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“On Book Exhibits and New Complexities: Reflections on Sociology as Science”.

Contemporary Sociology,
Vol. 27, No. 1 (Jan), 1998, p. 7-11

EXPOSIÇÕES DE LIVROS E NOVAS COMPLEXIDADES:


REFLEXÕES SOBRE A SOCIOLOGIA COMO CIÊNCIA
PATRICIA HILL COLLINS

Recentemente, eu e um colega iniciamos uma conversa durante a exposição de livros na


ASA1. Olhando com um ar culpado para o vasto número de livros novos, confessamos
estar alarmados com o crescimento geométrico da lista de livros de sociologia. Meu
colega ficou particularmente preocupado com o número crescente de livros de teoria
social. “Como será possível ler isso tudo?”, ele lamentou. “Quando eu comecei a ensinar
teoria social no início dos anos 1960, nós líamos Parsons e nada muito além disso”, ele
recordou. “Eu podia dar conta de tudo em um semestre. Mas agora...”. Sua voz sumiu. Eu
percebi que se já é impossível ler todos os livros da nossa área de especialidade, isso é
ainda mais inviável na disciplina de sociologia.

Aquela exibição de livros foi uma experiência agridoce - tanto inquietante como
maravilhosa. Nossa conversa aconteceu em meio a evidências tangíveis de uma explosão
do conhecimento na sociologia e da erosão dos antigos centros que a organizavam. Antes,
tudo o que era considerado importante era classificado, categorizado e recebia seu próprio
lugar no espaço e no tempo. Assim como os livros na biblioteca têm apenas um lugar, as
bibliotecas, como repositórios legitimados de saber, atribuíam um número a cada livro,
concedendo-lhe cidadania formal na comunidade de livros com os quais compartilhava
filiações disciplinares semelhantes. Dentro dessa lógica, a sociologia funcionava como
uma seção de uma enorme biblioteca. Assim como o arranjo de livros no espaço físico
demarcava as fronteiras entre as disciplinas, livros clássicos da área ou livros de leitura
obrigatória ocupavam espaços simbólicos particulares. O pertencimento trazia
privilégios: o acesso às tradições intemporais da sociologia como disciplina distinguia
aqueles que estavam “dentro” do que estavam “fora”. Tudo era mais pacífico – ou ao
menos era o que se pensava –, pois alguém já ouviu falar de uma rebelião em uma
biblioteca?

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Congresso da ASA – Associação Americana de Sociologia (American Sociological Association)

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Vol. 27, No. 1 (Jan), 1998, p. 7-11

Ultimamente, a nostalgia pelos anos dourados da sociologia reaparece em um número


surpreendente de lugares. Muitos sociólogos parecem compartilhar um sentimento de que
algo está faltando e que a sociologia como uma disciplina perdeu o seu caminho. Não
sabemos mais que livros devemos ler para distinguir os sociólogos daqueles que leem
diferentes clássicos de sua escolha. Eu me pergunto, no entanto: quando foi exatamente
que esses anos dourados da sociologia ocorreram? Certamente não durante suas décadas
de fundação, quando o futuro da sociologia estava longe de ser definido. Como um campo
jovem e cheio de energia, a sociologia se ocupava de questões importantes e acreditava
que faria a diferença ao respondê-las.

Artigos publicados em edições antigas do American Journal of Sociology, por exemplo,


revelam uma vitalidade que impressiona a sensibilidade dos sociólogos contemporâneos.
Lá encontramos artigos escritos por Jane Addams, Frances Galton e outros, que não só
discordavam uns dos outros, mas também cujo pertencimento à “sociologia” era
questionável. Essas fronteiras difusas, que distinguem os “de dentro” dos “de fora”, têm
paralelos com uma diversidade comparável de assuntos. Temas como o desenvolvimento
industrial, a imigração, o "problema racial", as mulheres trabalhadoras, o nacionalismo e
a chamada “mente selvagem” esbarravam uns com os outros naquelas páginas. Embora
os autores assumissem posições distintas, sua identificação com aqueles que possuíam
visões diferentes os permitiu ver emergir uma constelação de ideias abertas à investigação
sociológica. O AJS foi um periódico que refletiu a diversidade que acompanha uma
disciplina emergente. A energia interna da sociologia refletiu, produziu e desafiou
simultaneamente uma série de preocupações sociais maiores. Os próprios tempos estavam
em fluxo: um imperialismo em amadurecimento esculpiu o mundo em impérios coloniais
governados por um punhado de Estados-Nações e isso proporcionou uma organização
política favorável ao capitalismo global. Mudanças estruturais dessa magnitude criaram
todo tipo de questões novas. A sociologia tinha muito com o que se ocupar naqueles dias.

Suspeito, portanto, que essas décadas não sejam os tais “anos de ouro” cujo fim é tão
lamentado. Por um lado, já que quase ninguém que testemunhou aqueles anos de fundação
está vivo, nós recriamos esses anos como mito, e não como memória. Na verdade, os ditos
“anos dourados” parecem ser o período que antecede diretamente o que veio a ser
conhecido como a turbulenta década de 1960, precisamente a época em que meu colega
recebeu seu treinamento como sociólogo e começou sua carreira. A sociologia como

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ciência atingiu a maioridade durante essas décadas. Comprometida com o teste de


hipóteses através de verificação empírica e lógica, a sociologia apropriou-se das
ferramentas da ciência e as aplicou a questões importantes da ordem do dia. Ao contrário
do início barulhento da sociologia, aqueles anos marcaram uma sociologia madura,
pacífica e aparentemente homogênea, na qual as mulheres, afro-americanos e todos os
demais "outros" eram mais uma exceção do que uma presença cotidiana. Além disso, a
enorme coorte de "baby boomers", cuja presença lotou as escolas elementares nos anos
50, ainda não havia entrado na sociologia. Com uma comunidade imaginária pequena e
homogênea, a sociologia dessa época podia funcionar quase como uma família.

Talvez essa nova nostalgia seja resultado do fim de certos tipos de relações familiares que
estavam na base do que antes era considerado fazer sociologia normal. Assim como os
membros da família compartilham um tipo de afiliação tácita uns com os outros através
de laços de sangue, a irmandade sociológica (com esposas escolhidas e irmãs honorárias)
deve ter representado para muitos um “lar” disciplinar confortável. Os sociólogos
entendiam uns aos outros e compreendiam, sem reclamar, seus lugares designados no que
parecia ser uma hierarquia naturalizada. O sênior socializava o júnior, e os “pais”
orientavam sua progênie escolhida. A maioria aceitava esse relacionamento porque um
dia o júnior se tornaria sênior. O pertencimento a essa quase família vinha com direitos e
responsabilidades – a saber, obrigações e direitos profissionais.

Assim como cada família é diferente de outras famílias, a sociologia era diferente de
outras disciplinas. Havia determinadas coisas que eram domínio da sociologia e de
nenhuma outra área. Da mesma forma que se acreditava que os Estados-Nação
circunscreviam e forneciam o palco para as disciplinas acadêmicas, a sociologia também
tinha fronteiras bem estritas e um conjunto de cidadãos que se imaginavam como parte
de uma comunidade conhecida como “sociologia”. Se as gangues contemporâneas usam
cores como insígnias que as distinguem dos outsiders – vermelho para umas e azul para
outras – as insígnias disciplinares eram menos tangíveis, mas nem por isso menos reais.
Sociólogos liam textos de Durkheim, Marx e Weber, enquanto outras disciplinas tinham
seus próprios textos clássicos. E aqueles que não pertenciam a nenhuma disciplina – quem
sabe o que liam?

Como reforçavam a ilusão da integridade territorial dos Estados-Nação, os paralelos entre


a família, a comunidade sociológica e a identidade da disciplina foram amplamente

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estabelecidos. Da mesma maneira que o acordo de cavalheiros de 1885 permitiu aos


poderes Europeus não travar guerras uns contra os outros e assegurar formas de governo
mais eficientes para todos, há muito tempo as disciplinas acadêmicas dividiram e
colonizaram o conhecimento. Nos Estados Unidos, a antropologia reivindicou para si
culturas e sociedades estrangeiras, a ciência política passou a estudar o voto, a economia
os negócios, a psicologia a psiquê individual, enquanto a sociologia se ocupou das
funções das estruturas sociais. As fronteiras estavam claramente demarcadas entre as
disciplinas, e as comunidades de praticantes dentro delas eram claramente separadas.
Todos e tudo tinham um lugar designado no espaço geográfico, político, econômico e
simbólico. Mas, como acontece com qualquer tipo de fronteira, as bordas disciplinares
não eram tão firmes quanto todos gostariam. A psicologia social, por exemplo, nunca
deixou de atravessar as fronteiras entre as duas disciplinas. Ao mesmo tempo, sociólogos
renegados vagavam pelo terreno da ciência política ou da economia neoclássica
levantando a questão tabu: “O que aconteceu com o marxismo?”. Apesar dessas
confusões, as disciplinas permaneceram claramente distintas umas das outras. Dentro
desse contexto, havia pouca necessidade de definir identidades de qualquer tipo –
incluindo a identidade sociológica. Em uma comunidade menor, os praticantes tinham
menos congressos, escreviam menos livros, tinham muito mais chances de se
conhecerem, e sabiam o que deveriam ler. Não havia necessidade de questionar a
identidade do sociólogo. Contanto que cada um deixasse os demais exercerem suas tarefas
intelectuais, disciplinares e profissionais em paz – independentemente do quão desigual
ou injusto fosse o resultado – a paz reinava.

No entanto, como nós sabemos, paz sem justiça é uma ilusão. Não importa como nos
sentimos a respeito das mudanças na sociologia: aqueles dias já se foram. A sociologia
não é mais um campo pequeno e certamente não é homogênea – se algum dia já foi. Além
disso, a lógica que criou as certezas sobre entidades como a família, as relações de
vizinhança, as disciplinas acadêmicas, as nações já erodiu. Como o sociólogo Zygmunt
Bauman sugeriu em um fascinante discurso no encontro de 1997 da Associação
Sociológica Britânica, não apenas as fronteiras autocontidas desmoronaram, mas o
próprio tempo e espaço podem ter significados inteiramente novos dentro de um novo
contexto global. Em épocas anteriores, o espaço era finito e podia ser entendido como
descrevi acima, enquanto o tempo era quantificável, linear e organizado por meio do tropo
familiar do progresso. No entanto, dependendo da posição de cada um na economia

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política global, o tempo e o espaço mudaram. Para os ricos, o tempo acelera e as restrições
do espaço desaparecem. O tempo é escasso, fragmentado, com limites cada vez mais
imprecisos entre trabalho e lazer.

Computadores, telecomunicações e cultura popular permitem que você simultaneamente


trabalhe, jogue e saia de casa sem realmente sair do lugar. Avanços no transporte
permitem que aqueles que têm recursos possam viajar livremente de um lugar para outro.
Apesar do anseio por algo novo, muitos jet-setters desejam encontrar o familiar onde quer
que estejam. O resultado: todos os hotéis da rede Marriott devem ser parecidos. Em
contraste, sugere Bauman, para os pobres, o tempo e o espaço param. Desempregados e
sem futuro, eles marcam e matam o tempo antes do tempo matá-los. Contidos em espaços
lotados de conjuntos habitacionais, guetos urbanos e escolas superlotadas, eles existem
em lugares reais de escassez de recursos, sem ter para onde ir. Manter essas novas relações
temporais e espaciais requer a reorganização das fronteiras de todos os tipos,
especialmente das fronteiras entre países. Enquanto o capital global durante as décadas
de fundação da sociologia exigiu estados-nação fortes, assegurar a livre circulação do
capital global e a população deslocada precisa de estados-nação fracos.

Análises como as de Bauman sobre como a hierarquia está sendo reformulada dentro de
relações de tempo e espaço igualmente novas representam um verdadeiro desafio para a
sociologia contemporânea. A ruptura que mudanças dessa magnitude criam na vida
cotidiana das pessoas se assemelha àquela gerada pelas principais mudanças globais que
confrontaram a sociologia em seu contexto de surgimento. A sociologia contemporânea
está equipada para enfrentar esses novos desafios? No contexto de um mundo social,
político, econômico e social imensamente diferente, que existe não apenas fora da
sociologia, mas dentro dela, qualquer coisa auto-contida e demarcada - famílias,
vizinhanças, raças e até mesmo disciplinas acadêmicas – parecem ser relíquias do
passado. Torcer o nariz para outras disciplinas que estão roubando domínios da sociologia
certamente representa uma resposta a essas mudanças. É possível continuar a reclamar
que os estudos culturais, os estudos sobre mulheres e outros campos interdisciplinares
tomam da sociologia os melhores alunos, o dinheiro, as linhas de pesquisa nas
universidades etc. Dada a longa história de como a sociologia vinha se definindo como
disciplina, essa resposta é compreensível. No entanto, existem alternativas melhores.

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Por muito tempo, a sociologia definiu-se por aquilo que não era: não somos como aquelas
áreas de humanidades "soft" – somos como física e química e outras ciências "duras" ou
"reais". Isso sempre pareceu estranho para mim, pois nessa autodefinição a sociologia
evita frisar os méritos daquilo que ela realmente é. O que me atraiu para a sociologia, em
primeiro lugar, foi sua capacidade trazer tudo isso, de manter uma tensão criativa entre
diversas abordagens teóricas e empíricas, a fim de investigar questões importantes de uma
perspectiva nitidamente sociológica. Eu gosto da combinação do espírito daquela
sociologia dos seus primeiros anos, que buscava lidar com questões difíceis, com a
sofisticação teórica e metodológica da sociologia de hoje, uma disciplina madura. Embora
muitas áreas específicas, perspectivas teóricas e abordagens metodológicas certamente
tenham sofrido fluxos e refluxos, a força da sociologia está em sua resiliência. Em certo
sentido, a sociologia constitui uma disciplina de fronteira entre as ciências humanas,
sociais e físicas.

Além disso, embora eu saiba que alguns puristas podem ficar horrorizados com o uso
desses termos, a sociologia parece ser o que hoje é valorizado em alguns círculos de
estudos culturais como o “híbrido”, “mestiço”, a “mestiçagem” e termos semelhantes que
descrevem as fronteiras entre espaços de todos os tipos. Teoricamente, a sociologia pode
acomodar uma gama de perspectivas teóricas dentro de suas fronteiras sem perder seu
centro. O fato de que agora contém uma constelação maior e mais heterogênea de
praticantes e ideias do que no passado não precisa ser um desastre. Em vez disso,
representa uma oportunidade incrivelmente importante.

Em vez de rejeitar como uma fraqueza a posição da sociologia como uma disciplina de
fronteira – a sociologia não é nem ciência pura e nem simplesmente uma dentre as
humanidades –, podemos ver que o conteúdo compartilhado da sociologia emerge da sua
localização social e intelectual. Por um lado, a sociologia constitui uma ciência do social
que cria possibilidades intrigantes para a investigação das questões sociais levantadas por
Bauman e outros. Ainda vejo a necessidade de análises de fenômenos sociais que
transcendam aquilo que é oferecido pelas ciências humanas, as ciências naturais e físicas,
e as definições passadas das ciências sociais. Valorizar as narrativas individuais e a
subjetividade humana ao ponto de apagar a estrutura social – uma tendência
exemplificada pelo pós-modernismo extremo – parece terrivelmente perigoso. Como
podemos falar de pobreza ou falta de moradia sem analisar estruturas sociais como

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entidades autônomas? Por outro lado, abordagens paradigmáticas de fenômenos sociais


propostas pelas ciências físicas e naturais como o modelo de máquina da organização
social influenciado pela física ou o modelo da sociedade como organismo que provém
das ciências biológicas parecem apagar exageradamente a agência humana. É como se as
disciplinas estivessem todas sentindo partes diferentes de um elefante e cada uma delas
delarasse que tem a “verdadeira” imagem desse elefante. Ironicamente, a sociologia
possui as ferramentas dentro de suas fronteiras escorregadias para gerar uma visão mais
complexa do elefante do que apenas a de sua cabeça ou cauda – mas ainda não percebe
sua própria competência para fazê-lo.

A relevância da sociologia pode estar em sua capacidade de lançar luz sobre novas
definições de ciência que abrangem essas divisões de longa data. A localização social
única da sociologia como um espaço disputado de construção de conhecimento nos
permite pensar em novas formas de fazer ciência. Mesmo aqueles sociólogos cujo
trabalho é mais influenciado pelo pensamento pós-moderno são, em certo sentido,
cientistas sociais. Não consigo imaginar por que alguém seria um sociólogo
(especialmente aqueles com dificuldade com a matemática e que lutam com as
estatísticas) sem algum amor e sentimento pelas possibilidades da ciência de abordar
questões sociais importantes. O que primeiro me intrigou foi como, apesar de suas
abordagens variadas, todos os sociólogos, agora clássicos, lidavam com importantes
questões sociais de seu tempo e, ao fazê-lo, pensavam que poderiam criar a sociologia
como ciência da sociedade. Weber, Marx, Durkheim, Simmel e os demais se importavam
profundamente com o capitalismo, a industrialização e a capacidade da sociologia, como
ciência, de lançar luz sobre essas importantes questões sociais. Dentro da sociologia
americana, Park e outros da Escola de Chicago seguiram um caminho similar. As questões
que os preocupavam variavam, mas a missão básica era a mesma. As questões sociais e
a ciência estavam inextricavelmente ligadas porque as ferramentas da ciência
fomentavam novas compreensões do social. Uma ciência da sociedade não só era
possível: era importante.

Dada esta história, por que a sociologia recuaria de sua missão como ciência ou do seu
compromisso de lidar com questões sociais importantes? Assim como a sociedade
mudou, o mesmo deve acontecer com sociologia que deseja explorá-la. Não faltam
questões sociais a ser estudadas, e o próximo milênio provocará novas variações em

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alguns problemas muito antigos. Eu acho que a verdadeira tarefa está em mover a
sociologia para mais perto do que está acontecendo como novas áreas da ciência. A
ciência tal como todos a imaginam - a física newtoniana na qual a sociologia inicial
buscou inspiração – cada vez mais tem sido vista como útil para abordar apenas tipos
específicos de problemas. Em outras palavras, não há um método científico superior
naquilo que aprendi na aula de ciências do sétimo ano. Em vez disso, novas direções nas
ciências físicas demonstram um crescente comprometimento com o conceito de
complexidade que pode ser extremamente útil na criação de novas definições da
sociologia.

Essa nova ciência que explora a complexidade é muito mais humilde do que a ciência
associada ao tempo linear e ao espaço colonial. Como ciência da ordem, a ciência
tradicional estava especialmente bem adaptada aos objetivos do imperialismo do século
XIX, a saber, a predição para fins de controle. Isso reduziu as complexidades ou
diferenças, suprimindo-as ou minimizando-as. Em contraste, uma sociologia como
ciência desenvolvida dentro de suposições de complexidade pode evitar reduzir
fenômenos sociais intrincados a seus elementos mais básicos e essenciais. Reconhecendo
a complexidade do social, tal ciência pode entender a aparente desordem e o caos não
reduzindo as complexidades, mas abraçando-as. Dito de outra forma, tentar ordenar a
confusão das diferenças atribuindo-lhes caixas simples e categóricas, dispostas na ordem
correta, deve ser cada vez mais substituído por novas ferramentas conceituais e
metodológicas dedicadas a compreender as complexidades.

É importante que a sociologia se reavalie nesse sentido. Tomemos, por exemplo, a nova
área de estudos de raça, classe e gênero e o emergente paradigma da interseccionalidade.
Percebe-se que essa área está muito mais alinhada com a complexidade da área da física
do que com a sua atual classificação em uma sociologia considerada uma disciplina à
margem da “verdadeira” ciência. Muitos sociólogos persistem em ver raça, a classe e o
gênero primariamente como categorias de identidade, e a encarar as questões levantadas
pelos acadêmicos que trabalham nessas áreas como uma agenda particular e, portanto,
anti-científica e não universal. No entanto, essa visão se equivoca ao não enxergar o
potencial teórico e metodológico de cada uma dessas áreas, assim como das
possibilidades abertas pelo diálogo entre elas. Na década de 90, alguns teóricos e
praticantes das áreas de estudos de raça, classe e gênero observaram que a lógica dos

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espaços intelectuais segregados que caracterizavam suas respectivas áreas os deixava


virtualmente alheios aos desenvolvimentos das outras áreas. Além disso, trabalhar
exclusivamente dentro dos limites de suas subdisciplinas os deixava cada vez mais
incapazes de explicar fenômenos sociais complexos.

Esse crescente reconhecimento de que as múltiplas questões sociais que eles queriam
estudar não poderiam ser acomodadas dentro de um único enquadramento de raça ou
classe ou gênero despertou interesse em explorar as interseções entre eles. Examinar
como o racismo é construído em termos de gênero e como gênero modela formações de
classe permite que uma teia complexa de relações sociais venha à tona. Além disso, o
paradigma emergente da interseccionalidade se move para além de raça, classe e gênero
para compreender categorias adicionais de nação, sexualidade, etnicidade, idade e
religião. O crescente interesse nas relações complexas entre entre raça, classe e gênero
como categorias interseccionais de análise representa um passo significativo, ainda que
básico, no desenvolvimento de uma ciência social complexa. Tal ciência exige que
aprendamos a pensar além das categorias separadas, examinando não como elas diferem
umas das outras, mas como elas se constroem mutuamente.

Embora eu compartilhe com meu colega a angústia de não ser capaz de ler todos os novos
livros de sociologia, eu rejeito o seu pessimismo e a sua percepção de que isso representa
a decadência da disciplina. Em vez disso, eu vejo a localização disciplinar da sociologia
e a sua diversidade intelectual como fontes possíveis de um diferente tipo de excelência.
Tal excelência emergiria da heterogeneidade dos praticantes da sociologia e da própria
ideia de que a sociologia ocupa um espaço de fronteira. Seu objetivo seria desenvolver a
sociologia como uma ciência adequada para lidar com complexidades. Em vez de definir
a excelência conforme o modelo anterior de homogeneidade e exclusividade, tal
excelência pode surgir da criação de novas formas de lidar com complexidades tanto
dentro como fora das bordas da disciplina. De acordo com essa nova forma de pensar,
não é possível nem desejável acreditar que um indivíduo será capaz de ler todos os livros.
Em vez disso, cada um de nós deve continuar a se especializar, ler o que puder, mas
perceber que, para fazermos nosso trabalho, precisamos conhecer alguém que leu aquilo
que nós não lemos, ou ao menos que conhece alguém que o fez. A sociologia não pode
continuar sem que possamos nos congregar de outra maneira. Por enquanto, eu lerei meus
livros, você os seus, e algum dia nós realmente precisamos conversar.