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PARTE H

O JOGO DA CULPA

(DÉCADAS DE 1960-80)
. A mãe geladeira

A verdadeé que bonitos. O erro de Rita Tepper


os bebês nem sempre nascem

ter admitido isso para si mesma na semana em que seu filho recém-nascido
gou. Rita tinha 24 anos e esperava um bebê rosado, rechonchudo e fofo. Mas o
, ao qual chamou Steven, saiu magérrimo, inusitadamentecomprido e amare-

o. A cor feia da pele era consequência da icterícia, não rara nos recém-nascidos
geral pouco preocupante. No entanto, ele tinha cor de milho. O aspecto
cabelo, também amarelo e todo arrepiado em pontinhos, era esquisitíssimo.
Rita não podia dizer que Steven fosse bonito. Para falar com franqueza, sua
,

ência magérrimo, amareladoe de cabelo espetado


- era horrenda como
-

um pinto.
Dois anos e meio depois, em 1966, Rita ficaria arrasada com essa lembrança
explicaram o dano permanente que infligira ao filho apenas por ter
do lhe
permitido pensar semelhante coisa. Havia pouco Steven fora diagnosticado
um problema chamado autismo, e ela estava sendo interrogada por uma
tente social, no BellevueHospital, em Nova York, designada para ajudá-la a
ntar o diagnóstico.

Naturalmente, quem tinha perguntasa fazer era Rita, mas a assistente social
podia lhe dizer muita coisa. O autismo era um diagnóstico tão raro e tão
co pesquisado que só alguns médicos estavam informados a seu respeito ou
mesmo tinham ouvido falar nele.Taft, o psiquiatra que examinara Steven
O dr. Essa ideia se estabelecera no fim da década de 1940, quando a própria Rita
meses antes, logo depois de seu segundo aniversário,foi sucinto quando falou Tepper era criança. Continuava sendo um artigo de fé na década de 1960, quando
com Rita e seu marido Jerry: "Vocês têm um problema grave".' Alguns minutos filho e a ideia lhe foi apresentada quase imediatamente depois que
ela teve um
depois, ela o ouviu dizer que talvez fosse "autismo". Taft ainda continuou fa informaram que Steven tinha autismo. Como as mães de sua geração que
lhe
lando, mas as palavrasperderam o significado. Rita sentia que estava assistindo tentavam criar filhos com autismo, Rita teve de conviver com a consciência de
a uma telenovela, mas, de algum modo, acabava ela mesma fazendo parte da que os médicos acreditavamque a culpa pelo autismo do filho era toda dela.
cena. Quando o casal chegou em casa, Jerry foi para o quarto, atirou-se na cama e

desandou a soluçar. Rita entendeu na hora que a forte ali teria de ser ela, mesmo
que isso significasse assumir toda a culpa. Várias semanas depois de receber o diagnóstico, Steven foi inscrito em um
programaoferecidono Bellevue. Mas, para que ele recebesse tratamento, Rita teve
de concordarem também ser tratada. Isso refletia a premissa do programa: a mãe
Quando os Tepperreceberama notícia devastadoraacerca de Steve, fazia 23 fazia parte do problema do filho e também precisava ser curada para que houves-
anos -
quase uma geração -
que Leo Kanner havia escrito seu relatório sobre se esperança de melhora da criança. E assim, enquanto Steven era levado a uma
Donald e a "nova" síndrome que seus comportamentos sugeriam. Àquela altura, sala cheia de outros meninos necessitados de auxílio, Rita se encontrava com uma
Donald e as outras dez crianças sobre as quais Kanner escrevera já estavam bem assistente social. Às vezes esses encontros eram individuais. Ocasionalmente, ela
entrados na idade adulta e espalhados pelo país, eo distúrbio conhecido como integravaum pequenogrupo de mulheres com filhos no programa. Nesses dias,
autismo continuava sendo vagarosamentereconhecido como um diagnóstico ficavam em uma sala maior, sentadas em cadeiras dobráveisdispostas em círculo.
significativo.Alguns de seus critérios ainda havia consenso
eram debatidos, e não As reuniões de grupo eram intensamente confessionais, cada mãe falando na
sobre o melhor nome para ele. Kanner, por exemplo, seguia insistindo em "au- sua vez conforme a orientação da assistente social. Uma a uma, aquelas mulheres
tismo infantil", ao passo que alguns o homenageavamchamando-o de síndrome sentadas em círculo examinavam em detalhes as lembranças das confusas primei-
de Kanner. ras semanas e meses da vida dos filhos, tentando determinar quando o autismo
arr

Independentemente do nome, o conceito havia ganhado certa aceitação . começara. Mas isso não era uma busca do instante em que notaram pela primeira
clínica em 1966, o ano do diagnóstico de Steven. Na época, a literatura médica vez os sinais doproblema. Elas se esforçavampara recordar os momentos em que
compreendia referências a centenas de outras crianças que tinham em comum podiam ter feito algo errado -sem sequer o saber -, algo que haviatraumatiza-
mais ou menos os tipos de comportamento associados por Kanner. A vasta maio. do os bebês de tal modo que eles se recolherampara sempre numa versãoprópria
ria morava nos Estados Unidos, e a maior concentraçãode casos estava na clínica de realidade. Era um trabalho dificil, sério, baseado na presunção de que os filhos
de Kanner na Johns Hopkins. tinham nascido "normais" e depois, de algum modo, a própria mãe lhes infligira
Contudo, números crescentes, não se fazia quase nenhum
apesar dos uma ferida psíquica.
esforço sustentado para explorar de maneira científica a natureza essencial do As ideias fluíam grupo. Uma mãe confessou que devia ter
nas sessões de
autismo. Em parte, isso se devia ao fato de que os cientistas consideravam a passado demasiado
tempo concentrada no outro filho. A segunda reconheceu,
síndrome demasiado rara parajustificar muita atenção. O maior fator, contudo, com vergonha, que
ficara muitíssimo ressentida com as horas de sono perdidas
geral da psiquiatria já por tinham quando estavam
era a certeza de saber que algumas crianças : nascendo os dentes da filha. Outras espremiam o cérebro à cata
autismo de exemplos
e outras não. de seus cuidados maternais deficientes. Todas, inclusive Rita, queriam
O veredicto: o autismo era causado por mães que não amavam suficiente- .
desesperadamente descobriro que tinham feito de errado. Se conseguissemidenti-
mente os filhos. ficar o erro
cometido, podiam tentar mudar de comportamento e reverter o dano.
também vivia
A lembrançade uma vez ter achado o filho parecido com um pinto não oco Isso
significava que Rita, agora grávida do segundo filho,
Steven, arrastando o carrinho consigo, metendo-se pe-
reu logo a Rita. A icterícia de Steven havia desaparecido dias depois do nascimento endo. Perseguindo
ente no meio da rua
para afastá-lo do movimento de táxis e ônibus, ela
e ela a esquecera. Em pouco tempo, seu bebê se tornou lindíssimo aos seus olho -

que isso acontecia toda vez que eles iam ao


parquinho.
Os outros também o viam assim. Antes que ele aprendesse a andar, quando Rita eçou a perceber
cerca, as outras mães ficavam conversando
levavaa passear de carrinhopelo bairro nova-iorquino de Rego Park, os transeuntes uanto isso, do lado de dentro da
tinham de correr atrás dos filhos e salvá-los
o elogiavam.Seus olhos azuis, o cabelo dourado e as feições eram tão deslumbran- toda a calma, e quase nunca
tes que seu rosto poderia ser usado na publicidade de alimentospara bebês. Mas trânsito.
fazendo nada errado", dizia-lhe o pediatra toda vez que
está
quando os vizinhos murmuravam de admiração, Steven não emitia nenhum som· "A senhora não
sem ironia.
Rita começou a ficar intrigada com isso, em especial na época do primeiro perguntava.E insistia em incentivá-la a "simplesmenterelaxar",
domiciliar aos Tepper, o médico de repen-
aniversário do menino. Algumas amigas suas tinham filhos da mesma idade, e Então, um dia, ao fazer uma visita
irmã de Steven, já havia nascido e
esses garotos já haviam começado a usar as palavras. Pela lógica, Steven devia udou de opinião. A essa altura, Alison, a
o pedia-
estar fazendo barulhos, pelo menos algum esforço para se comunicar talvez -
a alguns meses.
A finalidade da visita era examinar o bebê, coisa que
costumava fazer com os pacientes recém-nascidos. Rita
abriu espaço na mesa
um "mamã" ou "papá". Mas não fazia·
trocar fralda, e ele se debruçou sobre
Alison para lhe auscultar os pulmões
Steven tampouco parecia entenderpara que serviam os brinquedos. Seu pai
coração. Mas não tirava os olhos de um canto do
quarto, onde Steven fazia
passava horas mostrando-lhe como empilhar aros de plástico num jogo de varetas
°to levantou-se de um
de madeira, o aro maior embaixo, o menor em cima. A única coisa que o menino barulho, atirando os brinquedos, e então, de súbito,
sabia fazer com os aros era jogá-los no chão. Era assim que ele brincava com to- o para trepar num móvel alto. O médico observou a cena, olhando ora para
dos os brinquedos que lhe punham nas mãos. Fosse o que fosse, só queriajogá-lo en fazendoalvoroço, ora para a bebê tranquila na mesa.
Vendo o médico observar Steven, Rita lhe endereçou um olhar
interroga-
no chão com força. Não precisava ser um brinquedo. Steven adoravafazer isso
exame".
particularmente com um conjunto de castiçais que havia na casa. Eram de prata , ao qual ele respondeu: "Sabe, acho que vamos mandá-lo fazer um
se alegrou ao ouvir isso, ao ter suas preocupaçõesreconhecidas como mais
de lei e acabaram ficando tão deformados que já não era possível usá-los.
que mera ansiedade materna. Nunca lhe havia passado pela cabeça que o que
pediatra, Rita comentava o fato de o desenvolvimento de Ste-
Nas visitas ao
de errado com Steven fosse incurável.
ven parecerdesequilibrado. Mas o médico sempre lhe dizia a mesma coisa: que
Semanas depois, Rita estava diante da assistente social no Bellevue, ocupan-
ela precisava deixá-lo crescer no seu próprio ritmo. "Deixe-o viver a vida dele!",
de uma série de perguntassobre seus primeiros sentimentos por Steven.
ria-se o homem, dando a entender que Rita se preocupavademais. Mas ele só via
consultório- "Quando o viu pela primeira vez", perguntou a mulher, "a senhora sentiu
o menino de vez em quando,durante alguns minutos e sempre no
espécie de afeto por ele?"
não no mundo, no qual, além de atirar as coisas no chão, agora ele corria.
verdade...", começou Rita. Ela havia decidido que a verdade
"Bom, na
era
Isso começou logo que Steven aprendeu a andar, coisa que fez mais cedo
rtante. Queria que aquele processo desse certo, por isso resolveuser sincera.
que seu grupo etário. Aprendeu a rolar cedo, sentou-se cedo, deu os primeiros
tou a história do pinto.
passos cedo e começou a correr cedo. Ao que parecia, sua corrida em linha reta
E foi além. Contou à assistente social que, quando ela saiu do hospital depois
era uma necessidade. Sempre que opunham no carrinho, seu único impulso era
ríodo de recuperação de cinco dias habitualmente prescrito às mães novas,
sair pôr a correr
e se não em círculos, mas para longe, em qualquer direção,
-

édicos retiveram Steven mais algum tempo para acompanhara icterícia. Isso
por qualquer porta, contornando ou passando por cima de qualquer obstáculo.
om que, durante vários dias, ela tivesse de ir visitá-lo no hospital. Foi estres-
Quando Rita o levou a um parquinho infantil cercado eo colocou no chão, ele
, admitiu.
disparou em direção ao portão, saiu e foi para a calçada.
Seguiram-se outras dificuldadesquando Steven foi para casa. Ele resistia de Criança de Nova York durante alguns anos. Também trabalharanum hospital
psi-
imediato a ser acariciado, empurrando e irritando-se com o abraço da mãe ou de quiátrico de adultos e tinha dado aula na quinta série de um programa de
educação
quem quer que fosse. Quase não dormia nunca mais que cerca de uma hora
-
especial no South Bronx. Entrementes, lera bastante sobre o autismo para
saber o
por vez. Portanto, ela tampouco dormia. que diziam os experts: quando ocorria autismo, era sempre culpa da mãe.
'
Também haviaproblemas de alimentação. Steven tomou mamadeira desde quem há de achar o próprio filho parecido com um pinto?, Rita vivia se
o começo, como a maioria dos bebês americanos da década de 1960, mas parecia perguntando.Ela sabia a resposta e, pesarosa, sabia o resultado. Ela era um
caso
incapaz de digerir qualquer fórmula que lhe dessem. Como um relógio, ele comia de manual. Só esperava que a admissão total da responsabilidade e sua disposição
e logo vomitava -
poderososjatos de líquido que deixaram marcas no carpete, a se.submeter tratamento contínuo para entender a causa de seu fracasso
a
como
nos móveis e em quase todas as roupas da mãe- mãe fossem suficientes para, com o tempo, salvar Steven.
Portanto, sim, Steven parecia um pinto no começo, e, não, não houvera mui-
tas vezes em que cuidar dele não fosse estressante. E, sim, ele a cansava muito.
Mesmo agora ela estava exausta. Mãe geladeira. Esse era o nome. E era uma
calúnia cuja primeira semente
-

À medida que falava, Rita percebeu, pelo modo como a assistente social olha- tinha sidoplantada pela mais antiga reportagem da revista Time sobre
o tema au-
va para ela, que as duasafinal estavam chegandoa algum lugar. A enumeraçãode tismo, publicadaem26 de abril de 1948, sob o título "Medicine:
Frosted Children"
todos problemas entre Steven e ela
os obviamente era o que a assistente social
-
[Medicina: Crianças congeladas]. O objetivo principal da
matéria era apresentar
procurava. E, para a própria Rita, agora estava ficando claro no que ela errara e no aos leitores da Time a existência daqueles raros "esquizoides de fralda",2
que as outras mães do parquinho infantil haviam acertado. Por doloroso que fosse vam "felicíssimos quando estavam sozinhos". Mas todo o texto foi escrito com
encará-lo, não lhe restava outra coisa senão reconhecer: ela não tinha mostrado uma acentuada tendência a culpar, resumida na
pergunta retórica da revista: "Os
amor suficiente por Steven. pais frios estavam congelandoos filhos"
no autismo? Segundo a Time, em todos os
A assistente social fez Rita chegar a essa conclusão e então acrescentou outra casos documentados, as mães e os pais eram de um tipo particular.
Tratava-se de
perspectiva.Perguntou-lhe se ficara decepcionada com a aparência da segunda pais que "mal conheciam os filhos", que eram "frios" e "reservados".Para
dizê-lo
bebê, Alison. Rita foi obrigada a admitir que a menina correspondia a cada ex. sem rodeios, "havia algo errado com
todos eles".
pectativa sua de como uma bebê devia parecer e agir. Havia nascido rosada, re- Um especialista citado perto do fim da reportagem
ofereceu a imagem que
chonchuda e adorável.Quando a mãe a abraçava, ela se derretia nos seus braços. definiria a maior parte da discussão pública
sobre o autismo nas duas décadas
Rita inteligente o bastante para ver aonde isso estava levando.Tinha achado
era seguintes. Foi sua
metáfora para o destino desses jovens "pacientes patéticos",
Alison linda desde o começo, abraçara-a afetuosamente desde o começo, e ela como os chamou a Time,
nas mãos de mães e pais defeituosos e gelados. Aquelas
não "pegou" autismo. crianças, disse o especialista, "ficavam simplesmente guardadas em uma geladeira
Lá estava a explicação, pois. Descrevendo-ocomo um pinto, Rita havia ins- que não descongelava".3

tilado uma rejeição no filho indefeso. Sua dedicação a ele, as longas


sensação de Com o tempo, a discussão sobre a culpa começaria a deixar de
lado o papel
noites em claro, o duro trabalho de lhe dar de comer, os dias exaustivos, nada dos pais para se concentrar por inteiro nas mães. A metáfora da "geladeira" fixou-
-se
disso contava. Steven simplesmente continuava sendo autista, porque havia algo nelas, transformando a simpatia por suas dificuldades em
desprezo. Quase
errado com ela. Todo o aparato da psiquiatria
.
americana participou desse retrato excludente e de-
Certas mães não teriam hesitado em rejeitar semelhante explicação. Mas, por bilitante da mãe geladeira. No entanto, um expert levou o conceito a tal extremo
ironia, Rita muito instruída para ser capaz de tal coisa. Formadaem sociologia
era 90e seu nome se tornou sinônimo de inculpação materna: Bruno
Bettelheim.
pelo Hunter College, haviasido assistente social do Departamentode Bem-Estar (la
8. O prisioneiro 15209
número diante da mesa de um jovem capitão
O prisioneiro
15209 postou-se

Gestapo, que, com um gesto, o convidou a sentar. O prisioneiro, que era judeu

bia o que o
capitão sentia por gente como ele, declinou o convite. Apesar
um carimbo de borracha e, depois de fa-
o, o funcionário da Gestapo pegou
algumas perguntaspreliminares, desceu-o, com um ruído surdo, adequadoe
·
o, sobre o documento oficial que libertava o
prisioneiro do encarceramento
campo de concentraçãode Buchenwald. O papel carimbado dava ao
liberto
número limitado de dias parapartir da Áustria para os Estados Unidos, com a
dição rigorosa de nunca mais voltar. Era abril de 1939.
Foi essa a história contada por Bettelheim. Segundo sua versão, ele era o pri-
eiro; eo jovem capitão, um nazista em ascensão chamado Adolf Eichmann.
encontro fortuito entre o futuro astro da psicologia pop americana eo na-
destinado à forca por organizar a maquinaria do Holocausto parece muito
rovávelpara ser digno de crédito. Talvez fosse.
Ele era chamado de dr. Bruno
Bettelheim, às vezes só de dr. B., embora nã mais crítico, Bettelheim era
Como mostrou Richard Pollak, seu biógrafo
fosse médico, não no sentido de quem cursa uma faculdade
de medicina ou se prolífico maquiador da verdade. A extensa pesquisa de Pollak levantou nu-
forma em psicologia.* Austríaco, ex-comerciantede madeira, fez doutorado eng
rosos exemplos durante as várias décadas em que Bettelheim exagerou ou
história da arte. No entanto, nas décadas de 1950 e 1960, passou a ser o fornecedot
tiu fatos importantes de sua obra e de sua vida. Por exemplo, descobriu que
de insights sobrea psique humana mais querido, respeitado e confiável
do país. contou partes da história do prisioneiro em numerosas ocasiões, mas só uma
Bettelheim, segundo ele mesmo admitiu com tristeza, era tão feio que passou falou em ter estado cara a cara com o arquiteto do Holocausto. Em todas as
a vida toda incomodado com isso. Aprendeu
inglês tarde, aos trinta e tantos anos as ocasiões, disse Pollak, "Eichmann não foi mencionado". E concluiu que
quando chegou aos Estados Unidos. Mas tinha senso de humor, charme, inteligên quase certo que Bettelheim nunca estivera com o famoso nazista.
cia e energia, e, com a força dessas qualidades e um sotaque vienense, abriu caminho verdadeque Bettelheim passou onze meses preso num campo de concen-
É
para o topo da cultura popular americana. ~o.
Seus livros, ainda que de leitura dißcil, Foi capturado numa batida geral contra judeus em Viena, em maio de
tornaram-se best-sellers. Bettelheim escrevia reportagens de capa para revistas, e as 8, e levado ao primeiro campo de concentração da Alemanha, o de Dachau,
revistas escreviam reportagensde capa seu respeito. O perfil vagãode transporte de gado. Sobreviveuaos primeiros meses praticamente
a de primeira página
da Chicago Magazine chamou-o de "O homem que tanto
preocupa". Um docu.
se enxergar, pois era muito míope e um dos carcereiros esmagou seus óculos
mentário da BBC ÎHCÏUÌU-O entre os "maiores psicólogos infantis vivos" do mundo. lentes grossas.
Ele foi convidadodo programa Today, um "get" na televisão Naquela época,
tarde da noite, e Woody depois da anexação da Áustria àAlemanha, mas antes do
Allen, quando estava montando pseudodocumentárioZelig, que
o elenco de seu o da Segunda Guerra Mundial, não tinham a função prin-
os campos ainda
estreou em 1983, procurou-o para dizer que haviareservadopara ele uma breve
lhe de fábricas da morte. No caso dos judeus, eram um instrumento usado
participação no papel de uma autoridadena mente humana. Bettelheim aceitou o aterrorizá-los e convencê-los a fugir do Reich. O tratamento era brutal, os
convite. Afinal, fazia trinta anos que representava esse papel. camentos, frequentes e aleatórios, e todos os dias prisioneiros morriam de
doença, desnutriçãoe execuções sumárias. Buchenwald,paraonde Bettelheim fo tile o favorável,se ocuparam da questão de como um comerciante de madeira

transferido depois de quatro meses, era ainda pior. No entanto, naqueleperíod 'aco com doutorado em história da arte veio a ser reconhecido como um
inicial e emparticular parajudeus, havia a possibilidadereal de libertação desd ·

ente psicólogo infantil eo maior especialista do mundo em causas do autis-


que o preso deixasse a pátria para sempre, legando seus bens ao Estado· .
Aresposta continua sendo vaga. É possível que parte da explicação seja o fato
Uma vez solto, Bettelheim teve prazo de uma semana para sair do país e Bettelheim de fato ter adquirido sozinho um conhecimento significativo da
que nascera.2 Em maio de 1939, desembarcouem Nova York traumatizad
-
análise, que o fascinava. Ele era natural da Viena judaica, na qual a psicanálise

magérrimo, com vários dentes a menos e despojado da maior parte das econ eu epenetrou o tecido do discurso intelectual, afetandoo teatro, a literatura,
mias de toda a vida. Não tinha emprego,mal falavainglês e, em termos de hab lítica e a arte que Bettelheim conhecia muito bem. Ao que parece, na Uni-
-

litação, contava apenas com o doutorado em história da arte da Universidade idade de Viena, ele se matriculou em pelo menos dois cursos de psicologia,
Viena, obtido em sete anos, ao mesmo tempo que ele administrava a madeire po sobre o qual leu muito ao longo da vida.
da família. Tudo indicava que aquelas não eram as melhores credenciais para Com algumas alterações espertasaquie acolá, Bettelheimimpulsionou e ex-
ranjar emprego num país estrangeiro. diu sua narrativa de vida, transformando-a em um curriculum vitae sedutor.

As únicas coisas que ele tinha eram liberdade e umaautorizaçãotemporár que tudo indica, ninguém se deu ao trabalho de averiguara veracidadede tais
pararesidir no principal país das segundas chances. Aproveitou a oportunidade a cações, mesmo quando elas abriram para seu autor a porta de territórios
máximo. Dez anos depois, estava a caminho da fama, haviacriado uma vida no vez mais inalcançáveis na academia. No futuro, Robert Hutchins, o presi-

e edificado um novo eu para uso público. O "dr." diante do nome passou a s Universidadede Chicago,
te da seria um de seus patronos mais entusiastas.
uma parte permanente de sua identidade. O curinga de Bettelheim era sua história nos campos de concentração na-
Em 1950,Universidadede Chicagocolocou Bettelheim na direção da Esc
a s. Nessa área, ele tinha credenciais
autenticidade que nenhum acadêmico
e

la Ortogênica Sonia Shankman, que funcionava como um laboratório operati ericano podia igualar. Quando escreveu que os judeus da Europa eram em
para o desenvolvimento de novos métodos de tratamento das crianças perturb culpados pelo Holocausto -por relutarem muito em se assimilar antes que

das que viviam entre suas paredes em caráter permanente. çasse e relutarem muito em lhe opor resistência depois -, ele se sentiu no
Em suma, Bettelheim estava tendo um sucesso extraordinário na cura
ito de fazê-lo pelo fato de ter estado lá e conseguido sair vivo. As plateias ju-
doença mental nos alunos pelos quais era responsável. Isso, por sua vez, crio americanas que o ouviam dizem que tais coisas as atingiam como um choque
uma demandaenorme de manifestações suas sobre a melhor abordagemda cri aafronta, mas ele nunca voltou atrás.
ção de crianças "normais". Como sobreviventeradicado nos Estados Unidos, Bettelheim ficavahorro-
o com o escasso número de americanos que sabiam dos campos de concen-
Durante anos, além de escrever artigos de revista com conselhos sobre ed
o ou pareciam acreditarnos poucos fragmentos de informação que vazavam
cação infantil e atender repórteres apressados em busca de uma citação rápi
Bettelhe. ando em quando. Sentindo-se impelido a provar que o que parecia inacredi-
sobrequalquer coisa relacionada com psiquiatria ou saúde mental,
era verdade, concluiu,
também participava de encontros mensais com jovens mães de Chicago par em 1942, depois de mais de um ano de trabalho, um
o sobre o que
orientá-las sobre como criar os filhos de forma
Quarenta e poucas mu
correta. havia presenciado durante sua prisão. Escreveu não só acerca
condições no lado de dentro do arame farpado como
lheres por vez lotavam uma sala de seminário na universidadeà noite, quando o também sobre a psico-
que tinha visto em
filhosjá estavam dormindo, e a conversa se prolongavapor horas. operação: por que alguns presos conseguiam aguentar o
elo
enquanto outros definhavam e capitulavam. Demorou mais de um ano
"Ele era Deus, nós o idolatrávamos", disse uma mãe a Richard Pollak, qu
depois entrevistou todas as que pôde localizar.
convencerum editor a publicá-lo.
-O artigo, intitulado "Individual
Pelo menos três extensas biografias de Bettelheim, que oscilavam entre and Mass Behavior in Extreme Situations"
[Comportamento individual e coletivo em situações extremas], assustou os leit esquisita, confinadora, move-se, pode até vibrar. No alto, a luz ofusca. O
é
estranha enfia instrumentos
res quando afinalfoi publicado no journal of Almormal and Social Psychology. Pou ento chia e grunhe. Um estranho de roupa
depois, outros periódicos de maior circulação publicaram partes grandes do te da criança. Às vezes isso dói.
os na boca
ou o reproduziramintegralmente. O prestígio de Bettelheim aumentou. Duran Inspirado por Freud, Bettelheim tinha uma explicação: "Pelo que sabemos
vários anos, seu paper valeu como o relato definitivo em inglês das atrocidad anças autistas, sua
principal ansiedade é que o dentista lhes destrua os den-
devorar".4
que os nazistas estavam tentando perpetrar em segredo, assim como uma an' retaliação ao seu desejo de morder e
da psique dos prisioneiros. Na verdade,o autor não era psiquiatra; aliás, quan Suas teorias
sobre odontologia e autismo apareceramem A fortalezavazia, li-

um editor assim chamou, ele escreveu uma nota brevepara corrigi-lo


o que o catapultou ao topo da lista dos explicadores do autismo. A
obra
1967
Por coincidência, o artigo de Bettelheim foi publicado apenas alguns me truída como uma excursão guiada por um canto estranho e maravilhoso
depois que Leo Kanner escreveu pela primeira vez sobre Donald e os outros d ascinante" condição humana conhecida como autismo. Em uma descrição
meninos e meninas que estava examinandona Johns Hopkins. Enquanto pouc ciosa de um punhado de crianças sob seus cuidados na Escola Ortogênica,
lheim oferece seus comportamentos e obsessões estranhos como pistas
-
americanos estavambeminformados a respeito dos campos de concentração,
que explicam por que aquelas crianças puderam escolher fugir da
tualmente nenhum sabia o que era autismo. Transcorreria uma década, durante realidade.

qual a síndromepermaneceuobscura, conhecida apenas por um pequeno cír críticos ficaram surpresos com a devoção de Bettelheim por auxiliar as
s

de psiquiatras que liam Kanner e julgavam talvez ter casos em seu consultório. ças autistas e classificaram a obra como "brilhante".' The New Republic o

Então Bettelheim concluiu que o autismo merecia a sua atenção. grou "umherói do nosso tempo". Eliot Fremont-Smith, do New York Times,
científico".6
Em 1955, candidatou-sea uma subvençãoda Fundação Ford para pôr ou A fortaleza vazia de "um livro tão filosófico e político quanto
punhado de crianças com autismo na Escola Ortogênica por um período de se ntiu que Bettelheim, ao discutir o desafio de entrar em contato com o au-

anos. Propôs-se a acompanhar seu desenvolvimento ao mesmo tempo que , examinava o desafio universal de se comunicar através de toda sorte de

tudava as melhores maneiras de estabelecer contato com elas e mostrou que iras. "É inspirador", escreveu, como prova de que "as alienações da nossa

lições aprendidas podiam ter aplicações mais amplas. "A partir dessas crianças q [...]não precisam ser aceitas como a condição permanente do homem".
nunca tiveram um ajustamento emocional normal", escreveu, "muito se po As descrições de Bettelheim das crianças eram vivas e absorventes. Marcia,
aprender tanto sobre ajustamento emocional normal quanto sobre ajustamen emplo, tinha obsessão pelo tempo, isto é, pelas condições meteorológicas.
pela doença mental."3 Ele recebeu o financiamento. ava-o com intensa fascinação", escreveu ele, "e, durante um longo período,
i a única coisa de que falava."' As pessoas com autismo podem ficar fixadas
umúnico interesse obsessivo que se apoderade sua vida. Mas o
onadas em
Sem dúvida, Bettelheim não tinha intenção de estudar o cérebro daquel tinha um significado especial para Marcia, explicou Bettelheim, que só se
crianças. Esse tipo de abordagem não condizia com a época. O cérebro era compreenderdecompondo a própria palavra nas três palavrinhasmenores
órgão, e a corrente principal da psiquiatria dava pouca importância à noção la contém: "We/eat/her".* Ele esclareceu que a obsessão da menina pelo

causas orgânicas do mau comportamento mental. , pela temperatura e pela precipitaçãoprovinha de um temor profundo de
Para Bettelheim, a criança autista, em especial a que não sabia falar, era mãe "pretendesse devorá-la". E relatou que, depois de ter trabalhado com
tela perfeita em que rabiscar interpretação freudiana dos comportamento
uma menina "estava em vias de se recuperarpor completo" do autismo.
Considere-se, por exemplo, sua explicação do porquê de as crianças com au
mo sofrerem no dentista. Pergunte a qualquer pai ou mãe de uma criança co 8, weather significa tempo. Decomposta em we eat her, a palavra ganha um novo sig-
: "Nós comemos". (N. T.)
autismo grave: essa é uma luta clássica. A cadeira do dentista tem tudo de erra a
O segundo caso de fortaleza vazia, bem mais discutido, era o
A
de "Joe «¿os: os campos de concentraçãonazistas. Sintoma por sintoma, ele com-
Menino Automático". Bettelheim já havia escrito
sobre esse garoto na Scie
modo como via os homens se degradarem em Dachau e Buchenwald
American, o qual, por ter sido "completamente a o
desprezado"" pelos pais qu autistas dos pequenos. As crianças com autismo em
comportamentos
pequeno, desenvolverauma imagem de si
como parte de um mecanismo
esvitam
por sua vez, pertencia a uma máquina 9 contato visual? Ele já tinha visto isso. "Trata-se essencialmente do
o
maior, que era o mundo. Ao mesmo te
que evitava o contato com as pessoas, o fenômeno do olhar esquivo do prisioneiro"," explicou. "Ambos os com-
Joey se interessava sobretudo pelas co
mecânicas, em especial ventiladores.
resultam da convicção de que não é seguro deixar que os outros o
entos

Por que os ventiladores?Porque eles giram, observando." Bettelheim também tinha visto presos caírem na paralisia do
teorizou Bettelheim, e os cír próximo da autoestimulação
los têm um significado simbólico eio. E sabia que esse era "um paralelo muito
especial para as crianças com
autismo. "C danças autistas, como no balançarrepetitivo".
que é porque elas dão muitas e
muitas voltas sem nunca atingir um objetiv
presos propensos a memorizar listas de nomes ou de datas
escreveu. "A criança deseja reciprocidade. E prosseguia. Os
Quer fazer parte de um círculo compulsi-
consiste nela e em seus pais, de preferência 4 manter a sanidade eram como crianças autistas que memorizam
sendo ela o centro em torno do agarravamà esperança de voltar
q ente horários de trem. Os presidiáriosque se
gira a vida deles."
o mundo que existia antes que lhes destruíssem a vida evocavam a necessida-
Bettelheimcontou que Joey escapou do "círculo vicioso" no dia em que se por diante.
teu, espontaneamente, embaixo de uma e mesmice da criança autista. E assim
mesa e se imaginou botando um ovo q comportamentos coincidiam, talvez, para os leitores sem experiência
continha ele próprio. Quando quebrou a Os
casca e saiu dela
nasceu
simbolicamente, Joey oal com o autismo e que achavam as analogias de Bettelheim intrigantes.
e, de repente, ficou muitos passos mais próximo da cura. abriu c
e entrou neste mundo", escreveu
"Ele bém havia a satisfação de se sentir informado a respeito de algo esotérico.
Bettelheim. "Já não era um aparelhomecânic
sim uma criança humana." Quanto a de tudo, os leitores sentiam que haviam aprendido uma verdadebrutal,
ao que de fato aconteceu, acreditava "
ele que necessária: As mães causam o autismo dos fißtos. Essa era, afinal, a extensão
a mãe for a pessoa essencialmente
perigosa, mamar no peito é como ser
do [...]. Assim, um nascimento
envene a argumento que associava o autismo aos campos de concentração. Se os
do
que implicasse esse mamar parecia
perigosíssimo tas destruíam o espírito daqueles homens adultos, as mães estropiavam os
Joey. Mas, se nascesse de um ovo,
ele poderia se virar sozinho no
minuto em q spequenos. A analogiaera completa: as mães como carcereiras de campo de
saiu da casca. Não haveria
necessidade de mamar no peito dela".
entração. As mães como nazistas.
Segundo o relato, Joey também se
"recuperou" e voltou para casa dep Bettelheim sabia o quanto sua acusação parecia dura. Nos anos subse-
de nove anos na Escola Ortogênica,
e a seguir frequentou
e concluiu comêxito tes, não pouparia esforços para mostrar que não havia chamado as mães
ensino médio-
istas. Tratava-se de uma distorção postuladapor críticos hostis, afirmou, e
Ferozes. Perigosos. Devoradores. Eis alguns dos termos
favoritos de Bettelhe da por gente que nunca lera seu livro. Na verdade,embora lhe atribuíssem
para exprimir as causas e os efeitos do autismo. Este, a seu ver, era uma decisã frequênciaa cunhagemda expressão "mãe geladeira", ele jamais a invocara.
que as crianças tomavam em
reação ao mundo frio, desagradávele De fato, embora tivesse se tornado o mais eloquente inculpador da mãe,
ameaçad
em que se achavam. Os bebês
chegavambem e saudáveis, examinavamsua vida lheim podia alegar, sem mentir, que não era o primeiro. Essa honra cabia ao
se davam conta de que não conseguiam lidar com as feias circunstâncias em qu cialista citado na Time em 1948 anos antes que Bettelheim se envolvesse
-

nasceram. Em breve, tratavam


"deliberadamente" de "dar as costas à humanida o autismo -, aquele que falou em crianças que "nunca descongelavam".
de e àsociedade" a fim de sobreviver.
então que nasceu a metáfora da mãe geladeira, e seu autor era um homem
Bettelheim acreditavater presenciado isso em primeira mão não em crian. Tespeitabilidade e prestígio inquestionáveisna psiquiatria infantil. Chamava-se
ças, mas em adultos presos em um dos hábitats mais cruéis e devoradores.já lanner.
Quando Donald tornou a se acercar dela, Mary, com frieza, mandou-o se
ca.
9. A culpa de Kanner tar numa
cadeira".
olhos que primeiros a "enxergar" o autismo passaram
foram os
Os mesmos
muito provavelmente
onsiderar a rejeição parental essencial ao fenômeno,
causas.
a de suas
sugeriu que Mary e Beamon calibravamsua afeição com base
A seguir, Kanner
capacidade de desempenho de Donald. Escreveu com mordacidadesobre a pres-

o menino realizasse façanhas inúteis e precoces, como


que exerciam para que
rar listas de nomes.
Muitos pais eram culpados disso, acrescentou. "Incapazes
concentravam-se em fazer com que atingissem al-
gostar dos filhos como são",
objetivos: "a consecução da bondade, da obediência, da
tranquilidade,do comer
controle mais precoce possível da excreção, um vocabulário rico, proezas
, do
memória". As atendiam a tais exigências de desempenho, su-
crianças excluídas

a Kanner, em "uma súplica de


aprovaçãoparental". E, quando explodiam em
ça, isso "servia de oportunidade-sua
única oportunidade de retaliação".
-

Em síntese, ele concluía que as crianças com autismo


"parecemestar em um
de se apartar de sua situação [doméstica] para procurar conforto na solidão".
Em 1949, Leo Kanner publicou seu terceiro artigo importante sobre oe
um protesto contra o aprisionamento nas "geladeiras emocionais" da vida
tado mental que ele continuava chamando de autismo infantil precoce, baseado
distúrbio.1 Nele, não família.
no tratamento aplicado a cerca de cinquenta crianças com o
mencionou Mary nem a família Triplett pelo nome, de modo que é muito prová
vel que ela não tenha tomado conhecimento do retrato que Kanner dela pintou
Pôr a culpa nos pais foi uma mudança significativapara Kanner. Afinal, um
Era surpreendentementepouco lisonjeiro.
seus insightsfundamentais acerca do autismo, em 1943, fora de que "a solidão
Mary não foi a única a receber tratamento inclemente no artigo. Os pais dag
crianças" era evidente "desde o início davida" e que sua natureza autística não
outras crianças de que Kanner tratava também foram julgados e consideradog
a ser atribuída exclusivamente ou talvez em absoluto-às primeiras rela-
-

reprováveis."É impossível não notar", escreveu, um conjunto de característic¾


parentais. Pelo contrário, na época, ele havia traçado uma linha importante
presentes "na vasta maioria": "frieza", "seriedade", "obsessividade", "indiferen
o autismo e a esquizofrenia,asseverando que o primeiro era inato. Na frase
ça". E prosseguiufalando no "tipo mecânico de atenção" que davam aos filho
daquele artigo emblemático de 1943, empregou a palavra "congênito" para
e na generalizada"falta genuíno carinho maternal"
de -tão pronunciada que
tizar: "Porque aqui parece que temos exemplos de cultura pura de distúrbios
sua
ele a detectava em questão de segundos quando uma família nova chegava à
ticos congênitos".2
clínica. "Quando eles sobem a escreveu, "o filho se arrasta tristemente
escada",
e Além disso, até então Kanner só tivera coisas positivíssimas a dizer sobre
atrás da mãe, que nem se dá ao trabalho de olhar para trás."
Triplett. Ele haviacomentado com colegas o quanto ela era capaz no papel
A certa altura, seu artigo recorria a uma cena na casa dos Triplett. Ele
e
ãe. E na correspondênciade ambos sempre deixara claro que a admirava.
completar
Mary estavam conversandona presença de Donald, então prestes a
no . Kannernunca explicoupor que, no fim dos anos 1940, decidiufazer com que
doze anos. No texto, Kanner registrou a cena: "Donald, o paciente, sentou-se
parecesse fria nem por que passou a atribuir aos pais em geral pelo menos
sofá, ao lado da mãe. Esta se afastou como se não suportasse sua
proximidade
Leon Eisenberg: "Quando ele
parte da culpa pelo omportamento autístico dos filhos. Na realidade, muitos o
observou mais tarde seu ex-assistente moda".4
sua visão do autismo ficou mais na
depois ele negaria que tivesse tido opiniões inculpadoras dos pais e faria que expressão 'mãe geladeira',
a
.o Kanner afirmou que 1951 foi um
momento decisivo para a estatura
de dizer que havia sido citado de maneira errônea. Mas não era verdade.
disse mais tarde, que "a situação
mudou
conceito. Foi então,
Uma coisa é certa: antes de Kanner começar a usar a imagem da gela mo como artigos e
descobertas começaram a circular. Cerca
de 52
ra, sua descoberta do autismo permaneceu essencialmente ignorada. Dur ente"' e suas
especificamenteno tema entre aquele ano e 1959, e
muitos anos após artigo de 1943 que apresentava "Donald T.", sua descrição
o se
concentraram
diagnosticado em crianças no ultramar - primeiro na
crianças com "autismo infantil" congênito raramente foi discutida na litera o passou a ser
países.6
médica. Suscitou, quando muito, um punhado de citações. Tampouco a imp depois em outros
,
autismo era inato, Kan-
sa popular lhe deu atenção. Nenhum artigo de jornal ou revista menciono
prender a sua convicçãoinicial de que o
vez de se
o diagnóstico por ele inventado
começou a ganhar
distúrbio descrito por Kanner. E, o que é mais revelador,ninguém no resto 'a desistido. E, assim,
solta no mundo durante
mundo corroborou o que ele enxergava. Durante a década de 1950, praticam enotoriedade, eo mito da mãe geladeiraficaria à
todos os casos de autismo foram diagnosticados por ele próprio em Baltim anos.

Maryland. Em suma, os colegas não reconheciam que ele tivesse descobert


que quer que fosse.
quando todo psiquiatra e diziam a Rita e a outras
assistente social
Pelocontrário, pessoas que Kanner respeitavadisseram-lhe que, na verda 1966,
delas, Kanner voltara a pensar
consigo
ele não havia descoberto nada. Louise Despert, uma psiquiatra de Nova Y ue o autismo do filho era culpa
que estava com a razão no começo: os bebês já nasciam com autismo, e
muito estimada por ele, escreveu-lhe que tudo que havia em seu artigo sobre
possível que
nald era, "quase palavrapor palavra",3 um relato de caso de esquizofrenia.Os da mãe ou a falta dele nada tinha a ver com o transtorno. E
sse lido alguns dos primeiros estudos
que demonstravam diversos padrões
mantiveram uma animada correspondênciaa esse respeito, no decorrer da q
ção sensorial nas crianças, sugerindo um
componente neurológico no
ficou claro que Kanner passou a titubear em suas convicções acerca do significa
chamado Bernard
do que descobrira. Ele chegou a revisar seu manual nesse período, transferindo Também estava orientando um jovem pesquisador
.

autismo infantil para a categoriaesquizofrenia.Mas, como d, que explicava de maneira persuasivaque o distúrbio era orgânico. Im-
se ainda estivesse co
ado, ele exortou Rimland a linha.
seguir adiante nessa
dificuldadepara se decidir, deu-lhe um subtítulo próprio.
go mais pode ter afastado Kanner do campo inculpador da mãe. Ele não
Talvez algo parecido esteja por trás do seu recém-descobertoenfoque
senão desprezo por Bruno Bettelheim. Sem dúvida, era irritante o
fato de o
papel dos pais na origem do autismo. Chamar o autismo de congênito contraria
bre autismo mais lido na década de 1960 ter o nome de Bettelheimna
capa,
a tendência dominante no pensamento referente à doença mental. Na opini
seu, mas não se tratava só disso. Ao examinar a obra do rival, viu
sobretudo
da psiquiatria, a doença mental sempre por experiências emocion
era causada
ções grandiloquentes não examinadas. Em 1969, ele
e
ridicularizou mani-
traumáticas e as mães quase sempre tinham um papel no problema. No c
ute o livro eo homem perante um grupo de pais em Washington.
da esquizofrenia, havia até uma expressão para designar esse papel: o da "m-
Não preciso mencionar o livro aqui",' disse, certo de que os ouvintes, quase
esquizofrenogênica".Afinal de contas, se o autismo pertencia à coluna da esq
mães e pais de crianças com autismo, saberiam que estava se referindo a
zofrenia, é fácilimaginar como Kanner há de ter começado a refletir sobre oq
za vazia. "Eu o chamo de livro vazio", acrescentou, para que ninguém dei-
as mães teriam feito para causar autismo nos filhos.
tscapar a alusão.
De maneira reveladora, só depois que Kanner passou a falar em crianç
abordar
Ranner contou aos próprio havia esquadrinhadoum capítulo de
pais que ele
presas "em geladeiras emocionais" foi que a revista Time se dispôs a

psiquiatria começou prestar atenção no ass


as, linha por linha. "Naquelas 46 páginas, contei cerca de 150 vezes em
autismo eo resto do campo da a ,
eramincentivados a chutar no Bettelheim ainda
seu ir e vir. No entanto,
que o autor diz 'talvez', 'quiçá' e 'pode ser mera especulação', Cento e cinque s
ideias sobre o autismo continuavam plasmando o
vezes!" a figura de peso, e suas
respeito do assunto.
"Por favor", implorou à plateia, "cuidado com o tipo de gente que lhes ento Popular a
provavelmente milhões de telespectadores estavam assistin-
com ar ditatorial: 'Isso é o que é porque eu digo que é'. Ainda temos de ser m aquela noite,
Bettelheim que explicasse o autismo. Era,
cautelosos." programa quando Cavettpediu a
grave que se
público bem informado que a maioria,
de Kanner era mais
entrevistador, "o distúrbio psicótico da infancia mais
Como o le ao
saber mais, e Bettelheim começou a
explicar, de maneira
também tomou alguns minutos parafalar de seu próprio papel no fiasco da in e". Cavett quis
representavade fato: uma
pação da mãe. Sua abordagemfoi direta: ele simplesmentenegou toda respo sa e
comovente,o que o autismo numa criança
bilidade. "Desde a primeira publicaçãoaté a última", insistiu, "eu disse em ter de desespero.
de sentir que é terrivelmente importante
inequívocos que distúrbio era 'inato'." Quanto ao mito da mãe gelade
esse ara sobreviver",disse, "você tem
fora um grande mal-entendido. "Fui citado de maneira errônea, em geral co ém."
preocupa com você".
se tivesse dito: 'É tudo culpa dos pais"', declarou às mães e aos pais. "Eu nun avett confirmou: "Que alguém se
Bettelheim. "No caso das crianças extremamente
disse isso." Tecnicamenteera verdade,embora ele tivesse o cuidado de omitir s im, era isso, concordou
esperança de
adas, não só ninguém se preocupavacomo também havia a
papel na propagaçãoda ideia-
muito melhor se elas não vivessem."
Então pronunciou oito palavras de efeito eletrizante: "De modo que eu se
com autismo passaram
absolvo como pais". a manhãseguinte, em todo o país, as mães de filhos
tivesse assistido ao programa na
significava. Kanner estava dizendo às mã caradas de modo diferente por quem
Todos entenderam o que isso
de educação
presentes e às ausentes que elas não tinham nenhuma culpa pelo distúrbio d ,
modo algum com mais simpatia. Médicos, professores
e de

estudantes de psicologia, sogras, vizinhos


todos eles ouviram aquilo
----
,

era porque suas mães as


ricochetearam na parede atrás dele saíram pelas janelas ma maneira. Quando crianças tinham autismo,
Os aplausos e

mães. Batendo palmas mortas.


uma explosão de gratidão e alívio a partir primeiro das
pé, algumas choravam.Os pais também. Um deles depois qualificaria o momen
de "emocionante"," pois não era só o som da gratidão de todos que flutuava d
tro e além do salão. Era o som da vergonhareprimida que se libertava. Mais tard

um informativo de pais se referiu a ele como "Nosso querido dr. Kanner". Foi
última vez que Leo Kanner mudou de opinião sobre o autismo.

Bruno Bettelheim nunca mudou de opinião. No verão de 1971, aparece


como convidado no programa de Dick Cavett." A teoria da mãe geladeira ain
gozava de prestígio em grande parte do panorama psiquiátrico, mas a resistênd
contra ela crescia. Àquela altura, haviam escrito muito mais sobre o próprio
Bett

lheim, que continuavana Universidadede Chicago, dirigindo a Escola Ortogêni


e recebendo crianças com autismo. Diziam que a escola havia excluído
os p

e erigido uma escultura de jardim representando uma mãe reclinada, a qual