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Sobre a Vaidade

[1]

Narciso enamora-se da sua própria imagem


A CAPA DESTE ARTIGO
 
Na mitologia greco-romana, Narciso, ou “O Auto-Admirador”, era um he-
rói de Tecias, na Beócia, célebre pela sua beleza e orgulho. A bela jovem
ninfa Eco amava  Narciso, mas este achava sua beleza tão incomparável
que não tinha olhos para mais ninguém. Considerava-se um deus, como
Apolo ou Dionísio. Eco, desamparada, definhou até a morte pela rejeição
de Narciso. A deusa Nêmesis, compadecida da jovem e para dar uma lição
no frívolo rapaz, condenou-o a apaixonar-se pelo seu próprio reflexo na
água de uma lagoa, o que o manteve paralisado a contemplar-se, até o seu
próprio definhamento. O mito quer alertar quanto  à autocontemplação
narcisista (diferente da autocontemplação mística), pois leva o homem
à sua própria ruína, uma vez que o paralisa quanto àquilo que nele há
de imperfeito, e que exige transformação. O  pintor italiano Caravaggio 
(1571 – 1610) foi quem talvez melhor representou este mito através de sua
célebre pintura “Narciso”,  capa deste artigo.

[2]
Prezado leitor,

Saudações Rosacruzes!

Este opúsculo é destinado a todos os mortais, afinal abaixo dos céus tudo
é vaidade.

Resolvemos imprimir esta 2ª edição com alguns complementos devido ao


seu conteúdo ser sempre atual e estar relacionado diretamente à grande
questão do ser humano tão bem investigada pelo filósofo brasileiro
Mathias Aires Ramos da Silva Eça.

Somos instados em nossos ensinamentos a transmutar o “chumbo pesado do


ego” no metal nobre, que representa o ouro da personalidade-alma evoluída.

Esta é a chamada alquimia espiritual: transformar as mazelas humanas em


pureza de sentimentos e aspirações nobres.

A reflexão serve para o convívio nos Organismos Afiliados da AMORC,


em nossas relações interpessoais e, naturalmente, na sociedade em geral.

Por tudo isso, convido o leitor a estudar este pequeno opúsculo como uma
monografia.

Boa leitura!

Sincera e fraternalmente
AMORC-GLP

Hélio de Moraes e Marques


GRANDE MESTRE

[1]
Sobre a Vaidade
Os pensamentos abaixo versam sobre a vaidade e foram inspirados a
partir do trecho bíblico extraído de Eclesiastes (1,2): Vanitas vanitatum et
omnia vanitas, que significa: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. Eles
são do filósofo brasileiro do século XVIII Mathias Aires Ramos da Silva
Eça, nascido em São Paulo em 27 de março de 1705. Estes pensamentos
foram publicados por Mathias em 1752 na sua obra “Reflexões Sobre a
Vaidade dos Homens”. Para este opúsculo, utilizamos a edição publicada
pela Editora Escala.

Este pensador de temperamento calmo e personalidade introvertida


estudou em São Paulo, morou em Lisboa e Coimbra, Portugal, e em Paris,
França, onde escreveu obras em francês e latim.

Suas reflexões nos lembram certa Iniciação Rosacruz e traduzem um dos


maiores vícios da natureza humana.

A reprodução destes breves excertos visa provocar uma avaliação no seu


pensamento a respeito de si mesmo e de como você se relaciona com você
quando o seu ego está em relevância ou ocupa uma posição mais ou menos
privilegiada. Com efeito, esta autoanálise lhe permitirá saber como você se
relaciona com os outros: o seu maior desafio.

“Sendo o termo da vida limitado, não tem limite a nossa vaidade;


porque dura mais do que nós mesmos e se introduz nos aparatos
últimos da morte.
Vivemos com vaidade, e com vaidade morremos.
De todas as paixões, a que mais se esconde é a vaidade: e se esconde de
tal forma que a si mesma se oculta, e ignora: ainda as ações mais pias
nascem muitas vezes de uma vaidade mística, que quem a tem não a
conhece nem distingue: a satisfação própria, que a alma recebe, é como
um espelho em que nos vemos superiores aos demais homens pelo bem
que obramos, e nisso consiste a vaidade de obrar o bem.

[2]
Não há maior injúria que o desprezo; e é porque o desprezo todo se
dirige e ofende a vaidade; por isso a perda da honra aflige mais que a
da fortuna; não porque esta deixe de ter um objeto mais certo e mais
visível, mas porque aquela se compõe toda de vaidade, que é em nós
a parte mais sensível. Poucas vezes se expõe a honra por amor da
vida, e quase sempre se sacrifica a vida por amor da honra. Com a
honra que adquire, se consola o que perde a vida; porém o que perde a
honra, não lhe serve de alívio a vida que conserva: como se os homens
mais nascessem para terem honra que para terem vida, ou fossem
formados menos para existirem no ser que para durarem na vaidade.
Justo fora que amassem com excesso a honra, se esta não fosse quase
sempre um desvario, que se sustenta na estimação dos homens e só
vive da opinião deles.

Trazem os homens entre si uma contínua guerra de vaidade; e


conhecendo todos a vaidade alheia, nenhum conhece a sua: a vaidade
é um instrumento que tira dos nossos olhos os defeitos próprios, e faz
com que apenas os vejamos em uma distância imensa, ao mesmo tempo
que expõem à nossa vista os defeitos dos outros ainda mais perto, e
maiores do que são. A nossa vaidade é a que nos faz ser insuportável
a vaidade dos demais; por isso, a quem não tivesse vaidade não lhe
importaria nunca que os outros a tivessem.
Todas as paixões têm um tempo certo em que começam e em que
acabam: algumas são incompatíveis entre si, por isso para nascerem
umas é preciso que acabem outras. O ódio e o amor nascem conosco,
e muitas vezes se encontram em um mesmo coração, e a respeito do
mesmo objeto.

Mas se é certo que a vaidade é vício, parece difícil haver virtude que
proceda dele; porém não é difícil, quando ponderarmos, que haja
efeitos contrários às suas causas. Quantas dores há que se formam do
gosto, e quantos gostos que resultam da dor! Essa infinita variedade
dos objetos tem a mesma causa por origem: as diferentes produções
que vemos, todas se compõem dos mesmos princípios e se formam com
os mesmos instrumentos. Algumas coisas degeneram à proporção que

[3]
se afastam do seu primeiro ser; outras se dignificam, e quase todas vão
mudando de forma à medida que vão ficando distantes de si mesmas.
As águas de uma fonte a cada passo mudam, porque apenas deixam
a brenha, ou rocha donde nascem, quando em uma parte ficam sendo
limo, em outra flor, e em outra diamante. Que outra causa mais é a
natureza do que uma perpétua e singular metamorfose?

A vaidade parece-se muito com o amor próprio, se é que não é o mesmo;


e se são paixões diversas, sempre é certo que, ou a vaidade procede
do amor próprio, ou este é efeito da vaidade. Nasceu o homem para
viver em uma contínua aprovação de si mesmo: as outras paixões nos
desamparam em um certo tempo, e só nos acompanham em lugares
certos; a vaidade em todo o tempo e em todo o lugar nos acompanha,
e segue não só nas cidades, mas também nos desertos; não só na
primavera dos anos, mas em toda a vida; não no estado da fortuna,
mas ainda no tempo da desgraça: paixão fiel, constante companhia e
permanente amor.
Nada contribui tanto para a sociedade dos homens como a mesma
vaidade deles: os impérios e repúblicas não tiveram outra origem,
ou ao menos não tiveram outro princípio em que mais seguramente
se fundassem: na repartição da terra, não só fez ajuntar os homens
os mesmos gêneros de interesses, mas também os mesmos gêneros de
vaidades, e nisto vê dois efeitos contrários, porque sendo próprio na
vaidade o separar os homens, também serve muitas vezes de os unir.
Há vaidades que são universais e compreendem vilas, cidades e nações
inteiras: as outras são particulares e próprias a cada um de nós; das
primeiras resulta a sociedade, das segundas, a divisão.

Dizem que gostos e desgostos não são mais que imaginação; porém,
melhor seria dizer que gostos e desgostos não são mais do que vaidades.
Fazemos consistir o nosso bem no modo com que os homens olham
para nós, e no modo com que falam em nós; e assim até nos fazemos
dependentes das ações e dos pensamentos dos demais homens, quando
cremos que eles nos atendem e consideram que esta imaginação, que
lisonjeia a vaidade, precisamente nos dá gosto: se por alguma causa

[4]
imaginamos o contrário, a mesma imaginação nos perturba e inquieta.
Não há gosto nem desgosto grande naquilo em que a imaginação não
tem a maior parte, e a vaidade, empenho.

A vaidade diminui em nós algumas penas; porém aumenta aquelas


que nascem da mesma vaidade: a estas nem o esquecimento cura, nem
o tempo; porque tudo o que ofende a vaidade fica sendo inseparável
da nossa memória, e da nossa dor. Entre os males da natureza, alguns
há que têm remédio; porém os que têm a vaidade por origem são
incuráveis quase todos: e, verdadeiramente, como há de acabar a pena
quando a lembrança da ofensa basta para fazer que dure em nós a
aflição? Ou como pode cessar a mágoa se não cessa a vaidade que
a produz? Alguns sentimentos há que se incorporam e unem de tal
forma a nós que vêm a ficar sendo uma parte de nós mesmos.

A imaginação desperta e dá movimento à vaidade; por isso esta não


é paixão do corpo, mas da alma; não é vício da vontade, mas do
entendimento, pois depende do discurso. Daqui vem que a mais forte
e a mais vã de todas as vaidades é a que resulta do saber; porque no
homem não há pensamento que mais o agrade do que aquele que o
representa superior aos demais, e superior no entendimento, que é nele
a parte mais sublime. A ciência humana o mais a que se dedica é ao
conhecimento de que nada se sabe: é saber o saber ignorar, e assim
vem a ciência a fazer vaidade da ignorância.

Com os anos não diminui em nós a vaidade, e se muda é só de espécie.


A cada passo que damos no discurso da vida se nos oferece um teatro
novo, composto de representações diversas, as quais sucessivamente
vão sendo objetos da nossa atenção, e da nossa vaidade. Assim como
nos lugares, há também horizonte na idade, e continuamente vamos
deixando uns e entrando em outros, e em todos eles a mesma vaidade,
que nos cega, nos guia.

Não temos alegria se está descontente a vaidade; da mesma sorte que a


desgraça não aflige tanto quando se acha a vaidade satisfeita.

[5]
Para nada ser permanente em nós, até o ódio se extingue: cansamo-nos
de aborrecer: a nossa inclinação tem intervalos em que fica isenta da
sua maldade natural: não esquece, porém, o ódio, que teve por princípio
a vaidade ofendida; assim como nunca o favor esquece quando se
dirige e tem por objeto a vaidade de quem recebe o benefício. A nossa
vaidade é a que julga tudo: dá estimação ao favor e regula os quilates à
ofensa: faz muito do que é nada: dos acidentes faz substância: e sempre
faz maior tudo o que diz respeito a si.”

Caros fratres e sorores, como vimos, não há quem esteja imune à vaidade. A
vaidade é o fio condutor para que se possa entender todo o comportamento
humano. Ela está ligada a outros sentimentos como o orgulho e alcança
dimensões incomuns nos desavisados que não percebem sua cegueira
diante de tal mal.

Como uma escola de desenvolvimento humano, a Ordem Rosacruz –


AMORC lembra a importância da permanente observação e atenção quanto
a este aspecto da natureza humana, que precisa ser constantemente vigiado.

[6]
Capítulo extraído do livro “A Vós Confio”, revisado por
Sri Ramatherio – 9ª edição, 2013
Da Vaidade
A vaidade é poderosa no coração do homem; a intemperança o embala
segundo sua vontade; o desespero o domina, e o medo proclama: “Olhai! Não
tenho rival neste coração”; porém a vaidade vai mais longe que todos eles.

Portanto, não chores pelas calamidades da condição humana; ao contrário,


ri de suas loucuras. Nas mãos do homem inclinado à vaidade, a vida não é
mais do que a sombra de um sonho.

O herói, o mais renomado dos personagens humanos, não passa da borbulha


desta debilidade. O público é volúvel e ingrato; por que comprometer-se-ia
o sábio pelos tontos?

O homem que se descuida de suas presentes ocupações para resolver como


há de comportar-se quando for mais importante, alimenta-se com vento,
enquanto outros comem o seu pão.

Age conforme tua condição presente, e assim teu rosto não se envergonhará
quando estiveres em condição mais exaltada.

Nada cega mais o olho, ou mais oculta o coração aos olhos de um homem,
do que a vaidade. Quando não puderes ver-te, os outros te descobrirão
claramente.

Como a tulipa que é vistosa embora sem perfume, atraente ainda que sem
utilidade, assim é o homem que se empina sem ter méritos.

O coração do vaidoso é perturbado, embora pareça contente; seus cuidados


são maiores que seus prazeres.

Suas inquietudes não podem descansar junto com seus ossos; seu túmulo
não é bastante profundo para ocultá-las; estende ele seus pensamentos além
do seu ser; fala elogio­samente para que o retribuam quando houver partido;
porém, quem lhe promete isso, engana-o.

[7]
Como o homem que arranca da esposa o compromisso de permanecer na
viuvez, para que ela não perturbe a alma do finado assim é quem espera
que elogios chegarão a seus ouvidos debaixo da terra, ou darão felicidade
a seu coração envolto no sudário.

Faze o bem enquanto vives, porém não te preocupes com o que se diga.
Contenta-te apenas em merecer o louvor e tua posteridade regozijar-se-á
em escutá-lo.

Como a borboleta que não vê suas próprias cores, como o jasmim que não
sente o perfume que derrama; assim é o homem que aparenta alegria e se
esforça para que os demais o percebam.

Qual o objetivo, pergunta ele, de minha veste de ouro? Para que está minha
mesa cheia de guloseimas, se nenhum olhar as vê? Se o mundo não o sabe?
Dá teus trajes ao desnudo e teu alimento ao faminto; assim serás louvado
e sentirás que o mereces.

Por que dás a cada homem a lisonja das palavras sem sentido? Sabes que,
quando te retribuírem, tu não lhes dará valor. E o outro sabe que te mente;
no entanto, sabe ele também que lhe darás os agradecimentos por isso.
Portanto, fala com sinceridade e escutarás verdades.

O vaidoso deleita-se em falar de si mesmo; mas não vê que os demais não


gostam de ouvi-lo.

Se esse fez algo digno de louvor, se possui o que é digno de admiração,


sua alegria é proclamá-lo e seu orgulho é ouvi-lo relatado. O desejo de
semelhante homem é irrealizável. Os homens não dizem: “Olha o que ele
fez!”, ou “Olha o que ele tem!”, e sim: “Observe seu tolo orgulho!”

O coração do homem não pode atender a muitas coisas ao mesmo tempo.


Aquele que fixa sua alma em exibições perde o sentido da realidade. Somente
persegue bolhas que estouram na fuga, enquanto pisoteia o que poderia
honrá-lo.

[8]
Todos os Direitos Reservados à
ORDEM ROSACRUZ, AMORC
GRANDE LOJA DA JURISDIÇÃO DE
LÍNGUA PORTUGUESA

Proibida a reprodução em parte ou no todo.