,24), o Profeta (6,4.15; 8,28), o
Mestre (5,35; 10,17.51; 11,21), o Pastor (14,27), o Nazareno (1,24; 10,47;
14,67; 16,6).
Mas sobretudo, Jesus é o Filho de Deus. O título deste Evange­
lho já deixa isso muito claro (1,1). Até mesmo os espíritos impuros o
reconhecem como tal (3,11; 5,7). Tanto no batismo (1,11) como na
transfiguração (9,7), a voz que vem do céu o confirma. Conforme
Mc 14,61-62, Jesus mesmo tem essa compreensão de si, diante do in­
terrogatório do sumo sacerdote. No entanto, o ponto alto do livro é
colocar na boca do oficial romano a verdadeira profissão de fé. Todos
devem olhar para o Crucificado e concluir: verdadeiramente este é o
Filho de Deus (15,39).
16
O único título que Jesus usou para si mesmo foi o de Filho do
Flomem (2,10.28; 8,31.38; 9,9.12.31). No Livro de Ezequiel, esse nome
significa criatura humana (Ez 2,1.3.6.8). No Livro de Daniel, filho do
homem é uma referência ao povo fiel a Deus e dele recebe o Reino
prometido (Dn 7,13-14.18.22.27). Juntando os dois significados, pode­
mos concluir que, ao assim se referir a si mesmo, Jesus assume a missão
de concretizar o Reino de Deus, um Reino de vida plena, em meio às
criaturas humanas.
Outro aspecto da pessoa de Jesus é que ele ensina com autorida­
de e não como os escribas (1,21-22.27; 11,17). Seu ensino e suas ações
são manifestações do poder de Deus, das forças do Reino. Ele tem o
poder de perdoar pecados (2,5-10), de curar doentes (1,32-34), de ven­
cer as forças do mal (1,27; 3,27) e tem poder até sobre a natureza (4,41).
No entanto, Marcos chama a atenção para que se evite a fé num
Jesus triunfalista e todo-poderoso, sem levar em conta a cruz, isto é,
todo sofrimento que teve que enfrentar por causa de sua fidelidade ao
projeto do Reino. Certamen­
te, será por isso que insiste em " O centurião, que se
que se guarde segredo a res­ achava bem defronte dele,
peito do seu poder terapêuti­ vendo que havia expirado
co (1,44; 5,43; 7,36; 8,26) e de deste modo, disse: De fato,
seu poder sobre as forças ma­ este homem era filho de D eus!"
lignas (1,25.34; 3,12). Pede (Mc 15,39)
também a seus discípulos que
guardem segredo ao o identificarem com o Messias (8,29-30). Devem
também manter no anonimato a revelação de que Jesus é o Filho Ama­
do do Pai. Ele veio cumprir a esperança anunciada pela Lei, representa­
da por Moisés, e pelos profetas, representados por Elias (9,2-9). Ele é o
Messias que passa pela cruz, o Servo sofredor (8,29-31). E na cruz que
o centurião romano reconhece que Jesus é o Filho de Deus (15,39). E
para você, qual é sua experiência com Jesus? Quem é ele para você?
Nas páginas 51 a 54 do volume anterior, você já leu mais sobre
“Jesus, um Messias terapeuta que passa pela cruz”, e sobre o enfrenta-
mento entre as forças do Reino e as forças do demônio no item “Jesus
é mais do que um Messias sábio e mestre”.

17
Por fim, mais do que apresentar o Nazareno fazendo muitos dis­
cursos, Marcos descreve especialmente sua prática libertadora. Ele veio
perdoar os pecados (2,5-10). Assim, libertava as pessoas do poder reli­
gioso de sua época, da exploração que o templo fazia ao exigir o ofere­
cimento de sacrifícios para alcançar o perdão divino. Além disso, ele
ajuda as pessoas a fazerem uma nova experiência de Deus. Para fazer
comunhão com Deus, os sacerdotes e os sacrifícios não são mais a
única mediação. Em Jesus, Deus misericordioso oferece gratuitamente
seu perdão, mesmo longe de Jerusalém.
Jesus também liberta as pessoas de doenças e de todas as forças
malignas que impedem a manifestação do Reino. E o faz, estimulando-
as a terem novamente auto-estima e a liberarem em seu interior as suas
energias, agora potencializadas pela força divina. Jesus chama de fé essa
confiança na plena comunhão com Deus, isto é, nossa capacidade re­
forçada com a ação do Espírito. Capacidade que leva as pessoas a per­
ceberem que Deus age em Jesus, e a terem coragem de romper qual­
quer obstáculo para d’Ele se aproximarem. Veja, nos seguintes textos,
como ele valoriza a importância da fé no ato da cura: 2,5; 5,34; 9,23-24;
10,52! Ao curar, Jesus resgata a dignidade das pessoas doentes que eram
discriminadas como pecadoras e castigadas por Deus, como se pensa­
va. Liberta-as também da tradição legalista, que impedia o acesso à vida
digna.
Resgata igualmente outros grupos excluídos da cidadania, como
mulheres, leprosos, deficientes e pobres. Jesus concretizava seu anún­
cio do Reino de Deus como Boa-Nova para as pessoas pobres, margi­
nalizadas e excluídas, principalmente convidando-as para comerem junto
com ele. E deve ter feito isso com uma relativa freqüência, pois os
evangelhos nos mostram Jesus muitas vezes em torno de uma mesa,
(Mc 1,29-31; 2,15-16; 14,3.17-25;
"Segui-me e eu vos tornarei 16,14), falando de pão (Mc 2,23-26;
pescadores de ho m ens." 8,14-21), de comida (Mc 2,18-19;
(Mc 1,17) 7,1-23; 8,27-28), repartindo o pão
(Mc 6,30-44; 8,1-9). Tanto que isso
lhe rendeu o apelido de comilão e beberrão (Mt 11,19; Lc 7,34). Tam­
bém terá sido por isso que o pão e o vinho partilhados ao redor de uma

18
mesa são o sacramento principal do Cristianismo. Sobre a prática liber­
tadora de Jesus junto aos pobres, você já leu nas páginas 176-187 do
volume seis desta Introdução.

O que é ser discípulo de Jesus de Nazaré


Outro objetivo central dos autores de Marcos é mostrar o que é
ser discípula e discípulo de jesus de Nazaré.
Desde o início do Evangelho, Jesus aparece convidando pessoas
para o seguimento, isto é, ao discipulado (1,17-20; 2,14). Eram homens
(1,16.19; 2,14) e mulheres (15,40-41) que o seguiam na Galiléia e no
caminho para Jerusalém.
E é justamente nesse caminho desde a Galiléia até Jerusalém que
ele prepara mais de perto a quem o segue, dando-lhes instruções sobre
as exigências do seguimento. E nesse caminho que ele deixa bem claro
quais são as principais atitudes dos seguidores e das seguidoras do seu
projeto. E o caminho da cruz-ressurreição. E a cura da cegueira dos
discípulos. O bloco que descreve o caminho para Jerusalém tem como
moldura duas curas da cegueira. Começa com a cura do cego de Betsaida
(8,22-26) e termina com a cura do cego Bartámeu de Jericó (10,46-52).
Na primeira cena, o cego de Betsaida representa a situação dos
discípulos que passam por um processo lento de abertura dos olhos, do
coração e da consciência. A partir do ensino e da prática libertadora de
Jesus, passam a ver “aspessoas que nem árvores andando” (8,24). Porém,
com a fé na presença de Jesus ressuscitado, passam a “ver tudo claramente”
(8,25). Mas essa clareza ainda é insuficiente quando não se passa por
uma mudança da mente e do coração. E insuficiente quando não se
compreende o messianismo que passa pela cruz-ressurreição. Por isso,
“mandou-opara casa” (8,26), a fim de amadurecer ainda mais. Esse pro­
cesso de amadurecimento está proposto em Mc 8,31 a 10,45, no cami­
nho para Jerusalém.
Propomos que você leia agora esse bloco, seguindo a proposta
de divisão que segue, e prestando atenção principalmente em que con­
siste ser seguidor e seguidora da Boa-Nova.

19
8,22-26: Processo de cura da cegueira.
8,27-30: Início do reconhecimento de que Jesus é o Messias.
8,31-32a: Primeiro anúncio de que ele passará pela cruz-ressur­
reição.
8,32b-33: Cegueira ou incompreensão de Pedro.
8,34-9,1: Instruções sobre as atitudes de quem quer segui-lo pelo
caminho.
9,2-29: Complementos.
9,30-31: Segundo anúncio da cruz-ressurreição.
9,32-34: Cegueira ou incompreensão dos Doze.
9,35-37: Instruções sobre as atitudes de quem quer segui-lo
pelo caminho.
9,38-10,31: Complementos e novas exigências para o segui­
mento.
10,32-34: Terceiro anúncio da cruz-ressurreição.
10,35-40: Cegueira ou incompreensão dos discípulos Tiago ejoão.
10,41-45: Instruções sobre as atitudes de quem quer segui-lo pelo
caminho.
10,46-52: Bartimeu: de cego a discípulo.

Ao ler esses textos, você pôde perceber que somente sendo no­
vas mulheres e novos homens, somente vivendo novas relações, pode-
se ser discípulo e discípula de Jesus de Nazaré, o Filho de Deus. Por
isso, a segunda cena, a cura do cego Bartimeu (10,25-52) representa a
maturidade na fé, a clareza quanto às exigências do seguimento. De
modo especial, representa a compreensão de que Jesus é o Messias-
Servo. Ao doar sua vida livremente e por amor, passa pelo sofrimento
que o sistema imperial, com o apoio de autoridades religiosas, lhe
impõe. Tendo tudo isso claro, então se está pronto para “segui-lo pelo
caminho” (10,52). Em três verbos, Marcos nos dá uma síntese do que é
ser discípula e discípulo do Nazareno. São eles: seguir, servir, subir (Mc
15,40-41).
E hoje, para o seguimento de Jesus em nosso dia-a-dia, que atitu­
des ele nos exige? Que novas exigências faria em nossa realidade, dois
mil anos depois? Segundo Mc 1,1, este relato é apenas o “começo daBoa-

20
Nova de Jesus, o Messias, o Filho de Deus”. Ao iniciar assim a sua obra, os
autores de Marcos certamente estão nos convidando a levar adiante o
anúncio e a vivência do Reino de Deus em nossos dias, promovendo a
vida e a dignidade, especialmente de quem é excluído desses direitos
básicos.

Estrutura de Marcos
Propomos uma estrutura simplificada para o Evangelho segun­
do Marcos.
1,1-15: Introdução: início da Boa-Nova e apresentação do Messias, que
anuncia a proximidade do Reino e a necessidade de conversão.
1,16-20: Chamamento para o seguimento.
1.21-8,21: Ministério na Galiléia e arredores. Jesus ensina com autorida­
de e promove ações libertadoras em favor das pessoas mais
discriminadas, revelando o poder de Deus. No entanto, fami­
liares (3,20-21) e compatriotas (6,1-6), autoridades religiosas
e políticas (2,1-3,6), bem como os discípulos (6,49-52; 7,17­
18; 8,14-21) são cegos e não o compreendem.
8.22-10,52: Cura da cegueira de quem o segue no caminho para Jerusalém.
11-13: Atividade de Jesus em Jerusalém, lugar do conflito e da rejeição.
14-16: Paixão, morte e ressurreição. A cruz revela a cegueira das autori­
dades e é luz para a comunidade de Marcos.

Um pouco mais de história


66: Explode a Revolta judaica que será reprimida pelo Império
Romano com uma guerra que só irá terminar no ano de 73.
Durante esta guerra, muitos grupos judeus irão desaparecer e
ocorrerá a fuga dos cristãos da Judéia.
69-79: Tito Flávio Vespasiano, imperador romano.
70: O general Tito, filho de Vespasiano, destrói Jerusalém e o templo.
Redação final do Evangelho segundo Marcos.
71: Em Roma, Vespasiano e Tito desfilam vitoriosos com os des-
pojos do templo e os prisioneiros de guerra Simão Bargiora e
João de Gíscala, que são executados.

21
71-72: Lucílio Basso, legado romano da província imperial da Ju-
déia.
73: Derrota da última resistência dos zelotas em Massada. Flávio
Silva, legado da Judéia.
74-132: Vigência do sinédrio emjâmnia. A academia de Jâmnia foi
fundada pelo rabino Johanan ben Zakai. Acirram-se os con­
flitos que levarão à separação progressiva entre as comuni­
dades cristãs de origem judaica e as sinagogas.
79-81: Tito, imperador.
Pelo ano 80: Segunda Carta aos Tessalonicenses.
81-96: Imperador Domiciano, irmão de Tito.
85-90: No sínodo de Jâmnia, o Judaísmo rabínico estabelece o
cânon dos livros sagrados para os judeus e a exclusão defini­
tiva dos judeu-cristãos das sinagogas.
Início da progressiva separação entre as comunidades cris­
tãs e as sinagogas judaicas.
Em torno de 90: Evangelho segundo Mateus, Evangelho segundo
Lucas e Atos dos Apóstolos.
Pelo ano 95: Cartas aos Colossenses e aos Efésios, Primeira Car­
ta de Pedro e Cartas de Tiago e de Judas.
96-98: Nerva, imperador.
98-117: Trajano, imperador.

O sinédrio se reúne em jâm nia


No Judaísmo, a partir de 70, a sinagoga passou a ser o único
lugar para prestar culto ao Senhor. Já não existem mais o templo e o
altar de sacrifícios. A partir de agora, a Lei escrita e a tradição oral, que
já tinham uma considerável importância antes mesmo da destruição de
Jerusalém, passam a ser o único elemento unificador do povo judeu.
Como já vimos, a guerra com Roma não só levou ao fim do
templo e de Jerusalém, mas também representou o fim para vários gru­
pos, como os zelotas, os saduceus, os sacerdotes, os essênios e muitos
samaritanos.
Com o desaparecimento da elite sacerdotal, os fariseus saíram

22
fortalecidos da catástrofe. Nunca tinham apoiado de forma irrestrita o
movimento revolucionário dos zelotas. Por isso, tornaram-se, através
do sinédrio de Jâmnia, o novo canal legítimo para fazer a mediação
entre o império e os judeus. Foram, inclusive, encarregados dc recolher
os impostos romanos através das sinagogas.
Ainda antes da queda dejerusalém em 70, o rabino Johanan ben
Zakai retirou-se da cidade e declarou publicamente que era contra a
insurreição. Dessa forma, conseguiu permissão romana para construir
uma casa de estudo da Lei emjâmnia, a 19 km ao sul de Jope (Jafa), na
planície litorânea. Apesar da revolta, os romanos continuaram conce­
dendo aos judeus o privilégio de não precisar prestar culto ao impera­
dor. Antes da queda dejerusalém, era-lhes exigido o oferecimento de
um sacrifício diário no altar pelo imperador. Depois da destruição do
templo, Roma exigiu que a didrácma fosse paga a Júpiter, o pai das
divindades romanas. A didrácma, antes da queda do templo, era o im­
posto anual e pessoal pago ao santuário de Jerusalém para cobrir suas
despesas (Mt 17,24).
Como o antigo sinédrio já havia sucumbido, os rabinos de orien­
tação farisaica estabeleceram um novo sinédrio na cidade de Jâmnia em
torno do ano 74.
Jâmnia foi o centro de referência para reorganizar o Judaísmo. A
liderança de ben Zakai foi até o ano 80, quando assumiu em seu lugar
Gamaliel II (80-120). Ali, nasce o farisaísmo rabínico, isto é, o Judaís­
mo sem templo, tendo como principal ponto de referência a Bíblia e a
tradição oral dos escribas. Os fariseus e seus escribas tomaram a lide­
rança dessa forma de o Judaísmo continuar sobrevivendo. Rearticula-
ram-no em torno da sinagoga, da Palavra, do livro da Lei, e não mais
em função do sacrifício no templo. Assim, o farisaísmo tornou-se o
único guardião da tradição judaica, dando-lhe as feições que hoje co­
nhecemos.
O Judaísmo rabínico, na verdade, deu uma nova identidade
israelitas dispersos nas grandes cidades do mundo greco-romano. Ser
judeu é pertencer a um povo que vive de acordo com as mesmas tradi­
ções, com a mesma Lei. No lugar dos sacerdotes do templo de Jerusa­
lém, os rabinos passam a ser as novas lideranças do Judaísmo. Interpre-

23
Iam a Torá para que esta servisse como norma de vida para todas as
comunidades que se reúnem nas sinagogas espalhadas pelo mundo da­
quela época e até os nossos dias.
Se antes o tribunal funcionava no sinédrio junto ao templo, ago­
ra funciona junto às sinagogas. Ali, se decidiam processos como a pena
de flagelação (Mt 10,17; 23,34; Mc 13,9) e a expulsão de judeu-cristãos
(Lc 6,22; Jo 9,22.35; 12,42; 16,2). Veja como Jo 16,2 dá a entender que
até se decidia o apedrejamento de cristãos (cf. At 7,59).
Jâmnia tornou-se o lugar de formação de rabinos, de especialis­
tas da Lei. Mas não só. O novo sinédrio tinha a função de jurisdição
religiosa. Em torno de 85, além de decidir a expulsão dos judeu-cris­
tãos, estabeleceu também o cânon definitivo da Bíblia hebraica, exclu­
indo os textos que só se conhecia em grego. Foram considerados como
livros sagrados somente aqueles que foram escritos na Palestina, em he­
braico ou aramaico, até a época de Esdras e que, além disso, não permitis­
sem às igrejas cristãs fazer uma releitura cristológica desses escritos.
Os componentes desse novo sinédrio excluíram das sinagogas
os judeus que haviam aderido a Jesus como o Messias esperado por
Israel. Na oração sinagogal, introduziram também uma prece, pedindo
a Deus que amaldiçoasse os judeu-cristãos. Entre os evangelhos, quem
mais deixa transparecer o conflito entre os judeu-cristãos e esse novo
jeito de ser do farisaísmo judaico são João e Mateus.

Aumento da perseguição imperial e a religião dos Césares


Tito Flávio Vespasiano (69-79), que estava combatendo os ju­
deus rebelados, é aclamado imperador em 69 e funda a dinastia dos
Flávios, que se estendeu até o imperador Domiciano (81-96). Vespasia­
no, por ser de família plebéia, reforça a religião dos Césares para garan­
tir a unidade ideológica do império. Os imperadores mortos eram cul­
tuados como divindades.
Tito é imperador de 79 a 81. Entre seus feitos grandiosos está a
conclusão do anfiteatro do Coliseu, cujas obras foram iniciadas por seu
pai Vespasiano. Sua política é mais conciliadora. No entanto, foi assas­
sinado. Durante seu reinado, houve a erupção do Vesúvio (79), que
destruiu Pompéia e Herculano.

24
Domiciano reina de 81 a 96. Era filho de Vespasiano e irmão de
Tito. Conseguindo o apoio do exército, consolidou seu domínio sobre
as províncias ocidentais do império (Germânia, Grã-Bretanha e Escó­
cia) e ampliou as do Oriente. ,
Foi um dos mais cruéis imperadores de Roma, mandando matar
qualquer pessoa que lhe causasse problemas. Como seu primo e cônsul
Flávio Clemente se negou a reconhecê-lo como Deus, mandou execu­
tá-lo. Pelo mesmo motivo, exilou para longe sua esposa Domitila. Na­
turalmente, essa forma de exercer o poder aumentou a aversão popular
contra ele.
Domiciano atribuiu a si mesmo títulos divinos, exigindo culto à
sua pessoa. Fazia-se chamar de “Senhor” e “Deus”. Seus documentos
oficiais começavam com essas palavras: “Nosso Senhor e Deus ordena que se
faça o seguinte. ” Cada vez mais, o imperador era divinizado e não podia
ser considerado como simples mortal. Além de mandar colocar ima­
gens suas em todas as províncias do império, patrocinou a construção
de um templo em Efeso, mandando colocar uma enorme imagem sua.
Parece que Ap 13,15 se refere a essas ima­
gens do imperador. "O Cordeiro é o
Para as comunidades cristãs, que são Senhor dos senhores
uma pequena minoria sem maior influência e o Rei dos re is."
política no grande império, não era possível (cf. Ap 17,14)
reconhecer Deus no imperador, uma vez que
para elas somente podia ser venerado um único Senhor.
As perseguições aos cristãos foram desencadeadas especialmen­
te porque estes se negavam a prestar culto ao imperador (Ap 6,9; 7,14;
12,11; 13,15; 20,4). Tudo piorou, quando Domiciano emitiu um decre­
to contra as comunidades cristãs, considerando sua religião ilícita. Isso
aconteceu no momento em que os judeu-cristãos foram expulsos do
Judaísmo na segunda metade dos anos 80. Até ali, o Cristianismo ainda
não era visto pelos romanos como uma nova religião, uma vez que
tinha estreitas ligações com o Judaísmo. Este era uma religião aceita
como lícita por Roma, permitindo, inclusive, que vivesse sua fé em
YHWH sem cultuar as divindades do império.
Essa divinização do imperador fazia parte de sua estratégia poli-

25
tica de dominação. Por um lado, é mais fácil dominar um povo quando
alguém se apresenta em nome de Deus ou como se fosse o próprio
Deus. E só observar, em nossos dias, como há governantes no mundo
que sabem aproveitar-se da religião para impor seus interesses ou para
legitimar guerras. Por outro lado, venerar o soberano como divino era
também sinal dc submissão ao seu poderio.
Já falamos dessa estratégia do poder de se apresentar como re­
presentante das divindades e intermediário entre estas e o povo, ao
mostrarmos como os monarcas no Antigo Israel também adotaram
essa ideologia da filiação divina do rei. Em relação a Davi, você leu no
SI 2,7-8. Quanto a Salomão, você conferiu 2Sm 7,14.
Temos, no Segundo Testamento, vários reflexos dessa diviniza-
ção do poder no Império Romano. Veja alguns exemplos!
1. As comunidades da Ásia Menor são chamadas, como “eleitas”
por Deus, para, acima de tudo, “obedeceraJesus Cristo”e não aos poderes
deste mundo (lPd 1,1-2). São também convidadas a não divinizar o
imperador. Em lPd 2,13, o autor da carta convida seus destinatários a
considerar o imperador uma “criatura humana”e não divina. Deixa claro,
ao mesmo tempo, que Jesus é o “Senhor”. Isso nos mostra que as comu­
nidades cristãs se negaram a prestar culto ao imperador, o que lhes
custou violenta perseguição.
2. |á vimos no volume seis (p. 119-121) como Jesus de Nazaré
retoma o projeto tribal, ao anunciar o Reino de Deus como centro de
seu Evangelho. Dessa forma, recupera a teologia do reinado de YHWH.
Conforme essa teologia, só YHWH é rei (Jz 8,23). Ter essa fé é consi­
derar todas as suas criaturas como suas filhas e não somente o rei como
Filho de Deus. Se todos somos filhos e filhas do Criador, então nossa
missão é viver em fraternidade, superando todas as relações opressivas.
Na medida em que crescia a divinização do imperador, as comunidades
cristãs também afirmavam com maior ênfase que Jesus era o Rei dos
reis e Senhor dos senhores. E são justamente os escritos que surgem na
virada do primeiro século que mais fazem menção a Jesus como Rei.
Veja, por exemplo, lTm 6,15; Ap 1,5; 17,14 ; 19,16! Será por acaso que
o maior testemunho de fé no Evangelho de João, que está na boca do

26
incrédulo Tomé, apresente Jesus como “meu Senhor e meu Deus” (Jo 20,28),
em oposição a Domiciano que se apresentava como “Senhor e Deus”?
3. Ap 13,11-18 desmascara o culto ao imperador divinizado, com
veremos adiante.
Ainda quanto ã questão da devoção a divindades, convém lem­
brar aqui que os romanos identificavam seus deuses com as divindades
veneradas pelos gregos. Estavam intimamente ligadas às forças da na­
tureza. Júpiter (Zeus dos gregos; cf. At 14,12-13), o senhor do céu e da
terra, lançava raios e trovões. Netuno (Posêidon grego), deus dos ma­
res, enviava e acalmava tempestades. Apoio, deus sol e protetor das
artes, enviava e curava doenças. Vênus (Alrodite grega), deusa da bele­
za, do amor e da fertilidade. Mercúrio (Hermes grego; cf. At 14,12),
deus da eloqüência e dos comerciantes. Diana (Artemis grega - cf. At
19,24-28), deusa da caça, dos ciclos da vida e da mãe terra. -
Voltando ao imperador romano, mais uma vez, as intrigas palacia­
nas levaram ao assassinato de um rei. Domiciano foi morto em 96.
Assim, chegou ao fim a dinastia dos Flávios que iniciara com Tito Flá-
vio Vespasiano em 69.
Inicia-se, então, uma nova era no Império Romano. Desta vez,
foi o senado quem elegeu um novo imperador. Escolheu Nerva (96­
98), dando início a uma seqüência de imperadores que seguiam a filoso­
fia grega de que o soberano deveria exercer seu poder como servidor
do bem comum para os “cidadãos”.
Passemos, agora, a estudar o restante dos textos do Segundo Tes­
tamento que a segunda geração cristã nos legou. Classificaremos essa lite­
ratura de acordo com a tradição eclesiológica a que pertence. Em pri­
meiro lugar, veremos os livros que se inserem na herança das igrejas
fundadas por Paulo e sua equipe. São eles: a Segunda Carta aos Tessalo-
nicenses, o Evangelho segundo Lucas, o Livro de Atos dos Apóstolos,
a Carta aos Colossenses, a Carta aos Efésios e a Primeira Carta de Pe­
dro. Depois, olharemos os livros que pertencem à herança das comuni­
dades dos apóstolos e de Tiago. São eles: o Evangelho segundo Mateus,
a Carta de Tiago e a Carta de Judas.

27
Herança das comunidades paulinas
Na segunda geração cristã, os discípulos de Paulo levaram adiante o
projeto missionário do apóstolo. O primeiro objetivo deles foi levar em
I rente seu projeto missionário. Naturalmente, o fizeram com as devidas
íidaptações. Dessa forma, davam respostas a novas perguntas e dificul­
dades que iam aparecendo na caminhada. Assim, a missão que Paulo e
sua equipe realizaram não perdia sua atualidade. Para isso, redigiram
vários textos cm forma de cartas e um em forma de evangelho. A pri­
meira parte deste evangelho apresenta a vida de Jesus (Lc) e sua segun­
da parte, a vida das primeiras comunidades (At).
Outro objetivo da escola paulina foi colecionar as cartas autênti­
cas de Paulo que ainda não haviam sido extraviadas. Conseguiram, in­
clusive, que seus escritos fossem integrados na lista de livros reconheci­
dos por igrejas de tradições diferentes, como é o caso das comunidades
do Discípulo Amado ou aquelas que tinham Pedro e Tiago como seus
fundadores. Dessa forma, evitaram que as igrejas helenistas, fundadas
por Paulo, fossem discriminadas pelas outras correntes cristãs. Fizeram
com que o jeito paulino de seguir Jesus de Nazaré passasse a fazer parte
integrante de toda a Igreja. Assim, suas cartas passaram a ser lidas tam­
bém por comunidades não fundadas pelo Apóstolo das Nações.
Certamente, a Segunda Carta aos Tessalonicenses é o primeiro
escrito da escola paulina durante a era subapostólica e está intimamente
ligada à primeira carta às igrejas de Tessalônica e que já estudamos no
volume anterior.
Além da Segunda Carta aos Tessalonicenses, podemos ainda clas­
sificar outros três grupos de escritos do Segundo Testamento como
sendo de herança paulina. No primeiro, estão os escritos atribuídos a
I .ucas, isto é, o Evangelho que traz seu nome e o Livro dos Atos dos
Apóstolos. É uma obra só em dois volumes. Lucas-Atos não homena­
geiam Paulo, um de seus protagonistas. Não lhe atribuem a autoria,
como no caso da Segunda Carta aos Tessalonicenses. No entanto, fica
evidente que uma de suas finalidades é fazer a defesa de Paulo, como
ainda veremos.

28
No segundo grupo estão as Cartas aos Colossenses e aos Efési­
os. A autoria de ambas é atribuída a Paulo, e Colossenses ainda acres­
centa Timóteo como um de seus autores (Cl 1,1). Os dois escritos têm
muita afinidade entre si. Incluímos aqui a Primeira Carta de Pedro, uma
vez que ela tem muita semelhança com as Cartas aos Colossenses e aos
Efésios. Embora seja atribuída ao apóstolo Pedro, ela também deve ser
de herança paulina.
E no terceiro grupo estão as Cartas Pastorais. Elas também ho­
menageiam Paulo e, valendo-se de sua autoridade, o citam como autor
das duas Cartas a Timóteo e da Carta a Tito. Devemos incluir aqui
também a Segunda Carta de Pedro. Como essas epístolas devem ser do
início do segundo século, deixaremos seu estudo para a segunda parte
que tratará das comunidades da terceira geração cristã.

1. Segunda Carta aos Tessalonicenses


“Quanto à vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo,
não vos perturbeis como se o dia do Senhor
j á estivesse próximo. Não vos deixeis enganar!”
(cf. 2Ts 2,1-2)

Da mesma forma como apresentamos as cartas autênticas de


Paulo no volume anterior, seguiremos também aqui o mesmo esquema
de apresentação das demais epístolas.
Quem? A carta é atribuída a Paulo, Silvano e Timóteo (1,1; 3,17).
No entanto, é mais provável que os autores tenham sido Silvano e Ti­
móteo ou discípulos seus. Há dois motivos para esta suspeita.
1. O ensinamento de 2Ts 2,1-12 se opõe ao de lTs 4,13-5,11
Confira!
A primeira carta anuncia a súbita e imprevisível chegada da paru-
sia, da vinda do Senhor. Diante da demora de seu retorno, 2Ts 2,1-12
afirma que este será antecedido por sinais bem visíveis, adiando a volta
de Jesus para um tempo indefinido. Nas cartas autênticas, Paulo nunca
faz referência a estes sinais precursores da parusia descritos em 2Ts 2,1­
12. Os sinais precursores seriam o surgimento da apostasia, isto é, o

29
abandono da fé, e a vinda do Anticristo.
2. O vocabulário, o estilo e a estrutura das duas cartas têm muit
semelhanças. Frases inteiras da Primeira Carta aos Tessalonicenses são
reiomadas na Segunda. Compare, por exemplo, lTs 1,1-3 com 2Ts 1,1­
3! Neste caso, a Segunda teria sido escrita vários anos depois da Primei-
ni com o objetivo de completar os ensinamentos desta sobre os aconte­
cimentos dos últimos tempos.
Onde? O possível local de redação pode ser tanto a Ásia Menor
como a Macedônia.
Quando? A partir do ano 80.
O quê? Seja qual for o autor, não resta dúvida de que a segunda
carta foi escrita principalmente para apresentar o cenário apocalíptico
dc 2,1-12. Seu autor quis responder às interrogações e às preocupações
das comunidades que estranhavam que o dia do Senhor não chegasse
tão depressa como se esperava quando lTs foi escrita. 2Ts 2,2 refere-se
a lTs 4,13-5,11, como você pode perceber ao comparar os dois textos.
() autor da segunda carta discorda de Paulo, redefinindo o prazo para a
vinda do Senhor.
A carta recomenda que não se espere de braços cruzados a paru-
sia de Jesus. A fé deve ser ativa e a esperança não dispensa a luta. A
segunda carta caracteriza-se pela resistência teimosa daqueles que não
se conformam com o “mistério da impiedade” (2Ts 2,7) presente e atuante
no meio de nós. Longe de especular sobre o final da história, ela esti­
mula à resistência, na certeza de que o “homem ímpio” (2Ts 2,3) acabará
sendo destruído pelo sopro da boca de Jesus. Não há esperança sem
resistência, como não há resistência sem fé na vitória final da justiça e
da verdade.
Como?
Convidamos você a ler toda a carta, seguindo a proposta de es­
trutura que segue.
1.1-2: Saudações.
1,3-12: O justo juízo que vem do Senhor.
2.1-3,15: Ensinamentos sobre a vinda do Senhor e conseqüências para
a vida cristã:
2,1-12: A vinda do Senhor e o combate final;

30
2,13-17: A comunidade não deve temer: firmeza na fé;
3,1-5: Solidariedade através da oração;
3,6-15: Quem não quer trabalhar, que não coma.
3,16-18: Saudações finais.

Contexto:
O contexto da Segunda Carta aos Tessalonicenses reflete uma
situação posterior à primeira, principalmente no que se refere à expec­
tativa da parusia. Os primeiros cristãos acreditavam na vinda iminente
de Cristo, inclusive Paulo (ICor 7,29; lTs 4,15-18). Nos anos 80, todos
os apóstolos já haviam morrido. E nada da volta de Jesus. É para escla­
recer dúvidas sobre a demora da parusia que se escreve essa segunda
carta. Seus autores querem ajudar as comunidades a sobreviver e a se
manter firmes na esperança.

2. Evangelho segundo Lucas e a questão sinótica


“Nasceu-vos hoje um Salvador,
que é o Cristo Senhor, na cidade de Davi.”
(Lc 2,11)

Como já vimos, os primeiros cristãos esperavam a volta gloriosa de


Jesus. Quando estourou a guerra judaico-romana, e, de modo especial,
com a destruição de Jerusalém e do templo em 70, pensavam que a
hora tinha chegado. Porém, quem não chegou como se esperava foi o
Nazareno. O tempo ia passando e a segunda vinda do Messias não
acontecia. Então, aos poucos, muitas comunidades reelaboraram suas
expectativas. Começaram a dar maior ênfase na experiência com o Res­
suscitado já presente, de diversas formas, na vida dos fiéis e das igrejas.
Lc 24,13-35, por exemplo, é um dos textos que quer ajudar as comuni­
dades paulinas a perceber e experimentar o Cristo presente na partilha
fraterna, na solidariedade. Confira o texto!

Fontes de Lucas e a questão sinótica


Como vimos acima, os autores de Marcos tinham pequenas co-

31
Icções escritas em suas mãos. Eram coletâneas de parábolas, de curas e
sobretudo a respeito da paixão, morte e ressurreição. Além disso, co­
nheciam a tradição oral sobre Jesus.
Mais de quinze anos depois do ano 70, quando os evangelhos
que homenageiam Lucas e Mateus tiveram sua redação final, as comu­
nidades já tinham diante de seus olhos o texto de Marcos. Chegaram a
copiar boa parte dele para dentro de suas obras. Aqui e acolá, introdu­
ziam modificações. Portanto, Marcos terá sido a fonte principal que
lhes serviu como base, por ocasião da redação de seus evangelhos.
Além dessa fonte, Lucas e Mateus usaram um segundo texto, do
qual também copiaram muitas coisas. Já falamos disso nas páginas 52-53
do volume anterior, que trata da fonte “Q”. Por isso, convém que você
leia novamente aquelas páginas, antes de continuar seu estudo neste
volume. A fonte “Q” são os textos comuns a Mateus e Lucas, porém
ausentes em Marcos.
Além de copiar boa parte de Marcos e da fonte “Q”, Lucas e
Mateus ainda contêm material que lhes é exclusivo, isto é, narrativas
que somente se encontram ou em Mateus ou em Lucas. Como exem­
plo, citemos os relatos sobre a infância de Jesus (Mt 1-2; Lc 1-2). Ao
comparar as duas narrativas, você perceberá que não estão em Marcos
e provavelmente nem na fonte “Q”. Além do mais, são totalmente dife­
rentes entre si. Cada evangelista elaborou os relatos sobre o menino
|esus a partir da situação pós-pascal de suas comunidades e, ao mesmo
tempo, em função da sua vida nos anos 80.
E, de modo especial, nesse material exclusivo (ME) de cada evan­
gelho, além das modificações introduzidas naquilo que copiaram de Mar­
cos e da fonte “Q”, que podemos perceber as características próprias das
comunidades que estão por trás dos evangelhos de Mateus e de Lucas.
Apresentando em forma de esquema, poderíamos resumir da
seguinte maneira o que acabamos de dizer:
Mc “Q”

ME Lc Mt A ------- ME

32
Outro esquema, com os números aproximados dos versículos,
pode-nos ajudar a compreender a relação que há entre os evangelhos
sinóticos, isto é, Marcos, Mateus e Lucas. São chamados assim, uma vez
que, devido às suas grandes semelhanças, nos dão uma “visão de con­
junto” sobre a vida de Jesus.

Como você pôde ver no esquema, os autores de Lucas copiaram,


com algumas adaptações, em torno de 430 versículos de Marcos. So­
bretudo são os textos que dizem respeito ao ministério de Jesus na
Galiléia, na Judéia e em Jerusalém. Compare, por exemplo, os seguintes
blocos de textos!

33
Mc 1,21-3,6 com Lc 4,31-6,11; Mc 10,13-52 com Lc 18,15-43;
Mc 4,1-25 com Lc 8,4-9,50; Mc 11,1-13,37 com Lc 19,29-21,38.

As parábolas que Jesus contava


Na página 182 do volume seis, quando falamos da atividade tera­
pêutica de Jesus, você já conferiu a lista dos sinais realizados por ele e
relatados nos evangelhos.
Como estamos vendo a questão sinótica, de forma semelhante à
lista das curas promovidas por Jesus, apresentamos agora a relação das
parábolas narradas nos evangelhos. O ensino de Jesus através de pará­
bolas era parte essencial da metodologia desse brilhante contador de
histórias. Que tal reler aquelas linhas?!

As parábolas de Jesus nos evangelhos


Paráb ola M arcos M ateus L ucas Jo ã o
() semeador 4,3-8 13,3-9 8,5-8
4,13-20 13,18-23 8,11-15
A semente que germina por si só 4,26-29
O grão de mostarda 4,30-32 13,31-32 13 ,18-19
Os vinhateiros malvados 12,1-11 21,33-46 20,9-18
A figueira que brota 13,28-29 24,32-33 21,29-31
C) porteiro 13,33-37 12,35-38
A caminho do tribunal 5,25-26 12,58-59
A casa sobre a rocha 7,24-27 6,47-49
As crianças que se desafiam 11,16 -19 7,31-35
A casa e os espíritos imundos 12,43-45 11,24-26
O trigo e o joio 13,24-30
13,36-43
O ferm ento 13,33 13,20-21
Dupla paráb. do tesouro e da pcrola 13,44-46
A rede do pescador 13,47-48
A ovelha perdida 18 ,12-14 15,3-7
O devedor implacável 18,23-35
O patrão generoso 20 ,1-16

34
Os dois filhos 21,28-32
As bodas 2 2 ,1-14 14,16-24
O homem sem a roupa nupcial 2 2 ,11-1 4
O ladrão noturno 24,43-44 12,39-40
O m ordom o fiel 24,45-51 12,42-46
As dez virgens 25 ,1-13
Os talentos 25,14-30 19,12-27
O grande julgamento 25,31-40
Os dois devedores 7,41-43
O bom samaritano 10,30-37
O amigo importuno 11,5-8
O rico insensato 12,16-21
A figueira estéril 13,6-9
A porta estreita 13,24-30
A escolha dos lugares 14,7-11
Dupla paráb. sobre a torre e a guerra 14,28-32
A dracma perdida 15,8-10
O filho pródigo 15 ,11-32
O administrador prudente 16,1-8
O mau rico e o pobre I.ázaro 16,19-31
O servo humilde 17,7-10
O juiz iníquo c a viúva importuna 18,1-8
O tariseu e o publicano 18 ,9-14
O bom pastor 10,1-5

Estrutura básica dos evangelhos sinóticos


M arcos M ateus L ucas
Prefácio e dedicação do livro 1,1-4
Histórias da infância 1-2 1,5-2,52
João Batista, batismo e tentações de Jesus 1,1-13 3,1-4,11 3,1-4,13
Missão de Jesus na Galiléia 1,14-6,13 4,12-13,58 4,14-9,50
Atividade itinerante c viagem para Jerusalém 6,14-10,52 14,1-20,34 9,51-19,27

35
Atividade em Jerusalém, última ceia
ecrucificação 11,1-15,47 21,1-27,56 19,28-23,56
Ressurreição c aparições 16,1-8
(16,9-20 é 28 24
apêndice)

Fonte “Q” em Mateus e Lucas


Como Mateus, os autores de Lucas copiaram 230 versículos da
fonte “Q”. São sobretudo ditos, sentenças de Jesus, salientando seu
carinho, sua opção pelas pessoas empobrecidas e excluídas. Essas sen­
tenças também o apresentam como Filho do Homem que veio julgar
esta geração, anunciando a vinda iminente do Reino de Deus. Por isso,
apelam para a vigilância. Veja seus principais textos, no quadro abaixo!

A fonte “Q” - Textos comuns somente a Mateus e Lucas


Lucas M ateus
Pregação de João Batista sobre o juízo 3,7-9 3,7-10
3,16-17 3 ,11-12
Tentações de |esus no deserto 4,1-13 4,1-11
As bcm-avcnturanças 6,20b-23 5,3-6.11-12
Am or aos inimigos 6,27-3 6 5,38-48
7,12
() julgamento misericordioso 6,37-42 7,1-5
15 ,14
10,24-25
Bons e maus frutos 6,43-45 7,15-20
12,33-35
3,9 3,10
A casa sobre a rocha 6,46-49 7,21-27
() centurião dc Cafarnaum 7,1-10 8,5-13
Perguntas dc João Batista c resposta dc Jesus 7,18-23 11,2-6
7,24-30 11,7-15
Testemunho dc Jesus sobre João Batista 16,16 21,31-32
7,12
julgamento dc Jesus sobre sua geração 7,31-35 11,16 -19
Missão dos Doze 9,1-6 10,1.7-16

36
Seguimento d e j e sus 9,57-62 8,18-22
Instruções para a missão 10,2-11 9,37-38
10,7-8.16
Ameaças contra a Galiléia 10 ,12-15 11,20-24
“Q uem vos ouve/recebe a mim ouve/recebe... ” 10,16 10,40
Oração de agradecimento e grito de alegria de Jesus 10,21-24 11,25-27
13 ,16-17
O Pai-Nosso 11,2-4 6,9-13
Kxortação à oração 11,9 -13 7,7-11
Bnfrcntamento do poder demoníaco 11,14 -23 12,22-30
9,32-34
O retorno de espírito impuro 11,24-26 12,43-45
O sinal de Jonas 11,29-32 12,38-42
11,16 16,1-4
Luzes e trevas 11,33-35 6,22-23
Discursos contra os fariseus 11,39-52 23,4-36
Coragem dc confessar a fé 12,2-9 10,26-33
12,24 6,26
Pecados contra o Espírito Santo 12 ,10 12,31-32
Assistência do líspírito Santo 1 2 ,11 -12 10,19-20
12 ,14-15
A busca fundamental 12,22-32 6,25-34
O tesouro no céu 12,33-34 6,19-21
Vigilância e fé 12,35-48 24,42-51
Sinal de contradição 12,51-53 10,34-36
Sinais do tempo 12,54-56 16,2-3
Reconciliação 12,57-59 5,25-26
Parábola do fermento 13,20-21 13,33
Kxclusão do Reino dos Céus 13,22-30 7 ,13-14
7,22-23
8 ,11-12
19,30
Palavra sobre Jerusalém 13,34-35 23,37-39
“Todo aquele que se exalta será humilhado, e ...” 14 ,11 23,12
Parábola do grande jantar 14,15-24 22 ,1-14
Condições para ser discípulo 14,25-33 10,37-38
Parábola da ovelha perdida 15,4-7 18 ,12-14

37
1 )cus ou o dinheiro 16,13 6,24
<) Reino sofre violência 16 ,16-18 11,12 -13
( ) escândalo 17 ,1 -3a 18,6-7
() perdão 17,3b-4 18,5
18,21-22
A te 17,5-6 17,19-21
A vinda do filh o do Homem 17,22-37 24,23
24,26-27
24,37-39
24,17-18
10,39
24,40-41
24,28
Parábola dos talentos 19 ,11-27 25,14-30
Recompensa prometida aos apóstolos 22,28-30 19,28

Material exclusivo de Lucas


Os cerca de 490 versículos restantes são material elaborado ou
recolhido exclusivamente pelas comunidades de Lucas. Confira, abaixo,
os principais textos que só encontramos em Lucas!

Infância de Jesus.................................................................... 1-2


Início da vida pública de Je su s.......................................... 4,14-30
Pescaria no Lago de Genesaré........................................... 5,4-11
A ressurreição do filho da viúva de Naim ....................... 7,11-17
A mulher pecadora na casa do fariseu..............................7,36-50
As mulheres discípulas de Je su s......................................... 8,1-3
Má acolhida na Samaria........................................................9,51-56
Missão dos setenta e dois discípulos.................................10,1-12.17-20
Parábola do bom samaritano...............................................10,29-37
Marta e M aria..........................................................................10,38-42
Parábola do amigo importuno............................................11,5-8
“Felizes os que ouvem e praticam a palavra”.............................11,27-28
Partilhar a herança................................................................. 12,13-15
Parábola do rico insensato...................................................12,16-21

38
‘Eu vim trazerfogo à terra... ”.................................................. 12,49-50
Morte de galileus e trabalhadores na torre...................... 13,1-5
Parábola da figueira estéril..................................................13,6-9
Cura da mulher encurvada..................................................13,10-17
Parábola da porta estreita....................................................13,24-30
Jesus e Herodes......................................................................13,31-33
Cura do hidrópico................................................................ 14,1-6
Parábola da escolha dos lugares........................................ 14,7-14
Dupla parábola da torre e da guerra................................ 14,28-33
Parábola da dracma perdida................................................15,8-10
Parábola do filho pródigo...................................................15,11-32
Parábola do administrador prudente................................ 16,1-8
Fariseus, amigos do dinheiro..............................................16,14-15
Parábola do rico e do pobre Lázaro................................. 16,19-31
Parábola do servo hum ilde.................................................17,7-10
Cura dos dez leprosos ......................................................... 17,11-19
A vinda do Reino de D eus..................................................17,20-21
Parábola do juiz injusto e da viúva importuna.............. 18,1-8
Parábola do fariseu e do publicano.................................. 18,9-14
Zaqueu, o chefe dos publicanos....................................... 19,1-10
Lamentação sobre jerusalém ..............................................19,41-44.47-48
Exortação à vigilância.......................................................... 21,34-38
O combate decisivo.............................................................. 22,35-38
Cura da orelha do servo do sumo sacerdote................. 22,50-51
Jesus diante de H erodes...................................................... 23,6-12
Mulheres choram no caminho do Calvário....................23,27-32
O bom ladrão.........................................................................23,39-43
“Pai, em tuas mãos entrego meu espírito.” ................................ 23,46
Os discípulos de Em aús...................................................... 24,13-35
Ultimas instruções aos apóstolos e ascensão de Jesus ..24,44-53

Lembramos novamente que os evangelhos refletem a catequese


que era feita nas igrejas primitivas. Por um lado, eles são parecidos entre
si. Isso se deve ao fato de tratarem do mesmo assunto que é o Nazare­
no. Por outro lado, eles têm diferenças e variações porque, além de

39
apresentar a vida de Jesus, espelham também a vida das diferentes co­
munidades onde nasceram, bem como sua compreensão peculiar a res­
peito do evento Jesus de Nazaré.

Autoria do Evangelho segundo Lucas


Este Evangelho foi atribuído a Lucas pela tradição posterior. Lucas
i ra membro da equipe missionária de Paulo. Juntos, fundaram comuni­
dades no mundo helenista.
Lucas-Atos formam uma só obra em dois tomos. No Livro de
Atos, depois da força do Espírito, Paulo é a personagem mais impor­
tante. E o principal responsável para levar a Boa-Nova de Jesus até os
confins da terra. Sendo o Evangelho segundo Lucas de herança pauli­
na, certamente os pais da Igreja, em meados do segundo século, quise­
ram homenagear um de seus colaboradores que tinha muita proximida­
de com ele. Lucas era médico de Paulo (Cl 4,14) e seu colaborador na
missão (Fm 24; 2Tm 4,11).
Os autores de Lucas e de Atos são discípulos de Paulo na segunda
geração cristã. Além de elaborarem uma teologia a respeito da vida de
jcsus (Lucas) e da Igreja (Atos), eles também têm interesse histórico.
Começam seus dois livros com uma dedicação semelhante às dedica­
tórias das obras históricas daquela época no mundo greco-romano
(Lc 1,1-4; At 1,1-2).
Além disso, eles têm cultura grega elevada e não conheceram
|esus pessoalmente. Parecem também desconhecer a geografia da Pa­
lestina (Lc 4,44). Em Atos, simplesmente ignoram a Galiléia. Não fa­
zem uso dos escritos de Paulo, uma vez que há muitas divergências
entre as cartas paulinas e o Livro de Atos dos Apóstolos, como vimos
nas páginas 112a 114 do volume anterior.

Data e local
Lucas-Atos foi redigido no final dos anos 80. E possível que o
local de redação seja Antioquia ou Efeso, uma vez que Atos guarda
memória dessas igrejas (At 11,19-26; 13,1-3; 14,24-15,2; 19-20). No
entanto, também pode ser a Grécia. E que tanto a Primeira Carta aos

40
Coríntios (cf. 1,26-29; 11,17-34) como o Evangelho de Lucas revelam
uma sociedade altamente estratificada. Lucas tem uma forte preocupa­
ção com os pobres, apelando para a solidariedade (Lc 1,52-53; 4,18-19;
6,20-26; 12,13-21; 12,33-34; 16,19-31; 19,1-10).

Destinatários
Os destinatários são as comunidades paulinas da segunda geração,
espalhadas especialmente pela Grécia, Macedônia c Ásia Menor. Os
dois volumes da obra de Lucas as chamam pelo nome Teófilo (Lc 1,3;
At 1,1). Dedicar essa obra a Teófilo talvez seja um reconhecimento a
quem pode ter financiado sua publicação. No entanto, é provável que
Teófilo seja uma referência a todos os leitores do Evangelho e de Atos,
pois significa ‘amigo de Deus’ ou ‘amado de Deus’. Hoje, você é esse
Teófilo e está recebendo essa obra para descobrir a misericórdia de
Deus no caminho de seguimento ao projeto libertador do Reino.
Um dos elementos que nos fazem ver as comunidades helenistas
como as destinatárias é o fato de Lucas insistir no universalismo da mis­
são de Jesus. Além de não copiar Mc 7,24-30, texto que mostra Jesus
priorizando o povo judeu, Lucas faz questão de dizer que Cristo é luz
das nações (2,32). Diferentemente de Mateus que coloca o Messias como
sendo judeu, descendente de Abraão (Mt 1,1-2), Lucas estende sua ge­
nealogia até Adão, para mostrar que ele veio para toda a humanidade
(3,38). Além disso, lembra pessoas estrangeiras que foram agraciadas
por Deus no Antigo Israel. E o caso da viúva de Sarepta (Lc 4,25-26;
1 Rs 17) e do sírio Naamã (Lc 4,27; 2Rs 5). Além disso, Lucas é o único
Evangelho que fala do envio dos setenta e dois discípulos (10,1-16).
Segundo a Septuaginta, são setenta e dois os povos citados em Gn 10.
Isso, portanto, significa que a missão dos discípulos é levar a Boa-Nova
do Reino a todos os povos. Esse universalismo se confirma mais ainda
no Livro de Atos.
Outro aspecto é a insistência em falar da cidade. Cerca de 40 vezes
Lucas faz referência a ela (1,26.39; 2,3.4.11.39; 4,29.31.43; etc.). Os des­
tinatários, portanto, são comunidades urbanas, onde há ricos e pobres
de várias culturas. O Evangelho quer trazer luzes sobre dois problemas
fundamentais, conseqüência dessa diversidade de classe e de cultura.

41
Por um lado, quer confirmar a abertura da Boa-Nova a todos os povos.
Quer confirmar a prática da equipe de Paulo. Por outro lado, quer ques­
tionar as comunidades que reproduzem as relações de opressão da so­
ciedade escravocrata que legitimava a divisão entre ricos e pobres.

Conteúdo central de Lucas


Um tema central de Lucas é apresentar Jesus como o Salvador do
mundo (2,11.30-32; 1,69.71.77; 23,35). Ele vem para proclamar o amor
universal e a misericórdia de Deus. De modo especial, seu material ex­
clusivo revela esse Deus misericordioso que busca, que protege e que
vai atrás de quem se perdeu ou foi excluído, como publicanos, pecado­
res e estrangeiros. Não deixe de ler Lc 1,50.54.58.72.78 e 6,36!
Confira outros textos exclusivos de Lucas, onde apresenta Jesus
colocando samaritanos como modelos de misericórdia e de gratidão
(10,29-37; 17,11-19), bem como mulheres e publicanos sendo exem­
plos de oração (18,1-8.9-14). Além disso, cura também doentes (13,10­
17; 14,1-6) e acolhe publicanos e pecadores (5,29-32; 7,36-50; 15,1-3.8­
32; 19,1-10).
Outro tema que perpassa toda a obra de Lucas é a presença do
Espirito Santo como força que acompanha, conduz e inspira a missão de
]esus e da Igreja. Em Lucas, veja alguma dessas citações: 1,15.35.41.67;
2,25-28; 3,16.22; 4,1.14.18-19; 10,21-22; 11,13; 12,10.12 e 24,49! Em
Atos, você também pode perceber a forte presença do Espírito, por
exemplo, em 1,2.8; 2,1-13.17-18; 4,31; 8,15.29.39; 10,19.44-48; 13,2.
Ainda mais do que Marcos, Lucas dá ênfase à questão do segui­
mento. Se Marcos descreve a subida para Jerusalém em dois capítulos
(Mc 8,22-10,52), Lucas dedica dez capítulos ao caminho do discipulado
(Lc 9,51-19,27). E o caminho do discípulo é o mesmo caminho do
Mestre.
Por fim, convém mencionar a importância dada à mesa neste Evan­
gelho. Encontramos Jesus freqüentemente nas casas com pecadores,
publicanos e fariseus. Além disso, há outras referências à partilha do
pão e até a negação do pão a quem tem fome. Jesus rompe com a lógica
do templo e o substitui pela casa. Rompe também com a lógica do altar
de sacrifícios. Para ele, é a mesa o lugar do encontro. Por fim, rompe

42
com a lógica da oferenda de carnes sobre o altar, substituindo-as peli£|
vinho e pelo pão partilhados. Você pode conferir os seguintes textos
em sua Bíblia:
• 5,29-32: Jesus come com publicanos, pecadores e impuros na casa de
Levi.
• 7,36-50: Jesus está à mesa na casa do fariseu e ali defende a mulher
pecadora.
• 9,10-17: Jesus promove a partilha do pão, um verdadeiro milagre.
• 10,38-42: Na casa de Marta e Maria, o Mestre indica o caminho do
seguimento.
• 11,37-54: Na mesa do fariseu, Jesus desmascara sua hipocrisia, seu
legalismo.
• 14,1-6: Estando à mesa com um fariseu, Jesus cura um hidrópico no
sábado.
• 15,11-32: Deus misericordioso oferece um banquete ao pecador con­
vertido.
• 16,19-31: Quem come o pão não partilhado, come sua própria conde­
nação.
• 19,1-10: Na casa de Zaqueu, a presença de Jesus promove partilha.
• 22,14-20: Comer o pão repartido é fazer comunhão com o próprio
Deus.
• 22,28-30: A mesa do Reino de Deus pertence a quem for fiel ao pro­
jeto de Jesus.
• 24,13-35: Na casa e no pão partilhados, Deus mesmo se revela em
Emaús.
• 24,41-43: Ressuscitado, Jesus continua participando da partilha na mesa
com seus discípulos de ontem e de hoje.

Estrutura
No plano dos autores deste Evangelho, Jerusalém é o ponto de
chegada do caminho percorrido por Jesus de Nazaré (Lc). E é também
o ponto de partida do caminho da Igreja (At).
Acima, no item “Estrutura básica dos evangelhos sinóticos”, você
pode conferir a estrutura deste Evangelho.

43
3. Livro dos Atos dos Apóstolos
“Mas o Espírito Santo descerá sobre vós e dele
recebereis força. Sereis, então, minhas testemunhas
em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria,
e até os confins da terra. ” (At 1,8)

De forma semelhante a Lucas, que é uma teologia da vida de


)csus, o Livro de Atos dos Apóstolos é uma teologia do Espírito que se
manifesta e se torna visível na vida da Igreja primitiva.
Já vimos que não podemos ler Atos ao pé da letra, como se fosse
historiografia. Mais do que isso, ele é uma teologia das igrejas helenis-
tas. Atos reduz o início das comunidades cristãs aos apóstolos e a Jeru­
salém. Sua perspectiva teológica é mostrar como Jerusalém é o ponto
dc partida da Boa-Nova que é levada por Paulo até o mundo greco-
romano, até os confins do mundo, com a força do Espírito (At 1,8).
Vimos também que Atos não faz nenhuma referência à evange-
lização na Galiléia. Esta merece apenas uma pequena nota em At 9,31.
Só isso já nos faz levantar suspeitas, uma vez que o movimento de Jesus
surgiu na Galiléia e lá terá continuado depois de sua morte.
Como Atos é o segundo volume de uma única obra, seus auto­
res, destinatários, local e data de redação são os mesmos do primeiro
lomo, isto é, o Evangelho segundo Lucas, como vimos acima.
No volume anterior, você já leu mais a respeito do conteúdo de
Atos, ao estudar a respeito das ‘Comunidades dejerusalém’ (p. 58 a 67),
tias ‘Comunidades helenistas’ (p. 68 a 88) e do ‘Concilio dejerusalém ’
(p. 88 a 90).
O Evangelho de Lucas apresenta o caminho do Messias, isto é, a
renovação da Aliança, a chegada do Reino e a revelação da vontade do
Pai. Atos descreve o caminho da Palavra, anunciada e vivida pela Igreja,
chamada a testemunhar Jesus no mundo inteiro. As comunidades são
guiadas pelo Espírito Santo, que é a continuação da presença de Jesus
cm meio às suas igrejas.
Recordemos, agora, quatro objetivos centrais em Atos!
1. Os autores de Atos querem ajudar seus destinatários a aceitar

44
a comunhão de mesa entre pessoas de origem judaica e de outras cultu­
ras. Insistem em dizer que Deus não faz acepção de pessoas (At 10,34­
35). Esse objetivo tem em vista ajudar especialmente pessoas judias a não
mais considerar impuras outras culturas. Desse modo, podiam participar
tranqüilamente e lado a lado com pessoas estrangeiras nas comunidades.
Superam a Lei de pureza e impureza da tradição de seu povo.
2. Querem ajudar também os judeus em conflito com suas sina­
gogas a entenderem que não foram eles que se afastaram da tradição de
Israel. Mas foram as autoridades que se distanciaram da religião de seus
pais. Por isso, ao mesmo tempo em que valorizam, por exemplo, o tem­
plo (At 2,46), também o relativizam (At 6,8-7,53). E, aos poucos, a casa
vai substituindo o santuário. Para Atos, as comunidades cristãs são a
parte de Israel que é fiel aos profetas. Segundo Atos, também as autori­
dades são infiéis à Lei, enquanto os cristãos e Paulo têm fama de obser-
vantes da Lei (At 21,20; 25,8).
3. Um terceiro objetivo dessa obra é ajudar as pessoas que eram
funcionárias do Império Romano a compreenderem que podiam tam­
bém participar das comunidades cristãs. Não é incompatível ser cristão
e, ao mesmo tempo, trabalhar na estrutura imperial. E mais. Num mo­
mento em que a perseguição do império aumentava durante o governo
de Domiciano (81-96), a obra de Lucas quer apresentar, de forma não
tão contundente, o conflito de Jesus e das primeiras comunidades com
as autoridades romanas. Nesse sentido, os autores de Atos amenizam o
conflito entre cristãos e o império, acusando somente as autoridades
judaicas como responsáveis pela morte de Jesus (Lc 22,1-6.66-71). Da
mesma forma, como também os demais evangelhos, inocentam os ro­
manos (Lc 23,13-25). Atos apresenta as autoridades romanas de forma
simpática e favoráveis aos cristãos. Confira algumas dessas citações:
13,12; 16,19-40; 17,6-9; 18,12-17; 19,35-40; 21,31-40; 22,24-29; 23,10;
23,25-30; 25,25-27; 27,3.43! Embora os autores de Atos soubessem que
Paulo e Pedro foram mortos a mando de Roma, eles concluem sua obra
antes que fossem martirizados. Assim, não precisavam fazer referência
a esses atos de violência do império contra as lideranças cristãs.
4. Por fim, como Lucas-Atos se dirige a comunidades em que há

45
pessoas pobres e ricas, seus autores advertem e exortam os ricos a parti­
lharem seus bens com os pobres. Aliás, esta parece ser a condição para os
ricos poderem ser cristãos e participarem da comunidade. Veja alguns dos
seguintes textos: Lc 12,16-21; 16,19-31; 19,1-10; At 4,32-5,11! Veja tam­
bém como o testemunho de várias mulheres é apresentado como incenti­
vo à partilha: Lc 8,1-3; At 9,36; 17,12!
As comunidades de Lucas-Atos querem substituir as práticas do
clientelismo e da hierarquização social (Lc 14,7-11), que só criavam sub­
missão e dependência (Lc 22,25), por práticas novas de solidariedade e
partilha. Como ao redor da mesa cristã quebravam-se todas as hierar­
quias (G13,28; Rm 10,12; ICor 12,13; Cl 3,11), todas as pessoas tinham
a mesma dignidade, comiam da mesma comida e eram tratadas da mes­
ma maneira. Esperava-se que o auxílio dos mais ricos aos mais pobres
gerasse novas relações e não mais reforçasse relações clientelistas de
dominação e reprodução do poder político e econômico. Uma das mais
características ênfases de Lucas é o dar sem esperar nada em troca e dar
a quem não pode retribuir (Lc 6,33-36; 10,29-37; 11,41; 14,12-14.21).

Estrutura de Atos
Entre as várias possibilidades de estrutura de Atos, propomos a
que segue.
1-7: As igrejas de Jerusalém testem u n h a m Jesu s:
1-5: As comunidades-modelo lideradas pelos apóstolos;
6-7: Conflitos de mesa e de coordenação: helenistas X Jerusalém.
8-14: O testemunho do Messias nas igrejas helenistas de Antioquia:
8-12: D ejerusalém a Andoquia: Deus não exclui nenhuma pessoa;
13-14: Andoquia inaugura a mesa aberta a todos na Ásia Menor.
15,1-35: A Igreja de Jerusalém avaliza a missão para além dos judeus.
15,36-21,14: O testemunho da equipe de Paulo, o apóstolo modelo:
15,36-18,22: A segunda viagem missionária chega até a Europa;
18,23-21,14: Terceira viagem missionária.
21,15-28,31: O testemunho sobre Cristo é levado por Paulo até os con­
fins da terra:
21,15-26,32: Paulo preso em Jerusalém e Cesaréia;
27,1-28,31: Paulo é levado a Roma, onde anuncia o Reino de Deus.

46
4. As Cartas aos Colossenses e aos Efésios
“.. porque o marido é a cabeça da mulher,
como também Cristo é a cabeça da Igreja
e o salvador do corpo. ”
(Ef 5,23)

As epístolas aos Colossenses e aos Efésios são apresentadas como


cartas. No entanto, elas têm uma clara intenção de desenvolver uma
determinada compreensão teológica, uma visão de Cristo (cristologia)
e da Igreja (eclesiologia). Por isso, podemos dizer com tranqüilidade
que são tratados teológico-pastorais. Mais do que se referir apenas a
questões bem determinadas em comunidades concretas, são cartas cir-
culares escritas para as igrejas da Ásia Menor.
Essas cartas fazem uma reflexão sobre o Cristo cósmico. Confira
Cl 1,15-20 e 2,9-10! Veja também Ef 1,10.20-23!
Essa compreensão nos revela um alto grau de inculturação na
mentalidade grega. Cristo é a primícia e é o Senhor da criação.
Ambas as cartas se referem ao mistério de Cristo (Cl 1,26-27; 2,2;
4,3; Ef 1,9; 3,3-12). Este mistério é a reconciliação de Deus com o
universo através da cruz-ressurreição, é o plano de salvação em Jesus
(Cl 1,20; Ef 1,7-10). E a vitória de Cristo sobre todos os poderes con­
trários a Deus (Cl 2,15; E f 1,21-22). E a reconciliação de todos os po­
vos com Deus e entre si, derrubando o muro da separação entre judeus
e as demais nações, de modo que todas as pessoas tenham acesso à
cidadania, oferecida gratuitamente pela nova justiça de Deus (Ef 2,11 -
22; Cl 1,26-27). Não deixe de conferir as citações bíblicas!

Cristo é a cabeça da Igreja


A Carta aos Efésios aprofunda Colossenses e a amplia, fazendo
uma reflexão teológica sobre o mistério que é a Igreja. Veja, por exem­
plo, Ef 1,20-23 e 5,21-32!
Nas cartas autênticas de Paulo, a Igreja é entendida como corpo
de Cristo. As igrejas cristãs formam um só corpo em Cristo, sendo
membros uns dos outros (Rm 12,4-5; ICor 12,12-30). Toda comunida­
de forma o corpo inteiro de Cristo (Rm 12,5; ICor 12,27) e não somen­
47
te uma parte como, por exemplo, a cabeça. Ao compreender as comu­
nidades dessa forma, Paulo quer enfatizar a diversidade e a unidade de
quem as integra. Tal como os membros de um mesmo corpo, destaca a
unidade das diversas igrejas em Jesus.
Essa imagem da comunidade como corpo de Cristo indica uma
experiência comunitária com variedade de dons, porém, sem hierarqui­
zação. Não há um destaque para alguém como sendo o cabeça que
dirige os demais membros da Igreja. Você já leu sobre as comunidades
como corpo de Cristo nas páginas 120 a 122 do volume anterior.
Diferentemente de Paulo, seus discípulos da geração seguinte en­
tendem as comunidades não tanto como o corpo todo do Messias. Já
não afirmam que todos os membros das igrejas fazem parte do corpo
inteiro de Cristo. Preferem destacá-lo como sendo a cabeça da Igreja
(Ef 1,22-23; 4,15-16; Cl 1,18; 2,19).
Essa imagem de Cristo como cabeça da Igreja já deve ser fruto
da lenta hierarquização que vai se instalando nas comunidades. É que,
com o crescimento das comunidades e a perseguição por parte das au­
toridades romanas e judaicas, novos problemas iam surgindo. Fazia-se
necessária uma organização maior das comunidades para garantir sua
continuidade num novo e difícil momento.
É interessante notar que, nesse processo em direção a uma estru­
tura cada vez mais sólida na terceira geração cristã, as Cartas Pastorais
enfatizam muito as autoridades como os cabeças do corpo da Igreja,
enquanto os seus membros praticamente desaparecem, como veremos
na segunda parte.

A lenta hierarquização nas comunidades de herança paulina


A literatura produzida pelas comunidades de herança paulina na
segunda geração cristã, de modo especial Atos, Colossenses e Efésios, nos
revelam uma lenta mudança na forma de exercer a liderança nas igrejas
helenistas. Há um processo de hierarquização e de patriarcalização.
Como já vimos, nenhuma vez Paulo faz referência aos presbíte­
ros (anciãos) em suas cartas autênticas. Uma única vez se refere aos
epíscopos (bispos, supervisores, guardiães) na Carta aos Filipenses (1,1),
possivelmente como equipe de diaconia (serviço).
Contudo, na literatura elaborada por seus discípulos anos mais
tarde, como é o caso de Atos dos Apóstolos, já aparecem com mais
freqüência esses termos para se referir às lideranças. A respeito dos
presbíteros nas comunidades paulinas como nas de Jerusalém, você pode
ler em At 11,30; 14,23; 15,2.4.6.22.23; 16,4; 20,17; 21,18. Esses anciãos
são os responsáveis para coordenar as comunidades cristãs, dando-lhes
assistência. Também Tg 5,14 e lP d 5,1, ambos do final do primeiro
século da era cristã, referem-se a eles.
Quanto aos espíscopos, você pode conferir At 20,28. Porém, mais
do que se referir aos bispos como os conheceremos mais tarde, esses
supervisores parecem ser os mesmos presbíteros ou anciãos de At 20,17,
isto é, as lideranças locais na região de Efeso.

A patriarcalização da Igreja
Um dos pontos que as duas epístolas têm em comum são as
listas dos deveres dos membros da família. São os códigos familiares
que estabelecem as obrigações de esposas e maridos, de filhos e pais, de
escravos e seus senhores.
Por isso, paralelo ao processo da lenta hierarquização das comu­
nidades vai também a sua patriarcalização.
Por patriarcalização entendemos o processo como as igrejas fo­
ram retomando, aos poucos, a forma de vida das famílias patriarcais
tanto da cultura dos gregos e dos romanos, como dos judeus. Especial­
mente para a cultura greco-romana, a família era uma representação
menor das relações sociais, em que o poder estava centralizado nas
mãos de homens adultos e senhores de escravos. Para manter esse sis­
tema, nada fhelhor que reproduzir em cada família essas relações. Ali,
cada segmento tem seu papel bem definido. A posição das crianças, das
mulheres e das pessoas escravas é de submissão em relação ao pai de
família. Das decisões deste dependem os demais membros da casa.
È possível que já houvesse algumas igrejas vivendo essas rela­
ções discriminatórias ainda na primeira geração cristã. Mas, como já vi­
mos no volume anterior, não foi assim com a maioria das comunidades.
No entanto, a partir da era subapostólica, cada vez mais igrejas vão assu­
mindo os códigos domésticos da cultura patriarcal.

49
Você pode ler a respeito da submissão das mulheres aos seus
maridos, das filhas e dos filhos a seus pais, bem como dos escravos e
das escravas a seus senhores em Cl 3,18-4,1 e Ef 5,21-6,9. Veja também
lPd 2,18-3,7!
Podemos entender esse processo em duas direções. Primeiro,
sabemos que as comunidades cristãs, por viverem relações alternati­
vas como conseqüência de sua fidelidade à Boa-Nova do Nazareno,
começam a chamar a atenção dos vizinhos e das autoridades. As fa­
mílias não-cristãs, que moravam perto dos locais em que as igrejas se
reuniam para o culto e a celebração da Ceia do Senhor, certamente
estranhavam o comportamento diferente de quem participava dessas
reuniões. Diferentemente das relações no mundo greco-romano, ali
conviviam em pé de igualdade pessoas de classes, gêneros, culturas e
gerações diferentes. As reuniões iam até altas horas da noite. Ouvi­
am-se cantos de louvor na vizinhança. Motivos para desconfiança não
faltavam.
Diante disso, é possível que as orientações para as comunidades
fossem de que seus membros seguissem as normas de comportamento
comuns da sociedade de então. Tudo isso para que não se chamasse
muito a atenção, provocando, dessa forma, denúncias e perseguições.
Nesse caso, a insistência no fato de filhos, mulheres e escravos assumi­
rem um comportamento de acordo com os costumes greco-romanos,
seria uma forma de proteger as igrejas contra a acusação de estarem
desestabilizando aquela sociedade, fundada hierarquicamente em rela­
ções de opressão de senhores sobre escravos, bem como de pais de
família sobre suas mulheres e filhos.
Uma segunda possibilidade é que, na medida em que cada vez
mais aderiam às comunidades pessoas de cultura greco-romana, iam
infiltrando nas igrejas a sua mentalidade e formas de se relacionar. Aos
poucos, foram minando as relações de fraternidade e reproduzindo,
com adaptações, é verdade, o jeito hierárquico de se relacionar nas co­
munidades, no que diz respeito às classes sociais, ao gênero e às dife­
rentes gerações.
Os códigos familiares
No Antigo Israel, a família era um espaço importante de afirma­
ção da identidade de seus membros. Fazer parte de uma família era
pertencer a uma comunidade religiosa e política. Era pertencer a um
povo.
No Pós-Exílio, reforçou-se essa mentalidade ao insistir, por exem­
plo, nas genealogias e na pureza étnica, como vimos nas páginas 127­
129 do volume cinco desta Introdução. Nesse sentido, também a família
israelita pós-exílica, isto é, no período conhecido como a formação do
Judaísmo, recebe um fortalecimento na sua estruturação patriarcal. So­
bre a formação do judaísmo você pode reler as páginas 131-133 do
volume acima citado.
Nas casas, as mulheres tinham mais espaço do que na vida públi­
ca como, por exemplo, na religião oficial dirigida somente por homens.
Em seus lares, elas não estavam diretamente sob o controle do estado
ou da religião controlada pelo templo. Tinham, portanto, mais liberda­
de e tinham mais participação no culto popular ali realizado. Por isso, a
rigidez da moral familiar imposta pela reforma de Esdras e Neemias
certamente também era uma tentativa de controle sobre as mulheres.
Ao estudarmos os livros de Rute, Cantares, Ester e Judite, já vi­
mos como as mulheres resistiram contra essa tentativa de controle por
parte da religião oficial de Jerusalém.
No entanto, para além dessa estrutura familiar patriarcal em Isra­
el, os códigos familiares, que você leu em Colossenses e em Efésios, são
uma adaptação de textos patriarcais e classistas que existiam na literatu­
ra grega como, por exemplo, nos capítulos 1, 2 e 5 do livro primeiro de
Política, obra do filósofo Aristóteles (384-322 a.C.). É o mesmo filósofo
para quem “a fêmea é fêmea em virtude de certa falta de qualidade”.
Para ele, quem transmite o princípio ativo é o macho, enquanto a mu­
lher colabora apenas com a matéria. Se o esperma, no qual está o prin­
cípio ativo, é de boa qualidade, então nasce um menino. No entanto, se
for defeituoso, então nascerá uma menina.
Na cultura da maioria dos filósofos gregos, a família tem priori­
dade sobre as pessoas. Por isso, era tão importante defender a estrutura
da família. As pessoas deviam submeter-se, isto é, sacrificar-se em favor

51
da preservação da família patriarcal, da sua unidade em torno do pai de
família. É o contrário da ideologia neoliberal hoje, em que o indivíduo
tem prioridade sobre a família. O que constatamos em nossos dias é
que a família está, aos poucos, desaparecendo para dar lugar a pessoas
individualistas e consumidoras. E, como sabemos, é o próprio sistema
que ajuda a produzir esses indivíduos, uma vez que precisa deles para se
perpetuar.
Diante do fato de que as comunidades iam se espalhando sem­
pre mais no Império Romano e diante da entrada sempre mais intensa
da mentalidade patriarcal tanto judaica como greco-romana nas igrejas,
a segunda geração cristã estava diante de um problema sério. Como ser fiel
à Boa-Nova da igualdade anunciada e vivida por Jesus, numa estrutura
que escraviza, que discrimina mulheres e crianças, numa sociedade que
não é cristã?
Como historicamente não tinham o poder para mudar o sistema
escravocrata do império e da cultura patriarcal vigente na época, e tal­
vez muitos de seus novos membros nem tivessem interesse em mudar
essas coisas, muitas comunidades seguiram outro caminho. Por um lado,
passaram a cristianizar as estruturas da sociedade de então. Por outro,
patriarcalizaram também o Crisdanismo. Dito de outra forma, adapta­
ram a Boa-Nova às relações de poder da família patriarcal, amenizando
a dureza de sua opressão.
Quanto aos deveres das esposas, dos filhos e de escravos, nada
ou pouco mudou. Confira!
• “Vós, mulheres, submetei-vos aos vossos maridos como convém no Senhor. ”
(Cl 3,18; Não deixe de ler também E f 5,21-24 e lP d 3,1-6!).
• “Filhos, obedecei aos vossos pais em tudo, pois isso é agradável ao Senhor. ”
(Cl 3,20; Confira ainda Ef 6,1-3!).
• “Escravos, obedecei em tudo aos senhores desta vida, não quando vigiados,
para agradar a homens, mas na simplicidade do coração, no temor do Senhor. Em
tudo o que fi^erdes ponde a vossa alma, como para o Senhor e não para homens,
sabendo que o Senhor vos recompensará como a seus herdeiros: é Cristo o Senhor a
quem servis. Quem fa %injustiça receberá de volta a injustiça, e nisso não há acepção
de pessoas. ” (C1 3,22-25; Veja também E f 6,5-8 e lP d 2,18-20!).

52
No entanto, introduziram uma novidade nos códigos domésti­
cos patriarcais. Além de manter os direitos dos pais de família sobre
esposas, filhos e escravos, acrescentaram alguns deveres para eles. Não
eliminaram seu poder, mas suavizaram sua opressão na família tradicio­
nal. Os deveres introduzidos pelas comunidades cristãs e que não cons­
tavam na literatura grega foram os seguintes:
• “Maridos, amai as vossas mulheres e não as trateis com mau humor. ” (Cl
3,19; Não deixe de ver também E f 5,25-33 e lP d 3,7!)
• “Pais, não irriteis vossos filhos para que eles não desanimem. ” (Cl 3,21;
Confira ainda Ef 6,4!)
• “Senhores, dai aos vossos servos ojusto e eqüitativo, sabendo que vós tendes
um Senhor no céu. ” (Cl 4,1; Veja também Ef 6,9!)

Pelo que você leu, pôde perceber que aos fracos no sistema patri­
arcal, isto é, esposas, filhos e escravos, cabia a submissão, a sujeição, a
obediência, a disciplina e a servidão. E assim devia também continuar
nas comunidades de herança paulina na segunda geração cristã. No entan­
to, as comunidades amenizaram a dureza do patriarcado, sugerindo aos
fortes, isto é, aos maridos, pais e senhores, o amor, o bom humor, a boa
vontade, o tratamento justo, mais tolerância e menos ameaças.
Nunca é demais lembrar que o apóstolo Paulo, fiel a Jesus, tinha
uma prática diferente e defendia a igualdade em Cristo e em seu Espírito
(G1 3,28; ICor 12,13). Diferentemente, nas igrejas paulinas da segunda
geração, pede-se a sujeição no Senhor (Ef 5,22) e a obediência em Cristo (Ef
6,1.5).
Se foi necessário estabelecer essas orientações em direção à sub­
missão e à obediência, é porque havia mulheres e escravos ensaiando
um novo tipo de relações nas comunidades, alternativas aos padrões
oficiais da cultura dominante. Por isso, embora a insistência na sujeição
possa ser uma estratégia para proteger comunidades fracas e minoritá­
rias de serem massacradas pelas sociedades em que elas viviam, ela tam­
bém representa uma volta, pelo menos momentânea, aos costumes fa­
miliares patriarcais que as comunidades haviam abandonado, ao se com­
prometer com o projeto igualitário de Jesus de Nazaré.
Outro aspecto é que as Cartas aos Colossenses e aos Efésios

53
rc terem-se às mulheres em relação somente com a família. Diferente­
mente, Paulo se referia a elas especialmente no contexto da comunida­
de, onde elas exerciam a missão como apóstolas, discípulas, diáconas e
pregadoras. Se na segunda geração já não se fala mais desse espaço para as
mulheres, será que isso não significa que estes papéis estavam sendo
questionados e que elas já estavam sendo, aos poucos, excluídas? Na
segunda parte, veremos como as Cartas Pastorais restringem ainda mais
o papel das mulheres nas comunidades (lTm 2,9-15; Tt 2,3-5).
Já não se fala mais em emancipação de escravos, como defendia
Paulo. Agora, a presença de escravos já parece normal. Aceita-se a socie­
dade tal como estabelecia a cultura greco-romana. Procura-se apenas
tornar mais suave a dureza do poder dos pais de família. Para torná-lo
mais suportável, sugere-se que os escravos imaginem estar servindo a
Cristo (Cl 3,22-25; E f 6,5-8). De qualquer modo, continuavam escra­
vos. No entanto, preservavam, pelo menos, a liberdade interior. E ver­
dade que consideravam injusto o sofrimento nas mãos dos senhores
(lPd 2,19). Mas para amenizá-lo, recomendava-se que lembrassem dos
sofrimentos de Cristo (lPd 2,21-25). Será que ainda hoje a teologia do
sofrimento de Jesus não contribui para que multidões se resignem dian­
te da opressão, quando o Nazareno justamente sofreu porque lutou
para que não houvesse mais nenhuma forma de opressão?
Essa cristianização dos códigos domésdcos já foi chamada de
“patriarcalismo do amor”. Porém, as mulheres, que estão engajadas na
luta pela vivência de relações de parceria na questão de gênero, de gera­
ção, de classe e de etnia, têm alertado de que ainda há mais patriarcado
do que amor nesses códigos familiares crisdanizados. Justificam sua
crítica com o fato de o pedido aos maridos de amarem as suas esposas,
bem como de os senhores tratarem os escravos com eqüidade, na ver­
dade, não altera as relações desiguais, mantendo as mulheres subordi­
nadas aos homens e os escravos a seus senhores. Você também percebe
dessa forma?
Ao lermos esses textos, de um lado, importa valorizar os avanços
que houve no acréscimo dos deveres dos pais de família que as comuni­
dades fizeram, uma vez que nos códigos familiares greco-romanos so­
mente constavam seus direitos. E mais. E f 5,21 nos convida a sermos

54
submissos uns aos outros no temor de Cristo. Cl 3,9-11 afirma a igual­
dade. Se partirmos desse princípio, torna-se relatiya a submissão so­
mente das mulheres, dos filhos e dos escravos, sugerindo relações de
parceria.
Além disso, é solicitado aos maridos que tenham a mesma atitu­
de de Cristo em relação ã Igreja (Ef 5,25). Ora, bem sabemos que Cris­
to não exerceu uma relação de dominação sobre sua comunidade. Ao
contrário, envolveu-se afetivamente numa relação de serviço.e entrega.
É bom também lembrar que as igrejas cristãs cresceram muito
nessa época, apesar das perseguições romanas ameaçarem concreta-
mente a vida das pessoas nessas comunidades. Nem tudo era igual e
talvez a diferença com a vida no império não fosse tão pequena. Havia
algo que atraía as mulheres e os escravos para as igrejas. Certamente era
a mesa partilhada e a experiência de ser sujeito livre, digno, com valor
igual aos demais membros da comunidade. Nas igrejas domésticas,
embora com muitos limites e problemas, experimentavam uma cidada­
nia que não podiam alcançar no império. Algo deve explicar o fato de
que pessoas, que já tinham uma vida bastante sofrida, se filiassem a
uma comunidade que era mal falada, caluniada e, às vezes, perseguida
de forma violenta. Portanto, deve-se ter em conta que o pedido para se
comportar conforme os costumes da época pode ser uma estratégia de
proteção à comunidade. Se seus membros, que eram poucos e fracos,
saíssem após a experiência de igualdade realizada em torno da partilha
na mesa a subverter todas as relações na sociedade, eles corriam o risco
de ser perseguidos e destruídos. Apesar de tudo, se juntavam às igrejas
principalmente pessoas pobres, escravas e muitas mulheres.
De outro lado, importa sempre considerar a proposta de Jesus
quando resgatou plenamente a dignidade de mulheres, de crianças e de
todas as pessoas que viviam em situação de discriminação. Além de nos
espelharmos na prática de Jesus para reler esses códigos domésticos,
convém sempre lembrar que muitas comunidades cristãs primitivas tam­
bém experimentaram um novo jeito de se relacionar. Como exemplo,
citemos a experiência das igrejas do Discípulo Amado, conforme vi­
mos nas páginas 42 a 50 do volume anterior. Não convém também que
esqueçamos o esforço do próprio Paulo em propor, nas comunidades

55
(jiu: fundou, relações de parceria entre homens e mulheres, bem como
:t superação das relações de escravidão. Você já leu sobre isso nas pági­
nas 134 a 141 e 145 a 147 do volume anterior.
Com essa reflexão, estamos dizendo mais uma vez que há um
critério básico para interpretarmos as Escrituras na ótica cristã. Esse
critério é jamais perdermos de vista a Boa-Nova de Jesus de Nazaré.
Sua mensagem e sua prática libertadoras são a medida para relermos
qualquer outro texto.

4.1. Carta aos Colossenses


“Não mintais uns aos outros, pois vos desvestistes
do homem velho com as suas práticas e vos revestistes
do novo, que se renova para o conhecimento
segundo a imagem do seu Criador. ”
(Cl 3,9-10)

Quem? O autor da Carta aos Colossenses é um discípulo de


Paulo, talvez Timóteo (1,1). Há muitas palavras e expressões que não se
encontram nas cartas sabidamente de Paulo. O próprio estilo da carta é
diferente. E mais monótono que nas cartas autênticas, onde conhece­
mos um Paulo com os nervos à flor da pele e muito polêmico. Temas
paulinos, como a fé, a justiça, a salvação e a lei, quase inexistem nesta
carta. Somente uma vez faz referência ao Espírito (1,8). Sua eclesiolo-
gia é mais institucionalizada, refletindo anos posteriores a Paulo. Em
vez de se referir em primeiro lugar às comunidades locais, destaca a
Igreja universal, cujo fundamento está no céu (Cl 1,18.24). A carta é
litúrgica, hínica. Sua cristologia é mais evoluída que a de Paulo, desta­
cando o papel cósmico de Cristo como governador do universo (1,15­
20; 2,9-15). A moral é a da família conservadora (3,18-4,1), destoando
da perspectiva libertadora do apóstolo das nações (Fm, ICor 7 e G1
3,28). Nas comunidades fundadas por Paulo, mais que famílias, há pesso­
as convertidas. Já em Colossenses, como também em Efésios e, mais
tarde, nas Cartas Pastorais, temos famílias inteiras nas comunidades. E
nelas que a moral conservadora patriarcal vai, aos poucos, se infiltrando.
Onde e quando? Provavelmente, a Carta aos Colossenses foi

56
escrita em Éfeso pelo ano 95, antes da Carta aos Efésios, pois esta
depende daquela.
O quê? Quanto ao conteúdo, tal como Efésios, mais do que ser
uma carta, Colossenses também é um tratado de teologia pastoral so­
bre a Igreja universal e apostólica. As comunidades de Colossos e de
Laodicéia (Cl 4,16) estavam ameaçadas por heresias que misturavam
elementos de várias religiões e filosofias com o Cristianismo (Cl 2,4.8.16­
23). Davam importância às forças cósmicas, aos seres angélicos e a cer­
tas leis que garantiam bênção. Contra essas filosofias, a carta mostra
que Cristo é a única ligação entre Deus e o mundo. Ele é a imagem do
Deus invisível, sabedoria de Deus, cabeça do corpo que é a Igreja, pri­
mogênito entre os mortos, o único caminho de liberdade e salvação.
Ele é tudo em todos (Cl 3,11). O hino de 1,15-20 é para a carta o que é
o coração para o corpo. O objetivo principal da carta é levar as comuni­
dades a reconstruir sua esperança em Cristo, a glória esperada.
Como?
Entre as muitas possibilidades de divisão da carta, propomos a
estrutura que segue.
1,1-14: Saudação (w. 1-2), ação de graças (w. 3-8) e pedido de
discernimento (w. 9-14).
1,15-20: Jesus Cristo, único mediador, soberano e imagem do Deus
invisível.
1,21-2,5: Jesus Cristo em nossa vida.
2.6-3,4: Iluminando os conflitos, advertindo contra as falsas dou­
trinas.
3,5-4,6: Conselhos práticos para a vivência nas comunidades.
4.7-18: Notícias, saudações e bênção.

Contexto:
Colossos era uma cidade da Frigia, na margem do rio Licos, na
grande estrada comercial que começava em Éfeso e levava a Tarso e à
Síria. Devia sua prosperidade principalmente à criação de ovelhas. Seus
produtos eram industrializados e negociados especialmente na própria
cidade.
O fundador da comunidade cristã de Colossos foi Epafras (1,4-8;

57
4,12), discípulo de Paulo. Cl 2,1 informa-nos que Paulo nunca visitou
essa igreja. A maioria dos membros dessa comunidade parece ter ori­
gem não-judaica (Cl 1,21.27; 2,13). Houve dificuldades por causa de
doutrinas errôneas, como erros baseados no Judaísmo e na filosofia
grega, na corrente que vai tomar corpo posteriormente no chamado
gnosticismo (Cl 2,6-3,4). Os gnósticos dos primeiros séculos de nossa
era faziam parte de correntes filosóficas e religiosas na cultura grega.
Procuravam conciliar as diversas religiões, explicando seu sentido mais
profundo através da gnose, isto é, do conhecimento. O autor da carta
refuta essas doutrinas, afirmando a supremacia de Cristo sobre o mun­
do dos espíritos e mostrando sua mediação única e universal entre Deus
c o mundo.
Por trás dessas questões doutrinárias, certamente temos ques­
tões de poder, de riqueza e de conflitos em torno da partilha na mesa.

4.2. Carta aos Efésios


“Ele éanossapa%deambosospovosfez*tmsó,
tendoderrubadoomurodeseparação
esuprimidoemsuacarneainimizade.”
(Ef 2,14)

Quem? Certamente, o autor de Efésios é um discípulo de Paulo.


Há diferenças profundas em relação às cartas ditas autênticas, quanto
ao estilo e à teologia. Tanto a cristologia como a eclesiologia são mais
evoluídas. A parusia, a vinda de Jesus, não é mais esperada para breve.
A escatologia, os últimos acontecimentos, está ausente na carta. Dificil­
mente, ela pode ser do próprio Paulo, uma vez que seu autor dá a
entender que não conheceu pessoalmente as comunidades de Éfeso
(Ef 1,15). E sabemos que Paulo organizou igrejas naquela cidade du­
rante cerca de três anos a partir do ano 53 (At 19; 20,31).
Onde e quando? Talvez em Éfeso pelo ano 95, depois da Carta
aos Colossenses.
O quê? Colossenses é texto-base para Efésios. Esta é releitu
daquela. Da mesma forma como Gálatas está na base de Romanos,
também Colossenses serve como base para Efésios. Em torno da me­

58
tade dos versículos de Efésios tem paralelo em Colossenses. Compare,
por exemplo,
Ef 1,7 com Cl 1,13-14; Ef 5,19-20 com Cl 3,16-17;
Ef 3,2-13 com Cl 1,24-29; Ef 5,21-6,9 com Cl 3,18-4,1;
Ef 4,1-6 com Cl 3,12-15; Ef 6,21-22 com Cl 4,7-8!
Ef 4,22-24 com Cl 3,9-10;

Esta carta, mais do que ser endereçada aos efésios, é um texto


dirigido a várias igrejas da Ásia Menor. A expressão “que estão em E feso”
(1,1) falta em manuscritos antigos importantes.
Como Colossenses, Efésios é mais do que carta. E um tratado de
teologia pastoral sobre a Igreja universal e apostólica (2,20). E um trata­
do com estilo suave, solene e litúrgico, diferente do estilo de Paulo.
Como em Colossenses, a moral também é conservadora, embora faça
exigências aos pais, maridos e senhores (5,21-6,9), enquanto Paulo é
inovador. Efésios fala do projeto de Deus de salvar a humanidade, cujo
centro é o Cristo glorioso. Ele tem a soberania de toda a criação, de
toda a humanidade (Ef 1,3-14.20-22).
A Igreja universal é o corpo de Cristo, no qual Deus reúne toda a
humanidade na unidade e na paz, superando todas as separações de
etnia e de religião. A polêmica entre judeus e não-judeus já parece supe­
rada (Ef 2,11-22; 3,1-13). Cristo é a cabeça da Igreja e também de toda
a humanidade (Ef 1,22-23; 4,15-16). Além da imagem do corpo, a Car­
ta aos Efésios explica também a Igreja como edifício (Ef 2,19-22) e
como esposa (5,22-23).
Quanto à questão das relações de gênero, de geração e de classe,
convém não esquecer que as normas para maridos, pais e senhores
indicam que também eles entraram nas comunidades. Porém, pelo me­
nos ali, deviam seguir outras formas de conduta e aceitar relações mais
iguais e solidárias. Ao mesmo tempo, são exortados a continuarem as­
sim também em todos os níveis da vida.
Como?
1,1-2: Saudação e bênção.
1,3-3,21: O plano divino de salvação em Cristo. È a parte doutri­
nai sobre a Igreja.

59
4,1-6,20: Exortações para viver o mistério de Cristo.
6,21-24: Saudações finais.

Contexto:
Grande cidade portuária da Ásia Menor. Era capital da província
n unana da Ásia, com toda a estrutura do império. O solo fértil favore­
cia a agricultura e a pecuária. Havia um porto com comércio intenso e
muito artesanato. Cultura em destaque: filosofia, artes, letras e teatro.
Além de cultuar o imperador como divino, Éfeso era também a sede da
1)cusa Ártemis (At 19,23-34). Como já vimos no Livro de Atos, Paulo
i rabalhou em Éfeso por três anos.

5. Primeira Carta de Pedro


Resisti-lhe,firmesnafé, sabendoqueamesmaespécie
desofrimentoatingeosvossosirmãos
espalhadospelomundo.”
(lPd 5,9)
Quem? Quando essa carta foi escrita, Pedro já estava morto há
30 anos, pelo menos. A própria carta deixa transparecer que dificilmen­
te seria de autoria do apóstolo. E que nunca fala de sua ligação com o
|esus histórico. E mais. Pedro era galileu e certamente não era versado
em grego. No entanto, a carta é escrita cm grego culto e se dirige a
comunidades cristãs formadas especialmente por pessoas cuja origem
está em outras religiões, que não o Judaísmo, na Ásia Menor (1,1.14.18;
2,9-10; 4,3-4). Foi nessa região que Paulo fundou inúmeras comunidades.
Na verdade, a Primeira Carta de Pedro traz no seu bojo fortes
traços da teologia de Paulo. E seus autores devem ser seus discípulos
que a atribuíram a Pedro. Pode até ser o mesmo grupo que está por trás
cie Efésios.
Onde? Ao concluir a carta, os autores mesmos dizem que estão
escrevendo desde a “Babilônia”. A partir dos anos 90, Roma passou a
ser chamada dessa forma pelas comunidades cristãs perseguidas (5,13).
lista também é a situação das igrejas destinatárias desta carta, como
veremos adiante. Também os autores do Livro do Apocalipse se refe­

60
rem a Roma, usando esse nome falso (Ap 14,8; 16,19; 17,5; 18,2ss). Era
uma estratégia em momentos de grande perseguição, como veremos na
segunda parte.
Quando? A carta deve ser de 95 ou 96, nos últimos anos da
dominação de Domiciano.
O quê? Diante das dificuldades dessas comunidades, a carta, que
é uma espécie de catequese batismal, quer dar razões para a fé e a espe­
rança (3,15). Quer transmitir coragem e consolo para comunidades per­
seguidas (5,9). Lembra a graça do batismo (3,21) e a esperança na mani­
festação do Messias (5,4). Quer ser um estímulo na resistência. Encora­
ja a suportar o sofrimento e as perseguições que o império lhes impu­
nha. Motiva também a resistir diante da hostilidade que sofrem por
parte dos vizinhos e que não participam nas comunidades (2,11-12;
3,16). Lembra que o sofrimento deve ter um motivo justo. Ao ler 2,20;
3,13-17 e 4,12-19, você perceberá que o sofrimento faz sentido ser for
por causa de Jesus, do projeto de Deus e da prática do bem. Em 2,18­
19, os autores da carta deixam claro que não é justo o sofrimento de
pessoas escravas. E recomendam a resistência no sofrimento, pois tam­
bém Cristo sofreu injustamente (2,20-25). A escravidão, portanto, não
faz parte do plano de Deus (3,13-17; 4,3-4.12-19; 5,9-11).
A carta também tem como finalidade incentivar a comunidade
para que ela seja uma casa acolhedora para os peregrinos (2,5; 4,9.17),
de modo que possam reconstruir sua identidade, suas raízes.
Para reforçar a identidade dos forasteiros, trabalha o conceito de
“eleitos” (1,1; 2,9-10; 5,13) e participantes de um “povo” (2,9-10). São
conceitos que reforçam a coesão e a identidade das pessoas.
Quanto aos códigos familiares (2,18-3,7), já refletimos acima, ao
estudar as Cartas aos Colossenses e aos Efésios.
No entanto, convém lembrar que, como Rm 13,1-7 (volume sete,
p. 141-145), os autores da Primeira Carta de Pedro também chamam as
comunidades a se submeterem aos romanos. Ao ler lP d 2,13-17, você
logo perceberá como o texto deslegitima a divinização do imperador.
Ele é “humano” e não divino (2,13). Sua função como autoridade é
promover o bem e punir os que fazem o mal (2,14). E convidam a viver
como pessoas livres, como servos de Deus (2,16). Os cristãos são con­

61
vidados a temer somente a Deus e a não honrar apenas ao rei, mas a
iodos igualmente (2,17). Diante da forte opressão dos romanos, convi­
dam, como Paulo, a ter uma atitude de prudência frente à tirania do
império.
Como? Propomos que você faça uma leitura dessa carta, seguin­
do a proposta de divisão que segue.
1,1-2: Saudação e bênção.
1,3-12: A nova criação.
1.13-2,10: O novo Êxodo.
2.11-3,12: A nova organização.
3.13-4,11: O novo caminho.
4.12-5,11: A nova utopia.
5.12-14: Saudação final e bênção.

Contexto: As comunidades destinatárias são as do norte e do


oeste da Ásia Menor (1,1). Elas eram formadas especialmente por pes­
soas que haviam se convertido de outras religiões. Eram pessoas es­
trangeiras (1,17; 2,11). Eram também forasteiros lá onde se encontra­
vam. Pertenciam à categoria social que não tinha direitos civis e políti­
cos. São pessoas não-cidadãs, isto é, que não têm amparo jurídico. Por
isso, não podem votar, realizar casamentos, ter propriedades ou receber
herança.
Eram migrantes em busca de um lugar para viver (1,1; 2,11).
Buscavam, portanto, um lar para morar e trabalho para viver com dig­
nidade. Eram sem-teto e desempregados.
Eram comunidades muito perseguidas, seja pela repressão do
império, seja pelos vizinhos não-cristãos (1,6; 2,12.16.18-25; 3,14-15;
4,4.12-19; 5,9-11). Sofriam calúnias, suspeitas, desprezo, marginaliza-
ção e oposições por serem seguidoras de Jesus. São acusadas de subver­
são, por se relacionarem de modo alternativo. Assim, vivendo confor­
me a Boa-Nova do Senhor, as comunidades eram, ao mesmo tempo,
denúncia de uma sociedade injusta, baseada em relações de opressão, e
anúncio profético de um novo jeito de conviver e de se relacionar.

62
Herança das comunidades de Tiago
Chamamos de comunidades de Tiago aquelas que foram fun­
dadas por apóstolos como Pedro, ou que atribuem sua origem a eles.
Um dos líderes importantes dessas igrejas foi Tiago, irmão do Senhor
(G1 1,18-19; 2,9; At 15,6-21). Quando ele foi martirizado em 62, seu
irmão Judas o substituiu na direção das igrejas dejerusalém.
Diferentemente das comunidades de herança paulina, eram igre­
jas em que as pessoas vindas do Judaísmo eram a grande maioria. A
tradição judaica ainda ocupava um lugar central. Estavam ainda muito
ligadas à observância da Lei.
Podemos classificar como de herança das igrejas dos apóstolos e
de Tiago o Evangelho segundo Mateus, a Carta de Tiago e a Carta de
Judas. Tanto Tiago como Judas eram familiares de Jesus (Mc 6,3), além
de dirigirem as comunidades dejerusalém.

1. Evangelho segundo Mateus


“Quantoavós, nãopermitaisquevoschamemRabi,
poisumsóéovossoMestreetodosvóssoisirmãos.”
(Mt 23,8)
Data e local
O Evangelho segundo Mateus foi escrito no final dos anos 80.
Certamente, as comunidades que o editaram viviam na Palestina, talvez
na Galiléia, numa região em que predominavam igrejas formadas por
pessoas de origem judaica.
A primeirageraçãode cristãos pertencentes às comunidades que mais
tarde deram origem a Mateus certamente viveram inicialmente na Judéia.
Entre os apóstolos, Pedro é seu grande protagonista. Percebem-se como
herança dele. Entre os evangelhos, é o de Mateus quem mais importância
dá à figura de Pedro. Veja, por exemplo, o destaque dado a ele em Mt
16,17-19. Ao copiar de Marcos a profissão de fé de Pedro (Mc 8,27-30),
Mateus acrescentou os versículos 17-19. De fato, Mateus é o Evangelho
das comunidades de herança dos apóstolos e dos familiares de Jesus.

63
Com a guerra judaico-romana, muitos membros dessas comuni­
dades da Judéia mudaram-se em direção da GaJiléia, da Síria ou ainda
dc outros lugares. Essa migração se intensificou com a perseguição so­
frida da parte de lideranças das sinagogas nos anos 80 e 90. Como
vimos, os judeu-cristãos foram expulsos das sinagogas nessa época pe­
los rabinos fariseus que passaram a liderar o Judaísmo a partir de 70.
Muitos cristãos da Judéia devem ter se estabelecido na Galiléia e na
Síria.
O conflito dos judeu-cristãos com as sinagogas judaicas deve ser
a razão por que Mateus insiste em dizer que os maiores adversários de
|csus foram os fariseus. Entre os evangelhos, é ele quem mais cita a
palavra “fariseu”, em torno de 30 vezes.
De um lado, Mateus revela esse conflito entre as comunidades
cristãs e as sinagogas nos anos 80 e 90. De outro, reflete também a
tensão entre os cristãos vindos do Judaísmo e os cristãos vindos de
outras culturas. E o que se pode perceber na sua insistência quanto à
observância da Lei, isto é, a justiça ou vontade de Deus (5,17-48). Com
isso, este Evangelho está polemizando com outras tendências cristãs,
de modo especial, com as comunidades de herança paulina, que defen­
diam uma nova justiça divina, dada gratuitamente por Deus a quem crê
cm Jesus, como já vimos.

Autores e suas fontes


E nesse contexto que foi elaborado o Evangelho segundo Ma­
teus. Seus autores devem ser escribas judeu-cristãos. Não deixe de ler
Mt 13,52, onde você pode perceber como escribas judeus se converte­
ram à Boa-Nova dejesus e tiraram das Escrituras do Judaísmo (“tesou­
ro”) tudo aquilo que era aproveitável (“coisas velhas”), acrescentando a
novidade do Nazareno (“coisas novas”). Veja ainda como Mt 23,34
chama de escribas os cristãos!
Em meados do segundo século, os pais da Igreja homenagearam
Mateus (Mt 9,9; 10,3), atribuindo a ele a autoria desse Evangelho. Ao
agir dessa forma, queriam colocar a obra sob a autoria de um discípulo
direto dejesus. Marcos chama esse publicano de Levi (Mc 2,13-14).
Os autores desse Evangelho, isto é, a escola de rabinos cristãos,

64
naturalmente eram profundos conhecedores das Escrituras judaicas. O
texto que usaram para fazer transcrições para o seu escrito é da versão
grega das Escrituras, a Septuaginta. Veja, por exemplo, Mt 1,23; 2,6.15.18!
É interessante também que aqui tenhamos presente tanto Jâm ­
nia como as comunidades mateanas. Em jâm nia, os rabinos judeus de
linha farisaica tentam reconstruir o Judaísmo depois da tragédia de 70.
A partir dos anos 80, para garantir a autenticidade da tradição de Israel,
chegaram a expulsar das sinagogas os judeus que haviam aderido à Boa-
Nova de Jesus.
Em paralelo e em oposição a essa tentativa de Jâmnia, os rabinos
cristãos, que lideram as comunidades cristãs que estão por trás de Ma­
teus, tentam reconstruir a tradição de Israel a partir da fé em Jesus de
Nazaré como o Messias e Filho de Deus. Ele deu novos rumos a Israel.
O Evangelho que elaboraram quis dar identidade ao novo Israel, isto é,
às comunidades cristãs hegemonicamente de origem judaica. Mateus é
fruto desse conflito com o farisaísmo rabínico de Jâmnia. Não é por
acaso que é nele que podemos encontrar as críticas mais duras aos fari­
seus e escribas. Não deixe de ler Mt 23,1-32! Veja também como nele
se substitui os escribas pelos fariseus em alguns versículos que são
copiados de Marcos, comparando Mt 12,24 com Mc 3,22, Mt 22,34
com Mc 12,28 e Mc 12,35 com Mt 22,41.
Quanto às fontes, além da Septuaginta a que já nos referimos, os
autores de Mateus também usaram, como os de Lucas, o Evangelho se­
gundo Marcos como texto-base. Aqui, precisamos voltar ao esquema sobre
as fontes de Lucas e à questão sinótica, que apresentamos acima. Ali,
você pode ver que os rabinos mateanos copiaram ao redor de 510 versí­
culos de Marcos, o que representa mais de 75% daquele Evangelho. Como
você percebeu, Mateus copiou de Marcos mais versículos que Lucas.
Porém, é Lucas quem tem um maior volume de material exclusivo.
Como Lucas, também os autores de Mateus usaram a fonte “Q”,
inserindo 230 versículos em sua obra.
Além disso, usaram material próprio das tradições que circula­
vam nas suas comunidades. Quanto à matéria exclusiva das comunida­
des mateanas, totaliza em torno de 330 versículos. Confira, abaixo, os
principais textos exclusivos de Mateus!

65
A infância d e je s u s ............................................................... 1-2
A nova Lei dada por Je su s..................................................5,17-48
A esmola em segredo........................................................... 6,1-4
A oração em segredo........................................................... 6,5-6
O jejum em segredo............................................................. 6,16-18
Cura de dois cego s................................................................9,27-31
Cura do mudo possesso...................................................... 9,32-34
Cura do cego e mudo possesso..........................................12,22-24
Parábola do trigo e do jo io .................................................13,24-30.36-43
Dupla parábola do tesouro e da pérola........................... 13,44-46
Parábola da rede do pescador.............................................13,47-48
A bem-aventurança para Pedro..........................................16,17-19
Tributo para o tem plo..........................................................17,24-27
A correção fraterna...............................................................18,15-18
A oração em com um ............................................................18,19-20
Parábola do devedor implacável........................................18,23-35
Eunucos pelo Reino..............................................................19,10-12
Parábola do patrão generoso.............................................. 20,1-16
Parábola dos dois filhos .......................................................21,28-32
Parábola do homem sem a roupa nupcial....................... 22,11-14
Parábola das dez virgens......................................................25,1-13
Parábola do grande julgamento......................................... 25,31-46
A morte de Ju das................................................................... 27,3-10
Os guardas no túmulo..........................................................27,62-66
Aparição dejesus às m ulheres........................................... 28,9-10
Astúcia dos chefes judeus ....................................................28,11-15
Aparição dejesus na Galiléia e missão universal...........28,16-20

D estinatários
Os destinatários são comunidades judeu-cristãs nascidas na Pa­
lestina e espalhadas pela Galiléia e Síria. Espalharam-se nessas regiões,
depois da destruição de Jerusalém em 70 e depois da expulsão das sina­
gogas a partir dos anos 80.
Leia, agora, alguns dos textos abaixo, que são memória ainda

66
muito viva do sofrimento desses judeu-cristãos, quando se viram ex­
pulsos de sua própria religião!
6.1-6.16-18; 21,33-46;
10,17-18.21; 22,1-14;
13,10-16; 23,1-39.
16.1-12;
Confira ainda algumas das seguintes citações e perceba como as
comunidades destinatárias de Mateus são formadas por pessoas sem
terra (5,1-5), desempregadas (20,1-16), migrantes (2,13-23; 4,13-16.24­
25; 19,1), perseguidas (5,10-12; 23,13-32) e pobres (11,25-26; 6,25-34;
15,32; 25,31-46).

Conteúdo central
Há vários títulos cristológicos em Mateus, como Messias
(1,1.16.17), Filho de Deus (3,17; 14,33; 16,16; 27,54), Emanuel (1,23),
Rei (2,2; 21,5; 27,11.37), Füho de Davi (1,1; 12,23; 21,15), Füho do
Homem (8,20; 9,6; 10,23) e Servo de Deus (8,16-17; 12,18).
Mas acima de tudo, Mateus quer apresentar Jesus como o Mestre
daJustiça. Ele é o único mestre (9,11; 17,24; 19,16; 23,8; 26,18) que veio
para “cumprirtodajustiça”(3,15). Para a comunidade de Mateus, cumprir
a justiça é realizar a vontade do Pai que se expressa na sua Lei.
Mateus é o único Evangelho que insiste muito na realização da
justiçae no cumprimento da vontadedeDeus.
Quanto àjustiça, confira os textos que seguem!
• 3,15: O batismo de Jesus é um compromisso com o cumpri­
mento de toda justiça.
• 5,6: Na bem-aventurança “Felizesosquetêmfome... ”, que Lucas e
Mateus copiaram da fonte “Q” , Mateus acrescenta “esededejustiça”.
Compare com Lc 6,21!
• 5,10: E material exclusivo de Mateus a bem-aventurança “Feli-
%esosquesãoperseguidosporcausadajustiça,porquedeleséoReinodosCéus”.
• 5,20: Também só está neste Evangelho a exigência de que, para
entrar no Reino, a justiça dos discípulos deve exceder a dos escribas e
dos fariseus. Os seguidores de Jesus são chamados a “seremtãoíntegros
quantooPai celesteéíntegro” (5,48).
67
• 6,1: São também convidados a não praticar sua justiça diante
dos homens para serem vistos por eles.
• 6,33: No convite “buscaioReino...”, que Lucas e Mateus copiaram
da fonte Q, Mateus acrescenta “esuajustiça”.Compare com Lc 12,31!
• 20,1-16: A parábola do patrão generoso e justosó está em Ma­
teus e revela o Reino como justiça e dom gratuito.
• 21,32: Ao falar de João Batista aos sumos sacerdotes e anciãos,
|esus diz que “ Joãoveioavósnocaminhodajustiça”,isto é, em conformida­
de com a vontade de Deus.
• 23,23: Por fim, ao censurar escribas e fariseus, ele os acusa de
“omitiremascoisasmaisimportantesdalei:ajustiça, amisericórdiaeafidelidade”.
Compare com Lc 11,42!

No que diz respeito à vontadedoPai, enquanto realização da sua


justiça, veja as seguintes citações!
• 6,10: Mateus acrescentou na oração do Pai-Nosso o pedido
“sejarealizadaatuavontadenaterracomoérealizadanos Céus”. Compare
com Lc 11,2-3!
• 7,21: Uma oração vazia, sem uma prática conseqüente, não é
agradável a Deus. No entanto, quem praticar a vontade doPai é quem
entrará no Reino dos Céus.
• 12,50: No Reino, todos são irmãos, “
porqueaquelequefitara von­
tadedemeuPai queestánosCéus, esseémeuirmão, irmãemãe”.
• 21,28-31: Jesus conta uma parábola para exemplificar quem de
fato cumpre avontadedoPai.

Como Mestre da Justiça, Mateus apresenta Jesus, fazendo gran­


des discursos, como veremos adiante, quando falarmos da estrutura do
Evangelho. Seu ensino tem autoridade (7,28-29), a tal ponto de propor
alterações na Lei (5,21-48).
Além de apresentar Jesus como o Mestre da Justiça, lembramos
ainda três outros aspectos centrais no conteúdo do Evangelho segundo
Mateus. Apresenta-o anunciando a Boa-Nova a todos os povos, valori­
za de modo especial a tradição de Israel e dá ênfase à presença de Deus
em nosso meio.

68
Em primeiro lugar, convém destacar que um dos objetivos de
Mateus é deixar claro que oEvangelhoéparatodosospovos, na medida em
que o centro dessa universalidade seja o Judaísmo. Os demais povos
devem “virdoorienteedoocidenteeseassentaràmesadoReinodos Céus com
Abraão, IsaaceJacó”(Mt 8,11).
As igrejas mateanas estão abertas a pessoas de outras culturas,
contanto que assumam a tradição judaica. Admitem estrangeiros nas
comunidades desde que estes se convertam ao Judaísmo e aceitem Je­
sus como o Messias “filho de Davi”.
Como certamente havia pessoas cristãs de origem helenista nes­
sas igrejas, o Evangelho segundo Mateus quer ajudar os judeu-cristãos
a compreenderem que o Messias veio também para eles. Mateus tem
em vista ajudar suas comunidades a superar especialmente duas dificul­
dades. De um lado, quer convencê-las a aceitar jesus como o Messias
esperado. De outro, quer ajudá-las a acolher pessoas não-judias em suas
igrejas.
Embora, o Jesus histórico tenha restringido sua missão aos ju­
deus, as comunidades mateanas foram compreendendo, aos poucos,
que sua missão era universal. Por um lado, ainda há elementos em Ma­
teus que nos remetem ao Jesus que entende sua missão limitada ao
povo de Israel. Veja alguns exemplos!
• A insistência na observância da Lei de Moisés (Mt 5,17-19).
• Manter proibições alimentares (compare Mc 7,15.19 com Mt
15,11.20).
• O fato de considerar os estrangeiros como porcos e cães (Mt
7,6; 15,26-27).
• A limitação da ação de Jesus e dos discípulos somente entre os
judeus (Mt 10,5-6; 15,24). Diferentemente de Mc 7,24-31, Mt 15,21-29
dá a entender que não foi Jesus quem saiu da Galiléia, mas foi a mulher
estrangeira que veio até ele (Mt 15,22).
• De aceitar um tratamento de exclusão dos “gentios e publica­
nos” (Mt 18,17; ver também Mt 5,47; 6,7.32; 10,5.11).

Por outro lado, o universalismo das comunidades de Mateus per­


passa todo o texto, desde o início ao fim. Vejamos alguns textos!

69
• Quanto à etnia, a genealogia dejesus em Mateus (Mt 1,1-17) o
situa em relação ao povo de Israel, uma vez que ela começa com Abraão
(v. 2). No entanto, já é nesta genealogia que podemos perceber que
]csus não tem pureza étnica. Ele pertence a todas as nações. Na árvore
genealógica, quatro mulheres estrangeiras representam todas as cultu­
ras, inclusive a nossa. Mais do que ser um Messias de “raça pura” e
masculino, o messianismo de Jesus, embora davídico, é universal. Ta-
mar é cananéia (Mt 1,3; Gn 38). Raab é prostituta de Jericó e não é
hebréia (Mt 1,5; Js 2; 6,22-25). Rute, a bisavó de Davi, é moabita (Mt 1,5;
Rt 1,4) e Betsabéia, a mulher de Urias, o heteu, que fora abusada sexual­
mente por Davi, tornou-se a mãe de Salomão (Mt 1,6; 2Sm 11; 12,24-25).
Além disso, também é importante ressaltar que o messianismo dejesus é
subversivo e passa pelo corpo de mulheres pobres, prostitutas e transgres­
soras. Como Maria, estas mulheres tiveram uma gravidez fora dos pa­
drões “normais”.
• Tal como as mulheres da genealogia, os magos do Oriente tam­
bém representam todas as pessoas de todos os povos que aderem ao
projeto libertador dejesus, diferentemente dos reis, representados por
Herodes, que querem sua morte (Mt 2,1-12).
• Na mesma perspectiva do messianismo marginal dejesus, cite­
mos ainda:
—sua prática terapêutica junto aos mais excluídos, como os le­
prosos (8,2-4) e o servo de um centurião romano estrangeiro (8,5-13);
—a acolhida em seu Reino de quem praticar, independente da
nação que for, a solidariedade para com os que têm fome e sede, os sem
teto, os que não têm com o que se vestir e os doentes ou presos (Mt
25,31-45);
—a missão deixada por Jesus para as comunidades mateanas é
universal: “Ide,portanto, efa^eique ‘todasasnações’setornemdiscípulos.” (Mt
28,19).

Um segundo aspecto central neste Evangelho é que valorizamuito


aherançadeIsrael, asuatradição. Mateus ensina, a quem dirige seu Evan­
gelho, que suas comunidades são o verdadeiro Israel e não as lideranças
das sinagogas que os haviam expulsado. Começa incluindo Jesus numa

70
genealogia real de Israel (Mt 1,1-17). Na seqüência, o apresenta como o
novo Moisés. Da mesma forma como o grande líder do Exodo, salva-
se do massacre de crianças (2,1-12), vem do Egito (Mt 2,15), proclama
solenemente a Lei na montanha (Mt 5) e pronuncia cinco discursos
como os cinco livros da Lei de Moisés, isto é, o Pentateuco (Mt 5-7; 10;
13; 18; 24-25). Como novo Moisés, corrige e aperfeiçoa a Lei (Mt 5,17­
47). Ao destacar Doze entre os muitos discípulos, simbolicamente Je­
sus estava formando o novo povo de Israel. Para Mateus, as comunida­
des cristãs são o verdadeiro Israel (8,11). O Evangelho quer ajudar a
devolver a identidade aos judeu-cristãos em crise por terem sido expul­
sos de seu próprio povo.
Nesse sentido, é interessante notar o quanto Mateus cita a Septu­
aginta. São cerca de 40 citações. Vinte delas são exclusivas deste Evan­
gelho. Confira algumas das citações que seguem: 1,22-23; 2,5-6.15.17­
18.23; 3,3; 4,4.6-7.10.14-16; 8,17; 11,10; 12,17-21; 13,14-15.35; 15,7-9;
17,1-9; 21,4-5; 27,9!
Por fim, não podemos deixar de lado a intenção dos autores des­
te Evangelho de apresentar Jesus comooEmanuel. Como os demais te­
mas, também esse perpassa todo o Evangelho. Logo no início, afirma-
se com todas as letras que o menino que vai nascer é o Emanuel\que
quer dizer: “Deus estáconosco.” (Mt 1,23). A prática libertadora de Jesus
vai revelando que ele é o Messias esperado e que o seu Reino já está
entre nós (Mt 11,2-6). Ao descrever Pedro confessando para Jesus ‘Tu
ésoMessias, oFilho deDeus vivo”(Mt 16,16), a comunidade de Mateus
reconhece que ele é o Emanuel. Por fim, no envio para a missão univer­
sal, estão na sua boca as seguintes palavras: ‘E eisqueeu ‘estouconvosco’
todososdiasatéaconsumaçãodosséculos.” (Mt 28,20).
Eclesiologia em Mateus
Dentre os evangelhos, o de Mateus é aquele que mais destaca a
questão eclesiológica, que mais ênfase dá às relações na comunidade
eclesial.
E o único Evangelho que cita a palavra ekkksia(grego) que quer
dizer assembléia, comunidade, igreja (16,18; 18,17). Em Mateus, ekkle-
siarefere-se às comunidades locais e também à Igreja universal. O capí-
71
i tilo 18 é o ponto alto dessa eclesiologia. Mais da metade desse capítulo
é material exclusivo de Mateus, especialmente a partir do v. 15. Confira!
Mateus insiste na vivência fraterna (5-7; 18). A palavra “irmão”
aparece cerca de 40 vezes. A reconciliação (5,23-24; 6,12-15; 18,15-18.21­
35) e a solidariedade (5,7; 9,13; 12,7; 23,23; 25,31-46) são fundamentais
para as relações entre novas mulheres e novos homens na comunidade.
Melhor do que nos demais evangelhos, pode-se perceber com
facilidade em Mateus como se misturam o relato sobre Jesus, o Cristo,
com as narrativas sobre a vida das comunidades no final dos anos 80. O
Evangelho é uma mistura de relatos da vida das comunidades com nar­
rativas sobre a vida de Jesus a partir da fé. Inclui, ao mesmo tempo, a
prática de Jesus e a prática de seus discípulos. Em cada página, pode­
mos perceber a presença da memória do Jesus histórico e, ao mesmo
tempo, como essa memória se concretiza na vida das igrejas.

Estrutura
Diferentemente de Marcos, Mateus não está tão interessado em
descrever a prática de Jesus. E verdade que copia a maior parte do texto
de Marcos. No entanto, quase todo o material exclusivo e o que copia
da fonte “Q” são ditos, discursos, parábolas ou sentenças dejesus.
Os autores de Mateus organizam o ensino do Mestre da Justiça
cm cinco grandes discursos. Cada um deles termina com a fórmula “ao
terminar Jesus estas palavras”. E o que você pode conferir em 7,28; 11,1;
13,53; 19,1; 26,1.
Em cada um desses discursos, Jesus apresenta, sucessivamente,
questões relacionadas ao Reino, como você pode conferir abaixo. Cada
discurso vem precedido por uma parte narrativa. Dessa forma, juntan­
do a narrações sobre o agir do Mestre com as partes discursivas, os
autores tinham em vista organizar a obra em cinco livros, tal como os
cinco livros da Lei de Moisés. Considerando as narrativas sobre a infân­
cia de Jesus e os relatos a respeito da cruz-ressurreição, o Evangelho
segundo Mateus pode ser dividido em sete partes, como segue.

V Parte (1-2): Narrativas a respeito do nascimento e da infância de


Jesus, que o apresentam como o Rei que vai fazer justiça.

72
2a Parte (Io livro): A justiça do Reino (3-7):
3-4: Parte narrativa: João Batista, o batismo e as tentações de Jesus,
chegada do Reino.
5-7: Discurso: A nova justiça do Reino no sermão da montanha.
3a Parte (2o livro): A justiça do Reino liberta os pobres (8-10):
8-9: Parte narrativa: Libertação das doenças e da opressão (dez mila­
gres).
10: Discurso: Envio dos missionários do Reino.
4a Parte (3o livro): A justiça do Reino produz conflitos (11,1-13,52):
11-12: Parte narrativa: Os mistérios do Reino geram conflitos.
13,1-52: Discurso: As parábolas sobre a justiça do Reino que vencerá.
5a Parte (4o livro): Comunidade, sinal do Reino (13,53-18,35):
13,53-17,27: Parte narrativa: A Igreja como seguidora do Mestre da
justiça.
18: Discurso: Relacionamento entre os filhos do Reino na comunidade.
6a Parte (5o livro): A parusia próxima do Reino (19-25):
19-23: Parte narrativa: No Reino tem lugar para todos.
24-25: Discurso escatológico: A vinda definitiva do Reino vence as
injustiças.
7a Parte (26-28): Narrativas sobre a paixão e ressurreição de Jesus. Lu­
tar pela justiça leva à morte, mas também gera vida e justiça plenas.

2. Carta de Tiago
‘Tornai-vospraticantesdaPalavrae
nãosimplesouvintes, enganando-vosavósmesmos.”
(Tg 1,22)

Quem? O autor deve ser um judeu-cristão com profundo co­


nhecimento das Escrituras judaicas e faz muito uso delas, especialmen­
te a literatura sapiencial. E possível que tenha sido um cristão das co­
munidades dejerusalém até 70. Talvez seja essa a razão por que home­
nageia Tiago, possivelmente o Tiago conhecido como o irmão do Se­
nhor (G1 1,19; At 15,13-15), que liderou as igrejas dejerusalém até 62,
quando foi martirizado a mando do sumo sacerdote Anã.

73
Pelo que foi dito, você já pôde perceber que a Carta de Tiago
teve seu berço nas mesmas comunidades que o Evangelho segundo
Mateus. Veja como há muitas semelhanças com Mateus, de modo espe­
cial com o sermão da montanha (Mt 5-7), comparando os seguintes
textos:
T ia g o ......... ...... Mateus Tiago...... ..... Mateus
1,2-4........... ........5,11-12 3,1-2 .......... ....... 23,8
1,4............... ....... 5,48 3,8-12........ ....... 12,33-37
1,5-6 ........... ....... 7,7-8; 21,21 4,3 ................ ....... 7,7.9
1,7 ................. ........ 7,11 4 ,4 ................ ........ 6,24
1,22-23 ........ ........ 7,24-26 4,10 .............. ....... 23,12
1,25 ............... ........ 5,19 4,11-12 ............... 7,1-5
2,5-6 ........... ....... 4,17; 5,3 4,13............. ....... 6,30-34
2,12-13....... ....... 5,7 5,7-9 .......... ....... 21,34
2,14ss......... ....... 7,21; 25,41-45 5,19-20...... ....... 18,12.15-16

Chama a atenção que Tiago mencione Jesus somente duas vezes


(Tg 1,1; 2,1). Tirando essas duas referências, nada na carta resta de ex­
plicitamente cristão. Mais do que ser uma carta, esse texto é uma cole­
tânea de sentenças de sabedoria. Dessa forma, aproxima-se do gênero
literário dos livros sapienciais, da Fonte “Q” e do Evangelho de Tomé.
Onde? (]omo Tiago se destina a comunidades profundamente
enraizadas no judaísmo, a carta deve ter sido escrita em algum lugar da
Palestina ou mais provavelmente na Síria.
Quando? A carta foi escrita pelo ano 95, depois que os judeu-
cristãos da Palesdna haviam fugido da guerra judaico-romana e tinham
sido expulsos das sinagogas, migrando de modo especial para a Síria. A
insistência na paciência, na resistência e na perseverança (Tg 5,7-11) é
um indício de que já estamos numa época adiantada, uma vez que não
se espera mais a vinda dejesus para breve.
O quê? Tanto Mateus como Tiago polemizam com as igrejas de
herança paulina, especialmente no que se refere à observância da Lei.
Compare, por exemplo, G12,15-21 com Tg 2,14-26! Compare também
Rm 7,6 com Mt 5,17-19!
Uma frase de Tiago deu muita polêmica na história do Cristianis­

74
mo: “A f é sem obras é morta. ” (Tg 2,26). Com quem Tiago estaria em
debate? Certamente com as comunidades helenistas. O fato é que Tia­
go defende um Cristianismo bem dentro da realidade, a partir de obras
concretas.
Tiago insiste na prática. Entre outras obras, recomenda que não
se deixe de dar de comer ao faminto e de vestir quem está nu (Tg 2,15­
16). Nisso se assemelha a Mt 25,35-36.
Veja ainda Rm 4,1-25 e G1 3,6-14 e compare com Tg 2,21-26!
Ao ler esses textos, você pôde perceber que Paulo afirma que
Abraão foi justificado, não pelas obras da Lei, mas pela fé (Gn 15,6),
antes mesmo de surgir, mais tarde, a Lei, dada através de Moisés. Com
isso, Paulo quis abrir a porta do Evangelho aos não-judeus sem que
tivessem que passar pela Lei judaica.
No entanto, Tiago, referindo-se ao mesmo Abraão, tira conclu­
sões contrárias às de Paulo, afirmando que ele foi justificado, isto é,
estava de bem ou em comunhão com Deus, justamente por suas obras
(Tg 2,21-22).
Como entender essa polêmica? Essa diferença entre Paulo e Tia­
go se deve, de modo especial, ao fato de Paulo estar preocupado em
conseguir a adesão também de não-judeus à Boa-Nova de Jesus sem
que precisassem cumprir as obras da Lei judaica. Enquanto Tiago está
preocupado com a adesão de judeus ao projeto do Messias, insistindo
em que foi a prática de Abraão que comprovou a sua fé.
Podemos também supor que muitas pessoas interpretaram mal a
Boa-Nova de Jesus Cristo
segundo Paulo, não dando o "A religião pura e sem m ácula
devido valor à prática dos diante de Deus, nosso Pai,
valores do Reino. De tanto consiste nisto: em assistir os órfãos
insistir na nova justiça de e as viúvas em suas tribulações
Deus que vem pela fé, os dis­ e guardar-se livre da
cípulos de Paulo na segunda corrupção do m undo."
geração corriam o perigo de (Tg 1 , 2 7 )
esquecer a ação concreta, a
prática do amor. No entanto, também Paulo queria obras baseadas na
justificação pela fé, tendo o amor como critério central (G1 5,6). Mesmo

75
assim, havia o perigo de um Cristianismo de liturgia desligada da vida.
Tiago se insurge contra esse perigo e lembra continuamente que o gran­
de desafio dos cristãos, inclusive de hoje, consiste na sua prática diante
da pobreza reinante na sociedade. Não há contradição entre as duas
perspectivas.
Nas igrejas destinatárias da Carta de Tiago, espalhadas pela Pa­
lestina e Síria, já há desigualdades sociais. Há ricos comerciantes e pro­
prietários de grandes extensões de terra (Tg 1,9-11; 2,1-9; 4,13-5,6). Daí
a insistência no respeito aos pobres e na igualdade.
Há também quem quer ser mestre e abusa da palavra. Por isso, a
carta insiste no controle da língua. Confira Tg 1,19.26; 3,1-12!
Diante dessa realidade, o autor de Tiago propõe a vivência da Lei
da liberdade, reduzindo-a ao amor (Tg 1,25; 2,8.12). Suas exigências são a
prática da palavra (1,22), a superação de uma espiritualidade individualista
(1,26-27), a igualdade (2,1-4), o respeito pelos pobres (2,5-7), a solidarie­
dade (2,14-17), a fé ativa (2,20-26) e a exclusão da exploração, numa forte
admoestação aos ricos (5,1-6).
Tiago toma Dt 15,4 ( “Não haverá pobres entre vocês!’) ao pé da letra,
defendendo que as relações na comunidade devem superar qualquer
forma de desigualdade social.
Como? Propomos que você leia agora a Carta de Tiago, seguin­
do a divisão a seguir.
1,1: Endereço e saudação.
1,2-27: Temas relevantes: paciência, oração, provação e fé prática.
2.1-13: Desenvolvimento sobre a prática da fé: evitar a acepção
de pessoas.
2,14-26: Frutificar em obras.
3.1-5,6: Advertências:
—aos que querem ser mestres (3,1-12);
—contra a rivalidade (3,13-18);
—contra a cobiça (4,1-10);
—contra a maledicência (4,11-12);
—contra a ganância (4,13-17);
—contra a injustiça dos ricos (5,1-6).
5,7-20: Exortações finais, retomando os temas iniciais.

76
Contexto: A Carta de Tiago desdna-se às dozes tribos da disper­
são (1,1), isto é, aos cristãos de origem judaica dispersos no mundo
greco-romano, de modo especial aos da Palestina e da Síria.
Tal como o Evangelho segundo Mateus, os destinatários de Tia­
go são herança das comunidades da Judéia, profundamente ligadas à
observância da Lei.

3. Carta de Judas
“Defato, infiltraram-seentrevósalgtmshomensjá hámuito
marcadosparaestasentença, unsímpios, queconvertem
agraçadenossoDeus numpretextoparaalibertinageme
negamJesusCristo, nossoúnicomestreeSenhor. ” (Jd 4)
Quem? Esta carta é atribuída ajudas, “servodeJesusCristoeirmão
deTiago”(v. 1). É o Judas que aparece na lista dos familiares dejesus em
Mc 6,3. Quando Tiago foi martirizado em 62, seu irmão o substituiu na
liderança das comunidades da Judéia. Pessoas do clã dejesus lideraram
as comunidades de Jerusalém até 135, quando os romanos derrotaram
definitivamente a resistência dos judeus e destruíram novamente a cida­
de de Jerusalém.
Atribuir a Carta ajudas revela a autoridade exercida pelas comu­
nidades judeu-cristãs de Jerusalém ainda no final do primeiro século de
nossa era. Atribuí-la a uma liderança importante, pelo menos para os
destinatários da carta, e ainda mais sendo dos familiares de Jesus, con­
fere autoridade especial ao texto.
Onde? Como Judas se destina a comunidades profundamente
enraizadas no Judaísmo, não só pelas referências ao Primeiro Testa­
mento, mas também por citar livros apócrifos, a carta deve ter sido
escrita em algum lugar da Síria ou até da Ásia Menor, uma vez que os
autores dessa carta usam um grego culto.
Quando? A época mais provável de redação são os anos 90,
uma vez que o surgimento de falsos doutores nas comunidades se inten­
sifica nesse período. Além do mais, a carta nos informa que já não temos
mais apóstolos vivos, pois sua pregação já é algo do passado (Jd 17-18).

77
O quê? Na verdade, a Carta de Judas é apenas um bilhete de 25
versículos. Seu objetivo é alertar as comunidades contra o perigo trazi­
do por falsos doutores que geram divisões. Colocam em risco a unida­
de das igrejas em torno da fé, do amor e da esperança.
O autor é duro contra esses doutores, ameaçando-os com seve­
ros castigos. E cita exemplos da caminhada libertadora do Êxodo, quan­
do foram punidos exemplarmente aqueles que dividiam o povo em
marcha. Com liberdade, fazem também uso de livros piedosos usados
pelo povo judeu. Eram apocalipses bem populares. Hoje, chamamos
esses livros de apócrifos, de ocultos, uma vez que não passaram a fazer
parte do cânon oficial, nem do Judaísmo, nem da Bíblia cristã. São cita­
dos os livros de Henoc (Jd 6.12-16), da Assunção de Moisés (Jd 9) e o
Testamento dos Doze Patriarcas (Jd 6-7).
Como? Convidamos você a ler esse bilhete seguindo a proposta
de divisão abaixo.
1-2: Endereço e saudação.
3-4: A finalidade: combater os falsos doutores.
5-23: Argumentos para combater os falsos doutores:
5-7: Três castigos exemplares do Primeiro Testamento;
8-16: Os falsos doutores merecem os mesmos castigos;
17-23: Exortações às comunidades.
24-25: Oração de glória a Deus mediante Jesus.

Contexto: A carta faz referências ao Primeiro Testamento. Isso


mostra que as comunidades destinatárias, “os que foram chamados, amados
p or Deus Pai e guardados em Jesus Cristo” (v. 1), têm consciência de que são
herdeiras do Antigo Israel e que se situam em continuidade à caminha­
da do Êxodo. Também as referências aos livros apócrifos indicam que
os destinatários são igrejas formadas por cristãos vindos do Judaísmo.
Possivelmente, são as mesmas comunidades a quem foram dirigidos o
Evangelho segundo Mateus e a Carta de Tiago.
O principal problema que a carta quer resolver é defender as
comunidades contra a influência de falsos doutores que, na década final
do primeiro século, já estavam se infiltrando no Cristianismo. Suas fal­

78
sas doutrinas estavam provocando divisões nas igrejas e enfraquecendo
a fé em Cristo.
Em nossos dias, Judas é um dos textos menos conhecidos do
Segundo Testamento. E que seu assunto parece não dizer muita coisa
para nós.
No entanto, será que hoje também não há falsos doutores —cui­
demos para não estar entre eles —que dividem as comunidades, na luta
por cargos, centralização de poder e imposição de suas opiniões? Será
que não há doutores nas nossas igrejas que estão demais preocupados
com dogmas, engessando a Boa-Nova dejesus e reduzindo a experiên­
cia da fé a um plano racional, teórico? Será que não insistem demais na
pureza de doutrinas, amarrando em uma camisa de força a mensagem e
a prática libertadoras do Mestre? Ou será que estão demais dedicados à
perfeição dos ritos, impedindo celebrações vivas da fé, do amor e da
esperança? O que divide nossas comunidades hoje?

79
Conclusão da Ia parte

Nesta parte, estudamos o período que corresponde à segunda gera­


ção cristã. Essa época, que vai desde o início da guerra judaico-romana
(66-73) até o final do governo de Domiciano (81-96), também é conhe­
cida como era subapostólica.
Num primeiro momento, vimos o Evangelho segundo Marcos
que surgiu durante essa guerra. Por um lado, seus autores querem ani­
mar seus destinatários a ficarem firmes na fé em Jesus libertador como
o Messias, o Filho de Deus que passa pela cruz. Insistem também em
afirmar as exigências para seguir o Nazareno no contexto novo.
Em seguida, vimos os escritos que as comunidades helenistas
produziram nesse período. A Segunda Carta aos Tessalonicenses tem,
como principal preocupação, alertar as comunidades diante da espera
iminente da vinda gloriosa do Messias.
Lucas e Atos são uma reflexão teológica sobre a vida de Jesus e a
caminhada das comunidades. Querem mostrar que Jesus veio concreti­
zar o projeto de Deus anunciado pela profecia no Antigo Israel como o
Salvador das nações. Sua prática libertadora revela a força do Espírito
de Deus. Em Atos, o mesmo Espírito conduz a caminhada da Palavra
até os confins da terra.
Colossenses e Efésios são tratados teológico-pastorais que refle­
tem sobre a missão universal de Cristo e de sua Igreja. Vimos como as
comunidades de herança paulina caminharam, aos poucos, em direção
de estruturas hierárquicas e patriarcais.
A Primeira Carta de Pedro reflete a época de Domiciano, quan­
do as comunidades sofrem muito por causa de perseguições, tanto do
império quanto de vizinhos não-cristãos. São igrejas formadas por pes­
soas peregrinas à procura de um lar para morar.
Por fim, vimos os três escritos que as comunidades de Tiago
produziram durante a segunda geração cristã.
80
O primeiro é o Evangelho segundo Mateus. Seus autores querem
fundamentalmente ajudar seus destinatários a compreenderem que,
apesar de expulsos das sinagogas, são eles a continuidade do verdadeiro
Israel. Apresentam Jesus como o Mestre da Justiça, o Emanuel anunci­
ado pelas Escrituras. Sua missão é universal. Por isso, os judeu-cristãos
devem estar abertos a conviver com pessoas de outras etnias em suas
comunidades.
Depois, vimos a Carta de Tiago e a Carta de Judas. Tiago reflete
especialmente sobre a necessidade de a fé e a prática de justiça andarem
de mãos dadas. O bilhete de Judas é uma repreensão dos falsos douto­
res que dividem as comunidades.
O assunto da segunda parte será o período que corresponde à
terceira geração cristã. Também é conhecido como época pós-apostólica e vai
desde o final do reinado do imperador Domiciano, isto é, a partir de 97
até os anos 140. Quanto ao estudo da literatura do Segundo Testamen­
to desse período, iremos abordar a literatura produzida pelas igrejas
herdeiras do Discípulo Amando, bem como das comunidades de he­
rança de Paulo. Da herança das igrejas do Discípulo Amado, veremos o
Evangelho segundo João, as três cartas a ele atribuídas e o Apocalipse.
Da herança paulina, veremos a Carta aos Hebreus, as Cartas Pastorais
(lTm, 2Tm e Tt) e, por fim, a Segunda Carta de Pedro.

81
Para orar e aprofundar
Mt 6,9-13 Lc 1,68-79 Ef 1,20-23
Mt 11,25-27 At 4,24-30 Ef 2,14-18
Lc 1,46-55 Ef 1,3-14 Cl 1,15-20

Sugestões de leitura
1. Sobre o Evangelho segundo Mateus
ROTEIROS PARA REFLEXÃO VII. Introdução geral aos Evange­
lhos. Evangelhos de Marcos e Mateus. São Paulo: Paulus, São Leopol­
do: CEBI.
MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco. Travessia: Quero miseri­
córdia e não sacrifícios. Círculos Bíblicos sobre o Evangelho de Ma­
teus. A Palavrana Vida. São Leopoldo: CEBI, n. 135/136.
MOSCONI, Luís. O Evangelho segundo Mateus. A Palavra na Vida.
São Leopoldo: CEBI, n. 29/30.
STORNIOLO, Ivo. Como ler o Evangelho de Mateus. ComoleraBíblia.
São Paulo: Paulus.
VASCONCELOS, Pedro L.; SILVA, Rafael R. A Boa Notícia segun­
do a comunidade de Mateus. A PalavranaVida. São Leopoldo: CEBI,
n. 134.

2. Sobre o Evangelho segundo Marcos


ALEGRE, Xavier. Marcos ou a correção de uma ideologia triunfalista.
A Palavrana Vida. São Leopoldo: CEBI, n. 8.
BALANCIN, Euclides M. Como ler o Evangelho de Marcos. Comolera
Bíblia. São Paulo: Paulus.
MESTERS, Carlos; LOPES, Mercedes. Caminhando com Jesus. Círcu-
bsBíblicosdoEvangelhodeMarcos. São Paulo: Paulus, São Leopoldo: CEBI.
MOSCONI, Luís. O Evangelho segundo Marcos. A Palavra na Vida.
São Leopoldo: CEBI, n. 24.
82
SOARES, Sebastião A. G.; Júnior, João L. C. Evangelho de Marcos.
Comentáriobíblico. V. 1: 1-8. Petrópolis: Vozes.
WALKER, Décio J.; KONZEN, Léo Z. Evangelho segundo Marcos —
comentário para catequese —Y.A PalavranaVida. São Leopoldo: CEBI,
n. 33/34.
WALKER, Décio J.; KONZEN, Léo Z. Evangelho segundo Marcos —
comentário para catequese —II. A PalavranaVida. São Leopoldo: CEBI,
n. 37/38.

3. Sobre o Evangelho segundo Lucas


MESTERS, Carlos; LOPES, Mercedes. 0 Avesso éoladocerto. Círculos
Bíblicos sobre o Evangelho de Lucas. São Leopoldo: CEBI.
MOSCONI, Luís. O Evangelho segundo Lucas. ^4 PalavranaVida. São
Leopoldo: CEBI, n. 43/44.
STORNIOLO, Ivo. Como ler o Evangelho de Lucas. Comolerabíblia.
São Paulo: Paulus.
VASCONCELOS, Pedro L. A Boa Notícia segundo a comunidade de
Lucas. A Palavrana Vida. São Leopoldo: CEBI, n. 123/124.

4. Sobre Atos dos Apóstolos


COMBLIN, José. Atos dos Apóstolos. Comentáriobíblico. V. 1: 1-12. Pe­
trópolis: Vozes.
COMBLIN, José. Atos dos Apóstolos. Comentário bíblico. V. 2: 13-28.
Petrópolis: Vozes.
ROTEIROS PARA REFLEXÃO VIII. Evangelho de Lucas e Atos
dos Apóstolos. São Paulo: Paulus, São Leopoldo: CEBI.
MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco. Atos dosApóstolos. Círculos
Bíblicos. São Paulo: Paulus, São Leopoldo: CEBI.
STORNIOLO, Ivo. Como ler os Atos dos Apóstolos. Comolerabíblia.
São Paulo: Paulus.

5. Sobre a Carta aos Efésios


BORTOLINI, José. Como ler a Carta aos Efésios. Comolerabíblia. São
Paulo: Paulus.
COMBLIN, José. Epístola aos Efésios. Comentário bíblico. Petrópolis:
Vozes.
83
ROTEIROS PARA REFLEXÃO X. Paulo e sua cartas. São Paulo: Pau­
lus, São Leopoldo: CEBI.

6. Sobre a Carta aos Colossenses


BORTOLINI, José. Como ler a Carta aos Colossenses. ComoleraBíblia.
São Paulo: Paulus.
COMBLIN, José. Epístola aos Colossenses e Epístola a Filêmon. Co­
mentárioBíblico. Petrópolis: Vozes.
7. Sobre a Segunda Carta as Tessalonicenses
BORTOLINI, José. Como ler a Segunda Carta aos Tessalonicenses.
ComoleraBíblia. São Paulo: Paulus.
SILVA, Valmor da. Segunda Epístola aos Tessalonicenses. Comentário
Bíblico. Petrópolis: Vozes.
8. Sobre a Carta de Tiago
ROTEIROS PARA REFLEXÃO XI. Cartas Pastorais e Cartas Gerais.
São Paulo: Paulus, São Leopoldo: CEBI.
STORNIOLO, Ivo. Como ler a Carta de Tiago. Como leraBíblia. São
Paulo: Paulus.

9. Sobre a Primeira Carta de Pedro


MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco. “Entre... a casa é sua!” Cír­
culos Bíblicos da 1’ e 2a Cartas de Pedro. A PalavranaVida. São Leopol­
do: CEBI, n. 181.
NOGUEIRA, Paulo A. de S. Como ler as Cartas de Pedro. Como lera
Bíblia. São Paulo: Paulus.
REIMER, Ivoni R. Reconheçam de coração. Encontros Bíblicos sobre
as Cartas de Pedro. A Palavrana Vida. São Leopoldo: CEBI, n. 188.

10. Sobre a Carta de Judas


BORTOLINI, José. Como ler a Carta de Judas. A Palavrana Vida. São
Paulo: Paulus.

84
Parte II:
As comunidades da
terceira geração cristã

Introdução
Na primeira parte, estudamos os escritos do Segundo Testamen­
to que foram elaborados pelas comunidades cristãs da segunda geração.
Essa época, que vai desde o início da guerra judaico-romana (66-73) até
o final do governo de Domiciano (81-96), também é conhecida como
era subapostólica. Nesse período, não vivem mais as testemunhas oculares
do tempo dejesus de Nazaré. Ou já morreram ou foram mártires por
causa do testemunho de Jesus.
Primeiro, vimos o Evangelho segundo Marcos que surgiu na pas­
sagem da década de 60 para 70. Os autores dessa obra querem animar
seus destinatários a perseverar na fé em Jesus libertador como o Messi­
as, o Filho de Deus que passa pela cruz. Insistem também nas exigências
para seguir o Nazareno naquele novo contexto.
Depois, estudamos os textos que as comunidades de herança
paulina produziram nesse período. Escrita pelo ano 80, a Segunda Car­
ta aos Tessalonicenses quer, entre outras questões, alertar as comunida­
des a respeito da equivocada esperança apocalíptica na iminente vinda
gloriosa do Messias.
Lucas e Atos refletem, a partir da fé, sobre a vida de Jesus e a
caminhada das igrejas. Em torno de 90, seus autores querem mostrar
que Jesus veio concretizar o projeto misericordioso de Deus, anuncia­
do pela profecia no Antigo Israel como o Salvador de todos os povos.
A prática libertadora do Nazareno revela a força do Espírito. Em Atos,

85
o mesmo Espírito gera comunidades e está por trás da caminhada da
Palavra até os confins da terra.
Colossenses e Efésios são tratados teológico-pastorais que apro­
fundam a reflexão sobre a missão universal de Cristo e de sua Igreja,
bem como sobre o significado do ministério do apóstolo Paulo. Vi­
mos como, em meados dos anos 90, as comunidades de herança pau-
lina já caminhavam na direção de estruturas hierarquizadas e patriar­
cais.
A Primeira Carta de Pedro espelha os últimos anos de governo
dc Domiciano, quando as igrejas sofrem muito por causa de persegui­
ções, tanto por parte do império quanto de vizinhos não-cristãos. Seus
destinatários são igrejas formadas por pessoas migrantes à procura de
um lar para morar.
Por fim, vimos os três escritos (Mt; Tg; Jd) que as comunidades
de Tiago, também conhecidas como igrejas apostólicas ou petrinas,
produziram durante a segunda geração cristã.
O Evangelho segundo Mateus quer ajudar seus destinatários a
compreender que, apesar de expulsos das sinagogas judaicas, são eles a
continuidade do verdadeiro Israel. Mateus apresenta Jesus como o Mestre
da Justiça, o Emanuel anunciado pelas Escrituras. Sua missão é univer­
sal. Por isso, os judeu-cristãos devem estar abertos a conviver com pes­
soas dc outras etnias em suas comunidades.
A Carta de Tiago reflete especialmente sobre a necessidade de a
té e a prática de justiça andarem de mãos dadas. E o bilhete de Judas é
uma repreensão a grupos dissidentes que dividem as comunidades.
O assunto desta parte são os escritos da terceira geração das comu­
nidades primidvas conhecida como erapós-apostólica. Essa época vai des­
de o final do reinado do imperador Domiciano (81-96) até os anos 130,
quando terá sido escrito o último livro do Segundo Testamento.
E verdade que inúmeras igrejas cristãs existiam e cresciam em
todas as direções. Assim foi na Africa, na Síria, no Oriente e na Europa.
Mas somente duas tradições desse período nos deixaram escritos
que encontramos na Bíblia. De um lado, são as igrejas de herança do
Discípulo Amado, que passaremos a chamar também de comunidades
joaninas, uma vez que seus escritos foram atribuídos pela tradição pos­

86
terior ao apóstolo João. De outro, são as igrejas helenistas ou de heran­
ça paulina.
Os escritos das comunidades herdeiras do Discípulo Amado são
o Evangelho segundo João, escrito em torno do ano 100, mais as três
Cartas também a ele atribuídas e redigidas pelo ano 110. Não é tão
simples incluir o Livro do Apocalipse em uma ou outra tradição. No
entanto, devido a algumas semelhanças, o situamos na herança joanina.
Sua redação final terá sido em torno do ano 100.
Os escritos de lideranças da erapós-apostólica sob a influência das
comunidades fundadas por Paulo são a Carta aos Hebreus, escrita em
torno do ano 100, as Cartas Pastorais (l-2Tm ;Tt), elaboradas ao redor
de 115, além da Segunda Carta de Pedro, o último escrito do Segundo
Testamento, redigida pelo ano 130.
Tanto uma quanto outra tradição tinham seu centro geográfico
em Éfeso. Já no tempo de Paulo, esta cidade havia sido uma referência
para as igrejas helenistas. Nas décadas posteriores, terá sido Éfeso o
lugar em que as cartas paulinas foram colecionadas.
Depois da destruição de Jerusalém cm 70, Éfeso também se tor­
nou referência para as comunidades de herança do Discípulo Amado.
Certamente, suas principais lideranças, e até comunidades inteiras, mi­
graram para lá. De um lado, foi para fugir da guerra judaico-romana
(66-73). De outro, foi para fugir da perseguição e da dominação ideoló­
gica promovidas por autoridades das sinagogas judaicas, a partir dos
anos 80. Dos escritos desse período, Éfeso é citada em lTm 1,3; 2Tm
1,18; 4,12; Ap 1,11; 2,1-7.

87
Um pouco de história

81-96: Domiciano, imperador.


96-98: Imperador Nerva.
98-117: Trajano, imperador.
Em torno de 100: Carta aos Hebreus, Apocalipse 1-3,22,6-21 e
Evangelho segundoJoão.
Pelo ano 110: As três Cartas de João
Ao redor de 115: As Cartas a Timóteo e a Carta a Tito.
117-138: Adriano, imperador.
Em torno de 130: A Segunda Carta de Pedro.
132-135: Segunda guerra judaico-romana. Jerusalém é transfor­
mada em colônia romana (Aelia Capitolina). Os judeus são
expulsos da Judéia e proibidos de entrar em Jerusalém.

Na primeira parte, vimos que Domiciano intensificou o culto


ao imperador. Atribuiu títulos divinos a si mesmo, exigindo culto à sua
pessoa. Decretou o Cristianismo religião ilícita, perseguindo violenta­
mente as comunidades que se negavam a lhe prestar culto. Além disso,
anulou o poder do senado romano e governou de forma despótica.
Quando ele foi assassinado, houve alívio em meio à aristocracia
do senado, uma vez que, como seus predecessores, condenava à morte
qualquer um que lhe fizesse oposição. Iniciou-se, então, um novo perío­
do na história do império. Desta vez, foi o senado quem escolheu um
novo imperador. Elegeu Nerva, filho de família senatorial que, depois
da tirania de seu antecessor, restabeleceu a paz.
Nerva começou sua administração aos setenta anos, sendo que
seu governo durou somente dois anos. Foi, na verdade, uma transição
para uma nova dinastia, a dinastia dos Antoninos, que durou até 192.
Para preparar sua sucessão, Nerva adotou Trajano, o chefe militar mais
respeitado. Nomeou-o governador da Germânia Superior (atual Ale­
manha) e o declarou herdeiro do trono. De fato, quando Nerva morreu
em 98, Trajano foi reconhecido imperador, permanecendo no trono
até sua morte, em 117.
Diferentemente da dinastia que o precedera, foi mais respeitoso
com o senado romano. Para atrair as camadas mais pobres a seu favor,
organizou um programa de alimentação, de auxílio à pobreza. Foi tam­
bém um tocador de obras, mandando construir grandes obras públicas.
Trajano empreendeu guerras de conquista, especialmente entre
114 e 116. Seus motivos eram econômicos e estratégicos. Dessa forma,
expandiu as fronteiras do império, invadindo a Arábia a sudeste da Pa­
lestina, região conhecida por Nabatéia. Estendeu também seu domí­
nio combatendo os partos na Mesopotâmia, onde hoje está o Iraque,
bem como os armênios, ao norte do atual Iraque. Foi o último impera­
dor romano a realizar conquistas territoriais, dando ao império sua
máxima extensão geográfica.
No ano 117, grupos de judeus se rebelaram no Egito e em Creta,
massacrando muitos não-judeus. Trajano não esperou para reprimir vi­
olentamente os revoltosos. Dessa forma, como seus antecessores, man­
tinha a “paz romana”, isto é, o total domínio sobre os povos conquista­
dos a quem oprimia. O Evangelho segundo )oão, que foi escrito duran­
te seu governo, deixa muito claro que é diferente a paz que as comuni­
dades cristãs buscam. E a paz doada por Jesus Cristo e não pelos impé­
rios deste mundo, cujo domínio é imposto pelas armas (Jo 14,27). O
Livro do Apocalipse, que é da mesma época do 4o Evangelho, também
informa como o império colocava a religião a serviço da opressão para
controlar o povo (Ap 13), explorando os povos e aumentando o luxo
de seus grandes (Ap 18).
Foi em seu governo que Simeão, bispo dejerusalém, foi martiri-
zado (107). Também Inácio, bispo das igrejas de Antioquia, foi preso
pelo ano 110 por ser liderança cristã. Conduzido a Roma, ali foi julgado
e martirizado no Coliseu.

89
Inácio de Antioquia
Inácio foi supervisor das igrejas de Antioquia em torno do ano
100. Em seus escritos, dá a entender que teve contatos pessoais
com os apóstolos Paulo e João.
Nas diversas cartas que escreveu, enquanto já se encontrava
preso por causa do Evangelho, Inácio revela uma profunda espiri­
tualidade. Reflete sobre a possibilidade de ser martirizado, vendo
nisso um meio de tornar-se um seguidor perfeito dejesus.
Para Inácio, Jesus de Nazaré, o Deus encarnado, é o único mestre
que nos liberta de todas as formas de escravidão.
E em suas cartas que aparece, pela primeira vez, a expressão
“igreja católica” para referir-se ao conjunto das comunidades cris­
tãs espalhadas por todo o mundo conhecido (oikumene).
Em seus escritos, pode-se perceber facilmente a influência da
herança das comunidades paulinas e do Discípulo Amado.

Tal como já fizera Domiciano, Trajano renova a declaração de


ilegalidade do Cristianismo, pelo ano 112.
Plínio, o Jovem, que era governador romano da província da Bi-
tínia no noroeste da atual Turquia, entre os anos 111 e 113, escreveu ao
imperador para esclarecer dúvidas sobre como deveria agir em relação
aos processos contra lideranças cristãs. Uma de suas cartas informa-
nos que a perseguição às igrejas continuava também no segundo sécu­
lo. Plínio refere-se a essa perseguição, dizendo que havia “processos”
contra os cristãos que eram “delatados”, “interrogados” e “punidos”.
Participar das comunidades era “correr risco”. Ao escrever, Plínio ma­
nifesta o desejo romano de “deter” e “corrigir” o movimento cristão,
que “se difundiu amplamente pelas cidades, aldeias e campos”.
Transcrevemos, a seguir, trechos da carta escrita no ano 112: “
Ja­
mais tomeiparte dosprocessoscontraos cristãose,portanto, nãosei seécomose
costumapunireinterrogar... Outros, apontadosnominalmenteporumdelator, ad­
mitiramque eramcristãos e, logo depois, o negaram, dizendo que tinhamsido,
mas não oerammais... Afirmavam, ainda, que todo oseu crime ou erro teria
consistidonofatodequecostumavamreunir-seemumdiadeterminadodasemana,
90
antesdosolselevantar, ecantavamumhinoaCristocomoaumDeus... Muitos,
comefeito, detodasasidadeseclassessociaisedeambosossexos, corremecorrerão
aindatalrisco. Nãosópelascidades, mastambémnasaldeiasenoscampos, difun­
diu-seamplamenteocontágiodessasuperstição, quesepodeaindadeterecorrigir...
Esta carta de Plínio deve ser situada dentro do projeto imperial
de imposição do seu modo de vida e de perseguição às comunidades
cristãs, quando estas não se submetiam à ideologia do império. E que a
convivência fraterna delas em torno da partilha nas casas era uma ame­
aça às estruturas de opressão do império daquele tempo. Não deveria
sê-lo ainda hoje? Trajano havia estabelecido um estatuto legal para re­
primir o Cristianismo. Não tomava a iniciativa para perseguir. No en­
tanto, quando havia alguma denúncia contra membros das igrejas, os
romanos os levavam a julgamento. Quando não abdicavam de sua fé
em Cristo, negando-se a prestar culto ao imperador e a suas divindades,
eram considerados traidores e eram condenados. A pena poderia ser o
exílio, como foi o caso do autor do Apocalipse que se encontrava preso
na ilha de Patmos (Ap 1,9). O castigo poderia também ser o trabalho
forçado em minas ou em embarcações como remadores. No entanto, a
pena mais comum era a condenação à morte. Esta podia ser executada
através da crucificação, reservada aos subversivos políticos e aos escra­
vos rebeldes, através da cremação, da decapitação ou através de feras
em espetáculos públicos. O Livro do Apocalipse se refere à morte de
muitos cristãos e cristãs por parte do império (cf. 11,7-9; 16,6; 17,6;
18,24).
Quando Trajano já estava em seu leito de morte, preparou sua
sucessão. Adotou Adriano, que o substituiu após sua morte, ocupando
o trono imperial de 117 a 138. Entre suas principais obras, pode-se citar
o reforço da defesa dos territórios do império, as reformas na legisla­
ção, bem como obras públicas em todas as províncias. Em seu governo,
reprimiu cruelmente a resistência judaica, comandada por Bar Kochba,
como veremos logo adiante. Ao morrer, seu filho adotivo Antonino
Pio (138-161), assumiu o trono. Seu sucessor foi Marco Aurélio (161­
180). Entre o governo de Trajano (98-117) e o de Marco Aurélio, o
Império Romano chega ao seu apogeu.

91
A insurreição liderada por Bar Kochba (132-135)
Apesar da derrota arrasadora na guerra de 66-73, como já vimos,
o movimento de resistência continuava vivo. Não havia sido extinto
totalmente. O sonho de liberdade dos zelotas não havia morrido. Exem­
plos disso são os tumultos que houve no Egito e na ilha de Creta ainda
nos anos 72 a 74 e, mais tarde, em 117. Estes foram rápida e duramente
reprimidos.
O imperador Adriano não tinha muita simpatia pelos judeus.
Chegou a tomar algumas medidas que esquentaram ainda mais os âni­
mos. Primeiro, emitiu um decreto que proibia a circuncisão em todo o
império. No entender dos judeus, esse decreto era um ataque frontal ao
coração de sua Lei, de sua religião.
A segunda medida, que foi causa imediata de uma nova insurrei­
ção, é a decisão do imperador de construir uma cidade romana em
Jerusalém, que ainda permanecia parcialmente em ruínas. Nesse proje­
to, estava prevista a construção de um templo ao Deus Júpiter, justa­
mente no lugar do antigo templo de YHWH. Júpiter, senhor do céu e
da terra e pai dos Deuses para os romanos, era chamado de Zeus pelos
gregos. Essa pretensão de Roma punha fim à esperança judaica na re­
construção de seu templo. Em 131, começa a fundação da nova cidade,
desencadeando uma tempestade de fúria por parte dos judeus. Quem
liderou a resistência foi um homem chamado Simeão Ben Kosiba. A
insurreição explode em 132 e se espalha rapidamente por todo o país,
empolgando toda a nação.
Inicialmente, o rabino Akiba tentou aplacar a revolta. No entan­
to, foi convencido pelos rebeldes a apoiar o levante, tornando-se o prin­
cipal assessor de Simeão. Por fim, suge­
"Uma estrela procedente riu que Simeão fosse chamado de Bar
de Jacó se torna chefe, Kochba (“filho da estrela”). Com isso, lhe
um c e f r o s e levanta, atribuía dignidade messiânica. Ele seria
procedente de Israel." o Messias que salvaria a Palestina das
( Nm 2 4 , 1 7 ) mãos dos romanos.
As comunidades cristãs da Pales­
tina não aceitavam a pretensão messiânica de Bar Kochba e não apoi­
aram a luta contra o império. Para elas, Jesus é o Messias. Por isso,
foram violentamente perseguidas pelos seguidores do líder da resistên­
cia judaica.
Como os romanos foram pegos desprevenidos, os rebeldes tive­
ram um razoável sucesso inicial, expulsando os colonizadores e decla­
rando o país independente. Nesse mesmo ano e no lugar do antigo
templo de Jerusalém, foi retomado o serviço do culto de sacrifícios.
Chegaram, inclusive, a estabelecer um novo sumo sacerdote.
Imediatamente, Bar Kochba iniciou uma reforma agrária, que
foi um dos eixos de seu projeto. Restabeleceu também a Lei Judaica.
Essa independência deve ter durado pelo menos dois anos, uma
vez que há moedas cunhadas daquele tempo e que se referem aos dois
primeiros anos de Simeão, o libertador de Israel.
Como as legiões romanas estacionadas na Síria não foram sufi­
cientes para conter a resistência judaica, Adriano encarregou a repres­
são dos rebelados ao general Júlio Severo, governador da Bretanha,
atual Inglaterra. Sua estratégia foi evitar combates em campo aberto,
optando pela tática do cerco às cidades e às fortalezas, a fim de levar
fome e sede a seus habitantes. Com isso, foi vencendo lentamente os
rebeldes e sem muitas baixas entre os soldados de suas tropas. As
fortalezas foram conquistadas aos poucos. Em meados de 135, Seve­
ro apodera-se de Beter, próximo de Jerusalém, e mata o líder Bar
Kochba. Era o fim da rebelião.
Assim, o poder estava novamente consolidado nas mãos imperiais.
Essa derrota foi mais uma tragédia para a comunidade judaica. Foram
destruídas 50 fortificações e centenas de vilarejos. Milhares de judeus
foram mortos nas batalhas. Muitos também morreram pela fome, sede
e doenças. Inúmeras pessoas foram vendidas como escravas. A Palesti­
na encontrava-se devastada. Essa catástrofe levou os judeus à perda
total de sua pátria. Os romanos já vinham chamando a Judéia de Pales­
tina. Porém, a partir de agora, esse passou a ser o nome oficial.
Os judeus foram proibidos, sob pena de morte, de entrar na ci­
dade de Jerusalém, que foi povoada exclusivamente por pessoas não-
judias. A cidade foi ampliada e transformada em colônia romana com
estilo helenístico. Passou a ser chamada de Aelia Capitolina, em honra
ao imperador Adriano. No lugar do antigo santuário, foi erguido um

93
templo a Júpiter. Ali, prestava-se culto não somente a Júpiter, como,
também a sua consorte Juno (a Hera grega), Deusa do casamento, e a
Minerva (a Atenas grega), Deusa da sabedoria. Também Afrodite, Deusa
grega do amor, recebeu um templo em Jerusalém, no lugar que os cris­
tãos reverenciavam como sendo o sepulcro de Cristo. Em torno da
gruta de Belém, construíram também um templo a Adônis, Deus fení-
cio da juventude e da beleza, também cultuado pelos gregos.
Desde 135 até 1948, quando a ONU determinou a reconstrução
do estado de Israel depois da Segunda Guerra Mundial (1940-1945), as
comunidades judaicas permaneceram vivas, em várias partes do mun­
do, na diáspora globalizada, graças à força de sua religião.

O movimento gnóstico
Para bem entender os escritos pós-apostólicos, convém conhecer­
mos alguns pontos centrais do gnosticismo.
A palavra gnóstico vem de “gnose”, que em grego significa co­
nhecimento. O gnosticismo é um movimento religioso e filosófico que
já existia no mundo greco-romano quando surgiram as primeiras co­
munidades cristãs e que teve seu auge no segundo século.
A doutrina desse movimento tem sua origem na filosofia grega e
em diversas religiões e correntes espirituais. Era uma mistura de idéias
desde a cultura do Irã, da Babilônia, do Judaísmo e do Egito, incluindo
o pensamento grego.
Diferentemente do Judaísmo, que propunha a Lei como cami­
nho de redenção, os gnósticos apresentavam o conhecimento divino
como caminho para a verdadeira salvação. Conhecimento que não se
alcançava somente por esforço humano, mas era recebido por meio de
uma revelação divina vinculada à faísca de Deus adormecida nas pesso­
as, transformando-as inteiramente e conduzindo-as à vida verdadeira.
Os adeptos do gnosticismo consideravam seu conhecimento superior
ao das pessoas que não seguiam seu movimento.
O pensamento gnóstico é fortemente dualista. Por um lado, vê o
mundo, a matéria de forma muito negativa, sob o domínio das forças
do mal, das trevas. O corpo humano está nessa esfera. Como todo o
cosmos, incluindo o corpo humano, encontra-se nas trevas, governado

94
por forças inimigas, entregue à perdição, às paixões. A matéria é enten­
dida como prisão das centelhas divinas.
Por outro lado, está a luz divina, lugar de onde se originam as
almas das pessoas, que estão adormecidas e presas nos corpos, na ma­
téria. Adquirir conhecimento capacita as pessoas para percorrer o ca­
minho de volta à dimensão divina.
Nesse sentido, os gnósticos entendem a alma como um núcleo
divino que se encontra prisioneiro no corpo das pessoas. Para vencer
seus prazeres, seu egoísmo e seus desejos carnais, o corpo devia ser des­
prezado e castigado, além de ser afastado de todas as coisas materiais, o
mundo. Para se libertar, a alma precisa alcançar a sabedoria, o conheci­
mento. Uma vez liberta, ela volta a fazer parte da esfera divina.
Esse pensamento também encontrou adeptos nas comunidades
cristãs. Os gnósticos cristãos entendiam Jesus como o salvador que re­
vela o conhecimento de Deus à humanidade. Ele teria descido em for­
ma humana. No entanto, não era verdadeiramente homem. Não teria
passado pelo sofrimento e pela morte. Propunham também um des­
prezo por tudo que tem a ver, segundo seu pensar, com as coisas terre­
nas como, por exemplo, o casamento (lTm 4,3).
Os gnósticos cristãos estavam preocupados com a busca da re­
velação do conhecimento divino e com o distanciamento de tudo que
estava ligado às coisas materiais. Afastavam-se de um Cristo encarnado
na condição humana (ljo 4,2-3; 2Jo 7) e envolvido na promoção da
vida de quem estava à margem da cidadania, tendo que enfrentar, con­
seqüentemente, sérios conflitos com quem detinha o poder político,
econômico e religioso. Dessa forma, os gnósticos cristãos promoviam
um Cristianismo voltado à busca da sabedoria. Transformavam o Evan­
gelho do Reino em uma religião que não representava nenhum perigo
às estruturas deste mundo, limitando-se demasiadamente à libertação
interior, uma religião de elite, letrada e economicamente superior.
E possível que o mago Simão de At 8,9-24 seja um gnóstico que
se dizia ser portador da revelação divina.
Nos livros que estudaremos nesta parte, veremos vários enfren-
tamentos com as pessoas que difundiam esse modo de pensar nas co­
munidades, especialmente no Apocalipse, na literatura joanina e nas

95
Cartas Pastorais. Já vimos algo a respeito na primeira parte, ao estudar
a Carta aos Colossenses.

Passemos, agora, ao estudo dos escritos do Segundo Testamento


t]ue tiveram sua redação final na terceira geração cristã. Iniciaremos pelos
lextos de herança das comunidades do Discípulo Amado. Adiante, ve­
remos a literatura de herança paulina no início do segundo século.

96
Herança das comunidades do Discípulo Amado
“Jesus, então, vendoasuamãee,
pertodela, odiscípuloaqtiemamava,
disseãsuamãe: ‘Mulher, eisoteufilho!’”
G° 19,26)

Por comunidades do “Discípulo Amado” entendemos as igrejas


fundadas pelas discípulas e pelos seguidores de Jesus de Nazaré, cuja
herança escrita se encontra no Evangelho atribuído a João, bem como
nas três Cartas igualmente a ele conferidas. Chamaremos também essas
comunidades e sua literatura de “joaninas”. E que, na segunda metade
do segundo século, seus escritos foram atribuídos ao apóstolo João.
O Livro do Apocalipse, embora tenha diferenças com os escritos
joaninos, tem também semelhanças. Por isso, é possível que seja litera­
tura de herança das comunidades do Discípulo Amado na região de
Éfeso. Porém, seus autores não são os mesmos do Evangelho e das
Cartas atribuídas a João, como veremos adiante. Como a maior parte
do Apocalipse (caps. 12-22) espelha a situação de perseguição dos últi­
mos anos dc Domiciano, incluímos o seu estudo no início deste capítu­
lo, uma vez que a edição final do 4o Evangelho e das Cartas joaninas
refletem um período posterior.
Sobre as comunidades do Discípulo Amado, você já leu nas p.
42-50 do volume anterior. Convém que você releia aquelas páginas,
sem deixar de perceber o protagonismo das mulheres naquelas igrejas.
A partir daquelas informações básicas, terá maior proveito o estudo a
respeito dos escritos dessas comunidades.

97
1. Livro do Apocalipse
“Eis queeufaçonovastodasascoisas.”
(Ap 21,5)

A linguagem codificada durante a ditadura militar


Durante o período da ditadura militar no Brasil (1964-85), muitas
pessoas compunham poemas e canções para denunciar a perseguição e a
tortura, para incentivar a resistência e para anunciar a esperança. Era uma
linguagem simbólica e em forma de códigos, incompreensível para os
opressores e torturadores, mas que deu força a muita gente que resistia.
Caetano Veloso, por exemplo, quando estava no exílio, recebeu o
seguinte poema: “ Debaixodoscaracóisdosseuscabelos, umahistóriapracontarde
ummundotãodistante...". E aqui no Brasil, as pessoas amigas e familiares de
Caetano cantavam esta canção para se fortalecer. Sabiam que ela falava do
jovem de cabelos cacheados expulso do país. Mas os militares não entendi­
am, pensavam que era apenas um poema de amor.
Em alguns poemas, a linguagem era ainda mais codificada. Procu­
re identificar elementos históricos, de denúncia, de resistência e de espe­
rança na canção abaixo: O BêbadoeaEquilibrista. Ela foi composta por
(oão Bosco e Aldir Blanc e muito bem interpretada por Elis Regina.
Caía
A tarde feito um viaduto,
E um bêbado, trajando luto,
Me lembrou Carlitos.
A lua,
Tal qual a dona dum bordel,
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel.
E nuvens,
Lá no mata-borrão do céu,
Chupavam manchas torturadas.
Que sufoco!
Louco,
O bêbado com chapéu coco

98
Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil.
Meu Brasil,
Que sonha
Com a volta do irmão do Flenfil,
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete.
Chora
A nossa pátria, mãe gentil,
Choram Marias e Clarisses
No solo do Brasil.
Mas sei
Que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente.
A esperança dança
Na corda-bamba de sombrinha,
E, em cada passo dessa linha,
Pode se machucar.
Azar! A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar.

Semelhanças com o Evangelho e as Cartas joaninas


Sabemos que Éfeso, depois da queda dejerusalém em 70, tornou-
se um importante centro de referência para as igrejas cristãs. Havia, ali,
uma forte presença das igrejas paulinas que as equipes missionárias da
Igreja de Antioquia haviam fundado naquelas paragens. No entanto, es­
pecialmente depois da guerra judaico-romana, muitos grupos cristãos da
Palestina migraram para essa região. Entre eles, há tradições das igrejas
petrinas e, de modo especial, das igrejas joaninas. Cada qual tinha uma
forma particular de compreender e seguir a Boa-Nova de Jesus. É natu­
ral, pois, que convivessem, naquela região, igrejas domésticas de tradições
diferentes. Era uma diversidade um pouco parecida como a que ainda
hoje vivemos. Como você sabe, há entre nós uma pluralidade muito grande
nas formas de seguir o Evangelho nas mais difeíentes igrejas.

99
Naquele contexto, o Apocalipse é fruto de igrejas da área de Éfe­
so na Ásia Menor (caps. 2-3), com influência da teologia paulina, mas
de modo especial da teologia das comunidades do Discípulo Amado.
Vejamos algumas diferenças e semelhanças na literatura atribuída a João.
Por um lado, há diferenças entre o 4oEvangelho, as três Cartas e
o Apocalipse, livros atribuídos ao apóstolo João. A principal diferença é
quanto à linguagem. No 4o Evangelho e nas Cartas joaninas, não se
usam os mesmos códigos ou figuras como no Livro do Apocalipse.
No Evangelho, a presença dejesus é uma realidade nas comuni­
dades. Quem a ele adere, já está ressuscitado, já passou da morte para a
vida (Jo 5,24-25). Não se espera pelo retorno iminente de Jesus. No
Apocalipse e nas Cartas de João, entretanto, a esperança pelo julgamen­
to da história é muito enfatizada. Espera-se a parusia de Cristo para
alterar substancialmente as relações de opressão, inaugurando os novos
céus e a nova terra (Ap 1,7; 3,11; 22,10.12.20; IJo 2,18.28; 3,2; 4,17).
Isso nos revela que, embora esses textos possam ser todos eles de igre­
jas de herança do Discípulo Amado, os autores desses livros devem ser
de comunidades distintas e de contextos diferenciados.
Por outro lado, há semelhanças entre o Apocalipse e os demais
escritos atribuídos a João. Vejamos alguns exemplos.
O título mais freqüente dejesus no Apocalipse é Cordeiro c apa­
rece 29 vezes. Veja algumas dessas citações: Ap 5,6.8.12.13; 6,1.16;
7,9.10.14.17; 21,9.14.22.23.27! Além do Apocalipse, esse título somen­
te se encontra no 4° Evangelho na boca de João Batista, quando vê
Jesus se aproximando (Jo 1,29.36).
Outra semelhança entre o 4" Evangelho e o Apocalipse é que
ambos fazem referência à perseguição do império deste mundo (Jo 15,18­
16,4; Ap 12-13).
Quanto às divisões internas das comunidades provocadas pelas
tendências gnósticas, tanto o Apocalipse como as Cartas atribuídas a
João fazem referência a elas (Ap 2-3; IJo 4,1-6).
Antes de você continuar aqui a sua leitura, sugerimos que reveja
a introdução à teologia apocalíptica que fizemos nas p. 59-64 do volu­
me seis, como introdução ao Livro de Daniel (p. 64-68). Aliás, é na

100
literatura apocalíptica judaica, especialmente em Daniel, que os autores
do Livro do Apocalipse buscam a maioria das figuras simbólicas.

O apocalipse é profecia em tempo de impérios


A palavra apocalipse quer dizer “tirar o véu” ou “revelação”. Mas
não é revelação de coisas que acontecerão no futuro, como o fim do
mundo, por exemplo. Nem é previsão de catástrofes. Por isso, a postura
de medo diante do Livro do Apocalipse não se justifica. Ele não é uma
casa de terror para encher de pânico a quem nela entra.
Muito pelo contrário, é um livro profético de denúncia das injus­
tiças do momento presente, pois ele revela a real situação de opressão
exercida pelos impérios, não só dos romanos naquela ocasião, mas de
todos os tempos. E um livro que estimula a resistência e a perseverança,
promove a firmeza na fé e na esperança. Alimenta a militância de quem
resiste à opressão, confiante na ajuda de Deus e de seu Cordeiro que
age na história através de seus servos em favor da libertação.
O Apocalipse é profecia em tempo de dominação de impérios.
Por um lado, denuncia sua violência, sua exploração e o uso que fazem
da religião para se apresentar como sagrados, exigindo culto ao impera­
dor. Revela a consciência de que não é possível fazer acordos com a
Besta. Não há como conciliar o projeto de Deus com o do Dragão.
Portanto, o Livro do Apocalipse quer manter a perseverança na fé em
Jesus e na resistência diante da imposição da ideologia idolátrica roma­
na, que pretende cooptar as comunidades.
Em nossos dias, poderíamos dizer que um dos principais objeti­
vos do Apocalipse seria fortalecer a resistência contra os valores que o
império do capital globalizado nos quer impor, tais como o individua­
lismo, a competição, o acúmulo de bens materiais, o endeusamento das
riquezas, a corrupção, etc. Quer também motivar nossa perseverança
em estabelecer uma economia solidária, novas relações com base na
justiça e na partilha.
Por outro lado, o Livro do Apocalipse anuncia o fim de toda
opressão e imposição ideológica. O julgamento que faz da história é
uma proposta de total transformação das estruturas injustas que geram

101
sofrimento e morte. Em seu lugar, propõe uma sociedade cidadã, um
novo céu e uma nova terra. Este é seu projeto de vida.
Tudo isso é expresso através de linguagem apocalíptica, muito co­
mum noJudaísmo desde a resistência dos macabeus contra o Império Grego
por volta de 200 a.C. e que se prolongou até em torno do ano 200 d.C.
O gênero literário apocalíptico tem como característica principal
o uso de linguagem codificada. Comunica-se através de códigos com­
preensíveis somente às pessoas que pertencem ao grupo de resistência.
Desvela-lhes a realidade, gerando consciência crítica e esperança para
não desanimar na caminhada. Como estimula a perseverança na luta
contra os opressores, é texto subversivo, clandestino. E mesmo que
caísse nas mãos do império, dificilmente este compreenderia sua lin­
guagem codificada, expressa através de símbolos, figuras, sonhos, vi­
sões, animais, números e cores.

Autores do Apocalipse
Além do Livro de Daniel que se encontra na Bíblia, os principais
apocalipses apócrifos judaicos daquela época são: o Primeiro e o Se­
gundo Livros de Henoc, os Testamentos dos Doze Patriarcas, o Apo­
calipse de Esdras e o Apocalipse siríaco de Baruc. Como você pôde
perceber, todos esses apocalipses foram atribuídos a personagens im­
portantes da história de Israel.
Com os apocalipses cristãos não era diferente. Por isso, é inútil
procurar quem, de fato, são os autores. Atribuindo o livro ao profeta
João (1,1.4.9; 22,8), é provável que os redatores dessa obra quisessem
homenagear o apóstolo João. Há uma tradição antiga do historiador
eclesiástico Eusébio de Cesaréia, falecido em 339, que afirma serem
pessoas distintas o João Presbítero e o João Evangelista.
Certo é que o redator final dessa obra, escrita em diferentes épo­
cas e contextos, encontrava-se entre os exilados. Era um prisioneiro
político por se rebelar contra a dominação romana, por testemunhar a
Boa-Nova dejesus Cristo (1,1-2.9). Por isso, encontrava-se na ilha de
Patmos (1,9), transformada pelos romanos em um grande presídio para
todas as lideranças que resistiam ao culto imperial e à opressão.

102
Temas principais do Apocalipse
1. Por um lado, o grande tema desse livro é a denúncia profética (1,3
10,11; 22,10.18) contra o Império Romano. O Apocalipse critica a violên­
cia imperial e a exigência feita aos povos
conquistados para que prestassem culto "E foi dado a ela (a Besta)
ao imperador, a Besta cujo número é 666 poder para guerrear
(cap. 13), e a Roma, chamada de Prosti­ contra os santos
tuta e Babilônia (caps. 17-18). e vencê-los."
Ao revelar a opressão e a idola­ (Ap 13,7)
tria do império, o Apocalipse quer
conscientizar as comunidades para que não desanimem, mas perseve-
rem na resistência até conseguir implodir com as relações opressivas do
sistema do império. Desse modo, propõe reconstruir as relações com
Deus, com as pessoas e com a própria natureza, conforme descreve seu
projeto de sociedade no relato da nova Jerusalém (21,1-22,5). E um
projeto de felicidade plena, sem fim. Não é por acaso que o redator
fmal distribuiu, ao longo do texto, sete bem-aventuranças como pro­
postas de felicidade (1,3; 14,13; 16,15; 19,9; 20,6; 22,7.14).
O Apocalipse quer também animar a mística das comunidades
para que continuem dando testemunho (martyria) do Evangelho de
Jesus (1,2.5; 2,13; 6,9-11), mesmo que tenham que sofrer o martírio. O
livro todo é uma imensa liturgia, que celebra o poder do Cordeiro vito­
rioso por sua ressurreição (12,5) e que ajuda as comunidades a vencer
também a opressão do império que encarna o poder de Satanás, o Dra­
gão. Espalhados por todo o texto, há vários hinos e elementos litúrgi-
cos no Apocalipse (1,3.12-13.20; 4,8.11; 5,9-10.12-13; etc.). Eram can­
ções provavelmente cantadas nas comunidades e posteriormente reco­
lhidas pelos autores do livro.
O poder do mal persegue e mata. Por isso, o livro insiste na ur­
gência da transformação (1,3; 10,6; 16,17). Anuncia o julgamento do
império, o fim da opressão, de modo que ninguém mais precise morrer,
mas todos tenham vida digna na nova Jerusalém.
O Apocalipse não tem em vista a transformação da história so
mente num futuro longínquo. A libertação que anuncia é atual, é para
nossa história. E se faz na luta contra as forças de morte, perseverando

103
na resistência e na fidelidade ao projeto do Cordeiro (12,11). Todo o
livro é como que uma celebração antecipada da vitória final contra o
Império Romano, contra qualquer império. Celebra-se a derrota de
Roma, simbolizada pela Prostituta e pela Babilônia, embriagadas em
suas imundícies, luxúrias e opressões (caps. 17-18). Celebra-se o fim
dos imperadores e dos seus defensores, simbolizados pelas Bestas. Jun­
to com eles, desaparecem também todos os seus seguidores (19,11-21).
Por fim, celebra-se a derrota
"Exultai por sua causa, ó céu, e final das forças do mal, do
vós, santos, apóstolos e profetas, poder do demônio (cap. 20).
pois julgando-a (a Babilônia) O
Deus vos fez justiça." de forças abstratas. Refere-se
(Ap 18,20) a pessoas bem concretas que
encarnam o poder do Dragão.
Chama-lhes de Bestas (cap. 13). A primeira delas (13,1-10) é o próprio
imperador e toda a estrutura imperial que ele representa. Segundo o
alfabeto hebraico, o número 666 é o resultado da soma do valor numé­
rico das letras que compõem o nome “César Nero”. Durante a história,
tcz-sc muita polêmica em torno do número da Besta. Ora, além do
significado desse código que acabamos de ver, convém lembrar ainda
que, sendo o número sete sinônimo de perfeição e plenitude, o número
seis significa imperfeição, pois ainda não chegou à plenitude. Repetir
três vezes o número seis (666) quer dizer que a Besta é o grau máximo
da imperfeição. Portanto, por mais que assuste, o poder dos impérios
será vencido pelo bem, que é perfeito. O número da Besta também
pode ser uma referência àqueles que oprimem os povos, acumulando as
riquezas deles, como fez o rei Salomão. Não deixe de ler lR s 10,14, que
se refere a “666 talentos de ouro”, equivalentes a 23.300 quilos de ouro!
Veja ainda como os imperadores e os impérios de todos os tempos têm
a mesma prática: Davi (2Sm 8,1-14), faraó Necao (2Rs 23,31-35), assíri­
os (Is 8,4), babilônios (2Rs 24,13), persas (Ne 9,36-37), gregos (lMc
1,16-24) e romanos (Mc 10,42; Ap 17-18).
Além disso, o próprio Livro do Apocalipse nos convida a usar­
mos sabedoria para descobrir quem são as sete cabeças dessa Besta
(13,1.18). Pouco adiante (17,9-11), ele mesmo esclarece que são as sete

104
colinas de Roma sobre as quais os reis (Prostituta) construíram seus
palácios. São também os imperadores do primeiro século, cinco dos
quais já caíram (Augusto César, Tibério César, Calígula, Cláudio e César
Nero), um existe (Vespasiano) e o outro não vai durar muito (Tito).
Chega-se, assim, ao sétimo imperador que é Domiciano. Na verdade,
ele encarna a crueldade de Nero (17,11; 13,3.14). E contra Domiciano
(81-96) que as comunidades estão bravamente resistindo no momento
em que esta parte do Apocalipse é escrita (caps. 12-22). E já sonham com
a vitória contra ele e todo seu império opressor, por isso, diabólico.
Vencidas todas as forças da opressão, segue, então, a celebração
da vitória do Cordeiro e de suas testemunhas (19,1-10), iniciando uma
nova era, novos céus e nova terra, a nova Jerusalém (21,1-22,5).
2. Por outro lado, o Apocalipse também quer manter a unida
interna das comunidades. E que havia doutrinas que dividiam as igrejas.
Provavelmente, eram grupos cristãos que assimilaram elementos do
movimento gnóstico. As sete cartas às sete igrejas (caps. 2-3) revelam o
desânimo diante da imposição da ideologia do império e das persegui­
ções. E as divisões nas comunidades fragmentavam ainda mais a unida­
de, enfraquecendo a perseverança na resistência. Possivelmente, os ni-
colaítas (2,6.15-16) e a Jezabel (2,20-23), que seguem a doutrina de Ba-
laão (2,14) e que estavam convencidos de possuir o conhecimento das
profundezas de Satanás (Ap 2,24), eram cristãos gnósticos que provo­
cavam divisões nas igrejas. Desse modo, enfraqueciam a fé de mem­
bros das comunidades, a tal ponto de prestarem culto ao imperador,
prostituindo-se com as carnes a ele sacrificadas (2,14.20). Havia tam­
bém judeus da “sinagoga de Satanás” que criavam problemas para as
comunidades (3,9).
Nas sete cartas (caps. 2-3), Jesus exorta as comunidades para que
retomem o primeiro amor (2,4; 3,19), não tenham medo (2,10), conver­
tam-se (2,16) e perseverem (2,25; 3,11). Pede também que voltem nova­
mente a viver em intimidade com ele, vivendo unidas e na fraternidade.
Deixar Jesus entrar em nossas casas e comer com ele é fazer comunhão
de vida, é deixar-se guiar por seu Espírito. Por isso, ainda hoje, Jesus
nos diz: “Eis queestoujuntoàportaebato. Sealguémouviraminhavoz?eabrir
aporta, entãoentrarei emsua casaecearei comele, eele, comigo.” (Ap 3,20).
105
Tudo depende de nossa decisão para convidar Jesus a entrar. Ele ape­
nas bate e fala. Onde e como podemos sentir o seu toque e sua voz?

Símbolos e imagens no Livro do Apocalipse


O Livro do Apocalipse é uma releitura cristã do Primeiro Tes
mento, particularmente do Êxodo, de Isaías, de Daniel e, em parte, de
Ezequiel. A grande maioria dos símbolos presentes no Apocalipse pro­
vêm desses livros.
Transcrevemos aqui o apêndice do livro ApocalipsedeJoão:esperan­
ça, coragemealegria, de Carlos Mesters e Francisco Oroflno, editado pelo
CEBI cm co-edição com Paulus.

a) Elementos da natureza e do universo


1. Cores
Em todos os povos, de acordo com a sua cultura, as cores têm
um significado simbólico. No Antigo Egito, por exemplo,/w/o era a cor
da esperança. Em outros povos, brancoé a cor do luto. Para nós, verde
simboliza a esperança. No Apocalipse as cores têm um significado.
* branco(Ap 2,17): vitória, glória, alegria, pureza.
* Vermelho (Ap 6,4): sangue, fogo, guerra, perseguição.
* Amarelo-esverdeadoou baio(Ap 6,7): cor de cadáver em decom­
posição, doença.
* Púrpurae escarlate,vermelho vivo (Ap 17,4): luxo e dignidade real.
* Preto(Ap 6,5): fome.
2. Números
Entre nós, alguns números têm um significado simbólico. Por
exemplo, seteéa conta do mentiroso. Tre%eé número de azar. No ambi­
ente apocalíptico, os números também têm um significado simbólico:
3 Três vezes é o superlativo hebraico: plenitude (Ap 21,13) e
santidade (Ap 4,8): 3 x Santo.
4 Número cósmico: os quatro cantos da terra, toda a terra (Ap
4,6; 7,1; 20,8); os quatro elementos do universo: terra, fogo,
água, ar. Quadrangular (Ap 21,16): sinal de plenitude e de per­
feição.

106
7 E a composição de 3 + 4. Indica plenitude, perfeição, totali­
dade (Ap 1,4). Metade de 7 é 3,5 (Ap 11,9). Às vezes se diz
“um tempo, dois tempos, meio tempo” (Ap 12,14; Dn 7,25),
isto é, três anos e meio. E a duração limitada das perseguições.
E o tempo controlado por Deus.
10 “Dez dias de provação” (Ap 2,10) (cf. Dn 1,12.14), tempo de
curta duração.
12 E uma composição de 3 x 4. Número de perfeição e de totali­
dade (Ap 21,12-14).
24 E uma composição de 2 x 12. Os 24 anciãos (Ap 4,4), isto é,
representantes do povo do AT (12 tribos) e do povo do NT
(12 apóstolos), ou seja, a totalidade do povo de Deus.
42 Quarenta e dois meses (Ap 11,2) é igual a três anos e meio, é
igual a 1.260 dias (cf. Ap 12,6), isto é, a metade de sete anos.
Indica o tempo limitado por Deus.
144 E uma composição de 12 x 12 (Ap 21,17). Sinal de grande
perfeição e totalidade.
666 E o número da besta (Ap 13,18). Em grego e em hebraico
cada letra dnha um valor numérico. O número de um nome
era o total do valor numérico de suas letras. O número 666 é
do nome César-Neron conforme o valor das letras hebraicas
ou César-Deus conforme o valor das letras gregas. E também
o número de maior imperfeição: seis não alcança sete, é só a
metade de do%e, e isto por três vezes! O número 666 é o
cúmulo da imperfeição!
1.000 Designa um prazo de tempo comprido e completo. Reino
de mil anos (Ap 20,2). As combinações: 7 x 1.000 = 7.000
(Ap 11,13), 12 x 1.000 = 12.000 (Ap 7,5-8), 144 x 1.000 =
144.000 (Ap 7,4).

3. Elementos da natureza
Entre nós, alguns elementos da natureza têm um significado sim­
bólico. Por exemplo: “Fulana tem uma boa estrelaV’, “João tem saúde de
ferroT , “Aquela menina é uma p érold”. Na Bíblia, os elementos da natu­
reza têm variados significados simbólicos:

107
4 soleluer. “vestida com o sol, a lua debaixo dos pés” (Ap 12,1): criação
servindo ao povo de Deus.
* estrela(Ap 1,16): anjo ou coordenador da comunidade (Ap 1,20).
* estreladamanhã(Ap 2,28): Jesus, fonte de esperança (Ap 22,16).
* arco-íris(Ap 10,1): símbolo da onipotência e da graça de Deus. Evoca
a aliança de Deus com Noé (Gn 9,12-17).
' mar (Ap 13,1): caos primitivo (Gn 1,1-2), lugar de onde sai a besta-
tera, símbolo do mal.
' abismo(Ap 9,2): lugar debaixo da terra, onde os espíritos maus ficam
presos.
' águadabocadaserpente, o vômito (Ap 12,15): Império Romano.
f iiufrates(Ap 9,14): região de onde costumavam vir os invasores; aqui
os partos.
' cristal (Ap 4,6; 22,1): clareza, esplendor, transparência, ausência do
mal.
* pedraspreciosas(Ap 21,19-20): raridade, beleza, valor.
*pedrabranca(Ap 2,17): usada no tribunal pelo juiz para declarar alguém
inocente.
1 ouro(Ap 1,13): riqueza.
* ferro, cetrodeferro(Ap 2,27): poder.
1 barro, vasosdebarro(Ap 2,27): fragilidade. Evoca Is 64,7 ou Jr 18,6.
' palma(Ap 7,9): triunfo.
' duasoliveiras(Ap 11,4): personagens importantes. Evocam a visão do
AT (Zc 4,3-14).

4. Mundo animal
A convivência com os animais produz significados simbólicos.
Por exemplo, o povo diz: “Não ser papagaio”, “Escutar como corujd\
“Meter o bicoem tudo”, “Fulano é um cavaloY’. No Apocalipse, os bi­
chos ou partes do bicho têm vários significados simbólicos:
+dragão(Ap 12,3) ou “antiga serpente” (Ap 12,9): poder do mal hostil a
Deus e a seu povo.
* besta-feraquesobedoabismo(Ap 11,7) ou do mar (Ap 13,1): Nero ou o
Império Romano.
* besta-feraquesaidaterra(Ap 13,11): o falso profeta que propaga o culto

108
ao imperador. O dragão, a besta-fera do mar e a besta-fera da terra
são uma caricatura da Trindade. O antideus, o anticristo e o antiespí-
rito (falso profeta).
* pantera, leão eurso (Ap 13,2): crueldade, sem misericórdia. Evoca a
visão de Daniel (Dn 7,4-6).
* cavalos(Ap 6,2-7): poder, exército que arrasa. Evocam a visão de Zaca­
rias (Zc 1,8-10).
* cordeiro (Ap 5,6): indica Jesus. Evoca o cordeiro pascal imolado no
Êxodo (Ex 12,1-14). '
* leão, touro, homem, águia, os “quatro seres vivos”, literalmente: “ani­
mais”, (Ap 4,6-7): indicam os quatro seres mais fortes que presidem o
governo do mundo físico. Indicam também os quatro elementos que
formam o ser humano: touro (instinto), leão (sentimento), águia (in­
telecto), homem (rosto). Os quatro juntos formavam o ser mitológi­
co da Babilônia, chamado karibuou Querubim, e a Esfinge do Antigo
Egito. Evocam as visões de Isaías (Is 6,2) e sobretudo de Ezequiel (Ez
10,14 e 1,10).
* ágiáa(Ap 12,14): evoca a proteção do Êxodo (Ex 19,4; Dt 32,11).
* gafanhotos(Ap 9,3): invasores estrangeiros, os partos. Evocam as pra­
gas do Egito (Ex 10,1-20) e a visão de Joel que fala de gafanhotos
com aspecto de cavalos (J1 2,4; Ap 9,7).
* escorpião(Ap 9,3): perfídia, traição. Evoca o Exodo conforme o Livro
da Sabedoria (Sb 16,9).
* cobra, serpente(Ap 9,19): poder mortífero.
* sapo(Ap 16,13): animal impuro (Lv 11,10-12); símbolo persa da divin­
dade das trevas. Evoca a praga das rãs (Ex 7,26 a 8,11).
* chifre(Ap 5,6): poder, particularmente o poder do rei.
* asas(Ap 4,8): mobilidade; velocidade em executar a vontade de Deus.
Evocam Ez 1,6-12.

b) A vida e as coisas da vida com suas instituições


1. Coisas da vida
* túnicalonga(Ap 1,13): símbolo de sacerdócio (Ex 28,4; Zc 3,4). Roupa
ou veste evoca a realidade profunda das pessoas.

109
' linhopuro (Ap 15,6): a conduta justa dos cristãos (Ap 19,8).
4 alfaeômega(Ap 1,8): primeiro e último, princípio e fim (Ap 21,6; 22,13).
4 chave(Ap 3,7): poder.
1 livro (Ap 5,1): o plano de Deus para a história humana.
1 livro da vida (Ap 3,5; 20,12): contém os nomes dos que vão viver sempre.
' selo (Ap 5,1): segredo.
' ladrão (Ap 3,3): Deus vem como ladrão, isto é, de maneira inesperada,
imprevisível.
' foice(Ap 14,14): imagem de julgamento divino.
* trombeta(Ap 8,2): voz sobre-humana que anuncia os acontecimentos
do fim dos tempos.
* carimbo,sinal,marca(Ap 7,2; 13,16-17): marca de propriedade e proteção.
t: balança(Ap 6,5): escassez de comida, custo de vida.

2. Corpo e vida humana


* cabelosbrancos(Ap 1,14): símbolo de eternidade.
* olhosbrilhantes(Ap 1,14): símbolo de ciência divina universal.
* pésdebronze(Ap 1,15): firmeza invencível.
* nome(Ap 3,5.8; 19,13): indica a própria pessoa.
* mão direita (Ap 1,16): símbolo de poder. Evoca a ação de Deus no
Exodo.
* mulher (Ap 12,1): povo santo dos tempos messiânicos; as comunida­
des cm luta.
* filhodam ulher. (Ap 12,4): Messias, chefe do Novo Israel. Evoca Gn 3,15.
* prostituição (Ap 2,14): a infidelidade da idolatria.
* virgem(Ap 14,4): pessoa que rejeita a idolatria.
* noiva, esposa(Ap 19,7): igreja, povo de Deus (cf. Ap 21,2; 21,9-10).
* casamentodoCordeirocomaNoiva (Ap 19,7; 21,2): estabelecimento do
Reino (cf. Is 62,5).

3. Jerusalém e seu templo


* candelabrosdeouro(Ap 1,12): o povo de Deus, as comunidades.
* incenso(Ap 5,8): oração dos santos que sobe até Deus (Ap 8,4).
* coluna(Ap 3,12): firmeza e lugar de honra. Evoca a coluna do templo
(lRs 7,15-22).

110
* templo (Ap
3,12): coração de Jerusalém, cidade santa, representa o
povo de Deus.
* MonteSião (Ap 14,1): lugar do templo; trono de Deus.
* NovaJerusalém(Ap 3,12; 21,2): o povo de Deus, finalmente reconci­
liado.
4. O Império Romano
* trono(Ap 1,4): majestade, domínio. Evoca o julgamento, anunciado no
AT (Dn 7,9-14).
* tronodeSatanás(Ap 2,13): altar do templo de Zeus no alto da monta­
nha em Pérgamo.
* espadaafiada(Ap 1,16): palavra de Deus que julga e castiga (Ap 19,15).
Evoca a imagem usada por Isaías (Is 49,2) e, sobretudo, pelo Livro da
Sabedoria (Sb 18,15).
* arco(Ap 6,2): arma característica dos partos; terror.
* cintodeouro(Ap 1,13): símbolo de realeza.
* coroa(Ap 4,4): poder de rei.
* reidosreis,senhordossenhores(Ap 19,16; 1,5): título do imperador roma­
no dado a Jesus.

c) Elementos da Bíblia e da história do povo de Deus


Eis uma lista dos principais acontecimentos da história da Bíblia que
são descritos ou lembrados, evocados ou ampliados no Apocalipse de João:
* a criação (Ap 3,14; 4,11)................................................................Gn 1,1-2,4
* o paraíso, antes da morte e da maldição (Ap 2,7; 21,4; 22,3).....Gn 2,4-25
* a árvore da vida (Ap 2,7; 22,2)............................................................... Gn 2,9
* a mulher e a serpente em luta (Ap 12,1-4)...................................... Gn 3,15
* o arco-íris após o dilúvio (Ap 4,3; 10,1)...................................... Gn 9,13-16
* as pragas do Egito (Ap 8,6-12; 16,1-21)................................... Ex 7,8-10,29
* o cordeiro pascal (Ap 5,6).............................................................. Ex 12,1-14
* a morte dos primogênitos (Ap 19,11-21)................................. Ex 12,29-34
* a saída do Egito e a travessia do Mar Vermelho (Ap 7,14)..... Ex 14,15-31
* o cântico novo de vitória após a travessia (Ap 5,9; 14,3; 15,3)..Ex 15,1-21
* a águia que leva o povo ao deserto (Ap 12,14)...............Ex 19,4; Dt 32,11

111
* o maná (Ap 2,17)...........................................................................Ex 16,1-36
* a caminhada pelo deserto (Ap 7,16-17; 12,6.14).................Nm 10,11-14,45
*' as 12 tribos (Ap 21,12) e o seu recenseamento (Ap 7,1-8)....Nm 1,1-4,49
* a conclusão da Aliança ao pé do Sinai (Ap 21,3.7)............. Ex 19,1-24,18
* a Arca da Aliança (Ap 11,19).....................................................Ex 25,10-22
f a revelação do nome de Deus (Ap 4,8).......................................... Ex 3,1-20
* o objetivo do Exodo: fazer do povo uma realeza e sacerdotes
(Ap 5,10)......................................................................................Ex 19,6
+as atividades de Balaão (Ap 2,14)......................................Nm 22,1-24,25
* Moisés e Elias (Ap 11,3.6)......................................... Ex 7,14-25; lRs 17,1
* Leão da tribo de Judá (Ap 5,5)...................................................Gn 49,9-12
Rebento de Davi (Ap 5,5)..............................................................Is 11,1.10
a nova Jerusalém (Ap 3,12; 21,9-23)...Is 60,1-2; 66,5-17; Ez 48,30-35
o Monte Sião (Ap 14,1)................................................Is 2,3-5; 2Rs 19,31
a rainha Jezabel (Ap 2,20)................................................lR s 16,31; 21,4-7
os sete Espíritos (Ap 1,4; 4,5; 5,6)..............................................Is 11,1-2
o templo (Ap 3,12; 7,15; 11,1.19; 21,22)........................... em todo o AT
* as grandes promessas dos servos, os profetas (Ap 10,7)...........Am 3,7
+a visão do Filho do homem (Ap 1,13; 14,14)......................Dn 7,13-14
^ Gogue e Magogue (Ap 20,8)..................................................Ez 38,1-39,29
* Armagedon, a montanha de Megido (Ap 16,16)............... 2Rs 23,29-30
* a queda da Babilônia (Ap 14,8; 18,2.10).......................................... Is 21,9
* a saída do cativeiro (Ap 18,4).....................................................Is 48,20-22
* o nascimento do Messias (Ap 12,5)................................... Is 66,7; SI 2,7-9
+o dia dejavé (Ap 6,17)...................................................J1 2,11; Am 5,18-20
+a nova criação (Ap 21,2).............................................................. Is 65,17-25

O plano do livro
Propomos a seguinte divisão para o Livro do Apocalipse, que
passou por um longo processo de redação:

1-3: Prim eira parte. Junto com a quarta parte (22,6-21), estes
primeiros capítulos devem ser obra dos redatores finais no início do
segundo século.
• 1,1-3: Título e resumo do Apocalipse.

112
• 1,4-8'. Saudação inicial: Jesus é o centro da história.
• 1,9-20: Visão inaugural: Jesus vivo em meio às comunidades.
• 2-3: As sete cartas às igrejas exortam-nas a buscar a unidade em
torno de Cristo, diante dos falsos cristãos que produzem
sua divisão e seu enfraquecimento.

4-11: Segunda parte. Os caps. 4 a 11 certamente são a parte


mais antiga do Apocalipse. Desmascaram a opressão durante os últi­
mos anos do imperador Nero (54-68). Querem estimular as igrejas per­
seguidas a perseverarem com coragem na resistência, confiando na vitó­
ria e no poder da ação libertadora do Cordeiro em meio às comunidades
que lutam.
• 4: Visão do trono de Deus.
• 5: Visão do Cordeiro e do livro com sete selos.
• 6-7: Abertura dos primeiros seis selos:
—6,1-8: O passado (os quatro primeiros selos);
—6,9-11: O presente (o quinto selo);
—6,12-7,17: O futuro (o sexto selo): derrota dos opresso­
res (6,12-17) e missão das testemunhas de Jesus (cap. 7).
• 8-11: Abertura do sétimo selo, desdobrando-se em sete trom-
betas que anunciam um novo êxodo:
—8-9: Seis trombetas anunciam seis pragas libertadoras;
-10,1-11,13: Missão profética das comunidades (10), a
exemplo das testemunhas Moisés e Elias (11,1-13);
—11,14-19: A sétima trombeta anuncia a vitória de Cristo
e de suas comunidades.

12,1-22,5: Terceira parte. O texto de 12,1-22,5 revela a violenta


perseguição desencadeada pelo imperador Domiciano nos últimos anos
de seu governo (81-96). Além da perseguição, o império colocava em
perigo a fé das comunidades, impondo sobre elas a sua ideologia. Apre­
senta também o julgamento e a derrota dos opressores do povo que sai
vitorioso, construindo uma nova sociedade.
• 12: O passado: a perseguição do Dragão contra a Mulher.
• 13,1-14,5: O presente: perseguição das Bestas contra o Cordei­
ro e as comunidades.

113
• 14,6-20,15: O futuro: julgamento e condenação dos opressores:
—14,6-13: Três anjos anunciam o que vai acontecer:
* 14,14-20: Chegada do julgamento, anunciada pelo l°anjo;
* 15,1-19,10: Queda de Roma, anunciada pelo 2o anjo;
* 19,11-20,15: Derrota final do mal, anunciada pelo 3o
anjo.
• 21,1-22,5: Novos céus, nova terra e a nova Jerusalém.

22,6-21: Quarta parte. Junto com a primeira parte (1-3), esta


conclusão, contendo recomendações finais, deve ser obra dos que fize­
ram a úldma redação do livro, no início do segundo século durante o
reinado de Trajano (98-117).

Riscos da apocalíptica
Quando não fazemos uma interpretação da linguagem codifica­
da e simbólica do Apocalipse, corremos o risco de cometer injustiças
com a intenção dos seus autores. Além disso, podemos reforçar atitu­
des já muito presentes diante desse livro, como o medo e o fatalismo.
Chamamos de leitura fundamentalista aquela que nem chega a
interpretar o texto. Simplesmente pretende entendê-lo tal como está
escrito, ao pé da letra. Ora, nem se pode dizer que se “entende ao pé da
letra”, pois todo escrito (letra) só se entende quando se tem em conta o
contexto de vida que está por trás do relatado. Não existe texto sem contex­
to. Por isso, é bom você reler 2Cor 3, onde o apóstolo Paulo explica isso,
chegando mesmo a dizer que a “letra” isolada pode até matar (v. 6).
A tendência do fundamentalismo é querer impor essa leitura equi­
vocada como a única verdadeira, absolutizando-a. Dessa forma, facil­
mente gera fanatismo que, por sua vez, leva à intolerância. Já conhece­
mos as conseqüências disso: guerras, a Inquisição, suicídios coletivos,
etc. Além disso, é necessário compreender que os símbolos falam da
realidade, mas através de imagens e figuras. Por isso, precisam ser inter­
pretados. Imaginar que sejam descrições da realidade é um erro de in­
terpretação e só produz medo nas pessoas.
Outra atitude equivocada a partir da leitura do Apocalipse é o
fatalismo ou determinismo. Quando não compreendemos bem a teolo­

114
gia e a linguagem apocalípticas, corremos o risco de pensar que tudo na
história já está determinado por Deus e que nossa ação não consegue
alterar seus rumos. Essa incompreensão pode nos conduzir a um imo­
bilismo, pensando que não é a resistência militante e o engajamento
social que transformam a vida e a história. Se assim nos acomodamos,
esperando uma intervenção mágica de Deus, as Bestas apocalípticas de
hoje continuarão globalizando cada vez mais a miséria, enquanto priva-
tizam as riquezas que Deus criou para todos os seus filhos e suas filhas.
Por fim, lembramos ainda que outra atitude diante do Apocalip­
se pode ser a falta de ecumenismo, isolando-nos como o único grupo
que presta, que é “santo”, enquanto todos os outros não prestam.

2. Evangelho segundo João


“Assim como o Pai me amou,
também eu vos amei. Permanecei em meu amor. ”
(Jo 15,9)

Durante séculos, o Evangelho segundo João foi interpretado de


forma espiritualista, como se estivesse interessado somente na salvação
da alma para depois da morte. Fundamentava-se essa leitura, desligada
da vida e de todas as relações que estabelecemos em nosso cotidiano, em
alguns textos que foram mal interpretados. E o caso, por exemplo, das
expressões “mda eterna” (6,40.47.54) e “meu Reino não é segundo este mundo”
(18,36). Mais adiante, voltaremos à questão da vida eterna.
Quanto ao dito de Jesus de que seu Reino não é “segundo este
mundo”, esclarecemos logo que estão incorretas as versões que tradu­
zem por “meu Reino não é deste mundo”. Ao dizer que seu Reino não é
segundo este mundo, Jesus, portanto, afirma que o Reino de Deus não
está baseado nos valores que fundamentam as relações de exclusão des­
te mundo, como o egoísmo, a ambição, a ganância, o ódio. Este é o
mundo do Império Romano, representado por Pilatos naquele momen­
to. Os valores propostos por Jesus são os da partilha, do amor, da solida­
riedade, do poder-serviço, do perdão, da promoção da vida e da paz.
Leia Jo 17,14-17 e veja como Jesus deixa claro que “não ser do mundo”

115
mas “estar no mundo” é, na verdade, viver relações alternativas, dife­
rentes das que o sistema dominante impõe.

Linguagem teológica e simbólica


Já vimos na primeira parte que os Evangelhos Sinóticos (Mc; Lc;
Mt), ao mesmo tempo em que são uma reflexão sobre a vida dejesus,
refletem também a vida das comunidades que os escreveram. Por isso,
temos tantas características próprias em cada um deles, seja a respeito
do testemunho sobre Jesus (Cristologia), seja em relação à maneira como
entendem a vida das igrejas (Eclesiologia). Nesse sentido, os Sinódcos,
como todos os livros da Bíblia, não são filmagem ou fotografia de fatos
reais. São, na verdade, escritos que relatam a rica experiência com o
sagrado presente no cotidiano das pessoas, das comunidades, da histó­
ria. Por isso, mais que fotografia, são como raios-X, que mostram por
dentro o mistério divino presente na vida. Não ficam nas aparências
exteriores. Revelam o que está invisível a olho nu, o que nossos senti­
dos não percebem, alcançando uma dimensão mais profunda. Neste
sentido, os evangelhos são um testemunho sobre a vida de Jesus de
Nazaré e sobre as igrejas, à luz do evento pascal, da experiência com o
ressuscitado.
Se, para revelar a presença de Deus na vida de jesus e das comu­
nidades cristãs primitivas, podemos dizer que os Sinóticos são raios-X,
então o 4o Evangelho vai além. Ele mostra com maior profundidade o
mistério da filiação divina do Messias, presente na criação desde o prin­
cípio, um com o Pai e com as igrejas, com quem continua presente em
seu Espírito. Nesse sentido, o 4o Evangelho pode ser comparado com
uma tomografia ou com uma ressonância magnética, uma vez que estes
exames radiológicos mostram com maior nitidez o interior de nossos
corpos.
Por isso, é preciso dar muita importância à linguagem teológica,
simbólica, especialmente do 4o Evangelho. Esta linguagem vai mais a
tundo, revela o sentido, o significado que está além das palavras. Apesar
de os relatos terem como fonte fatos históricos, precisamos buscar o
sentido, além do natural, atribuído a eles. É o caso das personagens, comó o
noivo (2,1-12), a samaritana (4,1-42), o paralítico (5,1-18) e o cego (cap.

116
9), etc.; dos números, como o 6 (2,6 = imperfeição), o 5 (4,18 = os cinco
maridos simbolizam as cinco divindades dos cinco povos forçados a mi­
grar para a Samaria no oitavo século a.C. - 2Rs 17,24-41; 5,2 = os cinco
pórticos simbolizam os cinco livros da Lei, incapazes de promover a cura),
o 38 (5,5 = 38 anos eqüivalem a uma geração, de acordo com Dt 2,14), o
7 (5+2=7; 6,9 = totalidade, perfeição), etc.; de palavras como bodas, ta­
lhas, vinho, templo, poço, maná, pão, pastor, ovelhas, mundo, videira,
escravo, jardim, dormir, acordar, noite, trevas, luz, água, caminho, etc.

O 4o Evangelho e os Sinóticos
Comparemos, agora, João com os Sinóticos.
Marcos começa seu Evangelho, apresentando Jesus no início de
sua vida pública. Situa-o, de imediato, nas comunidades da Galiléia.
Alguns anos mais tarde, Mateus e Lucas já incluem as narrativas da
infância, inclusive a genealogia de Jesus. Mateus o situa em relação ao
povo israelita, uma vez que sua árvore genealógica começa com Abraão,
o pai da fé em Israel (Mt 1,2). Por sua vez, Lucas universaliza Jesus,
situando-o na história universal, fazendo-o descender de Adão, pai de
toda a humanidade (Lc 3,38). Já para as comunidades joaninas, Jesus é
princípio e fim de todas as coisas. Mesmo antes de Adão, ele já estava
presente na criação e se encarnou para revelar a vontade do Pai, seu
projeto de amor, de vida e de liberdade (Jo 1,1-4).
João retoma os títulos cristológicos de Jesus que já se encontram
nos Sinóticos. No entanto, considera-os insuficientes. Por isso, insiste
em dizer que Jesus de Nazaré é o Filho de Deus, a presença do próprio
Deus entre nós. Jesus assume inclusive o nome de YHWH (‘E sou envia-
me a vocês”—Ex 3,14; Jo 8,24.28.58; 13,19; 6,20; 18,5-6.8). Diz que é um
com o Pai (10,30), que é sua própria encarnação (1,14).
A maior parte do 4o Evangelho é material exclusivo dessas co­
munidades. Há poucos textos comuns aos Sinóticos. Veja os principais
deles: o testemunho de João Batista e o batismo de Jesus (1,19-34), a
expulsão dos idólatras do templo (2,13-16), a partilha dos pães (6,1-13),
Jesus caminhando sobre as águas (6,16-21), a unção em Betânia (12,1­
8), a entrada triunfal em Jerusalém (12,12-19), o anúncio da traição (13,21­
30) e a paixão-ressurreição (18-20).

117
Todo o resto é material próprio onde, mais do que descrever a
prática de Jesus, realça-se o significado de sua vida.
Há diferenças entre João e os Sinóticos que chamam a atenção.
• Diferentemente dos Sinóticos, a expulsão dos ladrões do tem­
plo está no início da vida pública (2,13-16), por inspiração de Ml 3,1-5.
• Faltam em João os exorcimos que estão tão bem testemunha­
dos nos Sinóticos. No entanto, também as comunidades joaninas en-
lendem a prática dejesus e das igrejas como enfrentamento e supera­
ção das forças do demônio, das estruturas injustas da sociedade, movi­
das pelo príncipe deste mundo, o pai da mentira. E a luta da luz contra
as trevas (8,12). Não deixe de conferir 8,41.44; 12,31-32; 14,30; 16,11!
Quem trai o projeto de Deus, na verdade, encarna o diabo (6,70-71;
13,2.27). Para desacreditar Jesus, as lideranças judaicas diziam que ele
linha o demônio em si (7,20; 8,48-49.52; 10,20-21), como se vê também
cm Mc 3,22-30.
• Também é interessante percebermos que a maior parte de sua
missão se desenrola em Jerusalém e não na Galiléia, como nos Sinóti­
cos. João se estrutura aludindo às grandes festas judaicas.
• Se temos nos Sinóticos em torno de 35 milagres, em João te­
mos somente sete sinais. João não usa a palavra milagres, mas sinais. Dos
sete sinais em João, cinco são exclusivos: as bodas de Caná (2,1-12), a
cura do filho de um funcionário do rei (4,46-54), a cura do paralítico na
piscina de Betesda (5,1-18), a cura do cego de nascença (cap. 9) e a
ressurreição de Lázaro (cap. 11). A partilha dos pães (6,1-15) e o andar
dejesus sobre o mar (6,16-21) também estão nos Sinóticos.
• Se temos mais de 40 parábolas nos Sinóticos, em João, nenhu­
ma delas aparece. E as duas que normalmente chamamos de parábolas
são, na verdade, alegorias exclusivas do 4" Evangelho: a do Bom Pastor
(10,1-18) e a da videira (15,1-17).
• Se nos Sinóticos há referência a somente uma Páscoa, João cita
três (2,13; 6,4; 11,55), além da festa das Tendas (7,2), da Dedicação
(10,22) e outra não identificada (5,1).
• Em vez de subir, enquanto adulto, uma vez a Jerusalém como
nos Sinóticos, em João, Jesus viaja 4 vezes ao centro religioso dos ju­
deus (2,13; 5,1; 7,10.14; 12,12).

118
• Nos Sinóticos, a expressão preferida de Jesus para se referir à
sua missão é o anúncio do Reino de Deus ou Reino dos Céus. Em João, a
expressão preferida é vida eterna ou simplesmente vida.
• Por fim, não poderíamos esquecer que o Evangelho do Discí­
pulo Amado omite o título de apóstolo, justamente porque polemiza
com comunidades hierarquizadas, como você já leu no volume anterior.
A palavra apóstolo (enviado) somente aparece em Jo 13,16 no sentido
de mensageiro e não como título, justamente no texto em que se discu­
te a forma de exercer a autoridade, isto é, no lava-pés (13,1-17). Já o
verbo enviar aparece mais vezes (9,7; 17,3.18; 20,21). Nas comunidades
joaninas, ninguém está acima de ninguém, a não ser o Espírito Santo.
Por isso, os autores do 4o Evangelho preferem a palavra discípulos para
se referir aos membros das igrejas de iguais (1,37; 2,11; 3,25; 4,1; 6,66;
8,31; 9,28; 13,23.35; etc.).

Autor, data e local


Como os Sinóticos, atribuídos pelos Pais da Igreja a um discípu­
lo importante de Jesus (Mateus) ou a colaboradores de Paulo (Marcos e
Lucas), também o 4o Evangelho segue a mesma lógica. Ainda antes do
ano 200, colocaram o apóstolo João como patrono deste Evangelho.
No entanto, é interessante notar que o apóstolo João somente aparece
no acréscimo feito ao 4o Evangelho. Em Jo 21,2, assim está escrito: “os
filhos de Zebedeu”. E sabemos que eles eram Tiago e João (Mc 3,17).
Dificilmente, o apóstolo João será o autor do 4° Evangelho. E
que, além de estar ausente no texto anterior à sua edição final, dificil­
mente João ainda estaria vivo no início do segundo século. Além do
mais, a proposta das comunidades do Discípulo Amado quanto ao exer­
cício da autoridade é a partilha do poder (Jo 13,1-17). Colocam mulhe­
res e escravos, pessoas sem poder e que tinham a obrigação de lavar os
pés de seus maridos e senhores, como exemplos de autoridade. Portan­
to, as igrejas joaninas vivem um discipulado de iguais, onde o poder é
participativo e exercido com a força do Espírito.
No entanto, sabemos pelos Evangelhos segundo Marcos
(Mc 10,35-40) e Mateus (Mt 20,20-23) que os filhos de Zebedeu luta­
vam pelos primeiros cargos nas comunidades. Por isso, são severamen-

119
lc repreendidos por Jesus. Além disso, o apóstolo João fa2 Ía parte do
comando das igrejas da Judéia, uma vez que aparece junto com Pedro
naquelas comunidades e é chamado por Paulo de “coluna”, isto é, de
líder (At 3,1-4.11; 4,13; 8,14; G1 2,6.9). E mais. João, como parte das
“colunas” de Jerusalém, tinha dificuldades em admitir que houvesse
outras igrejas cristãs que não estivessem sob seu comando (Mc 9,38-40).
Na mesma linha, pode-se situar sua postura, junto com seu irmão Tiago,
contra uma aldeia samaritana (Lc 9,51-56). Diante do exposto, fica difícil
sustentar a tese de que o apóstolo João seja o autor do 4o Evangelho.
Como nos Sinóticos, também os autores do 4o Evangelho são
pessoas anônimas para nós. Certamente, são lideranças das comunida­
des do Discípulo Amado na terceira geração, cujo estilo grego é fortemen­
te influenciado pela cultura judaica. A edição final terá sido pelo ano
110. O local onde foi elaborado o 4o Evangelho pode tanto ser a Síria
como a Asia Menor, talvez Éfeso.

História da redação do 4o Evangelho


O 4o Evangelho, como o temos hoje, certamente passou por um
processo de redação que durou várias décadas.
Como já vimos, as comunidades do Discípulo Amado organiza­
ram-se inicialmente a partir de judeus, especialmente da Galiléia, onde
Maria Madalena certamente teve um papel destacado.
juntaram-se a eles muitos discípulos de João Batista, samarita-
nos e helenistas. Eram igrejas empobrecidas e muito frágeis, simboli­
zadas pela comunidade de Betânia, que quer dizer “casa dos pobres”
(]o 11; cf. v. 1). Justamente por serem fracas e pobres é que Jesus lhes
tinha um amor especial (11,3.5.36). Eram as “comunidades que Jesus
amava”. Lázaro significa “aquele a quem Deus ajuda”. Também em
Lc 16,20, um certo Lázaro representa os pobres que esperam unica­
mente pela ajuda de Deus, uma vez que os poderosos até as migalhas
lhes negam. Marta quer dizer “senhora” da casa, aquela que acolhe e
coordena. Em João, é ela quem faz a profissão de fé (11,27). Maria
significa a “amada”. As comunidades que estão por trás do 4oEvangelho
lêm, como centro de sua vivência, a prática radical do amor, da hospitali­
dade e da solidariedade. Betesda (5,2) significa casa da solidariedade.

120
As igrejas joaninas estão fortemente vinculadas a Jesus. Ele é o
poço e o rio onde está a fonte de água viva (4,10-15; 7,37-39). E ele o
vinho que dá força e coragem na caminhada (2,9-10). Ele é o verdadei­
ro pastor que guia seu rebanho na busca de vida em plenitude (10,1-18).
E também a verdadeira videira que fornece a seiva do amor a quem
permanece unido a ela (15,1-17).
Desde cedo, essas comunidades pobres e solidárias eram abertas
a todas as culturas. Seu objetivo era apresentar Jesus como o Messias e
Filho de Deus não só para Israel, mas para o mundo inteiro. O univer­
salismo é uma marca forte dessas igrejas. João é o único Evangelho que
diz que o letreiro colocado na cruz estava escrito em hebraico, latim e
grego. Com isso, quer dizer que Jesus de Nazaré é rei universal (Jo 19,19­
20). Ele é a luz de todas as pessoas, de todo o mundo (1,4.9; 8,12; 9,5).
Como seguidores do Mestre (pescadores), somos enviados ao mundo
(mar) para evangelizar todos os povos (153 peixes). Esse é o convite
que nos é feito em jo 21,4-14.
Na primeira parte, vimos que as comunidades que se expressam
no Evangelho segundo Mateus propõem a unidade entre as diferentes
culturas em torno de Cristo, através da adesão das pessoas de origem
não-judaica às tradições de Isra­
el, à sua Lei. Ao contrário dessa "As ovelhas ouvem a sua voz
forma de ser igreja, as comuni­ e ele cham a cad a uma de suas
dades do Discípulo Amado, que ovelhas pelo próprio nome e as
também querem a unidade em conduz para fora. Tendo feito
um mesmo rebanho (10,16), con­ sair todas as que são suas,
vidam os membros cristãos de cam inha à frente delas e estas
origem judaica a deixarem as suas o seguem , porque conhecem
antigas instituições, a saírem do a sua voz." (Jo 1 0 ,3 - 4 )
antigo redil (10,3-4), e integrar-
se nas igrejas domésticas onde só há uma única Lei, isto é, o amor.
Mesmo que as igrejas joaninas tenham migrado para a Síria ou
para a Ásia Menor a partir da guerra judaico-romana (66-73), seu teste­
munho sobre Jesus e suas comunidades vem fortemente carregado por
elementos da tradição de Israel. E que seu berço de origem é palesti-
nense. Usam, inclusive, termos aramaicos, como Rabi (1,38), Messias

121
(1,41), Cefas (1,42), Betesda (5,2), Siloé (9,6), Gábata (19,13) e Gólgota
(19,17). No entanto, como o Evangelho é escrito para comunidades
espalhadas no mundo greco-romano, esses termos são traduzidos para
o grego. Confira as citações! O uso freqüente de paralelismos também
mostra as raízes semíticas deste escrito (1,11; 3,18; 6,53-54; 16,16).
Além disso, vários outros elementos nos levam a perceber esse
forte enraizamento na tradição bíblica. Transparece no texto uma pos­
tura ainda muito judaica. A tradição israelita é o pano de fundo para
todo o Evangelho. Ainda no Prólogo, já se afirma que a Palavra veio
para o que cra seu (1,11). Insiste-se em mostrar Jesus como o Messias de
Israel (1,29-51; 19,19). A maior parte de sua vida pública, segundo João, se
desenrola em Jerusalém. Jesus mesmo diz à samaritana que a salvação, isto é,
o caminho para Deus, vem dosjudeus (4,22). Diversas vezes cita as Escrituras
(1,23; 2,17; 6,31.45; 7,40-44; 12,13.15.38-40; 13,18; 15,25; 18,9; 19,24.28.36­
37). Faz também referência às festasjudaicas, como veremos adiante.
Por volta do ano 90, terá havido uma primeira redação. Com alguns
acréscimos posteriores, seria Jo 1,19 a 14,31 e 18 a 20. Você pode perce­
ber como a seqüência natural de 14,31 é 18,1. Confira!
Nesses capítulos, os maiores adversários de Jesus e das comuni­
dades são “judeus”, isto é, lideranças do Judaísmo. No tempo de jesus,
eram principalmente os saduceus, ou seja, os grandes sacerdotes e os
anciãos, que controlavam o sistema do templo. No tempo das comuni­
dades em torno de 90, eram fariseus e escribas, que lideravam o Judaís­
mo a partir das sinagogas e que haviam expulsado os judeus que tam­
bém participavam das igrejas cristãs. Não é por acaso que três vezes
este Evangelho faça referência a tentativas de apedrejamento, a pena
capital judaica. Em Jo 8,5, fariseus e escribas estão com suas mãos chei­
as de pedras para atirar na mulher adúltera (8,1-11). E m jo 10,31-33 (cf.
11,8), judeus querem apedrejar Jesus. Querem também matar Lázaro
()o 12,10). E perseguem não só a Jesus, mas também as comunidades
(15,20), expulsando das sinagogas (9,22.34-35; 12,42; 16,2).
Alguns anos depois, já mais para o final da década de 90, mem­
bros das comunidades joaninas fizeram uma nova edição, incluindo os
caps. 15 a 17, que são, na verdade, uma repetição aprofundada de Jo 13­
14. Há, aqui, uma novidade importante. Quase a metade das vezes em

122
que, neste Evangelho, aparece a palavra “mundo”, ela se encontra nos
caps. 15-17. Na maioria dos casos, mundo é uma referência às autorida­
des romanas sem, no entanto, deixar de se referir também aos dirigen­
tes das sinagogas. Por isso, esse acréscimo reflete a perseguição desen­
cadeada por Domiciano.
Quando, por fim, foram escritas as cartas atribuídas a João, seus
autores fizeram também a edição fin al do 4o Evangelho. Pelo ano 110,
acrescentaram a ele o prólogo (1,1-18) e os textos que reconhecem a
autoridade das igrejas petrinas, como 6,67-71 e o epílogo (cap. 21). Como
se pode ver em Jo 21, nesse momento, as comunidades do Discípulo
Amado já não conseguem mais manter a experiência do discipulado de
iguais. São levadas a aceitar uma articulação mais estreita com as igrejas
petrinas, reconhecendo sua autoridade e assumindo seu modelo hierár­
quico. Adiante, quando estudarmos as Cartas de João, voltaremos a
essa questão.
O episódio da mulher adúltera (Jo 8,1-11) deve ser acréscimo
ainda mais tardio, uma vez que esse texto não se encontra em vários
manuscritos antigos. Em alguns manuscritos de Lucas, essa passagem
se encontra depois de Lc 21,38.

Principais objetivos do 4o Evangelho


Para descobrirmos os objetivos que tinham os autores do 4oEvan­
gelho, basta olhar a conclusão do texto mais antigo. Não deixe de ler Jo
20,30-31!
Você pôde perceber que eles narraram alguns sinais que Jesus
realizou e que marcaram a vida de suas comunidades. Foram escritos
para levar seus leitores a acreditar que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E
mais. Para que, crendo nele, tenham vida. A palavra crer ou acreditar encon­
tra-se 89 vezes neste Evangelho. Só isso já nos mostra a importância
que os autores desse escrito lhe conferem. E interessante notar que
nenhuma vez usam a palavra fé, tão comum nos Sinóticos e em Paulo.
Isso deve-se ao fato de quererem mostrar que o ato de crer é algo dinâ­
mico, é adesão à pessoa e ao projeto de vida de Jesus, tendo uma prática
conseqüente. Não é apenas uma questão intelectual, um aderir a princí­
pios teóricos. Nisso, devem estar polemizando certamente com o mo­

123
vimento gnóstico e, talvez, com cristãos de herança paulina que inter­
pretavam mal a tese da salvação pela fé.
As comunidades joaninas estavam passando por muitas dificul­
dades. Por um lado, como você já leu no volume anterior, havia perse­
guições vindas de fora da Igreja, isto é, das autoridades romanas e ju­
daicas. Além disso, havia também a infiltração do modo de pensar dos
im ós ticos nas comunidades. Por outro lado, a comunhão fraterna dos
seguidores do Discípulo Amado estava ameaçada pela pressão que vi­
nha de outras igrejas cristãs, cuja estrutura era hierárquica, conforme os
padrões da sociedade patriarcal.
Diante disso tudo, as igrejas joaninas corriam o risco de se dividir
e de abandonar a experiência iguali­
"Permanecei em mim, tária. O 4o Evangelho quer fortale­
como eu em vós. cer a adesão, o acreditar em Jesus
Com o o ramo não pode Cristo, para resistir frente a todas
dar fruto, por si mesmo, se essas perseguições e pressões, man­
não perm anece na videira, tendo a fidelidade ao seu projeto de
assim também vós, vida, e vida em abundância. Por isso,
se não perm anecerdes insiste tanto em permanecer no amor
em m im ." (Jo 1 5 ,4 )
dejesus (Jo 15,1-17).
Esse fortalecimento da adesão
a |esus se destina a pessoas da terceira geração e que não o viram pessoal­
mente, mas nele creram. Por isso, a cena do incrédulo Tomé (20,24-29)
quer mostrar que Cristo não está ausente da comunidade. Mas que ele
continua presente, ressuscitado. Diferentemente do imperador divini-
zado que impõe com armas a paz romana, Jesus doa a verdadeira pa%
(14,27; 20,19.21) e é reconhecido por seu discipulado como Senhor e.
Deus (20,28). Confira!

Res significação da tradição de Israel


Já vimos que as igrejas joaninas eram formadas por grupos cuja
origem era muito diversificada. Eram judeus da Galiléia 0o 1,43-45),
seguidores de João Batista (1,35-39), samaritanos (4,1-42) e pessoas de
origem grega (7,35; 12,20-32). Destes, pelo menos os batistas e galileus
participavam também ativamente nas sinagogas, pois eram de origem
judaica e haviam aceitado Jesus como o Messias que veio realizar a
esperança profética.
No entanto, a partir dos anos 80, as autoridades do Judaísmo
expulsaram todos os seus irmãos de fé que haviam aderido ao projeto
do Nazareno, como você já viu.
Por um lado, os judeus expulsos das sinagogas perderam os pri­
vilégios concedidos pelos romanos ao Judaísmo, que estava desobriga­
do de prestar culto ao império e ao imperador, bem como de servir no
exército romano. Conseqüência disso era a possibilidade de persegui­
ção, uma vez que as comunidades cristãs também se negavam a adorar
os imperadores e a lutar em seus exércitos. Mas não só. Por outro
lado, perderam também sua herança israelita que lhes dava identidade
como membros do povo de Israel. Uma vez expulsos de suas comu­
nidades sinagogais, não recebiam mais um digno enterro que ali lhes
era conferido.
Excluídos dessa tradição, passaram, então, a considerar os costu­
mes judaicos como sendo algo estranho às comunidades. As festas do
Judaísmo não são mais dos judeus cristãos. Passaram a se referir a elas
como sendo as festas deles, dos judeus (cf. Jo 2,13; 5,1; 6,4; 7,2).
O 4" Evangelho se refere a seis festas (2,13; 5,1; 6,4; 7,2; 10,22;
11,55). A sétima, a festa plena e completa, é a própria Páscoa de Jesus
(caps. 18-20). A realização de sua hora, isto é, de sua glorificação na
cruz, é conseqüência de seu amor fiel até o fim.
As igrejas joaninas ressignificam essas festas e os principais sím­
bolos judaicos, dando-lhes um novo significado, um novo sentido. Ve­
jamos como relêem as principais teologias da tradição israelita.

1. Em primeiro lugar, as comunidades "No princípio, a


joaninas fazem uma releitura da Teologia da Cria­ Palavra estava
ção, tão cara para o povo judeu. Começam seu com Deus e tudo
Evangelho com a mesma palavra da primeira foi feito por
narrativa da criação (Jo 1,1; Gn 1,1). Apresen­ meio d e la."
tam Jesus como a “Palavra” que já estava com (cf. Jo 1,1 -3)
Deus desde o princípio, participando da criação
0o 1,1-3), tal como a Sabedoria em Pr 8,22-31. E mais. Para que pudes-

125
sc haver vida, a primeira obra criada pela Palavra de Deus ( ”e Deus dis­
se’), segundo esta narrativa, foi a luz (Gn 1,3-5). Será que foi por acaso
que os autores do 4" Evangelho logo apresentam Jesus como sendo
esta luz de vida para a humanidade (Jo 1,4)?
Sabemos que a palavra-chave da Teologia da Criação é vida.
Deus é o criador da vida. Será por acaso que as comunidades joani­
nas compreendem Jesus como aquele que vem trazer vida em abun­
dância (Jo 10,10)? A palavra vida aparece 47 vezes neste Evangelho, mais
do que nos Sinóticos juntos. Leia algumas das citações que seguem: 1,4;
3,15.16.36; 4,14.36; 5,24.26.29.39.40; 6,27.40.47.54.68; etc.
Ela vem acompanhada 17 vezes pela expressão eterna (3,15.16.36;
4,14.36; 5,24.39; 6,27.40.47.54.68; etc.). No 4o Evangelho, vida eterna
não é somente a vida após a morte (Jo 12,25). Hoje, usa-se essa expres­
são com o sentido de vida após a morte, inclusive nas liturgias e doutrinas
de nossas igrejas. Infelizmente, essa compreensão difundida pela teolo­
gia tradicional tem ajudado a fazer uma interpretação espiritualista do
Evangelho joanino, uma leitura desligada da vida.
"Eu vim para que Quando, na verdade, vida eterna quer dizer vida
tenham a vida divina, vida com Deus, vida de acordo com o
e a tenham em projeto de Deus, vida em abundância, vida ple­
ab un dân cia." na. E conhecer o Deus único e verdadeiro, bem
(Jo 10,10) como o seu enviado, Jesus Cristo. Não deixe de
ler Jo 17,3! Conhecer, verbo que aparece 56 ve­
zes no 4° Evangelho, é muito mais que uma questão mental, intelectual.
É fazer a experiência com Deus, é aderir a Jesus, é aceitar o seu projeto
de vida digna. E essa é nossa vocação já aqui nesta terra. Vida eterna,
portanto, é "participar da natureza divina” já nesta vida, como diriam, mais
tarde, os autores da Segunda Carta de Pedro (2Pd 1,4). Além disso,
podemos ver que, na maioria dos casos, a expressão vida eterna vem
acompanhada pelo verbo ter, conjugado no tempo presente e não no
futuro. A vida etern a deve, portanto, já ser vivida nesta terra. Depois da
morte, tornar-se-á plena.
Além dessa centralidade da vida e de apresentar Jesus como a luz
da vida, do mundo (1,4; 8,12; 9,5), lembramos ainda que o 4o Evange­
lho também apresenta Jesus recriando a vida, criando pessoas novas. E,

126
por exemplo, o caso em que, tal como Deus criara a humanidade do
barro, da lama (Gn 2,7), tambémjesus recria o homem cego de nascen­
ça, concedendo-lhe vida plena (9,6.11.14-15). Da mesma forma como
Deus colocara as pessoas no jardim das delícias (Gn 2,8), é do jardim
que vem a vida nova em Jesus ressuscitado (Jo 19,41; 20,15). Por últi­
mo, Jesus sopra o Espírito Santo sobre a comunidade do Discípulo
Amado, de forma semelhante como Deus havia soprado o sopro da
vida sobre a humanidade que criara (Gn 2,7; Jo 20,22).

2. Em segundo lugar, as comunidades joaninas fazem uma relei-


tura da Teologia do Exodo, igualmente cara para o povo de Israel. Foi na
experiência do Êxodo que os israelitas se constituíram enquanto povo.
Foi ali que nasceu uma nova religião, a religião de YHWH, o Deus
libertador.
Acima, já vimos a centralidade do Êxodo no Livro do Apocalipse.
No 4° Evangelho, os principais símbolos dessa teologia também são
ressignificados pelas igrejas do discípulo que Jesus amava. Vejamos!
Duas festas judaicas celebravam fatos relacionados à caminhada
libertadora do Exodo: a Páscoa e a festa das Tendas. Elas celebram a
conquista da liberdade, palavra-chave desta teo­
logia. Como já falamos dessas festas no volume "Se, pois, o Filho

seis (p. 128-131), convidamos você a reler, an­ vos libertar, sereis
realmente livres."
tes de continuar seu estudo neste volume, os
(Jo 8,36)
itens 1 e 3 naquelas páginas.
No 4o Evangelho, a ênfase maior é em relação à Páscoa. Nela,
Jesus vem substituir o templo de Jerusalém e se declara o verdadeiro
templo, isto é, a presença de Deus entre nós, o Emanuel, Deus conosco
(2,13-22). E a forma como João descreve o mesmo significado do ras­
gar do véu nos Sinóticos (Mc 15,38). Em outra festa da Páscoa (6,4), a
comunidade joanina descreve Jesus se apresentando como o pão da
vida (6,34-35.48.51), ressignificando os pães ázimos (Ex 13,3-10). Du­
rante uma terceira Páscoa (11,55), Jesus declara a Marta: ‘Eu sou a ressur­
reição e a vida. "(11,25). Por fim, os capítulos 13 a 20 descrevem o grande
sinal dejesus, a sua hora, a sua glória, a sua Páscoa.
Além de aplicar a si mesmo o nome de YHWH, como vimos

127
acima, Jesus se apresenta como água viva (4,10; 7,38), como o enviado
do Pai (3,13-17; 6,57), como o pão da vida (6,41.48.51), como a luz do
mundo e a luz da vida (1,4; 8,12; 9,5), como porta do redil (10,7), como
o bom pastor (10,11), um com o Pai (10,30), como filho de Deus (10,36),
como a ressurreição e a vida (11,25), como mestre e senhor que serve
(13,13), como o caminho, a verdade e a vida (14,6), como a verdadeira
videira (15,1) e como rei (18,37).
Por fim, como Moisés foi o grande líder no processo de liberta­
ção, os cristãos joaninos também apresentam Jesus como o novo Moi­
sés que vem trazer a nova liberdade (1,17.45; 5,46; 6,32; 7,19).
Que lugar a pessoa de Jesus ocupa em nossas vidas? Como per­
manecemos unidos a ele, tal como os ramos à videira (15,1-17)? Até
que ponto podemos dizer com Paulo que j“á não sou eu que vivo mas é
Cristo que vive em mim” (G12,20)? Como podemos dar-lhe mais lugar em
nossos corações, para que possa transformar-nos sempre mais e nos
guiar como ovelhas suas para a solidariedade, a partilha e o amor? Es­
cutamos sua voz? De que pão nos alimentamos? Com que luz ilumina­
mos nossa caminhada?

3. Em terceiro lugar, as comunidades joaninas fazem uma rel


tura da Teologia da Aliança, tão central para o povo judeu. Foi especial­
mente a pardr do Exílio na Babilônia que
"Deus am ou tanto essa teologia tomou corpo e se impôs como
o mundo que enviou central na fé israelita. O sinal da aliança é a
seu filho único para Lei, descrita nos cinco livros da Torá, o Pen-
que todo o que nele tateuco.
crer não pereça, m as A festa qu e celebrava a doação da Lei
tenha a vida eterna." era Pentecostes. Como também já falamos
(Jo 3,1 6) dessa festa no volume seis (p. 129-130), pro­
pomos que você não siga sua leitura aqui,
antes de reler o item 2 naquelas páginas.
Não é por acaso que o primeiro sinal que Jesus realiza (2,1-12)
seja a sua apresentação como o noivo da comunidade na nova aliança,
não mais fundamentada nas leis de purificação, imperfeitas e pesadas
para o povo (6 talhas de pedra) e vazias de vida (sem água). Porém, a

128
partir de agora, a base das novas relações entre Deus e seu povo, bem
como nas comunidades é o amor (vinho), que não precisa mais do ritu-
alismo imposto por leis da tradição.
Sobre a Lei, gostaríamos de dizer ainda que as comunidades joa­
ninas tiveram a mesma postura como em relação às festas judaicas. Uma
vez expulsas das sinagogas, diziam que a Lei também não lhes pertence
mais. Era a Lei deles (Jo 8,17; 10,34; 15,25). E Jesus vai ocupando o seu
lugar. No Judaísmo, a Lei era o caminho (SI 119,1.3), a verdade (SI
119,30.138.160), a vida (SI 119,37.40.50; Ne 9,29) e a luz (SI 119,105;
19,9). Para as igrejas joaninas, é Jesus de Nazaré quem é “o caminho, a
verdade e a vida. "(Jo 14,6). Ele é a “lutada vida”, a “lu^do mundo” {8,12; 9,5).
Na comunidade do Discípulo Amado, o Espírito Santo é a pre­
sença continuada de Jesus fisicamente ausente (IJo 2,1; Jo 14,16.26;
16,7; 20,22-23). Ele é a força da comunidade (14,12), é o paráclito, isto
é, o advogado que defende (14,16), é o Espírito da verdade (14,17; 15,26;
16,13), que ensina e recorda (14,26), sustenta os fiéis na perseguição
(15,20.25-27), testemunha Jesus (15,26), desmascara e censura o mun­
do (16,8), conduz à verdade plena (16,13), anuncia coisas futuras (16,13­
15) e transforma tristeza em alegria (16,16-24).
A m oré a palavra-chave da Teologia da Aliança. E impressionante
como o 4oEvangelho insiste em falar do amor de Deus, de Jesus (3,16.35;
5,20.42; 10,17; 11,3.36; 13,1.23.34; 14,21; 15,9.12; 16,27; 17,23-24.26),
no amor ajesus (8,42; 14,15.21; 16,27; 21,15-16) e na prática do amor
fraterno (13,34-35; 15,12.17). Chega a dizer que
“ninguém tem maior amor do que aquele que dá sua "Dou-vos um novo
vida p or seus amigos” (15,13). O verbo amar apa­ mandam ento: que
rece 36 vezes no 4o Evangelho.. p. diferente­ vos am eis uns aos
outros. Com o eu
mente dos Sinóticos, que ainda separam o mai­
vos am ei, am ai-
or dos mandamentos em amar a Deus em pri­
vos também uns
meiro lugar e, em segundo lugar, ao próximo
aos outros."
como a si mesmo (Mc 12,29-31), a comunida­ (Jo 13,34)
de do Discípulo Amado formula um manda­
mento único (Jo 13,34-35). Mais tarde, outras lideranças dessas igrejas
escreveriam que “se alguém disser que ama a Deus, mas odeia seu irmão, é um
mentiroso, pois quem não ama seu irmão que vê, não poderá amar a Deus que

129
não vê” (\)o 4,20). João concentra toda a ética no mandamento do amor.
Além de reler as Teologias da Criação, do Êxodo e da Aliança, os
cristãos joaninos ainda rcssigniiicam a festa da Dedicação, como você
pode reler no volume seis (p. 131). Fazem o mesmo com as alegorias do
Bom Pastor (10,1-18) e da videira (15,1-17). Não são mais os reis e
sumos sacerdotes os pastores do povo, “pois ele está como ovelhas sem
pastor” (Mc 6,34). Porém, Jesus é o Pastor que conhece as suas ove­
lhas, chama-as pelo nome e elas o escutam. Ele dá a sua vida por elas.
Ele também é a videira, e seus discípulos e suas discípulas são os
ramos. Diferentemente de Israel cuja vinha não produziu frutos de
justiça (Is 5,1-7), as comunidades de ontem e de hoje produzirão mui­
tos frutos de amor e de jusdça se permanecermos unidos à videira para
dela receber a seiva do amor de Deus. O verbo permanecer, que se encon­
tra 40 vezes em João, expressa a unidade íntima com o amor de Deus.

O 4o Evangelho e os gnósticos
João contesta a compreensão dos gnósticos a respeito do mundo
e de (csus. Eles não entendiam o cosmos como criação divina, mas
dominado pelas forças do mal. Por isso, João insiste em dizer que tudo
foi criado por Deus (1,1-3).
Os gnósticos cristãos negavam a condição humana do Messias,
sua encarnação, uma vez que desprezavam o mundo. Por isso, João
insiste em afirmar sua humanidade (1,14; 6,52.54-57; cf. ljo 1,1-3; 2,22;
4,2-3; 2Jo 7). Não aceitavam vincular Cristo ao que é carnal. Ele não
teria sido realmente homem, mas apenas teria surgido em um disfarce
humano. Ele não teria morrido na cruz, mas apenas aparentado o seu
sofrimento e a sua dor. Separavam, portanto, o “homemjesus” do “Fi­
lho de Deus”. Em resposta a essa tendência gnóstica, o 4° Evangelho
insiste em dizer que Jesus é humano, que morreu como qualquer pes­
soa, mas também é o Filho de Deus, é um com o Pai, como já vimos.
Ele é o intermediário, o caminho entre o mundo divino e a terra. Ele
mesmo é a Palavra salvadora descida da esfera divina.
No entanto, convém ressaltar que o 4o Evangelho, nesse diálogo
que estabelece com os gnósticos, não só rejeita certas categorias. Aceita
outras, como sua visão dualista que está fortemente presente em João.
Encontramos nele muitas oposições como, por exemplo, luz e trevas
(1,4-5), alto e baixo (8,23), vida e morte (5,24).
E possível que eles também tiveram influência na compreensão do
Cristo pré-existente. Essa maneira como as comunidades joaninas enten­
dem a divindade dejesus de Nazaré é conhecida como “alta cristologia”.
A principal característica dessa cristologia é a pré-existência dc
Cristo. Porém, diferentemente da compreensão dos gnósticos, ele já
participou ativamente da criação no princípio (Jo 1,1-3; IJo 1,1-2; 2,13).
Este entendimento a respeito da pré-existência do Messias tam­
bém está presente em Cl 1,15-20 e Hb 1,1-3. Provavelmente, já esteja
pressuposta em F1 2,6-11.
O 4HEvangelho é que mais insiste em afirmar a filiação divina de
Jesus, destacando a total unidade entre ele e o Pai. Confira alguns dos
textos que seguem: Jo 1,18.34.49; 5,25; 8,19; 10,30.36.38; 11,4.27; 14,9­
11; 17,11.21-23; 19,7; 20,31!
Além disso, sua divindade é tal que ele já sabe tudo de antemão.
Veja, por exemplo, Jo 1,48; 2,24-25; 6,5-6.64.70-71; 10,17-18; 11,14.41­
42; 12,27!

Estrutura do 4o Evangelho
Adotamos a seguinte divisão para o 4o Evangelho:
• 1,1-18: Prólogo.
• 1,19-11,54: “Livro dos Sinais”. Os sinais, que manifestam o amor de
Deus, quase sempre são seguidos por discursos dejesus que querem
levar à adesão ao projeto do Pai. Nesse Livro, a hora de Jesus, a sua
glorificação na cruz, ainda não chegou (2,4; 7,6.8.30; 8,20).
—1,19-6,71: Jesus anuncia a vida;
—7,1-11,54: Jesus defende a vida e crescem as ameaças dc morte.
• 11,55-12,50: Transição entre o Livro dos Sinais e o Livro da
Exaltação. Aproxima-se a hora dejesus (11,55; 12,23).
• 13-20: “Livro da Exaltação” ou Glorificação. E o grande sinal ao
qual conduzem os sete sinais realizados por Jesus. A partir de
agora, Jesus revela o amor do Pai ao seu discipulado, entregando
sua vida livremente (10,15.17-18). E a chegada de sua hora (13,1;
16,32; 17,1). Podemos dividir o Livro da Exaltação em três partes:

131
—13-17: O Livro da Comunidade —é o testamento de Jesus;
—18-19: A paixão —hora da glorificação na cruz;
—20: A ressurreição.
• 21: Epílogo.

3. Primeira Carta de João


“Todo aquele que não pratica a justiça não é de Deus,
nem aquele que não ama seu irmão. ” (ljo 3,10)

Na época em que é escrito o 4o Evangelho, as comunidades joa­


ninas ainda vivem de forma igualitária, exercendo um poder-serviço e
vivendo o amor mútuo. O Espírito Santo cumpre um papel fundamen­
tal, enquanto autoridade enviada pelo Pai e pelo Filho. Na ausência
física de Jesus, é ele, na verdade, a sua presença permanente.
Os principais problemas desse discipulado de iguais, como vi­
mos, são a perseguição promovida por autoridades judaicas e romanas,
bem como o perigo da institucionalização de suas comunidades, amea­
çadas pela hierarquização das igrejas de herança petrina e paulina.
Diferente é o contexto na época da redação das Cartas joaninas,
cm torno de 110. Os adversários não são somente externos às comuni­
dades. Eles também são de dentro mesmo das igrejas do Discípulo
Amado, que estão profundamente divididas (ljo 2,18-26; 4,1-6). A divi­
são é tão séria que os autores das Cartas chegam a chamar os compa­
nheiros, que desencaminham seus irmãos (ljo 2,26; 3,7), de anticristos
(ljo 2,18.22; 4,3; 2Jo 7), de falsos profetas (ljo 4,1), de mentirosos
(2,22), de filhos do demônio (ljo 3,8.10.12) e de sedutores (2Jo 7). Se o
4o Evangelho confrontava a fé com a incredulidade do “mundo” e dos
“judeus”, as Cartas confrontam a fé verdadeira com a fé incorreta dos
dissidentes dentro das próprias comunidades.
As Cartas são uma resposta a essa nova situação. A partir da teolo­
gia apocalíptica, embora não em linguagem codificada, descrevem a vida
das suas comunidades numa perspectiva dualista. Os grupos fiéis se tor­
nam sectários, excluindo e demonizando os que acusam de desvio na fé.
Passaremos agora a responder as perguntas básicas que surgem

132
em nossa mente. Quem escreveu as Cartas joaninas? Onde e quando
foram elaboradas? Qual seu conteúdo central? Como se organizam?
Qual a realidade que transparece nos textos?

Quem? O autor deve ser o mesmo para as três Cartas. Em 2Jo 1


e 3Jo 1, ele se apresenta como “o Presbítero”, isto é “o Ancião”. No
entanto, na Primeira Carta de João parece ser uma equipe, uma vez que
se fala na primeira pessoa do plural.
Mas não deve ser o mesmo autor da redação mais antiga do 4o
Evangelho, que espelha um contexto anterior.
Além da diferença de contexto, podemos perceber diferenças
teológicas entre o 4o Evangelho e as Cartas. Uma é que ljo 2,2 e 4,10
apresentam Jesus como “vítima de expiaçào”. Nenhúma vez, o 4oEvan­
gelho compreende a morte de Jesus no sentido de sacrifício, porém,
como livre oferenda, como glorificação. E, portanto, novidade teológi­
ca da Primeira Carta de João.
Outra diferença teológica é a espera da parusia, da vinda iminen­
te de Jesus. Já vimos acima que, no Evangelho, não se espera pelo retor­
no de Jesus. Ele já está no meio das comunidades. O julgamento e a
vida eterna já são realidade.no presente (Jo 3,18; 5,24; 11,25; 17,3). Em
ljo , no entanto, espera-se a parusia de Cristo (ljo 2,18.28; 3,2). Essa
vinda de Jesus é entendida como “dia de julgamento” (ljo 4,17).
Esta diferença nos faz suspeitar de que os autores dessa Carta
devem ser os mesmos que fizeram a edição final do 4o Evangelho. São
discípulos de quem fez sua primeira edição. Ao acrescentarem o cap. 21
àquele Evangelho, já é fato consumado que um setor das comunidades
joaninas se integrou nas igrejas que aceitavam a autoridade de Pedro.
Com isso, também passaram a aceitar o Evangelho segundo Mateus,
fruto das comunidades de herança petrina. E nele, faz-se referência ao
dia do julgamento (Mt 25,31-45).
Onde? Possivelmente em Éfeso.
Quando? Várias vezes, os autores de ljo se referem ao “princí­
pio” (1,1; 2,7.24; 3,11). É uma alusão às primeiras décadas das comuni­
dades joaninas. Isso significa que eles não pertencem às primeiras gera­

133
ções. Por isso e por seu conteúdo, a Carta reflete um estágio posterior.
Terá sido escrita pelo ano 110.
O quê? A Primeira Carta de João não tem forma de epístola.
Faltam emissor e destinatários. E um escrito que, como o 4" Evangelho,
exorta as comunidades cristãs a permanecerem unidas no amor de Cristo.
Parece um comentário ao 4° Evangelho, uma espécie de Carta pastoral
a várias igrejas em forma de instrução, de homilia.
Há profundas divisões nas igrejas destinatárias dessa Carta (2,18­
19.26; 3,7). Os grupos dissidentes pretendem ter um conhecimento e
um amor especiais de Deus (2,4; 4,8.20), a quem pretendiam ver (3,6;
3Jo 11). Além disso, parece que se consideram sem pecado, permane­
cendo em comunhão com Cristo (1,8.10; 2,6), embora não praticassem
o mandamento do amor fraterno (2,4.9). Influenciados pelo movimen­
to gnóstico, negavam que Jesus de Nazaré fosse a encarnação de Cristo,
que fosse filho de Deus (1,1-3; 2,22-23; 4,2-3.15; 5,5.10-11; cf. 2Jo 7;Jo
1,14). Para os gnósticos cristãos, a Palavra divina teria descido sobre o
homem Jesus no momento do batismo. E, antes de sua paixão, ela o
teria abandonado, voltando para a esfera divina, sem passar pelo sofri­
mento humano.
Diante disso, os autores dessa Carta afirmam que não se pode
separar Cristo do homem Jesus. Para eles Jesus Cristo passou não so­
mente pela água, isto é, pelo batismo, mas também pelo sangue, isto é,
pela morte na cruz (5,6; cf. 1,7; 2,2; 4,10). Jesus de Nazaré é plenamente
divino (2,22) e Cristo é plenamente humano (4,2).
Diante dessa crise nas comunidades, os autores querem fortale­
cer a fé de seus membros, insistindo na comunhão com Deus, perma­
necendo nele e na comunhão com os irmãos. A comunhão com Deus
somente é possível no amor ao próximo (1,3.6-7; 2,9-10; 3,10-11.14.23;
4,20). A verdadeira vida está na comunhão com Cristo (5,20), que é luz
(1,5-2,28), justiça (2,29-4,6) e amor (4,7-5,12). A Carta quer ajudar seus
destinatários a distinguirem os verdadeiros dos falsos cristãos (2,4-5.29;
3,10). Quer confirmar a consciência de que são eles, e não os dissidentes,
os verdadeiros fiéis ao Evangelho.
Pode-se dizer, ainda, que a preocupação central da Carta é esta­

134
belecer o critério para distinguir quem é ou não é de Cristo. Não basta
professar a doutrina e pertencer à comunidade, mas é a prática do amor
e da justiça que indica quem “nasceu de Deus”.
Como? Do início ao fim, a Carta gira em torno dos mesmos
temas. No entanto, pode-se estruturá-la nas seguinte partes:
• 1,1-4: Prólogo: anuncia o tema central da Carta.
• 1,5-2,28: Três critérios para estar em comunhão com Deus que
é luz:
—libertar-se do pecado, andando na luz (1,5-2,2);
—viver o mandamento do amor (2,3-11);
—preservar-se do mundo e dos anticristos (2,12-28).
• 2,29-4,6: Três critérios para estar em comunhão com Deus que
é justo, vivendo na justiça como filhos de Deus:
—libertar-se do pecado, praticando a justiça (2,29-3,10);
—viver o mandamento do amor a exemplo de Jesus (3,11-24);
—preservar-se do mundo e dos anticristos, discernindo os es­
píritos (4,1-6).
• 4,7-5,12: Dois critérios para estar em comunhão com Deus que
é amor:
—O amor vem de Deus e se enraíza na fé (4,7-21);
—A fé emjesus como Filho de Deus é a raiz do amor (5,1-12).
• 5,13: Conclusão da Carta.
• 5,14-21: Epílogo.

4. Segunda Carta de João

Quem? Na segunda e na terceira Cartas atribuídas a João, o au­


tor se apresenta como “o Ancião”, “o Presbítero” (2Jo 1; 3Jo 1). Certa­
mente, esse Ancião era uma liderança importante nas comunidades a
quem escreve esses pequenos bilhetes. No v. 13, o autor deixa transpa­
recer que escreve em nome de uma comunidade para uma igreja irmã.
A Segunda Carta de João é dirigida “à Senhora eleita e a seus
filhos” (v. 1). Parece ser uma das igrejas sobre as quais o Presbítero é
responsável.

135
Onde? Possivelmente em Éfeso.
Quando? Pelo ano 110.
O quê? O problema parece ser o mesmo das comunidades des­
tinatárias de IJo. Há sedutores na comunidade que não aceitam a encar­
nação de Cristo em Jesus de Nazaré (v. 7). Dessa forma, não permane­
cem no ensinamento de Cristo (v. 9). E possível que seja o mesmo
grupo de Diótrefes de 3Jo 9-11.
A intenção do autor é prevenir a comunidade contra essa doutri­
na (w. 8.10-11). Retoma temas desenvolvidos na primeira Carta, exor­
tando seus destinatários a andarem na verdade (w. 1.4) e a viverem o
mandamento do amor (w. 4-6).
Como?
• 1-3: Endereço e saudação.
• 4-11: Corpo da Carta:
—4-6: Viver na verdade e no amor;
—7: Confessar que Jesus é o Cristo encarnado;
—8-11: Permanecer fiel à doutrina.
• 12-13: Conclusão e votos finais.

5. Terceira Carta de João


Quem? Como na Segunda, também na Terceira Carta o autor se
apresenta como “o Ancião” (3Jo 1), uma liderança importante nas igre­
jas às quais envia esse bilhete.
Diferentemente do anterior, este bilhete tem um caráter mais
pessoal, pois é dirigido a Gaio (v. 1), uma liderança fiel na sua comuni­
dade.
Onde? Possivelmente em Éfeso.
Quando? Pelo ano 110.
O quê? Os objetivos dessa cartinha são, primeiro, encorajar Gaio,
para que acolha e ajude os mensageiros enviados pelo Presbítero (w. 3-8).
Segundo, prevenir contra a ambição de Diótrefes, que disputa o

136
primeiro lugar na comunidade, não aceitando a autoridade do Ancião,
nem de seus enviados, expulsando daquela igreja quem recebe missio­
nários que vêm de fora. E ainda fala mal do Presbítero (w. 9-10). Pode­
mos supor que, nessa comunidade, Diótrefes era líder importante que
aderiu aos dissidentes, tão criticados nas duas primeiras Cartas. Como
insistisse em desencaminhar toda aquela igreja, o Ancião se dirige a
Gaio, uma vez que ele continua reconhecendo sua autoridade, enquan­
to Diótrefes o rejeita.
Por fim, elogia Demétrio, recomendando-o a Gaio. E possível
que ele seja o portador da Carta.
Como?
• 1-4: Endereço.
• 5-12: Corpo da Carta:
—5-8: Elogia a Gaio;
—9-10: Crítica a Diótrefes;
—11-12: Exortação e elogio a Demétrio.
• 13-15: Conclusão e votos finais.

O destino das comunidades joaninas


Diante da profunda divisão gerada nas comunidades joaninas por
causa dos grupos dissidentes, o que terá ocorrido foi que estes dissiden­
tes devem ter saído das igrejas e aderido por inteiro ao movimento gnóstico.
No entanto, aqueles que ficaram fiéis à fé em jesus como sendo a
encarnação de Deus entre nós, não tiveram mais forças suficientes para
manter a continuidade das suas comunidades. Por isso, o mais provável é
que tenham assumido, aos poucos, a estrutura hierarquizada das igrejas
de herança petrina ou paulina, ou tenham a elas se integrado totalmente.
Parece que Diótrefes (3Jo 9-10) é uma liderança que já está assu­
mindo o papel de presbítero ou epíscopo, a contragosto do autor dessa
Carta. Diótrefes não aceita a liderança do Presbítero, autor da Carta.
Nem mesmo recebe os missionários que ele envia para sua comunida­
de. Já há ambição pelo poder, pelo primeiro lugar.
Da mesma forma, o epílogo do 4° Evangelho (Jo 21), que deve
ser acréscimo dos mesmos autores das Cartas joaninas, nos revela que

137
as comunidades do Discípulo Amado se acham num processo de rein-
tcrpretação e reformulação do modelo de autoridade. Antes, tudo indi­
ca que eram comunidades carismáticas, mais de tipo “congregacional”,
baseadas nos dons do Espírito (1 jo 2,20.27) e em relações de igualdade
fraterna, inclusive com forte presença da liderança feminina. Esta era
simbolizada em Maria Madalena, em Marta e Maria de Betânia. Agora,
110 entanto, as comunidades joaninas são levadas a adotar o modelo
mais patriarcal, forte nas igrejas petrinas.
No tempo cm que essas igrejas do Discípulo Amado ainda man-
linham sua autonomia, Jesus era seu Bom Pastor. E o Espírito Santo,
seu Paráclito, isto é, defensor. No entanto, a partir do momento cm que
sua sobrevivência é integrar-se em comunidades com hierarquia já esta­
belecida, rendem-se a aceitar a autoridade de pastores humanos. Con-
ludo, não deixam de cutucar os que detém o poder. Sua autoridade
deve estar baseada no amor de jesus (Jo 21,15-17).
Os escritos, que as comunidades do Discípulo Amado nos lega­
ram, são testemunhas de que, ainda no início do segundo século, havia
comunidades cristãs que teimavam cm ser fiéis ao projeto de jesus de
Nazaré, vivendo a partilha fraterna em comunidades, onde não havia
discriminação nas relações de gênero, nem dc etnia ou dc elasse. O
poder cra um serviço participativo. Sua base eram o amor e a força do
Iispírito.
Na história da Igreja, as experiências das comunidades de heran­
ça petrina e paulina foram sobrevalorizadas. Foram colocadas acima da
experiência do Discípulo Amado. No entanto, seu exemplo continua,
ainda hoje, a gritar bem alto que não podemos fechar nossos ouvidos à
voz do Espírito que passa. Nenhuma autoridade pode substituir o pa­
pel único dejesus dc Nazaré e do seu Paráclito. Se vivemos em nossas
comunidades do jeito como viveram as comunidades fundadas por Maria
Madalena, certamente seremos discípulas e discípulos dejesus, na cons-
Iruçào de um mundo em que estejam em primeiro lugar a dignidade da
vida, o amor e a liberdade.

138
H erança das com unidades paulinas

Os escritos de lideranças da erapós-apostólica sob a influência das


comunidades fundadas por Paulo são a Carta aos Hebreus, em torno
do ano 100, as Cartas Pastorais (l-2Tm; Tt), ao redor de 115, além da
Segunda Carta de Pedro, o último escrito do Segundo Testamento pelo
ano 130.

1. Carta aos Hebreus


“Cristo possui um ministério superior.
Pois ele é o mediador de uma aliança bem melhor,
que promete melhores benefícios. ” (Hb 8,6)

Já vimos que o Judaísmo oficial propunha fundamentalmente


dois caminhos para se chegar à comunhão com Deus. Um era a Lei e o
outro era o culto no templo de Jerusalém.
Ao estudarmos a vida de Jesus de Nazaré (volume seis, p. 137­
139), vimos que a rigorosa observância da Lei levava ã exclusão, entre
outros grupos, de quem era mais pobre. Nesse sentido, a crítica dc Je ­
sus à Lei revela sua opção por quem era marginalizado.
Paulo e sua equipe vão um pouco além, ao perceberem que, além
dos oprimidos, havia outro grupo excluído por causa da Lei. Eram to­
das as pessoas estrangeiras, tratadas como “porcos” ou “cães”, em con­
seqüência da minuciosa observância da lei de pureza étnica. Os cristãos
helenistas logo compreenderam que o caminho para os não-judeus ade­
rirem à Boa-Nova da justiça não podia ser a observância da Lei judaica.
Propuseram-lhes, então, a adesão ao projeto do Reino através da fé,
aceitando de coração aberto a nova justiça de Deus revelada gratuita­
mente em Jesus. Já lemos a respeito no volume anterior (p. 76-77).
A Carta aos Hebreus dá um passo a mais. Mostra, aos cristãos
participantes das comunidades de herança paulina, que todo o sistema
do templo (com seu sumo sacerdote, seus demais sacerdotes, seus ritos
e sacrifícios) não garante o perdão dos pecados. Essencialmente, peca­
do quer dizer incredulidade, desobediência à vontade divina, negação
do projeto de Deus.
139
Segundo a Carta aos Hebreus, o sistema do templo serve somen­
te de metáfora para apresentar Jesus como o verdadeiro sumo sacerdo­
te, isto é, mediador entre Deus e a humanidade. Atribuir esse título a
|esus chama a atenção, uma vez que ele era leigo. Não era sacerdote
nem levita. Pelo contrário, foi muito crítico à prática destes, entrando
em conflito com eles e sendo condenado por eles à morte. Hebreus é o
único livro do Segundo Testamento que se refere a Jesus com o título
de sumo sacerdote.
Como verdadeiro sumo sacerdote, ele é o santificador e salvador,
o mediador da nova Aliança, superando a antiga, cuja base era a obser­
vância da Lei. Não é um sacerdote que oferece sacrifícios, uma vez que
Deus não precisa deles (SI 40,7-9; Am 5,21-24; Is 1,10-17; Mq 6,7-8; Os
6,6; )r 7,21-22). Porém é sumo sacerdote enquanto doa sua vida livre­
mente em resgate da dignidade a que todas as criaturas têm direito. E
vai até as últimas conseqüências, sendo obediente até o fim (Hb 2,17;
5,8-9; 10,7.9.10.36; 13,21). Ao ser martirizado pelos poderosos deste
mundo, sua vida foi sacrificada. Não porque Jesus assim o quisesse. Mas
como conseqüência de sua fidelidade a uma causa justa, a causa do Reino,
dos pobres, a superação de todo pecado, de todo mal que impede a pro­
moção da vida, bem como a comunhão com Deus e com as pessoas.
Para nós, Hebreus é um convite a sermos, a exemplo de Jesus,
solidários com todas as vítimas da opressão que ainda hoje clamam por
justiça, por pão, por terra e paz.
Para apresentar a Carta aos Hebreus, seguiremos agora o mesmo
esquema que usamos acima nas Cartas joaninas.
Quem? Os autores devem ser discípulos ou admiradores de Paulo
em gerações posteriores. Seguem com radicalidade sua tese central, isto
é, a salvação pela fé. Por isso, consideram a adesão a Jesus pela fé como
sendo o único caminho entre Deus e a humanidade. A Carta não é
atribuída a Paulo (cf. 1,1-2). Porém, pertence à herança paulina, uma
vez que há muitas semelhanças com sua teologia e eclesiologia. Faz, in­
clusive, referência a Timóteo, um dos principais missionários da equipe
de Paulo (13,23). Lembramos, no entanto, que há também muita relação
entre o pensamento da Carta aos Hebreus com os escritos joaninos.
Onde? Talvez, a Carta aos Hebreus tenha sido escrita em Roma,
uma vez que, no bilhete anexado ao texto, diz que “os da Itália vos saú­
dam” (13,24). No entanto, o texto cita Timóteo (13,23), de quem não
temos nenhuma referência de que tenha se encontrado em Roma. Por
isso, o local de sua redação pode ser também qualquer lugar do ambien­
te das comunidades de herança paulina como Efeso, onde, segundo
lTm 1,3, Timóteo está à frente da comunidade.
Quando? Pelo ano 100. A própria Carta esclarece que ela não é
da primeira geração. Em 2,3, é-nos dito que os autores desta Carta não
faziam parte dos que conviveram com Jesus. No entanto, o Evangelho
lhes foi transmitido pelos que o ouviram. Também 13,7 reconhece que
as primeiras lideranças já não vivem mais. O texto reflete uma época
em que já estão superadas as tensões entre judeus e não-judeus nas
comunidades cristãs. Jesus pertence a “todos os que lhe obedecem” (5,9; cf.
7,25; 11,6).
O quê? Hebreus não tem o gênero literário de carta, uma vez
que não se encontra nela referência explícita aos emissores, aos destina­
tários, nem saudação inicial. Seu estilo é impessoal. Por isso, podemos
dizer que seu gênero literário é uma reflexão teológíco-pastoral, em
forma de discurso. Somente no final há um bilhete, recomendando sua
leitura.
Os destinatários não são judeus da Judéia. Nenhuma vez fala em
“judeus”, “israelitas” ou em “circuncisão”. Por um lado, como a Carta
retoma toda a tradição judaica, entre seus destinatários pode haver ju­
deus helenistas que já são cristãos de longa data, mas que não conhece­
ram Jesus. De modo especial, os leitores de Hebreus devem ser pessoas
de cultura greco-romana convertidas ao Evangelho, uma vez que o tex­
to convida seus destinatários a se arrependerem das “obras mortas” e a
aderirem ao Deus vivo. Confira Hb 6,1 e 9,14! Aqui, obras mortas se
referem às práticas decorrentes de sua adesão às antigas divindades, dife­
rentes de YHWH, antes de sua conversão a Jesus de Nazaré. Hebreus faz
muitas referências às Escrituras judaicas. E que os cristãos de origem
não-judaica também estudavam a Bíblia e entendiam sua mensagem.
O objetivo de Hebreus é exortar, encorajar, confortar e animar

141
comunidades (13,20-22). As igrejas destinatárias necessitam de uma
palavra de encorajamento, de alento diante do desânimo que toma con­
ta delas (12,3.12). Vivem atemorizadas, perseguidas. Por isso, é preciso
animá-las em sua caminhada como testemunhas dejesus de Nazaré, o
verdadeiro sumo sacerdote, isto é, mediador e caminho entre Deus e
suas criaturas.
Além da perseguição, há outras razões que levam essas igrejas a
perder a fé em Jesus como caminho de vida, de salvação. Por um lado,
há quem considere a mediação dos anjos superior à de Cristo. Por isso,
os autores de Hebreus insistem na superioridade dejesus sobre os an­
jos (1,5-2,18). Mais tarde, no entanto, como veremos adiante, os auto­
res da Segunda Carta de Pedro fazem fortes críticas aos que não dão
muita importância aos anjos e blasfemam contra eles (2Pd 2,10b-12),
da mesma forma como já haviam feito os autores da Carta de Judas (cf.
Jd 8-9).
Por outro lado, por causa da perseguição ao Cristianismo, que
não era uma religião lícita no Império Romano, membros das igrejas
eram tentados a voltar a suas antigas crenças, diante da demora da vin­
da de Jesus (9,28; 10,25.37). Lá não sofriam perseguições. Inclusive cris­
tãos helenistas voltavam ao Judaísmo, religião aceita pelo império, sub­
metendo-se novamente às observâncias da Lei, a fim de não serem per­
seguidos. Hb 13,13 convida essas pessoas a saírem do acampamento,
do recinto sagrado, isto é, das sinagogas, mesmo que tenham que sofrer
as mesmas humilhações dejesus, como conseqüência de sua participa­
ção nas igrejas cristãs.
A maior parte de Hebreus pretende ser uma resposta a essa ten­
tação de voltar às antigas religiões, inclusive o Judaísmo. Daí por que,
de um lado, insiste tanto em dizer que a mediação dejesus é superior à
de Moisés, a quem está intimamente vinculada a Lei. E superior tam­
bém à mediação de Josué que liderou o processo de libertação da terra
na época da formação do povo de Israel (3,1-4,13).
Por outro lado, e esse é o assunto central do texto, Hebreus afir­
ma que o sumo sacerdócio de Jesus é superior ao dos sacerdotes da
tribo de Levi (4,14-10,39). Ao defender essa tese, os autores de He­
breus querem fortalecer as comunidades cristãs em sua adesão a Jesus,
de modo que permaneçam firmes no amor, na fé e na esperança, para
que não voltem atrás, aderindo a uma mediação fundada em laços car­
nais (da genealogia levítica) e com base na observância da Lei.
E por isso que insiste na superioridade do sacerdócio de Jesus
segundo a ordem de Melquisedec. Não deixe de ler Gn 14,17-20; SI
110,4; Hb 5,6.10; 6,20; 7,1-28!
Ao afirmar que o sacerdócio de Jesus é segundo a ordem de
Melquisedec, os autores de Hebreus querem dizer que Jesus é superior
ao pai Abraão, uma vez que este pagou tributos a Melquisedec e foi
abençoado por ele (Hb 7,1-3).
Como os levitas são descendentes deAbraão, osacerdócio de
Jesus segundo a ordem de Melquisedec também é superior aosacerdó­
cio da tribo de Levi que se apóia na Lei (Hb 7,4-14).
Além disso, seu sacerdócio é eterno (7,3), imutável (7,20-25), efi­
caz e completo (7,26-28).
Voltar até Melquisedec é também "M elquisedec significa,
reportar-se à experiência de Israel quan­ em primeiro lugar,
do ainda não era um estado monárquico. 'rei da justiça' e, depois,
E situar a mediação de Jesus com vistas 'rei de Shalém ', o que
à reconstrução de uma sociedade justa, quer dizer 'rei da p az'."
como na época das Tribos, quando nin­ (cf. Hb 7,1-2)
guém podia ser um rei mediador do po­
der de Deus. Só ele era autoridade (Jz 8,23). A palavra Melquisedec
significa “rei da justiça” (7,2a). O reino, do qualjesus é o sumo sacerdo­
te, tem como fundamento a justiça, a vontade de Deus (cf. Mt 6,33) e
não a Lei, apoio do sacerdócio levítico (7,11), que legitima relações
hierárquicas e de exclusão com base na lei de impureza. Convém lem­
brar aqui que, depois do Exílio, época do segundo templo, quando não
havia mais reis em Israel, também os sumos sacerdotes assumiram a fun­
ção real. Por isso, substituindo a mediação deles entre a divindade e o
povo, Jesus é apresentado, pelos autores de Hebreus, como o único sumo
sacerdote e rei.
Melquisedec é rei de Shalém, o que quer dizer, “rei da paz” (7,2b).
A elite sacerdotal legitimava a “paz romana”, conseqüência da violência
do império e geradora de submissão, pobreza e morte. Diferentemente,

143
Jesus propunha outra paz (Jo 14,27; cf. Hb 11,31; 12,14; 13,20), baseada
na justiça e geradora de bem-estar, de plenitude, de comunhão de vida,
de misericórdia e de perdão em permanente conversão.
Hebreus apresenta Jesus como o único sumo sacerdote e único
rei da justiça e da paz. Ao assim negar qualquer mediador além dejesus,
seja rei ou sacerdote, os autores desse texto sugerem que o poder polí­
tico e religioso não pode estar concentrado nas mãos de uma única
pessoa. A centralização e a hierarquização de qualquer autoridade facil­
mente levam a um poder despótico e opressor. Hebreus, portanto, pro­
põe um exercício coletivo da autoridade. Segundo lP d 2,5.9 e Ap 1,6;
5,10; 20,6, esse poder mediador participativo chama-se “sacerdócio santo
e real” ou “reino de sacerdotes”. E o poder mediador da comunidade
(cf. Mt 18,15-18). E o sacerdócio de todas as pessoas batizadas. Dessa
forma, atualizam a Aliança de YHWH com os hebreus libertos da opres­
são do faraó (Ex 19,4), passando a ser, como eles, “um reino de sacerdotes
e uma nação santa ” (Ex 19,5-6).
Esse novo sacerdócio é superior ao antigo templo feito de pe­
dras, junto com todos os sacrifícios que ali se ofereciam sobre o altar.
Jesus é sacerdote de um novo santuário. Como mediador de uma Nova
Aliança, ele está presente na nova tenda, a comunidade reunida que faz
o bem e promove a partilha. Assim, a comunidade presta um culto ao
Deus vivo. Tudo isso você pode conferir em Hb 8 a 10.
Por fim, depois de apresentar os modelos de fé da tradição de
Israel (cap. 11), os autores de Hebreus convidam à firmeza e à perseve­
rança na adesão a Jesus, a seu projeto de um outro mundo possível
(12,1-13,16).
Como? Entre várias possibilidades, pensamos ser a seguinte uma
divisão adequada:
• 1,1-4: Prólogo.
• 1,5-2,18: A mediação dejesus é superior à dos anjos.
• 3,1-4,13: A mediação dejesus, como sumo sacerdote fiel, é su­
perior à de Moisés e de Josué.
• 4,14-10,39: A mediação dejesus, como sumo sacerdote segun­
do a ordem de Melquisedec, é superior à dos sumos sacerdotes
da tribo de Levi.
144
• 11,1-13,16: A fé exemplar dos antigos (cap. 11) estimula a per­
severança no presente (12,1-13,16).
• 13,17-25: Conclusão: recados finais.

Contexto:
As comunidades destinatárias sofriam perseguições. Diante das
estruturas de opressão deste mundo, elas viviam novas relações, provo­
cando a reação repressiva dos sistemas que se viam ameaçados pelo
projeto alternativo.
Leia Hb 10,32-39 e veja como o texto se refere a zombarias, injú­
rias, humilhações, tribulações, prisões, confisco dos bens. Hb 13,3 con­
vida à solidariedade para com prisioneiros torturados. E 13,23 lembra
que Timóteo também havia estado preso. São todas situações sofridas
por quem aderia ao projeto dejesus. Os perseguidores defendiam uma
sociedade que se via ameaçada pela novidade vivida com a força do
Espírito.
Diante do desânimo provocado pela perseguição, Hebreus lem­
bra a resistência nos primórdios das igrejas, bem como sua solidariedade
na perseguição (10,32-34), chamando para a perseverança (10,35-38;
12,3-4).
Além das perseguições que vinham das estruturas sociais, ainda
estava muito forte nas comunidades a mentalidade judaica quanto às
leis do puro e do impuro. Hb 13,9 se refere à observância das leis de
pureza alimentar como doutrina estranha. E provável que esse texto
critique judeu-cristãos helenizados que, diante da perseguição romana
ao Cristianismo, voltavam novamente ao judaísmo.
Em 10,25.39 e 6,6, os autores de Hebreus se referem a pessoas
que, não suportando a perseguição, desistiam da caminhada.

2. Cartas Pastorais
O grupo de epístolas que conhecemos como “Pastorais” são as
duas Cartas a Timóteo e a Carta a Tito. São assim chamadas por serem
dirigidas a “pastores” ou missionários importantes da equipe de Paulo.
No entanto, convém que tenhamos claro que todas as cartas são “pas-

145
Iorais” no sentido de se referirem à prática da Boa-Nova de Jesus nas
comunidades. Igualmente, precisamos perceber que essas Cartas, na
verdade, não têm destinatários pessoais, mas são dirigidas a igrejas, uma
vi z que são um discurso exortativo para diferentes categorias, como
viúvas, escravos, diáconos, epíscopos e presbíteros.
Antes de nos ocuparmos de cada uma dessas Cartas, veremos algumas
questões fundamentais para a compreensão de sua eclesiologia.

As Cartas Pastorais são dêutero-paulinas


Há acordo na pesquisa de que as Cartas a Timóteo e a Carta a
Tito são pós-paulinas.
São profundas suas diferenças eclesiológicas em relação às cartas
autênticas de Paulo (lTs; l-2Cor; Gl; Fl; Fm; Rm). Embora possamos
perceber semelhanças, as diferenças se destacam:

• Nas cartas autênticas, a/tf está intimamente ligada à crit^ de Cris­


to. Nas Pastorais, a fé não parece ir além da fidelidade à sã doutrina,
enquanto não se faz mais referência à cruz.
• Paulo preocupa-se muito com o anúncio do Evangelho e com
as relações fraternas nas comunidades. Nas Pastorais, a preocupação
maior e com o cuidado do depósito recebido para transmiti-lo fielmente,
de modo que não haja desvios na fé (ITm 6,20-21). O depósito ou sã
doutrina é o conteúdo da fé e da tradição, bem como da conduta moral
(ITm 1,10; 4,6; 6,3; 2Tm 1,12.13.14; 2,15; 4,3; Tt 1,9.13; 2,1.8).
• Embora afirmem a gratuidade da justiça de Deus (2Tm 1,9; Tt
3,5), os autores das Pastorais voltam várias vezes à necessidade das boas
abras (ITm 5,10.25; 6,18; Tt 2,14; 3,8.14). Essa forma de pensar está
ausente nas cartas autênticas.
• Paulo defende a moral do discernimento, da liberdade. Exige
engajamento radical na vivência de relações igualitárias em todas as di­
mensões. Diferentemente, as Pastorais nos revelam uma moral adaptada
à cultura patriarcal da época, muito distante do engajamento radical
exigido pelo apóstolo das nações.
• Nas cartas de Paulo, o Espírito Santo tem atuação forte, susci­
tando diversos carismas. E citado 70 vezes nas cartas autênticas de Pau-
Io e 15 vezes nas cartas atribuídas a ele na segunda geração cristã. Nas Pasto­
rais, o Espírito Santo, além de ser a fonte do renascimento no batismo,
garante também o depósito da fé. E citado somente 3 vezes (lTm 4,1;
2Tm 1,14; Tt 3,5).
• Em Paulo, o amor é a virtude por excelência, ultrapassando to­
dos os carismas (ICor 13; G15,14). Nas Pastorais, o amor é uma virtude
entre várias outras (lTm 2,15; 4,12; 6,11).
• Quanto ao vocabulário das Pastorais, 306 palavras não aparecem
nas cartas autênticas, sinalizando um estágio posterior.
• A Igreja como corpo dá lugar a cargos administrativos.
• Palavras-chave para Paulo, como justificação, povo, graça, li­
berdade, gloriar-se, pecado, cruz e amor, não aparecem nas Pastorais.
• Palavras-chave para as Pastorais, como piedade, sã doutrina,
boa consciência, sabedoria, salvador, epifania e boas obras, estão au­
sentes em Paulo.
Todas essas diferenças permitem situar o surgimento dessas Car­
tas já no início do segundo século, em torno de 115.
Para dar maior importância a seus escritos e como era costume
na época, lideranças das comunidades de herança paulina da terceira gera­
ção atribuem a Paulo as cartas que escrevem. E que, naqueles anos, a
autoridade de Paulo e seu reconhecimento continuavam em alta.
Como destinatários dessas Cartas, colocaram Timóteo e Tito, dois
dos mais prestigiados colaboradores do apóstolo das nações e que repre­
sentam as comunidades destinatárias.
Pela afinidade entre as três Cartas, seus autores devem ser do
mesmo círculo de lideranças cristãs.

Motivos que deram origem às Cartas Pastorais


1. Um dos motivos que levaram à escrita dessas Cartas é a pres
vação das igrejas diante da perseguição que sofriam e da tentativa do
império de impor sua ideologia. Veja como seus autores chamam os
servos à submissão a seus senhores, a fim de evitar que as igrejas fos­
sem perseguidas pela sociedade escravocrata que via no novo jeito de
conviver uma subversão à ordem estabelecida (lTm 6,1).
Da mesma forma, convidam as esposas a se submeterem aos

147
maridos, a fim de evitar que as comunidades fossem perseguidas pela
sociedade machista que via nas relações de parceria uma denúncia do
sistema patriarcal (Tt 2,5).
Igualmente, pedem que as comunidades se submetam aos magis­
trados (Tt 3,1) e orem pelos que exercem o poder político (lTm 2,1-2a),
a fim de não serem molestadas pelas autoridades (v. 2b). Portanto, os
autores das Pastorais querem, diante da repressão imperial, garantir a
sobrevivência das igrejas domésticas, que viviam na clandestinidade. Não
podemos negar, é verdade, que os autores dessas Cartas buscam essa
saída a partir de sua visão mais conservadora e patriarcal. Por isso, nós
não podemos ler essas Cartas fora de contexto e aplicá-las a outro con­
texto em que vivemos sob condições muito diferentes daquela época.
2. O motivo central, no entanto, é a defesa da união interna
te das ameaças das doutrinas divergentes defendidas por grupos dissi­
dentes nas comunidades, provocando divisões. Leia lTm 1,3-11; 4,1-3;
6,3-10; 2Tm 3,6.13; 4,3-4 e Tt 1,10-16 e perceba como as Cartas, por
um lado, alertam as lideranças contra os mestres judaizantes, isto é, os
da circuncisão (Tt 1,10), da abstinência de certos alimentos (lTm 4,3;
Tt l,14s), das genealogias e das fábulas (lTm 1,4; 2Tm 4,4;Tt 1,14), que
buscam seu próprio enriquecimento (lTm 6,3-10; Tt 1,11).
Por outro lado, alertam contra os gnósticos que proibiam o casa­
mento (lTm 4,1-3), tinham dificuldade de aceitar a crença na ressurrei­
ção (2Tm 2,16-18) e anunciavam um falso conhecimento (lTm 6,20;
2Tm 3,6-7). Acima, você já leu a respeito do movimento gnóstico.
Daí a necessidade de instituir, naquele momento, autoridades para
garantir uma doutrina correta e bem constituída, a fim de impedir a
desintegração das igrejas. Nesse sentido, as Pastorais podem ser inter­
pretadas como a primeira constituição da Igreja, instituindo uma or­
dem eclesiástica ideal.
Nessas Cartas, no entanto, não há mais a preocupação missioná­
ria de expansão do Evangelho, tão característica em Paulo e em sua
equipe décadas antes. Também existe uma profunda desconfiança com
o que é novo. Nas Pastorais, o novo dentro das igrejas é definido como
“falso” pelo fato de ser diferente (cf. lTm 1,3-7).
Hierarquização das relações de poder
No volume sete (p. 82-86, 118-124 e 134-149), já v im o s que, na
primeira geração, as comunidades paulinas experimentaram novas rela­
ções nas igrejas domésticas. Ali, reuniam-se para a partilha em torno da
mesa e para celebrar a presença de Jesus em seu meio.
Do ponto de vista da organização, o destaque foi o trabalho em
equipe, tanto nas viagens missionárias como na coordenação das pe­
quenas comunidades.
Do ponto de vista das relações de gênero, vimos que Paulo de­
fendia a vivência da reciprocidade no relacionamento. Defendia ainda a
superação da discriminação entre culturas diferentes, bem como das
relações de escravidão.
No entanto, a segunda geração das igrejas helenistas, como vimos
acima (p. 47-56), já caminhou em direção a estruturas hierarquizadas.
Foi adotando, aos poucos, os códigos familiares patriarcais vigentes na
época. Ao mesmo tempo em que chamava mulheres, servos e crianças
à submissão, recomendava aos maridos, senhores e pais que não fos­
sem cruéis no exercício do seu poder.
E a terceira geração das comunidades de herança paulina, assunto
que estamos abordando neste capítulo, assimilou ainda mais a moral do
patriarcado. Como veremos nos próximos itens, confirmou as relações
de submissão das comunidades ao poder político, das mulheres aos
maridos e aos dirigentes das igrejas, dos filhos aos pais e dos servos a
seus senhores.

Postura diante das autoridades romanas


Quanto ao comportamento diante do império, você pode ler em
ITm 2,1-2 eT t 3,1-2.
No volume seis (p. 117-119), já vimos que o projeto de Jesus
incluía a retirada das forças imperialistas de territórios que não lhes
pertenciam (Mc 12,13-17), uma vez que “governam os povos e os oprimem. Seus
grandes as tirani^am. Entre vós porém, não deve ser assim” (cf. Mc 10,42-43).
Para Jesus, o poder do império, além de ser possessão demoníaca
(Mc 5,1-20), vem do próprio diabo (Lc 4,5-8).

149
Âs comunidades cristãs de Roma, Paulo pede que evitem provo­
cações contra as autoridades imperiais. E uma atitude prudente diante
de um poder despótico. No entanto, deixa bem claro que o imperador
não é divino e que o poder do império não vem de Deus, uma vez que
não promove o bem, nem castiga os que fazem o mal (Rm 13,1-7; cf.
volume sete, p. 141-145).
Seguindo a trilha de Paulo, as comunidades helenistas da segunda
geração assumem, diante da perseguição de Domiciano, a mesma pru­
dência que seu fundador solicitava às comunidades de Roma diante de
Nero. E, como ele, afirmam que o império é uma instituição humana e
não divina. Ao mesmo tempo, dizem que o dever da autoridade é pro­
mover o bem do povo e punir seus malfeitores (lPd 2,13-17).
Acima, ao estudarmos o Livro do Apocalipse, vimos a posição
muito crítica às “Bestas” do império. Seu poder é de opressão e não de
promoção do bem e da vida. Por isso, ele não vem de Deus, mas do
demônio, simbolizado pelo Dragão (Ap 13).
As Pastorais nos revelam que, na terceira geração, já havia comu­
nidades que não desmascaravam mais o poder divinizado do impera­
dor. Nem afirmavam que sua missão é promover o bem. Simples­
mente convidavam as igrejas a se submeterem e a obedecerem às au­
toridades (Tt 3,1).
Ao pedir que os cristãos orem “pelos reis e todos os que detêm a auto­
ridade” (lTm 2,l-2a), os autores das Pastorais também nos informam
que a intenção dessas orações é para que as comunidades "levem uma
vida calma e serena” (v. 2b). Isso confirma que o império, de fato, perse­
guia as igrejas cristãs, como vimos acima. Nesse sentido, o pedido de
submissão certamente é uma atitude prudente. Contudo, a terceira gera­
ção já não parece mais tão crítica aos que oprimem e tiranizam os povos.

A autoridade nas comunidades


Talvez, a contribuição maior das Pastorais está no seu testemu­
nho histórico sobre a organização da Igreja no início do segundo sécu­
lo. Já estamos num momento em que, mais do que fundar comunida­
des, se busca organizá-las. Surge, então, a necessidade de novos minis­
térios de coordenação. A estrutura dos cargos administrativos já está
mais definida. Há presbíteros (ITm 5,17-25; Tt 1,5-6), epíscopos (ITm 3,1 -
7; Tt 1,7-9) e diáconos (ITm 3,8-13).
Segundo ITm 1,1, os apóstolos são enviados de Cristo e dele
receberam o poder. Timóteo e Tito são delegados apostólicos de Paulo,
que lhes deu poder de imporem as mãos (ITm 5,22), tal como também
eles haviam sido escolhidos (ITm 4,14; 2Tm 1,6). Essa imposição das
mãos pode ser uma simples bênção, um gesto batismal de comunicação
do dom do Espírito Santo, ou ainda, a escolha para um cargo. Nesse
último significado, a autoridade de Timóteo é para instituir presbíteros
(anciãos) e epíscopos (supervisores, guardas, bispos) como administra­
dores de Deus, para governar igrejas locais.
Mesmo os diáconos (servidores), as diáconas e as viúvas são es­
colhidos por Timóteo (ITm 3,8-13; 5,9-16) para exercerem um minis­
tério nas comunidades.
Já se percebe a idéia de sucessão apostólica, no senddo de guar­
dar o depósito da fé para passá-lo adiante intacto, tal como lhes fora
confiado (ITm 6,20; 2Tm 1,12.14; 2,2; Tt 2,1).
Quanto às funções das lideranças, Timóteo e Tito são exortados
a combater as doutrinas divergentes (ITm 1,3-11.20; 4,1-3; 6,3-10; Tt
1,9-16), a zelar pela prática evangélica, defendendo a sã doutrina (ITm
6,1-2; Tt 2,1-10; 3,1-2), a organizar o culto (ITm 2,1-15) e a escolher os
futuros ministros (ITm 3,1-13; 5,22; Tt 1,5-9).
No entanto, mais do que determinar claramente em que consis­
tem as funções de cada cargo, os autores dessas Cartas querem desta­
car com ênfase as qualidades de quem quer ser candidato a algum
desses cargos. Insistem em que o dever de todos é contribuir para a
preservação da sã doutrina, combatendo quem a questiona e preten­
de provocar divisões.
Portanto, podemos perceber que, no início do segundo século, a
estrutura eclesial já tem cargos definidos. Fala-se nas instituições do
“episcopado” (ITm 3,1), do “presbitério” (ITm 4,14) e do “diaconato”
(ITm 3,10.13).
No que se refere aos epíscopos, veja ITm 3,1-7 e Tt 1,7-9.
Quanto aos presbíteros, você pode ler em ITm 5,17-25 e Tt 1,5-6.
Como vimos acima, também 2Jo 1 e 3Jo 1, que são da mesma época,

151
reterem-se aos autores, chamando-lhes de presbítero. Tanto em lTm
5,2 como em Tt 2,3, aparecem presbíteras (anciãs). Mas em nenhum
dos casos parece referir-se a al­
"Todo Escritura é inspirada gum cargo que essas mulheres
por Deus e útil p ara instruir, tenham ocupado. Antes, refere-
para refutar, para corrigir se a mulheres idosas ou senho­
e para ed ucar na justiça, ras e aparecem ao lado de ho­
a fim de que as pessoas de Deus mens idosos (lTm 5,1; Tt 2,2).
sejam perfeitas, qualificadas Ao comparar lTm 3,1-7
para toda boa ob ra." com Tt 1,5-9, você perceberá que
(2Tm 3,16-17) as palavras epíscopos, cuja ori­
gem está na administração gre­
ga, e presbíteros/anciãos, como eram chamadas as lideranças nas sina­
gogas judaicas, devem ser uma referência ao mesmo grupo de lideran­
ças, tal como em At 20,17.28, conforme vimos acima. Sua missão não é
estar acima das Escrituras, a fim de algemá-las (cf. 2Tm 2,9), mas é estar
a seu serviço (2Tm 3,14-17).
No que diz respeito aos diáconos, leia lTm 3,8-13!
Como você pôde perceber, também nesse caso, a preocupação
maior dos autores é listar as qualidades do agente de pastoral. Ao falar
tias qualidades das mulheres (v. 11), mais do que se referir às esposas
dos diáconos, o texto parece referir-se a mulheres diáconas. Como o
texto não especifica as tarefas dos diáconos e das diáconas, e como
lTm 2,11-12 proíbe que as mulheres ensinem nas comunidades, man­
tendo-se caladas, é provável que a diaconia desse ministério tenha
sido reduzido ao serviço às mesas, à partilha do pão aos mais pobres,
tal como dá a entender At 6,1-6. No entanto, já vimos no volume sete
(p. 68) que os diáconos helenistas também evangelizavam (At 6,10; 8,4­
5 .12.35; 11,19-21), ajudavam as pessoas doentes a recuperarem sua saú­
de (At 6,8; 8,6-7.13), batizavam (At 8,12.38) e organizavam comunida­
des (At 11,19ss). Isso, pelo menos, nas comunidades helenistas da pri­
meira geração cristã.
Por fim, parece que havia também casa de acolhida para viúvas
(lTm 5,3-16). O texto não informa quem tinha o cargo de direção des­
sas associações de proteção às viúvas idosas. No entanto, é bonito ver
como as comunidades se importavam com quem era um dos setores
mais fracos da sociedade da época. As recomendações insistem em que
nenhuma família abandone as viúvas de sua casa, de modo que somen­
te aquelas que não tinham nenhuma proteção pudessem ser acolhidas
nas comunidades.
O papel das autoridades nas Pastorais é o mesmo que, nas comu­
nidades joaninas, é atribuído ao Espírito Santo. Nesse sentido, as lide­
ranças são convidadas a se deixarem guiar pela força do Espírito que
nelas habita (2Tm 1,14; Tt 3,5). Vejamos algumas dessas tarefas!
• Defender (Paráclito quer dizer advogado, defensor) as comuni­
dades diante de ameaças (compare Jo 14,16-17 com ITm 3,5 e Tt 1,9).
• Ensinar e recordar (compare Jo 14,26 com ITm 3,2; 4,11.13;
5,17; 6,2b; 2Tm 2,2.14 e 3,10).
• Testemunhar Jesus (compare Jo 15,26 com 2Tm 1,8).
• Censurar e desmascarar o mundo por seus pecados, sua incre­
dulidade, sua rejeição do projeto de vida revelado por Jesus (compare
Jo 16,8 com ITm 1,3; 5,20; 2Tm 4,2 e Tt 1,13).
• Conduzir à verdade (compare Jo 16,13 com ITm 2,4; 2Tm 2,25;
Tt 1,1 e 2,7).

Convém aqui lembrar que, em muitas comunidades, os cargos


administradvos eram eletivos e que, somente a partir do quarto século,
transformaram-se em hierarquia sacralizada. Aspirar a um cargo signi­
ficava estar disposto a ser perseguido e até martirizado (ITm 3,7). Na
repressão, são sempre as lideranças as primeiras pessoas a sofrerem a
violência estrutural, como foi o caso de Inácio de Antioquia, como
vimos acima. Talvez por isso, poucos se dispunham a exercer esses
cargos. Não é por acaso que ITm 3,1 estimula aos que aspiram ao epis-
copado, dizendo-lhes que desejam uma boa obra.
Há outro elemento que distancia as Cartas Pastorais da prática de
Paulo. Ele fazia questão de anunciar gratuitamente o Evangelho, embora
reconhecesse que teria o direito de receber salário (ICor 9,18). No início
do segundo século, diferentemente de Paulo, as lideranças das comunida­
des por ele fundadas recebem salário (ITm 5,17-18).

153
Um dos desafios para nossas igrejas hoje é confiar mais na auto­
ridade do Espírito que age em nosso meio. E sua ação, mais do que ser
decidida por lideranças que se impõem sobre a comunidade, é fruto de
decisões coletivas em que a participação cidadã prolonga o próprio agir
divino.
Outro desafio que fica para nós é estabelecer estruturas suficien­
tes que garantam a fidelidade à prática libertadora de Jesus de Nazaré,
sempre atualizada em novos contextos e realidades diversificadas, de
modo que seu Evangelho esteja sempre a serviço da promoção da vida
digna, do amor, da paz e da liberdade. Será que nossas igrejas não estão
demais preocupadas com a manutenção do poder, com os dogmas, com
o status qito? Será que, para manter as estruturas eclesiais constituídas
através de séculos, não amordaçamos vozes proféticas que propõem
uma volta às fontes evangélicas? Será que nossos cursos teológicos não
dão demais ênfase às áreas sistemáticas, doutrinárias em detrimento da
reflexão da Bíblia, principal fonte para nossa fé e missão? Será que não
colocamos em segundo plano a graça e o amor de Deus para priorizar
a lei, o pecado e as proibições?

A autoridade na família patriarcal


Nas Cartas aos Colossenses e aos Efésios, as normas quanto ao
relacionamento entre esposas e maridos, entre servos e senhores, bem
como entre crianças e seus pais vêm agrupadas, como vimos acima.
Diferente é nas Pastorais. Ali, essas normas de comportamento dos
códigos domésticos aparecem em tópicos ao longo das Cartas. E o que
passaremos a ver nos próximos itens.

A questão de gênero
As Cartas Pastorais revelam que, na erapás-apostálica, as restrições
às mulheres nas famílias e nas comunidades são ainda mais excludentes
que nas comunidades cristãs da segunda geração. lTm 2,9-15 refere-se a
seu comportamento submisso nas igrejas, e Tt 2,4-5 à sua submissão
aos maridos.
E possível que houvesse uma preocupação em manter as rela­
ções nas comunidades e nas famílias segundo previam os códigos fami­
liares da cultura dominante da época, a fim de que as igrejas não se
tornassem suspeitas e não fossem denunciadas e perseguidas pelo im­
pério. Tt 2,5b, por exemplo, sinaliza nesse sentido: “...afim de que a pala­
vra de Deus não seja difamada”.
No entanto, temos o direito de perguntar: será que não estavam
em jogo os interesses de homens que impediam as mulheres de con­
quistarem sua dignidade, que Jesus havia resgatado? Se homens fazem
restrições a mulheres é porque, certamente, elas estavam defendendo o
espaço a que tinham direito e que já haviam conquistado nas comuni­
dades durante as gerações anteriores.
Diante da submissão das esposas a seus maridos perguntamos:
será que, para “salvar” a palavra de Deus (Tt 2,5b), era necessário que
as mulheres reduzissem sua vida à rotina da submissão aos maridos, do
cuidado de seus filhos e dos afazeres da casa, confinadas à intimidade
dos lares (cf. Tt 2,4-5)? Repare ainda que as lideranças masculinas ori­
entam as mães a domesticarem suas filhas, de modo que se enquadrem
direidnho nessa moral conservadora (Tt 2,3-5). Não lhe parece que,
ainda hoje, muitas mães preparam, desde cedo, as suas filhas para serem
delicadas e dedicadas servidoras de seus futuros maridos?
No que diz respeito à participação da mulher nas igrejas, ao ler
ITm 2,9-15, você percebeu como
se exige modéstia para as mulheres A cada gesto que promove
ricas. Assim, de fato, convém a pes­ a libertação da mulher
soas chamadas a viver na simplici­ há também um reencontro
dade, de modo que não haja discri­ do homem com sua liberdade.
minação por causa da forma de se
vesür (ITm 2,9-10).
A outra ordem é quanto ao silêncio total das mulheres nas comu­
nidades (ITm 2,11-12). Segundo essa restrição, as mulheres bem vistas
pelas lideranças masculinas são as que permanecem caladas e submis­
sas na assembléia comunitária.
Você não acha que essa prádca deixou de lado os avanços con­
quistados nas comunidades de Paulo que, fiel a Jesus, permitia que as
mulheres orassem e ensinassem nas igrejas (ICor 11,5)? E mais. Nas

155
igrejas paulinas da primeira geração, elas exerciam a liderança como cola-
boradoras na fundação e organização de comunidades, como diáconas
e, inclusive, como apóstolas (Rm 16,1-16). Será que não foi justamente
pela forte liderança delas nas igrejas, que autoridades masculinas da
terceira geração, decretaram essas leis de exclusão?
Você não acha também que a fundamentação teológica de lTm
2,13-14 deixa a desejar, conforme você já leu a respeito da interpreta­
ção de Gn 3,1-7 nas p. 87-93 do volume três desta Introdução à Bíblia?
Será que é condição que as mulheres, para se salvarem, têm que
gerar filhos, além de viverem modestamente na fé, no amor e na santi­
dade (lTm 2,15)? E como ficam as mulheres que não são mães? No
entanto, a recomendação para que tenham filhos pode também ser uma
crítica àquelas mulheres que aderiam aos dissidentes que proibiam o
casamento (cf. lTm 4,3).
Para nós, fica a tarefa urgente de superar as relações patriarcais
no nosso cotidiano. E que o patriarcado é, na verdade, o maior respon­
sável pela violência cometida desde o ambiente doméstico. Também é
um dos principais responsáveis das relações desiguais na economia, na
política, seja em nível local, nacional e internacional. Da mesma forma,
ele também está entre os maiores causadores da violência contra a na­
tureza. Por fim, e de modo especial, o patriarcado é responsável pela
discriminação das mulheres, metade da população. Junto com elas, co­
loca em segundo plano valores como a solidariedade e a cooperação, o
cuidado da vida e a ternura. São características atribuídas, de forma
errônea, quase exclusivamente às mulheres por esse sistema discrimina­
tório. Portanto, é urgente a superação das relações patriarcais de opres­
são. Sabemos que a cada gesto que promove a libertação da mulher há
também um reencontro do homem com sua liberdade, uma vez que
nem oprimidos nem opressores sãos pessoas verdadeiramente livres.

A questão de geração
Você pode conferir os textos que fazem referência à submissão e
obediência dos filhos aos seus pais em lTm 3,4.12 e Tt 1,6.
Em Tito, os candidatos ao presbitério não podem permitir que
seus filhos sejam dissolutos e insubordinados. Os anciãos, portanto,
devem manter seus filhos no seguimento dos bons costumes e na
submissão.
Na Primeira Carta a Timóteo, essa orientação a respeito da pos­
tura de pais que devem manter seus filhos submissos, governando so­
bre eles, está entre as qualidades requeridas de quem aspira ao episco-
pado e ao diaconato.
O desafio para nós hoje é saber educar sem repressão e, ao mes­
mo tempo, saber colocar limites, evitando, dessa forma, a libertinagem.
A arte de educar para a liberdade está na nossa capacidade de ajudar
filhos e filhas a desenvolverem seu discernimento, de modo que sejam
capazes de optar entre o que c o n v é m e aquilo que prejudica a sua pró­
pria vida, a vida das demais pessoas, bem como a da natureza.

A questão das classes sociais


Quanto à reprodução das relações escravocratas nas comunida­
des, você pode ler em ITm 6,1-2 e Tt 2,9-10.
Também aqui precisamos ter presente que é possível que esse cha­
mado à submissão dos servos a seus senhores tenha em vista evitar que
as famílias cristãs se tornassem suspeitas e pudessem ser denunciadas e
perseguidas pelo império. ITm 6,1b, por exemplo, sinaliza nesse sentido:
“...para que o nome de Deus e a doutrina não sejam blasfemados”.
Contudo, também aqui temos o direito de perguntar: será que
não estavam em jogo os interesses de donos de escravos domésticos,
que não tinham em conta seus servos como “irmãos amados”, tal como
propunha Paulo a Filemon (cf. Fm 16)? Ou que não queriam que os
escravos se libertassem quando tivessem a oportunidade, como Paulo
recomendou aos escravos de Corinto (ICor 7,21)?
Veja também que as comunidades joaninas vão na mesma linha
de Paulo, ao descreverem Jesus dizendo que “não mais vos chamo servos,
mas eu vos chamo de amigos” (cf. Jo 15,15). E isso é mais significativo,
quando sabemos que esse texto do Evangelho segundo João é mais ou
menos do mesmo período das Cartas Pastorais. Se era preciso insistir
junto aos servos para que se submetessem a seus donos, é porque, cer­
tamente, eles estavam exigindo o espaço a que tinham direito, a partir
da experiência de fraternidade nas comunidades.
Se em suas cartas Paulo falava da superação das relações de es­
cravidão, ele o fazia a parúr de sua opção pela senzala e não pela casa
dos senhores. Diferentemente, as Pastorais já falam na ótica da “casa
grande”.
Como conclusão deste capítulo, lembremos o que já vimos no
volume que, diante dos conflitos e das perseguições que foram aumen­
tando, as igrejas não tiveram força suficiente para resistir. Foram se
institucionalizando. O patriarcado foi sendo assimilado aos poucos e o
projeto de comunidades de iguais foi se perdendo. A perseguição roma­
na e a imposição da mentalidade imperial terão sido algumas das razões
para a hierarquização, a patriarcalização, a uniformidade e a unificação
da doutrina.
Outro motivo foi a entrada cada vez maior de famílias fortemen­
te marcadas pela cultura patriarcal nas igrejas. Uma terceira razão foi o
surgimento de novas doutrinas dentro das comunidades. Isso reforçou
a necessidade da indicação de líderes para resolver conflitos e dúvidas,
bem como para combater os dissidentes que provocavam divisões e
desencaminhavam membros das igrejas.
Ao estudar as Cartas aos Colossenses e aos Efésios, vimos que
seus autores, ao mesmo tempo em que vão assimilando os códigos
familiares greco-romanos, propõem também amenizar a opressão de
senhores, maridos e pais sobre seus servos, esposas e filhos.
Diferentemente, as Pastorais assumem os códigos domésticos
na íntegra, sem nenhuma contrapartida. Não pedem aos senhores que
dêem a seus servos o justo e eqúitativo (cf. Cl 4,1; Ef 6,9). Aos maridos
não pedem que amem suas esposas, tratando-as com bom humor e até
dando sua vida por elas (cf. Cl 3,19; Ef 5,25-33). Nem pedem aos pais
que não irritem seus filhos (cf. Cl 3,21; Ef 6,4). Pedem somente a sub­
missão de filhos, servos e esposas. Reproduzindo as relações de exclu­
são deste mundo, a família era, na verdade, um espelho perfeito do
sistema hierárquico imperial, a quem as comunidades cristãs foram con­
vidadas a se submeter e a obedecer (Tt 3,1).
Dessa forma, as igrejas helenistas afastavam-se cada vez mais do
projeto de fraternidade, por cuja implementação Paulo e sua equipe
tanto haviam lutado.
Por isso, a fim de interpretar as Cartas Pastorais, é importante
retomar um critério fundamental. Além de analisar o contexto históri­
co em que foram escritas, convém que nos perguntemos se a posição
dos autores dessas Cartas está de acordo com a postura de Paulo nas
suas cartas autênticas. Estas, inclusive, estão mais próximas de Jesus. E
preciso, pois, reler as Pastorais à luz da prática igualitária de Jesus de
Nazaré e da prática vivida por Paulo, que propõem relações baseadas
na reciprocidade e na parceria.
E qual é hoje nossa postura frente aos impérios deste mundo?
Frente às relações de poder nas igrejas, nas relações de gênero, étnicas,
de classe e de geração?

2.1. Primeira Carta a Timóteo


“Não descuides do dom da graça que há em ti,
que te fo i conferido mediante profecia,
seguido da imposição das mãos do presbitério. ”
(ITm 4,14)

Timóteo é de Listra. Seu pai é grego e sua mãe, judia (At 16,1-3).
Sua mãe chamava-se Eunice e sua avó, Lóide (2Tm 1,5). Na segunda
viagem, Paulo o convida para integrar sua equipe missionária, tornan­
do-se um de seus auxiliares de confiança (At 17,14ss; 19,22; 20,4). É co-
autor de várias epístolas (2Cor; Fl; Fm; Cl; l-2Ts), além de estar entre
os que enviam saudações finais em Rm 16,21. Foi enviado para forta­
lecer a fé dos tessalonicenses (lTs 3,2ss), bem como dos coríntios
(ICor 4,17; 16,10s). Também foi em missão às comunidades de Fili-
pos (Fl 2,19-23). Acompanhou Paulo na viagem a Jerusalém, quando
levaram a coleta solidária (At 20,4). Segundo Hb 13,23, também estava
preso por causa do Evangelho. A Carta lhe é dirigida quando se encon­
tra na direção da comunidade de Éfeso (ITm 1,3). No entanto, Timó­
teo representa as comunidades destinatárias, como já vimos.
Quem? O autor deve ser um discípulo ou admirador de Paulo.
Onde? Escreveu possivelmente em Éfeso, pois este se tornou o
centro de difusão mais importante da herança paulina.

159
Quando? Pelo ano 115.
O quê? A Carta contém instruções, conselhos práticos sobre o
desempenho do ministério “pastoral” de Timóteo que está no governo
da comunidade de Éfeso (1,3). Por um lado, a Carta é uma reflexão
Icológico-pastoral sobre a organização das igrejas. Por outro, está preo­
cupada com os desvios da sã doutrina (1,3.6.10.20; 4,1-3.6.16; 6,1.3),
com a ortodoxia e com a coesão das comunidades, sugerindo que os
dissidentes sejam repreendidos.
Como? A Carta pode ser assim dividida:
• 1,1-2: Saudação inicial.
• 1,3-11: Conflito com os grupos dissidentes.
• 1,12-17: Aprofundamento teológico.
• 1,18-20: Retrato do agente ou obreiro pastoral.
• 2,1-3,13: Organização das comunidades:
- 2,1-8: Os homens nas orações comunitárias;
- 2,9-15: As mulheres no culto;
- 3,1-7: Orientações para os epíscopos;
- 3,8-13: Orientações para os diáconos.
• 3,14-16: Aprofundamento teológico.
• 4,1-5: Conflito com os dissidentes.
• 4,6-16: Retrato do obreiro ou agente pastoral.
• 5,1-6,2a: Organização das comunidades:
- 5,1-2: Orientações a várias gerações;
- 5,3-16: Orientações para as viúvas;
- 5,17-25: Orientações para os presbíteros;
- 6,1-2: Orientações para os escravos.
• 6,2b-10: Conflito com os grupos dissidentes.
• 6,11-16: Retrato do agente ou obreiro pastoral.
• 6,17-19: Orientações para os ricos.
• 6,20-21: Admoestação e saudação final.

160
2.2. Segunda Carta a Timóteo
“Combati o bom combate, terminei
a minha carreira, guardei a f é . ”
(2Tm 4,7)

Quem? Um discípulo ou admirador de Paulo.


Onde? Escreveu provavelmente em Éfeso, centro de difusão mais
importante da herança paulina.
Quando? Pelo ano 115.
O quê? O tema central é sobre os últimos dias de Paulo e da
Igreja. É uma Carta bem pessoal a Timóteo. Possui o tom de últimas
palavras de quem está perto da morte. Um dos objetivos principais é
fazer um elogio ao mártir cristão, de quem Paulo havia se tornado pon­
to de referência, uma vez que, décadas antes, fora martirizado. A Carta
é um discurso de despedida, um testamento com recomendações para
seus discípulos. O interesse central se desloca da comunidade cristã
(ITm; Tt) para a relação pessoal entre Paulo e Timóteo, semelhante à
Carta a Filemon. Preocupa-se também com as doutrinas divergentes
dos dissidentes e os antivalores da sociedade vigente, bem como com o
exercício da autoridade.
Como?
• 1,1-5: Endereço e ação de graças.
• 1,6-18: Paulo, exemplo de pastor e mártir que não se envergo­
nha do Evangelho.
• 2,1-13: O sentido do sofrimento do apóstolo cristão.
• 2,14-26: O apóstolo de Cristo em conflito com os grupos dissi­
dentes.
• 3,1-17: O pastor e mártir fiel, em conflito com a sociedade es­
tabelecida.
• 4,1-5: Orientações para o evangelizador cristão.
• 4,6-8: Retrato do mártir cristão.
• 4,9-15: Recomendações.
• 4,16-18: Retrato do mártir cristão.
• 4,19-22: Notícias e saudação final.

161
2.3. Carta a Tito
“Eu te deixei em Creta para cuidares da organização
e, ao mesmo tempo, para que constituas presbíteros
em cada cidade. ”
(Tt 1,5)

Tito está ausente no Livro de Atos. Ele não tem parentesco com
judeus. Foi com Paulo ao Concilio de Jerusalém. Fiel à liberdade diante
da Lei, Paulo não o circuncidou (G12,1). Tito reconciliou Paulo com as
comunidades de Corinto (2Cor 2,12s; 7,5-15), onde também coorde­
nou a coleta em favor das igrejas pobres da Judéia (2Cor 8,6.16.23).
Exerceu a missão na Dalmácia, atual Iugoslávia (2Tm 4,10). Segundo
Tt 1,5, Paulo o deixa em Creta, uma ilha a sudeste da Grécia, para orga­
nizar as comunidades de lá. No entanto, também Tito representa as
comunidades a quem é dirigida esta Carta.
Quem? Um discípulo ou admirador de Paulo.
Onde? Escreveu possivelmente em Éfeso, centro de difusão da
herança paulina.
Quando? Pelo ano 115.
O quê? A Carta a Tito e a Primeira Carta a Timóteo tratam de
problemas idênticos. Tito também se ocupa da organização das comu­
nidades. No entanto, seu tema central é a sã doutrina, isto é, a vontade
salvadora de Deus e a salvação gratuita trazida por Jesus Cristo (1,9;
2,1.10). A insistência na defesa do depósito da fé se deve às doutrinas e
aos costumes provenientes das crenças do mundo greco-romano e do
Judaísmo legalista (1,10-11), estranhos à proposta cristã. A Carta faz uma
profissão de fé explícita na divindade de Jesus (2,13). Como lTm, sua
moral é conservadora, seguindo o modelo patriarcal (1,6; 2,4-5.9-10;
3,1-2).
Como?
• 1,1-4: Saudação inicial.
• 1,5-9: Organização das comunidades: instituição de presbíteros
e epíscopos.

162
• 1,10-16: Conflito com os dissidentes.
• 2,1-10: Organização das comunidades: orientações para pessoas
idosas, jovens casadas, moços e escravos.
• 2,11-15: Fundamentação teológica.
• 3,1-2: Organização das comunidades: submissão às autoridades.
• 3,3-7: Catequese batismal.
• 3,8-14: Conselhos e recomendações práticas a Tito.
• 3,15: Saudações finais.

3. Segunda Carta de Pedro


“O que nós esperamos, conforme a sua promessa,
são novos céus e nova terra, onde habitará a justiça. ”
(2Pd 3,13)

A Segunda Carta de Pedro tem relação com a Carta de Judas. E,


na verdade, uma ampliação de Judas, mas com o objetivo de fazer uma
crítica aos que se opõem à parusia iminente de Jesus. Compare, por
exemplo, 2Pd 2,1-18 com jd 4-16 e 2Pd 3,1-3 com Jd 17-18!
Os destinatários da Segunda Carta de Pedro são as comunidades
helenistas de herança paulina e provavelmente não conheceram os es­
critos apócrifos judaicos. Por isso, o autor desta Carta deixa fora as refe­
rências a esses apócrifos citados pela Carta de Judas escrita a comunida­
des judaico-cristãs de herança petrina, como vimos acima. Anos mais
tarde, no entanto, a Segunda Carta de Pedro retoma as críticas aos mes­
mos adversários de Judas e as dirige contra grupos dissidentes parecidos,
mostrando seus equívocos e acrescentando outros pontos.
Quem? O autor se apresenta como sendo o apóstolo Pedro (1,1)
e que estava presente na transfiguração (1,17-18). No entanto, quando
essa Carta foi escrita, Pedro já estava morto há quase 70 anos. A própria
Carta deixa transparecer que dificilmente seria de autoria do apóstolo.
Pedro era galileu e certamente não era versado em grego. No entanto, a
Carta é escrita em grego culto e se dirige a comunidades cristãs que
enfrentam os mesmos problemas que os destinatários das Cartas Pas­
torais na Ásia Menor, bem como na Macedônia e na Grécia, cuja ori­

163
gem é de cultura greco-romana. Além disso, ele mesmo afirma não
pertencer aos apóstolos (3,2), nem ser da primeira geração cristã (3,4). E
ainda. No momento em que a Carta é escrita, há uma tensão na comu­
nidade por causa do atraso da parusia, da vinda gloriosa de Jesus (3,8­
10). Isso supõe um período mais tardio. Igualmente já existe uma cole­
ção das cartas de Paulo, de quem o autor se declara próximo (3,15-16).
Tudo isso, nos leva a concluir que seus autores devem ser membros das
comunidades de herança paulina que atribuíram a Carta a Pedro.
Onde? Escreveram em algum lugar da Ásia Menor, talvez em
Éfeso, onde provavelmente foram colecionadas as cartas paulinas.
Quando? Pelo ano 130. Seguramente, este é o escrito mais jo­
vem do Segundo Testamento.
O quê? O texto é uma exortação escrita em forma de carta e, à
semelhança da Segunda Carta a Timóteo, é redigido em forma de testa­
mento de um velho apóstolo antes de sua morte, dando instruções a
seus discípulos.
Depois da saudação inicial (1,1-2), a Carta diz que Deus nos deu
"as condições necessárias para a vida, afim de que nos tornássemos participantes da
natureza divina, libertos de toda corrupção que prevalece no mundo como resultado
da cobiça” (cf. 1,3-4). Participamos da natureza divina na medida em que
nos humanizamos sempre mais. Tornar nossas relações mais livres, mais
amorosas e geradoras de mais vida é participar da mesma condição de
Deus, pois ele é vida, amor e liberdade.
Para alcançar a participação na “natureza divina”, os autores da
Carta propõem sete obras de piedade. Confira em 1,5-11!
O exemplo dos apóstolos e a força do Espírito na Palavra profé­
tica são alimento para manter-se firme na verdade dejesus. Ele é o filho
amado com quem o Pai se agrada, não permitindo que nos deixemos
levar pelas fábulas de grupos dissidentes (1,12-21).
Como podemos nós hoje superar todas as formas de corrupção
deste mundo, a tal ponto de tornar as nossas vidas, todas as formas de
manifestação da vida, participantes da natureza divina, da vida nova em
Cristo, vida cidadã, vida plena?
Um primeiro problema que o autor procura resolver é enfrentar

164
seus adversários na comunidade, que ele chama de falsos protetas (cap.
2). Possivelmente, são cristãos que seguem radicalmente a tese de Pau­
lo, cujo centro é a fé emjesus como único caminho de salvação (cf. Rm
1,16-17).
E provável que os autores da Carta aos Hebreus estejam entre
esses grupos dissidentes. Estes colocam a mediação dos anjos em se­
gundo plano e consideram Jesus o único intermediário entre Deus e a
humanidade, como vimos acima (Hb 1,5-2,18). A Segunda Carta de
Pedro faz crítica forte a essa radicalidade, afirmando que seria melhor
não terem conhecido o “caminho ciajustiça” (cf. 2,21). Acusa os adversá­
rios de “blasfemarem contra seres celestes”, isto é, os anjos enquanto minis­
tros a serviço de Deus, de acordo com a mentalidade apocalíptica da
época (cf. 2,10).
Outra acusação que faz aos adversários é serem liberais demais
em seus costumes, “entregando-se a paixões imundas” (cf. 2,10ss). Encoraja
os que desanimam diante da doutrina dos dissidentes, apresentando
Noé e Ló como exemplos de pessoas a quem a vida foi preservada por
serem “ju stos” e “mensageiros da justiça”, isto é, por terem sido fiéis (cf.
2,4-9).
Uma segunda dificuldade central é o atraso da parusia, conforme
se esperava com base na mentalidade apocalíptica da época. Como o
tempo ia passando, aumentava a demora da vinda gloriosa de Cristo.
Diante disso, grupos dissidentes radicalizavam a interpretação das car­
tas de Paulo, afirmando que a salvação através da fé já era uma realidade
presente, dc modo que não se precisava mais esperar por uma parusia
futura (3,15-16). Defendendo essa tese, estavam conseguindo desani­
mar muitos membros das comunidades (cap. 3). Diante disso, os auto­
res da Carta reafirmam a vinda do dia de Deus, o dia do juízo. Estimu­
lam seus leitores a continuar perseverando na fé e na espera por “novos
céus e nova terra, onde habitará a ju stiça ” (cf. 3,13), uma vez que “para o
Senhor; um dia é como m il anos e mil anos são como um dia” (3,8).
Essa espera pela iminente vinda do dia do Senhor nos leva a
refletir sobre o último momento da nossa vida, a hora de nossa morte.
Um dia, talvez quando menos esperamos, ela chegará. E importa estar
preparados para entrar nesse caminho que nos conduz à misteriosa

165
esfera divina. A esperança apocalíptica na parusia de Cristo nos ensina
estarmos sempre vigilantes para viver dignamente todas as relações
que estabelecemos em nosso cotidiano. Ensina-nos a viver intensamente
cada momento como se fosse o último de nossa vida.
Como?
• 1,1-2: Saudação.
• 1,3-11: Participação na natureza divina.
• 1,12-18: Testemunho apostólico.
• 1,19-21: A profecia movida pela força do Espírito.
• 2,1-22: Críticas aos dissidentes.
• 3,1-10: Atraso da parusia.
• 3,11-13: Esperança no novo céu e na nova terra.
• 3,14-18: Conclusão.
Conclusão da 2a parte
Nesta parte, vimos os escritos da terceira geração cristã, também
conhecida como era pós-apostólica, que vai desde o final do reinado do
imperador Domiciano (81-96) até em torno do ano 130.
Durante este período, duas tradições nos deixaram textos que
encontramos na Bíblia. São as igrejas de herança do Discípulo Amado
e as comunidades de tradição paulina.
Vimos que os livros de tradição joanina são o Evangelho segun­
do João e as três Cartas também atribuídas a ele. Apesar de suas carac­
terísticas próprias, incluímos o Livro do Apocalipse nessa tradição.
Os escritos de tradição paulina são a Carta aos Hebreus, as Car­
tas Pastorais (l-2Tm; Tt), além da Segunda Carta de Pedro, o texto mais
jovem do Segundo Testamento.
Ao concluir o estudo desta Introdução à Bíblia, tal como o casal de
discípulos de Emaús, você fez uma longa caminhada pelas Escrituras
na redescoberta daquela luz divina que aquece corações. Não só aque­
ceu no passado. A presença de Deus, que é vida, amor e liberdade, é tão
atual entre nós, quanto o foi
"Temos, também, por mais firme
para o povo de Israel e para
a palavra profética, à qual fazeis
as comunidades cristãs primi­
bem em recorrer com o a uma
tivas. A revelação de Deus
luz que brilha em lugar e s c u r o ,
continua. E está em suas, em
a t é que raie o dia e surja a estrela
nossas mãos a possibilidade d'alva em nossos co raçõ es."
de deixá-la manifestar-se em (2 Pd 1 , 1 9 )
nossos corpos e de revelar ao
mundo o seu projeto de vida cidadã para todas as criaturas.
O coração, energizado pela força do Espírito, impulsiona-nos a
recriar permanentemente nossas relações, tornando-as parecidas com
Deus, dando sabor à vida, gerando luz para quem não tem esperança,
encorajando na caminhada rumo a uma sociedade mais solidária e par­
ticipativa.
167
Certamente, você continuará aprofundando o estudo bíblico
como formação e crescimento permanentes de sua fé. Desse modo,
buscará nas Escrituras uma luz que ilumine a vida e faça brilhar a estrela
d’alva em nossos corações. Na leitura e reflexão das Escrituras que fize­
mos, vimos que foi o Espírito libertador de YHWH quem animou he­
breus e hebréias na defesa do projeto igualitário das Tribos (Jz 3,10;
6,34), quem estimulou a resistência profética durante o Reinado, o Exí­
lio e o Pós-Exílio (lRs 18,12; Is 42,1; 61,1; Mq 3,8), quem conduziu
Jesus de Nazaré (Lc 3,22; 4,1.18-19) e quem encorajou as comunidades
cristãs primitivas no anúncio da Boa-Nova de Jesus (Lc 24,49; At 1,8;
2,1-13).
Assim, sob o impulso do mesmo Espírito, possamos também
nós, como instrumentos nas mãos divinas e “participantes da sua natureza”
(2Pd 1,4), colaborar na construção de novas relações, de “novos céus e nova
terra, onde habitará ajustiça” (2Pd 3,13; cf. Is 65,17; Ap 21,1)!
Que a bênção de YHWH sempre nos fortaleça e conduza nossos
passos.
“YHWH abençoe e guarde vocês.
YHWHfaça brilhar sobre vocês a suaface e se compadeça de vocês.
YHWH volte para vocês o seu rosto e lhes dê a pa%!” (Nm 6,24-26)

168
Para orar e aprofundar

Jo 15,1-17
Jo 17,1-26
ljo 4,7-5,4
Ap 21,1-22,5
2Tm 2,1-13
2Pd 1,19-21
2Pd 3,11-13

Sugestões de leitura
1. Sobre o Evangelho segundo João
BORTOLINI, José. Como ler o Evangelho de João. São Paulo: Paulus.
COTHENET, E. Os escritos de São João e a Epístola aos Hebreus. São Paulo:
Paulus.
KONINGS, J. Evangelho segundo João: amor efidelidade. Petrópolis: Vozes, Sào
Leopoldo: Sinodal.
MESTERS, Carlos. “Senhor, dá-me desta água!” —O diálogo da samari-
tana com Jesus. A Palavra na Vida. Sào Leopoldo: CEBI, n. 113.
MESTERS, Carlos; LOPES, Mercedes; OROFINO, Francisco. Raio-X
da Vida —Círculos bíblicos do Evangelho de João. A Palavra na Vida,
São Leopoldo: CEBI, n. 147/148.
RODRIGUES, Maria de Paula; VASCONCELOS, Pedro Lima; SIL*
VA, Rafael Rodrigues da. Fé em Deus, fé na vida: a Boa Notícia segun­
do a comunidade de João na periferia do mundo. A Palavra na Vida. Sâo
Leopoldo: CEBI, n. 143/144.
ROTEIROS PARA REFLEXÃO IX. Evangelho de João e Apocalipse,
São Leopoldo: CEBI, São Paulo: Paulus.
RUBEAUX, Francisco. Mostra-nos o Pai —uma leitura do quarto Evan»
gelho. A Palavra na Vida. São Leopoldo: CEBI, n. 20.

169
2. Sobre as Cartas Pastorais
BORTOLINI, José. Como ler a Primeira Carta a Timóteo. São Paulo: Pau­
lus.
BORTOLINI, José. Como ler a Segunda Carta a Timóteo. São Paulo: Pau­
lus.
BORTOLINI, José. Como ler a Carta a Tito. São Paulo: Paulus.
ROTEIROS PARA REFLEXÃO XI. Cartas Pastorais e Cartas Gerais.
São Leopoldo: CEBI, São Paulo: Paulus.

3. Sobre a Carta aos Hebreus


COTHENET, E. Os escritos de São João e a Epístola aos Hebreus. São Paulo:
Paulus.
ROTEIROS PARA REFLEXÃO XI. Cartas Pastorais e Cartas Gerais.
São Leopoldo: CEBI, São Paulo: Paulus.
VASCONCELOS, Pedro Lima. Como ler a Carta aos Hebreus. São Paulo:
Paulus.

4. Sobre a Segunda Carta de Pedro


MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco. “Entre... a casa é sua!” Cír­
culos Bíblicos da 1’ e 2a Cartas de Pedro. A Palavra na Vida. São Leopol­
do: CEBI, n. 181.
NOGUEIRA, Paulo A. de S. Como ler as Cartas de Pedro. São Paulo:
Paulus.
REIMER, Ivoni R. Reconheçam de coração. Encontros Bíblicos sobre
as Cartas de Pedro. A Palavra na Vida. São Leopoldo: CEBI, n. 188.
ROTEIROS PARA REFLEXÃO XI. Cartas Pastorais e Cartas Gerais.
São Leopoldo: CEBI, São Paulo: Paulus.

5. Sobre as Cartas de João


BORTOLINI, José; BAZ AGLIA, Paulo. Como ler as Cartas de João. São
Paulo: Paulus.
COTHENET, E. Os escritos de São João e a Epístola aos Hebreus. São Paulo:
Paulus.
ROTEIROS PARA REFLEXÃO XI. Cartas Pastorais e Cartas Gerais.
São Leopoldo: CEBI, São Paulo: Paulus.
6. Sobre o Livro do Apocalipse
BORTOLINI, José. Como ler o Apocalipse. São Paulo: Paulus.
MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco. Apocalipse deJoão. Círculos Bíbli­
cos. São Leopoldo: CEBI, São Paulo: Paulus.
MESTERS, Carlos. Esperança de um povo que luta: o Apocalipse de são João,
uma chave de leitura. São Paulo: Paulus.
RICHARD, Pablo. Apocalipse: reconstrução da esperança. Petrópolis: Vozes.
ROTEIROS PARA REFLEXÃO IX. Evangelho de João e Apocalipse.
São Leopoldo: CEBI, São Paulo: Paulus.

7. Para continuar seu estudo sobre a Bíblia


• Entre muitas outras publicações, recomendamos a leitura de:
—Revista Estudos Bíblicos. Petrópolis: Vozes.
—Revista de Interpretação Bíblica Eatino-americana (RIBLA). Petró­
polis: Vozes.
—Coleção Tua Palavra é Vida. São Paulo: Loyola/CRB.

• Para quem quiser uma pequena introdução à metodologia de


análise de textos bíblicos, recomendamos o caderno Curso Extensivo de
Formação de Biblistas, organizado por Sebastião Armando Gameleira So­
ares e publicado pelo CEBI.

171