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Abraão Existiu?

(Fonte: Superinteressante, Edição 190, Julho de 2003)

Abraão
Primeiro dos patriarcas, ele moldou a fé monoteísta e estendeu sua influência até
os dias de hoje. Mas apesar de toda essa importância, a ciência acredita que ele
jamais tenha existido.

O primeiro dos patriarcas bíblicos mudou para sempre o pensamento religioso da


humanidade, ao introduzir a crença em um Deus único e onipresente. Tornou-se modelo
de fé incondicional e da unidade entre os povos para seguidores do judaísmo, do
cristianismo e do islamismo. Saiba o que a ciência já descobriu a respeito do Abraão
histórico

O mundo espera, ansioso, a gradual concretização do plano de paz entre o governo


israelense e organizações palestinas, que parece finalmente deixar o rol das boas
intenções para se tornar realidade. Tal plano, chamado de “mapa de estrada”, pretende
pôr fim a décadas de conflitos sangrentos e atentados terroristas na região, apostando no
cessar-fogo e na criação de um Estado palestino até 2005. A almejada paz entre judeus e
muçulmanos, israelenses e árabes, remete à história de um homem que se tornou
símbolo da fé desapegada e da unidade entre as nações e que, hoje, anda um tanto
esquecido sob a poeira dos combates e da discórdia na Terra Santa. Esse homem é
Abraão, o primeiro dos patriarcas bíblicos, considerado pai biológico, adotivo e ético de
todos os povos. Figura fundamental nas três grandes tradições monoteístas - judaísmo,
cristianismo e Islã -, carrega em si a idéia primordial da paz: se todas as nações são
irmãs entre si, filhas de um único pai, por que existe ainda tanta guerra?

Conta o Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, que Deus chamou Abraão e lhe disse: “Sai
da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei. Eu
farei de ti um grande povo, eu te abençoarei, engrandecerei teu nome. Sê tu uma
bênção”. Naquela época, Abraão era ainda Abrão, um homem de 75 anos de idade que
vivia em Harã, importante centro comercial do mundo antigo e cidade da atual Turquia.
Mesmo sem garantias prévias da dupla promessa de terra e descendência, Abraão
acreditou em Javé, o Deus único, invisível e onipresente. Partiu sem saber para onde ia.
Não levava nas mãos qualquer contrato que garantisse a posse de um trecho de terra. E,
embora sua esposa Sara fosse estéril, não duvidou, em momento algum, que teria uma
posteridade mais numerosa que as estrelas do céu. Foi sua fé plena e irrestrita em Javé
que deu origem à tradição religiosa monoteísta, que prega a existência e a adoração de
um só Deus, algo inovador no mundo antigo.

Hoje é impossível conceber o mundo sem o monoteísmo (mesmo que você não
partilhe dessa concepção) - e sem Abraão.
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A ciência ainda busca pistas sobre a existência desse personagem. Atualmente,


historiadores, arqueólogos e estudiosos dos textos bíblicos admitem que provavelmente
um homem chamado Abraão tenha vivido na chamada era dos patriarcas, período
histórico que remete à Idade do Bronze, entre 2000 a.C. e 1500 a.C. Tabuinhas de argila
encontradas em cidades próximas ao rio Eufrates, onde na Antiguidade se localizava a
Mesopotâmia e hoje estão a Síria e o Iraque, indicam que os eventos da vida de Abraão,
presentes no relato bíblico, podem ter realmente acontecido, mas não necessariamente
protagonizados por um único homem.

O que hoje os especialistas afirmam é que um Abraão, chefe de um grupo seminômade,


realmente existiu - talvez menos heróico e formidável que o Abraão bíblico, porém não
menos importante para a história do seu povo. Assim como tantos outros chefes
seminômades, o Abraão histórico deve ter deixado um legado fundamental para o seu
clã. Sua história, contada de pai para filho, acabou prevalecendo sobre as demais e
incorporando elementos, alheios à saga original, de outros personagens também
conhecidos pelos povos da época. Talvez historicamente não tenha existido um só
Abraão, mas vários, que ajudaram a compor o Abraão bíblico. Bem-vindo à história da
bem-sucedida jornada rumo à Terra Prometida e à descendência numerosa. Uma jornada
que ainda não acabou - nem para os fiéis, nem para a ciência.

A religião de Abraão

São 14 capítulos do Gênesis dedicados a Abraão. Ao contrário de outros profetas e


personagens do Antigo Testamento, cuja saga começa a ser narrada a partir do
nascimento, Abraão estréia já adulto. No início do relato, ele vive com seu pai, Terá,
seus irmãos e sua esposa, Sara, em Ur, uma das cidades mais importantes do mundo
antigo, localizada ao sul do rio Eufrates (veja mapa na página 44). Não tem filhos,
porque Sara era estéril. Certo dia, Terá reúne Abraão, Sara e Ló, sobrinho do patriarca, e
resolve seguir com a família para as terras de Canaã, que se estendiam do sudoeste da
Síria até o Egito. Ao chegarem à cidade de Harã, depois de uma viagem longa e
exaustiva, decidem ficar por lá mesmo. Terá morre. Abraão ouve pela primeira vez o
chamado de Deus, que lhe promete terra e descendência. Sem pestanejar, ele deixa Harã
e parte rumo à terra dos cananeus.

O relato bíblico narra o episódio como se Abraão fosse monoteísta desde sempre,
segundo a concepção que temos hoje. No entanto, o Alcorão, livro sagrado dos
muçulmanos, evoca passagens da vida do patriarca que não constam da Bíblia e que
explicitam como se deu a adesão ao Deus único e o rompimento com a crença dos
antepassados. Abraão (ou Ibrahim, como é chamado no Islã), ainda jovem, inicia seu
itinerário religioso recusando a adoração dos astros. Nega os deuses petrificados como
estátuas e parte para uma verdadeira batalha de fé contra a idolatria dos seus
antepassados, destruindo os ídolos locais e pregando a existência de um único Deus -
como fez o profeta Maomé mais de 20 séculos depois, quando o Estado Árabe estava se
constituindo. O povo condenou Abraão à fogueira e, milagrosamente, ele se salvou.
“Por revelação divina, Abraão sabia que deveria divulgar o Deus único, o monoteísmo”,
diz o xeque Ali Abdune, da Associação Mundial da Juventude Islâmica, em São Paulo.
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“A aceitação dele ao chamado de Deus significou submissão total e voluntária à vontade


divina. Abraão deixou tudo - por isso, se tornou o patriarca, o amigo de Deus.”

Narrativas semelhantes são encontradas em textos apócrifos, como o Apocalipse de


Abraão, e em histórias da tradição oral judaica, compiladas no Talmude. Uma das
passagens relata que tanto o nascimento do patriarca quanto sua luta pessoal contra os
ídolos foram previstos por astrólogos, que logo avisaram o rei Nimrod. Este decidiu
matar o menino assim que ele nascesse, mas Terá, o pai, o escondeu numa caverna.
Abraão ficou no esconderijo durante alguns anos. Ao sair, quando viu o Sol pela
primeira vez, pensou consigo mesmo: “Deve ser este o Deus que criou o céu, a terra e a
mim”. E rezou o dia inteiro ao sol. À tarde, ao ver o astro desaparecer, pensou: “Não é
um Deus”. Avistou a Lua, à noite, e cogitou que talvez fosse ela a senhora do mundo.
Durante a noite inteira, fez orações à Lua. Pela manhã, observou que ela havia sumido.
Levantou as mãos ao céu e disse: “Não, não são esses os criadores do mundo. Só um
Deus existe no céu, que reina sobre todos os outros.

A Ele orarei e perante Ele me curvarei”. Surgia, aos olhos da fé judaica, a concepção
monoteísta.

Mas não para a ciência. Achados arqueológicos mostram que os povos da região do
Crescente Fértil - como ficaram conhecidas as terras produtivas que se estendiam da
antiga Mesopotâmia ao Egito - não acreditavam em um Deus único e soberano. No
período patriarcal, que vai de 2000 a.C. a 1500 a.C., vigorava o politeísmo. Os
seminômades, porém, eram henoteístas, ou seja, adoravam apenas uma divindade, mas
admitiam a existência de outras. “Cada clã cultuava o seu próprio deus”, diz o pastor
luterano Milton Schwantes, cientista da religião da Universidade Metodista de São
Paulo. “A cultura seminômade não permitia uma diversidade grande de concepções de
mundo.”

Segundo Milton, o politeísmo surge porque vários subgrupos, dentro de uma grande
população, requisitam funções diferentes da divindade - deus da guerra, deus da
colheita, deus do poço… Como a população do clã é pequena e homogênea, uma
diferenciação como essa poderia pôr em risco o grupo social. “Daí a tendência a um só
caminho religioso”, afirma Milton. “Mas isso não significa que exista um pensamento
teórico monoteísta no mundo antigo. Existe, sim, um monoteísmo de adesão, em que
cada grupo adere a um único deus.”

Abraão interpretado

Segundo o narrador do Gênesis, o Deus de Abraão é Javé (Iahweh, em hebraico). No


entanto, os exegetas, como são chamados os estudiosos dos textos sagrados,
reconhecem que se trata de um anacronismo, um acréscimo posterior feito ao relato. No
período patriarcal, a denominação mais comum de Deus seria El, como comprovam
achados arqueológicos da época. Para entender por que El (o Deus da vida) se tornou
Javé (o Deus libertador), você precisa voltar no tempo e mais precisamente ao início da
formação do povo de Israel, entre 1250 a.C. e 1000 a.C., quando os primeiros cinco
livros da Bíblia, que também formam a Torá judaica, começaram a ser redigidos.
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Até aquela época, as narrativas eram basicamente orais. Circulavam várias histórias
sobre Abraão e os demais patriarcas. Aos poucos, esses relatos começaram a ser
escritos, obviamente sofrendo influências literárias e ideológicas de acordo com o
momento histórico que o povo vivia. A versão final do Gênesis e dos demais livros data
de 400 a.C., mais de mil anos depois da época em que Abraão teria vivido. “Nesse
período, houve um grande movimento para considerar o povo de Israel uma raça única e
Javé, o Deus único. Era preciso consolidar a teocracia, e esse tipo de instituição exigia a
existência de um Deus absoluto para justificar o poder do rei”, afirma o padre Shige
Nakanose, biblista do Centro Bíblico Verbo, em São Paulo.

Até então, havia vários nomes para Deus e Javé era um deles. Referia-se a uma
divindade masculina cultuada ao lado da deusa Aserá em um período posterior ao
patriarcal. Javé era o Deus adorado pelos grupos que escaparam da escravidão e do
exílio e que se juntaram ao incipiente povo de Israel. Assim, quando as últimas versões
do Gênesis foram escritas, os redatores tentaram substituir referências às divindades da
região de Canaã - como o nome El - por invocações a Iahweh.

Interferências como essa também moldaram a figura do Abraão bíblico. “Originalmente,


existiam diversas tradições orais sobre os patriarcas. Eram narrativas curtas e
independentes, que falavam do sacrifício de Isaac, da visita dos três estrangeiros à tenda
de Abraão, da destruição de Sodoma e Gomorra e assim por diante”, diz o padre Shige.
Essas narrativas tinham, inclusive, uma função pedagógica para o grupo e traziam
mensagens intimamente relacionadas com o contexto da época. Pouco a pouco, tais
memórias foram sendo reunidas e adaptadas conforme a intenção do redator. “Vários
clãs contavam as histórias dos seus pais e fundadores. A história de Abraão foi a que
prevaleceu e acabou absorvendo as demais”, afirma o biblista.

Por isso, ao longo do relato do Gênesis sobre o patriarca, existem versões de uma
mesma história e vários anacronismos, como as passagens que citam o uso de camelos
(esses animais só foram domesticados em torno de 1100 a.C.) ou mesmo as promessas
divinas de terra e de descendência numerosa. “São promessas recentes no contexto
bíblico, porque pressupõem um Estado. Para o chefe de um clã, a promessa de muita
gente é um problema, já que ele pode alimentar uma quantidade restrita de bocas. E a
necessidade de terra é muito mais agrícola que seminômade”, diz Milton Schwantes. “A
promessa de um descendente faz parte da história de Abraão. Mas as outras, de
posteridade e de terra, referem-se a um povo. Um país, para dar certo, precisa de terra e
gente.”

O Abraão bíblico crê em Javé e mantém-se fiel a Ele, mas não consegue imaginar a
concretização das promessas. Ele não tem filhos e sua esposa é estéril - como, então, sua
descendência será tão numerosa quanto as estrelas do céu? Diversos povos já habitavam
a Terra Prometida - como ele poderia possuí-la? Deus, então, sela duas alianças com o
patriarca. A primeira, pela terra, envolve o sacrifício de animais. Abraão toma uma
novilha, uma cabra e um carneiro e divide-os ao meio, colocando as metades umas
diante das outras. Oferece também dois pássaros, sem dividi-los. “Eu dou esta terra aos
teus descendentes, desde a torrente do Egito até o grande rio Eufrates”, diz o Senhor.

Mais tarde, Deus firma a segunda aliança, dessa vez pela descendência. E propõe a
circuncisão de todos os homens do clã e de todos os meninos no oitavo dia a partir do
nascimento. Até aquele momento, o nome do patriarca era Abrão, que significa “pai
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elevado” ou “pai erguido”. A partir daí, Deus o chama de Abraão, “pai de uma
multidão”. Para simbolizar a dimensão do acordo entre ambos, Deus também muda o
nome de Sarai para Sara. “Eu a abençoarei e dela te darei um filho. Eu a abençoarei e
ela será a mãe de nações e dela sairão reis.” A promessa se realizou e Sara gerou Isaac.

A Era Patriarca

A dimensão religiosa das figuras de Abraão e de Sara é enorme - mas o que a ciência
tem a dizer sobre “o pai de uma multidão” e “a mãe das nações”? “Existem achados
arqueológicos que comprovam que existiu, sim, um período patriarcal no qual podem
ter ocorrido todos os eventos que são descritos no Gênesis”, afirma a historiadora Ruth
Leftel, da Universidade de São Paulo. “Nomes, costumes e normas de comportamento
dos patriarcas do relato bíblico eram realmente aqueles. O que não foi comprovado é a
existência física de Abraão, Isaac e Jacó, esposas e filhos como figuras históricas.”

Hoje se sabe que os patriarcas habitaram o lado ocidental da Mesopotâmia, a oeste do


rio Eufrates, e partilharam o mundo material, cultural e ritual dos povos conhecidos
como semitas ocidentais. As tabuinhas de argila encontradas em escavações na região
referem-se a eles como amuru, que significa: “homens” (am) e “ocidente” (uru).

As descobertas esclarecem certos procedimentos presentes na história de Abraão. Na


primeira aliança firmada com Deus, por exemplo, o patriarca matou alguns mamíferos e
os cortou ao meio, colocando as metades uma na frente da outra. “Como na época não
havia tabelião para reconhecer firma ou legitimar contratos, uma aliança entre dois
chefes de tribo ou dois governantes de cidades precisava ser feita entre as metades de
um burro para ter validade”, afirma Ruth. Os animais do relato bíblico são outros,
porque na época da redação já existiam certas prescrições quanto aos animais, mas o
costume é rigorosamente igual. Outro exemplo é a atitude de Sara. Como ela era estéril,
cedeu uma de suas servas, chamada Agar, a Abraão para que ele garantisse a
descendência. Nas tabuinhas de argila, a lei é bem clara: a mulher permanente ou
temporariamente estéril era obrigada a escolher uma filha ou uma escrava para dormir
com o marido e assim gerar descendentes.

Também os nomes que constam do Gênesis são idênticos àqueles atribuídos aos amuru,
formados por um verbo e uma denominação de Deus, em geral El. “Os nomes dos
patriarcas têm relação com a história e os atos da vida deles. Foram colocados
posteriormente”, diz Ruth. Um exemplo é o nome do filho de Abraão com a escrava
Agar, o primogênito Ismael. Vem de Ishma-El e significa “Deus ouve”, em referência à
passagem em que Agar está no deserto, grávida, e Deus aparece e a ampara. Já o filho
nascido da promessa divina é Ytzhak-El, na forma abreviada Isaac, que quer dizer
“Deus ri”. Tanto Abraão quanto Sara riram, quando Deus lhes prometeu uma
posteridade numerosa, porque ambos eram idosos e não imaginavam como poderiam
gerar um filho.

Hoje se sabe que os patriarcas, assim como os amuru, viviam de fato em clãs
seminômades e mantinham elos econômicos com as cidades - troca de produtos dos
rebanhos pelos manufaturados. Apesar da relação comercial, as tabuinhas mostram que
os amuru não podiam participar da vida das cidades nem ser considerados cidadãos de
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Canaã. Eles não tinham direitos e não podiam fixar-se numa cidade, a não ser que o
governante fosse benevolente e permitisse que levantassem tenda por um tempo
determinado. As leis eram claras: um cidadão livre, para ter direitos, precisa ser dono de
terras e ser sedentário há gerações. “Isso explica por que os patriarcas não podiam se
fixar e ficavam circulando durante todo o tempo”, diz Ruth Leftel.

Se as tabuinhas não podem garantir se algum Abraão se destacou entre os amuru, outros
registros arqueológicos comprovam que a história do patriarca alcançou outros povos da
Antiguidade. “A dúvida sobre a existência de Abraão é nossa, mas não dos antigos”,
afirma o historiador André Chevitarese, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
“Eles se relacionam com o passado de modo bastante diferente. A fé justifica tudo.
Acreditam que Deus - ou os deuses - intervém em torno de determinadas figuras,
transformando-as em heróis fundadores.”

Amuletos de uso mágico de origem desconhecida encontrados em escavações piratas


estampam a figura de um jovem carregando um cutelo. Há uma criança e um altar. Uma
mão sai do céu e aponta para um arbusto, onde está preso um cordeiro. Não há dúvidas:
trata-se da passagem do sacrifício de Isaac, uma das mais marcantes do Gênesis, em que
Deus põe Abraão à prova, pedindo que ele sacrifique o filho tão amado. Abraão
obedece. No momento em que ergue o cutelo, Deus o interrompe e salva Isaac. Um
carneiro, então, é oferecido em holocausto. Nas costas dos amuletos, um alfabeto
semítico, provavelmente com palavras em hebraico e samaritano, sem significado
aparente. “Se não há significado, são palavras mágicas. Só quem usava o amuleto as
conhecia”, diz André.

Para ele, a existência desse tipo de material e a invocação do nome de Abraão em


fórmulas mágicas são provas de que ele existiu. Além disso, o fato de estarem em
hebraico demonstra que o uso é próprio de quem está inserido na narrativa e acredita
nela. “Quem fez e quem usou o amuleto muito provavelmente é um judeu”, afirma ele.
Referências a Abraão também aparecem em textos de magia escritos em papiros e
usados para submeter demônios, unir namorados etc. Chamar pelo “Deus de Abraão,
Isaac e Jacó” era uma prática bastante freqüente, o que revela a influência cotidiana
dessas histórias.

O legado de Abraão

De acordo com a Bíblia, Abraão morreu aos 175 anos de idade e foi enterrado por seus
filhos Ismael e Isaac onde estava o túmulo de Sara, nos arredores da cidade de Hebron.
Seu legado espiritual independe da existência histórica. Para milhões de fiéis no mundo
todo, basta o exemplo de fé e obediência do patriarca. “Abraão introduziu o
revolucionário conceito de monoteísmo ético”, diz o rabino Henry Sobel, da
Congregação Israelita Paulista. “Ético porque acreditar em um único Deus exige
assumir a igualdade entre todos os filhos dele. Todos os povos, portanto, são iguais. E,
embora tenhamos um único Deus, Deus tem mais do que um único povo.”

Para o psicólogo Henry Abramovitch, da Universidade Tel Aviv, em Israel, a saga de


Abraão foi uma verdadeira viagem em busca do autoconhecimento - que ainda se
mantém como fonte de inspiração para muita gente. Abramovitch, cujo nome em russo
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significa “filho de Abraão”, escreveu o livro The First Father (”O primeiro pai”, ainda
sem tradução em português), no qual traça um estudo psicológico sobre o patriarca. “Ele
tinha tudo e deixou esse tudo a fim de buscar um novo destino. As palavras do chamado
divino, em hebreu Lech Lekha, podem ser lidas literalmente como ‘Vá para si mesmo’”,
afirma o psicólogo. “Assim, ele se torna o protótipo da jornada ao conhecimento de si
mesmo e da individualização.” Abraão não é um homem que simplesmente segue
ordens. Pelo contrário, ele ensina como estar em contato com o self, o âmago de si
mesmo.

Uma das passagens mais célebres da história do patriarca, o sacrifício de Isaac, inspirou
o filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard a refletir, na obra Temor e Tremor, sobre o
que é a fé. O livro lançou as bases para uma nova teologia no século 20, voltada ao
mesmo tempo para a transcendência e a ação no mundo. “Abraão acredita que deve
obedecer a ordem divina e sacrificar seu filho, mas tem a certeza de que Deus não vai
abandoná-lo”, diz o filósofo e cientista da religião Ricardo Quadros Gouvêa, da
Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo. Situação a princípio absurda,
Kierkegaard parte daí para concluir que a fé vai além da capacidade da razão, não se
resume à ética e aos valores universais e, especialmente, exige um engajamento no
momento presente. “Abraão sabia que teria Isaac de volta. Demonstrou, ao mesmo
tempo, desprendimento e compromisso”, afirma Ricardo.

Na mística islâmica, o patriarca representa um símbolo da busca pelo centro de si


mesmo. Ele é o amigo íntimo de Deus, o jovem herói que destrói os ídolos internos e
instaura a unidade de cada indivíduo. “A característica essencial de cada ser humano é a
ligação com o sagrado. Você é um jeito de Deus aparecer - isso é monoteísmo, o um que
está presente em cada pessoa”, diz a psicóloga Beatriz Machado, da USP, que pesquisa
as obras do mestre sufi Ibn ‘Arabî. Para os estudiosos da Cabala, a mística judaica,
Abraão também apresenta aspectos simbólicos. “Ele está relacionado à expansão de
fronteiras, à superação das próprias limitações e ao princípio de que tudo está
relacionado com tudo”, afirma Roberto Natan, professor de meditação cabalística na
Academia de Cabala Rav Meir, no Rio de Janeiro.

A unidade é um tema recorrente quando o assunto é Abraão. Primeiro, porque ele é


considerado pai espiritual das três grandes tradições monoteístas. Depois, por deter, de
acordo com o relato bíblico, a paternidade biológica de judeus, por meio do filho Isaac,
e de árabes, pela linhagem do primogênito Ismael. A ciência vem agora corroborar essa
tese. Uma pesquisa, realizada em conjunto por cientistas de cinco países, entre eles
Estados Unidos e Israel, mostrou que palestinos, sírios, libaneses e judeus têm forte
parentesco genético entre si. O estudo, que comparou o DNA de 1 300 homens árabes e
judeus de 30 países, revelou também que esses povos possuem um ancestral comum,
possivelmente os semitas ocidentais, que teriam habitado o Oriente Médio há pelo
menos 4 mil anos. Seriam todos eles descendentes do mesmo patriarca?

Enquanto os cientistas ainda não têm a resposta para tal pergunta, judeus, cristãos e
muçulmanos continuam a buscar cada qual o “seu” próprio Abraão. Em cada crença, um
aspecto do patriarca é ressaltado. “Abraão pode ser comparado a um moderno meio de
comunicação que apresenta diferentes mensagens, de acordo com os paradigmas de
cada religião e cultura”, afirma Reuven Firestone, especialista em judaísmo e Islã do
Hebrew Union College, nos Estados Unidos. “Mas ele pode ser também a ponte entre as
três tradições. Afinal, Abraão é um legado de todos.” Firestone lembra o capítulo 18 do
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Gênesis. O patriarca está diante de sua tenda, descansando, quando percebe a chegada
de três homens. Hospitaleiro, recebe-os com distinção. Não pergunta quem são nem se
têm dinheiro. Simplesmente lhes oferece pão, leite, manteiga e um novilho preparado na
hora. “Eis uma herança de Abraão: o exemplo de acolhida e hospitalidade”, diz
Firestone. Que todos os filhos sejam bem-vindos na grande tenda do patriarca.

Mulheres de Abraão

O que seria de Abraão se não fossem Sara, a esposa, e Agar, a escrava? Figuras
fundamentais na saga do patriarca, elas protagonizam alguns dos mais importantes
capítulos do Gênesis. “O que movimenta o texto bíblico e as promessas são os filhos”,
diz a pastora metodista Nancy Cardoso Pereira, teóloga especialista em Bíblia Hebraica.
As memórias femininas, no entanto, são contidas pela tradição patriarcal. Abraão mente
a respeito de Sara, dizendo que ela é sua irmã, em duas versões da mesma história. Quer
salvar a própria pele. Muito bonita, Sara chama a atenção do faraó e, em outra ocasião,
do rei Abimelec, que a tomam como concubina. Deus, porém, os castiga. Eles
descobrem a farsa e repreendem Abraão. Sara não diz uma palavra - não argumenta nem
lamenta.

As duas mulheres se confrontam quando o assunto é o primogênito de Abraão.


Seguindo um costume comum no período patriarcal, a estéril Sara cede uma das servas
ao marido para que a descendência se garanta. Agar engravida e, segundo o relato
bíblico, passa a esnobar a sua senhora. Por causa disso, Sara se ressente e castiga a
escrava, expulsando-a do clã. Agar foge, então, para o deserto. Num dos mais belos
trechos do Gênesis, Deus surge a Agar próximo a um poço, no meio do deserto, e pede
que ela volte para casa. (O “Deus do poço” é uma imagem bastante recorrente na
religiosidade do período patriarcal.) Também a ela Deus promete: “Multiplicarei tua
descendência de tal forma e será tão numerosa que não se poderá contar”. Isso
acontecerá por meio de Ismael, filho que ela carrega no ventre. Agradecida, Agar
nomeia o Deus que conversou com ela de El-roí, o “Deus que me vê”.

“É possível que a esterilidade de Sara e de outras mulheres do período esteja


relacionada a uma tradição mesopotâmica das sacerdotisas, que não engravidavam para
se dedicar ao culto da divindade”, diz Nancy. “Para contar essa história, não mais no
contexto da autonomia religiosa daquelas mulheres, o registro narrativo as apresenta
como estéreis.”

Filhos de Abraão

Segundo o Gênesis, Ismael, o filho de Agar e Abraão, deu origem aos povos árabes. O
profeta Mohammad, ou Maomé, teria vindo dessa linhagem. Para os muçulmanos, o
itinerário de Abraão vai além das terras de Canaã e do Egito. “Abraão passou pela
Palestina, pela Arábia Saudita e por Meca, onde teve de deixar sua segunda esposa,
Agar, e Ismael”, afirma o xeque Ali Abdune. “Segundo as escrituras sagradas, separar-se
do filho primogênito foi um teste que Abraão teve de passar.”
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Agar foi expulsa duas vezes por Sara - a segunda vez por um motivo que o texto bíblico
não esclarece direito. Diz o Gênesis que Ismael brincava com o irmão Isaac. Sara, ao
ver a cena, temeu pela herança do seu próprio filho e pediu a Abraão que expulsasse a
escrava e Ismael (que aparece no texto ora como um adolescente, ora como uma
criança). Ambos foram parar no deserto. A água acabou e Agar, desesperada, começou a
chorar. Deus, então, apareceu e disse: “Não temas, pois Deus ouviu os gritos do menino
do lugar onde ele está. Ergue-te! Levanta a criança, segura-a firmemente porque eu farei
dela uma grande nação”.

Para o mundo judaico-cristão, o filho da promessa de descendência numerosa é Isaac.


Foi ele que Abraão quase sacrificou na colina de Moriá, local que a tradição encarregou-
se de associar ao monte em que se edificou o Templo de Jerusalém. De Isaac, o segundo
patriarca, se originou o povo de Israel. Para o Islã, porém, Deus testa de maneira
semelhante a fé de Abraão, mas o nome do filho e o lugar não são mencionados. Numa
passagem do Alcorão, o patriarca diz: “Ó filho meu, sonhei que te oferecia em
sacrifício”. Quando Abraão demonstra que vai se submeter à ordem divina, outro filho
lhe é prometido, Isaac. Por isso, a maioria dos muçulmanos acredita que Ismael foi o
menino quase oferecido em holocausto.