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ENTREVISTA COM ROGER CHARTIER

Por: Ivan Jablonka


Tradução: Luciana S. Salgado (FAPESP/USP)

Internet, e-book, projeto Google: Roger Chartier, professor do Collège de France, analisa essas
novidades à luz da história. Uma questão inédita se põe hoje: em sua forma eletrônica, o texto deve
manter-se fixo, como acontece com os livros de papel, ou ele pode se abrir às potencialidades do
anonimato e da multiplicidade sem fim? O que parece irrefutável é que a multiplicação dos suportes
editoriais, dos jornais e das telas de leitura vem diversificando práticas numa sociedade que,
contrariamente ao que se diz aqui e acolá, lê cada vez mais.

As mutações do objeto livro


La Vie des idées: Eu gostaria de evocar, com o senhor, a maneira como o objeto livro se
metamorfoseia hoje sob a influência das tecnologias ligadas à internet (os e-books, o print on demand,
etc.). O senhor poderia retomar algumas das mutações por que o livro passou desde a invenção do
códex?
Roger Chartier: A primeira questão é: o que é um livro? É uma questão que Kant se punha na
segunda parte dos Fundamentos da metafísica dos costumes, e ele definia muito claramente o que é
um livro. De um lado, um objeto produzido por um trabalho de manufatura, qualquer que seja – cópia,
manuscrito, impressão ou eventualmente produção eletrônica –, e que pertence àquele que o adquire.
Ao mesmo tempo, um livro é também uma obra, um discurso. Kant diz que é um discurso voltado ao
público, que é sempre propriedade daquele que o compôs e que só pode ser difundido por meio de uma
autorização oficial que ele dá a um livreiro ou a um editor, para que o faça circular publicamente.
Todos os problemas dessa reflexão têm a ver com essa relação complexa entre o livro como
objeto material e o livro como obra intelectual ou estética, porque até hoje segue estabelecida a
relação entre essas duas categorias – de um lado, obras que têm uma lógica, uma coerência, uma
completude e, de outro, as formas materiais de sua inscrição – que podia ser, da Antiguidade até o
primeiro século de nossa era, o rolo. Neste caso, muito freqüentemente a obra era disseminada em
diversos objetos [diversos rolos]. A partir da invenção do códex (isto é, do livro como o conhecemos,
com cadernos, folhas e páginas), uma situação inversa surge: um mesmo códex pode, e chega mesmo
a ser a regra, conter diferentes livros no sentido de obra.
A novidade atual é que essa relação entre as várias classes de objeto e os tipos de discurso
explodiu, uma vez que há uma continuidade textual que se dá a ler na tela, e a inscrição material
nessa superfície ilimitada não corresponde mais a esses tipos de objeto (os rolos da Antiguidade, os
códex manuscritos ou o livro impresso a partir de Gutenberg). Isso gera discussões que podem assumir
aspectos jurídicos, no plano do direito ou da propriedade. Como se manterão as categorias de
propriedade de uma obra no interior de uma técnica que não delimita mais a obra como acontecia com
o rolo antigo ou o códex? E isso pode ter conseqüências sobre o reconhecimento do status de
autoridade científica. À época do códex, uma hierarquia de objetos podia indicar mais ou menos a
hierarquia da validade dos discursos. Havia uma diferença imediatamente perceptível entre a
enciclopédia, o livro, o jornal, a revista, a ficha, a carta, etc., que eram materialmente dadas a ler, a
ver, a manipular, e que correspondiam a registros de discursos que se inscreviam nessa pluralidade de
formas.
Ora, hoje o único objeto – temos um ali, sobre a mesa de trabalho – é o computador, que
acolhe todos os tipos de discurso, quaisquer discursos, e que torna absolutamente imediata a
continuidade entre as leituras e a escritura. Podemos, então, passar às reflexões contemporâneas, mas
retomando essa dualidade que não raro é esquecida. O problema do livro eletrônico está posto com a
rematerialização dentro de uma ordem de objetos, como o e-book ou o computador portátil, que são
objetos únicos para todas as classes de textos. A partir daí, a referida relação se põe em termos novos.

La Vie des idées: Michel de Certeau estabelece uma distinção entre o traço escrito, fixado e durável,
e a leitura, que é da ordem do efêmero[1]. Mas, na internet, os textos não cessam de mudar, de se
transformar. Exagerando um pouco, poderíamos dizer que a internet é um universo de "plagiadores
plagiados"[2]. A seu ver, trata-se de uma ruptura ou o senhor diria que, no curso da história, e
notadamente no século XVII, o texto já não era uma forma estável?
Roger Chartier: Isso. Na sua distinção, Michel de Certeau remete ao leitor viajante, que constrói a
significação a partir de coerções e, ao mesmo tempo, de liberdades que toma, ou seja, ele abre
veredas furtivas. São veredas furtivas porque há um território protegido, interdito e fixado. De Certeau
freqüentemente comparava a escritura ao labor e a leitura à viagem ou a uma expedição um tanto
matreira, astuta. De fato, essa é uma visão que inspirou os trabalhos sobre a história da leitura, ou a
sociologia e a antropologia da leitura, pois a leitura não estava mais encerrada no texto; antes, era o
produto de uma relação dinâmica, dialética, entre um leitor, seus horizontes, suas expectativas, suas
competências, seus interesses, e o texto de que se apodera.
Mas essa distinção produtiva pode também mascarar dois elementos. O primeiro diz respeito ao
leitor e seus astuciosos movimentos de busca, pois ele mesmo é bastante determinado pelas
determinações coletivas, partilhadas pelas comunidades de interpretação ou as comunidades de leitura,
e, então, essa liberdade criadora, esse consumo que é produção, tem seus limites; ele aponta para
diferenças sociais. O segundo elemento, como o senhor disse, é esse terreno do texto, que é mais
móvel do que o de um pedaço de chão, na medida em que, por diversas razões, essa mobilidade há
muito já existia. As condições técnicas de reprodução dos textos, por exemplo a cópia manuscrita (que
existiu até o século XVIII ou mesmo no XIX), abrem-se a essa mobilidade do texto de uma cópia à
outra. Salvo no caso dos textos muito fortemente marcados por uma sacralidade que se deve respeitar
como letra de lei, todos os textos estão abertos a interpretações, adições, mutações. Nos primórdios da
impressão, isto é, entre o meio do século XV e o começo do século XIX, por diversas razões, as
tiragens eram sempre muito restritas, entre 1.000 e 1.500 exemplares. Mas já aí o sucesso de uma
obra é assegurado pela multiplicidade de reedições. E cada reedição é uma reinterpretação do texto,
seja na letra – modificável – seja mesmo nos dispositivos materiais de apresentação que são uma
outra forma de variação. Mesmo supondo que um texto não tem nem uma vírgula modificada, a
modificação de suas formas de publicação – caracteres tipográficos, presença ou não de imagem,
divisões do texto, etc. – cria mobilidade nas possibilidades de apropriação.
Temos, então, poderosos argumentos para afirmar que há essa mobilidade nos textos. E há
outras, que são intelectuais e estéticas: até o romantismo, as histórias pertencem a todo mundo, e os
textos são escritos a partir de fórmulas previstas. Essa maleabilidade das histórias, essa pluralidade de
recursos disponíveis para a escritura, cria uma outra forma de movimento, impossível de encerrar num
texto estabilizado para todo o sempre. E podemos acrescentar, ainda, que o copyright não fez outra
coisa senão reforçar esse dado. Certamente é paradoxal, pois o copyright reconhece que a obra é
sempre idêntica a ela mesma. Mas o que o copyright protege? No século XVIII e no XIX, ele protege
todas as formas possíveis de publicação impressa do texto e, hoje, todas as formas possíveis de
publicação do texto, seja uma adaptação cinematográfica, um programa de televisão ou múltiplas
edições. Temos, então, um princípio de unidade jurídica que cobre justamente a pluralidade indefinida
dos estados sucessivos ou simultâneos de uma obra.
Penso que é preciso restituir a mobilidade do contemporâneo, com o texto eletrônico, esse
texto palimpsesto e polifônico, numa concepção de longa duração sobre as mobilidades textuais que
lhe são anteriores. O que resta dessa questão é o fato de que há tentativas constantes de reduzir essa
mobilidade no mundo eletrônico. É a condição de possibilidade para que os produtos sejam vendáveis –
um opus mechanicum, como teria dito Kant –, e é a condição de possibilidade para que os nomes
próprios sejam reconhecíveis como criadores e como beneficiários da criação. Daí a profunda
contradição que Robert Darnton observa entre essa mobilidade infinita da comunicação eletrônica e
esse esforço para encerrar o texto eletrônico numa das categorias mentais ou intelectuais, mas
também nas formas materiais que o fixam, que o definem, que o transformam em um terreno por onde
o leitor vai perambular, mas um terreno que seria suficientemente estável em suas fronteiras, em seus
limites e em seus conteúdos. Aqui se situa o grande desafio, que é saber se o texto eletrônico deve ser
submetido aos conceitos herdados e, então, deve ser prontamente transformado em sua materialidade
mesma, com fixações e seguranças, ou se, inversamente, as potencialidades desse anonimato, dessa
multiplicidade, dessa mobilidade sem fim vão dominar os usos da escritura e da leitura. Creio que aí é
que se situa a discussão, assim como as incertezas e as vacilações contemporâneas.

La Vie des idées: Para terminar esse conjunto de questões sobre as mutações do objeto livro, eu
gostaria de perguntar ao senhor sobre as mutações do lugar que historicamente guarda esse objeto: a
biblioteca. Em seu programa google.books, a Google numerizou os livros de vinte e oito bibliotecas,
entre as quais as de Harvard, Stanford e Oxford. Esse programa tem adeptos (críticos) como Darnton e
adversários como Jean-Noël Jeanneney. O senhor acredita que a Google fará surgir uma biblioteca
mundial e aberta a todos?
Roger Chartier: De novo, por trás desse projeto, encontraremos mitos ou figuras antigas, em
particular uma biblioteca que comportaria todos os livros. Era o projeto dos ptolomeus na Alexandria.
A Google está inscrita nessa perspectiva da biblioteca que conteria todos os livros que já existem e
todos os que ainda serão escritos. Técnica e idealmente, não há razão para pensar que todos os livros
existentes sob uma forma ou outra não são passíveis de ser numerizados e, então, integrados a uma
biblioteca universal. Mas um dos primeiros limites reside no fato de que o projeto Google está sendo
implantado por uma empresa capitalista. Há lógicas econômicas que o governam, mesmo não sendo
imediatamente visíveis, e que podem governar também anunciantes ou patrocínios dessa firma
enorme. De outro lado, é um projeto que, mesmo se pretendendo universal, põe em evidência a
produção em língua inglesa. Como dizia uma ex-governadora do Texas, "se o inglês foi suficiente para
Jesus, ele deve bastar para as crianças do Texas". Ela decerto não leu a Bíblia senão na tradução do rei
Jacques de Inglaterra e desconhece as versões anteriores... O projeto não se apresenta assim, mas
dado que as cinco primeiras bibliotecas escolhidas eram anglo-saxônicas, predominaram os arquivos
em língua inglesa.
Quais são, agora, as respostas possíveis? Propôs-se que bibliotecas nacionais e européias se
organizassem com vistas a compor um projeto alternativo. Ele era alternativo em termos de variedade
lingüística e também porque era fundado sobretudo no poder público e não numa empresa privada.
Mas podemos supor que, por meio desses fragmentos de bibliotecas universais, também chegaríamos a
uma biblioteca universal, mesmo que não seja unificada por um Ptolomeu contemporâneo; e não há
razão para pensar que ela não seria acessível numa forma eletrônica.
A questão que se põe, diante disso, é não só a das línguas e a da responsabilidade, mas
também a questão de saber se essa biblioteca universal, que potencialmente não precisa de um lugar
físico, na medida em que cada um com seu computador, de onde estiver, pode chamar esse ou aquele
título, é um sinal da morte das bibliotecas tal como as conhecemos – um lugar onde os livros são
conservados, classificados e consultáveis. Creio que a resposta é não. O processo de numerização
demanda ainda mais fortemente a manutenção da definição tradicional, porque voltamos a um ponto
sempre fundamental, segundo o qual, como dizia Don MacKenzie, as formas afetam o sentido. O
grande perigo do processo de numerização é fazer crer que um texto é o mesmo não importando seu
suporte. Tão fundamental quanto o acesso aos textos sob uma forma numérica, e que acaba reforçado
por essa numerização, é a conservação patrimonial das formas sucessivas que os textos tiveram para
seus leitores sucessivos. A tarefa de conservação, de catalogação e de consulta dos textos nas formas
que foram as de sua circulação são uma exigência absolutamente fundamental, que reforça a dimensão
patrimonial e de conservação das bibliotecas.
As demonstrações podem se multiplicar. No século XIX, o romance existe em múltiplas formas
materiais, sob a forma de folhetins semanais ou cotidianos nos jornais, sob a forma de publicações por
encomenda, sob a forma de livros para gabinetes de leitura, sob a forma de antologias de um só autor
ou de obras diversas, sob a forma de obras completas, etc. Cada forma de publicação induz
possibilidades de apropriação, de tipos de expectativa, de relações temporais com o texto. A
necessidade de reforçar a função de conservação do patrimônio escrito é não só boa para os eruditos
que querem reconstruir a história dos textos, mas também para a relação que as sociedades
contemporâneas mantêm com seu próprio passado, isto é, com as formas sucessivas que a cultura
escrita assumiu no passado.
Aí está a maior discussão em torno de projetos como o da Google, imitados em seguida por
consórcios de bibliotecas. Assim que souberam do projeto Google, alguns responsáveis por bibliotecas
concluíram disso que eles poderiam se livrar das revistas e dar outro destino às salas de leitura. Vemos
isso também na controvérsia enfurecida que há hoje nos Estados Unidos, sobre a destruição de jornais
dos séculos XIX e XX, posto que foram reproduzidos em microfilme. Mas o risco será ainda maior
agora, com a numerização. As bibliotecas venderam suas coleções, ou elas foram destruídas no curso
do processo de microfilmagem. Um romancista norte-americano, Nicholson Baker, escreveu um livro
para denunciar essa política que foi assumida pela Biblioteca do Congresso [Library of Congress] e pela
Biblioteca Britânica [British Library], e também para tentar, ele próprio, manter seu patrimônio escrito,
uma vez que constituiu uma espécie de arquivo de coleções de jornais cotidianos norte-americanos dos
anos 1850 a 1950.

O que é ler?

La Vie des idées: Desde a invenção da escrita, as práticas de leituras não pararam de se transformar.
Lê-se em voz alta, em família, ou sozinho, em silêncio. O senhor poderia retomar as diferentes formas
do ler ao longo da história?
Roger Chartier: Há uma dupla dimensão – morfológica e cronológica. Podemos recuperar momentos
nos quais as condições de possibilidade de leitura se transformam massivamente. Num longuíssimo
desenvolvimento medieval, cada vez mais leitores puderam ler como lemos, isto é, silenciosamente e
com os olhos, enquanto a leitura oralizada era tanto uma forma normal de partilha do texto entre
letrados quanto uma das condições de compreensão do texto. Os progressos da leitura silenciosa e
visual têm como causa e conseqüência uma nova forma de inscrição dos textos, em particular a
introdução da separação entre as palavras, que não existia na maior parte dos textos latinos. É uma
das grandes revoluções da leitura.
Poderíamos falar, considerando o século XVIII, de uma nova revolução da leitura, mas isso é
muito discutido. Por um lado, os objetos se multiplicam: é o momento de uma circulação importante de
periódicos, multiplicam-se os libelos e panfletos, cresce a produção livresca em todos os países
europeus. De outro lado, a leitura se afastou da forma de respeito, obediência e sacralidade que a
marcava ainda fortemente, para tornar-se mais desenvolta, crítica e móvel. Houve, no século XVIII, e
de fato os contemporâneos assim o sentiam, uma febre de leitura, uma voracidade mesmo. Uma outra
etapa importante marca o século XIX, momento em que se tornou mais forte a tensão entre as normas
de leitura, impostas pela escola, e a proliferação desenfreada de leituras nos diversos meios sociais,
cada vez mais abrangente. Essa multiplicação dos escritos no século XIX podia ser vista numa cidade
tanto em seus muros, cartazes, placas, quanto na imprensa – que muda de natureza nessa época – e,
a partir da segunda metade do século, nas coleções populares.
Então, há uma retomada possível das transformações, algumas ligadas à morfologia da leitura
(silenciosa ou oral), outras à tensão entre a imposição de normas do "bem ler" e as práticas cotidianas
tão rudes quanto múltiplas. Mas os historiadores muito discutiram sobre a validade de considerar essas
experiências como ruptura, aventando a possibilidade de qualificá-las como "revoluções da leitura". De
um lado, a pluralidade que você evocou não é simplesmente uma pluralidade morfológica e
cronológica; em cada sociedade (medieval, das Luzes, do século XIX) se observa uma diferenciação
disso que poderíamos chamar comunidades de interpretação ou comunidades de leitura, organizadas a
partir de certas competências, certas expectativas em relação ao escrito e certas convenções de
leitura. Há um artigo famoso de Michel de Certeau sobre comunidades místicas, espanholas ou
francesas, do fim do século XVI e do começo do XVII, cuja unificação se dá em torno de um livro,
práticas específicas de leitura e um desligamento progressivo da oração.
Poderíamos, também, tentar recuperar o que caracterizaria as leituras "populares", quer dizer,
as leituras efetuadas nos meios menos alfabetizados ou que se confrontavam com repertórios textuais
restritos. Há, como se vê, esforços de identificação dessa pluralidade, enraizada na diferença social e
cultural. Creio que um quadro da leitura dos leitores consistiria no cruzamento dessa dimensão
cronológica e morfológica com um resgate das diferenciações socioculturais.

La Vie des idées: Há um livro ao mesmo tempo divertido e penetrante de Pierre Bayard, Comment
parler des livres que l´on a pas lu? [Como falar dos livros que não lemos?] No fim das contas, é
verdade que freqüentemente sabemos dos livros aquilo que a crítica diz ou o que dizem os cineastas
que os adaptam. O senhor diria que hoje se lêem livros ou que simplesmente se toma contato com
seus derivados?
Roger Chartier: A questão é saber se há uma inovação em torno da idéia de que podemos conhecer
um livro que não lemos através de diferentes formas de mediação. Esse conhecimento mediado é
intensificado com o desenvolvimento dos lugares de mediação. Mas, antes, essas formas já existiam.
Desse ponto de vista, Dom Quixote é sem dúvida o texto que abre a leitura para a modernidade, antes
de mais nada, porque tem por tema essencial a projeção do texto sobre o mundo e a presença do
mundo incorporada no texto, mas também porque muito rapidamente múltiplos leitores conheceram
Dom Quixote sem lê-lo. A presença de personagens nas festas da corte ou nos carnavais, a circulação
de representações iconográficas de cenas do romance, a adaptação para representações teatrais, e
ainda a leitura fragmentada do texto possibilitada pela estrutura em capítulos fizeram com que muito
cedo as referências a Dom Quixote circulassem, sem que possamos concluir que os leitores leram a
totalidade do texto e, ainda menos, a totalidade das duas partes, posto que em 1615 foi publicada a
segunda. Temos, aqui, a primeira matriz dessas formas de acesso a textos por mediações que são
leituras fragmentadas ou presenças do texto fora do texto. Esta é, a meu ver, uma história muito
importante: como os personagens ou as histórias saem das páginas para se tornar, em cena, numa
festa, num discurso, realidades dependentes e diferentes da escritura.
Poderíamos pensar também na técnica dominante do humanismo: é a técnica dos lugares
comuns, ou seja, da capacidade de reempregar os exemplos, as sentenças, os modelos que servem à
produção de novos discursos. É uma técnica de leitura que desmembra os textos e que por vezes se
apóia em desmembramentos feitos por outros, uma vez que se pode consultar coleções de lugares
comuns; há, nesse caso, recursos retóricos e estilísticos à disposição para usar nas produções próprias.
Essa idéia de que podemos conhecer os textos sem tê-los lido, de que a leitura de fragmentos
freqüentemente substitui a leitura da totalidade, não é, portanto, nova. O que, nas sociedades
contemporâneas, sem dúvida ampliou o fenômeno foi a multiplicação de adaptações audiovisuais, para
além de uma pequena série de estampas, propostas pelo cinema e depois pela televisão; essas
adaptações criaram familiaridade com as obras que nunca lemos. Foi a modalidade do impacto que
mudou.

La Vie des idées: Num artigo recente, Robert Darnton escreve que é importante ter a sensação física
do livro, perceber "a textura de seu papel, a qualidade de sua impressão, a natureza de sua
encadernação. [...] Os livros também exalam um odor peculiar"[3]. Permita-me, para encerrar, fazer
uma pergunta pessoal: qual é o seu modo de gostar dos livros? Como o senhor lê?
Roger Chartier: O "eu" é detestável, disse alguém nalguma parte... Além do mais, penso que essa
questão é uma armadilha, se consideramos aquilo que Bourdieu disse sobre a ilusão biográfica. Esse
tipo de questão supõe uma resposta que, mesmo inconscientemente, constrói uma auto-imagem. O
mais importante, notadamente na primeira parte da sua observação, é que Darnton deixa ecoar seu
trabalho de historiador. Efetivamente, no século XVIII, como ele mostra em diversas correspondências,
muitos compradores de livros estavam interessados nessa materialidade, na natureza do papel, na
tinta, etc. Todos esses elementos, que dão nostalgia àqueles que pensam que o livro já está morto e
prazer a um certo número de bibliófilos e leitores, não creio que devam ser pensados como uma
relação tão afetiva com esse mundo das páginas (que teremos perdido, etc.), mas como elementos que
têm uma dimensão intelectual: as formas de inscrição de um texto delimitam ou impõem possibilidades
de apropriação. Isso começa pela apropriação no nível mais econômico, posto que essas formas
materiais dependem dos preços de venda. Um livro de bolso não vale o mesmo preço de uma edição
encadernada. Para além das condições de apropriação material e econômica, há as condições de
construção da significação, que remetem à escolha do formato e dos caracteres, à divisão do texto, à
presença de ilustrações, etc. Podemos, então, converter essa observação que está situada no plano
afetivo da relação de intimidade com o objeto em um instrumento de conhecimento.
Quanto à segunda questão, acho que a única resposta é a que evocamos há pouco. Hoje, todo
mundo desenvolve uma pluralidade de relações com o texto lido, sempre guiado por preocupações,
ocupações, atividades ou desejos. Desse ponto de vista, lemos intensivamente e extensivamente
textos que são dignos de ser considerados como leituras legítimas e outros, que deixaríamos fora dessa
categoria. Por vezes ouvimos um diagnóstico que consiste em dizer que lemos cada vez menos. Isso é
absolutamente falso: jamais nenhuma sociedade leu tanto, jamais se publicou tanto livro (ainda que as
tiragens tenham uma tendência a se reduzir), jamais houve tanto material escrito disponível nas
bancas, nas livrarias, e nunca lemos tanto devido às telas.
Portanto é falso dizer que a leitura declinou. Ao contrário, o que está em jogo nesse tipo de
observação é o fato de que freqüentemente quem pesquisa isso não considera dignas de leitura as
mesmas coisas que quem é pesquisado considera. Christian Baudelot publicou um livro cujo título Et
pourtant, ils lisent [E, no entanto, eles lêem], em que sublinha o contraste entre declarações de
adolescentes, em particular meninos que não queriam, de modo algum, passar uma imagem de leitor
(porque ela está conotada de acordo com a solenidade escolar, atitudes convencionais, uma cultura
que eles recusam) e seus comportamentos efetivos: na escola, eles lêem; em frente à tela, eles lêem –
variados materiais são lidos por aqueles que declaram jamais ler. Encontramos o mesmo tipo de
análise em estudos de historiadores que se valem de entrevistas com leitores nascidos no começo do
século XX nos meios populares, sobretudo rurais.
Isso indica tensões entre os discursos sobre a leitura que sempre se referem a uma norma de
legitimidade escolar e cultural e as infinitas práticas, disseminadas e variadas, que têm a ver com os
mais diversos materiais impressos e escritos que lemos ao longo de todo um dia ou de toda uma
existência. A definição dessa legitimidade, a articulação do que se considera como leitura com a infinita
quantidade de práticas "sem qualidade", que são, porém, práticas de leitura, é talvez o maior desafio
nas sociedades contemporâneas. A multiplicação de práticas de apropriação do escrito pode ser
considerada como reveladora das divisões que fraturam o mundo social e dos recursos bastante
diferentes graças aos quais os indivíduos podem se conhecer melhor ou conhecer melhor os outros.
Não se trata de propor uma equivalência de todos os textos lidos, mas não me isento dessa tensão
entre as leituras do trabalho intelectual ou por prazer e as inumeráveis leituras "sem qualidade" que
fazemos ao longo do dia, na imprensa ou na internet. Eis uma resposta em que – acho eu – o caso de
um indivíduo pode permitir uma reflexão sobre as práticas de conhecimento que são objeto deste
nosso encontro de hoje.

Para assistir ao vídeo da entrevista:


http://www.laviedesidees.fr/Le-livre-son-passe-son-avenir.html

[1] Citado em G. Cavallo e R. Chartier (dir.), Histoire de la lecture dans le monde occidental, Paris,
Seuil, p. 7. [Edição brasileira: História da leitura no mundo ocidental. Tradução de Moretto, Machado e
Soares, com revisão técnica de M. T. Fraga Rocco. São Paulo: Ática, 1998.]
[2] R. Chartier, Inscrire et effacer: Culture écrite et littérature (XIème. - XVIIIème), Paris, EHESS,
Gllimard, Seuil, coll. Hautes Études, p. 71. [Edição brasileira: Inscrever e apagar – cultura escrita e
literatura (séculos XI – XVIII). Tradução Luzmara C. Ferreira. São Paulo: Editora da Unesp, 2007.]
[3] R. Darnton, "The Library in the New Age", The New York Review of Books, vol. 55, n. 10, 12 jun.
2008.

(Entrevista originalmente concedida para o site La Vie des Idées em 29 de setembro de 2008 com foto de Carol Reis, Revista Cult)
http://www.letras.ufscar.br/linguasagem/edicao03/entrevista_chartier.php#_ftn1
Agradecemos vivamente ao Editor de La Vie des Idées pela autorização para tradução/ publicação desta entrevista.