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Ciência & Ensino, vol.

1, número especial, novembro de 2007

PARA PENSAR AS CONTROVÉRSIAS CIENTÍFICAS


EM AULAS DE CIÊNCIAS
Mariana Brasil Ramos
Henrique César da Silva

1. Controvérsias científicas sob a explícita de contradições ocasionadas pelo


perspectiva dos estudos sociológicos emprego dos conhecimentos provenientes
da ciência
desses campos, antes tidos como benéficos
Pesquisas sobre como se produz o e seguros e, também, pela amplitude que a
conhecimento científico tiveram um apropriação midiática dos discursos
aumento expressivo durante a década de científicos vinha ganhando há algumas
70, época em que também começa a se décadas principalmente com o rádio e a
destacar o enfoque nas controvérsias TV, que voltam a atenção de todos para
(Velho & Velho, 2002). Esse aumento está essas questões.
provavelmente associado a um momento Para Velho & Velho (2002), os
histórico no qual grandes esperanças estudos das controvérsias técnicas e
depositadas no desenvolvimento técnico- científicas, no âmbito dos estudos sociais
científico passam a serem questionadas, da ciência, emergem como foco de análises
tendo como pano de fundo o mal-estar destes referenciais, “pois é mais fácil
causado pela associação da C&T à guerra e identificar as influências sociais
à agressão ao meio-ambiente, como (interesses e valores) sobre o conteúdo do
colocam Auler e Bazzo: conhecimento em situações de disputa do
que nas de consenso” (Velho & Velho,
Após uma euforia inicial com os 2002, p. 126). Estes autores também
resultados do avanço científico e retomam “que o enfoque <nas
tecnológico, nas décadas de 1960 controvérsias> permitiria entender a
e 1970, a degradação ambiental, maneira pela qual o status do
bem como a vinculação do desen-
conhecimento científico dependia de
volvimento científico e tecnológi-
co à guerra (as bombas atômicas, negociações e debates entre as partes
a guerra do Vietnã com seu na- interessadas, envolvendo diferentes
palm desfolhante) fizeram com segmentos da sociedade” (Velho & Velho,
que a ciência e a tecnologia (C&T) 2002, p. 127). Dessa forma, percebe-se
se tornassem alvo de um olhar que os interesses dos pesquisadores dessa
mais crítico. (Auler & Bazzo,
área voltam-se para a identificação das
2001, p. 1).
relações de produção do conhecimento
Nesse cenário, também começam a técnico-científico dentro da sociedade e
se tornar mais comuns os estudos de suas influências e interferências mútuas,
controvérsias tecnocientíficas, talvez, enquanto atividades sociais.
exatamente, por essa emergência tão Narasimhan (2001) define
controvérsia científica “como uma disputa tratem de características inerentes à
conduzida publicamente e mantida academia (teorias, métodos, regulação
persistentemente, sobre um assunto de entre pares, publicações, hipóteses, entre
opinião considerado significativo por um outras), ele utiliza a categoria “fatores
número de cientistas praticantes” epistêmicos” que influenciam o
(Narasimhan, 2001, p. 299). Esse autor andamento das controvérsias
ainda destaca três implicações dessa (Narasimhan, 2001). E, quando se refere
definição: levando em conta o período de às questões que seriam externas à
duração da controvérsia, esta é levantada dinâmica dessa comunidade, e, mesmo
como um evento histórico e, por assim influenciam os debates técnicos
conseqüência, sua análise deve ser (mesmo que os técnicos em questão não os
histórica; a controvérsia levanta o desejo reconheçam enquanto importantes) ele
dos envolvidos em demonstrar os bons utiliza a categoria de “fatores não
fundamentos das suas alegações epistêmicos” para classificá-las.
epistêmicas e estas trazem certos valores; Destacamos que apesar do autor,
e, uma controvérsia científica é um evento nesse artigo, trabalhar com a idéia de
público (Narasimhan, 2001). Sobre essa como os fatores não epistêmicos (externos
última implicação, complementa: ao meio científico) influenciam em maior
ou menor escala o andamento das
Nenhuma discordância, mesmo controvérsias, ele se detém, através de
que profunda, pode adquirir o suas análises, na influência desses fatores
status de controvérsia a menos
no modo de pensar dos cientistas, dando
que haja um envolvimento ativo
da comunidade <científica>. A destaque ao papel dos mesmos nas
natureza protraída de uma con- mudanças que estes desencadeiam no
trovérsia a investe de um caráter mundo dos especialistas, técnicos e
histórico e a participação da co- cientistas: ascensão e rejeição de teorias;
munidade <científica> dá a ela mudanças metodológicas; maior ou menor
uma dimensão social crucial. O
status conferido dentro de uma academia
conflito de alegações epistêmicas
faz dela um evento cognitivo. As- a esse ou àquele pesquisador. As
sim, uma controvérsia congrega mudanças que ocorrem dentro da
toda uma gama de forças que im- academia poderão, também, desencadear
pulsiona a ciência para frente. mudanças num âmbito social mais amplo.
(Narasimhan, 2001, p. 299). Porém, nesse trabalho, não se observam
tanto outras instâncias que influenciam e
Essa definição pode situar as
são influenciadas pelas controvérsias
controvérsias científicas dentro de uma
científicas. Essa visão mais internalista
visão internalista: elas dizem respeito à
delineia bem o caráter “científico” de tais
academia e trata-se de conflitos
debates, suas influências na academia e na
acadêmicos, no sentido de restringirem-se
produção de conhecimento acadêmico,
à comunidade científica. Sofrem, porém,
constituindo um dos vieses de estudo de
influências de fatores externos e internos
controvérsias no âmbito da sociologia da
ao meio acadêmico. Quando esse autor se
ciência.
refere às influências de questões que
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Um esforço de inserção destes atividades técnico-científicas como


estudos em salas de aula de ciências, práticas sociais imersas num sistema de
mesmo considerando as limitações que o embates políticos e culturais mais amplos,
ensino formal possa impor a este tipo de essa análise tende a tornar-se parcial. Sob
prática, pode significar alguns avanços na nossa perspectiva, em CTSA, não se trata
busca da construção de uma visão de avaliar as influências da sociedade na
diferenciada de C&T por parte dos comunidade científica, mas sim, de
estudantes. Uma abordagem das repensar essas barreiras e limites entre o
controvérsias, mesmo que numa “externo” e o “interno”. O termo
perspectiva mais internalista pode ajudar “científicas” só contribui para relegarmos
a problematizar idéias de neutralidade, às mãos de especialistas controvérsias que
objetividade e imutabilidade dos são, no fundo, sociais. Estando a ciência
conhecimentos científicos, tão presentes intrinsecamente enraizada na sociedade
nas concepções de estudantes acerca de estará também a comunidade científica
conhecimentos técnicos e científicos envolvida nos debates de questões
(Castelfranchi et al, 2002). relacionadas à mesma. Mas, esse
Como exemplo, Narasimhan (2001) enraizamento na sociedade não significa
discute a controvérsia debatida entre os automaticamente a inclusão de outras
cientistas Charles Darwin e Louis Agassiz, vozes e outros atores que não apenas os
sobre as “origens geológicas das marcas cientistas no caráter público das
paralelas nos lados de algumas montanhas controvérsias.
em Lochaber, Escócia, também conhecidas A diferença da abordagem de Nelkin
como as estradas paralelas de Glen Roy” (1989) sobre controvérsias científicas e
(Narasimhan, 2001, p. 301). Ele traz uma tecnológicas fica evidente pelos próprios
narrativa sobre como os conflitos assuntos que aborda para análise:
emergem, lista os atores envolvidos construção de um aeroporto numa área
(cientistas), apresenta trechos de cartas e metropolitana no Canadá, alocação de lixo
publicações originais sobre as questões e nuclear proveniente de usinas, utilização
outras análises prévias sobre o fato. de tecnologia de DNA recombinante nas
Tomando como exemplo essas análises, pesquisas científicas. Essas controvérsias
poder-se-ia discutir, a partir de seus (que são compreendidas como técnico-
estudos de caso, as negociações que são científicas pelo envolvimento de
travadas no âmbito acadêmico para a especialistas na constituição da tomada de
consolidação, recusa e proliferação de decisões políticas sobre esses assuntos)
conhecimentos científicos. O acesso às podem ser entendidas, à primeira vista,
argumentações produzidas por cientistas como “controvérsias sociais”, ou mesmo
em situações de divergência e conflitos no “controvérsias políticas”.
processo de produção de conhecimentos Quando se amplificam as relações
pode significar uma importante entre os conhecimentos científicos e as
contribuição desses estudos para o ensino decisões políticas que envolvem um maior
de ciências. grupo social (como a comunidade que vive
Por outro lado, se pensarmos as na região onde vai ser depositado lixo
tóxico), as barreiras entre os estabelecidas entre Ciência, Tecnologia,
conhecimentos científicos e uma Sociedade e Ambiente, ainda influencia de
população de não-especialistas que maneira importante alguns modos de
necessita desses conhecimentos para olhar para essas instâncias. Dessa forma,
decidir sobre seu futuro correm o risco de concordamos com Martin & Richards
cair por terra. Nessa abordagem, as (1995) quando afirmam que:
relações entre ciência, tecnologia,
sociedade e ambiente parecem se tornar Tradicionalmente, o especialista
mais explícitas, dando margem para ações neutro, desinteressado e objetivo
foi promovido – nem tanto pelos
educativas em outra perspectiva.
próprios cientistas – como árbitro
Em nosso país existe uma cultura racional e autorizado de disputas
historicamente constituída de delegação públicas sobre assuntos científi-
de decisões às mãos de especialistas e cos e técnicos. Mas esse velho ide-
políticos. Acreditamos que essa cultura al de apelação aos fatos e sua in-
seja reforçada de forma significativa pelos terpretação por expertos credibili-
zados tem sido erodido pelas cres-
modos como somos formados em ciências,
centes limitações óbvias dos espe-
muitas vezes, sob uma abordagem cialistas e do conhecimento espe-
positivista de C&T. Sob a perspectiva cializado para resolver assuntos
positivista, C&T podem ser entendidas de controvérsia pública. Há agora
como atividades objetivas e neutras que uma percepção pública difundida
envolveriam a construção de um saber de que os especialistas podem dis-
cordar e discordam, de que eles
racional, baseado exclusivamente em
não são infalíveis em virtude de
evidências empíricas. Esse saber visaria à seu acesso especialista a alguma
busca de uma verdade. Essa função de metodologia científica rigorosa
busca seria designada a um grupo social que pode garantir sua objetivida-
definido – os cientistas – capazes de, de e que seu aconselhamento “de-
através da utilização de um método, sinteressado” pode ser influencia-
do por considerações profissio-
descrever a realidade tal como ela é, nais, econômicas ou políticas.
independentemente de suas crenças e (idem, p. 506)
valores, seus posicionamentos ideológicos, .
suas posições sociais. E, com Martin (2000), quando
Acreditamos que esse modo de olhar afirma que:
a produção científica – o viés positivista –
não dá conta de explicar as diferentes É lugar comum nos estudos da ci-
influências que o conhecimento científico ência que ‘ciência’ e ‘política’ es-
tão interligados, com, por exem-
sofre e imprime pela/na sociedade. Essa, plo, conhecimento científico sen-
porém, é a visão mais difundida, ainda do moldado por fatores sociais e
hoje, acerca da C&T, inclusive no que diz tomadas de decisão sendo influ-
respeito ao seu ensino, ainda que enciadas por alegação de conheci-
indiretamente. E, apesar de compreender mento, e até pela distinção con-
ceitual ser rejeitada. Contudo, há
que ela vislumbre apenas uma parcela da
uma percepção de grande alcance
enorme complexidade de relações fora dos estudos de ciência de que
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conhecimento científico é ampla- listas se tornam envolvidos. E


mente autônomo em relação a in- muitos deles se tornam envolvi-
fluências sociais, uma percepção dos não só como consultores ou
alimentada por ‘trabalho de fron- supridores de conhecimentos es-
teira’ através do qual os cientistas pecializados, mas como defenso-
procuram distinguir ‘ciência’ de res ou oponentes abertos e com-
‘não ciência’ e fixar reivindicação prometidos de um lado ou do ou-
de autoridade exclusiva sobre do- tro, como participantes ativos do
mínios de conhecimento. (idem, debate. (Martin & Richards, 1995,
p. 207). p. 506).

Dessa forma, os debates científicos Nesse contexto, destacamos que


passam a ser pensados num outro nível de apesar de termos até então, tomado como
circulação: discussão de problemas locais, exemplos controvérsias da ordem de
esferas governamentais, veiculação políticas públicas, acreditamos que a
midiática, entre outras instâncias tomada de decisões não seja uma ação
envolvidas na consolidação de exclusiva desses momentos. Desejamos
controvérsias que deixam de ser apenas lembrar que tomamos decisões que
científicas e passam a ser controvérsias envolvem conhecimentos sobre C&T
públicas que são largamente, mas não cotidianamente, também, em escala mais
apenas, influenciadas por especialistas das individual: ao aceitarmos nos submeter a
áreas científicas. Ou, talvez... que uma medicação indicada por um
emergem como controvérsias públicas e especialista em medicina; ao adotarmos
ganham o status de científicas pelo hábitos de diminuição de consumo; ao
envolvimento de especialistas nas comprarmos um novo telefone celular; ao
possíveis tomadas de decisões. Sobre essa utilizarmos camisinhas como método de
questão, Martin e Richards pontuam que, prevenção de doenças facilitadas pelo
sexo. Todas essas decisões podem ser
O central e crescentemente dispu- baseadas em conhecimentos técnico-
tado papel da ciência e tecnologia científicos que podem, também, ser alvo
na sociedade moderna fez surgir
de controvérsias.
uma amálgama de controvérsias
científicas e públicas sobre os as- É importante lembrar que até
suntos científicos e técnicos. Es- mesmo a definição de uma controvérsia é
sas controvérsias freqüentemente motivo de controvérsia. Segundo Velho &
têm implicações sociais, políticas Velho (2002), para alguns autores, trata-
e econômicas profundas e, mais e se de uma discussão entre duas partes
mais freqüentemente, elas carac-
envolvidas sobre determinado assunto, na
terizam desacordos públicos entre
expertos científicos, técnicos e qual estão em jogo suas crenças e
médicos. Quer o confronto ocorra argumentações, visão que situa a
sobre o controle da AIDS, sobre a controvérsia num domínio mais cognitivo
introdução proposta da ‘pílula de ou psicológico. Para outros, porém, as
aborto’, sobre se a ‘fusão a frio’ controvérsias não podem ser separadas de
existe, sobre a localização de um
um contexto cultural mais amplo, sendo,
aeroporto, ou sobre as implica-
ções do ‘efeito estufa’, os especia- portanto, fenômenos sociais,
historicamente determinados. 2000) é possível estabelecer uma
Acreditamos que o enlace entre essas duas dinâmica que desmitifica o conhecimento
visões possa ser o caminho mais efetivo na científico enquanto conhecimento estático,
busca desta definição. Como colocado não-histórico e independente de relações
anteriormente, há dimensões sociais políticas. As análises de situações de
importantes e há dimensões cognitivas e controvérsias científicas oferecem a
psicológicas também importantes, que sustentação para a idéia de que os
influenciarão a emergência e o conhecimentos científicos, para além de
desenvolvimento de uma controvérsia. De um conjunto de corpos teóricos
qualquer modo, é importante destacar que estabilizados e aceitos pela comunidade
há um “algo mais” no envolvimento dos científica, estão sempre, sempre em
especialistas (técnicos e cientistas) em debate, regidos por mecanismos de
questões controversas que vai além da regulação pouco “assumidos”, ou mesmo,
oferta de um “conhecimento verdadeiro” percebidos pela própria comunidade
que possa confirmar ou descartar uma científica. Os Estudos Sociais sobre
hipótese ou trazer um final às questões. E, controvérsias visam a explicitar esses
nesse sentido, alguns estudos de caso mecanismos de negociação (Velho &
provenientes dos estudos de controvérsia Velho, 2002), que envolvem
podem ser importantes, se conduzidos à posicionamento político, levantamento de
sala de aula: demonstrando o quão verbas, emoções humanas, entre outros
efêmeras, mutáveis, incompletas podem fatores que também contribuem para a
ser as certezas dos conhecimentos construção dos conhecimentos científicos,
científicos (como todas as outras certezas) tidos, mais comumente, como neutros,
e que, de qualquer forma, influenciarão de objetivos, racionais – livres de valores
maneira significativa o modo como humanos (Martin & Richards, 1995). Ao
julgaremos todos esses conhecimentos na mesmo tempo, alguns Estudos de
hora de definir nossas ações perante a Controvérsias levantam as influências
vida. destas em seu entorno social e também,
reciprocamente, indicam o papel das
atividades científicas na
2. Uma tentativa de articulação
entre os estudos sociológicos de manutenção/modificação de nossa
controvérsias científicas e sociedade (Nelkin, 1989; Martin &
abordagens educacionais Richards, 1995).
Indo ao encontro destes, ou mesmo,
Esses trabalhos no âmbito dos tendo alguns desses estudos como base,
estudos sociológicos da ciência permitem algumas linhas de ensino de ciências
um olhar mais abrangente para as questionam as formas como esse vem
atividades científicas e suas relações com a sendo historicamente articulado,
sociedade. Ao conceber as atividades exatamente por propagar visões de ciência
científicas como elementos que compõem enraizadas em pensamentos positivistas,
as relações sociais, ao invés de percebê-las desprezando, muitas vezes, as dimensões
como atividades paralelas diferenciadas e sociais – e, portanto, humanas – que
fora do contexto dessas relações (Martin,
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influenciam a construção do atividades científicas, que podem ser


conhecimento científico e, da mesma abordadas, entre dois extremos: enquanto
forma, os modos de influência das práticas “produto”, ou enquanto “processo”.
científicas no cotidiano de não- Segundo ele,
especialistas das áreas científicas (Angotti
& Auth, 2001). Nesse sentido, já há várias Aqui se situam as polêmicas a res-
décadas, muitas propostas para o ensino peito das alternativas de como
apresentar a Ciência na situação
de ciências vêm sendo desenvolvidas, com
de ensino: como um acervo de co-
objetivos educacionais amplos, como a nhecimentos acumulados, já
capacitação de estudantes para tomada de prontos, acabados ou não, e/ou
decisões públicas sobre ciência e como processo de produção de
tecnologia (C&T), o desenvolvimento de novos conhecimentos. Quanto à
um “espírito de criticidade” ao analisar as própria visão de processo, há tam-
bém discordâncias sobre se deve-
questões referentes à C&T, ou mesmo, a
mos apresentá-lo somente em ter-
busca de conhecimentos específicos das mos de procedimentos e raciocí-
áreas científicas e tecnológicas que nios científicos ou se, também ou
instrumentalizem esses estudantes a exclusivamente, tratar da evolu-
discutir C&T. ção da Ciência com sua contextua-
De certa maneira, no âmbito dos lização histórica e suas relações
com a sociedade. (Amaral, 1998,
estudos e pesquisas sobre o ensino de
p. 203).
ciência, essas questões estão envolvidas
nos debates sobre processo e produto na Esses modos de apresentação do
constituição dos currículos escolares. ensino de ciências acabam favorecendo a
Kuhn (1995) já observava que a formação adoção de determinadas visões de C&T,
do cientista possui uma característica dentre elas, uma de grande circulação
peculiar em relação à formação de outros entre as sociedades ocidentais que
profissionais: eles não são expostos, estabelece uma relação direta entre
durante sua formação, a componentes do desenvolvimento científico, tecnológico e
processo de produção do conhecimento social – um modelo linear/tradicional de
científico, mas exclusivamente a seus desenvolvimento, que, segundo Bazzo et
produtos ou a visões muito distorcidas dos al (2003), consistiria na crença de que
modos como esses conhecimentos foram quanto mais ciência se desenvolve, mais
constituídos historicamente. Já apontava tecnologia se desenvolve, o que acabaria
ainda, que os manuais científicos têm um desencadeando, por conseqüência, maior
papel fundamental nesse processo que desenvolvimento social.
apaga a historicidade do conhecimento Além disso, há também uma crença
científico. difundida de que o conhecimento
No ensino de ciências, Amaral (1998) científico ocupa uma posição hierárquica
já levantava controvérsias na área no que diferenciada em relação a outros
diz respeito ao modo como poderia se conhecimentos, o que conferiria aos
configurar o ensino de ciências, refletindo cientistas uma certa autoridade – e poder
diferentes maneiras de compreensão das – para resolver determinados conflitos
através desse corpo de conhecimentos capacitação dos estudantes para tomadas
(Martin, 2000). de decisões em suas vidas cotidianas em
Pesquisadores da área de educação questões e situações que envolvam ciência
em ciências, apropriando-se de estudos e tecnologia (C&T).
provenientes das áreas de ciências sociais, Num momento em que C&T
antropologia e epistemologia, vêm tornaram-se ícones de consulta para a
apontando a fragilidade desses discursos grande maioria das decisões tomadas em
que circulam amplamente em nossa nível governamental, constituindo-se
sociedade e acabam atravessando e como esferas de poder dominantes nos
constituindo discursos e práticas mais variados processos em que a
escolares, influenciando configurações participação pública não tem sido regra,
curriculares, seleção de recursos e modos torna-se indispensável um outro modo de
de leitura da ciência. se pensar o ensino de ciências e
Essas considerações críticas tornam- tecnologias... um modo que revele um
se ainda mais relevantes numa fase pouco mais desse “fazer ciência e
histórica em que C&T permeiam tecnologia” e que, talvez, contribua para
praticamente todos os modos de viver da amenizar um processo histórico bastante
população como um todo e que, ao mesmo enraizado de “mitificação da ciência”.
tempo, esta população parece ser cada vez Sobre essa mitificação, Amaral (1998)
mais bombardeada por assunções acerca também levanta a presença de outras
do conhecimento científico e tecnológico, controvérsias nas discussões presentes nas
até mesmo dada sua ampla circulação, e pesquisas em ensino de ciências. De
que o situam numa esfera inquestionável acordo com ele,
(pois, neutro, objetivo, retrato fiel da
realidade, como vem sendo divulgado), em Discute-se a validade de apresen-
que o atrelamento de questões e tar a Ciência, na situação escolar,
com suas incertezas, limitações,
conhecimentos que envolvem C&T a
ambigüidades e como fruto de
relações de consumo parece ser cada vez uma ação coletiva e de um contex-
maior, como também seu atrelamento a to histórico. Em outras palavras,
formas de participação pública em estão aqui presentes os diversos
decisões político-sociais. aspectos relativos às relações en-
A questão das controvérsias no tre Ciência, Tecnologia e Socieda-
de. (Amaral, 1998, p. 203)
ensino de ciências pode ser enquadrada,
assim, como parte de um debate mais
Diante dessas colocações acerca do
amplo em que está em jogo a necessidade
ensino de ciências, seria possível trabalhá-
dos discursos e práticas escolares
lo de maneira a suprir algumas das
trabalharem sentidos sobre a ciência, e
indagações levantadas, buscando uma
não apenas sentidos e significados da
apropriação mais crítica, por parte dos
ciência. Envolve-se também na
estudantes, das diversas facetas de C&T?
perspectiva de pensar em objetivos
Acreditamos que muitas respostas vêm
educacionais mais amplos que apreensão
sendo construídas, dentre as quais,
de conteúdos científicos, como a
poderíamos citar: a inserção de tópicos de
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história e filosofia da ciência nos do modo de trabalho interno da


currículos; algumas abordagens ciência, em particular, uma intro-
dução de uma nova teoria científi-
provenientes de estudos CTSA;
ca e sua relação com a experimen-
abordagens temáticas baseadas nos tação. Mostrando os resultados ci-
referenciais da educação progressista de entíficos como questões passíveis
Freire e, também, na alfabetização de debate, mais similares a outras
científica francesa (como as propostas atividades humanas que são mais
temáticas das Ilhotas de Racionalidade de fáceis de se compreender, como
um debate político ou um proce-
Fourrez) e, a modificação nos modos de
dimento de julgamento, que pode
funcionamento da leitura de textos e acender um interesse pela ciência
imagens no ensino de ciências (Almeida, em alguns estudantes. Finalmen-
1998; Silva, 2005). Outra perspectiva, te, há um aspecto pragmático nis-
diríamos mais recente, mas so também: olhar de diferentes
historicamente descendente dessas perspectivas para um conceito ci-
entífico pode facilitar sua compre-
questões e debates que já têm décadas,
ensão. (Kipnis, 2001, p. 33).
seria a inserção, no ensino de ciências, dos
debates decorrentes de controvérsias Nesse trabalho, Kipnis discute,
científicas. Perspectiva, cuja análise a através da apresentação de duas
partir da revisão bibliográfica realizada, controvérsias que envolvem o físico
apresentamos no próximo tópico. Alessandro Volta, a relação estabelecida
comumente no ensino de ciências de que
3. Pesquisas sobre controvérsias uma teoria substituiria a outra por
científicas em Educação em Ciências explicar fenômenos não explicados por
outras teorias. Ele argumenta que “o
A proposta de se trabalhar as pressuposto por trás <deste tipo de
controvérsias científicas em sala de aula é explicação> é que certos experimentos
relativamente nova. Pouco disseminada, naturalmente suportam uma teoria e
talvez, porém já existem trabalhos que contradizem outras” (Kipnis, 2001, p. 33)
sugerem esse tipo de abordagem no que se e debate, ao longo do trabalho a
refere ao ensino de ciências. Alguns pertinência da apresentação daquelas
autores já apontam, por exemplo, as controvérsias, como uma possibilidade de
vantagens que essa abordagem pode problematização desse tipo de explicação,
proporcionar ao ensino, como é o caso de através da reprodução e discussão, em sala
Kipnis (2001), que acredita que de aula, de alguns desses experimentos.
Esse modo de trabalho parece
Uma discussão aprofundada de promissor no que diz respeito ao debate de
controvérsias científicas em sala
características intrínsecas ao trabalho
de aula é uma das melhores ma-
neiras de utilizar o tempo limita- científico: a credibilidade das
do de que os professores dispõem experimentações, os conflitos teóricos
para usar a história da ciência no desencadeados pelas mesmas, a
ensino de ciências. Acompanhar convivência simultânea de mais de uma
um debate científico pode melho- teoria e, também, as incoerências teóricas
rar a compreensão dos estudantes
muitas vezes aceitas pela comunidade específicos da atividade proposta,
científica. Ao mesmo tempo, o próprio objetivos mais amplos nos quais baseiam
autor reconhece que existem “fatores sua compreensão da importância da
humanos” que não são trabalhados na discussão das controvérsias:
proposta.
A nosso ver, a descontextualização Esses dilemas sobre questões só-
do que o autor chama de “fatores cio-científicas abrem uma nova li-
nha de investigação em didática
humanos” do trabalho científico prejudica,
das ciências. Na nossa opinião a
de certa forma, a consolidação de uma alfabetização científica é um re-
visão socialmente mais abrangente do quisito para o pensamento crítico
trabalho dos cientistas. Ainda que se e prepara os estudantes para
contribua para uma compreensão do construir seu próprio discurso e
conhecimento científico que não o tenha para participar na tomada de de-
cisões, especialmente sobre ques-
como estático, final, ou, um retrato fiel da
tões em que as conexões entre ci-
realidade, esse tipo de relação ainda ência e sociedade se manifestam
parece manter à parte as dimensões mais claramente. (Agraso & Ale-
políticas envolvidas nessas práticas. E, xandre, 2006, p. 44).
como percebemos essas dimensões como
cruciais para que os estudantes Nesse sentido, os autores levantam
compreendam também os seus papéis objetivos que já englobam um outro olhar
como sujeitos que podem interferir nos para o ensino das ciências: os
rumos desses modos de produção e/ou conhecimentos científicos são também
utilização de conhecimento, acreditamos instrumentos através dos quais os
que se possa buscar outros modos de estudantes podem debater as questões que
trabalho que as inclua de maneira mais os envolvem explicitamente em diversas
enfática. Outros autores também apostam situações sociais e se preparar para
na discussão de controvérsias em sala de participar de tomadas de decisão.
aula, utilizando-se do termo “dilema Os autores destacam que trabalhar
ético”. Agraso e Alexandre (2006) “investigações de grande impacto social
propõem aos estudantes o debate sobre implica a participação da cidadania na
clonagem terapêutica, através da leitura tomada de decisões sobre questões que
de textos de divulgação e de originais de afetam sua vida e, por isso, convergem
cientistas, buscando, através dessas para o desenvolvimento do pensamento
atividades, “comprovar o nível de crítico” (Agraso & Alexandre, 2006, p. 45).
compreensão dos estudantes; comprovar Uma proposta da discussão de dilemas
se existem diferenças na compreensão de éticos pode estimular o desenvolvimento
artigos escritos por cientistas e por de um pensamento crítico por parte dos
jornalistas; examinar sua <dos alunos, mas, apenas a apresentação
estudantes> percepção das dimensões destes, pode não contribuir efetivamente
éticas desses dilemas” (Agraso & para esse desenvolvimento. Os modos de
Alexandre, 2006, p. 47). Esses autores trabalho dessa proposta podem contribuir
pontuam, além desses objetivos apenas para que os estudantes
compreendam os conhecimentos
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científicos envolvidos nas questões. Por abordagem positivista das controvérsias.


outro lado, a separação de “dimensões”, Nessa perspectiva, o conhecimento
como éticas, sociais, normativas e científico não é questionado e a
científicas também desencadeiam uma controvérsia só perdura porque o
fragmentação do assunto e, novamente, conhecimento científico necessário para o
corre-se o risco de super-valorizar a esclarecimento da questão ainda não pôde
dimensão científica, tomando-se esse ser alcançado. Assim, o conhecimento
discurso como um fator decisório mais científico “puro” também pode ser
válido em relação aos demais. compreendido como aquele que colocaria
Num artigo que descreve uma um ponto final à questão. Isso poderia
proposta de inserção da controvertida implicar no negligenciamento de outras
questão “está havendo uma mudança questões e dimensões envolvidas nas
climática na Terra?” numa disciplina de controvérsias que estariam implícitas
bacharelado, Juan (2006) discute a nessas questões científicas, como, por
necessidade da abordagem do tema, exemplo, as influências das indústrias
levantando algumas justificativas, quais relacionadas à produção e consumo de
sejam: a possibilidade de se trabalhar combustíveis fósseis, como a indústria
interdisciplinarmente – mesmo que, nesse petrolífera, nos trabalhos científicos sobre
artigo, ele se refira apenas às disciplinas esse tema (através de patrocínio, pressões
científicas, como física, biologia e institucionais etc). Tomando esse fator
geologia; a necessidade de se trabalhar um como exemplo, uma das atividades
tema que pode influenciar os modos de propostas por Juan (2006) consiste na
vida das pessoas e que, talvez, no futuro, análise crítica dos artigos originais de
seja motivo de decisões políticas e cientistas sobre a questão. Se essa análise
econômicas; e a necessidade de que o for conduzida para além da avaliação dos
público esteja informado e consciente argumentos científicos, mas também,
quando for necessário tomar algum tipo envolver uma investigação sobre os
de decisão. próprios autores, as instituições a que
As atividades sugeridas apontam pertencem, seus países de origem etc,
para o estudo dos conhecimentos talvez outras facetas que envolvem a
científicos disponíveis sobre o tema e, questão sejam mais bem exploradas.
também, para o estudo dos processos de Nesse sentido, cabe destacar duas outras
decisões sobre controvérsias científicas. atividades sugeridas por esse autor: a
Sobre esse último, o autor levanta que investigação do papel do Painel
“devido ao nosso conhecimento limitado Internacional sobre Mudanças Climáticas
sobre o funcionamento da atmosfera e da (IPCC) e do Protocolo de Kioto. A análises
Terra como um todo, não é possível tomar desses documentos podem contribuir no
uma postura unificada por parte da sentido de explicitar os papéis dos
comunidade científica” (Juan, 2006, p. especialistas nas tomadas de decisão, os
69). Essa visão coincide bastante com o papéis de outras instituições, os
que Martin e Richards (1995) apontam conhecimentos em jogo, as relações de
como uma característica de uma poder implícitas, entre outros.
Uma outra maneira de se enfocar as (2004) apontam que, quando pensam nas
controvérsias é discutida por Reis & discussões sobre controvérsias, não
Galvão (2004), num trabalho que buscou acreditam que os conhecimentos
identificar as concepções de estudantes de científicos e tecnológicos devem ser
ensino médio sobre os cientistas. O apresentados como inquestionáveis, mas
trabalho foi desenvolvido através de um sim, que o debate conduzido com os
questionário, entrevistas e redações sobre estudantes pode auxiliá-los na
o tema, que contribuiu para que os autores compreensão dos papéis dos especialistas
constatassem que há uma influência nesses embates. Além disso, destacam,
marcante da mídia (principalmente da como resultados dessa pesquisa, como as
televisão e do cinema) na formação das controvérsias científicas que vêm a
idéias que os estudantes têm sobre o público, principalmente retratadas pela
trabalho científico e, também, sobre as mídia, podem influenciar as concepções
próprias controvérsias. Os autores dos estudantes sobre C&T. Em suas
levantam que os estudantes possuem palavras, essas controvérsias parecem
imagens bastante “distorcidas” das contribuir para:
práticas científicas e associam essas
imagens, principalmente, aos sentidos 1. construir uma imagem de ciên-
atribuídos pela televisão. Por outro lado, cia e tecnologia como atividades
influenciadas por valores hierár-
os próprios autores não definem de forma
quicos, de conveniência pessoal,
explícita o que seria uma imagem questões financeiras e pressões
“adequada” do trabalho científico, sociais; 2. reforçar a idéia de que
parecendo, muitas vezes, que eles o ciência e tecnologia representam
tomam como um trabalho em que suas uma fonte tanto de progresso
maneiras históricas de construção, por si como de preocupação ao mesmo
tempo, e que deveria ser regrada
só, impliquem necessariamente em sua
por princípios morais e éticos; e 3.
maior valorização. Percebemos também, reconhecer como é importante
nesse artigo, em diversos momentos, a que os cidadãos e o Estado parti-
necessidade de se diferenciar “ciência” de cipem, acompanhando, acessando
uma “pseudociência” que estaria sendo e controlando o progresso científi-
apresentada pela mídia, no sentido de co e tecnológico e suas implica-
ções. (Reis & Galvão, 2004, p.
contribuir para fortalecer essa filiação de
1631).
sentidos pelos estudantes em que a
diferença se transforma em qualidade. Nesse trabalho já é mais explícita
Controvérsias que envolvem uma preocupação com o controle público,
conhecimentos científico-tecnológicos ou participação pública nos processos
muitas vezes envolvem também outros decisórios que envolvem C&T. Apenas a
conhecimentos e saberes, mas de papéis discussão midiática com a qual a maioria
não menos importantes na condução, dos estudantes havia entrado em contato
desenvolvimento e tomadas de decisões já passa a despertar a formação de
nas questões envolvidas (Wynne, 2005). opiniões sobre essas questões. O que
Ao mesmo tempo, Reis e Galvão aponta um caminho de pesquisa ainda
Ciência & Ensino, vol. 1, número especial, novembro de 2007

pouco explorado: a leitura de textos entendimento da ciência por parte do


audiovisuais, principalmente da TV, em público. Ressalta ainda, que o
situações de ensino em sala de aula estabelecimento de um diálogo entre os
envolvendo questões de controvérsias cientistas e o público é fundamental, pois
científico-tecnológicas. ambos são afetados pelos modos como se
O papel dos meios de comunicação relacionam. Em suas palavras:
de massa, principalmente da TV na
formação de representações, valores, Membros do público podem não
conhecimentos e saberes pelos estudantes estar num laboratório de pesquisa
trabalhando com transcrição de
vêm sendo levado em consideração em
fatores e expressão de proteínas,
diversas pesquisas na área. Mas poucas ou, no campo, reconhecendo di-
têm efetivamente analisado o nâmicas de ecossistemas, mas
funcionamento desse recurso em sala de eles estão de forma importante
aula. envolvidos com ciência em vários
De fato, em se tratando de níveis. A disponibilidade de fun-
dos públicos para pesquisa, as leis
controvérsias científico-tecnológicas, no
que restringem certos tipos de
seu necessário caráter público para ser pesquisas e o mercado de aceita-
definida como tal, como já apontamos, no ção de produtos, todos afetam o
contexto histórico-social atual, não se curso da ciência. (Hines, 2001, p.
pode desconsiderar a relação com os 190).
meios de comunicação. Uma relação
É interessante apontar que se
constitutiva, em que tais meios, como a
explicita, nessa discussão, que não apenas
TV, não são meras vitrines dos fatos que
a sociedade é afetada pelo trabalho
ocorrem em outro lugar, mas lugar da
técnico-científico, mas que, também, a
constituição e desenvolvimento das
recíproca é verdadeira. Na análise dessa
próprias controvérsias e de muitas dos
relação, muitas vezes, os trabalhos dos
aspectos a elas associados. Trata-se de
especialistas são tidos como autônomos e
uma perspectiva de pesquisa promissora e
livres de influências públicas, o que
ainda muito pouco desenvolvida, a que
contribui para conformar um sentimento
considera questões de discurso e
de passividade perante as questões
linguagem na relação com a perspectiva
técnico-científicas, por parte do público
CTSA.
leigo, por parte dos estudantes.
Um outro modo de discussão das
Num outro trabalho sobre os debates
controvérsias científicas é apresentado por
em torno da questão se os telefones
Hines (2001): um website destinado à
celulares são perigosos à saúde, Albe
discussão em rede, direcionado a
(2006) levanta algumas questões
estudantes, sobre a controvérsia de
pertinentes ao se pensar na inserção de
organismos geneticamente modificados.
controvérsias tecnocientíficas em sala de
Essa autora defende a possibilidade de
aula. Questões estas que parecem tentar
discussão de aspectos éticos, morais e
demarcar as intenções do trabalho
políticos das controvérsias e, também,
pedagógico ao introduzir esses temas
uma possibilidade de um maior
polêmicos em aulas de ciências. A
introdução das controvérsias apontando, no que diz respeito à sua
influência nas filiações de sentidos dos
Favorece a aprendizagem? Trata- estudantes, seriam: favorecer uma
se de argumentar para aprender? construção de sentidos mais ampla e
Para convencer? Para tomar uma
próxima de uma realidade histórica sobre
decisão? Para refletir sobre o
tema em questão? Sobre a ativida- as práticas científico-tecnológicas,
de proposta? Para analisar, criti- consolidando, também, uma visão mais
car resultados, ideologias e posi- abrangente do trabalho dos experts
ções opostas?... o papel do profes- (Kipnis, 2001; Reis & Galvão, 2004);
sorado no debate também se colo- favorecer uma visão dos conhecimentos
ca em questão: deve dar sua opi-
científicos como não estáticos, passíveis de
nião pessoal? Que opções didáti-
cas escolher? Que recursos utili- debate e mudança (Kipnis, 2001; Agraso &
zar? Que saberes de referência le- Alexandre, 2006), aproximando-o de
var em conta? Que estratégias di- outras formações discursivas (como o
dáticas elaborar? (Albe, 2006, p. discurso político, o econômico); ajudar os
96). estudantes a construir seus próprios
discursos sobre as questões de C&T
Algumas dessas questões já vêm
(Agraso & Alexandre, 2006); trabalhar
sendo discutidas ao longo deste item e
interdisciplinarmente (Juan, 2006),
outras permanecem em aberto, apontando
estabelecendo relações entre os discursos
alguns caminhos para a continuidade de
de diversas áreas de conhecimentos sobre
nossa pesquisa, que envolvem reflexões
C&T; contribuir para trabalhar as relações
sobre os objetivos e possibilidades
entre aproximação entre as formações
metodológicas para a inserção de práticas
discursivas científicas e as dos estudantes
pedagógicas que se pautem no debate das
de ciências (Hines, 2001).
controvérsias em aulas de ciências. Por
Ao mesmo tempo, pudemos perceber
ora, levantamos que apesar de haver um
possíveis fatores de limitação das
esforço no sentido de se questionar o
tentativas de inserção das controvérsias
conhecimento científico como voz final
em sala de aula, quais sejam: a
nas decisões que o envolvem, ainda
importância de estudos aprofundados dos
podemos cair na armadilha de o
temas controversos para seu debate,
supervalorizar, dando maior ênfase aos
evitando simplificações de questões
saberes científicos e técnicos, em
complexas; a necessidade de uma reflexão
detrimento a outras questões, dimensões
epistemológica coerente sobre ciência e
ou conhecimentos envolvidos nas
tecnologia, admitindo a impossibilidade
controvérsias, inclusive os de ordem
de obtenção de respostas para todas as
pedagógica e metodológica.
questões a partir, unicamente, de
conhecimentos tecnocientíficos (Reis &
Considerações finais Galvão, 2004), assim como escolha de
modos de trabalhos que estejam de acordo
As principais contribuições que os
com os objetivos a que se destina a
trabalhos em ensino de ciências que
discussão de questões controversas em
abordam controvérsias científicas vêm
Ciência & Ensino, vol. 1, número especial, novembro de 2007

sala de aula. A nosso ver, a inobservância autora. E à Profa. Lea Velho do


desses fatores pode acabar promovendo a DPCT/IG/Unicamp pelas sugestões à
dificuldade de não se ater apenas aos primeira versão desse trabalho.
conhecimentos científicos disponíveis para
guiar os debates das controvérsias,
Referências
deixando-se de lado as dimensões
(políticas, culturais, econômicas, etc.) que AGRASO, M. F. & ALEXANDRE, M. P. J..
influenciam a produção e circulação Clonación terapéutica? Decisiones sobre
desses conhecimentos e a dificuldade de se dilemas éticos en el aula. Alambique –
Didactica de las ciencias experimentales,
reconhecer os discursos científicos,
n° 49. 2006.
também, como interpretações da
realidade, muitas vezes associando-os a ALBE, V. Tratar controversias científicas
contemporáneas en clase. Alambique –
valores de neutralidade e objetividade.
Didactica de las ciencias experimentales.
Algumas abordagens, portanto, n° 49. 2006.
acabam tomando a discussão das
AMARAL, I. A. Currículo de ciências: das
controvérsias como um instrumento para
tendências clássicas aos movimentos de
a aprendizagem exclusiva de renovação. BARRETTO, E. S. S. (org.). Os
conhecimentos científicos. Mas não currículos do ensino fudamental par as
tomam o debate sobre discursos escolas brasileiras. Campinas: Autores
científicos como um instrumento de Associados; São Paulo: Fundação Carlos
compreensão de controvérsias humanas, Chagas. 1998.
ou seja, essencialmente sociais e políticas, ANGOTTI, J. A. P. & AUTH, M. A.
nas quais os conhecimentos científicos se Ciência e Tecnologia: Implicações Sociais
constituem e circulam em nossa e o Papel da Educação. Ciência &
Educação, Bauru/SP, v. 7, n. 1. 2001.
sociedade. Dessa forma, a abordagem das
controvérsias pode tender a se AULER, D. & BAZZO, W. A. Reflexões
transformar em apenas mais um recurso para a implementação do movimento CTS
no contexto educacional brasileiro.
didático para convencimento do alunado Ciência & Educação. Bauru/SP V.7, n.1.
de que, realmente, o conhecimento 2001.
científico, por ser diferenciado, teria mais
HINES, P. J. The dynamics of scientific
validade que os demais ou seria o único a controversies. AgBioForum. V. 4, n° 3/4.
se considerar na tomada de decisões. Ou 2001.
mesmo, em um simples exercício de
JUAN, X. Está cambiando el clima de la
argumentação que faça sentido apenas no Tierra? Alambique – Didactica de las
plano simulado da sala de aula e que não ciencias experimentales. n° 49. 2006.
se relaciona a outros discursos e situações
KIPNIS, N. Scientific controversies in
com os quais os estudantes possam entrar teaching science: the case of Volta. Science
em contato em suas vidas. & Education. 10: 33-49, 2001.
KUHN, T. S. A estrutura das revoluções
______________________ científicas. 3ª ed. São Paulo: Perspectiva,
Agradecemos à Fapesp, pelo apoio na 1995.
forma de bolsa de doutorado da primeira
MARTIN, B. Behind the scenes of E-mail: maribrasil@ige.unicamp.br
scientific debating. Social Epistemology.
Vol. 14, nº 2/3. 2000. Henrique César da Silva é professor do
Departamento de Geociências Aplicadas ao
MARTIN, B. & RICHARDS, E. Scientific Ensino e do Programa de Pós-Graduação em
Knowledge, Controversy, and Public Ensino e História de Ciências da Terra,
Decision-Making. In: Sheila Jasanoff, Instituto de Geociências, Universidade
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REIS, P. & GALVÃO, C.. Socio-scientific
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SILVA, H. C. e ALMEIDA, M. J. P. M. O
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funcionamento do discurso pedagógico
pela leitura de textos de divulgação
científica em aulas de física. Revista
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VELHO, L. & VELHO, P. The policy and
politics of alternative food programs in
Brazil. História de Ciência e Saúde-
Manguinhos., Rio de Janeiro, v. 9, n. 1,
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Terra incógnita: a interface entre ciência
e público. Rio de Janeiro: Vieira & Lent:
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_______________________
Mariana Brasil Ramos é Doutoranda do
Programa de Pós-Graduação em Ensino e
História de Ciências da Terra, Instituto de
Geociências, Universidade Estadual de
Campinas.