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LOGOS

A construção do sujeito em
Maffesoli e Guattari
Heloisa G. P. Nogueira

M ichel Maffe­
soli e Fé­lix
Guattari in­
ter­pretam e buscam dar
significados às questões
é produzida, fabricada, mo-
delada no registro do social,
congregando como sistema
relacional paroxístico todos
os conceitos de cultura: a
existenciais e relacionais cultura-valor, a cultura como
enfrentadas pelo homem na al­ma coletiva e a cultura como
contem­poraneidade. Pode mercadoria.
parecer incongruência colo- O primeiro conceito com­
car no mesmo cenário uma preende a categoria da cultu-
discussão sobre tais idéias a ra como conotação iluminista
partir de autores, afinal, nem - a cultura científica díspare
tão assemelhados teorica- da cultura artística; a cultura
mente. O que me interessa erudita, de um lado, a cultura
em primeiro lugar é destacar popular, de outro, percebida
alguns conceitos presentes ciais, não da essência, da coisa. Por isso têm como excentricidade ou mo-
em ambos os enfoques, percebê-los em a consistência do significado, a pujança do delo primitivista; o segundo, traduz-se
sua significância e especificidade e, final- sintagmático, não da referência. Eles são como sinônimo da busca de rompimento,
mente, cotejá-los lado a lado num esforço conectivos, vicinais: órgãos de ligação na ao final do XIX, do etnocen­trismo, em que
de compreensão inter­textual. sintaxe compreensiva do entendimento se admitem dimensões até o momento
Socialidade, subjetividade, inter­ sobre o social. negadas, de comportamentos sociais dife-
subjetividade, intra-subjetividade, indi- Guattari aborda as estruturas cultu- renciados, especificamente a assimilação
viduação, singularidade são conceitos rais contemporâneas pelo princípio da de manifestações culturais populares.
presentes em ambas as obras de Michel Ma- economia do desejo no campo social. A Finalmente, a cultura como mercadoria,
ffesoli e Félix Guattari e adquirem, em cada formação do social se constrói, segundo situação esta em que o que está em jogo
contexto, um status simultaneamente ele, pelo ângulo do confi­na­mento pro- não é mais a teoria, mas a produção e di-
absoluto e relativo. Absoluto no sentido gressivo das subjetividades, pela segre- fusão de bens e ‘mercadorias’ culturais.
de que o conceito é um todo, totaliza gação imposta aos espaços sociais de- Guattari considera que esses três sen-
em si seus componentes; mas relativo corrente da manufaturação, da produção tidos semânticos continuam a funcionar e,
enquanto um todo fragmentado, porque de uma subjetividade que, por natureza, ao mesmo tempo, complementarmente,
nunca definitivo. Na verdade, o conceito é industrial, maquinal, essencialmente na medida em que o próprio sistema gera
remete sempre a um problema, que é fabricada. A perspectiva não é mais a da uma tolerância marginalizada àquilo que
um mundo possível como condição. No subjetividade como parte de uma supe- ele mesmo renega. É o caso das culturas
tema tratado, o mundo possível do social restrutura, decorrente e dependente das mino­ritárias, como por exemplo, os negros,
é construído pelo ângulo da socialidade, estruturas de produção capitalista. Há os grupos feministas, os homossexuais etc..
em Maffesoli, e pelos agenciamentos uma cultura ‘capitalística’, segundo ele, De uma parte, buscam construir agencia-
coletivos de enun­ciação, em Guattari. São etnocêntrica, intelecto­cêntrica, geradora mentos de enunciação que produzam um
conceitos que falam do acontecimento ao de todos os campos de produção e de sentido de sin­gu­larização; de outra, vivem
nível da textura epidérmica das relações so- expressão semiótica. A subjetividade essa subjetividade como uma relação de
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alienação, opressão e dependência. individuação, de referenciação, Guattari A singularidade, no entanto, é um


A problemática micropolítica central, contrapropõe a reapropriação dos com- conceito existencial; resiste à reifi­ca­ção
para Guattari, não está situada no nível ponentes da subjetividade - o “agencia- porque não se objetaliza. Guattari elabora
da representação social, como em Ma- mento dos processos de expressão”- no o corpus de sua teoria no propósito de
ffesoli, no jogo entretecido das relações reconhecimento e incorporação, não no agenciar os processos de singularização
grupais, mas no nível da subjetividade. retorno ao idêntico, ao mesmo, na recher- das lutas sociais para que não se neutrali-
Guattari entende que a produção de che d’un temps perdu, mas na formação zem mutuamente; ao contrário, que estes
subjetividade constitui matéria-prima de singularidades. O que caracteriza um processos se apóiem uns nos outros de
de toda e qualquer produção. A esfera processo de singularização é que ele maneira a gerar um efeito sinérgico.
da representação corres­ponde ao campo seja automodelador: que ele capte os A invenção de modos de expressão
da ideologia; a subjetivação modelizada elementos da situação - quer ocorra com semiótica de diferentes naturezas culturais
envolve comportamentos cujos suportes o indivíduo ou com o grupo -, que cons- constitui, segundo ele, uma espécie de
incluem desde as revoluções científicas, o trua seus próprios tipos de referências reserva possível de expres­sividade a qual
uso maciço da televisão, da informática, práticas e teóricas independentemente é preciso incentivar e articular aos modos
assim como a sensibilidade, a percepção, dos constructos do poder global. Em de expressão dominantes. No entanto,
a memória, as relações sociais, sexuais, a outros termos, a liberdade em assumir e o conceito de identidade cultural e de
fantasia, o imaginário etc.. São sistemas viver seus próprios processos em todos cultura, para ele, não podem ser tratados
não mais antropológicos, mas relacionais, os níveis pretendidos, sejam estes exis- na dimensão dos modos tradicionais
psicologizados, porque envolvidos com tencial, pessoal, interpessoal, intrapessoal de representação da subjetividade. A
a natureza infra-humana, infrapsíquica e ou profissional. concepção de uma entidade reificada é
infrapessoal, que delineiam um concei- A concepção em preservar uma correlativa à noção de identidade cultural,
to de indivíduo serializado, registrado, determinada ordem social é confundida que implica o par identidade/alteridade.
modelado. Em tal dimensão, o indivíduo por alguns como a preservação da ordem Todas estas noções têm um fundo etno­
somente existe enquanto terminal, como social enquanto tal, seja qual for a sua centrista. Guattari propõe substituir tais
consumidor de subjetividade e instaura- natureza. Guattari observa que as pes- termos por “agen­ciamento de processos
dor de processos de individualização nos soas confundem “a preservação de uma de expressão”.
quais se embutem mecanismos de culpa determinada figura de si mesmo com Guattari articula, assim, a questão da
e de infantilização: o indivíduo culpado, a preservação de um si mesmo” (1993, crise mundial não apenas no nível das
segregado perante si mesmo e perante p.63). Similar ênfase deve ser observada semióticas econômicas, mas de todas as
a sociedade, infantilizado pela relação quando o foco é sobre as minorias: não semióticas de controle social - sejam de
de mediação imposta pelos estados- como uma questão de identidade cul- natureza infrapsíquica, infra-humana ou
nações. tural a ser mantida como um retorno ao infrapessoal. Ele combina os elementos
Na base da formação dos níveis de arcaico, mas como uma articulação trans- conceituais a partir de um modelo teórico
individuação, Guattari alicerça os ele- versal num processo criador de “devires transversal, que entrecruza elementos
mentos biológicos, sexuais e sócio-eco- subjetivos que se instauram através dos da psicanálise, da filosofia, da história e
nômicos, que, agregados, emprestados, indivíduos e dos grupos sociais, porém da sociologia à luz da observação dos
aglomerados em dimensões de diferentes eles não podem existir em si, e sim como comportamentos sociais; de fato, ele
espécies enquanto conceitos de refe- movimento processual...” (Guatta­ri, 1993, reelabora a discussão teórica dos modos
renciação da subjetividade capitalística, p.74). de produção capitalísticos segundo uma
estruturam funções segregadas e nor- Necessário aqui clarificar o conceito mesma cartografia do desejo no campo
malizadas. Estes processos produzem os de identidade e diferenciá-lo da idéia social, aplicável tanto às sociedades
modos das relações humanas até mesmo de singularidade. A identidade é um qualificadas como capitalistas quanto aos
em suas representações inconscientes, os conceito que referencia, circunscreve países ditos periféricos.
modos como se trabalha, como se ensina, a realidade conforme quadros de refe- Socialidade em ato
como se ama, como se fala etc.. rência. Seleciona, por exemplo, o sexo, Maffesoli, diferentemente, observa
A ordem capitalística fabrica a rela- a faixa etária, o país de origem etc.. de o complexo social e estende seu olhar
ção do homem com o mundo e consigo maneira a classificar normativamente o teórico além e aquém do que chama-
mesmo, a relação com a produção, com indivíduo numa série. Conforme Guattari mos comumente de relações sociais, em
a natureza, com os fatos, com o corpo, (1993, p.69): ”A identidade é aquilo que direção à socialidade - ao fundamento do
com a alimentação, com a idéia de tempo faz passar a singularidade de diferentes estar-junto, à matriz do pertencimento -,
presente, com o passado e com o futuro. maneiras de existir por um só e mesmo categoria marcada pela acentuação das
Diz Guattari que “o que faz a força da quadro de referência identificável,(...) estruturações societais, grupais, fenô-
subjetividade capitalística é que ela se mesmo que imaginário”. É o que permite menos bastante presentes em períodos
produz tanto ao nível dos o­pres­sores e sustenta a geração de estratégias mer- sociais decadentes. Maffesoli devolve ao
quanto dos oprimidos” (1993, p.44). Por cadológicas diferenciadas e segmentadas banal, ao cotidiano das relações sociais,
isso depreende que a questão não mais de produção e consumo capitalístico o conteúdo da complexa metáfora
se limita ao plano da economia política, de bens e serviços. ”Ela é um meio de com que, segundo ele, o sociólogo se
mas ao da economia subjetiva. auto-identificação num determinado defronta na atualidade. Sociedade é,
grupo que conjuga seus modos de subje­ acima de tudo, para ele, comunhão e
Formação das singularidades ti­vação nas relações de segmentaridade coesão, prescinde de estar contida na
Face aos conceitos de identidade, de social”(Guattari, 1993, p.73). estreiteza racionalizadora da análise
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de estruturas. Contradição, pluralida- do social - expresso numa relação com um constitutivo do societal decorre essa eu-
de e indeterminação encontram-se tempo e com um espaço, inclusivamente femização do tempo e do espaço que liga
na raiz de toda mudança e da própria imaginários - como amálgama da coesão organicamente o fantástico ao cotidiano,
sociedade. do conjunto. o amargo ao doce, os rituais da vida à ges-
Em vez de apoiar-se num modelo Da idéia difusa do tempo vivido social tão da morte. Porque o gestual coletivo
de argumentação crítica do processo de e individualmente como repetição, como é o resultado da combinação das várias
estruturação capitalista, como o faz Guat- ciclo que se renova, se reali­menta, e dobras construídas pelas micro-histórias
tari, Maffesoli revela preocupação em por isso sempre igual, nasce a compre- individuais; liberam uma pluralidade de
ressaltar a dinâmica da ambiência “tribal” ensão de que a alienação, os tempos sentimentos e situações que leva em con-
do contexto social. À lógica dos processos mortos, os não-tempos, a incoerência sideração, ao mesmo tempo, a rudeza e a
de identificação sexuais, políticos e profis- não são elementos mortíferos. Como doçura contrabalançadas e neutralizadas
sionais mencionados em Guattari, sobre- afirma Maffesoli (1984, p.23): “Quando a pelo tédio, pela tristeza, pela repetição,
põe-se o processo de identificação com perspectiva sobre a história não é linear, pela exaltação da vida social.
o grupo - a estru­turação da socialidade -, ficamos livres de buscar uma direção; Por isso a vida social é feita de teatrali-
a emergência das redes, dos pequenos há ritmos, tempos mortos e sobretudo dade e de contradição. Existe teatralidade
grupos - as tribos -, das congregações e um non sense e a incoerência.” Aqui o porque existe contradição, e se, diz Ma-
dos conjuntos efêmeros. Mais do que uma peso de Maffesoli é de fundo existencial-
ffesoli “não houvesse uma aparência das
explicação sistemática, sua abordagem filosófico, ao perceber que a diferença é
forças de união, as forças centrífugas da
do social é compreensiva. necessária porque fortifica o trágico. E o
contradição conduziriam diretamente à
Ao estabelecer o conceito da sociali- trágico traz a emergência dos contrários,
morte. É nesse sentido que a teatralidade
dade em ato, ou socialidade de base - nú- da morte oposta à vida, da repetição, da
é uma astúcia que assegura a permanên-
cleo de identidade, segundo Lévi-Strauss, circularidade presente nas práticas ritu-
cia social”. (1984, p.138). Ao se ritualizar,
patrimônio coletivo para Durkheim -, alísticas. A socialidade em ato nada mais
Maffesoli estende suas bases teóricas em é que a comunicação de emoções, pelo toda violência que estrutura o social se
direção a outros conceitos tal como o da domínio do irreal, do factível, do lúdico canaliza e funda o social. Assim, a forma,
subjetividade. Esta categoria funciona presente ao jogo. o gestual, o falso brilho, a aparência não
como alavanca metodológica através “Examinar a intensidade da vida são aspectos secundários e residuais da
da qual se espelha a alteridade, o olhar diária deste ponto de vista tem como sociedade, são a expressão da potência
para o outro, condição da intersubjetivi- conseqüência a relativização da política, social que se esgota no aparecer. O rito, na
dade. A subjetividade não se vincula ao porque ao lado dela (do econômico, do verdade, realiza uma negociação com o
individualismo; é o substrato organístico ideológico) se encontrará sempre um perigoso problema da alteridade. Porque,
que se constrói em ato pessoal e social social que assegura a coesão do conjunto” para Maffesoli, o Outro é ameaçador, em-
simultaneamente, e que pode ser extra- (Maffesoli, 1984, p.21). bora seja, ao mesmo tempo, fundador.
polada como conceito para o conjunto É a justaposição destes contrários
das situações humanas num processo de que torna factível o jogo. A comunhão
Conclusões?
cristalização da socialidade. de emoções difundida nos atos mais O que se percebe comum, no per-
Maffesoli vai mais além: o que está cotidianos ou cristalizada nos grandes curso das idéias de Maffesoli e Guattari,
em causa é o vaivém constante entre acontecimentos comemorativos é o que é a construção de modelos teóricos que
uma intersubjetividade e uma intra- funda a vida social ou que faz lembrar sua admitem a contradição, a ambigüidade,
subjetividade. O subjetivo se transcende fundação. O lúdico não é o divertimento o paradoxo como condições epistemo-
na fusão com o coletivo, que gera o de uso privado, mas o efeito e a conseqü- logicamente naturais. A linearidade na
intra-subjetivo: a geração simultânea e ência de toda socialidade em ato. história, o aspecto dual - branco ou preto,
espontânea do processo pluralista, pro- O espaço modela coercitivamente os certo ou errado, positivo ou negativo
cesso de construção das diferenças. Sob hábitos e costumes do dia a dia que, por -, a busca de um conceito escatológico
tal condição, a subjetividade livra-se da sua vez, permitem a estruturação comu- que explique e elimine a contradição é
vergonha de precisar ser eliminada, como nitária. A pregnância de uma memória rompida definitivamente: o paradoxo
percebe Guattari: torna-se um trampolim espacial como “buracos negros” constitui é assumido no âmago do conceito, em
metodológico que viabiliza um olhar mais uma reserva de energia que não pode, sua estrutura ‘molecular’ (expressão de
abrangente sobre a existência societal. segundo Maffesoli, ser subestimada. A Guattari). Guattari admite a imbricação
O subjetivo pode ser o caminho para se carga simbólica desse “buraco” é imensa de formas de comportamento culturais
apreender o in­ter­subjetivo, ou seja, o olhar e a reserva de energia que dela brota díspares, contraditórias, construídas em
do outro, a alteridade. funda a relação orgânica que liga a morte tempos e condições históricas singulares,
e a vida. Daí provém o caráter sagrado porém remanescentes e reciprocamente
A comunicação inclui o non sense aparente no apego à casa, à terra, ao intercambiantes. No espaço de convi-
Na propedêutica que examina a território, aos costumes; o humus favo- vência entre a moral estreita do dever
ambigüidade fundamental de todo rece a manifestação e o desenvolvimento ser, existe, diz Maffesoli, um imoralismo
fenômeno humano, Maffesoli percebe das raízes, permitindo o crescimento. dinâmico que traduz uma profunda exi-
a inexistência de antinomia entre o Assim, diz Maffesoli que o ”espaço é a gência ética, cujo único sentido é o de
cotidiano e o imaginário. A proposta de forma a priori do fantástico” (1984, p.54), viver junto, viver coletivamente. Ambos
examinar atentamente a intensidade da é o lugar das figurações. Da aceitação da concedem idêntico grau de importância
vida diária leva-o a considerar a presença ambigüidade como elemento estrutural aos fenômenos culturais marginais e a
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fenômenos habitualmente considerados perspectiva contratual, maquinal) do que mo. Rio de Janeiro: Imago, 1988.
e valorados. aquilo que é emocionalmente comum a LÉVI-STRAUSS, Claude. O cru e o cozido. São
Na verdade, esta é uma das facetas todos (a perspectiva orgânica). Pode-se Paulo: Ed. Brasiliense, 1991.
mais visíveis da pós-modernidade: a des- assim afirmar que o imaginário coletivo age _____. Mito e significado. Porto: Edições
70, 1978.
coberta de um mundo sem centro fixo, mais por contaminação do que por persu-
MAFFESOLI, Michel. A sombra de Dionísio. Rio
cujo paradoxo está em tornar-se moder- asão de uma razão social. É esse vaivém de Janeiro: Graal, 1985.
no e, simultaneamente, retornar às fontes. constante entre o ordinário e o singular, _____. A conquista do presente. Rio de
O pós-moderno realiza dois movimentos que faz da análise da sensibilidade coletiva, Janeiro: Rocco, 1984.
simultâneos: ele reinsere os contextos em ambos os casos, um instrumento de _____. Sociedades complexas e saber or-
históricos como sendo significantes, e primeira ordem. gânico. In: Revista Tempo Brasileiro, n.108,
até determinantes, mas, ao fazê-lo, diz De outra parte, as diferenças na abor- Interdisciplinaridade, 1992.
Hutcheon (1988, p.122), problematiza dagem dos conceitos de sub­jetivação, _____. A ecologização do social. Rio de
toda a noção de conhecimento históri- individuação e singu­larização são dife- Janeiro: Palestra proferida no Seminário “O
co. Quando Guattari propõe a geração renças de nível, de estamento conceitual, homem, a cidade e a natureza”, Casa de
Rui Barbosa, mimeo, 1992.
de processos de singularização, está em não de essência. Maffesoli examina o so-
_____. O tempo das tribos. Rio de Janeiro:
discussão a absorção de um contorno cial do ponto de vista de suas entranhas, Forense Universitária, 1987.
histórico adverso em prol de um agen­ das forças internas sociais que regem os
ciamento construído pela consciência. grupos. Guattari contabiliza os créditos e
A história é absorvida e absolvida em sua débitos da história ocidental, localiza no
perversidade idônea, e a consciência pes- modelo capitalístico o esmagamento da
soal e grupal re-constrói seus parâmetros idéia de pessoa e propõe a reversão dos
referenciais. indivíduos e grupos, no sentido da cons-
Elemento presente em ambas as ciência e domínio sobre sua reconstrução,
teorias é o contorno grupal atribuído à acima do objeto maquinal; este o propósi-
organização social, a formação de tribos, to da construção das singularidades. A in-
de grupos que elaboram uma aura estéti- dividuação, a subjetivação, na acepção de
ca no sentido da pulsão comunitária, num Guattari, são conceitos que guardam em
movimento de solidariedade orgânica. si o ocultamento do singular. Maffesoli, de
O livro construído por Rolnik a partir das outra parte, utiliza o conceito de subjeti-
inúmeras viagens de Guattari demonstra vação como alavanca metodológica/base
enfaticamente isto, da mesma forma os episte­mológica para a construção do su-
textos de Maffesoli. A sociedade, em todo jeito, posto que na idéia de sujeito já está
o mundo, não mais pode ser examinada contida a do Outro. A natureza torna-se
do ponto de vista de uma lógica binária cultura, porque cultura faz-se através da
da separação, colocando em dois do- natureza; elementos que se combinam
mínios corpo e alma, espírito e matéria, na metástase da alteridade.
ideologia e produção, indivíduos e cole- Enfim, os esforços de Guattari e Maffe-
tividades, cultura erudita, cultura popular, soli, longe de se afastarem de numa opção
enfim, natureza e cultura. epistemológica radicalmente antagônica,
Essas entidades aparentemente pre- integram-se e multiplicam-se no sentido
servaram o sentimento frente a um outro, de ampliarem ainda mais os significados
mas esse outro foi internalizado como possíveis a serem atribuídos aos compor-
díspar, concorrente. A abertura para a tamentos sociais contemporâneos.
inclusão dos contrários vem conotar um
novo espaço, um local onde se representa Bibliografia
esse destino comum. Mesmo os termos
contidos nesta ambigüidade encasulam- CHÂTELET, François. Uma história da razão. Rio
se em conformidade aos moldes de cada de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
grupo, na persistência de um ethos que DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. O que é filo-
os constitui e os explica. A comunidade sofia? Rio de Janeiro: Edições 34, 1993.
esgota sua energia em seu próprio ato DURAND, Gilbert. Les structures antho­po­
de criação e recriação. Sua única função logiques de l’imaginaire. Bordas: Collection
é reafirmar o sentimento que um dado Études Supérieures, 1969.
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do sa-
grupo tem de si mesmo. Eis o contexto
ber. Rio de Janeiro: Forense Universitária,
proposto por Guattari. Eis o ritual mencio- 1995.
nado em Maffesoli que, ao ser repetitivo, GUATTARI, Félix e ROLNIK, Suely. Micropolítica
oferece segurança. Ambos, através de - Cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes,
mecanismos diferentes, reafirmam o sen- 1993. * Heloisa G. P. Nogueira é Mestre em
timento que os grupos têm de si mesmos HUIZINGA, Johan. Homo ludens. São Paulo: Memória Social e Documento pela
no sentido de privilegiar menos aquilo ao Perspectiva,1993. UniRio e Doutoranda em Literatura
que cada um vai aderir voluntariamente (a HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernis- Brasileira pela PUC/Rio.