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Resenhas

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288 estudos avançados 28 (80), 2014
Uma alternativa para o capitalismo?
Luiz Carlos Bresser-Pereira I

D em
esde a queda do Muro de Berlim, instalar o setor por definição não compe-
1989, seguida pelo colapso da titivo da economia (a infraestrutura e a
União Soviética, em 1991, o capitalismo indústria pesada), mas falhou quando, a
triunfou sobre o “socialismo” – na ver- partir de meados dos anos 1960, o desa-
dade, sobre o estatismo –, que deixou de fio era a diversificação através de um nú-
ser uma forma alternativa de organização mero infinito de empresas que formam o
econômica e social das sociedades mo- setor competitivo da economia. Para esse
dernas. Isso não obstante fosse sabido setor o planejamento estatal era altamen-
que, de acordo com a terminologia de te ineficiente quando comparado com a
Marx, o modo de produção dominante coordenação pelo mercado. O estatismo
nos países comunistas não era o socialis- fracassou por essa razão; porque se reve-
mo – não era a sociedade democrática lou uma forma de organização econô-
e igualitária, a sociedade sem classes –, mica e social menos eficiente do que o
mas algo que eu, há muito, denominei capitalismo. O controle pela tecnoburo-
“modo de produção tecnoburocrático cracia da sociedade foi mantido na China
ou estatal” – uma forma de organiza- porque sua elite dirigente percebeu que
ção econômica e social onde havia mais o modelo centralizado e planejado havia
igualdade econômica do que no capita- esgotado suas possibilidades, e tratou de
lismo, mas não havia democracia nem colocar uma grande parte de sua econo-
se podia falar em sociedade sem classes mia sob a coordenação do mercado.
porque a tecnoburocracia substituíra a O capitalismo venceu sua competição
burguesia no papel de classe dominante. com o estatismo porque era mais eficien-
Na verdade, o socialismo começou a te, e, ao vencer, tornou o ideal socialista
se revelar inviável quatro anos depois da mais longínquo, não obstante esse ideal
Revolução Socialista de 1917, quando houvesse sido abandonado pela União
Lenin decidiu fazer uma abertura para o Soviética muito tempo antes do seu co-
capitalismo com sua Nova Política Eco- lapso. Hoje o capitalismo impera em
nômica. Entretanto, isso só se tornou cla- toda parte, tudo se tornou mercadoria,
ro quando Stalin estava no poder. Primei- quase tudo se submeteu à lógica do lu-
ro, porque a “ditadura do proletariado” cro e da acumulação de capital, ou seja, à
revelou-se uma estratégia permanente lógica do mercado. Ao socialismo demo-
de dominação; e, segundo, porque o co- crático, coordenado pelo Estado e pelo
mando dessa ditadura não coube ao povo mercado, resta a utopia insuperável, mas
ou aos trabalhadores, mas à classe tecno- que enfrenta o paradoxo de que só será
burocrática ou profissional. Essa socieda- viável no dia em que sua promessa maior
de tecnoburocrática na qual a relação de – a da razoável igualdade econômica e de
produção era a organização (a proprieda- conhecimento entre os seres humanos –
de coletiva dos meios de produção pela seja alcançada.
tecnoburocracia) foi bem-sucedida no Expresso sumariamente essa minha
plano econômico enquanto se tratava de visão das coisas para procurar entender e

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apresentar a meus leitores o último livro Entretanto, não está aí a força deste
de Fábio Konder Comparato, A civiliza- livro, mas na afirmação de uma tese cen-
ção capitalista. O autor tem a minha ida- tral. Ao contrário das outras civilizações,
de, foi como eu aluno dos jesuítas e da a civilização capitalista é universal. As
Faculdade de Direito do Largo de São outras civilizações estavam “umbilical-
Francisco. Ele se tornou um notável pro- mente ligadas à sua localização geográ-
fessor de Direito e um crítico ético seve- fica” (p.20). Tivemos as
ro da sociedade em que vivemos; eu me civilizações fluviais, como a chine-
tornei um economista político buscando sa, surgida ao longo do rio Amarelo
compreender o mundo em que viemos. (Huang Hê); a indiana, ao longo do
Como o nome de seu livro já deixa rio Indo; a civilização mesopotâmi-
claro, Comparato vê o capitalismo como ca dos sumérios, babilônios e assí-
uma civilização – como a primeira civili- rios; e a civilização do antigo Egito,
zação universal –, e é tão ou mais crítico largamente tributária do Nilo. Do
dela do que eu. O capitalismo pode ser mesmo modo não é difícil reconhe-
cer civilizações marítimas, dentre as
relativamente eficiente, certamente mais
quais ocupou lugar de destaque a ci-
eficiente do que os modos de produ-
vilização europeia, centrada em tor-
ção anteriores, como seu maior crítico no do mar Mediterrâneo. Há tam-
e maior analista, Marx, bem remarcou. bém civilizações oceânicas, como as
Mas é um sistema intrinsecamente injus- que floresceram na Ilha de Páscoa,
to e corrupto. Conforme o juízo ético no Havaí, na Austrália e na Nova Ze-
que Comparato faz no final de seu livro, lândia, regiões durante longo tempo
os malefícios permanentes do capitalis- isoladas, sem qualquer contato com
mo são, em primeiro lugar, a sistemática o mundo exterior; civilizações do de-
exploração dos trabalhadores e dos con- serto, como a dos primeiros povos
sumidores. Para ele, “Marx não soube árabes; ou então civilizações de mon-
prever um malefício bem maior [do que tanha, como a andina e a tibetana.
o produzido pelo mecanismo da mais- (p.22)
-valia], o qual só veio se concretizar nas Mas, adverte Comparato, “as civili-
últimas décadas: a progressiva dispensa zações evoluem tanto mais rapidamente
da força de trabalho no funcionamento quanto mais contatos mantenham umas
do sistema” (p.272). Em segundo lugar, com as outras”, e, para isso, utilizaram
os atentados ao equilíbrio ecológico do as facilidades oferecidas pelos rios, pelos
planeta. “A apropriação do meio natural mares e pelas estepes, mas “a dominação
pela espécie humana rompeu o indis- dos mares e a utilização das estepes e dos
pensável equilíbrio ecológico e ameaça o grandes rios, como verdadeiras estradas
futuro da biosfera do planeta” (p.274). naturais, só foi possível graças a algumas
Terceiro, as atrocidades do colonialismo invenções técnicas decisivas, tais como a
capitalista. Quarto, os efeitos nocivos arte da navegação, a fabricação dos pri-
em matéria de saúde pública, como o meiros veículos terrestres e a utilização
poderio da indústria do tabaco demons- dos animais de sela e de carga” (p.22-3).
tra: “o lobby do tabaco atuou no mundo Depois dessa Introdução, no primei-
inteiro, e até mesmo no seio das organi- ro capítulo do livro, Comparato vai dis-
zações internacionais” (p.279). cutir “o espírito do capitalismo”. Para

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isso usa o método ou a filosofia da his-
tória que expôs na Introdução. Para ele,
uma sociedade ou uma civilização possui
três elementos:
1) a base geoeconômica, ou seja, o
território onde ela se assenta; 2) a
mentalidade e o sistema ético, que
poderíamos denominar, na linha de
Max Weber, o espírito de uma civili-
zação – vale dizer, a visão de mundo
e os valores predominantes que re-
gem a vida coletiva, juntamente com
o acervo de suas criações culturais; e
3) a hierarquia social e as instituições
de poder, isto é, a organização dos
grupos sociais que exercem o co- COMPARATO, F. K. A civilização
mando, e os meios ou instrumentos capitalista. São Paulo:
utilizados para tanto. Saraiva, 2013. 312p.
De acordo com a visão clássica do ma-
terialismo histórico, essas três esferas ou
instâncias da sociedade são, para Com-
parato, interdependentes. Muito dife- traduzido na lição deste último, “o que
rentemente, não há no seu modelo uma não quiseres que seja feito a ti, não faças
instância propriamente econômica, mas a outrem”. Não é essa a ética do capita-
uma instância geoeconômica: o territó- lismo: “o princípio ético supremo pas-
rio. O que realmente importa para ele, sou a ser a busca, por cada indivíduo, do
de acordo com o idealismo filosófico, é próprio interesse material, deixando-se
a mentalidade, no sentido da Escola dos o bem-comum e os preceitos éticos em
Annales, e principalmente, o espírito de segundo plano” (p.48). A submissão da
um povo, nos termos de Hegel. Para ele, esfera pública à privada vai ser sua carac-
o juízo ético, que “não é feito somen- terística fundamental. O individualismo
te de razão, mas também de indignação torna-se todo-poderoso.
e vergonha, de ternura e compaixão” É preciso, entretanto, assinalar que
(p.19), O fundamental é a “consciên- o reconhecimento da autonomia indivi-
cia coletiva” (de Émile Durkheim). As dual foi um grande avanço.
mentalidades que formam as culturas
O reconhecimento da autonomia
nacionais “engendram costumes, ou seja,
da consciência individual em maté-
modos de vida constantes e uniformes,
ria religiosa, afirmada pelos grandes
largamente observados em uma socieda- Reformadores do século XVI, foi,
de, em geral de forma irrefletida, como sem sombra de dúvida, a matriz dos
se fossem automatismos sociais” (p.34). direitos humanos de caráter indivi-
O modelo ético das civilizações antigas, dual, que vieram a ser consagrados
sua regra de ouro, inscrita em todas as com o Bill of Rights de 1689, e as
grandes religiões, na República de Pla- Revoluções Norte-Americana e
tão, e no Anacleto de Confúcio, pode ser Francesa do fim do século seguinte...

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No entanto, por uma dessas ironias nologia e as instituições dos países ricos
em que abunda a história, a era da e também se desenvolverem.
autonomia da consciência individual Naturalmente, ao discutir o capita-
teve pouca duração. Já em meados lismo industrial, Comparato discute a
do século XVIII, com a decisiva in-
Revolução Industrial, sua base no surto
tervenção da máquina a vapor, tinha
comercial e na reforma agrária, o salto
início a Revolução Industrial, que
tecnológico que representou a inven-
foi o primeiro passo para a constru-
ção da sociedade de massas no mun- ção da máquina a vapor, a aceleração do
do inteiro, com o predomínio da desenvolvimento tecnológico, o surgi-
mentalidade coletiva other directed, mento de relações impessoais, o advento
ou seja, submetida à dominação ide- das sociedades de massa, a urbanização
ológica alheia. Doravante as grandes crescente, a progressiva emancipação das
massas passaram a ser manipuladas mulheres, a criação da escola pública e a
pelos detentores do poder. (p.63-4) generalização do ensino fundamental, e
Nesses termos, Comparato analisa a convivência forçada de diferentes gru-
devidamente a Revolução Industrial, pos étnicos e religiosos.
mas não a vê como o elemento funda- O capítulo 6 é dedicado ao capi-
mental da revolução capitalista. Nos talismo pós-industrial, que eu prefiro
capítulos seguintes ele vai contar a his- chamar capitalismo tecnoburocráti-
tória do capitalismo, vai discutir em um co, para salientar o papel fundamental
grande esforço de síntese o capitalismo que passa a assumir a nova classe mé-
mercantil, o industrial e o pós-industrial. dia profissional pública e privada após
Mas a abordagem é gradualista; a ideia a Segunda Revolução Industrial, no
de uma revolução capitalista não está final do século XIX. O conceito de
presente. Ou não está explícita, embora pós-industrial destina-se a salientar o
ela tenha sido tão importante quanto foi aumento permanente da participação
a outra grande “revolução” da história dos serviços na renda nacional. Mas há
humana, a descoberta da agricultura e a pouca relação do aumento da partici-
transformação dos povos, de coletores pação dos serviços com os fenômenos
em agricultores capazes de produzir um mais importantes que ocorrem no pós-
excedente econômico que deu origem às -guerra e no último quartel do século
grandes civilizações antigas. Comparato XX, que Comparato analisa nesse capí-
reconhece, porque é essencial para sua tulo. No pós-guerra, temos a formação
tese central, que o capitalismo se dife- de um capitalismo social-democrático e
renciará de forma decisiva das anteriores desenvolvimentista, que é o resultado
civilizações ao ser uma forma de organi- de um grande compromisso de classes
zação econômica e social não associada a e que se revela poderoso em reformar
um determinado território, mas univer- o capitalismo, seguido da globalização
sal. Em outras palavras, o objetivo de to- e da contrarrevolução neoliberal, por
das as sociedades que ainda não realiza- meio da qual uma coligação financeiro-
ram sua revolução nacional e industrial, -rentista tenta monopolizar o poder nas
que não formaram seu Estado-nação e se sociedades capitalistas.
industrializaram, assim completando sua No capítulo 7, Comparato faz o juízo
revolução capitalista, é o de copiar a tec- ético da civilização capitalista. Para ele,

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Foto Arquivo / Agência France Press
Émile Durkheim
(1858-1917)

seus malefícios são muito grandes. Mas Comparato é otimista. Fiel a seu mé-
isso não o leva a prever o seu desapa- todo, ele está convencido de que o ca-
recimento no curto prazo: “a civilização pitalismo será superado no plano ético.
capitalista não desaparecerá subitamente A civilização que irá suceder à capi-
por efeito de uma revolução; o seu deces- talista começou a partir da “crise da
so será precedido de um longo período consciência europeia” a que me re-
de agonia” (p.281). Como “o capitalis- feri linhas atrás [Paul Hazard, 1961,
mo encarna a primeira e única civilização La crise de la conscience européenne
mundial na história... sua capacidade de 1680-1715]. E sua linha de desen-
resistência à mudança é incomparavel- volvimento estabeleceu-se em tor-
mente maior do que as civilizações que a no da dignidade suprema da pessoa
precederam” (p.267). humana, como fundamento de toda

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a vida ética... A decrepitude de uma tinguir o interesse público do interesse
civilização começa justamente quan- pessoal. É preciso também um plano de
do os seus valores fundamentais, aos voo – um plano que ainda não está dis-
quais correspondem as instituições ponível para a humanidade; não porque
de poder social, já não contam com não temos quem possa defini-lo, mas
a adesão da maioria, e novos valores porque não temos ainda as condições
éticos passam a formar a mentalida-
humanas necessárias para pô-lo em prá-
de coletiva. O pensamento crítico
tica. O capitalismo é o resultado de um
exerce então, como frisou Marx, um
papel transformador, suscitando a pacto faustiano, ainda não estamos pre-
geral indignação contra o estado de parados para realizar um pacto humano,
coisas até então vigente; ou seja, des- mas obras corajosas e capazes como esta
legitimando o sistema de poder em de Fábio Konder Comparato são um ca-
vigor. minho nessa direção.
Não posso deixar de me identificar e
de me solidarizar com essa perspectiva,
mas para mim é difícil acreditar que seja
possível mudar a sociedade mediante a
indignação da moral. Em adição, é ne-
cessário um projeto que envolva uma
nova forma de organização econômica
e social, baseada, por exemplo, na au-
togestão das empresas. Marx e Engels
disseram no Manifesto comunista que
os povos só se dispõem a lutar por uma
ideia quando percebem que as condições
para implementá-la já estão presentes.
Pensavam que as condições para o so-
cialismo estavam então presentes. Enga-
navam-se. Hoje, mesmo nos países mais
desenvolvidos, as condições para a au-
togestão são limitadas. Não existe, por-
tanto, uma proposta viável de mudança
social. Comparato quer que o “o espíri-
to comunitário forme o núcleo da futura
civilização humanista” (p.293). Ao fazer
esse voto, ele parte do pressuposto de
que o ser humano não é simplesmente
egoísta. Na medida em que ele é um ser
social, ele obedece, além do princípio da
Luiz Carlos Bresser-Pereira é professor
sobrevivência, ao princípio da convivên- emérito da Fundação Getulio Vargas (SP).
cia. Uma combinação de egoísmo e de @ – bresserpereira@gmail.com
altruísmo é sempre possível e necessá-
ria. Mas não basta isso, como também I
Fundação Getulio Vargas. São Paulo/
não basta o espírito republicano de dis- SP, Brasil.

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