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A autêntica revolução foi no período Neolítico

Em uma época de mudança ambiental, os olhares dos especialistas se


voltam para o Neolítico, o período em que a humanidade experimentou
sua transformação mais radical
GUILLERMO ALTARES

22 ABR 2018 - 00:27 CEST

Pintura rupestre de uma cena cotidiana com gado no Neolítico, em Tassili n’Ajjer (Argélia). DE AGOSTINI
PICTURE LIBRARY (GETTY)

O Neolítico é o período mais importante da história e um dos mais desconhecidos do


grande público. Com a adoção da pecuária e da agricultura foram criadas as primeiras
cidades, nasceu a aristocracia, a divisão de poderes, a guerra, a propriedade, a
escrita, o crescimento populacional... Surgiram, em poucas palavras, os pilares do
mundo em que vivemos. As sociedades atuais são suas herdeiras diretas: nunca fez
tanto sentido falar de revolução porque deu origem a um mundo totalmente novo. E
talvez tenha sido também o momento em que começaram os problemas da
humanidade, não as soluções.

Ponderar se foi uma desgraça ou uma sorte algo que aconteceu


MAIS INFORMAÇÕES
há 10.000 anos e que não podemos reverter pode ser absurdo,
Quando os humanos
começaram a mas é importante tentar saber como aquela passagem aconteceu
realizar funerais? e saber se a vida das populações melhorou. O motivo é que foi
Encontrado em naquele período que a humanidade começou a transformar o
Israel um fóssil meio ambiente para adaptá-lo às suas necessidades, e quando a
candidato a ser o
‘Homo sapiens’ mais
população da Terra começou a crescer exponencialmente, um
antigo processo que só se acelerou desde então. Os estudos sobre o
Neolítico se multiplicaram nos últimos tempos e não é por acaso:
Cães ajudaram a
humanidade a hoje vivemos a passagem para uma nova era geológica, do
sobreviver Holoceno ao Antropoceno, uma mudança planetária imensa. De
Neandertais, a fato, alguns estudiosos acreditam que esse salto começou no
extinção dos outros
humanos Neolítico.
Achado arqueológico
pode revelar elo
“O crescimento demográfico constante, que ainda está fora de
entre comum entre
homens e macacos controle, provocou concentrações humanas, tensões sociais,
guerras, desigualdades crescentes”, escreve o arqueólogo francês
Jean-Paul Demoule, professor emérito da Universidade de Paris I-
Sorbonne em seu recente ensaio Les Dix Millénaires Oubliés Qui Ont Fait l’Histoire.
Quand On Inventa l’Agriculture, la Guerre et les Chefs (Fayard, 2017) [Os Dez Milênios
Esquecidos Que Fizeram a História. Quando Inventamos a Agricultura, a Guerra e os
Chefes]. “Acredito que é a única verdadeira revolução na história da humanidade”,
explica Demoule por telefone. “A revolução digital que estamos vivendo atualmente
não é mais do que uma consequência de longo prazo daquela. Mas, curiosamente, é a
menos ensinada na escola. Começamos com as grandes civilizações, como se fossem
óbvias, mas é muito importante perguntar por que chegamos até aqui, por que temos
governantes, exércitos, burocracia. Acho que no nosso inconsciente não queremos
fazer essas perguntas.”

O capítulo que o ensaísta israelense Yuval Noah Harari dedica ao Neolítico em seu
célebre livro Sapiens – Uma Breve História da Humanidade (Harper, 2011), um dos
ensaios mais lidos dos últimos anos, intitula-se ‘A maior fraude da história’. “Em vez
de anunciar uma nova era de vida fácil, a revolução agrícola deixou os agricultores
com uma vida geralmente mais difícil e menos satisfatória do que a dos caçadores-
coletores”, escreve Harari. O antropólogo da Universidade de Yale, James C. Scott,
professor de estudos agrícolas, se pronuncia num sentido semelhante: “Podemos
dizer sem problemas que vivíamos melhor como caçadores-coletores. Estudamos
corpos de áreas onde o Neolítico estava sendo introduzido e encontramos sinais de
estresse nutricional em agricultores que não encontramos em caçadores-coletores. É
ainda pior nas mulheres, onde identificamos uma clara carência de ferro. A dieta
anterior era sem dúvida mais nutritiva. Encontramos também muitas doenças que
não existiam até os humanos passarem a viver mais concentrados e com os animais.
Além disso, sempre que ocorreram assentamentos de populações, começaram
guerras”.

Scott percebeu que todas as ideias que tinha sobre o Neolítico estavam erradas
enquanto preparava um curso sobre a domesticação de plantas e animais. “Passei
três anos estudando tudo o que havia sido publicado tentando entender o que
realmente havia acontecido”, explica por telefone desde seu escritório. Assim,
escreveu Against the Grain: A Deep History of the Earliest States (Yale University
Press, 2017) [Contra As Sementes: uma História em Profundidade dos Primeiros
Estados], livro que teve grande impacto no mundo anglo-saxão. “A versão que
contamos do Neolítico nas escolas, que aprendemos a domesticar as plantas, então
criamos as cidades e a fome acabou é falsa”, diz Scott.

Os habitantes das sociedades agrícolas sofriam mais estresse


nutricional do que os caçadores

Sua leitura desse período é a mais revolucionária e nem todos os estudiosos


concordam com sua interpretação, mas podemos falar de uma reavaliação geral
daqueles milênios, provocada, entre outras razões, porque o estudo do DNA antigo
permitiu conhecer populações do passado como nunca até agora. Em seu ensaio,
Scott argumenta que já se utilizava a agricultura e a irrigação antes do nascimento
dos Estados, e que diferentes catástrofes como epidemias ou desmatamento, e a
salinização do solo, fizeram que o Neolítico fosse um processo de ida e volta e que
sociedades agrícolas voltassem a ser caçadoras-coletoras. “Durante 5.000 anos
passaram de um estado a outro dependendo das condições climáticas. Houve muita
fluidez entre essas duas formas de vida”, afirma.

Perguntado se isso esconde lições para o presente, o professor diz que é uma questão
que levantam o tempo todo, mas ele não quer “ser profeta”. Como leitor, é muito
difícil abstrair essa tentação: a ideia de que o avanço da humanidade pode ser
reversível se brincarmos de aprendiz de feiticeiro, ao colocar em marcha processos
que não somos capazes de controlar, é muito inquietante. Especialmente porque
vivemos um momento em que estamos rodeados por fenômenos (dos plásticos no
mar aos avanços em inteligência artificial ou o aquecimento global) cujas
consequências a longo prazo estamos apenas começando a vislumbrar. Aquelas
primeiras populações que deixaram o nomadismo para se assentar e viver da
agricultura e da pecuária tampouco podiam ter uma ideia do que estava acontecendo.

Outros livros publicados recentemente que questionam algumas verdades adquiridas


sobre o Neolítico são La Forja Genética de Europa. Una Nueva Visión del Pasado de las
Poblaciones Humanas (Edicions Universitat de Barcelona, 2018), do geneticista
espanhol Carles Lalueza-Fox, professor do Instituto de Biologia Evolutiva (CSIC-UPF)
e Les Chemins de la Proto-Histoire. Quand l’Occident s’Éveillait (Odile Jacob, 2017) [Os
Caminhos da Proto-História. Quando o Ocidente Despertava] de Jean Guilaine, que aos
81 anos é uma referência nos estudos de pré-história na Europa e atualmente é
professor emérito do Collège de France. “O Neolítico nos deixou uma mensagem
clara: um ambiente natural transformado e bem regulado pode alimentar um grande
número de bocas”, explica Guilaine. “Mas essa mensagem sublime também foi
pervertida pelo homem, ávido por dominar seus semelhantes: exploração irracional
do meio, acumulação de sementes, desigualdades sociais, espírito de supremacia
sobre os mais fracos. A esperança de uma sociedade em harmonia com a nova
economia fracassou por causa da recusa a compartilhar.”

Os historiadores continuam procurando respostas para muitas perguntas. A primeira


delas é saber por que a agricultura foi inventada se nos alimentávamos melhor
quando éramos caçadores-coletores. O que está claro é que coincidiu com um
período de aquecimento global do planeta depois da última glaciação, há cerca de
10.000 anos, e foi um processo gradual que ocorreu em diferentes pontos ao mesmo
tempo e que desembocaria em alguns lugares, como a Europa, no florescimento de
civilizações como a etrusca e a romana. A introdução da agricultura e da pecuária foi
seguida pelo trabalho com os metais, a fundação de cidades, o surgimento de
aristocracias... “O Neolítico é a grande revolução que inaugura o nosso mundo
histórico”, diz Guilaine. “É um período sobre o qual temos muitos dados, mas que é
muito pior explicado do que outros momentos. Gostamos mais de ensinar as origens
do homem, porque isso levanta problemas filosóficos, ou as civilizações da
antiguidade, consideradas brilhantes por causa de suas realizações arquitetônicas.
Podemos achar impressionantes as pirâmides e o Parthenon, mas o que representam
quando comparados à passagem de toda a humanidade à agricultura?”.
Quase ninguém mais acredita que houve uma única revolução neolítica que eclodiu no
Oriente Médio com a domesticação do trigo e que daí se espalhou a todo o planeta. A
ideia mais difundida é que houve vários pontos de partida mais ou menos
simultâneos, na China com o arroz ou na América com o milho. Por outro lado, existe
a certeza, graças à genética, de que o trigo chegou à Europa por meio das migrações
dos primeiros camponeses, em um momento de grandes movimentos populacionais.

Vaso campaniforme do Neolítico, encontrado em


Sabadell. PHAS / UIG / GETTY

“Se o Neolítico é algo, é um movimento de pessoas do Oriente Médio, porque é um


tipo de economia que provocou um crescimento demográfico que até então não
existia”, diz Carles Lalueza-Fox, cujo livro reúne décadas de avanços nas pesquisas
genéticas. Essas técnicas “supuseram uma mudança revolucionária”, explica,
“porque agora estamos em condições de estudar o genoma dos protagonistas dos
acontecimentos do passado. Quando questionamos se um horizonte cultural ou outro
envolveu migrações de pessoas ou movimentos de ideias, agora podemos perguntar
isso diretamente às pessoas que viveram esses processos”.

Eva Fernández-Domínguez, professora associada do Departamento de Arqueologia


da Universidade de Durham (Reino Unido), onde dirige o laboratório de DNA
arqueológico, e especialista no processo de transição para o Neolítico na Península
Ibérica e no Oriente Médio, explica assim os novos caminhos abertos pelo estudo do
DNA antigo: “Por meio da arqueologia podemos saber se as populações eram
caçadoras-coletoras ou agrícolas-pecuárias mediante o estudo dos restos
arqueozoológicos e arqueobotânicos do sítio, da tipologia lítica (técnica e estilo de
fabricação de ferramentas), do tipo de assentamento. No entanto, essas técnicas não
possuem resolução suficiente para nos dizer como o processo de transição ocorreu;
isto é, se grupos locais de caçadores-coletores aprenderam a cultivar ou se a
agricultura foi levada por imigrantes de outras regiões, e se esses imigrantes
substituíram completamente a população autóctone ou se misturaram com ela e em
que proporção. Esse tipo de informação só é acessível através da genética. Graças às
novas técnicas de sequenciamento massivo, hoje possuímos uma boa representação
da informação genética dos indivíduos envolvidos no processo de transição para o
Neolítico”.

Um caso fascinante que ilustra como o Neolítico se estabeleceu é o da cerâmica


campaniforme, que se expandiu em grande parte da Europa durante a Idade do
Bronze, há cerca de 4.900 anos. A partir da Península Ibérica, especificamente do
estuário do Tejo, chegou ao norte e ao leste da Europa, às Ilhas Britânicas, mas
também à Sicília e à Sardenha. Além de Portugal e Espanha, essa cerâmica, que não
está associada ao uso cotidiano, mas ritual, apareceu na França, Itália, Reino Unido
(incluindo a Escócia), Irlanda, Holanda, Alemanha, Áustria, República Tcheca,
Eslováquia, Polônia, Dinamarca, Hungria e Romênia. “Sua escala geográfica não tem
precedentes no continente até a chegada da União Europeia”, escreve Lalueza-Fox
em seu ensaio. Guardando todas as proporções, seu alcance geográfico poderia ser
comparado ao de um Tok &Stok do fim da pré-história.

Durante décadas existiram duas teorias opostas: a cerâmica teria chegado com
populações que migraram ou teria existido algum tipo de transmissão oral. Ao longo
de 2016, equipes do Instituto de Biologia Evolutiva do CSIC, do Wolfgang Haak, do
Instituto Max Planck, e David Reich, que dirige em Harvard um laboratório de genética
e que acaba de publicar o ensaio Who We Are and How We Got Here: Ancient DNA and
the New Science of the Human Past (Pantheon, 2018) [Quem Somos e Como
Chegamos até Aqui: o DNA Antigo e a Nova Ciência do Passado Humano], analisaram
amostras de indivíduos que pertenciam a essa cultura, coletadas em todo o
continente. “Descobrimos que não estava associado a movimentos de genes e,
portanto, de pessoas, mas que se tratava do primeiro exemplo de difusão maciça de
ideias”, explica Lalueza-Fox. Posteriormente houve um movimento maciço de
população para as Ilhas Britânicas, que levou a essa cultura e, de fato, substituiu as
populações então existentes.

O Neolítico começou há cerca de 10.000 anos, em um período de


aquecimento global
Esse período é particularmente importante porque é a partir desse momento que
começam a surgir sinais arqueológicos claros da existência de uma aristocracia e,
portanto, de desigualdades sociais. “É um momento crítico de mudança social,
caracterizado pela emergência de uma classe aristocrática guerreira que perdura
além da própria cultura”, escreve o pesquisador catalão em seu ensaio.

Nem a genética nem a arqueologia ainda conseguiram desvendar todos os mistérios


cruciais que esse período esconde. Também chegou nesse período à Europa o indo-
europeu, do qual derivam as línguas faladas por metade da população mundial, um
processo sobre o qual ainda existe um intenso debate. A única certeza é que aquela
revolução remota mudou tudo e que ainda não acabou.

As lições que esconde podem ser muito úteis para um presente em que a humanidade
está levando a natureza e seus recursos ao limite de suas possibilidades.

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