Vous êtes sur la page 1sur 8

A pouco cordial cordialidade

E
Luiz Costa Lima

stivemos acostumados a pensar que a primeira e


consagrada obra de Sérgio Buarque de Holanda,
Raízes do Brasil, tenha se caracterizado, desde sua
estreia, em 1936, por sua argumentação antitra-
dicional e seu caráter de defensora dos valores
democráticos. No Clássico por Amadurecimento,
Luiz Feldman (2016) mostra não ser exatamente
assim. Muito embora a formatação do capítulo fi-
nal do Raízes, significativamente sempre chamado
“Nossa Revolução”, mostre que a posição do histo-
riador não se confundia com o estrito retrato que
Feldman mostra de sua obra de estreia1, de fato

1 É sintomático que o autor já bem compreendia que, na


ordem colonial, “a primazia das conveniências particu-
lares (dominava) sobre os interesses de ordem coletiva”
(Holanda, 1936, p. 150) e já citava Der Begriff des Politis-
chen, de Carl Schmitt, onde se encontrava a formulação
latina que, na edição conclusiva, dará o fecho definitivo
à dissociação entre a ordem dos interesses privados e

LUIZ COSTA LIMA é crítico literário, professor


da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e
da PUC-RJ e autor de, entre outros, A Ficção e o
Poema (Companhia das Letras).

Revista USP • São Paulo • n. 110 • p. 107-114 • julho/agosto/setembro 2016 107


Textos / Homenagem

não era justa a ideia homogênea que foi mantida no caso brasileiro, essas virtudes possam significar
de sua obra – o modelo clássico da suposta absolu- ‘boas maneiras’, civilidade. São antes de tudo ex-
ta coerência é fornecido pelo prefácio de Antonio pressões legítimas de um fundo emocional extrema-
Candido (1969) à edição definitiva. Por isso mesmo mente rico e transbordante” (Holanda, 1936, p. 101).
se justifica a obra de Luiz Feldman. Por ela, não
só se alcança uma compreensão menos imperfeita, Como diretor da coleção Documentos Brasi-
como se torna mais flagrante sua distinção com o leiros em que o Raízes seria publicado, Gilberto
permanente conservadorismo de Gilberto Freyre. Freyre conhecia o texto antes de ser ele editado.
Contudo, como logo perceberá o leitor, a emenda Daí o reconhecimento de sua importância para sua
acima indicada não me importou por si mesma tese da ascensão dos diversos tipos de mulatos, que
senão como meio de esclarecer a função da cor- desenvolverá em Sobrados e Mucambos. A cordia-
dialidade na formação brasileira; é em decorrência lidade se punha a serviço dos mestiços amáveis,
do papel que se lhe atribuirá, entre as edições de delicados, risonhos, carinhosos:
1936 e 1969, que será extraído o argumento para
pensar-se teoricamente, dito de modo mais preciso, “Ninguém como eles é tão amável; nem tem um
metaforologicamente, as transformações interpre- riso tão bom; uma maneira mais cordial de ofe-
tativas da cordialidade. recer ao estranho a clássica chicrinha de café; a
Para começo de conversa, lembre-se o que casa; os préstimos. Nem modo mais carinhoso de
declara Feldman: “Na redefinição das qualidades abraçar e de transformar esse rito [...] de amizade
do homem cordial, estava em causa a ideia mesma entre homens em expansão caracteristicamente
de uma identidade nacional”. Se recordarmos o brasileira” (Freyre, 1936, III, p. 1.060).
papel que, na primeira edição, desempenhava a
tirada de Ribeiro Couto, ficamos desconfiados Condenso seu argumento: na competição pro-
da ênfase concedida à cordialidade. Conceda-se fissional, o mulato dispunha do riso contra o bran-
que o raciocínio de Sérgio Buarque não a tomava co “como um dos elementos mais poderosos de
como base de seu argumento. Nem por isso, no ascensão profissional” (Freyre, 1936, III, p. 1.061).
entanto, era menor seu destaque: Tal docilidade não se confundia com o riso servil
do homem negro; era, “quando muito, obsequioso
“O escritor Ribeiro Couto teve uma expressão feliz e, sobretudo, criador de intimidade” (Freyre, 1936,
quando diz que a contribuição brasileira para a civi- III, p. 1.063). Mas não pretendo destacar apenas o
lização será a cordialidade – daremos ao mundo ‘o caráter do argumento. Para a inegável capacida-
homem cordial’. A lhaneza no trato, a hospitalidade, de de convencer de Freyre, contribuiu a própria
a generosidade [...] formam um aspecto bem defi- afabilidade nada convencional de sua linguagem.
nido do caráter nacional. Seria engano supor que, O sociólogo não só escrevia bem, como é de reco-
nhecimento geral, mas desenvolvia o que chamarei
de estilo jeitosamente cordial:
a ordem pública, sem, entretanto, já destacá-la. Acres-
cente-se ainda que o Schmitt primeiramente citado é da
edição de 1935, i.e., que Sérgio Buarque o terá lido um “Seu riso foi não só um dos elementos, como um
pouco antes de entregar os originais para publicação.
Que disso se infere senão que a configuração definitiva do dos instrumentos mais poderosos de ascensão pro-
capítulo ainda se encontrava no princípio de seu processo fissional, política, econômica; uma das expressões
de elaboração? O mesmo raciocínio é cabível a propósito
do testemunho do naturalista norte-americano Herbert
mais características de sua plasticidade, na transi-
Smith. Basta ler-se o que a versão primeira do Raízes ção do estado servil para o de mando ou domínio
(Holanda, 1936, p. 151) aproveita de Smith e contrasta
ou, pelo menos, de igualdade com o dominador
com a forte formulação que o mesmo texto atingirá na
versão definitiva (de 1969), para que se chegue à mesma branco, outrora sozinho, único. Na passagem não
conclusão. Entre as versões de 1936 e 1969, não temos só de uma raça para a outra como de uma classe
um autor que tivesse passado de uma visão pró-ibérica
e conservadora para uma democrática e politicamente para outra” (Freyre, 1936, III, p. 1.061).
avançada senão alguém que revela o caminho pelo qual
amadurecerá. Para falar à maneira do Ulysses, pelas mu-
danças efetuadas até a versão definitiva, Sérgio Buarque A argumentação de Freyre dava força bem
lutou “por libertar sua mente da servidão de sua mente”. maior que à extraída da carta de Ribeiro Couto.

108 Revista USP • São Paulo • n. 110 • p. 107-114 • julho/agosto/setembro 2016


Mas, coerente com seu conservadorismo de raiz, A pergunta seria prova de estupidez ou de como
não lhe interessava acentuar que o riso derramado, os intérpretes são capazes de optar pela calhor-
a gentileza a toda prova, a ilimitada cordialidade dice, se também não nos oferecesse a abertura de
eram formas também subalternas, voltadas para uma trilha nova. Essa trilha inédita estará na de-
corrigir o desnível social do mulato. A Freyre pendência de verificarmos a flexibilidade que, no
importava o movimento de partida; não lhe dizia jogo político, as palavras são capazes de assumir.
respeito que, tendo êxito, a ascensão se restringia a Como demonstra o próprio áspero debate
este ou àquele mulato vitorioso. Ainda que fossem de Sérgio Buarque com Cassiano Ricardo, não
muitos os que vencessem, a cordialidade era uma é fácil de imediato perceber como essa trilha
carta no baralho da ascensão social. Sem ela, o se desenvolve. Ao se indispor contra o dilema
jogo, a confundir-se com a vida, estaria perdido. do “bandeirante”, o historiador esquece, como
Com ela, quem saberia onde não se poderia ir? lembra Feldman, que, na edição de 1936, para
Não me demoro no que é bastante conhecido ele próprio, a esfera da cordialidade se estendia
porque meu interesse está em algo ainda não ex- até a bondade. É o que declara a formulação ine-
plorado. Tampouco me demoro na vantagem que quívoca: “Com a cordialidade, a bondade, não
Sérgio Buarque encontrará ao se deparar com a se criam os bons princípios” (Holanda, 1936, p.
interpretação adversa de Cassiano Ricardo. Deixo 156). Como se explicaria tanto a equivalência
de lado as mudanças sensíveis que o Raízes já en- dos termos, como, posteriormente, a indignação
contrará na edição de 1948, para nos prendermos de Sérgio Buarque contra o primado da bonda-
à dura objeção à contra-argumentação ao poeta, na de pretendido por Cassiano Ricardo? Não será
edição definitiva de 1969. preciso gastar muitas palavras. Na dependência
Cassiano Ricardo se opusera ao uso do ter- dos interesses políticos, manifestados com mo-
mo “cordial” porque ele seria demasiado formal tivação tendencialmente inconsciente, os vocá-
e protocolar, quando o “capital sentimento” do bulos atingem uma elasticidade que, vista de
brasileiro seria a bondade ou mesmo certa “téc- fora, parece se confundir com uma inexplicável
nica de bondade”. Não nos surpreende que al- volubilidade. A elasticidade indicada faz com
guém pudesse associar o capital de sentimento e que o termo abandone sua pista dicionarizada,
bondade a toda uma população, pois a conexão se amplie e assuma o que caberia como uma das
fazia parte da retórica de um defensor letrado do modalidades do que Lévi-Strauss veio a chamar
Estado Novo (Feldman, no livro já citado, mos- de “significante flutuante”.
trará que Almir de Andrade, em Força, Cultura, Em Sobrados e Mucambos, Freyre come-
Liberdade, de 1940, voltará à cordialidade como çara a demonstrar por que assim se dava com
princípio fundador do Estado Novo2). Cordialida- a cordialidade. Sua flutuação, compreendendo
de ou bondade, o que seria próprio do brasileiro?! lhaneza, facilidade de trato, afabilidade e – por
que não? – conduta bondosa, era justificada por
nossa tradição ibérica e patriarcal e tinha como
2 Parece curioso, se não cômico, que dois escritores – dos solo motivador a extrema desigualdade entre o
quais sempre se espera um certo grau de inteligência – branco dono de terras, a pequena margem de arte-
tenham recorrido à retórica da cordialidade em defesa
de um Estado ditatorial, como indiscutivelmente foi sãos, a imensa margem de massa escrava e, depois
o Estado Novo. A explicação parece trivial mas não da abolição, dos filhos sem terra e sem trabalho
encontro outra: como Getúlio Vargas chegara ao po-
der – em reação ao dirigismo do país pelas oligarquias
de ex-escravos. A flutuação resultante era, de sua
paulista e mineira, dominante durante a República parte, resultante de que, assumindo uma figuração
Velha – contemporaneamente à irrupção dos regimes
metafórica, os termos aproximados constituíam,
fortes do nazi-fascismo e do comunismo, tratava-se de
“convencer” a rala massa letrada do país que não havia como dirá mais recentemente Hans Blumenberg
de temer um ditatorialismo semelhante entre nós. Um (1979, p. 87), o fóssil-guia (Leitfossil) “de uma
bom recurso para isso consistia em recorrer ao princípio
a que intérpretes que então escapavam da antropologia camada arcaica da curiosidade teórica”. No caso
biológica, dominante desde Os Sertões, e que ganhavam em pauta, a conjunção flutuante é movida por
fama (Sérgio Buarque e Gilberto Freyre), consideravam
como havendo sido bastante praticado durante nossa uma curiosidade menos teórica do que pragma-
formação. ticamente política. O Estado Novo é justificado

Revista USP • São Paulo • n. 110 • p. 107-114 • julho/agosto/setembro 2016 109


Textos / Homenagem

como manutenção de um patrimônio secular e dade interna se, graças a Reclus, não tivéssemos
seus justificadores lançavam mão de um estoque condições de verificar por que tal significante
em cujas extremidades estavam, de um lado, a flutuante, verdadeiro enquanto flutuante, à se-
cordialidade e, de outro, a bondade. Provavel- melhança da conduta prestativa do mulato que
mente, sem jamais perceber por que acertara, a adotava para compensar sua desigualdade, era
Sérgio Buarque, no relance de uma frase, pu- a luva que se ajustava à mão de nossa sociedade.
sera a “bondade” no frouxo leito semântico da O serviço, portanto, que nos presta o geógrafo
cordialidade. Cassiano Ricardo, ressaltando essa anarquista suíço é tamanho que seu longo frag-
e renegando o eixo flutuante, a “cordialidade”, mento se introduz em nossa argumentação, que
se punha na corrente oposta, i.e., ressaltava do há de ser interrompida enquanto o traduzimos:
significado flutuante apenas o lastro que lhe
interessava ideologicamente. A arbitrariedade “Certas formas de escravidão [...] são incontes-
do defensor do Estado Novo teve, entretanto, a tavelmente muito mais cruéis nas plantations
qualidade de irritar o historiador e, na edição de- norte-americanas que nas fazendas do Brasil e, no
finitiva de 1969, de fazê-lo retornar ao Schmitt, entanto, se não temesse cometer uma verdadeira
que mostrava conhecer desde a edição princeps, blasfêmia ao associar ideias tão contraditórias,
e agora destacar a passagem capital que Carl diria que a instituição servil nos Estados Uni-
Schmitt recolhera do Digesto romano. dos oferece uma aparência de moralidade que
Como, por força da tradição patriarcal, não se procuraria em vão no Brasil. Os fazendeiros
reconhecemos senão o outro privado – o outro norte-americanos, advertidos pela reprovação
patriarca, o outro branco ligado à posse da terra, de seus compatriotas e pela voz se sua própria
contra o qual o mulato precisa se armar de uma consciência, nunca deixaram de discutir a es-
infinita afabilidade – desconhecemos o público cravidão do ponto de vista da justiça. Tinham
do privado, o inimigo público do adversário pri- mesmo desde logo a condenado e, aqui e ali,
vado e então nos comportamos na esfera pública haviam tomado certas medidas para preparar a
do mesmo modo como na esfera privada, não co- sua abolição: depois, quando os interesses par-
nhecendo outro mérito nos detentores dos cargos ticulares e as ambições políticas modificaram
públicos senão a amizade ou a aliança política. suas primeiras opiniões, se esforçaram em ao
Do que se escreveu acima, talvez alguma menos justificar sua causa por todos os argu-
novidade esteja na introdução do “significante mentos imagináveis. Essa pretensão testemunha
flutuante” e no caráter de fóssil-guia que a me- ao menos uma certa necessidade de justiça que
táfora pode assumir. Mas a própria justificação as instituições puderam perverter, mas que não
de um e outro conceito se encontra em texto puderam completamente suprimir.
estranhamente muito pouco divulgado. Ele se Ao contrário, imersa completamente na escravi-
escancara em resenha que Élisée Reclus publica, dão, a sociedade brasileira não poderia apreciar
ainda em 1863, em que, a propósito do Viagem sua justiça ou iniquidade: o fato monstruoso da
pelo Norte do Brasil no Ano de 1859, do médi- posse do homem pelo homem lhe parece tão na-
co sanitarista Von Avé-Lallemant, o geógrafo tural, tão pouco repreensível que o próprio Estado
suíço comparava a escravidão no Brasil e nos compra ou recebe em herança negros e os faz
Estados Unidos. Conhecer a passagem equiva- trabalhar em benefício do orçamento. Também
le a perceber o quadro vivo em que fermenta a os conventos têm sua criadagem africana, de que
nossa cordialidade. A alusão de Ribeiro Couto à os contratos de venda declaram ser a propriedade
cordialidade em carta ao embaixador mexicano real de São Benedito ou do não menor Santo Iná-
no Brasil, o aproveitamento sociológico certei- cio. Do mesmo modo, por pura caridade de alma,
ro que Freyre dela faz, a apropriação ideológica os administradores do hospício do Rio de Janeiro
que promovem Cassiano Ricardo e Almir de adquirem negras como amas de leite das crian-
Andrade, antes de virmos sua transformação na ças abandonadas. Além do mais, segundo Avé-
edição de 1969, pareceriam peças razoavelmente -Lallemant, médicos especuladores se dirigem ao
sem maior alcance, termos sem muita proprie- público por meio dos jornais e adquirem negros

110 Revista USP • São Paulo • n. 110 • p. 107-114 • julho/agosto/setembro 2016


doentes ou esgotados aos quais procuram recu- dolentes para que eles próprios dirijam o trabalho
perar para, em seguida, revendê-los a bom preço; de seus escravos, chegam a deixá-los completa-
veem-se, enfim, negros possuírem outros negros, mente livres para ganhar a vida como queiram,
aos quais transmitem sua própria ocupação sem com a condição de que produzam diariamente
que eles próprios possam se liberar porquanto uma soma de antemão fixada. Entregues à sua
a condição de escravo parece normal neste país própria iniciativa, os negros se organizam mais
infeliz. É mesmo em parte devido à simplicida- ou menos livremente em bandos de trabalhadores,
de mais ou menos ingênua com que os donos de escolhem um chefe e vêm oferecer seus serviços
escravos encaram o destino de seu gado humano como carregadores ou estivadores aos negociantes
que este deve a relativa doçura de sua existência. e aos capitães de navios. Durante o dia, esses es-
Os senhores devem ser bons príncipes porquan- cravos, não vigiados pelo olho do senhor, podem
to importunos abolicionistas não vêm ameaçar durante algumas horas imaginar que são livres.
sua propriedade sagrada. Não se creem obriga- Precedidos por uma espécie de músico que os ex-
dos, como seus confrades norte-americanos, a cita, sacudindo pedaços de chumbo (chevrotine)
inventar para o negro um novo pecado original, dentro de uma cabaça, se estimulam mutuamente
nem em erigir como sistema a distinção absoluta por um canto ritmado ou por gritos cadenciados.
das raças, nem em estabelecer uma barreira in- Belos, vigorosos, semelhantes a estátuas fora de
franqueável entre a descendência dos escravos e seus pedestais, cruzam as ruas sem se dobrar ao
a dos homens livres. De modo algum aprovam peso de suas cargas enormes e, com frequência,
a necessidade de se empenhar na descoberta de põem no cumprimento de seu trabalho um ver-
uma filosofia que lhes permita agravar a servidão. dadeiro entusiasmo de combatentes. Milhares de
Além do mais, a aspereza mais ou menos em- negros, na maior parte pertencentes às diversas
pregada na exploração dos escravos está sempre tribos dos minas ou negros da Costa do Ouro,
em razão direta do valor monetário dos braços: que se distinguem entre todos por sua beleza
ora, até estes últimos anos, o trabalho dos negros física, sua inteligência e seu indomável amor à
brasileiros, sem cessar alimentado pelo tráfego, liberdade, podem assim diariamente adquirir um
representava um capital muito menor que o dos certo benefício, que acumulam cuidadosamente
negros norte-americanos. e contemplam com avareza como penhor de sua
Para desculpar a escravidão imposta pelos fa- futura emancipação. Com efeito, a lei brasileira,
zendeiros no Brasil, pessoas de boa fé têm com menos terrível que os códigos negros dos estados
frequência pretendido que ela tem apenas o nome confederados, não encerra o escravo em um cír-
em comum com a escravidão norte-americana, culo infranqueável de servidão: não o impede de
e realiza integralmente o ideal tão louvado da se resgatar por seu trabalho e de sacudir a poeira
vida patriarcal. Uma comparação rápida estabe- de suas roupas para sentar-se ao lado dos homens
lecida entre os dois países em que reina a ser- livres. Além do mais, ela também lhe dá a per-
vidão involuntária parece, com efeito, conceder missão tácita de se instruir, se encontra tempo e
de início algum valor à afirmação. Os escravos coragem; autoriza-o a fortificar sua inteligência
das fazendas brasileiras, formando cerca de cinco em vista de uma liberação possível, e não condena
sextos da população servil, gozam no domingo à prisão o branco caridoso que lhe ensina a arte
de uma liberdade relativa, como os negros norte- diabólica da leitura. O acaso de seu nascimento
-americanos; têm, entretanto, mais do que esses, pode igualmente salvar o escravo e conceder-
numerosos dias, feriados, distribuídos ao longo do -lhe sua independência, pois é costume no Brasil
ano. A cada quinzena, a maior parte das fazendas emancipar os mulatos e a lei ainda não se interpôs
lhes concede o dia do sábado para que possam entre o pai e o filho para interditar ao primeiro
cultivar suas próprias hortas, que recebem o título que reconheça seu próprio sangue. Na população
de fazendas, e assim acrescentar algumas frutas brasileira de cor, avalia-se em um sétimo apenas
e certas raízes à provisão regulamentar de carne o número de mulatos condenados à escravidão,
seca, fornecida pelo administrador. Nas grandes enquanto que em toda a extensão da república
cidades de comércio, os senhores, demasiado in- anglo-saxônica, aí compreendendo mesmo os es-

Revista USP • São Paulo • n. 110 • p. 107-114 • julho/agosto/setembro 2016 111


Textos / Homenagem

tados livres, contam-se quase dois homens de cor aos quais usa segundo sua vontade e quanto aos
ainda escravos contra um só liberto. quais sua própria justiça não é senão arbitrária. Se
Também com vantagem para o império sul-ame- ele achar conveniente, pode espancar e torturar;
ricano, pode-se dizer que o abismo cavado entre o pode impor cadeia, grilhões, coleira ou qualquer
branco e o negro liberto é muito menos profundo outro instrumento de suplício. Toda senhora refina-
que nos Estados Unidos. Não poderia ser de outro da que, por vaidade, venha cobrir suas negras com
modo em um país em que o número dos brancos seus próprios adereços para dar aos estrangeiros
livres de toda mistura chega apenas a um milhão, uma ideia elevada de sua riqueza, pode um instante
aí compreendendo os estrangeiros e assim forma depois fazer que as mesmas mulheres sejam espan-
no máximo um oitavo da população. É em vão cadas, ainda ornadas de seus colares de ouro ou de
que se aplicam medidas diversas que recordem pérolas. Este proprietário empobrecido, que sem-
aos libertos sua antiga servidão e os rebaixem pre teve a maior doçura com seus escravos, vende
no interior da sociedade brasileira: protegidos uma parte deles para resgatar suas propriedades
pelos costumes, eles se cruzam livremente com endividadas: separa o amigo do amigo, talvez o
as castas superiores, a população mestiça cresce filho do pai, e o deixa levar por algum estrangeiro
sem cessar em uma proporção considerável e, ávido para uma fazenda distante. Dramas seme-
apesar da soberba dos que se mantiveram puros lhantes provocam uma desmoralização maior que
de toda mistura, pode-se prever estar próximo o a familiaridade que parecia a mais íntima entre
dia em que o sangue dos antigos escravos correrá o senhor e o escravo. Ruidosas explosões de riso
nas veias de todo brasileiro. Essa invasão gradual dos negros e das negras ecoam com frequência nas
já fez dobrar muitas barreiras. Os filhos dos ne- ruas da Bahia e do Rio de Janeiro; mas, se se passa
gros emancipados tornam-se cidadãos; entram diante das prisões, em que, ante a simples requi-
no exército e na marinha, com maior frequência, sição do proprietário, os chicoteadores pagos pelo
é verdade, em consequência de um recrutamen- Estado batem nos escravos, escutam-se os gritos de
to forçado, e podem, do mesmo modo que seus dor a consoar com a ruidosa hilaridade das ruas”
companheiros de armas de raça caucásica, falar (Reclus, 1863, tomo 40, pp. 384-9).
da causa da pátria e da honra à bandeira. Alguns
sobem de grau em grau e comandam brancos, que Sem que o desenvolvimento acima possa ser
permanecem seus subordinados; outros se dedi- substituído por nada, a síntese de seu argumento
cam às profissões liberais e se tornam advogados, está na frase: “Imersa completamente na escravi-
médicos, professores, artistas. É verdade que a dão, a sociedade brasileira não poderia apreciar
lei não concede aos negros o direito de entrar na sua justiça ou iniquidade”. Em consequência, a
classe dos eleitores, nem na dos elegíveis; mas os desigualdade radical era apreciada como um
empregados de pele mais ou menos escura não dado natural. O que implicava a absoluta igual-
sofrem diferença alguma em serem reconhecidos dade permeada pela desigualdade constituída
como brancos todos os que queiram dizer-se tais e pela suposição: a sociedade humana é formada
recebem os documentos necessários para que seja por homens com terra e homens sem terra. Tal
assim estabelecido legalmente e de uma maneira assimetria concretiza um só espaço: o espaço
incontestável a pureza de sua origem. É assim que privado. A naturalidade da escravidão, que a tor-
os filhos de antigos escravos podem ingressar na nava praticada desde o senhor de terra, passando
carreira administrativa e mesmo fazerem parte no pelo Estado, até as ordens religiosas, impedia que
Congresso, ao lado dos nobres fazendeiros. No houvesse a noção do espaço público, onde haveria
Brasil, não é a cor que faz vergonha, é a servidão. de imperar, ao menos idealmente, o espaço da
Todos esses fatos são da maior importância para o lei, a norma válida para todos. Daí o prestígio da
futuro do país, mas não podem servir de desculpa metáfora da cordialidade. Entenda-se bem: não se
para a escravidão brasileira, que, por sua própria diz que ela fosse determinada pelas condições so-
natureza, é idêntica à ‘instituição divina’ dos an- ciais. Ela é por certo motivada por ela. Enquanto
glo-americanos. Seja o senhor um patriarca ou um tal, podia dar lugar a outra metáfora, desde que
tirano, não é menos o possuidor de outros homens, ela fosse igualmente congraçadora e, como tal,

112 Revista USP • São Paulo • n. 110 • p. 107-114 • julho/agosto/setembro 2016


viesse a partilhar da amplidão semântica própria Assim, a leitura mais profunda de O Conceito do
de um significante flutuante. Político fez com que Sérgio Buarque realizasse o
É de supor que, por várias razões, a cordia- que décadas passadas Hans Blumenberg refletira
lidade se impusesse contra alguma outra práti- como a primeira função da metaforologia: servir
ca metafórica antes próxima da raiz da rudeza. de auxiliar a uma história dos conceitos.
Creio que a primeira fosse não haver na tradi- Muito embora essa função primeira fosse
ção ibérica, ao contrário da saxônica, a crença rapidamente absorvida por funções mais com-
arraigada na diferença das raças. O evolucio- plexas, que implicam uma reflexão nada conven-
nismo de Darwin rapidamente contaminou a cional sobre o papel da linguagem, é ela que nos
reflexão social saxônica e estabeleceu o dogma importa, no caso da cordialidade. A cordialidade
da desigualdade das raças, que não havia es- era – e, embora corroída pela experiência do co-
tado em sua doutrina original, ao passo que, tidiano urbano, sua função social negativa conti-
na tradição ibérica, a escravização do indígena nua, no momento em que escrevo, extremamente
antes provocaria a discussão de ordem teológica ativa – a expressão de um sentimento dominante,
entre os religiosos Victoria e Bartolomé de las enquanto maneira de manter a negação de um
Casas. No ambiente menos cultivado da Península espaço público, aquele em que a lei vigorasse
Ibérica, onde a escravidão africana era anterior igualmente para amigos e inimigos privados.
à colonização americana, o branco considerava Para que Blumenberg não seja referido
que naturalmente os senhores eram de sua cor e apenas nominalmente, lembremos uma passagem
os escravos, de cor negra. Assim nenhuma razão de seu primeiro livro dedicado à metaforologia:
biológica o impedia, nas colônias americanas, de
frequentar a cama de suas escravas. Creio que o “O mundo copernicano torna-se a metáfora da
segundo motivo, associado àquela, fosse que uma privação crítica do princípio da teleologia, da
prática cordial trouxesse inúmeras mais vanta- causa finalis do feixe aristotélico das causae; e é
gens e fosse pouco propiciadora de conflitos. indubitável que só a metáfora copernicana permi-
Não sei se essas razões são suficientes. O fato tiu penetrar no pathos da desteleologização, que
é que Reclus nos faz verificar que há uma razão é sobre ela que se funda uma nova consciência de
social para que a metafórica dominante fosse a si, ligada à excentricidade cósmica do homem”
que Sérgio Buarque começou a explorar em sua (Blumenberg, 1998, p. 146).
obra de estreia. Mas sua função principal não foi
a de introduzi-la, senão de, já a associando, desde Conquanto a passagem se volte exclusivamen-
1936, à questão da divisão dos espaços, só haver te ao papel da metáfora, referindo-se à que se
sido alertado plenamente para o papel desempe- processa em Copérnico, é evidente que se trata
nhado por essa divisão por meio da provocação da figura como passagem para um novo concei-
despertada pela contradição de Cassiano Ricardo. to. Sendo bastante mais simples, o novo exem-
É ela que o leva a chamar a atenção para a pas- plo pertence à mesma família. Mas me parece
sagem do Digesto, tal como Carl Schmitt a lera: fascinante que a metaforologia faça, entre nós,
“Hostis is est cum quo publico bellum habemus sua estreia prática pela contribuição a um aspec-
[...] in quo ab inimico differt, qui est is, quocum to importante tanto para a obra de Sérgio Bu-
habemus privata odia [...]” (“Inimigo público é arque de Holanda, quanto para nossa formação
aquele com quem estamos publicamente em guer- social, ademais se associando à notável reflexão
ra [...] nisso difere do inimigo privado, que é aque- de Élisée Reclus, que não entendo por que tem se
le com quem temos desavenças privadas [...]” 3. mantido oculta.

3 Chame-se a atenção para um dado só aparentemente sobre os interesses de ordem coletiva” (Holanda, 1936,
insignificante: na versão original, citava Der Begriff des p. 150), o reconhecimento da importância da diferença
Politischen, na edição de 1935, ao passo que, em 1969, dos espaços ainda não era relacionado à metáfora da
remete a passagem à edição original de 1933. O que vale cordialidade. Será apenas com o amadurecimento inte-
dizer que, em sua primeira leitura, embora já atinasse para lectual do historiador que sua obra de estreia permitirá
a “tão malsinada primazia das conveniências particulares a aproximação que aqui se estabelece.

Revista USP • São Paulo • n. 110 • p. 107-114 • julho/agosto/setembro 2016 113


Textos / Homenagem

Bibliografia

BLUMENBERG, H. Schiffbruch mit Zuschauer. 5ª ed. Frankfurt a.M., Suhrkamp Verlag, 1979.
. Paradigmen zu einer Metaphorologie. Frankfurt a.M., Suhrkamp Verlag, 1998.
CANDIDO, A. “O Significado de Raízes do Brasil”, in Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do
Brasil. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio, 1969, pp. XI-XXII.
FELDMAN, L. Clássico por Amadurecimento. Estudos sobre Raízes do Brasil. Rio de Janeiro,
Topbooks, 2016.
FREYRE, G. Sobrados e Mucambos. 2ª ed. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio, 1951.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio, 1936.
. Raízes do Brasil. 5ª e definitiva ed. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio, 1969.
RECLUS, Élisée. “Le Brésil et la colonisation”, in Revue des deux mondes, tomo 40, 1862,
pp. 375-414.
SCHMITT, C. Der Begriff des Politischen. Berlim, Duncker & Humblot, 1963.

114 Revista USP • São Paulo • n. 110 • p. 107-114 • julho/agosto/setembro 2016