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CADERNO DE RESUMOS

CADERNO DE RESUMOS

VI CONGRESSO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA – História e os


desafios do século XXI: política, feminismos e performances de gênero
01 a 03 de agosto de 2018

Universidade Federal de Goiás – Campus de Jataí


VI CONGRESSO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA: História e
os desafios do século XXI: política, feminismos e performances de
gênero

UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS. VI Congresso


Internacional de História: história e os desafios do século XXI: política,
feminismos e performances de gênero - Caderno de resumos. Jataí:
Universidade Federal de Goiás/Campus Jataí, 2018.
Arte gráfica: Roger Luiz Pereira da Silva
Organizadores do caderno de resumos:

Antonio Ricardo Calori de Lion


Robson Pereira da Silva

ISSN 2178-1281
Comissão Responsável

COMISSÃO OGANIZADORA Prof. Dr. Fábio Henrique Lopes - UFRRJ -


Seropédica
Profª. Drª. Ana Lorym Soares – UFG Profª. Drª. Iara Toscano Correia – UFG/Jataí
Profª. Msc.Cláudia Graziela Ferreira Lemes – Prof. Dr. James Naylor Green - Brown University
UFG/Jataí Prof. Dr. José Marin - Universidade de Genebra –
Profª. Drª. Iara Toscano Correia – UFG/Jataí Suíça
Prof. Dr. Marcos Antonio de Menezes – UFG/Jataí Prof. Dr. Júlio Cesar Bentivoglio – UFES
Prof. Msc. Murilo Borges Silva – UFG/Jataí Profa. Dra. Lúcia Regina Vieira Romano - UNESP
Prof. Msc. Robson Pereira da Silva – UFG Prof. Dr. Luiz Augusto Passos – UFMT
Prof. Dr. Raimundo Agnelo Soares Pessoa – Prof. Dr. Luis Reznik (UERJ)
UFG/Jataí Profa. Dra. Magdalena Lopez – UBA
Profª. Drª. Renata Cristina de Sousa Nascimento – Prof. Dr. Marcos Antonio de Menezes – UFG/Jataí
UFG/Jataí Prof. Dr. Marcos Napolitano – USP
Profª. Drª. Sandra Nara da Silva Novais – UFG/Jataí Profª. Drª. Maria Bernardete Ramos Flores – UFSC
Profª. Drª. Maria Izilda Matos – PUC/SP
Profª. Drª. Maria João Cantinho – IADE/Lisboa –
COORDENAÇÃO Portugal
Profª. Drª. Maria Teresa Santos Cunha – UDESC
Coord. Prof. Dr. Marcos Antonio, de Menezes – Profª. Drª. Martha Santos (University of Akron)
UFG/Jataí Prof. Dr. Miguel Rodrigues de Sousa Netto –
Vice-coord. Prof. Msc. Robson Pereira da Silva – UFMS/Aquidauana
UFG/ Jataí Prof. Msc. Murilo Borges Silva – UFG/Jataí
Prof. Dr. Murilo Sebe Meihy – UFRJ
Prof. Dr. Pedro (Petar) Bojanic – Universidade de
SECRETARIA GERAL Belgrado – Sérvia
Prof. Msc. Robson Pereira da Silva – UFG
Profª Drª. Sandra Nara da Silva Novais – UFG/Jataí Prof. Dr. Renan Honório Quinalha - UNIFESP
Prof. Msc. Robson Pereira da Silva – UFG/Jataí Prof. Dr. Rodrigo Turin – UNIRIO
Prof. Msc. Antonio de Lion (Doutorando/UNESP) Prof. Dr. Raimundo Agnelo Soares Pessoa –
Cleidiane Gonçalves França (Secretária) UFG/Jataí
Lucas Rodrigues do Carmo (Secretário) Profª. Drª. Regma Santos – UFG/Catalão
Igor Roviro (Secretário) Profª. Drª. Renata Cristina de Sousa Nascimento –
UFG/Jataí
Prof. Dr. Roger Chartier – École des Hautes Études
COMISSÃO CIENTÍFICA en Sciences Sociales de Paris – França
Profª. Drª. Rosemara Perpétua Lopes – UFG/Jataí
Prof. Dr. Adalberto Paranhos – UFU Profª. Drª. Sandra Nara da Silva Novais – UFG/Jataí
Prof. Dr. Aguinaldo Rodrigues Gomes – Profª. Drª. Suely dos Santos Silva (também submeter
UFMS/UFMT/ Rondonópolis Simpósio Temático) – UFG/Jataí
Profª. Drª. Ana Lorym Soares – UFG Profª. Drª.Tamsin Spargo - John Moores University
Profª. Drª. Alma Rosa Sanchez Olvera - Facultad de Profª. Drª. Tanya L. Saunders – University of Florida
Estudios Superiores de La Unam, campus Acatlán – Prof. Dr. Tadeu P. dos Santos - UNIR
México. Profª. Drª. Temis Gomes Parente – UFT
Profª. Msc.Cláudia Graziela Ferreira Lemes – Profª. Drª. Thaís Leão Vieira – UFMT
UFG/Jataí Prof. Dr. Valdei Lopes de Araujo - UFOP
Profª. Drª. Courtney J. Campbell (University of Profª. Drª. Vera Lúcia Puga – UFU
Birmingham)
Prof. Dr. Durval Muniz de Albuquerque Júnior –
UFRGN
Prof. Dr. Edvaldo Corrêa Sotana – UFMS
Prof. Dr. Élio Cantalício Serpa – UFG/Goiânia
Profª. Drª. Eveline Borges Vilela Ribeiro –
UFG/Jataí
Profª. Drª. Elizabeth Raimann – UFG/Jataí
APRESENTAÇÃO

O descolamento do jogo político e o cenário construído no século XXI,


possibilitou que as ações de uma pluralidade de grupos sociais, os
conduzissem da margem ao centro da cena pública configurando-os como
expressivos frente a determinada hegemonia no tocante à disputa por
lugares e valores. Negros, transexuais, gays, lésbicas, feministas, indígenas,
trabalhadores rurais e estudantes ocupam ruas, praças, espaços públicos e
privados. Tais agentes, em processos de embates representacionais,
buscam o redimensionamento do conceito de família, das práticas
políticas e os usos dos espaços públicos.
É neste sentido, que o VI Congresso Internacional de História imprime
um olhar político ao pensar essa nova configuração social, com o ensejo
de que a partir das práticas, ações e intervenções desses atores possamos
construir novos caminhos, em que o reconhecimento e não apenas a
aceitação social, mas itinerários que nos conduzam a processos de
formação e humanização, ou seja, trata-se de desafios de lutas pela
existência.
A política contemporânea tem sido provocada pelos movimentos
sociais a rever suas formulações discursivas e jurídicas. É inegável a
pressão exercida por estes movimentos para ter incluídas suas pautas na
agenda política global. Esse fenômeno típico da contemporaneidade
revela a riqueza das narrativas em jogo, convertidas em bandeiras de lutas
políticas contra os discursos hegemônicos e normatividades que persistem
em erigir muros, ideológicos e físicos, barreiras de intolerância racista,
misógina e homofóbica.
A visibilidade alcançada por estes grupos demonstra processos de
criticidade de sujeitos que, não contando com um lugar institucional
próprio (CERTEAU, 2011), precisam recriar novas formas de
representatividade e existência. Das frestas, nos desvãos da sociedade em
que vivem (BHABHA,1998) lançam novas perspectivas de ação política
sobre as carcomidas estratégias de luta dos movimentos tradicionais de
esquerda, que operam com uma baixa capacidade de aglutinação social.
Enfim, as proposições de novas formas de embates têm sido
consideradas a partir do feminismo e iniciativas da teoria queer. Ademais,
inclusive em confrontos com o campo científico, os estudos feministas se
posicionam historicamente no sentido de desconstruir as formas em que
se estruturam o poder e o próprio conhecimento científico (HARAWAY,
1995).
Ao lado da mobilização pelo empoderamento jurídico e político de
categorias tidas como marginais, cresce o discurso de ódio e intolerância.
Temos presenciado em nível planetário a polarização entre ideias
progressistas e conservadoras. Os contextos de crise, tal qual vivemos
agora, com o crescimento da desigualdade social, a crise ecológica, a
pressão da evasão pelo consumo, o individualismo crescente, o aumento
do controle midiático, tudo isso leva ao extremismo e ao encastelamento
das opiniões. Nesse sentido, a partir das supracitadas demandas o VI
Congresso Internacional de História UFG/Jataí promoverá o debate que
contempla os desafios contemporâneos.

Referências

BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora da UFMG,


1998.
DE CERTEAU, Michel. A escrita da história. 3º Ed. Rio de Janeiro:
Forense Universitária, 2011.
HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o
feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu, Campinas,
n. 5, p. 7-41, 1995.
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO....................................................................................................................................... 5
SESSÕES COORDENADAS ................................................................................................................. 9
INTERCÂMBIOS ENTRE HISTÓRIA E LINGUAGENS ARTÍSTICAS ............................................................. 10
GÊNERO, CORPO E SEXUALIDADE ......................................................................................................... 41
A APRENDIZAGEM HISTÓRICA NA RELAÇÃO DIALÓGICA ENTRE O SABER FAZER E O PERTENCER ...... 72
ENSINO DE HISTÓRIA E CULTURA AFRO-BRASILEIRA E AFRICANA ....................................................... 94
HISTÓRIA E CULTURA ESCRITA ............................................................................................................ 106
POLÍTICA, TRABALHO E MOVIMENTOS SOCIAIS ................................................................................. 119
SIMPÓSIOS TEMÁTICOS ................................................................................................................ 146
A MORTE E O MORRER NO BRASIL E NA IBERO- AMÉRICA................................................................. 147
A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER, UMA VIOLÊNCIA DE GÊNERO: UMA ANÁLISE DE CLASSE, GÊNERO E
RAÇA .................................................................................................................................................... 161
AS POSSIBILIDADES DA TEORIA DA HISTÓRIA E DA HISTÓRIA DA HISTORIOGRAFIA PERANTE OS
DESAFIOS DO SÉCULO XXI ................................................................................................................... 185
CARTOGRAFIAS DA HISTÓRIA DA HISTORIOGRAFIA E TEORIA DA HISTÓRIA ..................................... 199
CIDADE E HISTÓRA: DISCURSOS E REPRESENTAÇÕES DE MODERNIZAÇÃO E PROGRESSO NOS
PROJETOS DE REORGANIZAÇÃO URBANA NO BRASIL ........................................................................ 211
CULTURA E MEMÓRIA, INTELECTUALIDADES E GRUPOS POPULARES NO BRASIL REPUBLICANO ..... 222
DIFERENÇAS & LINGUAGENS .............................................................................................................. 233
HISTÓRIA, DIREITOS HUMANOS EM INTERFACE COM A LINGUAGEM ............................................... 245
ENTRE A HISTÓRIA ENSINADA E A HISTÓRIA APREENDIDA: OS DESAFIOS DO SÉCULO XXI ............... 256
EXISTÊNCIAS E CORPORIFICAÇÕES PERFORMATIVAS: INTERFACES ENTRE HISTÓRIA, EDUCAÇÃO E
ARTES DIANTE DOS PROBLEMAS DE GÊNERO .................................................................................... 271
HISTÓRIA DAS MULHERES, INTERCULTURALIDADE E MEMÓRIA: INTERFACES ENTRE HISTÓRIA E
EDUCAÇÃO .......................................................................................................................................... 290
HISTÓRIA E CIDADE NA PRIMEIRA REPÚBLICA.................................................................................... 308
HISTÓRIA E CINEMA: REFLEXÕES SOBRE A REPRESENTAÇÃO CINEMATOGRÁFICA DO PASSADO ..... 314
HISTÓRIA E INTELECTUAIS NA AMÉRICA LATINA ................................................................................ 327
HISTÓRIA E LINGUAGENS .................................................................................................................... 341
HISTÓRIA E MEMÓRIA: NOVAS PESRPECTIVAS................................................................................... 357
HISTÓRIA E MÍDIA: OBJETOS, QUESTÕES TEÓRICO-METODOLÓGICAS E FONTES ............................. 381
HISTÓRIA, SOCIEDADE E O CONTROLE DAS CONDUTAS: O QUE SE PASSA AGORA CONOSCO?.........399
IMPRENSA, IMPRESSOS E HISTÓRIA DAS MULHERES: DIÁLOGOS TRANSDISCIPLINARES .................. 406
LINGUAGENS ARTÍSTICAS EM SALA DE AULA: PLURALIDADE, INTERDISCIPLINARIDADE E USOS
DIDÁTICOS NO PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM EM HISTÓRIA ........................................... 424
MEMÓRIA, NARRATIVA E INVENÇÃO: ARTES, CULTURAS URBANAS E ESCRITA DA HISTÓRIA............459

MEMÓRIAS DE RESISTÊNCIAS E RESISTÊNCIAS DA/NA HISTÓRIA....................................................... 451


HISTÓRIA DAS MULHERES E MUNDOS DO TRABALHO: DISCUSSÕES CONTEMPORÂNEAS ................ 466
PESQUISA HISTÓRICA E INTERCULTURALIDADES: MÉTODOS E ABORDAGENS NA CONSTRUÇÃO DA
HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA ............................................................................................................. 477
PÓS-ABOLIÇÃO: MEMÓRIAS E HISTÓRIAS DE ESCRAVIDÃO E LIBERDADE NO BRASIL RURAL E URBANO
............................................................................................................................................................. 486
RELAÇÕES DE GÊNERO, POLÍTICA E EDUCAÇÃO ................................................................................. 504
A ARTE, A ARQUITETURA E O DESIGN FRENTE ÀS QUESTÕES DE GÊNERO ........................................ 519
TRAJETÓRIAS INTELECTUAIS E DERROTAS POLÍTICAS. EXPERIÊNCIAS POLÍTICOINSTITUCIONAIS DO
INTELECTUAL NOS CAPITALISMOS CONTEMPORÂNEOS .................................................................... 525
MC 01: QUANDO RESTAM APENAS GIZ E QUADRO, COMO TRANSFORMAR ALUNOS ESPECTADORES
EM AUTORES? ..................................................................................................................................... 538
MC 03: HERÓI: MITO. HISTÓRIA E LITERATURA ................................................................................. 539
MC 04: NOVAS TECNOLOGIAS E EDUCAÇÃO HISTÓRICA: OS USOS DOS GAMES/JOGOS ELETRÔNICOS
NO ENSINO DE HISTÓRIA .................................................................................................................... 540
MC 05: MULHERES, HOMENS E A ESCRITA LITERÁRIA: SUBJETIVIDADES E SENSIBILIDADES ENTRE A
HISTÓRIA E A LITERATURA .................................................................................................................. 541
MC 06: PERFORMANCE DE GÊNERO E LUGAR DE CULTURA NO BRASIL CONTEMPORÂNEO ............ 542
MC 07: A QUEM INTERESSA ESSES DISCURSOS?: AS DIFERENTES REPRESENTAÇÕES DO SEXO EM PINK
FLAMINGOS (1972) E O ÚLTIMO TANGO EM PARIS (1972) ................................................................ 543
MC 08: HISTÓRIA, CORPO E GÊNERO: UMA ABORDAGEM PELOS ESTUDOS QUEER ......................... 544
MC 09. GÊNERO E DIVERSIDADE NA EDUCAÇÃO: ESTUDANDO A TEMÁTICA ATRAVÉS DO CINEMA 546
SESSÕES COORDENADAS
10

SESSÃO COORDENADA 1
INTERCÂMBIOS ENTRE HISTÓRIA E
LINGUAGENS ARTÍSTICAS

Coordenadores:
Lays da Cruz Capelozi (Doutoranda- INHIS/UFU)
Grace Campos Costa (Doutoranda- INHIS/UFU)
Robson Pereira da Silva (UFG/Jataí; Doutorando - INHIS/UFU)

A incorporação de novas fontes no ofício do historiador desde meados


do século XX nos colocou um problema. Novas fontes implicavam em
dominar novas linguagens. Isto permitiu um considerável avanço na
disciplina tanto na perspectiva metodológica quanto do conhecimento
acumulado. Por outro lado, as questões que emergiram levam-nos a
repensar nossa fonte tradicional: o documento. A noção de documento
foi (re)qualificada sendo associada à de monumento, através da qual sua
dimensão de intencionalidade e construção/artefato foram enfatizadas. O
documento deixou de ser visto exclusivamente como chave e evidência
que permitia equacionar questões e análise de processos, mas ele próprio
foi elevado à condição de problema e de processo. Pensando assim a
presente proposta de Sessão Coordenada tem como objetivo estabelecer
reflexões e discussões interdisciplinares dentro dos estudos das linguagens
tomadas como problema para o trabalho do historiador social e da cultura.
Nessa perspectiva, ao refletir sobre os pontos de aproximação e de
distanciamento dessas áreas do conhecimento deste campo, pretende-se
criar um espaço para o debate multicultural que englobe tais narrativas e
linguagens. As relações entre História e Linguagens não são novas assim
como os problemas enfrentados pelos historiadores que, lançando mãos
de fontes imagéticas, sonoras e escritas, buscam entender os sujeitos no
mundo, suas concepções e visões, os gestos que ligam ideias aos lugares e
as formas e circunstâncias das criações humanas. Outrossim, estas
pretensões colocam o historiador diante de uma ampla gama de
questionamentos, tais como as relações entre o narrado e o vivido, entre
história e ficção, como percebemos e construímos e reconstruímos as
11

realidades, como as linguagens representam nossas vivências, fabricam


nossos pontos de vista e visões de mundo, de que modo representamos o
que sabemos sobre o passado e os limites do conhecimento que o
historiador pretende construir. Dessa feita, pensar com a História Cultural
coloca-nos o desafio de entender as manifestações artístico-cultuais sendo
mais do que um processo produzido pelos agentes de determinados
períodos, deve-se compreender que as linguagens artísticas respondem (e
criam) determinadas realidades sociais e histórica. Assim, observa-se a
obra de arte como locus profícuo de observação e hermenêutica para a
produção historiográfica. Dentro desse arcabouço, angariaremos
trabalhos que articulam questões ligadas às relações entre estética, política,
ficção e sociedade. Nesse sentido, pretende-se debater as propostas,
limites e desafios da elaboração de um discurso competente sobre o
passado, e que perpasse principalmente pela obra de arte enquanto tema
de pesquisa e fonte documental, portadora de historicidade e de
interpretações. Destarte, a produção das obras pelos agentes é analisada
pelo olhar do historiador que deve se aprofundar nos sentidos e efeitos
provocados naquele contexto. Assim, os trabalhos frutos de pesquisa em
História e áreas afins que abordem o teatro, o cinema, a TV, a música, a
performance - entre outras linguagens são o foco dessa Sessão
Coordenada. Dessa forma – e sob a luz do caráter interdisciplinar –
discutiremos as possibilidades do historiador em relação às propostas
teórico-metodológicas que contemplam esses estudos, assim como suas
validações no campo destinado à Teoria da História e da Historiografia.

Chantal Akerman e a não homogeneização do feminino: um


cinema de emancipação do corpo da mulher

Dayana Manasses Ribeiro Silva (Universidade Federal do Pará)

Num âmbito de renega a representação homogênea da mulher, Chantal


Akerman, uma cineasta feminina trás para a tela outra representação do
corpo feminino que nega o esvaziamento da psicologia dos seus
personagens e entende a individualidade de cada mulher. A presente
pesquisa utilizando-se de elementos estilísticos e narrativos da filmografia
12

desta artista objetiva trabalhar uma representação da mulher por uma


mulher em um cinema de constantes reflexões e renega aos padrões
normativos. O cinema é um discurso muito poderoso na construção de
sentidos das relações sociais de poder. A arte cinematográfica tem a
habilidade de materializar a comunicação com o espectador indo para
além de uma educação visual incluindo e reforçando práticas patriarcais
de opressão ao feminino. O local de fala como ponto de partida para
desconstrução e diálogo em busca de um projeto de sociedade pautada na
equidade de gêneros também precisa ser trabalhado em diversos meios de
produção de informação e conhecimento, como a cultura, arte e
comunicação. Akerman e sua obra são importantes para pensar um
feminismo no século XXI pelo fator corpóreo de seu cinema, além claro
pelo legado as mulheres cineastas da atualidade. Seu engajamento político
trabalha com a liberdade de associações complexas e não únicas ao ser
mulher. A mulher não se comporta da forma que a heteronormatividade
impõe ela é diversa, como nós mulheres somos. A cineasta por reunir
diversas funções faz com que seu corpo atravesse as questões nas quais se
propõe debater, por exemplo, é muito simbólica a forma como ela
percorre o seu corpo em seu filme “Je, tu, Il, elle”. A diretora se nega ao
uso da representação de um sujeito universal em uma realidade ilusionista
como a linguagem clássica do cinema. Ela põe esse corpo feminino na tela
sem negar sua individualidade e particularidade como pontos de reflexão
da constituição plural e interseccional da mulher. A diretora representa um
indivíduo atravessado pela política e pela história se encaixando em sua
proposta de recusar a adoção de um tipo de feminismo de punhos em
riste. Em Jeanne Dielman,23, quai Du commerce,1080 Bruxelles (1975),
Chantal Akerman nos apresenta uma dona de casa/prostituta em um
recorte de três dias do seu cotidiano. Akerman não ousa utilizar Jeanne
como a mulher dona de casa, mas como uma mulher. Em suma o cinema
de Akerman é um cinema que experimenta com o corpo, sobretudo o
corpo feminino, para seu projeto narrativo como uma reavaliação do
método clássico de Hollywood e seu reforço ao discurso patriarcal. O seu
ponto de partida enquanto mulher compõe e enriquece as discussões de
gênero pela arte cinematográfica e nos ajuda a repensar uma denúncia
durante os anos 1970 à representação homogênea da figura feminina.
13

A representação da mulher não heterossexual na produção


audiovisual brasileira

Amanda Passos do Carmo (Universidade Federal do Pará)

O objetivo do trabalho é analisar de que forma são representadas as


mulheres que estão fora do espectro heterossexual em produções
audiovisuais brasileiras do fim do século XX, tendo como eixo central a
produção audiovisual comercial em contraponto ao independente,
pensando as diferenças em que a figura feminina não heterossexual
aparece nesses eixos. Ferro (2010) reflete sobre o cinema no que tange a
construção de uma representação cuja intencionalidade é significativa para
a História, atestando o valor documental, portanto histórico, da sétima
arte. O cinema, como narrativa, auxilia na construção de um imaginário
social, que perpassa pela impressão de realidade que essa narrativa gera,
como discutido por Metz (1972). Portanto, a produção audiovisual produz
significados sociais através de suas narrativas. O trabalho centra-se na
análise de personagens vinculadas em diferentes tipos de produções:
longas-metragens, que são: Noite vazia (Walter Hugo Khouri, 1964) e
Amor maldito (Adélia Sampaio, 1984); duas novelas: Bebê a bordo (Carlos
Lombardi, 1988) e Torre de Babel (Denise Saraceni, 1998); assim como o
programa humorístico TV Pirata (1988). São muitas as produções em que
há a presença de personagens mulheres não heterossexuais, de forma que
o trabalho não tem a pretensão de abranger todas, mas realiza a seleção de
fontes para uma análise inicial. O que orienta a escolha destas é o objetivo
de selecionar diferentes perfis em que essas mulheres costumam ser
representadas, sendo possível ter uma pequena amostra de a quais
diferentes identidades elas costumam ser vinculadas. O sujeito analisado
por este trabalho passa por dois principais marcadores de identidade: de
gênero, mulher, e de orientação sexual/afetiva, de não heterossexual. A
escolha por esta identificação se mostrou necessária pois, o objetivo é
identificar personagens mulheres que possuem relações e/ou atrações que
fogem da heterossexualidade, de forma que nem toda mulher que as
possui é lésbica. Analisar como essas mulheres costumam ser
representadas pela grande mídia é necessário para vincular uma
contribuição dessas personagens para a construção de um imaginário
social, de forma que filmes amplamente comercializados possuem maior
14

pelo público em geral. Por isso, a escolha por duas novelas e um seriado
que foram exibidas na televisão aberta se justifica pelo seu grande público.
Devido ao jogo de poder existente entre grandes produtoras, produções
comerciais costumam apresentar visões mais conservadoras. Pina (2016)
afirma que, no geral, “produtos feitos para atingir um grande número de
espectadores refletem as posições mais tradicionalmente estabelecidas.”
(p. 6). O cinema independente, por ligar-se a produtoras cinematográficas
alternativas, costumam oferecer visões mais transgressoras.

A representação da mulher na escrita brasileira: uma


questão de resistência e autoria?

Ellen Torres Pereira (Instituto Federal de Educação, Ciência e


Tecnologia de Goiás)

Compreendendo que práticas e representação para Chartier (1990) se


constituem como conceitos capazes de designar e classificar os sujeitos
em realidades coletivas e também individuais (subjetivas) em sociedade,
permitindo leituras plurais sobre os sujeitos, grupos e sociedade, a
presente pesquisa teve por objetivo analisar a questão da representação da
mulher no âmbito da escrita brasileira na contemporaneidade, com vistas
a analisar como os estudos feministas contribuíram, ou não, a partir do
século XX, para a existência e permanência de uma escrita de autoria
feminina e se essa mudança social se consolida como uma forma de
resistência em meio às relações de poder existentes entre os gêneros
identitários na sociedade ocidental. Para Foucault (1988), a resistência se
consolida como pontos que são móveis e também transitórios, “que
introduzem na sociedade clivagens que se deslocam, rompem unidades e
suscitam reagrupamentos, percorrem os próprios indivíduos, recortando-
os e os remodelando, traçando neles, em seus corpos e almas, regiões
irredutíveis” (p. 91). Para a realização deste trabalho, além dos autores
supracitados, Manguel (2012), Umberto Eco (2003), Norman Fairlough
(2016), João W. Geraldi (2010), Stuart Hall (2011), Heleieth Saffioti (2004)
e Joan Scott (1995) também fundamentaram nossa abordagem do
tema/problema proposto enossa percepçãosobre o lugar da autoria
15

femininana sociedade brasileira, dando voz às mais diversas formas de


representação e posição social do gênero feminino, sobretudo no
panorama literário brasileiro. Desse modo, à luz dos autores e críticos
mencionados anteriormente, analisamos obras de duas autoras brasileiras,
o primeiro é um conto intitulado I lovemyhusband de Nélida Piñon
(2001), uma das pioneiras em tratar sobre a temática do feminino numa
perspectiva crítica em suas obras, e o poema Não vou mais lavar os pratos
de Cristiane Sobral (2016), escritora contemporânea bastante reconhecida
no meio literário e no campo dos movimentos feminista e negro. Nos dois
textos analisados a questão sobre as posições e representações femininas
e suas práticas em sociedade são as temáticas principais trabalhadas pelas
autoras, cujo objetivo é questionar e repensar os papéis sociais atribuídos
às mulheres em contraposição aos dos homens.

Representações do feminino em “agô minha mãe – As


Mulheres de Fé no Triângulo Mineiro” (2018)

Geisla Ferreira Alves (UFG- Campus Jataí)

O presente trabalho busca compreender as representações do feminino


no documentário “AGÔ MINHA MÃE – AS MULHERES DE FÉ NO
TRIÂNGULO MINEIRO”, lançado em 2018 , com direção e roteiro do
professor Cairo Katrib , como parte do Projeto Mulheres de Fé e de Festa
, desenvolvido na Universidade Federal de Uberlândia . A referida obra
fílmica trata-se de um documentário acerca da trajetória da religiosidade
afro-brasileira em Uberlândia, com ênfase na figura feminina e materna
depositada em algumas das zeladoras de terreiros de Umbanda e
Candomblé da referida cidade. A narrativa do filme documentário é urdida
pela seleção de temas postos em quadros (como protagonismo feminino,
intolerância, preconceito, tradição, comunidade, etc...) , nos quais cada
mãe no santo trata de suas trajetórias e memórias acerca da religiosidade
de matriz afro-brasileira . O documentário trata-se de uma seleção da
realidade e um “lugar de memória” (NORA, 1993), um jogo performativo
entre o real e o documental/representacional (RAMOS, 2000) no caso,
acerca das atividades religiosas em Uberlândia na segunda metade do
16

século XX até o tempo presente, sobretudo a partir da fundação da Tenda


Coração de Jesus (Terreiro do preto velho Pai João da Bahia) , em 1945 ,
por Irene Rosa . Dessa feita, buscamos analisar o feminino, enquanto
mecanismo de poder nas atividades do “povo no santo” e construção
sociocultural de gênero nas práticas sacerdotais afro-brasileiras
(MADEIRA, 2009, p.22), especialmente em Uberlândia, onde por meio
documentário, pode-se observar os processos de significação postos sobre
essas mulheres a partir das práticas socioculturais por elas exercidas. Para
tal, nos vinculamos a perspectiva da história cultural na medida em que
consideramos o documentário como uma representação capaz de angariar
práticas e “momentos de uma determinada realidade social e construída,
pensada, dada a ler” (CHARTIER, 1990, p.17) , sobretudo, por essa
linguagem promover o jogo ambíguo entre a criação ficcional e seu caráter
documental , isto é, trata-se de um entrecruzamento de modalidades
discursivas , que promove o encontro entre documentário e ficção
(RAMOS, 2008, p.02) .

Representação do feminino na peça “Mortos Sem


Sepultura” (1946) de Jean – Paul Sartre

Jéssica Ferreira Alves (Universidade Federal de Goiás)

Este trabalho busca compreender a representação do feminino através da


personagem Lucie na peça teatral “MORTOS SEM SEPULTURA”
(1946) de Jean–Paul Sartre, encenada no Brasil no ano de 1977, por
Fernando Peixoto. O tema principal da peça é a condição humana diante
da tortura. Tratando-se de uma obra escrita e encenada em períodos
diferentes, busca-se estabelecer o diálogo entre o dramaturgo francês e o
diretor brasileiro, por meio desemelhanças e diferenças entre o Brasil, em
1977, e França, em 1946, uma vez que o primeiro passava por um regime
militar e o segundo acabara de sair de uma guerra na qual se deixou
inúmeras feridas e traumas.Temos como objetivo analisar Sartre como
dramaturgo e filósofo, tendo como foco o existencialismo presente em
suas obras, e questionando como este dimensiona o feminino em sua
17

dramaturgia, em especial na personagem Lucie que aprece na peça


supracitada sob “o status subordinado e discriminado das mulheres em
uma ordem normatizadora masculina” (SANTALICES, 1996, p.67).
Investigamos assim o que é ser mulher na situação de fracasso
revolucionário, para Sartre, no referidodrama.Ademais, buscamos analisar
a contribuição de Fernando Peixoto acerca da representação da peça no
Brasil, e os elementos singulares que este acrescentou ao trabalho,
fazemos isso a partir das análises de Maria Abadia Cardoso (2011). Nesse
sentido, se possibilita também o paralelo da representação do feminino
com movimentos revolucionários na ditadura militar brasileira, a partir de
obras “Mortos sem Sepultura” e o filme “Que Bom Te Ver Viva” (1989)
- de Lúcia Murat, pois tanto a peça quanto o filme tratam da mulher e do
feminino em situações de tortura.

Contracultura em cena: Zabriskie Point e Um Estranho no


Ninho

Leandro dos Santos Silva (UFG)

O cinema como expressão cultural apresenta as crenças de uma sociedade,


as mentalidades, comportamentos sociais, hábitos, utopias; em outras
palavras o cinema é um agente histórico, leva com sigo dimensões
culturais e sociais de um determinado grupo social, independente se é ou
não da vontade de quem o produz, o que Marc Ferro vai chama de Contra-
análise da Sociedade, o Não visível pelo visível. A obra cinematográfica,
além de tudo, é um evento histórico localizado e datado, por esse motivo,
o cinema é uma forma de compreender uma sociedade, uma fonte
histórica. “O cinema não é apenas uma forma de expressão cultural, mas
também um “meio de representação” (BARROS, 2011, p. 178). Nesse
sentido, A função desse trabalho é buscar relacionar os discursos sobre
contracultura nos filmes Zabriskie Point de Michelangelo Antonioni e Um
Estranho no Ninho de Milos Forman, lançados na década de 1970 nos
Estados Unidos, auge das manifestações estudantis. O Filme de Antonioni
tem como objetivo retratar as manifestações dos jovens naquele
momento, apresentando a vida das personagens Mark e Daria, já a obra
de Forman, não trabalha essas questões, o filme conta a história da
18

personagem Randall McMurphy, um homem que acaba de ser internado


em um hospital psiquiátrico, e sua relação com o local. Nas filmes de
Forman, é possível notar críticas ao sistema, por exemplo em O Baile dos
Bombeiros que narra a tentativa de organizar um baile e tudo acaba saindo
do controle, critica a um ambiente serio que tem orgulho da sua disciplina.
Antonioni em seus filmes retrata os ideais de contracultura, produções
com apelo a estética destacando sempre a busca pela a liberdade. São obras
ficcionais, que mesmo não abordando de forma clara, manifestam
discursos sobre o sentimento de liberdade que a juventude buscava na
contracultura dos anos 1970.

Câmera como arma: a Cinemateca e os Cineastas da


Nouvelle Vague francesa no Maio de 1968

Joaquim Henrique da Silveira (Universidade de Coimbra/IFG)

A pesquisa pretende refletir, evidenciar e analisar as manifestações dos


cineastas da Cinémathèque Française em solidariedade com os
movimentos estudantis e operários do Maio de 1968, na França. A
Cinemateca Francesa surge em meados dos anos 30, com aspecto de um
cineclube privado, o qual objetivava a preservação, restauração e
divulgação do patrimônio cinematográfico mundial – filmes, documentos,
objetos, sets, cinefilia, crítica e curadoria – para vindouras gerações, sob a
idealização e curadoria de Henri Langlois e Georges Franju. No efervescer
das Manifestações Estudantis de 68, as quais promulgavam alterações no
campo estudantil, social, político e cultural, a Cinemateca também passa
por uma crise oriunda das intervenções do Ministério da Cultura, o que
impulsiona cineastas como Godard, Truffaut, Rivette, Rohmer, entre
outros, a se solidarizarem com os estudantes e operários e a urgência
política, de tal modo, a saírem para ruas, filmarem e manifestarem via suas
armas, ou melhor, câmeras.
19

Com o diabo no corpo: história e ficção em Giordano Bruno


e as Bruxas de Salém

Maria Eduarda de Azevedo Gusmão (UFG)

Através dos filmes Giordano Bruno, 1973, e Bruxas de Salém, 1996, o


objetivo desta comunicação é mostrar a bruxaria como forma de
resistência à opressão política, econômica e religiosa no século XVII.
Utilizaremos os filmes como fonte documental, pensado como estes
mostram uma dada realidade social do. A temática de ambos os filmes é a
heresia, destacadas de formas um pouco distintas nas obras. As Bruxas de
Salém tem caráter ficcional e se baseia em uma peça teatral de Arthur
Miller. A outro obra se baseia na vida de Giordano Bruno, filósofo que
foi queimado vivo por heresia. As obras representam a resistência e a
identidade daqueles que preferiram a morte a desistir de suas verdades.
Um ponto importante desta pesquisa é mostrar como a filmografia auxilia
e se coloca como fonte história. E, também, até que ponto esta se
compromete com a realidade conhecida, considerando que nenhuma obra
de caráter ficcional tem objetivo de representar fielmente a sociedade que
a produziu. Os filmes selecionados representam memórias sociais que
reforçam a resistência e a identidade daqueles que sofreram com a caça as
bruxas. As obras fílmicas aqui tratadas constroem um objeto em parte
preocupado com a fidelidade ao passado histórico. Em muitos momentos
a disciplina História é ignorada quando sua narrativa tem como suporte o
livro editado em papel, e torna se mais ampla e acessível dentro do enredo
de um filme, transformando passado mais fácil de compreensão. O
cinema com sua linguagem característica, particular leva o telespectador
ao objetivo do filme. Um filme é muito mais do que o dito, é a dúvida e o
subentendido. Esta linguagem artística pode representar ou não uma
época, mas costuma respeitar uma linha temporal com início, meio e fim.
O principal objetivo desta comunicação é entender até que ponto, ambas
as obras se comprometem com a história das épocas que se propõem a
representar e a compreender uma cultura histórica pautada no imaginário
e na resistência. A imagem da bruxaria permanece, como movimento
cheio de tenacidade e muitas vezes pautado no paganismo.
20

Erotismo e Interdições em "Em Nome do Desejo", de João


Silvério Trevisan (1983)

Taynara Martins de Moraes (UFMS)

Este artigo apresenta os caminhos perigosos descritos no romance “Em


Nome do Desejo”, obra lançada na década de 1980 pelo escritor brasileiro
João Silvério Trevisan. O objetivo é percorrer por este roteiro
acompanhando os passos do narrador, que desloca-se com facilidade entre
passado, presente e futuro. Até aqui, foram utilizados, sobretudo,
pesquisas disponíveis pela portal da Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal de Nível Superior em pararelo com as interpretações de Bataille
(1973) sobre o corpo e o erotismo. A obra Em Nome do Desejo, foi
publicada pela primeira vez em 1983 pela editora Codecri, porém a edição
usada para este estudo foi publicada pela editora Max Limonad em 1985
como parte da Coleção Bazar. A capa e todo o projeto gráfico da obra é
do ilustrador e artista plástico Carlos Clémen, e a revisão de José Simão.
A edição contém 199 páginas, sendo estas divididas em dez capítulos:
Intróito, Da obediência e outros mistérios, Da rapsódia húngura e paixões
correlatas, Da formosura de Deus, Da carnalização do céu e suas nuances,
Do mistério da santíssima paixão, Dos incertos acordes de Rachmaninov,
Do desejo em fúria, Do choro e ranger de dentes e Missa est. Apesar dos
nomes peculiares que manifestam-se pela intensidade da narrativa
referente aos capítulos, o ponto curioso da obra está no formato em que
o romance é escrito, que faz referência direta ao catolicismo usado pela
igreja católica. Além disso, as duas páginas que antecedem o intróito
carregam o desenho da planta do espaço em que se passa a história durante
a confissão da então versão adulta de Tiquinho. Neste espaço físico, os
dormitórios são separados pela idade: do lado direito ficavam os maiores
junto ao reitor e no lado esquerdo ficavam os menores de 13 anos, neste
mesmo lado também estava localizado o quarto do diretor espiritual.
Dentro do Seminário viviam sessenta e seis garotos entre dez e quinze
anos, mas destes destacam-se Tiquinho e Abel Rebebel, sendo o primeiro
o personagem principal que dá origem ao drama. Em suma, trata-se das
memórias de um indíviduo adulto que adentra os muros de um orfanato
com a intenção de resgatar ali partes de um passado inquieto, reviver os
mistérios do sagrado corpo de Cristo. O erotismo, que segundo Bataille
21

(1987) é a atividade sexual que difere os homens dos animais, faz parte
das manifestações corporais dos adolescentes eleitos ministros de Deus, o
que nos leva diretamente ao evento que ocasionou a expulsão dos doze
jovens e os mitérios por trás do ocorrido. Cabe ressaltar também a
insistência da instituição em segregar as crianças dos adolescentes,
regulando horários e espaços, o que nos remete de volta ao conhecimento
sobre o erotismo, que para o autor francês, exige experiência pessoal da
proibições e desobediências.

Arena conta Tiradentes como reminiscências de teatro do


oprimido e outras poéticas políticas de Augusto Boal

João Vitor dos Reis (Universidade Federal de Jataí)

Está comunicação tem como finalidade mostrar que no texto teatral Arena
conta Tiradentes, 1967, escrito por Augusto Boal e Gianfracesco
Guarnieri está presente elemento do sistema Teatro do Oprimido (TO),
sistematizado na escrita de Augusto Boal na obra Teatro do Oprimido e
Outras Poéticas Políticas, 1975. Destacamos no Sistema Coringa de Boal,
na personagem da peça Arena conta Tiradentes, conteúdo anacrônico,
pois a figura mitológica de Tiradentes está na peça de 1967. Este símbolo
nacional, que é a imagem de Tiradentes, foi reformulado e na peça e ele
aparece como um símbolo revolucionário contemporâneo a 1967.
Tiradentes passa do herói da república para o herói revolucionário. Assim
a personagem trazia falas dentro do contexto do tempo da montagem da
peça, ou seja, uma peça de época do século XVIII adaptada para o século
XX, para o Brasil dos anos 1960, especificamente pós Golpe de Estado
de 1964. A personagem Coringa possuía várias funções dentro da
encenação: juiz, apresentador, entrevistador, desta maneira fazendo com
que a obra se mostre em forma de tribunal. O Sistema Coringa, na peça
de Boal, tinha como objetivo “apresentar claramente durante a
“performance” simultaneamente a peça e a sua análise, pois o fim a
alcançar era tanto político quanto estético.” (RODRIGUES: 1984, p. 223).
O papel fundamental que a personagem Coringa possuía nas peças é o de
“estimular respostas prontas no espectador” (RODRIGUES: 1984, p.
22

223). Desse modo o Coringa coordenava as passagens de cena, e também


aproximava a plateia do espetáculo – não como no TO já sistematizado
em 1975 – de forma provocativa através de suas funções no espetáculo.
Para compreender o texto Arena conta Tiradentes, 1967, e a obra Teatro
do Oprimido e Outras Poéticas Políticas, 1975, de Augusto Boal,
precisamos entender que ambas tiveram um processo coletivo de criação,
processos diferentes, mas que não se desconectam pela a ideia de que o
teatro é um trabalho coletivo, no Teatro Arena os trabalhos eram feitos
através dos estudos coletivos de seus integrantes em todas as fases que o
grupo passou, no TO as formas cênicas foram construídas pelas
comunidades onde Boal estava presente em seu exílio. Todos participam
e todos constroem, e essa ideia é manifestada na forma da série teatral
Arena Conta... Onde a performance não exige um protagonista ou
antagonista, e esse é um dos elementos que estão presentes no TO. Por
fim, através da relação de Arena Conta Tiradentes, 1967, com o texto
Teatro do Oprimido e Outras Poéticas Políticas, 1975, busca-se entender
o início do Teatro do Oprimido que já estará presente em 1967 nas
encenações do Teatro Arena.

Rock das abelhas: música em Jataí nas últimas décadas do


século XX

Jonathan Evangelista Martins (Unversidade Federal de Jataí)

Distinguir as projeções da história na música e escutar as reverberações


dos acontecimentos nas sonoridades produzidas pelas sociedades tem sido
considerado tarefa utópica ou irrealizável, esta dupla tarefa acabou
definindo um horizonte de pesquisas e absorveu boa parte dos esforços
dos historiadores e musicólogos nas últimas décadas, mas ainda sim as
investigações são poucas a se considerar a riqueza dos dois campos da
produção humana a música e a História, enquanto disciplina das Ciências
Humanas. Entendo assim esta comunicação tem por objetivo mostrar a
formação e o impacto do gênero musical rock na cidade de Jataí – cidade
abelha -, localizada no sudoeste do estado de Goiás, nas décadas de 80 e
90 do século passado e tendo em vista que a cidade está interligada a vários
aspectos social cultural da vida brasileira. Então o que vamos mostrar não
23

se reduz a um simples estudo de caso, mas é parte do todo que compôs a


vida nacional no final do século XX. Entendemos a música como
expressão artística que contem grande poder de comunicação em suas
varias vertentes e que acompanha as diversas experiências humanas, seu
estudo amplia suas dimensões para as realidades pouco exploradas pela
historiografia. No final do século XX as novas tendências de
comportamento que vinham de fora começaram a fazer a cabeça de
muitos artistas jovens dos grandes centros urbanos do Brasil que queriam
sacudir os padrões estabelecidos pela sociedade local e seguindo a esteira
da revolução social e cultural que os anos 80 do passam a consumir e
produzir uma nova e barulhenta música. O cenário musical do país ficou
marcado pela grande expansão do BRock, pelo grande numero bandas
que surgiram e se dedicaram ao gênero. As canções, letras e performances
de muitas destas novas bandas acabaram por fincar a bandeira do rock em
solo tupiniquim. Apesar de uma grande modificação dentro do cenário
brasileiro com a produção bibliográfica sobre o rock nacional há, ainda,
poucos estudos realizados sobre tal tema, investigações que tem pouco
ocorrido por diversas razões. Os trabalhos historiográficos que tentam
desvendar as relações entre história e música encontram uma série de
dificuldades: o conhecimento do campo musical por exemplo. Sabendo a
necessidade do estudo pela história da música, principalmente de sua
memória, busco contribuir para o conhecimento da identidade musical
local proporcionando um ponto de vista sobre música em Jataí. Espero
que essa comunicação possa contribuir para que novos projetos na
pesquisa da relação história e música possam surgir.
24

“Aqui é outro brasileiro transformado em monstro


semianalfabeto, armado e perigoso”: Embates artísticos do
grupo de rap Facção Central no contexto neoliberal
brasileiro

Rodrigo Filgueira Sousa (Universidade Federal de Goiás - Regional Jataí)

O movimento Hip Hop que, segundo Arnaldo Daraya Contier (2005),


engloba o Rap, o Break, e o Grafite, chegou ao país durante os anos 80,
através do break, um estilo de dança, trazido pela classe média/alta, após
suas viagens ao exterior. Nelson Triunfo e seu conjunto de Soul Funk &
Cia, foram os responsáveis por levar o break e o hip hop às ruas de São
Paulo, assim o ressignificando. O hip hop nessa fase representava a dança,
com movimentos robóticos praticadas pelo b.boy (dançarino de break) e
o rap ainda não era reconhecido por esse nome. O break conquistou as
ruas e as camadas dos excluídos através dos grupos de baile que se reuniam
em locais públicos. Já no início do movimento o grupo sofreu forte
repressão da polícia e reclamações dos lojistas, que possuíam lojas de
discos nos arredores dos encontros, segundo eles, as aglomerações
favoreciam roubos e furtos. Em um determinado momento ouve uma
divisão entre os breakers e os rappers, essa cisão foi importante para
garantir a autonomia do rap, que conseguiu atingir os excluídos sociais que
se identificavam com o verdadeiro conceito de rap. Dessa feita, a proposta
do presente trabalho é analisar a música “Isso Aqui é uma Guerra”
presente no álbum “Versos sangrentos” no ano de 1999 do grupo de rap
Facção central, por intermédio do seu videoclipe lançado no ano seguinte.
Cabe salientar que o referido videoclipe e o disco foram recebidos como
apologéticos ao crime, por conseguinte, o Ministério Público de São Paulo
e setores midiáticos, como jornais televisivos e impressos, promoveram
críticas que coadunaram com a censura da obra do grupo Facção Central.
Nesse sentido, buscamos observar as relações entre o rap, como lugar de
voz do jovem pobre e negro, no contexto neoliberal brasileiro e os
resquícios de práticas de censura no país após a Ditadura Militar. Assim,
este trabalho busca vincular-se a perspectiva teórico-metodológica da
História Cultural, a partir da relação História e música, pois
compreendemos o rap como linguagem artística que dialoga com práticas
25

sócio culturais de sujeitos marginalizados no espaço urbano. Palavras-


Chave: Música, rap, Facção Central, violência, neoliberalismo, jovem,
negro, censura.

Momento de puro amor e violência – O “Passarinho Urbano


de Joyce”: Ressignificação da Bossa Nova na década de 1970

Fernando Assunção de Resende (Universidade Federal de Goiás -


Regional Jataí)

O presente trabalho tem como objetivo analisar a retomada da música de


protesto, gestada ainda na década de 1960, dez anos depois. Assim,
analisaremos esse momento a partir do álbum “Passarinho Urbano”
(1976) da cantora e compositora Joyce. O disco trata-se de um álbum de
“protesto”, formato comum na chamada era dos festivais (1964-1970).
Dessa feita, uma das perguntas que a pesquisa se propõe é compreender
porque a compositora que, nesse disco se apresenta mais como intérprete,
estabeleceu esse “almanaque” da canção de protesto no Brasil, no
momento de transação política e distensão do governo Geisel (MACIEL,
2004). Uma das hipóteses é que Joyce empreendeu uma imagem que
estava em processo de cristalização e disputa de memória acerca da
resistência democrática no Brasil, mas a compositora também exportara
essa referida imagem de país de protesto e carnavalizado, porém com
algumas ressignificações formais da própria bossa nova, articulando a
interface de protesto com o samba das escolas carnavalizadas cariocas.
Joyce escolheu um repertório de grande força política, retratando o
cotidiano das cidades brasileiras, em especial, o Rio de Janeiro, mas
também altera a linguagem da bossa nova, ao inserir a percussão como
elemento de destaque na estrutura sonora do disco. Dessa feita, o samba
próximo do estilo das escolas carnavalescas e o samba de terreiro
acompanham a estrutura da recorrente bossa-nova de Joyce, ou seja, há
uma ressignificação da própria bossa-nova na propositura de “Passarinho
Urbano”. O álbum aborda temas como a violência, a fome, a miséria,
problemas enfrentados por grande parte da população, mas que não
faziam parte, necessariamente, da realidade vivida pela artista que é
nascida na zona sul do Rio de Janeiro e com carreira de maior destaque
26

no exterior. Cabe salientar que a presente análise será feita por meio dos
pressupostos teórico-metodológicos da História Cultural, sobretudo a
partir da relação História e Música na qual consideramos, segundo Marcos
Napolitano (2002), como dialógica.

O Uso do Humor como Crítica em Planeta dos Homens


(1976)

Caroline Barbosa (Universidade Federal de Mato Grosso)

O presente trabalho tem por objetivo a análise do programa humorístico


Planeta dos Homens, que tem início em 1976 e era apresentado pela Rede
Globo de televisão. Pensar esse período que inicia o programa até o seu
termino em 1982, implica compreender o momento atual do país naquele
período, pois esse programa pode refletir o que se passa nesse período.
Alguns estudos sobre esse momento nos apresentam tal como
“transição”, esse intervalo pode ser pensado/caracterizado por vários
acontecimentos, para nós cabe somente o período que compreende o
início e o termino de Planeta dos Homens (1976-1982), onde se tem uma
instabilidade política, um ciclo de greves que se inicia e governos
militar/civil, dentre outros acontecimentos. Contudo buscamos
compreender o “sentido” ou “signos” da televisão, no âmbito desse
programa humorístico, para entendermos esse diálogo de quem produz, e
para quem produz. Para isso, pensar os anos setenta com essa dimensão
que a televisão ocupa (Rede Globo) e o espaço que ela tem com esses
programas humorísticos, no caso o especifico Planeta dos Homens.
Observaremos de que forma linguagem dos programas retratam,
apresentam, compreende e transmite como forma de humor a mudança
de um Estado ditatorial, para um Estado de direito. E pensar como foi
construída a memória histórica desse período, a luz dos programas
humorísticos, e compreender o diálogo da tradição do humor na cultura e
política.
27

Chapolin: o herói latino-americano

Arthemio de Carvalho Rodrigues (UEG)

Quando criança, ou ate mesmo na fase adulta escolhemos um herói para


nos representar; aquele que dedicamos horas em revistas em quadrinhos,
filmes navegando em suas aventuras. Escolhemos um herói, e muita das
vezes antes de tomar um decisão pensamos "Como ele faria nesta
situação?". Sem duvidas grande maioria do público brasileiro,
acompanhou alguma vez as aventuras de Chaves e Chapolin criados pelo
grande escritor Roberto Bolaños ou Chespirito (pequeno Shakespeare,
devido sua genialidade). Tratando ainda sobre heróis, como não citar
nosso herói latino-americano? Magrelo, fraco, pequeno, atrapalhado,
porém de grande coração. Em seus episódios a todo instante fazia satiras
aos " Super-Herois" Hollyodianos, assim fazendo uma critica também ao
consumismo do capitalismo estadunidense. Levava a mensagem que "O
verdadeiro herói, não é aquele que não tem medo, e sim aquele que é capaz
de supera-lo" palavras do próprio Chespirito. Com um olhar aprofundado
entendemos a mensagem do escritor onde o mesmo cria um heroi sem
super habilidades em um momento de visibilidade do México que ora
abara de sediar as Olimpiadas e a Copa Mundial em meados da década de
60 e 70. Nesse apce onde os olhos do mundo voltados ao continente
latino-americano lança sua proposta. Como fonte de estudo e pesquisa
tem-se a obra de Canclini "Um latino americano em busca de seu lugar no
séc XXI" e a obra "Super heróis e a filosofia", e como referencias
videograficas episódios do seriado mexicano "El Chapulin Colorado".

Representações indentitárias: análise do personagem Chico


Bento e aspectos culturais dos povos do campo

Higor leonardo Bispo dos Santos (Universidade Federal do Tocantins)

Nesse artigo abordaremos a perspectiva das representações identitárias


produzidas pelas histórias em quadrinhos. Para tanto, realizaremos uma
análise da personagem Chico Bento criado pelo cartunista Maurício de
28

Souza para compor a Turma da Mônica, o qual procura construir uma


representação do homem do campo brasileiro. Francisco Antônio Bento
(Chico Bento) foi criado em 1961 pelo referido cartunista. Nessa
construção literária, Maurício de Souza busca representar o típico caipira
brasileiro satirizado por Monteiro Lobato em seu celebre livro Urupês, ou
seja, com chapéu de palha, pés descalços, roupas rasgadas e dialetos típicos
de sua origem camponesa. No presente tema penetraremos em dois
universos paralelos, onde os quadrinhos são vivenciados na prática social
camponesa, relacionando as dificuldades de reconhecimento cultural,
identitário e saberes empíricos do homem do campo. Entretanto esse
estudo tem como objetivo analisar as representações depreciativas
contruídas sobre o homem do campo em suas diversas práticas sociais,
pois entendemos essa produção cultural como um conjunto de práticas
cultivadas por um grupo social que tem a escrita como base de
comunicação e registro sociocultural. Uma segunda questão desse
trabalho é a desconstrução da imagem negativa do camponês e sua
utilização em práticas educativas referentes a história brasileira.
Consideramos que a história narrada nos quadrinhos se passa em torno
do personagem e abrange um contexto relevante, uma vez que os
costumes do campo são diferenciados, por isso muitas vezes mal
interpretados. Entretanto a linguagem dos povos do campo ainda sofre
bastante rejeição, sendo que muito das vezes são apenas regionalismo e
expressões camponesas, claro que por falta de instruções erram em muitas
palavras em nosso sistema rebuscado de linguagem e, isso é verdade.
Levando em consideração que grande parte dessas pessoas não teve
letramento adequado ou nem se quer sabem ler ou escrever por
oportunidades não alcançadas. Nesse sentido, consideramos que nosso
trabalho pode contribuir com a crítica histórica referente as
representações identitárias construídas pelos meios de comunicação de
massa, em particular as que estão voltadas para o público infantil.
29

A perspectiva visceral entre a identidade de Frida Kahlo e a


massificação da arte

Maria Tereza Soares Lopes (UEG - Campus Pires do Rio)

O presente projeto tem como objetivo principal trazer a tona a


presentificação da pintora Frida Kahlo, buscando refletir o quanto sua
“imagem” virou uma tendência sem reflexão. Analisando de forma
atrelada ao contexto histórico em que ela estava inserida e evidenciando o
quanto sua vida pessoal estava conectada com a politica, arte e
principalmente com o seu posicionamento revolucionário, mostrando a
coexistência entre pintora e obra.

É só começar: Ler e Aprender História na Segunda Fase do


Ensino Fundamental

Wanderson dos Santos Poloniato (Universidade do Estado de Goiás)

O projeto de extensão se insere nas atividades desenvolvidas pela


UEG/Campus de Pires do Rio e tem por objetivo propor o uso da
literatura infanto-juvenil e infantil enquanto recurso didático para a
disciplina de História, no Ensino Fundamental II, mais especificamente
para os 6º anos da Escola Estadual José Pio de Santana em Ipameri-GO.
Dessa forma, desenvolver reflexões sobre práticas de ensino, de leitura
literária e Ensino de História; conhecer e desenvolver técnicas para uso da
literatura nas aulas História e desenvolver a capacidade de escrita, alterar
as práticas escolares de ensino e usos da literatura nas aulas de História.
Tendo como objetivo Levar a sala de aula, uma maneira de aprendizagem
com influencia em dois aspecto e matéria diferente. Incentivar através da
disciplina de Historia a literatura. Assim os alunos poderão aprender
através de nossa literatura um pouco mais da historia. Para poder forma
conhecimento de um Historiador usaremos a literatura do infantojuvenil
e infantil e enquanto recurso didático para as aulas de História. Tendo em
base a as leituras de Albuquerque Junior que nos dá a visão de semelhança
30

em narrativa literária e narrativa historiográfica que está em excedo deste


mil novecentos e setenta. Aonde o autor salienta que no início da década
de 1990, "ainda não se tinha perguntado como era feita a escrita na
história, ou seja, não era comum o questionamento sobre o papel da
escrita e da narrativa entre historiadores". Tendo que a esta metodologia
utilizada neste trabalho será a literatura, e que Melo (2014) não nos deixou
esquecer que, é a partir do diálogo com as fontes, independentemente do
tipo de arquivo, tempo ou espaço, que um ser pensante reconstrói os
acontecimentos históricos e introduz dentro do contexto histórico os
resultados fornecidos através do diálogo fornecido pela fonte. Os
resultados esperados são: desenvolver uma prática de leitura literária e de
ensino História, utilizando como recurso didático a literatura condizente
com a formação de leitores proposta nos Parâmetros Curriculares
Nacionais para o Ensino Fundamental (1997). E, pretende-se, também,
publicar os Anais como os relatos de experiências e textos científicos
produzidos pelos acadêmicos envolvidos na pesquisa.

Memória, identidade e fé: festejo do divino Espírito Santo


como expressão artística

Flávio Alexandre Martins Xavier (Universidade Federal do Tocantins)

Nesta pesquisa discutiremos a religiosidade popular através da análise


histórica do festejo do Divino Espírito Santo em Arraias Tocantins como
linguagem artísitca. Essa festa tem um forte caráter de religiosidade
popular, na qual anuncia a presença do Espírito Santo e vem rompendo
as fronteiras milenares e conservam a religiosidade no festejo: missas,
novenas e celebrações. Essa pesquisa é importante, pois trará as
experiências religiosas dos festeiros do Divino mais antigo da comunidade
rural arraiana, assim como, o cotidiano de pessoas que compartilham da
vivência do Festejo atuais. Discutiremos, ainda, como a fé, a identidade e
a memória se articulam em torno da linguagem artística: ornamentação e
musicalidade. Para Maurice Halbawachs (2004), toda memória é coletiva,
e como tal, ela constitui um elemento essencial da identidade, da
percepção de si e dos outros. Para que possamos investigar esse assunto,
31

utilizamos as contribuições da História Oral como metodologia de


pesquisa, pois consideramos que a abordagem em torno da oralidade é
fundamental para a compreensão das experiências sociais vividas pelos
Festeiros e suas relações com a linguagem artística encontrada no festejo.
Segundo Alessandro Portelli (2006), as fontes orais revelam as intenções
dos feitos, suas crenças, mentalidades, imaginário e pensamentos
referentes às experiências vividas por pessoas anônimas, simples, sem
nenhum status político, econômico ou social, mas que viveram os
acontecimentos de sua época. O presente trabalho tem o objetivo, ainda,
de estabelecer reflexões e discussões interdisciplinares dentro dos estudos
das linguagens tomadas como problema para o trabalho do historiador
social e da cultura. Como vemos, temos o intuito de entender quais
elementos identitários que unem os indivíduos em torno do festejo, uma
vez que, essas experiências foram silenciadas durante muito tempo.
Acreditamos que esta pesquisa contribuirá com os estudos das linguagem
populares encontradas nesse festejo, ou seja, nesta pesquisa discutiremos
a religiosidade popular e seus vínculos com linguagem artística na tentativa
de aproximação multicultural que possa englobar tais narrativas e
linguagens artísticas e religiosas.

Análise da fotografia de Vivian Maier nos anos de 1950 e


1960: interpretações políticas e sociais na percepção
feminina

Gabriela da Silva Chaves (Universidade Federal do Triângulo)

O Trabalho “Análise da fotografia de Vivian Maier nos anos de 1950 e


1960: interpretações políticas e sociais na percepção feminina” busca
recuperar a fotografia de Vivian Maier em seu contexto histórico.
Utilizando da conjuntura política, social e cultural durante os anos 1950 e
1960, nas cidades de Chicago e Nova York -Estados Unidos- procuramos
entender e interpretar a transformação do espaço urbano e as relações de
gênero a partir do olhar da fotógrafa. Tem como objetivo geral entender
a percepção de Vivian Maier sobre seu próprio tempo, com especial
atenção para as questões das mulheres. A obra de Maier para este trabalho
se relaciona ao contexto político e à emancipação feminina na transição
32

de 1950 a 1960. Em um momento onde justamente a discussão sobre


direitos civis nos Estados Unidos abre espaço para os movimentos
feministas. Além disso, objetiva-se entender as fotografias em seu
contexto histórico, usando-as para compreender o momento político em
que foram produzidas. As transformações ocorridas após a Segunda
Guerra Mundial, a Guerra Fria e o início da Guerra do Vietnã nos Estado
Unidos, que marcaram as décadas de 1950 e 1960 resultaram nos
movimentos contestatórios na década de 1960. Todo esse ambiente é
muito importante para a emancipação da mulher, para a luta do
movimento negro, para manifestações culturais da contracultura e, por
fim, para as manifestações em favor da paz. Nesse contexto, a análise da
obra de Vivian Maier, adquire o caráter teórico sob a relação social,
político, econômico e cultural da cidade de Chicago. Apoiando seus
registros pelas minorias e aprofundando no contexto histórico em que
Maier viveu. Nesse caminho, o estudo aqui proposto busca valorizar o
objeto histórico, bem como a ação humana no tempo. Para tanto, a
fotografia de Vivian torna-se o objeto principal da análise, onde
questionaremos o sentido dos elementos fotografados e o olhar
interpretador que aciona a câmera. Buscamos a partir disso, entender o
uso da imagem para a construção da narrativa histórica, bem como avaliar
as formas de montagem de uma visão política. Em suma, o presente
trabalho, usa a fotografia como fonte histórica, dentro da noção de
representação, trabalhada pelo historiador Roger Chartier. Após isso,
buscamos uma análise da história de Vivian Maier por meio do contexto
histórico presente em suas fotografias, buscando entender assim a
construção de sua identidade nos Estados Unidos da metade do século
XX.

Da Komoidia grega à Art Nouveau europeia: Os usos da


história como projeto estilístico

Gabriela Malesuik Aragão Barros (Universidade de Brasília)

O artigo, ainda em desenvolvimento, busca analisar as possibilidades de


uso da história como projeto estilístico nos diferentes tempos e espaços,
utilizando como foco de investigação as releituras imagéticas de Aubrey
33

Beardlsey, produzidas em 1983 d.C; da obra literária Greve de Sexo, de


Aristófanes, publicada em 411 a.C. Através dos conceitos gregos de
hybrys, nêmesis e sophrosyne, é possível traçar um paralelo diante dos
contextos de produção de cada um desses autores, visando observar o
remodelamento de um vestígio histórico, à noção de Arlette Farge (2009),
do século V a.C aos conformes estéticos do século XIX d.C. Observando
a conjectura grega antiga de decadentismo moral e econômico constante
após as Guerras Medas, que volta a tona durante a Guerra do Peloponeso,
faz-se possível notar que a komoidia grega aristofânica contém, através da
ascensão das mulheres, e principalmente da ateniense Lisístrata, uma
severa crítica irônica ao perecimento da moral grega centrada na aretê,
primordialmente compreendida através de valores ligados ao
patriarcalismo. Voltando-se mais especificamente à obra como vestígio,
discute-se, no trabalho, a transição ocorrida no século XIX de uma arte e
de uma arquitetura compostas por uma estética masculinizada, típica da
escola classicista, para uma estética fundamentada na feminilidade
curvilínea, apresentada pelo movimento da Art Nouveau, pautando-se na
análise de gênero aplicada à arquitetura e ao urbanismo por Mumford
(1998). As ilustrações de Beardsley remodelam o significado da obra de
Aristófanes, adequando-a a um contexto de ascensão de uma estética de
padrões femininos. No que diz respeito às noções filosóficas gregas, a
nêmesis estabelecida pelas mulheres em “Greve de Sexo” se faz presente,
no século XIX, por meio da ascensão da feminilidade da Art Nouveau.
Por mais divergentes que fossem os intuitos dos autores, nota-se a
reinvenção imagética de uma obra, adequando-a a outro contexto, para
sua disseminação com um novo viés compatível à outra temporalidade. O
cerne desse paralelo temporal, portanto, consiste em demonstrar a
instrumentalização da história como projeto estilístico artístico e
arquitetônico, através do exercício de observar o outro e a si mesmo, em
diferentes contextos, com as premissas da noção de alteridade histórica.
34

Os cemitérios em goiás: Criação, justificativas e normas


(Séculos XIX e XX)

Juliana Luiz Carioca Fonseca (UEG- Campus Cora Coralina)

Esse trabalho tem como objetivo mostrar um pouco sobre a criação dos
cemitérios em Goiás. Mais especificamente o cemitério São Miguel, e
mostrar também o significado das imagens presentes nos túmulos que nele
se encontram. Há uma separação das quadras do mesmo, pois na época
em que ele foi criado, havia uma separação de classes sociais muito grande,
e isso era algo muito presente na sociedade naquela época. Havia um lugar
para as crianças pobres, os adultos pobres, os escravos, para os ricos etc.
Nele havia também locais para outras funções que são designadas a um
cemitério, e também uma capela que é utilizada até hoje para velórios ou
até mesmo funciona como um local de despedida antes do enterro do
falecido e fazer missas. Segundo Maria Elizia Borges (2005), conforme
citado por (Cerqueira, 1997): "A solenidade de inauguração do Cemitério
São Miguel foi realizada no dia 13 de agosto de 1858, com a presença de
autoridades e grande número de pessoas. Sua administração foi entregue
aos cuidados de um hospital de caridade, vinculado à igreja, conforme o
Relatório Governos da Província de Goyaz de 1856-1859." O período de
estudo inclui os séculos XIX e XX. O objetivo é compreender as imagens
que foram colocadas nos túmulos naquela época e compará-las com as de
hoje, as diferenças, os possíveis porquês da colocação dessas imagens. Se
elas tem ou não um significado por estarem ali, ou se foram colocadas por
acaso. A metodologia fundamentar-se-á numa sistematização dos temas,
debates, idéias e suas relações com o existente da época. Lembrando
também que havia um cemitério separado para os ladrões, os bandidos, os
que eram condenados à forca e para os ateus. "Estamos, portanto, em
pleno tempo humano, interno, de lembrança e espera, esquecimento e
frustração, finito, irreversível, devir e desejo de ser, de permanência e
eternidade. Há tempos plurais, como são plurais as sociedades; tempos
heterogêneos e não lineares, pois as relações de uma sociedade com o seu
passado e seu futuro variam. A precisão do conceito inclui a precisão do
número, mas não se submete a este. O conhecimento histórico produzido
a partir desse conceito de tempo é uma interpretação qualitativa,
35

compreensiva, de um tempo humano tenso, inquieto entre o passado e o


futuro." (REIS, 2006, p. 194).

As regras do jogo: o uso da etiqueta como poder na corte de


Luís XIV
Augusto de Matos Ribeiro (UFJ)

Esta comunicação visa compreender o uso da etiqueta como mecanismo


de definição das regras sociais de convivência em grupo e sua utilização
como instrumento de controle social. Dando ênfase à vida cortesã da
França sob o reinado de Luís XIV. O monarca é símbolo de seu tempo
bem como ficou definido na frase atribuída a ele: “L’etat C’est Moi” (o
estado sou eu). Luís se situa em um processo de centralização do poder
régio. O “Rei Sol” soube utilizar diversas ferramentas de controle social,
tais ferramentas ficam explicitas se observarmos sua corte. A pompa e os
rituais foram fundamentais para que Luís XIV construísse sua imagem de
governante supremo da França (BURKE, 2009). Nesse sentido, o Palácio
de Versalhes, importante para fabricação da imagem de Luís XIV. HW.
Janson (2007 p 78) aponta que “incumbia as artes plásticas a tarefa de
glorificar o rei”, e que é próprio do barroco que todas as formas de arte
se voltassem para a glorificação do rei. O desenvolvimento dos Estados
Modernos resinificou a realeza medieval transformando-a em uma realeza
aristocrática, que passa a distribuir dinheiro, era autônoma militarmente e
que passava ao oferecer chances de mobilidade social. A nobreza passa a
perder espaço para a monarquia, ao mesmo tempo se tornam cada vez
mais dependentes de seu soberano. O status fundava as chances de se
mover dentro das sociedades absolutistas, os cortesãos passaram a
disputar espaço entre si e com a burguesia alojada na corte. Utilizando o
cerimonial e a etiqueta os reis absolutos distribuem prestigio alterando o
equilíbrio do poder dentro da corte, não permitindo o surgimento de uma
coalizão capaz de se opor ao rei. A tentativa de se manter dentro da
sociedade de corte gerou comportamentos e mentalidade própria para os
indivíduos desta figuração, portanto: “o ethos hierarquizado dos cortesãos
não é nenhum ethos econômico disfarçado, mas algo constitutivamente
distinto” (ELIAS, 2001, p.119). Como observou Schwarcz (2000) “não há
36

sistema político que abra mão do aparato cênico, que se conforma tal qual
um teatro; uma grande representação”, segundo os autores, o poder
político dentro do absolutismo interage de maneira dialógica com a
cultura. A sociedade de corte exige do indivíduo um constante
autocontrole e perspicácia na observação do espaço a sua volta, pois
perder os bons modos ou saber dirigir a palavra poderiam significar uma
mudança na posição social do cortesão. Essa constante vigilância de si e
dos outros dialoga com a abundância de referências e representações nas
obras de arte.O requinte, a complexidade dos rituais e o controle das
pulsões marcaram a vida e a politica nas cortes absolutistas, em um
processo singular de continuidades e rupturas, produzindo um sistema de
dominação próprio.

O Poder das Imagens-Uma Lietura Critica na


Contemporaneidade

Daize Pereira da Cunha (Universidade Federal do TocantinsArraias)


Maria José de brito (Universidade Federal do TocantinsArraias)

Vivemos em uma realidade mediada por imagens. Diariamente imagens


de diferentes mídias nos alcançam: televisão, fotografias, games, filmes,
memes, publicidades, etc. No entanto, as escolas ainda estão acomodadas
e não trabalham essa realidade. A Cultura Visual ao ser utilizada como
perspectiva de ensino possibilita a professo’ aprender explorar e trabalhar
temas e inquietações contemporâneos que contribuem para uma
compreensão crítica da experiência visual” (MARTINS, 2011, p. 20). O
que nos leva a refletir que devemos deixar o olhar atípico com relação às
imagens do cotidiano e levar essa questão para a sala de aula contribuindo
para a formação de sujeitos capazes de compreender e agir criticamente
sobre o poder que as imagens exercem sobre nós. Os estudos da cultura
visual produzem um novo desafio para a escola, pois nos aponta como é
importante aproximar dos ““lugares” culturais, onde meninos e meninas,
sobretudo os jovens, encontram hoje muitas de suas referências para
construir suas experiências de subjetividade” (HERNÁNDEZ, 2007, p.
37). Os estudos da cultura visual, como nos indica Nancy Pauly (2003
apud HERNÁNDEZ, 2007, p. 25), deve promover experiências que
37

permitam aos estudantes “terem a compreensão de como as imagens


influem em seus pensamentos, em suas ações e sentimentos, bem como a
refletir sobre suas identidades e contextos sócio-históricos”. Essa
perspectiva permite reconhecer os mais diversos agentes dos processos
culturais, possibilitando que o estudante explore e valorize suas próprias
referências culturais. Os artefatos visuais podem ser uma importante
ponte para reflexões nas dimensões cultural, social e subjetiva.
Concordamos com bell hooks (2013, p. 22) sobre como a sala de aula deve
ser um lugar de entusiasmo, nunca de tédio. Nesse sentido, Hernández
(2007, p. 17) discorre sobre como a escola pode ser um lugar “entediante”
por não estabelecer conexões com o universo de interesse dos estudantes.
Consideramos a questão da visualidade na contemporaneidade como um
dos elementos propulsores da atual dinâmica cultural. Adotamos uma
perspectiva de ensino que busca “valorizar os sentidos, os afetos, a
reflexão, a experimentação e, a pesquisa, entendida como um processo de
busca pela compreensão de fenômenos nos quais somos e estamos
envolvidos” (TOURINHO, MARTINS, 2016, p. 6).

Possibilidade do uso de imagens no ensino escolar

Elisneidy de Jesus Rezende (Universidade Federal de Goiás)

Possibilidade do uso de imagens no ensino escolar Elisneidy de Jesus


Resende Costa Halline Mariana Santos Silva² Resumo: O presente artigo
tem por finalidade problematizar o uso de diversas metodologias no
ensino de Historia e Geografia, colocando em evidencia o fato das
mesmas servirem como subsídios as aulas e assim ser aporte para o
professor, para tal recorreu-se a teóricos como Bitencourt (2010); Almeida
e Vasconcelos (2010); Saliba (2010); Napolitano (2010); Pinto (2015);
Ferrés (1996); Sant’Anna (2012); Cavalcanti (2005). A ideia da pesquisa é
compreender de que forma esses recursos ajudam o professor, colocando
como possibilidade de apoio na sua forma de ensinar parapromover uma
aula diferente e interativa, provocando o interesse no aluno acerca do tema
estudado, tendo sempre em mente que não basta apenas apresentar o
recurso, é preciso que o mesmo tenha significado estando amarrado ao
conteúdo trabalhado em sala de aula. O estudo aponta que há uma
38

diferença entre a imagem e a fotografia como mostra a Revista Câmera


Neon e no ensino de História e Geografia a imagem é um grande
confederado do professor em benefícios do ensino-aprendizagem da
criança e deste modo continua as metodologias discorridas na pesquisa
como vídeos, foto, imagem televisual e uma simples ida ao museu. O
museu entra como ferramenta em decorrência do espaço e atividades
proposta. Tem-se evidenciado que para trabalhar com a imagem no ensino
fundamental o professor deverá integra-la ao ensino escolar como forma
de ampliar o conhecimento do aluno, mas para isso ele deve contextualizar
para que tenha significados. No entanto, a centralidade da aula deve está
em constante planejamento para que o ensino seja de grande significativa
a fim de objetivar a aprendizagem do aluno.

Como trabalhar o cinema em sala de aula

Jully Azevedo Oliveira (Universidade Federal de Goias - Campus Jataí)

A presente proposta é fruto de um trabalho realizado no âmbito do


Programa Institucional de Iniciação à Docência – PIBID do curso de
História da Universidade Federal de Goiás/Regional Jataí. O projeto foi
realizado com as séries finais do Ensino Fundamental (6º - 9º ano) da
Escola Municipal Professor Luziano Dias de Freitas na cidade de Jataí
GO. Buscou-se trabalhar o uso de diferentes fontes e linguagens no
Ensino de História, priorizando a linguagem cinematográfica. Partimos
das considerações propostas por Viana (2002, p. 3) de que: “o contexto
educacional atual exige que o processo de ensino/aprendizagem utilize
imagem, uma vez que, o mundo é da imagem, já que o estímulo visual se
sobrepõe no processo de ensino/aprendizagem”. O projeto consistiu em
problematizar o uso de filmes como recurso didático no processo de
ensino/aprendizagem nas aulas de História verificando aproximações e
distanciamentos entre o real e o ficcional, procurando despertar o
interesse pela análise, reflexão e crítica dos alunos. O filme “revela
imaginários, visões de mundo, padrões de comportamento, mentalidades”
(BARROS, 2011, p. 180). A prática docente requer do professor trabalho
constante na busca de diferentes metodologias, atentando para às
mudanças que ocorrem no cotidiano escolar e ao seu redor. Atualmente
39

os professores se deparam com o desafio de utilizar o cinema como


possibilidade de construir e difundir conhecimentos, e ainda, centrando
seus esforços nos processos de criação e reorganização das situações de
aprendizagem. Napolitano (2009, p. 39) afirma que: “o professor deve
saber lidar com essa questão e não cobrar “a verdade histórica” nos filmes,
porém não deve deixar de problematizar eventuais distorções na
representação fílmica do período ou da sociedade em questão”. No
desenvolvimento do projeto a linguagem cinematográfica foi
compreendida como geradora de discussões e conhecimento, e não
simplesmente como mera ilustração dos conteúdos trabalhados nas aulas
de História.

Escola, Gênero e Desigualdades Sociais

Lidiane Andrade Silva (UFG)

A pesquisa é parte do TCC, do Curso Pedagogia sobre “Reprodução


social, formação crítica e consolidação da escola democrática”, investiga
como a escola contribui para o baixo rendimento escolar nos anos iniciais,
as consequências do fracasso escolar e os impactos na sociedade. E como
filmes – animação, documental e ficcional – constituem material
pedagógico a favor da aprendizagem. O método praxiológico desvenda as
relações, conexões e interdependências. Os resultados, embora não
conclusivos, apontam para a (re) produção de práticas pedagógicas e
administrativas, por parte da escola e dos organismos governamentais que
implicam na distinção de gênero. Resumo Expandido Para Patto (1999) o
fracasso escolar é produzido pela escola, inicia ainda na alfabetização por
desprezo às especificidades dessa etapa. Segundo Silva (2017) o filme é
importante aliado no processo de aprendizagem. A democratização do
acesso à escola para as camadas pobres da sociedade brasileira, na segunda
metade do século XX, se constitui “[...] parte de um conjunto de reformas
nas políticas como um todo, especialmente as voltadas para as áreas
sociais” (GOHN, 2002, p. 98), e não efetivou o sucesso dos educandos,
especialmente dos meninos. Algumas teorias “formuladas” na Europa e
Estados Unidos, embora frágeis, encontraram adeptos no Brasil,
40

legitimadas por uma corrente da Psicologia, as ideologias: “do dom”; da


“deficiência e diferença culturais” e “deficiência linguística”, ora culpam
os pais, a escola, os educandos e o contexto social. (SOARES, 1986). Sem
base científica fazem da escola, campo de legitimação da violência
simbólica apontada por Bourdieu e Passeron (2014). A escola deve
promover a aprendizagem processual e cumulativa de todos. As
descobertas científicas na área da educação indicam quadro de negação da
cidadania que para Gentili e Frigoto (2002) causa insucesso escolar – dos
mais pobres, menos cultos, meninos, etc. – a escola deve visar o
desenvolvimento integral de todos e a democratização do conhecimento
com formação crítico-sensível. Referencias: BOURDIEU, P.;
PASSERON, J. A Reprodução: elementos para uma teoria do sistema de
ensino. 7 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014. GENTILI, P.; FRIGOTO, G.
(Orgs.) A Cidadania Negada: políticas de exclusão na educação e no
trabalho. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2002. GOHN, M. G. M. Teorias dos
Movimentos Sociais. São Paulo: Loyola, 2002, v.1. p. 396, 3. ed. PATTO,
M. H. S. A Produção do Fracasso Escolar: histórias de submissão e
rebeldia. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1999. SOARES, M. Linguagem e
Escola: uma perspectiva social. 2. ed. São Paulo: Ática, 1986. SILVA, S.
dos S. Socine – mapeamento do cinema brasileiro. Curitiba: CRV, 2017.
41

SESSÃO COORDENADA 2
GÊNERO, CORPO E SEXUALIDADE

Coordenadores:
Benedito Inácio Ribeiro Junior (Doutorando em História –
UNESP/Assis)
Antonio de Lion (Doutorando em História – UNESP/Assis)

A historiografia brasileira tem refletido nas últimas décadas acerca dos


temas ligados às demandas sociais, tais como as das mulheres e das
populações LGBT+ (lésbicas, gays, bissexuais, população trans – travestis
e transexuais, intersexos, queers, assexuados, etc.). Assim, esses sujeitos
que se viam excluídos tanto dos processos históricos quanto da
participação efetiva na democracia, hoje podem ver, ainda que
timidamente, essa realidade se transformar. A emergência dos estudos das
relações de gênero pelas/os pesquisadoras/es ao longo dos três últimos
decênios colocou de vez estes temas na produção de conhecimento
histórico em nosso país. Nesse sentido, a sessão de trabalho busca um
diálogo entre as práticas científicas da disciplina histórica e as demandas
políticas desses sujeitos. Inserida nas discussões da bibliografia acima
referenciada, a sessão buscará nas reflexões contemporâneas sobre
história, mulheres, gênero, sexualidades, corpos e performances se atentar
para as pesquisas produzidas por alunos de graduação, visando tanto
debate científico quanto político de tais questões.
Os temas em relação à sexualidade, corpo e gênero têm adentrado nas
últimas décadas os estudos históricos. Como afirmam Joana Maria Pedro
e Rachel Soihet (2007), tais temas ajudaram a conformar o campo de
estudos da História das Mulheres e Relações de Gênero no Brasil. Assim,
essa sessão busca congregar alunos de graduação em História e áreas afins
para apresentar suas pesquisas de iniciação científica, estejam elas
finalizadas ou ainda em desenvolvimento, que se proponham a investigar
o passado a partir dos temas, objetos e conceitos da história do corpo, do
gênero e da sexualidade. Também serão acolhidos trabalhos interessados
nas abordagens feministas, nos estudos gays, lésbicos e queer. Dessa
42

maneira, busca-se criar um espaço profícuo de diálogo entre os mais


diversos recortes históricos, metodologias e fontes de pesquisa que
abordem o tema nesta sessão.

O espaço da mulher negra: representatividade no periódico


feminista Mulherio (1981-1988)

Renata Cavazzana da Silva (UFMS)

Neste trabalho pretendo analisar as representações e a representatividade


da mulher negra no periódico feminista Mulherio (1981-1988), bem como
as pautas e temas que emergem no jornal levando em conta a mulher
negra. Comprometido em tratar as questões da mulher brasileira com
seriedade e leveza, o periódico veiculava pesquisas acadêmicas, discussões
que interessavam às mulheres e ao movimento feminista (leis, aborto,
maternidade, trabalho, etc.), além de charges e tirinhas. O jornal foi criado
por um grupo de mulheres acadêmicas e jornalistas e circulou durante os
últimos anos da ditadura, em um cenário de abertura política, de
efervescência das Ciências Humanas dentro das universidades (espaço
privilegiado para a produção científica) e de emergência do feminismo no
Brasil desde a década de 1970 – que se fortalecia por todo o mundo. Esse
cenário propiciou o surgimento de pesquisas acerca das questões
relacionadas às mulheres e também a tomada do espaço acadêmico por
mulheres e pesquisadoras feministas. Em vista desse grande interesse por
pesquisas sobre a situação da mulher brasileira, as instituições Fundação
Carlos Chagas e Fundação Ford, que realizaram a mais importante
iniciativa no estudo do tema mulher e das relações de gênero no Brasil,
contando com concursos e captação de recursos para pesquisas (PINTO,
2003), subsidiaram pesquisadoras como Adélia Borges e Fúlvia
Rosemberg, algumas das responsáveis pela criação do Mulherio, bem
como o próprio jornal. Composto por um Conselho Editorial com
opiniões diversas, e que buscava ampliar os debates sobre “todos os
problemas que afetam a mulher, abrindo espaço para a discussão ampla
das diferentes posições” (Mulherio, 1981, nº0, p. 1), o Mulherio não
ignorou as demandas das mulheres negras. Sabendo-se da necessidade de
43

compreender as diferenças das experiências das mulheres considerando


questões como classe e raça, demandas e questões do movimento negro e
o feminismo negro estamparam diversas páginas do jornal, em quase todas
as edições. Nomes como o da antropóloga e ativista negra Lélia Gonzales
aparecem por vezes para discutir temas como o mito da democracia racial,
a mulher negra no trabalho, a discriminação racial e, entre outros, a
história do povo afro-brasileiro colocando as mulheres em foco.

Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus – uma leitura


interseccional

Maíra Dutra de Oliveira (Universidade Federal de Mato Grosso do


Sul/CPAQ)

A história do Brasil foi e é marcada pela transformação das diferenças em


fator de desigualdade e violência. A colonização pode ser apontada como
estruturante desse processo, haja vista a introdução do trabalho
compulsório do não-branco, mas é preciso acrescentar outros descritores,
como o gênero, aliado ao patriarcado, ou a classe. No que se refere
especificamente às questões de gênero, a desigualdade e a violência são
elementos estruturantes das relações no Brasil. Os números de
feminicídios e estupros são aviltantes, colocando o país em quinto lugar
no ranking mundial, segundo relatórios recentes da Organização das
Nações Unidas. Os Estudos de Gênero se constituem a partir dos anos
1960 e, assim, desigualdade entre homens e mulheres, entre as
masculinidades e as feminilidades, passaram a ser evidenciadas, estudadas
e combatidas, por um largo movimento social e acadêmico. Se os estudos
de gênero se constituem interdisciplinarmente, mesmo nesse caso ainda
há um conjunto importante de lacunas a serem preenchidas, sobretudo
aquelas que partem de uma perspectiva interseccional, ou seja, que
consideram a construção histórica da diferença, bem como seus aspectos
identitários, aliando marcadores como a sexualidade, raça/etnia, classe,
geração, etc. Em 1958 o acaso fez com que Audálio Dantas, repórter da
revista Realidade, conhecesse uma incisiva moradora da favela do
Canindé, em São Paulo, Carolina Maria de Jesus. Daquele contato deu-se
44

a publicação, em 1960, de seu “Quarto de Despejo – diário de uma


favelada”, logo traduzido para treze idiomas e que impactou seus leitores
pela crueza com que Carolina narra sua experiência de mulher negra,
pobre, favelada. Sua linguagem combina com a aspereza temática presente
na obra. É importante documento para compreendermos as limitações do
projeto desenvolvimentista que não conseguiu eliminar os fossos sociais
baseados nas diferenças de classe, gênero, raça/etnia, entre outras. Assim,
analisar a obra de Carolina Maria de Jesus, “Quarto de Despejo – diário
de uma favelada”, presta-se a compreender a sociedade brasileira, as
hegemonias e resistências, o lugar ocupado nela pelos distintos grupos
sociais, bem como a possibilidade de representação estética das tensões
sociais. A leitura de Quarto de Despejo apresenta o entrelaçamento, na
história recente do Brasil, da marginalidade, do gênero, da raça/etnia, da
geração e da construção das desigualdades e da violência.

O corpo negro das mulheres de Belém

Larissa Ignes Bouth Lucas (Universidade do Estado do Pará)

Esse artigo é fruto de uma das discussões presentes no meu trabalho de


conclusão de curso. Aqui pretendo levantar o debate em relação ao corpo
feminino negro através da análise qualitativa da história de vida de
mulheres negras da cidade de belém do pará. Assim, pretende-se entender
que a construção do corpo vai além de padrões puramente biológicos, o
corpo é uma construção sociológica, portanto é preciso ser entendido
socialmente. Sobre ele recai estruturas sociais, assim o corpo humano é
afetado pelos mais diversos fatores sociais cumprindo assim, uma função
ideológica, portanto ele carrega consigo as marcas dos valores sociais.
Sabendo-se disso, o corpo negro foi desumanizado, objetificado
sobretudo com a escravidão a qual foi submetido e isso gerou um
obstáculo para a construção de uma identidade social com seus corpos e
suas características. Aos corpos negros foram sendo atribuídos certos
estigmas que contribuíram para que essa descaracterização ocorresse, mas
especificamente os estigmas sobre os corpos das mulheres negras. Nessa
perspectiva, pode-se analisar as representações e discursos sobre o corpo
da mulher negra para chegar aos espaços a ele socialmente destinados.
45

Corpos marcados historicamente e que até hoje carregam consigo essas


marcas do passado. Portanto as entrevistas servirão de base para as
abordagens sobre o corpo da mulher negra, narrando a partir das amostras
coletadas a história das mulheres negras belenenses e as relações com seus
corpos, podendo então compreender como elas enxergam seus corpos em
diferentes aspectos do seu cotidiano na cidade cruzando essas
informações com algumas análises já existente sobre o corpo das mulheres
negras. mediante isso, investigar e analisar as histórias das mulheres negras
de Belém dentro da academia é profícuo no sentido de dar visibilidade a
trajetórias de mulheres do cotidiano e suas contribuições para nossa
sociedade e também da grande relevância de trazer esses debates de grande
importância social para um campo mais regional de análise, por isso, o
interesse em perceber como se manifesta essas relações de poder sobre o
corpo a partir da realidade de mulheres negras “comuns” paraenses da
cidade de Belém.

O Cotidiano das Mulheres Trabalhadoras da Cidade de


Belém (1890-1900): Notas de Pesquisa

Brenda Pantoja Dias (Universidade Federal do Pará)


Caroline Porto Brito (Universidade Federal do Pará)

Existe certa mitologia sobre a presença da mulher no “mercado de


trabalho”, pois trata as mulheres como uma unidade homogênea que
adentra o espaço público masculino em um mesmo período, LEITE em
1984 reconstrói as tramas acerca de algumas dessas mulheres em meados
do sistema Imperial no Brasil, evidenciando sua agência em um contexto
que as censurava. Este trabalho pretende discutir as possibilidades de
análises acerca das mulheres trabalhadoras populares na cidade de Santa
Maria de Belém do Grão-Pará durante a última década do século XIX e
primeira década do século XX, são mulheres que tiveram suas ocupações
registradas nos Termos de Bem Viver do período. Sarges percebe a cidade
de Belém em meio a crise da abolição no final do século XIX, enfrentando
a multiplicação de mulheres pobres, escravas e forras que sobreviviam do
artesanato caseiro e do pequeno comércio ambulante. Para Maira Neves
46

o processo de construção de uma sociedade bellepoquiana, que cultua o


apolíneo e procura construir falas que exaltem os valores morais, laborais,
higiênicos e estilísticos da Bela Época tende a expulsar o que não se
encaixa nesses valores, ou seja, esse aburguesamento busca segregar as
mulheres populares dos limites burgueses de Belém. Maria da Conceição
destaca as múltiplas tensões que cercavam o cotidiano das pessoas na
cidade de Belém no período estudado, os Termos de Bem Viver
conservam algumas dessas tensões, conservam a ação de mulheres que
tinham suas condutas reprimidas e suas ocupações questionadas, nesse
sentido, procuramos identificar as possibilidades de análise sobre os
vestígios de suas vidas nos Termos de Bem Viver. Esses termos eram
documentos construídos sob a lógica do discurso jurídico relacionado à
conduta social, entendemos a viabilidade de a investigação alcançar parte
do cotidiano das mulheres que circulavam por essa cidade ao formarmos
o seguinte questionamento diante da fonte: como essas mulheres
trabalhadoras populares articulavam raça, etnicidade, sexualidade em um
espaço público urbano em processo de aburguesamento? Ou seja, quais
as possibilidades de análise em relação à origem, a cor, a classe social e a
identidade dessas mulheres? Com o intuito de identificar as múltiplas
estratégias e resistências criadas no cotidiano de mulheres trabalhadoras
populares em Santa Maria de Belém do Grão-Pará (1890-1900),
apontamos uma das possibilidades de analises, a interseccionalidade de
Avtar Brah, que nos permite espreitar esse cotidiano através de interseções
com modalidades raciais, classistas, étnicas, sexuais e regionais em que
esses recursos possibilitam a ação dentro de dinâmicas de poder. Nesse
estudo, formulam-se questões na perspectiva em que as mulheres têm
diferentes experiências práticas que influenciam no seu contato com o
mundo.
47

“Não é nossa vergonha, não é nosso fardo para carregar”:


Prostituição, Racismo e Colonialidade

Cadidja Assis Pinto (Universidade do Estado de Santa Catarina -


UDESC)

A prostituição é um tema que está bastante em voga nos debates do tempo


presente, sendo discutido nos espaços acadêmicos e movimentos sociais,
bem como nos âmbitos referentes à formulação de leis. No Brasil,
argumentos a favor da regulamentação da prostituição são justificados
como uma forma de auxiliar a vida dessas mulheres e LGBT’S.
Demonstrando-se cada vez mais presentes, defendem a perspectiva de que
a prostituição se trata de um trabalho como qualquer outro e por isso,
digno de direitos trabalhistas. Partindo deste princípio, ocorre uma
distinção entre “profissão do sexo” e exploração sexual, onde no caso
exploração sexual comercial se configura apenas quando se trata de
crianças e adolescentes ou prostituição forçada sob grave ameaça ou
violência. A ideia de escolha individual das pessoas prostituídas é outro
argumento bastante convocado para defender a regulamentação, contudo,
direcionar o caminho do debate unicamente para a “escolha”
argumentando liberdade sexual pode ocultar as gravidades implicadas no
sistema da prostituição, pessoas que majoritariamente se encontram em
situação de vulnerabilidade, estando suscetíveis a vários tipos de violência,
humilhação e degradação física, moral e espiritual. Para a escritora e
militante Andrea Dworkin (1992), a prostituição é intrinsecamente
abusiva, isto é, ela por si mesma é um abuso aos corpos prostituídos no
qual o agente dessa violência são predominantemente os homens. A
prostituição é o uso do corpo de uma mulher, LGBT ou criança para o
sexo por um homem, e essa definição apresentada pela autora coloca em
cheque a questão do consenso nessas relações, que se constituem única e
exclusivamente por intermédio do dinheiro. A partir desta perspectiva,
pretendo neste artigo levantar outras questões acerca do comércio sexual,
para além de um discurso incerto de liberdade sexual, pensando também
a respeito de quem consome a prostituição e por quem eles procuram.
Levantado essas questões, o objetivo deste estudo consiste em investigar
os princípios racistas e coloniais que dão base para o sistema da
prostituição, analisando depoimentos de sobreviventes disponibilizados
48

pela Prostitution Research & Education (PRE), uma organização


estadunidense que realiza pesquisa sobre prostituição, pornografia e
tráfico humano. Assim, com o aporte dos conceitos de colonialidade de
Quijano (2010), Lugones (2008) e Maldonato-Torres (2007) este trabalho
pretende levantar questões a respeito da masculinidade no consumo da
prostituição, refletindo como a legalização de uma das formas mais
eficientes de supremacia masculina por meio do uso dos corpos não-
masculinizados, ou seja, corpos femininos, LGBT’s e infantis, se
caracteriza como uma ferramenta da colonialidade do poder, do gênero e
do ser.

Entre virgens, prostitutas e mães: a representação do


feminino nos campos de reeducação moçambicanos no
filme Virgem Margarida (2012)

Rayane Aparecida Castro Silva (UFU)

Esse artigo foi produzido com base em meu projeto de pesquisa do


Trabalho de Conclusão de Curso. Através disso consideraremos a
importância do cinema como fonte primária para o trabalho do
historiador, por esse motivo pretende-se discutir o filme Virgem
Margarida (2012) dirigido por Licínio Azevedo, um brasileiro que durante
a década de 1970 foi convidado a fazer parte do Instituto Nacional de
Cinema, em Moçambique. Ele retrata um campo de reeducação de
mulheres consideradas de “má vida” no país recém independente, sua
trama se desenvolve em torno de quatro personagens centrais: Margarida,
a Virgem que é levada por engano; Susana, a mãe que dança durante a
noite para sustentar sua família; Rosa, a prostituta que não nega em
nenhum momento sua condição e é considerada como o modelo extremo
dos “males da colonização”; e a Comandante Maria João, uma militar que
após contribuir para a independência desejava voltar para a casa e se casar,
no entanto é forçada a comandar o centro. Em meio a castigos físicos e
trabalhos forçados que as histórias das personagens são construídas,
enquanto Margarida não entende o porquê de continuar ali, Susana sofre
com saudades dos filhos. E são essas duas que terão ao longo do drama
finais trágicos, a mãe devorada por leões enquanto tentava fugir e a virgem
49

que é estuprada e decide se matar. Enquanto a Comandante, Rosa e as


outras mulheres decidem sair do campo de reeducação e vão em direção
a cidade. A pesquisa se desenvolverá em torno dessa narrativa,
concentrando-me nos domínios da História do Tempo-Presente, o
Cinema na História, e a História cultural, voltando o olhar para a memória
política construída sobre o período que se caracterizou pelo fim do
domínio português. Com isso, pretende-se interpretar essa obra
percebendo como Azevedo construiu sua própria reinterpretação dos
acontecimentos com base em sua vivência e memória acerca dos campos
de reeducação. Tendo como recorte espacial Moçambique, mais
especificamente sua capital Maputo por ser o centro de produção e
distribuição dos filmes e meu recorte temporal se define pela data de
produção do filme: 2012. Alguns apontamentos serão levantados para essa
pesquisa: Quais disputas no campo da memória recente moçambicana,
acerca do papel feminino, podem ser encontradas no filme? Nesse campo
de memórias, como é construído a representação do papel feminino? Para
os procedimentos metodológicos, pretende-se realizar a análise fílmica e
seu contraste com o livro: “A Libertação da Mulher é uma Necessidade
da Revolução, Garantia da sua Continuidade, Condição do seu Triunfo”,
de Samora Machel, que foi seu discurso de abertura da Primeira
Conferência da Mulher Moçambicana, em 1972.

Meu corpo suas regras: A prostituição como profissão

Francisco Otavio Araujo dos Santos (Universidade Federal de Mato


Grosso)
Jairoeidi Neves Rodrigues (Universidade Federal do Mato Grosso)

O corpo tem ganhado cada vez mais espaço nas discussões teóricas na
contemporaneidade, sobretudo pelos assuntos relacionados à identidade
de gênero e a sexualidade, entretanto devido ao processo colonizador, a
que fomos, violentamente, submetidos por parte de uma potência cristã
europeia do século XVI, a separação entre corpo e alma, entre o visível e
o invisível é recorrente em nossa sociedade, uma vez que neste sistema de
hierarquização colonialista, tudo que se refere ao corpo palpável e visível
com suas nuances, prazeres e seus desdobramentos é pensado como
50

inferior ao que não tocamos e não vemos e, esse sistema é sustentado por
um código moral que sacraliza o invisível, a partir de uma hierarquia de
valores transcendentais ao homem. Parece-nos adequado a compreensão
que as tensões decorrentes das relações de poder sempre se dão no âmbito
do corpo e sob o corpo, uma vez que as estruturas mereçam ser alvo de
reflexão, faz-se necessário também transformarmos o lugar de sentidos e
de fronteiras, no caso o corpo, em uma metáfora que seja capaz de romper
com a visão sacramental e de desprezo a que ele ainda é associado. Neste
sentido objetivasse aqui, investigar as relações de gênero e sexualidade no
contexto da prostituição como profissão, bem como as percepções que os
indivíduos envolvidos neste contexto têm sobre suas condições de
trabalho e suas perspectivas quanto ao projeto de Lei intitulado Gabriela
Leite, que visa à regularização da prostituição como profissão no Brasil.
Propomos ainda, refletir sobre a invisibilidade a que os corpos de garotas
e garotos de programa são submetidos, uma vez que a sociedade que lhes
nega acesso a determinados espaços é a mesma que consome os serviços
prestados por estes.

Mulheres da Amazônia: Um estudo sobre as primeiras


mulheres na Universidade Federal do Pará (1957 – 1970)

Ana Doroteia Santos Dias (Universidade Federal do Pará)


Pérola Araujo Andrade Orandi (UFPA)

A pesquisa tem por objetivo analisar as vivências das primeiras mulheres


universitárias, por meio dos documentos oficiais da Universidade Federal
do Pará e a partir de entrevistas nas quais serão analisados os discursos e
as perspectivas das mulheres inseridas em alguns dos primeiros cursos da
UFPA entre eles os cursos de Medicina, Direito, Farmácia, Engenharia,
Odontologia, Filosofia, Letras, Ciências Econômicas e Contábeis, serão
usados como aporte fontes que remetam a história da universidade,
documentos oficiais e o trabalho da paraense Drª. Edilza Fontes que
possui grande número de entrevistas com mulheres universitárias na
década de 60 no projeto UFPA e os Anos de Chumbo, assim como seu
livro UFPA 50 anos: História e memória. Para a história das mulheres, a
51

história oral tem grande significado no sentido de propor e construir


novas narrativas visto que a escrita da história foi permeada em grande
medida pelo olhar masculino e pela perspectiva arbitrária de inviabilizar a
mulher dos fatos históricos. Nesse sentido, estudar as primeiras mulheres
da Amazônia a ingressarem na UFPA propõe debates a respeito da
formação social que se dá no final dos anos 60, na qual se compreende
um retrato da sociedade belenense. No decorrer da pesquisa é possível
perceber a relevância desse tema para a História Social, falar das Mulheres
Amazônicas nos espaços intelectuais ainda é um assunto pouco explorado
no campo historiográfico e principalmente no acervo das produções
historiográficas amazônicas. Pesquisar mulheres é agregar valor a
construção histórica das representações femininas do passado e ao
adentrar nessa discussão pode-se reafirmar e colocar em voga a história
social das mulheres. Nesse contexto, usar a memória não faz referência a
uma verdade pura, ou de um passado verídico através das narrativas
femininas, mas a aspectos de um passado que se modifica sem perder a
essência e que no decorrer do tempo pode adquirir nuances
contemporâneas, para assim caracterizar uma coletividade e a formação
de uma identidade comum. As discussões de gênero agregam valor ao
protagonismo feminino e se fazem necessárias para compreender os atuais
debates sobre as relações entre as mulheres e sua inserção social,
econômica, política e cultural.

Docência Feminina na Universidade Federal de Mato


Grosso do Sul: alcançando espaços historicamente
masculinizados

Sabrina Sales Araújo (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul)

Essa comunicação tem como objetivo apresentar uma proposta de


pesquisa que reúne História da Educação, Docência Feminina e Relações
de Gênero dentro da perspectiva queer e da História Cultural. Trata-se de
uma proposta de análise da inserção feminina na docência de cursos
historicamente masculinos na Universidade Federal de Mato Grosso do
Sul (UFMS), que visa identificar e analisar, inicialmente a distribuição
52

feminina nesses espaços e investigar quando houve maior abertura dentro


da instituição e o contexto externo que o fomentou, possibilitando tal
inserção. Para isso, apresentar-se-á dados quantitativos a cerca da
distribuição docente por sexo nos cursos da Cidade Universitária – Campo
Grande a partir dos dados informados no site da instituição, e serão
discutidas metodologias e possíveis fontes para identificar os fatores
internos e externos que permitiram tal ingresso, como por exemplo, a
análise dos arquivos institucionais referentes à criação dos cursos e ao
aumento dos quadros docentes, atrelados às políticas públicas voltadas ao
Ensino Superior no âmbito federal. Em seguida, serão discutidos métodos
como a história oral como ferramenta para perscrutar o perfil dessas
docentes e identificar os conflitos gerados pela presença feminina nesses
espaços e suas consequências, como por exemplo, os atos performáticos
praticados pelas docentes em busca de legitimação dos seus cargos em
espaços permeados de uma construção histórica através de discursos
generificados. A necessidade de acompanhamento de conquistas
femininas no espaço público deve centrar suas preocupações para além
dos números que, ao assinalar a conquista cada vez maior de espaços
femininos, escamoteiam os entraves das relações cotidianas de mulheres
em espaços construídos de forma generificada que historicamente as
excluiram. Por esse motivo, a apresentação da proposta visa angariar
contribuições teóricas e metodológicas para a análise das questões
levantadas.

O HIV em Homens Homossexuais de Belém do Pará:


Estigmas, memória e subjetividades (1986-1996)

Paulo Henrique Souza dos Santos (Universidade Federal do Pará)

Essa pesquisa tem o objetivo de demonstrar as potencialidades das


subjetividades dos registros orais de Homens Homossexuais
soropositivos ao HIV, para a compreensão de alguns estigmas atribuídos
a eles, em Belém do Pará entre 1986- 1996. De qual forma a religião junto
ao discurso da “penitência dos gays” perpassam suas narrativas? Como as
experiências dos homens homossexuais soropositivos que viveram os
anos iniciais da epidemia apresentam pontos em comum que nos ajudam
53

a perceber a memória coletiva de tal grupo, marcado por preconceito e


associação da doença à sexualidade? No estado atual da pesquisa, os
entrevistados buscaram narrar a força ante o vírus e suas atuações
construtivas no período que estamos trabalhando, tendo criado grupos de
conversas para socialização da experiência com o HIV e apresentando
como o vírus auxiliou na entendimento enquanto Homossexual. Ainda
assim, em alguns momentos deixam “escapar” questões sobre os estigmas
e relações do vírus á sexualidade, temas mais sensíveis. Na narrativa de um
deles, os estereótipos negativos não foram interessantes de relatar, mas
algumas frases foram significativas: “A gente ouvia muito, castigo de
Deus, associado à sexualidade.” “O meu silêncio era uma defesa da minha
integridade, desses preconceitos como um todo sabe. Era uma loucura
você ser invadido por aqueles pensamentos negativos, aqueles olhares.”
“Aquele dedo que aponta, lá vai né a bichinha”. A frase “Castigo de Deus”
indica o discurso religioso que perpassa a narrativa. Nestor Perlongher
(1986) discorre sobre a associação do HIV/ Aids com premissas
religiosas. Para ele, isso gira em torno do pecado e do castigo divino.
Portanto, a pesquisa explora as subjetividades da fonte oral, entendida
como um recorte do passado, ou melhor, uma versão a qual o indivíduo
está concebendo (ALBERTI, 2004) a partir da memória que deseja
construir de si mesmo e fruto de um diálogo entre o entrevistado e o
pesquisador, “Uma troca de olhares” (PORTELLI, 2016), inserindo o
historiador diante de uma fonte permeada por subjetividades
(PORTELLI, 2016). Além disso, busca também resgatar o que Michel
Pollack em seu artigo Memória, Esquecimento, Silêncio denomina de
memória subalterna, em uma sociedade marcada pelo “Tabu” em relação
ao HIV.

Investigando violências em mulheres lésbicas universitárias

Izabela Assis Rocha (Universidade Federal de Goiás)

A lesbofobia é uma das formas de violência contra mulheres dirigida,


especificamente, às mulheres lésbicas devido ao seu gênero e orientação
sexual. Ela é decorrente da sociedade machista e patriarcal que considera
apenas a heterossexualidade como forma de expressão de sexualidade dos
54

sujeitos. Nesse contexto, a lesbofobia pode ser compreendida como uma


tentativa de apagamento e negação das vivências lésbicas, pois elas não se
enquadram no modelo de feminilidade social que estabelece a
heteronormatividade como natural às mulheres. Sabe-se que a
universidade e todos que nela estão inseridos, como parte integrante da
cultura, reitera e reproduz atitudes de violência contra mulheres, logo,
contra mulheres lésbicas. A literatura revela que universitários, sendo eles
homens heterossexuais, solteiros e que não possuem convívio com
pessoas gays são mais homofóbicos que outros sujeitos. Desse modo, o
presente trabalho teve como objetivo investigar as violências sofridas por
estudantes lésbicas no contexto educacional superior a partir da
perspectiva da Psicologia Social e das teorias de gênero. O método de
obtenção de dados escolhido foi a entrevista semidirigida e a análise dos
resultados foi realizada através de núcleos de significação. A amostra foi
composta por 10 estudantes identificadas como lésbicas de uma
universidade pública do sudoeste goiano. Os resultados indicaram que a
lesbofobia ocorre principalmente em festas universitárias, perpetrada por
homens através de comentários e cantadas que questionam a orientação
sexual das mulheres lésbicas. Esse questionamento decorre da percepção
de que a vivência lésbica é resultado de uma falta de relações
heterossexuais satisfatórias. A sexualização e fetichização do corpo das
mulheres lésbicas, principalmente quando estão com suas parceiras,
também contribui para a prática da lesfobofia. Além disso, a invisibilização
das mulheres lésbicas está presente na naturalização institucional da
heterossexualidade, que não promove espaços de discussão da temática
seja através de matérias ou de palestras e eventos. Ademais, nos coletivos
LGBT da universidade as demandas das mulheres lésbicas não são pautas
do movimento, indicando, novamente, o apagamento delas. Os dados
revelam, assim que a lesbofobia ocorre principalmente através da
naturalização da heterossexualidade e da negação das vivências lésbicas.
Combater essa forma de violência que ocorre no âmbito acadêmico é uma
das maneiras de democratizar o ensino superior e contribuir para uma
transformação social no sentido de respeito e tolerância às diversas formas
de expressão sexual e identitárias.
55

Travestilidades, espaços culturais e novos modos de vida.


Rio de Janeiro, início da década de 1960

Paulo Vitor Guedes de Souza (UFRRJ)

O objetivo central é indagar, através de um exercício de reflexão quais as


relações e as estratégias agenciadas na cidade do Rio de Janeiro, no início
da década de 1960, para a emergência histórica das subjetividades travestis.
A partir de uma histórica produção bibliográfica sobre a temática, desde
entrevistas já realizadas com as travestis da chamada “primeira geração” e
também de pesquisa na imprensa carioca a partir de periódicos
disponibilizados na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional e no
Arquivo do Estado de São Paulo, buscando realizar a indagação da
importância, do papel e dos sentidos que são atribuídos a certas
localidades e espaços culturais da cidade, nos quais uma dada “subcultura
homossexual” já se forjava. Adquirindo assim, esses para suas relações de
sociabilidade, espaços que eram utilizados como um fator que permeava
e se situava entre o público e privado, tomando como exemplo alguns
teatros e boates que surgiram em dada década, esses entendidos como
importantes localidades para a constituição de possibilidades e a
construção de novos modos de vida, aqueles nomeados por travestis.
Utilizo assim, as memórias e analise de Suzy Parker, nascida no dia 15 de
janeiro de 1945 é uma das travestis da chamada “primeira geração”, essa
que emerge e se constitui em meados do anos de 1960, mais
especificamente na cidade do Rio de Janeiro. Suzy tem por suas memórias
a Boate Alcatraz, localizada na Rua Miguel Lemos no bairro de
Copacabana como uma localidade de grande importância em suas
vivências. Entendendo o período, através desses espaços de sociabilidade,
nota-se a presença de determinados sujeitos que começam a investir em
mudanças corporais e subjetivas, abandonando identidades, imagens de si,
performances de gênero, fazendo surgir seus projetos, desejos e sonhos
até então omitidos. Com a compreensão da atuação artística e dos espaços
culturais como ferramentas essenciais de ligação entre as mudanças
estéticas, novidades, hábitos e estilos, facilitando, possibilitando e/ou
permitindo transformações sociais e subjetivas. Atuar nos palcos da Boate
Alcatraz permitiu a Suzy investir em sua autodeterminação. Permitindo
entender esses espaços como promotores e facilitadores de sociabilidade
56

e trocas de experiências, como também condição de possibilidade para a


constituição de novos modos de vida, aqueles nomeados de travestis.

Breve análise de Estudos à população de Travestis e


Transexuais no Programa de Pesquisa para o SUS

Jhonatan Da Silva Queirós (Universidade Estadual de Santa Cruz)

O processo de marginalização da população de lésbicas, gays, bissexuais,


travestis e transexuais, tem raízes históricas em diversos países. A opressão
caracterizada pela dominação de classe, mas que também é expressa
através da orientação sexual e da identidade de gênero desenvolve
condições para o constante adoecimento da população LGBT. Com o
objetivo de incentivar o debate, a informação e de contribuir para o
respeito a diversidade o presente artigo busca tecer uma breve análise
histórica das políticas públicas de saúde à população de travestis e
transexuais em editais do Programa de Pesquisa para o SUS . Para fins de
metodologia do estudo será realizado um levantamento de editais
publicados e de projetos de pesquisa contemplados em editais deste
Programa, que visam contemplar a população LGBT em sites
institucionais do Ministério da Saúde. A finalidade primordial é apontar
quais as demandas na saúde que esse público anseia, suas conquistas e
horizontes nos fomentos do Ministério da Saúde. É importante apontar
que a população de travestis e transexuais dentro da comunidade LGBT
é a que mais sofre com a violência e com condições de vida muito
precárias, em sua maioria sem condições de permanecer em espaços
formais de educação, sem acesso a saúde, marginalizadas pela segurança
pública e pela sociedade são vítimas de variáveis tipos de violências,
psicológicas, morais, físicas em muitos casos chegando a morte. Em
decorrência da violência sofrida buscam na organização de entidades
representativas, organizações sociais sem fins lucrativos ou coletivos de
militância política, um canal para alcançar melhores condições de vida, em
parte que são comuns a classe trabalhadora: educação, saúde, transporte,
moradia e, por outro lado os que são específicos as suas demandas. Vale
ressaltar que os movimentos sociais organizados já na década de 1980
pressionaram o Governo Federal e conquistaram uma política de
57

assistência especializada para o combate ao HIV/AIDS no país, que dura


até os dias atuais como política pública, demonstrando talvez pela primeira
vez, uma preocupação do Estado brasileiro com a saúde das pessoas
LGBT's. Diante do exposto, as execuções de projetos de pesquisa com
população LGBT no âmbito do Programa em questão atende a equidade
em saúde, identificaremos quais centros de pesquisa executaram tais
estudos e a oportunidade de disseminações de informações em sites
institucionais para fins de análises históricas.

Navalha na boca: violências e resistências das travestis


brasileiras em tempos ditatoriais nas linhas do Lampião da
Esquina

Rhanielly Pereira do Nascimento Pinto (Universidade Federal de Goiás -


Regional Catalão)

Este texto é proposto a partir de um desmembramento de uma pesquisa


iniciada na Universidade Federal de Goiás – Regional Catalão no segundo
semestre de 2015 que visou analisar as violências institucionais contra
LGBT’s durante o regime ditatorial de 1964-1985 a partir do jornal o
Lampião da Esquina, mídia nanica, escrita e divulgada amplamente nos
guetos homossexuais de predominância masculina entre 1978-1981 no
eixo Rio de Janeiro – São Paulo. Nesta pesquisa foi possível refletir as
relações entre a sistematização do regime militar e sua política sexual a
partir da seja dos ideais Escola Superior de Guerra, seja da dinâmica
proposta na Doutrina de Segurança Nacional e os elementos que
compunham o ideal da ordem. Agora, na segunda parte desta pesquisa o
foco tem sido a análise das reportagens, notícias, cartas de leitores e
ensaios escritos no Lampião da Esquina em seus primeiros 29 números,
dos 37 publicados em toda vida ativa do jornal. Nestas publicações
destacadas fazemos uma diferenciação visto que há uma Comissão
Editorial, além de convergir com um período de formação e afirmação da
primeira onda do movimento homossexual brasileiro, concentrando nas
capitais São Paulo e Rio de Janeiro. A partir deste material foram
selecionadas e classificadas publicações que tivessem como temática as
58

travestis, as violências por elas sofridas e as resistências por elas


protagonizadas, seja em resposta as políticas de repressão do sistema, seja
pelo preconceito social. Ainda, este trabalho entra na perspectiva de dar
visibilidade a processos históricos que não entraram em debate no campo
da História nos últimos anos de forma abrangente e principalmente nos
estudos sobre regime militar. Além disso espera-se com este trabalho abrir
espaço para discussões políticas que ainda não foram firmadas por falta,
ou pouca, divulgação de estudos científicos sobre esta temática. Com este
texto é esperado que se acendam discussões sobre as permanências e as
ressignificações de táticas e políticas repressivas tomadas durante a
ditadura. De forma metodológica dividiremos o texto em 3 tópicos. O
primeiro destacaremos a formação de uma política sexual durante a
ditadura e os mecanismos de punição. Além de destacar o movimento
homossexual como resposta, resistência, a esta política. No segundo
esperamos reconstruir a dinâmica social a qual as travestis estavam
incluídas, ou seja, deixar em explícito como setores da comunidade civil
para além do Estado as viam. E em terceiro lugar, esperamos evidenciar a
resistência delas as violências sofridas e que foram denunciadas no jornal
o Lampião da Esquina.

Levantamento de dados acerca da violência de gênero na


micro região de Aquidauana/MS

Katia Rosana Hernandes (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul)

Em que pese às mudanças econômicas, sociais e políticas havidas nas


diversas partes do globo, as questões de gênero ainda apresentam
entraves. O modo como o feminino e o masculino são performados tem
se transformado ao longo dos tempos, mesmo que estereótipos ainda
sejam mantidos. O mesmo ocorre com a violência que, apesar de assumir
contornos diferentes em cada sociedade, mantém uma constante quanto
à mulher, perpassando diferentes camadas sociais e espaços demográficos,
o que indica que não tem por causa somente aspectos individuais, mas se
constitui um traço arraigado das sociedades orientadas por valores sexistas
e patriarcais. Neste contexto este trabalho se propõe a tratar as mais
59

variadas formas de violência de gênero abordando a categoria de violência


contra a mulher como questão central. É importante ressaltar que o termo
violência não se refere apenas à violência física, mas a todo tipo de
violência cometida contra indivíduos, inclusive a psicológica, que
corresponde a uma forma muito comum de coerção exercida através de
crenças da sociedade na qual o indivíduo esta inserido. Ao longo da
história podemos observar que foram construídas culturalmente
ideologias que apontam lugares sociais para cada tipo de indivíduo, e
baseados nessas ideologias determinam condições para a aceitação deste
indivíduo nos meios sociais onde estão inseridos, desta forma
determinam-se relações de poder entre o agressor e o agredido, que
acabam em muitos casos por legitimar o comportamento deste agressor
perante a sociedade. Para tanto, nessa fase da pesquisa, será realizado um
levantamento nos jornais impressos e on-line da região que tragam
referencias e estatísticas sobre o assunto, bem como um levantamento
documental seguido da análise dos dados coletados. No que se refere ao
levantamento documental será feito uma busca de dados referente à
ocorrência de violência contra a mulher junto às Delegacias Especializadas
no Atendimento à Mulher que abrangem a micro região de Aquidauana
que compreende os Municípios de Aquidauana, Anastácio, Dois Irmãos
do Buriti e Miranda, a partir do ano de 2006 marco jurídico que avança
em direção ao reconhecimento dos direitos da mulher com a publicação
da Lei No. 11.340 “Lei Maria da Penha”. Palavras-Chave: História,
Gênero, Violência.

A construção sociocultural de gênero e sua relação com


violência contra mulher

Bruna Aparecida Rodrigues Duarte (UFU)

Nos últimos anos a violência contra mulheres saiu do privado, do silêncio


e da invisibilidade, tornou-se de fato um problema público e social de
grande repercussão. Objetivo e justificativa: Compreender a construção
sociocultural da relação de poder entre os gêneros e suas formas de
ocorrência é cerne desse relato de experiência. Método: Este relato de
60

experiência foi desenvolvido por meio de visitas domiciliares juntamente


com assistente social da ESF Canaã II e IV em Uberlândia, Minas Gerais,
no ano de 2016, relacionado com estudos tratando sobre essa construção
e relação de poder entre o homem e a mulher. Resultados: Após as visitas
domiciliares, foi possível notar que as vítimas de violência já sofreram
algum tipo de violência no passado, se repetindo ao longo de sua história,
seja com a saída da casa da família, mudança de companheiro ou outros
motivos, dando a ideia de ciclo violento, podendo ser relacionado com a
raiz da submissão e da construção sociocultural do que é a mulher, e até
qual ponto precisa ser permitido e aceito o imposto pela sociedade
patriarcal. Também foi possível perceber que o agressor normalmente é
conhecido ou mesmo da família, como namorado, amigo, familiares,
dando a ideia novamente de posse e de honra a ser mantida, com uma
predominância masculina, o que leva a crer de forma mais coerente, esse
poder arraigado ao homem, como função de “proteção, mantenedor da
família”..Conclusão: A violência contra a mulher traz em seu seio, estreita
relação com as categorias de gênero, classe e suas relações de poder. Tais
relações estão mediadas por uma ordem patriarcal proeminente na
sociedade brasileira, a qual atribui aos homens o direito a dominar e
controlar suas mulheres, podendo em certos casos, atingir os limites da
violência. Embora tenha leis punindo a violência contra mulher, vale
ressaltar a necessidade de lutar, para que sejam realmente efetivas, já que
infelizmente foi possível observar durante as entrevistas como parece
longe as leis que as protegem.

Parte 1 do Malleus Maleficarum (1487): o imaginário dos


inquisidores sobre as mulheres durante a caça às bruxas da
modernidade europeia

Ana Paula Teixeira e Santos (IFG - Câmpus Goiânia)

A base dessa pesquisa se encontra na reflexão do imaginário constituído


pelos inquisidores Heinrich Kramer e James Sprenger em seu primeiro
capítulo do manual Malleus Maleficarum (1487) a respeito das mulheres.
Essa construção é entendida como problemática por criar um estereótipo
negativo sobre o gênero feminino, classificando-o como intelectualmente
61

fraco, imoral e luxurioso. Tal estereótipo reflete uma tendência comum


entre os europeus do início do período moderno de marginalização das
mulheres, marcada pela sua subordinação aos homens, falta de
participação política e ausência de poder jurídico. Ao mesmo tempo que
essa imagem reverberava uma concepção cultural, sua transcrição em um
tratado eclesiástico fez com que diversos inquisidores e magistrados
passassem a julgar acusações de bruxaria a partir dos preceitos definidos
como oficiais pela Igreja. A medida que mais mulheres eram denunciadas
com base em tais características, mais conhecidos e aceitos se tornavam
os pressupostos de que às mulheres destoantes dos padrões de
comportamento tradicionais caberia a criminalização e associação com o
diabo. Para que tal estudo seja possível, faz-se fundamental ainda
compreender a interação da cultura popular com a erudita, já que a
definição de bruxaria dos teólogos e juristas se caracterizava pela
necessária associação da bruxa com o ente demoníaco, enquanto para os
membros das comunidades iletradas, a bruxa era mais conhecida como
uma figura que simplesmente realizava algum feitiço com objetivo de
prejudicar outrem (pratica conhecida como maleficium). Além disso, o
contexto histórico da caça às bruxas também é analisado para que se
compreenda como ele viabiliza a escrita de textos tais como o manual de
Kramer e Sprenger. A pesquisa se propõe a analisar o manual inquisitorial
a partir da perspectiva da História Cultural, buscando demarcar qual era o
lugar ocupado pelo gênero feminino na Europa no limiar da Modernidade,
como ela era interpretação e o papel a ela designado. Para tanto, intenta-
se esclarecer as condições conjunturais e o pano de fundo dos aspectos de
longa duração presentes na Europa de então, estabelece-se quais foram os
fatores teóricos constitutivos da base do pensamento europeu de outrora,
e as questões jurídicas e como elas se alteraram ao final da medievalidade,
contribuindo assim com a criação de condições propícias para o despontar
das perseguições.
62

Escola sem Partido: projeto de lei 29/2018 em Mineiros/GO

Cíntia de Sousa Carvalho (PUC-Rio)

Atualmente, no Brasil, as escolas se deparam com um cenário preocupante


no âmbito do trabalho com determinados temas no ambiente escolar.
Surgem discursos apoiados na ideia de que a escola deve respeitar o direito
dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que lhes aprouver,
ficando a escola subordinada a estes preceitos. O projeto de lei 86/2015,
conhecido como “Escola sem Partido”, objetiva incluir em toda a
educação a neutralidade política, ideológica e religiosa, acreditando que
professores tem utilizado a escola como contexto de supostas
manipulações político-ideológicas dos alunos. Assim, na cidade de
Mineiros-GO, o contexto educacional se depara com um projeto de lei
29/2018, que “institui no âmbito do sistema municipal de ensino, o
programa ‘Escola sem Partido’. O artigo 2º do respectivo projeto de lei
assevera que: “O poder público não se imiscuirá na orientação sexual dos
alunos nem permitirá qualquer prática capaz de comprometer o
desenvolvimento de sua personalidade em harmonia com a respectiva
identidade biológica de sexo, sendo vedada, especialmente, a aplicação dos
postulados da teoria ou ideologia de gênero”. Sendo assim, podemos
concluir que este projeto de lei visa banir temas como Gênero e
Sexualidade nas escolas, fato este preocupante quando observada a
necessidade em se trabalhar tais temáticas no âmbito educacional com
professores e alunos, visto que é uma questão que faz parte do cotidiano
da escola. Entender tais projetos de lei como procedentes é impedir que
um olhar crítico e reflexivo seja construído na escola, além disso, é
francamente divergir das ideias propostas por meio dos Parâmetros
Curriculares Nacionais (PCNs), que trazem o tema “Orientação Sexual”
como conteúdo transversal ao currículo. Isto é, afirma que gênero e
sexualidade são temáticas que devem ser trabalhadas de forma a afirmar a
liberdade, a responsabilidade e a autonomia dos sujeitos. Assim,
entendemos que não apenas na Educação Básica, mas que também no
Ensino Superior, tais questões devem ser garantidas nos currículos
universitários, especialmente nos cursos de Psicologia e Pedagogia. Essa
seria uma maneira de, na formação, capacitar acadêmicos dos cursos de
ciências humanas para compreenderem e trabalharem munidos com
63

reflexões que incluam este âmbito. Este trabalho, de revisão bibliográfica,


nasce das reflexões teóricas de um projeto de pesquisa intitulado “Entre
ditos, não ditos e interditos: reflexões sobre gênero e sexualidade na
pesquisa científica”, do curso de Psicologia do Centro Universitário de
Mineiros (UNIFIMES). Tem como aporte teórico-metodológico as
reflexões de Michel Foucault (1988) e Judith Butler (2003).

Queerizando o ensino de história: desafios e perspectivas do


combate à LGBTfobia através da educação

Bianca de Sousa Guimarães (Universidade de Brasília)

O presente resumo é uma breve apresentação de um artigo de revisão


bibliográfica que pretendeu abordar as discussões teóricas sobre as
relações possíveis, nos campos teóricos e práticos, entre a teoria queer e o
ensino de história. Tal artigo dialoga e é parte de um trabalho de conclusão
de curso em andamento, que compreende uma pesquisa-ação, em
realização em escolas da rede pública do Distrito Federal, que através da
facilitação de oficinas, aborda as histórias de mulheres lésbicas e
bissexuais. A teoria queer têm, em períodos recentes, se mostrado uma
importante e cada vez mais recorrente perspectiva de análise para as mais
diversas áreas de conhecimento e atuação. No ensino esta importância se
mostra ainda maior. O espaço escolar é, para além de um ambiente de
aprendizado conteudista, um espaço de reprodução, desde muito cedo,
dos diferentes marcadores sociais, como os de raça, classe, gênero e
sexualidade, e aonde são colocadas, de forma cruel e devastadora, as
discriminações a partir destas diferenciações. É partindo deste
entendimento que se fazem necessárias e urgentes as reflexões sobre
estratégias educacionais transformadoras para pensar os conteúdos, as
discussões, vivências e a prática docente em sala de aula. A história hoje
presente nos bancos escolares têm se mostrado insuficiente em dar conta
de questões fundamentais que estão diretamente ligadas as vivências das e
dos estudantes. As ausências de mulheres e pessoas LGBTs nos
conteúdos e livros didáticos, apesar de avanços, ainda persistem, e quando
aparecem, estão longe de representar as pluralidades de classes, etnias,
64

raça, religiões, gerações, sexualidades e identidades, sendo ou a


representação de um padrão, ou a exotização de tudo que foge a ele. A
história ensinada continua a ser masculina, heterrossexual e branca, sendo
todas as identidades fora estas, colocadas como ahistóricas e despossuidas
de voz. Estes debates serão, no artigo aqui apresentado, refletidos a partir
das contribuições fundamentais de autoras como Judith Butler, Michel
Foucault, Guacira Lopes Louro, Rogério Diniz Junqueira e outras. Diante
destas discussões, percebidas tanto nas bibliografias estudadas quanto nas
experiências práticas, vê-se como fundamentais os esforços em apresentar
uma perspectiva contra hegemônica de pensamento histórico, e também,
entendendo o ensino da disciplina enquanto campo de disputa político e
instrumento para a mudança de mentalidades através da memória, se dá a
importância de levar para a sala de aula uma história que se preocupe com
as mais diversas vozes silenciadas ao longo do tempo, enfrentando e
refletindo sobre os desafios de um contexto político em que se busca a
proibição das discussões de gênero e sexualidades nas escolas brasileiras.

Gênero e Sexualidade: reflexões acerca da produção


científica nas Ciências Humanas

Eric de Jesus Porto (UNIFIMES - Centro Universitário de Mineiros)


Tainá Regina de Paula (UNIFIMES - Centro Universitário de Mineiros)

O Brasil é um dos países com maiores índices de violência contra minorias


sexuais e mulheres, principalmente no que diz respeito a violação de
direitos referente às questões de gênero e sexualidade. Este cenário implica
na produção de sofrimento psíquico, o que torna importante que as
faculdades de Psicologia abordem tal temática, de forma a problematizar
e promover a construção de espaços que visem a pesquisa, discussão e
reflexão do tema. Sendo assim, o Projeto “Entre ditos, não ditos e
interditos: Reflexões sobre gênero e Sexualidade na pesquisa cientifica”,
desenvolvido no curso de Psicologia do Centro Universitário de Mineiros
– UNIFIMES, trata-se de uma pesquisa de cunho quantitativo e
qualitativo, tendo como estratégia metodológica a revisão bibliográfica,
com o objetivo de investigar como as temáticas de gênero e sexualidade
65

são abordadas na produção científica brasileira recente, mais


especificamente da Psicologia. Assim, inicialmente buscou estudar
algumas das principais referências neste âmbito, a partir das obras: A
história da sexualidade I, de Michael Foucault (1988); Gênero: uma
Categoria Útil de Análise Histórica, de Joan Scott (1995); e Problemas de
Gênero, de Judith Butler (2003). Num segundo momento, buscou mapear
as publicações científicas referentes às questões de gênero e sexualidade,
no campo das ciências humanas, desde 2000 a 2018. De acordo com o
CNPq, são consideradas ciências humanas: Filosofia, Sociologia,
Antropologia, Arqueologia, História, Geografia, Psicologia, Educação,
Ciência Política e Teologia. Assim, foi possível analisar qual campo de
saber possui maior expressão em termos de publicação, bem como quais
as principais ferramentas teórico-metodológicas utilizadas. Por fim, a
pesquisa está sendo direcionada à aprofundar na área da Psicologia, onde
serão estudados e analisados todas as pesquisas, especialmente as de
campo, que foram realizadas neste século. As pesquisas de campo
produzidas na Psicologia serão estudadas mais profundamente, por meio
da análise de conteúdo. Compreendemos que falar sobre gênero e
sexualidade nos cursos de graduação em ciências humanas torna-se
urgente, visto que tais questões atravessam o cotidiano de vida dos sujeitos
sócio históricos com os quais iremos trabalhar.

Gênero e Sexualidade: contribuições para atenuar as


diferenças na educação infantil

Luís Alberto Cabral Sales (Universidade Federal de Jataí)

Este trabalho é resultado parcial de uma pesquisa teórica que se propõe a


construir um estudo de embasamento sobre os processos de gênero e
diversidade na escola, e fundamenta as atividades de formação do projeto
de pesquisa ProLicen "Gênero e Diversidade na Escola: discutindo a
temática através do cinema". A fundamentação teórica está imbricada nas
contribuições de Auad (2006), Saffioti (2015), Lins et all (2016), Louro et
all (2003), Teixeira et all (2016). Este trabalho estuda diversas pesquisas
sobre a educação de meninas e meninos e as relações de gênero na escola,
66

e busca conceitos como de escola mista e coeducação. O objetivo é


conhecer experiências visando a ruptura com as tradicionais e
hierarquizadas relações de gênero, buscar perspectivas para uma política
que assegure a igualdade de gênero, e, o modo de gerenciar as relações de
gênero na escola visando a equidade democrática entre sujeitos. A
equidade entre os gêneros parte do pressuposto que a escola das séries
iniciais do ensino fundamental é um lugar onde ao mesmo tempo em que
se afirmam as diferenças, pode também eliminar as desigualdades. Faz-se
necessário compreender que a escola é também um espaço por excelência
de socialização e reflexão e que várias questões são naturalizadas e passam
despercebidas. Nela se produz e reproduz valores que nem sempre
contribuem para a formação da equidade entre os gêneros. Por muito
tempo, a educação no Brasil deixou de debater a questão do respeito à
diversidade. Ela, hoje, é parte dos temas centrais em discussão, no Brasil
e em outros países. Como consequência desses avanços nas discussões,
estamos observando um retrocesso no campo das reflexões sobre os
direitos sociais no Brasil. Grupos conservadores como parlamentares
ligadas às igrejas cristãs tem conseguido disseminar suas ideias de ataques
e destruição de qualquer discussão sobre gênero nas escolas,
especialmente através de aprovações de projetos de leis que proíbam essas
atividades em escolas públicas. A partir desse estudo, a pesquisa apresenta
experiências que articulam questões de gênero, raça e classe social na
educação de crianças e faz uma reflexão sobre a importância do(a)
professor(a) no processo formativo dos/as alunos/as. Faz-se necessário
que a escola tenha um Plano Político-Pedagógico que assegure a
promoção de valores voltados ao reconhecimento da diversidade sexual e
de gênero.

Do Invisível ao Legível: problematizações acerca da questão


de gênero no campo das Artes

Susane Ferreira gomes (Universidade Federal de Goiás)

Este artigo tem como objetivo problematizar a temática de gênero no


universo da arte, questionando o lugar do homem e da mulher na
visibilidade da produção e da gestão artística. Sabe-se que o universo
67

masculino sempre foi dominante no campo das artes, em detrimento das


mulheres artistas, que por séculos estiveram eclipsadas. O julgamento de
valor entre artistas masculinos e femininos e suas respectivas produções
foi historicamente construída a partir do olhar masculino, branco, europeu
e heteronormativo. Essa visão ditou regras sobre a valoração da arte
produzida por mulheres, estendendo seu valor ao valor social que sempre
foi subsumido pela tutela masculina. Nesse sentido, o espaço masculino
nas artes sempre foi considerado honroso e esperado, e o da mulher
sempre foi delimitado por ele. Pesquisas apontam para as condições
desiguais na produção artística, enfatizando também a diferença de
julgamento e valoração entre trabalhos masculinos e femininos. Embora
esta realidade esteja mudando nos últimos anos, ainda é possível observar
um fantasma a habitar esse tema. A ideia da pesquisa é estender a análise
sobre gênero ao ensino das artes, onde é possível observar que grande
parte das educadoras é de mulheres. À prática artística predomina o papel
masculino, à prática educativa predomina o papel feminino. Este estudo
evidencia que historicamente os papéis sociais sempre seguiram a regras
machistas e heteronormativas pautadas no patriarcado, onde homens
possuíam mais valores sociais e morais que as mulheres, reiterando a
supremacia masculina. Fruto de um construto cultural, as mulheres se
tornaram visíveis na ponta de um pincel. Sempre foram as retratadas na
arte e ainda hoje tem sua exposição reforçada pela mídia, que vende sua
imagem como um produto de consumo. A sexualidade retratada e a força
do discurso heteronormativo chegam à escola através dos livros didáticos,
e junto com ele o que historicamente foi construído em torno do lugar da
mulher no campo da arte. Na docência, dominado pelo sexo feminino, é
fundamental que se promova não só as problematizações em torno do
papel da arte na sociedade, mas a criticidade e consciência a respeito das
tensões gênero – que fazem parte do universo maior da inclusão e da
valoração da alteridade.
68

Queermuseu: inclusão e diversidade sob o olhar


contemprâneo

Manoel Messias Rodrigues Lopes (UFG)

O presente trabalho tem por objetivo analisar de forma subjetiva e crítica


a polêmica gerada pela exposição Queermuseu, promovida pelo banco
Santander em outubro de 2017. A relevância deste estudo é perceber o
que é velado, no contexto da mídia, sendo que para isso seria necessário
um distanciamento do que é posto como certo ou errado para que essa
compreensão se efetive. Para se formular essa crítica foi feito uma análise
com as manifestações contrárias à exposição, a partir do que revela o autor
Giorgio Agambem (2009) acerca dos dispositivos de coerção e do sujeito
contemporâneo. Com base nessa análise foi possível perceber nas
manifestações uma ação velada e coercitiva, as quais defendem interesses
de terceiros. O método utilizado foi a pesquisa bibliográfica qualitativa,
que possibilitou relacionar críticas atribuídas à exposição, tento como base
teórica a compreensão de subjetividade de Giorgio Agamben (2009).
Analisou-se ainda a formação do sujeito crítico e contemporâneo, tendo
por base os dispositivos de coerção usados para interferir nessa
subjetividade, e a forma como estes foram empregados nas manifestações
que resultaram no cancelamento da exposição. Houve também análise de
artigos e matérias acerca do tema e discursão, atentando-se para a
escuridão velada nestes, sendo que os mesmos, sobretudo, as matérias
foram propagadas pela mídia e seus veículos de divulgação. Os resultados
e discussões obtidos até o momento nos leva a uma reflexão acerca do
tabu arraigado na sociedade no que diz respeito à diversidade e educação
de gênero e importância de termos uma educação de gênero para que as
próximas gerações possam aprender a respeitar as diversidades. Não se
trata de uma guerra de posições tampouco de uma “ditadura LGBT”
como muitos a denominam, e sim de conhecimento e respeito, é preciso
formar uma sociedade conscientizada, para que as crianças possam
respeitar as diferenças, possam conviver e superar essa ideia errônea de
normalidade, gerada muitas vezes pela educação heteronormativa que
todos recebem. Conclui-se que o cancelamento da exposição, desvela o
grande problema que temos com o conservadorismo na sociedade, e quão
prejudicial ele é para uma formação contemporânea do indivíduo.
69

Contudo, a mensagem passada é que é preciso ocupar espaços – em pról


da educação de gênero, da diversidade e do respeito às diferenças – pois,
somente com essa perspectiva pode-se sair do anonimato e lutar por
direitos nesses espaços, sejam na arte, na cultura, na política, no trabalho
ou em tudo que diz respeito à sociedade e ao indivíduo.

Drag além do “queen”: Trajetórias e resistencia das drags


em Belem do Pará

Ana Paula Gomes Barbosa (Universidade do Estado do Pará - UEPa)

Embora atualmente a drag esteja tendo bastante visibilidade nos meios de


comunicação, através de reality shows e cantores, percebemos uma onda
de pessoas que encontram na montação uma forma de se expressar
artisticamente e politicamente. Além da reivindicação da sua existência
como LGBT em meio a sociedade heteronormatizadora. Portanto este
trabalho busca antes de tudo perceber a constituição de suas identidades
e territórios específicos no meio urbano e as estratégias de resistência deste
grupo frente a ações preconceituosas da sociedade em geral. E seu espaço
de sociabilidade, sendo este a Noite Suja, que além de uma festa que
ocorre em Belém do Pará é um coletivo de drags para drags que através
da promoção desses eventos, acabou tornando-se um local de
sociabilidade LGBT. Assim, o trabalho também, busca identificar esses
indivíduos, abordando quem são as drags e como são construídos esses
sujeitos que rompem com a ideia pré-definida que institui padrões de
gênero transitando entre o que é masculino e feminino, destacando o que
foi observado dentro desse coletivo a existência da proposta de drag além
do “queen”, afastando-se da ideia tradicional de drag que são sujeitos
glamorosos que remetem somente a luxo e glamour, mas demonstrando
a peculiaridade que ocorre na cena drag em Belém que discute a
performance de gênero além da feminilidade. Portanto, no decorrer desta
pesquisa, iremos observar através das vivencias de drags de idades,
motivações e construções diversas além de ter um “ser drag” contendo
suas particularidades e características regionais, sendo isso destacado
através de seus nomes e materiais utilizados para construir suas
“montações” iremos compreender mais profundamente quem são as drag
70

de Belém do Pará, seus espaços de sociabilidade e as significações disto


para os mesmos. A pesquisa se utiliza do método qualitativo no qual se
busca compreender determinados aspectos sociais, comportamentos,
ações de grupos ou de um indivíduo através de depoimentos e a memória
desses indivíduos coletados a partir de uma entrevista pré-definida, além
de entrevistas com organizadores da Noite Suja com intuito de
compreender a apropriação destes espaços frequentados por esses grupos.

Moda, modernidade, mulheres: leituras por Baudelaire

Felipe Marques Costa (UFJ)

Esta comunicação tem a intensão de discutir através da moda a busca das


mulheres por direitos e liberdade frente aos homens. A moda que tem seu
auge no século XIX ganha olhares de Charles Baudelaire, 1821-1866,
quando este que cunha o termo “modernidade” no ensaio O Pintor da
Vida Moderna publicado em 1863 no jornal parisiense Le Fígaro. O
comentário do poeta de Les fleurs du mal é feito em meio as suas
observações sobre o que seria a modernidade no momento em que busca
a experiência efêmera nas grandes cidades atentando-se sempre ao modo
de vida, costumes e modismo da época. Para ele o artista deve estar atento
aos trejeitos, à feição e o sentimento da multidão nas convulsas ruas das
metrópoles. A segunda metade do século XIX é uma época de mudanças
não somente no campo físico, mas de costumes e alterações no papel
feminino no pós Revolução Industrial. O desenvolvimento tecnológico
confere uma maior “liberdade” às mulheres que passam a frequentar o
espaço público e a consumir as novas invenções da fotografia, do cinema
e a se ofertarem como mão de obra às fabricas e ao comercio. Para
Baudelaire a moda é um esforço particular para alcançar a beleza e é nas
ruas, espaço social da aparência, que ela pode ser vista e notada em sua
plenitude. Ruas onde antes as mulheres não podiam circular por se tratar
de um espaço vulgar onde era crescente número de casas de prostituição.
Então proteger a mulher burguesa desse ambiente era o dever do homem,
às mulheres o que restava era apenas os fazeres da casa e o cuidado com
os filhos. A moda é vista por Baudelaire como o lugar que possibilita certa
liberdade ás mulheres, pois por meio, ou em busca, da vestimenta,
71

indumentária, maquilagem, elas conseguem minimamente sair às ruas.


Estes artifícios usados pelas mulheres para realçar a beleza são seus
artifícios na luta por mais liberdade e direitos frente ao mundo masculino.
Na moda a imagem da mulher parisiense é icônica, representando
feminilidade aliada a modernidade se Paris é a capital do século XIX,
capital da cultura e da moda, sua mulher parisiense seria o que melhor
representaria a modernidade e a beleza.
72

SESSÃO COORDENADA 3
A APRENDIZAGEM HISTÓRICA NA RELAÇÃO
DIALÓGICA ENTRE O SABER FAZER E O
PERTENCER

Coordenadores:
Rafael Reinaldo Freitas (Professor UNEMAT;
GPEDUH/UFMT/CNPq)
Rogério Luis Gabilan Sanches (Doutorando -
GPEDUH/UFMT/CNPq)

Esta sessão coordenada tem como objetivo proporcionar um espaço para


apresentação e diálogo de investigações, cuja problemática elabore
reflexões sobre o ensino de história, a aprendizagem histórica e outros
processos pertencentes a estes fenômenos. Exaltando as diferentes formas
de percepção e análise dos elementos constituintes do código disciplinar
da História, este Simpósio Temático agrega trabalhos, em conclusão ou
em finalização, sobre a formação docente; experiências investigativas em
âmbito de programas de formação continuada ou de iniciação à docência;
diferentes linguagens e a dimensão estética da história; história e
historiografia do ensino de história; o ensino de história entre a teoria da
história e a Educação; usos e abusos da história no conflito entre o
currículo, políticas públicas e historiografia; cultura histórica, escolar e
jovem na formação histórica. Aqui, retrataremos a abordagem de novas
perspectivas no âmbito do Ensino de História que também se faz urgente
se levarmos em consideração as mudanças cada vez mais rápidas e
frequentes no modo se entender e de se ensinar História em Sala de Aula,
principalmente em um mundo dinâmico e digital. Neste contexto,
propomos estabelecer um diálogo entre as partes (docente e discente) que
redundaria sobretudo em uma maior compreensão do tema apresentado
aos alunos. Aqui, não buscamos apenas tornar os processos de
aprendizagem mais atraente, visamos proporcionar aos alunos sentidos
históricos, conjugando não só o conhecimento técnico do professor, ou
teórico-metodológico, mas sim, dialogando cada vez mais com as
73

experiências empíricas e saberes e vivências de cada indivíduo em seu


respectivo âmbito e contexto.

A Questão indígena nas aulas de história: perspectivas de


ensino sobre a diversidade cultural dos povos indígenas do
Brasil

Tássita de Assis Moreira (Universidade Federal de Uberlândia)

O presente trabalho tem como objetivo apresentar as perspectivas e


experiências do graduando, a partir da observação das aulas e demais
espaços escolares, da análise de materiais didáticos e do convívio com os
professores e os educandos, bem como todo o desenvolvimento da
regência nas aulas de história sobre povos indígenas, na Escola Municipal
Machado de Assis (EMMA), localizada no município de Ituiutaba, MG,
Brasil. Inicialmente, para estabelecer relações entre os debates acadêmicos
e as práticas docentes a partir das discussões feitas por meio das disciplinas
de Estágio Curricular Supervisionado I e II do Curso de História de
Faculdade de Ciências Integradas do Pontal, Campus de Extensão da
Universidade Federal de Uberlândia (FACIP/UFU), realizou-se uma
reflexão acerca do contato entre professor e aluno, entre aluno e escola, e
entre a escola e a comunidade, baseando-se nas vertentes de estudo
relacionadas ao multiculturalismo, a pluralidade cultural e ao ensino de
história indígena. Um dos propósitos principais foi a busca por uma
desconstrução de estereótipos negativos direcionados aos povos
indígenas, possibilitada pela abordagem de epistemologias alternativas
durante as aulas, como também uma mudança nos referenciais de análise
sobre a temática, procurando minimizar os impactos da visão
eurocêntrica, ressaltando a existência de outros olhares e outras culturas.
Levando em conta as observações do conteúdo reproduzido nas aulas da
disciplina de História, ministrada nas seis salas de 9º ano do Ensino
Fundamental Regular, no primeiro semestre do ano de 2017, foram
elencados como pressupostos metodológicos o desenvolvimento de uma
sequência didática de três aulas consecutivas, elaborada no segundo
semestre. Durante a construção desta sequência didática foram
74

selecionados como fonte um filme, uma música e dentro da música, alguns


nomes de grupos étnicos, além do envolvimento de atividades de autoria
própria. Dito isto, analisando os resultados das atividades, foi possível
perceber que o desenvolvimento do material foi realizado de forma
diferente em cada uma das turmas, contribuindo para um entendimento
mais amplo sobre o uso do multiculturalismo para pensar o ensino sobre
a diversidade cultural dos povos indígenas do Brasil, dentro da sala de aula.

O tema “revolução” nos livros didáticos de História

Frederico Costa Alves (UFG)

O presente artigo traz resultados de uma pesquisa em andamento sobre


como é trabalhado as revoluções no livro didático. Os objetivos da
pesquisa são: Olhar de forma crítica sobre o recurso didático mais
utilizado pelos professores em sala de aula; Compreender a importância
do livro didático para o ensino, sua função social, levando em conta suas
características de produto e mercado; Perceber os impactos do seu uso no
ensino de história e suas diferentes formas de abordagem de um mesmo
tema. É conhecido que o ensino de História tem mudado muito aos
longos dos anos, e novos temas são tratados na disciplina, bem como
novos documentos e fontes. Partindo dessa premissa, buscarei mais
referencias que abordem o tema para que possa seguir com as etapas da
pesquisa. Num segundo momento, irei pesquisar quais são os livros
didáticos utilizados em diferentes escolas de Catalão. A proposta inicial
intenciona analisar os livros de 2 escolas de metodologias de ensino
diferentes: os livros adotados por uma escola privada laica e uma escola
privada religiosa. Essa seleção e análise será fundamental para a pesquisa
para estabelecer o material que será analisado. Atualmente, é o Programa
Nacional do Livro Didático – PNLD – que faz essa distribuição, além das
análises dos livros, desempenhando grande importância na educação
brasileira. Portanto, todas as escolas são amparadas pelo PNLD, para fazer
suas escolhas do livro que será adotado. Assim, entender o histórico do
livro didático, os critérios para sua elaboração, seleção, circulação,
distribuição é fundamental ao estudo. Por fim, partirei para a análise do
conceito revolução e as formas como é apresentado nos diferentes livros.
75

Conforme as autoras Maria Auxiliadora Schmidt e Marlene Cainelli. Os


autores em suma apresentam de forma crítica a linha quase única que se
trabalha a história nos livros didáticos, que se justifica pela manutenção da
hegemonia burguesa, onde as revoluções são muito superficialmente
trabalhadas. Nos livros didáticos POLIEDRO e UNO será pesquisado
como as revoluções são abordadas, partindo dos pressupostos dos autores
citados. Os resultados apontam que nessas obras o tema é abordado de
forma superficial, e as diferentes linhas de pensamento histórico, como o
Marxisismo, são trabalhados de forma que um aluno de ensino médio não
consegue compreender facilmente, limitando essa compreensão apenas da
revolução Francesa e Industrial, mães do capitalismo moderno. A
importância de se pesquisar o livro didático deve-se ao fato de que o
mesmo compõe grande parte da aula e das tarefas de casa, e muitos
professores o utilizam como base de trabalho para suas aulas.

Imagens e representações dos povos pré-colombianos nos


livros didáticos de história: ensino fundamental II

Andre Luis Machado de Oliveira (Universidade Federal de Mato Grosso


do Sul)

O presente estudo visa o levantamento e análise das Coleções Didáticas


da disciplina de História no Ensino Fundamental II, especificamente do
7º. Ano e que tem assegurado à distribuição gratuita na rede pública de
ensino pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Serão
analisados os PNLD das coleções, “Saber e Fazer História” utilizado de
2008 a 2010, “História, Sociedade e Cidadania” utilizado de 2011 a 2013,
“Saber e Fazer História” utilizado de 2014 a 2016 e a coleção “Historiar”
que está em utilização desde 2017 até 2019. A introdução trará de maneira
sucinta o esclarecimento de quem faz e a forma como é feita a escolha
dessas coleções didáticas. Logo após, será realizado um estudo dessas
coleções quanto a organização dos conteúdos propostos para o
ensinamento da temática dos povos précolombianos e a maneira que estão
dispostos, verificando se contemplam o conteúdo desejado para o
conhecimento dessas civilizações, bem como sua cultura e crenças, seus
costumes, a maneira como se deram os descobrimentos e suas formas de
76

colonização. Ressalta-se que haverá a análise dos acervos de imagens e a


forma em que estão postos nas coleções, observando a clareza dos
comentários dos autores e as possibilidades de enriquecimento dos
conteúdos propostos no capítulo. Para o desenvolvimento da análise
dessas coleções didáticas serão utilizadas contribuições de autores como
Alain Choppin, Circe Bittencourt, Ana Paula Squinelo e outros, sendo que
o estudo dessas obras auxiliará na avaliação dos conteúdos determinando
se estas coleções cumprem com os objetivos propostos nos Parâmetros
Curriculares Nacionais (PCN) e estão de acordo com a historiografia e
estudos propostos no século XXI. De acordo com Godoy (1995) a análise
e estudo de documentos, define está pesquisa como qualitativa, por
amostragem. A revisão bibliográfica a ser utilizada para esta pesquisa
contempla os seguintes autores, André Luiz Paulilo; Ciro Flamarion
Cardoso; Ernesta Zamboni; Leslie Bethell; Maria Ligia Prado; Sonia
Regina Miranda; Tania Regina de Luca e outros. A pesquisa encontra-se
em estágio inicial e sua primeira fase situa-se em levantamento e
construção de projeto da pesquisa.

Ensino de história e recursos tecnológicos: uma análise de


aplicação

Vitor Marthur Santos da Silva (UniCEUB)

Vivemos na sociedade da informação e conhecimento, e atualmente é


inevitável o contato com a tecnologia em geral, mas aplicá-la ao ensino de
História pode ser uma tarefa difícil, pouco proveitosa, ou as vezes confusa
para o professor. As possibilidades geradas pelas tecnologias não podem
ser descartadas pelo profissional professor de História, pois elas nos
possibilitam um leque de novos recursos a fim de chamar a atenção de
nossos alunos, frente aos extensos currículos atuais. Considerando a
imensa importância da disciplina para a formação de cidadãos, e as
necessidades da sociedade da informação e conhecimento, a pesquisa
busca analisa em escolas públicas do Distrito Federal, como os
professores de História tem lidado com as tecnologias, e como ou se elas
tiveram eficiência no ensino em sala de aula e quais recursos são
disponibilizados aos profissionais. A utilização desses recursos
77

tecnológicos pode influenciar de forma positiva no processo de ensino-


aprendizagem, além de ser imprescindível para o enriquecimento dos
conhecimentos, coletivização em sala de aula e no estímulo da relação
entre professor e aluno. Além de discutir uma melhor aplicação das
tecnologias já utilizadas em sala de aula, a presente pesquisa busca
apresentar novas possibilidades de aplicação das ferramentas existentes, e
também propor a utilização de novos materiais. Sabemos que o ensino de
história não pode ser tratado como uma simples exposição de conteúdos
datas, referencias soltas. Nós devemos trabalhar história a partir de
problematização, reflexão, pois toda narrativa é carregada de significados.
Esse é um ponto importante para o professor de História, ao trabalhar os
significados para dar sentido ao conteúdo, e dialogar com o presente ao
tema que é trabalhado em sala de aula. Alguns questionamentos, deverão
ser apurados: Como o professor de História tem lidado com os recursos
tecnológicos? Quais os problemas enfrentados? Como tornar o estudante
mais interessado por meio de novas dinâmicas? Existem outras
ferramentas além das que já conhecemos? Como elas podem ser
utilizadas? Qual o verdadeiro impacto da utilização desses materiais? A
tecnologia pode proporcionar uma experiência de construção histórica, e
contribuir a aprendizagem de História? Como resultado da análise, busca-
se um diagnóstico aos possíveis problemas apurados durante a pesquisa,
e, por conseguinte, propor formas de aplicação das tecnologias no ensino
de História, a fim de servir como material para a utilização de outros
profissionais professores de História.

As dificuldades do professor na educação massificada

Lucas Gonçalves Vilela (Universidade Estadual de Goiás)

O presente artigo tem como objetivo mostrar as dificuldades encontradas


pelos professores no sistema de educação institucionalizada. São muitas
as dificuldades encontradas pelos professores no sistema educacional
brasileiro, a começar pela sala de aula. Como aplicar normas
simplificadoras e uniformizadoras a uma realidade complexa? Nas escolas,
a realidade encontrada pelo professor não é a mesma em que se realiza a
sua formação na universidade, onde ele, teoricamente, deveria ser
78

preparado para enfrentar as adversidades encontradas no exercício da


profissão. Num primeiro momento, neste trabalho, são levantadas e
discutidas as dificuldades encontradas nesse modelo de educação, tais
como: pouco investimento, a falta de participação de familiares ou
responsáveis pelos alunos no sistema de educação e a falta de interesse e
motivação por parte dos alunos.

Os Mártires de Marrocos: Relíquias e Milagres

Bruna Emanuelly Albuquerque Silva (UFG- Regional Jataí)

Este texto tem por finalidade discorrer acerca da vida dos santos Mártires
de Marrocos, através do relato hagiográfico. Mas antes de mais nada
entendermos qual a importância dos relatos hagiográficos para a pesquisa
sobre relíquias e milagres que é trazido como proposta. O relato
hagiográfico busca enaltecer a vida e a morte dos santos e aproximar os
devotos da vida do mesmo. A hagiografia aqui analisada por exemplo
apresenta a vida exemplar desde o princípio da chamada dos protomártires
para a missão evangelística até o martírio, de modo a aproximar os leitores
da santidade vivenciada por eles. “Nesse sentido, a composição do texto
hagiográfico corresponde a uma narrativa devidamente planificada e
ordenada, com o objetivo de elevar a mente do crente para as
imaterialidades metafisicas ou divinas”. (GOMES,2004, P.30) Sendo
assim a hagiografia é uma biografia dos santos e não tem finalidade de ser
como um livro canônico onde se busca a sabedoria para as práticas diárias
mas sim um escrito onde os devotos possam se deliciar com uma de
simples forma de literatura e não alimentar-se da mesma, pois ela não tem
função pedagógica mas exemplar ou seja demonstrar a através da vida dos
santos manifestações divinas ainda permanecem. A hagiografia se faz
importante para a historiografia pois traz relatos importantes para a
reconstrução deste passado e nos apresenta a maneira como ela fora
construído. Em muitos casos são as hagiografias que servem como
principal fonte, e merece sua devida valorização apesar de suas fronteiras
tem um valor imensurável no campo da pesquisa medieval, pois assim
como escreve GOMES trata-se de: Um texto de fronteiras aparentemente
conhecidas, e talvez por isso desvalorizado pela historiografia mais oficial
79

que olha com suspeição para a aparente pequenez de tais pedras do


edifício historiográfico, mas que se torna necessário recolocar nas suas
fronteiras reais, que são as do desconhecido, do que ainda ignoramos e
que necessitamos de conhecer mais.(GOMES,2004,P.31) Assim como no
caso desta pesquisa específica que tem como fonte principal uma
hagiografia, e é de suma importância para o desenrolar de todo processo,
que busca consequentemente discorrer acerca da veneração das relíquias
dos Santos Mártires de Marrocos durantes o século XIII e XIV. Os seis
frades (inicialmente) enviados por São Francisco para pregarem a respeito
de Jesus Cristo na África do Norte encontraram em seu caminho grande
sofrimento para cumprirem seu propósito.

Da imaginação a criação: o que vem depois do fim?

Gabriela Sanchez Benevides (Universidade Federal de Goiás)

O presente estudo apresenta uma experiência com a literatura infantil


desenvolvida na Escola Municipal Leopoldo Nonato de Oliveira, na
cidade de Jataí-GO, com os alunos dos anos iniciais do ensino
fundamental. Essa experiência é uma das ações do Programa Institucional
de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid), subprojeto do Curso de
Pedagogia da Universidade Federal de Goiás – Regional Jataí (UFG –
CAJ), desenvolvida no âmbito da biblioteca da escola. O subprojeto tem
como objetivo trabalhar com letramento literário a fim de estimular as
crianças a apreciarem e desenvolverem o gosto pela leitura. Para a
realização desta ação de letramento literário, os discentes bolsistas
realizaram a leitura do livro: “Ella Bella Bailarina em O lago dos Cisnes”,
do autor James Mayhew. Como uma estratégia de trabalho solicitaram que
as crianças que ao final que continuassem essa história, imaginado o que
poderia ter acontecido depois do fim da história, ou seja, imaginar uma
continuação para a história. O trabalho com a contação e leitura de
histórias é importante para que as crianças interajam com diferentes tipos
de gêneros textuais desde os anos iniciais, além de proporcionar um
vocabulário mais amplo e estimulo a escrita, além de, desenvolverem
sensações/emoções, a usarem a criatividade, a expressarem opiniões e
80

ideias etc. Essa ação foi realizada em diferentes etapas: leitura da obra
‘‘Ella Bella, Bailarina em O lago dos Cisnes” (James Mayhew), em seguida,
a atividade de escrita realizada em grupos na biblioteca junto aos bolsistas
que auxiliaram na escrita e, por fim, como resultado realizamos a criação
e exposição de uma varal literário no pátio da escola com as produções
dos grupos em que contribuiu para aproximação dos alunos através das
criações e atiçaram a curiosidade dos mesmos. Percebemos que as ações
de letramento literário quando aliadas as estratégias de leitura
desenvolvidas pelo subprojeto Pibid do Curso de Pedagogia na escola
parceira permitem que as crianças interajam de forma mais significativa
com as obras literárias, contribuindo para a formação de leitores sensíveis,
críticos, curiosos e criativos. Palavras-Chave: Letramento Literário.
Literatura Infantil. Estratégias de Leitura. Programa Institucional de Bolsa
de Iniciação a Docência (Pibid).

Da Leitura de Imagem a compreensão crítica do sujeito no


ensino das Aartes Visuais

Lucilene Deltrudes Moreira (Universidade Federal do Tocantins (UFT))

Nossa contemporaneidade é marcada pela profusão da imagem, mas


sabemos que a comunicação visual se faz presente na vida humana desde
os mais remotos tempos. A imagem já era utilizada com intenção de
comunicar uma ideia, ou até mesmo uma história. Nos dias atuais, o fluxo
de imagens é incontestavelmente maior, estas permeiam grande parte de
nossas experiências. Nesse sentido, requer de nós um olhar mais atento
sobre a diversidade e pluralidade visual, além de discernimento sobre a
presença da imagem em experiências culturais, sociais, políticas, históricas
e subjetivas. A nossa atualidade é fortemente marcada pelas visualidades.
Nos deparamos com a presença da imagem em toda a parte, provocando
os mais diversos sentidos, desde o que desejamos e consumimos até na
forma como nos relacionamos e comunicamos. A abrangência do "ver"
se amplia diante de tantas possiblidades de conectar, vivenciar, perceber e
convergir com as imagens. Partindo deste pressuposto, de acordo com
Ana Mae Barbosa (1995) a escola deve promover uma abordagem crítica
81

diante desse arsenal imagético possibilitando um maior discernimento aos


alunos para lidar de forma mais consciente com as visualidades que
diariamente consomem. Contribuindo, assim, para a percepção crítica de
imagens produzidas por diferentes meios e com distintas finalidades que
povoam nossos cotidianos. Segundo Fernando Hernández (2007, p. 22)
os estudos da Cultura Visual “orienta a reflexão e as práticas relacionadas
as maneiras de ver e de visualizar as representações culturais e, em
particular, refiro-me às maneiras subjetivas e intrasubjetivas de ver o
mundo e a si mesmo”. Sendo assim “as imagens são formas de produção
de sentido e devem ser compreendidas como processos sociais onde os
significados devem ser tomados como construção cultural” (KNAUSS,
2006, p. 100). Posto isso, é possível perceber que a imagem é um fator
essencial no desenvolvimento de processos de ensino/aprendizagem.
Assim, é necessário refletir sobre as imagens, instigando a necessidade de
questionar e duvidar sobre aquilo que se vê, ampliando possibilidades
significativas. Uma perspectiva crítica sobre as imagens contribui para
uma aprendizagem mais significativa. Propomos discorrer sobre
processos de leitura e compreensão crítica da imagem buscando reflexões
sobre a relevância da perspectiva crítica para a educação.

Saberes do artesanato do campo: como cultura material,


oralidade e história de si

Edivaldo Barbosa de Almeida Filho (Universidade Federal do Tocantins)

Nosso campo de investigação objetiva-se no estudo de saberes do homem


do campo na sociedade contemporânea, mais precisamento na área rural
do Município de Taguatinga no estado do Tocantins. Para tanto,
apresentaremos como o artesanato é compreendido como parte da cultura
material dos camponeses do interior do estado do Tocantins, onde esses
sujeitos apropriam-se de matérias primas extraídas da natureza encontrada
nessas localidades. Acreditamos que o artesanato tem – além de ser um
importante ponto de referência da cultura local – a possibilidade de
fortalecer o comércio e subsidiar a renda familiar das populações rurais,
assim como, pode ser apropriado pelo professor nas aulas de história. Nos
últimos anos, a atividade do artesanato vem paulatinamente se degradando
82

por falta de mão de obra devido ao desinteresse dos mais jovens pelo
artesanato tradicional. Como fonte de pesquisa, usaremos como referência
metodológica a história Oral, pois ela é um importante caminho para dar
voz as pessoas consideradas “sem história”. Para que possamos ouvir as
experiências desses sujeitos, optamos pelo caminho da trajetória de vida e
utilizá-las nas aulas de história. Para os limites desse trabalho,
entrevistamos o senhor Miguel Chaves Almeida, o qual é um importante
artesão que reside no povoado de Altamira. Esse povoado locali-ase à 35
quilometros do município de Taguatinga, região sudeste do Estado do
Tocantins. Esse artesão utiliza “braço” do buriti – árvore típica do cerrado
–, na qual o estipe da palha quando seco se usa no “centro” do material
para fabricação de objetos que representam o meio rural como, por
exemplo, o carro de boi, pilão, engenho de pau etc. Lembrando que essa
pesquisa ainda está em desenvolvimetno, acreditamos que nossa
abordagem da trajetória de vida do artesão pertencente a comunidade rural
pode ser de grande valia para o registro das “histórias de si”, da cultura
material do homem do campo e para o ensino de Histórial local. Nesse
sentido, a apropriação desse conhecimento nas aulas de História visa
proporcionar aos alunos o desenvolviemtno dos sentidos históricos que
dialoga com as experiências empíricas e saberes e vivências de cada
indivíduo em seu respectivo âmbito e contexto.

A roça de toco kalunga: conhecimentos etnoecológico,


técnicas e saberes

Dominga Natália Moreira dos Santos Rosa (Universidade Federal do


Tocantins)

A comunidade quilombola Engenho II, localizada no município de


Cavalcante – GO, integra o Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga,
um dos maiores quilombos em extensão do país. Seu território é
composto por diferentes fitofisionomias do Cerrado, elemento
fundamental para a sobrevivência das populações dessa região. O modo
de produção agrícola do povo kalunga revela técnicas e saberes que fazem
parte da trajetória ou história de vida das gerações antepassadas, mas que,
83

numa perspectiva sincrônica, ainda permanecem vivos por meio da


oralidade e do próprio registro escrito das novas gerações que passaram a
ter acesso à escola/educação formal. Nesse sentido, esses sujeitos têm
buscado muito mais do que seu sustento material, oriundo do trabalho na
terra, mas em processo de luta pela garantia de seus direitos e melhores
condições de vida em seu território. Cumpre ressaltar que o
reconhecimento e a valorização dos saberes dos povos tradicionais
evidenciam a necessidade de novas metodologias, estudos e pesquisas que
estejam, de alguma forma, associados às atividades transdisciplinares e
mais participativas, assim como protagonizadas pelos próprios sujeitos
históricos desse processo: indígenas, camponeses e, para fins deste
trabalho, os quilombolas. Diante disso, este estudo busca investigar se a
“roça de toco”, uma das práticas de produção agrícola empregada pela
comunidade quilombola Engenho II, permanece presente no cotidiano
das gerações atuais (mais jovens) e qual a visão desses sujeitos a respeito
dos saberes que envolvem tal técnica. A metodologia utilizada na pesquisa
é de base qualitativa, apoiada, sobretudo, na etnografia (observação,
registro, geração e análise dos dados a partir da vivência em campo). Como
resultado, temos o registro das práticas vivenciadas pelos jovens kalunga,
assim como o relato de experiência da própria pesquisadora, graduanda
do Curso de Licenciatura em Educação do Campo da Universidade
Federal do Tocantins/Campus Arraias, quilombola e membro da
comunidade em pauta. O trabalho fundamenta-se nos pressupostos da
Educação do Campo (ARROYO, 2012; CALDART, 2012, entre outros),
vista aqui como área do saber que tem possibilitado o reconhecimento e
a ampliação do olhar para as práticas sociais dos povos do campo, como
sujeitos responsáveis pela sua própria trajetória, mesmo diante do
permanente cenário de esquecimento que as comunidades tradicionais
vivenciam no âmbito do contexto político-econômico brasileiro.
84

Cornélio Pires e a música caipira: possibilidades para o


ensino de história

Rosilene Ribeiro dos Santos Barboza (UFT)

Nessa pesquisa consideraremos que a música faz parte do dia-a-dia das


comunidades, se manifestando de diferentes maneiras, em ritos, festas e
nas mais diversas celebrações. Assim, é evidente que em todas as esferas
de nossa sociedade a música tem um papel primordial como forma de
lazer e na socialização das pessoas, pois ela cria e reforça laços sociais e
vínculos afetivos. Além disso, a música exerce uma relevante influência na
formação cultural das pessoas, por meio do repasse de ideias, informações
e conceitos, servindo para o aprimoramento do aprendizado. Tendo em
vista a importância da música para a sociedade este trabalho tem como
propósito abordar o gênero musical caipira ou a música sertaneja de raiz
no período compreendido entre 1929 a 1960, examinando a história e
letras da música caipira, procurando encontrar a origem e a influência
ligada ao modo de vida no campo que as músicas caipira relatam. Silva
(2010) destaca que podemos entender a música caipira como “expressão
musical” do homem do campo. Para os limites desse trabalho lançaremos
mão da produçaõ literári a e Musical de Cornélio Pires (1884-1958). A
partir do estudo da trajetória de vida dessa personalidade pretendemos
apresentar um paralelo com o ensino de História do Brasil do início do
século XX, isto é, discutiresmo o contraste entre o meio rural e a
urbanização ocorrida nesse contexto. Sabendo da variedade de música
desse compositor, escolhemos analisar a música “Jorginho do sertão”,
pois ela busca construir um estereótipo do homem do campo. Podemos
identificar na letra a necessidade de expressão, seja ela de alegria, tristeza
ou qualquer outro sentimento. Essa concepção na abordagem da música
como produto cultural servirá para que possamos discutir sua apropriação
no ensino de determinados conteúdos da disciplina de História na
Educação Básica. Nossa proposta insere-se nos debates referentes sobre
as novas perspectivas no âmbito do Ensino de História, as quais se fazem
urgente se levarmos em consideração as mudanças cada vez mais rápidas
e frequentes no modo se entender e de se ensinar História em Sala de
Aula. Neste contexto, propomos estabelecer um diálogo interdisciplinar
85

entre a música e o ensino de História, relaçaõ esta que pode possibilitar


uma maior compreensão dos temas apresentados aos alunos.

Falando de gênero e diversidade nas aulas de história

Pedro Henrique Gouveia Arantes (UFG - Campus Catalão)

As discussões de gênero e sexualidade tem sofrido com perseguições em


todo o mundo, no Brasil especialmente pelo movimento “escola sem
partido”, que tem como prioridade proibir o debate de tais assuntos em
sala de aula, conseguindo inclusive, retirar a palavra gênero do Plano
Nacional de Educação - PNE. O Brasil é o quinto país com a maior taxa
de feminicídios do mundo, uma estatística que reafirma as altíssimas taxas
de desigualdades de gênero. As escolas ainda fazem um papel socializador
que emprega estereótipos de gênero que prejudicam a educação pois foca
na sexualidade e não na capacidade do indivíduo. Tendo isso em vista, a
proposta da presente pesquisa é a de produzir um material didático sobre
a História das mulheres no Brasil, especificamente na primeira república e
com isso dar ênfase à importância das mulheres pro nosso país,
levantando as discussões sobre gênero, sexualidade e quebrando
estereótipos impostos sobre as mulheres, trabalhando com mulheres de
todas as camadas sociais. Também é proposta do material tentar garantir
um futuro com maior igualdade entre os gêneros e mais respeito. A
metodologia ainda está em processo de definição, mas vai depender da
série/ano com a qual estivermos trabalhando. Acreditamos que a escola,
a educação e principalmente a matéria de história tem um peso muito
grande na visão política e social das crianças e esperamos com esse
material, formar cidadãos mais ativos e livres de preconceitos e
estereótipos de gênero; a presente pesquisa busca apresentar os resultados
parciais do projeto Falando de gênero e diversidade nas aulas de História:
produção de material de ensino para o ensino escolar da História. Esta
pesquisa, desenvolvida junto ao Laboratório de Pesquisa Gênero,
Etnicidade e Diversidade – LaGED//INHCS/UFG/RC, é um
subprojeto da pesquisa intitulada O Ensino de História: da pesquisa na
graduação a atuação na sala de aula, e conta com financiamento do
Programa Licenciatura – PROLICEN-IC/UFG. O objetivo geral da
86

pesquisa é a produção de material didático voltado para educação básica


utilizando os temas gênero e sexualidade, no intuito que o material
produzido possa estimular o debate e o ensino dos temas gênero,
sexualidade e história das mulheres em sala de aula. Contribuindo, assim,
para uma educação menos sexista com mais igualdade e com menos
estereótipos de gênero.

Guia didático: aprendendo sobre cultura e identidade


indígena

Joshua Almeida Chimiti (UFG/ Jataí)

Ao analisarmos os currículos escolares, percebemos que a temática


indígena está presente nas discussões que ocorrem no ambiente escolar
desde os anos iniciais da educação básica. No entanto, se olharmos com
mais atenção, veremos que as abordagens pecam em vários aspectos,
principalmente em relação à diversidade dos povos indígenas,
perpetuando uma visão estereotipada dos nativos brasileiros. Tem se
observado que na maioria dos manuais didáticos, por exemplo, as
populações indígenas continuam sendo mencionadas no passado, como
sendo aquelas que estavam aqui quando os portugueses chegaram:
moravam em ocas, utilizavam arco e flecha para caçar e pescar e que
usavam cocar e pintavam o corpo para dançar. Tais referências conduzem
a interpretações equivocadas sobre as populações indígenas que lutam por
seus direitos numa sociedade injusta e preconceituosa que é a sociedade
capitalista. O desconhecimento sobre a diversidade cultural indígena é um
indício de que, faz-se necessário no âmbito educacional, proporcionar
debates que possam assegurar a esses povos serem respeitados na
diferença e enquanto coletividades. Nesse contexto e que se insere o guia
didático em questão. Nele procuramos apresentar aos professores e alunos
os principais debates em torno de conceitos como cultura, identidade,
etnia, fronteiras étnicas, território, para então compreender as lutas,
resistências, conquistas, mudanças e permanências com as quais os povos
indígenas se viram envolvidos, durante esses longos anos de contatos com
a sociedade civil e o Estado brasileiro. Utilizamo-nos das contribuições da
Nova História Indígena cujo principal objetivo consiste em: “conhecer as
87

ações e interpretações de sujeitos e povos indígenas, diante de realidades


diversas, ao longo da história do Brasil” (Wittmann, 2015, p. 14),
propostas por Cunha (1987), Monteiro (1994), Celestino de Almeida
(2010), Silva (2015), Gruppioni (2009), Rocha (2012), entre outros. Nessa
versão do guia didático priorizamos problematizar algumas músicas que
costumam ser trabalhadas em sala de aula, principalmente no dia 19 de
abril, e que muitas vezes, reforçam os estereótipos sobre a história e a
presença indígena no Brasil.

Projeto Nagô – formação de professores para o trabalho com


as questões de gênero e sexualidade

Maria Carolina de Carvalho Schenkel (UniFimes)


Polyana Lopes Rinaldi (Centro Universitário de Mineiros - Unifimes)

Este trabalho tem por objetivo apresentar o Projeto Nagô Formação de


professores para o trabalho com as questões de gênero e sexualidade, que
ocorre no Centro Universitário de Mineiros. O Nagô, iniciativa já em
execução, é um projeto de extensão que visa a formação continuada de
professores para o trabalho com temas transversais e que estão à margem
das discussões, sobretudo daquelas do “currículo oficial-tradicional”. O
projeto tem uma característica marcante em sua composição que é a de
fomentar debates sobre as questões ligadas aos Direitos Humanos e a
formação cidadã, ética e moral, fator elucidado não somente para
professores já em atuação, mas também daqueles em processo. Em
relação à metodologia utilizada no Projeto Nagô, destacamos que o
mesmo é composto por uma abordagem dialógica em que os
conhecimentos construídos serão norteados principalmente com base no
compartilhamento dos saberes adquiridos por meio das leituras indicadas
para cada encontro. Destacamos ainda que os momentos de aprendizagem
são desenvolvidos em 12 encontros anuais, com 02 horas de duração cada.
Os encontros acontecem uma vez por mês, com exceção dos meses de
junho e novembro, os quais contarão com dois encontros cada. Para os
encontros, são indicados textos norteadores, os quais têm sempre um
coordenador (bolsista, coordenador ou vice coordenador do projeto) e um
facilitador (membro do projeto) encarregados de conduzir a discussão. Os
88

encontros sempre são divididos em 4 momentos: a) Café e conversas –


Momento introdutório de cada encontro. Nele serão discutidas questões
que os partícipes viram durante o mês e que têm ligação com a proposta
temática do grupo; b) Aprender na dialogicidade – Momento de discussão
dos textos propostos; palestras ou aulas expositivo-dialogadas sobre a
temática do dia; c) Práticas Pedagógicas – Momento prático de cada
encontro. Será realizado por meio de atividade manual, vídeos ou demais
instrumentos que possam ser usados como forma de conscientização, ou
de reverberação do tema tratado; d) (In) Conclusões do dia – Momento
de encerramento; indicação de leituras; encaminhamentos para o próximo
encontro, confraternizações. Espera-se com esta edição do projeto,
colaborar para uma formação humanizada de professores,
proporcionando não somente momentos de reflexão, mas também de
possibilidades de intervenção em suas práticas pedagógicas, bem como da
redução de preconceitos por falta de informação.

Reflexões sobre gênero e sexualidade na escola durante o


estágio supervisionado

Gabriella Santos da Silva (Universidade Federal de Mato Grosso - CUR)

A escola como possibilitadora de culturas tem a responsabilidade de


problematizar os diversos tipos de cultura, gênero e seus papéis, vivências
corporais, raças e sexualidades. A instituição escolar como um todo,
(gestão, docentes, arquitetura e espaços) devem estar preparados para
receber indivíduos carregados de diversidades e significâncias, pois no
momento em que nos silenciamos diante das injustiças e preconceitos do
outro, estamos apoiando o lado do agressor. É necessário regar os
indivíduos em seus significados e diversidades e não transformá-los em
indivíduos homogêneos. Com isso, a história enquanto disciplina e o
professor de história, são sujeitos de grandes papéis sociais e de reflexão
e quebra de preconceitos. A história pode ser abordada em sala de aula
carregada de culturas e diversidades, abrindo o leque de possibilidades
para que o estudante queira buscar mais conhecimento e se sinta livre para
ser, falar, andar e viver da forma que escolher.
89

A folia de reis no contexto da identidade cultural do homem


do campo no municipio de Monte Alegre de Goiás

Gleis Steliane Fernandes Da Silva (UFT - UNIVERSIDADE


FEDERAL DO TOCANTINS)
Sérgio André Ribeiro Ricardo (UFT - Universidade Federal Do
Tocantins)

A presente pesquisa apresenta a história da Folia de Reis na cidade de


Monte Alegre de Goiás, foi construída através de relatos orais de pessoas
envolvidas nesse movimento religioso cultural. Santo Antônio do Morro
do Chapéu, hoje Monte Alegre de Goiás, é uma cidade como muitas das
outras de Goiás, em se tratando da história de fundação, na qual se
fundamentou a partir do garimpo de ouro, tendo 1.800 escravos
aproximadamente trabalhando em suas minas. Sendo uma das festas mais
importantes da cultura popular religiosa da cidade, tornando-se um
instrumento para o resgate e consolidação da memória, identidade cultural
e a reconstrução e valorização do sujeito do campo. Segundo HALL
(2006, p.7) “[...] as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram
o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e
fragmentando o indivíduo moderno [...]”, manter viva essa tradição se
torna extremamente relevante para se manter a identidade cultural do
município em questão. Na Folia de Reis, grupos organizados de pessoas
saem pelas ruas da cidade, visitando as casas e tocando músicas populares
e entoando cânticos religiosos em homenagem aos reis magos e ao
nascimento de Jesus. Essas músicas são tocadas com instrumentos típicos
e tradicionais de acordo com as tradições do evento religioso, são eles::
viola/violão, sanfona, zabumba, pandeiro, caixa e rabeca que é o
instrumento mais valorizado pelos festeiros. Assim a pesquisa também
busca catalogar como e onde esses instrumentos tradicionais são
construídos. O senhor Ernesto P. Ramos que e o propulsor da festa na
região diz que: “ A tradição de organizar a folia todos os anos está em
minha família a quase um século, vem passando de geração em geração”,
a princípio o organizador da festa era o seu pai, o Sr. Marcimino P. Ramos,
que começou a organizar os giros da folia na fazenda Novo Horizonte
sendo também um agradecimento por uma graça recebida, ele relata que
no período que seu pai era vivo, a folia se movimentava apenas nas
90

fazendas circunvizinhas. Assim é importante salientar que a história oral é


uma fonte de propagação de conhecimento e cultura na prática de
preservação da identidade cultural de determinadas localidades, a pesquisa
se torna relevante pois mantém observações acerca da própria experiência
cultural da localidade.

Diálogos sobre a morte: perspectiva social e cultural

Tiago Gonçalves Pinheiro (UEG/Itapuranga)

O presente estudo trata de uma breve fala sobre a morte e seus diversos
enigmas que permeiam a sociedade no oriente e no ocidente. Observa-
se que em todas as épocas a sociedade em si, tenta camuflar a morte como
se esta ocorresse de modo extremamente natural, quando o que se sabe é
que embora seja algo tão natural é também um processo complexo. O
estudo parte portanto, da revisão de literatura, na qual buscou-se a partir
da vertente teórica tratada por Durkheim(2000) compreender a relação
entre a morte e suas várias concepções. Torne algo bem complexo, se
olharmos para a morte como algo natural podemos ver que a sociedade
passa dar outros culpados para a morte e não a naturalidade como e no
seu real cerne. O que mas permeia na sociedade e a frieza e a enigmática
que existe atrás da morte, o não conhecimento do homem no real sentido
sobre o assunto. Como podemos observar a morte anda lado a lado com
a existência humana, mas não devemos pensar a morte apenas no a seres
humanos mas devemos observar que tudo tem uma finalidade seja animais
seja a humanidade seja construções, tudo tem uma finalidade e é uma
morte. Mas aqui vamos tratar apenas da morte na sociedade e nos seres
humanos. De certa forma a morte e o homem anda lado a lado na estrada
da vida e em alguma momento esses caminhos se cruzam daí acontece o
fim para o homem. É interessante parar para observar a morte pois ela
está em todos os lugares em que podemos observar, mas mesmo assim os
homens tem um grande medo em relação a à ela, quando digo que ela está
em todos os lugares e como por exemplo. Ela está presente em todos os
lugares que podemos observar mesmo que por muitas vezes passa por
despercebida pela sociedade. A morte tornou tão comum na sociedade
pois está presente em tudo que fazemos e não observamos, se ligamos
91

uma TV para assistir um jornal, se vemos um filme, se lemos um livro de


romance ou de guerra, até mesmo nos desenhos animados a morte está la
enraizada na sociedade, todos a veem mas muito poucas das pessoas
param para pensar realmente no que se trata a morte. A morte pode ser
vista de vários pontos de vistas, tem as perspectivas cristãs e a várias outras
q veem a morte de várias formas, para os cristãos a morte e é apenas o
começo de uma vida eterna, mas já existem outras culturas onde a morte
e o ponto final da vida onde não existe mas nada além dela. Umas das
grandes perguntas da humanidade, de onde viemos e para onde vamos
após a morte, será que existe outra vida além dessa terrena ou a morte é
apenas como uma luz que se apaga e nunca mas poderá ser ascendida?
Essas são perguntas que a humanidade até o presente momento não achou
a resposta.

Lei Maria da Penha e a realidade feminina: perspectivas e


reflexões

Nataly Caroline Lemos Oliveira (UEG)

O estudo do tema “A eficácia da Lei nº 11:340: Maria da Penha e sua


Aplicabilidade” faz-se necessário devido aos atos de violência incitados no
ambiente familiar e a importância de se coibir tais atitudes através do
conhecimento dos direitos e deveres de todo cidadão. Diante de tantos
atos de violência e impunidade, criou-se a Lei Maria da Penha 11.340/06,
lei esta que surgiu de ato de violência e impunidade. Leis contra a violência
já existiam, no entanto, a Lei Maria da Penha conta com alguns diferenciais
que fizeram com que ela ficasse conhecida em todo o país e temida por
muitos, chegando assim a alcançar seu objetivo em várias regiões, diminuir
a violência e a criminalidade reforçando que ela é uma forte aliada diante
de tantos atos de injustiças sofrido pelas mulheres. Para o estudo
pretendido, foi pesquisado as conquistas e lutas femininas, amparadas por
pessoas que viam na criação de uma Lei efetiva de proteção a mulher uma
forma de minimizar os impactos causados pela violência feminina. A
aprovação da Lei Maria da Penha pretendia (pretende) garantir as
mulheres a dignidade que muitas perderam, a fim de não se reverenciarem
diante das exigências dos parceiros, nem de patrões ou qualquer outra
92

pessoa que veja na opressão e discriminação medidas para a submissão do


outro.

A perspectiva do olhar infantil sobre o autorretrato

Adrielle Martins de Lima (Universidade Federal de Goiás)


Camila Silva Cabral (Universidade Federal de Goiás)

O artigo tem como objetivo apresentar uma atividade realizada com os


alunos do Ensino Fundamental I de uma escola municipal de Jataí-GO.
Esta atividade teve como intuito desenvolver a criatividade dos alunos e
aguçar a curiosidade dos mesmos para com os artistas que retratam a partir
de suas obras imagens de si mesmos ou a forma como se veem,
identificam. Como resultado, os alunos desenvolveram seus próprios
autorretratos. Segundo Perez (2010) autorretratar-se é um ato referente à
imagem do artista produzido por ele mesmo. Em grande parte dos
autorretratos concentra-se a aparência física do autor, por esse motivo o
autorretrato pode ser um espelho real. Conforme os Parâmetros
Curriculares Nacionais (BRASIL, 1997) o ensino nas séries inicias deve
seguir a conteúdos relativos a valores, normas e atitudes e realizar
produções artísticas de forma que consiga expressar um
pensamento/ideia e sentimentos. Aspectos Metodológicos O
desenvolvimento do trabalho se deu no âmbito da biblioteca da escola, a
atividade se desenvolveu a partir de etapas. A primeira etapa deu-se através
da criação dos nossos próprios autorretratos e a exposição dos mesmos,
em seguida realizamos a apresentação de artistas que fizeram autorretratos
e apresentamos suas as obras e biografias, além da demonstração das
obras, quais foram: o “Autorretrato” de Tarsila do Amaral, “Autorretrato”
de Van Gogh e “Autorretrato com macacos” de Frida Khalo. Após a
explanação dos artistas preparamos para que os alunos criassem seus
próprios autorretratos. A princípio tiramos fotos dos alunos para que eles
pudessem ter um paralelo com suas criações e posteriormente para a
exposição do trabalho, juntamos as fotos aos autorretratos para que
analisassem e refletissem sobre seus trabalhos e a forma com que se
identificam, essas criações foram expostas no mural da escola. O mural
foi visitado por toda a escola e aproveitamos para desenvolver uma
93

conversa na qual os alunos puderam compartilhar suas opiniões acerca da


atividade. Considerações Finais A atividade com o autorretrato contribuiu
para que as crianças compreendessem que o autorretrato é uma expressão
artística tanto da aparência física quanto psicológica da pessoa. Nosso
objetivo foi desenvolver uma literatura diferente com os alunos saindo do
livro literário para a apreciação de obras tornando a atividade prazerosa.
94

SESSÃO COORDENADA 4
ENSINO DE HISTÓRIA E CULTURA AFRO-
BRASILEIRA E AFRICANA

Coordenadoras:
Clarissa Adjuto Ulhoa (Secretaria Municipal de Educação de Goiânia e
da Secretaria Estadual de Educação e Esporte de Goiás)
Eliesse dos Santos Teixeira Scarama (UFG)

Dentre as mais importantes conquistas alcançadas por meio da histórica


luta dos movimentos negros brasileiros, certamente se encontra a
implementação da Lei 10639/2003, que tornou indispensável o ensino da
história e da cultura afro-brasileira e africana nas escolas de ensino básico
de todo o país, tendo atuado no sentido de mudar a Lei 9394/1996,
responsável pelo estabelecimento das bases do ensino brasileiro. Nessa
oportunidade, além do acréscimo de novos artigos à mencionada lei,
também se deram mudanças no calendário destinado às escolas, as quais
passaram a incluir o Dia Nacional da Consciência Negra. Já no ano
subsequente, foram publicadas as Diretrizes Curriculares Nacionais para
a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e
Cultura Afro-Brasileira e Africana. Desse marco em diante, o número de
pesquisas relacionadas a essa temática passou por um crescimento
constante, ao que se somou o fortalecimento de debates até então pouco
conhecidos, tanto pelos acadêmicos, quanto pela sociedade como um
todo. É fundamental, portanto, que se consolide, no âmbito do Ensino
Superior, o campo de pesquisa em Ensino de História e Cultura Afro-
brasileira e Africana no Brasil. Por esse motivo, o presente simpósio
espera poder abrir espaço para reflexões que se debrucem sobre aspectos
teórico-metodológicos relativos ao ensino destas temáticas.
95

O diabo e sua figura nas religiões Afrodescendente para a


sociedade brasileira contenporânea

Jessé Vanderlê da Rocha (UFG)

Esse trabalho destina-se apresentar aos efeitos da demonização dos cultos


afrodescentes no Brasil contemporâneo. Tendo em vista o surgimento e
aclopamento da figura do "Diabo" dentro da religião de matrix africana.
Visa buscar a origem do preconceito e a intolerância religiosa dentro da
sociedade ocupada pela moral judaicacristã. Será analisado e ilustrado
dentro de dados e matérias de jornais (eletrônicos e impressos), internet e
documentos históricos, a realidade da "negritude do Diabo afrodescente".
Esse que fora posto por religiões de origens Ocidental brancas desde que
os evangelistas ou missionários vindos da Europa e da América do Norte
trouxeram consigo maneiras de marginalizar as religiões existente no
Brasil. Dentre essas marginalidas a figura do negro escravo e sua relação
com a religião dos seus antepassados ficara ainda mais dificil de se praticar
ou se professar. A imagem dos dono de escravos ou senhores desses,
reafirmava sua autoridade diante de Deus (religião Cristã) obedecendo e
seguindo as ordens divina, ou seja, a garantia da ordem divina, fazendo
junção da relação do senhor com seu escravo refletia na sua relação com
o Senhor Deus cristão. Essa ambiguidade que surgira para reafirmar que
a obediência as liturgias e crenças cristãs no Brasil Contemporâneo estava
diretamente ligado ao cunho religioso na origem do Estado Brasileiro no
que se tratava da exploração de escravos trazido da África e a postura de
Portugal em assimilar o controle das regras sociais e políticas de suas
origens ao que se tratava em modelo de se imaginar o "católico barroco"
na forma de criar a ética e a estrutura estética peculiar do camdomblé
naturalmente originários do Estado bahia e outros Estados brasileiros que
professavam a crença nas divindades oriundas dos antepassados trazidos
da África para a colonia Portuguesa no Atlantico Sul. Os conflitos sociais
gerados puseram, ou forçaram, esses grupos a se a recriar dando origem
ao modelo de cultos Católicos, seguindo ritos esbranquiçados como se
deu, daí por diante a seguir realização na data católica do sábdo de Aleluia.
Entretanto, seus cultos, cujas atividades, se referindo ao camdomblé,
segue a posição cristã, ao não funcionamento de seus trabalhos durante a
quaresma. Ficando assim explicitado a necessidade da mudança liturgica
96

de seu calendário (camdomblé) para a mudança cristã(católica). As


religiões de origem africana passaram por várias reformas na tentativa de
fugirem de perseguições e linchamentos morais e sociais, tratando-se de
dados que denotam as variadas ocorrências nos terreiros de matrix afro da
atualidade brasileira, vê-se com frequencia nos noticiarios de jornais,
terreiros de Camdomblés, Umbamda e Kimbanda sofrerem depredações
e invasões por odiosos alegando serem coisas do diabo.

Influência do livro didático na caracterização do estereotipo


da cultura afro-brasileira

Elias Bastos Barros (Universidade Estadual de Santa Cruz)


Franciane Nunes dos Santos (Universidade Estadual de Santa Cruz)

A seguinte pesquisa se encontra em fase inicial e tem por objetivo


investigar como é aplicado o ensino de História da cultura afro-brasileira
e africana no ensino básico da rede pública. Dessa forma, pretende-se
entender como esses elementos culturais são apresentados nos manuais
didáticos e se a maneira como são retratados influenciam na construção
de uma memória que reforça estereótipos e carrega um perfil
preconceituoso. A pesquisa divide-se em duas etapas: um primeiro
momento dedicado à análise de livros didáticos e posteriormente, a coleta
de dados através de entrevistas com professores da cidade de Itabuna.
Tomando como base a Lei nº 10.639/2003, que altera a Lei nº 9.394/1996,
e estabelece as Diretrizes e Bases da educação, que afirma no artigo de
número 26-A a obrigatoriedade do ensino da história e cultura dos povos
afrodescendentes nas escolas, pretende-se analisar os livros didáticos
adotados no período de 2006 a 2011 por se tratar das primeiras edições de
manuais didáticos publicados após o sancionamento da lei, e decorrente
disso, a inserção desses conteúdos de maneira efetiva na ementa escolar e
sua sistematização no livro. Nossa intenção é, por meio deste
levantamento, identificar qual o espaço é destinado a tal conteúdo e sua
disposição diante dos demais inseridos no cronograma programático. Para
além dessa análise dos manuais, pretende-se realizar uma pesquisa com
fontes orais, mediante entrevista com os professores, pois a prática
97

docente pode ser realizada com outros recursos que perpassam as


limitações dos livros didáticos, além de revelarem a realidade social da
região inserida. Partindo do pressuposto de que o ensino de História se
torna alienante quando ministrado através de uma perspectiva linear,
marcada por datas comemorativas e por eufemismos, entendemos que a
relação de ensino-aprendizagem assim produzida retira dos estudantes a
colaboração ativa no processo histórico como agentes de mudança. A falta
de percepção histórica impede a luta contra o racismo, quando a
população não se reconhece na História, perpetuando os mitos de origem.
Daí a importância de verificar nos livros didáticos e na prática escolar em
que medida eles reiteram essa postura acrítica.

"Negro Drama": Percepções sobre o processo de Abolição


e Pós- Abolição na atual sociedade

Francielly Pereira Menezes (UFJ - JATAÍ)


Lucss Rodrigues do Carmo (UFJ - JATAÍ)

A proposta de comunicação intenta socializar a experiência de realização


de intervenção escolar intitulada: NEM SEMPRE FOI DITO QUE O
PRETO NÃO TEM VEZ: EMANCIPAÇÃO NEGRA EM DEBATE,
desenvolvida no Colégio Estadual Serafim de Carvalho, com os alunos do
1º e 2º anos EJA – Educação de Jovens e Adultos, sendo a atividade
desenvolvida no âmbito da disciplina Estágio Supervisionado III. Para a
construção da intervenção, fizemos uso da Lei 10639/2003, que
estabelece a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-
Brasileira, e a música, como uma forma de linguagem alternativa para
construção do conhecimento histórico. Inicialmente realizamos uma
abordagem histórica relacionada à data 13 de maio, marco da abolição da
escravidão no Brasil, e todo o contexto de escravidão, abolição e pós-
abolição. Após traçar um panorama sobre a trajetória social da população
negra brasileira, propusemos um exercício de relação passado-presente
com os alunos, instigando-os a perceber como todo esse processo reflete
de alguma maneira em sua realidade social. Levantamos uma reflexão
sobre o que os alunos entendem sobre o processo de abolição da
98

escravidão, os encaminhamentos políticos da questão, e como a


população negra foi inserida no contexto social: direito a educação, saúde,
moradia, trabalho remunerado, direito de ser cidadão. Questionamos
também, a relação desse processo com o racismo impregnado em nossa
sociedade, o mito da democracia racial e o papel dos movimentos negros
na luta por direitos. Pontualmente, analisamos o rap Negro Drama (2002)
do grupo Racionais Mc’s, problematizando os versos que produzem
representações do processo de emancipação negra no Brasil, a
marginalização da população negra e suas continuidades na atual
sociedade. Tendo em vista o público-alvo, alunos do ensino noturno,
construímos a atividade estabelecendo uma relação passado presente a
partir do rap, intentando conscientizar os alunos em relação aos seus
papeis de sujeitos históricos. Assim, podemos observar o ponto de vista
dos alunos e as afirmações realizadas por alguns sobre cotas raciais nas
universidades públicas e a “vitimização” dos negros. Com isso, nos
despertou questionamentos acerca de como esses assuntos relevantes
chegam a esses alunos, a forma que eles são passados e a problematização
feitas por eles. Portanto é de suma importância pensarmos que a sociedade
em si, ainda possuí visões distorcidas sobre o racismo e as políticas
públicas voltadas para a população negra em nosso país.

“Era preciso autorizar o texto da própria vida”: uma análise


das possibilidades de (re)escrita da história e das
representações de mulheres negras através do rap feminino,
episteme de resistência

Daniela Oliveira da Silva (Universidade de Brasília)

O presente trabalho nasce das leituras e vivências obtidas na disciplina


Pensamento Negro Contemporâneo, ofertada pelo Decanato de Extensão
da Universidade de Brasília (UnB). Realizada com os professores doutores
Richard Santos e Maria do Carmo Rebouças, que hoje atuam na
Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), dessa disciplina surgiu um
artigo escrito pelas alunas Daniela Oliveira da Silva e Mariana Paiva
Soares. Gostaríamos de comunicar na Sessão Coordenada
99

especificamente as partes do artigo que tratamos das possibilidades de


(re)escrita da história e das representações de mulheres negras através do
rap feminino, episteme de resistência. Nossa análise pautou-se na leitura
das letras de Rap advindas de grupos e rappers do Sudeste - como Tássia
Reis e o Grupo Rimas e Melodias, do qual ela é participante - e do Distrito
Federal, como o Grupo Atitude Feminina. Aliado a isso, houve o estudo
de bibliografia acadêmica feminina e negra. Moradoras de periferia e
sujeitas à violência, executada tanto pelas mãos de agentes do Estado
como por mãos de outros sujeitos masculinos, além da realidade de
desigualdade econômica e social que impera nesses locais e na condição
feminina no geral, as mulheres negras também se utilizam do rap como
instrumento de registro intelectual de suas existências e de seu
conhecimento. O rap feminino é uma produção intelectual que reflete
sobre o presente daquelas que o escrevem, registra o que está sendo
vivenciado por estas e propõe utopias para o futuro. Além disso, também
se encarrega de refletir sobre o passado das mulheres negras como grupo,
almejando tanto entender os dias atuais, assim como buscar nos tempos
pregressos inspiração e histórias de resistência dos corpos femininos
negros. Propõe-se aqui então que o rap feminino é um dos instrumentos
contra-hegemônicos de escrita da História da mulher negra no Brasil. Ao
escrever e cantar seus versos, as mulheres negras têm a possibilidade de se
utilizar de seu contexto específico para gerar uma expressão diferenciada
de temas sobre os quais a historiografia tradicional já dissertou
exaustivamente e sempre o realizou perpetuando uma narrativa de
subalternização dos africanos e afrodescendentes (COLLINS, 2016). O
rap feminino vem para elaborar uma nova versão da História da mulher
negra, longe dos gabinetes acadêmicos, mas que registra os
acontecimentos de seu próprio tempo, questionando epistemes
tradicionais que apagam a agência de sujeitos históricos subalternizados.
Essas mulheres elaboram sua própria narrativa através do rap. O rap
feminino apresenta-se, portanto, como uma forma de narrar
acontecimentos históricos, de agir politicamente nas realidades das
mulheres negras e de criar alternativas estratégicas de sobrevivência e
utopias de futuro.
100

Alforria nos Livros de Notas de Jataí 1872-1888

Lucas Rodrigues do Carmo (Universidade Federal de Jataí)

A partir dos anos 1980 há uma revisão historiográfica, alicerçada em


diferentes paradigmas da história, sobretudo guiada à luz da História
Social e dos estudos de E. P. Thompson que fez surgir uma nova
abordagem para o estudo da escravidão negra no Brasil, principalmente a
relação entre senhores e escravizados. Tal perspectiva trabalha com a
chamada experiência escrava, buscando trazer ao palco o escravizado
como sujeito histórico que “através de suas práticas cotidianas, costumes,
lutas, resistências, acomodações e solidariedades, de seus modos de ver,
viver, pensar e agir construiu, junto com os senhores, isso que no final das
contas, chamamos de “escravidão”, de “escravismo”” (LARA, 1995, p.46
– 47; CASTRO, 1997, p.58). Para construção da pesquisa, partimos da
premissa que considera a alforria como uma conquista do escravizado, e
não apenas como um ato de benevolência do senhor (SANT’ANNA,
2005, p.151). Durante os anos de trabalho e convivência, o cativo poderia
forjar comportamentos com a intenção de despertar no senhor algum
apreço. Não foram incomuns registros de liberdade que mencionavam o
bom comportamento do escravizado, os bons serviços prestados, a
dedicação e amor a que serviu ao senhor e sua família, entre outras
descrições que o qualificavam positivamente e indicavam a construção de
alguma afetividade ou reconhecimento dos serviços prestados. Esse tipo
de ação por parte do cativo é lida por nós como estratégias, que poderiam
influenciar o senhor na decisão de alforriá-lo ou não. Embora a
historiografia reconheça, atualmente, a ação dos escravizados na luta pela
alforria, no contexto da escravidão ela deveria ser compreendida como
uma expressão da vontade senhorial. A proposta de comunicação tem por
objetivo analisar as cartas de liberdade registradas nos livros de notas do
Cartório de Notas 1º Ofício de Jataí no período de 1872 – ano de abertura
do Cartório a 1888 – ano da abolição da escravidão. Intentamos traçar o
perfil dos libertos, destacando sexo, idade e procedência, elucidando
ainda, as questões concernentes a relação entre senhores e escravizados,
percebendo estratégias políticas de ambos na negociação da liberdade, e
as formas de alforria registradas: condicional, sem ônus ou comprada pelo
101

escravizado. Intenta-se com isso, perceber a dinâmica da escravidão em


Jataí, dialogando com a historiografia produzida sobre o tema em Goiás e
nas outras regiões do país. Destacamos ainda, o desejo de tirar o passado
escravista de Jataí da invisibilidade, construindo uma história que ressalte
a presença e participação da população negra na construção de Jataí.
Destaco ainda, a pesquisa como a caminhada de um negro em busca de
suas raízes, que não necessariamente perpassam os laços consanguíneos,
mas que teceram indiretamente uma irmandade.

Um estudo acerca do resgate das origens do Congo

Tatiana de Freitas (Universidade Estadual de Goiás)

Neste trabalho busca-se realizar uma análise acerca do ponto de partida


das origens do Congo, tomando o mapa geográfico do antigo Reino do
Congo observamos, logo, que Nsûndi fica no Norte, Mbâmba no sul e
Mpêmba no Centro. Por esta via, digamos que Nsûndi tem outras
equivalências, nas quais Mpânzu e Mpûmbu interviram também, e
Mbâmba muda-se com Kyângala é possível afirmar que o mundo do
Congo não parece começar na Mbâmba, mas sim no sul. Analisamos
também o fator da linguagem segundo as suas raízes e a origem dos nomes
próprios relacionados a ascendência e a atração do passado ancestral sobre
a “memória selvagem”, segundo Le Goff , ...“No Congo depois do clã ter
imposto ao recém-nascido um primeiro nome dito "de nascença", dá-lhe
um segundo, mas oficial, que suplanta o primeiro. Este segundo nome
"perpetua a memória de um antepassado ancestral — cujo nome é assim
"desenterrado" — escolhido em função da veneração de que é objeto”...
Nas sociedades sem escrita, a memória coletiva parece ordenar-se em
torno de três grandes interesses; a idade coletiva do grupo, que se funda
em certos mitos, mais precisamente nos mitos de origem e no prestígio
das famílias dominantes, que se exprime pelas genealogias; e o saber
técnico, que se transmite por fórmulas práticas fortemente ligadas à magia
religiosa. A memória coletiva tornou-se importante na luta das forças
sociais pelo poder pois, tornar-se senhor da memória e do esquecimento
é uma das grandes preocupações das classes e dos grupos, buscamos nesse
sentido fazer um resgate da memória social que é fundamental para
102

abordar o problema do tempo e da história. Para fundamentar


teoricamente esta pesquisa recorreu-se a Jacques Le Goff (1996), História
e Memória; Patricio Batsikama (2012), Origens do Reino do Kongo -
Consoante a Bibliografia e a Tradição Oral. Do ponto de vista
metodológico, trata-se de uma pesquisa teórica realizada a partir das fontes
bibliográficas, documentais e eletrônicas por meio de uma abordagem
multidisciplinar abrangendo os aspectos históricos fundamentais. Entre
os resultados, espera-se elucidar a importância das raízes históricas do
Reino do Congo.

A representação feminina no movimento cultural da


congada: uma perspectiva por relatos orais

Francielle Correia Rodrigues Silva (Universidade Federal de Uberlândia)


Marilia Alves Ferreira de Resende (Universidade Federal de Uberlandia)

A presente pesquisa objetivou-se na busca pela compreensão do papel e


da representação da mulher dentro do movimento da congada. O objeto
de pesquisa foi o relato oral da congadeira e matriarca do terno Libertação
da cidade de Ituiutaba em Minas Gerais. Buscamos principalmente
compreender como a mulher é vista pelo movimento cultural da congada,
para além da congada como essa mulher se insere na sociedade, tendo
como obstáculos a questão de gênero, sua negritude e ainda sua religião,
observando além das problemáticas, suas especificidades e como uma
mulher de tamanha representação percebe e encaminha essas discussões
para dentro da congada, sobretudo para outras mulheres. A congada
embora seja uma das maiores representação culturais de Ituiutaba,
percorre um processo de aceitação e rompimento com o preconceito, que
vem principalmente pelas suas origens africanas. Entender e analisar como
uma mulher, e compreendemos aqui o posicionamento social, onde essa
mulher já é inicialmente subjulgada por sua condição de gênero na
sociedade, criou e coordena um terno de congo, vem no sentido de
romper com um paradigma que é socialmente imposto as mulheres,
partindo da ideia de que a mulher está diretamente ligada a atividades
digamos “domésticas” inicialmente na sociedade e que mantém esse
padrão para dentro da congada, como os cuidados e o preparo dos
103

alimentos, das roupas, estandartes, faixas, embora essas mesmas mulheres


não sejam responsáveis pelos cuidados dos instrumentos, que é uma
função de responsabilidade dos homens, bem como a execução, que seria
o “ato de tocar” esses instrumentos nos encontros e festividades da
congada. Tocar esses instrumentos e liderar o grupo nas apresentações e
encontros, como uma capitã, são funções de grande importância dentro
do movimento da congada, pois representa o comando e a base principal
do movimento, que é a percussão. Esses são cargos que infelizmente não
vemos preenchidos por muitas mulheres, apenas algumas rompem com
essas imposições tidas como “naturais” dentro da congada e na sociedade.
A proposta dessa análise é reconhecer, entender e dar visibilidade a essas
mulheres, bem como o processo histórico de luta e resistência delas, tendo
como base a história de vida e luta da matriarca entrevistada.

Imposições dos espaços de isolamento (hospitais colônias)


e sua interferência na (re)construção das relações afetivas e
na desconstrução da maternidade de mulheres enfermas

Maraísa Aparecida de Lima (Universidade Estadual de Goiás)

O presente texto é uma análise bibliográfica referente ao cotidiano das


mulheres portadoras de hanseníase em território asilar, mais precisamente
no Hospital Colônia Santa Marta, localizado em Goiânia-Goiás, com
ênfase na reformulação e ressignificação de suas relações afetivas e sua
percepção a respeito de maternidade após adentrar neste local e conceber
seus filhos ali, porque esta lhe seria negada, não lhe sendo possível exercer
esta função. Sendo o principal questionamento levantado neste projeto
como seria a formação e estruturação das relações entre as mulheres e os
outros habitantes do hospital Colônia, como estas se configuravam na
prática, se eram sempre amistosas ou não, para tanto trabalhou-se com o
imaginário da época e com a perda ou ausência do direito a feminilidade
e maternidade. O problema levantado neste primeiro capítulo é: De que
maneira a maternidade se apresentava às mulheres em situação asilar? Para
responder a tais indagações é necessário compreender o próprio ambiente
de isolamento, o imaginário dos habitantes dali, a forma de organização e
distribuição de funções, etc. É o que se convém chamar de estudo do
104

cotidiano. O estudo do cotidiano leva à compreensão de tempo/processo


histórico, remontando a construção da própria sociedade. Mas quando a
questão em pauta é a formação de relações pessoais e interpessoais entre
indivíduos que vivem em situação de isolamento a tarefa torna-se um
pouco mais complicada, pois estes acabam por formar uma nova
sociedade, com suas próprias regras e leis, porém diferentes ao mundo
exterior. Como fontes são utilizadas as revistas e jornais da época
publicadas pelo estado de Goiás. Além do uso de fontes bibliográficas em
paralelo a literatura já produzida a respeito do tema. Os autores principais
são Erving Goffman (2004) que retrata o estigma imposto pela sociedade
as pessoas que possuem alguma especificidade diferente daquelas que são
consideradas “normais”; Michel de Foucault (1987) a respeito das
instituições de isolamento, distribuição de espaços e funções e também
das formas de punição e manipulação dos indivíduos em situação de
inferioridade; Michel de Certeau (1996) que fundamenta a pesquisa a
respeito do cotidiano, abordando as práticas que fazem parte de qualquer
sociedade, como namorar, cozinhar e trabalhar. O estudo a respeito deste
tema se mostra relevante devido à ausência de produções acadêmicas mais
fundamentadas a respeito do tema maternidade e enfermidade, além de
proporcionar uma desconstrução do preconceito e estereótipo com
relação as práticas afetivas dos enfermos que se encontravam em situação
de isolamento.

Mulher, Dominação e Violência

Douglas Soares Freitas (UFG)


Stefane Barros da Costa (UFG)

Tratar do tema “Política, feminismo e performance de gênero”, é uma


tarefa que se apresenta ao mesmo tempo difícil e urgente em razão de que
a violência de gênero que se expressa contra a mulher em virtude do
patriarcado. [...] o patriarcado é um pacto masculino para garantir a
opressão das mulheres. As relações hierárquicas entre homem capacitam
a categoria constituída por homens a estabelecer e a manter o controle
sobre as mulheres. (Hartmann 1979, apud. Saffioti, 2011, p. 104). Essa
pesquisa vem sendo desenvolvida dentre outros temas pelos membros do
105

projeto de extensão “Direitos humanos, educação, cidadania e inclusão”


desenvolvido na Faculdade de Educação (UFG/REJ), com objetivo de
ampliar as discussões sobre inclusão e abranger a gama de todos os grupos
que são afetados pela negação de direitos sociais. De acordo com a
Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH): [...] Considerando
que, na Carta, os povos das Nações Unidas proclamam, de novo, a sua fé
nos direitos fundamentais do Homem, na dignidade e no valor da pessoa
humana, na igualdade de direitos dos homens e das mulheres e se declaram
resolvidos a favorecer o progresso social e a instaurar melhores condições
de vida dentro de uma liberdade mais ampla; (DUDH, 1948, p.1) Embora
a DUDH tenha determinado a igualdade há mais de seis décadas o
pensamento patriarcal predomina, a submissão da mulher permanece e a
violência contra ela se amplia. De acordo com Saffioti (2011, p. 27) “As
regras sociais são passíveis de transgressão e são efetivamente violadas”.
Por essa razão os direitos humanos vem sendo postergados, cabendo a
sociedade, empreender diversas frentes de luta para materializá-los. Se esse
trabalho de esclarecimento/educação não for feito continuará a imperar o
que Bourdieu (2012) pontuou como habitus isto é [..] apenas uma
existência relacional, cada um dos dois gêneros é produto do trabalho de
construção diacrítica, ao mesmo tempo teórica e prática[..],o que significa
dizer que a sociedade como um todo julga que [...] é necessário à sua
produção como corpo socialmente diferenciado do gênero oposto (sob
todos os pontos de vista culturalmente pertinentes), isto é, como habitus
viril, e portanto não feminino, ou feminino, e portanto não masculino. (p.
34) Dessa forma discutir sexo, gênero, sexualidade entre outros e ponderar
que a masculinidade são práticas sociais que engloba vários aspectos como
a economia o estado além da família a cultura a educação e a socialização,
para Bourdieu tais questões se encontram [...] Inscrita nas coisas, a ordem
masculina se inscreve também nos corpos através de injunções tácitas,
implícitas nas rotinas da divisão do trabalho ou dos rituais coletivos ou
privados[...](p. 34).
106

SESSÃO COORDENADA 05
HISTÓRIA E CULTURA ESCRITA

Coordenadores:
Thales Biguinatti Carias (Doutorando PPGHIS/UFMT)
Luis Claudio dos Santos Bonfim Doutorando PPGHIS/UFMT)

Esta Sessão Coordenada se propõe a agregar pesquisas em


desenvolvimento que contemplem diferentes dimensões da cultura
escrita, mediada pelo olhar disciplinar da História, da Literatura, da
Educação ou áreas afins. Entende-se por cultura escrita um conjunto de
práticas cultivadas por um grupo social que tenha a escrita como base de
comunicação e registro sociocultural. Serão bem-vindas pesquisas que se
dediquem, nas suas abordagens, à historicidade das operações, dos atores
e dos lugares que se encontram no processo de composição de textos, nas
modalidades de sua transmissão ou nas formas de sua recepção inseridos
em circuitos culturais específicos. Interessa-nos, portanto, construir um
espaço de trocas e debates entre os jovens pesquisadores que estudem
temas como a relação entre história e literatura; escrita e oralidade; história
e discurso; história da literatura e/ou crítica literária (romances, poesias,
crônicas, contos, textos dramáticos etc.); história das “escritas ordinárias”
(diários, cartas, cadernos escolares etc.); história e imprensa (jornais,
revistas, almanaques, catálogos etc.), história do livro e da leitura dente
outras possibilidades correlatas.

Literatura e Historicidade: um estudo da dimensão


temporal em narrativas distópicas juvenis

Carlos Henrique da Silva (Universidade Federal de Jataí - UFJ)

Esta pesquisa objetiva estudar a configuração da dimensão temporal em


romances distópicos juvenis, que circulam em quantidade expressiva
107

desde os primeiros anos do século XXI, servindo, muitas vezes, de


enredos para produções cinematográficas de sucesso internacional.
Rudinei Kopp define a ficção distópica como “[...] uma história
intencional de advertência – que se refere a uma sociedade imaginada e
projetada no futuro – que deve causar assombro aos leitores.” (KOPP,
2011, p. 62). Essas sociedades imaginadas, muitas vezes como advertência
ao público leitor, são normalmente caracterizadas por tramas permeadas
por estados repressores, presença controversa da ciência e da tecnologia,
controle excessivo sobre o indivíduo e certa rebeldia por parte dos
protagonistas. Nelas, a experiência dos personagens em relação à
passagem do tempo está, em geral, expressa, o que nos permite identificar
os “prognósticos” do tempo feitos por seus autores a partir da realidade
do presente, conectando de forma complexa o que o historiador alemão
Reinhart Koselleck chama de “espaço de experiência” e “horizonte de
expectativa” (KOSELLECK, 2006 e 2014). Nesse quadro, interessa-nos
problematizar como, nas narrativas distópicas juvenis, são mobilizados
recursos literários e discursivos no sentido de configurar certa relação com
a dimensão temporal. Que aspectos são associados à ideia de presente e
de futuro e quais as possibilidades de intervenção no tempo que os autores
oferecem aos seus personagens? De que maneiras são feitas, nas narrativas
distópicas, referências ao tempo histórico “real”? E, em que medida esse
processo de temporalização das ficções literárias distópicas nos permitem
pensar sobre a relação entre história e tempo na atualidade? Os materiais
utilizados para a realização desta pesquisa serão os próprios romances
distópicos, reconhecidos simultaneamente como fonte e objeto de
investigação. Inicialmente delimitaremos quais serão os romances
analisados entre as séries juvenis que mais circulam atualmente, inclusive
no Brasil. Entre elas estão: Feios (2005-2007), Jogos vorazes (20082010),
Maze runner (2009-2011), Divergente (2011-2014) e A seleção (2012-
2015), de autoria, respectivamente, de Scott Westerfeld, Susanne Collins,
James Dashner, Veronica Roth e Kiera Cass. Paralelamente analisaremos
alguns dos romances distópicos considerados clássicos e que serviram de
modelo de narrativa para os que lhes sucederam, como: Nós, de Eugene
Zamiatin (1924); Admirável mundo novo (1932), de Audous Huxley; e
1984 (1949), de George Orwell.
108

A moral e a decência pública na pena dos censores do


Conservatório Dramático Brasileiro

Ingrid Guimarães de Lucena (Universidade de Brasília)

O Conservatório Dramático Brasileiro, criado em 1843, foi um órgão de


censura teatral. O principal objetivo da instituição era analisar todas as
produções dramáticas que tivessem a intenção de ser representadas nos
teatros da corte e, então, deliberar se elas poderiam ser encenadas ou não.
Sabe-se que antes da fundação do órgão, a censura de peças de teatro já
era exercida pela polícia, o que nos permite constatar a existência prévia
de uma cultura censória. Ainda assim, o Conservatório Dramático
Brasileiro foi importante, dado que ele estabeleceu a institucionalização da
prática de censura teatral. E por que controlar o que era apresentado nos
palcos dos teatros da Corte? Sabe-se que o teatro era muito importante
para a sociedade brasileira do século XIX e que pessoas de diferentes
classes sociais frequentavam estes espaços. Garantindo que os conteúdos
apresentados fossem ao encontro da moral almejada, seria possível fazer
dos teatros uma escola dos bons costumes. Nesse sentido, a
institucionalização e a especialização da censura de peças de teatro no
Brasil Imperial foram resultados de um esforço do governo e das elites da
época para alcançar os ideais de civilidade e para forjar um sentimento de
unificação nacional, o qual deveria incorporar os valores prezados pelos
grupos dominantes. Acerca do estudo da censura, o historiador Robert
Darnton (2016, p. 8) afirma que “com a documentação suficiente,
podemos detectar padrões de pensamento e ação”, assim como também
“podemos trazer à tona os pressupostos subjacentes e as atividades ocultas
dos funcionários incumbidos de policiar os impressos” (DARNTON,
2016, p. 8). Nota-se que o autor supracitado refere-se à censura da
expressão literária. Entretanto, acreditamos que seja possível trabalhar
com o corpus documental do Conservatório Dramático Brasileiro tendo
como base os mesmos princípios e contribuir para o estudo da censura
teatral. O conjunto documental do Conservatório Dramático Brasileiro,
obtido junto à Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e disponível na
Biblioteca Central da Universidade de Brasília na forma de microfilme, é
uma fonte de muitas informações. O projeto em andamento propõe-se a
fazer um banco de dados que facilitará o manejo desse material,
109

possibilitando a realização de várias pesquisas, além da investigação sobre


a censura mencionada anteriormente.

Cadeias de papel: utopismo e crítica da modernidade em O


processo de Franz Kafka

Leandro Silva Onofre Júnior (Universidade Federal de Goiás - Reg. Jataí)

Partindo do pressuposto de que o processo de racionalização e,


consequentemente, a burocratização dos Estados modernos modificou
drasticamente a vida privada e o cotidiano da sociedade moderna,
propomos, neste trabalho, uma reflexão sobre a modernidade e a condição
do homem moderno a partir da obra O processo de Franz Kafka. Para
Michael Löwy (2005), “O processo enfrenta a natureza alienada e
opressiva do Estado moderno”. Neste sentido, a ausência de lei – justiça
– é compensada pela onipresença de uma poderosa organização legal que
exerce sua dominação a partir de tribunais invisíveis. O tom das obras de
Kafka, segundo Löwy, nos mostra uma intransigente insubordinação ao
autoritarismo, representado na maioria de seus romances por uma
estrutura de poder sem limites. Esse ethos libertário nos faz captar a
dimensão subversiva e libertária de suas obras, representada a partir de
uma crítica radical à sociedade moderna. Em O processo, o protagonista
Josef K. é o representante por excelência das vítimas da máquina legal do
Estado moderno. Detido em seu trigésimo aniversário, sem saber o que
fizera ou por quem fora denunciado, o protagonista Josef K. é submetido
a diversas arbitrariedades provocadas por um sistema judiciário
onipresente, meandros burocráticos sufocantes e um aparato estatal
falido. Nesta perspectiva, objetivamos com a referida pesquisa
compreender a crítica da modernidade presente na obra O processo de
Franz Kafka, bem como os elementos que compõe o que chamaremos de
universo kafkiano. Para tanto, utilizaremos as contribuições de Luiz Costa
Lima para a compreensão acerca da relação entre História e Literatura,
bem como as características que singularizam a narrativa de Kafka; as
formulações de Reinhart Koselleck a respeito do conceito de
modernidade; as reflexões sobre o processo de burocratização
110

desenvolvidas pelo sociólogo Max Weber; e das concepções de Michael


Löwy acerca do escritor tcheco que, a partir de uma ótica sócio-política,
apresenta um Kafka insubmisso e utópico, até então negligenciado. Assim,
conduziremos nossa pesquisa buscando entender o caminho percorrido
pela crítica kafkiana à modernidade dentro do cenário de absurdos e
aflições que compõem o romance, e o quanto a mesma se aproxima das
críticas encontradas nos romances distópicos da primeira metade do
século XX.

Referenciais históricos em Sandman

Ciro Moraes do Couto (Universidade Federal de Jataí)

A história em quadrinhos vem obtendo cada vez mais notoriedade, sendo


por edições mais simples, ou por Graphic Novels, esse último que se trata
de história em quadrinhos com um enredo e arte mais elaborados, ou até
mesmo mais sofisticados. Assim, partindo da leitura de uma obra dessa
estrutura, de autoria de Neil Gaiman, Sandman (1989), o presente trabalho
tem por finalidade analisar as articulações entre História e ficção, a partir
do que as conflui – a referencialidade (RICOEUR, 1994). A presente
incursão de pesquisa visa assim compreender as apropriações dos
referenciais históricos (temporalidades, personagens históricas e
mitológicas, performatividade, etc.) utilizadas por Gaiman, definindo
também as interfaces presentes na referente obra com outras linguagens
artísticas, como a dramaturgia, por meio da intermidialidade (CLÜVER,
2007). Utilizaremos o capítulo 13 da obra, intitulado de “Homens de Boa
Fortuna” (1990), por meio desse capítulo a análise sobre os usos de
temporalidades se faz necessário, por se tratar de vários períodos da
história, iniciando por exemplo, no período medieval na Inglaterra.
Ademais, esse capítulo nos traz indagações filosóficas, como questões
sobre a vida e a morte na modernidade. Se faz mister as investigações
acerca da obra Sandam na medida em que essa nos aponta os usos que as
linguagens artísticas fazem de referentes históricos para articulação de
sentido de determinadas narrativas, fazendo assim da história a medidora
da relação passado e presente, no caso da referida produção de Gaiman, a
virada da década de 1980 para a conseguinte. Tal procedimento, inclusive,
111

é efetuado no jogo anacrônico de deslocamentos temporais centenários


para determinados temas presentes na narrativa.

Verdade e formação crítica: uma análise dos símbolos da


alegoria da caverna

Camila de Souza Cardoso (UFG - REJ)

O artigo tem por tema principal a análise do Mito da caverna e o mundo


das ideias como parâmetro para construção da verdade em Platão. O
objetivo central desse trabalho é analisar as figuras que compõem o Mito
da caverna visando destacar a importância dos mesmos no contexto da
obra. Essa pesquisa tem como justifica o conhecimento do processo de
construção do conhecimento e da formação crítica do homem e da
mulher. A metodologia utilizada foi a de pesquisa bibliográfica.

A imprensa brasileira no período da Segunda Guerra


Mundial: periódico Gazeta de Notícias

Silvia Cristina Sarmento (Universidade Federal do Oeste da Bahia)

O Brasil adotou posição neutra quando emergiu a Segunda Guerra


Mundial, o noticiário da imprensa e do rádio retratava isso. Nesta época
de guerra existiam várias revistas e jornais, alguns eram a Gazeta de
Notícias, Jornal do Brasil e O Globo, entre outros, para tanto segundo
Leal (2015) a gazeta de notícias foi um dos principais jornais da capital
federal na época da primeira república.Os jornais que outrora era
pequeno, isolado e que se aventuravam individualmente, agora é uma
empresa capitalista, política. A preocupação de suma importância da
imprensa neste período era o fato político, segundo Sodré não é a política
e “sim o fato político que ocorre em um local especificamente, uma área
ocupada pelos políticos, por aqueles que estão ligados ao problema do
poder”. (SODRÉ, P.277,1999) No entanto a imprensa se preocupava com
questões pessoais, que giravam em torno de atos de indivíduos que
112

protagonizaram fatos políticos. Para Sodré “daí o caráter pessoal que


assume as campanhas; a necessidade de endeusar ou de destruir o
indivíduo. Tudo se personaliza e individualiza” [...] (SODRÉ, P.277,1999).
O Objetivo deste artigo é analisar a Imprensa Brasileira no período da
Segunda Grande Guerra, o objeto analisado corresponderá ao periódico
carioca a Gazeta de Notícias. Pretende-se explorar e destacar os conteúdos
editoriais publicados no periódico entre os anos de 1939 até 1942, salientar
a historicidade do impresso que lhes serviu de estruturação e veículo, bem
como a sua relevância na construção da vida política e realidade de seu
tempo, de acordo com os interesses políticos, econômicos e ideológicos
subordinados ao seu processo de produção e circulação. A metodologia
utilizada para esta análise foi os periódicos da Gazeta de Noticias
disponibilizados em formato pdf nos arquivos da biblioteca nacional,
conteúdos publicados semanalmente entre os anos de 1939 até 1942,
como também algumas referências bibliográficas. O propósito de analisar
este periódico é porque era polêmico, apoiava abertamente a Transocean,
uma agência do governo nazista, assim como apresentava Mussolini como
benfeitor dos italianos, como também por causa da sua ampla circulação
e por conta do grande volume publicado a respeito das guerras no Brasil.

Escrevivendo os espaços de memória; a obra de carolina


maria de jesus como resistência epistemológica

Milena Gabriel Nunes (UniCEUB)

A "escrevivência", termo popularizado pela pesquisadora Conceição


Evaristo, apresenta-se sem a pretensão de se tornar conceito, tal qual
obras oriundas de espaços e lugares de fala não-hegemônicos, que nascem
da necessidade de ser – como sujeitos históricos – a partir da escrita de si.
Nesse sentido, essa pesquisa visa compreender os escritos de Carolina
Maria de Jesus como fonte de pesquisa Histórica, buscando correlacionar
a literatura testemunhal aos estudos sobre a escrita da história. Propõe-se
analisar o resgate de memórias proposto por Carolina Maria de Jesus
como movimento de resistência ao silenciamento histórico das memórias
dos sujeitos subalternizados, resistência essa que passa a preencher as
lacunas históricas que foram tradicionalmente esquecidas ou ocupadas por
113

aqueles sujeitos que, institucionalmente, já detém o poder da palavra.


Através dessa denúncia em tom de poesia, Carolina Maria de Jesus, com
seus testemunhos poéticos, passa a ocupar e se inscrever dentro dos ditos
espaços de memória, que ao terem sido negados não foi permitido que se
compreendesse a expressão de uma coletividade a partir de suas próprias
epistemologias e reflexões. Sendo então resistente ao movimento
hegemônico e produtora de seus próprios conhecimentos, Carolina Maria
de Jesus, a partir de suas obras, foi capaz de traçar uma revisão da história
do Brasil de forma a se perceber e se enxergar dentro dos processos de
continuidades que foram perpetuados por tal História; compreendendo
fragmentos do passado e percepções do presente correlaciona ambos os
espaços de tempo a partir de considerações sobre a fome e as andanças
em busca de um local de pertencimento. Expondo a força de sua
consciência histórica, Carolina Maria de Jesus nos apresenta reflexões e
contextos próprios de sua vivência que num ato de violência
epistemológica não constituíram o quadro hegemônico da historiografia
tradicional. A obra de Carolina Maria de Jesus, enquanto movimento de
resistência epistemológica, apresenta-se então, a partir da literatura
testemunhal, como possível ferramenta para a compreensão de processos
que constituíram a construção do pensar e do saber histórico no Brasil,
afirmando seu local de fala e legitimando a ocupação dos espaços de
memória que a ela pertencem.

Mulheres, prostituição e criadagem: construções amadianas


em Terras do Sem Fim (1943)

Deyse Vieira Quinto (Universidade Estadual de Santa Cruz)


Érika Luanna da Mota Alcântara (Universidade Estadual de Santa Cruz)

A década de 30 se inicia com o anseio da literatura brasileira modernista


em destacar as minuciosidades sócio-políticas das regiões brasileiras,
principalmente por autores nordestinos e sulistas, fortemente
influenciados pela Primeira Guerra Mundial, pela Revolução Comunista
Russa e pela Semana de Arte Moderna, cessam a busca pelo ideal exterior
literário e valorizam as características regionais, incluídas no nexo
nacional. É nesse contexto que se insere Jorge Amado, no Regionalismo,
114

lidando com o que estava mais próximo a ele: o ciclo do cacau na região
de Ilhéus. Este artigo trata de uma das obras da fase amadiana entendida
por Bosi como “afrescos da região do cacau”, Terras do Sem Fim (1943),
no intuito de tratar a constituição da representação e a progressão
narrativa das personagens femininas no romance, a prostituta de luxo
Margot, as três irmãs prostitutas Maria, Lúcia e Violeta e a criada
Raimunda. Romance escrito durante sua permanência em Montevidéu, em
1942, exilado, e que trata do início do século XX, num sul baiano
predominantemente rural, com coronéis disputando a posse das terras
numa sociedade extremamente patriarcal, em que os homens, tomados de
poder, buscam subjugar a mulher e a natureza. Jorge Amado assinala o
que pretende transmitir no seu fazer literário, “busquei o caminho nada
cômodo de compromisso com os pobres e oprimidos.” (1972),
evidenciando a necessidade de representar em suas obras as questões
sociais presente na região do cacau, principalmente o posicionamento das
mulheres perante a sociedade patriarcal. Segundo Duarte, Jorge Amado
constrói as suas personagens através de um etapismo espacial, histórico e
narrativo, possibilitando que o leitor acompanhe as questões vivenciadas
por cada personagem. Margot representa a prostituta de luxo que com sua
beleza, requinte e ambição, consegue regalias perante a sociedade
cacaueira. A evolução da personagem, durante a obra, nos permite analisar
quais os motivos a destacaram e fizeram com que Margot ficasse nesta
região, mas principalmente o contraste que esta personagem tem em
relação com as irmãs prostitutas, Lúcia, Maria e Violeta. As irmãs, por
conta da violência, se tornaram prostitutas, nos conduzindo a uma
construção poética, por parte de Jorge Amado, para desvendar as ruínas e
tragédias dessas irmãs desventuradas, que carrega em seus rostos o
desprazer da vida que levam. Raimunda, que por boatos era filha de
Marcelino Badaró com a cozinheira Risoleta, compõe o ultimo
personagem analisado por este trabalho, esta personagem nos mostra uma
situação social complexa, onde envolta por um paternalismo, realizado
pela família Badaró, tem seus direitos esquecidos, em troca de um sapato,
um vestido melhor, e um pouco de dinheiro, em época de festa na cidade.
115

Produções acadêmicas sobre o município de jataí nos


programas de pós graduação da ufg – 1994 a 2004

Dávila Marçal Martins (UFG)

O Parque da Ciência da Universidade Federal de Goiás – Regional Jataí


(UFG/REJ) surgiu do anseio da comunidade universitária em oferecer à
sociedade jataiense um ambiente para reflexão acerca do conhecimento
científico desenvolvido em nossa região, e tem como objetivo principal a
difusão e a democratização da ciência, a promoção da educação científica
e da cultura nas suas mais variadas formas e representação. Visando
contribuir com a criação do Parque da Ciência, este trabalho de iniciação
científica (PIVIC) em andamento, buscou fazer um levantamento das
teses e dissertações realizadas sobre o município de Jataí nos programas
de PósGraduação da UFG, no período de 1994 a 2004, dando destaque
para as produções ligadas a área de educação e história. Durante o
levantamento foi possível reunir saberes científicos sobre o município e
organizá-los em seus aspectos educacionais, históricos, políticos,
ambientais e culturais. De acordo com as informações coletadas nos sites
das Pós-Graduações da UFG, no recorte temporal definido, os cursos
disponibilizados e o quantitativo de trabalhos defendidos foram:
Agronomia (117) Ciência Animal (100), Educação (223), Enfermagem (5),
Geografia (93), Letras e Linguística (2), História (132), Medicina Tropical
e Saúde Pública (172) e Sociologia (34). Foram identificadas 12
dissertações, defendidas entre os anos de 1994 a 2004, que tratam sobre o
município de Jataí. Algumas delas têm em seu título o nome de Jataí e
outras o município é citado no corpo do trabalho, para tanto foi necessário
proceder à leitura dos resumos, introdução e conclusões de todas as
produções científicas. Optou-se por apresentar neste trabalho as teses e
dissertações identificadas no recorte temporal que tratam sobre os
aspectos históricos e educacionais do município de Jataí. Dos 223
trabalhos da pós-graduação em Educação foram identificados dois (2) e
dos 132 de História três (3). Vale ressaltar que os três trabalhos de história
não abordam especificamente sobre Jataí, retratam também outros
municípios. Por isto este trabalho apresenta a sinopse das duas
dissertações cujos saberes científicos poderão servir de subsídios para a
elaboração de futuras exposições do Parque da Ciência, bem como na
116

produção de material didáticopedagógico sobre o município de Jataí a ser


utilizado pelas escolas de ensino fundamental e médio.

“Literatura e História: Um olhar sobre o universo feminino


a partir da obra As Meninas, de Lygia Fagundes Telles”

Natália Peres Carvalho (Universidade Federal de Jataí)

Este trabalho faz parte de uma pesquisa de monografia, que se encontra


em construção e busca analisar as representações femininas presentes na
obra “As meninas”, um dos principais romances de Lygia Fagundes
Telles, agraciado com o Prêmio Jabuti em 1974. O romance, escrito e
publicado pela primeira vez em 1973, narra a história de Ana Clara, Lia e
Lorena e tem seu enredo desenvolvido no conturbado período da
Ditadura Militar no Brasil, o que introduz a importância de examinarmos
as relações que a autora constrói, em sua obra, com o tempo histórico no
qual estava inserida. O propósito desta pesquisa é analisar as
representações femininas presentes na obra de Lygia Fagundes Telles,
principalmente no que diz respeito à construção das três personagens
principais: Lorena, que tem uma grande sensibilidade artística e literária e
mantém um romance com um homem casado; Lia, uma militante da
esquerda armada que está tentando tirar o namorado da prisão; e Ana
Clara, que está envolvida com drogas e dividida entre o noivo burguês e o
amante traficante. O cotidiano das três personagens principais posto em
perspectiva pela autora, põe-nos em contato com representações
femininas construídas de forma inovadora e inteligente. Dessa maneira, o
romance As meninas se constitui em objeto e fonte principal desta
investigação, veículo que conduzirá a busca por compreender as
representações femininas produzidas por Telles naquele contexto, em que
o ideal de mulher preponderante na sociedade brasileira ainda era muito
diferente dos perfis femininos apresentados pela autora na sua obra. Esta
pesquisa se encontra em andamento e em fase inicial. Para a sua realização,
algumas questões precisam ser respondidas, a saber: De que modo a
autora compõe suas personagens? Em que medida elas rompem ou se
alinham aos padrões femininos vigentes naquele momento? É possível
afirmar que a autora apresenta uma ruptura ao abordar em sua literatura
117

ficcional o tema feminino, ou dialoga com uma linha já estabelecida em


obras com interpretações mais progressistas da mulher? O fato de Lygia
Fagundes Telles ser mulher diz algo a respeito da representação ficcional
que ela cria em relação ao gênero feminino? Tendo essas e outras questões
debatidas e analisadas, os resultados serão apresentados.

AS eddas e a mitologia viking: religião e cultura na


escandinávia cristianizada (século XII)

Mayara Stephane Gomes (Universidade Estadual de Goiás)

O tema abordado na pesquisa se estende sobre uma análise teórica sobre


as eddas, coleção de poemas em nórdico antigo preservados inicialmente
no manuscrito medieval islandês Codex Regius, conhecido como um dos
mais antigos documentos sobre a cultura Viking, relacionando a mesma
com a religião e posteriormente mitologia da cultura nórdica. O trabalho
tem como interesse centrar-se na atração da nova cultura hegemônica da
escandinava após o século XII, de manter informações sobre o
paganismo, não desejando que este simplesmente desapareça, mas que se
mantenha como um tipo de folclore algo com o caráter lúdico, dessa
forma, transformando religião em mitologia desmistificando os saberes
sobre a religião nórdica.

Cartas de Diomar Menezes: compilação, digitalização,


tradução e exposição

Mariana Maia Cabral (UFJ)

O objetivo desta comunicação é apresentar os passos metodológicos


adotados para o desenvolvimento do projeto de extensão Cartas de
Diomar Menezes: história e tradução, que foi desenvolvido na
Universidade Federal de Jataí. O projeto foi desenvolvido entre os anos
de 2016 e 2017, por alunos e professores dos cursos de letras-inglês e
118

história, e contou ainda com a participação de um membro americano


pelo programa do Inglês sem Fronteiras (ISF). Primeiramente, um
membro do projeto, discente do curso de História, compilou as cartas
enviadas ao Tenente Diomar Menezes durante a Segunda Guerra Mundial.
A metodologia que fundamentou a compilação, organização e nomeação
do corpus foi a Linguística de Corpus, que embasará a análise qualitativa
do léxico das cartas para o futuro andamento do projeto. Primeiramente
as cartas foram escaneadas e agrupadas em pastas no Google Drive, de
modo que cada remetente tivesse uma pasta com suas respectivas cartas.
Em seguida, a organização e nomeação do corpus selecionado foram
feitas, por meio de uma codificação com as iniciais do nome do remetente
e a data em que foi enviada, organizadas em ordem cronológica. Feito isso,
as cartas foram escaneadas. No processo de digitalização houve
dificuldades em relação à caligrafia; para solucioná-las foi de fundamental
importância a ajuda do professor orientador e do membro estrangeiro que
analisavam e sanaram as dúvidas. Depois de digitadas, as cartas foram
organizadas em pastas indicando a autora a qual pertenciam. Logo após,
foi iniciado o processo de tradução de cada carta, onde encontramos
dificuldade quanto ao entendimento de alguns vocabulários inéditos para
as orientandas, assim, o orientador e o membro estrangeiro davam o
conceito e os contextualizaram, para ajudar no entendimento deles. O
resultado parcial desse projeto foi apresentado na Primavera dos Museus
em setembro de 2017, com uma exposição dos documentos originais e as
respectivas traduções para o público. Entretanto, ainda temos muito para
desenvolver com o projeto em questão, e uma das proposta é a elaboração
de um material didático por meio de análises da digitalização das cartas,
usando como núcleo de pesquisa: verbos, substantivos e expressões.
119

SESSÃO COORDENADA 6
POLÍTICA, TRABALHO E MOVIMENTOS SOCIAIS

Coordenadores:
Alencar Cardoso da Costa (Doutorando em História PPGHI/UFMT)
Rhaissa Marques Botelho Lobo (Mestre Em História/UFMT)

Esta Sessão Coordenada se propõe em mediar o debate sobre pesquisas


em desenvolvimento que estejam veiculadas às temáticas envolvendo as
diferentes dimensões da política, relacionadas a uma discussão sobre o
olhar disciplinar da História, da História Política, da História Cultural, da
História Social e da Educação. Entende-se por política um elemento
dinâmico, estabelecido por relações de forças praticadas pelos agentes
sociais, nos mais diversos espaços de sociabilidade, intrinsicamente ligada
aos processos históricos. Aguardamos trabalhos que contemplem uma
reflexão teórica-metodológica da abordagem escolhida para a discussão
do problema histórico proposto, contando com bibliografias consagradas
e atualizadas. Pensamos que as questões políticas e dos movimentos
sociais devem ser pensadas para o espaço educacional em todos os níveis,
de forma a contribuir para o desenvolvimento da discussão democrática e
da ampliação da cidadania. Interessa-nos, então, constituir um espaço de
construção de saber, de forma democrática e pela evocação da serenidade,
no âmbito universitário. Propomo-nos em concentrar nas reflexões
referentes aos temas relacionados a relação da História e as relações de
trabalho; a História Política e as sociabilidades; os movimentos sociais e
as críticas sociais; as relações entre religião e política; história, trabalho e
participação política.
120

Imprensa e Malária na Primeira República: Causas e curas


em análise

Thais Teixeira do Nascimento (Universidade Federal de Goiás)

Nesta comunicação, pretendo expor alguns resultados que obtive na


pesquisa que estou desenvolvendo, para isso, farei algumas considerações
a respeito dos documentos e métodos empregados para sua análise,
posteriormente, irei explorar alguns anúncios de jornais que encontrei a
respeito do que foi exposto nos jornais sobre possíveis causas e curas para
a Malária, que foi uma doença que teve forte presença entre os problemas
enfrentados pela população tanto urbana como rural durante a Primeira
República. Quanto ao foco da pesquisa, este acaba sendo restrito a uma
parte mais elitizada da sociedade, afinal, precisamos levar em conta o
publico para quem os jornais se dirigiam, que comumente tratavam-se de
pessoas em condições mais abastadas. E, mesmo que estejamos falando
sobre uma população que se encontra imerso em cidades, não podemos
abandonar os conhecimentos mais interioranos sobre o que poderiam ser
as causas e curas da doença, afinal, não eram apenas médicos que
trabalhavam na tentativa de busca por diagnósticos e tratamentos, os
práticos tiveram grande participação nas descobertas já existentes, mesmo
que os jornais trabalhassem em um viés contrário, em que tinham por
objetivo utilizar dos discursos médicos em voga para comercializar
produtos que na teoria teriam maior eficácia do que os métodos
empregados pelos práticos do período. Outra observação que deve ser
feita é sobre o porquê do recorte que escolhi para a realização dessa
pesquisa, durante a Primeira República houve algumas modificações a
respeito da forma como se buscou tratar a higiene e a saúde. O avanço na
descoberta da etiologia das doenças foi essencial para que os tratamentos
de diferentes doenças fossem mais eficientes, mas para que isso
acontecesse, o aumento do investimento dado a essa finalidade e a criação
de institutos de pesquisa contribuíram muito para que os conhecimentos
a respeito das doenças se proliferassem. Além da preocupação quanto a
metodologia empregada e a temática que irei explorar, é essencial haver
uma problematização a respeito da forma como os jornais expõem os
problemas enfrentados pela população, sobre a forma como os anúncios
são colocados, com qual finalidade e de que maneira o uso da figura dos
121

médicos interfere na forma de propaganda e imagem que os produtores


de jornais buscavam passar a população que teria acesso a essas
informações.

O papel da psciologia no Juizado de Violência Doméstica e


Familiar Contra a Mulher

Aline Soares Santos (UFG/Regional Jataí)

Objetiva-se compreender o papel da psicologia no Juizado de Violência


Doméstica e Familiar contra a Mulher (JVDFM). Para tanto, buscou-se
investigar o contexto de implementação dos JVDFM no Brasil, as
particularidades da atuação profissional em psicologia nas equipes
multidisciplinares e as práticas desenvolvidas frente aos contextos de
violência. Utilizando metodologia quanti-qualitativa, realizou-se
levantamento dos JVDFM no Brasil, via internet. Foram identificados
112, posteriormente, foi enviado e-mail com formulário eletrônico,
construído através da ferramenta Google Docs, às(aos) profissionais de
psicologia dos JVDFM. Participaram da pesquisa 6 psicólogas e 1
psicólogo. A análise dos dados foi realizada por meio de núcleos de
significação. Observou-se que a atuação em psicologia nos JVDFM
colaborava com o enfrentamento da violência doméstica e familiar contra
as mulheres voltando-se aos aspectos psicossociais presentes nos casos
que chegavam nas varas especializadas. Verificou-se que as(o)
psicólogas(o) conheciam a Lei Maria da Penha e reconheciam a
importância das políticas públicas para a efetivação de um atendimento
integral as mulheres em contexto de violência. Constatou-se que as
principais práticas realizadas pelas(o) psicólogas(o) no JVDFM eram
acolhimento, encaminhamentos para rede intersetorial, atendimentos
individuais e/ou grupais com mulheres em situação de violência e/ou
homens autores de agressão, ações preventivas em instituições, produção
documental, visitas domiciliares, organização e planejamento de atividades
em conjunto com integrantes da equipe. Entretanto, verificou-se que
delimitar o papel da psicologia no JVDFM ainda é tarefa árdua. Dentre os
desafios, estão a complexidade da temática e a necessidade de capacitações
específicas, exigências e o cumprimento de prazos no atendimento às
122

solicitações judiciais. Nesse contexto, percebeu-se que alguns


profissionais não tiveram formações e/ou capacitações na graduação ou
especialização acerca da temática da violência doméstica e familiar contra
mulheres e políticas públicas. Esse cenário de fragilidade da formação
profissional inicia-se na graduação através de um ensino que aborda
disciplinas de modo isolado promovendo pouca aproximação entre as
abordagens teóricas e discussões de temas que se relacionem com a
atuação em psicologia para além do modelo clínico tradicional. Infere-se
que a dificuldade de demarcar o papel da psicologia se relacione com a
formação que é um ponto fundamental para que a(o) profissional possa
desenvolver suas atividades no conhecimento de suas técnicas,
instrumentos e limites. Palavras-chave: Juizado, Mulheres, Violência
Doméstica, Psicologia Social, Políticas Públicas.

“Nós, mulheres”: uma análise de práticas e representações


femininas a partir dos periódicos do Sindieletro-MG (1956-
2006)

Victória Ferreira Cunha (UFU)

A presente investigação tem como objetivo analisar as práticas sindicais e


as representações de mulheres operárias filiadas aos Sindieletro/MG
(Sindicato dos Eletricitários de Minas Gerais). Situada no campo da
História Social do Trabalho, a pesquisa busca compreender e dar
visibilidade à atuação das mulheres nesse espaço majoritariamente
masculino, pois, apesar do crescente interesse pela história das mulheres
e, mais amplamente, pelas discussões relativas às relações de gênero, ainda
há muito para se conhecer acerca das questões relativas ao universo
feminino no ambiente de trabalho, uma vez que os estudos acerca dessa
temática são relativamente incipientes. Para compreender as práticas e
representações femininas no Sindieletro, este estudo analisa os periódicos
do próprio Sindicato no período compreendido entre 1956 e 2006, com
ênfase para uma coluna de um dos periódicos intitulada "Nós, Mulheres",
que abordava questões relativas ao universo feminino e às reivindicações
das mulheres operárias. Ainda no que se refere ao procedimento
metodológico, este trabalho examinará, além dos referidos periódicos, atas
123

e boletins do Sindicato, interpretando essa documentação com o auxílio


de noções e referenciais teóricos dos campos da História Social do
Trabalho e da História Cultural. Desse modo, o presente estudo busca
compreender, que práticas caracterizam a atuação política e sindical das
mulheres operárias no Sindieletro; quais foram as principais pautas das
reivindicações políticas e sindicais dessas mulheres trabalhadoras; que
representações foram construídas por e sobre as mulheres operárias nos
referidos periódicos, com destaque para os aspectos relacionados à
questão de gênero tanto no mundo do trabalho quanto no cotidiano
familiar; quais as permanências e mudanças nas práticas e representações
dessas mulheres ao longo desses 50 anos. Este trabalho analisa, portanto,
a trajetória de mulheres que tiveram atuação destacada nas lutas da
categoria, seja atuando anonimamente no cotidiano do trabalho, seja
exercendo a direção e administração do sindicato ou ainda escrevendo nos
seus jornais e boletins sobre as reivindicações femininas. Sobre esse último
aspecto, destaca-se a figura da sindicalista Maria Felícia, que liderou o
Sindieletro pelo período de dez anos durante a ditadura militar, regime
político sob a vigência do qual o Sindicato sofreu, na década de 1970, uma
intervenção.

Mulher "de bem": (Uma análise histórica sobre a mulher


integralista)

Luana Dias dos Santos (UFMS)

O Integralismo foi um movimento político de cunho fascista no Brasil,


fundado por Plinio Salgado no início do século XX. Esse movimento
tinha influências de movimentos contrarrevolucionários cristãs. Um dos
elementos fundamentais do Integralismo era a defesa da “mulher de bem”,
ao qual essa mulher propriamente educada pelas condutas integralistas,
seria a percursora do movimento às futuras gerações. As mulheres tinham
uma função ambígua que transitava entre espaço público e privado. Com
isso, não era apenas no lar que ela se restringia, podendo participar da
militância e de empregos “direcionados às mulheres”, desde que nunca
esquecesse “de sua condição de mãe, esposa, filha” (POSSAS, 2012:24).
Plinio Salgado foi um grande defensor da “mulher de bem”, que seria a
124

mulher que não sujeitou ao liberalismo e à modernidade. Para isso, essa


não mulher não deveria ser: [...] a boneca de cabecinha vazia só
preocupada com o luxo, a exibição, as futilidades de uma vida ociosa, nem
também o ente desgracioso, de passo militar e atitudes masculinas, a
aspirar uma igualdade ridícula com o homem (...) (SALGADO, 1949:95).
Desse modo, em um de seus livros “A Mulher no século XX” Plinio
Salgado escreveu qual era o tipo de mulher que o Integralismo almejava,
baseando-se em concepções conservadoras e religiosas. Para compreender
a mulher integralista e qual seu papel dentro desse movimento, analiso o
livro A mulher no século XX (1946) e periódicos do jornal Monitor
Integralista (1933-1937), que funcionava como informativos para a
população, com a finalidade de que esses meios de comunicações, sendo
por meio de livros, revistas ou jornais, ajudassem a entender o que era o
Integralismo e como um cidadão integralista deveria portar. Assim, por
meios desses informativos, o livro A mulher no século XX e o jornal
Monitor Integralista, servirão como auxilio de análise para procurar
representações e discursos sobre a mulher integralista, afim de entender o
que era ser uma mulher “de bem” e qual sua funcionalidade na
manutenção desse movimento.

Propostas e desafios da política criminal: Complexidade


constitucional e a conflitividade social em Iporá-GO

Maiana Tainara Silva Dias (Universidade Estadual de Goiás)

Este trabalho tem como objeto de investigação a criminalidade no


município de Iporá-Go. Trata-se de um tema-problema que tem afetado
o meio urbano e rural, preocupado as autoridades e ocupado cada vez
mais espaço nas mídias e redes sociais. Nesse sentido, o objetivo é analisar
as propostas e desafios da política criminal adotada e, mais
especificamente, repensar a realidade socioeconômica de Iporá-Go na sua
relação com a criminalidade. Para tanto, a segurança pública é encarada
como objeto privilegiado para se pensar a complexidade constitucional e
a conflitividade social. De forma geral, se pode dizer que as políticas
públicas são decorrentes de uma complexa e contínua interação entre
diversos atores, tanto dentro quanto fora do governo. A estrutura
125

subjacente a essa interação é denominada “rede de políticas públicas”. Em


termos metodológicos, segundo Procopiuck e Frey (2009, p. 65), “ao
tratar processualmente tais interações, como constitutivas do ciclo das
políticas, as redes de políticas podem ser vistas sob influência de conjuntos
de regras formais e informais que governam as interações entre o Estado
e os interesses organizados”. É mais provável que nessas redes a
elaboração de políticas de caráter público seja mais plural e com tendência
a maiores possibilidades de conflitos. Seguindo a linha de raciocínio
formulada por Daniel (2011), extrai-se que se o agente estatal, no
momento de decisão ante a situação concreta, realizar uma escolha que
não se coadune com os princípios estabelecidos na Constituição, sua
conduta não estará pautada pela discricionariedade, e sim pela
arbitrariedade – o que não pode ser tolerado. Esse, pois, o ponto crucial
desta pesquisa: “sempre que a conduta da administração ultrapassar os
limites da discricionariedade – limites esses que vão além da finalidade
legal, englobando os princípios fundamentais e o dever de boa
administração – o Poder Judiciário, uma vez provocado, está autorizado a
intervir”. Dessa forma, para entender os impactos e processos resultantes
desta política criminal no município de Iporá-Go, a opção metodológica
remeteu a abordagem objetiva e subjetiva. A base
operacional/metodológica está fundamentada em levantamentos de
dados secundários obtidos junto ao IBGE, PNUD,
SEPLAN/SEPIN/Gerência de Estatísticas Socioeconômicas, Instituto
Mauro Borges (IMB), Ministério da Justiça, Prefeitura de Iporá, Relação
Anual de Informações Sociais – (RAIS) e outros. Portanto, do ponto de
vista metodológico, trata-se de uma pesquisa teórico-empírica realizada a
partir de diversas fontes bibliográficas, documentais e eletrônicas.

História, memória e imprensa: a propaganda do estado novo


em Goiás (1937-1942)

Tiago Vechi da Silva e Silva (UFG)

O projeto de pesquisa intitulado "História, memória e cidade: culturas,


trajetórias de vida e lutas por direitos no Brasil Contemporâneo" – que
este plano de trabalho integra –, tem como objetivo o estudo das relações
126

entre História e memória, no período de redemocratização brasileira,


tomando como foco um estudo de caso, sobre a cidade de Toledo PR.
Esta urbe surgiu em 1946, como parte dos empreendimentos de uma
empresa colonizadora privada, um desdobramento da “Marcha para o
Oeste”, do governo Vargas. Apesar de ter surgido no ano seguinte ao fim
do Estado Novo, ao se folhear os documentos de época e o jornal O
Pioneiro, da década de 1950, vemos páginas recheadas dos clichês que
povoaram aquela política autoritária de conquista dos sertões do oeste
brasileiro, a associação dos migrantes “povoadores” aos antigos
bandeirantes; a epopeia de conquista do sertão, com a construção de uma
cidade miraculosamente em meio à selva; a defesa das fronteiras nacionais;
e a filiação ideológica ao getulismo, existindo no local hegemonia do PTB
– Partido Trabalhista Brasileiro e PSD – Partido Social Democrático, o
que atesta o fato do fim do regime autoritário não ter sido marco para a
dissipação do ambiente ideológico estado novista. Assim, é impossível
estudar as memórias da cidade no período da redemocratização sem nos
voltar ao período de fundação da cidade e, mais antigas, ao tempo de
vigência do Estado Novo e as ideologias que povoaram a “Marcha para o
Oeste”. Diante disto, surge a necessidade se pensar qual era este ambiente
ideológico, construído ao longo do Estado Novo (1937 1945), que não se
dissipa com a posterior democratização, realizando uma pesquisa paralela,
no intuito de traçar um panorama da questão. É assim que propomos um
estudo sobre a propaganda varguista na imprensa goiana (cidades de Goiás
e Goiânia), neste período, buscando atender ao objetivo proposto pelo
projeto de pesquisa de “...com o auxílio dos projetos de pesquisa de
orientandos, correlacionar a realidade pesquisada [em Toledo PR] com as
de outras cidades do país, no intuito de problematizar experiências
urbanas comuns...”. (LANGARO, 2016, s/p). Assim, o plano de trabalho
pretende compreender os processos de legitimação utilizados pelo Estado
Novo, na imprensa goiana, que buscava aproximar a imagem do líder
Getúlio Vargas com o conceito de bom cidadão, procurando desenvolver
uma identificação entre sua figura e o público leitor. Analisando esta
imprensa, procuraremos explicar a importância da propaganda política no
processo de legitimação do novo regime, que surgia como “salvadora” da
pátria, pois, livraria o Brasil dos avanços mundiais do comunismo,
garantindo, ao mesmo tempo, os interesses nacionais.
127

Regionalismo: identidade histórico cultural

Telma Carvalho de Lima (UFJ)

O processo de migração em território nacional é algo que faz parte da


história do país desde o período colonial e de tempos em tempos ocorrem
cursos migratórios que levam grupos de uma região a outra em busca de
qualidade de vida. Não se pode pensar em migração simplesmente de uma
forma, ela pode ocorrer em perímetros de urbano-urbano, urbano-rural,
rural-rural e dentro de uma mesma região ou em regiões distintas. A
distância nesse deslocamento não é um ponto primordial dentro dos
fatores que levam a retirada desses grupos (VALE; et. all, 2004), os
motivos que levam a essa mudança variam de tempos em tempos. Em
algumas vezes pode existir influência do Estado em outras nem tanto. Mas
a busca por uma vida melhor ainda é um ponto comum. A partir do
deslocamento desses grupos para uma região com costumes tão diferentes
pode-se pensar nas transformações sociais ocorridas tanto nos grupos que
aqui chegaram quanto nos grupos que aqui já se encontravam. Com base
nesse conceito, o presente trabalho pretende apresentar as transformações
sociais no município de Jataí, no estado de Goiás, a partir do processo
migratório dos povos da região sul do país para este local. Para tanto, no
sentido de cumprir com os objetivos proposto neste estudo realizaremos
primeiramente uma bibliográfica sobre as específicas localidades (estado
de Goiás, município de Jataí e região Sul), utilizando como protagonista
neste trabalho a cidade de Jataí – Goiás, a fim de entender como foram
formadas suas identidades e quais as possíveis modificações sociais a partir
da chegada dos povos sulistas em Jataí-GO.

Memória e oralidade no Assentamento Campo Alegre

Deilane Pereira Godinho (UFT)

O presente trabalho de pesquisa pretende trazer a luz as memórias dos


idosos residentes no Assentamento Campo Alegre localizado no
município de Paranã-TO. Esse assentamento está localizado a setenta e
128

quatro quilometros do município de Paranã no estado do Tocantins, essa


comunidade rural possui mais ou menos cento e cinquenta famílias, conta
com duas escolas – Escola Municipal Professora Candida e Escola
Estadual Floresta – que oferecem toda a Educação Básica, possuí energia
elétrica e transporte que liga o povoado ao município. O registro das
memórias dos moradores idosos desse povoado se dará através da
metodologia da História Oral, pois acreditamos que com essa metodologia
podemos entrar em contato com as experiências vividas pelos sujeitos
alvos da pesquisa. Nossa pesquisa oral será orientada pelas propostas de
Verena Alberti, Janaína Amado e Thompson. Para que possamos delimitar
no tempo essas experiências, nosso intuito foi investigar o processo de
criação desse povoado e sua posterior denominação de assentamento, a
qual se dará a partir dos relatos orais desses moradores. Para tanto,
fizemos um levantamento dos homens e mulheres mais idosos que
residem no Assentamento Campo Alegre e, em seguida elaboramos um
questionário sobre as origem desse povoado. No presente questionário
perguntamos a origem desses sujeitos, com quantos anos chegaram a essa
comunidade, como foi o contato com os habitantes que já residiam nessa
localidade, quais as dificuldades encontradas nesses primeiros anos, quais
principais conflitos que eles se depararam, entre outras questões.
Acreditamos que em relação a Memória Coletiva, concordamos com
Maurice Halbwachs ao afirmar que o lugar ganha destaque, uma vez que
ele pode se tornar o catalizador das experiências vividas pelos indivíduos.
Também, procuramos contrapor as entrevistas realizadas e destacar os
pontos destoantes e em comum encontrados nesses relatos, pois assim
podemos demonstrar como a memória coletiva exposta pela oralidade é
fragmentada. Sendo assim, nosso intuito nesse início de pesquisa foi
registrar as memórias dos primeiros moradores dessa comunidade rural e
discutir como essas experiências refletem questões identitárias desses
sujeitos.
129

Lutar e Resistir no Norte de Goiás: A labuta campesina e a


resiliência dos povos cerradeiros no assentamento Salvador
Allende

Matheus Lucio dos Reis Silva (Universidade Estadual de Goiás)

O objetivo deste artigo é problematizar os processos de construção e


consolidação do assentamento “Salvador Allende” na cidade de
Porangatu-GO, além de refletir sobre as lutas e resistências enfrentadas
pelos assentados. O presente trabalho é fruto de uma pesquisa etnográfica
em andamento no qual, através da convivência e diálogo com os
assentados, pude observar o cotidiano, o trabalho, as dificuldades, as
labutas, bem como as identidades e culturas. Entendendo a etnografia na
perspectiva de Clifford Geertz (2017), em especial na sua descrição densa,
procuro entender os pequenos detalhes do cotidiano. Partindo da
perspectiva de Michel de Certeau (2014), problematizo as artes de fazer
do cotidiano, com destaque para aquilo que ele denomina golpes, sendo
aqui ações estratégicas de mudança de uma realidade não favorável em
que os assentados encontram-se. Silva (2003) problematiza a produção de
espaço e identidade em um assentamento. Ellen & Klass Woortmann
(1997, 1998) afirmam que há uma lógica e simbólica nos modos de fazer
camponês. Mendonça (2010) destaca ainda que, dentro da campesinidade
e dos modos de fazer camponês há os povos cerradeiros, onde há uma
relação de troca e dependência com este bioma, revelando assim artes de
fazer específicas destes povos. Esses golpes narram as estratégias
cotidianas de sobrevivência em um ambiente hostil, reféns do abandono
político, seja do governo federal ou municipal. No norte do estado, antigo
médio norte, o coronelismo sempre foi uma das grandes marcas históricas,
também assinalada por derramamento de sangue camponês. Ainda hoje,
há resquícios deste coronelismo, especialmente nas falas dos assentados,
uma vez que, os 30% dos produtos da merenda escolar não são
comprados dos agricultores familiares, contrariando a legislação. Em
paralelo a isto, muitos “companheiros” - assim denominados pelos
assentados– desistiram antes ou depois de concretizado o assentamento,
com isto houve a venda destas terras e a chegada de novos moradores,
estes sem um entendimento do processo histórico do assentamento,
ocasionando uma falta de identificação no processo de luta. Desta forma,
130

é possível também identificar identidades em jogo, que mesmo diferentes


há pontos comuns, e são estes que constroem e resistem em meio aos
desafios. É entre a labuta do trabalho camponês e a resiliência necessária
no cerrado do norte goiano que se localizam esses sujeitos. E é nessa
dinâmica diária que se localiza o nosso ponto de estudo e reflexão.

A filosofia e a formação do homem consciente de si: análise


do O contrato social e do O Emílio de Jean-Jacques
Rousseau

Tiago Carvalho Lombardi Tosta (UFG)

Este artigo tem como intenção trabalhar a formação do homem político


em Rousseau. Investigando o processo pelo qual se dá a criação da
sociedade em que este homem vive, explora-se por quais meios ele deixa
o estado natural para entrar em comunhão com seus semelhantes e assim
dar início à vida social. Nesta etapa que se inicia para o homem natural, a
vida deixa de ser nômade, independente e individual para se tornar
sedentária, dependente e coletiva. Neste novo percurso o homem cede a
sua liberdade em troca da segurança que a união do grupo oferece contra
as forças nocivas da natureza. Para tanto, o homem nega o que
naturalmente é para tornar-se um homem civil. Porém, o contrato
convencionado entre os homens pode surtir efeitos danosos para os
mesmos e subjugá-los a situações que corrompem as intenções iniciais
pelas quais eles se uniram. Buscando a alforria das forças impassíveis da
natureza, encontra a subjugação entre os próprios semelhantes. Isso
advém da desorganização que se encontra na sociedade. Sociedade que
não respeita os desejos do indivíduo e atropela a sua natureza em nome
da prosperidade econômica. Ela não serve a ele como uma comunidade
onde ele possa se desenvolver e encontrar sua potência como ser humano,
entrando em consonância consigo mesmo e integrando-se
harmonicamente com o meio que o circunscreve. Pelo contrário, ela
cerceia o seu vigor e aliena suas vontades, tornando-o mera peça funcional
de um sistema que não volta seus objetivos para aqueles que o compõem.
Ao invés de servir ao espírito humano, apequena-o e serve-se dele para
fins incompatíveis com a realização social que traria um estado de bem
131

estar e segurança para os componentes da sociedade. Com isso vemos


nascer a desigualdade social e a sociedade acaba por desfigurar o homem
e o corromper ao que ele tem de mais vil. Considerando este cenário,
Rousseau propõe a fundamentação e os princípios de um corpo social
puro em suas intenções de servir bem a todos os homens e, em seu tratado
sobre a educação, nos mostra de que maneira se poderia gerar um cidadão
que, bem servido de suas faculdades e cônscio de si, submeter-se-ia apenas
à própria vontade e cumpriria um papel responsável e consciente em seu
meio, tendo em vista a sua emancipação e a de seus convivas. É à
formação desse cidadão emancipado que se volta a atenção deste estudo.
A pesquisa utilizada foi a bibliográfica se utilizando de análise de vários
textos dos principais comentadores do autor genebrino.

Memória e identidade - a historicidade de Mineiros

Christiane Assis Oliveira Soares (Centro Universitário de Mineiros -


Unifimes)
Lorena Vaz Ferreira (Centro Universitario de Mineiros (UNIFIMES))

Este trabalho teórico nasce dos estudos empenhados para o


desenvolvimento da pesquisa de campo em andamento denominada
“Memória, Identidade Social, Subjetividade e Cultura: escavando as
histórias de vida dos moradores de Mineiros/GO”, no âmbito do Centro
Universitário de Mineiros. O objetivo do presente trabalho permeia
questões relacionadas ao estudo da memória, que por meio da história
oral, buscar compreender a construção histórica da cidade em questão.
Halbwachs (2006) afirma que a memória individual se organiza a partir de
uma memória coletiva, onde as lembranças são constituídas no interior de
um grupo específico. A memória social se compõe por uma
ressignificação de vivências inerentes a uma coletividade. É de suma
importância o resgate desta memória social, haja vista que compõe
particularidades de determinadas localidades, dando sentido aos
acontecimentos contemporâneos. A cidade de Mineiros, localizada no
sudoeste goiano, toma categoria de município no ano de 1939. As
primeiras famílias a ocuparem estas terras foram os Carrijo e Teodoro de
Oliveira, advindos prioritariamente de Minas Gerais. De acordo com Silva
132

(1998), junto com estas famílias vieram também seus escravos, dentre eles,
Chico Moleque. Moleque é um marco da historicidade do município. Um
negro que comprou sua carta de alforria e de sua esposa após adquirir para
si um pedaço de terra, denominado Cedro, pedaço de terra este que se
tornou um quilombo em 2006. A constituição do Cedro é uma marca
importante no surgimento da cidade de Mineiros, pois foi formado a partir
de um movimento de resistência dos escravos. O Cedro é parte
constituinte da história, cultura e identidade da cidade. Entretanto, apesar
da relevância histórica desta localidade, a literatura nos apresenta que este
espaço e seus moradores foram alvo de atitudes de depreciação, atos de
desqualificação que revelam o preconceito racial. Em última instância, tais
atos buscaram apagar a marca africana que permeia a constituição da
história da cidade. A escuta das vivências dos moradores de Mineiros,
incluindo os cedrinos, é uma forma de reconstrução das memórias
subalternas da cidade, ou seja, é um movimento rumo às histórias não
contadas e que estão à margem da história oficial. O projeto acima
mencionado tem por objetivo realizar esta escuta.

Ascensão Econômica das Mulheres e transformações em


formas jurídicas

Marcela Sousa Paniago (Universidade Federal de Jataí)

O presente artigo tem como objetivo analisar correlações entre a ascensão


econômica da mulher decorrente, principalmente, da inclusão no mercado
de trabalho no pós-guerra e as transformações jurídicas que se seguiram
neste período. Para tanto, algumas transformações jurídicas do século XX
serão colocadas em destaque como a conquista do sufrágio feminino,
legislações de proteção ao trabalho feminino, o Estatuto da Mulher e a Lei
do Divórcio. Tendo em vista como as relações de gênero sempre fizeram
parte dos debates políticos, o movimento de mulheres esteve presente
dentro das disputas políticas para a luta de direitos dentro dos espaços
institucionais como Congresso Nacional e Assembleias Constituintes.
Assim sendo, o movimento feminista brasileiro teve papel histórico
importante para a conquista desses direitos e por essa razão as conquistas
de direitos para as mulheres será delimitado juntamente com a atuação das
133

ativistas neste processo. Em um primeiro momento serão ressalvadas


algumas questões referentes ao capitalismo e gênero. Essas colocações se
fazem necessárias para compreender como se deram as relações fáticas a
partir das diferenciações de sexo e gênero e como esse debate fez parte
mais tarde das discussões abarcando as transformações jurídicas.
Posteriormente, um ponto abordará como se deu a luta pelo sufrágio
feminino, sendo possível observar como o ativismo das mulheres teve
papel importante na conquista do direito ao voto. Em um segundo ponto,
a regulação do trabalho feminino no Brasil de 1932 à 1943 será
demonstrada, tendo como ponto de partida a inclusão das mulheres no
mercado de trabalho pós-guerra. Por fim, o Estatuto da Mulher Casada e
a Lei do Divórcio será discutido para demonstrar as transformações
jurídicas da década de 60/70. Portanto, será averiguado como o
movimento feminista conseguiu se organizar e se inserir dentro do mundo
político para assegurar a conquista de direitos e será também possível, por
meio das análises geradas por este texto, perceber a importância da
pressão política do movimento feminista dentro dos espaços de
discussões institucionais que levaram a conquistas de direitos para as
mulheres. Entretanto, também será observado como a conquista de
direitos formais para as mulheres que não foi suficiente para acabar com
todas as desigualdades materiais de gênero.

"O Passado Sequestrado": lugares de memória e seu


sentido político

Gabriela Zchrotke da Silva (Universidade de Brasília)

O trabalho pretende abordar as qualidades das políticas públicas do


Estado brasileiro para a preservação da memória da Ditadura Militar.
Dialogando com os conceitos de Passado Sequestrado - isto é, um passado
ao qual não é permitido o acesso -, de memória dominante e de memória
subterrânea (aquelas esquecidas ou ignoradas pela narrativa estatal
dominante), busca-se fazer um breve passeio pelo caso das lembranças
dos anos de chumbo e qual é o significado de tornar essas memórias um
patrimônio nacional. Há três eixos principais: 1. O que é um lugar de
memória; no qual se introduz os principais conceitos a serem utilizados e
134

também responde-se ao questionamento se é possível falar de memórias


subterrâneas e dominantes no caso brasileiro, considerando as
peculiaridades da transição "democrática". Ademais, propõe-se uma
discussão sobre a estatização da memória política no Brasil. 2. Quais são
as políticas públicas (ou falta delas) para a preservação da memória da
Ditadura Militar? Aqui se faz um levantamento de dados comparativos do
Brasil e da América Latina quanto à qualidade e quantidade das iniciativas
governamentais de memória e patrimônio. Analisa-se como estão esses
lugares - principalmente como se dá sua manutenção física - e qual seu
sentido político na vida ao seu redor. É verdade que a maioria dos
monumentos estão em decadência e não tem relevância, seja ela política
ou arquitetônica? Por fim, também olha-se para a razão de ser e o objetivo
dos monumentos abordados, e se esses objetivos são cumpridos. 3.
Sequestraram nosso passado? Finalizando, será apresentado e discutido o
paradoxo da política de memória no estado weberiano: como é possível
que o encargo de preservar e desenterrar as memórias de um passado
ditatorial esteja nas mãos de um Estado que foi o perpetrador
praticamente não-reformado dessa ditadura? Será abordado também o
papel das ONGs de memória no Brasil em comparação outros países na
América Latina com passados de repressão semelhante. A tese aqui
defendida é a de que há uma institucionalização da memória e do passado
- não mais uma coisa orgânica que segue sua própria lógica, ela se torna
agora uma incumbência estatal. E esse Estado está mais interessado em
manter algumas memórias subterrâneas, ao mesmo tempo em que limpa
sua consciência com políticas básicas de manutenção de monumentos há
muito esquecidos ou ignorados. O indivíduo então se encontra
incapacitado para agir, pois não obtêm resposta satisfatória dos órgãos
institucionais, mas raramente possui as ferramentas para construir sua
própria resposta. Este trabalho procura, enfim, ir além da mera questão
da necessidade de espaços de memória, mas questionar a eficácia e o
método utilizado para construir esses lugares, a fim de dar a eles a
importância merecida.
135

Relato de experiência de uma eletiva de história das


religiões: crenças milenares orientais, e crenças clássicas
ocidentais

Aléxia Nara Rosa Carvalho (UEG- ANÁPOLIS)

Este trabalho propôs relatar uma experiência de aula em uma eletiva de


história. Cujo título desta é “História das Religiões”. O recorte específico
da aula foi “Crenças Milenares Orientais e Crenças Clássicas Ocidentais”.
O estudo tem por objetivo propiciar aos alunos, condições de
entendimento das principais formas nas quais se desenvolvem as crenças
milenares, no oriente e no ocidente. A investigação, de abordagem
qualitativa, parte inicialmente, da observação participante, no intuito de se
perceber o nível de conhecimentos apresentados pelos alunos durante a
proposição da aula eletiva. A metodologia de pesquisa aqui desenvolvida
é a da pesquisa de campo, seguindo critérios apresentados previamente
afim de que se possa alcançar resultados necessários nesta pesquisa. A
partir da vertente teórica de Andrade (2009), para o qual a discussão sobre
a temática das crenças mostra a relevância destas no desenvolvimento
social, político e cultural de uma nação, Manoel (2007) cujas premissa
discursiva aponta para a questão da religião e da religiosidade, diferenças
e semelhanças, buscando compreender as variações destas ao longo dos
anos. E alguns outros que são relevantes para o desenvolvimento do
presente estudo. A pesquisa realizada no segundo semestre de 2012
vislumbrou entre outros aspectos conhecer um pouco mais sobre o
desenvolvimento das muitas crenças desenvolvidas na sociedade da
antiguidade a nossos dias. Desenvolvemos o trabalho com pontos, tais
como: descrição do público alvo; descrição da proposta de intervenção;
descrição da execução; avaliação dos resultados e considerações finais.
Nesses pontos contemplam toda a experiência obtida, como também o
debate teórico acerca do conteúdo trabalhado. Os resultados obtidos
mostram que há uma prevalência de questões referente a religiosidade, que
em sua maioria propiciam a criação e o desenvolvimento de crenças.
Desse modo reverbera-se socialmente que os alunos compreenderam o
que seria as crenças milenares e as crenças clássicas, fazendo uma
correlação entre estas. Assim como também compreenderam a diferença
entre os conceitos de Religião e Religiosidade, definidos durante o debate
136

com os alunos na última parte da aula, ou seja, no momento da atividade


de verificação dos saberes.

Maio de 1968: Uma conscientização sobre participação


política da juventude

Jonatas Lavoisier Gondim Gonçalves (Universidade Federal de Jataí)

O ano de 1968 foi marcante na História mundial. Movimentos


envolvendo a juventude ocorreram em vários países, como a França, a
Tchecoslováquia, o México, os Estados Unidos e o Brasil. Estes
movimentos tiveram em comum o inconformismo da chamada geração
“Baby Boom”. Estes jovens não se conformavam com imposições de suas
sociedades, buscavam novos valores e novas formas de viver. Segundo
Borges (2018, p.33) assistiu-se às manifestações “[...] de jovens estudantes
que reivindicavam renovação. Renovação em geral: do sistema
burocrático aos padrões comportamentais, do modo de vida tradicional
[...] à forma de ensino adotada pelas universidades.” A contracultura, o
pacifismo, o movimento feminista e negro foram expoentes desta época,
na Europa e nas Américas. No Brasil, além destes temas, a luta pela
liberdade de expressão, mudança de costumes e contra a ditadura militar
foram os pontos centrais. Não foram gerados efeitos significativos a curto
prazo, mas a longo prazo, estes movimentos, marcaram um ponto de
inflexão na história e só é possível compreender a sociedade hoje se
entendermos como a juventude no final dos anos de 1960 saiu às ruas para
mostrar que aquele mundo não servia mais para eles. Neste ano em que o
movimento completa 50 anos este tema ganha especial relevância.
Segundo Hobsbawm (1998, p.8) “[...] para las geraciones posteriores al
1968 sin duda es útil empezar a recordar lo que ocurrió verdadeiramente
em el curso de esso doce meses extraordinários.” Conhecer este
movimento se faz fundamental à medida que traz importantes reflexões,
pois esta temática propõe o diálogo entre o conteúdo abordado e a
realidade vivenciada pelos estudantes. Esta pesquisa tem como objetivo
entender a percepção de estudantes do ensino médio (da escola Estadual
Serafim de Carvalho, em Jataí – Go) sobre o que ocorreu nas
137

manifestações em maio de 1968 e das reivindicações dos jovens da


atualidade. Para tanto uma intervenção em duas etapas foi realizada. Na
primeira etapa foram apresentados aos alunos, através de explanação,
imagens, vídeos e música, os acontecimentos deste ano. Na segunda etapa
os alunos foram instados a se expressarem, através da confecção de listas
de palavras que sintetizem os anseios da juventude dos anos 1960 e de
hoje, bem como cartazes, sobre as reivindicações atuais. As respostas
foram analisadas e os resultados serão apresentados no resumo
expandido.

Fascismo e Fascismos: Conceitos, Política Internacional e a


Formação de Professores em História

Marco Antônio Câmara de Sousa (UEG - Campus Itapuranga)

Este trabalho pretende buscar como o Fascismo Italiano (1922-1943) e a


Alemanha Nazista, expandida durante o Terceiro Reich (1933-1945),
puderam impactar e moldar de alguma maneira sua filosofia pelo mundo
político contemporâneo, ao momento em que se percebe, aspectos
ultranacionalistas e movimento de massas conservadoras, ainda presentes
no século XXI. Segundo Silva, K. Silva, M. (2009), as relações do fascismo
com o mundo atual são palpáveis, e poucos jovens tem plena percepção
dessas representatividades, em meio a tantos conflitos fundamentalistas,
sejam eles religiosos, políticos ou culturais. A partir de discussões
realizadas na Universidade Estadual de Goiás, Campus Itapuranga,
durante as aulas em História Contemporânea II, propomos refletir e
debater tal contexto histórico, desde a constituição dos Estados Nacionais
na Europa, ao período do Pós-Guerra, alicerçados em Hobsbawm (1994),
que permite uma conversa sobre a queda do liberalismo e aspectos que
levaram a formação das políticas fascistas; Hanna Arendt (2007), onde
temos uma dissecação e apresentação do totalitarismo; René Rémond
(1974), para pensarmos o contexto histórico do século XX, de maneira
simples, mas complementar e essencial; e a partir de Arruda (2000), para
pensarmos sobre os fascismos remanescentes da Europa durante e após a
Segunda Guerra Mundial. Com efeito, pensar como as manifestações e os
discursos, pelo mundo do século XXI, ainda podem estar presentes na
138

atual conjuntura, em casos como Charlottesville, na Virgínia, Estados


Unidos e em outros enclaves da geopolítica mundial, seria de suma
importância para acadêmicos e para a sociedade mundial. Por fim, temos
a reflexão de que, a importância do trabalho, se dá em um momento
controverso e ainda discutido, mas que interessa não somente a academia,
como também diversos aspectos de nossa sociedade e de futuros
professores em História. Partiremos do próprio Hobsbawm (1994) em seu
capítulo sobre "A queda do liberalismo", e em autores que discutem a
formação, didática e profissional, como Candau (2011) e Bitterncourt
(2004), onde buscaremos inferir como o profissional de História pode
relacionar tais conteúdos, humanamente indizíveis, junto a seus alunos.

O Processo de Militarização das escolas em Goiás

Patrícia Machado Alves (Universidade Estadual de Goiás)

Este trabalho analisa os significados presentes na prática do governo


estadual de Goiás de transformar escolas públicas da educação básica em
escolas administradas pela Polícia Militar. O processo de criação desse tipo
de escola é resultado da transferência de instituições de ensino básico para
a gestão da Polícia Militar de Goiás, por meio da Secretaria de Segurança
Pública. A intenção foi mostrar como esse movimento está modificando
a estrutura das escolas transferidas, as quais, se antes eram espaços
democráticos e de acesso para todos, passaram a se constituir como
estrutura militarizada e seletiva. Os colégios militares do estado de Goiás
surgiram por meio da lei nº 8.125, de 18 de junho de 1976 e pela portaria
nº 604 de 19 de novembro de 1998, que autorizaram a parceria da
Secretaria Estadual de Educação com a Secretaria de Segurança Pública
do Estado de Goiás. A partir de então, os militares foram autorizados a
assumir a gestão e a administração de um crescente número de escolas
públicas do estado. A criação de colégios desse tipo não é fenômeno
recente no Brasil, mas o governo do referido estado se destacou nos
últimos anos por começar a ampliar de maneira rápida um modelo de
escola que, até então, não tinha se difundido com tanta velocidade, o que
caracteriza uma política de massificação. A princípio, faz-se um breve
histórico da educação no Brasil e no estado de Goiás, para se compreender
139

a relação da educação com os acontecimentos políticos, sociais e


econômicos do país e do estado na contemporaneidade. Por meio desta
pesquisa busca-se demonstrar como esse movimento está expandindo e
modificando a estrutura das escolas transferidas. Se antes eram espaços
democráticos e de acesso para todos, passaram a se constituir como
estrutura militarizada e seletiva. Será realizada uma análise histórica para
mostrar que o ritmo frenético da instalação dos CPMG tem como pano
de fundo um projeto político promovido pelo governo de Goiás. Com a
meditação sobre a formação do Estado de Goiás, da Polícia Militar de
Goiás e da escola pública, é possível elucidar o enraizamento de uma
concepção militar de sociedade que se introduziu nas instituições e na
nossa cultura. Assim, é no território da escola pública goiana que se
encontra terreno fértil para um sistema militar de ensino. Trata-se de uma
pesquisa básica e explicativa, que se insere na categoria de pesquisa de tipo
levantamento. Entre as principais fontes de consulta, destacam-se a
legislação e a bibliografia existente sobre o tema.

“Hay gobierno? Soy contra”: anarquistas em Jataí (2006-


2010)

Thiago Pereira Coelho (UFG)

Esta comunicação pretende apresentar representações do que foi o


movimento anarquista em Jataí no período de 2006 a 2010. A pequena
cidade com pouco mais de 90 mil habitantes já teve, nas primeiras décadas
deste século, militantes anarquistas que contemporizaram a cena pública
com outras agremiações políticas. Os anarcos de Jataí não só se reunião
para discussões e leituras, mas para organizar atos políticos e editar
fanzines. Eles não criaram um órgão política centralizada na cidade, pois
são contra tal forma de poder, mas procuraram ocupar espaço no bloco
político tido como de esquerda. Com a ditadura militar a partir de 1964 a
militância anarquista praticamente desapareceu das ruas e atividades
políticas. Hoje, pesquisar o movimento anarquista é ter problemas em
encontrar fontes e registros da atuação, do que já foi, no passado,
inspiração e início da ação sindical no país. Com a ditadura militar a partir
dos anos de 1964 a militância anarquista praticamente desapareceu. Para
140

pensar o movimento anarquista hoje, temos dificuldades um pouco


maiores do que uma leitura tradicional da história do movimento
anarquista, porque os grandes grupos, as grandes organizações, foram
desmanteladas e após a repressão da ditadura o processo de reorganização
e as próprias possibilidades de organização foram modificadas. Hoje a
organização anarquista Socialismo Libertário se destaca no campo
político, o grupo faz parte da Coordenação Anarquista Brasileira que
conta com coletivos espalhados pelo país. O problema é que a vida real,
na economia capitalista está ligada, está submetida, às forças do mercado,
a força transforma tudo em mercadoria, inclusive as opiniões. Não basta
querer mudar a forma, tem que mudar a maneira da sociedade fazer
política, e isso não conseguimos por decreto, infelizmente por mais
generosa e bonita que seja a proposta anarquista. Como no passado o
anarquismo é um caminho de mudanças para diferentes grupos de
militantes, coletivos, movimentos sociais e manifestações de ruas. O
anarquismo coloca uma responsabilidade de ter de pensar e de ter de agir
conforme se expressa, pois ao contrário as palavras ficam vazias. As
palavras não tem sentido se não há atuação que as legitime-se, ao contrário
podem falar, podem bater palmas, fazer tudo bonito e acabar nisso.

Guerrilha do Araguaia: imprensa e representações de gênero

Jiordana Branquinho Silva (Universidade Federal de Goiás)

Entre os anos de 1972 e 1974, ocorre a Guerrilha do Araguaia,


empreendida por mulheres e homens, militantes do PCdoB, que se
insurgem contra a Ditadura Militar no Brasil. Os 69 militantes que
participaram da guerrilha, se dirigiram para o sul do estado do Pará, e norte
de Goiás, às margens do Rio Araguaia, com o intuito de instaurar uma
guerra revolucionária, rural, de base popular, se opondo à repressão,
perseguição política e as desigualdades sociais, postas no regime militar.
Do número total de participantes, 18 eram mulheres, jovens estudantes
em sua maioria, que romperam com a expectativa de papel de gênero
postas socialmente, que lhes restringia ao âmbito privado, como
coadjuvantes de homens e mesmo nas esquerdas tinham sua capacidade
de militância sempre posta à prova, desempenhando funções consideradas
141

de menor prestígio e liderança, conforme apontado pela historiografia.


Visto isso, essa comunicação tem como objetivo apresentar de que forma
a atuação dessas mulheres no movimento guerrilheiro, foi retratada pela
imprensa, analisando marcas de relações de gênero nas reportagens.
Adota-se a perspectiva de Joan Scott, segundo a qual gênero é um
elemento constitutivo de relações sociais, construído historicamente, que
implica relações de poder, implícitas nos papéis atribuídos socialmente aos
homens e às mulheres (1989). Os jornais que compõe as fontes desta
pesquisa são; a Folha de São Paulo, jornal de grande circulação nacional
que adota um posicionamento liberal, buscando assimilar tendências
ideológicas da classe média, mostrando-se favorável ao regime militar até
fins da década de 70 (NAPOLITANO, 2017), e o periódico Cinco de
Março, produzido e veiculado em Goiás, de caráter combativo, tecia
críticas aos governos federais e estaduais, porém, a partir de 1968 com o
endurecimento do regime militar e seu fechamento temporário pela
censura, assume um posicionamento mais ameno no tom das reportagens.
(BORGES, Rosana; LIMA, Angelita, 2008). O recorte temporal
compreende o período entre 1970 e 1985, referindo-se a chegada dos
primeiros militantes ao local, a concomitância da guerrilha (1972-1974) e
sua ressonância. Esta pesquisa vincula-se a perspectiva de História Política
renovada, considerando a importância de integrar outros atores do jogo
político às produções historiográficas, e não mais, restringindo-se aos
pequenos grupos privilegiados. (REMOND, René. 2003).

Uma análise bibliográfica enfocando as novas organizações


sociais a partir das ocupações estudantis de 2015 e 2016

Fernando Fernandes Alencar (Universidade Federal de Jataí)

O presente trabalho tem por objetivo enfocar as novas formas de


organização social que surgiram a partir das mobilizações e ocupações
estudantis organizadas em todo o território brasileiro durante o período
de 2015 e 2016. O estudo é de cunho bibliográfico. Nessa abordagem
buscaremos refletir de que maneira os estudantes pautaram e agiram
contra as reformas educacionais e econômicas (PEC 55) do período. A
primeira pauta de mobilização do movimento estudantil foi o fato da
142

reforma do ensino médio, proposta pelo governo de São Paulo


primeiramente, trazer uma forte conotação liberal com o apoio do Banco
Mundial, do FMI e da Unesco mas, principalmente, pela ausência de
participação ou consulta à população. Dessa maneira, os estudantes
passaram a se posicionar como agentes protagonistas, por meio das
ocupações, com suas reivindicações. Esses episódios foram fartamente
divulgados pela imprensa brasileira e tem se tornado objetivo de análise
das Ciências Humanas deste então. O ato de ocupação não se trata de
novidade no cenário de mobilizações sociais brasileiras. Muito
experimentada e utilizada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terras
(MST) como meio de resistência e exigência de seus direitos, foi também
o meio encontrado pelo Movimento Estudantil frente à perda do
reconhecimento de instituições tidas como essenciais, mas que falharam
no reconhecimento de suas necessidades. A partir das vivências
construídas dentro dos espaços ocupados das escolas e universidades,
assim como, em suas relações com a conjuntura política no Brasil,
impeachment da presidente da república entre outros, é possível notar que
novas estratégias de luta, a construção de novos espaços de debates e
novas práticas sociais foram tidas e que precisam ser elucidadas para o
entendimento desse momento histórico.

Programa Escola Sem Partido: as falácias ideológicas sobre


a “Não Ideologização da Escola”

Alessandra Ribeiro Santos (Universidade Federal de Goiás - Regional


Jatai)

O presente trabalho é uma pesquisa em andamento, e objetiva desvelar as


falácias ideológicas sobre a “não ideologização da escola”. Tal pesquisa
faz um estudo teórico e histórico do Programa Escola Sem Partido
(PESP) através de livros e artigos em autores como Macedo (2014), Penna
(2016), Puggina (2017), Reis (2016), Souza (2016), Scott (2007), Fonte
(2010), Frigoto (2016), além da análise de Projetos-Leis do PESP
apresentado em Estados e municípios e Câmara Federal. Também se faz
uma análise fílmica para aprofundar e apresentar o macarthismo que
fundamenta as bases históricas do PESP. A ideia de estudar o PESP surgiu
143

após assistir ao Filme “Ponte dos Espiões” (2015), de Steven Spielberg. O


filme relata o período da Guerra Fria, na qual havia grande repercussão da
espionagem. Trata de uma guerra de conflitos ideológicos entre o
capitalismo (Estados Unidos da América) e o socialismo (União
Soviética). Este estudo pretende desvelar a seguinte questão: Como a
falácia do Programa Escola Sem Partido se apresenta nos projetos de lei
em tramitação nos Estados e Municípios brasileiros? O objetivo é
desconstruir as falácias ideológicas sobre a “não ideologização da escola”,
fundamentando a teoria e ideologia que determinam o papel PESP, ao
conceituar o macarthismo e sua relação histórica e filosófica com o PESP.
Duarte Júnior (2004) ao conceituar realidade, esclarece os papéis sociais
que determinam os modos de comportamentos, explica como se
dissemina os mecanismos para acabar com as opiniões divergentes
conservando a crítica do que deve parecer o real e assim se questiona a
definição de realidade colocando - a em "xeque". Assim acontece no atual
contexto político do Brasil e, especialmente em Jataí, onde foi aprovada a
Lei municipal Nº 3.955/2017 do PESP, sem passar por nenhuma
discussão com a sociedade civil jataiense. O Programa Escola Sem Partido
vai muito além de uma “simples proposta” que visa tornar obrigatória a
afixação de um cartaz em todas as salas de aula do Ensino Fundamental e
Médio, A Lei não é tão inofensiva como parece e, sua implantação afetará
diretamente a carreira do docente, enfraquecendo mais ainda a Educação
no Brasil, impedindo o debate e silenciando os professores e as
professoras. As instituições das sociedades capitalistas possuem
mecanismos estabilizadores que as protegem de mudanças. Nesse caso,
uma escola que está sob a égide da Lei do PESP funciona como um
mecanismo de controle social, assegurando que as crianças e jovens
compartilhem de uma mesma interpretação da realidade.
144

Raça e violência: considerações iniciais sobre a raça das


vítimas e agressores de violência doméstica na Comarca de
Jataí/GO

Alisson Carvalho Ferreira Lima (Centro de Ensino Superior de Jataí


(Cesut))

A Lei Federal 11.340/2006, conhecida popularmente como Lei Maria da


Penha, é fruto do compromisso assumido pelo Brasil em tratados
internacionais, que visa coibir qualquer forma de violência contra as
mulheres. Dentre as inovações previstas nessa lei, há a criação dos juizados
especializados de violência doméstica e familiar contra as mulheres,
ansiando uma “humanização” do poder judiciário diante esses casos. O
presente trabalho é fruto do projeto de pesquisa e extensão denominado
“Mulheres violentadas: mapeando a violência doméstica na Comarca de
Jataí/GO” que, em parceria com o Juizado especial de violência doméstica
nessa comuna, pretende, em um primeiro momento, traçar o perfil da
vítima e do agressor para, posteriormente, palestras e ações serem
destinadas à comunidade acerca desse tema. A fórmula metodológica
utilizada aprecia uma pesquisa de campo, através da análise dos processos
que tramitam no referido juizado, não utilizando aqueles que se encontram
arquivados. Também valeremos do método explanatório, a fim de uma
maior familiarização com o objeto da pesquisa. Ainda utilizaremos livros,
artigos e legislações sobre a matéria, bem como sítios da Internet, de
forma complementar. Para fins deste trabalho apresentaremos os
resultados parciais referentes a raça/cor de 263 (duzentos e sessenta e três)
vítimas e 252 (duzentos e cinquenta e dois) agressores – vale ressaltar que
essa divergência ocorre, pois em um determinado processo pode haver
mais de uma pessoa figurando como vítima ou como agressor -, sendo
eles: vítimas: 24,7% (vinte e quatro vírgula sete por cento) se
denominaram como pardas; 15,6% (quinze vírgula seis por cento) como
brancas; 5,3% (cinco vírgula três por cento) como negras; 1,1% (um
vírgula um por cento) como amarelas; 0,4% (zero vírgula quatro por
centro) como morenas; e 52,8% (cinquenta e dois vírgula oito por cento)
dos casos não constava nenhuma informação. Já, quanto aos agressores,
obtivemos: 26,1% (vinte e seis vírgula um por cento) se denominaram
como pardos; 18,2% (dezoito vírgula e dois por cento) como brancos;
145

6,7% (seis vírgula sete por cento) como negros; 0,4% (zero vírgula quatro
por cento) como amarelos; 0,4% (zero vírgula quatro por cento) como
morenos; e em 48% (quarenta e oito por cento) dos processos analisados
não constava nenhuma informação. Até o término dessa pesquisa, em
agosto de 2018, pretende-se analisar todos os processos que estão
tramitando no Juizado de violência doméstica e familiar dessa
circunscrição, para que possamos afirmar, com um maior número de
dados, o perfil da vítima e do agressor, a fim de que esses dados auxiliem
na elaboração de políticas públicas com um viés de gênero, na luta contra
o patriarcado.
146

SIMPÓSIOS TEMÁTICOS
147

SIMPÓSIO TEMÁTICO 01
A MORTE E O MORRER NO BRASIL E NA IBERO-
AMÉRICA

Coordenadores:
Deuzair José da Silva (PUC-GO)
Maria Elízia Borges (PPH-UFG)

Os estudos sobre os ritos de morte, o morrer, os cemitérios e a história


das doenças tem crescido continuamente no meio acadêmico. Antes uma
preocupação de antropólogos, esses tem merecido a atenção de
pesquisadores em diversas áreas. Os temas tem avançado com a
Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais e o grupo de pesquisa
registrado no CNPq sobre a coordenação de Cláudia Rodrigues
(UNIRIO) e membros de universidades brasileiras e da América Latina.
Isso tem oportunizado um excelente canal de intercâmbio entre
pesquisadores do Brasil e de várias partes do mundo, especialmente da
América Latina. Esse ST tem por objetivo receber propostas de trabalho
que envolva a temática da morte, do morrer, sobre o perfil cemitérios
brasileiros e também sobre saúde e higienismo. As discussões são amplas,
desde os ritos de passagem às preocupações com além-túmulo; as
doutrinas higienistas e de saúde pública que contribuíram para a criação
dos cemitérios fora das urbes; as memórias instituídas nos epitáfios, nas
inscrições e nas construções tumulares enquanto detentoras de memória
artística, de vida social e familiar.
148

O tema da Pietà como suporte da fé cristã na arte funerária

Maristela Carneiro (UFMT)

Em diversos tempos e campos da atividade humana, no âmbito da arte,


da história e da religiosidade, por exemplo, multiplicam-se exemplos do
uso dos corpos, muitas vezes despidos. Uma das vertentes em que o uso
da nudez humana se evidencia é a que se associa ao cristianismo,
assumindo desde a narrativa de Adão um significado simbólico muito
forte. A nudez fez parte da mitologia cristã desde os primórdios, inclusive
na figuração do próprio Cristo, despido quando batizado, crucificado e
deposto da cruz. A representação da humanidade de Cristo varia
conforme as intenções litúrgicas de cada religião, o que também influencia
na extensão do uso da nudez que se faz de sua figura. A diversidade de
elementos que compõe especificamente a ornamentação funerária em um
cemitério, espaço no qual esse trabalho se circunscreve, permite a
identificação das concepções religiosas presentes no meio social no qual o
mesmo está inserido. Isto posto, este trabalho propõe-se a perscrutar
aspectos da representação do tema da Pietà provenientes do acervo dos
cemitérios paulistanos. Este tema cristão figura a humanização da dor e
do sofrimento, tanto da mãe quanto do filho morto. Para tanto, foram
selecionadas três obras do acervo dos cemitérios paulistas, quais sejam O
Sepultamento ou Mise au Tombeau, de Victor Brecheret (1894-1955);
Pietà, de José Cucé (1900-1961) e, por fim, Pietà, de Galileo Emendabili
(1898-1974). Com efeito, a Pietà, ou a imagem de Maria com o Jesus nos
braços, após este ter sido retirado da cruz, é uma das formas mais
recorrentes de representação artística do sofrimento materno – pode ser
também denominada como Mater Dolorosa. É uma composição muito
comum nos cemitérios, por ser a representação da mãe de Cristo mais
próxima à finitude. Não obstante ser a Pietà michelangelesca ao final do
século XV uma das mais célebres composições do tema, não é a única. As
sutilezas da representação variam de acordo com a versão do artista,
algumas imprimindo mais angústia à expressão de Maria, outras
concedendo-lhe uma fisionomia mais severa. É, entretanto, subjacente a
todas elas o sofrimento da perda. No caso específico das esculturas ora
analisadas, tratam-se de imagens devocionais convertidas em recurso
funerário. À medida em que a pietà é tomada como paradigmática, coloca-
149

se como patamar para a reflexão da finitude, da humanização de Cristo,


homem igual aos demais homens, perecível e vulnerável, como todos. Ao
mesmo tempo, pode servir como um lembrete da superação da morte e a
possibilidade de uma nova vida, para aqueles que creem.

Interferência dos Mortos na Existência dos Vivos (Análise


da Viuvez feminina nas Ordenações Filipinas)

Lana Sato de Moraes (Universidade de Brasília)

A sociedade do período colonial era estruturada por uma forte


hierarquização social, racial e de gênero e tal hierarquização também
perpassava a morte e os ritos e deveres que a cercavam. O objetivo desse
trabalho é analisar os deveres e direitos obtidos pelas mulheres da América
Lusa após a morte de seu marido, observando principalmente o tipo de
conduta que era exigido dessas mulheres após sua viuvez. Desta forma, o
que se propõe é analisar a forma que a morte interferia na existência das
pessoas que continuavam vivas. A fonte principal desse trabalho são as
Ordenações Filipinas, que era uma compilação das leis gerais de Portugal
que também eram utilizadas em suas colônias. No Brasil essa ordenação,
mesmo com diversas alterações, continuou vigente até o aparecimento do
Código Civil de 1916. Portanto, analisar as Ordenações Filipinas significa
ter contato com uma tradição legislativa que permaneceu por muitos
séculos regendo o direito brasileiro. O foco de análise será em observar
como a viuvez aparecia dentro dessa tradição e o que era ou não exigido
das pessoas do período colonial após o falecimento de seus cônjuges. Vale
destacar que não se acredita na possibilidade do esgotamento dos limites
legais da viuvez, visto que há de se considerar as práticas sociais vigentes,
as ações dos agentes históricos e como, empiricamente, era a aplicação ou
não dessa legislação nos diferentes territórios da América Lusa, porém
também se acredita que é um bom ponto inicial de análise. Ressalta-se que
a viuvez era um fenômeno fortemente marcado por diferenciações de
gênero e social. Perder o cônjuge não significava o mesmo para os homens
e mulheres no Antigo Regime, havia um peso distinto para as construções
sociais sobre as viúvas e viúvos. Nessa época, a mulher era marcada mais
extensamente pela viuvez do que o homem, a viuvez feminina era muito
150

mais regulamentada e fiscalizada do que a masculina e também tendia a


ter uma durabilidade maior. Uma das provas dessa maior regulamentação
da viuvez feminina durante o período colonial é o fato de todas as leis
existentes nas Ordenações Filipinas sobre viuvez tinha como referentes as
viúvas. Desta forma, o que se pretende nessa comunicação é analisar como
a morte influenciava a vida daqueles que continuavam vivos, o que a
legislação exigia das mulheres após o falecimento de seus maridos, qual
tipo de conduta que era cobrado delas e que deveres e direitos elas
adquiriam após a morte de seus cônjuges.

Crítica perspectivada aos estudos da morte: imagens,


conceitos e os usos na ciência

Samuel Campos Vaz (CEAC)

O presente texto mostra como os estudos da morte tem-se desenvolvido


cientificamente no Brasil, estes delimitam-se por pesquisas voltadas à
história, ciências sociais e artes. Com ênfase na materialidade e nas
descrições, os documentos podem ser relacionados como testamentos,
inventários, certidões de óbitos e imagens estatuárias e iconográficas. As
interpretações, os levantamentos descritivos que consta de: medições de
peças, quantidade, técnicas, materiais usados entre outras coisas mais. Para
isso utilizo as referências de teses e dissertações defendidas no últimos
anos sobre os estudos da morte e cemiteriais, especialmente, no estado de
Goiás, sudeste e sul do país. O ponto de partida surge com a interpretação
das leituras de Robert Darnton e Philippe Aries. Estas interpretações
conduzem para algumas reflexões voltadas aos conceitos ligados à morte.
A motivação seria os conceitos de “alta cultura” e “baixa cultura” que
permitem pensar na construção das histórias oficiais como sendo únicas.
Por outro lado, a cultura popular, conforme definida por Darnton, traz
um arcabouço para aplicar ferramentas diferentes das usadas por Aries,
para uso das mesmas, não é necessário que ambas se rompam, mas que
possamos compreender que ambas utilizam aspectos diferentes para a
análise da história. Os estudos da morte, assim como os estudos
cemiteriais e suas aplicações conceituais têm mostrado resultados com
tendência a unilateralidade da história. Esta pesquisa se apropriou do
151

confronto de dois autores da história, como ironia para mostrar as


perspectivas criadas para os métodos da história, dando a possibilidade de
refletir a ideia de encapsulamento de métodos, de técnicas, de informações
enquanto verdades que podem distorcer o rumo das histórias. A
impressão sobre os estudos da morte e o morrer é que estes seguem um
mesmo “manual”, as distinções entre um e outro, relacionadas aos
estudos, cemiteriais partem de uma mesma condição. Esta crítica nos
permite pensar o objeto de outra forma, trazendo novas compreensões e
as aplicando na ciência. A morte e o morrer no século XIX e a temática
cemitério no século XX tem sido alvo de pesquisas atualmente. Com esse
trabalho espero contribuir com reflexões para a nossa história.

A iconografia funerária no Brasil: um vasto leque de


referências artísticas

Maria Elízia Borges (PPH-UFG)

O tabu sobre a “cidade dos mortos” persiste desde a obrigatoriedade da


sua instalação no século XIX até os dias atuais. Todavia ele foi se tornando
fonte de pesquisa para algumas áreas do conhecimento, e coube aos
historiadores da Nova História Francesa o pioneirismo no estudo do
significado das atitudes dos homens diante da morte. A partir da década
de 1980 a historiografia brasileira também inicia seus estudos sobre a
História das Mentalidades. Deste então os programas de pós-graduação
em História vêm gradativamente ampliando o estudo dos cemitérios no
Brasil. Quanto aos historiadores da arte, são poucos os envolvidos no
estudo da arte funerária. Percebemos que temos dificuldade de relacionar
os estilos com os temas, pois nem sempre eles caminham juntos. É
fundamental alicerçarmo-nos nos postulados da história das mentalidades,
da história da arte, da antropologia visual e da história da morte para
compreendermos até que ponto os diferentes estilos artísticos –
vernáculos, ecléticos, art nouveau, art déco e modernos – estão assentados
neste espaço peculiar e o quanto estas visualidades contribuem para
reforçar o sentimento de perda e de dor cristalizado no fim do século XIX
e início do século XX. Inicialmente destacaremos os métodos
iconográficos, iconológicos e em seguida mencionamos o anacronomismo
152

como leituras de imagens que contribuem para explicitar historiografia da


arte funerária no Brasil. Como olhar a natureza dos cemitérios? Quais os
cemitérios europeus que se tornaram referências para as construções dos
cemitérios “Museu a céu aberto” nas metrópoles brasileiras? Quais foram
os primeiros cemitérios instalados no Brasil meados do século XIX? Quais
foram os primeiros pesquisadores do Brasil a abordar esta temática? Ficou
assim consumada a proliferação dos cemitérios secularizados no Brasil
com a Proclamação da República (1890). Analisaremos alguns túmulos
que consideramos representativos dentro do seu espaço territorial como
os edificados em cemitérios de pequena estrutura, de médio porte e em
cemitérios metropolitanos. Por ultimo exibiremos alguns modos
funcionais que permeiam o território da morte com ações educativas
(visitas guiadas), ações de preservação patrimonial (Workshop, memorial
funerário), atividades de comunicação acadêmica (folders, exposições
fotográficas, eventos da ABEC). Estas iniciativas contribuem para
consolidar os cemitérios brasileiros como um patrimônio cultural a ser
preservado.

A semântica visual do Cemitério São Miguel da Cidade de


Goiás e a perda dos elementos iconográficos do século XIX

Ludimília Justino de Melo Vaz (Pontifícia Universidade Católica de


Goiás)

A proposta desse texto é refletir sobre as referências do passado expostas


para o consumo visual no espaço da morte de uma cidade que tem o título
de Patrimônio Histórico da Humanidade, ou seja, o Cemitério São Miguel
da Cidade de Goiás, enfocando a dinâmica das mudanças arquitetônicas e
estruturais dos túmulos que registram a passagem do tempo e o seu
significado na semântica visual. A patrimonialização deste centro urbano
incluiu diversas edificações que fazem referência à sua formação no século
XVIII e aos períodos seguintes. O Cemitério São Miguel, inaugurado em
1858, compõe-se de quadras e alamedas que mantém a planta original,
onde o edifício administrativo e a pequena capela em formato semicircular
delimitam o início e o fim da área cemiterial do século XIX, destacando-
se de outras etapas das ampliações da área total do cemitério. Construído
153

como medida medico-sanitarista, muda hábitos culturais de enterrar


dentro das igrejas e sob o cuidado das irmandades. Apesar de sua
significância histórica, não foi inserido na lista das edificações
patrimonializadas. Neste espaço, existem túmulos e jazigos do século XIX
que oferecem uma ideia do contexto social que figurava naquele
momento. Destacam-se túmulos individuais e jazigos familiares que
remetem à representação individual e social, no que tange à identidade
social dos papéis assumidos em vida e as relações de parentesco e
afetividades, bem como, de figuras que se destacaram na história política
e social da cidade. Considera-se, no contexto patrimonial, que os túmulos
do século XIX e início do século XX, bem como a antiga planta do
cemitério estão cheios de significâncias que reforçam o patrimônio
histórico de um momento de profunda mudança no modo de enterrar.
Por outro lado, é possível observar as mudanças arquitetônicas e
estruturais dos túmulos que refletem a industrialização e comércio,
reformulando o espaço e dando ao cemitério uma semântica visual
própria. Nesse sentido, é possível distinguir uso de inovações, nos
materiais e nos projetos tumulares. De modo que a paisagem do cemitério
vai sendo construída de maneira dinâmica. Sob essa perspectiva discute-
se as contradições da cidade patrimonializada que sustenta a intocabilidade
das edificações e também de certos costumes, pretendendo congelar o
passado, enquanto que as característica peculiares do século XIX no
cemitério vão se perdendo. Por trás desse movimento de perda de
referências e memória encontram-se as especulações das sepulturas, que
são vendidas para dar lugar à novas; e as reformas com a troca das
decorações iconográficas referências do passado.

Uma Suástica no Cemitério São Miguel da Cidade de Goiás:


Reflexões sobre um Símbolo Envenenado

Frederico Tadeu Gondim (PUC-GO)

Este trabalho tem por objeto de estudo uma suástica inscrita na lápide de
um indivíduo austríaco, sepultado no Cemitério São Miguel da cidade de
Goiás, durante a década de 1930. A pesquisa busca refletir sobre o
contraste estabelecido entre este símbolo e a realidade sagrada do
154

cemitério, assim como as implicações dessa representação no interior do


Brasil, na década de 1930 e na atualidade. Promovo um levantamento
histórico, para pensar a ressignificação que o símbolo sofreu durante a
Alemanha nazista e o que isso implicou na cidade de Goiás. Realizo
também um levantamento amostral de sepultamentos da mesma quadra
desse enterramento, para pensar em outros fatores que influenciam na
visibilidade e conservação da lápide com a suástica. Concluo que o
símbolo foi tolerado dentro da ordem religiosa do cemitério, e ainda que,
se na década de 1930, a suástica estava incorporando novos significados a
partir de um nacionalismo exaltado, o símbolo fixou-se no imaginário
social atual como sendo exclusivamente nazista, "envenenado" pela
atrocidade promovida na Segunda Guerra Mundial, apesar de sua
existência milenar na história da humanidade.

A representação da morte em Pires do Rio: uma análise a


partir da arquitetura tumular

Eduardo Soares de Oliveira (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE


GOIÁS)

O presente trabalho visa estudar o fenômeno de mudança de imaginário


na sociedade goiana, partindo para tanto de um estudo de caso tendo
como referência os dois cemitérios da cidade de Pires do Rio, sendo que
o mais antigo, apresentando um padrão mais tradicional e o outro
cemitério, mais novo, um padrão mais moderno. A morte neste sentido
deverá ser compreendida como um parâmetro para compreensão do papel
que o imaginário social e a memória exercem sobre uma sociedade,
partindo dos valores que moldam a visão de mundo de um grupo social.
Utilizaremos como objeto de análise da estética tumular destes cemitérios
que nos servirá como parâmetro para percebermos a mudança de
comportamento desta sociedade goiana, neste caso especificamente a
sociedade piresina. Sendo assim, podemos identificar possíveis mudanças
e permanências na sociedade em questão partindo do ponto de vista
teórico, de referenciais tais como: BORGES(2002); COELHO(1991);
MOTTA(2008); VOLVELLE(1997); BAKSO(1999), DURAND(1989).
Logo, buscar-se-á identificar, caracterizar e demonstrar a importância da
155

estética tumular para percepção das mudanças na sociedade pós-moderna,


assim como a importância desta perspectiva para a compreensão do
imaginário da morte na sociedade pós-moderna, assim como suas relações
e capacidade de adaptação aos novos paradigmas culturais empreendidos
por esta sociedade, assim como as suas permanências e rupturas
identificadas nesta pesquisa.

SEM ESSE ASSISTENTE O CAMARADA NÃO TINHA


O DIREITO DE EXTRAMUNDAR-SE: o rito de
passagem da morte em “O pito aceso” de Pedro Gomes

Deuzair José da Silva (PUC-GO)

O propósito deste trabalho é debater o rito de passagem da morte,


tomando como ponto de partida a narrativa de Pedro Gomes na obra “O
Pito Aceso”. Falando sobre as práticas de separação ocorridos na região
do arraial de Rio Preto, ele relata os ritos executados no momento da
morte, de modo especial, enfatiza a atuação do velho Joaquim Mateus, o
mais habilitado e requisitado para ajudar a morrer. “Com uma calma
extraordinária, entrava em função; ordenava que se reunisse o povaréu na
sala principal do sítio, para a ladainha, que se desenrolava apenas quando
o morrente possuía alguma cousa, recursos pecuniários; se o camarada era
pobre, ima mesmo sem ladainha e sem muitas outras cerimônias a que o
indivíduo pobre não tinha direito e nem dela precisava, segundo o seu
esclarecido modo de ver as cousas, porque, dizia ele, os pobres têm
garantido o reino dos céus. Ordenava que se entoasse a reza e entrava para
o quarto do enfermo, a-fim-de ajuda-lo a morrer” (GOMES, 1942, p. 29-
30. Grifos do autor). Os ritos são para van Gennep e Riviere um item
muito importante na vida das comunidades, esses garantem mais
segurança na continuidade “normal” desses. A execução de todas as ações
concede a essas pessoas um sentimento de estabilidade, fiadoras de certa
ordem de existência. Os ritos são modelos exemplares que reduzem os
riscos de quebra da estrutura da sociedade. “À primeira vista poderia
parecer que nas cerimônias funerárias o lugar mais importante deveria
estar sempre reservado aos rituais de separação, enquanto que os rituais
de margem e de agregação encontravam-se pouco desenvolvidos. Porém,
156

o estudo dos fatos revela que de modo algum ocorre assim, e que, pelo
contrário, os rituais de separação são pouco numerosos e mais simples do
que os rituais de margem, que têm tal duração e complexidade, obrigam
às vezes a reconhecer uma espécie de autonomia e que, em resumo, os
rituais de agregação do morto ao mundo dos mortos são entre todos os
rituais funerários, os mais elaborados e aqueles aos quais se atribui a maior
importância” (van GENNEP, 2009, p. 204. Grifos e tradução meus). Eles
dão sustentação e significado à vida. A realidade é “vivida” na reprodução
e na integração, àquilo que não porta um padrão exemplar é carente de
sentido e significação e é isto que garante a conservação e subsistência do
grupo. A importância dos ritos pode ser comprovada também na
preocupação demonstrada pelo testador, como também das instituições, -
Igreja e Estado -.

O religioso diante dos empreendimentos Cemitérios


Parques no Brasil Contemporâneo

Gilson Soares Rosa (UEG)

O trabalho propõe um levantamento histórico da morte no ocidente com


direcionamento para o Brasil contemporâneo, e por meio deste direcionar
o olhar para a manifestação do religioso nos elementos e espaços
destinados à morte. Busca-se compreender, a partir dos grandes
empreendimentos Cemitérios Parques e sua publicidade, as permanências
e rupturas em relação aos elementos do religioso ao longo do tempo no
Brasil, acreditando inicialmente que os espaços relacionados à morte e ao
morto, antes manifestamente católicos e posteriormente, teoricamente
laicos, ao longo do século XX vão se abrindo ao interesse privado e do
mercado e passam por uma reconfiguração do religioso. A hipótese aqui
é que a morte se transforma em mercadoria e os seus espaços, para se
tornarem economicamente viáveis, passam por um processo de
encobrimento (dissimulação) do religioso. Alguns pesquisadores tem se
debruçado sobre a temática tentando dar respostas aos questionamentos
colocados pelo homem. Entre eles vale destacar Philippe Ariès, Norbert
Elias, Fernando Catroga, Edgar Morin, entre outros, não menos
importantes. Philippe Ariès aborda a questão das atitudes diante da morte
157

sob a ótica da sincronia e da diacronia, pois enquanto algumas atitudes


permanecem praticamente inalteradas, outras surgem em determinados
momentos e são peculiares a determinado período histórico. Ariès ressalta
a morte em certas circunstancias e enumera exemplos diversos de como é
tratada ao longo dos séculos, desde a antiguidade onde o morto precisa
ser mantido a distancia para não perturbar os vivos, até o culto aos
mártires, protetores e a transformação dos cemitérios em áreas publicas,
pontos de encontros reunião e até de comércio. Enfim, existe uma vasta
literatura que visitam a temática da morte e direcionam o nosso olhar
rumo ao objeto do mercado da morte e as representações religiosas que
se construiu em seu entorno. Metodologicamente faz-se um revisionismo
bibliográfico visando um levantamento do que foi a priori produzido em
torno do objeto e assim auxiliar na aplicação do método de forma mais
apropriada, assim como no conhecimento das variáveis da pesquisa.
Posteriormente será levantado um conjunto de peças publicitárias,
regimentos, resoluções do CONAMA e projetos de espaços memoriais
que serão base de uma Pesquisa documental. Acredita-se que a análise
documental constitui uma técnica importante na pesquisa qualitativa, seja
complementando informações obtidas por outras técnicas, seja
desvelando aspectos novos de um tema ou problema e trazendo respostas
a questões particulares que não podem ser quantificadas como o universo
de significados, de motivos, de aspirações, de crenças, de valores e
expressões religiosas.

A Última casa. Materiais e técnicas construtivas no


cemitério púbico Santo Antônio em Cacoal/RO

Andressa Zanmpoli (UNESC)


Jamille Coelho Barbosa (UNESC)

A noção de habitação pode ser sintetizada através do vocábulo casa. Ela


é o que protege o homem do meio onde vive (MIGUEL, 2011). Desde os
primórdios da história das civilizações a casa buscou abrigar algo muito
frágil: a vida. Na ausência da mesma pode-se dizer que é a sepultura que
assume esse papel de proteção e abrigo, sendo o cemitério comumente
referido como local que abriga as múltiplas “últimas casas”. O objetivo do
158

presente trabalho é elencar a espacialidade, os materiais (acabamento e


revestimento) e as técnicas construtivas utilizadas nas construções
tumulares do cemitério público Santo Antônio na cidade de Cacoal/ RO,
de modo a relacioná-los com os mesmos parâmetros espaciais e
construtivos utilizados na cidade, em especial às definições relativas ao
espaço urbano (rua, lote, quadra) e unidades habitacionais (as casas),
configurando duas escalas de análise. A pesquisa fez uso de métodos
qualitativos, que irão listar os aspectos espaciais do cemitério e
quantitativos, relativos à tipologia e a materialidade das construções
tumulares. O Cemitério Santo Antônio foi criado em 1975 devido à
saturação do espaço destinado ao sepultamento em um antigo cemitério
público, localizado às margens da BR 364, sendo os restos mortais
traslados para a nova localidade (informação verbal). A análise do material
até então levantado sugere uma ocupação de forma radial, que visava
garantir a comunicação entre as duas grandes avenidas nos arrabaldes,
desviando assim o percurso do cortejo fúnebre da alameda principal, que
geralmente irá configurar um eixo com a presença de elementos
denominados de marcos, nesse caso materializados no cruzeiro
(CULLEN, 1971), evidenciando, além disso, as formas de acesso e
entradas e estabelecendo relações com as vias (CHING, 2002). O
cemitério público possui na maioria de suas construções tumulares as
seguintes tipologias (CASTRO, 2014): jazigos, túmulo, alguns mausoléus
e poucas gavetas, embora no início fossem comuns as covas rasas, hoje
não mais encontradas (informação verbal). Verificou-se então que essas
construções tumulares possuem a assinatura de construtores locais, prática
comum em cidades do interior (CYMBALISTA, 2001). Portanto, o
trabalho de natureza aplicada propõe através de pesquisa de campo
realizar entrevistas com tais construtores e construir uma base de dados
SIG - Sistema de Informação Geográfica, fazendo uso do software ArcGis
para georeferenciar e inventariar as construções tumulares, realizando
assim as análises quantitativas. Dessa forma, será possível extrair relações
entre a unidade tumular caracterizando técnicas e parâmetros construtivos
comuns no momento da criação da cidade e do cemitério.
159

Arte funerária do meio do mundo: um passeio pelos


cemitérios amapaenses

Tiago Varges da silva (Governo do Estado do Amapá)

Os cemitérios do Estado do Amapá são formados por uma pluralidade de


túmulos caracterizados por sua arte funerária vernacular bastante
diversificada no uso de materiais como madeira e pedra. Nestes
predominam elementos da cultura e da arte tradicional ribeirinha, dos
homens e mulheres que colonizaram os rincões da imensidão da floresta
Amazônica. Mas há, também, elementos de diversas nacionalidades que
por distintas circunstâncias históricas se estabeleceram no território
amapaense entre os séculos XIX e XX, e que deixaram nestes espaços
elementos de sua arte funerária. A presente comunicação tem por objetivo
apresentar parte deste patrimônio da cultura material amapaense. Os
cemitérios do Estado do Amapá podem ser divididos em dois grupos: os
cemitérios públicos e os cemitérios comunitários. O primeiro grupo é
composto pelas necrópoles municipais, israelitas e militar; o segundo
grupo é constituído pelos cemitérios quilombolas e ribeirinhos. A partir
de 2016, iniciei o levantamento dos cemitérios secularizados do Estado do
Amapá. Há cemitérios que se encontram abandonados ou completamente
desativados, em locais de difícil acesso, sem nenhum registro de
localização. Até o momento temos o registro de 55 cemitérios de 14 dos
16 Municípios do Estado. Com base no levantamento inicial, é possível
perceber que os cemitérios amapaenses apresentam uma característica
comum que é o uso acentuado de madeira como material principal para
confecção de sua arte funerária. A disponibilidade em abundância da
madeira torna este material acessível e bastante utilizado na construção
civil da região, igualmente na arquitetura funerária. Contudo, o uso da
madeira, nestes casos, atende muito mais a uma necessidade econômica
do que ao desejo pessoal pelo material, pois embora a preferência seja pela
alvenaria ornamentada com mármore e porcelanato, as limitações
econômicas de parte considerável da população torna a madeira a opção
mais acessível, tanto na vida, para construção da habitação; quanto na
morte, para a arquitetura tumular. Em decorrência da fugaz durabilidade
da madeira, é comum a substituição dos túmulos em períodos regulares.
Estes túmulos são chamados de caixeiros, em datas especiais, como dia de
160

Finados, são retocados pelos familiares ou substituídos por completo.


Eles estão presentes em todo o Estado, porém, há singularidades
significativas de uma região para outra, na maneira como são construídos.
Existem três modelos predominantes: o trançado, o gradeado e o simples,
chamado somente de caixeiro. Os cemitérios não possuem esculturas em
mármore, nem mausoléus suntuosos, mas apresentam o que há de mais
original na arte popular amapaense, constituindo fontes privilegiadas para
o conhecimento social e cultura desta sociedade.
161

SIMPÓSIO TEMÁTICO 02
A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER, UMA
VIOLÊNCIA DE GÊNERO: UMA ANÁLISE DE
CLASSE, GÊNERO E RAÇA

Coordenadores:
Andréa da Rocha Rodrigues Pereira Barbosa (Universidade Estadual De
Feira de Santana)

A violência é sempre fruto de ações agressivas que podem se manifestar


através de palavras e/ou atos. E a agressividade, assim como outras
emoções humanas, é socialmente controlada. Como lembra Georges
Vigarello (1998, p. 17), nas sociedades tradicionais do Ocidente era muito
difícil separar a agressividade decorrente dos delitos sexuais dos demais
tipos de agressividade, pois somente com o desenrolar do processo
civilizatório é que se intensificou a elaboração de uma infinidade de regras
e interdições capazes de manter um controle mais eficiente sobre as
emoções das pessoas. Apesar disso, o controle sobre a agressividade nem
sempre foi eficiente e apresentou vários deslocamentos, sempre marcados
por uma estrutura patriarcal, misógina e machista. Assim, a violência é
resultado da manifestação da agressividade humana e, por isso mesmo, é
social e historicamente construída. Na sociedade contemporânea, por
exemplo, a violência é tipificada em várias categorias; tais como, violência
sexual, física e simbólica (BOURDIEU, 2005). Tais violências, em geral,
são definidas e/ou intensificadas pelas assimetrias de gênero presentes nas
sociedades e fazem parte da vida de inúmeras mulheres (cis e trân) de
diferentes estratos sociais e étnicos e de diferenças fases geracionais. O
objetivo deste Simpósio, portanto, é reunir estudos que discutam os
processos de exclusão e de situações de violência física, sexual e simbólica
que afetam as mulheres em diferentes estratos sociais e étnicos e que são
provenientes de assimetrias de gênero historicamente construídas.
162

Por que, em pleno século XXI, os homens ainda agridem as


mulheres?

Jaqueline Camargo Machado de Queiroz Sielskis (UFMS)

A pesquisa realizada tem por objetivo verificar por qual motivo a violência
contra a mulher ainda é uma realidade universal. A violência contra a
mulher não é algo atual, sendo identificado desde os primórdios da
sociedade. Para desvendar a problemática da violência doméstica, a qual
ainda se faz presente na atualidade, importante se faz uma análise da
evolução histórica dos papeis atribuídos culturalmente a homens e
mulheres pela sociedade. De acordo com a cultural patriarcal, o homem
exerce os principais papeis sociais, enquanto a mulher ficar reservada à
esfera privada, ocupando funções auxiliares às do homem. Em muitos
casos, ela é dependente financeiramente do homem, que também exerce
a função de provedor familiar. Em virtude disso, o homem, em seu íntimo,
sente-se superior à mulher e, por isso, no direito de determinar as
condutas que ela pode praticar. Quando a mulher pretende ocupar papel
diverso dos estabelecidos culturalmente a ela, surge o direito de correção,
o qual justifica a violência perpetrada em face das mulheres por seus
parceiros. Além de identificar as causas e motivações da violência
praticada em face das mulheres, a presente pesquisa tem por objetivo
verificar formas de coibir a violência de gênero que possam ser postas em
prática, não somente por iniciativa do Estado, mas pela sociedade em
geral. A violência contra a mulher, nos últimos anos, deixou de ser
entendida como um problema privado e familiar e passou a integrar a
esfera pública, merecendo especial atenção legislativa. Nesse sentir,
destaca-se a criação de diversos instrumentos normativos no âmbito
internacional, bem como a criação da Lei Maria da Penha no âmbito
interno. Apesar de parecer óbvio, somente em 1993, com a Declaração de
Viena, os direitos das mulheres passaram a ser reconhecidos como
verdadeiros direitos humanos. A pesquisa será exposta em três capítulos,
sendo que inicialmente será realizada uma análise histórica acerca do
tratamento conferido às mulheres desde a pré-história até os dias atuais,
demonstrando que a cultura patriarcal machista influencia o
reconhecimento da superioridade dos papéis masculinos em face dos
papéis femininos, de forma que, de um modo geral, a sociedade tolera o
163

uso da violência, pelo homem, para manter o domínio sobre a mulher. O


segundo capítulo se preocupará com o tratamento conferido pela lei à
violência contra mulher, no âmbito nacional e internacional e, ao final,
pretende-se responder a problemática proposta: Por que, em os homens
ainda agridem as mulheres? A pesquisa é exploratória e utiliza recursos
bibliográficos e o critério metodológico dedutivo para analisar a violência
de gênero em sua fase atual.

Narrativas sobre o adultério feminino como justificativa


social para a violência contra a mulher

Daniele Gonçalves Dias (Instituto Federal de Goiás)


Jefferson Silva do Rego (Instituto Federal de Goiás)

Narrativas sobre o adultério feminino como justificativa social para a


violência contra a mulher A partir de uma releitura de Dom Casmurro,
romance de Machado de Assis publicado em 1899, e da análise de uma
reportagem publicada pelo Portal G1 (Homem é preso suspeito de matar
a mulher após flagrar traição com o próprio irmão), discutiremos como o
adultério feminino tem sido representado socialmente como alto que
justifica a violência contra a mulher. As edições da L&PM Pocket visam a
alcançar o público não especializado, “o leitor escolar, o leitor
universitário, o leitor em geral” (FISHER, 2015, p. 8). Em 2015, em edição
que homenageia o centenário do falecimento de Machados de Assis, há
no posfácio de Dom Casmurro uma consideração que muito representa a
maneira como o público em geral tem sido orientado a ler o referido
romance: “Machado de Assis revolucionou o romance de amor, deixando
para os leitores um dos grandes enigmas da nossa cultura: afinal, Capitu
traiu ou não traiu?” (ARAÚJO, 2015, s/p). Segundo Bakhtin (2012), o
signo é plurivalente, vivo e móvel, pois em todo signo confrontam-se
índices de valor contraditórios. Logo, não podemos desconsiderar que a
dúvida sobre uma eventual traição pode ser uma das possíveis atitudes
responsivas dos leitores. Contudo, é preciso lembrar que as perguntas que
são silenciadas podem dizer muito mais a respeito do lugar desprivilegiado
que a mulher tem ocupado em nossa sociedade. Khel (2016), ao analisar
o julgamento do romance Madame Bovary pelo Mistério Público Francês,
164

mostra-nos que, por ser um homem perfeitamente adaptado ao seu


tempo, Homais não é encarado como um personagem imoral, apesar de
todas as suas charlatanices. Guardadas as devidas proporções,
questionamos as razões que levaram a sociedade brasileira a ignorar o
comportamento absolutamente antiético de Bento Santiago, para focalizar
na questão do possível adultério de Capitu, como se este fosse
verdadeiramente a grande questão do romance ou mesmo “o enigma da
nossa cultura”. Paralelamente a essa releitura do romance, e na tentativa
de mostrar que a sociedade pouco avançou na luta contra o machismo e
as violências dele decorrentes, analisaremos a reportagem acima referida,
buscando salientar que o texto jornalístico revela a histórica desconfiança
sobre o feminino, visto que a narrativa construída reforça o um possível
adultério feminino, em detrimento da violência praticada pelo homem
Nos textos analisados, o adultério feminino, quase sempre tomado como
verdade, é interpretado de forma mais reprovável do que os violentos
desvios de conduta e os crimes cometidos pelos agressores, pois, ao que
parece, a pergunta mais importante para nossa sociedade ainda é se “traiu
ou não traiu?”.

Violências na Atividade Prostitucional

Nilva Menezes Carvalho (Universidade Federal de Goiás)

Historicamente, o termo prostituição foi endereçado à parcela de


mulheres cujos comportamentos ou condição socioeconômica estavam à
margem das expectativas sociais – a exemplo das pobres ou gestantes que
não tivessem se casado. As prostitutas deveriam satisfazer os desejos
sexuais masculinos, realizando práticas entendidas como promíscuas e
almejando, assim, a manutenção da virgindade das moças consideradas de
família até o matrimônio. Mulheres em situação de prostituição
comumente vivenciam situações de medo, isolamento, dependência e
intimidação advindas de relação de submissão e poder que estabelecem
com os clientes. Nesse contexto, a violência é compreendida como
atitudes que implicam o uso de força real ou simbólica com o propósito
de subordinar física e psiquicamente à vontade e liberdade de outrem. De
modo específico, as violências no contexto da prostituição são múltiplas
165

e constantes. Governos, cafetões e usuários da prostituição legitimam as


agressões sofridas pelas mulheres, justificando que são consequências da
profissão. Infelizmente, esse discurso é apropriado pelas prostitutas, que
acreditam que o abuso sexual pertence à profissão. Partindo desses
aspectos, este estudo teve como objetivo investigar as violências contra
mulheres no contexto da prostituição, bem como aprofundar a
compreensão sobre os conceitos de gênero e a violência de gênero. Trata-
se de uma pesquisa qualitativa, a qual tem a pesquisadora como seu
principal instrumento e o ambiente natural como fonte direta de dados. A
amostra foi composta por cinco participantes. Para a obtenção de dados,
foram realizadas entrevistas semidirigidas, dessa forma, ocorreram
investigações a respeito das experiências de violências vivenciadas no
cotidiano de trabalho e as percepções das entrevistadas. Os dados foram
analisados à luz dos núcleos de significação. Percebeu-se que existe
preconceito em relação à própria profissão. As participantes não se
reconheciam como prostitutas e se denominavam como acompanhantes
ou garotas de programa, se sentiam mais confortáveis com o codinome,
demonstrando, assim, a carga histórica negativa da profissão. Tentativas
de desvincular experiências afetivas e corporais foram identificadas, as
entrevistadas descreveram os recursos que usavam para não se
envolverem afetivamente e emocionalmente com seus clientes. Esse
esforço de evitar vínculos afetivos com os clientes colocava as
participantes numa situação hostil, fazendo com que elas elaborassem
estratégias para a dissociação entre corpo e mente, como se essa prática
fosse possível, isto é, tentando evitar sentimentos e originando uma
violência psicológica. Palavras-chave: violência; mulheres; prostituição.

“Mulheres de vida pública”: A prostituição nas fronteiras da


Rua Nova (Caetité-BA, 1890-1945)

Miléia Santos Almeida (UEFS)

O presente trabalho tem por objetivo analisar as experiências de mulheres


envolvidas em zonas de prostituição nas primeiras décadas republicanas
na região do alto sertão da Bahia, onde se localiza a cidade de Caetité, por
meio de processos criminais de homicídio e defloramento. Designadas
166

como “mulheres de vida pública, mulheres livres ou meretrizes” pelas


autoridades judiciais, estas personagens emergem nos autos assumindo
alternadamente os papeis de vítimas, acusadas ou testemunhas nos crimes.
Tais denominações usualmente encontradas nesses processos para se
referirem às prostitutas carregam o peso dos papéis de gênero e lugares na
dicotomia público-privado tradicionalmente atribuídos às mulheres de
uma forma geral. Inserida em um cenário de crise socioeconômica e
empobrecimento da população devido ao período de fortes estiagens,
crises de abastecimento e êxodo rural, a prostituição constituía-se como
uma das estratégias de sobrevivência das mulheres caetiteenses pobres e
negras. Por sua vez, outros padrões de moralidade e exercício da
sexualidade marcavam a vida dessas mulheres, destoando dos códigos de
conduta atribuídos as mulheres das classes dominantes. Atuando no
espaço público, transitando entre o urbano e o rural, tecendo redes e
sociabilidade e proteção mútua, essas mulheres desde jovens residiam no
centro comercial da cidade, dividiam casas que eram também espaços de
sociabilidade masculina, além de ponto para encontros amoroso-sexuais.
Assim, o cenário frequente de moradia e trabalho, bem como dos
conflitos e violências das quais as prostitutas eram acusadas ou vítimas,
tratava-se de um logradouro conhecido como Rua Nova, cuja produção
tanto memorialística quanto historiográfica ainda se faz bastante
insipiente. Propomos com esse trabalho inaugurar uma discussão não
apenas sobre a prática do meretrício em Caetité, mas as representações e
discursos jurídicos, médicos e da imprensa acerca de sua presença no
espaço público, de suas relações, trânsitos e significados para a época. Ela
abre brechas brechas e possibilidades para descortinarmos um universo
de mulheres que viveram e sobreviveram, amaram e odiaram, gritaram e
silenciaram, mataram e morreram, um universo ainda pouco conhecido na
região do alto sertão da Bahia.

Atenção Primária à Saúde em Mulheres vítimas de violência

Carla Denari Giuliani (Universidade Federal Uberlândia)

A origem da violência se encontra em todas as estruturas sociais, políticas,


bem como nas consciências individuais 1. Há uma interseção entre a
167

violência e gênero, criada por conceitos e atitudes patriarcais, nos quais a


figura do homem é colocada como ativa, chefe de família, com domínio
econômico e provedor, enquanto à mulher deu-se o papel passivo,
reprodutor, e de aceitação às ordens ditas pelo marido dentro das relações
conjugais 2 Justificativa: Essa pesquisa tende a colaborar no sentido de
mostrar que a construção e a atualização de políticas, diagnósticos da
realidade, e responsabilização pelos casos, podem contribuir para uma
melhor atenção às vítimas de violência doméstica. Objetivo: Analisar a
literatura sobre a atenção às mulheres vítimas de violência doméstica no
contexto da Atenção Primária à Saúde (APS). Metodologia: Revisão
integrativa, com descritores: violência contra a mulher, violência
doméstica, atenção primária em saúde, nas bases de dados LILACS,
MEDLINE, IBECS, BDENF, Coleciona SUS, BVS; entre os anos de
2010-2015, na íntegra, em português, espanhol e inglês. Resultados e
Discussão: Encontrados 68 artigos, e selecionados 15 para o estudo.
Evidenciou-se que o acolhimento, as visitas domiciliares e a clínica
compartilhada são espaços potencializados no atendimento à mulher
violentada na APS; contudo a dificuldade do reconhecimento de situações
de violência em suas diferentes formas, o preconceito, a ausência de
protocolos específicos e a abordagem hospitalocêntrica são persistentes
no âmbito da assistência na APS. Conclusão: A APS apresenta-se como
contexto fundamental no assistência à mulher vítima de violência por suas
características de territorialidade e de transversalidade do cuidado em
saúde, e enquanto espaço ordenador das Redes de Atenção à Saúde.
Porém os profissionais demandam um fortalecimento urgente em suas
ações, uma vez encontram graves dificuldade nessa conjuntura.

MULHER NEGRA EM PERSPECTIVA: Um Olhar Sobre


Suas Histórias de Vida (1950/2018)

Paulo Henrique Cavalcanti da Silva (UEG-Pires do Rio)

A partir de uma conversa informal com uma Senhora Josefina Santos


Poloniato, surgiu o interesse em escrever sobre histórias de vidas de
mulheres negras, que sofreram/sofrem preconceitos por sua condição
social e cor da pele. Deste modo atentou-se sobre o que a mesma relatava
168

em relação suas memórias e suas experiências marcadas pelo preconceito


racial que provocou (res)ressentimentos, ainda presentes em sua vida. A
partir de então, comentou-se, com a Professora Flávia Karla, sobre a
conversa com senhora Josefina e a professora nos informou a respeito do
livro Um Quarto de Despejo: Um Diário de uma Favelada, da autora
Carolina de Jesus (2014), publicado pela primeira vez em 1960, que retrata
a vida de uma favelada, catadora de papel que, de certa forma, tem
semelhanças com as narrativas de vida da senhora Josefina. Este livro é
um diário de uma mulher negra que morava na Favela do Canindé, as
margens do Rio Tietê em São Paulo. A partir de então, realizou-se uma
entrevista filmada da Senhora Josefina e fez-se a leitura do livro
procurando e um elo entre a vida da senhora Josefina – moradora do
interior de Goiás - e a Carolina - personagem do livro e moradora da
cidade São Paulo - nas décadas de 1950/1960. Notou-se então que ambas
enfrentaram os mesmos problemas em relação ao preconceito e as
péssimas condições de vida e trabalho nas décadas de 1950 e 1960, além
dos os (res)sentimentos presentes em ambas. Nesse sentido, a
problemática proposta para o trabalho será: O que as histórias de vida
dessas duas mulheres negras têm em comum? Quais os (res)sentimentos
presentes na vida de ambas? E a fonte utilizada para a pesquisa será a
oralidade, ou seja, entrevistas com a senhora Josefina Santos Poloniato e
o livro Um Quarto de Despejo: Um Diário de uma Favelada, da autora
Carolina de Jesus (2014).

Cristianismo e relações de gênero: a memória perigosa

Polyana Jéssica do Carmo de Souza (Universidade do Estado da Bahia)

A apresentação tem a proposta de abordar a presença das mulheres no


Cristianismo passando por três momentos ou eventos dessa tradição: o
Cristianismo Primitivo, a Reforma Protestante e o Pentecostalismo,
problematizando a maneira como a atuação das mulheres foi apagada ou
deixada de lado para dar destaque à atuação dos homens nessa religião.
Na Igreja Primitiva, muitas mulheres sustentavam a obra missionária e
exerciam lideranças nas comunidades, mas o trabalho feito por elas foi
sempre silenciado ou minimizado, em detrimento do destaque que se dava
169

ao trabalho e à liderança dos discípulos homens que garantiram seus


nomes na História da Igreja Primitiva. Podemos entender que esta seria
uma leitura androcêntrica das escrituras que apagou a mulher.
Discordantes dessa leitura inspirada pelo patriarcalismo, teólogas
feministas apresentam uma nova chave hermenêutica das origens cristãs
que reivindicam a história cristã primitiva como um passado próprio de
mulheres. Outra possibilidade de regaste da participação das mulheres no
Cristianismo está numa reflexão mais atenta da Reforma Protestante. Em
seu conceito de vocação Lutero afirma que pela fé um magistrado pode
exercer a vocação cristã no mundo, tanto quanto uma dona de casa. Na
visão luterana, a vocação não estava apenas reservada à vida religiosa dos
clérigos e monges, mas ela poderia ser exercida em qualquer atividade
humana, até nas domésticas, tipicamente femininas. Ainda que fosse
considerada inferior, a grande novidade é que a mulher e o serviço
doméstico por ela prestado, diante de Deus estão em pé de igualdade com
o homem e os cargos públicos a ele destinado. Alguns especialistas
chegam a afirmar que a Reforma proporcionou mudanças fundamentais
na esfera familiar ou do mundo feminino, tanto quanto na esfera
econômica e política. Outro momento de destaque da participação das
mulheres no Cristianismo foi no movimento Pentecostal iniciado nos
Estados Unidos no início do século XX. O pentecostalismo favoreceu
desde o início a emergência de leigos e mulheres na hierarquia religiosa.
Embora o Pentecostalismo não tivesse intenção de tratar das questões de
gênero e do lugar da mulher na hierarquia religiosa, a inserção de pessoas
leigas, permitiu às mulheres participarem e desenvolverem atividades de
liderança como profetisas e missionárias. O movimento pentecostal
contribuiu muito para o surgimento de denominações e grupos
protestantes de grande destaque no Brasil como a Assembleia de Deus,
Igreja do Evangelho Quadrangular, Congregação Cristã do Brasil, Deus é
amor. Igrejas que em sua maioria não permite a ordenação de mulheres,
mas que tem uma atuação feminina em muitos dos seus cargos leigos.
170

A Violência Simbólica nas Pinturas de Francisco Brennand

Tainá Maívys da Silva Santiago (Universidade Federal Rural de


Pernambuco)

Sabemos que o feminino é uma categoria que tem sido historicamente


idealizada e construída por meio de discursos e práticas que inviabilizam
a pluralidade de expressões nesse viés. De forma que, entre os cânones
dos suportes visuais tornou-se comum a expressividade de apenas um
feminino, este, ligado a uma sensibilidade maternal e/ou a um erotismo
exorbitante. Este feminino dual marcado por uma forma de olhar
predominantemente masculina e heterossexual é questionado nos debates
atuais. E muitas já são as expressões artísticas que buscam reescrever o
feminino, de forma mais diversificada e justa, pensando sob a ótica de
diferentes movimentos de “feminismos”. Assim, procuramos analisar,
através das pinturas do pernambucano Francisco Brennand, a violência
simbólica nas formas de entender, imaginar e pintar a mulher brasileira
nos fins do século XX para o XXI. Para isso, utilizaremos além da tese
sobre a violência simbólica dentro de uma dominação masculina, do Pierre
Bourdieu, também um olhar da pesquisadora Griselda Pollock. Com uma
perspectiva interseccional, seu olhar nos possibilita compreender as
diferentes distinções (de classe, gênero e raça) que essa construção
equívoca de uma feminilidade sob um olhar masculino, heteronormativo
e etc., acabou por perpetuar. Entre as pinturas de Francisco Brennand,
além da insistente presença feminina, nota-se que ele opta pela
representação de um feminino exorbitantemente erótico. Isto se explica
na vasta obra escrita sobre o tema, onde ele defende que seu processo
criativo envolve a reflexão sobre o mistério da vida ligado ao processo
reprodutivo significado na mulher. Sutilmente ou agressivamente, o
erotismo atado como natural ao corpo feminino na obra de Brennand é,
portanto, símbolo de uma violência crescida em sociedade, e legitimado
pelas políticas e outras instituições atuantes nesse contexto. Nos ateremos
a minuciar os traços símbolos do processo técnico da pintura em si, e
também os significados visuais que (através da interpretação histórica
dessas imagens) encontremos. Para tal, escolhemos pinturas mais
conhecidas, que estão expostas permanentemente na Accademia (espaço
anexo à Oficina de Cerâmica Francisco Brennand na cidade do Recife),
171

algumas representando toda uma série dentro da temática. Como “O


beco”, “Chapeuzinho Vermelho”, “A muçulmana”, que são séries, e, “A
vítima (sexta-feira da Paixão)”, “O desastre”, “O modelo”, peças
individuais. Tentaremos esboçar a presença de uma violência simbólica
nestes temas com base também na nossa referência teórica, de forma a
contribuir para o debate em torno dos aspectos citados aqui, mas também,
questionando o cânone artístico brasileiro que, embasado em uma visão
misógina, moldaram homens artistas de forma a perpetuar a violência
simbólica.

Sondando questões de violência simbólica contra as


mulheres negras na literatura feminina afrodescendente

Norma Diana Hamilton (Universidade de Brasília)

Tanto as escritoras afro-brasileiras quanto as afro-caribenhas têm


produzido bildungsromans, romances que focalizam o desenvolvimento
e aprendizado da personagem principal, como forma de visibilizar o
sujeito feminino negro em seu contexto social opressor patriarcal e racista.
Ponciá Vicêncio (2003), da escritora afro-brasileira Conceição Evaristo, e
Jane and Louisa Will Soon Come Home (1980), da afro-jamaicana Erna
Brodber, são romances de formação, que retratam a violência simbólica
que sofrem as protagonistas, jovens mulheres negras. Apesar das histórias
se desenvolverem em espaços culturais distintas, representam de forma
semelhante as condições precárias das protagonistas e as formas pelas
quais elas são estigmatizadas e excluídas de sua sociedade, realidade que
atinge as mulheres negras em muitos países das Américas na
contemporaneidade. Nessas sociedades, assim que iniciam o processo de
socialização fora do núcleo familiar, os jovens negros em geral sofrem a
violência simbólica: na educação formal, são doutrinados com valores
eurocêntricos, e sua origem cultural africana é negligenciada. Entendemos
que em países como Brasil e Jamaica, outrora colonizados, o processo de
colonização teve um impacto danoso, que ainda existe, pois, de forma sutil
e profunda, a ideologia da ‘superioridade’ das pessoas brancas se instalou
como verdade naturalizada, tornando-se um habitus (BOURDIEU, 2003).
Podemos dizer que essa ideologia e sua imposição na forma como esse
172

povo enxerga o mundo permanecem nos dias de hoje na “microfísica do


poder” (FOUCAULT, 1980). De forma geral, as pessoas caribenhas e
brasileiras passaram a ter um olhar colonizado, que silencia, subalterniza e
invisibiliza, dentre outros grupos considerados minoritários, sobretudo, as
mulheres negras. Desenvolvemos uma leitura comparada dos romances
de Evaristo e Brodber, dialogando com os estudos de raça e gênero, com
base nos trabalhos de feministas afro-estadunidenses como Kimberlé
Crenshaw, Patricia Hill-Collins, bell hooks, dentre outras, e afro-
brasileiras: Lelia Gonzalez, Sueli Carneiro, Luiza Bairros, e outras. Nos
romances, vemos protagonistas negras resilientes que, assim como muitas
mulheres negras na vida real, lutam incansavelmente para conquistar o seu
espaço e subverter a injusta estigmatização e inferioridade imposta a elas.
No estágio final de seu longo e complexo processo de crescimento, essas
personagens se tornam capazes de se autoafirmar apesar de seu espaço
opressor, encontrando novos valores e articulando as próprias vozes, para
que possam desenvolver uma consciência mestiça (ANZALDÚA, 2003)
de resistência e, dessa forma, alcançar uma nova existência, a reexistência.

Os caminhos percorridos pelas integrantes da banda de


punk rock feminina e feminista, Endometriose, na trajetória
de formação do grupo

Patrícia Matos de Almeida (Universidade Estadual de Feira de Santana)

Esta comunicação é fruto de minha pesquisa no Mestrado em História


que visa refletir sobre a atuação da banda de punk rock feminina e
feminista, Endometriose, entre os anos de 2006 e 2011, na cidade de Feira
de Santana, Bahia, através do mergulho acerca dos estudos de gênero. Ele
utiliza uma tipologia variada de fontes que vão desde às músicas autorais
do grupo até fotos, vídeos, redes sociais, blog e oralidade. Neste espaço
em específico, objetivamos discutir, por meio de depoimentos orais das
cinco integrantes das duas formações da banda, as dificuldades
enfrentadas por cada uma para ocupar um espaço masculinizado como o
rock no cenário alternativo local cuja documentação evidencia que elas -
Ilani (contrabaixo), Juliete (bateria), Gabriela (guitarra), Amanda (guitarra)
e Adriana (canto) - compuseram o primeiro grupo roqueiro totalmente
173

formado por mulheres na referida cidade baiana. Nossa análise procurará


perseguir uma intersecção entre classe, raça e geração haja vista que elas
eram muito jovens no período estudado e tal informação nos auxilia a
compreender melhor sobre suas experiências e temáticas abordadas nas
canções. Assim, problematizaremos o quanto os primeiros desafios para
se inserirem no universo do rock foram iniciados no campo privado onde
a maioria dos conflitos se deram com os seus familiares muito por conta
do fato deste gênero ter sido associado, desde seu início, ao universo
masculino cuja desconfiança e dificuldade para acessar lugares de lazer no
qual esta cultura juvenil pudesse ser vivenciada, acompanhou a maioria
delas. Além disso, veremos que se o canto feminino era de certa forma,
aceitável e bem vindo neste gênero, o mesmo não acontecia quando as
mulheres eram também instrumentistas visto que elementos como
guitarra, baixo e bateria, comumente experimentados no rock, foram ao
longo de sua história, usados como ferramentas de reafirmação de uma
identidade masculina no qual a guitarra, por exemplo, era notada até
mesmo como a extensão do corpo masculino onde a sexualidade era mote
para performances no palco. Dessa maneira, as mulheres que buscaram
ocupar o espaço enquanto instrumentistas enfrentaram dificuldades ainda
maiores para se legitimarem enquanto boas para tal e para as integrantes
da Endometriose, não foi diferente.

O assassinato de travestis e transexuais no Brasil: da


invisibilidade à naturalização da violência no discurso
midiático

Isabela Franco de Andrade (CLACSO-Brasil)

Ao demonstrar o caráter político do mundo antes ignorado, o feminismo


traz contribuição crucial na redefinição da própria concepção do que é
“ser mulher”, enfocando em questões que antes eram pouquíssimo ou
nada debatidas, questões estas das mais diversas ordens. Peça chave da
nossa forma de conceber a realidade é a tentativa de exercício para a
compreensão do ser humano concreto em suas relações sociais. Assim,
compreendemos que a situação de vulnerabilidade e exclusão social em
que se encontra a população T (travestis e transexuais) não se relaciona
174

somente com aspectos ligados às desigualdades e opressões de gênero,


mas sim com toda uma gama de aspectos relacionados também a raça e
classe, Trata-se de vislumbrar os “entrecruzamentos e (...)
interpenetrações que formam um ‘nó’ no seio de uma individualidade ou
um grupo” (KERGOAT, 2010, p. 07), interagindo e estruturando a
realidade social. Assim, a perspectiva da consubstancialidade das relações
sociais nos leva a pensar classe, raça e gênero de modo articulado,
imbricado, compreendendo que há um entrecruzamento dessas relações
hierárquicas e contraditórias fundamentais e não uma sobreposição ou
adição de uma a outra. Segundo estimativas feitas pela ANTRA
(Associação Nacional de Travestis e Transexuais), a expectativa de vida de
travestis e transexuais está entre de 30 e 35 anos, sendo impossível
compará-las com nenhum outro grupo vulnerável. A realidade social
dessas pessoas associa-se diretamente à pobreza, marginalização, exclusão
e violências, simbólicas e concretas. Um estudo organizado pelo grupo
Transgender Europe demostrou que o Brasil figurou, em 2014, como o
país que mais mata pessoas da população T no mundo, contabilizando 95
mortes, estando o México em segundo colocado, com menos da metade
do número de assassinatos em razão de identidade de gênero, uma dos
tantos reflexos da transfobia social. Nesse sentido, nos propomos a
investigar como a mídia contribui para a banalização e propagação dessas
violências, entendendo que esta população enfrenta múltiplos processos
de estigmatização, exclusão e marginalização, passando por experiências
sociais específicas que repercutem diretamente nas relações que possuem
com o trabalho, a saúde, a educação, a moradia, assim como travam uma
luta cotidiana para existir (e resistir) ou mesmo sobreviver em meio à tanta
adversidade.

A Violência Simbólica como uma das ameaças aos direitos


fundamentais das mulheres vítimas de violência de gênero

Maria Eduarda Gomes Penaforte (Defensoria Pública da União)

Ao explorar a temática da divisão sexual, Bourdieu (2016) identifica que


ao invés de um evento isolado e pontual, a desigualdade sexual é uma
estrutura histórica presente nas sociedades e que possui a aparência de
175

natural. Há apenas uma manutenção e transformação aparente das


estruturas de subjugação ao decorrer da história, assumindo novas feições
e novas ferramentas de efetivação. A partir disto, o autor, em uma postura
construtivista, tece críticas ao essencialismo e aparente naturalidade das
estruturas de subjugação, investigando quais os mecanismos históricos
que possibilitaram essa des-historização e eternização do arbitrário, ou
seja, das estruturas da divisão sexual. Salienta que tal fato é semelhante a
um paradoxo que, com exceção a alguns acidentes históricos, não se
interrompe, apesar das transformações sociais (BOURDIEU, 2016). Já
observando a violência de gênero no contexto brasileiro, percebe-se que
está é endêmica e faz parte de uma estrutura histórica de discriminação
contra a mulher. O que se aproxima da análise de Bourdieu (2016), que
imerso na análise dessa estrutura, cunha o conceito violência simbólica,
marcando o papel de destaque das instituições. Estas são colocadas como
ferramentas responsáveis pela manutenção da estrutura, ocasionando,
inclusive, uma incorporação lógica da violência pelos agentes históricos e
sociais que vivenciam esse contexto. A instituição judiciária, quando
afastada da perspectiva de gênero, pode assumir essa posição que ameaça
os direitos fundamentais das mulheres vítimas de violência de gênero.
Nesse cenário, a presente pesquisa visa, sobretudo, investigar a dimensão
simbólica da violência institucional de gênero nas práticas judiciárias
motivadas pela Lei 11.340/06. Falar em violência contra a mulher baseada
no gênero acarreta também falar em risco aos seus direitos fundamentais,
ainda mais ao explicitar-se uma segunda vitimização protagonizada pelas
instituições, em principal a judiciária, que deveriam estar encarregadas por
acolher e agir frente a tais violações. Desta forma, se faz necessária a
investigação da interseccionalidade entre a violência de gênero e as
violências institucionais específicas que ocorrem neste contexto, de modo
a clarear e ampliar o conceito de ‘violência institucional’ e, ainda, investigar
as incidências simbólicas desta.
176

O despertar e o Silêncio das Mulheres Vereadoras na


Câmara Municipal de Natal

Aluizia do Nascimento Freire (UFGD)

O objetivo do presente trabalho é analisar a atuação das mulheres na


política, buscando entender o “despertar”, ou seja, a eleição da primeira
mulher eleita vereadora para a Câmara Municipal de Natal, assim como o
“silêncio” como sendo as quase seis décadas após esta primeira
representação, onde não existiu presença feminina naquela casa legislativa.
Com a eleição de Júlia Alves Barbosa, num mandato que durou de 1929 a
1931, historicamente temos uma primeira mulher “despertando” para a
participação feminina com ocupação e representação de num lugar na
política. Contudo, após esse breve despertar, apesar de todo o movimento
nacional para o reconhecimento jurídico do voto feminino e de sua
representação para cargos eletivos, inexistiu até o ano de 1988 a
participação de outras mulheres vereadoras no espaço de poder da Câmara
Municipal da capital do Rio Grande do Norte. Na esteira desse
movimento vanguardista nacional, discutiremos o protagonismo potiguar
que alçou a mulher ao primeiro voto feminino, a primeira mulher eleita
vereadora, bem como a primeira prefeita eleita no Estado do Rio Grande
do Norte.

O currículo escolar e o bullying homofóbico: quais as saídas


da escola?

Kildilene Carvalho Matos Mota (UNIVERSIDADE FEDERAL DE


MATO GROSSO)
Luciene de Paula (Universidade Federal de Mato Grosso)

O currículo escolar nunca esteve em pauta tanto como na atualidade.


Contemporaneamente entende-se o currículo como o conjunto de todas
as experiências que a escola proporciona e tudo que é apreendido pelos
educandos, ou em decorrência da experiência escolar. O Bullying
homofóbico como categoria “nova” surge na contemporaneidade, ainda
177

discutido predominantemente no meio acadêmico, porque em muitas


escolas este assunto é silenciado ou até mesmo proibido. Apesar da
urgência e visibilidade da discussão, a temática de gênero tem provocado
disputas ideológicas quanto à sua presença, ausência e necessidade de
legitimidade no currículo escolar. O fato é que as contribuições dos
estudos pós-estruturalistas, mais precisamente dos estudos feministas, na
perspectiva pós-estruturalistas ou não, e da própria Teoria Queer, nos
últimos anos tem gerado no Brasil muita discussão que reverbera em
outras esferas tais como a arte, a política, e inclusive na educação. Na
perspectiva de contribuir com o debate, este artigo visa apresentar
elementos que possam trazer contribuições para as questões de gênero, e
o enfrentamento do bullying homofóbico na escola. Este ensaio busca
colocar a urgência desta problemática no sentido de discutir as possíveis
alternativas da escola contemporânea.

Os papéis da mulher e seus processos de autonomia: uma


análise a partir do assentamento grande vitória

Claudimir de Oliveira Espindola (Universidade Federal do Tocantins)

O objetivo desse artigo é analisar como se dá à participação das mulheres


dentro desses espaços, a compreensão delas acerca de seu processo de
emancipação e quais as mudanças ocorridas em suas vidas desde que
assumiram determinados papéis. Esse artigo trata-se de um estudo
realizado no Projeto de Assentamento Grande Vitoria localizado no
município de Marabá-Pa, uma cidade localizada no sudeste do Estado do
Pará. Como procedimento metodológico utilizou-se a abordagem de
natureza qualitativa através da pesquisa bibliográfica, pesquisa de campo
a partir de entrevistas semiestruturadas, observação participante e uso da
metodologia com grupos focais com os sujeitos da pesquisa. Por meio
dessa ferramenta de inserção foi possível identificar que a conquista dos
seus lotes e manutenção dos mesmos contribuem para a inclusão da
mulher, construção de uma nova forma de pensar e agir trazendo
ressignificado para suas vidas. O interesse pela temática de pesquisa
advém da inquietação provocada pela minha experiência profissional no
178

assentamento Grande Vitória, na atuação como docente na modalidade


de Educação de Jovens e Adultos (EJA), a partir dos relatos feitos pelas
mulheres acerca dos motivos para a ausência nas aulas. Deste momento
em diante, passei ao questionamento quanto às condições de vida
vivenciadas por estas mulheres e as possibilidades ou negação do seu
processo de autonomia: Em que medida inserção nos movimentos sociais
possibilitou às mulheres a conquista de sua autonomia? A hipótese
levantada é que as mulheres camponesas do PA Grande Vitoria não
conseguiram ainda alcançar o seu processo de autonomia e emancipação,
mesmo tendo sido fundamentais no processo de luta e conquista da terra.
Neste sentido, buscou-se conhecer e compreender a importância da
inserção das mulheres nos movimentos sociais para a conquista da
autonomia feminina dentro do assentamento Grande vitoria, e
principalmente retratar a história de vida destas mulheres. Não resta
dúvida que a participação da mulher no processo de conquista da terra ou
de seus direitos nos oferece suporte para compreendermos o grau de
autonomia das mesmas perante a sociedade. Embora ainda persistam
incertezas e desacordos, e por isso não se possa falar ainda numa
autonomia plena. Contudo tem havido progressos quanto à posição
econômica, política, intelectual, técnica e científica da mulher dentro do
Projeto de Assentamento Grande Vitoria. Uma das ferramentas de
utilizadas romperem com velhos laços patriarcais e o incentivo de suas
filhas aos estudos. Através de sua experiência de vida, tentam mostrar as
suas filhas caminhos alternativos para emancipação financeira e
autonomia nas suas decisões. Mas continuam ainda no plano sociocultural
incontestáveis desigualdades em relação ao homem.

Negras e trabalhadoras rurais: subversão e violência na


formação política de mulheres feirenses

Naiane Rodrigues da Silva (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE


FEIRA DE SANTANA)

Esta comunicação busca compreender de que forma mulheres


trabalhadoras rurais desempenharam sua luta pela comunidade dentro do
processo de violência e dominação masculina e patriarcal da sociedade a
179

qual as mesmas pertencem. Esta produção apresenta resultados parciais


visto que está situada em uma pesquisa ainda em curso intitulada
Trabalhadoras Rurais e Movimento de Mulheres: Experiências da Lagoa
Salgada (1970-2004). Perceber o processo de dominação ao qual a mulher
vem sofrendo exige um esforço historiográfico para entender de que
forma esse processo ocorre na convivência social ao longo dos anos. Não
se pode negar que as estruturas nas quais essa dominação se sustenta
perpassam todos os aspectos da vida privada e pública, e, é introjetada na
formação e nas identidades de quem a pratica, e sobretudo de quem a
sofre. Assim, compreende-se que não só a dominação como as formas
pelas quais a mesma é praticada são construídas através das experiências
dos indivíduos, e consequentemente, validadas socialmente. A violência
enquanto conceito formado de práticas e signos socioculturais se
apresenta como um dos modos de dominação e de coerção social.
Apresenta-se como consequência de um sistema no qual as relações de
gênero são assimétricas e hierarquizadas. O intuito deste artigo é
evidenciar o processo dialético pelo qual a luta feminina dentro do recorte
explicitado burlou e/ou se apropriou dessa condição de subalternização e
de submissão a um sistema simbólico e cultural que visava normatizar a
dominação para construir e manter seu movimento político. Ao concordar
com Soihet entende-se que “a aceitação, pela maioria das mulheres, de
determinados cãnones não significa, apenas, vergarem-se a uma
submissão alienante, mas, igualmente, construir um recurso que lhes
permitam deslocar ou subverter a relação de dominação.” (SOHIET,
1997, p.12) Assim, esta pesquisa tem se focado nas especificidades das
trabalhadoras rurais, em sua maioria negras, do interior da Bahia. O intuito
não é negligenciar as condições sociais as quais estavam inseridas ou
acreditar num rompimento total com as estruturas de dominação que lhes
foram impostas. Mas, analisar como construíram sua luta dentro dessas
estruturas, mesmo submetidas a formas de coerção que não foram só
simbólicas, mas também físicas. A problemática parte dos relatos orais
dessas mulheres para uma análise que considere as condições de
subordinação pelo gênero, pela cor e pela condição social. É preciso
compreender que as mulheres são ensinadas a serem inferiores e são
coagidas ao longo da vida a não questionar isso. Essa comunicação vem
mostrar que muitas delas questionam e as vezes o faz através da própria
dominação.
180

Feminismo, lutas identitárias, interseccionalidade,


perspectiva de classe. Apontamentos sobre a greve
internacional de mulheres de 2017

Lucimara dos Reis Pinheiro (UFJF)

O presente artigo busca apresentar para o debate uma concepção de


movimento feminista, enquanto catalizador de bandeiras e lutas
identitárias, numa perspectiva que busque abarcar a complexificação
contemporânea no segmento da classe trabalhadora compreendido nas
relações sociais de gênero enquanto, marcadores de opressão circunscritas
no sistema do patriarcado. Nossa hipótese apresenta o movimento
feminista como capaz, dentro de uma perspectiva teórica macrosocietária,
de reunir as bandeiras identitárias em torno de sua movimentação
organizativa de ação na perspectiva de demonstrar que o cerne das
opressões vividas pelos diversos grupos sociais têm dimensões e
determinações multifacetadas, porém não fogem a uma lógica de
construção ancorada na manutenção e reprodução do sistema econômico
vigente, considerando suas determinações históricas e estruturantes nas
tradições construídas. Identificamos um debate teórico político entre o
que vem se apresentando enquanto “pós modernidade” na compreensão
e atuação dentro da “sociedade civil” dos movimentos que tratam das
reinvindicações por “identidades”. Entendemos, este, como um estudo
preliminar, cujos apontamentos iniciais procuram contribuir para o
desvelamento dessa realidade e para a identificação de construção de
alternativas dentro do processo de mobilização da classe em direção a um
projeto emancipatório. O artigo proposto tem caráter bibliográfico,
documental e exploratório. Pretendemos realizar analise dos manifestos
Internacionais, nacional e estaduais dos sites organizadores do 8M/Greve
Internacional de Mulheres (8 de março de 2017). Acreditamos ser possível,
após a realização das leituras e levantamento dos manifestos de
convocação e organização da Greve Internacional de Mulheres,
agruparmos material para realização de análise preliminar de uma
perspectiva orientada pela hipótese de um movimento de ação e de
solidariedade internacional que busque para além da afirmação das
identidades a superação de um modelo de sociedade excludente.
Buscamos nesse estudo, iniciar apontamentos do que entendemos como
181

uma guinada a origem de classe do movimento feminista na


contemporaneidade em meio a disputa teórica com setores abarcados pela
ideia do “Pós Modernismo”.

ACESSO À JUSTIÇA E AS DELEGACIAS DE COMBATE


A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA: uma reflexão sobre as
práticas de enfrentamento à violência de gênero; subsídios
para formulação de políticas públicas

Tiago Junqueira de Almeida (PUC-GO)

A violência de gênero praticada contra a mulher no âmbito doméstico


configura-se como um fenômeno social e histórico de violação dos
direitos humanos, não se trata de um fenômeno novo ou exclusivo do país
e das cidades, como o revela o dia a dia das Delegacias Especializadas no
Atendimento à Mulher (DEAMs), ricas em histórias de eventos violentos
contra a classe feminina. Ocorre que esta realidade de violência também
atingem também as crianças e adolescentes que se tomam vítimas indiretas
de violências domesticas praticadas em suas casas. Para o
desenvolvimento desta pesquisa foi realizado uma análise da atuação das
DEAMs (Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher) de
Goiânia-GO, onde apenas no ano de 2017 realizou-se aproximadamente
8.971 (oito mil novecentos e setenta e um) atendimentos a mulheres que
sofreram algum tipo violência de gênero. Através da análise de dados
extraídos dos procedimentos policiais foi demonstrado a gravidade deste
problema. Foram realizadas também entrevistas orais com mulheres
vítimas de violência de gênero tanto na 1ª Delegacia Especializada no
Atendimento à Mulher (1ºDEAM), bem como com ex-usúarias da casa
abrigo para mulheres vítimas, denominada de Centro de Valorização da
Mulher (CEVAM). Desta forma, a presente pesquisa analisa, através da
compreensão das vítimas de violência de gênero, as consequências que a
violência doméstica vivenciada pode trazer em suas vidas. Esta é uma
pesquisa descritiva e exploratória, que será realizada à luz da abordagem
qualitativa. Será ainda realizada, uma revisão bibliográfica e documental
sobre conceitos de violência doméstica, breve histórico da Lei Maria da
182

Penha, análise da atuação da atuação da DEAM (Delegacia Especializada


de Atendimento à Mulher). Estas informações foram complementadas
com pesquisa de campo e entrevistas às pessoas que atuam no combate e
proteção a violência doméstica baseada em gênero. Os dados foram
coletados por meio de entrevistas fundamentadas em um roteiro
semiestruturado. As entrevistas se realizadas com dez mulheres que foram
vítimas de violência de gênero com um perfil condizente com a pesquisa
proposta. O resultado da pesquisa permitiu explorar certos
questionamentos, como: identificação dos tipos e das consequências das
violências praticadas no âmbito doméstico, o perfil das vitimas, os efeitos
desta violência no ambiente doméstico e possíveis prejuízos provocados
a vida social. Nessa perspectiva, esta pesquisa tem entre suas finalidades
oferecer insumos aos administradores públicos para a definição de
políticas que contribuam para melhorar a vida das mulheres e seus filhos,
vítimas de violência de gênero.

As guerrilheiras curdas e sua importância para as lutas


feministas no Brasil

Lazara Geissequele Martins Oliveira (Universidade Federal de


Goiás/Regional Jataí)

Na fronteira entre Síria, Irã, Iraque e Turquia vive uma nação sem
território, trata-se dos curdos, povo que desde tempos remotos resiste a
conflitos internos e externos. O termo Curdistão foi aplicado pela
primeira vez para designar um povo que se dividia entre camponeses e
nômades, cuja organização era tribal baseada em laços religiosos e
familiares. Posteriormente, com o fim da Primeira Guerra mundial o
território no qual vivem os curdos foi dividido. Dos conflitos originados
do processo de divisão surgiu a resistência dos estudantes de Ankara, e
posteriormente o Partido dos Trabalhadores Curdos – PKK – liderado
por Abdullah Öcalan, grupo este que resiste até a atualidade, mesmo tendo
suas bases reformuladas após a prisão de seu líder nos anos 1990. Até
então o PKK era tratado como uma organização terrorista, assim como a
Peshmerga no Iraque. Foi em 2014 que o mundo ocidental, pela primeira
vez, voltou seus olhos para o povo curdo para vê-los como heróis devido
183

à sua resistência a um ataque terrorista do Estado Islâmico (grupo


terrorista fundamentalista). O fato que chamou mais atenção foi o de a
resistência ser feita por um grupo de guerrilheiras armadas e bem
organizadas. Essa milícia de mulheres se organizou quando Abdullah
Öcalan foi preso. As mulheres tomaram frente na luta e incentivadas por
Öcalan, se organizaram, recrutaram companheiras e começaram ações de
conscientização de apoio às demais mulheres. Nasce daí uma luta
puramente feminista, na qual as mulheres rompem com todos os
opressores, como a família patriarcal e o Estado, e dão origem a um novo
estado democrático idealizado e comandado principalmente por
mulheres. No dia oito de março do presente ano – 2018 -, as guerrilheiras
curdas enviaram uma mensagem para mulheres do mundo todo, sua
mensagem explica diretamente a questão da resistência no Oriente Médio
e convoca as mulheres de todo o mundo a lutar contra seus opressores.
Neste trabalho pretendo suscitar uma breve reflexão acerca da luta
feminina nos cantões curdos e de sua importância para o mundo e
principalmente para o Brasil. Sua luta nos mostra que podemos e devemos
romper com as estruturas que nos oprimem e inspiradas nelas propõe-se
soluções de curto, médio e longo prazo, dentre elas criação de locais de
apoio às mulheres violentadas, conscientização das mulheres da situação
de opressão na qual se encontram e levante radical contra o opressor.
Nosso quotidiano nos mostra que ações diretas e união são necessárias,
afinal o opressor tem brutalmente executado nossas companheiras, cito
como exemplo os casos de Remís Carla, militante feminista assassinada
pelo namorado por sua defesa à causa e Marielle Franco, vereadora
assassinada por sua defesa às minorias oprimidas, infelizmente esses casos
não são isolados.

Experiências Feministas registradas em páginas da


Internet: Uma Análise em História do Tempo Presente

Larissa Viegas de Mello Freitas (UDESC)

Ao longo da década de 2010 tem crescido cada vez mais as iniciativas de


escrita na internet como forma de fomentar e ampliar os debates sobre as
demandas do feminismo brasileiro. Mobilizações, organizações de
184

protestos, debates e produção de conhecimentos têm sido uma constante


entre feministas que se juntam em coletivos virtuais para exporem suas
demandas e reivindicações políticas. Este trabalho tem por objetivo
propor uma reflexão acerca dos conteúdos produzidos e publicados em
duas páginas feministas importantes para esse contexto, as Blogueiras
Feministas e as Blogueiras Negras. Criadas em 2010 e 2012,
respectivamente, nessas páginas virtuais estão postadas uma série de
publicações que giram em torno das questões de feminismo, gênero, raça,
branquitude, interseccionalidade, políticas públicas, educação, violência de
gênero, dentre outras. O enfoque será dado para as publicações que se
dedicaram a refletir sobre o conceito de interseccionalidade e feminismo
negro, de modo a compreender as interfaces e diálogos entre passado e
presente que esses escritos preconizam. Para tanto, a perspectiva da
História do Tempo Presente será adotada, a partir das concepções de que
essas publicações são narrativas inseridas no tempo, e que, portanto, trata-
se de fontes históricas, tendo-se em vista de que o presente é
compreendido aqui como um tempo historicamente construído.
185

SIMPÓSIO TEMÁTICO 03
AS POSSIBILIDADES DA TEORIA DA HISTÓRIA E DA
HISTÓRIA DA HISTORIOGRAFIA PERANTE OS
DESAFIOS DO SÉCULO XXI

Coordenadores:
Leandro Hecko (UFMS)
Luiz Carlos Bento (UFMS)

Esse simpósio tem por objetivo reunir pesquisadores em diversos níveis


de pesquisas e também de instituições que queiram discutir e debater
aspectos da produção do conhecimento em História. Ao entender a teoria
da historia e a historiografia como fatores existenciais da produção do
conhecimento em História, objetiva-se contribuir para o pensamento, a
tradição e o campo da história que lida com diversos problemas e
abordagens relacionados às Ciências Humanas na aurora do século XXI.
Ampliar as possibilidades de investigação e as trocas intelectuais pensando
em um modelo plural e autônomo de produção da história e escrita da
história que possibilite a (re) construção das identidades enquanto
modelos e escolhas de um tempo e espaço, que permeiam aproximações
ou o seu contrário, entre a historiografia brasileira e a historiografia de
outras nacionalidades. Logo, pretende-se reunir comunicadores que
trabalham com a identificação da memória histórica enquanto um produto
de sentido e orientação temporal dos sujeitos históricos. Também
objetiva-se possibilitar a reflexão sobre o conceito de cultura histórica,
pensando-o na sua tripla dimensão: cognitiva, política e estética. Dessa
forma, ao refletirmos sobre os estatutos atribuídos a cultura histórica e ao
saber histórico, buscamos reunir pesquisadores preocupados em
identificar as continuidades e rupturas no processo de pensar a escrita da
história no Brasil. Comportando discussões que abordem elementos
constituidores deste debate como: identidade nacional e regional,
multiplicidades étnico-raciais e de gênero, limites e aproximações
epistemológicas no processo de constituição das ciências humanas no
Brasil bem como os múltiplos sentidos atribuídos a pesquisa e a escrita da
história.
186

História e mística:teoria das práticas cotidianas em Michel


De Certeau

Raquel Simão Victoi (Universidade Federal de Goiás)

As primeiras interrogações que coloco para pensar uma teoria das práticas
cotidianas partem das operações dos usuários, confrontando as
afirmações que lhes impõem passividade e aprisionamento à disciplina.
Frente a perspectivas que enxergavam uma lógica hegemônica ordenadora
do social e de seus desdobramentos relacionais, se coloca uma análise dos
modos de operações, uma lógica operatória que Certeau chega a relacionar
com as astúcias multi milenares dos animais em perene transformação,
evolução, promovendo sempre mutações em seu comportamento para
viver. Operações que também compõem uma cultura, aos estudos das
representações e dos padrões de comportamento uni se nestas reflexões
as criações realizadas a partir do consumo dos indivíduos, são processos
que implicam em uma poética. Uma fabricação pouco visível nos sistemas
hegemônicos nos quais elas fluem, são maneiras de empregar que se
realizam de forma astuciosa, dispersa e imersa nas ordens dominantes. As
reflexões linguísticas são fundantes para este pensamento o ato de falar é
privilegiado, instaurado num sistema linguístico ele é produto das
apropriações ou reapropriações que produzem atualizações únicas a
momentos e lugares, bem como um contrato com os indivíduos
interlocutores em redes de relações socioespaciais. Nos modos de
proceder Certeau afirmar as semelhanças, com Foucalt, da atenção
direcionada aos dispositivos que infiltram se nas organizações e
redirecionam continuamente o poder, no entanto se afasta de suas
reflexões ao não se prender nas lógicas e modos de articulação e
cristalização da violência da ordem hegemônica em tecnologias
disciplinares. As formalidades das práticas são investigadas por Certeau
com um esforço de compreensão daquilo que ele entende como uma arte
ou maneira de fazer. As lógicas presentes nesta arte provindas da ‘cultura
popular’, dito de forma elástica, se constrói em artes de fazer, com uma
forma de pensar vinculada a forma de agir. Arte de combinar associada a
arte de utilizar. Reconhecer estas operações constituidoras de redes de
antidisciplina implica em conceber a marginalidade social de forma
187

deslocada ou diferente, a marginalidade passa a ser uma condição


vivenciada pela maioria, uma marginalidade de massa poderosa e
silenciosa nos meios convencionais de expressão. Não possui no entanto,
homogeneidade encontra se vinculada a contextos sociais e relações de
força determinantes na maneira como se exercerá o seu protagonismo.
Estas reflexões nos trazem portanto o propósito da eleição destas duas
noções, empatia e subversão são uma constante e impulsionadora
dinâmica de exploração das pesquisas coordenadas e/ou realizadas por
Certeau, que se encontram profundamente enlaçadas e moldadas pelos
desafios de compreensão da mística e da história.

A Questão da Função Social do Conhecimento Histórico:


Aproximações Teóricas entre a História Pública e a
Didática da História

Josias José Freire Junior (Instituto Federal de Educação, Ciência e


Tecnologia de Brasília - IFB)

Este trabalho tem por objetivo elaborar algumas considerações teóricas


acerca do tema da função social do conhecimento histórico, a partir dos
campos da história pública e da didática da História de vertente alemã. A
partir de tais campos será questionada a relação entre o saber histórico
acadêmico-científico e os saberes históricos que circulam na sociedade. A
história pública é o campo da história elabora e busca compreender o
significado de saberes históricos não acadêmicos, sejam os produzidos
como história oficial (história Estatal) ou como história para o consumo
(produtos culturais que tem a história como tema), para ficar nos
exemplos mais comuns deste tipo de história. O campo da história pública
também tem contribuído para reformular a compreensão da relação entre
história acadêmica e história escolar, avançando teórico-
metodologicamente no sentido de compreender as particularidades dos
diversos saberes históricos que circulam na sociedade. Já a didática da
História de vertente alemã tem contribuído há algumas décadas para a
compreensão das relações entre ensino de História e a função social do
conhecimento histórico. Numa tentativa de superar o quadro de
superespecialização e, consequentemente, de isolamento da produção
188

acadêmica, a didática da História avançou em discussões sobre as


particularidades, os modos e funções dos usos sociais do conhecimento
histórico. A didática da História de vertente alemã tem como conceito
fundamental o conceito de consciência histórica. Tal conceito pressupõem
um pensamento histórico elementar, anterior à teorização científica da
história, que opera como fonte fundamental de todas as histórias. Tem-
se, nessa direção, um esforço de se reconhecer de que modo demandas
cotidianas exercem influência sobre a produção acadêmica da história e o
modo como essa produção lida com tais demandas. Considera-se assim a
didática da História não como disciplina que transpõe o saber histórico
científico para determinada realidade escolar, mas como o campo de
reflexão sobre as relações entre os saberes históricos elementares,
oriundos da vida cotidiana. As perspectivas teóricas da história pública e
as análises da didática da História são entendidas como complementares
nas reflexões teóricas propostas por esse trabalho, na medida em que a
primeira se propõem discutir a referência do conhecimento histórico aos
seus contextos sociais e a segunda enfatiza a influência dos contextos
sociais – no conceito de consciência histórica – sobre os saberes
históricos. Têm-se assim, no encontro desses dois campos, um espaço
privilegiado para reflexões sobre os destinos do conhecimento histórico.
Entende-se, portanto, que ambos os campos abordam, aos seus modos,
questões concernentes às funções sociais das histórias.

Relativismo e História do Tempo Presente: revisitando o


relativismo

Manoel Gustavo de Souza Neto (ueg-uruaçu)

O momento parece ser de mais serenidade, se recordarmos o clima que


outrora se instaurou nos debates teóricos acerca do relativismo
epistemológico em Teoria da História. Este debate, que se deu como parte
de um debate maior, acerca das relações entre o conceito de pós-
modernidade e a reflexão sobre a História, constitui o ponto de partida de
minha reflexão. A posição de que não é possível reduzir a História à
literatura e a de que é prudente não abrir mão de alguma porção de
189

realismo, parece ter aplacado os ânimos daqueles que viam na pós-


modernidade a recusa de um conhecimento objetivo do passado: o
conceito parece ter se tornado próscrito, quase a maneira do que se deu
com o termo positivismo, novamente um conceito era alçado a posição
de impropério. No entanto, passado algum tempo, a crítica do realismo,
parece ter aberto caminho para a afirmação de uma especificidade retórica
e narrativa do conhecimento histórico, especificidade esta da qual
decorreria parte de sua lógica e, consequentemente, de sua eficácia
científica. Sem negar à História um estatuto de cientificidade, encontrou-
se uma maneira de levar a sério a ênfase pós-moderna nas relações entre
epistemologia e estética: achou-se de trazer ao centro o problema da
narração. Talvez seja possível retornar a esse tema central acerca das
relações entre pós-modernidade e História, qual seja, o das implicações
epistemológicas decorrentes da fundamentação estética da História, mas
desta vez não pela via dos estudos acerca da narração histórica, mas sim
pelo exemplo de dois autores diversos como Walter Benjamin e Henry
Rousso. O primeiro exemplo evocado será o de Walter Benjamin, que em
suas reflexões teóricas sobre a História chega a vislumbrar na adoção de
técnicas modernistas de montagem um modo de incrementar a
representação histórica, atendendo a uma demanda epistemológica por
estratégias descontínuas de representação, decorrentes dos eventos
políticos traumáticos da Primeira Guerra Mundial. Henry Rousso, nosso
segundo exemplo, pensa uma "história do tempo presente" que será
tomada aqui como uma forma de enfrentar o problema do relativismo
histórico sem deixar de levar a sério os desafios inevitáveis de uma crítica
do realismo. Esta questão Rousso, ele próprio leitor de Benjamin, pensou
rejeitando a identificação entre uma dimensão jurídica e outra
gnoseológica por vezes atribuída ao Historiador. Com isso o historiador
do tempo presente trouxe ao centro os conceitos de trauma e de memória,
em torno dos quais o tema do relativismo adquire grande relevância
política, sem que desafios epistemológicos possam ser solucinoados por
decreto.
190

A CONSCIÊNCIA HISTÓRICA DE JORN RÜSEN:


impressões da aplicabilidade do conceito

Anselmo Silva Socorro (UEMS - Unidade Universitária de Paranaíba)

Este trabalho tem como objetivo descrever de forma sucinta o conceito


de consciência histórica de Jorn Rüsen (SCHMIDT; BARCA; MARTINS,
2011), bem como também descrever a aplicabilidade do conceito em
alguns trabalhos de pesquisa. MATERIAIS E MÉTODOS Para alcançar
o objetivo primeiramente se esclarece o conceito de Consciência História;
e em seguida se demonstra alguns trabalhos que fazem a utilização do
conceito; bem como se demonstra as impressões deixadas pelo acesso ao
conceito e suas aplicabilidades. RESULTADOS E DISCUSSÃO Esse
trabalho de correlação permitiu o detalhamento de algumas impressões
sobre a aplicabilidade do conceito. O trabalho demonstra algumas
características e peculiaridades da aplicação do conceito de Consciência
Histórica. Essas impressões apontam para a necessidade da realização de
pesquisas com outras populações; apontam também para a possibilidade
de utilização do conceito de Consciência Histórica em outros espaços, que
não só o do ensino de história; e alerta para a necessidade de que os
trabalhos tenham um maior cuidado em descrever o conceito de
consciência histórica ou apontar bibliografias de apoio. Completo:

Antiguidades e Usos do Passado: questões conceituais

Leandro Hecko (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul)

Este trabalho se vincula ao projeto de pesquisa intitulado “As


Antiguidades e os Usos do Passado: sobre a presença do passado na vida
prática das pessoas” como uma ação do grupo de pesquisas “História
Antiga e Usos do Passado: novas perspectivas entre o passado e o
presente”. Desta forma, deseja-se problematizar o campo dos chamados
Usos do Passado com relação a temas das Antiguidades egípcia, grega e
romana de forma a assinalar a amplitude de conceitos englobados pelos
chamados usos, que significam, na mesma ordem, uma miríade de
temáticas para pesquisas atualmente, mostrando também desafios para os
191

pesquisadores do século XXI que pretendem se aventurar pelos campos


das Antiguidades em sua relação entre passado e presente. Para tanto,
seguiremos o seguinte caminho: apontaremos para uma definição genérica
dos chamados Usos do Passado, problematizando suas possibilidades; em
seguida, refletiremos sobre alguns conceitos que, a nosso ver, são
desdobramentos de tais usos ou possuem relação com eles no sentido de
possibilitarem desdobramentos temáticos de investigação; por fim, na
relação entre o conceito geral de Usos do Passado e seus desdobramentos,
refletiremos acerca dos desafios representados por essa ordem de ideias
para os estudos sobre as Antiguidades.

Teoria e epistemologia da história: desafios e perspectivas


para o ensino de história

Luiz Carlos Bento (UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO


GROSSO DO SUL)

Esse texto é resultado de uma experiência programática de reflexão sobre


as práticas de ensino e de pesquisa em história, no curso de licenciatura
em história do Campus da UFMS de Três Lagoas, tendo como objetivo
central a reflexão sobre os aspectos epistemológicos inerentes ao
desdobramento prático e teórico das atividades de ensino e de pesquisas
desenvolvidos no processo de formação de professores de história. Com
base nessa preocupação inicial entendemos que o conhecimento histórico
é produzido dentro de uma rede de relações produzidas pela ação humana
no tempo e no espaço. Paul Veyne chama essa rede de enredo, Ivan
Domingues chama de trama, já Estevão de Resende Martins (2017) em
obra lançada recentemente trabalha com a noção de rede fatorial onde a
trama é vista como a composição de fatores que formam a consciência
histórica de todo agente humano na sua relação de apreensão da
experiência do tempo. Para ele a formação da consciência histórica é
resultado de um processo continuo que ocorre em dois níveis
complementares: o de ser, todo indivíduo existe dentro de uma constância
temporal, o que evidencia o passado como empiricamente possível de
reflexão e o de produzir a história no presente com base numa perspectiva
de futuro. Todo conhecimento, com especial ênfase para o histórico,
192

depende de uma teia de fatores que se intercruzam no sujeito


subjetivamente consciente e ativo. Dessa forma, ele afirma que existem
pelo menos três instâncias fatoriais na produção do conhecimento
histórico. 1ª o agente, 2ª o tempo, 3ª o espaço (físico e social). As variáveis
sociais, políticas, econômicas e culturais são preenchidas empiricamente
pela historicidade do tempo preenchida pelo agir e agem sob a consciência
dos indivíduos, tanto os indivíduos comuns quanto aos historiadores de
oficio. Em seu esforço teórico de pensar uma epistemologia aplicável ao
ensino de história Estevão Martins entende que o indivíduo deve ser
localizado temporalmente como sendo o resultado de uma rede fatorial
de circunstâncias históricas que o precedem. Para ele, num diálogo direto
com o pensamento histórico de Jörn Rüsen (2007), é sempre na relação
com essa rede que o sujeito historicamente constituído estrutura o seu
modo de se relacionar com sigo mesmo e com o mundo social a sua volta
definindo metas e estruturando objetivos que lhe permitam agir. Nessa
perspectiva o indivíduo é (produto da história), é um resultado de ações e
valores acumulados no seu tempo e espaço social. Dessa forma para
Martins, todo agente humano se constrói como indivíduo a partir do
legado com que se depara e com o qual deve lidar concretamente para
demarcar a sua autonomia reflexiva e sua ação.

Fernando de Azevedo: uma possibilidade de leitura a partir


da historiografia

Wilson de Sousa Gomes (Universidade Federal de Goiás)

A comunicação tem por finalidade discutir elementos de uma pesquisa em


desenvolvimento junto a Universidade Federal de Goiás. Como
fonte/documento principal, é definida a obra: “A Cultura Brasileira:
introdução ao Estudo da Cultura no Brasil” (2010). Com base nas
concepções, conceitos e categorias desenvolvidas, bem como os
pressupostos utilizados pelo intelectual Fernando de Azevedo,
percebemos uma possibilidade de leitura da obra e autor a partir da
História e Historiografia. Uma pesquisa que pode ser localizada dentro do
campo História das Ideias, da História Cultural, História Intelectual e/ou
História dos Conceitos, pode ser considerada desafiadora por lidar com
193

várias análises, focos epistemológicos, tratamentos metodológicos e


concepções teóricas. Desse modo, nos concentramos na produção do
autor identificando a forma de abordagem e a estratégia e uso que faz do
passado. Dono de uma vasta produção, o intelectual mineiro tem como
fundamento intelectuais da Alemanha, França, Estados Unidos e Brasil,
preocupado com um projeto de nação. Pensador de grande importância,
usa o passado como estratégia para entender a história do Brasil e a cultura
brasileira. Nesses aspectos, produz uma obra síntese. Dito de outra forma,
sintetiza o Brasil em uma obra de caráter historiográfico e monumental,
revelando o país ao povo, aos brasileiros. Ao refletir sobre esse ponto,
para realizar a análise, nosso trabalho tem por metodologia a interpretação
bibliográfica. Em resumo, o objeto de pesquisa é o pensamento de
Fernando de Azevedo no que refere ao uso do passado. Como
problemática, busca-se compreender o conceito de história desenvolvido
pelo pensador na obra supracitada. O objetivo e discutir e debater a
pesquisa que, em nossa perspectiva, é uma possibilidade desafiadora, pois,
propõe contribuir para a produção de conhecimento e promover a
aproximação entre a história e as ciências humanas em um esforço de
cooperação com as discussões de cunho multidisciplinar, dado que o
objeto transita entre a educação, a sociologia e a história. Logo, a
comunicação parte da historiografia nacional e internacional aplicando
uma abordagem que assente a importância de Fernando de Azevedo e da
obra “A Cultura Brasileira”, para se pensar o conceito de história na
tradição histórico - historiográfica dos intérpretes do Brasil.

A História e a sua multiplicidade temporal

Cristhiano dos Santos Teixeira (UFG)

Ao retomar o problema da história da historiografia brasileira, que dentro


de uma tradição se assenta sobre o desenvolvimento da teoria e da
metodologia histórica, nos ocupamos dos estudos sobre o processo da
'evolução' do conhecimento histórico no qual se apresenta como um
campo de estudos específico, distinto daquele praticado pela filosofia da
história, da teoria da história ou da metodologia da história. Sendo assim,
a história da historiografia, a história do pensamento histórico ou a história
194

da história, compreenderia, primeiramente, um campo específico do


conhecimento histórico que se dedica, sobretudo, exaustivamente, às
revisões, pesquisas, análises, ou estudo da produção histórica do tempo e
historiográfico, da prática do historiador, e que permite, por outro lado,
pensar também sobre os movimentos que contribuíram para a legitimação
de teorias da história que pudessem justificar o “por quê? Para quê? e para
quem?” da história e da historiografia. Assim, o objetivo principal deste
trabalho é pensar, refletir, a partir de uma abordagem da história da
historiografia, como também a “história e seus passados” ou, mais
especificamente, as questões do tempo histórico e seus problemas de usos
na história. Ou seja, minha sugestão é que possamos problematizar o mais
“recente” campo de estudos históricos que é a história da historiografia.
Não pretendo construir uma genealogia sobre os historiadores e suas
obras que contribuíram para tentar consolidar uma historiografia no
Brasil, mas de pensar a historia da historiografia a partir de reflexões cujo
objetivo é problematizar a “prática historiográfica a partir dos seus
próprios instrumentos, isto é, a partir da historicidade própria do saber
histórico” (NICOLAZZI, 2017. p. 10). Num livro recente do historiador
José D’Assunção Barros intitulado “O tempo dos historiadores” há, logo
na introdução, um problema. Ele pergunta ao leitor: se houvesse uma
única palavra que pudéssemos escolher para a história, uma palavra apenas
que demonstrasse toda a singularidade da história qual seria? Nenhuma
outra poderia resumir tão bem a história do que a palavra-conceito
“Tempo”. O tempo a partir da década de 1970 torna-se um problema
essencial para a história da historiografia, criticando sua universalidade,
seu caráter de unidade, etc. Como atesta Valdei Lopes de Araújo, a história
dos conceitos, que surge na Alemanha no pós-guerra, começaria a ganhar
destaque no Brasil a partir da década de 1970, como podemos encontrar
rápidas referências à Koselleck neste período. A historiografia pós-1970,
dos anos 1980 aos 2000, não ficaram imunes aos novos reordenamentos
causados pelos acontecimentos políticos e econômicos pelo mundo afora.

Feminismo, política e história das mulheres: o conceito de


objetividade na historiografia

Nayara de Sousa Rocha (Universidade de Brasília (UnB))


195

Neste trabalho, pretende-se discutir o conceito de objetividade a partir da


reflexão feita no campo da história das mulheres sobre o tema. A história
das mulheres surgiu como um campo de estudo definido nas décadas de
1970 e 1980, impulsionado, em grande medida, pela atuação política
feminista da década anterior. Desde sua origem, os estudos de história das
mulheres estiveram marcados por uma conexão direta entre política e
produção do conhecimento, fazendo com que historiadores, sobretudo
historiadoras, que se dedicavam ao tema enfrentassem críticas em relação
a uma suposta falta de profissionalismo ou uma suposta falta de
objetividade nos seus estudos. As respostas a essas críticas se
encaminharam para a discussão sobre o próprio conceito de objetividade
e apontaram para diferentes direções, desde a defesa de um abandono
total do conceito até uma reivindicação deste, a partir da crítica a uma
noção tradicional de objetividade presente na historiografia. O objetivo
do trabalho é refletir sobre a complexidade e a pluralidade de sentidos
envolvidos quando se trata do conceito de objetividade, entendendo como
o conceito foi pensado e transformado pelas historiadoras da área de
história das mulheres. A crítica ao conceito de objetividade no âmbito da
história das mulheres levou a diferentes direções. Enquanto algumas
pensadoras reivindicaram o conceito para si, refletindo criticamente sobre
a prática historiográfica e a sua distância em relação a um ideal de
objetividade “aperspectiva”, impossível na prática, outras pensadoras
defenderam o abandono do conceito. A rejeição do conceito de
objetividade partiu da noção de que haveria uma ligação inerente entre
objetividade e objetificação. Refletindo sobre essa questão, a cientista
social Mary Hawkesworth procurou separar os conceitos de objetividade
e de objetificação, propondo a construção de um conceito feminista de
objetividade que considerasse “a complexa interação entre valores
tradicionais, normas sociais, concepções teóricas, restrições disciplinares,
possibilidades linguísticas, disposições emocionais e imposições criativas
em todo ato cognitivo”. A construção de um conceito feminista de
objetividade, conforme proposto por Mary Hawkesworth, poderia abrir
caminho para um deslocamento radical na história como um todo, através
do questionamento das definições de história e de seus agentes já
estabelecidos e de uma remodelação fundamental da disciplina. Dessa
forma, seria possível pensar em uma história das mulheres que se
196

mostrasse mais do que um suplemento de uma história “geral”


marcadamente masculina.

A Revolução de 1930 na memória mineira e os limites


discursivos da cisão política no interior da elite em Minas
Gerais

Danyllo Di Giorgio Martins da Mota (Universidade Federal de Goiás)

A historiografia acerca da Revolução de 1930 tem a memória como


elemento fundamental para sua construção. A recorrente utilização da
memória produzida pelos grupos identificados como “vencedores”
contribuiu para que a construção do conhecimento histórico estivesse
muito influenciada pela perspectiva do grupo que se encontrava no centro
do poder a partir de 1930, cuja narrativa encontra-se centrada na figura de
Getúlio Vargas. A partir do final da década de 1970 o debate
historiográfico se caracterizou pela ampliação da análise sobre o processo
político de 1930 voltando o olhar com mais atenção para os agentes
considerados até então secundários no processo, esquecidos nas análises
de até então ou rotulados a partir dos elementos negativos – derrotados,
vencidos, carcomidos etc. A comparação entre os vários projetos políticos
presentes à época tornou possível refletir sobre como estes homens
pensavam seu próprio tempo ampliando as possibilidades de
compreensão das lutas do período. Em Minas Gerais, essa memória se
caracterizou pelo embate discursivo entre os grupos que se opuseram no
cenário político da época. Contudo, mais do que a oposição entre
apoiadores e opositores da Revolução, os discursos presentes no cenário
mineiro apresentam elementos muitas vezes comuns a ambos os lados.
Neste trabalho analisamos a relação que os memorialistas estabeleceram
entre os problemas do sistema partidário em vigor e a crise do sistema
republicano. Para isso, recorremos às obras A ação do dr. Carvalho Brito
na atual campanha de sucessão presidencial da República (1930),
manifesto da Concentração Conservadora de Minas Gerais, Documentos
da Campanha presidencial (1930), reunião de discursos dos líderes da
Aliança Liberal, A Palavra do Presidente Antônio Carlos na Campanha da
Aliança Liberal (1930), de Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, Artur
197

Bernardes e a Revolução (1931), de Amarílio Júnior, Outubro, 1930


(1931), de Virgílio de Melo Franco, As Razões de Minas (1932), de Mário
Cassanata e Minas Gerais na Aliança Liberal e na Revolução (1933), de
Aurino Morais. Buscamos apontar as principais convergências e
divergências nos discursos destes grupos como forma de identificar os
limites da cisão no interior da elite política mineira neste processo.

Problemas e dificuldades na Escrita da História do Brasil

Eduardo Henrique Barbosa de Vasconcelos (Universidade Federal do


Rio Grande do Sul)

No Brasil, a História da História é por deveras conhecida e bastante


estudada nas Universidades. Nesse sentido, momentos como a criação em
1838 do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro - IHGB , o concurso
Como se deve escrever a História do Brasil vencido pelo prussiano Carl
Friedrich Philipp von Martius e a publicação do primeiro volume da obra,
seminal, Historia Geral do Brasil escrita pelo membro mais destacado do
Instituto Historio Geográfico do Brasil, Francisco Adolfo de Varnhagen,
são tidos como momentos referenciais e marcantes para a historiografia
brasileira desde o século XIX, perpassando o século XX e chegando até o
presente momento (século XXI). Todavia, passados mais ou menos, quase
200 anos após todas essas atividades seria possível propor e escrever uma
outra forma de História do Brasil? A presente comunicação tem como
objetivo problematizar a atual forma de entendermos a escrita da História
brasileira que se estrutura na concepção de "centro e periferia".

Memória Social e Subjetividade: uma análise


transdisciplinar sobre o consumo entre os Kalunga

Thais Alves Marinho (Pontifícia Universidade Católica de Goiás)

Esse trabalho visa compreender, por meio de uma análise sociogenética e


psicogenética, os constrangimentos institucionais que alimentam as
198

relações de consumo e as expressões culturais entre os Kalunga e como


essas afetam a organização do grupo em torno da identidade quilombola
na atualidade, formalizada pelo etnônimo Kalunga. A prerrogativa
sincrônica e diacrônica adotada é que cada um desses afrodescendentes
do nordeste goiano interseccionam a memória coletiva a que tiveram
acesso durante sua experiência de vida, fundada na tradição, objetivada
por seus habitus, com a lógica formal legitimada, a medida e de acordo
com a intensidade do contato estabelecido com o ambiente técnico-
informacional globalizado do mercado e burocrático-instrumental do
estado. O acesso aos saberes e aos bens se faz mediante uma
processualidade histórica e hierarquizante de longa duração (sociogênese),
estabelecida por uma rede intricada de controles sobre a cognição e a
volição dos indivíduos (piscogênese). Esse jogo do poder, por sua vez,
efetiva diferentes níveis de contatos com os valores tidos universais,
gerando um ambiente simbólico múltiplo e desigual, que suporta tanto a
universalidade quanto a particularidade, tanto a universalidade quanto a
particularidade, tanto a identidade quanto a diferença. Dentro dessa lógica,
as estruturas mentais humanas, por meio de processos miméticos, são
acionadas (no consumo) para incorporação e reprodução das ideologias.
Isso significa dizer que o consumo pode atuar tanto como força
socialmente integradora, reforçando as tendências em procurar uma
cultura de comunidade mediante uma simbologia específica, como no
“neo-tribalismo” ou na “performatividade” dos grupos marginalizados,
quanto como uma estratégia de diferenciação, amparada num cálculo
racional das diferenças de acordo com a lógica de produção e de
manipulação dos significantes sociais, como indica o conceito de
“sociedade de consumo”. Com base nos dados obtidos com os Kalunga,
por meio da História Oral, História de Vida e observação participante, é
apresentado um modelo sobre consumo que visou compreender a
formação identitária a partir das relações de consumo, levando-se em
conta que há, pelo menos, dois níveis de horizontes identitários: o formal
e o ontológico. Tal constatação, no entanto, frustra o ideal de
autenticidade edificado pela gnosiologia moderna, que tem inspirado o
reconhecimento de comunidades tradicionais rurais no Brasil, já que
esperam encontrar unidades coletivas, com uma cultura autêntica e
independente, que se afirma em relação às outras culturas.
199

SIMPÓSIO TEMÁTICO 04
CARTOGRAFIAS DA HISTÓRIA DA
HISTORIOGRAFIA E TEORIA DA HISTÓRIA

Coordenador:
Marcello F. M. Assunção (USP)

A Teoria da História e a História da Historiografia são dimensões


fundamentais para a existência de qualquer pesquisa histórica e até mesmo
para a própria formação de um indivíduo enquanto historiador,
destacando a importância do conhecimento de diversas correntes e
paradigmas historiográficos. Este ST privilegiará estudos referentes aos
temas de ordem teórico-metodológica e debates historiográficos, assim
como investigações nos campos da História das Ideias/ História
Intelectual e História Conceitual.

O Conceito de Propaganda Nazista: uma intersecção entre


teoria e prática

Elbio Roberto Quinta Junior (UNIVERSIDADE FEDERAL DE


GOIÁS)

Esta comunicação tem como objetivo principal realizar uma investigação


teórica sobre o conceito de propaganda que norteou o Ministério do Reich
para Esclarecimento Popular e Propaganda, sob o comando de Joseph
Goebbels, na Alemanha Nazista. Para tanto, a ideia sobre propaganda,
presente no livro Mein Kampf, de Adolf Hitler (2005), será tomada como
fonte para este trabalho. Partindo da conceituação de propaganda como a
arte que “reside justamente na compreensão da mentalidade e dos
sentimentos da massa” (HITLER, 2005, p. 139), perceberemos o destaque
200

dado pelo ao autor à questão psicológica da propaganda. Desse modo,


testaremos a hipótese da propaganda nazista como uma intersecção entre
o campo da psicanálise e o da psicologia comportamental. Se a
aplicabilidade das suas técnicas parte, sobretudo, da comportamental, o
estudo sobre seus efeitos fundamenta-se na análise do inconsciente das
massas. Metodologicamente, construímos o debate inicialmente com uma
exposição da filósofa política Hannah Arendt (2012) sobre o papel da
propaganda para um movimento totalitário. Em seguida, abordamos o
conceito de propaganda para Adolf Hitler (2005) e Joseph Goebbels
(n/d). Consequentemente, através das considerações de Serge
Tchakhotine (1967), sobre a questão psicológica da propaganda nazista, e
do teórico da comunicação Jean Marie Domenach (1963), sobre o estudo
das técnicas de uma propaganda política, nós objetivamos comprovar,
teoricamente, a hipótese pretendida neste trabalho. Em Tchakhotine
(1967), conseguimos ter uma dimensão da importância que o símbolo
proporciona à máquina de propaganda nazista, dando uma maior
dimensão e disseminação ao ideal nacional socialista. O trabalho com
símbolo, na propaganda nazista, é estruturado para Tchakhotine (1967)
através da utilização do conceito de Reflexo Condicionado, do médico
russo I.P. Pavlov. Ou seja, temos presente aqui uma abordagem advinda
da psicologia comportamental. Já com o trabalho do Professor Domenach
(1963), averiguamos que, embora apoiando-se no trabalho do professor
Serge Tchakhotine (1967), o autor debate sobre o papel que o líder
assume, no caso Hitler, dentro do inconsciente das massas. O autor
vislumbra isso através da representação simbólica que o líder passa a
possuir nas obras de propaganda. Com isso, acreditamos conseguir
atribuir uma projeção para entender o complexo espectro teórico que
envolve a difícil conceituação da propaganda nazista. Afirmamos ser
difícil, pois não há uma clara definição, quanto a ela, entre os seus
principais formuladores, Adolf Hitler e Joseph Goebbels, e à existência de
enormes variantes, seja no campo técnico ou teórico, que envolvem a
concepção de propaganda para os nazistas. Contudo, a infalibilidade dela
é inegável.
201

Relatos de dor - Os testemunhos nos projetos “Brasil:


Nunca Mais” e “Nunca Más”

Loudinéia dos Santos Silva (Universidade Federal De Goiás)

O presente trabalho em exposição, faz referência a uma pesquisa de


mestrado em andamento que terá como objetivo analisar a noção de
trauma e tortura por meio dos relatos memorialísticos contidos nos
documentos Nunca Más e Brasil: Nunca Mais através de uma perspectiva
comparativa, uma vez que essa experiência da violência tornou-se pública
mediante a memória e testemunho das vítimas durante os regimes
militares, recorte que aqui procedo, no interior das inúmeras
possibilidades de reflexões que o tema oferece. Essas fontes emblemáticas
são um exemplo de pesquisa que se tornaram obra referência pelo esforço
e abrangência, ampliando as possibilidades de releitura da memória a partir
de relatos de presos políticos que sofreram torturas e a de familiares que
sofreram com a perda de parentes. Apesar das diferenças existentes entre
a transição dos processos das ditaduras argentina e brasileira, ambas,
durante seus respectivos processos, elaboraram documentos,
significativos para construção de um passado recente marcado pela
repressão. No caso brasileiro sua constituição foi marcada pela atuação
silenciosa, quase clandestina, por parte da igreja, esse projeto evitou o
sumiço de milhares de documentos fundamentais para a história. No caso
argentino foi público, a sociedade teve participação direta, forneceu
informações e testemunhos sobre a ação repressiva por parte dos
militares. Para além da relevância dos crimes cometidos, esses
documentos revelam, pela primeira vez, com provas evidentes da
organização por parte do Estado que se utilizou de estratégia de repressão
como sequestro, tortura e morte. Nesta conjuntura a memória e o
testemunho tornam-se então objeto essencial para a denúncia dos atos
violentos nos regimes militares trabalhados aqui, esse período de exceção
nos países que sofreram com essa ação e, para também possibilitar algum
tipo de reparação as vítimas. Pode-se afirmar que os testemunhos contidos
nos documentos, foram narrados com esforço para que esses
depoimentos fossem interpretáveis. As narrativas que resultam desses
testemunhos devem ser tratadas criticamente pela história, considerando-
202

se que se trata de um ponto de vista ligado aos militantes e à resistência


ao regime militar. O testemunho é uma modalidade da memória, e esta,
por sua vez é uma construção psíquica e social representada dentro de um
contexto histórico. Os documentos nos permitem as abordagens e
informações sobre os partidos políticos perseguidos durante a época e
inúmeros relatos de tortura sofrida pelos presos políticos. As
contribuições teóricas de Márcio Seligmann-Silva, Michael Pollak e Primo
Levi, servem de base para este trabalho.

História e elaboração do passado

Sabrina Costa Braga (UFG)

A psicanálise como a conhecemos serve primordialmente à clínica e é por


isso que Freud fala a partir de um contexto ligado a técnicas terapêuticas,
mas que podem servir para ajudar a compreender os processos coletivos
ligados à memória. Em “Recordar, repetir e elaborar: novas
recomendações sobre a técnica da psicanálise II”, Freud nos mostra como
o papel da psicanálise é o de identificar as resistências e torná-las
conscientes ao paciente, preenchendo as lacunas da memória e, assim,
levando à superação essas resistências que se devem à repressão. O
esquecimento, enquanto neurose, está ligado à dissolução de vinculações
de pensamento. Dessa forma, enquanto o paciente busca esquecer, ele de
fato não recorda a lembrança, reprime-a. O problema é que essa repressão
se dá no plano da consciência, impedindo que o paciente se lembre, mas
levando a uma repetição incessante do ocorrido de formas diversas como
em ações ou sonhos. De maneira que, de uma forma ou de outra, o
passado esquecido é transferido para a situação atual sem que possa ser
interpretado e dele tirado conclusões corretas, pois a lembrança foi
isolada. É assim, quando o paciente experimenta o passado como algo real
e atual, que é preciso exercer o trabalho terapêutico que consiste em
remontar o passado, cujo primeiro passo é revelar ao paciente as
resistências que eles não reconhecem para então elaborar essas
resistências, superá-las e permitir que este continue a viver. O trabalho de
elaborar as resistências é árduo. É preciso coragem para enfrentar o
passado e esclarecê-lo, principalmente se esse passado mostra-se enquanto
203

algo vergonhoso, ou enquanto passado traumático. O termo em alemão


Durcharbeitung, que é traduzido como “elaboração”, ou ainda
“perlaboração” coloca em questão um trabalho (arbeiten) profundo a ser
realizado para que seja efetivo na resolução do passado e aja no presente,
desvendando as origens dos fascismos. A experiência nazista gerou uma
densa quantidade de estudos e interpretações. Precisamos pensar agora de
que maneira tais interpretações e explicações foram capazes de atingir os
envolvidos, tanto as vítimas diretas quanto os demais envolvidos. Pensar
até que ponto tais estudos foram capazes de integrar a visão destes acerca
do seu passado e, consequentemente, libertá-los de um passado que
remete à violência e culpa. Desta forma, é através do fenômenos da Shoah
que pensaremos o uso do conceito de elaboração para a teoria da história.

Literatura e historicidade: a dimensão temporal na literatura


distópica

Ana Lorym Soares (UFG/Jataí)

Esta comunicação propõe uma reflexão sobre o modo como literatura e


história se informam mutuamente em termos de modelos organizadores
de escrita e de reflexão sobre a dimensão temporal da história. Segundo o
filósofo Paul Ricouer, é por intermédio da “narrativa” que o homem dá
sentido à passagem do tempo (RICOUER, 1994) e é por meio dessa chave
interpretativa que pretendermos encarar a relação história/literatura,
considerando a noção de “narrativa” como forma de atribuição de sentido
em relação à experiência do tempo, de maneira a interrogar sobre os
modos pelos quais a historicidade é construída ficcionalmente em
determinadas formas de texto literário. Observando que tanto os fatos
históricos quanto a dimensão temporal são objetos comuns de reflexão e
construção de narrativas para literatura e história e, visto que, embora
apresentem obviamente escopos particulares, ambos os discursos se
dedicam à apreensão da ação humana no tempo, seja esse tempo o “real”
vivido (ou a ser vivido no futuro) ou o tempo diegético (existente apenas
no microcosmo da ficção literária), questionamos: de que maneira esse
tema pode suscitar reflexão teórica para o campo da história de modo a
superar o argumento acerca da ficcionalidade ou não da narrativa histórica,
204

que se assenta numa perspectiva que entende ficcional como “falsidade”


e histórico como “verdade”? Na ocasião, daremos atenção à
especificidade da literatura distópica (utopia negativa) produzida na
primeira metade do século XX por autores de diferentes nuances estéticas
e ideológicas como Eugene Zamiatin, Audous Huxley e George Orwell.
Trata-se de uma reflexão de caráter mais geral que visa definir alguns
marcos iniciais para a discussão.

Mulheres e relações de gênero na historiografia brasileira


(1984-2012)

Benedito Inacio Ribeiro Junior (UNESP - Assis)

Esta comunicação tem o objetivo de apresentar uma pesquisa de


doutorado que, ainda em sua fase inicial, procura analisar a produção
historiográfica brasileira acerca das relações de gênero e das mulheres.
Tomando o arco temporal de 1984 a 2012, marcados, respectivamente,
pela publicação de "Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX", de
Maria Odila Leite da Silva Dias, e pelo lançamento da obra "Nova História
das mulheres no Brasil", organizada por Carla Bassanezi Pinsky e Joana
Maria Pedro, o estudo analisará a formação e consolidação do campo da
História das Mulheres e das Relações de Gênero no país. Inspirado nas
propostas de Michel de Certeau sobre a escrita historiográfica e de Joan
Scott acerca da escrita da história das mulheres, o trabalho buscará estudar
as conexões entre os campos da História das Mulheres e de Gênero,
confrontando-os com as concepções teóricas sobre o tema, buscando
identificar rupturas e continuidades entre instituições, conceitos, métodos,
fontes, narrativas e disputas políticas entre os dois campos. Para tal, serão
analisadas obras de historiadores que se dedicaram ao assunto (teses,
dissertações, livros, artigos, dossiês e capítulos de livros); os anais e
resumos dos eventos da ANPUH Nacional, especialmente do GT
Estudos de Gênero, bem como as atas das reuniões administrativas do
mesmo GT; os periódicos nacionais que se debruçam sobre a questão,
nomeadamente a "Revista Estudos Feministas" e os "Cadernos Pagu"; e,
por fim, entrevistas com historiadores que se dedicaram ao tema. Assim,
o trabalho possivelmente contribuirá para a reflexão crítica de dois
205

campos do conhecimento histórico brasileiro: História da Historiografia e


História das Mulheres e das Relações de Gênero.

A escrita da história em Jules Michelet: História, Natureza


e Linguagem

Renato Fagundes Pereira (UFG)

A contribuição de Jules Michelet para o ofício do historiador é inegável,


sua escrita militante marcou o século XIX e consolidou uma forma de
escrever história. Nesse sentido, partimos da hipótese que o conceito de
Renascimento de Michelet é resultado de uma proposta conceitual na qual
o discurso científico historiográfico e a narrativa romântica figurativa
estão entrelaçados de forma indivisível, essa nova forma extremamente
singular de compreender a escrita da história estabeleceu uma nova relação
entre o passado, a história e o historiador: O historiador que revive o
passado em história, e a história que ressuscita o historiador. Jules
Michelet é um daqueles historiadores incontornáveis na História da
Historiografia. Os membros dos Annales, por mais de uma vez, atribuíram
a ele um dos papeis centrais na formação de elementos fundamentais para
a fundação da História científica. Dentre suas contribuições, os
historiadores contemporâneos destacam a participação na consolidação
do conceito de Renascimento, tarefa do qual Lucien Febvre se dedicou a
elucidar em cursos ministrados no Collège de France entre 1942 e 1944.
Jacques Le Goff e Jacques Rancière enfatizaram a importância de Michelet
como aquele que instaurou l’histoire-récit e rompeu com a história
exclusivamente dos nomes próprios, dos grandes homens. Michelle Perrot
coloca Jules Michelet entre os pioneiros que se dedicaram a História das
mulheres. As pesquisas exaustivas de Michelet sobre a História da França
e sobre a Revolução Francesa foram obras de extrema importância para o
espírito dos historiadores franceses do século XIX, especificamente, dos
historiadores que tradicionalmente recebem o título de Românticos, da
qual Michelet se situa. É importante situar a historiografia romântica do
século XIX na França em dois movimentos. Se de um lado os
historiadores românticos romperam, em determinados aspectos, com a
historiografia iluminista, predominante até o século XVIII, de outro, eles
206

devem ser colocados em um espaço diferente daqueles nomeados como


metódicos ou positivistas, que também coexistiam enquanto corrente de
pensamento no século XIX. Essas etiquetas didáticas não podem
esconder as complexidades, as trocas e as compatibilidades que esses
pensamentos historiográficos possuíam em comum, afinal, vale à história
da historiografia a máxima que Marc Bloch imortalizou: Os homens são
mais filhos de seu tempo que de seus pais. No entanto, existem
imperativos ou preocupações que nos permite circunscrever historiadores
em locus e traçarmos uma cartografia do pensamento histórico no século
XIX, de forma a definir fronteiras e identidades de acordo com suas
diferenças e similaridades, mas não sem dificuldades.

O problema da metafísica na teoria da história de Raymond


Aron

Murilo Gonçalves dos Santos (Universidade Federal de Goiás)

Trata-se de explicitar os aspectos que constituem a teoria da história de


Raymond Aron a partir de sua consideração do problema da metafísica.
Por um lado, Aron realizou uma crítica à metafísica, a qual partiu de certos
fundamentos que podem ser ligados tanto à tradição filosófica
hermenêutica como ao neokantismo da escola do sudoeste alemão e,
finalmente, à tradição historicista do fim do século XIX e início do século
XX. Essa crítica encontra-se presente em sua teoria da história, a qual, a
seu turno, foi desenvolvida a partir da inspiração em autores específicos,
como Heinrich Rickert, George Simmel, Wilhelm Dilthey e, sobretudo,
Max Weber. Essa tradição representou a virada epistemológica pós-
hegeliana e procurou refutar as proposições metafísicas contidas na
reflexão kantiana e, principalmente, hegeliana, no que tange o tratamento
da ciência histórica, de um modo particular, e das ciências humanas (sejam
as Geisteswissenschaften de Dilthey ou as Kulturwissenschaften de
Rickert e Weber), de um modo geral. Na França, essa crítica foi
direcionada por Aron ao neokantismo racionalista de Léon Brunschvicg e
à filosofia vital de Henri Bergson. Aron, junto a seus contemporâneos
(como Georges Canguilhem e Alexandre Koyré), acreditava que a filosofia
preconizada por tais autores retirava do homem e de seu mundo aquilo
207

que os caracterizava essencialmente, a saber, sua historicidade. Por outro


lado, não obstante a legitimidade da constituição de tal crítica, procurar-
se-á apontar como não somente Aron, mas também a tradição historicista
à qual se ligou, ao procurar fundamentar a natureza humana na história,
isto é, em sua historicidade, ao fim, não excluiu de forma definitiva a
metafísica de seus reflexões e sistemas de pensamento: ao contrário, pode-
se considerar que a natureza de tal crítica foi caracterizada
primordialmente por uma nova forma de dialogar com o pensamento
metafísico, o que, com efeito, contribui para renovar o próprio estatuto
da filosofia da história. Desse modo, pretende-se mostrar como a
problemática da metafísica e da filosofia da história revela-se mais profícua
quando o historiador, em vez de negá-la de forma imediata e irrefletida,
opta por analisar sua presença em sua própria teoria, tanto no âmbito
epistemológico como metodológico.

A teoria da história em/de José Honório Rodrigues

Krisley Aparecida de Oliveira (UFG)

O presente trabalho em exposição terá com objetivo tratar da Teoria da


História em José Honório Rodrigues. Trabalhamos com Rodrigues por
inúmeros motivos, mas os três, para nós mais importantes são, primeiro,
Rodrigues apresentar uma preocupação com as questões de ordem teórica
e o ofício do historiador em meados da década 40, segundo, ser
considerado por muitos pesquisadores o intelectual pioneiro nesses
estudos, e terceiro, e mais curioso, levando em consideração os dois
pontos anteriores citados, se tratar de um pesquisador cujas produções a
seu respeito são tão reduzidas e seu nome figurar de forma escassa nos
debates acadêmicos. De acordo com nossas leituras, as obras as quais José
Honório mais se dedica a pensar questões referentes ao fazer
historiográfico, são em ordem cronológica, Teoria da História do Brasil
(1949; 1957; 1969; 1978), A Pesquisa Histórica no Brasil (1952; 1969;
1978; 1982) e História da história do Brasil (1978; 1988), contando como
visto, com várias edições, onde José Honório fez alterações, adicionou
prefácios e posfácios. Pensaremos esses três livros como um único
trabalho arquitetado por José Honório, que podemos chamar de Obra
208

Tríplica, onde o autor, apesar de títulos diferentes, encabeça, sobre a nossa


perspectiva, um único projeto, que pensamos como um projeto de
modernidade brasileira. Em A Pesquisa Histórica no Brasil, descreve
procedimentalmente como deve ocorrer uma pesquisa, mantendo diálogo
com diversos autores como Hegel, Rickert, Meyer, Croce, Collingwood,
Marx, Toynbee, Dilthey, Capistrano, Taunay, Varnhagen, Rodolfo Garcia,
dentre outros. Tentando sempre endossar sua perspectiva de que o
historiador só poderá chegar à crítica de uma fonte, se de antemão, souber
como operá-la. Percebemos que a preocupação do autor em discutir desde
a Teoria da História do Brasil, a fundamentação de uma ciência histórica,
por meio da pesquisa guiada procedimetalmente, que ele explica em
Pesquisa Histórica no Brasil reside tanto na preocupação dos estudos
acerca da História do país, quanto com uma preocupação com a nação e
o presente, que é mais sinalizado em História da História do Brasil e para
resolver isso, era necessário a criação de uma consciência história, que
deveria ter início com o trabalho de quem estuda para isso: “não seria
possível resolver o problema com a simples licenciatura em História. (...)
A melhor solução é o estágio obrigatório de estudantes de história nas
bibliotecas e arquivos. (RODRIGUES, 1978, p. 242 e 243).

Entre Kant e Nietzsche: crítica do presente e escrita da


história em Michel Foucault

Tiago Viotto da Silva (Faculdade de Ciências e Letras de Assis/UNESP)

Por diversas vezes ao longo de sua trajetória intelectual, Foucault reitera


sua afinidade com a história. Entretanto, apesar do reconhecimento
recíproco de tal proximidade por parte de importantes nomes do campo
historiográfico (como Fernand Braudel, Jacques Le Goff, Paul Veyne,
entre outros), vale ressaltar que sua prática se distingue da realizada pelos
historiadores de ofício. Dessa distinção resulta os mais diversos
posicionamentos: desde entusiasmadas aproximações, que reconhecem
em Foucault uma alternativa à escrita da história, até afastamentos por
meio de críticas efusivas e peremptórias. Assim, para refletir acerca das
possíveis contribuições que o trabalho de Foucault pode, ou não, trazer
para a reflexão histórica, entendo que se faz necessário abordá-lo,
209

justamente, naquilo que ele tem de particular. De modo geral, penso que
a singularidade que perfaz a concepção de história presente junto ao
pensamento de Foucault pode ser compreendida a partir de dois aspectos
que, apesar de distintos, se imiscuem: uma reflexão crítica sobre o
presente, entendida a partir da noção de ‘Ontologia histórica’, e um
método empíricodescritivo de escrita, responsável por edificar seus
trabalhos enquanto ‘Ficções históricas’. Meu objetivo nesta comunicação,
portanto, é tanto apresentar alguns elementos que envolvem a
constituição de cada uma dessas linhas de força que constituem a ideia de
história em Foucault como também refletir de que maneira elas
continuamente se retroalimentam na constituição de seus trabalhos. Para
tanto, inspirado pela noção de ‘personagem conceitual’ sugerida por Gilles
Deleuze e Félix Guattari, recorro à parceria de Foucault com outros dois
pensadores que, cada qual à sua maneira, também se ocuparam em pensar
a história, e, por isso, ajudam a instrumentalizar uma abordagem a cada
uma das características citadas acima, a saber: Immanuel Kant e Friedrich
Nietzsche. Com isso, primeiramente tento compreender de que maneira,
em diálogo com o pensamento de Kant, Foucault formula os parâmetros
daquilo que ele chama de uma ‘histórica crítica do presente’ que preconiza
a efetividade de sua ‘Ontologia histórica’; em seguida, volto-me ao
alinhamento de Foucault com o pensamento de Nietzsche,
principalmente no que tange à concepção em torno da linguagem e à
elaboração de um método de escrita da história inspirado pelo método
genealógico nietzscheano. Espero, com isso, debater algumas das questões
que permeiam o desenvolvimento de minha pesquisa doutoral e, a partir
daí, mobilizar alguns aspectos que, por extensão, possam trazer uma
contribuição às atuais discussões teóricas que abrangem a reflexão acerca
da escrita da história e a posição ocupada pelo sujeito junto a tal processo.

Entre a Goa dourada e a Goa indica: a historiografia goesa


no pós 1961

Marcello F. M. Assunção (USP)

Nesta apresentação iremos esboçar a leitura de uma historiografia (e de


uma consciência histórica para além dela) sobre Goa (estado da Índia
210

colonizado por Portugal até 1961) dentro dos marcos da transição e


libertação nacional do pós-61, esboçando as diversas imagens constituídas
sobre esta. A imagem de Goa oscilou entre uma representação como
"ocidente orientalizado" e um "oriente ocidentalizado" que difundiu, por
meio da propaganda turística, a ideia de uma "Goa dourada" enquanto
espaço exótico de "hippies" e de ampla recepção da "diferença". Esta
representação foi legada da imagem do colonizador sobre Goa
(nomeadamente da leitura freyiriana luso-tropicalista) e é vincada hoje às
elites católicas (mas não só) que apropriam e reproduzem tal
representação. No entanto, há uma outra imagem sobre Goa vincada as
elites Hindus (mas não só) e ao legado de luta anticolonial desde antes de
61: a Goa Indica. Nesta imagem Goa é um legado vincado as tradições
mais amplas da India e do estado de Maharashtra. Há ainda uma terceira
representação de Goa enquanto espaço “ambivalente” que é legado de
ambas tradições, ocidental e oriental, constituindo-se enquanto um espaço
amorfo e que não sintetiza nem uma nem outra e as “mimetiza” sem
criticidade (no sentido em que Homi Bahba atribui a "mimese colonial").
As principais instituições de análise desse produto historiográfico
encontram-se na University of Goa, em Panjim, o Xavier Centre of
Historical Research (nomeadamente através da obra de Theotonio R. de
Souza) e no Instituto Menezes Bragança (anteriormente ao processo de
descolonização chamado de Instituto Vasco da Gama). Além disso,
pretendemos esboçar no seio do jornalismo cultural em jornais como O
Heraldo (posteriormente chamado de “The Herald”), o Diário da Noite e
a Vida as diversas representações dessa transição de uma Goa colonial
para a Goa pós-colonial, esmiuçando as visões e representações sobre
essas diversas “goas”. Em uma outra abordagem também iremos esboçar
essa “consciência histórica” goesa por meio de da literatura (contos,
crônicas, romances e poesia) em nomes como Vimala Devi, Carmo
Noronha, João da Veiga Coutinho e outros. Portanto, pretendemos
analisar, no seio da historiografia e das diversas produções ligadas a
formação de consciência histórica, as representações sobre Goa dentro
dos marcos do pós 61.
211

SIMPÓSIO TEMÁTICO 05
CIDADE E HISTÓRA: DISCURSOS E
REPRESENTAÇÕES DE MODERNIZAÇÃO E
PROGRESSO NOS PROJETOS DE REORGANIZAÇÃO
URBANA NO BRASIL

Coordenadores:
Júlio Cesar Meira (UEG)

A presente proposta de Simpósio Temático pretende reunir trabalhos e


comunicações que sejam resultantes de pesquisas que discutam os
projetos de reestruturação urbana, bem como os problemas da
urbanização na história das cidades no Brasil ao longo do século XX,
tendo como base legitimadora os discursos de Modernização e Progresso.
Um dos desafios mais prementes nesse processo de urbanização é a
questão ambiental, que se apresenta nas mais diversas modalidades,
ensejando diversas possibilidades de diminuir, mitigar ou evitar. Percebe-
se que, ao mesmo tempo em que se construiu materialmente a cidade,
foram produzidos os discursos que a legitimaram, bem como as práticas
sociais e as intervenções, tanto do poder público quanto dos agentes
privados.

Educação e instituições escolares em Campinas (GO): o


Colégio Estadual Professor Pedro Gomes e os auspícios de
modernidade na cidade que virou bairro

Vinicius Felipe Leal Machado (FH-UFG)

Em 1947, ano da lei de criação do Ginásio Estadual de Campinas, Goiânia


tinha somente 14 anos e contava com um número de habitantes estimado
entre 48.166 (1940) e 53.389 (1950), segundo o IBGE. Naquele momento
ainda havia uma pequena distância física que separava os núcleos urbanos
212

da parte central da nova capital e a antiga cidade que a recebeu. O outrora


município de Campinas era, desde 2 de agosto de 1935, por força do
decreto nº 327, apenas mais um dos bairros de uma Goiânia ainda em
construção (e veloz expansão). Este artigo apresenta uma investigação
sobre o cenário – político, cultural e social - que levou à instalação da
primeira escola de ensino secundário mantida pelo Estado na região de
Campinas: o Ginásio Estadual de Campinas, rebatizado, desde 1959 de
Colégio Estadual Professor Pedro Gomes. A criação desta escola, por si
só, foi um fato histórico para a população local, tendo em vista que esta,
por pouco mais de um século esteve distante de qualquer possibilidade de
obter, dentro de seus próprios limites, acesso às benesses da instrução
escolar. A primeira escola de Campinas, o Colégio Santa Clara, foi fundada
pela Ordem das Irmãs Franciscanas e iniciou suas atividades em 1922,
oferecendo o curso primário apenas para meninas. Na ocasião, uma escola
mista, também de nível primário, foi confiada a elas pelo Estado, mediante
subvenção às suas atividades. Naquele momento, o Liceu de Goiaz -
criado em 1846 figurava como única instituição pública estadual de ensino
secundário em todo o Estado. Esta situação perduraria até 1929. A
situação da educação escolar só começa a mudar, mesmo que de forma
sensível, a partir da fundação de vários Grupos Escolares (reuniões de
escolas isoladas). Este processo, iniciado na década de 1920, foi
intensificado após 1930, pelo Interventor Pedro Ludovico Teixeira. No
advento da transferência da capital, novas necessidades e carências
surgem, provenientes do aumento populacional, que puxa uma crescente
demanda por mais vagas. O ensino secundário, visando principalmente a
formação de novos professores, se torna um imperativo urgente. Assim,
para responder porque o bairro de Campinas foi escolhido para sediar o
funcionamento de um novo (e grande) colégio, fez-se necessário
mergulhar na história que o precede: história da educação, história social
e história política. Desta forma, esta pesquisa busca revelar, por meio de
narrativas que se entrecruzam, a trajetória histórica local, desde a
fundação, em 1810, do modesto Arraial que viria a ser conhecido como
Campininha das Flores, Campininhas ou, simplesmente, Campinas.
213

“O mundo é diferente da ponte pra cá”: Representação e


estigma entre Aragarças-GO e Barra do Garças-MT

Bruna Alves da Silva (Universidade Estadual de Goiás)

“O mundo é Diferente da Ponte pra Cá: representação e estigma entre


Aragarças-GO e Barra do Garças-MT” levanta a tese de que a construção
identitárias e de representação social em Aragarças e Barra do Garças se
deram no cenário da estigmatização alternada, ou seja, ao longo dos ciclos
de desenvolvimento da região as relações de identidade e representação
foram ditadas ora de uma margem ora da outra, culminando com a relação
estabelecido – outsiders controlada por Barra do Garças que se coloca
como estabelecido. A questão que impulsiona nossa pesquisa é o processo
de construção identitária e de representação social das cidades de
Aragarças e Barra do Garças num contexto de fronteira que, sendo
amenizada pela construção da ponte sobre os rios Garças e Araguaia, teria
desencadeado um processo de estigmatização do outro. Nosso objetivo é
captar como os dois municípios que compartilharam um mesmo histórico
de formação e uma mesma dinâmica cultural vão construir discursos de
poder que negam, diminuem o outro no intuito de se afirmar como
superior. Quais os elementos de diferenciação serão utilizados? Como
esses discursos vão sendo introjetados pelos Aragarcenses e Barra-
garcenses? E, por fim, como eles interferiram na construção da identidade
e representação social dos municípios em questão? Nossa metodologia é
orientada pela História Cultural, que há muito vem desenvolvendo
estudos sobre a força das representações, do poder simbólico e das
relações identitárias. Como nosso foco de pesquisa é aqueles que tem o
poder de dizer e fazer crer sobre o mundo exercendo controle e força ao
estabelecer classificações e divisões sociais (Pesavento, 2005), melhor
conselheira não há. Já de início vislumbramos um emaranhado ideias,
discursos e práticas sócias que se alternam, embolam, misturam e
reivindicam poder exclusivo em ordenar a história e o poder entre
Aragarças e Barra do Garças. Orientados pela História Cultural
buscaremos apreender e dar a conhecer as representações que compõem
o mundo ordenado historicamente pelos aragarcenses e barra-garcenses.
Como a pesquisa está em andamento não poderemos apresentar
conclusões, mas inferimos que as relações entre Aragarças e Barra do
214

Garças, no que tange a representação social e identitárias, vão sofrer um


forte abalo com a construção da ponte sobre os rios Garças e Araguaia;
provocamos que a fronteira amenizada, diluída, o fácil trânsito entre as
duas cidades fomentará uma necessidade de se criar uma diferenciação
entre elas. No espaço da semelhança e do compartilhamento de belezas
naturais e das práticas sociais Barra do Garças criou mecanismos de
preservação da sua identidade grupal (Elias e Scotson, 2000).

Das chamas nasce um Anjo: a formação do bairro Anjo da


Guarda, em São Luís do Maranhão no contexto do milagre
econômico (1968-1980)

Marcelo Lima Costa (Professor da Rede Estadual de Ensino do


Maranhão)

São Luís, segundo semestre de 1968. Sob o governo José Sarney o estado
do Maranhão vivia o auge do chamado “milagre maranhense” após dois
anos do governo do “Maranhão Novo” – slogan eleitoral e governamental
de Sarney. Com o apoio federal, foi promovida uma verdadeira revolução
política, administrativa e econômica cuja menina dos olhos era a
pavimentação das rodovias, a construção da Usina Hidrelétrica de Boa
Esperança e a viabilização da rede de telecomunicações além de inúmeras
outras intervenções na capital do estado, cujo símbolo maior foi a
construção da Ponte do São Francisco, batizada de ponte José Sarney.
Contudo esses não eram os únicos projetos que demandavam a atenção
do governo. Em virtude dos ambiciosos projetos da época, se falava na
remoção de grande parte das moradias dos bairros pobres da região central
da capital maranhense, em especial dos bairros operários da Madre Deus
e do Goiabal para dar espaço às modernas intervenções, cuidadosamente
planejadas pelos engenheiros do governador: a dragagem e a construção
de uma Barragem sobre Rio Bacanga além da urbanização da margem
esquerda do rio, com o projeto do Anel Viário. Além da construção das
novas avenidas, necessidades ingentes da época, previam-se a construção
de um grande bairro operário para 400 mil habitantes (oriundos dos
bairros atingidos pelas intervenções) a ser construído na região do Itaqui,
distante do centro da cidade – os casebres, as palafitas, o mangue e a
215

pobreza deveriam ceder espaço ao concreto e ao asfalto. O estopim para


a remoção dos moradores dos bairros da Madre Deus e Goiabal foi um
incêndio de grandes proporções nos casebres que lá existiam, ocorrido na
noite do dia 14 de outubro de 1968, às margens do rio Bacanga. O trágico
acontecimento desencadeou amplas transformações na cidade: com o
desastre, um grande contingente de desabrigados deveria ser rapidamente
alojado; nos dias seguintes logo surgiu a proposta para que os desalojados
fossem instalados na região do Itaqui, no futuro bairro do Anjo da
Guarda, conforme os panos já delineados pelo governo. Ainda em 1968
se iniciava a ocupação da região até então conhecida como Itapicuraíba –
tradicional nomenclatura do bairro. Nesse pano de fundo, aparece o bairro
do Anjo da Guarda, resultado direto da agressiva política de modernização
conservadora promovida na época. De tal modo, à medida que as famílias
afetadas pelo incêndio deixavam pra trás uma região chave da capital
maranhense, abriam o caminho para a execução dos grandes projetos
urbanísticos e de reordenamento do espaço da capital maranhense não só
do governador José Sarney, mas de todos os governantes que se seguiram
entre os anos 1970 e 80, embalados pelo clima modernizador da época.

História, Memória e Ficção: representações do urbano na


poética de Cora Coralina

José Antônio de Souza Filho (CEPMG-MOA)

A presente pesquisa tem como objeto de estudo o livro Poemas dos becos
de Goiás e estórias mais da autora Cora Coralina que foi publicado em
1965 pela Editora José Olympio. E é um documento riquíssimo que
permite uma investigação sobre o cenário urbano da cidade de Goiás
utilizando elementos como a história e a memória, Cora Coralina tecer
suas experiências vividas na cidade de Goiás. Procuro nessa pesquisa, ver
como a memória, fio condutor da narrativa, é mobilizada para dar conta
de uma dada representação e como é situado no passado e no presente.
Desvelar a cidade pelos rastros da escrita de Coralina é meu objetivo. Cada
estrofe, cada verso, cada pedra de rua, cada beco ou entalhadura de janela
são pistas para mostrar a Goiás de Cora. Suas representações guardadas
na memória da poetiza e das quais ela se vale ao escrever seu primeiro
216

livro de poesias vão, agora, se cruzar com outras representações


(documentos) para produção do amalgama (dissertação) sobre a antiga
capital de Goiás. Quero revisitar, nos poemas de Coralina, a
personificação da cidade do pecado, da vida noturna e dos amores
proibidos, a cidade perdida, a cidade invisível. Cora Coralina poeta o
cotidiano, dos habitantes de Goiás, da vida obscura e esquecida pela
sociedade. Ver que cidade é essa que Coralina retorna em sua lembrança.
Descobrir qual a cidade que Coralina deixou em 1911? Qual a
representação da cidade de Goiás nas obras de Coralina? Quero desvendar
a cidade perdida, a cidade literária poetizada nos versos de Coralina. É a
cidadezinha perdida que a poeta não deixa de lembrar mesmo tendo
passado muito anos, construída em seu imaginário e ganha
representatividade em sua obra sobre os becos de Goiás. É a escrita da
memória de Cora Coralina, que configura significados para o passado
inscrito na textura material da cidade e é esta textura que a partir da obra:
Poemas dos becos de Goiás e estórias mais que quero remexer. Através
desta obra proponho a construção do mapa simbólico da Goiás de Cora
e sua sobrevivência no espaço e no tempo. Quando Cora publica a obra
em 1965 pela Editora José Olympio a cidade já não era a mesma de sua
infância, é suas reminiscências, sua memória reconstruída que vai nos
conduzir pela velha capital. É voltar à cidade texto e ao texto de Cora que
me fará desvendar como a cidade real foi representada e como a
representamos.

A cidade “marcha para o progresso”: peculiaridades do


processo de urbanização do “maior povoado do mundo”,
Eunápolis-Ba

Levi Sena Cunha (Universidade Estadual de Feira de Santana)

O presente texto tem a intenção de analisar os discursos sobre o processo


de desenvolvimento do povoado de Eunápolis-Ba, perseguindo o
conceito que mais se aproxima de uma explicação para as transformações
pretendidas para sua área urbana. Para essa empreitada serão utilizados
periódicos, revistas e livretos, de publicação local e estadual. O olhar
metodológico estará voltado para a análise das fontes se atentando para o
217

emprego de termos relevantes do ponto de vista social e político, que


possibilitem uma interpretação específica para a realidade das
modificações ocorridas no povoado entre os anos de 1970 e 1988.

Eugenia e Medicina em Goiás nos Arquivos de Saúde


Pública (1951-1954)

Éder Mendes de Paula (FACULDADE EVANGÉLICA DE


GOIANÉSIA)

O presente trabalho é fruto da investigação dos textos presentes nos


Arquivos de Saúde Pública entre 1951-1954, arquivados de forma
compilada na biblioteca da Secretaria Estadual de Saúde. Estes
documentos são falas de autoridades políticas e de médicos acerca da
temática da saúde em Goiás, e, que foram cruzados com autores que
discutem a eugenia no Brasil. A ideia foi perceber a continuidade de
determinadas práticas no período que levaram em consideração os ideais
eugênicos para se cumprir determinados projetos políticos. Neste sentido,
o foco na cidade de Goiânia levanta discussões sobre como a higienização
se tornou veículo para cunhar um conceito de modernidade para o estado,
a partir da nova capital. O entrelaçamento entre o discurso político e o
discurso da medicina a partir das publicações do próprio governo,
possibilitar cunhar uma dimensão da atuação, muitas vezes autoritárias, na
busca de um novo conceito de sociedade. A análise do discurso alicerçada
na arqueologia do saber foucaultiana é a base para a interpretação destes
discursos, pois, dialoga com outras narrativas elaboradas no período e
corroboram para os caminhos políticos que foram escolhidos ao longo do
período.
218

O acidente com o Césio-137 em Goiânia e suas


consequências

Larissa Mendanha Cabral (UFG)

O acidente envolvendo o elemento químico Césio-137 ocorreu em


Goiânia, capital do Estado de Goiás, em setembro de 1987. Esse material
estava em uma cápsula e era usado em aparelhos de radioterapia, devido a
sua alta radioatividade. A exposição de dezenove gramas de Césio-137
provocou transtornos de ordem material e simbólica na população
goianiense. Há ainda, muitas dúvidas em relação ao fato que desencadeou
o acidente: a gerencia no aparelho de radioterapia, que foi deixado em um
prédio abandonado, após a desativação da Santa Casa de Misericórdia do
centro de Goiânia no final da década de 1970. A CNEN (Comissão
Nacional de Energia Nuclear) responsabilizou o Instituto Goiano de
Radioterapia (IGR) pelo abandono da peça radioativo. O Instituto, por
sua vez, garante que comunicou a CNEN o abandono da peça, e que a
responsabilidade por ela era do órgão federal. Anos depois a justiça
condenou os sócios do IGR pelo acidente. e do IGR (Instituto Goiano de
Radioterapia). Em setembro de 1987 a capsula abandonada foi encontrada
por dois catadores de papel que viram nela a possibilidade de ganhar
dinheiro, já que a mesma era de chumbo. Era o início do maior desastre
radiológico do mundo. Milhares de pessoas foram contaminadas ou
irradiadas, e quatro óbitos oficiais foram anunciados. Para assistir os
radioacidentados e controlar as informações referentes ao Césio, o
Governo de Goiás criou à época a FUNLEIDE – Fundação Leide das
Neves Ferreira, que levou o nome de uma das vítimas do acidente, uma
criança de seis anos de idade. Esse trabalho tem o objetivo de analisar as
transformações pelas quais esse órgão do governo sofreu ao longo de
tempo e como se processou o acompanhamento das vítimas. Ademais,
este trabalho irá contribuir para os estudos sobre o acidente com o Césio-
137 que ocorreu em Goiânia, principalmente neste ano, quando se recorda
a terceira década do acidente. Preservar a história local também é muito
importante, ainda mais sobre um acidente que teve muita repercussão no
Brasil e no mundo. Analisaremos o acidente com o Césio-137, enfocando
todo o processo histórico que culminou com a descontaminação de
Goiânia e a criação dos depósitos definitivos em Abadia de Goiás; a
219

descontaminação dos locais focos do acidente e a descontaminação


simbólica e, as consequências tanto para a cidade de Goiânia, quanto para
as vítimas.

As transformações na imagem Avenida Anhanguera a partir


das intervenções no transporte público de Goiânia

Victor Moura Soares Ferreira (UFG)

A Avenida Anhanguera teve grande participação no processo de


crescimento e consolidação de Goiânia. Sua constituição está relacionada
à origem da região central, pois essa avenida é resultado da estrada que
ligava a cidade de Campinas à Estação Ferroviária de Leopoldo de
Bulhões. Assim, após a construção da capital, por conectar Goiânia a
Campinas, a Anhanguera tornou-se o eixo principal dessa metrópole.
Desse modo, por meio da leitura de importantes ferramentas que se
aplicam ao desenho dos espaços urbanos, buscou-se compreender as
transformações ocorridas na imagem da Avenida Anhanguera. Como
cerne desta pesquisa estão os aspectos qualitativos do espaço
(permeabilidade, variedade, legibilidade, versatilidade, imagem apropriada,
riqueza e personalização) e a investigação histórica, desde a concepção do
primeiro plano da cidade Goiânia (1933-1935), realizado por Attílio
Corrêa Lima, até os dias atuais. Portanto, averiguou-se que o recorte
espacial da avenida, localizada no Setor Central, entre a Avenida Araguaia
e a Avenida Tocantins, é adequado devido à sua importância histórica,
social e econômica. Contudo, em virtude de a avenida sempre ter sido o
eixo estrutural urbano no sentido Leste-Oeste, ela perde força, tanto no
eixo comercial, quanto na visibilidade urbana, por causa das intervenções
no transporte público. Mesmo com tais modificações, sua estrutura é o
elemento regulador do espaço urbano da cidade de Goiânia no sentido
LesteOeste. Embora a Anhanguera possua uma imagem legível, sua
conexão com as vias, os pontos nodais, os marcos e os edifícios – após as
modificações de seus elementos morfológicos para a adequação do
transporte coletivo –, ocorreu a fragmentação do espaço. Isso aconteceu
devido à perda da permeabilidade física e da qualidade visual; à alteração
de seu convívio social; e à constituição de um espaço urbano conflituoso.
220

Desse modo, percebe-se que as ações realizadas pela gestão urbana


interferiram na leitura do espaço e no imaginário urbano local, pois
imagens foram construídas e destruídas. Cabe-nos, então, ter a esperança
de que as próximas intervenções levem em questão mais do que sua
importância como eixo de circulação e passagem, mas que também
considerem a Avenida Anhanguera.

Os Projetos de Modernização da Ditadura Civil-Militar e os


Pequenos Municípios: Análise do caso de Morrinhos/GO
entre 1966 e 1970

Júlio Cesar Meira (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS)

Ao longo das décadas de 1950 e 1980 inúmeros municípios do interior do


Brasil passaram por projetos de reformulação urbana. No caso de
Morrinhos, na região sul do estado de Goiás, o processo de transformação
das estruturas urbanas, que havia iniciado já nos últimos anos da década
de 1940, teve sua aceleração nos anos de 1966 a janeiro de 1970, na
administração do prefeito Joviano Antônio Fernandes. A proposta desta
comunicação é analisar esse período, a partir da experiência do município
de Morrinhos, relacionando-o com o momento histórico mais geral do
Brasil, à época, em que a ditadura implantada pelo golpe civil-militar de
1964 traçou seus planos em nome da modernização das estruturas
urbanas, o fomento à industrialização e o estímulo de uma política de
comunicação e transportes. Foram vários os planos e projetos, bem como
as legislações construídas, centralizando nas mãos do governo federal o
planejamento, a organização e o financiamento, delegando aos estados,
municípios e, às vezes, a empresas e instituições mistas, a eleição dos
projetos de atuação, bem como a aplicação local das políticas elaboradas.
Sobre as transformações urbanas e a situação dos municípios, partiremos
de um referencial teórico que inclui autores como Luis Alberto Bahia
(1978), Lordello de Mello (1978), Ribeiro e Pontual (2009) e Alberto de
Oliveira (2009). Para mais bem compreender o processo de centralização
e desenvolvimento dos projetos do governo federal, contaremos com as
análises de Marta Arretche (1996), Júlio Cesar Meira (2009), entre outros.
A metodologia da pesquisa que originou a comunicação se baseou em
221

pesquisa arquivística e análise da legislação, tanto federal quanto local,


além dos dados disponíveis em instituições como IBGE, DIEESE e
IPEA. Foi fundamental, também, o a análise bibliográfica e a revisão
teórica a respeito dos termos, conceitos e categorias de análise,
importantes para a compreensão dos projetos analisados. Do ponto de
vista do recorte temporal, a pesquisa abrangeu, de um lado, o arco
cronológico mais abrangente das décadas de 1950 a 1970; de outro, como
aprofundamento, o período da segunda metade da década de 1960, em
que, em Morrinhos, a maior parte dos projetos foi implantado.
222

SIMPÓSIO TEMÁTICO 06
CULTURA E MEMÓRIA, INTELECTUALIDADES E
GRUPOS POPULARES NO BRASIL REPUBLICANO

Coordenadores:
Jiani Fernando Langaro (UFG),
Luciana Lilian de Miranda (UFG)

O simpósio temático propõe o diálogo entre pesquisadores de diferentes


campos teóricos da história, e tem como base a reflexão das relações entre
as dimensões local e global nos estudos sobre História do Brasil
republicano. A necessidade de se pensar as diferentes espacialidades – que
servem de recorte às nossas pesquisas em História – de maneira articulada,
não é novidade na historiografia. Estudos na área de História do Brasil
colonial têm feito esforços para conectar espacialidades outrora
concebidas de maneira isolada e fazem emergir novas pesquisas, como
aquelas sobre História Atlântica. Pretendemos, por meio deste simpósio
temático, incentivar algo neste sentido para a historiografia brasileira sobre
o período republicano, ao promover o encontro de investigadores que
visem estabelecer relações tanto entre espacialidades locais e regionais
com a História do Brasil republicano quanto desta com a História
Contemporânea. Como recorte temático, propomos a discussão de
pesquisas referentes a intelectuais e grupos populares – incluso tanto
aquelas que os abordem separadamente como as que os tratem de maneira
articulada, como no caso dos estudos sobre circularidades culturais –, com
o objetivo de colocar em debate diferentes campos de análise, como a
História Intelectual, História Cultural e História Social.
223

Marcha para o Oeste ou (des)caminhos da migração?

Eliene Dias de Oliveira (UFMS)

Essa comunicação se propõe a construir um caminho reflexivo acerca das


conexões interpretativas entre o projeto getulista “Marcha para o Oeste”
(1940) e os projetos CAND – Colônia Agrícola Nacional de Dourados,
bem como as colônias municipais de Dourados-MS e Coxim-MS,
implementadas na década de 50 do século XX. Nesse olhar, o foco é
perceber como a intrincada teia entre um ideal nacional e projetos mais
localizados propiciam um cenário de oportunidades de consecução de
projetos migratórios de sujeitos oriundos de diversas partes do país,
sobretudo da região nordeste. A criação da CAND pode ser apresentada,
portanto, como um marco da entrada de migrantes nordestinos no
Estado, mas não esgota os significados dessa presença. A pesquisa ora
apresentada indicia que os canais oficiais não foram capazes de controlar
esse processo migratório plenamente. A migração se deu
concomitantemente a partir dos canais propiciados pelo Governo Federal,
incentivados pela possibilidade de acesso à terra, e fora dos canais oficiais,
servindo-se em grande medida das redes sociais da migração e da
elaboração de estratégias que permitissem o sucesso do projeto
migratório. O historiador Nascimento lembra que “O considerável fluxo
migratório para o Sul de Mato Grosso (SMT) alterou o quadro
demográfico, modificou as estruturas produtivas, consolidando a
agricultura e tornando a região mais dinâmica no contexto da economia
nacional de mercado” (2013- 31). Se, por um lado é visível que o discurso
varguista foi fundamental para o incentivo a população à migração para a
região, as fontes orais demonstram que grande parte dos colonos ficaram
sabendo dos projetos de colonização por meio de parentes e vizinhos que
já moravam no Antigo Mato Grosso, sem terem contato com as
propagandas estatais. Logo, evidencia-se a importância de uma discussão
acerca dos caminhos da realização de projetos estatais de consolidação das
fronteiras do país em meio aos projetos individuais de migração. No olhar
para trajetórias plurais, pensar as trajetórias e vivências de migrantes
nordestinos que escolheram o antigo Mato Grosso como destino é
certamente adentrar um rico e complexo universo. Considerar os
“simples”, como enuncia José de Souza Martins, é tarefa árdua e laboriosa.
224

É adentrar o processo de invenção dos seus cotidianos, a arte de viver e


de se reinventar continuamente como sujeitos. Nesse caminho, a história
oral desvelou-se como possibilidade singular, propiciando à pesquisa
caminhar por trajetos migrantes carregados de sentidos e significados.

Mãos femininas: Memória e história de mulheres


pescadoras do Pantanal Sul Mato Grossense

Silvana Aparecida da Silva Zanchett (Universidade Federal de Mato


Grosso do Sul)

Mãos femininas: Memória e história de mulheres pescadoras do Pantanal


Sul Mato Grossense, propõe apresentar parte da pesquisa de
doutoramento em história, que problematiza as especificidades das
relações de gênero, no campo do trabalho com a pesca artesanal
profissional. A pesquisa utiliza como recurso metodológico a análise de
relatos orais, que visam analisar a história de vida de mulheres, dialogando
com múltiplos sentidos e significados que a vida ribeirinha proporcionou
às mulheres que pescam no Pantanal Sul Mato Grossense. Modos de
trabalho e cotidiano permeiam memórias dessas mulheres, ainda, lutas e
resistências nas relações tecidas com o trabalho e a cidade, com a natureza
e a adversidade física, enfim, memórias cotidianas de mulheres pescadoras
que vivenciam e compartilham práticas e viveres às margens de um rio,
projetadas em suas narrativas carregadas de significados de existências no
fazer pesqueiro, que, no entanto careciam de uma análise histórica. Nesse
sentido, há uma relevância para analisar nessa categoria de trabalho, as
relações de gênero constituídas socialmente nas relações entre homens e
mulheres. Sendo que, a natureza sociocultural e histórica dessas mulheres
se dá numa construção desigual nas relações entre os sexos na esfera do
trabalho. Observando que as diferentes culturas desenvolvem diversos
entendimentos do que é ser mulher pescadora e o que é ser homem
pescador, observando que a categoria gênero é uma construção social e
histórica, que se modifica no tempo e no espaço. Historicamente
demarcadas como “do lar” e “ajudantes da pesca”, muitas mulheres
conquistaram seus espaços e tornaram-se trabalhadoras profissionais da
pesca, documentadas e atuantes diretamente na economia familiar,
225

conforme atestam em suas narrativas orais. Mulheres trabalhadoras que


relatam experiências e modos de vida e trajetórias e aprendizados com o
trabalho rural e se afirmam como sujeitos históricos, protagonistas de sua
história. São memórias que demonstram as vivências e as principais
preocupações que, coletivas, passam a ser compartilhadas, vivenciadas por
essas trabalhadoras ao longo de suas vidas, portanto, apresentaremos esses
sentidos e significados plurais de mulheres pescadoras do Pantanal
localizado no Estado de Mato Grosso do Sul.

Análise das fotografias arquitetônicas da revista


Cinquentenária de Anápolis 1957: as narrativas de
modernidade da época

Murillo Oliveira Soares (Universidade Federal de Goiás)

Este presente artigo tem como ideia analisar e buscar na revista


cinquentenária caminhos para entender a história local, produzida no ano
de 1957 teve como ponto a comemoração da emancipação da cidade de
Anápolis após 50 anos, a ideia de como a população da cidade conseguiu
compreender a sua arquitetura pensada e projetada como o nascimento de
uma nova modernidade, onde a narrativa da arquitetura foi colocada aos
moradores, a ideia deste artigo não é compreender a visão de um futuro
moderno, mas como os discursos dos autores e agente sociais sobre a
modernidade implementada pela reestruturação urbana pode se fazer
presente anos depois, com a revista e como as fotografias da época da
construção dessas obras arquitetônicas, foram possíveis de serem usadas
para legitimar a cidade como moderna. A revista foi escrita como um
manual de memórias, fatos e construções dentro de uma projeção de
futuro utópico em detrimento de um passado memoriável e de grandes
construções. As mudanças que ocorreram na cidade ao longo de algumas
décadas foram destacadas na edição da revista Cinquentenária em 1957,
com uma forte exaltação ao processo de organização que a cidade havia
passado e continuava ocorrendo. A revista foi escrita como um reforço da
identidade local e por um sentimento de entusiasmo com a construção da
nova capital federal, Brasília que seria inaugurada em 1960, marcando um
avanço no centro do país destacando o papel que a cidade de Anápolis
226

teria na construção da nova capital. A revista foi escrita pelo autor Raul
José dos Santos, na época um jovem repórter que veio do interior de
Minas Gerais com a missão de mostrar a população os avanços da cidade,
como o comércio, ruas, praças, prédios e diversos eventos públicos, além
de nomes importantes da história política, cultural e social. A intenção era
de afirmar a identidade local dos seus habitantes e ser uma fonte de
importante resgate e preservação da memória local, além de ser usada
como instrumento pedagógico nas escolas, como uma referência da
história local anapolina. Mas o que podemos encontrar nessa revista,
sendo escolhida e utilizada como fonte de história, é a sua visão da
movimentação da cidade, a euforia que tomava conta dos seus habitantes,
que viam em seu meio urbano um lugar moderno, pronto para os desafios
de um novo Brasil.

Entre o “sertão” e a “civilização”, uma fronteira


“desnacionalizada”: narrativas e projetos para as regiões
limítrofes do Brasil com o Paraguai e a Argentina entre as
décadas de 1890 e 1940

Jiani Fernando Langaro (FACULDADE DE HISTÓRIA - UFG)

O trabalho analisa narrativas e memórias construídas sobre a região


atualmente denominada como tríplice-fronteira – situada nos limites entre
Brasil, Paraguai e Argentina –, durante as décadas de 1890 e 1940. Tratam-
se, em sua maioria, de obras de viajantes, muitos deles autoridades do
estado do Paraná ou militares a serviço do exército nacional. Nesse
período – que obedece a uma cronologia própria –, fugidia aos grandes
marcos da história nacional, a região era tratada como “sertão bruto”,
carente de “progresso” e de “civilização”, onde reinava a violência, a
“barbárie” e o trabalho compulsório, personificado nas explorações de
erva-mate. Portanto, a região é entendida, nesse momento, a partir da
negatividade, embora os mais diferentes autores reconhecessem seus
aspectos positivos e também suas potencialidades. Em parte dessas
narrativas, o local constituía-se também em uma fronteira
“desnacionalizada”, pois assim se entendia a presença de populações de
227

origem argentina e paraguaia, bem como o uso cotidiano das línguas


espanhola e guarani e a circulação do peso argentino. Realizam, portanto,
uma denúncia nacionalista do que seria o “abandono” da fronteira,
realizado pelo Brasil, que teria dado margem à construção de uma
hegemonia comercial e cultural argentina, tendo a cidade de Posadas, na
província de Misiones como grande núcleo. São narrativas, portanto, que,
de uma maneira ou outra, realizam o levantamento de “problemas” para
a região, para os quais propõem soluções, nas formas de projetos de
desenvolvimento. Estes, em sua maioria, preconizam a construção de vias
de comunicação terrestres – ferrovias e rodovias – como meio para
desenvolver a região e eliminar a preponderância comercial argentina,
alimentada pela navegação do rio Paraná. A reflexão que se propõe visa
compreender como tais imagens sobre a região fronteiriça se cristalizaram
na forma de memórias e como elas interferiram nos projetos de
desenvolvimento vislumbrados à época. Em outra direção, analisa-se
como a historiografia regional, emergente na década de 1980, se apropriou
de determinados clichês, de maneira a realimentar uma visão estereotipada
sobre fronteira, algumas vezes incoerente com as próprias fontes
utilizadas, mas com grande potencial para converter memória em história.
Por fim, almeja-se sondar outras possibilidades para a compreensão da
dinâmica fronteiriça, no período estudado, para além das interpretações
canonizadas (à época ou a posteriori), afim de melhor se entender a
fronteira, dentro de sua dinâmica histórica.

A sociedade carioca através das biografias de Chiquinha


Gonzaga (1885 – 1935): história, gênero e transgressão
feminina

Mona Mares Lopes da Costa Bento (UFGD)

Essa proposta de comunicação foi estruturada, para apresentar em linhas


gerais minha pesquisa de mestrado que objetiva construir uma análise
acerca da trajetória social da instrumentalista, compositora e maestrina
Francisca Edwiges Neves Gonzaga (1847-1935), refletindo sobre a
sociedade carioca do final do século XIX e início do século XX. Nossa
pesquisa pretende refletir e demonstrar os choques e tensões estabelecidos
228

entre suas ideias e concepções com as expectativas e preceitos


estabelecidos na sociedade oitocentista, sendo o viés basilar o papel
delegado à mulher. Buscamos inicialmente fazer uma análise da
interpretação do legado de Chiquinha Gonzaga estabelecendo como
fontes de pesquisas as biografias escritas sobre ela, tais como: Chiquinha
Gonzaga: grande compositora popular brasileira, de Mariza Lira (1939); A
Pioneira Chiquinha Gonzaga, de Geysa Bôscoli (1973); Chiquinha
Gonzaga: Sofri e Chorei. Tive Muito Amor, de Dalva Lazaroni (1999); A
Memória Social de Chiquinha Gonzaga, de Cleuza de Souza Millan (2001);
A Jovem Chiquinha Gonzaga, de Ayrton Mugnaini (2005) e Chiquinha
Gonzaga: uma história de vida, de Edinha Diniz (2009). Partindo das
análises das representações produzidas sobre a compositora buscamos
compreender qual o lugar direcionado para a mulher e qual o lugar que
Chiquinha Gonzaga ocupou – sendo a primeira mulher a reger uma
orquestra e ocupar outros espaços socialmente delimitados como
masculinos. Ao longo da pesquisa procuraremos problematizar os
motivos pelos quais não há indícios dessa figura feminina na
Historiografia Brasileira e, ao mesmo tempo, refletir sobre o lugar que ela
poderia ocupar. No desenvolvimento dessa pesquisa pretendemos
demonstrar a importância das ações e obras de Chiquinha Gonzaga, a fim
de compreender e interpretar o Brasil do final do século XIX e início do
século XX a partir do olhar de uma mulher sui generis para os padrões da
época. Sob esse prisma, demonstraremos como a figura da mulher foi
pensada a partir de um quadro social de valores que, de maneira geral,
restringia o campo de atuação feminino à esfera doméstica, impondo
comportamentos, modos de agir e pensar, cobrando uma postura recatada
sob uma perspectiva patriarcal dominante. Chiquinha Gonzaga vivenciou
esse momento histórico em que havia uma separação delineável entre o
espaço público e o privado, sendo esse último reservado as mulheres e,
por esse motivo, sua presença feminina nesses locais não era vista com
“bons olhos”. Desse modo, não pretendemos levar em questão apenas os
dados biográficos, mas sobretudo pensar o impacto do seu modo de agir
com relação ao seu contexto social.
229

A musicalidade do choro em Goiânia: diálogos culturais na


estética musical diaspórica (1975-1980)

Wilton Jonh dos Santos Silva (Universidade Federal Goiás)

O choro é uma música brasileira que surgiu a partir do encontro e da


influência de outros estilos e gêneros musicais no final do século XIX, na
antiga capital do Império, Rio de Janeiro (Tinhorão, 2001). Neste período,
esse gênero musical se destaca na corte brasileira dentre um conjunto de
músicas rurais e urbanas, muitas delas constituídas por meio de
ressignificações da musicalidade afrodescendente, é parte de um
movimento de diálogo entre estilos e gêneros musicais que se destacavam
nesse cenário. Estamos falando de um movimento musical que se
transforma, perdendo e ao mesmo tempo adquirindo elementos que o
define, o choro se constitui em meio às inúmeras e intermináveis rodas
(encontros) de chorões. No auge do surgimento desta música, era notável
o sucesso da modinha, do maxixe, o samba, o lundu (Sodré, 1998), todos
estes ritmos serviram como influência na composição do gênero musical
em questão. Objetivamos discutir os elementos culturais e estéticos
encontrados na musicalidade de matriz negra, como a sincopa, efeito
rítmico sonoro característico da música negra atlântica, na formação da
música chorona. Para tal, contextualizaremos os caminhos e negociações
musicais na intenção de sintetizar o que a defina enquanto movimento
cultural, e quais características sonora e estética lhes apresentam como
uma música de Diáspora. Para o desenvolvimento deste trabalho
pretendemos fazer uso de seleção de mídias, materiais audiovisuais, a fim
de identificar e analisar as musicalidades e os elementos que possam vir a
ser identificados como sendo de matriz africana. Para pesquisar sobre a
trajetória do choro utilizei o levantamento bibliográfico de livros e artigos
que possibilitaram o conhecimento historiográfico e, dessa forma, o
estado da arte desta expressão cultural no Brasil. O choro assumiu um
caráter de identificação desde o seu surgimento no Rio de Janeiro quando
adquire um papel de difusão de música popular através do rádio, ele
incorporou elementos distintos que veio da música negra assim
ressignificada no país, assim se tornando uma música autentica brasileira.
Com o estudo acerca do choro percebemos a discussão historiográfica
230

sobre a interculturalidade evidenciando as discussões sobre identidade,


estética musical, e de linguagens musicais.

Sem máscaras para fazer rir: as experiências históricas dos


humoristas de "cara limpa'' no Brasil

Matheus Alves Silva Gonçalves (Universidade Federal de Goiás)

No Brasil republicano, a comédia vem há muito sendo usada com


instrumento sociocultural capaz de acompanhar os dilemas nacionais e
interferir nos conflitos ideológicos em voga. Se na atualidade vemos cada
vez mais humoristas e estilos cômicos - a exemplo dos memes, das piadas
de redes sociais, sketches de humor, stand up comedy - assegurarem-se
enquanto agentes formadores de opinião, é sempre crucial não cair no
equívoco de desconsiderar o seu papel histórico e buscar compreender a
construção de cada uma de suas facetas. É isso, portanto, que este trabalho
se propõe a fazer. A partir de 1960, começa a ganhar força no Brasil uma
modalidade humorística até então explorada apenas em outros lugares do
globo, a chamada ''comédia de cara limpa''. Este conceito se popularizou
no Brasil dos últimos dez anos com a enorme proporção tomada pela
''comédia em pé'', um dos ramos do humor de cara limpa que, todavia,
não se restringe a tal. Como o próprio nome explicita, cara limpa é
sinônimo de uma vertente que não utiliza máscaras, fantasias, adereços no
seu desenvolvimento performático. Os humoristas que, no passado, se
dispuseram a praticar esse incipiente gênero cômico, compartilhavam
trajetórias profissionais e habilidades bastante similares - carreiras
artísticas iniciadas no radialismo, talento para imitações, oratória refinada,
dentre outras coisas. Em um época marcada pela transição de veículos
midiáticos e por uma efervescência política que culminou no Golpe de
1964, foi que se notabilizaram os comediantes que não escondiam o rosto
ao proferirem suas piadas. Os locais das apresentações, aclamadas tanto
pelo público quanto pela crítica, costumava ser nos palcos de teatro. Quais
foram os percalços profissionais que a comédia de cara limpa enfrentou
no Brasil dos anos 60? O quanto o estilo em questão dialogou com as
relações sociais vigentes? De José Vasconcelos a Chico Anysio, pretendo
dar prosseguimento à análise da vida profissional desses artistas e o seu
231

contato com o contexto sociopolítico no qual estavam inseridos. O


objetivo é avaliar as idiossincrasias temáticas, composicionais e estilísticas
para diferenciar as posturas e a matéria produzida por esses sujeitos
históricos, em relação a outras formas cômicas. Um elemento importante
é, desta forma, a não formação de uma geração de profissionais que se
aventuraram pela modalidade.

O Grupo de Festa: intelectuais e modernismo (s) nas


primeiras décadas do século XX

Luciana Lilian de Miranda (UFG)

Buscamos apresentar algumas considerações advindas da pesquisa de Pós-


Doutorado, cuja tema centrou-se no grupo de escritores e intelectuais
reunidos em torno da revista Festa, também conhecida como a corrente
espiritualista do modernismo brasileiro. Nesse sentido, ao recuperar o
pensamento e produções desse grupo, buscamos problematizar a atuação
dos mesmos enquanto intelectuais mediadores culturais e as suas redes de
sociabilidade no Rio de Janeiro, nas duas primeiras décadas do século XX.
Divergindo da tendência vanguardista de São Paulo, havia um segmento
que se identificava com valores mais tradicionais. Herdeiros da visão
paradigmática difundida nos Sertões de Euclides da Cunha, de valorização
da terra, da natureza e das gentes do sertão, essa elite intelectual defendia
os valores da ruralidade. Esse segmento foi representado por escritores da
reação católica como o escritor sergipano Jackson de Figueiredo (1891-
1928) e Tristão de Ataíde (18931983), os Verde-Amarelos Plínio Salgado
(1895-1975) e Cassiano Ricardo (1895-1974), ou ainda Monteiro Lobato
(1882-1948) e Oliveira Vianna (1883-1951), a identidade nacional deveria
ser buscada nos sertões, nos sertanejos, livres dos francesismos do litoral
urbano. A corrente espiritualista encontrava-se vinculada a essa matriz
mais tradicionalista. Enquanto os autores da vertente primitivista
buscavam explicar o Brasil a partir das suas origens, aspirando construir a
identidade nacional de seu povo; os espiritualistas almejavam
compreender a modernidade e indagar sobre o destino do homem, sem
romper completamente com o passado. Formado em torno de Tasso da
Silveira (1895-1968) e Andrade Muricy (1895-1984), no Rio de Janeiro, o
232

grupo espiritualista fundou o mensário editado em duas fases (1927-1929;


1934-1935), dentre outras publicações. Compuseram ainda o projeto:
Adelino Magalhães, Barreto Filho, Brasílio Itiberê, Henrique Abílio,
Lacerda Pinto, Abgard Renault, Wellington Brandão, Cardillo Filho,
Porfírio Soares Neto e Murilo Araújo. Colaboraram com frequência e
proximidade Cecília Meireles e Alceu de Amoroso Lima (Tristão de
Ataíde). Eventualmente: Carlos Drummond de Andrade, Francisco
Karan, Carlos Chiacchio, Gilka Machado, Jorge de Lima, Ribeiro Couto,
Plínio Salgado e Mário de Andrade como colaboradores eventuais. Em
contraste com as correntes vanguardistas da época, os escritores dessa
vertente deixaram o seu legado pelas reflexões e poesia imbuídas de
elementos espirituais ancorados nos valores do catolicismo. Importante
ainda, situar esses intelectuais num campo político maior vinculado a um
período de crítica ao liberalismo e ao crescimento do autoritarismo
católico ou não-católico no Brasil.
233

SIMPÓSIO TEMÁTICO 07
DIFERENÇAS & LINGUAGENS

Coordenadores:
Miguel Rodrigues de Sousa Neto (UFMS, Câmpus de Aquidauana)
Peterson José de Oliveira (UFU)

O simpósio temático “DIFERENÇAS & LINGUAGENS” é proposto


com vistas a ser espaço de socialização de pesquisas concluídas e em
andamento, em diferentes níveis de formação, e debates sobre as mesmas.
Na sua constituição e no seu cotidiano os sujeitos, individuais e/ou
coletivos, lidam com um constante tensionamento dos setores
hegemônicos e marginais (no sentido contrário da hegemonia), a partir de
experiências que são racializadas, sexualizadas, geracionais, de classe,
atravessadas pela performatividade dos gêneros, pela etnia. É preciso
considerar, no processo, a centralidade do dispositivo sexista,
heteroerótico, patriarcal, branco, falocêntrico, capitalista. As
transformações por que vem passando a sociedade global, notadamente a
partir dos anos 1960, levaram à multiplicidade dos movimentos sociais,
agora em rede, e alterações na produção do conhecimento – este mesmo
sofrendo as críticas necessárias em seus modelos e teorias. A produção
estética e a construção das linguagens sofrem um lógico atravessamento
deste processo e são dele partícipes, movendo-o também. Por
conseguinte, os movimentos sociais que têm sua origem na construção
sócio histórica das diferenças (elaboradas no corpo, na sexualidade, na
performatividade dos gêneros, na geração, na etnia, na classe), em suas
representações e nos tensionamentos em que estão envolvidos (marcados
pela violência – sutil, cotidiana, pautada na injúria, na submissão
psicológica e física e mesmo na eliminação física –) têm sido mais
detidamente observados em diálogo com a academia. Assim, voltar-nos-
emos para as expressões femininas, feministas e lgbtqi+ nos campos
estético e social e na produção de subculturas que, no embate com a
hegemonia, na sociedade mundializada, têm levado à afirmação das
diferenças e, ao mesmo tempo, aos diversos ataques a estes grupos e
indivíduos. Se “os limites de meu pensamento são os limites de minha
linguagem”, segundo famoso o aforismo de Wittgenstein, a pluralidade
234

nas linguagens torna-se necessária para o combate de discursos que


buscam limitar a(s) linguagem(ns) e no mesmo movimento, limitar a
derrocada das fronteiras rígidas entre os gêneros e afetos. Queremos abrir
um espaço para os que ousam (re)criar as linguagens da revolta e produzir
novas formas de viver, amar e falar de si.

Dos princípios constitucionais da igualdade, dignidade da


pessoa humana e liberdade sexual ao reconhecimento
jurídico e acesso ao casamento civil homoafetivo

Paulo Sérgio da Silva (Universidade Federal de Uberlândia - Instituto de


História)

A vida do homem em sociedade implica ligações sociais diversas, às quais


se soma a responsabilidade pelos rumos de seu próprio destino. Cada
indivíduo vincula-se ao tecido social do qual faz parte, ao mesmo tempo
em que permanece responsável por si mesmo, por escolhas, gostos,
simpatias e preferências que dizem respeito à composição e a vivência de
sua identidade. Perdura, portanto, o permanente desafio político-social de
harmonizar o singular e o plural, de modo que a realização dos desígnios
coletivos não gere obstáculos para as ações pessoais ou vice-versa. Desde
1988, na atual estrutura constitucional brasileira conceitos, tais como:
igualdade, dignidade da pessoa humana e liberdade sexual estão declarados
como princípios essenciais na/para a sociedade nacional. Tal condição
estimula discussões acerca dos aspectos, contornos e parâmetros
atribuídos ao exercício da liberdade sexual, na esfera de intimidade e,
sobretudo, quanto aos seus reflexos sociais, particularmente, no domínio
das garantias fundamentais e dos direitos civis. Fomenta questionamentos,
acerca da real articulação entre os direitos estabelecidos e a sua fluência
pelas minorias sexuais, tanto no seu cotidiano, como no campo de suas
demandas cidadãs, dos quais constitui-se como um lócus privilegiado para
conhecer e discutir tal embate, as lutas políticas e jurídicas relacionados ao
acesso e o reconhecimento da união afetiva sexual entre pessoas do
mesmo sexo e, conseqüentemente, de seus efeitos civis. Elaborada a partir
da pesquisa bibliográfica e análise documental, dos seguintes itens:
Constituição Federal da República Brasileira de 1988, acórdão do
235

Supremo Tribunal Federal sobre a ação de Descumprimento de Preceito


Fundamental 132 (Relatoria do Ministro Ayres Brito, submetida ao
plenário em 05/05/2011, que abordou a união homoafetiva e seu
reconhecimento jurídico, aprovado por unanimidade no colegiado) e a
Resolução 175/2013 do Conselho Nacional de Justiça (que impôs aos
cartórios de registro civil as regras para a habilitação, a celebração de
casamento civil e a conversão de união estável em casamento entre
pessoas de mesmo sexo) a comunicação discutirá, na e a partir da
“Constituição Cidadã” os direitos e garantias fundamentais assim
estabelecidos, os aspectos, contornos e limites atribuídos ao uso e
exercício da liberdade sexual e, debaterá, especificamente quanto ao
“casamento” gay, os caminhos e os descaminhos que marcam a tortuosa
trajetória entre a declaração dos princípios constitucionais e a efetiva
vivência da liberdade sexual e do exercício pleno dos direitos civis, nas
uniões homoafetivas.

A montagem como reinvenção subjetiva e subversão do


gênero narrativo em Valêncio Xavier

Peterson José de Oliveira (Universidade Federal de Uberlândia)

Nosso trabalho partiu da perplexidade diante de uma obra que,


aparentemente narrativa, desconstrói a própria noção do gênero romance
autobiográfico e mostra a indissociável relação entre memória e criação,
apontando caminhos novos a serem percorridos pelo sujeito na sua
tentativa de encontrar sentido e um gozo nas imagens que, se fora do
campo do fazer estético, poderiam simplesmente ser fruto de uma pulsão
mortífera. Ao lidar criativamente com as imagens formadoras, o narrador
de Minha mãe morrendo e o menino mentido, romance(?) de Valêncio
Xavier, reinventa a linguagem romanesca ao incorporar o visual,
misturando-o ao material verbal e reelaborando a noção de montagem.
Para tanto, nos valemos de conceitos advindos principalmente da
psicanálise de Jacques Lacan, como pulsão escópica, gozo e sujeito. Em
nosso périplo pela obra de Valêncio Xavier, indagando sobre o que a fazia
a expressão de uma singularidade, deparamos com a montagem como o
recurso estético fundamental. A montagem, que envolvia muitas imagens
236

e tratava principalmente de experiências visuais da infância do narrador,


levou-nos a buscar o cerne do sujeito em questão na pulsão escópica, que
envolve o objeto olhar. Assim, a obra é construída pela
montagem/justaposição aparentemente caótica de experiências visuais
impactantes e formadoras: desde a visão da mãe morrendo, vista pelo
narrador-menino até as revistas em quadrinhos, dos filmes à publicidade
da época, bem como das histórias ilustradas dos livros religiosos e
didáticos. Por mais que fosse bombardeado por essa pletora de imagens,
o sujeito, ainda assim, conseguiu produzir com estas uma obra singular;
soube lidar com a parcela de gozo que elas lhe davam e, por isso, a
importância muito relativizada dada à necessidade de se fazer sentido. Tal
trajetória nos aponta uma saída criativa para o mais-de-gozar de nossa
sociedade escópica, passa também por protocolos de sublimação
diversificados, pelo uso da imagem para além da imagem do eu (moi) das
projeções narcísicas e imaginárias; enriquecendo a cultura visual de sua
época com uma complexidade não vista nas estratégias do discurso do
capitalista.

Entre linhas e agulhas a tessitura da luta: reflexões sobre o


feminismo em contexto rurais por meio das narrativas orais
de mulheres sem terra em Goiás

Flávia Pereira Machado (INSTITUTO FEDERAL DE GOIÁS)

A emergência de novos sujeitos e sujeitas na cena pública e política


contemporânea tem provocado nos últimos cinquenta anos um
deslocamento dos centros de poder político e epistemológico não apenas
no que refere-se às questões relacionadas ao patriarcado, mas também as
reflexões erigidas em torno do feminismo a partir dos anos 1960 no
âmbito dos movimentos sociais e no forjamento do conceito de gênero
no cerne dos debates acadêmicos. A ampliação destes debates e dos
movimentos políticos e identitários para além das fronteiras ocidentais
provocou a necessidade de redefinição de perspectivas para que mulheres
trans, lésbicas, negras, indígenas, islâmicas, camponesas, ribeirinhas, entre
outras, viessem a ser agentes dos espaços de negociações políticas, sexuais
e identitárias das agendas feministas. Assim, as relações de gênero foram
237

cada vez mais interseccionadas por outros marcadores como etnia, raça,
sexualidade, classe e geração. É no bojo destas discussões que
enveredamos na investigação do feminismo em contextos rurais a partir
das experiências de luta e de construção de rede de sociabilidade e
solidariedade entre mulheres sem terra, acampadas e assentadas, na região
Noroeste de Goiás. O debate tensiona-se em dois campos: por um lado a
invisibilização ou secundarização da questão da mulher nos movimentos
sociais de luta pela terra, visto como um mini-setor ou como um problema
menor no interior das organizações. Por outro lado, o questionamento do
feminismo no Ocidente, este emergido em resposta às necessidades das
mulheres em sua própria sociedade, desenvolveu lutas e construções
teóricas que deram sentido à condição de subordinação destas, mas
tornou-se hegemônico do ponto de vista da perspectiva colonial,
imperialista e transnacional ao tornar invisíveis outras realidades e outros
aportes (PAREDES, 2008); provocou a construção da perspectiva de um
feminismo comunitário como expressão de mulheres às "margens" do
Ocidente. Localizando as nossas sujeitas no atravessamento destas
discussões sobre os movimentos sociais de luta pela terra e na defesa da
perspectiva de um feminismo comunitário, a presente comunicação se
propõe a refletir sobre as estratégias de luta e de (re)existência das
mulheres acampadas e assentadas nos municípios de Faina e Araguapaz,
organizadas no Coletivo de Mulheres Camponesas Jacinta Passos.
Propomos identificar nos relatos coletados por meio de entrevistas orais
e na participação em rodas de conversas, os elementos que evidenciam a
compreensão que estas possuem das relações de gênero, da luta pela terra,
dos espaços de coletividade e de solidariedade femininos enquanto
possibilidades de construção da luta feminista no cotidiano de luta,
trabalho e da família.
238

Heróis Carismáticos: Florestan Fernandes e Antonio


Candido no contexto de firmação da antropologia como
ciência

Thales Biguinatti Carias (Universidade Federal de Mato Grosso)

O presente trabalho discute uma proposta de periodização da


antropologia executada por Roberto Cardoso de Oliveira. No âmago desta
proposta, reside a ideia de que a antropologia, no Brasil, segue um
caminho rumo à burocratização, da qual o modelo seria o dos programas
de pós-graduações ao longo do território nacional. Para atingir este ponto,
Oliveira considera primordial experiências mais aventureiras, das quais
resultaria, já em meados da década de 1950, um campo antropológico mais
ou menos estável. Entendendo que a periodização proposta por Oliveira
não satisfaz um dado epistemológico que nos é caro, traremos um estudo
comparado entre as figuras de Florestan Fernandes e Antonio Candido
para mostrar como, além da confirmação de um determinado campo de
estudos, orientado por questões rumo à burocratização do saber
antropológico, houve a construção de um objeto que, voltado para tipos
nacionais (como o negro e o caipira) se projetava como problema a
respeito da modernização do Brasil e seus desafios no contexto de
expansão urbana de São Paulo. Deve-se, portanto, considerar que o
problema do campo não se esgota na ideia de métodos e procedimentos
de pesquisa. Historicamente, os trabalhos de Candido e Fernandes dão
conta de uma intersubjetividade que, na prática de pesquisa, concretizou
um objeto a ser estudado e que, num momento concomitante, formulou
o próprio projeto de uma crítica literária especializada, encabeçado por
Antonio Candido e sua proposta de literatura como um sistema orgânico
à civilização.
239

Gênero e sexualidade na rede: transitando na sociabilidade


virtual contemporânea

Victor Hugo S. G. Mariusso (Universidade Federal de Uberlândia)

Objetiva-se, a partir de tal projeto de pesquisa, analisar a sexualidade e as


performances de gênero nos territórios virtuais do Brasil contemporâneo,
tomando como fonte páginas do Facebook. Entende-se, que no decorrer
da história, grupos sociais construíram – e ainda constroem – identidades
e práticas culturais próprias, na qual algumas delas são tornadas
hegemônicas, criando relações assimétricas para aqueles que constroem
suas experiências em contraposição a elas. No que tange as relações
eróticas e afetivas entre os sujeitos que não fazem parte da hegemonia
heterossexual, não é diferente. Os sujeitos experienciam na
contemporaneidade, representações e práticas que ocupam lugares antes
não imaginados, como o campo virtual, que se tornou lugar de construção
de saber, de relações políticas (partidária, identitária, etc.) e de resistência.
É preciso atentarmos para as modificações na sociedade brasileira e,
inserida nela, a população de LGBTQI, com vistas a compreender, qual o
lugar que a sexualidade e o gênero ocupam nas redes sociais e de que
maneira o mundo virtual é ocupado por esses sujeitos. Para tanto,
analisaremos algumas páginas do Facebook que se voltam para as questões
do gênero e da sexualidade, mapeando-as, levantando as publicações e
comentários feitos (recepção), bem como, as performances que são
construídas nessa rede de práticas culturais e indignações próprias, que
podem ser vivenciadas e analisadas no território virtual. Desta forma,
compreendemos que, o espaço virtual assim como o material é ocupado
de diversas formas pelos grupos sociais. Em se tratando da população
LGBTQI, as contraposições aos comportamentos hegemônicos se dão de
diversas formas, como, a partir do consumo; ou pela resistência, seja na
vivencia dos desejos, ou nas práticas militantes. Existem permanências em
alguns modos de pensar e agir, fruto de construções históricas, como o
machismo, a homofobia, transfobia, etc., mas, também existem rupturas,
devido ao fato de tais espaços ocupados por esses sujeitos e questões,
terem a capacidade de construção de um lugar para as relações sociais.
Desta forma, buscamos contribuir para as discussões acerca da
sexualidade e do gênero, mas também, de uma história do presente.
240

Apolo, Geras e Tânato: o mito da eterna juventude e a


construção discursiva da velhice masculina

Rosemeri Monteiro Vedan (UFSC)

Este trabalho tem por objetivo apresentar alguns elementos que permeiam
e constituem o processo de envelhecimento masculino. As questões aqui
apresentadas derivam da minha dissertação de mestrado bem como, das
pesquisas desenvolvidas para a construção da minha tese de doutorado.
Em ambos os casos, a partir de entrevistas semi estruturadas, com aporte
na história oral, desenvolvi estudos sobre como o processo de
envelhecimento masculino é construído discursivamente. A proposta foi
a de analisar a velhice em sua marginalidade diante das sociedades
ocidentais. Marginalidade esta que deriva do “não lugar” destinado aos
velhos. O grupo constituído pelas pessoas que se encontram na fase da
velhice é marginal porque transita na contramão de modelo social,
cultural, econômico e político que se fundamenta em valores oriundos de
uma sociedade sexista, heteronormativa, branca e jovem. Envelhecer
passa a se constituir em um grande desafio: o discurso dominante indica
ao idoso um lugar de não pertencimento. Em uma sociedade onde os
valores ligados à juventude eterna, à produtividade, à beleza e o consumo
estão fortemente arraigados no cotidiano da população. Para o homem
que tem sua masculinidade validada pela capacidade de trabalho, pelo
poder que exerce no mundo do trabalho e também pela sua sexualidade,
envelhecer revela-se um processo de difícil aceitação. As sociedades
ocidentais apresentam a masculinidade hegemônica como única
possibilidade de exercício do ser homem. Esse modelo apresenta toda
uma teatralização do exercício da masculinidade que acaba por invalidar
as outras expressões de masculinidades. Nesse sentido é que busco
compreender através da minha pesquisa como o discurso hegemônico
sobre masculinidades influencia o homem na fase da velhice. Apoiada nas
teorias de gênero, sobretudo nos estudo de Connell sobre Masculinidades,
busco compreender a pratica discursiva que desafia o homem a vivenciar
a sua masculinidade na fase da velhice em um meio que se pauta
fundamentalmente no modelo hegemônico de masculinidade. O estudo
aponta para o fato de que na busca do mito da eterna juventude,
241

representado por Apolo na Mitologia Grega, o homem idoso se depara


com Gera, o Daemón, que assombra nosso imaginário coletivo,
personificando a Velhice, ao mesmo tempo, que é prelúdio para Tanato,
representação mitológica da morte, e nosso temor maior. Talvez resida
aqui a maior marginalidade da Velhice.

Sexualidade, política e adaptação: o exílio político e mental


do poeta cubano Reinaldo Arenas

Olávio Bento Costa Neto (Universidade Federal de Uberlândia)

Reinaldo Arenas (1943-1990), escritor e poeta cubano, foi um importante


nome na luta pela busca de direitos para a comunidade LGBTQ+ em
Cuba durante a segunda metade do século XX (pós-revolução). Sempre
envolto no ambiente político, lutou ao lado dos rebeldes e apoiou a
Revolução contra o ditador Fulgêncio Batista, comprando os ideais
revolucionários e mergulhando com fervor em suas propostas. Como
muitos outros, entretanto, foi iludido por promessas de um novo governo
que se mostrou tão ditatorial quanto o anterior, tornando-se, assim, um
nome importante no combate a repressão que Fidel Castro promovia a
todos aqueles que fossem contrários aos ideais socialistas que agora se
instauravam pela ilha. Seu talento como poeta foi rapidamente
reconhecido, assim como sua opinião sobre o regime cada vez mais
totalitário do líder cubano. Somando a intelectualidade e sexualidade do
poeta, logo passou a ser perseguido pela censura e repressão de Castro,
provocando mudanças drásticas em toda sua vida. Foi preso e torturado
sob acusação de trair os ideais de sua nação, assim como muitos outros
crimes, apenas para mascarar o verdadeiro motivo de seu cárcere: ser gay.
A partir de sua autobiografia, intitulada Antes que Anoiteça e da adaptação
cinematográfica da obra, Before Night Falls, dirigida por Julian Schnabel,
procurei trabalhar questões como a sexualidade, política, gentrificação e
AIDS na vida do escritor antes e após seu exílio nos Estados Unidos.
Analisando como sua trajetória de vida influenciou seu percurso como
importante intelectual latino-americano e como os muitos desafios
enfrentados o levaram a entrar em declínio consigo mesmo. Utilizei, para
isso, principalmente artigos sobre as políticas migratórias do governo
242

Jimmy Carter, a gentrificação que impulsionou o crescimento de bairros


em Nova York, discussões sobre o grande boom da AIDS e
principalmente o relato do próprio Arenas, sobre sua trajetória nesse
mundo completamente novo de liberdade econômica e sexual. O trabalho
consiste em uma análise não só comparativa entre literatura e cinema, mas
também em uma importante discussão sobre sexualidade e como certos
preconceitos podem provocar conflitos de identidade. Arenas foi vítima
de tais conflitos, ao perceber que também não havia se adaptado em um
mundo capitalista, entretanto sua obra conta mais do que sua vida, narra
e inspira também a luta contra a opressão, não importa qual seja seu
contexto.

Entre patrimonialismo e racismo: reflexões sobre a


corrupção do Estado brasileiro a partir de “Tropa de Elite:
o inimigo agora é outro”

Felipe Biguinatti Carias (UFMT)

Os filmes de José Padilha “Tropa de Elite: Missão dado é missão


cumprida” (2007) e “Tropa de Elite: O inimigo agora é outro” (2010) são
obras que mexeram muito com o imaginário nacional, obras que
fomentaram repercussões inimagináveis para o período. O segundo filme,
por exemplo, alçou o maior número de bilheteria com 11 milhões de
espectadores, superando “Dona flor e seus dois maridos” (1976), de
Bruno Barreto. À vista disso, as interpretações sobre a obra
cinematografia foram inúmeras. O respectivo trabalho tem como objetivo
pensar sobre as interpretações que a obra captou e os motivos que levaram
“Tropa de Elite: O inimigo agora é outro” suscitar críticas positiva de
todas as vertentes políticas, desde a extrema esquerda à direita
conservadora. Mostrando na relação entre estética e conteúdo quais
seriam os elementos que compuseram a obra auxiliando para a produção
do efeito de “união”. A intenção é realçar como que por meio da harmonia
de continuidade entre planos, José Padilha, junto com Daniel Rezende
(montador), arquitetaram um campo estético naturalista muito
convincente que legitimasse a sua concepção em relação ao Estado
brasileiro, Estado abstrato que seria corrupto por excelência. A
243

demonstração mais latente desse efeito se encontraria nos momentos


finais da obra quando José Padilha discursa sobre tudo o que sabe em
relação a “corrupção” do “sistema” na CPI do Fraga. Nesse sentido, a
acepção de Estado ou “sistema” articulado no filme estaria em simetria
com a interpretação de Sérgio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro
sobre o patrimonialismo, onde a corrupção brasileira seria endêmica e de
herança portuguesa. Entretanto, o conceito supracitado não elege o
patriarcado, escravidão e racismo como o cerne do debate. Logo, assim
como Holanda e Faoro, Padilha produziu um filme que discutisse sobre a
violência no/do Rio de Janeiro sem si quer citar a discussão sobre o
racismo. Portanto, a interpretação trabalhada, pretende mostrar que
Padilha se mune de um conceito que, segundo Jessé Souza, agradaria tanto
a esquerda como a direita – patrimonialismo -, para provocar uma
narrativa que se apresentasse como “neutra”, tendo como único inimigo
o “sistema”, mas que no final ataca a democracia representativa sem tocar
no assunto do racismo e da corrupção do espaço privado.

A construção da diferença na literatura fantástica

Miguel Rodrigues de Sousa Neto (Universidade Federal de Mato Grosso


do Sul, Câmpus de Aquidauana)

As diferenças são construídas historicamente, assim como a maneira


como elas foram/são/serão utilizadas socialmente. Assim, a diferença
etária, algo tão comum, pode se transformar em fator de desigualdade
quando lançamos à margem os “velhos”, ou, algo positivo, quando
aliamos o avanço da idade à ideia de “experiência”. Trata-se, portanto, de
um jogo movediço de efeitos, em permanente cambiamento. O
romancista estadunidense Gregory Maguire lança mão da fantasia para
construir o efeito de estranhamento frente às diferenças em seu romance
de estreia na literatura adulta, “Wicked”, de 1995, e sua sequencia, “O filho
da bruxa” (2004). As obras são uma recriação das personagens de L. Frank
Braum em seu romance “O maravilhoso Mágico de Oz”, de 1900, mas
realizada livremente e voltada para adultos. Animais antropomorfizados
são objeto de discriminação e segregação na obra narrada por uma mulher
de pele verde, a Malvada Bruxa do Oeste. Maguire se utiliza da literatura
244

fantástica para tratar de temas de alto valor ético, tais como tratamos
aqueles que são diferentes de nós, a violência, o desejo, entre outros. A
literatura de fantasia é um gênero pouco explorado no campo da História.
A primazia do documento escrito elaborada pelos historiadores do século
XIX parece ser uma influência ainda muito forte na contemporaneidade,
e o realismo tem sido a estética buscada na área. Entretanto, a literatura
fantástica, aquela que constrói outros mundos, independentes ou que se
conectam com o nosso, pode ser percebida em largas escalas temporais.
No que se refere especificamente à construção das diferenças, a
desigualdade e a violência são elementos estruturantes das relações globais
e, dentre elas, as de gênero e sexualidade. A população lgbtq+ foi objeto
de escrutínio e punição religiosa, da observação e intervenção científica,
por meio da psiquiatria e da medicina legal, da perseguição policial, da
violência indiscriminada oriunda de distintos grupos sociais, o que nos
leva a ocupar o primeiro lugar nesse tenebroso ranking de violência, com
uma pessoa lgbtq+ assassinada a cada 19 horas. Assim, analisar a obra de
Gregory Maguire, “Maligna: para os que amam ou odeiam o Mágico de
Oz”, presta-se a compreender a sociedade global, as hegemonias e
resistências, o lugar ocupado nela pelos distintos grupos sociais, bem
como a possibilidade de representação estética das tensões sociais. A
leitura da obra evidencia apresenta o entrelaçamento, na história recente,
da marginalidade, do gênero, da raça/etnia, da geração e da construção
das desigualdades e da violência. E isto, a partir de um gênero literário
tornado historicamente menor, aquele da fantasia.
245

SIMPÓSIOS TEMÁTICOS 08 & 20


HISTÓRIA, DIREITOS HUMANOS EM INTERFACE
COM A LINGUAGEM

Coordenadores:
Suely dos Santos Silva (UFG)
Edson Brito (UFG)
Natasha Vicente da Silveira Costa (UFG/REJ)
Tatiana Franca Rodrigues Zanirat (UFG/REJ)

O tema "História e os desafios do Século XXI: política, feminismo e


performance de gêneros" apresenta um escopo que abarca a concepção
interdiscilinar dos temas de formação política na educação através do
cinema e, de estudos de autores considerados fontes dos discursos
teóricos para a elaboração do pensamento sobre os direitos humanos,
entendido no sentido amplo. Em especial a emergência da sociedade de
direitos, dentre os quais questões de gênero, da mulher, do feminino à
educação de jovens e adultos, fazem parte. Temos nova configuração
social que tem sido pesquisada e esse ST se apresenta como espaço para a
reflexão e debate a fim de produzir novos consensos históricos que façam
avançar a sociedade de direitos e o empoderamento de grupos
historicamente oprimidos. A abordagem teórica bem como a linguagem
cinematográfica permitem a reflexão desse escopo emergente em que se
tensiona a condição da mulher, do feminino, de gênero, enfim, de poder
e de empoderamento de grupos historicamente oprimidos. A proposta
visa refletir portanto os aspectos culturais e formativos/educativos no
âmbito da história, da filosofia e da sociologia.

As experiências fluidas da nossa contemporaneidade apresentam-se como


um desafio à educação. Esta nova realidade, que escorre, se esvai e inunda,
respinga no processo educativo e o impele a dialogar com práticas voláteis.
Pelo menos dois princípios que andam colados à “sensação enervante de
246

incerteza” (BAUMAN, 2001, p. 72) convidam os professores a reconceber


a dinâmica pedagógica. A transição da modernidade pesada à leve,
primeiramente, se vê traduzida na instantaneidade. Se esta velocidade não
favorece o pensamento de longo prazo, de que forma o professor pode
estimular o contínuo da reflexão? Em segundo lugar, a poderosa força da
incerteza põe em curso a lógica individualizadora, desafiando a ação
coletiva da educação. A reflexão que surge é: como o ensino conseguiria
lutar contra o desagradável ar de impotência que emana do “caldeirão da
individualização” (BAUMAN, 2001, p. 44)? Nesse sentido, os regentes do
processo formativo na educação básica e na educação superior sentem-se
compelidos a refletir sobre a mudança no perfil de seu alunado, que não
se vê contemplado em abordagens prescritivas, imutáveis e
unidimensionais. “Quem ama literatura, não estuda literatura” (2008),
preconiza provocativamente o professor Joel Rufino dos Santos, cuja
reflexão propõe o ensino de literatura como forma de engajamento,
através do qual os alunos devem ser levados a perceber o mundo de forma
crítica, contribuindo para seu crescimento enquanto sujeitos ativos da
História. Neste sentido, importa considerar também o papel do ensino
superior enquanto espaço formador e provedor. A universidade,
exercendo sua premissa de liberdade incondicional e inserindo-se na
ordem do possível, deve permanecer aberta a tudo dizer, a ser um
“horizonte simplesmente” (DERRIDA, 2003, p. 77). Acolhida pelas
Humanidades, a discussão sobre a modernidade líquida se abre sob
diferentes perspectivas. É necessário, por isso, discutir a reconfiguração
prática e teórica dos diversos fatores do processo formativo diante desta
realidade descontínua e movente. Nota-se, por exemplo, que a prática das
quatro habilidades de produção e recepção na área da Língua exige
dinâmicas pedagógicas afins. Outra questão premente é, especialmente em
Literatura, o desenvolvimento da habilidade de leitura e da competência
de análise. Dominar conteúdos ficcionais e teóricos exige a maturação de
uma consciência crítica, habilidade que parece contestar a natureza
instantânea da modernidade leve. Quais estratégias pedagógicas
envolvendo as Humanidades se harmonizariam com este contexto
desestabilizador? Portanto, este Simpósio Temático apresenta-se como
uma oportunidade de comparar ações pedagógicas, compartilhar
experiências e dialogar com esta liquidez presente no ensino e na
aprendizagem de Língua e Literatura.
247

Direitos Humanos, cidadania e a (re) inserção social do


paciente mental em Goiânia

Sylnier Moraes Cardoso (UFG

Após a Segunda Guerra Mundial, o mundo voltou o seu olhar para o


sofrimento e a crueldade humana, que passou de uma certa maneira a
perseguir ações de solidariedade e compaixão e como marco legal com a
intenção de se selar a paz, evitar guerras posteriores e ainda, fortalecer a
democracia, temos a promulgação da Declaração Universal dos Direitos
Humanos (DUDH), no dia 10 de dezembro de 1948. Este documento foi
feito com a pretensão de abarcar todos os povos e nações promovendo o
respeito aos direitos e liberdades nele explicitados. Esta Declaração serviu
de base para Constituições de diversos países, incluindo o Brasil. O
principal responsável por sua elaboração foi o Canadense John Peters
Humphrey. Neste texto discutiremos a questão dos Direitos Humanos e
cidadania e sua implicação na Reforma Psiquiátrica. O conceito de
cidadania encontra-se ainda em processo de construção e tem sua gênese
Histórica no decorrer do século XVIII, o chamado século das luzes, com
o surgimento dos direitos civis. O conceito de cidadania passa por
constantes renovações e mudanças dependendo do espaço e tempo no
qual está inserido, por este motivo podemos afirmar que cidadania é
dinâmica, não estando fixada apenas à uma ordem jurídico-política.
Modifica-se, transforma-se, adicionamse nuances às suas perspectivas e
múltiplas definições ou entendimentos, dependendo do País e sua
Constituição. Para entendermos a concepção mais atualizada de cidadania,
utilizaremos o conceito de Hannah Arendt que nos afirma que a cidadania
é o ‘direito a ter direitos’ , construída na convivência social e coletiva,
sendo imprescindível que se atinja o espaço público. No Brasil até 1980, a
função dos manicômios era a de retirar os indesejáveis do convívio da
sociedade, instituindo um regime disciplinar que visava a mudança de
comportamentos considerados inconvenientes e fora dos padrões.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, no ano de 2014 fez um alerta
de que 10% da população global sofria de algum distúrbio de saúde
mental, os quais alteram o funcionamento da mente e consequentemente
levam os pacientes mentais à prejuízos de várias ordens. Sendo assim,
248

buscaremos analisar o desenvolvimento da cidadania, o exercício dos


direitos dos pacientes mentais e o desenvolvimento de sua autonomia.

Autoritarismo, antiliberalismo e extermínio nos escritos


weimarianos de Carl Schmitt (1919-1933)

Alencar Cardoso da Costa (Universidade Federal de Mato Grosso)

Este trabalho tem como objeto de estudo os escritos produzidos por Carl
Schmitt entre os anos da República de Weimar (1919-1933). O nosso
sujeito histórico foi jurista e politólogo, sendo considerado o maior jurista
alemão do século XX. Desenvolveu centenas de trabalhos nos formatos
de artigos, livros e ensaios. Dedicado ao ramo da jurisprudência,
interessou-se pelo Direito Público e pelo Direito Internacional. Realizou
trabalhos que compreendem aos campos do direito, filosofia e ciências
políticas. Seu pensamento, no recorte de tempo analisado, esteve marcado
por uma postura antiliberal e autoritária. Tendo suas ideias inspiradas nos
autores contrarrevolucionários, sendo Donoso Córtes o principal deles.
Também possuiu inspiração pelas obras do pensador inglês Thomas
Hobbes. A trajetória intelectual de Carl Schmitt é estigmatizada pelo seu
envolvimento no nacional-socialismo, tendo se afiliado ao Partido
Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP), em 1933.
Porém, em 1936 acabará afastando-se dos quadros oficiais do partido. Carl
Schmitt defendeu a formação de um governo forte e centralizado, em
contraposição ao que ele denominava de “fraco”, “anacrônico” e
“despolitizado” governo parlamentar da República de Weimar. Acreditou
que o poder soberano poderia ser exercido por um líder que contivesse
em si a vontade geral do povo. Acresenta-se o seu desprezo pelos Direitos
Humanos, pela participação democrática e pela possibilidade de um
pacifismo mundial.
249

Bergman, Sartre e Ricoeur: o silêncio como narrativa e a


transformação do sujeito em crise

Sofia Corso (UFG)

Este trabalho tem como objetivo estabelecer um diálogo entre o filme


Persona (1966) escrito e dirigido pelo diretor sueco Ingmar Bergman
(1918-2007), a discussão proposta por Jean-Paul Sartre em O
Existencialismo é um Humanismo (1946) a respeito do sujeito definido
por suas próprias ações; e o conceito de narrativa proposto por Paul
Ricoeur em sua obra Tempo e Narrativa (1994-1997), onde irá postular
uma “função narrativa pela qual se dá a inscrição da ação humana na
temporalidade” (CARVALHO, 2003). O cinema europeu na década de
1960 é marcado por profundas transformações se comparado às
produções fílmicas da década anterior, tornando-se mais pessoal e
autoconsciente. Bergman, que tem no teatro a origem de sua técnica e
estética, será inovador não só na sua temática, mas também na linguagem
e interação com o público. O filme conta a história de duas mulheres e o
relacionamento que desenvolvem entre elas. Uma é enfermeira, a outra
atriz. Esta última durante a atuação em uma peça de teatro fica muda e se
resigna no direito de fala. O foco de análise será os diferentes tipos de
produção de narrativa construída pelas duas personagens e a perspectiva
de sujeito desenvolvida pré e pós a produção dessa narrativa. A análise do
filme será divida em três momentos: o hospital psiquiátrico, a ilha e a
autoconsciência de Alma. Dessa forma tentarei perceber de maneira mais
completa a construção, as mudanças e as contingências da estrutura
narrativa de Bergman e a proposta por ele desenvolvida sobre a edificação
do ser em crise. A metáfora de Bergman sobre a crise do ser e a
(re)elaboração de si diante da confluência com um outro sujeito extrapola,
com toda a liberdade intrínseca à narrativa ficcional, o que Paul Ricoeur
entende por identidade narrativa. Mas expor de forma sistemática o
pensamento do filosofo não é o objetivo desse trabalho. O que nos
interessa aqui é perceber a importância da narratividade como meio de
ressignificação do indivíduo. Sartre ao elaborar a complexa teia filosófica
existencialista, acaba por tratar o destino do homem como uma poética.
Essa poética encontra na ontologia de Ricoeur elementos que
complementam e contrapõem a relação do historiador com o tempo e a
250

narrativa tornando assim pertinente o diálogo com a linguagem


cinematográfica de Bergman. Minha questão aqui será: Como construir
uma essência negando uma construção narrativa? Para Sartre, a essência
do homem é construída a partir de suas ações perante o mundo. Então
me parece no mínimo contraditório a construção de uma narrativa pelo
silêncio. Há uma negação da narrativa por parte de Bergman?

O Plano Municipal de Educação de Jataí-GO: Quanto foi


implementado dois anos depois?

Tauã Carvalho de Assis (Universidade Federal de Goiás)

Resumo: Este trabalho tem por objetivo mensurar a implantação das


estratégias previstas no Plano Municipal de Educação de Jataí-GO em seu
primeiro biênio de vigência. Para isso, utilizamos o Relatório de Avaliação
do Plano Municipal de Educação de Jataí: avaliando o biênio 2015-2017
como base para a tabulação dos dados. Concluiu-se que nesse ritmo de
implementação apenas 65% das estratégias prevista terão sido executadas
ao final da vigência da lei. Palavras-Chave: Plano municipal de educação;
política educacional; monitoramento e avaliação de políticas públicas. O
Plano Municipal de Educação de Jataí – Goiás (PME), aprovado por meio
da Lei Municipal 3.708, de 26 de junho de 2015, estabeleceu princípios,
diretrizes, metas e estratégias para a educação do município por um
período de dez anos (2015-2025). A aprovação do plano foi resultado de
intensas discussões entre a sociedade civil, instituições de ensino e poderes
governamentais. O PME de Jataí-Go prevê seu monitoramento contínuo
pelos setores envolvidos e avaliação periódica a cada dois anos com vistas
a aferir a evolução do cumprimento das estratégias e metas estabelecidas
no documento. Dessa forma, este trabalho tem por objetivo analisar a
implementação do Plano Municipal de Educação da cidade de Jataí-Goiás
em seus dois primeiros anos de vigência, tendo por base os documentos
oficiais de monitoramento e de avaliação do mesmo. Como referencial
metodológico utilizamos a análise documental. Como definida por Gil
(2008), a pesquisas documentais são aquelas que se dedicam aos “materiais
que não receberam ainda um tratamento analítico, ou que ainda podem
ser reelaborados de acordo com os objetos da pesquisa” (p. 45). Adotamos
251

como fonte primária o texto base da I Conferência de Monitoramento e


de Avaliação do Plano Municipal de Educação de Jataí-GO. A partir do
“Relatório de Avaliação do Plano Municipal de Educação de Jataí:
avaliando o biênio 2015-2017”, pudemos tabular o estado de
implementação das 164 estratégias do documento em quatro categorias
(a) cumpridas, (b) em execução, (c) não cumpridas, ou (d) não avaliadas.
Assim, obtivemos os seguintes resultados de execução do PME em seu
primeiro biênio: 13% das estratégias foram cumpridas, 24% estão em
execução, 48% não foram cumpridas e 15% não foram avaliadas devido a
falta de informações e indicadores. Conclui-se que nesse ritmo de
implementação apenas 65% das estratégias prevista no Plano Municipal
de Educação de Jataí terão sido executadas ao final da vigência da lei.
Referências GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4.
ed. São Paulo: Atlas, 2008.

A visão de língua/gem de alunos do curso de Letras-Inglês


e a responsabilidade ética da Universidade na formação do
sujeito professor

Carlos Eduardo Alves Lopes (UFG)

Os profissionais do ensino de línguas não devem somente possuir o


conhecimento linguístico da área que atuam, mas também devem ser
imbuídos de conhecimentos teóricos e metodológicos que estarão
fortemente ligados às suas práticas. Ao longo da história da Linguística e
Linguística Aplicada (LA), o objeto de ensino de tais profissionais, a
língua/gem, foi visto por diferentes perspectivas que acabaram por
influenciar o modo como tal fenômeno deveria ser ensinado. Sendo assim,
questionar a visão de língua/gem dos futuros profissionais de ensino de
línguas estrangeiras nos parece fundamental. Sabemos que a Universidade
é uma esfera que apresenta um grande impacto na atuação dos
profissionais do ensino, pois concordamos com Bohn (2005) ao postular
que a instituição é carregada por vozes que são de extrema importância
para a formação docente. A fala do autor dialoga com o que foi proposto
pelo círculo de Bakhtin. De acordo com os filósofos da linguagem, o
252

sujeito é povoado por vozes que fazem parte do seu contexto sócio-
histórico. Faraco (2009) pontua que esse entrecruzamento de vozes forma
novas vozes em um processo ininterrupto. Neste sentido, podemos inferir
que a academia sem dúvida alguma está intrinsicamente ligada à formação
dos sujeitos que lhe povoam. Do mesmo modo, é irrefutável a
responsabilidade que tal esfera carrega. O presente estudo tem como
objetivo investigar a concepção de língua/linguagem de alunos do curso
de Letras Inglês, participantes do último ano de estágio supervisionado,
em uma Universidade Federal, localizada no interior de Goiás. Além disso,
almejamos identificar se tal instituição tem sido responsável e responsiva
com a formação dos futuros profissionais da educação, em relação a visão
de língua, dentro de uma perspectiva ética de constituição do sujeito
apoiada por postulados da LA e do círculo bakhtiniano. Nesta pesquisa
de cunho qualitativo, optamos pelo enfoque de pesquisa estudo de caso.
Para Chadderton e Torrance (2015), tal enfoque tem como objetivo
defrontar e descrever a complexidade das práticas sociais para dar voz aos
significados que os sujeitos trazem e criam em determinados contextos.
Observamos que, a partir dos dados analisados, os discentes do curso
investigado apresentam uma visão de língua/gem bastante sistêmica,
muito próxima aos postulados estruturalistas, o que diverge-se do que é
proposto pela LA e pelo círculo de Bakhtin.

Um estudo histórico-cultural sobre emoções na formação


inicial de professores de língua inglesa

Fabiano Silvestre Ramos (UFG Regional Jatai)

O presente trabalho teve por objetivo estudar a inter-relação entre as


emoções vivenciadas por professoras de língua inglesa em formação inicial
e o processo de (re)construção de identidades profissionais. Para tanto,
busco na teoria histórico-cultural (JOHNSON, 2009; JOHNSON e
GOLOMBEK, 2011; JOHNSON e GOLOMBEK, 2016), baseada nos
estudos de Vigotski e da Psicologia Histórico-Cultural (VIGOTSKI, 2007,
2009, 2010; RATNER, 1995), fundamentos para explicar os fenômenos
sob investigação. Emoções, portanto, são compreendidas como funções
psicológicas superiores que têm influência direta na prática do sujeito
253

historicamente situado (VIGOTSKI, 2004; 2010; TOASSA, 2009, 2011).


Identidades, sob esse viés, é um conceito definido como papeis
desempenhados pelo sujeito em um contexto sociocultural. São
construídas no processo de interação social, por meio da mediação da
linguagem e processos cognitivos (GOFFMAN, 1985; CIAMPA, 1984,
1998, 2007; De COSTA, 2017; BARKHUIZEN, 2017; LEIBOWITZ,
2017). A pesquisa foi realizada no contexto de um projeto de extensão de
ensino de línguas estrangeiras do centro-oeste goiano, com duas
professoras de língua inglesa em formação inicial. Os dados foram gerados
e coletados durante dois semestres letivos por intermédio de narrativas de
experiência, entrevistas orais para geração de história de vida, observação
e gravação de aulas, sessões de visionamento e entrevista sobre emoções
(CLARÀ, 2015). A análise dos dados sugere uma inter-relação de natureza
recíproca entre as emoções vivenciadas pelas participantes e as identidades
profissionais construídas e negociadas em sua prática pedagógica. As
emoções atuam como mediação entre o profissional e sua ação, fator
essencial para a construção de uma identidade. Revelam ainda uma gama
de emoções vivenciadas que provocam diferentes reações nas
participantes, não podendo, assim, classificá-las como negativas ou
positivas. Por fim, ressalta-se a necessidade de um trabalho no sentido de
promoção de um letramento emocional (BARCELOS, 2015) nos cursos
de formação de professores de língua inglesa, para que os futuros
profissionais tenham a habilidade para lidar com suas próprias emoções e
as de seus estudantes.

Literatura e Geografia: relação metodológica possível

Rosana Alves Ribas Moragas (ADUFG)

Nesta pesquisa esboçamos as possibilidades de encontros


didáticometodológicos entre Geografia e literatura, discutindo a
importância do uso de poesias na escola e adentrando a análise de Cora
Coralina e as questões do lugar. É indispensável ressaltar que não é
somente o uso de metodologias diferenciadas e interessantes que
254

possibilitam garantir a aprendizagem do aluno, mas, imprescindivelmente,


um professor conhecedor das bases teóricas e metodológicas da disciplina
que leciona. O uso da poesia como recurso metodológico em sala de aula
não deve ter um caráter apenas lúdico, diferencial, e sim uma tentativa de
aproximação cada vez maior dos diversos saberes, possibilitando uma
interface dos conhecimentos, tão necessária. Nessa busca pela
investigação, nos caminhos a percorrer em buscas de respostas ou de mais
incertezas na pesquisa, uma pergunta se faz presente: como podemos
dialogar com a poesia para entender a Geografia numa visão espacial?
Sabemos que Cora Coralina não escreveu suas poesias pensando no lugar
enquanto categoria de análise da Geografia. Isso é fato. Pretendemos fazer
o caminho inverso: de que forma o lugar apresentado nas obras de Cora
pode ser inserido nas diversas acepções de lugar que a ciência geográfica
discute, particularmente na Geografia Escolar ou na Educação
Geográfica. Compreendemos que o texto literário está repleto de
conteúdo, de modo que podemos interpretá-lo e torná-lo fonte de
investigação geográfica. Sendo assim, o instrumento a ser utilizado é a
interpretação da possibilidade relacional da obra de Cora Coralina com o
Ensino Geográfico. Os aspectos da realidade a serem observados são os
elementos revelados na obra literária, tais como socioespaciais, históricos
e culturais da sociedade, buscando estabelecer relações escalares próximas
e/ou distantes. Nessa direção, recortamos, dentro da amplitude desse
universo de linguagens, a literatura da poetisa goiana Cora Coralina, por
entendermos o caráter regionalista dessa obra, rica no retratar os aspectos
geográficos do cerrado goiano, bem como os costumes, linguagem e tipos
humanos desse Estado, sem perder de vista, é claro, que o lugar “Estado
de Goiás” está articulado com outras relações escalares existentes, sejam
elas locais e/ou globais. Elegemos Goiás por ser nosso lugar de vivência,
de sentimentos, de profissionalização. Na busca por entender ou chegar
próximo ao entendimento da realidade exposta, objetivou-se nesta
pesquisa mostrar como a obra (poemas) de Cora Coralina pode contribuir
metodologicamente com os conteúdos da Geografia na Educação Básica,
no Estado de Goiás, notadamente os que caracterizam o entendimento do
lugar e sua relação com o mundo.
255

Da Imaginação a Criação: o que vem depois do fim?

Isa Mara Colombo Scarlati Domingues (UNIRIO)

O presente estudo apresenta uma experiência com a literatura infantil


desenvolvida na Escola Municipal Leopoldo Nonato de Oliveira, na
cidade de Jataí-GO, com os alunos dos anos iniciais do ensino
fundamental. Essa experiência é uma das ações do Programa Institucional
de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid), subprojeto do Curso de
Pedagogia da Universidade Federal de Goiás – Regional Jataí (UFG –
CAJ), desenvolvida no âmbito da biblioteca da escola. O subprojeto tem
como objetivo trabalhar com letramento literário a fim de estimular as
crianças a apreciarem e desenvolverem o gosto pela leitura. Para a
realização desta ação de letramento literário, os discentes bolsistas
realizaram a leitura do livro: “Ella Bella Bailarina em O lago dos Cisnes”,
do autor James Mayhew. Como uma estratégia de trabalho solicitaram que
as crianças que ao final que continuassem essa história, imaginado o que
poderia ter acontecido depois do fim da história, ou seja, imaginar uma
continuação para a história. O trabalho com a contação e leitura de
histórias é importante para que as crianças interajam com diferentes tipos
de gêneros textuais desde os anos iniciais, além de proporcionar um
vocabulário mais amplo e estimulo a escrita, além de, desenvolverem
sensações/emoções, a usarem a criatividade, a expressarem opiniões e
ideias etc. Essa ação foi realizada em diferentes etapas: leitura da obra
‘‘Ella Bella, Bailarina em O lago dos Cisnes” (James Mayhew), em seguida,
a atividade de escrita realizada em grupos na biblioteca junto aos bolsistas
que auxiliaram na escrita e, por fim, como resultado realizamos a criação
e exposição de uma varal literário no pátio da escola com as produções
dos grupos em que contribuiu para aproximação dos alunos através das
criações e atiçaram a curiosidade dos mesmos. Percebemos que as ações
de letramento literário quando aliadas as estratégias de leitura
desenvolvidas pelo subprojeto Pibid do Curso de Pedagogia na escola
parceira permitem que as crianças interajam de forma mais significativa
com as obras literárias, contribuindo para a formação de leitores sensíveis,
críticos, curiosos e criativos.
256

SIMPÓSIO TEMÁTICO 09
ENTRE A HISTÓRIA ENSINADA E A HISTÓRIA
APREENDIDA: OS DESAFIOS DO SÉCULO XXI

Coordenadores:
Valéria Filgueiras Dapper (UFMT)
Ana Paula Squinelo (UFMS/CPAQ)

O Simpósio Temático: "Entre a história ensinada e a história apreendida:


os desafios do século XXI" pretende reunir reflexões que problematizem
a compreensão dos embates relacionados à História Ensinada e a história
apreendida, especialmente aqueles cujo enfoque busque interrogar o lugar
da História e do Ensino de História nos processos de formação na
Educação Básica. Assim, a disciplina escolar e suas matrizes
epistemológicas, a literatura didática e suas narrativas, a formação de
professores de história e os processos históricos relativos à conformação
do Ensino de História no Brasil, os projetos políticos concernentes à
Educação e as reformas curriculares, bem como as questões relacionadas
à memória, aos espaços da memória e ao patrimônio são alguns dos
aspectos que se espera ver discutidos no presente simpósio.

A História oral como metodologia de Ensino em História

Joelma da Silva Santos (UNIVERSIDADE FEDERAL DO


TOCANTINS)

A pesquisa encontra-se em fase de desenvolvimento, na Escola Municipal


de Ensino Fundamental Professora Carmina Gomes em São Félix do
Xingu-Pará, com os alunos do 7º ano. A pesquisa tem como objeto geral;
analisar as tradições orais em São Félix do Xingu como uma possibilidade
de ensino em História. O projeto apresenta uma metodologia de ensino a
partir da História oral, que “entre outras alternativas, a história oral se
apresenta como solução moderna disposta a influir no comportamento da
257

cultura e na compreensão de comportamentos e sensibilidade humana.”


(MEIHY & HOLANDA, 2017, p.09). Nesta perspectiva as tradições orais
que são passadas através da oralidade de uma pessoa pra outra ou dentro
um grupo pode-nos a ajudar a conhecer comportamento, vivencias e
experiências de pessoas e grupos a muitas vezes desconhecidos da história
oficial. O trabalho de pesquisa visa aproximar os alunos do 7º ano do
Ensino Fundamental das tradições orais pertencentes ao povo de São
Félix do Xingu, mostrando-lhes aspectos relativos a estas tradições orais
existentes na cidade, incentivando os educandos a adotarem uma postura
de preservação e valorização dos mesmos, identificando-os como parte da
história do município. O sentimento de pertencer a um lugar está
condicionado ao conhecimento da existência dos bens cultuarias e
envolve a confirmação das identidades e dos valores que orientam as
práticas sociais de um povo. Nesse sentido, ao conhecer como
determinado grupo de moradores (homens e mulheres) mais idosos da
cidade reconstrói o passado e que categorias são utilizadas para
narrar/rememorar tempos pretéritos, percebem-se outras formas de
apreensão, compreensão e representação da história, o que enriquece o
ensino da disciplina.. A consciência histórica é a realidade a partir da qual
se pode entender o que a História é, como ciência, e por que ela é
necessária (RÜSEN, 2001, p. 56). Neste sentido a História oral, através
das tradições orais de moradores da cidade de São Félix do Xingu, pode
ser uma alternativa para estudar a História do grupo ou da pessoa ao longo
do tempo, de forma contextualizada, com um sentido, tanto para uma
História em geral como para a própria História de vida do aluno e de seu
grupo.
258

Educação, currículo e intersecionalidades: uma análise do


currículo escolar no Brasil pela perspectiva de gênero, classe
e raça (1960-1996)

Tatiane da Silva Sales (Universidade Federal do Maranhão)

A composição étnica do Brasil é marcada por forte miscigenação e


contribuições evidentes, das matrizes indígena, branca e negra. Por conta
da trajetória histórica, e do reforço da superioridade branca colonizadora
sobre os demais, as outras formações étnicas do país foram delegadas a
segundo plano e estar associadas a elas é, e vem sendo por séculos a fio,
pertencer a uma parcela da sociedade desvalorizada e, consequentemente,
com padrão de estética inferior ao da referência padronizada, que é a
branca, masculina, eurocêntrica e heteronormativa. A forma como se deu
a aglutinação cultural e étnica em toda a América levou a um processo de
sobreposição de uns sobre outros, desencadeando numa corrente de
negação das origens, cultura, religião, saberes, estética e tantos outros
aspecto relativos aos “não brancos” na sociedade colonial e que se
estendem na formação do Brasil. O sistema escravista definia os negros
enquanto propriedade e com isso desconfigurou sua herança cultural e
política, adaptando aquele tipo de conhecimento que interessava para
manutenção do sistema de exploração e, dentre as inúmeras formas de
violência, tratando negros e negras como objetos, reforçando para que
negros e indígenas estivessem à parte dos direitos políticos, sociais e às
necessidades básicas de sobrevivência e, no caso da análise deste trabalho,
principalmente à educação. Vale ressaltar que as mulheres negras
estavam/estão ainda mais submetidas aos impactos históricos da
escravidão e exclusão dos direitos humanos e sociais que os homens
negros, por exemplo, pois as mulheres vivenciam de forma diferenciada
sua inserção na sociedade, somando-se à outras categorias como classe
social, geração, territorialidade e etc., tem-se uma configuração muito
particular da sociedade brasileira. Assim, este trabalho visa analisar como
se deu a formação identitária do Brasil em seu processo de caracterização
e exclusão étnico racial, de classe e de gênero observando tal processo
principalmente na composição dos currículos escolares das disciplinas de
área humanística na década de 1960 até os anos 1990, quando houve o
estabelecimento da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (lei 9394/96).
259

Ao analisar tais parâmetros curriculares e o amparo legal deste intervalo


temporal discutiremos como que a composição curricular brasileira
contribuiu para forjar uma identidade nacional em que as pessoas das
camadas mais baixas, indígenas e negros/as eram apresentados apenas de
forma caricata, sobretudo por meio do ocultamento e silenciamento
curricular. Para atender tal proposta analisaremos as mudanças de
legislação do período, uma mostragem de materiais didáticos e jornais e
revistas do período que divulgavam essa identidade nacional seletiva e
excludente.

Ensino de história e narrativa de alunos: Um estudo sobre


consciência histórica no Colégio Estadual Adolfo Bezerra de
Menezes em Araguaína-TO

Iltami Rodrigues da Silva (UNIVERSIDADE FEDERAL DO


TOCANTINS - UFT)

A pesquisa em andamento tem como objeto de estudo a consciência


histórica de estudantes do ensino médio do Colégio Estadual Adolfo
Bezerra de Menezes (CEABM), unidade de ensino localizada na cidade de
Araguaína-To. O conceito de consciência histórica referencia-se no
entendimento de Jörn Rüsen (2001,2011). Metodologicamente nos
valemos da estratégia da pesquisa-ação segundo a visão de Michel
Thiollent (2007), com a qual estimulamos estudantes de uma turma de 2ª
série do Ensino Médio a produzirem narrativas históricas relacionadas aos
bairros onde vivem. A produção das narrativas foi precedida de uma
oficina com orientações aos alunos sobre o que é e como fazer uma
narrativa histórica. Buscamos compreender de que forma os estudantes
representam aqueles lugares, que tipo de relação com a temporalidade
aparece em seus escritos, como essas diferentes percepções podem se
converter em possibilidades para um ensino de história que contribua para
o aprimoramento de suas consciências históricas, fortalecendo uma
educação histórica significativa e dotada de sentido histórico. Além das
narrativas dos alunos, utilizamos como fonte um questionário, com o qual
levantamos algumas informações acerca das condições sociais deles e de
suas famílias, além de acessar ideias prévias dos sujeitos acerca dos bairros
260

onde moram, da escola que estudam e o que pensam em relação ao


conhecimento histórico. O estudo está sendo conduzido mediante diálogo
com autores que discutem o ensino de história no Brasil, a exemplo de
Fonseca (2006,2010), Schmidt (2012), Monteiro (2007), e alguns que se
preocupam em debater a relação entre ensino de história, consciência
histórica e a própria didática da história, caso de Rüsen (2011) e Cerri
(2011). Sob uso desses aportes teóricos e metodológicos, os resultados
tem mostrado que, ao produzirem narrativas acerca dos seus espaços de
vivência, envolvendo suas experiências históricas, os textos dos alunos
revelam diferentes carências de orientação temporal. Entendemos que é
promissor a identificação, o tratamento e o uso dessas carências de
orientação no desenvolvimento de um ensino de história com
repercussões sobre a consciência histórica dos sujeitos. Contudo, esse
caminho exigirá mudanças na atuação do professor e na sua relação com
o currículo e o livro didático.

Por uma outra concepção de Ensino de História no Brasil

Raimundo Agnelo Soares Pessoa (UFG)

As reformas educacionais que estão em curso no Brasil desafiam os


profissionais dessa área a repensarem o mundo do ensino nas mais
variadas dimensões. A História como componente curricular desse
universo não pode se negar a fazer reflexões e questionamentos às
políticas públicas da educação. O intuito desta pesquisa é discutir alguns
aspectos que envolvem a formação inicial do professor de História no
Brasil atual, nomeadamente, como se tem compreendido o Ensino de
História, considerando as possibilidades e necessidades de repensá-lo
conceitualmente. Nesta investigação, de viés qualitativo, a partir de
análises bibliográficas, e considerando documentos e leis a respeito das
políticas educacionais no Brasil contemporâneo, discutimos o Ensino de
História e as potencialidades de transformá-lo em área estruturante na
formação do docente da referida componente curricular. O resultado do
estudo aponta para uma plausível necessidade de se repensar o Ensino de
História, como área fundamental de formação docente inicial, mas
também como área de formação continuada. Visto dessa perspectiva, o
261

Ensino de História, em tese, contribui tanto para a conscientização da sua


importância como área de conhecimento, quanto para a História e para a
Educação do Brasil.

A questão da escravidão nos manuais didáticos de História:


o caso de Brasil e Portugal

Ana Paula Squinelo (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul)

Apresentamos nessa Comunicação os resultados obtidos na pesquisa


realizada no Estágio Pós-Doutoral desenvolvido no Instituto de Educação
da Universidade do Minho (Braga/Portugal), no Departamento de
Estudos Integrados de Literacia, Didática e Supervisão na especialidade
em Educação Histórica e Ciências Sociais sob a supervisão das
Professoras Doutoras Maria Isabel Gomes Barca de Oliveira e Maria
Glória Parra Santos Solé. No processo de investigação analisamos como
o conceito escravidão é abordado nos Manuais Didáticos de História
adotados no Brasil e em Portugal, sendo que no Brasil foram elencados os
manuais destinados ao 7° Ano do Ensino Fundamental II e em Portugal
os adotados para o 5° Ano (1° Ciclo) e 8° Ano (2° Ciclo). Como
referencial teórico e suporte metodológico para o estudo dos manuais
didáticos apoiamo-nos nos estudos de Alain Choppin (2001), Cuesta
Fernández (2009), Bittencourt (2011), Isabel Afonso (2013) e Jörn Rüsen
(2016). Os instrumentos de pesquisa para a análise e categorização dos
Manuais foram elaborados ancorados na perspectiva da Educação
Histórica e as pesquisas de Isabel Barca (2000) e Peter Lee (2003).
Apresentamos, portanto os resultados alcançados e que se referem à
abordagem em torno do conceito de escravidão, tendo como categorias
para análise: a) a narrativa (escravidão colonial; o mundo ampliado); b)
imagens/fontes (mapas, documentos, obras, pinturas etc); c) a abordagem
historiográfica; d) as atividades; e, d) questão da perspectivação futura
(perspectiva da Pluralidade Cultural). Da investigação concluímos que os
Manuais Didáticos em Portugal apresentam uma narrativa eurocêntrica e
lusófona do processo que envolve a escravidão e o tráfico de escravos, ao
mesmo tempo em que tal contexto histórico insere-se e encerrase no
século XVI. No Brasil averiguamos alguns avanços relacionados à
262

temática que se inserem no contexto das demandas impostas pelas Leis:


10.639/2003 e 11.645/2008.

Comemorações históricas, formação de professores e os


usos públicos da história

Miriam Bianca Amaral Ribeiro (UFG)

Esse trabalho compõe os resultados parciais da pesquisa intitulada


“Comemorações e datas históricas: mudanças e permanências” em
andamento sob nossa coordenação, vinculada ao DHUCA – Diálogos
Humanidades, Ciência e Aprendizagem, Núcleo de Pesquisa em Educação
e Ciências Humanas, da Faculdade de Educação da UFG. O objeto desta
pesquisa é a presença das comemorações e datas históricas no cotidiano
presente da vida brasileira, observando de problematizando suas
mudanças e permanências. Tendo como referência o conceito de cultura
histórica, estamos trabalhando a articulação entre História do Brasil e de
Goiás, História da Educação e a História da História Ensinada. Isso é
possível a partir da consideração da existência de uma história ensinada
dentro e fora da sala de aula, o que leva ao exame da escola existente em
Goiás e da história nela ensinada, em todos os níveis de escolaridade,
assim como a história ensinada a quem jamais adentrou um recinto dessa
natureza, mas percorre as ruas da cidade, assiste ou participa de desfiles,
eventos e celebrações, ouve salvas de tiros ou badaladas comemorativas
dos sinos, observa monumentos, leu ou ouviu notícias de jornal e seus
comentários, ou descansou em feriados por datas históricas
comemorativas. Interessa discutir as relações entre história ensinada,
escrita da história, o uso público da história e a constituição e afirmação
de projetos de região e nação. Para realizar esse debate, estamos coletando
depoimentos ao longo dos desfiles de 7 de setembro e 24 de outubro,
desde o ano de 2016. Também estamos acompanhando a rotina de escolas
públicas e privadas no contexto das comemorações, especialmente as
escolas de Ensino Fundamental. Também compõe o espectro de fontes,
o levantamento, junto aos veículos de comunicação de massa, dos
elementos presentes nas várias mídias, pertinentes às comemorações, na
proximidade de suas realizações. Neste evento, discutimos uma das fontes
263

levantadas para a essa discussão, diretamente relacionada à formação de


professores. Para isso, aplicamos questionários junto a alunos iniciantes e
alunos concluintes do curso de pedagogia da UFG e da PUC/GO, em um
total de 320 questionários respondidos. Neles inquirimos quais datas
comemorativas históricas se lembram, qual papel elas tiveram em sua
formação, que papel teriam na formação geral da sociedade e se hoje em
dia frequenta (e porque frequenta) os desfiles referentes a essas mesmas
comemorações. Nesse momento estamos procedendo a análise dos dados
colhidos.

A Ausência Indígena Nos Projetos De Nação, Na


Historiografia E Nas Escolas/Livros Didáticos

Keyde Taisa da Silva (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS)

A história indígena brasileira possui uma série de lacunas, já que a


contribuição dos povos originários simplesmente não figura entre os fatos
que colaboraram, significativamente, para a construção de uma identidade
coletiva nacional. Em outros momentos, quando mencionados, são
caracterizados por adjetivos negativos e pejorativos, o que pode ser
explicado pelas relações conflituosas que sempre envolveram indígenas e
colonizadores e, posteriormente a sociedade não indígena em geral. Essas
passagens violentas tendem a ser sucumbidas da memória coletiva, ou,
então, ser conservada em uma memória paralela à memória oficial, como
forma de resistência de um povo. A memória, como meio de perpetuação
de uma tradição ou história, é algo que surge do presente, como forma de
dar continuidade a algo que poderia ser perdido, sendo assim, pode
facilmente ser manipulada e favorecer determinados grupos históricos em
detrimento de outros. E, nas últimas décadas, temos visto um movimento
de volta ao passado, de reconhecimento de etnias que foram importantes
na construção do sentimento de nacionalidade do povo brasileiro,
inclusive com a inclusão desses temas em livros didáticos, conquista da
Lei 11.645/08, numa tentativa de reparo de danos históricos causados a
determinadas etnias. Nesse contexto, a escola é um espaço para debates e
reinvenção de uma História contada ao longo de séculos com as mesmas
264

características e a partir do conceito de decolonialidade que tem emergido


atualmente para ressignificar os acontecimentos históricos especialmente
ligado às etnias que foram colocadas à margem do processo de construção
da nacionalidade brasileira. O texto aborda essa relação da História goiana
e a participação dos indígenas na sua construção, onde em alguns
momentos, mesmo sendo peças fundamentais na formação do Estado de
Goiás, eles simplesmente são sucumbidos e não aparecem sequer como
coadjuvantes e em outros momentos, aparecem, mas estilizados e
estigmatizados, nunca como protagonistas. Essa análise é feita a partir do
contexto educacional e também do conceito de memória, que não é um
conceito fixo e acabado, mas maleável e construído a partir do tempo
presente sobre acontecimentos do passado, podendo ser manipulada e
elaborada como for mais interessante para o momento. A memória
indígena que temos atualmente ainda é aquela voltada para a época do
descobrimento, com um índio romantizado e preso no passado, como se
eles não evoluíssem e não fossem parte também do presente, pois no
passado eram vistos como entraves ao desenvolvimento do país.

RESSIGNIFICAÇÃO DAS COMEMORAÇÕES DO DIA


19 DE ABRIL: uma análise etnográfica da experiência com
os Terena de Mato Grosso do Sul

Sandra Nara da Silva Novais (Universidade Federal de Goiás - UFG)

O trabalho apresentado tem por objetivo compreender a prática social de


ressignificação das comemorações do dia 19 de abril, numa perspectiva de
experiências e de reflexões em educação produzidas na América Latina. A
abordagem faz uso do conceito de “experiência” proposto por autores
como Maffesoli (2010, p. 80), para quem “a experiência do eu é uma
experiência do mundo: mundo resumido, mundo circundante, mundo que
partilho com outros”, e Thompson (1981), que entende a experiência
como a ação dos homens em suas relações e em meio a um contexto
cultural em que o “fazer-se” é a sua própria vivência, e desse viver,
resultam estratégias, mediações, apropriações, ressignificações, práticas e
intervenções. Em sua inserção no mundo, homens e mulheres, sujeitos
históricos, na luta por humanização, trazem consigo as marcas das
265

experiências e vivências, frutos de seus contextos histórico-culturais, e das


quais, lançam mão diante dos desafios do presente. Para Freire (1982, p.
41), a capacidade de experimentar, criar, recriar, interagir, integrar-se às
condições de seu tempo e responder aos desafios que lhes são lançados
são as condições que conferem aos homens e mulheres a especificidade
que os fazem diferentes dos demais seres vivos e os lançam num domínio
que lhes é exclusivo, ou seja, “o da História e o da cultura”. Os Terena
como muitos grupos indígenas da América Latina tem buscado se
apropriar e ressignificar as comemorações do dia 19 de abril, em que
oficialmente se comemora o “Dia do Índio”, por entenderem esta data
como um momento político importante para fazerem reivindicações e
garantir direitos. O trabalho etnográfico realizado nas aldeias Terena de
Mato grosso do Sul nos colocou em contato com as atividades da semana
cultural indígena, que antecede o dia 19 de abril: seminários, palestras,
apresentações culturais, exposições fotográficas, exibição de filmes e
oficinas, que se encerram no dia 19 com a participação de toda a
comunidade numa grande festa. São momentos em que estão juntos,
mobilizados e compartilhando da solidariedade étnica. Por meio dos
rituais que praticam, são levados a pensar o viver em sociedade e a partir
deles se revelam trilhas, conflitos, dilemas e se vislumbram possibilidades
que permitem encaminhar mudanças e propor transformações.

“Seja razoável: exija o impossível”: Percepções de alunos do


ensino médio do município de Jataí-Go sobre o Maio de 1968
e o protagonismo da juventude na História

Sílvia Sobral Costa (UFJ)

O ano de 1968 foi marcante na História mundial. Movimentos


envolvendo a juventude ocorreram em vários países, como a França, a
Tchecoslováquia, o México, os Estados Unidos e o Brasil. Estes
movimentos tiveram em comum o inconformismo da chamada geração
“Baby Boom”. Estes jovens não se conformavam com imposições de suas
sociedades, buscavam novos valores e novas formas de viver. Segundo
Bianca Borges (2018, p.33) assistiu-se às manifestações “[...] de jovens
estudantes que reivindicavam renovação. Renovação em geral: do sistema
266

burocrático aos padrões comportamentais, do modo de vida tradicional


[...] à forma de ensino adotada pelas universidades.” A contracultura, o
pacifismo, o movimento feminista e negro foram expoentes desta época,
na Europa e nas Américas. No Brasil, além destes temas, a luta pela
liberdade de expressão, mudança de costumes e contra a ditadura militar
foram os pontos centrais. Não foram gerados efeitos significativos a curto
prazo, mas a longo prazo, estes movimentos, marcaram um ponto de
inflexão na história e só é possível compreender a sociedade hoje se
entendermos como a juventude no final dos anos de 1960 saiu às ruas para
mostrar que aquele mundo não servia mais para eles. Neste ano em que o
movimento completa 50 anos este tema ganha especial relevância.
Segundo Eric Hobsbawm (1998, p.8) “[...] para las geraciones posteriores
al 1968 sin duda es útil empezar a recordar lo que ocurrió verdadeiramente
em el curso de esso doce meses extraordinários.” Conhecer este
movimento se faz fundamental à medida que traz importantes reflexões,
pois esta temática propõe o diálogo entre o conteúdo abordado e a
realidade vivenciada pelos estudantes. Esta pesquisa tem como objetivo
entender a percepção de estudantes do ensino médio (da escola Estadual
Serafim de Carvalho, em Jataí – Go) sobre o que ocorreu nas
manifestações em maio de 1968 e das reivindicações dos jovens da
atualidade. Para tanto uma intervenção em duas etapas foi realizada. Na
primeira etapa foram apresentados aos alunos, através de explanação,
imagens, vídeos e música, os acontecimentos deste ano. Na segunda etapa
os alunos foram instados a se expressarem, através da confecção de listas
de palavras que sintetizem os anseios da juventude dos anos 1960 e de
hoje, bem como cartazes, sobre as reivindicações atuais. As respostas
foram analisadas e os resultados serão apresentados no resumo
expandido.
267

Formação continuada docente e ensino de história: uma


revisão de literatura

Nalva dos Santos Camargo Silva (UEG)


Yara Fonseca de Oliveira e Silva (Universidade Estadual de Goiás -
UEG)

Este estudo objetivou tratar sobre a formação continuada docente e o


ensino de história, considerando a relevância das discussões acerca desta
temática, sobretudo nas últimas duas décadas. A investigação, parte da
proposta qualitativa a partir da revisão de literatura, na qual buscou-se
inicialmente levantar os principais autores e obras referentes a temática
proposta. A partir do mapeamento dos autores e obras que versem sobre
a formação continuada docente e sobre o ensino de história o estudo
interessa investigar como o ensino de história e a formação continuada
docente tem se realizado nos programas de formação de professores e
quais as principais características adotadas pelos professores de história
para preparar qualitativamente os docentes. Adotou-se para tanto a
vertente teórica de Fonseca (2009), cuja abordagem remontam uma
perspectiva histórica dos desdobramentos do ensino de história no Brasil
já na década de 1970. Abreu; Soihet (2009), que versam sobre o ensino de
história, conceitos temáticas e metodologias, corroborando com nossa
análise sobre a dinâmica do ensino de história, bem como algumas
discussões sobre a questão da diversidade cultural existente no Brasil.
Broodbeck (2012), para a qual o ensino de história propicia um maior
conhecimento das vertentes históricas e desta maneira permite ao docente
e seus alunos conhecer e produzir novos conhecimentos. Brzezinski
(2008) que ao discutir sobre a questão da formação continuada entende
que esta não pode ocorrer sob uma perspectiva omnilateral, também Gatti
(2011) que postula a necessidade de uma formação que alcance diferentes
setores da sociedade e na qual os docentes estejam cada vez mais em
contato com as transformações da sociedade. Além de outros para os
quais a temática do ensino de história e da formação continuada são
relevante e devem ser discutidos, vislumbrando-se assim maior interação
no processo formativo. Observou-se a partir do estudo que alguns
avanços vem ocorrendo, todavia, ainda necessitam ser trabalhados, no
sentido de fortalecer os programas de formação docente, preparando mais
268

e melhor os professores, tanto inicial quanto continuamente, além de


buscar na oferta da formação dos professores, tornar o ensino de história
numa possibilidade para promover uma formação inicial e continuada dos
docentes cada vez mais contextualizada.

O Facebook como ferramenta útil ao ensino de história:


limitações e possibilidades

Andréia Costa Souza (Universidade Federal do Tocantins)

Este estudo apresenta uma proposta de ensino e aprendizagem que utiliza


como suporte páginas do Facebook que tratam de temáticas históricas
pertinentes ao conteúdo curricular do 9º ano do Ensino Fundamental.
Tendo em vista que temas da história contemporânea são tratados quase
cotidianamente em páginas voltadas ao Ensino de História e/ou
Historiografia na referida rede social, os/as discentes foram orientados a
realizar um estudo desses conteúdos em páginas indicadas pela professora
de história, sendo também desafiados a identificar relações entre os temas
estudados em sala com discussões e notícias recentes circuladas no
Facebook. Nas últimas décadas, o acesso e a difusão de informações
ganhou uma velocidade inimaginável. Da mesma forma, os modos de
produzir e divulgar o conhecimento histórico também se diversificam e
ampliam. As tradicionais fontes históricas, antes restritas ao crivo do
historiador profissional, tomam formatos digitais e tornam-se igualmente
acessíveis a alunos e professores. Redes sociais como o Facebook, vistas
muitas vezes de modo pejorativo por ocupar longas horas diárias de
adolescentes e jovens, têm demonstrado seu potencial como fonte de
informação e espaço de debate público entre diferentes vertentes de
pensamento e grupos sociais. É necessário destacar que o Facebook, visto
como ferramenta contemporânea de informação, geradora de debates
políticos e culturais, ainda que presente no cotidiano de um número
significativo de jovens e professores/as, possui contribuições
inexploradas no que se refere à pesquisa e construção do conhecimento
histórico escolar. Consideramos que esta rede social, por intermédio de
grupos e páginas comprometidas com o ensino de história, utilizada com
direcionamento responsável e atento do/a docente, pode promover
experiências diversas e instigar interpretações, induzir o gosto pelo
269

conhecimento histórico e a formação de opinião crítica. A atividade


proposta corroborou e despertou o interesse, por parte da docente e de
parte significativa da turma, de elaboração e execução de novas atividades
pedagógicas envolvendo redes sociais e tecnologias. Aproveitada como
ambiente de informação e pesquisa em páginas comprometidas com o
ensino de história, com potencial de gerar habilidades e competências, a
rede social mais utilizada pelos jovens no Brasil pode ser extremamente
útil no ensino de História. Como conclusão, observamos que os resultados
desta proposta pedagógica pouco tradicional apresentam desafios e
condições positivas ao ensino de história.

Ação educativa no Museu de História da UEG – Câmpus


Itapuranga durante a 16ª Semana de Museus: uma
possibilidade de construção da história local

Damiana Antonia Coelho (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE


GOIÁS - CÂMPUS ITAPURANGA)

O Museu de História da UEG – Câmpus Itapuranga por três anos


consecutivos 2016, 2017 e 2018 integrou as programações da Semana de
Museus, organizadas anualmente pelo Instituto Brasileiro de Museus
(IBRAM). E nos dias 15/05/2018 a 18/05/2018, as atividades
desenvolvidas no museu foram inseridas na programação da 16ª Semana
de Museus com palestras sobre a relevância do museu para o ensino de
história local e visitas guiadas. Os acadêmicos, egressos e participantes do
Projeto de Extensão "Museu de História da UEG-Câmpus Itapuranga,
memória local e educação” receberam alunos e professores da Escola
Municipal Vera Cruz de Itapuranga-GO, Escola Municipal Genésia
Silveira de Morais (Educação Básica e EJA) da cidade de Guaraíta-GO e
da Escola Estadual Joaquim da Silva Moreira de Itapuranga-GO. Na noite
do dia 18/05/2018 foi realizada a palestra de encerramento da 16ª Semana
de Museus com o tema "Uma breve história dos museus e o Museu de
História da UEG: possibilidades e desafios", proferida pelo Pós-
graduando Leonardo da Silva Firmino. Essa ação educativa permite o
estabelecimento de um diálogo entre a Universidade e as escolas de ensino
básico do município de Itapuranga-Go e de municípios vizinhos, com o
270

intuito de contribuir para a discussão e provocações a respeito da


construção da história local. A partir do diálogo estabelecido com alunos
da primeira e segunda fase do ensino fundamental e a Educação de Jovens
e Adultos nota-se que as representações sobre o acervo do museu são
diferenciadas, isso possibilita a percepção que podemos explorar os
objetos e suas interpretações no processo de construção da memória local.
O acervo permanente do espaço museológico conta com uma diversidade
de objetos, como exemplo os artefatos indígenas e a urna funerária
indicam que esse território foi habitado por povos indígenas. Também
temos uma variedade de objetos da vida sertaneja e urbana que
possibilitam uma viagem no tempo e espaço. Por meio da ação educativa
buscamos despertar o interesse do público atendido para aspectos da
nossa história local, como representação da nossa identidade, memória e
história, conhecimentos e aprendizados populares, por meio do qual
atendemos um número significativo de alunos e professores
estabelecendo assim uma maior interatividade e diálogo, pois, o museu
constitui-se um local de visitação que possibilita reviver memórias que
poderão se perder com o tempo.
271

SIMPÓSIO TEMÁTICO 10
EXISTÊNCIAS E CORPORIFICAÇÕES
PERFORMATIVAS: INTERFACES ENTRE HISTÓRIA,
EDUCAÇÃO E ARTES DIANTE DOS PROBLEMAS DE
GÊNERO

Coordenadores:
Raquel Gonçalves Salgado (UFMT - CÂMPUS DE
RONDONÓPOLIS)
Aguinaldo Rodrigues Gomes (UFMS/UFMT)

A luta pela existência das diferenças, sejam elas sexuais, corporais e de


gênero, historicamente, tem marcado os embates entre agentes sociais,
que transpõem a moldura da normatividade versus aqueles que prezam
pela manutenção do status quo, especialmente por processos de regulação
do corpo (SPARGO, 2017). A referida luta tem exibido representações de
realidades plurais que extrapolam o circuito heteronormativo
compulsório, inclusive exibindo corpos reinventados, identidades
transgêneras que desafiam a ética e a estética binária, religiosa e biológica,
que mantém desigualdades e problemas que envolvem as relações de
gênero, inclusive nominando as experiências não hegemônicas como
ideologias. Trata-se de embates de performatividades (CORREIA, 2015).
O presente Simpósio busca mapear trabalhos que tratem de existências
que escapam da rigidez da performance normativa (BUTLER, 2015) e
apresentam traços de atuação transgressora, seja em processos artísticos,
históricos e educacionais. Dessa feita, a proposta justifica-se por enfrentar
a problemática das linhas limítrofes entre modos de convivência e
existência que incidem nos embates que as relações de gênero têm
provocado no mundo contemporâneo, em que a arte e a educação têm
sido alvos de ataques constantes, vide os casos de atuação de projetos
como “Escola sem Partido” e a censura à exposição de cartografias da
diferença – Queermuseu - promovida pelo Santander Cultural, em 2017.
Assim, os diálogos serão estabelecidos com os estudos de gênero, queer e
feministas que, de certa maneira, lidam com objetos de pesquisa voltados
para linguagens artísticas e prospecções educacionais, sobretudo aqueles
272

que prezem as práticas e representações que corporificam existências


desviantes da ordem normatizada.

Dispositivos de intolerância e violência de Gênero no Mato


Grosso do Sul

Aguinaldo Rodrigues Gomes (UFMS/UFMT)

Pode-se observar que a política conservadora atual considerou a diferença


não pelo viés da tolerância mais sim pelo enfoque da intolerância e da
abjeção, assim as identidades e corpos que se contrapõe ás normas
hegemônicas ou devem viver nas margens ou mesmo ser, simplesmente,
eliminados sejam eles: mulheres, negros, estrangeiros, refugiados, gays ou
mesmo integrantes das classes subalternizadas. Portanto, a partir da
interseccionalidade entre vetores como sexo/gênero, classe/etnia,
geração, buscaremos compreender o atravessamento de formas
diversificadas de violência que são produzidas tanto no nível dos
discursos, quanto da violência de forma direta motivada pela
discriminação por orientação sexual e identidade de gênero no cenário
contemporâneo. Como questiona Avtar Brah: Como, então, a diferença
“racial” se liga a diferenças e antagonismos organizados em torno a outros
marcadores como “gênero” e “classe”? Tais questões são importantes
porque podem ajudar a explicar o tenaz investimento das pessoas em
noções de identidade, comunidade e tradição. (Brah, 2006, p.331). Na
presente proposta de comunicação busco problematizar os binarismos da
racionalidade moderna que impõe a heteronormatividade como padrão
discursivo e comportamental e consequentemente produzem a exclusão
de todos os sujeitos e corpos cujas performances de gênero não se
enquadram no dispositivo hegemônico. A luta pela existência das
diferenças sejam elas sexuais, corporais e de gênero, historicamente, tem
marcado os embates entre agentes sociais que transpõe a moldura da
normatividade versus áqueles que prezam pela manutenção do status quo,
especialmente por processos de regulação do corpo. É importante
ressaltar que a construção das diferenças binárias em nossa sociedade é
uma construção arbitraria de uma epistemologia que é em sua essência
heteronormativa, posto que é fruto da razão moderna excludente. Aponta
ela: [...] se a homossexualidade e a heterossexualidade são categorias de
273

conhecimento em vez de propriedades inatas, como é que nós, como


indivíduos, aprendemos a nos conhecer dessa maneira?(SPARGO, 2006,
p. 46)Desta forma, a partir da teoria foucaultiana dos dispositivos da
sexualidade, proponho a análise dos dispositivos de intolerância que
buscam interditar/silenciar as sexualidades divergentes. Nesse sentido
apresentarei aqui um levantamento preliminar dos dados referentes à
violência de gênero coletados nos órgãos governamentais do Estado do
Mato Grosso do Sul, construindo, assim, uma análise desses discursos e
uma cartografia da violência de gênero no referido estado.

Cartografias da diferença na arte de Clóvis Irigaray - uma


(re)leitura queer

Antonio de Lion (Faculdade de Ciências e Letras de Assis/UNESP)

Esta comunicação visa apresentar a trajetória do artista plástico Clóvis


Irigaray e a sua obra a partir de um olhar queer, ou seja, uma leitura acerca
das corporeidades desnaturalizadas das quais o artista apresenta em sua
abordagem pictórica, seja em composições inéditas ou em releituras. O
trabalho do artista passou por momentos distintos da história brasileira na
segunda metade do século XX, apresentando principalmente relação com
o estado de Mato Grosso, seu local de origem. Sua prática artística começa
nos anos 1960 e vem até os dias de hoje, contudo as obras que interessam
para a análise desta apresentação de comunicação não abrangem toda sua
carreira, senão em momentos específicos e escolhidas a partir da
transversalidade entre diferenças sociais; decolonialidade; crítica à
padronização da representação corpórea e sexo/gênero. Este recorte foi
delimitado pela interpretação lançada à sua obra, como um fazer artístico
interessado na relação espaço, corpo e tempo criticando – em muitos
aspectos pictóricos – um pensamento colonialista e normatizador. As
ambiguidades e releituras em algumas de suas pinturas trazem
marcadamente o corpo indígena representado em deslocamentos
performáticos, como no próprio espaço, mas também no tempo e na
corporeidade. Estes deslocamentos estratégicos do pintor/performer
instigam a pensar sobre questões pautadas em conceitos como
“progresso”; “desenvolvimentismo” e “imperialismo”. A profundidade de
274

sua pincelada vai para além da bidimensionalidade de suas imagens, ou nas


perspectivas criadas, o seu corpo estabelece um diálogo entre o seu lugar
e seu tempo histórico, tornando sua própria existência também uma obra
de arte. Clóvis Irigaray transita entre pintura e performance pela sua
própria prática/função artística; pela estética de si e pela relação estendida
aos seus trabalhos com questões de sua terra de origem vislumbra-se um
rico campo interpretativo do qual se conecta as atuais discussões (ataques)
a respeito de uma “arte degenerada” e a “perseguição” à arte que
desmonta e desconstrói os paradigmas estéticos que (hetero)normatizam
a sociedade. Desta maneira, por uma abordagem histórica interpretativa
será mostrado que Clóvis Irigaray já vêm trazendo há algum tempo o que
se pode chamar de “queer” na sua prática artística.

“Não conte para a mamãe”: uma análise da biografia de


Toni Maguire a partir de uma perspectiva de gênero

Ana Letícia Bonfanti (UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO


GROSSO)

“Não conte para a mamãe: memórias de uma infância perdida” (2012) é


uma obra biográfica em que a autora Toni Maguire escreve as memórias
de sua infância, uma infância marcada por violências físicas, sexuais e
psicológicas praticadas por seus pais. Toni Maguire é um pseudônimo
criado pela própria autora, em sua adolescência, em uma tentativa de
deixar a criança Antoniette escondida em suas lembranças. O que
propomos neste texto é discutir essa obra autobiográfica a partir das
contribuições dos estudos de gênero. Não pretendemos reduzir a biografia
de Toni a uma análise acadêmica, mas sim demonstrar que as violências
sexuais contra crianças e adolescentes estão permeadas por opressões de
gênero, inclusive na história da autora. Utilizamos nessa análise, as
contribuições das teóricas de gênero: Joan Scott (1995), Judith Butler
(2002), Donna Haraway (2004), Safiotti (1997; 2015), além das
contribuições da obra, História da sexualidade, de Michel Foucault (1988).
A infância de Toni é marcada por opressões de gênero sustentadas pelo
poder patriarcal ora exercido por seu pai, ora exercido por sua mãe, ora
exercido pelos vizinhos, pela equipe de saúde, pela escola, enfim por toda
275

a sociedade de uma cidade do interior da Irlanda. Toni é abusada


sexualmente durante anos de sua infância e adolescência, os estupros eram
praticados por seu pai e negados por sua mãe, que se mantém indiferente
diante da revelação e dos sinais que a criança apresenta durante toda sua
infância. Por ser menina e criança, Antoniette é duplamente
subalternizada em relação ao poder de seu pai. Scott (1995), ajuda-nos a
pensar essa situação, ao afirmar que a categoria gênero é uma maneira
através do qual as relações de poder se desenvolvem em nossa sociedade.
Nessa constituição de hierarquias de gênero, a mãe de Antoniette está
também submetida ao poder patriarcal do macho. Aos quatorze anos de
idade, Antoniette descobre que está grávida de seu pai e toda a cidade
passa a responsabilizá-la e culpa-la por isso: sua mãe, a equipe de saúde, a
escola, os “homens de bem” da comunidade, a família de seu pai. Em uma
sociedade demarcada por uma cultura de estupro, em que as vítimas
independentemente da idade e circunstâncias, são socialmente
responsabilizadas e consideradas culpadas pelas violências sexuais a que
foram submetidas, a indiferença e o desejo de não se envolver faz parte
da rede de silenciamento construído em torno dos abusos sexuais infantis.
A escola, igreja, hospital, vizinhança e família, enfim todas as instituições,
dirão que meninas que foram estupradas fizeram algo para que isso
acontecesse. Essa é também a história de Antoniette.

“Dois pica-paus se amando no pico de um pau brasil”:


linguagem, narrativa e gênero em “As Bahias e a Cozinha
Mineira”

Ezequiel da Cruz Machado (UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO


GROSSO)

O debate que está posto nos tempos atuais, para além dos espaços
acadêmicos, recai sobre o lugar ocupado pelo que podemos chamar de
diversidade, com enfoque nos sujeitos que compõem o que seria uma
comunidade LGBT, mas que também já se concebe como algo próximo
a uma comunidade sexo-diversa, na medida em que as transgressões de
identidade sexuais e de gênero se fazem para além dos designadores, como
os termos lésbica, gay, bi, trans, entre outros. As justificativas para a
276

proposição deste trabalho são as mais diversas e cumulativas. Isto se dá


por entendermos que as discussões acerca da Teoria Queer, das
identidades de gênero, além das questões que envolvem o que poderíamos
chamar de arte engajada em tempos de avanço do poder autoritário,
diluído na atual patrulha dos costumes e da crescente arrancada
conservadora, são sempre importantes na marcação de posição do espaço
acadêmico autônomo e questionador. Essa pesquisa será qualitativa e
exploratória. Qualitativa por se tratar de uma pesquisa de realidade social,
na qual buscaremos a representatividade das músicas e performance
artística da banda As Bahias e a Cozinha Mineira. Também será de caráter
exploratório, pois analisaremos o fenômeno do aparecimento de artistas
LGBTs, seus trabalhos artísticos e de qual forma estes se apresentam
como contestadores, resistentes ou não a uma sociedade preconceituosa,
confrontadores ou não dos discursos de ódio que vêm crescendo
assustadoramente nas redes sociais e na sociedade como um todo. Nesse
sentido, como podemos notar, essa aparição nas mídias evidenciam um
propósito. Mas qual? O que a mídia, como “educadora”, quer ensinar aos
seus alunos? Michel Foucault, em Arqueologia do Saber, afirma que para
compreender os discursos, é necessário ter vista a sua dimensão total.
Sabendo-se da parte proposital do discurso, cabe-nos buscar compreender
até que ponto essa condição limita ou estimula a construção de um
discurso representativo das ideias com as quais os artistas em questão se
identificam. Isso pode ser notado na produção cultural da banda As Bahias
e a Cozinha Mineira, assim como no discurso midiático. Sabendo que
qualquer trabalho que se proponha a refletir sobre o campo artístico em
geral, mas em especial sobre a música, as complexidades são múltiplas, na
medida em que as reflexões sobre a linguagem requerem um cabedal
teórico amplo. Ao buscarmos referências nas áreas de linguagem, arte,
gênero, entre outros, fazemos o mínimo para nos cercar de base para que
este trabalho possa, na sua finalidade, contribuir para a questão tão urgente
das discussões acerca da representatividade LGBT no Brasil.
277

Maravilhosa Orlando: sexo, gênero e subversão da


performatividade no teatro contemporâneo paraense

Kauan Amora Nunes (UFPA)

Maravilhosa Orlando foi um texto escrito pelo artista plástico Thomas


Lee, que mais tarde viria a se chamar e ser conhecido na cidade de Belém
do Pará pelo nome Antar Rohit. Em 1999, o texto foi encenado pelas
diretoras Wlad Lima e Karine Jansen, marcando não só o primeiro
trabalho em dupla das encenadoras e amantes, mas também de um
período de encenação teatral marcado predominantemente pela produção
de mulheres, na década de 1990. O nome verdadeiro do texto chama
Hermes Afrodite, contava a história de uma “criatura” que nasceu
hermafrodita, com os dois sexos, com pinto e com vagina, e toda a vida
dele, a relação com a escola. Quer dizer, o Antar encontrou um jeito de
discutir sobre sexualidade construindo o Hermes e Afrodite. Então, você
via o Hermes desde o nascimento, os pais loucos, é menino/menina, a
escola, a adolescência, a fase adulta, se tornou um artista ligado à moda, as
relações amorosas, ora com homem e ora com mulher, até o
envelhecimento e morte. (LIMA, 2012). Toda a aura misteriosa ou
biológica é deixada de lado pela encenação, que aposta na comicidade das
situações e no bom humor. O espetáculo foi montado pela turma de
conclusão do ano de 1999 do Curso Técnico de Formação em Ator da
Escola de Teatro e Dança da UFPA. Toda a trilha sonora foi composta
por músicas do cantor Roberto Carlos, com uma banda que tocava ao
vivo. Além disso, o espetáculo possui outra característica singular: a plateia
era separada por sexo. Logo na entrada as pessoas eram separadas, havia
a plateia feminina e a plateia masculina. Sendo assim, sob uma perspectiva
queer, pretende-se realizar uma leitura deste espetáculo a partir do
conceito de “performatividade” de Judith Butler dialogando com a tese de
doutorado de Jorge Leite Jr. intitulada Nossos Corpos também mudam:
Sexo, Gênero e a Invenção das categorias “travesti” e “transexual” no
discurso científico (2012) e Metamorfoses (2014), do poeta romando
Ovídio, com o objetivo de compreender como questões de gênero e de
sexualidade são subvertidas na encenação oferecendo uma nova forma de
enxergar o corpo como retrato de um contexto histórico e político em
transformação na virada do milênio.
278

Educação e Direitos Humanos: representações das


diferenças sexuais na escola

Luciel Furtado de Amorim (UFMT)

Trata-se de resultados parciais de uma pesquisa que vem sendo


desenvolvida na rede pública municipal de Sonora/MS, especificamente
nas três escolas situadas na sede do município, com alunos do Nono Ano
do Ensino Fundamental, Quarta Fase da Educação de Jovens e Adultos
(oitavo e nono anos juntos) e professores das respectivas turmas. A
proposta é verificar como as questões relacionadas a diferença de gênero
são assimiladas dentro das unidades escolares tanto por alunos quanto por
professores. Sabe-se que as experiências vividas por meninas e meninos
nas escolas afetam diretamente ambos na diferenciação do gênero,
proporcionando estímulos que levam as crianças a socializar-se ativamente
entre si de maneiras diferenciadas conforme o gênero. Dessa forma,
entende-se que a escola é um campo fértil para identificação das questões
que envolvem a opressão, os preconceitos, a homofobia, o racismo e
outras iniquidades. Como instituição em um mundo globalizado as
Unidades de Ensino têm se tornado arena de discussões e debates, que
ora parece apontar para o progresso no campo dos direitos humanos, ora
tende ao retrocesso de práticas sociais, quando observamos que
determinados temas são sucumbidos dos debates simplesmente por não
constituírem o interesse principal de um grupo “idealizador” e/ou
fomentador dos estabelecimentos de ensino. Nesse contexto vale ressaltar
que o poder dessa “onda conservadora” que encontra amparo em grupos
como o Movimento Brasil Livre – MBL e Escola Sem Partido
contrapõem-se ao princípio legal da educação Brasileira garantida na LDB
(Lei de Diretrizes e Bases da Educação) que é a educação para a cidadania
garantindo-se o direito as liberdades individuais. Assim, recorrendo á
teoria de gênero, a partir da obra de autoras como (BUTLER, 2003) e
(LOURO, 2008) e a pesquisa qualitativa no campo da educação,
elaboramos uma metodologia que possibilitasse o entendimento dos
significados de falas e ações, apreendidos na interação com os sujeitos
pesquisados. A pesquisa está sendo realizada em etapas, considerando a
natureza da documentação. Num primeiro momento, foi feito uma análise
bibliográfica e fichamento com o objetivo de embasar argumentos
279

consistentes e posteriormente confrontar essas informações coletadas por


meio de entrevistas com alunos e professores. Além disso, neste
momento, foram feitas, ainda, coleta de informações em documentos de
registro escolar, tais como: Projeto Político Pedagógico, Regimento
Interno, Atas de registros de ocorrências de aluno e professores
relacionados a temática que serão apresentados na presente comunicação.

A desconstrução do corpo e gênero: uma salto entre a


metafísica e materialidade histórica

Patrícia Sheyla Bagot de Almeida (Professora e Pesquisadora)

Pensar as prerrogativas da teoria critica no feminismo, requer que


problematizemos a concepção de corpo e gênero. A pergunta que norteia
o salto metafísico à materialidade histórica é a questão de quando os
processos históricos podem ser negados até mesmo em prol dos
movimentos sociais. O problema está pressuposto pela filósofa norte
americana Judith Butler que elaborou uma desconstrução dos conceitos
de corpo e gênero demonstrando como eles são historicamente
construídos. Manter a dualidade de que corpo é natural e gênero é
construído é, para a autora, manter-se nos esquemas dicotômicos de uma
filosofia dualista de cunho metafísico. Sendo assim, interessa
problematizar quais relações estão realmente postas metafisicamente ou
se a própria metafisica, que assegura o raciocínio do gênero, também é
histórica. Dito de outra forma, este trabalho se propõe a perpassar a crítica
de Judith Butler no intento de responder a questão se o próprio discurso
metafisico não é uma construção histórica que visa criação de saberes em
relações de poder. Desconstruir o conceito de gênero no qual está baseada
toda a teoria feminista não é o único problema que enfrentamos. Para
além da diferenciação de sexo e gênero, pensar o quanto a bases dos
discursos que são históricos prerrogam o uso da metafisica em nome de
um essencialismo, torna-se urgente na forma como concebemos os
conceitos mais essências para a compreensão do corpo na materialidade
histórica. Se a divisão sexo/gênero funciona como norte da questão da
política feminista, a premissa de Judith Butler nos faz ver o quanto de
problemas teóricos, em relação ao uso de termos determinantes para o
280

feminismo, ainda temos que maturar. A desconstrução do gênero traz a


baila o corpo mais uma vez, e dele perguntamos: como este corpo pode
ser construído, manobrado, inventado para ser marcadamente feminino?
A desconstrução revela que o gênero, por mais silenciado que seja entre
as teorias críticas, carrega em seu substrato um sentido que orbita entre a
essência e a substância, categorias que só podem ser manipuladas pela
metafísica questionada pela própria Butler. Desta feita, torna-se inteligível
a necessidade premente da crítica à metafísica e às filosofias do sujeito.A
base teórica deste trabalho assenta-se em Judith Butler e Michel Foucault.

Filosofia e Educação: um diálogo necessário

José Carlos Ferraz (Faculdade Unida de Vitória)

A vida é constituída de períodos marcantes, que de alguma forma


assinalam nossa existência nesse mundo. Em nossos dias, é importante
desenvolvermos um pensamento crítico e independente, ou seja, que
permita que o ser humano experimente um pensar individual. Este
trabalho tem como objetivo confirmar o valor do ensino da Filosofia para
a educação. A Filosofia demanda que estejamos acessíveis ao novo
buscando delimitar espaços que têm especial importância para Educação.
Ficamos então com um grande desafio: como ensinar Filosofia nas
escolas! Além disso: como ensinar de modo significativo a Filosofia para
jovens e crianças em nossos dias? A metodologia utilizada neste trabalho
foi através de pesquisa bibliográfica, onde busco trazer à tona, a beleza
velada que se encontra por de trás da filosofia como um conhecimento
histórico com mais de dois mil anos, por si só já possui um valor cultural
e que se desenvolveu ao longo deste tempo. Por conseguinte, o valor da
filosofia na educação vai além da mera instrumentalização do refletir ou
do criticar. A filosofia deve mostrar a origem das opiniões para que
possam ser incluídas no seu contexto, e ao serem assimiladas possam
auxiliar no desenvolvimento integral dos estudantes. A história da
Filosofia e os filósofos, adotados como instrumentos para abranger
melhor aquele tema e o problema que está sendo abordado, recebem um
sentido especial, não sendo tão somente mais um conteúdo a ser decorado
pelos estudantes. De qualquer forma, os conteúdos devem ser expostos
281

de forma temática, numa experiência de torná-los mais próximos da


realidade vivida pelos alunos. A vida é constituída de períodos marcantes,
que de alguma forma assinalam nossa existência nesse mundo. Em nossos
dias, é importante desenvolvermos um pensamento crítico e
independente, ou seja, que permita que o ser humano experimente um
pensar individual. Este trabalho tem como objetivo confirmar o valor do
ensino da Filosofia para a educação. A Filosofia demanda que estejamos
acessíveis ao novo buscando delimitar espaços que têm especial
importância para Educação. Ficamos então com um grande desafio: como
ensinar Filosofia nas escolas! Além disso: como ensinar de modo
significativo a Filosofia para jovens e crianças em nossos dias? A
metodologia utilizada neste trabalho foi através de pesquisa bibliográfica,
onde busco trazer à tona, a beleza velada que se encontra por de trás da
filosofia como um conhecimento histórico com mais de dois mil anos, por
si só já possui um valor cultural e que se desenvolveu ao longo deste
tempo.

Representações dos feminismos e gênero na literatura do


século XIX: Baudelaire e Flaubert

Marcos Antonio de Menezes (UFG/Jataí)

Se no século XXI vemos e vivemos um descolamento do jogo político


possibilitando a visibilidade de ações de uma pluralidade de grupos sociais
que os conduzissem da margem ao centro da cena pública configurando-
os como expressivos frente a determinada hegemonia no tocante à disputa
por lugares e valores no século XIX esta percepção não estava dada e os
poucos que tentavam dar visibilidade às minorias eram silenciados pela
censura obrigando-os a se manifestarem por códigos e alegorias que
muitas vezes só eram lidos por iniciados. Negros, transexuais, gays,
lésbicas, feministas, indígenas não estavam nos espaços públicos. Estes
processos de embates representacionais só podiam se apresentar nas
páginas de poucos periódicos e páginas de romancistas que estavam
desposto a confrontar a censura, também não faltam artistas plásticos que
não temeram a militância desviante para por em cena o seu tempo
presente com todas as suas mazelas. Neste sentido a comunicação que
282

apresentarei ao o VI Congresso Internacional de História terá um olhar


político ao pensar essa nova configuração social que já despontava no
século XIX, com o ensejo de que a partir das práticas, ações e intervenções
desses atores possamos construir novos caminhos conduzam a processos
de formação e humanização. É inegável a pressão¬¬¬¬ exercida por
estes movimentos para ter incluídas suas reivindicações na agenda política
global de seus contemporâneos. Esse fenômeno revela a riqueza das
narrativas em jogo, convertidas em bandeiras de lutas políticas contra os
discursos hegemônicos e normatividades que persistem em erigir muros,
ideológicos e físicos, barreiras de intolerância racista, misógina e
homofóbica. Para acessar o passado e buscar as representações deste
empate social recorrerei a textos de poesias de Charles Baudelaire, 1821 –
1866, e ao romance de Gustave Flaubert, 1821-188, Madame Bovary de
1857. Ambos os escritores tiveram suas obras censuradas pela Sexta Corte
Correcional do Tribunal do Sena e foram exemplarmente punidos. Eles
foram acusados de ofensa à moral pública e à religião. Hoje ao lado da
mobilização pelo empoderamento jurídico e político de categorias tidas
como marginais, cresce o discurso de ódio e intolerância. Temos
presenciado em nível planetário a polarização entre ideias progressistas e
conservadoras. Os contextos de crise, tal qual vivemos agora, com o
crescimento da desigualdade social, a crise ecológica, a pressão da evasão
pelo consumo, o individualismo crescente, o aumento do controle
midiático, tudo isso leva ao extremismo e ao encastelamento das opiniões.

A performatividade de Maria Graham nos Diários de


Viagem na América do Sul no século XIX (1821-1823)

Any Marry Silva (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-


SP))

O artigo tem como objetivo analisar os relatos de viagem de Maria


Graham (1785-1842) inglesa, viajante, escritora, tradutora publicada em
vida sobre sua passagem pela América do Sul – Brasil e Chile relatados
nos diários de viagem: Journal of a Voyage to Brazil, and residence there,
during part of the years 1821, 1822, 1823 (1824) e o Journal of a residence
in Chile during the year of 1822; and a Voyage from Chile to Brazil in
283

1823 (1824) tradando da situação política desses países que passavam pelo
processo de independência através do olhar imperialista da escritora de
literatura de viagem que buscava afirmar em seus relatos a importância e
a elevação civilizatória que esses países passariam ao se tornarem
independentes de seus colonizadores seguindo os preceitos da sua nação,
a Inglaterra. Buscando afirmar seus diários como parte importante da
literatura de viagem, a viajante se utiliza de documentação como jornais e
ofícios e das suas relações sociais que no Chile é a elite local de Valparaiso,
e no Brasil chega a ser a Imperatriz Maria Leopoldina. Para analisar a
construção de sua narrativa trago a questão de gênero que terá como
suporte a performatividade (BUTLER, 1990) que utilizo para
compreender as escolhas do formato de narrativa empregada pela Maria
Graham ao longo de seus relatos os quais tem influencias de acordo com
o que a viajante vê como necessário a ser transmitido e o que foi possível
de ser coletado por ela que era submetida e se utilizava de seu gênero para
compô-los. Levando em consideração também o fator de prestigio social
de Graham como inglesa, esposa e viúva de um capitão da marinha
inglesa, de classe média que a ajudavam a participar de espaços que não
seriam cedidos a outras mulheres. A construção de seus diários se dá na
busca de contar a história e a transformação política que Brasil e Chile
passam, mas também contar a história de Maria Graham como viajante e
escritora. O artigo traz para a literatura de viagem a perspectiva de gênero
que faz parte dos diários de viagem de Maria Graham ao narrar a história
desses países da América do Sul, e a sua história como uma mulher
viajante e escritora do século XIX.

A poética das obscuras em Geni, Mulher da vida: as tramas


subversivas da arte e dos sujeitos nos (des)caminhos
contemporâneos

Émile Cardoso Andrade (UEG)


Jossier Sales Boleão (UEG)

Este trabalho se propõe a fazer uma leitura da canção “Geni e o Zepelim”,


de Chico Buarque (1978/1979) e o poema da poeta goiana Cora Coralina
“Mulher da vida” (1975), por meio do percurso oferecido dos estudos
284

comparados da literatura, que leva em consideração os saberes de


tendência interdisciplinar no âmbito das ciências humanas, sociais, artes e
letras convergindo para reflexões de diversos pesquisadores a respeito de
problemáticas e temáticas de interesse comum. O objetivo é desenvolver
reflexões sobre a práxis subversiva da arte a partir das aproximações,
deslocamentos e convergências entre a letra da canção e o poema, além
de discutir a partir desta leitura, a relação histórica dos sujeitos e dos
corpos, sejam LGBT’s e/ou femininos, bem como o processo de
dominação, resistência, repressão e enfrentamento existente. Por meio de
versos das obras, são feitas reflexões inseridas na conjuntura
contemporânea, levando em consideração lugares de fala, como é
apontado por Djamila Ribeiro (2017), relações patriarcais heterossexistas
e nas tentativas reacionárias e capitalistas em invisibilizar sujeitos que
questionam e fazem enfrentamento à naturalização histórica de opressões
e dominação (Nogueira, 2018). A partir da ideia de Britto (2003), que
denomina o fazer poético de Cora Coralina de “estética dos becos”,
desenvolvemos neste texto a concepção de “poética das obscuras” para
evidenciar estes sujeitos em questão, com seus corpos, desejos e urgências
adentradas numa prática criativa e com subversão necessária,
compreendida essa prática enquanto performance poética. Dentre autores
que dão o suporte para as reflexões apresentadas estão: Nitrini (1997),
Butler (2000; 2003), Saffioti (2004), Bourdieu (2002) e Moisés (2016).

“Elis, Essa Mulher” (1979): Representações Das


Feminilidades Na Transação De Reabertura Política No
Brasil

Robson Pereira da Silva (UFG/UFU/CNPq)

Após o lançamento de dois espetáculos de relevância crítica e estética,


Falso Brilhante e Transversal do Tempo, Elis Regina, em 1979, lançava o
disco e o recital Essa Mulher. Dessa feita, performativamente, trouxe
nessa obra a representação da mulher como epicentro da dimensão
artística, ética e política no momento da transação de reabertura política
no contexto da ditadura militar vigente no Brasil, entre 1964-1985. A
referida obra (disco e show) trazia naquele contexto o cotidiano feminino
285

em seus desejos, desafetos e representações da mulher enquanto agente


da política, cabe salientar que a canção O bêbado e a equilibrista foi
difundida e apropriada como o hino da incompleta anistia, em 1979.
Assim, o presente trabalho pretende compreender as performatividades
de gênero operadas por Elis Regina, ao considerarmos o feminino
enquanto um discurso e constructo sócio cultural que dimensiona
identidades e linguagem que age sobre corpos em normatividades e
resistências (BUTLER, 2012). Cabe salientar que para Elis Regina, que
buscava equidade entre o masculino e o feminino, o sistema capitalista e
as relações de trabalho mantinham uma considerável diferença entre os
sexos. Paradoxalmente, embora considerasse os problemas da mulher na
sociedade machista capitalista de seu tempo, a artista não considerava a
anulação da figura do homem, pois considerava esses embates de maneira
relacional, especialmente devido a sua leitura de classe e a expressão de
seu desejo sexual . Nessa esfera, buscamos compreender o local da mulher
nesta sociedade, pois é por este viés, ainda na década de 1970, que a
intérprete observava os problemas de gênero. Esse tipo de percepção fez
parte de determinadas leituras produzidas na academia brasileira, a partir
da década de 1960, no Brasil, como as pesquisas desenvolvidas por
Heleieth Saffioti (1976), essa responsável por difundir a perspectiva
interseccional de gênero em suas produções. Esse empreendimento
investigativo se dá ao analisarmos a construção da significação de “Elis,
Essa Mulher”, seja no disco, recital e entrevista, ou, na apropriação desse
material artístico em diferentes temporalidades, pois esse trajeto é o que
torna a obra de uma artista relevante diante da história e as diferentes
concepções dos femininos no Brasil. A partir dessa dimensão é possível
compreender por quais meandros a intérprete da MPB pensou o processo
da reabertura política brasileira, ao centralizar as mulheres e suas
representações como foco para o debate acerca dos horizonte de
expectativas sobre a possibilidade de redemocratização no Brasil, embora
Elis tivesse dúvidas acerca de como tal procedimento estivesse
acontecendo (especialmente pelo comando militar nessa transação e
acomodação de poder).
286

"A contrapElo - Eu não gostaria de estar na sua pele?"


NarraAções de Gênero, Corp(oralidade), Per.formações
Interartísticas e Trans.disciplinaridades nas Artes da Cena

Natássia Duarte Garcia Leite de Oliveira (Universidade Federal de


Goiás),
Valeria Figueiredo (ufg)

No presente artigo, propusemo-nos a escrever de forma reflexiva e crítica


sobre o processo de criação e a montagem do espetáculo "A contrapElo
- Eu não gostaria de estar na sua pele?" (2016). Nosso objetivo, desde o
princípio foi trazer para a cena as discussões de gênero na sociedade
contemporânea, atualizando os conceitos sem recorrer em clichês,
caricaturas, preconceitos tão recorrentes em alguns trabalhos artísticos.
Preocupados com a complexidade da temática e dos aspectos subjetivos
presentes em cada história particular, optamos por olhar dialeticamente o
objeto de estudo e ouvir a voz de inúmeros sujeitos em suas singularidades
e em diferentes contextos. Sendo assim, tivemos um aporte teórico do
campo das Artes da Cena, mas fizemos imersões em leituras
(dramaturgias, filmes, documentários, reportagens) de outras áreas; e
coletamos depoimentos e narrativas acerca das questões de gênero com
quem vive na pele as condições e contradições sociais. O coletivo de
artistas envolvido pôde, portanto, adentrar no universo de personagens
compostas de diferentes identidades de gênero e orientações sexuais.
Entre aspectos do masculino e feminino, da transsexualidade e
travestilidade, dos incômodos e conflitos sociais e culturais, da diversidade
do ser humano, as diretoras propuseram experimentações corp(orais) que
provocaram reflexões críticas e tensões psicofísicas tanto na equipe de
performers quanto na equipe de Direção de Arte. Desta forma,
compusemos coletivamente ações coreodramatúrgicas musicais circenses
performáticas, as quais se trans.formaram na performance interartística.
Neste sentido, exploramos a memória, a subjetividade, a temporalidade, a
plasticidade do corpo espacializado e do espaço no corpo por meio de
materiais expressivos e diferentes mídias transitando nos campos do
teatro, da dança, do circo, da música, das artes visuais e da performance.
Ademais, a busca por compreender aspectos objetivos do tema escolhido
para a pesquisa cênica, também traçamos os conhecimentos das artes, da
287

educação, da história e da sociologia. Depois de algumas apresentações,


após a recepção da plateia com nossa avaliação pública, em debates com
equipe e coletivos das escolas, ficou evidente que o projeto propiciou arte
de qualidade, sobre tema complexo e emergente, ampliando as
possibilidades das interações das linguagens artísticas na produção de
conhecimento estético sensível e da urgência de compreender a
transdisciplinaridade na concepção da obra de arte.

Infância como espaço de (re) produção dos estereótipos de


gênero

Tatiane Coelho Antunes (UFMT)

A presente pesquisa, que se desenvolveu junto ao NUEPOM (Núcleo de


Estudos Sobre a Mulher e as Relações de Gênero) como requisito para a
conclusão do Curso de Serviço Social da Universidade Federal de Mato
Grosso, teve como objetivo principal a análise de alguns dispositivos
presentes na infância que atravessam modos de compreender o gênero.
Destacamos para esta análise a família, a escola, os livros didáticos, as
brincadeiras e brinquedos como forma de (re)produção dos estereótipos
de gênero. Três categorias são fundamentais nesta pesquisa: gênero,
educação e estereótipos. Embasando teoricamente os conceitos em
análise, com base em autoras, como Judith Butler (2003), Guacira Louro
(1997) e Moema Viezzer (1989), foi possível observar que aprender a
desempenhar uma performance normativa relacionada às representações
de gênero é uma ação educativa que se delineia a partir da apropriação de
um conjunto de referências simbólicas, nos contextos sociais em que a
criança circula e com os quais tem contato. A fim de entender como são
desenvolvidas estas situações cotidianamente, a pesquisa proposta
baseou-se numa perspectiva metodológica qualitativa/interpretativa,
considerando as narrativas de algumas mães e professoras da Educação
Infantil da Escola Municipal São Sebastião, localizada na cidade de Cuiabá,
durante o desenvolvimento do Projeto “Educação de meninos e meninas
para a igualdade de gênero”, por meio da aplicação de questionários. São
analisadas a família e a escola, onde a pesquisa foi realizada, no sentido de
discutir os diversos mecanismos sexistas (re)produzidos nesses ambientes,
288

nos quais o papel de protagonista está atribuído ao gênero masculino, e o


feminino, quando não invisível, ocupa um lugar secundário, sendo
delimitada inclusive a normatividade social que se espera de cada um/a.
As brincadeiras e brinquedos de meninos e meninas, analisando inclusive
alguns livros didáticos e histórias produzidas para o mundo infantil, são
também foco de análises. Buscamos, ainda, apontar algumas formas de
diminuir os equívocos pedagógicos e conservadores na família, com vistas
a construir uma educação mais emancipadora, no que tange às relações
entre meninos e meninas. Por fim, levantamos questões e
problematizações para dar continuidade a essa discussão, destacando a
complexidade da temática e o papel da escola como um espaço que pode
contribuir para a transformação das relações sociais, no sentido de
enfrentar as desigualdades e a hierarquização dos gêneros.

Educação Infantil numa perspectiva feminista: caminhos e


desafios para uma educação mais democrática

Sandra Celso de Camargo (Universidade Federal de Mato Grosso -


CUR)

Na Escola é preciso discutir questões naturalizadas em nossa sociedade,


que não são debatidas e nem problematizadas por entrarem em choque
com a imagem de sociedade que precisa ser mantida, que olha a criança
como uma abstração. Para isso, é imprescindível olhar a infância não
como um discurso que funda a ideia de um homem universal, como
origem e telos da nossa existência, mas sim como possibilidade de se ser
sujeito, de modo a compreender as crianças como capazes de indagar as
estruturas de saber-poder que nos oprimem, para que, assim, não sejam
sufocadas outras formas de existir. Diferente de uma proposta
desenvolvimentista, na qual a criança é pensada como um devir, a escola
deve ofertar uma educação mais igualitária para as crianças, segundo a qual
o gênero não seja um diferenciador na forma como são tratadas as
meninas e os meninos. Com a avalanche conservadora que estamos
sofrendo, educar as crianças dentro de uma perspectiva feminista é buscar
uma luz em meio à escuridão avassaladora, que luta pela manutenção de
uma sociedade que exclui e oprime o que foge do ideário de homem
289

universal. Nesse sentido, Avtar Brah (2006, p. 342) diz que “o objetivo
principal do feminismo tem sido mudar as relações sociais de poder
imbricadas no gênero”, logo, pensar em alternativas de educação para as
crianças, onde a diferença de gênero não seja um marcador que oprime e
as impeça de realizar seus desejos, é um dos caminhos para a construção
de uma sociedade mais justa e democrática. A pesquisa da qual parte essas
reflexões, compõe o grupo de pesquisa “Infância, Juventude e Cultura
Contemporânea” (GEIJC), pertencente ao Programa de Pós-graduação
em Educação (PPGEdu), da Universidade Federal de Mato Grosso
(UFMT), do Câmpus de Rondonópolis, Mato Grosso. Seu contexto é um
Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) do município de
Rondonópolis - MT, onde estamos realizando uma pesquisa intervenção.
Esta metodologia de pesquisa faz a mediação ente a teoria e a prática,
problematizando a realidade e propõe alternativas de ação que, pautadas
no conhecimento teórico, possam transformá-la. Desta forma, este texto
pretende analisar as relações de gênero construídas e vividas, no CMEI,
buscando trazer situações onde, mesmo que de maneira tímida, as relações
de gênero são problematizadas, assim, discutir como a perspectiva
feminista pode contribuir para ir forjando práticas mais democráticas, que
não hierarquizem as pessoas, liberta de preconceitos, discriminações,
violências e exclusões. Para essa analise, nos embasaremos nos estudos de
Judith Butler (2016), Michel Foucault (2017), Guacira L. Louro (2014),
Daniela Finco (2010).
290

SIMPÓSIO TEMÁTICO 11

HISTÓRIA DAS MULHERES,


INTERCULTURALIDADE E MEMÓRIA:
INTERFACES ENTRE HISTÓRIA E EDUCAÇÃO

Coordenadores:
Jaqueline Ap. Martins Zarbato (UFMS)
Dilza Porto Gonçalves (UFMS)

Os estudos sobre/das mulheres, as memórias femininas e a


interculturalidade são conceitos aproximados e, que se fundamentam as
dimensões das relações de gênero no processo de ensino e aprendizagem
em diferentes espaços educativos, formais e não formais. Desta maneira,
os estudos sobre as mulheres e a interculturalidade se apresentam como
um campo de análise no campo das Ciências Humanas, relacionando
diferentes perspectivas sobre os elementos formativos das questões
culturais. Assim, esse Simpósio Temático visa congregar as pesquisas, as
análises teórico-metodológicas, relatos de experiências que versem sobre
as interrelações entre gênero, memórias femininas, narrativas, experiências
educativas, uma vez que amplia a fundamentação dos conceitos como
etnia, classe, geração, relações de poder, natureza X cultura atravessadas
por relações de gênero. Pensar a interculturalidade, a partir de uma
perspectiva crítica, contribui para ampliar as reflexões, bem como para
combater os preconceitos e discriminações ligadas ao gênero, instituindo
‘olhares’ sobre a prática cultural, composta e marcada pela diversidade e
diferença na sociedade. Nos últimos cem anos tiveram muitos avanços em
relação às conquistas de direitos civis e sociais para as mulheres. Por isso,
nesse simpósio temático apresentam-se as mais diversas manifestações
feministas que ocorreram desde o final do século XIX até os dias atuais.
291

Uma princesa ilustrada na corte brasileira

Ricardo Shibata (Unicentro)

Um dos eventos mais importantes do gradativo processo de


“europeização” (ou modernização) do Brasil no século XIX foi, sem
dúvida alguma, a chegada, ao Rio de Janeiro, da Imperatriz D.Leopoldina
(1797-1826), em 1817. Princesa de altíssima estirpe, filha do imperador da
Áustria, Leopoldina trouxe em sua bagagem não apenas uma nova moda
nas vestimentas e novidades de aparato, mas, sobretudo, usos e hábitos de
uma corte que possuía codificação mais restrita. Mais ainda: seus modos
de agir e suas práticas de sociabilidade contrastavam com aqueles
praticados pelos membros da família imperial brasileira. A partir de sua
figura, é possível flagrar justamente a estrita ligação entre a etiqueta (os
modos de se comportar) e a Ética (os valores morais); ambas,
particularmente alinhadas no tipo de educação que Leopoldina recebeu
quando criança. Como se sabe, durante o reinado de D.José II Habsburgo
(1780-90) ocorreu uma profunda mudança cultural entre os grupos
dominantes da Áustria tanto no campo intelectual, quanto no religioso,
com a incorporação de ideia filosóficas e pedagógicas de forte caráter
ilustrado (iluminista). Essa mudança cultural pode ser melhor flagrada no
ensino da religião, em que participavam, de maneira estratégica, o uso de
parábolas, contos morais e método dialógico. Ao equilibrar razão e fé, o
processo de ensino-aprendizagem se voltava para uma linguagem mais
próxima àquela do Novo Testamento, com a participação da técnica
socrática. À época da Restauração política, a despeito da
confessionalização das escolas, a herança do espírito da Ilustração esteve
presente, agora, com acento na importância de incutir a lei moral interna
nos alunos, conforme o pensamento de Immanuel Kant, confrontando
racionalismo e fé, religião natural e revelação divina. A educação recebida
e incorporada por D.Leopoldina, que é particularmente visível em seu
comportamento perante os súditos, em sua correspondência e em suas
“Resoluções” pessoais, contrasta fortemente com o que conhecemos da
família imperial brasileira. D.Carlota Joaquina, sua sogra, embora tenha
sido intelectualmente brilhante, era pessoa de difícil trato, geniosa e
temperamental. D.João VI, seu sogro, era excessivamente afável e
cultivava péssimos modos à mesa e no trato com representantes
292

estrangeiros. E D.Pedro, seu marido, como vimos, era impaciente com os


súditos e fora pouco dedicado aos estudos. Disso, ele haveria de se
arrepender. Em sua velhice, D.Pedro aconselhava à filha D.Maria da
Glória, futura rainha D.Maria II de Portugal, a se dedicar aos estudos, para
seguir o bom exemplo de Leopoldina, sua mãe: “eu espero que tu estudes
d’ora em diante como convém a quem tem que reger uma Nação que
precisa de bons exemplos e de uma rainha assaz instruída”.

Mulheres e Heteronormatividade: o Papel Social da


Maternidade Frente à Lesbianidade

Maria Clara Guimarães Souza (Universidade Federal de Goiás)


Priscilla Melo Ribeiro de Lima (Universidade Federal de Goiás)

Este estudo consiste na construção do quadro teórico e metodológico da


pesquisa a ser realizada, pela autora, no seu mestrado em psicologia. A
pesquisa objetiva conhecer os papéis sociais que permeiam a experiência
de ser mãe e ser mulher vivenciada pelas mulheres lésbicas. Diante da
desigualdade entre os gêneros, historicamente, destinou-se ao homem o
direito de acesso sexual, econômico e emocional sobre a mulher. Houve
um impedimento da satisfação do desejo e prazer do feminino,
empregando um único modelo de viver a sexualidade, destinando-a a
reprodução, ao exercício da maternidade e impedindo o domínio de seus
corpos. O papel social da maternidade de mulheres lésbicas e a livre
expressão da sexualidade confrontam a heterormatividade e o patriarcado
que designam uma forma de ser e se relacionar. Percebemos a necessidade
de se construir um lugar de escuta e diálogo sobre os significados das
maternidades e sexualidades, e como as mulheres lésbicas (re)significam
suas histórias diante do fato de a lesbianidade ainda ocupar um espaço de
invisibilidade e silêncio na sociedade contemporânea. Trata-se de pesquisa
de campo que será realizada no estado de Goiás. Partiremos das premissas
das Teorias Feministas de gênero e sexualidade como referencial de
análise. Os dados serão analisados de forma qualitativa. Serão utilizadas
entrevistas narrativas, por meio de histórias de vida, de modo a viabilizar
o acesso à experiência dessas mulheres acerca da maternidade. A amostra
será composta por cinco mulheres lésbicas, maiores de 18 anos, residentes
293

no estado de Goiás, que optaram pela maternidade por meio da adoção


ou inseminação artificial, ou mulheres que tiveram filhos biológicos em
relacionamentos heterossexuais. Para obtenção de dados serão realizadas
entrevistas não estruturadas. A divulgação da pesquisa ocorrerá via redes
sociais, telefonemas, e-mail, dentre outros. O projeto será submetido ao
Comitê de Ética em Pesquisa, via Plataforma Brasil. As categorias de
análise são sexualidade, gênero, maternidade, representações do feminino
e lesbianidade. Tal estudo pretende construir um lugar de escuta e diálogo
sobre os significados das maternidades e sexualidades, e como as mulheres
lésbicas (re)significam suas histórias diante do fato de a lesbianidade ainda
ocupar um espaço de invisibilidade e silêncio na sociedade atual. Partimos
da concepção que o exercício da sexualidade não é um atributo natural ao
corpo, mas um processo plural, histórico e cultural que envolve uma
diversidade de práticas, linguagens e rituais. Diante disso, é necessário
desnaturalizar as representações sociais e históricas em que a dominação
masculina e a heterossexualidade são dadas como únicas e verdadeiras.

“Pelo Malo” Reflexões sobre diversidade e


representatividade nas sociedades latinas atuais

Kenia Erica Gusmão Medeiros (UFG)

Este trabalho tem como objeto de análise o filme Pelo Malo (2014), escrito
e dirigido pela cineasta venezuelana Mariana Rondón. A narrativa trata da
história de Júnior, um menino de nove anos que mora numa periferia de
Caracas e sonha um dia cantar na televisão. O olhar de Junior representa
a perspectiva principal da história, outras personagens importantes são sua
mãe, sua amiga e vizinha e sua avó. Todas são personagens femininas
vivendo ao seu modo uma sociedade extremamente machista e patriarcal.
Sua visão de mundo é bastante moldada pela mídia televisiva, que
representa na história, seu contato com o mundo e seu acesso mais
frequente ao lazer e ao entretenimento. Seu desafio atual, entretanto, é
conseguir o dinheiro para tirar uma foto da escola, além de aparecer na
mesma com o cabelo liso, como ostentam os cantores que ele vê pela
televisão. Em sua busca por realizar esses objetivos, surgem no convívio
familiar de Júnior, temáticas como racismo, machismo, homofobia,
294

imposição de padrões estáticos e representatividade. A narrativa torna-se


mais complexa com o desenvolvimento de grande tensão na relação de
Júnior com sua mãe, personagem que é tanto vítima quanto praticante de
posturas machistas. Nesse ponto, abrem-se mais reflexões no amplo leque
das discussões de gênero. A modernidade presente nas grandes cidades
latinas é desvelada e são retratados indícios nítidos de exclusão e
decorrente opressão dos sujeitos que por ela não podem pagar. São
reveladas no filme representações engendradas por esse ideal moderno e
urbano, coexistindo com um imaginário carregado de tradição e
conservadorismo mergulhadas num ambiente estruturado em profundas
desigualdades sociais de raízes históricas. Os impactos dessas
representações na formação social e identitária dos indivíduos são
demonstrados no decorrer da história dos personagens. Características
presentes em muitas das grandes cidades latinas é a ambientação principal
na qual a trama decorre. A arquitetura reforça aspectos de exclusão e
opressão. A moradia aparece como elemento que reforça o tédio da
infância de Junior, bem como um desafio para a mãe desempregada. Os
personagens têm suas identidades, desejos e ações atravessados pela
organização social, cobranças e imposições de uma sociedade moderna
em que o modernismo ainda é visto com desconfiança. O filme é o ponto
de partida para reflexões necessárias acerca de identidades, gênero e
diversidade que representam questões e demandas presentes em toda a
América latina.

“Pomba gira é mulher de sete maridos, não mexa com ela,


que ela é um perigo” - Vivências na Umbanda: gênero e
resistência

Natália Paganini Pontes de Faria Castro (UFJF)

O presente trabalho tem por objetivo apontar impressões sobre processos


de reconfiguração identitária vivenciados por médiuns umbandistas em
Juiz de Fora/MG a partir da experiência de incorporação das entidades
femininas Cigana e Pomba-gira em suas diversas manifestações.
Compreendemos o espaço e o rito religioso como lócus para
aprendizagem, questionamento e transformação de relações de gênero e
295

de papéis sociais e sexuais, o corpo como um lugar do “saber” e a


incorporação mediúnica como um momento de reelaboração da trajetória
do indivíduo, alicerçado nos elementos implicados nas redes sociais,
sagradas e simbólicas da umbanda. Os subsídios para nossa pesquisa são
derivados de dois eixos. O primeiro é constituído por entrevistas a
médiuns, tendo como metodologia a História Oral em duas de suas
vertentes: histórias de vida e história temática. Cabe ressaltar que a
História Oral enquanto método de pesquisa pretende suscitar
questionamentos, permitindo o resgate da memória de grupos e
indivíduos comumente silenciados pela historiografia. A segunda fonte de
nosso estudo decorre da observação e interpretação do próprio ritual de
incorporação das entidades e está subdivida em cinco elementos,
fundamentados em pilares constituintes do rito: pontos cantados; pontos
riscados; corpo e dança; objetos, alimentos e bebidas; indumentária e
insígnias. Importa destacar que as entidades Cigana e Pomba-gira são
tratadas no trabalho separadamente, embora algumas casas de umbanda
as concebam como pertencentes à mesma linha e não façam diferenciação.
Ambas possuem como características essenciais a representação do
feminino por um viés que vai de encontro às estruturas sexistas e
androcêntricas predominantes nas relações sociais e religiosas, levando a
mulher ao protagonismo estético, simbólico e de poder no espaço
sagrado, além de apresentarem o contraponto às hierarquias sexuais e de
gênero e a subversão de paradigmas machistas. As entidades Pomba-gira
e Cigana são ativas, sensuais, insubmissas, livres e de elevada autoestima:
são elas que, nos termos de um ponto cantado, “seguram o congá”.
Embora não possamos estabelecer a priori um pressuposto que nos
permita mensurar a influência das “giras” de Cigana e Pomba-gira nas
trajetórias das mulheres que as incorporam, nosso trabalho possibilita
construir a hipótese de que relações de gênero são ressignificadas no
interior dos terreiros, o que impacta não apenas a ligação da mulher com
o universo sagrado e a emergência de novas práticas religiosas mas,
sobretudo, a perenidade de sua construção identitária, o enfrentamento ao
sexismo e a busca pela conquista da igualdade de direitos. Palavras-chave:
umbanda; pombagira; cigana; “protagonismo feminino”
296

Interseccionalidades e as Mulheres "Desapocadas" do


Puris: conhecimentos tradicionais e categorias nativas de
Beleza entre mulheres quilombolas do norte de Minas
Gerais

Sirlene Barbosa Correa Passold (Secretaria de Educação do Distrito


Federal)

O texto busca compartilhar reflexões apresentadas em dissertação de


mestrado recentemente defendida na Universidade de Brasília, Brasil.
Como pesquisadora negra e quilombola, a autora se propôs a
compreender como as mulheres de sua comunidade (Quilombo Puris,
localizado em Manga, norte de Minas Gerais), constroem representações
acerca da beleza, relacionando essas concepções com os conhecimentos
tradicionais relativos ao embelezamento e cuidados com o corpo
feminino. Há algumas especificidades naquilo que se refere às formas de
agência que operam na comunidade do Puris e por meio das quais fazem
frente às opressões: a partir da politização da identidade e pelas conquistas
dos movimentos negro e de gênero, tomamos consciência de que muitas
opressões se associam e acabam por marginalizar e colocar essas
etnicidades em uma situação de vulnerabilidade que guarda peculiaridades
em relação a outros segmentos também impactados por essas opressões
concomitantes. Portanto, reconhecer junto à comunidade as opressões,
consistiu em um primeiro passo. As interlocuções teóricas nos permitiram
nomear aquilo que já conhecíamos como parte das imposições vivenciadas
historicamente pela comunidade: a isso chamamos hoje de
interseccionalidades, nos referindo ao entrecruzamento e sobreposição de
opressões que marcam o nosso cotidiano. Dando continuidade a essas
reflexões, percebemos a categoria nativa “desapocada” - há muito
utilizada pelas mulheres mais velhas da comunidade - como parte das
narrativas construtoras de uma interseccionalidade emancipatória,
experimentada por aquelas mulheres que vivem nos rincões do país e
enfrentam diversos conflitos territoriais. Para as mulheres do Puris, a
mulher bonita tem que ser "mulher desapocada”, conceito que
compreende que a beleza está associada à desenvoltura, à capacidade de
comunicação, de resolver problemas e executar seus compromissos, de
não ter vergonha de se apresentar em lugares públicos e falar com
297

qualquer um de forma descontraída, sem se submeter inclusive a


imposições masculinas. Esse é o elemento central que parece conferir
sentido e predominar naquilo que as mulheres do Puris conceituam como
beleza. Por meio dessa categoria, conferimos uma distinção em relação a
outras definições que qualificam a beleza feminina. Buscamos demonstrar
que as opressões sofridas pelas mulheres negras, quilombolas, indígenas e
de outras comunidades tradicionais, por mais que pudessem conduzir ao
desempoderamento, acabam por ressignificar as relações identitárias e de
pertencimento, ao acionar uma compreensão compartilhada de que a
beleza tenha como característica elementar o desapocamento.

A representação das mulheres na obra: Nós e Elas da


escritora Maria Paula Fleury de Godoy

Talita Michelle de Souza (Prefeitura Municipal de Anápolis)

A partir da categoria de Gênero como uma categoria útil na análise


histórica, temas considerados irrelevantes entram em cena em vários
campos do saber. Sendo assim, a partir dos estudos feministas,
muitos trabalhos caminham nessa perspectiva com a finalidade de
visibilizar as mulheres que foram silenciadas de várias formas. Essa
comunicação faz uma análise da escrita de mulheres em Goiás, utilizamos
como fonte de pesquisa a literatura, especificamente na escritora Maria
Paula Fleury de Godoy. Portanto, buscamos problematizar as
possibilidades de utilizar a literatura como um documento histórico, e
colocamos em cena uma escritora que atuou de várias formas como
jornalista, professora, escritora e que não abria mão de exercer a função
de mãe e esposa e após o seu falecimento seus escritos caíram no
esquecimentoEssa comunicação tem por objetivo colocar em cena
algumas escritoras goianas, conduzindo a alguns apontamentos
conectando com a História e a Literatura, como uma forma de análise das
cenas e personagens descritas em algumas produções literárias. Nesse
âmbito a escritora selecionada para a pesquisa é a escritora Maria Paula
Fleury de Godoy, que possui uma vasta produção que não restringe
exclusivamente na literatura. Definimos como fonte de estudo o livro:
“Nós e Elas” que aborda as relações de Gênero, principalmente por referir
298

as relações entre patroas e empregadas domésticas, que inconscientemente


estão relacionadas à esfera do poder, e claramente há uma falta de empatia
e sororidade entre essas duas categorias de mulheres que diariamente
habitam o mesmo espaço, mas com contextos e experiências singulares.
Por conseguinte, apropriamos da categoria de Gênero como uma análise
útil para a compreensão da história, que por muito tempo foi narrada a
partir de uma visão masculina que coloca no centro das discussões o
homem branco e silencia e exclui as mulheres e suas
memórias/experiências e produções intelectuais. No percurso histórico
são evidentes as desigualdades entre homens e mulheres, essas diferenças
decorrem de uma construção social, política e cultural no tratamento
diferenciado dado aos homens e mulheres. Ao analisarmos a história a
partir dos estudos de Gênero deparamo-nos diante de infinitas
possibilidades de pesquisa, e muitas dessas fontes nos direcionam a
grandes reflexões que por séculos foram narradas na visão eurocêntrica e
masculina que desprezava a participação das mulheres, na ciência, política,
filosofia e em vários outros campos do conhecimento composto
majoritariamente por homens.

Velha Joana”, sua memória e pioneirismo na história de


Primavera do Leste/MT

Julio Junior Moresco (UFMT)

O presente trabalho busca relatar a coragem e persistência de Joana,


mulher de luta que desempenhou papel importante na história de
Primavera do Leste/MT. Carinhosamente chamada de “Velha Joana”
pelos habitantes, seu legado está justamente em ser uma das pioneiras da
cidade, desbravadora do serrado local e acima de tudo mulher que
estabeleceu respeito por suas atitudes de bravura e coragem. Ao morrer
em 1955, foi sepultada na região onde hoje fica o parque Eldorado. A
necessidade de valorizar sua memória corresponde aos feitos realizados e
no seu exemplo de mulher que serve de referência para as discussões de
relações de gênero. Uma das formas de contribuir para seu
reconhecimento está em conhecer e discutir a história de “Velha Joana”,
que colabora efetivamente para a formação da história do município.
299

Também implica na reflexão sobre a memória feminina e seu papel na


sociedade. Enfim, manter e valorizar a memória feminina como processo
de construção da sociedade.

A identidade da mulher migrante nas personagens D. Paula


e Nica no Romance Mamma son tanto Felice, de Luiz
Ruffato

Renata Simião Gouveia (Universidade Estadual de Goiás)

O objetivo desse trabalho é retratar a questão identitária da mulher


migrante nas primeiras décadas do século XIX, no romance Mamma son
tanto Felice, de Luiz Ruffato. Nessa narrativa, há através da memória, um
retorno histórico sobre a trajetória da mulher italiana, migrante sofrida,
que se sujeita a muitas situações degradantes para manter um casamento
e criar os filhos. A identidade dessas mulheres é perdida devido a
submissão na qual elas viviam. As personagens D. Paula e Nica, são
exemplos dessa condição feminina migrante. Luiz Ruffato insere no
romance um narrador masculino que consegue traduzir as angústias da
alma feminina tão ignoradas naquele momento da história. Para tal análise
utilizar-se-á teóricos que abarcam essas discussões. Simone de Beauvoir
discute sobre essa condição de submissão da mulher durante toda a
história em seu livro O Segundo Sexo (1990). Essa identidade feminina
migrante torna-se proletariada no Brasil, sem terras para trabalhar e
“fragmenta-se no mundo líquido” (BAUMAN, 2005). É um trabalho cuja
relevância se faz através do contexto histórico e da condição feminina
inserida nele.
300

A produção científica feminina nos livros didáticos do


ensino médio

Maria Lucimar Alencar de Sousa Silveira (Instituto Federal de Educação,


Ciência e Tecnologia de Goiás)

O tema desta pesquisa é a produção científica feminina. O interesse pelo


tema surgiu durante o curso de especialização Gênero e Diversidade na
Escola realizado, em 2015, pela Universidade Federal de Goiás, Regional
Catalão. Analisar os discursos que caracterizam a ciência como uma
narrativa, implica perceber que os entendimentos sobre a participação
feminina e masculina na produção científica não pode ser compreendidos
fora dos contextos sociais e culturais em que estão inseridos, uma vez que,
a história da ciência está intensamente conectada com a história da
humanidade. Busca-se apresentar subsídios que propiciem a reflexão
sobre as relações de gênero, evidenciando questões que contribuíram e
podem ainda contribuir para a não visibilidade das mulheres na ciência. À
vista disso, o objetivo da pesquisa é verificar como a produção científica
feminina está representada nos livros didáticos de Biologia, de Física, de
Química e de Matemática que foram aprovados no Programa Nacional do
Livro Didático/PNLD do Ensino Médio de 2007 a 2017, na cidade de
Caçu - Goiás, onde a pesquisa está sendo realizada numa escola pública
estadual que oferta o Ensino Médio. O método escolhido é o materialista-
histórico-dialético, pois permite a pesquisadora aprofundar-se nas causas
e nas consequências do tema estudado. Quanto à metodologia, é uma
pesquisa de abordagem qualitativa, os instrumentos metodológicos são
entrevistas semiestruturadas com os(as) professores(as) que ministram as
referidas disciplinas, para apreender como esses(as) percebem e trabalham
com a produção científica feminina em suas aulas. Para tanto, a pesquisa
será submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa. Como se trata de uma
pesquisa em andamento, espera-se, que os resultados apontem neste início
do século XXI, uma realidade diferente do que tem ocorrido até então.
Caso contrário, mostrará a predominância de uma vertente que continua
sustentando por meio do livro didático, recurso mais utilizado nas escolas
públicas e o suporte mais importante para os professores do século XX, e
ainda do século XXI, a objetividade, a neutralidade e a racionalidade da
ciência. O que contribuiria para a invisibilidade da mulher como sujeito,
301

inclusive como sujeito da ciência, ao ocultar sua importância ao longo dos


séculos. O Produto Educacional fruto desta pesquisa, a ser elaborado
durante o Mestrado, apresentará um livreto, a ser disponibilizado em e-
book, sobre as contribuições das mulheres para o campo de estudo
analisado.

As mulheres na História da Educação

Bruna Dutra de Araujo (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul)


Paula Lemos de Paula (Uems)

A História da Educação deixa-nos com um campo amplo e rico em


abordagens, sabendo que para pesquisa e ensino temos a necessidade de
cada vez mais aprimorar sobre este assunto, pois o tempo é mutável e a
rapidez com que as modificações acontecem, configuram realidades
diferentes, faz-se necessário sabermos afundo a raiz desta temática com
suas autoras. Este trabalho tem por finalidade vislumbrar as mulheres que
estudaram e estudam a história da educação, traçando um paralelo entre o
que já foi produzido por elas em relação aos autores desta temática.
Entrando, assim na história das mulheres no campo de atuação na
educação, reiterando a força feminina para o debate da mulher como
autora da história. Buscando discussões e visibilidade na questão de
gênero presente na escrita, colocando trabalho extremamente relevante e
necessário para este campo de estudo, também possui sua história aonde
coloca a mulher no esquecimento, não abrindo um espaço justo e
igualitário, enquanto há ricas questões a serem pontuadas por estas no
campo da história da educação, sobressaindo as autoras presentes nesta
perspectiva, exaltaremos quem são e como seus trabalhos foram
relevantes para o campo da pesquisa em história educação, através de suas
publicações. A metodologia será bibliográfica, realizando um
levantamento de dados sobre a atuação das mulheres na produção para a
história da educação e quem são elas, mapear de forma satisfatória e
pontual os trabalhos femininos assim como suas publicações. Não é de
hoje que temos debates acerca da mulher, logo a finalidade deste trabalho
é mostrar quão autoras importantes temos e exalçar seus trabalhos, assim
com a impermanência do tempo aos acontecimentos, distribuindo
302

cronologicamente as publicações levantadas, as posições em diferentes


épocas, acompanhando a transformações ocorridas neste campo de
pesquisa, afim de auxiliar ainda mais a força da mulher como produtora
do saber e sua contribuição para sociedade no que abrange a História da
Educação. Assim este trabalho trará para discussão o cenário em qual a
mulher está inserida, quem são estas mulheres, com a perceptibilidade
necessária ao seu trabalho.

Ensino e Reflexões De Gênero Em História Das Américas:


Uma Análise Do Curso De Licenciatura Em História Da
UEG-Morrinhos (2010-2015)

Ana Karolina dos Santos (universidade estadual de goias)

A partir das diretrizes do Setor Educacional do MERCOSUL(SEM),


percebemos a ausência de reflexões e ensino de gênero nos conteúdos de
história da Américas na UEG Morrinhos entre 2010-2015. Por tanto
analisaremos, uma instituição pública, a Universidade Estadual de Goiás,
que de acordo com as políticas públicas do Setor Educacional do
MERCOSUL (SEM), deve estimular a integração regional dos países
integrantes deste grupo, assim como as políticas públicas defendidas nos
países participantes, como por exemplo, as questões raciais e sobre
gênero. Pois de acordo com as propostas do SEM, as questões de gênero
deverão estar inclusas nas matrizes curriculares dos países integrantes, ou
seja, se trata de uma política pública, e nós por isso trabalharemos aqui
com uma instituição pública e com um curso de licenciatura em História.
Pretendemos também mostrar a importância de uma unidade acadêmica
no meio social em que ela está inserida na difusão do conhecimento, assim
como a importância de se compreender a representação de gênero no
ensino de História das Américas no curso em questão.
303

Um lugar para elas

Taira Carvalho de Assis (Escola Municipal Antonio Tosta de Carvalho)

Alves e Pitanguy (1981) admitem que definir precisamente o que seja o


feminismo é uma tarefa complexa e difícil, já que esse vocábulo traz
consigo raízes do passado “que se constrói no cotidiano, e que não tem
um ponto predeterminado de chegada. Como todo processo de
transformação, contém contradições, avanços, recuos, medos e alegrias”
(p.7). Apesar de não possuir uma definição exata do que seja, o feminismo
foi e é um movimento social, filosófico e político e sua principal
caraterística é a luta pela igualdade de gêneros (homens e mulheres), e
consequentemente pela participação da mulher na sociedade. Porém,
estabelecer esse como o único objetivo do movimento e submete-lo a uma
redução conceitual seria uma forma muito simples se referir a um ato
revolucionário de tamanha importância. As opressões sofridas pelas
mulheres são identificadas em tempos remotos e as contrapartidas,
mesmo que com forças mínimas, estão presentes na história. O feminismo
é um dos pontos da contrapartida feminina com a intenção, desejo de
colocar um fim em toda a desigualdade de gênero sofrida através dos
séculos. Tendo como primeiros resquícios, do nome propriamente dito,
feminismo, na França durante a Revolução Francesa (1789), o movimento
se destaca por ter como principais bandeiras o fim da violência doméstica
e da cultura do estupro, a descriminalização do aborto, a liberdade sexual,
o fim da desigualdade salarial e outros pontos fundamentai para uma
política de igualdade de gênero. Nomes como Olympe de Gouges, uma
ideária feminista que propunha os ideais de igualdade entre os indivíduos,
pôs em questão as relações entre os sexos, abordando o lugar de direito
da mulher na sociedade; Simone de Beauvoir, filósofa e feminista aborda
sobre o papel da mulher na sociedade e a opressão feminina num mundo
dominado pelo homem; Chimamanda Ngozi Adichie, hoje, não é só mais
uma escritora nigeriana, como uma das vozes mais interventivas
internacionalmente na defesa do feminismo, igualdade racial e de gênero;
Frida Kahlo, pinto mexicana, é outro importante símbolo do feminismo,
a pintora se destacava por não se limitar aos padrões e estereótipos da
época, se vestia e agia da maneira que achava correto, enfrentou
dificuldades para ser aceita no mundo artístico por ser mulher, mas ainda
304

hoje, depois de 64 anos de sua morte Frida é lembrada e idolatrada por


suas ideias e modo de enfrentar a vida. São esses e outros milhares de
exemplos de mulheres fortes, determinadas e independentes que nos
levam a compreender e concluir a importância do movimento feminista.

Gênero, ódio e democracia: as mulheres plurais em Dilma


Rousseff (1947-2018)

Francisca Márcia Costa de Souza (IFMA)

Essa pesquisa inicia-se em 1947, mas vamos nos deter, primeiramente, ao


ano de 2018, como um ano exigente. Provavelmente, haverá eleições
presidenciais!? Essa ressalva foi produzida de modo contextualizar o lugar
que ocupa o objeto de investigação desta pesquisa e marcar
indelevelmente Dilma Rousseff na história política contemporânea do
Brasil. Dito isto, é pertinente destacar que este projeto trata da história das
mulheres no Brasil e sua abordagem feminista, bem como das
representações do feminino na história, numa conexão entre história das
mulheres e política. Para tanto, elegemos como objeto da história a
personagem Dilma Rousseff. Para pensar a história das mulheres, é
pertinente estabelecer o diálogo com Mary Del Priore (1997),
especialmente, História das Mulheres no Brasil, na tentativa de recuperar
os métodos, as abordagens e a historicidade das mulheres neste trabalho,
de modo compor e construir esta pesquisa. Nessa esteira, Margareth Rago
(2012) também é uma opção interessante para discutir gênero, feminismo
e história, na obra “Gênero e História”. A história de Dilma Rousseff se
confunde com a história da democracia no Brasil, uma vez que esta figura
política lutou contra o estado de exceção instalado no Brasil por um Golpe
Civil-militar. Além disso, foi a primeira mulher a assumir ministérios
estratégicos (Governos Lula, 2003-2011). Na história do Brasil, foi a
primeira mulher a assumir a presidência da República por dois mandatos
consecutivos (2011-2014| 2015-2016). Outro aspecto desta pesquisa diz
respeito ao recorte temporal. Ele se justifica porque compreende a
duração que percorre desde o nascimento de Dilma Rousseff (Belo
Horizonte, em 14 de dezembro de 1947) e o fim do seu segundo mandato
presidencial, que se encerraria no dia 31 de dezembro de 2018, se não
305

tivesse ocorrido seu afastamento em 12 de maio de 2016, por 180 dias,


devido à instauração de um processo de impeachment, depois seu
mandato presidencial foi definitivamente cassado em 31 de agosto de
2016. Quanto à análise da trajetória de vida, trabalhamos principalmente
com Ecléa Bosi (1994) – “Memórias de Velhos”, para perceber os tempos
individuais e coletivos que marcaram a vida de nossa personagem. Para
tanto, utilizaremos a história oral, pois a intenção é realizar entrevistas de
história de vida com a mesma geração de mulheres de Dilma Rousseff,
tentando perceber os sonhos, os desejos, as frustrações e as utopias dessas
mulheres sobre elas mesmas e acerca da presidenta Dilma. A principal
fonte serão os jornais do Arquivo Público do Piauí – Casa Anísio Brito,
localizado em Teresina, serão analisados quanto aos discursos, às imagens
e às representações construídas sobre Dilma Rousseff, sem perder de
vista, obviamente, as questões de gênero, ódio e democracia no Brasil.

Gênero, família e mobilidade social na sociedade


escravagista do Bolsão Sul mato-grossense do século XIX

Alexandre de Castro (UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA)

Esta comunicação tem como objetivo central recuperar, analisar e


interpretar aspectos de natureza social e histórica do município de
Paranaíba, Estado de Mato Grosso do Sul, contida nos registros e notas
do 1º Cartório de Registros deste município. A elaboração dessa
formulação tornou-se possível em virtude do desenvolvimento de um
projeto de pesquisa realizado entre os anos de 2012 a 2014, período no
qual foram lidos e analisados quatorze livros de registros na própria sede
cartorária pelo pesquisador membro do corpo docente da Universidade
Estadual de Mato Grosso do Sul, Unidade Universitária de Paranaíba.
Embora a revisão da história regional do bolsão sulmatogrossense possui
dupla pretensão: resgatar os fatos de um regime escravocrata entre os anos
de 1838 a 1888 (delimitação temporal decorrente das anotações
encontradas nos livros), que permanece em silêncio na historiografia, além
da recuperação da dinâmica da vida social no início da fundação e
desenvolvimento do município de Paranaíba e região, dados contidos nos
documentos demonstraram o papel social da mulher no tratamento de seu
306

patrimônio muito diferente da formulação do modelo familiar patriarcal


descrito por Gilberto Freyre. Tal revisão será permitida pelo acesso as
informações através de fontes primárias discriminadas e coletadas nos
registros e notas, que compõe resultado de pesquisa documental, aliada a
uma pesquisa bibliográfica especializada. Da análise da documentação
realizada até o momento é possível compreender parte da dinâmica social
estabelecida entre proprietários e escravos/forros, das formas de
manumissões e da luta por liberdade nesta região, que por sua vez
guardam estreitas relações entre os fatos que aconteciam no Brasil durante
boa parte do século XIX, bem como do cotidiano das relações sociais,
familiares e de gênero vividas pelos sujeitos no início da ocupação da
região leste de Mato Grosso do Sul.

ELAS da FAU: da prática à teoria, estudos feministas na


arquitetura

Maribel Del Carmen Aliaga Fuentes (Faculdade de Arquitetura e


Urbanismo da Universidade de Brasília)

Desde a fundação da UnB, a FAU UnB se fez presente. No início, os


homens eram maioria tanto no corpo discente quanto docente. O número
de egressas se manteve abaixo de 50% até 1982, quando atingiu 66%.
Desde 2005, o percentual de mulheres formadas pela FAU está entre 60 e
70%. Atualmente, o corpo docente feminino também ultrapassou 50%.
Desde 1966 até 2016 formaram-se 1573 mulheres, o que representa 56%
do total de formandos ao longo de 50 anos. O projeto de pesquisa [ELAS
da FAU] é a continuação acadêmica das inquietudes feministas
despertadas em 2014. Se propõem a mapear o universo feminino,
procurando situar a condição feminina ao longo de cinco décadas. Além
de resgatar e perpetuar a memória dessas mulheres, procura também
recontar a história do curso e da própria arquitetura brasileira, sob o ponto
de vista feminino.
307

Os escritos de Ana Aurora do Amaral Lisboa: possibilidades


de análise para as lutas feministas

Dilza Porto Gonçalves (UFMS)

O presente trabalho refere-se a uma pesquisa acerca da participação


política e educação das mulheres na virada do século XIX para século XX.
As fontes usadas para essa análise são os escritos Ana Aurora do Amaral
Lisboa no jornal A Reforma (1899-1912). A normalista e professora de
Rio Pardo/RS ficou conhecida por sua atuação política, em tempos em
que as mulheres não tinham direito ao voto, e, ao seu trabalho como
educadora na sua cidade natal. Os temas abordados por Ana Aurora
estavam relacionados à educação e ao papel da mulher na política. Tem-
se em mente que os periódicos são representações coletivas e, o jornal em
estudo que tinha caráter político-partidário, mostrava a intenção dar uma
formação ideológica aos seus leitores “eleitores”. Nesse contexto, se
pretende apresentar os escritos de Ana Aurora como possibilidade de
compreensão para as lutas e debates em torno das pautas políticas
feministas no Rio Grande do Sul nos primeiros anos de República e a
correlação desses debates com as ideologias partidárias. O aporte teórico
metodológico se insere na História Cultural e na História da Educação,
perpassando por uma História Política e da Imprensa.
308

SIMPÓSIO TEMÁTICO 12
HISTÓRIA E CIDADE NA PRIMEIRA REPÚBLICA

Coordenadores:
Henry Marcelo Martins da Silva (UFMS)
Pedro Geraldo Saad Tosi (UNESP)

O simpósio temático “História e Cidades” tem por objetivo a construção


de um debate acerca dos múltiplos olhares sobre o urbano, reunindo
trabalhos voltados às diversas possibilidades de leitura sobre a cidade,
desenvolvidos, sobretudo, pela perspectiva histórica.
O último quartel do século XIX foi de intenso crescimento e
desenvolvimento do sistema capitalista; a evolução dos meios de
comunicação e transporte propiciou um crescimento nos níveis de
comércio, intensificados pela integração de áreas antes isoladas.
As inovações técnicas do período introduziram importantes mudanças no
uso do espaço urbano, e os planos urbanísticos promoveram a produção
do solo para o circuito de mercado e a instalação de melhoramentos.
Intensificaram-se os processos de higienização da cidade, e iniciaram-se a
maioria das grandes obras como serviços de saneamento, iluminação e
embelezamento, que produziram grandes alterações na paisagem urbana,
com a inserção de novos elementos considerados modernos em
comparação com o que já se tinha.
A proposta deste Simpósio Temático, portanto, é reunir trabalhos
dedicados ao estudo das amplas perspectivas teóricas, metodológicas e
temáticas aceca do olhar histórico sobre o urbano, privilegiando
discussões acerca do desenvolvimentos dos meios de transporte e
comunicação, dos processos de construção e modernização urbanas, bem
como das relações sociais entre os diversos grupos que vivenciavam os
ares modernos das urbes do período.
309

Mundo rural e fluxo migratório: A reconfiguração histórica


da fazenda Rincão Bonito na relação comercial do espaço

Layanna Sthefanny Freitas do Carmo (UEG)

Esta proposta busca analisar as adaptações da fazenda Rincão Bonito que


se associa ao processo histórico do território do Estado do Mato Grosso,
passando pelos séculos coloniais e primórdios do século XX, até o período
de 1930, na produção comercial e agrícola. Ambos se inserem na
genoeologia familiar em uma atuação do agente Luiz da Costa Leite Falcão
na compra da propriedade latifundiária que se projetou como Bonito, ao
estruturar o espaço. Tem como objetivo perceber as mudanças e
contradições entre a área rural durante os conflitos territoriais que parte
de alguns fluxos populacionais de localidades como: o sul, Bahia e São
Paulo, na transformação do meio que teve um passado de instabilidades
epidêmicas e políticas e um presente de expectativas progressistas. Por
esse fato, doenças como: a varíola e febre amarela marcaram os surtos e
fragilidade do Estado, bem como a inserção de bandos e famílias com suas
realidades e disputas, estas trouxeram seus legados culturais e sociais. Com
a integração da ferrovia no século XX, e a inserção do mercado nacional,
ligados ao centro-oeste, houve o desenvolvimento das condições naturais
do cerrado. A transição da área com a economia de negócio do gado para
os fazendeiros ligados aos seus povoados se inclina em um movimento
que alterou não somente as redes de sociabilidade, mas também a
condição comercial. Propõe-se analisar o rural e a migração que perpassa
sua influência no investimento de capitais. Com base nos relatos e
referenciais bibliográficos adquiridos em campo, foi possível perceber que
a ocupação incentivou o desdobramento do capitalismo nas projeções de
povoamento e a alteração da fazenda Rincão Bonito. O município de
Miranda, denominava-se distrito da paz, através da lei estadual nº 693, em
11 de junho de 1915, mantendo subordinado a Miranda. Em 1927 a sede
do distrito de Bonito foi fundada, Distrito da paz. Com a colaboração do
coronel Pilad Rebuá, então prefeito de Miranda. O capitão Manoel Ignácio
de Farias foi genro de Luiz da Costa doando uma área do cerrado. Na
década de 1920 e 1930, as atividades pecuaristas e outros produtos
agrícolas, intensificou a exploração e migração para uma nova
reconfiguração do lugar à margem de seus deslocamentos e perspectivas
310

de exploração e desenvolvimento da companhia Matte Larangeira. Esta


acabou sendo o principal ponto de atritos pelo monopólio da empresa que
se realinha com a construção da estrada de ferro Noroeste e as
construções de quartéis na região do Mato Grosso como palco das
manifestações fronteiriças e desenvolvimentistas.

Núcleos urbanos em Goiás na Primeira República (1889-


1930)

Gisele Silva Rodrigues (UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS)

Este artigo tem como objetivo compreender no âmbito histórico-


geográfico os núcleos urbanos de Goiás na Primeira República (1889-
1930), com ênfase nos espaços urbanos reconhecidos legalmente por
distritos. Esse recorte temporal foi denominado de visibilidade política,
pois é o período histórico que marca espacialmente o aumento de distritos
e sua importância social, econômica e política dentro da rede urbana,
período em que se tinha uma quantidade de distritos superior às cidades
como, por exemplo, em 1920 havia 66 distritos distribuídos em 32
municípios, num total de 49 municípios no estado (IBGE, 1920). Além
disso, as demandas da Região Sudeste do país impulsionaram o aumento
populacional e a construção de redes técnicas no território goiano-
tocantinense. As reflexões aqui apresentadas contemplam, de forma
parcial, a pesquisa de doutorado desenvolvida no Instituto de Estudo
Socioambiental da Universidade Federal de Goiás (IESA/UFG) em
Goiânia, no Programa de Pós-graduação em Geografia, com a tese
intitulada Comunidade e núcleos urbanos no território goiano. Este artigo
reuniu procedimentos metodológicos como a revisão bibliográfica sobre
os núcleos urbanos de Goiás no período analisado, a coleta de dados
secundários sobre a demografia dos distritos junto às bases de dados do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a partir do primeiro
censo produzido no Brasil (1920), além da Enciclopédia Goiana do IBGE
(1958) que apresenta os municípios goianos com a origem, emancipações
territoriais e imagens fotográficas dos locais. Esta coleta de dados
subsidiou a elaboração do material cartográfico, que, por sua vez, permitiu
verificar a espacialização dos núcleos urbanos. Outra fonte de dados foi a
311

página online da Casa Civil de Goiás, onde obteve-se o número das leis
de emancipações dos distritos. Compreende-se que foi a partir da Primeira
República que as oligarquias agrárias mantiveram-se no poder econômico
e político de Goiás e regularam as relações entre os indivíduos por meio
do voto, já que o agregado tornou-se eleitor e o fazendeiro o político
representante local, reconfigurando-se no âmbito político municipal e no
aumento de áreas urbanas, sobretudo de distritos. Abrucio (1998) e Faoro
(2012), corroboram sobre o papel do fazendeiro na escala local e no
âmbito político-administrativo estadual e nacional, responsáveis pela
doação da terra para o surgimento de núcleos urbanos. Em suma, o artigo
está dividido em dois itens, além da introdução e considerações finais. O
primeiro apresenta a construção teórica sobre a gênese dos núcleos
urbanos de Goiás no período de 1889 a 1930, que orientou a análise dos
dados. O segundo apresenta a espacialização e análise das informações
coletadas.

Um lugar, uma memória e suas representações

João Eratostenes Doulgras Cardoso (IFGOIANO)

A leitura de um texto memorialístico nos reserva alguns desafios. Um


deles, sem dúvida, é a temporalidade, na perspectiva da lembrança ou do
tempo lembrado. O tempo em que se está recordando – presente – e o
tempo lembrado – passado – podem se confundir no ato da rememoração.
Tanto o memorialista, que PODE projetar um tempo em outro, quanto o
leitor, em sua apropriação temporal da obra. Pedro Nava ao longo de suas
memórias, vive e revive a BH dos anos de 1920. Como um fisiologista,
Nava usa da sua imensa capacidade analítica e de sua minuciosa
observação sobre a cidade de Belo Horizonte, grande palco daquele
fantástico enredo, o modernismo, o coronelismo, a Revolução de 30,
elementos essenciais para se pensar o Brasil Republicano. O cenário
descrito é de transformações físicas, socais e culturais. A cidade se torna
então o lugar do “novo” em choque com o “velho”. Se coloca, então, em
cheque os valores da sociedade mineira, reflexo de uma sociedade
representante da política coronelista com a intelectualidade juvenil do
Grupo Modernista mineiro – O Grupo do Estrela – numa década marcada
312

por transformações não somente no Brasil, mas em todo o mundo. Afinal,


no pano de fundo desse cenário está a Bélle Époque no Brasil, o fim do
século XIX e início do século XX, marcado por transformações de grande
profundidade no mundo e também na sociedade brasileira. O Obra
memorialística Naveana, especialmente Beira-Mar (1978), é um relato de
seu tempo-espaço. Ao narrar sua cidade, narra as convenções sociais, as
rupturas, as continuidades, o nascer de novos valores em choque com
antigas práticas políticas, o sujeito das memórias é também o sujeito
histórico, a cidade é o palco das relações sociais e seus conflitos.

O palco e a tela: teatro, cinema e modernidade republicana


em Pitangui na Primeira República (1889-1930)

Licínio de Sousa e Silva Filho (Centro Educacional Professor Francisco


Saldanha)

Este artigo apresenta os resultados de uma pesquisa desenvolvida sobre o


teatro e o cinema na cidade mineira de Pitangui, que deu origem ao livro
"O palco e a tela: a história do teatro e do cinema em Pitangui", terceiro
volume da coleção "Pitangui 300 Anos", organizada pelo jornalista e
pesquisador Marcelo Freitas, para as comemorações do tricentenário do
município de Pitangui ocorrido em junho de 2015. A referida pesquisa
identifica, através da consulta de jornais de época e registros em livros da
Câmara Municipal local, como o teatro e o cinema estavam presentes no
cotidiano e reforçava o imaginário da população local em relação à ideia
de modernidade proposta pelo projeto de nação defendido pelos
republicanos.
313

Engenheiros industriais e ferrovias em São Pulo no início do


século XX

Henry Marcelo Martins da Silva (UNESP)

Esta pesquisa busca compreender a ação de um grupo de ‘engenheiros


industriais’ de São Paulo no início do século XX, num contexto de
intensas transformações promovidas pela inserção do Estado no
complexo cafeeiro. Aproveitando o momento de expansão da economia,
de urbanização e desenvolvimento dos serviços públicos e de crescimento
do mercado de capitais, um grupo de ‘industriais’, capitaneados pelo
engenheiro Álvaro de Menezes, empreende coletivamente uma série de
investimentos e negócios que culminam, em fins da primeira década do
século passado, com controle de quatro importantes companhias
ferroviárias paulistas: a E. F. Araraquara, a E. F. Dourado e a E. F. São
Paulo-Goyaz e E. F. Pitangueiras. A partir de fontes tais como os
Relatórios de Exercícios das ferrovias e diversos jornais do período, a
pesquisa pretende compreender as condições que permitiram a ação
daquele grupo no controle das ferrovias, além de identificar as estratégias
do grupo dos engenheiros industriais, que especialistas nas obras da
grande empresa de serviços públicos, atuavam de maneira agressiva para
garantir benefícios privados.
314

SIMPÓSIO TEMÁTICO 13
HISTÓRIA E CINEMA: REFLEXÕES SOBRE A
REPRESENTAÇÃO CINEMATOGRÁFICA DO
PASSADO

Coordenadores:
Roberto Abdala Júnior (UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS)
Anne Caroline Fernandes Alves (CENTRO UNIVERSITÁRIO)

O cinema como "fonte histórica" recebeu contribuições importantes,


especialmente depois que o historiador Marc Ferro enfrentou o desafio de
pesquisar e refletir sobre o tema. Desde então, algumas abordagens que
atendem ao campo historiográfico e suas especificidades permitiram que
os filmes fossem investigados nas importantes dimensões que
desempenham nas sociedades contemporâneas, mas a dimensão de
“agente da história” também proposta por Ferro não recebeu a mesma
atenção dos historiadores. A historiografia alemã, especialmente no
aspecto em que retoma a Didática da História para o campo da História
como ciência, abriu um campo para pesquisas sobe esse viés. A Didática
da História abriu-se como o campo de investigação que interroga os
processos socioculturais por meio dos quais o passado é conhecido e
reconhecido na cultura, bem como de que forma serve à função de
orientação no presente. A proposta de simpósio busca contemplar os
estudos sobre “narrativas audiovisuais” em suas relações com as diversas
dimensões da história/História, abrindo espaço para questões sobre as
relações de poder, as lutas políticas, os papeis desempenhados pelos
diversos agentes sociais ao longo do tempo – privilegiando-se o
protagonismo social. Pretende-se reunir reflexões e investigações que
tomem por foco de que modo as narrativas audiovisuais explicam ao
público o passado, manifestando rupturas ou continuidades acerca dessa
participação social. Há que se considerar a função que desempenham
como “agentes históricos”, no dizer de Ferro.
315

A performatividade de sexo/gênero e sexualidade no filme


A mulher de Todos (1969)

Fabrício Marçal Vilela (Universidade Federal de Uberlândia)

Em 1969, o cineasta catarinense Rogério Sganzerla (1946-2004), lança seu


segundo longa-metragem, A Mulher de Todos. O filme narra "as
aventuras sexuais de Ângela Carne e Osso". Ângela (Helena Ignez) é uma
mulher branca, loura, magra, jovem, milionária, casada com Doktor Plirtz
(Jô Soares), um homem branco, obeso, com formação militar, proprietário
de uma empresa que produz quadrinhos de super-heróis estadunidenses.
Ao longo do filme, Ângela vai de encontro com seus amantes e sua amante
para leva-los para à Ilha dos prazeres, enquanto seu marido paga um
detetive para vigiar seus passos. Recorro às contribuições teórico-
metodológicas de intelectuais ligadas/os à Teoria Queer, tais como a
filósofa feminista Judith Butler, a linguista feministas, Teresa de Lauretis,
o filósfo espanhol Paul B. Preciado e o filósofo fancês Michel Foucault.
por meio da analítica da teoria performativa de gênero, assim como
linguista feminista, Teresa de Lauretis e sua proposta de uma analítica das
Tecnologias de Gênero, a analítica da sexopolítica do filósofo espanhol
Paul B. Preciado e o proposta de uma analítica do Dispositivo da
Sexualidade, do filósofo francês Michel Foucault. Para essas/es
pensadoras/es, os discursos (textos, imagens, músicas) constroem
representações que interpelam à subjetivação e/ou auto-representação de
si, estando concientes ou não desse processo. Sendo assim, moldamo
imaginário de uma determinda cultura e época. Neste sentindo, o gênero
(masculinidade e feminilidade), a sexualidade (heterossexualidade,
homossexualidade, bissexualidade), a classe (burguês e proletário), a raça
(branquitude e negritude) são efeitos do discurso.Nesta lógica é possível
pensar que "os significados que se atribuem a identidades, jogos e
parcerias sexuais são situados e disputados historicamente e, ao longo dos
tempos, nos filmes, posições-de-sujeitos e práticas sexuais e de gênero
vêm sendo representadas como legítimas, modernas, patológicas, normais,
desviantes, sadias, impróprias, perigosas, fatais, etc." (LOURO,
2008).Com o objetivo de refletir sobre a produção discursiva de gênero,
sexualidade, classe e raça, por meio da análise fílmica, entrevista e da crítica
316

especializada, buscando compreender sua intervenção política no


imaginário brasileiro da época.

Paulo Emílio e o I Festival Internacional de Cinema do


Brasil (1954)

Rafael Morato Zanatto (UNESP - FCL Assis)

Trata-se de analisar os objetivos e a recepção ao I Festival Internacional


de Cinema do Brasil (1954) a partir da ação de Paulo Emílio Sales Gomes,
fundador da Cinemateca Brasileira, Crítico de Cinema e Historiador. O
Festival condensou em linhas gerais uma metodologia de exposição da
cultura cinematográfica que visava, entre outras ambições, formar críticos,
realizadores e público para incluir o cinema brasileiro no processo de
desenvolvimento do país na década de 1950. Veremos que entre exibições
de filmes, homenagens e exposições, o festival contou, ao mesmo tempo,
com a adesão e oposição de diferentes setores do audiovisual no período,
como a Companhia Cinematográfica Vera Cruz. O festival contou com a
participação de importantes nomes da cultura cinematográfica do período,
como Jean Painlève, Sonika Bô, Henri Langlois, André Bazin e Ernst
Lindgreen que, ao lado de Paulo Emílio, realizaram conferências e
propuseram mostras, como o Festival de Cinema Infantil, o Festival de
Cinema Científico-Educativo, A Mostra Grandes Momentos do Cinema,
Retrospectiva Erich von Stroheim, além das Jornadas Nacionais e da II
Retrospectiva do Cinema Brasileiro. Do conjunto, Paulo Emílio se
responsabilizou especialmente pela mostra Os Grandes Momentos do
Cinema, que contou com 15 programas, mantendo a frequência de duas
sessões diárias no MAM - SP. Um programa foi dedicado aos filmes de
Chaplin, e os demais foram divididos em filmografias nacionais. Filmes
dos EUA, França, Suécia, Itália, Rússia e Alemanha, permitiram uma
panorâmica da história do cinema mundial. Griffith, George Méliès,
Victor Sjostrom, Maurice Stiller, René Claire, Robert Wiene, F.W.
Murnau, entre outros grandes cineastas da história do cinema, sem falar
da abertura que exibiu George Méliès e Max Linder. Já a Retrospectiva
Erich Von Stroheim nasceu do encontro de Paulo Emilio com Erich
Stroheim na Cinemateca Francesa. Sendo quase tudo de seu, ao crítico
317

coube redigir o catálogo da homenagem, divulgá-la no jornal OESP,


organizar a exposição de fotografias sobre a evolução da obra do veterano
cineasta e selecionar, dentro das possibilidades dos arquivos, treze filmes
com que procurou compor um panorama dos 28 anos de carreira de
diretor e ator. Entre os títulos que atuou, foram exibidos La Grande
Ilusion (1937), de Jean Renoir e Old Heidelberg (1915), de Emerson. Dos
que dirigiu, Esposas Tolas (1922), Ouro e Maldição (1923), Queen Kelly
(1926) e A Marcha Nupcial (1928), ambas em sua carreira estadunidense.
Em conjunto, a ação de Paulo Emílio se fundamentou a partir das
experiências que havia vivenciado nos festivais europeus, como os de
Bruxelas (1947) e Knokke-le-Zoute (1949), notáveis por exibir em suas
programações filmes da história do cinema para formar críticos,
realizadores e público.

Detroit (2017): uma análise da violência policial


estadunidense nos anos 60

Igor Felipe Rodrigues de Souza (UNIVERSIDADE FEDERAL DE


GOIÁS)

Na última década, nota-se uma movimentação por parte da comunidade


negra, no que tange à violência policial, cada vez maior nos EUA. Além
de tomar as ruas, é possível perceber que diversos veículos da mídia se
empenharam a demonstrar como o racismo persiste no território
estadunidense. Diversos diretores de cinema, nos últimos 5 anos,
propuseram a trabalhar em seus roteiros aspectos que evidenciassem a
cultura negra e consequentemente sua histórica luta nos EUA. Dentre as
produções da última década busco destacar um filme que pouco foi
comentado entre a mídia especializada e que retrata um período de intensa
movimentação política e social relacionado à cultura negra. Detroit, filme
de 2017, busca retratar a violência policial na cidade americana ao final
dos anos 60. Amparando-se em fatos reais, a produção destaca como era
a vivência da comunidade negra naquele período destacando as atitudes
do governo no que se refere a proteção dos policiais e produzindo um
aparato que legitimasse tais atitudes para com os negros que viviam nos
bairros isolados de Detroit. Meu trabalho busca elucidar como a diretora
318

e os roteiristas trabalharam com a documentação da época, discutindo o


que foi utilizado na produção do filme e como a própria cidade é utilizada
como personagem pois, desde o título à própria ambientação dos
personagens principais e secundários do filme a cidade se mostra presente,
seja com seus becos, seus bairros periféricos e ambientes recreativos
podemos notar como a arquitetura do local propicia uma segregação entre
a comunidade branca e a negra. Pensar a cidade como personagem ativa
do filme evidencia como se deu o trabalho de pesquisa histórica dos
produtores em sua concepção. Retratar a violência policial não é apenas o
foco principal desta produção. Detroit mostra todas suas características
geográficas e culturais na percepção desse aparato de repressão
empreendido pelos governantes no local. Os espaços físicos da cidade são
utilizados para demarcar aspectos segregacionistas evidentes e ambientes
onde tais diferenças raciais são esquecidas durante alguns momentos. Um
bom exemplo para elucidar tal aspecto é a gravadora Motown Records e
seu papel na produção musical da cidade no período. Nesse período de
intensa manifestação popular na luta por direitos que outrora pensamos já
terem sido discutidos, a análise deste filem mostra-se extremamente
necessária para a compreensão de como a estrutura autoritária foi erigida
nos EUA e como as comunidades locais se debruçaram a enfrentar tal
autoridade amparadas em aspectos que vão desde à violência física até
manifestações de cunho cultural.

Os mitos de Espártaco

Neemias Oliveira da Silva (Universidade Estadual de Goiás)

Este estudo tem como propósito investigar como se deu a construção do


mito em torno da figura histórica de Espártaco, líder da revolta de
escravos na Roma Antiga, e a desmistificação deste personagem na
contemporaneidade. A história de Espártaco está atravessada por vários
mitos constituídos ao longo dos séculos. A memória do escravo
transformado em gladiador e, a seguir, em libertador e combatente
perseguidor da justiça, especialmente para os mais pobres e explorados,
não cessa de se fazer presente na época contemporânea, desde os
movimentos abolicionistas até as lutas revolucionárias, passando por
319

reivindicações minoritárias de grupos considerados explorados e


oprimidos. A partir dessa tendência, a primeira questão que serviu de
ponto de partida para as nossas reflexões foi a seguinte: como foi possível
manter forte e atual esta imagem de um herói antigo, símbolo da justiça e
da liberdade? A partir daí, passamos a investigar de que maneira Espártaco
foi construído enquanto um mito, o qual revelou-se progressivamente
plural, amplo, atingindo a arte e a cultura de massas, a política e o
comércio. Assim, ao longo do tempo, Espártaco tornou-se parte da
cultura popular, revivendo o herói épico na obra cinematográfica
Spartarcus de Stanley Kubrick (1960). E, ao ser retomado no século XXI,
por meio do seriado Spartacus (2010-2013), passou de herói épico a herói
das massas. Duas produções certamente muito diferentes que fizeram
parte da tendência de valorizar o imaginário histórico. Desse modo, tanto
o cinema quanto a televisão e outras mídias tem despertado o interesse
dos jovens e da sociedade como um todo, pois ao se voltarem para o
mundo antigo, buscam refletir sobre o mundo contemporâneo. O retorno
do herói mítico é visto como saudosismo, um modelo de herói que não
existe mais. Dessa forma, estudamos também como a Indústria Cultural
reforça os padrões de beleza ocidental baseado em um modelo de corpo.
O corpo do herói é musculoso, considerado sinônimo de virilidade e
símbolo sexual. E com o avanço tecnológico e científico, ocorreu um
desencantamento dos mitos e do sobrenatural, desfazendo o misticismo
em torno do herói. Construiu-se novos modelos de heróis, encomendados
e integrados a uma mídia globalizada. Neste sentido, as fontes analisadas
foram o seriado Spartacus, obras clássicas e obras de referência. A
metodologia utilizada consistiu na análise icnográfica de Espártaco como
representante cultural e produto da cultura de massas. Por último, o fato
do seriado Spartacus ter sido escolhido como fonte audiovisual, justifica-
se pela forma simbólica em que o corpo e o herói foram abordados, como
simulacros do homem contemporâneo. Com isto, Espártaco desdobrar ia-
se em seus muitos mitos: “Os mitos de Espártaco”.
320

Rio, 40 Graus: Representações das Mulheres Negras no


Filme de Nelson Pereira dos Santos (1955)

Renata Melo Barbosa do Nascimento (UnB)

Com base nos estudos feministas, gênero e raça, buscamos em Rio, 40


Graus de Nelson Pereira dos Santos (1955), historicizar/desnaturalizar
certas representações. Essa desnaturalização do caráter histórico/cultural
permite que outras representações possam ser construídas e veiculadas,
questionando imagens que foram tomadas como verdadeiras/naturais
acerca das mulheres negras no Brasil, compreendendo que essas mulheres
são sujeitos com subjetividades plurais, não são fixas ou permanentes.

SUPEROITISMO MARANHENSE:Cinema como espaço


de resistência e micro liberdade (1970/80)

Leide Ana Oliveira Caldas (Universidade Federal do Maranhão)

O presente trabalho está inserido no contexto da História Social e


Cultural, mais precisamente, na interface desta com outras linguagens
quanto à forma de olhar, tratar e falar acerca da vida cotidiana. Entre as
linguagens optamos pelo Cinema.Desse modo, examinaremos o discurso
produzido pelo cinema no Brasil, mas especificamente em São Luís capita
maranhense no período compreendido entre as décadas de 1970/80. O
tema-problema da pesquisa são os discursos produzidos acerca da
dinâmica sócio histórica da cidade através das maneiras de fazer e dizer
(Certeau), nesse recorte temporal, por cineastas expressos em filmes
realizados com a bitola Super 8mm, ação denominada de superoitismo.
Destacaremos a produção fílmica superoitista como micro resistências
explicitando os marcos de práticas cinematográficas exercidas como micro
liberdades de seus realizadores, ocupando o espaço de cineastas da cidade;
os seus embates e o cenário no qual produziram os seus filmes para, então,
configurar a lógica do discurso dessa produção a partir da experiência
local.
321

Performances Culturais: um caleidoscópio histórico nas


lentes do cinema

Wesley Martins da Silva (Universidade Federal de Goiás)

O presente trabalho faz uma reflexão sobre a análise do cinema com o


pensamento direcionado aos estudos das Performances Culturais. Tais
estudos foram fomentados devido a Disciplina de Doutorado titulada
Cinema e Performances do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar
em Performances Culturais. Comparamos aqui estas pesquisas à um
caleidoscópio, equipamento normalmente em forma de uma luneta que ao
simples giro altera a percepção das imagens e nos proporciona outros
meios de verificar a mesma imagem, no caso com uma percepção
histórica. Mostra ainda, a linha ténue em que se encontra os estudos da
História, do Cinema e das Performances Culturais. Teóricos como
Massimo Canevacci, Ismail Xavier, Richard Schechner, Marc Ferro,
Robson Corrêa de Camargo, entre outros nos trarão as bases teóricas para
nossos estudos.

Cinema Novo: 50 anos do maio de 68

Wendell Marcel Alves da Costa (UFRN)

O objetivo deste trabalho é apresentar uma análise dos acontecimentos


políticos, culturais, estéticos e econômicos no Brasil de 1968 a partir dos
filmes brasileiros produzidos na década de 1960 que fizeram parte do
movimento cinematográfico Cinema Novo. Com isso, discutiremos o
documentário "Cinema Novo" (Eryk Rocha, 2016), que catalogou as
imagens, sons, entrevistas e diálogos dos principais filmes do movimento,
a fim de atualizar o debate acerca da importância política e cultural da
década de 60 para a cinematografia brasileira. No ano de 2018 se fazem
50 anos do maio de 68, ano este de intensas transformações na conjuntura
política mundial, e a centralidade do Brasil no âmbito cultural e
cinematográfico foi de destaque para oportunizar os diálogos que giraram
em torno do empenho da população na busca de direitos, sendo o cinema
322

uma das ferramentas adotadas para a luta em favor da liberdade de


expressão. Nesse contexto, é possível situar as contribuições dos filmes
Cinco Vezes Favela (vários diretores, 1962), Vidas Secas (Nelson Pereira
dos Santos, 1963), Os Fuzis (Ruy Guerra, 1964), Deus e o Diabo na Terra
do Sol (Glauber Rocha, 1964) e Terra em Transe (Glauber Rocha, 1967)
para a construção de um referencial das particularidades do Cinema Novo.
Qual a contribuição destes filmes para o acometimento do maio de 68
enquanto momento de deliberação política? Os filmes e suas imagens,
como memórias do mundo, representam um ideal, particularizado no
contexto em que se inserem, motivados por vontades sociais, como é o
caso Cinema Novo. O documentário de Eryk Rocha identifica estes
termos e abre espaço para pensar a produção de um olhar sobre os olhares
fílmicos fabricados na década de 60. Ressignificando a herança indelével
nas obras da atualidade, não podemos separar, é certo afirmar, as
dicotomias justapostas nas narrativas de filmes produzidos em períodos
diferentes, mas espera-se acreditar que estas mesmas heranças saltam à
tela pois os referenciais imagéticos do Cinema Novo continuam a pairar
nos modelos de representação do cinema brasileiro contemporâneo.
Desta forma, o ano de 68 aparece como um "instante", um elemento num
espaço-tempo definido, uma ressonância das narrativas, discursos,
representações, códigos e sentidos reforçados nos momentos anteriores.
O legado das obras deste "instante", que se estendeu por toda a década de
60, no Brasil e em outros países como França, Itália, Estados Unidos da
América, México, Argentina, Espanha, reproduzem um elemento de
permanência das narrativas reconstruídas, das representações
remodeladas, nos olhares redefinidos, uma crítica ácida à imagem
reprimida, aos estatutos da colonialidade cinematográfica.

Simulações históricas como representações: processos


históricos e identidades culturais em jogos eletrônicos

Alex Alvarez Silva (Universidade Federal de Goiás (UFG))

O trabalho que propomos apresentar é desenvolvimento da pesquisa de


doutorado “Simulações Históricas: a representação do tempo histórico
nos jogos eletrônicos”, em desenvolvimento no Programa de Pós-
323

Graduação em História da Universidade Federal de Goiás (PPGH/UFG),


com apoio da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB). Nosso
objetivo é compartilhar algumas observações acerca da consciência
histórica mobilizada em torno da série estadunidense de jogos “Sid Meier’s
Civilization”, cujos títulos vêm sendo publicados desde 1991 até os dias
atuais, se tornando um marco no mercado mundial de jogos eletrônicos
pela venda de mais de 33 milhões de cópias ao longo dos anos. A série se
tornou uma referência em tematização da história em jogos eletrônicos,
ao possibilitar aos/às jogadores/as o gerenciamento de uma sociedade
através de uma trajetória de 6 mil anos de história, interligados através da
ideia de “civilização”, cujos desdobramentos e transformações sociais
resultam diretamente das escolhas realizadas pelo/a jogador/a, que pode
explorar diferentes configurações a cada execução do jogo. Por essas
características, consideramos que “Sid Meier’s Civilization”, como
produto cultural, oferece ao público uma “simulação histórica” – por meio
da variação de diferentes possibilidades narrativas que a linguagem dos
jogos eletrônicos permite, um conjunto de representações culturais é
mobilizado na construção de cenários históricos contrafactuais e fictícios,
mas ainda assim resguardando uma verossimilhança reconhecível com a
experiência histórica do passado. Nossa posição é a de que o perfil dessa
narrativa audiovisual se insere na consciência histórica contemporânea em
pelo menos duas interfaces. Por um lado, em sua intenção de
representarem elementos tidos como “históricos”, esses jogos são
elaborados a partir das concepções históricas de seus desenvolvedores,
que delimitam pela programação do “software” os limites e possibilidades
das variações possíveis nessas simulações. Por outro lado, a circulação
mundial dos jogos permite um diálogo diversificado com a consciência
histórica de seus/suas jogadores/as, que tanto através da atuação realizada
nesses artefatos, quanto na elaboração de suas releituras em comunidades
virtuais e mesmo na alteração das possibilidades da simulação pela
modificação do “software”, se apropriam desses jogos como ferramentas
para elaborar suas próprias narrativas de inspiração histórica.
Pretendemos, então, debater a abordagem histórica desses jogos a partir
da questão de como eles possibilitam e delimitam diferentes
representações de identidades históricas pelas dinâmicas sociais que neles
são simuladas e no perfil das releituras realizadas pelos/as seus/suas
jogadores/as.
324

Em busca da Paris Perdida: a adaptação cinematográfica do


livro “Tempo Redescoberto”, de Marcel Proust

Saulo Germano Sales Dallago (UFG)

O presente trabalho procura traçar um paralelo entre a obra literária “Em


busca do tempo perdido”, do escritor francês Marcel Proust, e a adaptação
fílmica do último volume da mesma, intitulada “O Tempo Redescoberto”,
pelo cineasta Raul Ruiz, no ano de 1999. Analisando trechos de ambas
produções, o estudo pretende analisar a transposição da linguagem
literária para a composição cinematográfica, tendo como pano de fundo
as investigações por mim realizadas na tese de doutorado em História
intitulada “Performance e Fotografia: um estudo sobre Memória, Signo e
Escritura na obra ‘Em busca do tempo perdido’, de Marcel Proust”.
Pensando a criação artística, tanto literária quanto audiovisual, a partir da
narrativa empreendida pelo escritor francês, fortemente baseada em suas
experiências biográficas na Paris do final do século XIX, o estudo
pretende elencar elementos ligados ao campo das visualidades (fotografia,
paisagens urbanas, arquitetura, etc.), buscando compreender os recursos
imagéticos utilizados pela direção fílmica para realizar a transposição dos
escritos de Proust para o cinema, tendo como eixo discussões sobre
Memória, Performance e Relações Interartes, além do conceito de
Modernidade, relativo a metrópole francesa, oriundos das teorias de
Walter Benjamin a respeito da relação artista/cidade entre o poeta Charles
Baudelaire e Paris.

A História da Ciência representada em Anjos e Demônios e


O Nome da Rosa

Nelson Silva Junior (Universidade Estadual de Ponta Grossa UEPG)

O Cinema se constitui na primeira grande forma de uma narrativa


audiovisual do século XX. Ainda que surja como um registro de imagens
em movimento, seus primórdios já revelam a presença de áudios, fossem
eles as falas dos apresentadores ou as tentativas de sincronia de sons
325

gravados em cilindros fonográficos ou discos de goma laca, com a imagem


projetada. Do registro de cenas cotidianas à elaboração de roteiros e
narrativas, o Cinema criou uma linguagem própria que o colocaria como
elemento fundamental, tanto no campo da Arte, quanto no campo da
Comunicação. Em sua essência, no Cinema, desde A Chegada do Trem
na Estação de Chiota (Irmãos Lumiére, 1895) ao Cinema Experimental
Contemporâneo, os filmes aos quais assistimos, são a representação das
diferentes dimensões da História. Assim, nossa pesquisa apresenta o
Cinema como um instrumental para o Ensino da História da Ciência, a
partir dos filmes Anjos e Demônios (Angels & Demons – 2009) e O
Nome da Rosa (The Name of the Rose – 1986), filmes de entretenimento,
sucessos de público e que apresentam entre seus temas principais a
História da Ciência e as relações entre Ciência e Religião. Essa pesquisa
propõe que o Cinema seja entendido em sala de aula ou outros espaços de
aprendizagem, como uma linguagem artística, com suas especificidades,
que ao construir uma narrativa audiovisual, apresenta o passado como
cenário de diferentes embates que foram responsáveis por processos
socioculturais determinantes nas diferentes dimensões da História do
homem, aqui especificamente, na História da Ciência. Nossa proposta está
centrada numa análise fílmica que apresenta a obra cinematográfica como
um instrumento de aprendizagem da História da Ciência. Assim,
metodologicamente, a pesquisa ocorreu a partir de dois eixos principais: a
análise fílmica a partir da teoria apresentada por Erwin Panofsky em seu
livro Significado nas Artes Visuais (2007), denominado metodologia
panofyskiana, iconológico ou histórico social e o estudo historiográfico na
História da Ciência, apresentado pelo professor Ubiratan D’Ambrósio
(2004).

Narrrativa, movimento e a paisagem: A fronteira de Turner


no cinema e na historiografia (1893-1939)

César Henrique Guazzelli e Sousa (Universidade Federal de Goiás)

Em 1893, quando Turner expôs a sua hipótese da fronteira na "Columbian


Exposition" de Chicago, apresentou o que, nas décadas seguintes, se
estabeleceria como o grande modelo teórico a partir do qual a história dos
326

Estados Unidos foi narrada e interpretada no interior da historiografia do


país em questão. Estruturada sobre um núcleo de premissas bastante
simples, a hipótese de Turner apontava para a ideia de que o elemento
distintivo da história estadunidense é a expansão de levas contínuas de
colonos em direção ao Oeste vacante - a fronteira. Assim, os aspectos
definidores da cultura do país, assim como a fusão entre identidade e
moralidade no problemático conceito de 'caráter americano', foram
interpretadas pelo autor como decorrências do ambiente fronteiriço, no
qual a civilização do Leste e a 'wilderness' do Oeste se encontravam. O
homem da fronteira seria, portanto, um sujeito que, lançado em estado de
natureza no ambiente fronteiriço, desenvolvia-se purgado dos vícios da
civilização europeia e, simultaneamente, purificado pelas benesses do
ambiente natural sobre o corpo e a moral. O momento de inserção da
hipótese da fronteira no ambiente historiográfico estadunidense coincidiu
com a formação do primeiro cinema, na transição do século XIX para o
XX. Enquanto os 'chase films' e as 'slapstick comedies' esquadrinhavam
os corpos e definiam formas determinadas de utilizá-los como recursos
cênicos e poéticos no interior da embrionária narrativa cinematográfica, a
estética do melodrama encetava o desenvolvimento da 'poética da face' e
o esquadrinhamento dos rostos nos planos de detalhe. A dinâmica que
relacionou o homem ao ambiente, apontando para o desenvolvimento da
'poética da paisagem' no cinema a partir dos grandes planos que
destacavam a imensidão do ambiente do Oeste em oposição ao diminuto
'cowboy' que o singrava, originou o que na década de 1910 seria
denominado "western cinema". Construindo-se em oposições binárias
que apontam para a constante tensão entre o civilizado e o selvagem, a
ordem e a barbárie ou, ainda, o cowboy e o bandoleiro, o nascente gênero
western incorporou em seu interior diversos aspectos da hipótese
turneriana, promovendo uma espécie de vulgarização e esquematização
do modelo historiográfico do autor de Wisconsin e adequando-o ao
grande público com enorme êxito no interior dos 'poeiras', 'vaudevilles' e,
sobretudo na década de 1930, das grandes salas de cinema. Dessa forma,
o cinema teve um papel fundamental como instrumento de difusão e
reificação da hipótese da fronteira que, gestada no interior da
historiografia profissional, manteve sua perenidade junto ao grande
público mesmo após a enorme torrente de críticas e refutações que a
historiografia turneriana sofreu nos anos 1930 e 1940, levando ao seu
ocaso.
327

SIMPÓSIO TEMÁTICO 14
HISTÓRIA E INTELECTUAIS NA AMÉRICA LATINA

Coordenadores:
Elisângela da Silva Santos (Universidade Federal de Goiás/Jataí)
Gustavo Louis Henrique Pinto (Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia de Goiás)

Richard Morse (2011) afirma que a identidade na América Latina não se


trata de um “caráter nacional”, mas sim “a consciência de uma vocação
histórica”, uma espécie de “autorreconhecimento tácito”, em que se
compreende que intelectuais não são simples “observadores sensíveis”,
mas aqueles direcionados para o “discurso geral da sociedade”. Eduardo
Devés –Valdes (2012) aponta que a disjuntiva do pensamento periférico
“ser como o centro” versus “sermos nós mesmos”, é a chave para
entender esse pensamento. A análise dos intelectuais latino-americanos
em sua percepção ideológica, discursiva e narrativa, nos séculos 19 e 20,
está atrelada aos temas da construção nacional e suas identidades, aos seus
projetos político-sociais, bem como da marca da diversidade cultural, que
reunidos constituem nosso foco analítico. Deste modo, pensadores,
literatos, políticos, ensaístas e jornalistas que produziram interpretações
acerca de problemas concernentes às diversas questões nacionais
correspondem à área deste Simpósio Temático, assim como aqueles
trabalhos que se inserem no Pensamento Político e Social Latino-
Americano. Acolhe-se trabalhos direcionados ao campo da história em
seu sentido amplificado, a partir de perspectivas culturais, políticas, sociais
e econômicas.
328

Projetos de cubanidade e a escrita autobiográfica de


Reinaldo Arenas (1943-1990)

Bruna Alves Carvalho Mendes (Universidade Federal de Goiás)

Na década de 1980 em Cuba, eclodiu um episódio nunca antes visto na


América. Ficou conhecido como fenômeno de Mariel, no qual
aproximadamente 125 mil cubanos se esvaíram pelo porto de mesmo
nome. Tratou-se de um momento extremamente frágil na Ilha, pois a
Revolução já não contava com o apoio internacional de outrora, e muito
menos apoio interno. Os ânimos populares pós-deflagração da vitória
revolucionária duraram apenas cerca de uma década, onde o entusiasmo
deu lugar ao desencantamento. Pouco a pouco a Revolução não mais
atendia aos anseios dos cubanos, que tornou-se uma ditadura tão ferrenha
quanto a anterior, de Fulgêncio Batista. Dentro desse movimento
imigratório, onde milhares de cubanos conseguiram asilo político nos
Estados Unidos, destacaram-se inúmeras figuras e suas narrativas. Vale
sublinhar uma delas, a do escritor Reinaldo Arenas. Nascido em 1943, o
autor participou ativamente da luta para depor Fulgêncio Batista e foi alvo
de um projeto muito peculiar de cubanidade proposto pelos líderes
revolucionários, em especial Che Guevara. Tratou-se do projeto do
Homem Novo, que propunha um tipo ideal de homem necessário para
encaminhar a Revolução e seus feitos. Ao chegar no exílio, o escritor
encontrou um outro projeto de identidade cubana, mas desta vez
delineado pelos auto-exilados em Miami em 1959. Eram indivíduos da alta
classe da sociedade cubana, que não concordavam em viver num país com
características socialistas. Sua narrativa autobiográfica buscou então,
apresentar sua trajetória de vida para defender sua própria verdade, visto
que não se enquadrava em nenhum destes dois projetos de cubanidade
com os quais se deparou. Veremos que Arenas foi um marielito por
excelência, integrando o que veio a se chamar de Geração Mariel. Foi um
grupo de escritores no exílio que, por meio de uma revista, articulou temas
e questões que vão de encontro a autobiografia do autor; todos tentando
contar eles mesmos as histórias de suas vidas. Vale destacar que Arenas
enfrentou a Revolução em duas frentes, pois era
contrarrevolucionário/dissidente e homossexual. Ambas características
foram condenadas e fortemente censuradas na Ilha. Assim, o presente
329

trabalho procura compreender como essa estruturação narrativa


autobiográfica se deu, a quais discursos ela tenta responder, priorizando
um enfoque no sujeito e sua escrita; buscando iluminar questões sobre
projetos de identidade em Cuba, bem como enriquecer o debate sobre
História e Intelectuais na América Latina.

A cultura na produção intelectual e na ação política de Juan


Marinello (1922 – 1930)

Pedro Alexander Cubas Hernández (Universidade Federal de Mato


Grosso)

O presente ensaio tem como objetivo explicar como foi evoluindo a


noção da cultura em Juan Marinello através do tratamento de dois tópicos
polêmicos, que o autor abordou, tais como o papel dos intelectuais na
sociedade e as concepções sobre o artístico. Tudo isso na época do pós-
guerra mundial até o início da crise econômica mundial. Isto é, o período
1922 – 1930 quando aconteceu o processo de radicalização política de
Marinello. O ponto de partida está relacionado com sua aproximação
inicial às noções de cultura trabalhadas desde o campo da sociologia. Por
essa razão, desde uma perspectiva hermenêutica foi desenvolvida uma
contextualização de um texto sobre cultura , pois esse termo
polissêmico está implícito em outros conceitos levantados pelos autores
ou anotadores. A partir dessa base teórica, realizouse uma periodização da
produção escrita de Marinello sobre cultura que incluiu as premissas da
sua ação política no cenário cubano dos anos vinte: um momento inicial
norteador para a procura do verdadeiramente nacional na cultura cubana
entre 1922 e 1926; e um curto tempo de trabalho como editor da Revista
de Avance, uma das publicações ícones da vanguarda cultural cubana
desde 1927 até 1930. Essa época tem sido considerada a etapa da
formação intelectual de Marinello. Dito recurso metodológico
oportunizou uma análise sobre os caminhos em prol de uma compreensão
gradual desse intelectual sobre a cultura em interface com a política.
Primeiramente, abordou-se a lógica discursiva de Marinello em torno aos
intelectuais da América Latina baseada numa tipologia que os
caracterizava, segundo as atitudes sociais deles, como consciência-crítica,
330

contribuinte-criativo e arielistas. E também Marinello questionou si no


caso cubano os intelectuais deveriam servir o estado despótico refletido
no regime machadista ou se comprometer com uma causa em prol da
justiça social. Em segundo lugar, tratou-se as opiniões de Marinello acerca
do artístico no tocante à busca do nacional na arte e seu elo com os novos
cânones estéticos, assim como as suas colocações sobre a relação
problemática entre arte e política. O essencial do pensamento de Marinello
a respeito da cultura nessa época histórica é que ele não a concebia fora
de um ato de criação ou atividade humana nas suas múltiplas aristas, pois
considerava o homem como sujeito da cultura e, portanto, da história.
Concluiu-se que as ideias de Marinello sobre a cultura e as suas ações
políticas foram as chaves hermenêuticas para revelar a intelecção
marinelliana da cultura naquela «Década Crítica», e também para
acompanhar seu quefazer como intelectual consciência-crítica.

História intelectual dos ‘cardeais’ da escola nova no Brasil

Cesar Evangelista Fernandes Bressanin (Universidade Federal do


Tocantins)
Milian Daniane Mendes Ivo Silva (PUC GO)

O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova publicado em 1932 foi


assinado por vinte e seis intelectuais que propunham a reconstrução
educacional do Brasil a partir de princípios como a laicidade do ensino, a
coeducação, a educação pública, gratuita, obrigatória e a escola única.
Dentre estes intelectuais três nomes se destacaram: Anísio Teixeira,
Fernando de Azevedo e Lourenço Filho intitulados por Paschoal Lemme,
como os “cardeais da educação” (VIDAL, 2013). A presente comunicação
que objetiva delinear a trajetória intelectual destes três educadores é fruto
das disciplinas de Fundamentos da Educação e História da Educação, do
primeiro semestre de 2018, do Programa de Pós Graduação em Educação,
nível de doutorado, da PUC-GO. Optou-se por apresentar a trajetória
intelectual destes educadores em virtude do lugar de importância que
ocuparam na educação pública brasileira, pela participação e contribuição
nas reformas educacionais que foram implementadas no Brasil a partir da
331

década de 1920, bem como suas atuações à frente de órgãos da


administração pública e seus pensamentos acerca da Educação Brasileira
expressas na relevante bibliografia deixada por ambos. Anísio Teixeira
(1900-1971): professor, estudou nos EUA onde obteve o título de mestre,
foi Inspetor Geral de Ensino na Bahia, Diretor de Instrução Pública do
Rio de Janeiro e de Salvador onde criou as conhecidas escolas-parque.
Ajudou na fundação da Universidade de Brasília e foi seu reitor. Seus
escritos são resultados de sua escolha pela educação como foco de
trabalho (NUNES, 2010), entre eles Educação não é Privilégio (1957),
Educação é um Direito (1968) Educação e o Mundo Moderno (1969) e
Educação no Brasil (1969). Fernando de Azevedo (1894-1974): professor,
redator do jornal O Estado de São Paulo, secretário de Instrução Pública
no Rio de Janeiro e em São Paulo e um dos fundadores da Universidade
de São Paulo (USP). Considerado pai da sociologia no Brasil foi presidente
da Sociedade Brasileira de Sociologia por alguns anos e professor
catedrático do Departamento de Sociologia e Antropologia da Faculdade
de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Três de suas significativas obras
contribuíram para o seu pioneirismo intelectual no campo da Sociologia
bem como a institucionalização da disciplina no Brasil: Princípios de
Sociologia (1935), Sociologia Educacional (1940) e A Cultura Brasileira
(1943). Lourenço Filho (1897-1970), professor, dedicou-se à educação e à
psicologia. Foi considerado, em virtude de seu dinamismo, como um dos
promotores da psicologia brasileira. Fundou a Revista Brasileira de
Estudos Pedagógicos. Escreveu a obra Introdução ao Estudo da Escola
Nova, livro básico para se compreender o movimento e tantos outros
dedicados à educação e à psicologia.

O crítico Machado de Assis no debate do passado/presente


da literatura brasileira do século XIX

Luciana Tavares Borges (PPGHI/UFU)

A solidificação do Estado Imperial (2º Reinado – 1840-1889) passava por


uma afirmação de uma cultura política nacional, a construção de uma
literatura seria uma resposta a essa questão. Nesse sentido, era necessário
estabelecer um passado, que configurasse uma tradição, uma história, que
332

suprisse a ausência de elementos de formação da nacionalidade. A


Historiografia apontou mais enfaticamente para o IHGB (Instituto
Histórico Geográfico Brasileiro), instituição fundada em 1838, que tinha
como propósito formular uma escrita da História do País, assim como ser
a Casa de Memória (GUIMARÃES, 2011). Tais preceitos não podem ser
negados para a compreensão do período citado, porém, o mesmo não foi
o único símbolo construído para arregimentar a Casa de Bragança. Havia
entre os literatos e/ou intelectuais que buscavam na literatura um “marco”
no processo de constituição da Identidade Nacional no Brasil dos
oitocentos, sobretudo, personas como: Gonçalves de Magalhães,
Gonçalves Dias, José de Alencar, entre outros. Daí que nesse ínterim, e
principalmente com o advento da Crítica Literária, desponta, Machado de
Assis (1839-1908). Para este o cerne da Identidade Nacional estaria
embutida no próprio problema da definição da literatura brasileira, ou seja,
no seu próprio presente. Desse modo, as operações do tempo
passado/presente seriam pontos assimétricos (KOSSELECK, 2006), mas
não antagônicos sobre a literatura do Brasil do século XIX. Diante dessa
premissa apresentamos a seguinte hipótese: o passado ou melhor a
cartografia do passado da cultura literária funcionaria como uma invenção
da nacionalidade para suprir a ausência de elementos que comprovem a
formação de uma cultura nacional. Daí que a literatura seria uma das
principais vertentes, que responderia essa lacuna. Nesse sentido, elegemos
o período de 1858-1879, pois o mesmo situa a publicação dos ensaios de
Machado de Assis em jornais e revistas (O Passado, o Presente e o Futuro
da Literatura – 1858; Ideal do Crítico – 1865; Notícia atual da literatura
brasileira – 1873; Nova Geração – 1879), e concomitante neste momento
o Estado Imperial consolida sua base estrutural política (Saquarema). Daí
que discutiremos, em que medida a construção de um passado literário
corrobaria para a sedimentação da Identidade Nacional do Segundo
Reinado? O tema não é novo, mas o modo de operá-lo tem a pretensão
de trazer para a historiografia; como os debates/embates da literatura
brasileira serviram de baliza para a narrativa política do Estado Imperial
dos oitocentos e conseguintemente o papel do Crítico/intelectual frente a
essa questão.
333

Fuga poética: Neruda, poesia e luta no Chile anticomunista


(1948-1952)

Daniel Alves de Sousa (PROFESSOR)

Pablo Neruda é um personagem impar da história chilena do século


passado. O poeta e também político comunista, lutou num Chile atingido
por interesses externos como o imperialismo dos Estados Unidos e dentro
do país contra a chamada Ley Maldita, também conhecida como Lei de
Defesa Permanente da Democracia (19481958), que perseguiu e
condenou a prisão os comunistas chilenos, além da proibição dos
comunistas organizarem-se de forma partidária. O expurgo do tradicional
Partido Comunista do Chile, das instituições chilenas, e dos seus agentes,
abre um ponto de discussão importante de um país que ao longo do tempo
criou uma ideia abstrata de democracia, mas que tacitamente, ou de forma
explicita, perseguiu os seus trabalhadores. Neruda era o poeta do povo, ao
tornar-se perseguido político em 1948, pela então Ley Maldita, imposta
pelo presidente González Videla, teve que buscar fuga atravessando a
cordilheira dos Andes. Saindo do Chile e indo para Argentina em uma
fuga cinematógrafica, foi o momento em que sua poesia torna-se uma
arma politica, a escrita do poeta em seu livro Canto Geral(1950) é central
para compreender, a luta dos trabalhadores e o momento político que o
Chile e América Latina viviam por causa da influência norte-americana.
Temos na poesia de Neruda a imagem idealizada dos trabalhadores que o
ajudaram na árdua tarefa de esconde-lo, dar moradia, comida e proteção
ao comunista mais procurado do Chile. A poesia foi para Neruda além de
engajamento, uma condição catártica, era o momento de silenciar, mas o
escritor tornou-se um porta voz das massas. O poema enquanto signo
atinge um nível de subjetividade que permite ao leitor uma
experimentação que rompe com os sentidos vigentes. A poesia de Neruda
cria um jogo de varias imagens e fez do seu contato com a realidade, uma
transformação da mesma, como uma recusa e apresentação do mundo,
suas palavras realizam uma ponte "através da qual o homem tenta superar
a distância que o separa da realidade exterior"(PAZ, 1982, p. 43). Na busca
de romper com aquele contexto autoritário, Neruda fez de sua poesia uma
jornada que não aceita o mundo anticomunista do Chile do final dos anos
334

1940, assumindo uma utopia que entendia que os homens libertam-se e


realizam-se na sua palavra poética.

As crônicas de viagem de um turista: o primeiro exilado


voluntário de Jorge Amado (1936-1937)

Matheus de Mesquita e Pontes (Instituto Federal de Mato Grosso)

Em abril de 1936, por decorrência da repressão desencadeada após os


levantes armados, Jorge Amado foi preso sob o pretexto de estar
envolvido com os acontecimentos revolucionários de Natal-RN e, no final
daquele ano e nos primeiros meses de 1937, retornou ao Nordeste
alternando momentos na Bahia e em Sergipe. Podemos afirmar que nesse
período iniciou-se o primeiro exílio político do escritor, apesar do mesmo
declarar que foi uma: “Vagabundagem lírica, durante seis meses, pelas
pequenas cidades dos estados da Bahia e de Sergipe” (AMADO, 2001, p.
15); do Nordeste as andanças do literato junto com sua primeira esposa
Matilde continuaram, através de uma grande viagem pelo continente
americano: passam por cidades do Rio Grande do Sul, Uruguai, Argentina,
Peru, Equador, Colômbia, Guatemala, Cuba, México, Estados Unidos e,
por último, o regresso ao território brasileiro pelo Pará e posteriormente
a capital amazonense, em novembro de 1937, até sofrer sua segunda
prisão política às vésperas da instauração do Estado Novo (TAVARES,
1980, p. 32). Será durante sua estadia no Nordeste brasileiro até o México
que o escritor vai redigir o romance Capitães da Areia, além de iniciar o
esboço de um conjunto crônicas sobre os aspectos das localidades e dos
sujeitos que ele ia encontrando no transcorrer da viagem. As crônicas
serão o objeto de estudo dessa reflexão, sendo que no ano da morte do
escritor, parte desse material foi organizado na coletânea A ronda das
Américas (2001).
335

Recepções e impactos do Stalinismo para o PCB e seus


intelectuais nos anos 1950

Paulo Winícius Teixeira de Paula (IFG)

Resumo: Recepções e impactos do Stalinismo para o PCB e seus


intelectuais nos anos 1950. A presente pesquisa apresenta um breve
panorama sobre as recepções e consolidação do fenômeno político
conhecido como “Stalinismo” no Brasil, tendo como referencial a leitura
do intelectual comunista José Paulo Netto. Nosso enfoque são os
impactos dos conceitos e entendimentos gerais acerca desse fenômeno
sobre intelectuais e dirigentes do PCB-Partido Comunista Brasileiro na
década de 1950. Tal abordagem se justifica tendo em vista que o PCB e
suas ideias tiveram profunda representação na intelectualidade, e,
sobretudo, disseminaram o debate acerca da situação nacional,
desenvolvimento econômico e político através de suas teorias no período
referido. É necessário pensar em que medida as influências de
movimentos de pensamento, e de práticas, vindas da União Soviética e do
Movimento Comunista Internacional determinaram a ação desse grupo
político e seus intelectuais no Brasil. A discussão sobre o Stalinismo no
Brasil está para além de uma teoria que resume tal problemática à
repercussão do “culto à personalidade”, às características do personagem
político, defeitos do dirigente soviético Joseph Stalin e suas supostas
implicações mecânicas sobre as organizações e intelectuais que o tinham
como referência. Entendemos que o culto à personalidade, também
reproduzido dentro Partido Comunista Brasileiro, deriva de
particularidades de um determinado contexto social. Temos como foco o
sentido mais amplo, e ancorado em uma leitura histórica do contexto de
época, percebemos o Stalinismo associado sim à ideia de um conjunto de
falsificações históricas e de práticas associadas a um pragmatismo teórico
que só serviria para justificar a ação de uma burocracia partidária, porém
é necessário avaliarmos em que medida isso foi responsável por contribuir
para criar no Brasil um clima intelectual opressivo e se isso teria
concorrido para o empobrecimento teórico do marxismo brasileiro à
época, tendo como referência as posições e debates de alguns intelectuais
do PCB como Agildo Barata e Caio Prado Junior. Cabe investigar se, o
PCB, enquanto representação de um projeto intelectual de classe, tem em
336

meio a suas principais teses nacionais e democrática sobre os caminhos da


revolução brasileira, e que guiaram o conjunto da esquerda por décadas,
em alguma medida à repercussão do Stalinismo no país.

O pensamento ecológico e anticapitalista do Cristianismo


da Libertação no Brasil (1965-2015)

Rhaissa Maques Botelho Lobo (UFMT)

As obras dos Teólogos da Libertação Frei Betto e Leonardo Boff tem sido
meu objeto de pesquisa desde o primeiro ano da graduação em História.
Elas versam sobre a pobreza/opressão por meio de uma perspectiva
histórica/ religiosa que condessa prática e reflexão. Contudo durante essa
trajetória de pesquisa as práticas sociorreligiosas dos diversos agentes que
compõem o Cristianismo da Libertação tornam-se os problemas centrais
que movem os anseios da pesquisa. O intuito desta proposta é
compreender como a ecologia se constitui como problema na prática do
Cristianismo da Libertação. Diante disto este projeto de pesquisa se
propõe a analisar as reflexões e práticas ecológicas anticapitalista dentro
do cristianismo da Libertação. Estas são divulgadas nas obras de teólogos
como Leonardo Boff, Frei Betto, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Erwin
Kräutle, (já outros teólogos da libertação vão tratar as questões ecológicas
de forma mais indireta ou esparsa). Nos documentos eclesiais, conciliares
como manifestos e panfletos que circularam nas Comunidades Eclesiais
de Base (CEBs), nas Pastorais Operárias e Extrativistas, além da Comissão
Pastoral da Terra (CPT), são outros meios onde podemos ver expressos
visão católica ecológica anticapitalista.
337

Uma leitura das relações étnico-raciais a partir das leituras


de Virgínia Leone Bicudo

Lilian Fabiana Barbosa Souza (Prefeitura Municipal de Jataí)

O presente texto é uma síntese do projeto apresentado na disciplina


Trabalho de Conclusão de Curso intitulado "Uma leitura das relações
étnico-raciais na escola a partir das pesquisas de Virgínia Leone Bicudo"
apresentado à Universidade Federal de Goiás- Regional Jataí no ano de
2017. O trabalho, traz como base para reflexões acerca das relações
étnico-raciais as principais pesquisas da socióloga e psicanalista Virgínia
Leone Bicudo (1915-2003) "Atitudes Raciais de Pretos e Mulatos em São
Paulo" dissertação de mestrado defendida em 1945, sendo a primeira no
Brasil a tratar das relações raciais, e "Atitudes dos alunos de grupos
escolares em relação com a cor de seus colegas”, pesquisa integrante do
inquérito UNESCO- ANHEMBI, projeto ambicioso que contou com a
participação de diversos intelectuais das Ciências Sociais dentre tais
intelectuais podemos citar Roger Bastide (1898-1974) e Oracy Nogueira
(1917-1996) nomes conhecidos na Sociologia e estudo das relações raciais.
Defendemos a relevância das pesquisas de Bicudo no que se refere ao
modo que o racismo se estruturava e se manifestava nas atitudes sociais,
familiares e no próprio sujeito. De modo que a autora pontua suas
manifestações primárias nas esferas sociais citadas anteriormente, assim
como, os resultados de sua elaboração no sujeito alvo do racismo.Virgínia
Leone Bicudo teve seu nome apagado do histórico de pesquisadores e
intelectuais na área da Sociologia, até mesmo por seus colegas pois, em
uma segunda edição do inquérito UNESCO- ANHEMBI, sua pesquisa
não foi publicada, ela tampouco é citada nas diversas pesquisas das
relações raciais. Porém, a autora tem maior reconhecimento dentre os
estudiosos de psicanálise, carreira que se dedicou após suas pesquisas
sociológicas, sendo a primeira psicanalista sem formação em medicina no
Brasil e até hoje é reconhecida pelo seu trabalho e pesquisas na área. Para
ilustrar a relevância do nome de Bicudo como intelectual da Sociologia
podemos citar o fato da autora ter sido uma mulher negra, de origem
humilde, nascida em São Paulo em época de grandes mudanças sociais,
políticas e econômicas que não beneficiavam os decendentes de
escravizados, devido a negação de oportunidades, falta de instrução e o
338

fato, da política de identidade nacional estar pautada no branqueamento


da população. O espaço da educação sistematizada não era então, o lugar
naturalmente ocupado por mulheres, especialmente para uma
representante da população negra, acrescente se ao fato desse espaço ser
a academia. Desta forma, Bicudo foi precusora dos estudos das relações
raciais no Brasil e responsável direta pela institucionalização tanto das
Ciências Sociais quanto da psicanálise no país, uma intelectual com tantos
contributos a oferecer, porém apagada da história.

EZLN: Uma experiência de luta social no México


contemporâneo e o papel intelectual do Subcomandante
Marcos

Leidiana Marinho Souza Oliveira (Universidade Federal de Goiás)

No governo de Carlos Salinas de Gortari (1988-1994) ampliaram-se as


políticas neoliberais no México. Como consequência dessas políticas e por
demandas justiça e igualdade, no dia 1º de janeiro de 1994 o Exército
Zapatista de Libertação Nacional tomou algumas cidades do estado
mexicano de Chiapas, dentre elas a cidade de San Cristóbal de las Casas.
Nessa conjuntura aparece a figura do Subcomandante Marcos, chefe
militar e porta-voz do EZLN e que posteriormente ficou conhecido pelo
seu cunho literário, inclusive com a publicação de alguns livros, dentre eles
Muertos Incómodos (2005) escrito em coautoria com o historiador Paco
Ignacio Taibo II. O Subcomandante Marcos estabelece uma ponte de
diálogo entre os zapatistas e a sociedade mexicana e mundial. Para além
do militante temos o Subcomandante Marcos como intelectual, o que
organiza o Movimento Zapatista. Segundo o governo mexicano o
Subcomandante Marcos é Rafael Sebastián Guillén Vicente, filósofo e ex-
professor da Universidade Autônoma Metropolitana na Cidade do
México. O Subcomandante Marcos assimila a causa indígena e formula
ações de reivindicação por direitos e resistência frente ao poder vigente
do Estado mexicano junto às comunidades indígenas. Embora parte das
experiências e concepções oriundas do grupo urbano que se pautavam na
tradição marxista-leninista tenham permanecido, o fator indígena e suas
demandas se tornaram maior dentro do movimento. O uso da palavra é
339

recorrente através de cartas e comunicados tanto através do Comitê


Clandestino Revolucionário Indígena do EZLN como com a assinatura
do Subcomandante Marcos, entendendo esses discursos como práticas
sociais e uma forma de engajamento político. Os zapatistas utilizam-se dos
elementos indígenas, do passado de séculos de marginalização, resistência
e exploração para reivindicarem direitos e autonomia de suas
comunidades. Há um confronto entre o avanço do Neoliberalismo no
México e a situação em que se encontravam os indígenas de Chiapas. O
Movimento Zapatista tem algumas peculiaridades em comparação com
outros grupos latino-americanos pelo seu modo de atuação. Os zapatistas
criam pontes de diálogos com a sociedade mexicana e internacional
através de suas cartas e comunicados. Mostrando além do movimento de
aparato militar, o cotidiano das comunidades chiapanecas, seus mitos,
dificuldades, situação precária de vida. Entendo assim que o movimento
Zapatista é bem mais amplo, tendo o Subcomandante Marcos como
mediador entre dois mundos, alcançando os mais variados interlocutores
e utilizando-se da prática discursiva literária. A proposta desse trabalho
consiste em analisar a figura do Subcomandante Marcos para além do
militante, o intelectual, e sua importância dentre do Movimento Zapatista.

O golpe em Perón e o fracasso da “Revolução Libertadora”


na Argentina

Mirela Bansi Machado (Universidade Federal de Uberlândia)

A Argentina, na primeira metade do século XX, mantinha uma política


semicolonial, dependente da Inglaterra, governada por um grupo de
pessoas que se esforçava para isso não mudar. O fim da chamada “década
infame” coincidiu com a chegada de Juan Domingo Perón na vida política
em 1943, quando ocupou seu cargo no Ministério do Trabalho e começou
a tomar medidas favorecendo os operários, incluindo as leis trabalhistas.
Tornou-se presidente e continuou beneficiando os mesmos setores, sendo
o homem do povo, aquele em que as pessoas que nunca foram vistas se
sentiam representadas. Mas com seu populismo Perón incomodou muita
gente, incluindo pessoas de muito poder. Uma crise econômica vinha
crescendo no país e na década de 1950, no último ano de seu mandato, a
340

situação se tornou grave. A isso se juntou o descontentamento de uma


parte da população que não estava gostando do pragmatismo político do
presidente, da forma como ele estava lidando com a economia, e alguns o
acusavam de ser autoritário. Um grupo militar de peso, somado a vários
civis desapontados, conseguiram armar um golpe contra o governo
peronista. Os militares tomaram a presidência em uma “revolução”
autodenominada “libertadora”, a qual afirmavam estar libertando a
população de um poder fascista, que manipulava o povo. Esse governo
provisório, desesperado pelo poder, era formado por um grupo
heterogêneo de pessoas que muitas vezes não entravam em comum
acordo. O regime de repressão às resistências começava a se formar, e
com a troca da presidência dentro do golpe, se intensificou. A perseguição
de peronistas foi comandada pelas polícias militares com a ordem de
matar, em diversos casos. O governo era pressionado por grupos
antiperonistas para que essa punição acontecesse e para que fosse
extinguido toda e qualquer lembrança do peronismo, queriam apagar uma
parte da memória argentina. Mas não obtiveram sucesso no fim. Quando
foram abertas as eleições presidenciais, a massa peronista mostrou que
ainda vivia e que a memória de Perón estava mais forte do que nunca na
população. Este artigo levanta questões sobre esse momento histórico na
Argentina, pensando, junto com os intelectuais que estudam o peronismo,
na verdadeira causa da queda de Perón, em como se deu o golpe de
Estado, como o governo provisório se instalou, quais foram suas atitudes
e falhas, levando em consideração a razão de terem articulado um golpe e,
por último, porque fracassou. Palavras chave: Perón; Revolução
Libertadora; Argentina.
341

SIMPÓSIO TEMÁTICO 15
HISTÓRIA E LINGUAGENS

Coordenador:
Flávio Vilas-Bôas Trovão (UFMT)

O Simpósio volta-se ao debate da História e das Linguagens


contemporâneas no campo das artes e indústria cultural; instituições e
relações de poder em diferentes momentos históricos em diálogo com o
campo artístico; análise de imagens estáticas e em movimento e suas
relações históricas e sociais.

A Representação de Feminino na Animação Hora de


Aventura

Paula Akeime Umekawa (UFMT)

O presente resumo se dá pela pesquisa de Mestrado em Educação que


analisa a animação chamada “Hora de Aventura”, criada pelo animador
Pendleton Ward, exibida no Cartoon Network, contando com 9
temporadas atualmente. Essa história dessa animação é baseada nos
protagonistas Finn e Jake, respectivamente um humano e um cachorro
que são irmãos e vivem em um mundo pós-apocalíptico. Há diversos
personagens que não são humanos, mas sabem falar e tem poderes. Esta
animação é do gênero aventura, cuja história gira em torno do Finn
buscando saber sobre o seu passado e na procura da existência de outros
seres humanos, pois ele é o único até então apresentado. Com o
desenvolver da história, surgem várias personagens femininas que
possuem suas próprias vivências e personalidades diferentes. Diante disso,
essa animação apresenta alguns sinais de mudanças dessa
representatividade que instigam a investigação de quais conceitos de
gênero são utilizados no desenvolvimento de tais personagens, uma vez
que as figuras femininas representadas podem revelar uma definição e
342

percepções na esfera do social. As fontes audiovisuais tem sido uma


característica marcante na sociedade contemporânea. Não é a toa que
estão cada vez mais utilizadas na Educação e tem adquirido seu espaço no
âmbito escolar. Dessa forma, as animações fazem parte dessas fontes
audiovisuais que abordam diversos temas através da sua linguagem. A
proposta desse resumo visa analisar quais são as representações dos
femininos nesta animação, o que elas significam a partir das teorias de
gênero e as suas relações com a educação e os estudos culturais. Para isso,
a pesquisa estará embasada a partir dos autores que discutem infância
como Philippe Àries, os estudos culturais da mídia segundo Graeme
Turner e Douglas Kellner, a linguagem da animação a partir da semiótica
da cultura de Iúri Lotman, as teorias de gênero segundo Judith Butler e
Joan Scott e os estudos sobre Educação a partir de Carlos Rodrigues
Brandão. Através dos estudos culturais será analisada a linguagem da mídia
e o que é possível de afirmar ao interpretar no objeto como está o sujeito,
o contexto, a pedagogia e etc. Palavras-chave: educação, gênero, hora de
aventura, infância, representação do feminino.

Notícias e Interpretações: a teia de influências sobre o fato


em No Singular (2012)

Samuel Nogueira Mazza (Universidade Federal de Uberlândia)

O campo da história, após a escola dos Annales, passou por algumas


transformações concernentes ao ofício do historiador, ao campo de
pesquisa da disciplina, à sua metodologia de pesquisa, à sua escrita e
principalmente em relação às fontes e objetos para o trabalho histórico.
Seria imprudente dizer que a diversificação das fontes somente começou
com os Annales, por outro lado, também é honesto considerar que esse
processo foi intensificado com a historiografia francesa dos anos de 1930.
Nesse processo de diversificação dos objetos de pesquisa, o campo da
história, passou a considerar as linguagens artísticas uma fonte possível de
análise, capaz de indicar ao pesquisador determinadas características de
seu momento de confecção. Se valendo de que as obras de artes (nas suas
mais variadas linguagens) são capazes de produzir conhecimento, nada
mais produtivo do que o historiador se debruçar sobre essas obras para
343

entender que conhecimentos produzidos são esses, quais as perspectivas


e projetos envolvidos e qual o “aparto intelectual” é atribuído, ou está
presente na obra. Porém, não nos é possível, como historiadores,
compreender todo um contexto histórico a partir, apenas, da obra
artística, pois ela, por si só, se mostra insuficiente para escutarmos todas
as influências presentes em um dado momento histórico. Na busca pelo
“processo de significação”, que De Certeau (1982) nos chama a atenção,
o discurso historiográfico é capaz de articular diversos fatos, ou indícios,
que na confecção da narrativa propõe um determinado sentido. E é a essa
tarefa que nos deteremos nessa comunicação. A pesquisa como um todo
objetiva analisar e compreender o registro fílmico do espetáculo “No
Singular” (2012), da Quasar Cia. de Dança. Companhia que surge na
cidade de Goiânia – GO no ano de 1982 e que ao longo de mais de trinta
anos produziu coreografias que são conceituadas como dança
contemporânea. Porém, o espetáculo não é capaz de nos fornecer
informações o bastante para compreendermos o processo histórico na
qual a Quasar está inserida, no momento de estreia de “No Singular”. Para
tanto, nos voltamos para as notícias de jornais, publicadas no “O Popular”
(um dos jornais de maior circulação no estado goiano) na época de estreia
e quando das reapresentações do espetáculo. De antemão percebemos por
essas notícias que existem interpretações do espetáculo, anteriores a
estreia, que orientam o olhar do público para o momento em que forem
assistir a obra encenada. O que nos preocupa nesse sentido é: quais são
essas interpretações? E por quê, ou melhor, com qual objetivo elas foram
publicadas?

Seis Personagens à procura de um autor e a Encenação do


TBC em 1951: perspectivas de análise

Elisa Maura Ferreira de Mello Cesar (Universidade Federal de


Uberlândia)

Neste trabalho almejamos analisar os índices de modernidade na


encenação de Seis Personagens à procura de um autor de Luigi Pirandello
pelo Teatro Brasileiro de Comédia (situado na cidade de São Paulo) em
1951, pensando na transição da cena teatral paulista e na maneira como os
344

críticos estabelecem este momento como um divisor de águas no teatro.


Na medida em que em 1943 já havia a construção do “marco da
modernidade teatral” pela crítica especializada que toma a encenação
realizada por Zbigniew Ziembinski do Vestido de Noiva de Nelson
Rodrigues na cidade do Rio de Janeiro como o ponto de nascimento desse
marco. O problema do estabelecimento de tal marco, segundo Rosangela
Patriota e Jacó Guinsburg, está na ideia de que ele delimita índices para
pontuar o que é ou não moderno, deixando de contextualizar o momento
da produção teatral. De modo que a historicidade fica limitada ao antes e
depois em relação ao “marco” forjado na encenação do Vestido de Noiva.
Isso fica evidente, por exemplo, na interpretação ofertada por Décio de
Almeida Prado em O Teatro Brasileiro Moderno, no qual o autor
determina o que é Teatro e o que deve ser considerado para a história do
teatro. A mesma cidade que em 1922 havia discutido a questão do
moderno na perspectiva do modernismo, ou seja, pensando produção
cultural como instrumento para a afirmação da Cultura e valorização do
nacional, como indica Maria Arminda do Nascimento Arruda, quase trinta
anos depois, vai voltar-se para a questão do moderno pela ótica da
modernidade, onde questões sociais, econômicas e culturais são utilizadas
como baliza para a determinação do termo. Assim, no entendimento da
autora, há uma importante diferença entre modernismo e modernidade,
na medida em que o primeiro versa sobre a produção cultural e o segundo
faz-se pela leitura urbano-industrial da cidade e sua relação com a cultura.
Nesse sentido, pretendemos nos debruçar sobre o debate da modernidade
e seus índices na metade do século XX em São Paulo, observando os
aspectos e agentes sociais pela encenação de Seis Personagens à procura
de um autor pelo TBC. Assim, nessa comunicação pretendemos fazer uma
análise através das críticas teatrais, pensar a montagem da peça, a cena
teatral paulista e a formulação do marco de modernidade teatral.
345

Túmulo dos Vagalumes (1988): possíveis representações e


memória

Rafael Colombo Martineli (Universidade Federal de Uberlândia)

Acredita-se que memória se manifeste em diferentes formas de linguagem,


em especial nas imagens. Esse trabalho busca pensar as questões de
possíveis representações, identidades e memórias do Japão Pós-Guerra a
partir de uma produção cinematográfica e, dessa forma, das narrativas
propostas pelas linguagens das imagens em movimento e as manifestações
das linguagens de memória. Para isso, utilizaremos o filme Hotaru no haka
(Túmulo dos Vagalumes, 1988). Túmulo dos Vagalumes, escrito por
Akiyuki Nosaka em 1967 e eternizado pelo Studio Ghibli como um filme
de animação sob direção de Isao Takahata (1988), é uma obra
parcialmente autobiográfica, que acompanha dois irmãos que perdem a
mãe nos bombardeios incendiários e o pai está lutando na guerra com a
marinha japonesa. Acompanhamos o filme a partir da perspectiva de Seita,
irmão mais velho, que nos informa a fatalidade dos eventos nos primeiros
segundos do filme: tanto ele como a irmã, Setsuko, não sobrevivem.
Partindo disso, o filme nos leva a refletir algumas questões: pensar a
animação como forma de expressão desse momento histórico, ou seja,
como uma forma possível de representação e, a partir de uma perspectiva
cultural japonesa, relacionar como o filme de animação foi escolhido para
tal; pensar o filme como um acesso à uma memória que remete ao evento,
uma vez que, no pós-guerra, a produção cultural (pensando nos mangás,
filmes, animês, etc) passariam a ver a derrota japonesa como um tabu,
evitando este assunto e entendendo como se ele e suas atrocidades
praticadas nas invasões chinesa e coreana jamais tivessem acontecido, fato
de que o povo japonês, derrotado pela guerra, queria apagar os traços da
vigência de outros ideais; podemos pensar a memória como uma estratégia
de lidar com a dor ou como uma memória ressentida com relação aos
Estados Unidos? Portanto, são configurações imagéticas, num ponto de
intersecção entre razão, sensibilidade, afetividade e está inserida em um
discurso político e cultural que lhe é configurado em sua época de
produção. Retoma-se o processo conturbado de término da Segunda
Guerra, ou seja, o filme é construído por um viés que remete um
conhecimento de vivência histórico, ou memória de um passado real,
346

retratado e retomado naquele momento de elaboração (1945 e 1988), e, a


partir dessas obras, dotadas de linguagens de memória, que configuram,
portanto, suporte para as identidades (sociais, políticas, culturais,
individuais) que necessitam ser ficcionadas, para modelar histórica e
esteticamente figuras sensíveis e visíveis, através das quais ganham corpo
e movimento, por assim dizer, próprios (Rancière, 2005).

A Representação das Professoras no Cinema – Uma Análise


Contrastiva Entre Brasil e Estados Unidos

Bruna Loreny de Oliveira (UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO


GROSSO)

Este trabalho é o anteprojeto de pesquisa do mestrado em educação.


Trata-se de um estudo sobre como as representações das professoras
foram construídas no cinema ao longo da década de 2000. Para essa
análise, buscamos primeiramente nos embasar no estudo histórico do
cinema, como este chegou ao que é hoje, em seguida uma busca pela
história da mulher e como ela foi colocada no mercado de trabalho como
professora - procuramos entender como ocorreram esses processos no
Brasil e Estados Unidos, a influência do cinema na criação e perpetuação
de estereótipos. De acordo com o estudo bibliográfico desenvolvido, é
possível mostrar que ocorreu uma naturalização do discurso de que o ser
professora tinha relação com uma vocação feminina, e esse discurso foi
legitimado pela medicina, política, religião e governo. De acordo com
Bakhtin (1988) ‘’todo discurso é ideológico. ’’ (Bakhtin, 1988, p.36), Essa
pesquisa tem como objetivo compreender historicamente a relação
construída do feminino com a profissão de professor, problematizar os
estereótipos e o que se espera dessas profissionais, constatar se houve
mudanças no cinema, no que diz respeito à representação das professoras
no decorrer da história e pesquisar o cinema americano e o brasileiro, para
sabermos as diferenças e semelhanças em relação ao ser professora. Para
o embasamento teórico se utilizou Bakhtin (2000), Berger (1984), Duby
(1995), Foucault(1989), Mendes (2013) e Mondale (2001). Os métodos
utilizados na pesquisa exploratória, explicativa e descritiva. A pesquisa que
347

ainda está em andamento, pode-se perceber inicialmente que existem


alguns estereótipos nos filmes quando se trata de professoras, elas são
retratadas de forma similar, como salvadoras dos alunos, que deixam a
vida pessoal em prol da escola/ alunos e possuem características ligadas a
maternidade, porém foram encontrados filmes recentes que desconstroem
esse discurso estabelecido, em um dos filmes a professora retratada é uma
Drag Queen, e no outro ela é lésbica, esses filmes se contrapõem a maioria
dos filmes, que estabelecem uma imagem simplista do ser professora, não
respeitando a diversidade.

A apropriação da Joana d'Arc sob o olhar do teatro épico de


Bertolt Brecht

Welson Ribeiro Marques (Universidade Federal de Uberlândia)

Ao priorizar as relações entre a História e as Linguagens, com uma


abordagem que procura compreender a historicidade das obras, prioriza-
se em investigar a apropriação e a forma com que Bertolt Brecht (1898 –
1956) trabalha a questão do herói em relação a figura histórica da Joana
d’Arc. O conceito de apropriação será utilizado para pensar como o
dramaturgo apropria-se da figura de Joana d’Arc para utilizá-la no seu
teatro, mas especificamente em três escritos dramáticos, sendo eles, a
saber: A Santa Joana dos Matadouros (1929 – 1931), As visões de Simone
Machard (1941 – 1943) e O processo de Joana d’Arc em Rouen, 1431
(1952). Tais peças possuem como elemento em comum a composição que
o dramaturgo faz da Joana d’Arc, a reconstruindo como personagens
diferentes, sendo a personagem principal de cada uma das três obras que
se situam em temporalidades e espacialidades diferentes. Tal apropriação
envolve a teoria desenvolvida por Brecht para o seu teatro e as
características da sua escrita que devem ser compreendidas a partir das
experiências que o dramaturgo vivenciou. Assim, o dramaturgo trabalha
com três versões diferenciadas de interpretação da Joana d’Arc. Com a
primeira dessas peças, A Santa Joana dos Matadouros, temos, na cidade
de Chicago no final da década de 1920, Joana Dark que faz parte dos
Boinas Pretas (grupo religioso que prega, além da religião, a caridade e a
salvação divina), que começa com uma personalidade inocente que quer
348

ajudar os desempregados pedindo ajuda aos industriais, e graças à sua


curiosidade, mostrada no seu mote “Eu quero saber”, fica sabendo como
o sistema funciona e que só é possível mudar o mundo através da ação.
Porém, toma consciência disso apenas à beira da morte. Já na segunda
obra, As visões de Simone Machard, a personagem principal é a que possui
o seu nome no título, Simone Machard. Simone é uma garota que trabalha
em uma hospedaria na cidade de SaintMartin, em junho de 1940, e está
lendo um livro sobre Joana d’Arc, intitulado A Virgem de Orlens. Com o
avanço das tropas nazistas Simone começa a ter sonhos (ou visões
conforme o título da peça) sobre a saga da Joana d’Arc, só que com ela no
papel da Joana e com as pessoas a sua volta substituindo as personagens
do livro, no qual recebe a missão de defender a França. E com o último
texto, O processo de Joana d’Arc em Rouen, 1431, a personagem
apresentada é a própria Joana d’Arc durante a sua prisão, o seu julgamento
e a sua execução. Brecht desenvolveu o seu teatro e escreveu as suas peças
a partir das suas experiências, por isso compreender quais eram os
contextos de escrita de cada peça é fundamental para poder problematizar
como ele apropria, retira o caráter heroico e religiosa da Joana d’Arc e a
humaniza nas suas peças.

Educação, redes sociais e mídia: importantes instrumentos


para a prática educacional e para (des) construção da
cidadania

Enival Mamede Leão (Universidade Estadual de Goiás)

Em tempos de redes sociais, de compartilhamento aleatório de


informações, de fake news circulando pra todos os lados e basicamente
em vários meios de comunicação, de ascensão dos extremismos, de
reprodução de desigualdades, e o uso político do medo, é fundamental
pensarmos na responsabilidade de veiculação das ideias e das informações.
Nesse sentido, alarmantes ataques à democracia e à profissão docente
colocam para os historiadores o desafio de pensar as mídias dentro dos
projetos políticos e dentro da disputa de poder. Esse debate propõe uma
introdução ao amadurecimento da reflexão midiática: os educadores
precisam perceber as empresas de comunicações e as informações
349

veiculadas como históricas, ou seja, pertencentes a uma estrutura, a uma


conjuntura, possuindo interesses políticos próprios. Considera-se aqui
fundamental que os educadores e os pensadores de um modo geral saibam
distinguir as informações enquanto um discurso, ou seja, parte de alguém
e é direcionado a um público. Propõe-se, num primeiro momento, uma
reflexão a partir dos autores que estudaram as mídias como parte de
veiculação ideológica, ou seja, de domínio de uma classe sobre a outra.
Em um segundo momento, será realizado um debate mais aprimorado
entre acadêmicos e professores na e pra academia. Texto Completo:

A construção da narrativa de Milton Hatoum: aspectos da


ditadura militar na cidade de Manaus presente na obra Dois
Irmãos (2000)

Lucas da Silva Luiz (UNIVERSIDADE FEDERAL DE


UBERLÂNDIA)

A relação entre História e Literatura é um tema em destaque na


historiografia, sobretudo a partir da História Cultural. E pensando nas
relações entre os desdobramentos da História, o presente trabalho, tem
por finalidade analisar a obra do escritor manauense Milton Hatoum, Dois
Irmãos (2000), e as relações históricas contidas no romance, desse modo,
busca-se discutir como Hatoum (2000) trabalha na obra a questão
histórica, como a situação de Manaus-AM na década de 60, o período pós
Segunda Guerra Mundial, o ciclo do látex na região norte, e sobretudo o
olhar da ditadura militar através do livro Dois Irmãos. Nesse sentido,
procura-se discutir o conjunto da obra, a urdidura do enredo, a narrativa
e a construção da cidade de Manaus a partir de Hatoum. Também se
buscará encontrar no presente projeto, identificar os elementos
tradicionais e culturais das cidades de Manaus, como seu cenário, cultura,
representação, política, assim como elementos que permitem relacionar a
conjuntura da obra, em relação ao estudo entre a obra e seu
condicionamento social, para isso recorreremos a Antônio Candido, na
tentativa de correlacionar a literatura e sociedade. Outra discussão
possível, seria a reflexão sobre as narrativas, ficção e representação, e a
construção dos Dois Brasil, para tanto, seria necessário recorrer a autores,
350

como Hayden White, Roger Chartier, entres outros que analisam/refletem


sobre o uso da narrativa como representação histórica. Vale destacar os
poucos trabalhos relacionados com a obra do escritor Milton Hatoum,
sobretudo no campo da História. Nesse sentido é necessário
observar/identificar elementos nas obras de Hatoum, que permitam
ampliar o campo do historiador, principalmente no que diz respeito às
linguagens artísticas. E com isso, pretende-se esmiuçar a obra e conhecer
a narrativa, o espaço, personagens, elementos que compõem a obra, a
releitura de Hatoum durante o regime militar na região norte do pais, a
Segunda Guerra Mundial, processo de modernização/urbanização no
Brasil e as consequências para a região norte do país. E por fim, ao propor
um debate acerca da obra de Hatoum, procura-se recuperar as nuances da
região norte, no sentido de uma História Regional, elencando sua cultura,
crenças e costumes, além de também procurar entender a construção da
cidade norte do pais, como a política e economia. Assim, há uma tentativa
historiográfica de analisar a ditadura militar no norte do pais a partir da
obra Dois Irmãos (2000).

Ecos e contradições: debates e representações literárias


sobre a “democracia racial”

Larissa Leal Neves (IF Goiano)

Lançado em 1933, Casa grande e senzala (2015), do sociólogo Gilberto


Freyre, rapidamente impregnou na sociedade brasileira a crença na
“democracia racial”, até hoje repetida em diversas camadas sociais, seja
nos espaços de poder ou da vida cotidiana. Entre o fim dos anos de 1950
e 1960, algumas questões que estavam em voga no mundo fizeram com
que os intelectuais brasileiros louvassem cada vez mais esse mito no Brasil,
inclusive ganhando força nas páginas dos jornais: o movimento pelos
direitos civis, nos Estados Unidos, a eclosão das guerras de
descolonização, na África. Escritores que faziam parte do campo
jornalístico também ecoaram esse movimento, e é nessa camada que este
estudo foca, buscando algumas crônicas de escritores que estavam
diariamente nos jornais cariocas de 1959 e 1960 (como Fernando Sabino
(Jornal do Brasil), Eneida (Diário de notícias), Dinah Silveira de Queiroz
351

(Jornal do Commércio), entre outros) e que abrem espaço ao discurso da


democracia racial em seus textos. Porém, como escritores de caráter
literário, seu objetivo é, também e sobretudo, representar os eventos
cotidianos. No entanto, essas representações estão imersas em um
imaginário social que também é lugar de disputas de poder e que justifica
as ações no mundo (BACZKO, 1985), entendem-se, por isso, as
representações como chaves para a compreensão desse imaginário,
ligando-se, portanto, “a construção discursiva do social à construção
social do discurso” (CHARTIER, 1994). Dessa forma, comparam-se dois
tipos de texto: o opinativo, em que aparece a defesa direta, argumentativa,
da democracia racial no Brasil; e o representativo, em que por meio da
narrativa contam-se histórias cotidianas. As principais perguntas
norteadoras foram: em quais tipos de discurso existe a necessidade de
marcação do negro? O que elas significam, o que representam a respeito
do imaginário da época sobre o negro, em geral, e sobre a ideologia da
democracia racial, em particular? As crônicas opinativas entram em
contradição com as crônicas narrativas? Verificando onde aparecem
pessoas negras, quem são, como são chamadas, dialogamos com as
reflexões de Franz Fanon (2008), Clóvis Moura (1988), Abdias do
Nascimento (2017), Sueli Carneiro (2005), entre outros, a respeito de
racismo, estereótipos e invisibilidade para iluminar as representações do
negro em relação com o mito da democracia racial. Busca-se refletir sobre
como podemos penetrar mais profundamente na linguagem literária em
busca de questões históricas, sendo as crônicas abordadas como lugar de
debate de ideias e onde se constroem representações de raça, ora
conscientes – e que, portanto, tenderão a comprovar a tese defendida
pelos cronistas – ora inconscientes – e, assim, podem oferecer painéis
diferenciados, porque mais complexos.

A literatura ficcional de C. S. Lewis em As Crônicas de


Nárnia e o diálogo com sua biografia

João Marcos Salgado de Moraes (UFG)

Para a História Cultural, como já foi explicado acima, não há problemas


em usar a narrativa biográfica para a compreensão de aspectos históricos.
352

Entretanto, outro fato importante é a forma como se fará a construção de


uma narrativa histórica, que consiga filtrar aspectos da realidade mesmo
que a partir de uma obra de ficção em determinado tempo, fazendo, assim,
uma separação entre história e ficção. Para tanto, são necessários alguns
cuidados em relação aos métodos utilizados. Somente assim,
entenderemos de que forma chegamos a legitimação desse tipo de fonte
usada pela História Cultural. É importante, primeiramente, entender que
todas as narrativas sendo elas históricas ou literárias, têm inerentes a elas
uma representação sobre a realidade que a cerca. Alguns historiadores
procuram analisar a produção literária a partir da recepção desses textos
(BORGES, 2010). Dessa forma, existe uma tríade a considerar na
elaboração do conhecimento histórico, sendo a composição dela: a escrita,
o texto e a leitura. Em relação a escrita a atenção do historiador se volta
para sobre quem fala, de onde fala e a linguagem usada. Sobre o texto se
busca destrinchar o que se fala e como se fala. E a leitura se analisa a partir
de que tipo de reação seus receptores têm da obra, seja ela de
contemplação ou resistência. (PESAVENTO, 2004). Nesse sentido,
salientamos que não analisaremos neste estudo os aspectos da recepção
da obra de Lewis, nem mesmo a adaptação da sua obra para o cinema, que
reacendeu a fama de seus escritos no início do século XXI nos ateremos
apenas aos aspectos da obra em suas relações com a biografia do autor e
com as representações cristãs. As representações do mundo social, sendo
elas ficcionais ou literárias, são marcadas por múltiplos e complexos
interesses sociais, sobretudo, pelos grupos que os forjam, que tentam,
através desses discursos, impor uma autoridade, uma hierarquia um
projeto, uma escolha. (CHARTIER, 1990). A distinção entre história e
ficção para Chartier se dá de maneira clara e bem resolvida, já que para ele
a primeira tem uma preocupação em buscar uma representação adequada
do real, enquanto a segunda contém elementos de um real, mas sem uma
preocupação com ele. Entretanto, a literatura utiliza de técnicas da
disciplina histórica para dar a sua ficção um peso de realidade, ou de
verossimilhança (CHARTIER, 2009). Isso é o que acreditamos perceber
quando Lewis usa aspectos da história em sua literatura, colocando seus
personagens fantásticos a dialogar com crianças inglesas durante a
Segunda Guerra Mundial. Portanto, usar a literatura para a produção do
conhecimento histórico pressupõe refletir sobre ela, problematizá-la e
historiciza-lá. Para Chalhoub e Pereira (1998, p.7).
353

João Batista de Andrade e sua recepção cinematográfica a


obra literária de Miguel Jorge

Sabrina Alves da Silva (Universidade Federal de Uberlândia)

Este é o primeiro passo de um trabalho de pesquisa, de pós-graduação em


História, que busca no entrelaçamento entre as linguagens literária e
cinematográfica o lócus no qual se versará. A proposta é investigar a
historicidade da recepção da obra literária Veias e Vinhos (1981) de Miguel
Jorge, na escrita cinematográfica de Veias e Vinhos: uma história brasileira
(2006) do cineasta João Batista de Andrade. Buscando compreender a
relação entre lugar social e prática do cineasta, no intento de evidenciar
como estas duas instâncias estabeleceram as concepções estéticas que se
avultaram de sem sua escrita cinematográfica. Para tanto, uma das
concepções adotadas é a de recepção que, segundo Wolfgang Iser, “no
sentido estrito da palavra, diz respeito à assimilação documentada de
textos e é, por conseguinte, extremamente dependente de testemunhos,
nos quais atitudes e reações se manifestam enquanto fatores que
condicionam a apreensão de textos” (ISER, 1996. p. 7). Neste sentido, a
recepção é o que se registra do leitor mediante àquilo que lhe foi
provocado por uma obra de literatura. Assim, essa definição dá subsídio
para a pesquisa que se propõe, uma vez que se intenta examinar as
“atitudes e reações” do cineasta João Batista de Andrade ao texto literário
de Miguel Jorge. Considerando, o filme de Andrade como à “assimilação
documentada” de sua apreensão do texto de Jorge. Assim se entende o
cineasta, como aquele que lê a obra de literatura, exercendo uma função
em relação ao texto, conforme Hans Robert Jauss, a de propiciar os
conhecimentos histórico e estético das implicações da obra, que estão
permeados pela comparação advinda de outras experiências de leituras, ou
seja, é o conhecimento prévio que suscita lembranças e estabelece um
horizonte de expectativa (Cf. JAUSS, 1994. p. 23-28). Deste modo, a
escrita da obra cinematográfica, enquanto uma produção humana
localizada em uma dada época e lugar, é um dos testemunhos históricos,
que permiti pensar “a diferença através da qual todas as sociedades
separaram, do cotidiano, em figuras variáveis, um domínio particular da
atividade humana, e as dependências que inscrevem de múltiplas maneiras,
354

a invenção estética e intelectual em suas condições de possibilidade


(CHARTIER, 2002.p.94)."

Cartas de Diomar Menezes: compilação, tradução e


exposição

Márcio Issamu Yamamoto (UFU)

O objetivo desta comunicação é apresentar o projeto de extensão Cartas


de Diomar Menezes: história e tradução, desenvolvido no âmbito da
Universidade Federal de Goiás, Regional Jataí entre os anos de 2016 e
2017, detalhando os aspectos de digitalização, versão e exposição das
cartas no Museu Histórico de Jataí. Este projeto interdisciplinar foi
desenvolvido pelos cursos de História e Letras Inglês e um membro
assistente americano do Inglês sem Fronteiras (ISF), e objetivou a
tradução de cartas escritas em inglês, enviadas ao Tenente Diomar
Menezes durante a Segunda Guerra Mundial. O embasamento teórico do
trabalho foi Travaglia (2003, p.61), “cada tradução é um evento singular,
uma vez que focaliza um texto preciso e que cada texto é único,
individualizado. A metodologia foi baseada na Linguística de Corpus
(SARDINHA, 2014). Primeiramente as cartas foram escaneadas,
digitadas, traduzidas e corrigidas pelos membros. Posteriormente, uma
pasta no OneDrive foi criada para organização do Corpus, tendo como
parâmetro a autoria e data de escrita. A seguir, as cartas foram digitadas e
traduzidas para a língua portuguesa. Finalemente, o resultado parcial do
projeto foi apresentado na Primavera dos Museus em setembro de 2017
por meio de uma mesa redonda e paineis com as traduções e originais para
acesso do público.
355

Os Candangos nos escritos de Clemente Luz: o primeiro


cronista de Brasília

José Gomes do Nascimento (Centro Universitário de Brasília -


UniCEUB)

Quando se fala da história da construção de Brasília surgem muitos


sujeitos à luz da história para narrar suas experiências do período. Mas,
dessas narrativas, o candango humilde ainda carece de mais visibilidade e
de mais espaço na narrativa de Brasília, cercada de “testemunhos” de
pioneiros e grandes expoentes da grande epopeia. O candango, que tinha
sonhos e que trabalhava até 18 horas diárias num ritmo intenso para ajudar
a construir a “capital da esperança”, ganha protagonismo através da
Literatura, através das crônicas escritas diariamente por Clemente Ribeiro
da Luz de 1958 a 1961 e, posteriormente, reunidas no livro Invenção da
cidade. Diante disso, este trabalho apresenta um pouco da história dos
candangos, sujeitos indispensáveis para a construção de Brasília, por meio
dessas crônicas de Clemente Luz, considerado o primeiro cronista e
jornalista profissional da Nova Capital. A pesquisa é centrada, numa ótica
mais cotidiana e humana e na relação dos candangos com a vida do
cronista nas primícias de uma Brasília ainda em construção. Utilizamos
para a análise as crônicas presentes no livro Invenção da cidade, que reúne
um total de 83 textos escritos de 1958 a 1960. Os escritos de Clemente
eram lindos todos os dias na hora do almoço para um número imenso de
trabalhadores que circulavam pelos canteiros de obras. Clemente Luz,
considerado um candango das letras, convivia diariamente com os
trabalhadores de Brasília, frequentava os mesmos lugares como bares, já
que era um bom boêmio; escrevia e lia cartas para esses sujeitos sem
instrução; escutava histórias e estava sempre atento ao que acontecia no
grande canteiro de obras; por tudo isso, o literato deixa transparecer nos
seus escritos uma relação entre vida e linguagem, da sua vida pessoal com
a construção de Brasília e seu cotidiano. Com isso, luz ressignifica muitas
das narrativas construídas sobre esses sujeitos de Brasília. Empregou-se
na análise dos textos as noções de “Análise de Discurso” de Eni P. Orlandi
(2005); a teoria de “Gêneros do discurso” do teórico russo Mikhail
Bakhtin (1997); e a perspectiva de MicroHistória, especialmente de
“Paradigma indiciário”, trabalhada pelo historiador italiano Carlo
356

Ginzburg (1989). Esperamos que a leitura do artigo resultante da análise


proporcione mais visibilidade ao cronista, ainda pouco reconhecido em
relação ao seu significativo papel na construção de Brasília.
357

SIMPÓSIO TEMÁTICO 16

HISTÓRIA E MEMÓRIA: NOVAS PESRPECTIVAS

Coordenadores:
Rodrigo Tavares Godoi (Universidade Federal de Rondônia)
Eduardo Quadros (Universidade Estadual de Goiás)

Em pleno século XXI antigas inquietações persistem nos novos trabalhos


e pesquisas desenvolvidas entre historiadores e outros pesquisadores das
Ciências Humanas. O diálogo entre história e memória não pode ser
considerado resolvido, como sugeriu Pierre Nora (1997). Pode-se dizer
que o diálogo entre ambas depende de suas relações tensivas, de oscilações
propositivas teóricas e metodológicas. Por esse motivo, esse Simpósio
Temático deseja congregar trabalhos que coloquem em evidência
pressuposições e motivações definidoras destas relações ao mesmo tempo
integrativas e tensas. Quer-se evidenciar pesquisas que, mesmo
tacitamente, constituem-se diante da tensão do locus história e da
memória, englobando questões epistemológicas, fenomenológicas e
hermenêuticas. Não foi por acaso que Paul Ricoeur (2000) considerou a
tensão entre história e memória a partir da constituição do objeto. Falar
de memória, sob o ponto de vista da história, reanima o debate entre
objetividade e subjetividade, a capacidade representativa e a autonomia da
memória em relação ao próprio passado. A condição narrativa da história
ao tratar a memória como parte integral de seus objetos de investigação
deve responder que opções foram elencadas a fim de justificar-se, entre
aquilo Jörn Rüsen (2001) denominara de relação entre ideias e formas.
Raciocinar nas escolhas metodológicas ilumina os caminhos percorridos e
suas intenções de orientação. O intuito deste Simpósio Temático está em
propiciar tais discussões, seja aclarando as pressuposições das pesquisas,
seja o debate acerca das metodologias empenhadas.
358

O NARRAR A SI, QUAIS SUJEITOS CABEM NA


HISTÓRIA? A Literatura de Cassandra Rios Perspectivada
como uma Leitura a Contrapelo do Discurso Masculinista e
Patriarcal

Lêda Maira Batista (Universidade do Estado de Santa Catarina)


Tuany Fagundes Rausch (UFU - Universidade Federal de Uberlândia)

O presente trabalho tem como escopo analisar as obras literárias da


escritora brasileira Cassandra Rios, em especial o livro 'Eu Sou Uma
Lésbica' (1983) - narrada em primeira pessoa e sendo sublinhada pelo
protagonismo de personagens lésbicas. Nesta reflexão propomos articular
o lugar de fala da autora, o contexto histórico no qual estava inserida, os
meios de produção de suas obras, seus interlocutores - e mesmo, suas
interlocutoras - e os modos pelos quais sua literatura e as idiossincrasias
de suas personagens abordam e lidam com o universo social e político,
descrito no romance. Faz-se necessário compreender e discutir a noção
de 'experiência' a partir de sua escrita, como uma das estratégias do 'falar
de si' e de 'se colocar no centro da cena', como construção de novos
paradigmas sobre o sujeito. Concebendo a literatura como testemunho
histórico - como fizeram Sidney Chalhoub e Durval Muniz de
Albuquerque no contexto da historiografia brasileira - é de nosso interesse
repensar usos, ditos e representações constituídos em torno das categorias
'Mulheres' e 'Lésbicas' presentes nas narrativas hegemônicas da história,
propondo questões e problematizações em torno de noções já
cristalizadas. Para isso utilizaremos de um olhar interseccional para com a
nossa fonte, mobilizando identificações de sexo, raça, gênero, sexualidade
e classe para melhor enxergarmos as complexidades de falar de 'um sujeito
histórico'. Consideraremos a literatura uma linguagem que amplia a ideia
de sujeito histórico, uma vez que traz simultaneidades de temporalidades,
vivências e conflitos. Desta forma, a literatura de Cassandra Rios é aqui
perspectivada como uma leitura a contrapelo do discurso masculinista e
patriarcal da ciência histórica. Este trabalho faz parte do processo de
dissertação em artes cênicas de uma das autoras juntamente com sua
esposa, graduada em história. Assim, ademais de uma reflexão que poderia
ser "apenas" conceitual, propomos aqui o compartilhamento de reflexões
de duas mulheres com diferentes áreas de atuação, que constroem a si e a
359

seu relacionamento, levando suas vivências para além do espaço privado,


na construção de uma outra perspectiva de produção de conhecimento.

Agremiações Culturais e Memória: construções de sentidos


em torno da experiência acadêmica de J. Miguel de Matos

Gislane Cristiane Machado Tôrres (UFG)

Em dezembro de 1973, o escritor J. Miguel de Matos tomou posse na


cadeira número cinco da Academia Piauiense de Letras (Casa de Lucídio
Freitas) pondo fim à ruidosas e combativas campanhas visando a
imortalidade acadêmica. Militar aposentado, literato e cronista atuante na
imprensa teresinense, J. Miguel de Matos construiu ao longo de sua prática
escriturística sentidos em torno da vivência acadêmica caracterizando-a
como um espaço de distinção social capaz de legitimar discursos e
práticas. A produção escrita que o habilita ao sodalício, composta por
textos literários, crônicas jornalísticas, antologias e estudos biográficos
caracteriza-se como um esforço de reflexão em torno da historicidade da
literatura produzida no Estado discutindo entre outros aspectos, sobre a
existência, ou não, de temáticas e valores capazes de defini-la. Nesses
textos, J. Miguel de Matos também discute a atuação das agremiações e
instituições de cultura, apresenta as dificuldades do fazer cultural no
Estado e posiciona-se diante dos critérios adotados para distinção social
de escritores e intelectuais. A proposta deste texto é analisar seu corpus
escriturístico tomando como referência seu ingresso na Casa de Lucídio
Freitas a fim de perceber como, por meio de múltiplas táticas, este sujeito
inventa-se como literato, assume-se como candidato duas vezes derrotado
e, posteriormente, reinventa-se como escritor imortal. O aporte
documental reúne suas colaborações na imprensa local entre os anos 1960
e 1980 e os registros da Academia Piauiense de Letras, tais como
fotografias e as publicações impressas Boletim Notícias Acadêmicas e
Revista da Academia Piauiense de Letras. Encarados como fragmentos de
memória, investiga-se nessas fontes como este escritor construiu imagens
sobre sua atuação acadêmica observando as concordâncias e/ou
dissonâncias com as formas através da qual a instituição registrou em suas
publicações oficiais suas práticas. As reflexões teórico-metodológicas
360

produzidas por Roger Chartier, Michel de Certeau, Michel Pollak e Pierre


Bourdieu nos ajudam a pensar em como, por meio da escrita, este sujeito
construiu imagens de si, produziu significados em torno da imortalidade
literária e deu sentido à sua trajetória acadêmica. A pluralidade de sentidos
que emerge dos escritos produzidos por J. Miguel de Matos, pela
Academia Piauiense de Letras e por seus contemporâneos caracterizam a
memória de sua atuação ora em disputa, ora silenciada no contexto dos
jogos de poder presentes no cenário cultural piauiense.

Memória e Sensibilidade no conto "Felicidade Clandestina"


de Clarice Lispector

Rafael Augusto Fachini (Universidade Federal de Uberlândia)

Segundo o dicionário Houassis, memória é definida como “faculdade de


conservar e lembrar estados de consciência passados e tudo quanto se
ache associados aos mesmos”, ou seja, a memória é um processo biológico
e psíquico humano onde conseguimos por meio de nossa faculdade
racional, rememorar ações e experiências que estão inscritas no passado.
Mas, como se dão tais questões? Quais são seus limites e suas tensões?
Quando pensamos a memória no campo de estudos historiográficos,
precisamos considerar que tal questão está inserida em duas linhas de
forças que se apropriam deste conceito para estuda-lo. De um lado
encontra-se a tradição francesa, apoiada principalmente na expressão
cunhada por Pierre Nora “lugares de memória” e, do outro, uma tradição
mais anglo-saxônica da história oral, porém, ambas estão inscritas dentro
de uma tradição sociológica fundada por Maurice Halbwachs e seus
“quadros sociais da memória”. O que há, portanto, quando pensamos um
“estudo da memória” são campos que usam deste conceito para
fundamentar suas teorias. Mas, não possuirá a memória uma questão
maior? Que não se acomoda no conhecimento “engessador” da história?
Se a memória causa certo desconforto ao historiador quanto a sua
dimensão teórica, quando esta aproxima-se da imaginação (campo
destinado à sensibilidade) torna-se praticamente uma questão impossível
de ser compreendida por aqueles que acreditam ser a história uma ciência
“rígida”, uma vez que para tais historiadores os sentimentos não são
361

passíveis de análises históricas. Paul Ricouer vai analisar e mostrar que a


questão da imaginação como categoria “menor” da memória tem sua raiz
numa filosofia anterior, tanto em Platão como em Aristóteles há um
rebaixamento (ou negação) da imaginação como conhecimento. Essa
tradição de entendimento da imaginação como uma categoria rebaixada
em relação ao conhecimento intelectual ainda ecoa e se faz presente nos
estudos históricos atuais. A proposta do trabalho, portanto, é pensar a
memória no conto Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector, buscando
pensá-lo por um viés que não está em consonância com tais abordagens
que a enquadram e a utilizam sem levar em consideração suas linguagens
e dimensões próprias. Apoiado no texto “Os tempos da Memória”, da
professora Jacy Alves de Seixas, buscarei pensar em que medida Lispector,
em seu conto, possuiu uma abordagem que está em consonância as
questões elucidadas por Seixas, assim como pelo literato Marcel Proust.

Memórias da Guerra do Paraguai em Goiás, 1870-1983: das


celebrações populares à literatura de ficção

José Atanásio de Souza Filho (PPGH UFG)

Este trabalho resulta de investigações sobre os acontecimentos


relacionados à deflagração da Guerra do Paraguai e as implicações deste
evento no âmbito da província de Goiás. Nosso objeto está nas ações de
memória que se materializaram em celebrações populares, pelo fim da
guerra, ou relatos escritos por editores e articulistas de jornais, quando
noticiavam histórias de ex-combatentes goianos requisitando do governo
seus direitos inscritos na legislação, ou quando noticiavam sobre a
arrecadação de dinheiro para viúvas e órfãos de guerra. Também se
encontra em recordação coletiva, tal qual a celebração, na capital da
província, do ato de colocação da bandeira dos voluntários da pátria no
altar da matriz de Santana, em 23 de setembro de 1870. Ali estava a
população em praça pública, a bandeira dos voluntários goianos da pátria
sendo conduzida pelas ruas da cidade e cortejada pelas pessoas nas portas
de suas casas. Depois, recebida pelas autoridades civis, militares e religiosa
para em seguida ser depositada no altar da matriz. Memória dos atos de
bravura e desgraça dos voluntários goianos que participaram da Retirada
362

da laguna. Presença do ausente (RICOEUR, 2007) que se estende no fluxo


contínuo da relação espaço-tempo na long durèe (GIDDENS, 2009) da
vida individual e coletiva quanto à representação do acontecimento guerra
no mundo social goiano. (CHARTIER, 2015). Resulta daí as tensões do
percurso espaço-tempo do presente contínuo das ações de memória, em
cada presente-passado (CATROGA, 2015) e das implicações do tempo de
guerra em Goiás. Ações de recordação dos efeitos daquele evento que se
tornam cada vez mais distantes. No bojo dessa circunstância, apontamos
alguns momentos de elaboração de atos de memória do impacto da
Guerra do Paraguai em Goiás. O romance Os voluntários (1880-1881),
publicado como folhetim no jornal Correio Oficial pelo alferes Manoel
Cavalcante de Albuquerque. O texto memorialístico Um herói na guerra
do Paraguai, de Zida Augusta do Nascimento (IHGG, 1971). A
dissertação de mestrado, A participação de Goiás na Guerra do Paraguai
(MARTINS, UFG, 1983) e o romance Sombras em marcha: na vivência
da fuga, de Rosarita Fleury (1983). É em torno destas formas de
rememorar as implicações da Guerra do Paraguai em Goiás que nos
animamos a aportar, neste Simpósio Temático, nossa investigação em
história e sua relação com os efeitos da memória nas ações individuais e
coletivas, nas práticas jornalísticas, nas celebrações e nas narrativas desse
passado via a história, a memória e a ficção.

Sentimentos, Ressentimentos e Ouvintes: Música Caipira


em (Re)Vista

Marilena Julimar Fernandes (UEG/Pires do Rio)

Este artigo propõe o estudo da Música Caipira produzida durante o


período de 1957 a 1963, gravadas pela dupla Pedro Bento e Zé da Estrada
e regravadas entre 2002 e 2006 pela mesma dupla. As questões colocadas
para o trabalho são: Como perceber a manifestação de (res) sentimentos
a partir das letras de algumas músicas caipira? Como pensar o significado
desses (res) sentimentos para quem ouvia e ouve essas músicas? Como
pensar o momento da produção dessas músicas relacionando-o com os
ouvintes? É possível pensar a relação do campo e da cidade como duas
dimensões opostas? Como saber se essas canções refletem as mudanças
363

ocorridas no campo? Como se dá (se é que se dá) a idealização do campo


nessas músicas/textos? E como os ressentimentos aparecem nessa
relação? Para tanto, propõe-se utilizar fontes de natureza